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Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

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Published by , 2018-01-04 18:16:27

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLlTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 553

Mas, a partir do século 12 no Ocidente, quando a habilidade
tinha sido alcançada nas várias artes, a escultura foi usada profusa­
mente não só do lado de fora com os portais das igrejas, mas também
dentro delas, para ornam entar capitais de coluna, fontes batismais,
telas de coro e púlpitos.

A natureza da arquitetura gótica (capítulo 23) permitiu uso
abundante de escultura para decorar o exterior e o interior dos edi­
fícios — o D uom o de Milão contém 4.400 estátuas no exterior e in­
terior. Algumas das melhores esculturas românicas adornavam as ca­
pitais das colunas dentro de igrejas e mosteiros. As esculturas góticas
principais são estátuas no exterior dos edifícios.

Pinturas românicas nas paredes das igrejas e especialmente em
iluminações manuscritas atingiram o seu auge no século 12. A arte
românica era abstrata, solene e majestosa. Ela mostrava o cotidiano
como efêmero e dirigia a atenção aos assuntos eternos do espírito. As
proporções dos corpos foram distorcidas para melhorar a solidez das
representações. A maioria das figuras são curtas e pesadas, e as carac­
terísticas faciais e dobras de peças de vestuário são indicadas apenas
por algumas linhas.

A arte pictórica era, em sua maior parte, religiosa, mesmo aquela
produzida por artistas seculares e que se destinava a patronos reais ou
aristocráticos. Quadros decoravam especialmente igrejas e mosteiros
ou ilustravam Bíblias e escritos dos Pais da Igreja.

A segunda metade do século 11 e o século 12 viram uma p ro ­
dução sem precedentes de Bíblias iluminadas em toda a Europa. O
repertório iconográfico da arte românica foi bastante abrangente,
representando muito mais cenas bíblicas do que foram incluídas em
períodos anteriores.

O trabalho mais amplamente copiado nos manuscritos ilumina­
dos da Espanha do século 10 ao século 12 foi o comentário sobre o
Apocalipse de Beato (c. 786), um dos adversários do adocionismo no
período carolíngio, que deu uma interpretação espiritual das idades
da história humana e do milênio.

Essa arte medieval continuou (como fizeram as primeiras artes
cristãs) a copiar modelos de arte clássica, mas investiu nas formas
com um significado cristão e contemporâneo.

554 HISTÓRIA DA IGREJA

C. Poesia e música

Como o renascimento carolíngio dos séculos oitavo e novo viu o
desenvolvimento de um novo estilo de caligrafia, então, em meados
do século 12, surgiu um roteiro gótico.

Duas criações artísticas originais foram produtos do século 12:
Arquitetura gótica e poesia vernácula. O primeiro será discutido no
próximo capítulo, já que seus representantes mais notáveis foram al­
cançados no século 13.

A poesia lírica foi produzida a partir dos séculos 11 e 12 no sul
da França pelos trovadores, que escreveram e cantaram em língua oc-
citana ou provençal. Essa literatura de romance e aventura espalhou-
-se para o norte da Europa nos séculos 12 e 13 com os trovadores do
norte da França e poetas na Alemanha.

A literatura vernácula pôde ser usada para fins religiosos
(capítulo 24), mas alguns de seus representantes mais antigos eram
principalmente seculares, embora levantassem questões religiosas
e, de fato, refletissem o espírito religioso da época expressando até
mesmo temas seculares na linguagem religiosa.

A literatura romântica fez virtudes femininas e reforçou a digni­
dade e o valor das mulheres, mas também reforçou o duplo padrão de
moralidade sexual para homens e mulheres.

A poesia do “am or cortês” caracterizou-se pela abjeta humildade
do amante em relação à amada, pelas convenções de cortesia, pelo
amor por uma pessoa casada e pelo amor descrito em termos reli­
giosos. O tema envolvia dois paradoxos — o culto do amor em ter­
mos do culto cristão dos Santos (a cama é um altar), que era quase
uma paródia da fé cristã, e o retrato de subserviência de um homem
para com uma m ulher que inverteu as convenções da sociedade de
dominação masculina. Embora a presença do amor adúltero tenha
captado a atenção maior de leitores, a mais marcante é a ênfase no
amor conjugal.

N o auge do desenvolvimento da poesia vernácula medieval, estão
Chrétien de Troyes (fl. 1165-1191), do norte da França, e o alemão
G ottfried von Strasbourg (fl. 1210). Chrétien escreveu duas obras
famosas. Lancelote aprova o amor adúltero do herói por Guinevere,
mas apoia a superioridade moral e social da dama. Perceval (O conto

ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 555

do graal) apresenta um herói celibatário e é importante no desenvol­
vimento do motivo da busca pelo santo graal, um prato para servir
comida de rico, mas, em outras versões, um cálice. G ottfried escreveu
Tristão e Isolda, que mostra como a paixão adúltera destrói os aman­
tes psicologicamente.

W olfram von Eschenbach (fl. início do século 13), em suas obras
Willehalm e Parzival (em que o herói busca pelo graal), também
subverte o tema do amor cortês dentro do gênero literário do ro­
mance. Ele contrasta as alegrias duradouras do amor conjugal com
momentos de prazer de casos extraconjugais. Ele celebra o ideal de
lealdade do cavalheirismo, mas também oferece uma crítica cristã do
cavalheirismo. Ele mostra simpatia pelos pagãos, sugerindo que Deus
não castiga uma pessoa pela ignorância e que o bom pagão merece a
graça de Deus.

Na Idade Média, a música da igreja continuou a ser homofônica
(monofônica). A polifonia se desenvolveu principalmente nos sécu­
los 11 e 12, embora isso seja atestado desde o nono século. M anus­
critos do século 13 começaram a denotar, além dos tons, as durações
(medida) das notas. Podem distinguir-se dois tipos de polifonia: des-
cante, no qual uma ou mais vozes eram acrescentadas, nota por nota,
a uma melodia de canto liso; e organum, no qual uma ou mais vozes
embelezavam, com muitas notas, cada nota do canto liso. Em ambos
os tipos, o mesmo texto era cantado.

O órgão era o único instrumento aceito no uso litúrgico, e rara­
mente era usado, sendo ouvido principalmente em Pentecostes e no
Natal. Somente no século 13 há evidência clara de que o órgão era
usado regularmente; substituindo o canto de alguns textos litúrgicos
no final do século 14.

V. ATOS DE PIEDADE

A oração e a penitência forneceram a inspiração religiosa para as
Cruzadas. Alguns aspectos de sua expressão podem ser comentados
aqui. Os Salmos mantiveram-se o padrão básico de oração. O obje­
tivo de imitar a Deus levou a uma maior ênfase na internalização da
devoção. As disciplinas monásticas de leitura (lectio), meditação {me-

556 HISTÓRIA DA IGREJA

ditatio) e oração (oratio) estabeleceram o padrão para devoções. Esses
estágios de ouvir a Palavra de Deus, abrir um diálogo com Deus e a
experiência íntima de conversação com Ele tornaram-se identificados
no misticismo com os estágios de purificação, iluminação e união.

