ERA SUBAPOSTÓLICA 53
O escritor parece particularmente orgulhoso da interpretação
alegórica que dá à circuncisão dos 318 servos de Abraão (Gn 14.14).
Com base no fato de que 318 era representado em grego pelas letras
iota (i), êta (ê) e tau (t), ele interpretou a circuncisão daqueles h o
mens como uma referência ao sacrifício de Jesus na cruz; afinal, as
duas primeiras letras eram as mesmas do nome de Jesus, e a última
tinha forma de cruz.
A postura extrema do escritor de espiritualizar o Antigo Testa
mento e negá-lo ao povo judeu não foi adotada por nenhum outro
nome conhecido. No entanto, Barnabé representou uma forma de
abordar o problema permanente apresentado pelo Antigo Testamen
to: a Igreja aceitar sua autoridade, mas não considerar necessárias suas
instituições religiosas.
P rim eira C lem ente é o nom e dado à carta da “igreja de Deus
situada em Roma à igreja de Deus situada em C o rin to ”. Ela é atri
buída a Clemente nos manuscritos e também por Dionísio de
C orinto em aproximadamente 170 (Eusébio, H istória eclesiástica
4.23.11). Hermas menciona um Clemente em Roma cuja tarefa
era corresponder-se com outras igrejas ( Visões 2.4.3). Todavia, C le
mente não escreveu em seu próprio nome. Em vez disso, na posição
de bispo-presbítero, ele escreveu como porta-voz da igreja romana.
A carta, portanto, tinha autoridade com unitária (e não apostólica
ou episcopal).
A data costuma ser atribuída ao reinado de Domiciano, em cerca
de 96, mas esse não é um fato totalmente certo. Alguns afirmam uma
data anterior, em mais ou menos 70.
De acordo com Irineu, Clemente foi o terceiro sucessor de Pedro
como bispo de Roma, após Lino e Anacleto (Contra as heresias 3.3.3;
Eusébio, História eclesiástica 3.15.34). Uma tradição rival fez dele o
sucessor de Pedro (Pseudoclemente, Epístola a Tiago 2; Tertuliano,
Prescrição contra os hereges 32). Epifânio, posteriormente, tentou har
monizar os relatos dizendo que Pedro consagrou Clemente, mas per
maneceu fora de cena até mais tarde (Panarion 27.6).
Conforme muitos historiadores protestantes e alguns historia
dores católicos romanos observaram, a dificuldade existe por causa da
pluralidade de bispos-presbíteros naquela época na igreja em Roma.
54 HISTÓRIA DA IGREJA
“Os apóstolos receberam Irineu e os demais aplicaram, a circunstâncias
o evangelho do Senhor passadas, a organização posterior de um bispo
Jesus Cristo para nós; único na igreja.
Jesus Cristo foi enviado
por Deus. (...) [Os O autor talvez tenha sido um homem li
apóstolos] pregavam berto da família senatorial romana Clemens.
de região em região, Ele ora havia sido um gentio convertido ao ju
de cidade em cidade e daísmo antes de aceitar o cristianismo, ora um
nomearam os primeiros judeu com alguma educação helenística.
convertidos, após
testá-los pelo Espírito, O motivo da carta foi a divisão na igreja de
como bispos e diáconos Corinto (os coríntios estavam tomando par
tidos mais uma vez). Além disso, alguns pres
bíteros da igreja haviam sido demovidos. Seria
isso uma rebelião dos novos membros contra os
daqueles que ainda viríam mais antigos ou uma revolta carismática contra
a crer. (...) Depois, eles a autoridade institucional? Tais interpretações
regulamentaram que, têm sido propostas, mas a carta em si fala prin
caso, [os designados] cipalmente sobre rivalidade e inveja pessoal.
morressem, outros
homens provados As frequentes referências a mulheres nos
deveríam dar exemplos e ensinamentos ali fazem com que
continuidade ao nos questionemos se elas eram preeminen-
ministério” tes entre aqueles que lideravam a rebelião. A
(1 Clemente 42,44). intervenção da igreja romana foi um esforço
para aliviar a discórdia na igreja em Corinto.
A carta de 1 Clemente pode ser dividida
em duas partes principais: considerações mo
rais de natureza geral aplicáveis à situação em Corinto (1-38) e suges
tões práticas para a resolução do problema (39-65). Talvez seja possí
vel perceber os métodos característicos de pregação e ensino utilizados
pelo autor na maneira como ele reúne passagens e exemplos bíblicos
que tratam de tópicos como inveja, arrependimento, obediência e hu
mildade. Embora fundamente-se principalmente em fontes judaicas,
o autor também parte de fontes pagãs para elaborar seus argumentos.
O notável conteúdo do documento inclui:
1. A afirmação de Deus como criador, com o emprego de figuras
estoicas relativas às leis da natureza, a fim de incentivar a obe
diência como resposta humana.
ERA SUBAPOSTÓLICA 55
2. A imagem de Jesus como “servo de Deus” e sumo sacerdote.
3. A afirmação da doutrina de Paulo acerca da justificação pela fé
e a citação de seu ensinamento sobre o amor em 1 Coríntios.
4. A descrição da organização eclesiástica com bispos e diáconos
como algo instituído pelos apóstolos e a provisão de que isso con
tinuasse (“presbíteros” e “bispos” são usados alternadamente).
5. O primeiro uso de uma distinção entre o clero e os leigos e de
uma terminologia sacerdotal para o ministério da Igreja (em
referência às instituições do Antigo Testamento, mas de for
ma análoga à necessidade de uma boa ordem eclesiástica).
6. O emprego do m ito da fênix com referência à ressurreição.
7. A implicação de que Pedro e Paulo morreram em Roma no
governo de Nero após Paulo ter pregado nos “limites do oci
dente” (Espanha?).
8. Uma longa oração no final, com petições positivas a favor do
governo romano.
Primeira Clemente reflete o problema contínuo na história cristã
da divisão na Igreja e, portanto, a necessidade de se promover unida
de e harmonia.
Segunda Clemente é uma homilia de exortação moral. Embora
seja associada a 1 Clemente na tradição dos manuscritos, ela foi redi
gida por um autor diferente e desconhecido. Existem alguns indícios
quanto à data: provavelmente entre o início e a metade do segundo
século. Já o local de composição pode ter sido Roma, Alexandria ou
(com certa preferência) Corinto. O sermão foi pregado por um pro
fessor ou declamador na Igreja, e o tema é arrependimento.
Um ponto teológico notável é a afirmação da Igreja espiritual
como corpo preexistente de Jesus Cristo. O sermão mostra a persis
tente preocupação cristã com a conduta moral, isto é, a maneira de se
“levar uma vida santa e justa” (2 Clemente 5).
A obra mais extensa dos Pais Apostólicos é o Pastor, uma coletâ
nea de Visões, Parábolas (Similitudes) e M andam entos (Preceitos) de
Hermas. A unidade da obra é questionada, mas talvez a melhor expli
cação para os dados por vezes conflitantes seja a de que ela é derivada
de um único autor ativo em Roma ao longo de três ou quatro décadas
na primeira metade do segundo século (refletindo, assim, distintas
situações em suas diferentes partes).
5 6 HISTÓRIA DA IGREJA
Hermas refere-se à ideia da Igreja como algo eterno e fornece infor
mações sobre sua organização contemporânea. O documento, por vezes
cansativo, é valioso por conta da imagem que passa de uma comunidade
cristã na terceira geração. Os membros estavam envolvidos em assuntos
cotidianos, e o mundo ameaçava subjugar seu estilo de vida cristão.
O interesse especial da obra diz respeito ao que fazer em relação
aos pecados após o batismo. Embora o ideal seja preservar a graça
batismal imaculada, Hermas assegura a existência de um “arrependi
mento” após a conversão para aqueles que se afastaram, mas adverte
contra a suposição de que isso estará sempre disponível, pois o fim do
mundo é iminente.
O Pastor de Hermas reflete o problema contínuo dos cristãos de vi
ver no mundo e, ao mesmo tempo, não ser “do mundo”, e mostra como
incentivar uma vida fiel entre aqueles cujo primeiro amor esfriou.
Inácio, bispo de Antioquia da Síria, escreveu sete cartas genuí
nas que sobreviveram. Uma delas foi endereçada à igreja em Roma,
suplicando aos cristãos para que não tentassem livrá-lo do martírio.
Inácio foi preso no governo do imperador Trajano (98-117) e, pro
vavelmente próximo ao fim do reinado, foi escoltado até Roma para
a execução - talvez como um dos prisioneiros a servir de vítima nos
jogos com animais selvagens, cuja finalidade era entreter a população.
Anfiteatro Flávio (Coliseu), Roma. Segundo a tradição, muitos cristãos morreram ali como
mártires, inclusive, talvez, Inácio
ERA SUBAPOSTÓLICA 57
Enquanto cruzava a Ásia Menor, Inácio escreveu quatro cartas de
Esmirna (as igrejas em Éfeso, Magnésia e Trales na Ásia e à igreja em
Roma) e, depois, tres de Troade (as igrejas na Filadélfia e em Esmirna
e ao bispo de Esmirna, Policarpo). Essas cartas foram interpoladas, e
seis outras foram acrescentadas no quarto século; essa versão expan
dida era a forma pela qual Inácio ficou conhecido até a recuperação
da edição original por estudiosos m o d e r n o s . _________________
O número sete era importante nas cole “Há um Médico que é
tâneas de cartas cristãs primitivas. Por exem carne e espírito, nascido,
plo, é indicado que Paulo escreveu a sete igre mas não nascido; que é
jas - nove cartas ao todo a essas igrejas, além
de quatro cartas individuais —, e há sete igre Deus em homem, vida
jas endereçadas em Apocalipse, sendo Éfeso, verdadeira na morte, tanto
Esmirna e Filadélfia em comum com Inácio. de Maria quanto de Deus,
primeiro passível e depois
Inácio denominava-se Teóforo (“o que
traz Deus em si”). Segundo a tradição, ele foi impassível, Jesus Cristo
o terceiro bispo de Antioquia, após Pedro e nosso Senhor”
Evódio, um desconhecido. O fato de que
(Inácio, Efésios 7.2).
apenas um nome podia ser lembrado entre
ele e a presença de Pedro em Antioquia sugere que foi a partir do fim
do primeiro século que um único bispo passou a liderar a igreja em
Antioquia.
O estilo exuberante e criativo de Inácio contrasta com a praticida-
de sóbria de 1 Clemente. Esses dois Pais Apostólicos, os mais influen
tes de todos, podem ser considerados representantes das diferentes
tendências da igreja ocidental e oriental: Clemente representando a
preocupação com a ordem e a unidade prática que caracterizavam a
Igreja Católica, e Inácio representando o sentimento quase místico de
piedade e a unidade espiritual que caracterizavam a Igreja Ortodoxa.
Ao procurar entender as cartas de Inácio, é importante lembrar
que ele estava deslocando-se rumo ao martírio e praticamente não ti
nha conforto algum. Sua personalidade criativa foi intensificada pela
situação, de modo a produzir figuras de linguagem floreadas e metá
foras mistas, por vezes construídas umas sobre as outras. Não obstan
te, Inácio tinha preocupações praticas com os problemas encontrados
nas igrejas ao longo de seu percurso.
58 HISTÓRIA DA IGREJA
Ele era especialmente preocupado com a divisão nas igrejas,
ocasionada por falsas doutrinas. Estas eram provenientes tanto dos
docetistas, os quais afirmavam que Jesus Cristo apenas “parecia” ou
“aparentava” ser verdadeiramente homem, quanto dos judaizantes, os
quais promoviam práticas judaicas. Os dois tipos de falso ensinamen
to poderiam vir do mesmo grupo, afinal, uma visão docetista de Cris
to teria sido capaz de resolver alguns problemas dos crentes judeus na
superação do paradoxo de um Messias crucificado.
A resposta de Inácio à divisão foi insistir na obediência dos cris
tãos aos líderes - o bispo (que ocupava o lugar de Deus), os pres
bíteros (que simbolizavam os apóstolos) e os diáconos (que repre
sentavam o servo Cristo). Inácio é o primeiro escritor a atestar esse
ministério triplo nas igrejas locais.
Todas as atividades (santa ceia, batismo, ágape) deviam acon
tecer sob a supervisão do bispo, ora sendo presididas por ele pes
soalmente, ora por alguém designado. Para Inácio, a exigência não
i era uma questão de validade dos atos religiosos, mas de boa ordem
e unidade.
Tendo em vista as fortes reivindicações de Inácio a favor de um
único bispo e o desenvolvimento posterior da organização eclesiásti
ca, vale notar que, para ele, o bispo ainda era congregacional, e não
diocesano, trabalhava com os presbíteros na posição de líder (como
cabeça entre os iguais) e não ocupava o cargo por motivo de sucessão
apostólica. A ausência de uma ênfase sobre o bispo na carta a Roma
levou alguns a considerar esse silêncio como um argumento desfavo
rável à presença de um bispo monárquico na época.
O utro fator a ser considerado é o assunto da carta de Inácio aos
romanos: o martírio. Isso torna o documento uma im portante fonte
primitiva para a teologia do martírio, então, em desenvolvimento.
