EVERETT FERGUSON
Dos dias de Cristo à Pré-Reforma
A ascensão e o crescimento da Igreja em
seus contextos cultural, intelectual e político
EVERETT FERGUSOM
HISTORIA
igreja
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De Cristo a Pré-Reforma
Origem e crescimento da Igreja no
contexto cultural, intelectual e político
CENTRAL
GOSPEL
DIRETORA EXECUTIVA Published by arrangement with The Zondervan Corporation L.L.C,
Elba Alencar a division of HarperCoIlins Christian Publishing, Inc.
Publicado por acordo com The Zondervan Corporation L.L.C, uma
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Gilmar Chaves Copyright © 2017 em português por Editora Central Gospel
GERÊNCIA DE Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
PROJETOS ESPECIAIS
Jefferson Magno Costa Autor: FERGUSON, Everett
Título original: Church History Volume 1: From Christ to the
COORDENAÇÃO Pre-Reformation
EDITORIAL Título em português: História da Igreja: dos dias de Cristo à
Michelle Candida Caetano Pré-Reforma - Volume 1
Rio de Janeiro: 2017
COORDENAÇÃO 640 páginas
DE COMUNICAÇÃO ISBN: 978-85-7689-549-7
E DESIGN 1. Bíblia - História eclesiástica I. Título II.
Regina Coeli
TRADUÇÃO Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou
Elias Silva parcial do texto deste livro por quaisquer meios (mecânicos,
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Gustavo Conde
Lucas Heiderick As citações bíblicas utilizadas neste livro foram extraídas da
Versão Almeida Revista e Corrigida (ARC), salvo indicação
REVISÃO específica, e visam incentivar a leitura das Sagradas Escrituras.
Maria José Marinho
Este livro está de acordo com as mudanças propostas pelo novo
Acordo Ortográfico, em vigor desde janeiro de 2009..
CAPA, PROJETO GRÁFICO 1a edição: Abril/2017
E DIAGRAMAÇÃO
Eduardo Souza
IMPRESSÃO E Editora Central Gospel Ltda
ACABAMENTO
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Cep: 22.713-001
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www.editoracentralgospel.com
Sobre o autor
Everett Ferguson (Ph.D. pela Harvard) é professor emérito de
Bíblia e ilustre professor residente na Abilene Christian University,
em Abilene, Texas, onde lecionou H istória da Igreja e Grego. Ele é
autor de numerosas obras, incluindo: Backgrounds ofE arly Christi-
anity, Early Christians Speak e Inheriting Wisdom: Readingsfo r To
dayfrom Ancient Christian Writers. Além disso, editou a Encyclope-
dia ofE arly Christianity, em dois volumes.
Aos alunos que utilizarão este livro.
eles possam aventurar-se pela vida da Igreja ao prolongar
sua história pelos dias que virão.
Sumário
Prefácio................................................................................................... 19
1 . O cenário no início da história........................................................2 1
I. O mundo romano......................................................................21
II. O mundo grego..........................................................................23
III. O mundo judaico.......................................................................25
Leitura complementar.................................................................. 27
2. Jesus e os prim órdios da Igreja....................................................... 28
I. O ministério de Jesus.................................................................28
'l i . A igreja em Jerusalém e Tiago..................................................... 30
III. A igreja em Antioquia.................................................................. 33
IV. Paulo............................................................................................. 33
V. A igreja em Roma e Pedro......................................................... 35
VI. A igreja em Éfeso e João............................................................ 38
VII. A igreja na Síria e Tomé............................................................. 40
VIII. A vida da Igreja na era apostólica...............................................41
Leitura complementar..................................................................44
3. Era subapostólica.............................................................................. 45
I. Vertentes do cristianismo judaico............................................ 46
A. Ebionitas................................................................................. 47
B. Nazarenos................................................................................ 48
C. Elcasaítas................................................................................. 48
D. Outras influências judaicas.................................................... 48
II. Literatura e problemas do cristianismo gentílico..................... 49
A. Pais Apostólicos.......................................................................50
B. Literatura apócrifa...................................................................60
C. Outros escritos........................................................................ 63
D. Limitações e valor da literatura.............................................. 64
Leitura complementar.................................................................. 65
8 HISTÓRIA DA IGREJA
4. A Igreja e o Império..........................................................................66
I. Posturas concernentes aos cristãos.............................................. 66
A. Posturas dos primeiros imperadores.......................................66
B. Posturas de pagãos para com os cristãos................................. 69
II. Base legal das perseguições..........................................................72
III. Apologistas cristãos do segundo século......................................76
A. Escritos...................................................................................76
B. Justino Mártir como apologista representativo.....................78
C. A doutrina do Logos............................................................... 81
D. Resumo dos apologistas.......................................................... 84
IV. Mártires do segundo século......................................................... 86
A. Literatura do martírio.............................................................86
B. Temas do martírio................................................................... 90
Leitura complementar.................................................................. 93
5. Heresias e cismas no segundo século.............................................. 94
I. Marcião.........................................................................................94
II. Gnosticismo................................................................................. 98
A. Fontes de estudo......................................................................99
B. Questão das origens.............................................................. 100
C. Componentes do gnosticismo.............................................. 102
D. Características comuns dos mitos gnósticos........................103
E. Principais mestres.................................................................. 104
F. Amostra de mito gnóstico sobre criação e salvação.............. 108
G. Erros doutrinários e a relevância do gnosticismo.................110
H. Lições da luta contra o gnosticismo..................................... 111
III. Montanismo...............................................................................117
IV. Encratismo................................................................................. 115
V. A heresia precedeu a ortodoxia?............................................. 116
Leitura complementar................................................................ 117
6. Defesa contra interpretações rivais.............................................. 118
I. Monepiscopado e sucessão apostólica.....................................119
II. Regra de fé e Credo Apostólico................................................. 123
III. Cânon bíblico.............................................................................176
SUMÁRIO 9
A. Canon do Antigo Testamento.............................................. 127
B. Canon do Novo Testamento................................................129
C. Critérios de canonicidade.....................................................136
D. Reflexões teológicas...............................................................138
Leitura complementar..................................................................139
7. Pais da antiga Igreja Católica e seus problem as.......................... 140
I. Primórdios e desenvolvimento inicial da teologia cristã........... 140
A. Irineu..................................................................................... 141
B. Tertuliano e a Igreja ao norte da África................................144
C. Igreja em Alexandria e Clemente de Alexandria................ 147
D. Orígenes em Alexandria e Cesareia...................................... 152
E. Hipólito e Calisto em Roma................................................. 157
II. Ascensão da igreja em Roma à preeminência..........................160
III. Problemas enfrentados pelos antigos Pais Católicos.............. 162
A. Controvérsia pascal.............................................................. 162
B. Patripassianismo....................................................................164
C. Perseguição............................................................................ 168
D. Penitência e política..............................................................169
Leitura complementar................................................................ 171
8. Vida da Igreja no segundo e terceiro séculos...............................172
I. Iniciação cristã..........................................................................172
II. Assembléias cristãs...................... 176
III. Vida cristã................................................................................... 178
IV. Mulheres cristãs......................................................................... 181
V. Esperança cristã........................................................................182
Leitura complementar................................................................ 184
9. Desenvolvimento da Igreja durante o terceiro século............... 185
I. Perseguições............................................................................. 185
A. Fases principais......................................................................185
B. Perseguições deciana e valeriana........................................... 186
C. Culto aos mártires................................................................. 187
II. Cipriano e cisma........................................................................ 189
III. Primórdios da arte e arquitetura cristãs.................................. 195
1 0 HISTÓRIA DA IGREJA
IV. Novo desafio: maniqueísmo.................................................... 198
V. Igreja ao fim do terceiro século............................................... 198
A. Ordem eclesiástica: Didascália............................................. 199
B. Teologia: os dois Dionísios................................................... 200
C. Missões: Gregório Taumaturgo........................................... 201
D. Literatura: Metódio, Lactâncio........................................... 201
VI. Por que o cristianismo prosperou?..........................................203
Leitura complementar................................................................204
10. Diocleciano e Constantino: no limiar do quarto século......... 205
I. Perseguição no governo de Diocleciano.................................205
A. Reorganização do império................................................... 205
B. O curso da perseguição..........................................................207
II. Constantino, o Grande...........................................................209
A. Interpretação.........................................................................209
B. Conversão e favor aos cristãos.............................................. 211
C. A nova situação das relações entre a Igreja e o Estado........ 215
D. Eusébio de Cesareia: historiador do imperador................. 217
III. Cisma donatista............................ 218
IV. Ário e o Concilio de Niceia.......................................................222
A. Contexto da controvérsia ariana.......................................... 222
B. Episódios que levaram a Niceia............................................ 224
C. Concilio de Niceia, 325........................................................225
D. Importância de Niceia..........................................................229
Leitura complementar................................................................ 231
11. A Igreja no quarto século: doutrina, organização e literatura ....232
I. A controvérsia ariana depois de Niceia.................................. 232
A. De 325 a 361......................................................................... 232
B. Atanásio................................................................................. 238
C. De 361 a 381.........................................................................241
D. O Concilio de Constantinopla, 381.................................... 244
II. Organização da Igreja............................................................. 246
III. Os Pais da Igreja nicena e pós-nicena..................................... 249
A. Basílio, o Grande de Cesareia............................................ 250
SUMÁRIO 11
B. Gregório de Nazianzo........................................................... 251
C. Gregório de Nissa.................................................................253
D. João Crisóstomo................................................................... 255
E. Efrém da Síria........................................................................ 257
F. Ambrósio...............................................................................258
G. Rufino....................................................................................261
H. Jerônimo............................................................................... 261
IV. A importância da Bíblia..........................................................264
Leitura complementar................................................................ 265
12. Monasticismo, expansão, vida e culto: a Igreja no quarto século..266
I. Monasticismo.......................................................................... 266
A. Origens.................................................................................. 266
B. Temas do monasticismo........................................................270
C. Primeiros líderes................................................................... 273
II. Expansão missionária no quarto e quinto séculos................ 275
A. Síria....................................................................................... 275
B. Pérsia..................................................................................... 276
C. Armênia................................................................................ 277
D. Geórgia................................................................................. 278
E. Etiópia....................................................................................279
III. Vida cristã e sociedade............................................................... 279
A. Apoio imperial do cristianismo............................................ 281
B. Influência cristã no mundo rom ano.....................................282
C. Fatores negativos do final do império.................................. 284
D. Práticas piedosas....................................................................285
IV. Adoração....................................................................................287
A. Liturgias do batismo e da santa ceia.....................................288
B. Sacramentos...........................................................................290
C. Calendário da Igreja............................................................. 296
D. Basílicas e arte....................................................................... 297
Leitura complementar................................................................ 298
13. Controvérsias cristológicas até Calcedônia (451)....................299
I. Panorama dos quatro primeiros concílios ecumênicos.......... 299
II. Rivalidades entre Alexandria e Antioquia..............................300
12 HISTÓRIA DA IGREJA
III. Fase preliminar, 362-381: apolinarismo.................................. 302
IV. Segunda fase, 381-433: nestorianismo..................................... 303