O culto dos santos continuou a ser central na piedade popular.
Os dias de festa dos santos que aconteciam todos os anos foram a
ocasião para feiras locais e regionais que combinavam encontros so­
ciais, de entretenim ento e de comércio, com procissões e cerimônias
religiosas. Cada doença tinha seu próprio santo que se especializou
em seu tratamento.

Desde o quinto século, a palavra sanctus não era usada para todos
os devotos mortos — era limitada aos santos oficiais. N a época dos
mártires, seu reconhecimento como santos foi uma resposta espon­
tânea de seus companheiros crentes; então, o reconhecimento dos
santos locais tornou-se uma decisão tomada pelo bispo.

A primeira canonização documentada por um Papa foi por João
em 993 de Ulrico de Augsburgo (m. 973). A canonização dos
santos pelos bispos e pelo Papa continuou por algum tempo até se
tornar uma prerrogativa papal no século 12. Uma vez que a posse de
relíquias de santos tinha benefícios não apenas espirituais, mas tam­
bém econômicos (por causa da peregrinação para seus sítios), a venda
e o roubo das relíquias tornaram-se comuns. As relíquias ocuparam
o lugar da piedade no Ocidente, e os ícones, no Oriente, como a ex­
pressão visual da presença espiritual.
A peregrinação aos santuários dos santos continuou a ser uma
im portante expressão de piedade e de ato de penitência (muitas ve­
zes, im posta como parte do sacramento da penitência), e agora era
mais fácil com o retorno da estabilidade política e um aumento da
atividade econômica. Uma versão inicial de um manual do turista
é o Guia do Peregrino do século 12. Ao apontar coisas para ver,
o livro dá atenção especial às obras de arte, preem inentem ente os
relicários.
Nem mesmo o comércio de lembrancinhas era algo novo: os
peregrinos compravam pinos com emblemas associados a um santo
para usar em uma peça de seu vestuário e mostrar o lugar que tinham
visitado. Jerusalém tinha o lugar mais alto como um objeto de pere­

ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POÜTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 557

grinação, mesmo que menos pessoas pudessem de fato ir até lá, em
comparação a outros lugares. Santiago de Compostela (St. Tiago de
Campus Stellae, o “campo de estrelas”, já um local de peregrinação
desde a suposta descoberta do sepulcro do apóstolo Tiago em 813)
no noroeste da Espanha, o santuário dos Três Reis (os magos, cujas
relíquias foram movidas de Milão por Frederico I) em Colônia, e o
santuário de Tomás Becket em Cantuária juntaram-se a Roma com
objetivos populares de peregrinação.

Muitas histórias de milagre circularam sobre curas e interven­
ções dos santos e de suas relíquias em favor dos fiéis. Autoridades
eclesiásticas fizeram esforços para controlar os cultos dos santos, mas
era verdade que o apego popular às relíquias contava mais que uma
autenticação oficial no estabelecimento de um culto.

O culto de Maria tornou-se proeminente nos séculos 11 e 12, es­
pecialmente sob a influência de Bernardo de Claraval. Evidências da
devoção especial a Maria são o grande número de milagres atribuídos
à sua intercessão, o interesse em relíquias (principalmente roupas) as­
sociadas a ela, o número de igrejas dedicadas a ela e o seu destaque na
evolução teológica, litúrgica e artística.

A recitação de “Ave Maria, cheia de graça...” (Ave Maria) entrou
em uso no final do século 12 e juntou-se ao “Pai Nosso” como as for­
mas mais comuns de oração.

N a piedade popular, seguindo os passos de Bernardo e Francisco
de Assis, Maria, como uma figura de ternura e misericórdia preocu­
pada com as necessidades humanas comuns, com a qual ela foi iden­
tificada mais do que era o Jesus Cristo exaltado, encontrou expressão
em orações, hinos e obras de arte.

Cada vez mais, no entanto, a ênfase teológica deslocou-se da mãe
terrena de Jesus para a virgem mãe de Deus e rainha dos céus, eviden­
te a importância desse tema na arte mais tarde medieval. N o século
12, o pensamento de que Maria tinha sido preservada do pecado ori­
ginal (a conceição imaculada) ganhou terreno, embora ele se opuses­
se a todos os principais teólogos antes de Duns Scotus, no final do
século 13.

As atividades piedosas, tais como o sacrifício da missa, a venera­
ção de santos e relíquias, a confissão e as obras de satisfação no sacra-

558 HISTÓRIA DA IGREJA

mento da penitência, chegaram, no século 12, a uma compreensão
mais concreta do purgatório.

A noção de um lugar intermediário de purificação dos pecados
menores antes da entrada na bem-aventurança celeste já existia há sé­
culos, popularizado por Gregório, o Grande, mas os teólogos escolás-
ticos do século 12 — no desenvolvimento da teologia da penitência
— formularam a opinião de que, no purgatório, eram concluídos os
castigos pelos pecados não satisfeitos por atos penitenciais nesta vida.

À doutrina do purgatório, foi dada uma formulação clássica por
Tomás de Aquino, oficialmente definida no Concilio de Lyon (1274),
e recebeu expressão imaginativa na D ivina Comédia de Dante.

O ensino medieval das boas obras, de acordo com o amor por
agrupar as coisas em sete, resultou na classificação de sete obras es­
pirituais de misericórdia: converter o pecador, instruir o ignorante,
aconselhar o duvidoso, confortar os tristes, suportar os males pacien­
temente, perdoar as injúrias e orar pelos vivos e pelos mortos.

Estes foram acompanhados por sete obras corporais de miseri­
córdia (baseado em Mateus 25.35,36): alimentar os famintos, dar de
beber aos sedentos, vestir os nus, dar abrigo ao estrangeiro, cuidar
dos doentes, cuidar dos prisioneiros e enterrar os mortos. O bem era
feito pela igreja, não pelo governo, que, historicamente, assumiu essa
responsabilidade apenas recentemente.

Já que os sacerdotes, monges e cônegos eram os modelos da vida
religiosa, ocorreu, até certo ponto, a “monasticização” ou “clericaliza-
ção” dos leigos, uma vez que os mais devotos entre os leigos imitavam
os monges e os cônegos, observando as horas de oração.

VI. A IGREJA E O ESTADO NO SÉCULO 12

Um dos reinos normandos bem-sucedidos desenvolveu-se na Sicí-
lia e no sul da Itália, território unificado no século 11 pelas vitórias de
Roger I sobre o império do Oriente, no sul da Itália, e sobre os sarrace-
nos na Sicília. O reino atingiu o seu apogeu sob o reinado de Roger II,
que assumiu o título de “rei” em 1130, e sob o reinado de Guilherme
II (1166— 1189). No lugar de reunião do ocidente latino, do oriente
bizantino e do sul e do leste islâmicos, esse reino veio a ter grande im­

ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 559

portância cultural (juntamente com a Espanha) na transmissão de no­
vas aprendizagens para a Europa ocidental. Os reis normandos eram
patronos das artes, ainda visíveis nas catedrais de Sicília.