Inácio é o primeiro a falar sobre a “igreja católica”, em referência à
igreja universal composta por todas as congregações locais, um refle
xo de sua preocupação com a unidade da Igreja.
As cartas de Inácio abordam um problema constante na histó
ria cristã: interpretações diversas da fé por aqueles que abandonam a
vida na congregação local. A resposta dele - fortalecer as estruturas
institucionais eclesiásticas - tem sido o curso mais seguido na histó
ERA SUBAPOSTÓLICA 59
ria da Igreja, embora produza resultados mistos quanto à eficácia em
alcançar unidade espiritual.
Policarpo, bispo de Esmirna, recebeu uma das cartas de Inácio e
escreveu sua própria carta aos Filipenses, em parte como resposta ao
pedido deles por copias das cartas de Inácio. Ele também a redigiu a
fim de instruí-los em justiça”, abordando as qualidades da vida cris
tã. Alem disso, Policarpo refere-se a um problema interno em Filipos
envolvendo um presbítero chamado Valente, o qual havia cedido à
tentação da avareza.
A carta aos filipenses é hoje comumente considerada uma fusão
de duas cartas: a primeira (capítulos 13—14) teria sido escrita pouco
tempo apos Inácio passar pela região em seu caminho para Roma, e
a segunda (capítulos 1—12) teria sido escrita
cerca de 20 ou 25 anos mais tarde; contudo, “A fé é a mãe de todos nós,
não parece haver qualquer necessidade pre seguida da esperança
mente de esse ter sido o caso. e precedida do amor
a Deus, a Cristo e ao
Policarpo estava tão absorto na lingua próximo” (Policarpo,
gem do Novo Testamento que todas as coisas Filipenses 3.3).
que tinha a dizer eram expressas nesse estilo.
Ele inseria frases de cartas de Paulo, Pedro e
João em novos contextos, a fim de transmitir
sua própria mensagem. Policarpo continua sendo um ícone de líder
cristão piedoso, repleto de doutrina apostólica e preocupado com um
viver justo.
Papias de Hierápolis escreveu cinco livros de Exposição dos orácu
los do Senhor (c. 130), agora perdidos e conhecidos apenas por meio
de algumas citações feitas por escritores posteriores. Atenção especial
tem sido dispensada ao seu testemunho de que Mateus escreveu o
Evangelho originalmente em hebraico e Marcos redigiu fielmente a
pregação de Pedro (mas não em ordem adequada). Ele também ates
tou o Evangelho de João (e, implicitamente, o de Lucas).
Igualmente notável é a preferência expressa de Papias pela “voz
viva” daqueles que ouviram os discípulos dos apóstolos em relação ao
que estava registrado nos livros. Embora isso seja muitas vezes consi
derado um menosprezo da Escritura, o emprego frequente da palavra
oráculos em referência a ela pode significar que sua própria obra
seja um comentário sobre os textos escritos. Nesse caso, o contraste
60
HISTÓRIA DA IGREJA
apresentado talvez diga respeito ao valor do testemunho oral de dis
cípulos antigos em relação aos livros escritos por hereges, com inter
pretações próprias da mensagem cristã.
Papias também é o primeiro escritor não canônico a fazer uma
interpretação especificamente milenar da esperança cristã escatoló-
gica. Ele defendia, a maneira de alguns escritos judaicos, uma com
preensão materialista do milênio. Papias, assim, mostra o constante
interesse cristão por questões de escatologia.
B. Literatura apócrifa
Q uando se deseja apreciar o original, é preciso ler as imitações.
Caso o leitor tenha sentido um declínio no poder espiritual do Novo
Testamento em relação aos Pais Apostólicos, perceberá um mergulho
em outro mundo, em grande parte, dos apócrifos do Novo Testamen
to do segundo século.
Q recente interesse acadêmico por essa literatura é uma reação
adequada contra sua negligência para fins históricos, mas provavel
mente não alterara a opinião cristã geral de sua inferioridade espiri
tual. Não obstante, os apocrifos permanecem como uma im portante
fonte para se avaliar a variedade de expressões de piedade popular na
Igreja primitiva.
Algumas obras apócrifas parecem ter sido escritas para entreter
e satisfazer a curiosidade. Outras são obras mais sérias para edifica
ção, as quais defendem o ascetismo e certas idéias doutrinárias. Essas
características divergentes, entretanto, estão presentes em uma única
obra em certos casos.
Todos os escritos apócrifos são valiosos por refletirem as idéias
prevalentes na época da composição, a qual é, muitas vezes, difícil
de se determinar. A discussão a seguir é limitada às obras que são, de
m odo geral, consideradas mais plausíveis por terem sido escritas no
segundo século.
As fronteiras entre ortodoxia e heresia não eram percebidas com
clareza nos círculos em que algumas dessas obras se originaram. Elas
são um lembrete de que o abandono da fé apostólica ocorria com a
mesma frequência na piedade popular e nas especulações teológicas.
ERA SUBAPOSTÓLICA 61
As categorias utilizadas na tabela aqui apresentada são um tanto
artificiais, mas não é incorreto agrupar os escritos apócrifos do Novo
Testamento de acordo com as formas literárias presentes no próprio
Novo Testamento.
Os Evangelhos apócrifos refletem os tipos de materiais encon
trados nos Evangelhos canônicos: narrativas de nascimento, dizeres
(mas não atos) de Jesus e narrativa da paixão.
Grande parte do conteúdo do Evangelho de Tomé era conhecida,
mas sem título, por meio de três papiros gregos. O texto em copta
presente no conjunto de códices encontrado em Nag Hammadi, no
Alto Egito, forneceu o texto faltante e o título. Em virtude da sua pre
sença nos códices de Nag Hammadi, o Evangelho foi descrito como
gnóstico e esteve suscetível a uma interpretação gnóstica, mas a obra
pode ser mais bem descrita como encratita (capítulo 5), ou, de forma
mais ampla, como ascética.
O Evangelho de Tomé oferece, sem ALGUNS LIVROS
contexto narrativo, uma coletânea APÓCRIFOS DO NOVO
primitiva de palavras de Jesus, muitas TESTAMENTO DATADOS
vezes semelhantes às palavras encon DO SEGUNDO SÉCULO
tradas nos Evangelhos canônicos. Mui
tos estudiosos consideram o linguajar Evangelhos
como reflexo de uma fase muito inicial
na transmissão das palavras de Cristo. Evangelho de Tomé
Estudiosos do Novo Testamento con-
jecturam há muito tempo que uma Evangelho de Pedro
coleção de dizeres de Jesus chamada Q
seria a explicação do material comum a Protoevangelho de Tiago
Mateus e Lucas. Tomé não é Q, mas de
monstra que havia coletâneas de pala Atos
vras proferidas por Jesus circulando de
forma independente. Atos de Pedro
O Evangelho de Pedro é uma nar A tos de Paulo
rativa da paixão. Ele foi inicialmente
rejeitado por líderes da Igreja por causa Atos de João
de suas supostas tendências docéticas,
isto é, por apresentar um Cristo que Epístolas
Epístola dos apóstolos
Apocalipses
Apocalipse de Pedro
62 HISTÓRIA DA IGREJA
não era totalmente humano, mas que apenas “aparentava” sê-lo (em
Sua crucificação, foi como se “Ele não sentisse d o r”). Esse Evangelho
talvez não tenha sido escrito especificamente para promover tal visão,
mas pode ser lido como se favorecesse essa compreensão de Jesus.
O Protoevangelho de Tiago diz respeito ao nascimento de Jesus,
mas tem como foco especialmente Maria. Ele promove sua virginda
de perpétua e apresenta José como um viúvo com filhos de um casa
mento anterior. A obra era m uito popular e forneceu as informações
para a elaboração posterior da doutrina mariana.
Os atos apócrifos, com suas histórias sobre as viagens e as aven
turas dos apóstolos, são mais semelhantes aos romances helenistas.
Eles fazem relatos extravagantes dos milagres dos apóstolos, e o tema
do amor casto de heróis e heroínas nos romances ganha forte ênfase
ascética. A mensagem do evangelho passa a ser esta: “Aquele que crê
e renuncia à união sexual será salvo”.
Atos de Pedro e Atos de Paulo, ambos com certeza do segundo
século, refletem basicamente pontos de vista ortodoxos. Atos deJoão
tem um tom mais gnóstico (capítulo 5). Assim como Atos de João,
Atos de André reflete o dualismo gnóstico (com ainda menos preocu
pações cristãs do que Atos deJoão), e sua data é menos certa, sendo do
segundo ou terceiro século. Atos de Tomé, preservado em siríaco e em
uma versão grega revisada, é do terceiro século.
As epístolas são representadas de forma deficiente nos textos apó
crifos. Os pseudônimos obrigatórios foram ora pouco utilizados, ora
malsucedidos. A chamada Epístola dos apóstolos (c. 150) é uma “epís
tola” apenas no sentido mais amplo de ter sido supostamente enviada
pelos apóstolos. No sentido literário, a obra é uma “revelação” pós-res-
surreição feita pelo Senhor aos apóstolos, um tipo de escrita comum
em documentos gnósticos, cuja finalidade era conferir autoridade a
ensinamentos não encontrados nas tradições do ministério de Jesus. O
autor parece ter empregado esse dispositivo literário gnóstico comum,
a fim de confirmar a doutrina ortodoxa em oposição aos gnósticos.
O utra carta do segundo século é 3 Coríntios. Embora esteja in
cluída em Atos de Paulo, ela circulava de forma independente e talvez
tenha sido escrita antes dos Atos. Ela também é antignóstica em seu
conteúdo.
ERA SUBAPOSTÓLICA 63
Um apocalipse do segundo século é o Apocalipse de Pedro. Sua
revelação diz respeito aos castigos aplicados a diversos tipos de peca
dores na vida após a morte. A preeminência do nome de Pedro nos
textos apócrifos primitivos deve ser notada: há uma obra apologé-
tica conhecida como Pregação de Pedro e também um componente
judaico-cristão das pseudoclementinas intitulado Pregações de Pedro.
C. Outros escritos
Diversos textos judaicos instigaram os cristãos a ampliá-los, alte
rados ou copiá-los. A forma preservada da Ascensão de Isaías contém
—alem de um relato judaico do martírio de Isaías —duas adições cris
tãs revelando o nascimento milagroso, a vida, a morte, a ressurreição,
a ascensão e a segunda vinda de Jesus Cristo. Há também uma descri
ção do estado da Igreja no final do primeiro século ou no início do
segundo.
A form a atual dos Testamentos dos doze patriarcas é uma obra
cristã datada do segundo século. Permanece, entretanto, a discus
são quanto a essa ser uma obra cristã alterada p o r escribas judeus
ou uma composição cristã que empregou materiais judaicos an
teriores. O conteúdo ético é bastante próximo à doutrina cristã,
mas não tem necessariamente origem cristã. O sinal mais claro
de uma influência cristã encontra-se nas declarações doutrinárias
sobre Jesus Cristo.
Os judeus produziram oráculos ao estilo da obra pagã Oráculos
sibilinos para fins de propaganda e apologia. Os cristãos preservaram
esses documentos e escreveram muitos outros, de m odo que os Orá
culos sibilinos existentes hoje são essencialmente uma composição
cristã. Embora alguns deles sejam do quarto século, há determinados
textos que são do segundo século, visto que são citados por apologis
tas cristãos da época.
Odes de Salomão talvez seja o hinário cristão mais antigo exis
tente. O argumento a favor de uma autoria cristã parece mais forte
do que as alegações de uma origem judaica ou gnóstica. Embora a
maioria dos estudiosos date-o do início do segundo século, alguns
sustentam uma data no terceiro século. A composição completa exis
6 4 HISTÓRIA DA IGREJA
te apenas em siríaco e consiste de 42 odes curtas cujo objetivo pode
ter sido a adoração.
O utro homem lembrado como compositor de hinos é Bardesa-
nes de Edessa (c. 154-222), um dos primeiros autores cristãos a es
crever em siríaco. Sua única obra hoje existente é o Livro das leis dos
países, ou Sobre o destino, um diálogo transcrito por seu discípulo Fi
lipe. A ortodoxia de Bardesanes foi considerada deficiente por líderes
cristãos sírios posteriores.
D. Limitações e valor da literatura
Mesmo os escritos mais aceitáveis aos cristãos ortodoxos - por
exemplo, os de Clemente, Inácio, Policarpo - foram criticados por
representarem um grave afastamento do cristianismo apostólico. Es
ses autores foram, de fato, inferiores aos seus mestres, mas não eram
tão simplórios como às vezes são retratados.
A acusação comum é que os Pais Apostólicos afastaram-se das
doutrinas robustas da graça e da fé expostas por Paulo e refugiaram-se
no moralismo e no legalismo. Parte dessa crítica vem de uma compre
ensão unilateral de Paulo; outra parte vem de uma negligência dos
contextos específicos em que Paulo e os Pais Apostólicos escreveram.