V. Concilio de Éfeso (431) e suas consequências.......................307
VI. Terceira fase, 433-451: eutiquianismo.................................. 309
VII. Concilio de Calcedônia, 451................................................. 310
A. Dogmático........................................................................... 311
B. Conciliar............................................................................... 312
C. Monástico............................................................................ 313
D. Constitucional..................................................................... 313
Leitura complementar.............................................................. 314
14. Agostinho, Pelágio e semipelagianismo................................... 315
I. Agostinho...............................................................................315
A. Vida (354-430).....................................................................315
B. Obras.....................................................................................320
C. Controvérsia com donatistas............................................... 323
D. Controvérsia com pelagianos.............................................. 325
II. Pelágio e Celéstio................................................................... 329
III. Semipelagianismo.................................................................. 333
Leitura complementar.............................................................. 337
15. Transições à Idade Média: migrações germânicas, desenvolvimentos
doutrinários e papado......................... ...........................................338
I. Quando a Idade Média começou?........................................ 339
II. Migração das nações no ocidente.......................................... 341
III. Missões cristãs entre os godos.................................................. 342
IV. Movimentos de povos específicos............................................344
A. Vândalos e o norte da África............................................... 344
B. Visigodos (godos do ocidente) e a Espanha........................ 345
C. Suevos...................................................................................346
D. Burgúndios.......................................................................... 346
E. Francos..................................................................................347
F. Ostrogodos e a Itália.............................................................348
G. Lombardos e a Itália............................................................ 351
V. Efeitos das invasões bárbaras...................................................351
A. Reação literária cristã às invasões...................................... 351
SUMARIO 13
B. Efeitos na sociedade.............................................................. 352
C. Efeitos nas igrejas..................................................................353
VI. Estágios posteriores da controvérsia entre Agostinho e Pelágio....354
VII. Desenvolvimento do papado: quarto e quinto séculos............356
A. Quarto e quinto séculos antes de Leão Magno................... 356
B. Leão Magno e Gelásio..........................................................358
Leitura complementar................................................................ 360
16. Igrejas orientais e ocidentais no quinto e sexto séculos...........361
I. Desenvolvimentos teológicos no oriente antes de Justiniano .. 361
II. Era de Justiniano (527-565) no oriente..................................367
A. Conquistas militares e civis.................................................. 367
B. Regime religioso e político................................................... 368
C. Cultura cristã no período de Justiniano...............................371
III. Bento de Núrsia, o “patriarca do monasticismo ocidental” .....375
IV. Gregório, o Grande, o primeiro papa monacal......................... 377
V. Desenvolvimento da liturgia...................................................381
VI. Diferenças entre igrejas orientais e ocidentais........................385
Leitura complementar................................................................ 387
17. Igrejas orientais do sétimo século ao século 11........................ 388
I. O período de Heráclio e a controvérsia monotelita...............389
II. Paulicianos...............................................................................393
III. O impacto do Islamismo........................................................... 395
A. Maomé e sua base cristã........................................................395
B. Expansão muçulmana............................................................ 396
C. A resposta cristã ao Islamismo...............................................398
IV. Controvérsia iconoclasta........................................................... 399
V. O cisma fociano...................................................................... 406
VI. O florescimento da igreja bizantina medieval........................408
VII. Expansão missionária............................................................. 413
VIII. A Igreja copta..........................................................................418
Leitura complementar................................................................419
18. Igreja ocidental do sétimo ao nono século................................420
I. Cristianismo celta e anglo-saxônico.......................................420
14 HISTÓRIA DA IGREJA
A. Início da história do cristianismo na Grã-Bretanha e Irlanda... 420
B. Missão de Agostinho na Inglaterra......................................423
C. Evolução na Nortúmbria..................................................... 425
II. Missões anglo-saxônicas no continente................................. 429
A. Estratégia.............................................................................. 430
B. Vilibrordo (658-739)............................................................ 430
C. Vinfrido (673-754)...............................................................431
III. Era de Carlos Magno no ocidente.............................................433
A. Antecessores de Carlos Magno: Pepino e o papado...........433
B. Expansão militar e missionária no governo de Carlos Magno
(768-814).............................................................................. 436
C. Prática eclesiástica e organizacional no governo de Carlos
M agno.................................................................................. 438
D. Criação de escolas e renascimento intelectual......................443
E. Desenvolvimentos teológicos e controvérsias...................... 446
F. Coroação de Carlos Magno como imperador...................... 447
IV. Cultura carolíngia posterior e seus problemas..........................449
A. Contexto político................................................................. 449
B. Decretos de Pseudoisidoro................................................... 451
C. Papa Nicolau I, o Grande (858-867)................................... 452
D. Controvérsia eucarística.......................................................453
E. Gottschalk e a predestinação................................................ 454
F. Rábano Mauro eJoão Escoto Erígena...................................455
V. Resumo..................................................................................... 455
Leitura complementar................................................................457
19. Declínio e renovação da vitalidade no Ocidente: do nono século
ao início do século 1 1 ..........................................................................459
I. A idade das “trevas”.................................................................459
A. Invasores da Escandinávia.................................................... 460
B. O declínio do papado........................................................... 461
C. Contra-ataque missionário.................................................. 462
II. Renascimento monástico: Cluny...........................................465
A. Proteção e autonomia........................................................... 465
B. Características de Cluny........................................................465
C. A influência de Cluny.......................................................... 467
SUMÁRIO 15
D. Desdobramentos relacionados...........................................471
III. Renascimento imperial.............................................................. 471
IV. Renascimento papal.................................................................. 475
V. Cisma entre ocidente e oriente (1054)................................... 477
Leitura complementar................................................................481
20. O movimento de Reforma Papal e a Primeira Cruzada............482
I. O papado e Gregório VII........................................................ 483
II. Controvérsia da Investidura....................................................486
A. Contexto do conflito............................................................ 487
B. Conflito entre Gregório VII e Henrique IV ........................ 490
C. Resolução.............................................................................. 493
III. Sacramento da penitência......................................................... 494
IV. Primeira Cruzada....................................................................... 495
A. Aplicação do conceito de Guerra Santa aos cristãos............495
B. Discurso da Cruzada - Papa Urbano II (1088— 1099)......499
C. Cruzados e combates............................................................ 502
D. Aspecto teológico da reunião...............................................503
E. Resultados da Cruzada..........................................................504
Leitura complementar................................................................ 508
21. Renovação intelectual: surgimento da Escolástica.................. 509
I. Aspectos da Escolástica...........................................................511
II. Segunda controvérsia eucarística............................................ 515
III. Implicações teológicas da controvérsia aos universais...............518
IV. Anselmo de Cantuária (1033-1109).........................................519
V. Pedro Abelardo (1079-1142).................................................. 526
VI. História posterior da Escolástica............................................ 531
Leitura complementar................................................................ 531
22. Atividades monásticas, literárias, políticas e culturais no século 12...532
I. Novos tipos de ordens monásticas............................................ 533
A. Vitalidade monástica renovada............................................ 533
B. Cistercienses..........................................................................535
II. Bernardo de Claraval (1090-1153)......................................... 537
III. Outros importantes pensadores do século 12.........................540
16 HISTÓRIA DA IGREJA
A. Hugo de São Vitor (m. 1142).............................................. 541
B. Otão de Freising (c. 1114-1158)......................................... 543
C. João Graciano (m. c. 1160)..................................................544
D. João de Salisbury (c. 1115-1180).........................................545
E. Pedro Lombardo (c. 1100-1160)......................................... 546
F. Hildegarda de Bingen (1098-1179)......................................548
G. Pensadores não cristãos.........................................................548
IV. A Igreja e as artes........................................................................ 549
A. Arquitetura românica............................................................549
B. Escultura e pintura................................................................ 551
C. Poesia e música..................................................................... 554
V. Atos de piedade....................................................................... 555
VI. A Igreja e o Estado no século 12............................................. 558
VII. A vida institucional da Igreja..................................................561
V III. Alguns desenvolvimentos nas igrejas orientais.......................562
IX. Resumo.................................................................................... 563
Leitura complementar................................................................ 563
23. Glória da Igreja medieval ocidental: século 13......................565
I. Inocêncio III (1198-1216)........................................................565
A. Visualização do papado........................................................ 566
B. Relação com o império e Frederico II.................................. 568
C. Relação com a Inglaterra....................................................... 569
D. Quarta Cruzada....................................................................570
E. Quarto Concilio de Latrão................................................... 571
II. Ordens religiosas mendicantes..................................................572
A. Domingos (c. 1170-1221) e os dominicanos.......................573
B. Francisco de Assis (1182-1226) e os franciscanos............... 574
C. Novas caraterísticas das ordens mendicantes.......................578
III. Organização das universidades..................................................580
IV. Tomás de Aquino (1225-1274).................................................584
V. Alternativas franciscanas a Tomás de A quino..........................591
VI. Piedade popular.......................................................................595
VII. Arquitetura e arte góticas....................................................... 595
V III. Resumo....................................................................................601
Leitura complementar................................................................602
SUMÁRIO 17
24. Presságios de declínio............................................................... 603
I. Ultima dissidência medieval: o problema da divisão.............. 603
A. Antigos mestres hereges....................................................... 604
B. Movimentos a favor da pobreza e penitência.......................605
C. Valdenses...............................................................................607
D. Cátaros ou albigenses.......................................................... 609
E. Cruzada e Inquisição............................................................610
F. Erro filosófico....................................................................... 612
II. Espiritualidade feminina: o problema da abrangência........... 612
III. Judeus: um problema de tolerância.......................................... 615
IV. Concilio de Lyon (1274): o problema das relações com o oriente.616
A. Personalidades da época.......................................................616
B. Procedimentos do concilio.................................................. 618
C. Consequências do concilio................................................. 619
V. Cristianismo nas fronteiras: problemas das missões..............620
VI. Culto e pastorado: um problema na vida religiosa................623
VII. Escatologia e fanatismo: um problema de esperança............624
VIII. Bonifácio VIII (1294-1303): o problema das monarquias nacionais...626
A. Antecessor de Bonifácio, Celestino V ................................ 627
B. Bonifácio VIII (1294-1303): “O orgulho precede a queda”.......628
C. Consequências..................................................................... 630
IX. Resumo................................................................................... 630
Leitura complementar............................................................... 631
Bibliografia geral....................................................................... 638
Obras de referência................................................................... 638
Outras obras 639
Prefácio
PERSPECTIVAS SOBRE A HISTÓRIA DA IGREJA
História da Igreja é o estudo da história do povo de Deus em
Cristo - uma afirmação teológica - ou, de modo mais neutro, daque
les que quiseram fazer parte do povo de Deus em Cristo. Esse é um
povo misto, e, logo, a história também é mista. Isso, naturalmente,
não causa surpresa. Tal como o registro bíblico do povo de Deus con
siste na história de um povo misto, com grandes atos de fé e grandes
fracassos causados por pecado e infidelidade, também é assim a histó
ria daqueles que fizeram parte da Igreja ao longo dos séculos.