A segunda metade do século 12 foi dominada politicamente por
dois notáveis reis — Henrique II, da Inglaterra (1154-1189), e Fre­
derico I Barbarossa, da Alemanha (1152-1190). O período é conve­
nientemente agrupado pelas datas de ascensão ao poder e pela morte
de algumas das principais figuras da época (1152— 1153 a 1197—
1198). Frederico I Barbarossa tornou-se rei da Alemanha em 1152
(imperador em 1155), e Bernardo de Claraval morreu em 1153. O
filho de Frederico, Henrique VI, morreu em 1197, e Inocêncio III
tornou-se papa em 1198.

Dois papas durante esse meio século são particularmente notá­
veis. Adriano IV (1154— 1159) é o único papa Inglês. Ele foi abade
de um mosteiro agostiniano perto de Avignon antes de tornar-se um
bispo cardeal de Albano, sob Eugênio III. Um de seus primeiros atos
como papa foi garantir a expulsão de Roma de Arnoldo de Bréscia,

Mosaico da abside na Igreja de Santa Maria em Trastevere, Roma (1140): Cristo e a Virgem
no trono, ladeados por papas e/ou santos Inocêncio II, Lourenço, e Calisto à esquerda, e
Pedro, Cornélio, Júlio e Calepódio à direita

560 HISTÓRIA DA IGREJA

que foi capturado por Frederico I Barbarossa (1152— 1190) e conde­
nado à morte. Adriano requereu uma homenagem completa de Fre­
derico antes de concordar em coroá-lo imperador (1155).

Frederico I Barbarossa foi um dos governantes mais notáveis da
dinastia de Hohcnstaufen, que chegou ao poder com Conrado III
em 1138. Adriano interpretou a coroação como conceder um bene-
ficium . A corte imperial ficou furiosa, e Adriano teve de explicar que
quis dizer “bondades”, não “benefícios.” Em 1157, Frederico acres­
centou o epíteto “santo” (sacrum) ao império, a fim de competir com
a reivindicação da igreja, estabelecendo o sacrum imperium ao lado da
sancta ecclesia e preparando o caminho para o título “Sacro Império
Romano”, a ser aplicado aos territórios governados pelo imperador.

Alexander III (1159— 1181) foi eleito pela maioria dos cardeais,
mas foi capaz de defender-se apenas com a maior dificuldade con­
tra um antipapa estabelecido pela autoridade imperial. Frederico I
Barbarossa tomou Carlos Magno como um modelo e praticamente
qontrolou a nomeação dos bispos, mas houve oposição italiana a ele.
Uma expedição para a Itália em 1166 foi bem-sucedida devido a uma
epidemia, e a Liga Lombarda das cidades italianas derrotou-o em
1176. Por meio da Paz de Veneza, 1177, ele reconheceu Alexandre
III como papa.

Sob o reinado de Alexander III ocorreu o Terceiro Concilio de
Latrão (o décimo-primeiro Ecumênico, 1179), que modificou as dis­
posições para a eleição papal, exigindo um voto de dois terços de to­
dos os cardeais para eleger um papa.

Na Inglaterra, tensões entre a igreja e o Estado foram refletidas
no conflito entre o rei Henrique II (1154-1189) e Tomás Becket, ar­
cebispo de Cantuária (1162— 1170). Tomás tinha sido um amigo ín­
timo do rei como seu chanceler e tutor de seu filho antes de ser eleito
arcebispo por instigação do rei. Uma vez no cargo, no entanto, Becket
sustentou reivindicações eclesiásticas em uma disputa sobre se os clé­
rigos acusados deveríam ser julgados em cortes reais ou eclesiásticas.

Depois de continuar o conflito, a ira do rei levou-o a proferir pa­
lavras a quatro dos seus cavaleiros como uma autorização para ma­
tar o clérigo. Tomás foi assassinado em sua catedral, e o local ainda
é marcado na Catedral de Cantuária. Ele foi imediatamente consi­

ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 561

derado um m ártir e foi canonizado em dois anos. Peregrinações ao
local tornaram-se comuns e forneceram o cenário para Os Contos de
Cantuária de Chaucer (escrita c. 1387).

Perto do final do século, a Terceira Cruzada (1189-1192) foi
motivada pela derrota cristã em H attin, na Galileia, em 1187 por Sa-
ladino, que se moveu para capturar Jerusalém e deixou aos cristãos
apenas uma estreita faixa de terra ao longo da costa oriental do Me­
diterrâneo.

A Terceira Cruzada envolveu os nomes mais famosos da emprei­
tada cruzada, em torno da qual se reuniram muitos contos populares.
Frederico I Barbarossa conduziu um grande exército através da H u n ­
gria e dos Bálcãs, mas foi afogado ao atravessar um rio na Cilícia. Fi­
lipe II Augusto, rei da França (1180-1223), tornou-se o arquiteto da
monarquia francesa por fundar um Estado burocrático centralizado.
O reinado de Ricardo I, Coração de Leão, rei da Inglaterra (1189-
1199), providenciou o pano de fundo para a lenda de Robin Hood.

Filipe e os exércitos de Ricardo começaram a partir de Vézelay.
Sua empreitada foi prejudicada por suas brigas, enquanto Saladino
(1171— 1193), ele mesmo um curdo, que, muitas vezes, surge como
mais nobre do que os seus homólogos cristãos, foi capaz de unir os
muçulmanos. O armistício de 1192 deixou Jerusalém em mãos mu­
çulmanas, mas assegurou aos peregrinos cristãos o livre acesso à cidade.

Os antigos estados cruzados foram reduzidos a uma estreita faixa
costeira de Beirute a Ascalão, conhecida como o Reino de Acre, e
frequentemente administrada a partir de Chipre, que tinha sido con­
quistado por Ricardo em seu caminho para a Terra Santa.

VII. A VIDA INSTITUCIONAL DA IGREJA

A unidade organizacional básica da igreja continuou a ser a dio­
cese, dirigida por um bispo. A localização de sua cadeira (cathedra)
identificava sua igreja como a catedral. Sob a influência monástica,
o clero da catedral, conhecido como cânones, formou um capítulo.
Doações proveram a sua renda e deram-lhes uma independência con­
siderável a partir do bispo. Eles, em vez do bispo, tinham a responsa­
bilidade pelos edifícios da catedral e pela sua manutenção.

562 HISTÓRIA DA IGREJA

Um decano liderava o capítulo e supervisionava os assuntos ma­
teriais da igreja. O capítulo incluía um chanceler, que era o secretário,
encarregado dos selos, e superintendente da escola e da biblioteca;
um tesoureiro, que era responsável pelas relíquias e por outros tesou­
ros e que cuidava das doações; e um cantor, que organizava serviços
religiosos e dirigia o coro.