De fato, um leitor contemporâneo não confundiría os Pais Apos
tólicos com Paulo (ou com João ou Tiago), mas os contrastes na te
ologia podem ser facilmente exagerados. Não se esperaria a mesma
inspiração teológica e profundidade espiritual na segunda e terceira
gerações dos líderes originais; todavia, os seguidores posteriores ti
nham contribuições próprias a fazer.
Em sua defesa, pode ainda ser dito que os Pais Apostólicos eram
pessoas sinceras e piedosas que lutavam para preservar os fundamen
tos da fé em face às novas circunstâncias e aos novos desafios. Pelo
testemunho desses homens tão diferentes, podemos verificar o que
cristãos sérios consideravam falsidade e o que identificavam como re
alidade.
Sem dúvida, parte do entusiasmo da era apostólica havia desapa
recido, e a Igreja estava começando a estabelecer-se em um m undo
estranho. Em tais circunstâncias, era preciso que mais fosse dito so-
ERA SUBAPOSTÓLICA 65
bre o viver ético. Essa era uma situação que
exigia não tanto pensamentos perspicazes ou Louvo a ti, ó Senhor,
originais, mas uma fidelidade minuciosa na porque te amo.
preservação da doutrina e prática cristãs. Os Ó, Altíssimo, não me
cristãos da época nem sempre reagiam com abandones, pois és m in ha
sabedoria, mas continuavam a proclamar a esperança. Livremente
mesma mensagem básica, a mesma fé, o mes recebi Tua graça;
mo Salvador e o mesmo Deus de seus ante que eu possa, portanto,
cessores. viver por ela”
Os escritos apocrifos do Novo Testamen- (Odes de Salom ão 5.1-3).
to talvez tenham menos motivo de g l ó r i a , ------------------ -----------------
mas também demonstram seriedade religiosa
e fornecem vislumbres de certas vertentes do cristianismo primitivo,
alem de serem valiosas fontes históricas (não necessariamente para a
época do Novo Testamento, mas para sua própria época).
Alguns estudiosos alegam que o Evangelho de Tomé e o Evan
gelho de Pedro preservam material antigo e valioso relacionado aos
ensinamentos de Jesus e relevante para a compreensão de Sua morte
e ressurreição.
Dentre outras obras, Odes de Salomão reflete uma profunda espi
ritualidade ainda apreciada pelos leitores modernos.
LEITURA COMPLEMENTAR
FOSTER, Paul (Ed.). The Writings oftheApostolicFathers. Edin-
burgh: T & T Clark, 2007.
JEFFORD, Clayton N. Reading the Apostolic Fathers: A Stu-
dents Introduction. 2. ed. Grand Rapids: Baker, 2012.
KLAUCK, Hans-Josef. The Apocryphal Acts o fthe Apostles: An
Introduction. Waco, TX: Baylor University Press, 2008.
----------.Apocryphal Gospels: An Introduction. Edinburgh: T Sc
T Clark, 2003.
LAPHAM, F. Introduction to the New Testament Apocrypha.
Edinburgh: T Sc T Clark, 2003.
SKARSAUNE, Oskar; HVALVIK, Reidar (Ed.).Jewish Belie-
vers inJesus: The Early Centuries. Peabody, MA: Hendrickson, 2007.
A Igreja e o Império
I. POSTURAS CONCERNENTES AOS CRISTÃOS
As relações da Igreja com o Império Romano constituem um dos
temas principais da história cristã primitiva, e as relações do cristia
nismo com o governo civil continuaram sendo uma questão funda
mental nos séculos posteriores. A situação dos primeiros séculos foi
complexa, passando de um período de contatos instáveis a uma época
de perseguições locais e, por fim, de perseguições por todo o império.
A. Posturas dos prim eiros imperadores
No livro de Atos, o governo não distinguia cristãos de judeus,
cuja religião era legalmente reconhecida. Um episódio que exempli
fica esse fato ocorreu em Corinto, quando Paulo foi levado pelos ju
deus diante de Gálio, procônsul de Acaia, o qual declarou: Mas, se a
questão é de palavras, e de nomes, e da lei que entre vós há, vede-o vós
mesmos;porque eu não quero serju iz dessas coisas! (At 18.15).
A IGREJA E 0 IMPÉRIO 67
No entanto, também em Atos, podemos ver o que estava por trás
do tratamento desfavorável que viria a existir: os judeus que, às vezes,
provocavam confusões; a pregação cristã que, com frequência, gerava
perturbações mais amplas (algo de que as autoridades nunca gosta
ram); e o ensinamento cristão, que ameaçava a sociedade pagã. Por
exemplo, a presença dos cristãos havia sido o motivo de um distúr
bio em Roma (c. 49) durante o reinado de Cláudio, o qual expulsou
os judeus da cidade (At 18.2) em decorrência da agitação em torno
de “Cresto” (Suetônio, Cláudio 25.4). Tumulto popular também
foi uma causa importante da perseguição futura. Tudo dependia da
postura dos oficiais locais, os quais, no início, eram indiferentes - ou
nada antagônicos - , contanto que não fossem provocados.
A situação mudou no governo de Nero. Em resposta aos rumores
de que ele havia sido o responsável pelo grande incêndio que destrui
ra grande parte de Roma (64 d.C.), Nero (ou seu magistrado) acusou
e puniu os cristãos pelo ocorrido.
Tácito, o historiador romano que relata o incidente {Anais 15.44),
não deu muita credibilidade à acusação de incêndio intencional, mas
considerava o cristianismo uma “superstição mortal” merecedora de
castigo por “ódio à raça humana”. Os oficiais de Nero aparentemen
te tomaram medidas contra o grupo
(não contra os indivíduos) por causa
“do nome” que levava, isto é, por ser
cristão.
Os cristãos eram agora reconheci
dos pelas autoridades romanas como
um grupo distinto dos judeus. A per
seguição no governo de Nero foi limi
tada à Roma, mas isso criou um pre
cedente que podería ser seguido em
outros locais.
Domiciano (81-96) foi lembra
do nos escritos cristãos como o impe
rador seguinte a persegui-los, mas há Sestércio do imperador Nero, em cujo
pouca confirmação externa. Ele agiu, governo ocorreu a primeira perseguição de
provavelmente por motivos políticos, cristãos em Roma
6 8 HISTÓRIA DA IGREJA
contra certos indivíduos de alto nível em Roma que, segundo diziam,
observavam “costumes judaicos” (Dião Cássio, Epítome 67.14). Essa
ação foi diferente dos problemas que os cristãos na província da Ásia
enfrentaram durante seu reinado, os quais estão refletidos no livro de
Apocalipse.
A Ásia havia sido um centro do culto imperial desde a época de
Augusto, e o conflito político-religioso entre as classes dominantes
e a Igreja veio à tona, provavelmente alimentado pela insistência de
Domiciano em receber honras divinas. Domiciano também mandou
convocar parentes de Jesus na Palestina para questioná-los em sua
busca por descendentes de Davi; mais uma vez, a preocupação era
política (Eusébio, H istória eclesiástica 3.20).
O reinado de Trajano (98-117) fornece importantes evidências
da condição legal do cristianismo e, para esse efeito, deve ser reto
mado a seguir. Trajano deu prosseguimento à política que punia os
cristãos por “levarem o nom e” e, ao fazê-lo, seguiu um precedente
encoptrado no tratam ento de druidas, participantes de bacanais e,
ocasionalmente, adoradores de Isis e judeus.
Quando o druidismo foi suprimido na Gália - provavelmente
por motivos políticos - sob a acusação de sacrifício humano, nenhu
ma inquisição foi feita para saber se pessoas específicas haviam de fato
participado das atividades indecorosas. Todo o grupo foi condenado.
D a mesma maneira, quando os judeus foram banidos de Roma, ne
nhum esforço foi feito para determinar se os indivíduos estavam en
volvidos em alguma atividade ilegal ou imoral; fazer parte do grupo
era motivo suficiente para a expulsão.
Adriano (117-138), em resposta aos tumultos populares que
forçavam os magistrados a obedecer a exigências da multidão, procu
rou regularizar os processos aos tribunais, reafirmando, com efeito, as
políticas de Trajano.
O reinado de Marco Aurélio (161-180) foi um período ruim
para os cristãos por causa de calamidades e desgraças em diferentes
locais do m undo romano. Embora apologistas cristãos tenham ade
rido à preconização geral de Marco Aurélio como pessoa, houve um
agravamento da perseguição durante seu governo. Ocorreu uma onda
de perseguição em 166-168, época em que a guerra parta, a pressão
A IGREJA E O IMPÉRIO 69
dos alemães na fronteira do Danúbio e um surto de peste se aproxi
maram. Ao que parece, um edito geral exigia sacrifício aos deuses; a
intenção desse edito não era especificamente anticristã, mas colocou
os cristãos em evidência por seu descumprimento.
Uma nova onda de sentimentos anticristãos em torno de 177
produziu uma intensa atividade apologética. Depois de uma revolta
liderada por Avídio Cássio em 175 ter sido subjugada, Marco Auré
lio foi ao leste em 176. Novas suspeitas surgiram contra grupos que
não observavam as formas habituais de lealdade, isto é, sacrificar em
nome do imperador.
B. Posturas de pagãos para com os cristãos
Os cristãos provocavam animosidade popular considerável. As
pessoas tendem a pensar o pior de grupos que aparentam ser isola
dos, misteriosos e, de certa forma, forasteiros. Em épocas boas, os ci
dadãos ate toleram indivíduos com costumes estranhos ou crenças
diferentes, mas, em épocas ruins, eles assumem uma postura mais ne
gativa. Os cristãos eram responsabilizados por diversas calamidades
porque não adoravam os deuses tradicionais. Alguns judeus inflama
vam ainda mais as chamas da oposição, especialmente no que tangia à
questão da lealdade, ao conscientizarem as autoridades das diferenças
entre judeus e cristãos.
Além do mais, os primeiros cristãos pareciam ser obstinados. O
governador romano Plínio, o Jovem, queixou-se disso. Parecia m ui
to simples (do ponto de vista romano) queimar um incenso sobre
um altar ou jurar pelo imperador, mas isso era algo que os cristãos
comprometidos não faziam. Tal obstinação não podia ser tolerada
por um governo totalitário - afinal, sob um regime dessa natureza, a
virtude suprema consistia na obediência às autoridades devidamente
constituídas.
Os indivíduos comuns no mundo romano não tinham qualquer
obrigação regular de realizar sacrifícios (assim como a ordem de um
policial hoje em dia para “seguir em frente” não implica uma obriga
ção de movimento perpétuo), mas, se a ordem para sacrificar fosse
proferida por um magistrado devidamente constituído, isso exigia
7 0 HISTÓRIA DA IGREJA
obediência. Q uando os cristãos se recusavam a realizar atos de leal
dade, como queimar incenso ou reconhecer César como senhor, as
autoridades e os demais viam-no com maus olhos.
Os apologistas cristãos costumavam responder a três outras acu
sações: ateísmo, canibalismo e incesto. Essas acusações parecem ser
absolutamente inacreditáveis para os cristãos hoje em dia, então, al
gumas explicações são necessárias.
No mundo antigo, o ateísmo era prático, não teórico. Ateu era
quem não observava as práticas religiosas tradicionais, independen
temente da fé que professava. (Por exemplo, Epicuro acreditava nos
deuses gregos. Todavia, não achava que eles interferissem na vida hu
mana; em vez disso, entendia que os ritos tradicionais tinham apenas
a finalidade de honrá-los, e que não se devia esperar qualquer resposta
à oração. Logo, seus seguidores frequentemente dispensavam a obser
vância desses rituais e, por essa razão, eram considerados ateus.)
Os apologistas cristãos insistiam em dizer que os cristãos acre
ditavam em Deus, em Jesus Cristo e no Espírito Santo (Justino
M ártir parece acrescentar os santos anjos também), mas isso não
satisfazia a base da objeção, visto que eles não realizavam as cerim ô
nias habituais.
A acusação de canibalismo pode ter derivado da linguagem cristã
relativa à santa ceia, na qual que se come o corpo e bebe o sangue.
O incesto talvez tenha sido sugerido pelo fato de que os cristãos se
referiam uns aos outros como "irmãos” e "irmãs” e de que homens e
mulheres compartilhavam à mesa no “banquete de am or”.
Outras acusações de imoralidade aparentemente surgiram por
que os romanos eram incapazes de diferenciar os gnósticos libertinos
(que alegavam ser cristãos) dos verdadeiros cristãos. Os cristãos pri
mitivos que escreviam contra as heresias deixaram claro, entretanto,
que os culpados de imoralidade sexual eram os membros das seitas
gnósticas.
Essas e outras acusações eram admitidas com mais prontidão
contra os cristãos, porque eles se m antinham fora das atividades nor
mais da sociedade. Eles permaneciam separados porque quase todos
os âmbitos da vida ali - atletismo, entretenimento, assuntos políticos
e muitas transações comerciais - eram permeados de idolatria.