O aluno contemporâneo pode encontrar graus relativos de fide
lidade e infidelidade em todas as áreas da vida da Igreja: doutrina,
culto público, oração e devoção, evangelismo e missões, qualidade da
comunhão/assistência e vida cristã (moralidade e benevolência).
O estudo da história da Igreja pode ajudá-lo a emitir juízo sobre o
que e percebido como infidelidade, em qualquer área, e a compreen
dê-lo, com empatia e humildade, para aprender com os erros do pas
sado. Além disso, pode ensiná-lo a regozijar-se diante das expressões
de fidelidade com gratidão e desejo de imitá-las.
A história exige necessariamente certa atenção a nomes, eventos
externos e sequências de acontecimentos, mas o aluno deve olhar
para além dessas coisas; deve olhar para a vida religiosa dos envolvi
dos, a fim de compreender a perspectiva de que esta é uma história
sobre pessoas.
Aqueles que alegam não gostar de história, por lógica, também
não deveríam gostar de pessoas. N o entanto, o que tais indivíduos
2 0 HISTÓRIA DA IGREJA
realmente querem dizer é que eles não gostam das circunstâncias ex
ternas, do contexto das informações. Embora tais detalhes sejam ne
cessários à narrativa, a história propriamente dita consiste nas pessoas
envolvidas. E, nesse caso, as pessoas eram m uito humanas, a despeito
da afirmação teológica de que faziam parte de um povo redimido.
O autor escreve a partir da perspectiva de que a história da Igre
ja é a história da maior comunidade que o mundo já conheceu e do
maior movimento mundial. Trata-se da história humana de um povo
divinamente chamado, o qual desejou viver por uma revelação divina
e lutou com o significado do maior acontecimento historico: a vinda
do Filho de Deus.
Com o herdeiro da história ocidental da Igreja, o autor necessa
riamente dá mais atenção ao cristianismo no ocidente. Contudo, por
estar comprometido com a totalidade da história cristã, procurou
dar a devida atenção a outras expressões do cristianismo. Portanto,
embora o principal fio narrativo no período abrangido seja a Euro
pa ocidental, especialmente as Ilhas Britânicas, o contexto global e
ecumênico do século 21 exigiu que se abordasse a África, a Europa
oriental e a Ásia.
Nada é mais relevante à compreensão do momento presente do
que as experiências passadas daqueles que procuraram seguir Jesus
Cristo. Motivado pela convicção de que a maneira adequada de se
abordar problemas contemporâneos é pelo vies da história, o autor
deste livro espera oferecer aos seus leitores uma consciência histórica.
Peço, portanto, que se pense preferencialmente na intenção
do autor, e não em sua obra, no sentido das palavras, e não no
discurso bruto, na verdade, e não na beleza, no exercício das
afeições, e não na erudição do intelecto.
Boaventura, lh e M in d s Road to God, Prologo 5.1.
0 cenário no início da história
Três círculos concêntricos de influência abrangiam o mundo
no qual o cristianismo surgiu. De fora para dentro, essas influências
eram: a romana, a grega e a judaica. Já o padrão de crescimento da
Igreja primitiva era o inverso: o m undo judeu, o m undo grego e o
mundo romano. Ao contrário da imagem matemática, entretanto, es
ses mundos não eram nitidam ente diferenciados entre si, sendo suas
fronteiras bem sutis.
Todavia, a classificação das influências é pro-
veitosa à compreensão do cenário no qual a Igreja ° en*tu e
primitiva surgiu. Além disso, tais influências con- °S *emP os’
tinuaram sendo formativas durante grande parte enviou seu F i o,
da história cristã subsequente. naSCÍd° de m ulher>
nascido sob a lei
I. O MUNDO ROMANO (G14.4).
Lucas situa a história de Jesus e da Igreja primitiva nitidamente
dentro da história romana. Ele indica que o nascimento de Cristo
deu-se no governo do imperador Augusto, mostra que o ministério
22 HISTÓRIA DA IGREJA
dele foi exercido durante o governo de Tibério e menciona gover
nantes romanos e outros oficiais com quem Jesus e, posteriormente,
Paulo se encontraram (Lc 2.1,2; 3.1; At 13.7; 18.12; 24.27). Roma
forneceu o contexto governamental, militar e jurídico ao cristianis
mo primitivo.
Por ocasião do nascimento de Jesus, Roma havia recentemente
concluído sua transição de república para principado imperial no
governo de Augusto (27 a.C. — 14 d.C.). Pouco tempo antes, em
63 a.C., o general romano Pompeu havia conquistado a Palestina, e,
depois disso, Roma dominara a pátria judaica. Ela alternou diversos
esquemas administrativos, por meio dos quais exercia sua vontade:
legados com base na Síria; reis subordinados, como Herodes, o Gran
de, em cujo governo Jesus nasceu; e governadores como Pôncio Pila-
tos, em cujo governo Jesus foi crucificado.
A organização do império parece ter fornecido um padrão para o
futuro desenvolvimento da hierarquia eclesiástica, e os procedimen
tos no senado em Roma, bem como nos conselhos municipais, in
fluenciaram a conduta dos sínodos da Igreja.
O exército - formado por legiões
(cidadãos romanos) e tropas auxiliares
(nativos) - marcava presença cons
tante nas fronteiras e nas províncias
onde tumultos eram frequentes. As
tarefas dos soldados em épocas de paz
incluíam a construção de estradas e a
garantia da segurança nas viagens. Os
viajantes cristãos, para fins ora comer
ciais ora religiosos, utilizavam essas
estradas e levavam a mensagem cristã
consigo.
A legislação é um dos legados du
radouros de Roma ao mundo ociden
tal. Quando os cristãos eram acusados,
quem dava a palavra final eram os ma
gistrados e as leis romanas. O culto
ImperadorTibério, dePesto imperial (honras divinas dadas ao im-
O CENÁRIO NO INICIO DA HISTÓRIA 23
perador e à sua família), muitas vezes Imperador Augusto retratado como deus
aliado aos cultos cívicos locais, atuava
como um abrangente fator de unifica
ção religioso que fomentava a unidade
e a fidelidade política. As cerimônias
da corte imperial, inspiradas em anti
gos monarcas orientais, continuaram
posteriormente durante o governo de
imperadores cristãos.
O latim era não somente a língua
oficial do governo, mas também pas
sou a ser a língua comum das provín
cias ocidentais. A partir do segundo
século, o cristianismo nessas regiões
transmitia sua mensagem em latim.
II. O MUNDO GREGO
As influências gregas predominavam na língua, na educação, na
literatura e na filosofia durante o início do cristianismo. Para os primei
ros discípulos, a língua e a cultura gregas eram mais importantes que o
latim, e isso perdurou na região mediterrânea oriental ao longo do Im
pério Bizantino (muito embora o latim tenha permanecido como lín
gua oficial do governo por séculos). Desde as conquistas de Alexandre,
o Grande, no quarto século a.C., a língua, a moeda, a cultura, a filosofia
e a religião gregas haviam permeado as regiões da Grécia ao redor da
costa oriental do Mediterrâneo até a Líbia. A educação era baseada em
Homero e nos clássicos gregos.
As influências culturais gregas eram sentidas em Roma e nas re
giões a oeste, mesmo entre aqueles que não falavam grego. O grego
aparentemente foi a língua da igreja em Roma até meados do terceiro
século. Ao que tudo indica, escritores cristãos empregaram o idioma
grego com exclusividade ate o fim do segundo século, em cuja época
foram descobertas algumas obras em latim e siríaco. A retórica gre
ga (e, depois, latina) forneceu os padrões para a redação de cartas, a
construção de discursos e a apresentação de argumentos.
2 4 HISTÓRIA DA IGREJA
No período helenístico, os grandes sistemas filosóficos de Platão
e Aristóteles haviam sido substituídos, em grande parte, por filosofias
mais direcionadas a interesses práticos e morais, especialmente o es-
toicismo e o epicurismo. Contudo, o
interesse por Aristóteles e, sobretudo,
Platão foi despertado novamente nos
primeiros séculos do cristianismo. No
desenvolvimento da teologia cristã, a
partir das afirmações do evangelho e
das instruções morais e doutrinárias
iniciais, a filosofia grega forneceu o
vocabulário, os pressupostos éticos, os
conceitos e as opções intelectuais com
os quais os pensadores cristãos traba
lhavam.
Os tradicionais cultos cívicos con
tinuaram sendo importantes centros
de orgulho local, e as práticas religio
Platão, filósofo grego antigo sas consagradas continuaram sendo
alimentadas pelo currículo educacio
nal centrado em Homero. Iniciações
em religiões de mistério, visitas a oráculos e santuários de cura, acei
tação do destino, crença em astrologia e prática de magia ganharam
força redobrada durante os dois primeiros séculos da era cristã.
A vida social era dirigida por uma combinação de normas le
gais romanas e regras sociais gregas. Dessa maneira, em questões
variadas — como costumes em jantares, casamentos e funerais —,
os cristãos viviam segundo o sistema comportamental existente. As
leis de casamento e herança, bem como as distinções estabelecidas
de classes sociais, forneciam o contexto para a vida familiar e as re
lações sociais.
A mentalidade preexistente moldava as atitudes religiosas. Os
costumes funerários continuaram a ser observados pelos cristãos, mas
agora dentro de um novo quadro de referência. Muitas características
da religião greco-romana foram incorporadas ao cristianismo confor
me o evangelho difundia-se pela população pagã.
O CENÁRIO NO INlCIO DA HISTÓRIA 25
III. O MUNDO JUDAICO
Jesus nasceu de pais judeus — Filho de D avi, Filho de Abraão (M t
1.1) —, e todos os Seus primeiros discípulos eram judeus. Ele nasceu
em Belém e cresceu em Nazaré. A maior parte de Seu ministério deu-
-se na Galileia, e Sua crucificação aconteceu em Jerusalém — todos
estes são locais situados no atual país de Israel e em territórios pales
tinos adjacentes.
Esse era um m undo judaico que, assim como o restante do O rien
te Próximo, havia sentido a influência da cultura helenística e, no
primeiro século, a sobreposição do governo romano. Uma grande
população judaica permaneceu na Mesopotâmia desde a época do
cativeiro babilônico (sexto século a.C.), e muitos judeus viveram na
diáspora ocidental, onde as influências culturais gregas (e, mais ao
ocidente, romanas) eram ainda mais fortes do que em sua terra natal.
Após as conquistas de Alexandre, o Grande, os judeus na Pa
lestina viveram sob o governo dos ptolomeus (Egito) e, depois, dos
selêucidas (Síria). Uma revolta religiosa e nacionalista, inicialmente
liderada por Judas Macabeu, deu início a um século de independên
cia sob a dinastia asmoniana (164— 163 a.C.), o que continuou a es
timular as aspirações religiosas e políticas dos judeus após o domínio
romano de sua pátria.