VIII. ALGUNS DESENVOLVIMENTOS NAS
IGREJAS ORIENTAIS

O século 12 viu alguns desenvolvimentos significativos que afe­
taram a igreja ortodoxa grega. O estudo do direito canônico foi avan­
çado, e dois dos comentaristas mais influentes sobre os cânones da
igreja grega tornaram-se ativos: João Zonaras (século 12), que tam ­
bém escreveu uma história universal, e Teodoro Bálsamo (c. 1140—
depois de 1195).
, N a história monástica, Cristodoulos obteve — através da influ­
ência da mãe do imperador Alexius Comnenus [Alexios I] — pos­
se da ilha de Patmos. Lá, em 1088, ele estabeleceu o Monastério de
São João que ainda existe. O Mosteiro do Pantocrator, notável por
sua enfermaria associada e lar para idosos, foi fundado em 1136 em
Constantinopla. N o final do século 12, Savas estabeleceu a primeira
casa sérvia no M onte Atos.

Os sérvios, que haviam sido convertidos entre 867 e 874 foram
apanhados entre as pressões do Catolicismo Romano na Hungria e
na Croácia e da ortodoxia grega na Bulgária. A forma ortodoxa do
Cristianismo tornou-se firmemente estabelecida no final do século
12, especialmente por meio da influência do monge Rastko (Sava).

Se o quinto século foi a idade de ouro da literatura armênia (ca­
pítulo 12), com um renascimento no século 10, então o século 12 (na
sequência das Cruzadas) foi a sua idade de prata. O final do século
12 viu a recriação de um reino armênio na Cilícia, fora do território
da antiga Armênia. Este último reino armênio caiu em 1375 para os
mamelucos do Egito.

O período da Cilícia foi o auge da cultura armênia evidencia­
da pelos manuscritos iluminados, os principais representantes que

ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 563

sobreviveram da arte armênia, produzida durante esse período. Um
exemplo notável é o códice Freer Gallery Gospel em Washington, D C .

A Geórgia Medieval atingiu seu auge no século 12. Apropria­
damente para um país convertido por uma mulher e cuja primeira
convertida da corte real foi uma mulher, o clímax da idade de ouro
da Geórgia estava sob o reinado da Rainha Tamar (1178— 1213) da
dinastia Bagrátida, que alegou descendência de Davi e Salomão e go­
vernou na Geórgia do século oitavo até o início do século 19.

A peculiar arquitetura da igreja georgiana surgiu e alcançou os
seus maiores monumentos nos séculos 11 e 12. D o século 10 ao 13,
a Geórgia distinguiu-se pelo esmalte cloisonné e pelo artesanato de
ouro e prata, geralmente para objetos eclesiásticos. A música da igreja
georgiana havia sido polifônica por m uito tempo, embora as músicas
latina e grega ainda fossem monofônicas.

IX. RESUMO

O século 12 foi caracterizado por um “renascimento” que envol­
ve muitas realizações notáveis na reforma monástica, na teologia, na
produtividade literária, na piedade, na arte e na arquitetura. Ao todo,
a influência da igreja avançou em muitas áreas da vida religiosa, polí­
tica e artística.

Olhando para trás a partir de uma perspectiva posterior, no en­
tanto, pode-se dizer que essas realizações prepararam o caminho para
conquistas ainda maiores no século 13.

LEITURA COMPLEMENTAR

ARM I, C. Edson. Masons and Sculptors in Romanesque Burgun-
dy: The New Aesthetic o f Cluny III. 2 vols. University Park: Pennsyl-
vania State University Press, 1983.

BARLOW, F. Ihomas Becket. Berkeley: University o f Califórnia
Press, 1986.

BERM AN, C. H . The Cistercian Evolution: The Invention o f a
Religious Orderin Twelfth-Century Europe. Philadelphia: University
o f Pennsylvania Press, 2000.

564 HISTÓRIA DA IGREJA

B U R TO N , Janet; KERR, Julie. The Cistercians in the M iddle
Ages. Rochester, NY: Boydell, 2011.

C O L IS H , Mareia L. Peter Lombard. 2 vols. Leiden: Brill, 1993.
Evans, G. R. Bernard o f Clairvaux. New York: Oxford Universi-
ty Press, 2000.
KN O W LES, David. ThomasBecket. London: A. & C. Black, 1970.
K U T T N E R , Stephan. Gratian and the Schools o fLau> 1140 —
1234. London: Variorum, 1983.
LEKAI, Louis J. The Cistercians: Ideais andReality. Kent, O H :
Kent State University Press, 1977.
PRANGER, M. Burcht. Bernard o f Clairvaux and the Shape o f
Monastic Thought: Broken Dreams. Leiden: Brill, 1994.
R O SE N M A N N , Philipp W. The Story o f the Great Medieval
Book: Peter Lombards Sentences. Toronto: University o f Toronto
Press, 2007.
ST O D D A R D , W hitney S. A rt and Architecture in Medieval
France. New York: H arper & Row, 1972.
TALM AN, Rolf, and Achim Bednorz. Romanesque: Architectu­
re, Sculpture, Painting. Cologne, Ger.: Kvnemann, 1997.

Glória da Igreja
medieval ocidental

Século 13

O século 13, muitas vezes, tem sido considerado, justamente, a
idade de ouro do catolicismo medieval.

Entre as conquistas do século, estão: a influência do papado em
assuntos civis e sociais; a eficácia de novas ordens religiosas mendi-
cantes em levar a mensagem cristã para o povo; a organização das
universidades; as grandes realizações intelectuais na criação de resu­
mos de teologia; e a construção de catedrais góticas crescentes.

Na Escolástica e na arquitetura, parecia que toda a realidade ti­
nha sido englobada em grandes sínteses, tudo a serviço da igreja sob
a liderança do papa. O século 13 começou com Inocêncio III como
papa, e este foi o que mais se aproximou dos ideais e objetivos do
papado medieval.

I. INOCÊNCIO III (1198-1216)

Inocêncio III nasceu com o nome Lotário de Segni, em uma fa­
mília nobre, em 1160. Ele tinha o melhor das credenciais acadêmicas,

566 HISTÓRIA DA IGREJA

estudou Teologia em Paris e Direito em Bolonha. Como estudante,
escreveu, em detalhes quase repugnantes, a obra Sobre a miséria da
condução humana. Seus outros trabalhos iniciais foram: Sobre os mis-
rérios da missa e Sobre os quatro casamentos.