A IGREJA E O IMPÉRIO 71
Outro tipo de desprezo popular em relação aos cristãos é repre
sentado por um grafite encontrado em Roma. O desenho mostra uma
pessoa com cabeça de jumento pregada na cruz e, ao lado, alguém
com a mão erguida em tributo, com a inscrição: “Alexamenos adora
seu deus”. A cabeça de jumento talvez seja proveniente de uma blasfê
mia, conhecida por meio de fontes pagãs, segundo a qual era proibi
do aos judeus entrar no Lugar Santíssimo no templo de Jerusalém (ao
contrário de templos pagãos, que eram abertos ao público), porque
sua imagem de culto (os templos pagãos sempre alojavam uma ima
gem da divindade) era um jumento, e isso seria motivo de vergonha.
Filósofos como Celso, o qual escreveu a primeira grande injúria
contra cristãos - Palavra verdadeira, cujo conteúdo pode ser res
taurado em grande parte pela resposta de Orígenes, Contra Celso -,
manifestaram desprezo e escárnio intelectual contra os cristãos, que
eram vistos como membros não rentáveis da
sociedade ou como um bando miserável de Cecílio, oponente pagão
fracotes composto por mulheres, crianças
e escravos. Os cristãos, além disso, simples do cristianismo: “Por
mente chamavam as pessoas a “crer”, sem se que os cristãos não têm
ocupar com demonstrações racionais. altares, templos ou imagens
Celso suscitou as questões filosóficas consagradas ? Por que eles
que Porfírio eJuliano viriam a elaborar mais nunca falam de forma
tarde: Se o cristianismo fosse verdade, por aberta e nunca congregam
que havia chegado tão tarde à história huma livremente, salvo pela razão
na? Será que os milagres de Jesus não eram de que aquilo que adoram
feitos por meio de mágica? Como a encar
nação podería ser possível, uma vez que en e escondem é digno de
volve alterações na divindade? Não seria a punição ou de vergonha?”
imortalidade da alma um objetivo mais de
sejável do que a ressurreição do corpo? (Minúcio Félix,
Otávio 10).
Orígenes respondeu aos ataques afir
mando que Deus havia preparado o caminho para o cristianismo e
que o cumprimento das profecias demonstrava sua veracidade. Os
milagres de Jesus não eram operados por mágica, conforme demons
trado pelo aperfeiçoamento moral que Ele trouxe à vida humana e
pelo fato de que eles nunca eram usados para ganho pessoal. A en
carnação provocou uma mudança nas circunstâncias, mas não na na-
72 HISTÓRIA DA IGREJA
tureza do Logos (Verbo). A ressurreição envolve a transformação em
uma forma corporea superior. A rápida expansão do cristianismo não
teria sido possível sem auxílio divino.
Galeno compartilhava da consternação de Celso quanto ao fato
de os cristãos substituírem a razão pela fé, mas louvava o estilo de vida
deles (capitulo 8) por exemplificar aquilo que os filósofos procura
vam inculcar com base na razão.
Os filósofos Epiteto e Marco Aurélio (este último também impe
rador romano de 161 a 180) reprovavam a presteza dos cristãos para
o martírio. Embora sua própria filosofia estoica permitisse o suicídio
em determinadas situações, eles consideravam os cristãos indivíduos
motivados por um fanatismo cego.
O escritor satírico Luciano de Samósata foi o racionalista que ri
dicularizou a ingenuidade dos cristãos enganados pelo charlatão Pe
regrino. Peregrino foi um filosofo cínico que se associara aos cristãos
na Palestina e alcançara uma posição de liderança entre eles. Q uando
foi preso pelas autoridades, os cristãos despenderam enormes esfor
ços para suprir suas necessidades. Ao ser liberto, o filósofo conseguiu
extorquir deles uma grande quantia de dinheiro.
O leitor cristão atual pode identificar, por trás do relato desde
nhoso de Luciano, a pratica dos ensinamentos de Jesus Cristo acerca
do cuidado com os encarcerados.
II. BASE LEGAL DAS PERSEGUIÇÕES
Não há duvidas quanto à existência das perseguições. Embora
não tenham sido tão constantes ou tão extensas como frequentemen
te se supõe, elas sempre estiveram presentes como possibilidade. O
que não está tão claro, apesar de afirmações assertivas, é o motivo por
trás delas e sua base legal.
Muitas explicações têm sido apresentadas, mas a maioria delas é
baseada em conjecturas. Havia uma lei geral proibindo o cristianismo
na época de Nero ? Os governadores impunham ordem pública por
meio de ação policial direta, sem referência à legislação específica? Os
cristãos eram perseguidos por infração a leis criminais relacionadas à
traição, a assembléia ilegal ou ao culto estranho ? O motivo da perse-
A IGREJA E 0 IMPÉRIO 73
guição era religioso - isto é, estava relacionado à oposição aos deuses
romanos e à ameaça percebida ao Estado romano ?
Diversos fatores devem ser levados em conta para se compreen
der as causas da perseguição. Os cristãos, naturalmente, começaram
com o pé esquerdo no que diz respeito às autoridades romanas: eles
adoravam um homem que havia sido crucificado por decisão judi
cial de um governador romano, sob a acusação de ser um pretendente
messiânico (real). Tal fato sempre es
taria contra eles.
Os cristãos, por razões religiosas, Trajano, imperador em cujo governo o
não podiam envolver-se nas expres Império Romano atingiu sua maior extensão
sões aceitas de lealdade política; por geográfica e o qual estabeleceu a política
isso, aparentavam ser uma ameaça ao imperial para o tratamento dos cristãos
Estado romano. Além disso, a animo
sidade popular incitada pelo isola
mento e secretismo dos cristãos, bem
como os tumultos civis que a presença
deles costumava causar, era parte do
que estava por trás da perseguição.
As cartas do ano 112 trocadas
por Plínio, o Jovem (Epístolas 10.96),
governador da Bitínia, e pelo impera
dor Trajano fornecem um vislumbre
da situação legal. Com base nessas
correspondências, fica evidente que a
acusação padrão já era “o nome”: “Per
guntei se eram cristãos”. Essa base de
acusação não era nova, e a única vez
que poderia ter se tornado operante
- segundo nosso conhecimento - teria sido no governo de Nero. O
próprio Plínio nunca havia estado presente em investigações de cris
tãos, então, não sabia qual era o crime deles.
Ele encontrou três grupos distintos entre os acusados:
1. Aqueles que confessavam ser cristãos e permaneciam firmes
na confissão —a estes ele ordenava a execução ou, se fossem
cidadãos romanos, mandava que fossem enviados a Roma.
7 4 HISTÓRIA DA IGREJA
2. Aqueles que alegavam jamais ter sido cristãos - a estes ele li
bertava, contanto que recitassem uma oração aos deuses e ofe
recessem incenso e vinho a uma estátua do imperador, “coisas
que os verdadeiros cristãos não podem ser obrigados a fazer”,
constituindo um teste razoável para se determinar quem era
cristão e quem era leal a Roma.
3. Aqueles que apostatavam, ou seja, que haviam sido cristãos,
mas que deixaram de sê-lo (alguns destes tinham apostatado
20 anos atrás, isto é, no governo de Domiciano) e provaram
isso adorando a estátua do imperador e os deuses e amaldiço
ando Cristo. Com estes, Plínio aprendeu o que sabia sobre o
cristianismo: não se tratava de algo perigoso, mas apenas de
“uma superstição perversa e extravagante”.
Plínio fez três perguntas a Trajano: (1) Deve haver distinção
quanto à idade e à fragilidade? (2) Os apóstatas devem ser perdoa
dos? (3) A punição é atribuída ao nome em si ou aos crimes relacio
nados ao nome ?
Isso significa que, se a punição fosse pelo nome, aqueles que não
eram mais cristãos poderíam ser perdoados; mas, se o castigo fosse
pelos crimes associados ao nome, o inquérito teria de prosseguir, e
culpados teriam de ser punidos, independentemente do tempo de
corrido. Os cristãos fiéis queriam que a investigação tivesse como
base os supostos crimes, pois não eram culpados de nenhum; já os
apóstatas queriam que ela tivesse como base o nome, pois não eram
mais membros do cristianismo. O próprio Plínio queria encorajar
apóstatas, pois acreditava que muitos poderíam ser recuperados da
superstição cristã.
Trajano forneceu a Plínio a resposta que ele desejava, aprovando
seus procedimentos. Ele ignorou a primeira pergunta, que dizia res
peito a questões restritas ao critério do governador.
De resto, apresentou três respostas:
1. Os cristãos não deveríam ser perseguidos; só quando fossem
acusados e condenados é que deveríam ser punidos. Isso pode
soar contraditório, mas estava de acordo com os procedimen
tos romanos legais. Roma não tinha um prom otor público,
A IGREJA E O IMPÉRIO 75
e o sistema jurídico era acionado quando alguém fazia uma
acusação formal diante de um magistrado.
2. Nenhuma acusação anônima deveria ser recebida. O acusador
tinha de agir da maneira legal apropriada, apresentando-se
pessoalmente.
3. Aqueles que negavam a fé deveriam ser perdoados; a punição,
portanto, tinha base no “nome”. Os apologistas cristãos argu
mentaram vigorosamente contra esse procedimento, mas o
curso da ação legal romana já havia sido definido.
Antes de Marco Aurélio, as medidas contra os cristãos eram li
mitadas, pois seu número parecia pequeno. Uma vez que apenas o
governador podia proferir sentença de morte, a maioria dos casos
conhecidos de martírio aconteceu nas grande cidades provinciais.
Os governadores recebiam ampla liberdade segundo a lei romana.
A ameaça de perseguição estava
sempre presente, mas não era uma
éxperiência constante.
Antes de meados do terceiro
século, as perseguições eram locais
e ocasionais. Embora se tenham
tornado um pouco mais frequentes
no governo de Marco Aurélio, a si
tuação legal não havia mudado.
Duas reações cristãs às perse
guições resultaram em produções
literárias significativas: a apoio-
gética e o martírio. A primeira
recebeu o nome da palavra grega
apologia, que significa “defesa”. A
segunda, da palavra grega martys,
“testemunha”. Os cristãos expres
savam, por escrito, sua defesa e um
pedido de tolerância. Além disso,
contavam a história de membros Busto de Marco Aurélio, de Cirene (atual
fiéis que haviam morrido em tes- Líbia), em cujo governo houve atividade
temunho à fé apologética intensa por parte dos cristãos
76 HISTÓRIA DA IGREJA
III. APOLOGISTAS CRISTÃOS DO SEGUNDO SÉCULO
A. Escritos
A apologia mais antiga preservada em sua totalidade é, possivel
mente, de Aristides de Atenas. Embora ela tenha sido redigida em
grego, o texto que apresenta melhores condições é sua tradução siría-
ca, visto que o texto grego preservado é uma reformulação da apolo
gia feita por um autor bizantino.
A Carta a Diogneto apresenta uma imagem agradável da vida cris
tã. O autor anônimo defende que a origem divina do cristianismo é
superior à idolatria dos pagãos e ao culto ritualista dos judeus. A data
é incerta, mas a obra parece respirar uma atmosfera primitiva. Por
outro lado, os homens conhecidos pelo nome de Diogneto, que po
deríam ser o destinatário da apologia, pertencem ao final do segundo
século. Ademais, o texto em questão parece conter parte de uma ho-
milia anexa ao final.
APOLOGISTAS
Nom es Local Im p e ra d o re s
(1) Conhecidos por fragm entos:
Quadrado, Pregação de Pedro e Adriano (117-138)
A risto de Pela
M ilcíades, Apolinário d e Hierápolis Marco Aurélio (161-180)
e Melitão de S a rd e s
(2) Carta a Diogneto Atenas D ata incerta
(3) Aristides Roma A driano ou Antonino Pio (138-161 )
(4) Ju stin o M ártir Síria
A ten a s A ntonino Pio e M arco Aurélio
(5) Taciano A n tio q u ia
(6) Atenágoras Marco Aurélio
Marco Aurélio
(7) Teófilo Côm odo (180-192)
(8) M inúcio F élix Cartago? Entre Marco Aurélio e Septím io
Severo (193-211)
Taciano nasceu no leste da Síria como pagão e foi convertido
durante uma viagem a Roma, onde se tornou pupilo de Justino. Ele
A IGREJA E 0 IMPÉRIO 77
compôs uma harmonia dos quatro Evangelhos, o Diatessarão, que
passou a ser a forma padrão dos Evangelhos nas regiões de língua
siríaca durante dois séculos. Ali, ele se tornou um líder do pen
samento encratita em seus últimos anos de vida. Sua abordagem
apologética visava derrubar a alternativa pagã. O Discurso contra
os gregos (177-178) é, sobretudo, um golpe contra a cultura gre
ga e talvez tendo sido redigido com Atenas em mente. A obra foi
classificada retoricamente como um “adeus” à cultura grega ou uma
“exortação” {protréptico) para que se aceitasse a “filosofia bárbara”
do cristianismo.
Atenágoras (176-177) de Atenas foi o apologista mais completo
do segundo século no aspecto filosófico. Sua Petição ou Embaixada
{Súplica ou Legação) adapta o modelo das obras filosóficas do médio
platonismo. Ao responder às acusações pagãs contra os cristãos, Ate
nágoras alega a superioridade da moral cristã
e das concepções cristãs de Deus em relação “Deus não tem necessidade
às descrições pagãs de seus deuses. de holocaustos, embora
Atenágoras faz uma primeira formula nos caiba oferecer sacrifício
ção da doutrina da Trindade. Há incerte sem sangue e o emprego
zas quanto à sua autoria de Sobre a ressur da razão” (Atenágoras,
reição, uma obra que defende a ressurreição Petição 13).
com base na natureza e na razão, e não nas
Escrituras.