Três revoltas malsucedidas (a de 66—73 d.C., suprimida por
Vespasiano e Tito, que resultou na destruição do templo; a de 115—
117, nas comunidades da diáspora ao nordeste da África e Chipre; e
a de 132— 135, denominada Bar Kokhba, no governo de Adriano)
minaram as perspectivas judaicas de uma pátria independente até os
tempos modernos. Ao final dessas revoltas, o movimento primitivo
cristão já avançava.
Durante o ministério de Jesus na Galileia, Sua principal oposição
religiosa veio dos fariseus por causa da interpretação da lei de Moisés
em relação às questões da vida cotidiana. Em Jerusalém, a oposição
veio dos saduceus, principais sacerdotes e aristocratas que controla
vam o templo e assuntos a ele relacionados. Os Manuscritos do M ar
M orto alimentam as especulações de que Jesus e, com mais plausibi-
lidade, João Batista tiveram contato com os essênios ou algum grupo
semelhante em Qumran.
2 6 HISTÓRIA DA IGREJA
As primeiras pregações cristãs, conforme registrado em Atos,
começaram de forma geral nas sinagogas judaicas da diáspora. Elas
atraíram seguidores compostos por um pequeno número de judeus e
um número maior de gentios, os quais eram afiliados à comunidade
judaica ou atraídos a ela em graus variados.
O judaísmo, portanto, era o contexto religioso imediato do cris
tianismo. As escrituras judaicas eram a Bíblia da Igreja primitiva, es
pecialmente sua tradução grega - a Septuaginta, cujo processo tradu-
tório teve início no terceiro século a.C.
O Deus dos judeus era o Deus dos cristãos primitivos, e as afirma
ções centrais da Igreja - Jesus como Messias, Sua ressurreição dentre
os mortos, a nova era do perdão dos pecados e o dom do Espírito San
to - extraíam seu significado das esperanças judaicas, as quais eram
baseadas na interpretação dos Profetas bíblicos e estimuladas pela li
teratura apocalíptica posterior.
A história do cristianismo primitivo é a história de como um mo
vimento religioso surgido como uma “seita” dentro do judaísmo fez
O CENÁRIO NO INÍCIO DA HISTÓRIA 27
sua transição para o m undo greco-romano maior e, no quarto século,
ganhou reconhecimento como a religião oficial do Império Romano.
Uma religião originada de um homem nascido de mãe solteira,
em meio a um povo amplamente desprezado de uma região longín
qua do m undo - homem este que foi crucificado pelas autoridades
sob a acusação de traição - , tornou-se a religião oficial do mundo
romano, a influência formativa na civilização ocidental e uma influ
ência significativa em outras partes do mundo. Haveria algo mais im
provável do que isso?
Essa é a história a ser contada nas próximas páginas.
LEITURA COMPLEMENTAR
FERG U SON , Everett. Backgrounds ofEarly. 3. ed. G rand Rap-
ids: Eerdmans, 2003.
GREEN, Joel B.; M C D O N A L D , Lee M artin. The World o fthe
N ew Testament: Cultural, Social, and Historical Contexts. G rand
Rapids: Baker, 2013.
Jesus e os primordios da Igreja
M 54cK
I. O MINISTÉRIO DE JESUS
Jesus nasceu, segundo o calendário moderno, aproximadamente,
no quarto ano a.C. ou antes, quando Herodes, o Grande, era o rei
da Judeia por vontade de Roma. Após uma juventude aparentemen
te normal, em grande parte, sem intercorrências, Ele alcançou um
ponto decisivo na vida quando, com quase trinta anos (Lc 3.23), foi
batizado por João Batista no rio Jordão. Por ocasião de Seu batismo,
Jesus recebeu uma declaração divina do relacio
namento singular que tinha com Deus: era Seu
A m ai a vossos inimigos, Filho muito amado.
fazei bem aos que Logo depois, João foi preso, e Jesus retomou
vos aborrecem, sua pregação, anunciando: o Reino de Deus está
bendizei os que vos próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho (Mc
maldizem e oraipelos 1.15). Então, iniciou-se um ministério de pre
que vos caluniam gação, ensino e cura. Jesus reuniu um círculo de
(Lc 6.27,28). doze discípulos, que passavam o tempo com Ele
e, de vez em quando, eram enviados para expan
JESUS E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 29
dir Seu ministério. Os milagres de cura e as expulsões de demônios
deixaram o povo consciente de que havia uma presença poderosa em
seu meio. O estilo próprio de ensino de Jesus - ao anunciar o sig
nificado do domínio e da vontade de Deus por meio de parábolas
intrigantes, as quais eram baseadas em Sua autoridade imediata, e não
em interpretações passadas - chamou a atenção do povo para uma
personalidade impressionante que suscitava reações diversas.
O ministério de Jesus atraiu seguidores e gerou esperanças de que
a poderosa intervenção divina na história do povo estava iminente -
esperanças que muitos compreendiam como a deposição do governo
romano e o fim da opressão política e econômica.
Uma das reações a Jesus foi a seguinte confissão, feita primeiro
pelo líder dos Doze, Pedro: Tu és o Cristo (Mc 8.29) - o tão aguar
dado “Ungido do Senhor” que traria livramento ao povo judeu. Essa
confissão foi aceita por muitos, questionada por outros e temida por
alguns em posições de poder. A popularidade de Jesus provocou ciú
me e oposição por parte de alguns fariseus, além de uma gama de sen
timentos que iam desde desconforto até profunda perturbação entre
os líderes políticos.
No título “Cristo”, estava implícita uma rei- Porqueprimeiramente
vindicação à realeza. Com base nessa acusação, vos entreguei o que
os líderes judeus em Jerusalém conseguiram ob também recebi: que
ter, do governador romano Pilatos, a sentença Cristo morreu por
de morte para Jesus. Ele ordenou Sua crucifica
ção, uma pena aplicada aos piores criminosos e nossospecados, segundo
àqueles considerados politicamente perigosos. as Escrituras,
Depois da execução, as esperanças dos discípu
los de Jesus, até dos mais próximos, foram ar e quefo i sepultado,
ruinadas. e que ressuscitou ao
terceiro dia, segundo
Então, o inesperado aconteceu. Quando as
mulheres foram ao sepulcro no domingo de ma as Escrituras
(1 Co 15.3,4).
nhã para realizar a unção em Jesus, a qual fora
impedida anteriormente pelo rápido cair do sábado após a morte,
elas encontraram o túmulo vazio. Um anjo informou: Ele não está
aqui, porquejá ressuscitou, como tinha dito (Mt 28.6). As mulheres
e, depois, outros discípulos também relataram as aparições de Jesus.
3 0 HISTÓRIA DA IGREJA
O pequeno grupo de discípulos, antes disperso e desanimado, viu a
própria decepção ser transformada em alegria.
A ressurreição foi a justificação de Jesus por parte de Deus. Ela
confirmou que a Sua m orte não fora simplesmente a m orte de mais
um homem bom, pois tinha valor expiatório. Essas duas afirmações -
a m orte expiatória de Jesus e Sua ressurreição dentre os m ortos (1 Co
15.3-5) - tornaram-se os pilares da fé cristã.
Jesus, ressurreto, ordenou que os discípulos esperassem, em Je
rusalém, a vinda do Espírito Santo e, em seguida, proclamassem Sua
mensagem a todos.
II. A IGREJA EM JERUSALÉM E TIAGO
As aparições de Jesus ressurreto reuniram os discípulos mais uma
vez e confirmaram a fé que tinham nele. A experiência da vinda do
Espírito Santo, registrada em Atos 2, promoveu a Igreja a uma enti
dade distinta, com a missão de proclamar Jesus como Senhor e Cristo
(At 2.36).
Inicialmente, não houve uma ruptura radical com as instituições
judaicas. A Igreja primitiva de Jerusalém frequentava o templo e ob
servava os costumes judaicos. Ela consistia em uma “sinagoga” com
alguns ritos e crenças próprios, assim como outros grupos existentes
no âmbito maior do judaísmo.
As crenças judaicas centrais permaneceram na base da fé dos pri
meiros discípulos: o Deus revelado nas Escrituras hebraicas, esse mes
mo Deus como criador e sustentador do universo, o povo eleito para
usufruir de um relacionamento pactuai com Deus e uma esperança
de bênçãos no fim dos tempos.
A essas crenças centrais foi acrescentada a convicção de que Je
sus - o qual havia sido rejeitado pela liderança judaica e crucificado
pelas autoridades romanas - era o libertador prometido, por meio de
quem as bênçãos do fim dos tempos estavam começando a ser con
cretizadas, especialmente o perdão dos pecados e o dom do Espírito
Santo.
Essa nova convicção - garantida aos discípulos pela fé na ressur
reição de Jesus dentre os m ortos - juntam ente com o rápido cresci
JESU S E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 31
m ento da nova comunidade, que atraía, como membros, aqueles que
haviam seguido Jesus anteriormente e se impressionado com o estilo
de vida e as maravilhas manifestas em Seu ministério, logo colocaram
os discípulos em conflito com as autoridades de Jerusalém.
Em pouco tempo, a Igreja atraiu seguidores que iam desde judeus
fervorosos no cumprimento da Lei até judeus fiéis que não eram tão
rigorosos em sua observância; desde prosélitos gentios até aqueles
de com portam ento mais helenizado. Em pouco tempo, surgiu uma
tensão interna entre os hebreus (judeus hebraicos) e os helenistas (ju
deus gregos) - termos culturalmente descritivos.
De modo geral, podemos identificar três grupos na igreja de Jeru
salém: os seguidores de Jesus, atraídos pelo Seu ministério galileu e li
derados por Pedro e pelos Doze; os convertidos da Judeia, que foram
buscar a liderança de Tiago, irmão de Jesus, também conhecido como
“Tiago, o Justo”; e os indivíduos da diáspora grega acompanhados de
outras pessoas de Jerusalém que lhes eram solidárias, de quem Estê
vão tornou-se porta-voz.
Esses primeiros discípulos representavam três diferentes postu
ras em relação à Lei, as quais não correspondiam exatamente aos três
agrupamentos: a interpretação geral da Lei com base nas principais
ênfases (uma visão análoga ao emprego posterior da tipologia); a o b
servância de toda a Lei (fariseus convertidos); e a preferência pelo
tabernáculo no deserto e pela corrente universalista do Antigo Tes
tamento em oposição ao templo (postura representada por Estêvão).
Todas as três perspectivas exerceram influência na interpretação
mais sofisticada de Paulo: ela empregava tipologia, levava a Lei a sé
rio, mas nem sempre de m odo literal, e desenvolvia o universalismo
implícito em alguns dos Profetas.
Com a dispersão dos helenistas após a execução de Estêvão e, pos
teriormente, com o assassinato do apóstolo Tiago (irmão de João) e
a prisão de Pedro pelo rei Herodes Agripa I, Tiago (irmão de Jesus)
passou a ocupar cada vez mais a posição de liderança na igreja de Jeru
salém. Sua ascensão teria sido bastante inesperada durante o ministério
de Jesus, mas a aparição do Cristo ressurreto transformou-o de incrédu
lo em um defensor fiel. Os laços de sua família com Jesus e o fato de ter
aceitado Cristo como Senhor deram a Tiago autoridade pessoal.