A. Visualização do papado

Levantando-se rapidamente no serviço papal, Lotário tornou-se

cardeal diácono em 1189 e foi eleito papa em 1198, enquanto ainda

não pertencia às ordens do sacerdócio. Ele provou ser um administra­

dor capaz. Menos canonista do que teólogo, Inocêncio demonstrou

considerável preocupação pastoral, mas isso

“Deus, o criador do estava subordinado ao seu objetivo da auto­
universo, estabeleceu ridade papal.
‘duas grandes luzes no
firmamento do céu, a luz Na sua consagração, Inocêncio III pre­
maior para governar o dia e gou sobre o texto: Olha, ponho-te neste dia
a luz menor para governar sobre as nações e sobre os reinos, para arran­
a noite’; então (...) Ele cares, e para derribares, e para destruíres, e
estabeleceu duas grandes para arruinares; e também para edificares e
dignidades: a maior, que para plantares (Jr 1.10) e aplicou a si mes­
domina sobre as almas, mo estas palavras: E o seu senhor lhe disse:
correspondente ao dia, e a Bem está, servo bom efiel. Sobre opoucofoste
fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do
teu senhor (Mt 25.21).

menor, para governar sobre Inocêncio não utilizava o “nós” papal,

os corpos, correspondente mas o “eu” — ele queria dizer negócios. Em

à noite. Essas são as vez de “vigário de Pedro” (título papal ante­

autoridades pontifícias e rior), ele preferiu “vigário de Cristo” (ante­

reais. Assim como a lua riormente utilizado para qualquer bispo ou

deriva sua luz da luz do sol padre, mas agora usado, pela primeira vez,

e é inferior em qualidade ao que parece, pelo papa, para referir-se a si

e quantidade, o poder real mesmo), como mais um indicativo de sua

deriva o esplendor de sua autoridade, e baseou suas políticas nos po­

dignidade da autoridade deres que esse título lhe deu. (Seu sucessor,

pontifícia” (Inocêncio III, Inocêncio IV, chamava a si mesmo de “vi­

Epístola 1.401). gário de Deus”, indicando a autoridade até

mesmo sobre os incrédulos.)

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 567

Inocêncio também aplicou as palavras de Deus a Moisés — vou
fazer com que você seja como Deus para o rei (Ex 7.1 N T L H ) — a
si mesmo como papa em relação aos governantes civis. Inocêncio se
viu (como ele colocou na sua coroação) como o intermediário “entre
Deus e o homem, abaixo de Deus e acima do homem, inferior a Deus,
mas superior ao homem, juiz sobre todos e julgado por ninguém (sal­
ve o Senhor)”. Ele interpretou a m itra papal (uma faixa para a cabeça)
como o sinal de seu cargo religioso e a tiara papal (uma coroa tríplice)
como a representação do domínio terrestre.

Em uma disputa entre os reis da Inglaterra e da França, In o ­
cêncio justificou sua análise do caso, alegando: “Não pretendem os
julgar no que se refere à obrigação feudal, mas no que diz respeito
ao pecado”. C om o Roland Bainton observou: “Desde que o pecado
se tornou bastante predom inante, isto lhe deu uma vasta área de
jurisdição”.

Inocêncio podia ser o “servo dos servos de Deus”, mas ele também
se considerava o verus imperator (o verdadeiro imperador). Q uando
os cruzados trouxeram a suposta túnica sem costura de Cristo, Ino­
cêncio a colocou sobre seus ombros.

Inocêncio se autodenominava “Melquisedeque”, um sacerdote
rei (Hb 7.1-4) que traria à existência uma sociedade cristã centraliza­
da. Para esse fim, ele trabalhou para a reforma da igreja: defendendo o
celibato do clero, opondo-se à simonia, combatendo a corrupção pela
cúria e usura na sociedade, reforçando o direito canônico, insistindo
para que os bispos fossem irrepreensíveis e os sacerdotes morassem
em suas paróquias. Preocupações religiosas e a não ambição como
governante do mundo, aparentemente, motivaram seus esforços para
garantir a liberdade da igreja, promover as Cruzadas e alcançar a paz
entre as nações.

A centralização do governo eclesiástico progrediu sob o coman­
do de Inocêncio III e seus sucessores no século 13. D urante o século
13, a prática do papa nomeando bispos e outros altos cargos eclesiás­
ticos em sua própria autoridade, uma prática que começou no século
12, acelerou-se enormemente.

A corte papal, durante o século 12, tornou-se o tribunal de re­
curso em uma ampla variedade de casos (casamento e divórcio, testa-

568 HISTÓRIA DA IGREJA

mentos, votos, patronato, eleições), e os delegados papais levaram a
justiça e a autoridade papal a toda a Europa Ocidental.

Os estados pontifícios forneceram a base temporal para a m o­
narquia papal. Inocêncio III continuou a política de recuperação das
fronteiras dos territórios papais originais e, efetivamente, estabeleceu
os estados pontifícios, os quais existiram pelo resto do período me­
dieval. Para ser espiritualmente livre, ele sentiu que também deveria
ser politicamente livre, mas estava desconfortável a respeito de os es­
tados pontifícios resultarem do império, controlando o sul e o norte
da Itália.

B. Relação com o império e Frederico II

N a bula papal Venerabilem Fratrum (1202), Inocêncio afirmou
o direito da igreja romana de transferir o império de uma dinastia
para outra, como tinha sido feito na transferência dos gregos para os
alemães na pessoa de Carlos Magno. A bula não contestava o direito
dõs eleitores de escolher o governante, mas afirmava o direito do papa
de analisar as qualificações do candidato, decidir eleições disputadas
e resolver questões morais envolvidas.

Após a m orte de Henrique VI, Inocêncio inicialmente se ligou
a O tão IV, mas, depois, deu suporte a Filipe da Suábia. Q uando este
morreu, O tão recebeu a coroa imperial de Inocêncio, mas, quando ele
seguiu sua própria política em relação à Sicília, o papa excomungou-
-o. Inocêncio agora apresentou sua ala a Frederico II, filho de H enri­
que VI, mas ele não provou ser o tipo de governante que Inocêncio
queria.

Com certa emanação messiânica, Frederico II foi para o norte.
A confusa situação na Alemanha é refletida pela sua eleição como rei
em 1211, confirmada em 1212, e sua coroação a rei duas vezes, em
1213, em Mainz, e novamente em 1215, em Aachen. O império foi
assegurado por ele quando os franceses derrotaram O tão IV e seus
aliados ingleses em Bouvines, em 1214.

Frederico II foi coroado imperador em 1220 pelo Papa Honório
III (1216— 1227), na Basílica de São Pedro, depois que ele concor­
dou em fazer leis contra a heresia, uma parte da legislação imperial,
para defender os direitos da igreja, e seguir em uma Cruzada. Frede­

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 569

rico, então, passou a exaltar o seu governo imperial como comparável
a Roma Antiga, juntamente com a autoridade papal.

Sua Cruzada, a sexta, foi a única que acabou por ser amaldiçoada,
e não abençoada pelo papado. Para a consternação de muitos, Frede­
rico II negociou, em vez de vencer pela força das armas, uma paz com
os muçulmanos, que perm itiu o controle cristão de Jerusalém (exceto
na Mesquita de Ornar), Belém, Nazaré e rotas de peregrinação da cos­
ta, mas novos governantes turcos logo reocuparam as áreas.

Um linguista resoluto e aprendido nas ciências, Frederico II, foi
um cético religioso. Ele tinha relações tempestuosas com o papado,
tendo sido duas vezes excomungado por Gregório IX — em 1227 e
em 1239 — e declarado deposto por Inocêncio IV para o Concilio
de Lyons em 1245, o Décimo Terceiro Concilio Ecumênico e o pri­
meiro caso de implementação do Dictatus Papae 12, de Gregório VII.