Teófilo, bispo de Antioquia, redigiu
uma obra em aproximadamente 180, A Autólico, composta por três
livros. Sua visão do cristianismo apresenta muitas semelhanças com
o judaísmo helenístico. Como apologista, ele fala do Logos, mas evita
mencionar Jesus Cristo. Ele apresenta um argumento cronológico a
favor da antiguidade das escrituras judaicas, nas quais o cristianismo
estava fundamentado, e oferece uma leitura alegórica do relato da
criação contido em Gênesis.
É possível que um apologista latino tenha pertencido ao fim do
segundo século, a saber, Minúcio Félix. Existe uma nítida proximi
dade entre o conteúdo de Otávio, de Minúcio Félix, e o de Apolo
gia, de Tertuliano, datado de cerca de 200. A maioria dos estudiosos
dá prioridade a Tertuliano, mas há discussão o suficiente para que se
78 HISTÓRIA DA IGREJA
considere a possibilidade de Minúcio Félix ter escrito sua obra pri
meiro. A apologia é escrita como um diálogo entre o pagão Cecílio
e o cristão Otávio. Nela, há um argumento pagão acompanhado da
resposta cristã, resultando na conversão de Cecílio.
B. Justino Mártir como apologista representativo
O apologista cristão mais importante e influente do segundo sé
culo foi possivelmente Justino Mártir, que incorporou tanto em vida
como em morte as duas respostas cristãs à perseguição responsáveis
pela produção de obras literárias: a apologética e o martírio. Foram
preservados duas Apologias e um Diálogo com Trifão de Justino, bem
como um relato de seu julgamento, os Atos deJustino.
O que se sabe sobre a vida de Justino provém principalmente dos
capítulos iniciais do Diálogo. Ele nasceu em Samaria, na colônia ro
mana de Neápolis (atual Nablus), mas não era samaritano nem judeu.
Justino relata sua busca pela filosofia, época em que estudou sob a
tutela de um estoico, um peripatético, um pitagórico e um platônico.
Por fim, encontrou um ancião (em Neápolis ou em Éfeso?) que, na
metodologia socrática, suscitou questões às quais só a “filosofia cris
tã” poderia responder.
Embora o pensamento de Justino se encaixe exatamente no mé
dio platonismo do segundo século, ele passou a considerar o cristia
nismo a filosofia, isto é, a meta da busca humana. Nas palavras de
Eusébio, “Justino, como filósofo, serviu como embaixador da palavra
de Deus” (História eclesiástica 4.11).
Justino foi a Roma, onde, instalado em um alojamento aluga
do, ensinava a doutrina cristã em uma escola particular (da qual há
__________________ uma descrição em Atos deJustino'). Um filó
“Todas as coisas sofo cínico, Crescêncio, apresentou acusa
apropriadas já ditas ções contra Justino, e ele foi executado por
entre os homens são volta de 167.
propriedade nossa, dos
cristãos” (Justino, As batalhas apologéticas de Justino ti
nham quatro frentes: contra intelectuais
2 Apologia 13). pagãos, contra o Estado, contra os judeus e
contra os hereges. Eusébio afirma que Justi-
A IGREJA E 0 IMPÉRIO 79
no escreveu duas apologias. A 2 Apologia precede a 1 Apologia nos
manuscritos, mas os estudiosos agora acreditam que ela é um apên
dice desta última. A 1 Apologia é um discurso direcionado ao impe
rador, possivelmente motivado pelo martírio de Policarpo (c. 156),
pois foi escrito em oposição aos tumultos populares contra os cristãos
na Ásia. Justino aqui recorre a um rescrito do imperador Adriano,
que exigia julgamentos regulares e acusações específicas contra os
cristãos, criticando a prática de condená-los unicamente pelo “nom e”.
A 2 Apologia - ora um anexo da 1 Apologia, ora um fragmento de
outra apologia - é uma petição endereçada ao Senado, motivada por
outro caso de martírio.
Justino, assim como os outros apologistas, respondia a acusações
de incesto, canibalismo, ateísmo e participação em grupo subversivo.
Ele declara que o cristianismo não é imoral; pelo contrário, é muito
moral. Justino também argumenta a favor da antiguidade das escri
turas judaicas e do cumprimento de suas profecias no cristianismo.
Ele demonstra uma autoconfiança considerável em relação tanto ao
Estado como à sinagoga, visando, a bem da verdade, a conversão do
império.
Bastante notável é a atenção que Justino dispensa aos demônios,
com os quais ele identifica os deuses pagãos. Justino encontra aspec
tos análogos às crenças cristãs na mitologia grega, a fim de tornar a
doutrina cristã compreensível e aceitável aos leitores pagãos. Além
disso, explica as semelhanças dos mistérios com as práticas cristãs ti
das como imitações demoníacas.
A fim de acabar com o mistério das reuniões cristãs, Justino ex
plica o que estava envolvido no batismo e no culto dominical. Ao es
clarecer o relacionamento entre Cristo e Deus, ele expressa a doutrina
do Logos, a respeito da qual será dito mais adiante.
O Diálogo com Trifão é a declaração mais completa feita pela
Igreja primitiva de suas controvérsias com o judaísmo. Ele se encai
xa no quadro das relações decadentes entre a Igreja e o judaísmo, as
quais se estendiam desde a carta de Paulo aos Romanos, a epístola aos
Hebreus, as coletâneas de testemunhos relacionados ao Antigo Testa
mento (que Justino pode ter usado), Barnabé, o Diálogo, a homilia de
Melitão Sobre a Páscoa e a obra Jasão e Papisco, de Aristo (agora per-
80 HISTÓRIA DA IGREJA
dida, mas que, segundo outras fontes, termina com o judeu pedindo
para ser batizado).
O Diálogo com Trifão é proveitoso, pois mostra as questões con
troversas entre judeus e cristãos. O diálogo era uma forma literária
comum, e não devemos supor que o texto seja a transcrição real de
uma discussão. O conhecimento de Justino
“A lei promulgada sobre o judaísmo, entretanto, indica que ele
em Horebe agora está já havia se envolvido em discussões com ju
antiquada e pertence deus, e o conteúdo provavelmente reflete tais
somente a vós [judeus]; ocasiões.
mas esta [lei e aliança
Trifão, o judeu, apresentou duas ques
final] é para todos, tões em torno das quais o debate girava (ca
universalmente” pítulo 10): Em primeiro lugar, por que os
cristãos não vivem de forma diferente dos
(Justino Mártir, Diálogo gentios (no que diz respeito aos costumes
com Trifão 11.2). religiosos), visto que as Escrituras ordenam
isso ao povo da aliança? Em segundo lugar,
por que os cristãos colocam a esperança em
um homem crucificado ? Em outras palavras, as questões principais
são três: (1) Cristologia: Jesus é o Messias anunciado na Escritura?
(2) A Lei: qual é o verdadeiro significado e propósito da lei do Antigo
Testamento ? (3) O verdadeiro Israel: a Igreja é o novo povo de Deus ?
A questão central, concernente ao Messias, é debatida principal
mente em termos das profecias do Antigo Testamento. Relacionados
a ela, há assuntos como: o nascimento virginal, a interpretação das
Escrituras e as duas vindas do Messias (a primeira em humilhação e a
segunda em glória). Justino argumenta que a lei do Antigo Testamen
to foi imposta a Israel como castigo e era algo temporário, em pre
paração para a chegada da aliança em Jesus Cristo. Os cristãos agora
são o verdadeiro povo de Deus. Ao longo de seus escritos, há outras
diferenças básicas recorrentes em questões práticas, tais como o fim
da circuncisão física e da observância do sábado.
Justino observa que havia dois tipos de judeus crentes em Jesus:
aqueles que insistiam na obrigação dos gentios em obedecer à lei e
aqueles que, embora guardassem as leis, não insistiam para que os
crentes gentios o fizessem. Essas diferenças eram pareadas por duas
A IGREJA E O IMPÉRIO 81
opiniões por parte dos cristãos gentios: aqueles que insistiam para
que os crentes judeus abrissem mão da lei e aqueles que, embora rejei
tassem o cumprimento da lei pelos gentios, permitiam que os cristãos
judeus o fizessem.
O cristianismo tinha uma dialética inerente às suas relações com
o judaísmo. Por um lado, suas afirmações de legitimidade e autorida
de das antigas Escrituras dependiam da aceitação do Antigo Testa
mento e do testemunho judaico a essas Escrituras. Por outro lado, as
alegações de o próprio cristianismo ser o cumprimento das profecias
do Antigo Testamento e o novo povo de Deus envolviam uma rejei
ção dos judeus, visto que eles não aceitavam Jesus como Messias.
Apesar das relações decadentes, as doutrinas e tradições de ju
deus e cristãos influenciaram-se m utuamente até o quarto século.
C. A doutrina do Lo g o s
Os Pais Apostólicos, assim como o Novo Testamento, não apre
sentavam uma interpretação precisa para o relacionamento entre Je
sus Cristo e Deus, dispondo, em vez disso, de fórmulas envolvendo
Deus, Cristo e o Espírito Santo.
Os cristãos primitivos, em virtude das origens judaicas e da opo
sição ao paganismo, salientavam a unicidade de Deus, mas conhe
ciam o Messias e a experiência de ter Deus operando por intermédio
do Espírito Santo. Os apologistas declaram, de forma mais explícita,
uma Trindade preexistente composta por Deus, o Logos (Verbo) e o
Espírito Santo, mas é especificamente em relação a Cristo como L o
gos de Deus que eles fizeram sua contribuição mais significativa.
A cristologia do Logos, por parte dos apologistas gregos no se
gundo século, tornou-se a base para as especulações ortodoxas pos
teriores acerca da Trindade. Será apresentada aqui uma descrição da
doutrina iniciada por Justino, mas expressa de m odo mais completo
por Atenágoras e Teófilo. Os apologistas representam a confluência
de idéias do lado pagão e do lado judaico que poderiam ser utilizadas
para apoiar a preexistência de Jesus Cristo.
Do contexto judaico, vieram concepções sobre a preexistência da
Lei (especulação rabínica), da Sabedoria (literatura de sabedoria ju
82 HISTÓRIA DA IGREJA
daica), do Messias e do Espírito (ideia adotada por Paulo). O grau em
que esses elementos do pensamento judaico eram realmente hiposta-
siados como entidades distintas é questionado, apesar de a linguagem
ocasional sugerir a existência separada.
Q uanto ao termo Logos, havia um possível antecedente na “Pala
vra do Senhor” do Antigo Testamento e no emprego da memra (“Pa
lavra”) do Senhor como intermediária entre Deus e Seu m undo nos
targuns judaicos (paráfrases da Escritura).
N o contexto grego, a palavra logos tinha múltiplos significados,
dois dos quais são importantes aqui: logos como a razão na mente, a
palavra racional; e logos como a palavra na língua, a palavra falada.
Os gregos desenvolveram a ideia de que a fala é uma atividade racio
nal, isto é, existe uma continuidade entre o pensamento na mente e a
palavra na língua. N a filosofia, havia a especulação estoica acerca do
principio racional (por vezes, expresso como logos) responsável por
conferir ordem ao universo.
O filósofo judeu Fílon fundiu essa ideia estoica à crença judaica
em um Deus pessoal, tratando logoi como pensamentos ou raciocí
nios presentes na mente de Deus.
O aspecto em que o prólogo do Evangelho de João se encaixa
nessa explanação não é claro. Será que o Verbo de João 1 reflete prin
cipalmente a convenção grega, sobretudo filosófica, de logos, ou re
presenta a visão hebraica/aramaica, ou é uma fusão das duas linhas
de pensamento ?
Para Fílon, o logos tem uma variedade de funções como expressão
de Deus e é aparentemente hipostasiado, mas João faz uma afirmação
que não pode ser encontrada no contexto grego nem no judaico: ele
declara que o Logos foi encarnado como uma pessoa histórica espe
cífica.
Com Justino e os apologistas, esses dois afluentes certamente são
unidos em uma associação sistemática entre o Messias e o logos grego
preexistente, e também ao Verbo, à Sabedoria ou ao Espírito preexis
tentes do judaísmo.
Podemos esquematizar o pensamento deles compondo cinco es
tágios na trajetória do Logos:
A IGREJA E 0 IMPÉRIO 83
1. O Logos como a razão ou a sabedoria presente na mente de
Deus - Sua razão é sempre imanente.
2. O Logos como a palavra falada ou articulada - Deus enunciou
Sua palavra, especialmente na criação do mundo, conferindo
uma existência distinta a ela sem esvaziar-se de sua razão.