32 HISTÓRIA DA IGREJA
Ao lado de anciãos, Tiago passou a exercer liderança quando os
Doze se envolveram em outras áreas de atividade. Tal disposição ser
viu de modelo para a organização municipal da igreja no segundo
século: um bispo assistido por anciãos. O único documento no Novo
Testamento atribuído a Tiago - a carta contendo seu nome - mostra
a influência exercida pela literatura de sabedoria prática do judaísmo
nos ensinamentos de Jesus.
A execução de Tiago pelos líderes judeus em 62 d.C. —a respeito
da qual existem relatos divergentes nos registros do historiador ju
deu Josefo, nos de Hegésipo (preservados pelo historiador eclesiásti
co Eusébio) e no Segundo Apocalipse de Tiago (da biblioteca de Nag
Hammadi) - deixou os cristãos judeus mais conservadores sem um
líder respeitado e moderado, mas o cristianismo judaico continuou a
considerá-lo um representante ideal.
A conversão de Saulo de Tarso, um estudioso rabinico de Jeru
salém, deu um novo impulso ao movimento cristão. Após sua con
versão, Jesus, já ressurreto, incumbiu-o de ser um
A religião pura e apóstolo às nações. Paulo, Pedro e os líderes em
imaculada para com Jerusalém concordavam com o fato de que seu
Deus, o Pai, é esta: chamado aos gentios correspondia à missão de
Pedro aos circuncidados (Gl 2.7-9). Uma aber
visitar os órfãos e tura já havia sido feita aos gentios pelos helenis-
as viúvas nas suas tas dispersos de Jerusalém (At 11.20), e ela tam
bém fora confirmada pela experiência de Pedro
tributações e em Cesareia (At 10; 11).
guardar-se da
corrupção do mundo A controvérsia mais significativa na Igreja
primitiva dizia respeito às condições de aceitação
(Tg 1.27).
dos gentios à comunidade cristã: afinal de contas,
deveriam eles aproximar-se como prosélitos, aceitando a circuncisão e
a obrigação de seguir a Lei, ou seria a fé em Jesus e o batismo suficien
tes para inseri-los na aliança? Paulo tornou-se o protagonista de um
evangelho sem Lei para os gentios; outros indivíduos na igreja deJeru
salém insistiam na necessidade da circuncisão; e Pedro e Tiago, cada
um a partir das próprias perspectivas, procuravam mediar (At 15).
A saída de alguns elementos de Jerusalém colocou os judeus mais
conservadores (do ponto de vista religioso e cultural) em uma po-
JESUS E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 33
sição predom inante na igreja local. Os helenistas encontraram um
núcleo em Antioquia da Síria.
III. A IGREJA EM ANTIOQUIA
A igreja começou em Antioquia quando os crentes de Jerusalém
foram dispersos, perseguidos em decorrência da pregação de Estêvão.
Esses cristãos mais helenizados levaram a mensagem de Jesus aos gre
gos, e foi em A ntioquia que o novo termo cristãos (At 11.26) passou
a ser utilizado para designar aquele povo que, embora incluísse tan
to judeus quanto gentios, estava começando a ser identificado como
algo distinto de ambos.
O abandono da exigência da circuncisão não resolveu - pelo
contrário, intensificou —a questão da com unhão à mesa entre cren
tes judeus e gentios. O problem a atingiu o ápice em A ntioquia,
onde a insistência de Paulo para que as leis alimentares judaicas
não incidissem sobre os crentes gentios, em contraste com a transi
gência de Pedro e Barnabé (Gl 2.11-14), transformou a cidade em
um centro a p artir do qual a missão gentílica da Igreja se propagou.
Sob a iniciativa do Espírito, Paulo e Barnabé saíram de Antioquia
para difundir o evangelho de Jesus. Essas missões os levaram às sina
gogas dos judeus da diáspora localizadas nas cidades gregas de Chipre
e na Ásia Menor. Ali, eles pregaram primeiro aos judeus e depois aos
gentios adeptos do judaísmo, os quais estavam associados de diferen
tes maneiras às sinagogas.
Embora Paulo continuasse a considerar Jerusalém a igreja mãe,
ele encontrou em Antioquia uma base de operações mais adequada
às suas viagens missionárias subsequentes.
IV. PAULO
Paulo é, às vezes, chamado de “segundo fundador” do cristianis
mo, um título que ele não aprovaria. O apóstolo é notório na história
do cristianismo primitivo por causa da preeminência que Lucas lhe
conferiu em Atos dos Apóstolos e também por causa do número de
cartas assinadas por ele no cânon do Novo Testamento. Paulo era ju
34 HISTÓRIA DA IGREJA
deu no aspecto espiritual, romano no aspecto legal e grego no aspecto
intelectual - três trunfos para um missionário no primeiro século.
Paulo foi o apóstolo dos gentios por excelência, tanto que a Igre
ja tornou-se predominantemente gentia ao final do primeiro século.
Sua influência formativa nas igrejas que fundou, bem como naquelas
estabelecidas ou mantidas por parceiros, conferiu-lhe inegável valor
na história da Igreja primitiva. Apesar disso, a importância dos doze
discípulos como primeiras testemunhas da vida e do ministério de
Jesus não foi esquecida.
Paulo entendia seu chamado apostólico no sentido missionário,
e a extensão de suas viagens é verdadeiramente impressionante. Ele
levou o evangelho de Jesus por toda a Ásia Menor, Grécia e, por fim
______________ - embora na posição de prisioneiro - a Roma.
Concluímos, pois, Relatos posteriores afirmam que ele concretizou
que o homem é sua intenção de ir à Espanha, atravessando, assim,
a amplitude do mar Mediterrâneo.
justificado pelafé,
sem as obras da lei Em suas viagens, Paulo primeiro abordava
(Paulo, Rm 3.28). os judeus nas sinagogas e, depois, ministrava aos
simpatizantes gentios, com os quais tinha conta-
to também por meio das sinagogas. Uma vez que
o evangelho apresentado por ele não exigia dos gentios a observância
da lei de Moisés, esses crentes logo acharam impossível permanecer
dentro das comunidades judaicas estabelecidas. Por esse motivo, o
apóstolo transformou-os em novas comunidades com característi
cas próprias. Trabalhando raramente sozinho, Paulo levava colegas
consigo nas viagens e deixava alguns deles pelo caminho, a fim de
continuarem ministrando aos novos crentes. Por intermédio deles,
de outros mensageiros e de cartas, o apóstolo mantinha contato com
as comunidades cristãs.
A luta de Paulo em prol de sua missão aos gentios fez dele um
participante fundamental na grande questão eclesiástica da época:
a definição das condições para que os gentios fossem aceitos no
grupo cristão israelita. As contribuições literárias de Paulo nesse
sentido incluem, principalmente, suas cartas às igrejas da Galácia,
onde os judaizantes (locais ou estrangeiros) insistiam na aceitação
gentílica da circuncisão, e à igreja em Roma, onde buscou unificar
JESU S E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 35
os grupos cristãos na aceitação de seu program a de trabalho mis
sionário.
O argumento dos judaizantes na Galácia, bem como o dos cris
tãos judeus conservadores em Jerusalém, era que, para usufruir das
promessas de Deus oferecidas na aliança, era necessário ser incorpora
do ao povo de Abraão e receber com ele o sinal pactuai - a circuncisão.
A resposta de Paulo foi que a base para a aceitação divina de
Abraão havia sido a fé (E creu ele no Senh or, efoi-lhe imputado isto
porjustiça, G n 15.6), antes mesmo que recebesse o sinal da circunci
são. Por conseguinte, segundo o apóstolo, aqueles que compartilham
a mesma fé de Abraão recebem justiça igualmente e passam a fazer
parte das nações abençoadas por intermédio dele, sem a necessidade
do sinal da circuncisão.
A sensibilidade pastoral de Paulo e sua capacidade de aplicar tan
to as Escrituras hebraicas como a filosofia moral grega na instrução
aos convertidos podem ser observadas em suas cartas, especialmente,
às igrejas gregas em Tessalônica, C orinto e Filipos. As cartas circula
ram entre as congregações cristãs e tornaram-se a base da orientação
para um estilo de vida cristão diferenciado.
Fontes extracanônicas relatam a execução de Paulo por decapita
ção em Roma no governo do imperador Nero, em meados dos anos
60. Sua morte em Roma associou-o a Pedro na memória da Igreja,
visto que a experiência comum do martírio na mesma cidade - um
apóstolo da incircuncisão e um apóstolo da circuncisão - serviu
como símbolo de unidade da fé.
V. A IGREJA EM ROMA E PEDRO
Relata-se que visitantes de Roma, tanto judeus quanto prosélitos,
estiveram presentes em Jerusalém no primeiro Pentecostes após a res
surreição de Jesus (At 2.10), e alguns deles podem ter levado consigo
a fé em Cristo de volta para Roma.
Já existia um grande número de cristãos judeus e gentios em
Roma quando Paulo escreveu sua principal carta aos romanos na se
gunda metade dos anos 50. O riunda de um contexto cosmopolita, a
igreja tinha o grego como idioma.
36 HISTÓRIA DA IGREJA
Uma tradição posterior, relatada por Eusébio, atribui a Pedro um
episcopado com duração de 25 anos em Roma, o que situaria sua chega
da ali no início dos anos 40. O silêncio de Atos e Romanos, entretanto,
indica que a chegada de Pedro em Roma deve ser datada posteriormente.
É impossível traçar as viagens de Pedro após sua partida de Je
rusalém, mas Paulo atesta sua presença em Antioquia. Além disso, o
texto de 1 Pedro sugere um ministério em regiões da Ásia Menor, e a
presença de um “partido de Pedro” em Corinto sugere sua atividade
ali em determinado ponto.
Fontes do segundo século fornecem fortes evidências da presença
de Paulo e Pedro em Roma, bem como de seu martírio ali. Ademais,
a referência à igreja na Babilônia, em 1 Pedro 5.13, provavelmente
deve ser entendida como uma referência velada à Roma, ao local onde
a carta foi escrita.
Clemente de Roma (c. 96) e Inácio de Antioquia (c. 116), ao
escreverem para Roma, associaram tanto Pedro quanto Paulo à
igreja local, e Clemente insinuou que o martírio deles ocorreu ali.
Dionísio de Corinto (c. 170) fez a primeira declaração explícita do
martírio de Pedro em Roma, mas seu testemunho é um tanto enfra
quecido pela afirmação equivocada, se analisada com muito rigor,
de que Pedro e Paulo “foram martirizados ao
mesmo tempo”.