A m orte veio em 1250. As reações ambivalentes para Frederico II
são capturadas pelas avaliações opostas dele: stupor m undi (“maravi­
lha do m undo”), por seus admiradores pelo seu grande aprendizado
e suas habilidades; e “anticristo” ou o precursor do anticristo, pelos
partidários do papado.

C. Relação com a Inglaterra

Uma eleição disputada do arcebispo de Cantuária trouxe
Inocêncio III aos assuntos internos da Inglaterra. Os monges ale­
garam o direito de eleger seus próprios precedentes, e os bispos
sufragâneos reivindicaram seus direitos, apoiados pelo rei. In o ­
cêncio reservou ambos os candidatos e creditou Stephen Lang-
ton, que é conhecido na história dos estudos bíblicos pela divisão
da Bíblia em capítulos.

Quando o rei João (irmão de Ricardo, Coração de Leão) recu­
sou Stephen Langton, Inocêncio colocou a Inglaterra sob o interdi­
to, o que significava que nenhum sacramento poderia ser executado
(um castigo que se originou como um poder arquiepiscopal, mas
estendido a um papal), e excomungou João. Filipe II, da França,
ameaçou depor João, que depois concordou e emitiu uma carta de
liberdades eclesiásticas em 1213, concedendo eleições clericais li­
vres, mas reservando alguns direitos para si próprio. Ele então foi

570 HISTÓRIA DA IGREJA

mais longe e colocou seus reinos sob a proteção papal, como um
feudo papal, e deu um juram ento de vassalagem a Inocêncio.

Por causa do fracasso do rei em Bouvines, os barões extraíram
do rei João, em Runnymede, em 1215, a Magna Carta, um docu­
mento básico que restringia os direitos feudais e soberanos da co­
roa e, assim, preparava-a para o desenvolvimento das liberdades do
povo inglês. Isso estabeleceu o princípio de que, como disse um ad­
vogado inglês do século 13: “Nas Inglaterra, são as regras da lei, e
não na vontade [do rei]”. Stephen Langton estava envolvido no caso
e pode ter sido o autor do documento. O papa colocou-se no lado
errado da história quando declarou que, já que João era agora um
vassalo papal, o que aconteceu em Runnymede era também uma
rebelião contra o papa.

D. Quarta Cruzada

A Quarta Cruzada (1202— 1204) foi um empreendimento pa­
pal e veneziano. O doge (duque) de Veneza prom eteu equipar os
reformistas se eles capturassem a cidade comercial rival de Zara, na
costa dos Bálcãs, no caminho para a Terra Santa.

Então, os reformistas foram persuadidos a restaurar o imperador
deposto Aleixo IV por meio da captura de Constantinopla (1203-
1204). Com o resultado, a cidade foi saqueada e queimada pelos
reformistas, muitos dos seus tesouros foram levados para Veneza, e
suas relíquias foram dispersadas pela Europa Ocidental. Um cronista
contemporâneo lamentou: “Até mesmo os muçulmanos teriam sido
mais misericordiosos”.

Um patriarca latino e um imperador latino foram escolhidos. A
divisão entre as igrejas latina e grega foi concluída apenas nesse m o­
mento, quando começou o ódio para com a cristandade ocidental
pelo povo e pelo clero da igreja grega. As excomunhões de 1054 não
tiveram o impacto popular que os danos causaram em C onstantino­
pla, em 1204.

A Q uarta Cruzada não conseguiu ajudar os estados latinos no
oriente, enfraqueceu o Império Bizantino e alienou a igreja grega
do ocidente latino. Foi nesse contexto que o imperador bizantino,
precisando de todos os aliados que ele pudesse reunir, reconheceu a

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 571

igreja sérvia como autônoma e, em 1219, nomeou Sava, um monge
do m onte Atos, seu arcebispo. Cristãos ortodoxos, no século 20, afir­
maram que eles tinham mais liberdade religiosa sob os marxistas do
que sob os cruzados.

A ideia de cruzada ainda estava viva, e, em 1212, ocorreu a trági­
ca Cruzada das Crianças. A cruzada foi acompanhada por milhares
de adolescentes a partir da França e da Alemanha — alguns voltaram
para casa, outros pereceram em uma tempestade no mar, e houve aque­
les que foram vendidos em escravidão no Egito e no norte da África.

Inocêncio III, então, virou a ideia de Cruzada contra os albigen-
ses, no sul da França (capítulo 24). A ideia de cruzadas foi aplicada
não só ao sul da França, mas também à guerra política europeia, nos
países bálticos, e contra Frederico II, no sul da Itália. Embora Inocên­
cio III tenha tentado manter os fins da igreja acima de tudo e conter
as cruzadas políticas, papas posteriores tiveram ainda menos sucesso.

E. Quarto Concilio de Latrão

O Q uarto Concilio de Latrão (o décimo segundo dos concílios
ecumênicos no computo romano), o maior concilio medieval (400
bispos e 800 abades e outros), reuniu-se em 1215. Entre outras coi­
sas, esse im portante concilio condenou os albigenses, fez a inquisi­
ção (já introduzida por bispos) obrigatória em toda igreja, aprovou a
linguagem da transubstanciação (embora, aparentemente, não tenha
excluído outras interpretações da Presença Real) e requereu que a
confissão dos pecados a um sacerdote e a comunhão fossem observa­
das pelo menos uma vez por ano, na Páscoa (a comunhão tornou-se
ainda menos frequente). O concilio é uma das principais fontes do
direito canônico da Igreja Católica.

Antes de Inocêncio III, a cúria papal resistiu aos representantes
dos movimentos “pobreza apostólica”, mas começou uma política
de acomodar seus impulsos para a igreja, contanto que a doutri­
na ortodoxa e a autoridade hierárquica fossem reconhecidas. Desse
modo, Inocêncio III abriu caminho para um novo e significativo
desenvolvimento na história monástica: o surgimento das ordens
mendicantes.

572 HISTORIA DA IGREJA

II. ORDENS RELIGIOSAS MENDICANTES

Anteriormente, o voto de pobreza era um padrão assumido por

monges, mas esse era um entendimento do indivíduo, e não da co­

munidade. Alguns estabelecimentos monásticos, de fato, tornaram-se

muito bem-sucedidos, tais como Cluny e algumas casas cistercienses.

Quanto mais diligentes e piedosas as comunidades monásticas eram,

mais floresciam, e mais forasteiros queriam ajudar os monges. Com

maior facilidade de vida, essas comunidades de sucesso tornaram-se

mais relaxadas na sua vida religiosa, para que novos movimentos de re­

forma surgissem a fim de retornar aos ideais mais rigorosos. Os mon­

ges mendicantes tentaram impor a pobre­

za em suas comunidades, bem como sobre

Um monge cisterciense monges individuais.
descreveu o ciclo da vida As ordens religiosas mendicantes de­
monástica: “Disciplina gera
abundância, e abundância, vem ser vistas como uma expressão de um
a mcJnos que tomemos o entusiasmo maior no final do século 12 e
máximo de cuidado, destrói início do século 13, pela pobreza evangélica
a disciplina; a disciplina, como o fator formador da essência da vida
em sua queda, puxa para espiritual. Vários grupos tentaram imitar a
baixo toda a abundância” vida dos apóstolos, em pobreza e evangeli-
(Cesário de Heisterbach, zando fora de comunidades religiosas tra­
dicionais, mas nem todos os que ficaram
c. 1180—1240). impressionados com essas qualidades se
tornaram parte das comunidades religiosas.