3. O Logos imanente ao mundo - Deus
implantou Sua razão tanto no uni
verso, conferindo ordem racional à “O Filho de Deus é o
criação, como na mente dos seres hu Logos [Palavra] do Pai em
manos, inspirando a filosofia, a arte, a
literatura e outros (a palavra ou sabe forma [ou pensamento]
doria de Deus como agente da criação e realidade. (...) Ele é o
bem como a palavra seminal em cada primeiro gerado do Pai,
indivíduo são uma imagem do divino; mas não por ter vindo
logo, a intenção é existir mais do que
razão humana). à existência; desde o
início, Deus, sendo a
4. O Logos como a palavra revelada de Mente eterna, tinha em
Deus nos profetas. si o Logos, uma vez que
sempre esteve tomado pelo
5. O Logos encarnado em Jesus - a pa Logos [Palavra ou Razão]”
lavra divina fez-se carne como ser (Atenágoras, Petição em
humano. favor dos cristãos 10).
O valor apologético desse esquema era
enorme. Ele associava Jesus - o objeto da fé
cristã - à filosofia grega e a conceitos gregos conhecidos, além de ofe
recer uma clara ilustração de como Jesus Cristo poderia ser um com
Deus e, ao mesmo tempo, distinto dele.
Assim como a palavra na mente transforma-se em palavra na
língua, Cristo, a eterna razão de Deus, mesmo permanecendo um
com Ele, também veio a ter uma existência separada na obra divi
na de criação e revelação. Além disso, Ele era equivalente à ordem
racional do universo (reconhecida pela filosofia), implantada na
criação.
Em seguida, indo além de qualquer pensamento grego ou judai
co, essa Palavra de Deus não era apenas o meio da atividade criativa
divina, mas passou a ser também o meio da atividade salvífica divina
ao encarnar-se na pessoa de Jesus.
8 4 HISTÓRIA DA IGREJA
O pensamento ortodoxo posterior acerca de Cristo em Sua rela
ção com o unico Deus - embora fosse além e, dessa forma, corrigisse
a cristologia do Logos - seguiu esses passos.
D. Resumo dos apologistas
Os cristãos apologistas demonstraram ter uma dívida considerá
vel com a apologética judaica anterior. Os aspectos que os pensadores
judeus desbravaram para os pensadores cristãos incluem argumentos a
favor: (1) de Moisés e das Escrituras, por serem mais antigos do que a
literatura e a filosofia grega; (2) dos gregos, por tomarem as boas idéias
dos bebreus; (3) da superioridade do monoteísmo em relação ao polite-
ísmo pagão (também com base no pensamento filosófico grego); e (4)
da interpretação do pensamento bíblico em termos de cultura grega.
Com o defensores da fé, os apologistas respondiam a acusações
populares contra os cristãos e pediam tolerância. Eles afirmavam que
' os cristãos eram cidadãos verdadeiramente bons e oravam a favor do
império. Em um nível mais profundo, eles lutavam contra três ques
tões fundamentais que, embora reformuladas, ainda exprimem o “es
cândalo” da fé cristã:
1. Com o a universalidade da salvação podia ser sustentada em
uma religião que mal tinha 130 anos de existência? A resposta
associava o cristianismo às escrituras judaicas e aos propósitos
originais de Deus.
2. Com o se pode aceitar o escândalo da cruz, isto é, um Messias
sofredor que é Deus ao mesmo tempo? A resposta associava
Jesus à eterna Palavra de Deus e culpava a influência dos de
mônios pela Sua morte.
3. Com o o poder de demônios no paganismo e a perseguição
dos cristãos podem ser conciliados com a providência de um
Deus bom? A resposta recorria à fé na vitória de Jesus Cristo
sobre os demonios e à vindicação final dos propósitos divinos
na segunda vinda de Cristo.
Os apologistas não ficaram satisfeitos com a defesa. Eles partiram
para a ofensiva, atacando os cultos pagãos, que eram mitológicos, ir
racionais e, muitas vezes, ligados à imoralidade.
A IGREJA E O IMPÉRIO 85
Além disso, os apologistas procuraram provar o cristianismo. De
especial importância aqui era o argumento das profecias cumpridas.
Uma grande diferença entre o mundo moderno e o mundo em que o
cristianismo surgiu é que as pessoas de hoje consideram melhor aquilo
que é novo, e mais verdadeiro aquilo que é recente. Já no mundo gre-
co-romano, sobressaía o oposto: quanto mais antigo, mais verdadeiro.
Em um m undo que valorizava a antiguidade, os apologistas
alegavam que o cristianismo não era uma religião nova, mas que re
montava à religião original da humanidade e representava o auge dos
desígnios de Deus previstos nos profetas do Antigo Testamento. O
argumento da profecia servia tanto para responder à acusação de que
o cristianismo era algo novo como para provar sua veracidade.
Os apologistas, além disso, faziam exposições da fé cristã. Do
ponto de vista doutrinário, eles salientavam o monoteísmo e o Cria
dor. Jesus Cristo e o Espírito Santo eram apresentados em um relacio
namento com Deus. Dessa maneira, eles foram pioneiros no desen
volvimento da teologia cristã.
Os apologistas representam um im portante avanço do esforço
intelectual cristão na adaptação e apropriação cultural. Eles utiliza
vam a filosofia da época para fins cristãos. Além disso, como apolo
gistas, dirigiam-se aos de fora ostensivamente. Não sabemos até que
ponto os não cristãos liam suas obras; como costumava ser o caso des
de então, elas eram provavelmente mais lidas por cristãos do que por
aqueles a quem eram realmente dirigidas.
N o entanto, os apologistas representam uma nova etapa na ati
vidade intelectual cristã. O Novo Testamento, os Pais Apostólicos e
os textos apócrifos do Novo Testamento eram endereçados aos parti
cipantes do movimento cristão. Os apologistas, independentemente
de quem viriam a ser os leitores, escreviam tendo em mente os não
cristãos. Os autores do Novo Testamento, em certa medida, haviam
empregado a filosofia retórica e moral da época para expressar-se; já
os apologistas utilizavam explicitamente um corpus maior de filosofia
e literatura pagã para defender e esclarecer o pensamento cristão.
Os cristãos instruídos ora reagiam contra seu passado pagão e
rejeitavam-no, ora apresentavam o cristianismo como, em certo sen
tido, uma continuidade dele e seu cumprimento. Os convertidos ge-
8 6 HISTÓRIA DA IGREJA
ralmente exageram no contraste entre o novo e o velho ou explicam o
novo como aquilo que o passado os levou a aceitar por lógica.
Taciano representa a primeira abordagem: ele procurou destruir
quaisquer conexões com o passado. Já a abordagem de seu mestre,
Justino, foi diferente: ele tentou construir ligações com o passado.
O futuro do pensamento cristão pertencia aJustino, mas a posi
ção de Taciano continuou presente na postura dos cristãos em relação
ao mundo e à sociedade.
IV. MÁRTIRES DO SEGUNDO SÉCULO
A. Literatura do martírio
Os relatos autênticos do martírio no segundo século pertencem
a três formas literárias: “cartas” de igrejas, que descrevem martírios
de pessoas em seu meio e acontecimentos paralelos; “paixões”, que
narram os últimos dias e a morte dos mártires; e “atos”, que narram os
julgamentos dos mártires perante as autoridades. Os atos foram, por
vezes, considerados transcrições dos registros dos julgamentos, mas,
Anfiteatro em Lyon, França (construído em 19 a.C.), onde os cristãos foram martirizados
em 177 d.C.
A IGREJA E 0 IMPÉRIO 87
embora alguns documentos possam ter tido tal embasamento, eles
claramente refletem edições e adaptações cristãs.
N o início do terceiro século, autores cristãos proeminentes (Ter-
tuliano, Orígenes, Cipriano) também redigiram “exortações” ao
martírio. A partir do quarto século, os pregadores começaram a apre
sentar louvores por ocasião da comemoração anual da morte de um
mártir. A preocupação com a edificação dos ouvintes era mais impor
tante do que a precisão histórica, e, na “vida” posterior dos santos, as
lendas ganhavam mais espaço do que os fatos.
RELA TO S DO M ARTÍRIO
Documentos Data Localização
Cartas de igrejas Esm irna
Lyon
M artírio d e Policarpo 156?
Carta d a s igrejas de Viena e Lyon 177 Roma
Cartago
Paixões
Roma
M artírio d e Ptolom eu e Lú cio c. 15 0 -1 6 0 Pérgam o
(In: Justino, 2 A pologia) Cartago
Roma
Paixão de Perpétua e Felicidade 203
Atos 167
A to s d e Ju s tin o e seus c o m p a n h e iro s c, 1 6 5 -1 7 0
180
Atos do santos pergam enos c. 184
A tos dos m ártires de Cíli
A tos de Apolônio
Um dos documentos mais influentes sobre o martírio, e talvez
o mais antigo a registrar um deles em detalhes, foi o M artírio de Po-
licarpo. Essa carta foi escrita pela igreja dele em Esmirna à igreja em
Filomélio, na Frigia. Alega-se que a data da morte de Policarpo foi em
156, 167, 168 ou 177, mas a preferência é pela primeira opção.
O tema do M artírio de Policarpo é o “martírio segundo o evan
gelho . O autor escreve contra a prática do voluntariado ao martírio,
referindo-se a uma ocasião em que alguém fez isso e acabou negando
88 H IS T Ó R IA D A IG R EJA
Policarpo é lembrado a fé por estar sob pressão. Em lugar de tal ati
especialmente por sua tude, ele recomenda o exemplo de Policar-
resposta aos apelos do po - o qual se retirou da cidade para evitar
governador para que a morte, mas, quando capturado, confessou
renunciasse aJesus Cristo: corajosamente a fé e suportou o julgamento
e a execução com dignidade e coragem.
“Durante 86 anos, servi Conforme descrito por Justino Mártir,
a Cristo, e Ele não me fez uma mulher em Roma foi convertida pelo
mal algum; como podería mestre cristão Ptolomeu. Ele foi levado a
eu blasfemar contra meu juízo, pela simples razão de ser cristão, pelo
ex-marido da mulher, quando este recebeu o
Rei e Salvador?” divórcio graças à vida imoral que levava. No
{M artírio de julgamento, Lúcio falou em defesa de Ptolo
meu, mas, ao alegar ser ele mesmo um cristão,
Policarpo 9 3 ).
foi condenado juntamente com Ptolomeu.
A obra Atos deJustino eseus companheiros
é uma das acta mais antigas existentes (ou gesta) de um julgamento de
cristãos. As três recensões mostram a elaboração progressiva do ponto
de vista cristão ao longo da transmissão do documento. Os companhei
ros haviam recebido instruções sobre o cristianismo de Justino (embo
ra dois deles declarem expressamente ter recebido o cristianismo dos
proprios pais) e foram condenados à decapitação com ele.
A obra Atos dos santos Carpo, Papilo e Agatônica (os santos per-
gamenos) e datada por Eusebio de aproximadamente 165. É provável
que isso esteja correto, embora a versão latina mostre reformulações
que refletem uma linguagem mais característica do terceiro século. As
mulheres eram proeminentes entre os primeiros mártires, alcançando
uma igualdade na morte que, com frequência, não obtinham em vida
no mundo antigo. Agatônica era mulher, bem como uma das colegas
mártires de Justino, Cárito.
A Carta das igrejas de Viena e Lyon empata com o Martírio de Po-
licarpo na posição de documento mais importante da literatura mártir
do segundo século. Muitos cristãos no vale do Ródano, Gália (França),
vieram da Ásia Menor, e essa carta foi enviada às igrejas nas províncias
romanas da Ásia e da Frigia. Eusébio preservou a carta, a qual contém
uma rica teologia do martírio no livro 5 de sua obra História eclesiástica.
A perseguição em Lyon é notável (1) pelo relato em primeira
mão do furor da população, o que resultou em experiências extrema-
A IGREJA E O IMPÉRIO 89
mente brutais para os cristãos, e (2) pelo grande número de mártires,
sendo os cidadãos romanos decapitados, e o restante, condenado às
competições com feras selvagens na arena.
A carta fornece impressões pessoais vividas de alguns mártires,
especialmente da jovem heroína da fé Blandina, a qual enfrentou tor
turas inacreditáveis e excruciantes. Os mártires perdoavam os compa
nheiros crentes que negavam a fé e eram modestos quanto à própria
confissão, preferindo ser chamados de “confessores” e reservando o
nome de “mártires” àqueles que já haviam morrido.
Atos dos mártires de Cíli é digno de nota por ser a obra cristã mais
antiga escrita em latim ainda existente. Ela narra a inquirição de 12
cristãos provenientes de uma cidade ao norte da África pelo gover
nador da capital provincial de Cartago. Eles haviam trazido consigo
uma caixa contendo as cartas de Paulo.
Atos de Apolônio representa outro caso de apologética e martírio
ao mesmo tempo. Essa obra contém dois discursos do filósofo Apo
lônio, que transformou sua defesa em uma apologia ao cristianismo.
Parece pouco provável que tal apologia tenha sido feita no cenário de
um julgamento, mas é possível que a parte inicial do relato seja precisa.
A Paixão de Perpétua e Felicidade, com seu registro dos martírios
em Cartago no ano de 203, é uma obra singular em diversos aspec-
Anfiteatro em Cartago (atual Tunísia), provável local do martírio de Perpétua e Felicidade
em 203 d.C.