Pedro, sendo persuadido Não muito tempo depois, Atos de Pedro
pelos discípulos a deixar relata um ministério memorável do apósto
Roma, encontrou-se com lo em Roma e conclui com a história de sua
Jesus, o qual chegava à crucificação de cabeça para baixo por vontade
cidade. Então, perguntou- própria (um estilo de execução também men
-lhe: “Senhor, para onde cionado por Orígenes).
vais (quo vadis)V’ Diante Gaio de Roma, em aproximadamente
da resposta, “Para Roma, 200, apontou para os “troféus [ou memoriais]
a fim de ser crucificado dos apóstolos”, assinalando os locais dos mar
tírios - o de Paulo, na via Ostiense (localiza
novamente”, Pedro voltou ção da igreja de São Paulo Fora dos Muros),
abatido à cidade para e o de Pedro, no Vaticano (cujo memorial foi
enfrentar sua própria encontrado debaixo do altar-mor, nas escava
ções sob a basílica de São Pedro).
morte (Atos de Pedro 35).
JESUS E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 37
Os Pais da Igreja, no fim do se
gundo século e início do terceiro,
mencionaram Pedro e Paulo como
“fundadores” da igreja em Roma.
Isso não se aplica à primeira prega
ção do evangelho ali. A declaração,
entretanto, podería ser válida quan
to à estabilização e estruturação or
ganizacional da igreja e, mais ainda,
quanto à importância de seus martí
rios para o testemunho da verdade
do evangelho, fundamento da Igreja.
Fontes literárias e inscrições mais
antigas fazem associação com os no
mes de Pedro e Paulo, e o envolvi Pedro em bronze na basílica de São Pedro
mento de ambos em Roma parece no Vaticano (ateliê de Arnolfo
condizer com a situação histórica. As di Cambio, c. 1290-1295)
informações tradicionais de que Pau
lo foi decapitado (uma morte mais rápida e misericordiosa aplicada
aos cidadãos) e de que Pedro foi crucificado condizem com as penas
aplicadas aos indivíduos de suas respectivas classes sociais.
Portanto, o testemunho é muito forte de que Pedro e Paulo esti
veram em Roma ao final de seu ministério. Ademais, é bastante pro
vável que Pedro tenha sido martirizado ali (mas menos provável que
tenha sido crucificado de cabeça para baixo) e também possível que
tenha ocupado algum cargo oficial, além do prestígio apostólico de
que gozava na igreja (cf. 1 Pe 5.1, presbítero com eles). Essa situação
teria gerado o núcleo histórico em torno do qual surgiram as afirma
ções da igreja romana acerca de sua relação com Pedro e de seu cargo
como primeiro bispo.
Embora as lendas fossem, por vezes, inventadas “do zero”, espe
cialmente em períodos posteriores, as histórias transmitidas e as ale
gações feitas costumavam ter alguma base na realidade. Nesse caso, a
base para as declarações a respeito do papado teria sido a presença e
o martírio de Pedro em Roma, seu prestígio e, talvez, sua posição de
38 HISTÓRIA DA IGREJA
liderança na Igreja. Não obstante, chamar Pedro de papa ou mesmo
de bispo é uma conclusão anacrônica.
Ao final da era apostólica, a igreja romana já era uma comuni
dade numerosa e importante. A igreja em Éfeso, entretanto, parece
ter sido maior nos últimos anos do primeiro século, além de estar no
centro da região cristã mais influente.
VI. A IGREJA EM ÉFESO E JOÃO
O início da igreja em Éfeso é associado à obra de Paulo e seus
companheiros, embora já houvesse discípulos de João Batista situa
dos na cidade. Um deles, Apoio, era um orador eloquente, que passou
a crer em Jesus e tornou-se um poderoso defensor da nova fe em Éfeso
e, depois, em Corinto. A estada mais longa de
-------------------------- Paulo, registrada em uma única localidade -
Estes [sinais],porém, mais de dois anos —, foi em Éfeso, no início
foram escritospara que dos anos 50. De lá, ele aparentemente super
creiais queJesus é o Cristo, visionou a obra de outros evangelistas que le
o Filho de Deus, epara varam a mensagem cristã por toda a província
que, crendo, tenhais vida da Ásia (Turquia ocidental).
em seu nome Os relatos em Atos mostram Paulo em
(Jo 20.31). contato (e, muitas vezes, em conflito) com
uma miscigenação dos mundos judaico e gen-
tílico em Éfeso - isto é, com oficiais do gover
no, intelectuais gregos, judeus mais ou menos ortodoxos, exorcistas
judeus itinerantes, magos pagãos e adoradores da deusa efesia Árte-
mis, cujos interesses econômicos e religiosos estavam interligados.
Assim como Paulo foi a principal figura da história inicial da igre
ja em Éfeso, o apóstolo João - se é que podemos aceitar a tradição da
igreja - foi a principal figura no fim do primeiro século. Efeso logo se
tornou um centro associado à atividade literária cristã, e Paulo redigiu
1 Coríntios ali.
Outros livros do Novo Testamento foram escritos para Efeso:
Efésios (que pode ter sido uma carta circular destinada a outras igre
jas também), 1 e 2 Timóteo (a tradição foi mais longe, conferindo a
Timóteo o título de primeiro bispo de Éfeso) e a primeira das sete
cartas de Apocalipse (2.1-7).
JESUS E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 39
Além disso, a tradição primitiva associou a literatura joanina a
Efeso. O forte testemunho dos escritores da Igreja primitiva identi
ficou o apóstolo João, filho de Zebedeu, como fonte dessa literatura.
Há, entretanto, o relato de um segundo João, “o ancião”, que foi
enterrado em Efeso e pode ter sido o responsável por grande parte da
literatura joanina. Uma minoria de estudiosos da antiguidade e um
grande número de eruditos modernos atribuem Apocalipse a outra
pessoa do mesmo círculo.
Esses escritos abordam alguns ensinamentos diversos que inco
modavam as igrejas apostólicas. Em 1 Timóteo, somos informados a
respeito daqueles que ensinavam uma “doutrina diferente”, incluindo
mitos e genealogias, a negação da lei, o ascetismo quanto à ingestão
de carne e ao casamento, a alegação de um “conhecimento” mais ele
vado e a negação da ressurreição futura.
As cartas joaninas colocam bastante ênfase na mensagem apos
tólica original e na união da divindade e humanidade presentes em
Jesus Cristo - em oposição àqueles que, separando-se da comunida
de cristã, negavam a humanidade de Cristo e não praticavam o amor
fraternal.
Igreja de São João em Éfeso, construída no governo do imperador Justiniano no sexto século
4 0 HISTÓRIA DA IGREJA
As sete cartas no início de Apocalipse mostram alguns problemas
internos de tolerância a costumes pagãos, incluindo sua imoralidade.
O livro como um todo, entretanto, aprofunda-se especialmente em
temas apocalípticos judaicos para fortalecer as igrejas contra o desa
fio da perseguição por parte de uma sociedade pagã aliada ao culto
imperial. O fervor escatológico perdurou por mais tempo no interior
da Ásia M enor do que em qualquer outra localidade da igreja grega.
Com base em João 19.26,27, a tradição posterior relata que o
apóstolo levou a mãe de Jesus, Maria, consigo a Éfeso e que os dois
morreram ali. Por esse motivo, seitas influentes dedicadas a João e
Maria teriam se desenvolvido na região. À semelhança do pensamen
to supracitado acerca de Pedro em Roma, é provável que o apóstolo
João ou alguém com quem foi confundido tenha sido a ligação entre
a época apostólica e a igreja em Éfeso ao final do primeiro século.
O Evangelho de João é o único livro no Novo Testamento que
preserva referências anedóticas a Tomé, além de partilhar, com o
Evangelho de Tomé, o interesse pelas palavras de sabedoria de Jesus.
VII. A IGREJA NA SÍRIA E TOMÉ
A menos que a lista de povos presentes no Pentecostes em Atos
2 tenha como finalidade indicar as regiões às quais aquelas pessoas
levaram a mensagem cristã, o Novo Testamento mantém silêncio, em
grande parte, quanto à expansão oriental da igreja. Havia discípulos
em Damasco por ocasião da conversão de Paulo, e ele mesmo foi à
província da Arábia e permaneceu ali durante algum tempo, embora
não mencione ter pregado nesse período.
Com base em fontes do segundo século, é evidente que houve
uma expansão do cristianismo a leste de Antioquia muito cedo, além
da expansão a oeste descrita por Lucas. A linguagem siríaca clássica
da igreja desenvolveu-se na Síria ocidental (Edessa, Nísibis) a partir
do aramaico, antiga língua comum da diplomacia e do comércio na
Mesopotâmia e nas regiões circundantes desde o Império Persa.
O cristianismo de língua siríaca preservou tradições de uma asso
ciação com o apóstolo Tomé. Essas tradições, incorporadas à D outri
na de A ddai do quinto século, alegavam que o evangelho fora prega
do primeiro em Edessa por Addai, com o incentivo de Tomé.
JESUS E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 41
Grande parte da literatura primitiva da “O reino está dentro de
região leva o nome de Tomé: o Evangelho de vós, e também fora de vós.
Tomé, que consiste em uma coletânea de pala Se vos conhecerdes, sereis
vras de Jesus preservada em copta e, de forma
incompleta, em grego (veja o capítulo 3); ou conhecidos, e sabereis
tro Evangelho de Tomé, escrito em grego, que que sois filhos do Pai
narra a infância de Jesus; e Atos de Tomé, pre vivo. Contudo, se não
servado nas versões grega e siríaca. vos conhecerdes, vivereis
A natureza bilíngue da região pode ser em pobreza e sereis, vós
vista não apenas nas edições duplas das obras, mesmos, essa pobreza”
como também na incerteza quanto à língua (Evangelho de Tomé 3).
original delas, tais como Odes de Salomão e -------------------------
Diatessarão, de Taciano. Escritores ociden
tais relataram uma missão de Tomé na Pérsia ou na índia (também
em Atos de Tomé). Essas tradições, caso não sejam inteiramente des
cartadas, ao menos mostram que o evangelho foi difundido a essas
regiões a partir da Síria e transmitido por cristãos que honravam o
nome de Tomé.
O cristianismo siríaco era mais amplo do que a tradição de Tomé,
mas, assim como ela, preservava elementos da herança semítica da
Igreja primitiva. Isso incluía uma espiritualidade moldada por espe
culações de sabedoria. Outra característica do cristianismo primitivo
de língua siríaca, notável em Atos de Tomé, é um ascetismo marca
do, especialmente em questões sexuais. (Outras características serão
aprofundadas nos capítulos 12 e 16.)
VIII. A VIDA DA IGREJA NA ERA APOSTÓLICA
O relato anterior, acerca das diferentes regiões e dos diferentes
indivíduos com papel de liderança na Igreja primitiva, aponta para a
variedade de expressões no cristianismo inicial (e mais disso será visto
nos capítulos subsequentes).