Os leigos, homens e mulheres que fo­

ram oficialmente reconhecidos como san­

tos nos séculos 12 e 13, tinham em comum o trabalho de caridade,

como uma imitação de Jesus Cristo. Eles frequentemente combina­

vam pregação e crítica a sacerdotes católicos com lealdade para com a

igreja. Sua elevação à santidade foi devida à promoção pelo clero secu­

lar, e seu reconhecimento foi limitado à sua diocese local.

Em comum com Francisco de Assis, eles tinham uma espirituali­

dade penitencial, um desejo de conformar a vida deles ao exemplo de

Cristo, uma ênfase na pobreza e humildade e atenção às necessidades

dos marginalizados na sociedade por meio da esmola e do encoraja­

mento. Eles diferem de Francisco, optando por permanecer estrita­

mente no estado laical.

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 573

Os frades mendicantes, portanto, surgiram como um terceiro
tipo de ordem religiosa medieval juntamente com monges, que vi­
viam em mosteiros, e cônegos, que serviam na catedral e, às vezes, nas
igrejas paroquiais. Eles diferem das comunidades religiosas primárias
por im por a pobreza na própria ordem, e não apenas sobre os mem­
bros individuais. Eles formaram uma contraparte dentro da igreja
para o entusiasmo pela “pobreza apostólica”, manifestada nos movi­
mentos heréticos e cismáticos do final do século 12 (capítulo 24).

Essas ordens também partiram da prática de uma vida enclausura­
da, a fim de envolver-se na pregação ao povo. Um verso latino-medieval
expressa a diferença nos locais favorecidos pelos monges: “Bernardo
amava os vales, Benedito, as montanhas, Francisco, as cidades, D om in­
gos, as cidades populosas”. Embora os franciscanos tenham dado iní­
cio, os dominicanos receberam aprovação papal oficial primeiro.

A. Domingos (c. 1170-1221) e os dominicanos

Domingos nasceu na região de Castela (norte da Espanha). Ze­
loso e com boa formação teológica, ele ajudou o seu bispo Diego, em
Osma, no trabalho entre hereges e desenvolveu um estilo itinerante,
mendicante, com base no exemplo dos apóstolos.

Em 1215, Domingos estabeleceu, na diocese de Toulouse, uma
sociedade de pregadores que estava preparando-se para o cuidado
das almas e a instrução na fé, com estudos teológicos e uma vida de
ascetismo. Essa Ordo Fratrum Praedicatorum (“Ordem de Irmãos
Pregadores”, O.I.P. abreviada) foi a primeira comunidade religiosa
dedicada à pregação. Inocêncio III recomendou que os pregadores
seguissem a Regra Agostiniana, e, em 1216, o Papa H onório III deu
a confirmação oficial para a nova ordem.

A ordem em 1220 renunciou a propriedade e fixou rendas, mas
manteve ligações mais estreitas com as velhas ordens e interpretou a
obrigação de pobreza menos rigorosa do que os franciscanos. A ordem
era para possuir apenas suas casas e igrejas e ser apoiado por esmolas
— não por receita fixa e renda de propriedades. Em vez de trabalho
manual, os membros estavam ocupando-se com estudo, pregação e
trabalho pastoral. Domingos também tomou medidas que conduzi­
ram ao estabelecimento de uma ordem de freiras dominicanas.

574 HISTÓRIA DA IGREJA

As próprias práticas de Domingos estabeleceram o padrão para a
ordem: vida estrita, pobreza, jejum e outras abstinências, oração, pe­
nitência e entusiasmo para a pregação intelectualmente informada.
Sob o próximo general da ordem, Jordão, as atividades que se tor­
naram características dos dominicanos foram desenvolvidas ainda
mais: pregação, cuidado com as almas, missões, luta contra a here­
sia (o Papa Gregório IX confiou a inquisição quase exclusivamente
à ordem) e formação em teologia (especialmente nas universidades).
A ordem cresceu, de forma rápida, no século 13, ganhando cerca de
15.000 membros em 557 casas até o final do século. N o século 14, os
dominicanos cultivaram, de forma ativa, o misticismo na Alemanha.

Uma história contada sobre Domingos ilustra o contraste entre
ele e Francisco: interrom pido em seus estudos pelo chilrear de um
pardal, Domingos pegou o pássaro e o arrancou dali. O incidente
certamente não aconteceu, mas pode-se estar igualmente confiante
de que o conto não seria contado dessa forma se fosse sobre Francisco.
Por um lado, Francisco não teria estudado e não faria mal a qualquer
criatura.

Enquanto faltava a Domingos o calor do sentimento religioso e
a personalidade de Francisco, ele o superou no entusiasmo do inte­
lecto, do treinamento e da praticidade. Domingos era austero, siste­
mático em sua abordagem, um disciplinador e possuía as qualidades
de um estadista eclesiástico — em cada característica, era o oposto de
Francisco.

B. Francisco de A ssis (1182-1226) e os
franciscanos

Francisco, despretensioso e suave, tem sido o mais amado (até
mesmo por protestantes) dos santos medievais. Esse representante
excepcional da piedade medieval tinha um promissor começo com
uma juventude dissoluta, filho de um rico comerciante de pano em
Assis (Itália central), cuja afeição por coisas francesas deu nome ao
seu filho.

Uma longa doença levou à conversão de sua juventude espiritu­
osa e galante e à decisão de Francisco em casar-se com a “Senhora
Pobreza” (ele tinha uma propensão para personificar objetos e quali­

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 575

dades). Trocar suas roupas com as de um mendigo que ele conheceu
enquanto peregrinava em Roma, quebrar financeiramente seu pai
com sua caridade aos pobres, dedicar-se ao reparo da Igreja de São
Damião e responder à leitura de Mateus 10.5-l6na pequena igreja da
Porciúncula, adotando seus sentidos literalmente para a vida, foram
passos notáveis do novo rumo de sua vida.

Francisco entregou-se a trazer a mensagem do evangelho na pre­
gação popular para as massas. Interessado também na pregação para
os não cristãos, ele juntou-se à Quinta Cruzada em 1219 e obteve
permissão para pregar em terras muçulmanas antes de retornar para
a Itália, em 1220.

UMA ORAÇÃO DE FRANCISCO DE A SSIS

"Ó Senhor, nosso Deus, que nós tenhamos Tua mente eTeu Espírito;
torna-nos instrumentos da vossa paz; onde houver ódio, vamos semear
amor; onde houver ofensa, perdão; onde houver discórdia, união; onde
houver dúvida, fé; onde houver desespero, esperança, onde há trevas,
iuz; e onde houver tristeza, alegria.”