9 0 HISTÓRIA DA IGREJA
tos. Essa narrativa latina incorpora dois escritos das próprias mártires,
sendo um deles o diário de uma das poucas autoras conhecidas da
Igreja antiga: Perpétua. O conteúdo da obra inclui o diário de Perpé
tua e uma visão de Saturno, escrita de próprio punho; além disso, há
uma introdução, um relato dos martírios e um breve epílogo adicio
nados pelo editor (identificado por alguns como Tertuliano).
Perpétua era uma mulher de 22 anos que tinha um filho de colo.
Ela gozava de uma posição social considerável em Cartago, e seu pai
procurava dissuadi-la da confissão cristã. Assim como os demais, ela
ainda era uma catecúmena quando foi presa, mas logo foi batizada.
Seu diário destaca-se pelos sonhos registrados, os quais oferecem um
vislumbre da piedade popular. Felicidade era sua escrava, que deu à
luz uma criança na prisão.
B. Temas do martírio
O conceito de martírio tinha precedentes judaicos, mas foi de
senvolvido de forma especial pelos cristãos durante o período da per-
seguição. A palavra “m ártir” é o equivalente grego para “testemunha”.
Nos escritos de Lucas, “testemunha” era alguém que tinha visto
Jesus Cristo ressurreto e podia literalmente testemunhar ou confir
mar esse acontecimento.
João emprega essa palavra no sentido de testemunho de Cristo
como Filho de Deus (comparável à ideia em M t 10.32). Em Apoca
lipse, a palavra é utilizada em referência a uma testemunha de san
gue, àquela que entrega a vida por confessar. Todavia, esse vocábulo
aparentemente ainda não era o termo técnico surgido no segundo
século. Somente aqueles que entregavam a vida por ocasião das per
seguições passaram a ser chamados de “mártires” (“testemunhas”);
quem confessava, mas, por alguma razão, não morria, era designado
“confessor”. Os mártires não eram testemunhas apenas no sentido
de confessar a fé, mas também no sentido de presenciar - afinal, em
muitos casos, eles tinham visões de Cristo.
Uma teologia do martírio foi elaborada logo cedo. Constata-se
um começo dela em Inácio, e, no M artírio de Policarpo, ela já está
praticamente desenvolvida. Uma vez que Jesus Cristo foi o “mártir”
original e verdadeiro, paralelismos com Cristo eram recorrentes nos
relatos do martírio. Além disso, acreditava-se que Ele estava presente
A IGREJA E 0 IMPÉRIO 91
com os mártires (como se vê na Carta das igrejas de Viena e Lyon),
fortalecendo-os nos sofrimentos. As idéias salientes na teologia do
martírio podem ser expressas por meio de alguns temas básicos:
1. Testemunho
O significado da palavra m ártir chama a atenção ao tema básico
do testemunho. Os mártires, ao confessarem a fé, davam testemunho
às autoridades e a outros que os ouviam. A m orte era um testemunho
de sangue referente a Jesus Cristo e à fé nele. E recorrente, nos atos
dos mártires, a confissão: “Eu sou cristão”.
2. Atletas e heróis
Metáforas atléticas são empregadas com frequência na descrição
da luta entre os mártires e as forças do mal, personificadas nos ad
versários pagãos. Com o vencedores na peleja, eles eram considera
dos heróis da Igreja e exemplos excepcionais da fé cristã. Os mártires,
portanto, desfrutavam de uma posição muito privilegiada na estima
da comunidade cristã.
3. Graça
O martírio era a forma suprema de santidade, mas tratava-se de
uma graça não oferecida a todos os cristãos. Havia certa arbitrarie
dade em relação a quem era escolhido para viver essa experiência, e,
por isso, existia a sensação de que os indivíduos eram designados por
Deus. Ele concedia os privilégios do martírio a alguns, mas não a to
dos. Por essa razão, as pessoas não deviam forçar-se à situação. Essa
seria uma atitude presunçosa (além disso, a Igreja já havia tido expe
riências negativas com indivíduos que se adiantaram para reivindicar
as honras). A decisão a respeito de quem seria m ártir estava nas mãos
de Deus, aquele que concede graça aos escolhidos.
4. Compartilhamento dos sofrimentos e da vitória
de Jesus Cristo
O martírio era uma graça, porque a vitória dos mártires não con
sistia em uma conquista humana. O mártir era privilegiado por to
92 HISTÓRIA DA IGREJA
mar parte nos sofrimentos de Cristo e, logo, por compartilhar Sua
vitória sobre o diabo. A existência cristã era uma luta contra Satanás.
Assim como a morte de Cristo podería parecer uma derrota, embora
fosse uma vitória sobre o maligno, também a morte de cada m ártir era
uma derrota para o diabo. M orrer sem negar a fé era uma confirmação
da paixão de Cristo.
5. Santa ceia
Assim como o pão e o vinho estavam relacionados à morte de
Jesus Cristo, a linguagem eucarística era empregada também em refe
rência à m orte dos mártires. Jesus comparara a própria m orte a beber
o cálice (Mc 10.38) do sofrimento e orara ao Pai: Afasta de m im este
cálice (Mc 14.36). Os mártires também beberam o cálice de Jesus com
confiança em Deus.
6. Espírito Santo
Os mártires enfrentaram os sofrimentos porque Jesus Cristo es
tava com eles, estendendo-lhes as próprias aflições. A presença de
Cristo era mediada pelo Espírito, o qual fornecia resistência sobrena
tural e, em alguns casos, concedia visões para fortalecer e consolar as
testemunhas do Senhor.
7. Escatologia
O m ártir era o cristão perfeito que cumpria o eschaton em si mes
mo. Acreditava-se que ele entrava diretamente na presença de Jesus
Cristo no céu e gozava de privilégios especiais ali.
Um deles era participar do papel de Cristo como juiz e, dessa for
ma, ser capaz de conceder perdão aos irmãos mais fracos na terra. Esta
se tornou a base posterior para a prática de orar pedindo a intercessão
dos santos.
O martírio era visto como uma espécie de “escatologia radical
mente realizada”. Os mártires concretizavam agora as bênçãos des
tinadas a todos os cristãos, ou seja, nos acontecimentos envolvendo
sua morte, eles adentravam nas bênçãos do fim dos tempos, a saber: a
presença de Deus, o dom do Espírito Santo e o perdão dos pecados.
A IGREJA E O IMPÉRIO 93
8. Batismo
A m orte trazia perdão aos pecados dos mártires. O batismo deles
era um “batismo de sangue”. Assim como Jesus Cristo referiu-se aos
Seus sofrimentos como um “cálice” amargo a ser bebido, Ele também
os comparou a um batismo (Mc 10.38), pois estava mergulhado neles.
O m ártir participava desse batismo de sofrimento, e os mesmos bene
fícios atribuídos ao ritual eram associados ao martírio. Essa era uma
exceção que a Igreja antiga fazia em sua doutrina, normalmente reso
luta, acerca da necessidade do batismo (capítulo 8). Com frequência,
os catecúmenos que ainda não haviam sido batizados eram pegos em
acusações feitas contra os cristãos. Nem todos tinham a oportunida
de de serem batizados, como Perpétua.
Certamente, não fazia sentido negar Jesus Cristo a fim de ganhar
tempo para o batismo. Por esse motivo, a Igreja certificava as pessoas
de que sua m orte por Cristo equivalia à confissão de fé batismal.
Apesar de algumas deserções, as perseguições fortaleceram a re
solução dos crentes devotos em vez de exterminar a Igreja. A perse
verança sob pressão, até ao ponto do martírio, chamou a atenção do
povo para a fé cristã e atraiu inquiridores.
Os adversários de fora, entretanto, não eram os únicos responsá
veis pelos problemas enfrentados pela Igreja no segundo século.
LEITURA COMPLEMENTAR
FERG U SON , Everett (Org.). Church and State in the Early
Church. Studies in Early Christianity 7. Nova Iorque: Garland, 1993.
GRANT, Robert M. Greek Apologists o fthe Second Century. Fila
délfia: Westminster, 1988.
NOVAK, R. P. Christianity and the Roman Empire: Background
Texts. Harrisburg, PA: Trinity Press International, 2001.
Y O U N G , Robin Darling. In Procession Before the World: Mar-
tyrdom as Public Liturgy in Early Christianity. Milwaukee: Mar-
quette University Press, 2001.
Heresias e cismas
no segundo século
O último capítulo considerou os problemas externos enfrentados
pela Igreja no segundo século: a oposição do Estado e da sinagoga. O
presente capítulo volta-se para os problemas internos envolvidos na
determinação de limites para doutrinas e práticas aceitáveis. A lin
guagem m oderna distingue heresia (doutrina falsa) de cisma (divisão
causada por personalidades, disciplinas e práticas, mas sem erro dou
trinário básico).
Conforme já foi observado, “os hereges erram p or brilhantismo;
os cismáticos erram por obstinação”. O antigo uso das palavras haire-
sis (“heresia”) zschisma (“cisma”), entretanto, não fazia essa distinção.
I. MARCIÃO
Talvez seja pouco convencional iniciar com Marcião, mas sua p o
sição básica é mais fácil de compreender do que a dos gnósticos (isso
não significa que inexistem problemas na interpretação de Marcião),
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 95
e sua abordagem parece ter sido estritamente religiosa, sem os interes
ses especulativos de muitos “gnósticos”.
Marcião partiu da singularidade da revelação cristã e estabeleceu
uma nova igreja (algo que outros hereges não fizeram), a qual rivali
zava com a grande Igreja e durou até o quinto século.
Marcião tem aspectos suficientes em comum com aqueles identi
ficados como “gnósticos”, para servir aqui como uma boa introdução,
mas diferenças demais para ocupar uma categoria própria.
Ao examinarmos o cristianismo judaico, encontramos certos ex
tremos provenientes das influências judaicas; em Marcião, encontra
mos extremos por parte do lado gentílico. Ele ocupava uma posição
que se opunha claramente às raízes judaicas do cristianismo.
Marcião foi criado em Sinope, Ponto, e, segundo consta, seu pai
era bispo. Ele foi um construtor naval e adquiriu riqueza considerá
vel. O falso ensinamento confrontado na carta do Novo Testamento
aos Colossenses, bem como idéias docéticas vigentes na Ásia Menor,
pode ter sido parte de sua formação religiosa. Além disso, o senti
mento antijudaico associado à Revolta de Bar Kokhba na Palestina
em 130 provavelmente o influenciou, embora seja possível que sua
perspectiva básica já tivesse se desenvolvido antes.
Marcião foi a Roma e deu à Igreja uma grande quantia em dinhei
ro. Seus ensinamentos, entretanto, foram rejeitados em 144, e seu di
nheiro foi devolvido. Ele passou a estabelecer uma igreja rival que, em
alguns anos, já estava quase tão difundida quanto a grande Igreja. A
riqueza e a capacidade organizacional de Marcião permitiram-lhe assu
mir alguns grupos gnósticos emergentes, mas a organização e o culto de
suas comunidades parecem ter sido semelhantes aos da Igreja principal.
Marcião é conhecido por sua obra a respeito do texto e cânon
do Novo Testamento. Ele rejeitou o Antigo Testamento como Es
critura para a Igreja e elaborou um Novo Testamento composto por
versões editadas do Evangelho de Lucas e dez epístolas paulinas (sem
as epístolas pastorais). Ele omitiu ou alterou versículos, muitas vezes
com critérios dogmáticos. Sua coletânea definida de livros do Novo
Testamento é a mais antiga de que se tem notícia.
Ele escreveu Antíteses, mostrando contradições entre o Antigo e
o Novo Testamento, na qual sua teologia é apresentada. A obra é co-
96 HISTÓRIA DA IGREJA
Em um de seus muitos nhecida principalmente por causa da refuta
gracejos, Tertuliano ção de Tertuliano, Contra Marcião, compos
descreveu Marcião como o ta por cinco livros.
“rato pôntico que roeu os
A teologia de Marcião é descrita como
Evangelhos” um evangelho paulino da graça exagerado.
{Contra Marcião 1.1). Um crítico afirmou que, na Igreja antiga,
“apenas Marcião entendia Paulo, e ele o com
preendeu mal”. Esse é, sem dúvida, um pare
cer protestante unilateral; contudo, é difícil
ver Marcião, ou até mesmo outros, sem ser pela perspectiva de um in
térprete moderno.
Os pontos a seguir refletem as visões básicas de Marcião, recons
truídas a partir de críticas tecidas por adversários na Igreja antiga:
1. Existem dois deuses: o deus criador e o deus remidor. O dua
lismo de Marcião parece não ter sido uma questão metafísica,
mas uma inferência da experiência humana quanto às contra
dições da vida.
2. A lei e o juízo pertencem ao criador (o Demiurgo), e a reden
ção é obra do Pai (o Deus “Desconhecido” ou “Estranho”).
3. O Antigo Testamento é a revelação do Criador e prediz o
Messias judeu (os judeus leram suas Escrituras corretamente).
Jesus não é o cumpridor do Antigo Testamento (Ele veio “não
para cumprir, mas para destruir” a Lei). O Deus do Antigo
Testamento operava males, contradizia-se e deleitava-se em
guerras.