Ao constatarmos que não houve uniformidade no início do cris
tianismo, não devemos ir ao outro extremo e concluir que quase tudo
poderia ser abrangido pelo âmbito cristão. Em meio à variedade de
ênfases e interpretações, havia uma fé comum em Jesus e um núcleo
4 2 HISTÓRIA DA IGREJA
comum de ensinamentos apostólicos que estabeleciam limites à di
versidade. Viagens frequentes e comunicação via cartas ou mensa
geiros impediam que a maioria das comunidades se desenvolvesse de
forma isolada dos demais crentes.
Embora as escrituras do Antigo Testamento derivadas do judaís
mo fossem tratadas de formas diferentes, havia uma aceitação comum
de que eram a Palavra de Deus, e existia o compromisso de interpretá-
-las à luz da nova revelação em Jesus Cristo.
Além disso, certas práticas comuns serviram como fatores unifi-
cadores desde muito cedo. Alguns costumes distintivos, que viríam a
caracterizar a igreja ao longo da história, tiveram início na era apostó
lica: o batismo, a santa ceia, as reuniões dominicais e as ênfases morais.
A admissão à comunidade cristã exigia fé em Jesus como Senhor
e Salvador e o batismo em Seu nome. A aceitação de Jesus como Mes
sias era a linha doutrinária óbvia que dividia cristãos e judeus. O ba
tismo administrado por João Batista (e seu recebimento por Jesus) foi
o antecedente imediato da prática cristã.
O batismo de João, assim como certas purificações cerimoniais
judaicas, era feito por imersão. Contudo, ele se diferenciava delas por
ser um batismo de arrependimento para remissão dos pecados e por
ser executado por outra pessoa, em vez de ser autoadministrado (daí
o nome de João, “o batizador”).
O batismo cristão compartilhava as características supracitadas
com o batismo de João, mas diferenciava-se por incluir a confissão
do nome de Jesus e a promessa do dom do Espírito Santo (o qual, nas
expectativas judaicas, equivalia ao sinal da vinda da era escatológi-
ca). Ênfases teológicas diferentes caracterizavam a interpretação do
batismo por diferentes autores - por exemplo, a imagem de morte e
ressurreição, empregada por Paulo, e a de renascimento, empregada
por João - mas a prática em si era essencialmente a mesma.
Desde o início, os discípulos deram continuidade à prática das
refeições coletivas, com a qual haviam tido contato durante o minis
tério de Jesus. Porém, agora havia uma diferença: o partir do pão e o
beber do cálice, cada um acompanhado de uma bênção divina (ou
gratidão), passaram a ser uma lembrança da última ceia de Jesus com
os discípulos e de Sua paixão e ressurreição subsequentes. A defini
JESUS E OS PRIMÓRDIOS DA IGREJA 43
ção de refeição coletiva foi preservada nas expressões “partir do pão”
(momento em que se proferia uma bênção e dava-se início às refei
ções judaicas) e “santa ceia” (em oposição às
refeições comuns). E perseveravam na
O significado especial de partir o pão e be doutrina dos apóstolos, e
na comunhão, e no partir
ber o cálice da bênção, por ocasião das celebra
ções comunitárias, sempre tinha um sentido do pão, e nas orações
teológico distinto da refeição propriamente (At 2.42).
dita (mesmo quando esta era considerada uma
expressão de “comunhão” ou fraternidade).
No tempo devido, a prática foi separada da refeição, talvez como re
sultado das instruções de Paulo em 1 Coríntios 11.17-34 e certamen
te na época em que Mateus (26.26-29) e Marcos (12.22-25) registra
ram o costume como algo alheio a ela, mesmo que fosse realizado no
mesmo cenário.
As reuniões especiais dos cristãos incluíam a observância da san
ta ceja, orações, cânticos, leitura das Escrituras e mensagens de instru
ção e exortação. Embora pudessem estar juntos com mais frequência,
até mesmo “diariamente”, esses encontros ocorriam, no mínimo, em
comemoração à ressurreição de Jesus, no “primeiro dia da semana”
(expressão hebraica), ou seja, no “dia do Senhor” (expressão cristã),
um padrão que, segundo João, começou com as aparições de Jesus
após Sua ressurreição (Jo 20.19,26). Os cristãos judeus continuaram
a observar o sábado, mas participavam das reuniões cristãs no dia se
guinte. Os convertidos pagãos, porém, não viam significado algum
para si na observância judaica.
Embora incorporassem algumas fórmulas judaicas tradicionais,
os cristãos relacionavam sua observância diária de oração aJesus e aos
Seus ensinamentos sobre oração. A generosidade no auxílio aos po
bres - um comportamento também com antecedentes na prática ju
daica - caracterizou as comunidades cristãs desde o início. Os cristãos
também deram prosseguimento aos ensinamentos morais que haviam
sido desenvolvidos no judaísmo, os quais eram aplicados, no ambiente
contemporâneo, a assuntos de família, profissão e estrutura social.
Questões de moralidade, entretanto, não eram abordadas da
mesma maneira que no judaísmo. A sujeição de todo comportamen-
4 4 HISTÓRIA DA IGREJA
to aos mandamentos de amar a Deus e ao próximo, além da motiva
ção de im itar o amor divino demonstrado na vida de Jesus, forneceu
um princípio organizador distinto ao ensinamento moral cristão.
LEITURA COMPLEMENTAR
ELLIS, E. Earle. T heM akingoftheN ew Testament. Leiden: Brill,
2002.
W 1T H E R IN G T O N , Ben III. New Testament History: A Narra-
tive Account. G rand Rapids: Baker, 2001.
W R IG H T , N. T. Christian Origins and the Question o f God: Je
sus and the Victory o f God. Minneapolis: Fortress, 1996. v. 2.
Era subapostólica
O segundo século foi descrito como um túnel na história do cris
tianismo; essa figura, entretanto, é mais apropriada ao último terço
do primeiro século. A ausência de uma narrativa comparável ao livro
de Atos nesse período deixa muitas lacunas no conhecimento de que
dispomos. Mesmo os eruditos que datam uma parte considerável do
Novo Testamento do final do primeiro século ou do início do segun
do século ainda precisam recorrer a hipóteses e teorias sociológicas a
fim de descrever os avanços na Igreja nesse período.
Os apóstolos Paulo e Pedro, bem como Tiago, irmão do Senhor
- os “três grandes líderes” da Igreja apostólica - , foram m ortos em
meados dos anos 60 com uma diferença de menos de cinco anos entre
si. Tiago foi m orto pelas autoridades de Jerusalém, no período em
que um governador havia morrido e seu sucessor ainda não estava no
poder (cerca de 62); já Pedro e Paulo foram executados em Roma, no
governo de Nero (Pedro talvez em 64, e Paulo antes de 68).
O fato de três personalidades dominantes terem sido tiradas
de cena na era apostólica - aliado à supressão da revolta judaica na
Palestina contra o governo romano (66-70/73), o que resultou na
4 6 HISTÓRIA DA IGREJA
destruição de Jerusalém - colocou a Igreja em uma situação significa
tivamente nova no último terço do primeiro século.
I. VERTENTES DO CRISTIANISMO JUDAICO
N o final do primeiro século e início do segundo, os crentes em
Jesus afastaram-se cada vez mais das sinagogas. Uma consequência
importante da morte de Tiago, da destruição do templo em 70 e da
expulsão dos judeus em Jerusalém após a Revolta de Bar Kokhba, em
135, foi a remoção de Jerusalém como centro geográfico do movi
m ento cristão. Esse fenômeno foi acompanhado pelo aumento da
marginalização dos judeus cristãos em relação ao número crescente
de crentes gentios.
A própria expressão “cristianismo judaico” tornou-se problemáti
ca. Por vezes, ela era empregada de forma ampla, referindo-se a todas
as influências judaicas típicas presentes no cristianismo; em outros
momentos, era empregada para referir-se ao cristianismo daqueles
que eram judeus por etnia. Para os Pais da Igreja, essa última acepção
afunilava-se ainda mais, de modo a referir-se aos cristãos judeus con
siderados hereges pela Igreja gentílica por aderirem a observâncias
religiosas de caráter distintamente judaico.
A rejeição m útua entre a maioria dos crentes gentios e a m aio
ria dos crentes judeus removeu efetivamente da história da Igreja um
possível meio-termo no ponto de vista judaico-cristão, o qual possi
bilitaria a preservação das linhas de comunicação entre os judeus que
não aceitavam Jesus e os gentios que o aceitavam. Com o consequên
cia desses avanços, pouca literatura do cristianismo judaico sobrevi
veu, e, portanto, sua história deve ser delineada em traços gerais.
Eusébio, historiador eclesiástico do quarto século, relata que, du
rante a guerra judaico-romana de 66-70, os cristãos em Jerusalém
fugiram para Pela, do outro lado do rio Jordão. A historicidade do
relato é questionada, e elementos dele podem não estar corretos; con
tudo, parece haver boas razões para aceitar uma fuga de cristãos de
Jerusalém e um retorno por parte de alguns após a guerra.
Algum tempo antes do final do primeiro século, embora os de
talhes não possam ser confirmados agora, muitas sinagogas tomaram
iniciativas para eliminar qualquer presença cristã que pudesse ter res-
ERA SUBAPOSTÓLICA 47
tado dentro do quadro de membros. Os cristãos judeus foram exclu
ídos das sinagogas e não eram aceitos pelas igrejas gentílicas, as quais
faziam distinção entre si e as práticas judaicas, ao mesmo tempo em
que reivindicavam a herança do povo judeu apresentada nas Escritu
ras. Q uando Roma proibiu a presença de judeus em Jerusalém após
135, a própria igreja palestina tornou-se, em grande parte, gentílica.
Três vertentes do cristianismo judaico são confirmadas pelos es
critos dos Pais da Igreja, mas todas elas são conhecidas apenas de for
ma fragmentada e acabaram deixando de existir. São elas:
A. Ebionitas
O grupo de cristãos judeus mais comentado p or escritores cris
tãos gentios - e por eles tratado como hereges - era o dos ebionitas.
O herói dos ebionitas era Tiago, o Justo, e eles eram bastante anta
gônicos em relação a Paulo. Sua posição era a de que os convertidos
gentios deviam submeter-se à lei de Moisés.
A ênfase no monoteísmo total levou-os a tratarem Jesus como
um mero homem e a rejeitarem o nascimento virginal, declarando-
-o apenas como um verdadeiro profeta, o novo Moisés e o Messias
em virtude da Sua vida justa. A missão de Jesus era destruir o sistema
de expiação associado ao templo e seus cultos e fornecer uma nova
forma de perdão dos pecados por imersão em água “viva” (corrente).
Além de sacrifícios materiais, os ebionitas rejeitavam a monar
quia, alguns aspectos da profecia e passagens ofensivas no Antigo
Testamento (descritas como falsas perícopes, as quais eram conside
radas adições posteriores ao texto das Escrituras).
Outras características incluíam a proibição de carne, a ênfase na
pobreza e a preocupação com a pureza (envolvendo purificações ritu
ais além do batismo iniciatório). Eles deram continuidade às práticas
judaicas da circuncisão, do sábado (mas também observavam o dia do
Senhor) e das leis alimentares. Seu evangelho era o de Mateus, mas eles
também produziram outros evangelhos e um livro próprio de Atos.
Os Pais da Igreja deram diversas explicações para o nome do gru
po, e alguns deles especulavam (por analogia a outros movimentos)
que os ebionitas seguiam um homem chamado Ebion. Orígenes en
tendia hebraico o suficiente para perceber que o nome derivava de
48 HISTÓRIA DA IGREJA
uma palavra cuja acepção é pobre”. Ele a considerou apropriada para
a “pobreza” daquela teologia, a qual tinha uma visão tão reduzida da
natureza de Jesus (apenas humano).
A explicação correta parece ser a de que os ebionitas valiam-se
do sentido religioso do termo “pobre” no Antigo Testamento, pre
sente também na literatura de Qumran e nos
“[Os ebionitas] dizem Evangelhos, em referência aos humildes que
que Ele [Cristo] não foi confiavam em Deus.
gerado de Deus Pai, mas
que foi criado como um B. Nazarenos
dos arcanjos (...), que Havia outros cristãos judeus, por vezes
governa sobre os anjos chamados de nazarenos, que, embora vives
e todas as criaturas do sem segundo a lei, aceitavam crentes gentios
Onipotente e que veio em seu meio sem esperar que se submetessem
e declarou, conforme a ela. Esse meio-termo incerto, o qual não re
o evangelho deles (...) cebeu tantos comentários por parte dos auto
res cristãos gentios, demonstrou ser também
relata: Eu vim para instável demais para sobreviver.
abolir os sacrifícios,
e, se não deixardes de
oferecê-los, a ira de Deus
não se apartará de vós” C. Elcasaítas
(Epifânio, Outros cristãos judeus absorveram ten
Panarion 30.16.4,5). dências gnósticas (capítulo 5). Esse fato é
refletido nos elcasaítas. Um profeta chama
do Elcasai é associado a um livro de revelações originado nos anos
iniciais do segundo século. O Códice Mani de Colônia relata que
Mani, fundador do maniqueísmo no terceiro século, cresceu em uma
comunidade elcasaíta; por essa razão, estabelece uma ligação entre
suas idéias e os desenvolvimentos posteriores no pensamento gnósti-
co associados a Mani.
D. Outras influências judaicas
Conceitos e questões judaicas continuaram preeminentes em
partes da Igreja que contribuíram para sua corrente predominan-
ERA SUBAPOSTÓLICA 49
te. Isso é especialmente visível na obra conhecida como D idaquê,
discutida adiante. Além disso, maior reconhecimento passou a ser
dado aos elementos judaicos em especulações gnósticas, como será
visto no capítulo 5. Idéias cristãs judaicas de conteúdo não heréti
co são encontradas em adições cristãs à pseudepigrafia do Antigo
Testamento, tais como 2 Esdras (5 e 6 Esdras), Testamentos dos 12
patriarcas e Ascensão de haías.
Além de citações fragmentadas de obras cristãs judaicas, a princi
pal fonte ainda existente desse material é a literatura pseudoclementina.
As Homílias gregas e os Reconhecimentos latinos do quarto século, atri
buídos a Clemente de Roma (as Pseudoclementinas), derivam de uma
fonte comum do terceiro século, a qual, por sua vez, incorporou obras
anteriores, incluindo alguns escritos “cristãos judaicos” (ebionitas?). As
Homílias são prefaciadas por supostas cartas de Pedro a Tiago e de Cle
mente a Tiago, o qual, na última delas, é chamado de “bispo dos bispos”.
Com o seria de se esperar com base na proximidade geográfica,
o,cristianismo judaico e suas aberrações causaram maior impacto na
Síria. O desenvolvimento inicial ali de um conceito sacerdotal de
ministério pode ser uma herança direta do judaísmo. O ascetismo
da igreja siríaca, que pode parecer oposto ao judaísmo, foi talvez
intermediado por grupos sectários judaicos, tais como aqueles co
nhecidos por meio de Colossenses e representados por essênios e
grupos cristãos judaicos.
M uito mais tarde, Maomé parece ter tido contato com grupos
cristãos judaicos e obtido deles parte de seu conhecimento sobre
o cristianismo. Essa história posterior do cristianismo judaico no
Oriente M édio é ainda menos conhecida do que suas fases iniciais.
Contudo, por ter sido em grande parte desligada da principal corren
te da Igreja, ela não exerceu influência significativa ou construtiva na
história do cristianismo.
II. LITERATURA E PROBLEMAS DO CRISTIANISMO
GENTÍLICO
Em contraste com a pouca literatura preservada do cristianismo
judaico, o número considerável de escritos dos cristãos gentios entre
5 0 HISTÓRIA DA IGREJA
o final do primeiro século e meados do segundo século permite-nos
ver os avanços na organização e na doutrina da Igreja durante sua
adaptação às novas circunstâncias. Essa literatura, principalmente a
chamada Pais Apostólicos, também reflete questões e problemas cris
tãos contínuos e, assim, prepara para o desdobramento da história da
Igreja nos séculos subsequentes.
A literatura não canônica do período pode ser classificada como:
Pais Apostólicos, Novo Testamento apócrifo (que se estende a partir
do segundo século) e outras obras miscelâneas. Os escritos do perío
do que, mais tarde, foram considerados heréticos serão abordados no
capítulo 5.
A. Pais Apostólicos
“Pais Apostólicos” é o nome dado aos primeiros escritos ortodo
xos não inclusos no Novo Testamento. Esse nome foi dado porque se
presumia que discípulos dos apóstolos haviam escrito as obras - um
pressuposto falso em quase todos os casos, se não em todos. A catego
ria é um agrupamento artificial que engloba muitas formas literárias
distintas e a sobreposição de outras classificações.
A D idaquê e 1 Clemente coincidem cronologicamente com os
escritos posteriores do Novo Testamento. H á outra sobreposição de
datas dos Pais Apostólicos em relação a alguns apócrifos e algumas
pseudepigrafias do Novo Testamento: o Evangelho de Tomé, o Evan
gelho de Pedro e talvez as Odes de Salomão-, além disso, é possível que
a Epístola de Barnabé seja pseudônima.
Os primeiros apologistas - Q uadrado e Aristides - são tão an
tigos quanto alguns textos dos Pais Apostólicos, e a apologia co
nhecida como Carta a Diogneto é, por vezes, incluída ali (capítulo
4). H á também uma sobreposição aos relatos do m artírio, visto que
um deles, o M artírio de Policarpo (capítulo 4), diz respeito a um Pai
apostólico.
A D idaquê é um manual da vida eclesiástica dividido em três
partes: “Dois caminhos” de vida e morte, contendo os ensinamentos
morais apresentados aos novos convertidos; instruções sobre batis
mo, jejum, oração, santa ceia, relacionamento com profetas ou mes
ERA SUBAPOSTÓLICA 51
tres itinerantes, reunião dominical e eleição de líderes locais; e uma
conclusão escatológica.
O título completo da D idaquê é: “Instruções do Senhor para as
nações por meio dos doze apóstolos”. Era uma característica da litera
tura de ordem reivindicar a origem apostólica das instruções relacio
nadas às disposições práticas da vida eclesiástica.
PAIS APO STÓ LICO S
Nome Data Localidade Tipo de literatura
c. 100 Síria Ordem da Igreja
D idaquê
Barnabé 97/135? Alexandria? Carta-tratado
1 Clem ente
2 Clem ente 96? Roma Carta-tratado
Herm as
Inácio 100/150 Corinto? Sermão
P o lic a rp o
P a p ia s 100-155 Roma Apocalipse
m. c. 117 Antioquia da Síria Cartas
115/135 Esmirna Carta(s)
c. 130 Hierápolis Explicações
A D idaquê tem sido datada de variadas épocas, desde aproxima
damente 70, ou antes, até 180. A questão da datação é complicada,
porque o compilador fez uso de textos mais antigos. O utra caracte
rística da literatura de ordem é que, conforme as práticas da Igreja
mudavam, o material era atualizado; logo, não podemos descartar
interpolações posteriores aos documentos básicos disponíveis.
Embora seja possível argumentar a favor de uma origem egípcia,
a Síria rural continua sendo o local mais provável de sua composição.
O contexto judaico do cristianismo primitivo é bem evidente ao lon
go do documento: nos ensinamentos morais e na estrutura de “Dois
caminhos , na linguagem das orações, nas instruções concernentes ao
apoio dos ministros e na linguagem de escatologia.
A D idaquê reflete a constante preocupação na história cristã com
a conduta adequada dos assuntos eclesiásticos, isto é, com a regula
mentação da vida moral, da adoração e da política.
52 HISTÓRIA DA IGREJA
“Há dois caminhos, um A Epístola de Barnabé é uma obra que
de vida e um de morte, compartilha com a Didaquê uma seção de ins
truções morais semelhante à “Dois caminhos”.
e existe uma grande A diferença é que “Dois caminhos” está no
diferença entre eles. O fim, e não no começo, e emprega a termino
caminho de vida é este: logia “caminho de luz” e “caminho de trevas”
primeiro, amarás o Deus (também “caminho de maldições”). Essa epís
que te criou; segundo, tola é um tratado enviado como carta.
amarás o teu próximo Barnabé costuma ser datada de aproxima
como a ti mesmo” damente 135, o que pode estar mais ou me
(D idaquê 1. 1,2). nos correto, embora os argumentos a favor
dessa data (ou de qualquer outra) apresentem
problemas. O autor é desconhecido, e tanto a
data como o conteúdo parecem eliminar a possibilidade de que ele
tenha sido o companheiro de Paulo.
O nome Barnabé que aparece nos manuscritos, mas não no tra
tado em si, pode ser explicado de diversas maneiras: (1) o autor era
realmente chamado de Barnabé e, mais tarde, foi confundido com
o Barnabé apostólico; (2) a atribuição a Barnabé foi uma suposição
posterior imprecisa; (3) o autor assinou a obra com um pseudôni
mo. O possível local de origem, mas não certo, está nas proximidades
de Alexandria. O autor professa não escrever como mestre, mas seus
protestos parecem indicar que essa era, de fato, sua posição.
A principal preocupação de Barnabé era a discussão com os ju
deus sobre o Antigo Testamento: “De quem é a aliança?” A resposta
do autor é que ela pertence ao povo que veio depois (cristãos), e não
mais aos judeus. Quando os judeus se rebelaram contra Deus no inci
dente do bezerro de ouro em Êxodo 32, a aliança foi quebrada e agora
era dada ao povo de Jesus Cristo.
Barnabé alega ainda que as instituições e as práticas do judaísmo
nunca tiveram a intenção de ser observadas literalmente. Os cristãos,
por sua vez, cumprem-nas espiritualmente: o sacrifício (expiação de
Jesus Cristo), a circuncisão (ouvir a Palavra do Senhor com os ouvi
dos e o coração), as purificações (batismo), as leis alimentares (evitar
os pecadores), o sábado (oitavo dia, isto é, o “primeiro dia’ como tipo
do mundo por vir), o templo (o coração e as pessoas).