4. Jesus era visto de uma forma docética, isto é, apenas parecia
sofrer. No entanto, Sua morte era descrita como uma compra.
A ressurreição de Jesus foi da alma e do espírito, e Ele ressus
citou a si próprio. Essa visão, mais uma vez, não parece ter se
originado de um ponto de vista metafísico (por exemplo, a
incapacidade de o divino sofrer), mas da experiência comum
de a carne ser algo impuro.
5. O nascimento físico de Jesus era um obstáculo para Marcião.
Por esse motivo, ele iniciou seu Evangelho em Lucas 3, com
a afirmação de que, no 15° ano do reinado de Tibério, Jesus
“desceu” do céu à “cidade galileia de Cafarnaum”.
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 97
6. Paulo foi o unico apostolo verdadeiro. Os Doze "judaizaram”
então, o Pai teve de chamar Paulo para restaurar o verdadeiro
evangelho. Contudo, até mesmo suas epístolas foram interpo-
ladas pelos judaizantes.
7. Marcião defendia uma revelação escrita. Sua importância no
desenvolvimento do cânon será avaliada no próximo capítulo.
8. O ascetismo era enfatizado. O sexo era abominável. A água
substituía o vinho na santa ceia. Alimentos associados à repro
dução sexual eram proibidos —ou seja, produtos à base de car
ne e leite - , sendo o peixe a única proteína permitida. (Como
Marcião achava que os peixes se reproduziam? O u será que
o problema estava nos alimentos utilizados em sacrifícios pa
gãos, e não na reprodução em si ?)
9. Apenas os solteiros eram batizados, exceto ao fim da vida. Por
esse motivo, havia dois níveis de adeptos nas igrejas marcioni-
tas: os perfeitos e os imperfeitos.
10. Os seguidores de Jesus não estão sob a lei. A salvação é somen
te pela graça, e a graça não precisa de lei. Suas opiniões sobre fé
e pecado eram desprovidas da profundidade de Paulo.
A influência de Marcião foi considerável, mas superestimada por
intérpretes do século 20. A igreja católica, com seu credo, cânon e
episcopado, não foi produto de uma reação a Marcião. No entanto, a
reação a ele fortaleceu certas tendências já vigentes e, assim, acelerou
o processo de desenvolvimento dessas práticas.
O ascetismo de Marcião era muito atraente como cumprimento
do cristianismo e, por essa razão, foi um fator na influência ascética
sobre o cristianismo ortodoxo. Sua ênfase na soteriologia, a ponto de
negligenciar a cosmologia, foi um grande problema para os Pais da
Igreja Veterocatólica (capítulo 7).
A separação entre Jesus Cristo e o Deus Criador foi um grande
incentivo para que os pensadores ortodoxos começassem a formular
uma doutrina da Trindade. Justino M ártir ateve-se ao Antigo Testa
mento, afirmando que ele profetizava dois adventos do Messias - o
primeiro em amor e o segundo em juízo.
Tertuliano declarava que Deus é tanto justiça como amor. Deus
tinha de mostrar disciplina antes de amor, e o Emissor deveria fazer
9 8 HISTÓRIA DA IGREJA
com que Sua autoridade fosse conhecida (no Antigo Testamento) an
tes de o Emissário ser aceito. O Deus de Marcião, entretanto, apare
ceu subitamente, sem qualquer preparação.
A rejeição do ensinamento de Marcião por parte da Igreja de
monstrou, entre outras coisas, a percepção de que ela não podería re
nunciar a suas raízes no Antigo Testamento e ao que elas implicavam
quanto à unicidade de Deus e à bondade de Sua criação.
Marcião compartilhava com muitos gnósticos os seguintes as
pectos: a premissa de um Deus desconhecido e distinto do criador,
um dualismo de matéria e espírito, uma interpretação docética de Je
sus Cristo, uma atitude negativa em relação ao Antigo Testamento
e seu Deus e uma preocupação com o problema do mal presente no
mundo.
Ele se distinguia dos gnósticos por rejeitar a mitologia, criar uma
organização para seus seguidores, evitar interpretações alegóricas e,
assim, envolver-se em críticas textuais para lidar com os problemas
encontrados no texto.
II. GNOSTICISMO
O termo gnosticismo é problemático. Ele deriva da palavra grega
gnose, que se refere ao conhecimento experiencial imediato, prove
niente da cognição, em contraste com o conhecimento proposicional
ou factual.
Havia um grupo, no segundo século, que se autodenominava
Gnostikoi (“gnósticos”): “aqueles capazes de alcançar conhecimento”
e, depois, “aqueles que sabem”. N o entanto, a partir de Irineu, os here-
siólogos cristãos ampliaram a acepção do termo, de modo a abranger
os adversários na Igreja nos quais se via algumas semelhanças, mas
que apresentavam sistemas de pensamento diferentes.
Desse modo, vale lembrar que gnosticismo tornou-se um termo
que abrangia aquilo que era mais uma disposição ou postura em rela
ção ao m undo e à sua origem (e até mesmo essas posturas variavam)
do que uma única solução para os problemas percebidos por alguns.
Isso significa que o gnosticismo era mais um movimento do que uma
abordagem consistente.
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 99
O movimento religioso do gnosticismo era caracterizado por um
conhecimento intuitivo da origem, da essência e do destino definiti
vo da natureza espiritual dos seres humanos.
A. Fontes de estudo
O estudo do gnosticismo foi dificultado, durante muito tempo,
pelo fato de nossas principais fontes de informação serem escritores
anti-heréticos da Igreja. Os principais autores que abordaram o gnos
ticismo e preservaram o material gnóstico foram Irineu, Clemente de
Alexandria, Tertuliano, Hipólito e Epifânio. Os gnósticos também
ficaram conhecidos por meio dos escritos que o filósofo grego Ploti-
no redigiu contra eles.
Q uando tais autores preservavam citações de escritos gnósticos,
elas muitas vezes estavam fora de contexto e sempre eram usadas para
algum propósito polêmico. É comum, na história, os perdedores se
rem conhecidos apenas com base em descrições feitas pelos adversá
rios, e poucas pessoas gostariam de ser lembradas somente pelo que
seus inimigos dizem a seu respeito.
Alguns suplementos aos escritos dos Pais anti-heréticos da Igreja
estavam disponíveis em obras gnósticas originais preservadas em cop-
ta, em escritos herméticos (forma pagã de gnosticismo) e em fontes
maniqueístas e mandeístas posteriores (dois movimentos que muito
deviam ao gnosticismo anterior).
A situação mudou drasticamente com a descoberta - em Nag
Hammadi, Egito, em 1945 - de uma coleção de 12 códices (além de
outras folhas) redigidos no quarto século. Ela continha, em sua maior
parte, obras gnósticas originais em tradução copta. A publicação des
sas obras em edições críticas e traduções confiáveis transformaram-
-nas no principal foco para o estudo do antigo gnosticismo.
A coleção de Nag Hammadi pode ser agrupada, de forma geral,
em cinco categorias de escritos (consulte a tabela). Delas, as mais im
portantes são as duas primeiras: (1) as mais próximas do pensamento
gnóstico” original, que recebem o nome de “Setianista”, “Barbelo-
-gnostica, Ofitista” ou outras que podem representar variações den
tro de uma única escola ou de sistemas distintos e (2) as da escola
valentiniana.
100 HISTÓRIA DA IGREJA
Os relatos dos Pais da Igreja mostram um pouco da estrutura míti
ca dos sistemas gnósticos, mas os novos documentos de Nag Hammadi
revelam ainda mais o espírito vivo e os métodos de interpretação em
pregados. Os conjuntos de fontes ajudam a interpretar uns dos outros.
B. Questão das origens
Antes da descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi, três fontes
diferentes para o pensamento gnóstico foram postuladas:
1. A opinião dos Pais da Igreja: o gnosticismo era uma heresia
cristã resultante do fato de os cristãos explicarem sua fé para si
mesmos e para os demais em termos filosóficos. Essa opinião
recebeu apoio acadêmico moderno.
2. A opinião contrária apresenta o gnosticismo essencialmente
como um movimento não cristão (traçado à Pérsia por alguns),
representando a atmosfera desesperadora e sincrética da anti
guidade tardia. Ele teria reconstruído uma cosmovisão filosó
fica a partir de mitos antigos e deuses e, ao longo do processo,
adotado uma aparência de cristianismo responsável por forne
cer um modelo à interpretação da fé para intelectuais cristãos.
Essa opinião foi preconizada pela escola de interpretação asso
ciada à história das religiões e continua a ter muitos adeptos.
3. Uma opinião menos comum de que a especulação gnóstica
teve início em círculos judaicos, talvez em um esforço para
encontrar a eternidade enquanto o Reino de Deus não vinha
(por exemplo, éons como “eras” no apocalipticismo torna-
ram-se componentes cósmicos do pleroma divino no gnos
ticismo). Essa visão encontrou novo apoio após a descoberta
dos documentos de Nag Hammadi.
Parece haver elementos de verdade em todas as três interpre
tações. Algumas idéias no gnosticismo eram mais antigas do que o
cristianismo, mas um sistema gnóstico completo não foi identificado
antes do cristianismo. Certas expressões do gnosticismo, especial
mente aquelas combatidas pelos Pais da Igreja, eram heresias cristãs.
Alguns sistemas gnósticos conhecidos por meio dos escritos de Nag
Hammadi mostram uma proximidade ao judaísmo - se é que não
demonstram, de fato, uma origem judaica.
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 101
ALGUMAS OBRAS DA BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI
(1) Obras setianistas
(a) Algumas se concentravam mais no mito das origens
A pócrifo de João
A pocalipse de Adão
H ipóstase dos arcontes
Evan gelh o dos egípcios
Protenoia trim órfica
(b) Outras relacionadas à ascensão da alma
Zostria nos
A ló g e n e s ("O estrangeiro")
Três esteia s de Sete
(2) Obras valentinianas
Evan gelh o da verdade
Tratado sob re a ressurreição
Tratado tripartite
Evan gelh o de Filipe
(3) Obras da tradição de Tomé na Síria
Evan gelh o de Tom é
Livro de Tomé, o A dversário
(4) Obras herméticas
A sclép io
(5) Outras obras, incluindo escritos cristãos de moral/sabedoria não gnósticos
Ensinam entos de Silvano
Sentenças de Sexto
Obras gnósticas de Nag Hammadi sem características cristãs
explícitas talvez apontem para o gnosticismo como algo anterior ao
movimento cristão ou como um movimento não cristão. Contudo,
este pode não ser necessariamente um fato; se tais obras puderam ser
lidas por cristãos, também poderíam muito bem ter sido composi
ções cristãs.
Um meio-termo seria a opinião de que o gnosticismo e o cris
tianismo cresceram juntos, mas partindo de diferentes fontes. Eles
tiveram algumas interações no primeiro século e desenvolveram-se
como religiões distintas no segundo século.
102 HISTÓRIA DA IGREJA
Alguns escritores contemporâneos fazem uma distinção entre
“gnose” e “gnosticismo”, empregando o primeiro termo à atmosfera
mais ampla, congenial a uma forma de pensamento gnóstica, e o se
gundo, aos sistemas de pensamento desenvolvidos.
Nas palavras de A. D. Nock: “A parte do movimento cristão,
havia uma forma de pensamento gnóstica, mas nenhum sistema de
pensamento gnóstico”. Ele prosseguiu: “Foi o surgimento de Jesus e
da crença de que Ele era um ser sobrenatural manifesto na terra o que
precipitou elementos previamente suspensos”.
Os sistemas gnósticos completamente desenvolvidos, conheci
dos por intermédio dos Pais da Igreja e refletidos na Biblioteca de
Nag Hammadi, independentemente de seus antecedentes, perten
cem ao segundo século. Foi o gnosticismo cristão que causou impac
to, pois os neoplatônicos consideravam o gnosticismo um desvio cris
tão; para eles, gnósticos eram cristãos com uma espécie de pretensão
a intelectuais, caracterizados por um dualismo exaltado e um antro-
pocentrismo extremo.
Afirmar que o gnosticismo tem origem não cristã não equivale
necessariamente a afirmar que ele é pré-cristão. Seja quais forem os
pontos de contato entre o cristianismo e o gnosticismo, a primeira
afirmação pode ser feita; já a segunda não está confirmada.
C. Componentes do gnosticism o
A discussão sobre a origem aponta para os elementos que entra
ram nos sistemas gnósticos desenvolvidos do segundo século. Eles in
cluíam componentes judaicos, pagãos e cristãos.
Muitas especulações gnósticas podem ser explicadas como refle
xões sobre os primeiros capítulos de Gênesis. Certos avanços no juda
ísmo talvez tenham servido de pano de fundo para o surgimento do
gnosticismo: a influência do pensamento dualista, especulações eso
téricas, a personificação da sabedoria e os seres intermediários encon
trados na angelologia desenvolvida. Por conseguinte, muitos agora
olham para o contexto do judaísmo heterodoxo, ou especificamente
para os judeus em rebelião contra sua herança religiosa, em busca das
origens do gnosticismo.