"Ó divino Mestre, concede que nós não procuremos tanto ser consolados
como consolar; ser entendidos como compreender; ser amados como
amar; pois é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado; e é
morrendo que se nasce para a vida eterna. Amém."

(Francisco de Assis)

Francisco foi notável por sua humildade e, à medida que homens
de mesma visão se juntavam a ele, nomeava-os à Ordo Fratrum M i-
norum (“Ordem de Irmãos Menores” ou “Frades Menores”, OIM
abreviado). Sua primeira regra (.Regula prim itiva), para eles, agora
perdida, foi escrita em 1209. Em 1210, o Papa Inocêncio III deu per­
missão oral para o grupo continuar, com a condição de que Francis­
co e Seus companheiros recebessem tonsura, e que Francisco jurasse
obediência ao papa, e que seus companheiros jurassem obediência a
Francisco.

Sem acesso à administração, Francisco renunciou como chefe do
grupo em 1220, mas participou da elaboração de uma nova regra em
1221 (Regula non bullata ou Regula prima) para adaptar o conteú-

576 HISTÓRIA DA IGREJA

do às necessidades de uma ordem crescente. As citações das Escritu­
ras e os desabafos edificantes e piedosos do coração, proveniente da
primeira regra, foram incluídos, mas normas mais concretas foram
adicionadas.

A terceira regra de 1223 (.Regula bullata), quando H onório III
deu a aprovação papal, era ainda menos do trabalho de Francisco e for­
neceu mais para uma vida cuidadosamente arranjada para substituir a
liberdade da velha vida errante de devoção apostólica de pobreza.

Francisco trouxe um novo sentimento pela natureza, expressado
em seu “Cântico do sol”, endereçado ao “irmão sol”, à “irmã lua”, à
“terra do irmão” e ao “irmão m ar”. Uma das anedotas encantadoras
lembradas na arte, bem como na literatura, foi a de Francisco pregan­
do na floresta para os pássaros, os quais bateram suas asas em alegria e
o ouviram tão atentamente que ele se repreendeu por não ter pensado
em pregar para eles antes.

Essa história ilustra suas outras atitudes marcantes: alegria, sin­
ceridade e simplicidade constantes. A preocupação com a natureza
e com os animais também encontrou expressão ao fazer um presépio
de Natal em 1223, iniciando o costume ainda popular de cenas do
presépio no Natal.

Desde o início, Francisco foi associado à Clara (c. 1193— 1233)
e, em 1212, ele envolveu-a com o hábito franciscano e, então, ins­
tituiu “Clarissas”, a “Segunda O rdem ” de freiras franciscanas. Cla­
ra estabeleceu-se na Igreja de São Damião, fora de Assis, onde foi
acompanhada por outras jovens nobres, formando a única casa de
mulheres “fundada” por Francisco. Ela foi a prim eira mulher a es­
crever uma regra aprovada pelo papado (em 1253), e Inocêncio III
isentou sua comunidade do decreto do Quarto Concilio de Fatrão
(1215), que exigia novas casas religiosas para seguir uma das velhas
regras monásticas.

Com o Francisco, Clara recusou-se a aceitar os bens e os rendi­
mentos regulares para sua comunidade, decidindo que viveriam de
esmolas e ganhos a partir de seu próprio trabalho. Tal dependência
da providência divina para as necessidades do dia a dia foi especial­
mente ousada para um grupo de mulheres dedicadas à vida religiosa.
Considerando o fato de que, para Francisco e Domingos, o ascetismo

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 577

era um meio de alcançar a liberdade interior, Clara (e, depois dela,
outras mulheres franciscanas e dominicanas) valorizava a abstinência
extrema como fundamental para a perfeição cristã. Foi canonizada
em 1255, dois anos após sua morte.

Francisco fundou, em 1221, a Terceira Ordem, “Os Irmãos e Ir­
mãs da Penitência”, uma comunidade leiga que tentou viver os prin­
cípios fundamentais da vida franciscana, mesmo continuando uma
vida matrimonial no mundo.

O incidente incomum na vida do Francisco ocorreu quando ele
recebeu os estigmas em 14 de setembro de 1224. Após um período de
40 dias de jejum, oração e contemplação no monte Alverne, teve uma
visão na qual um serafim voou em direção a ele e o encheu de prazer
indizível. N o centro da visão, havia uma cruz com o serafim pregado
a ela. Q uando a visão desapareceu, Francisco sentiu fortes dores no
corpo e então viu os sinais dos ferimentos da crucificação de Cristo
no seu próprio corpo. Seu discípulo mais próximo, o irmão Leão, é
a principal fonte para a história dos estigmas, mas outros contem po­
râneos indicam que tinham visto as feridas. Um debate tem rodeado
a autenticidade da experiência e se tal pode ser explicada por razões
psicológicas de meditação intensa ou apenas como um milagre.

Exausto de sua permanência na montanha, Francisco teve de ser
levado de volta a Assis, e ele permaneceu com problemas de saúde até
sua morte, em 3 de outubro de 1226. Foi canonizado dois anos mais
tarde por Gregório IX. Em 1230, seus restos mortais foram transfe­
ridos para a nova dupla basílica em Assis, construída em sua hom e­
nagem (menor basílica românica, 1230-1232; basílica gótica, 1232-
1239), adornada com obras de vários artistas, incluindo 28 afrescos
(pintados em 1296-1298), retratando cenas da vida de Giotto, que
marcou a transição do medieval à pintura renascentista.

As características de Francisco e o movimento franciscano foram
pobreza, humildade e simplicidade. Os franciscanos uniram a austera
renúncia do m undo a uma missão evangélica para isso. Essa combi­
nação introduziu uma tensão básica no movimento. Após a morte de
Francisco, tendências diferentes entre seus seguidores surgiram.

Alguns queriam a observância literal da regra no espírito das in­
tenções originais de Francisco, reafirmadas em seu Testamento para o

578 HISTÓRIA DA IGREJA

fim de sua vida; eles tornaram-se os Espirituais (veja o capítulo 24).
Outros queriam mais alojamento para ordens monásticas tradicio­
nais, de acordo com a prática dos dominicanos, uma posição p ro ­
movida por Elias de C ortona (ministro geral, 1232— 1239); estes se
tornaram os Conventuais.

Uma festa representada pelo popular milagreiro A ntônio de Pá-
dua e pelo ministro geral Boaventura (veja a seguir) realizou o movi­
mento por um tempo. Por volta de 1300, o número de franciscanos foi
estimado entre 30.000 e 40.000, mas as tensões sobre a interpretação
da pobreza apostólica produziram um conflito agudo no século 14.

C. Novas características das ordens
mendicantes

1. Mendicância ou pobreza corporativa

Com o retorno de uma economia monetária para a Europa
Ocidental, a pobreza foi exaltada como uma grande virtude. A nte­
riormente, os monges opuseram-se ao orgulho e à gula, exaltando
a obediência e a castidade. Agora, com novas riquezas pelas classes
comerciais nas cidades, existentes ao lado de grande pobreza das mas­
sas, os mendicantes novamente enfatizaram a virtude da pobreza, em
parte, em resposta à “pobreza apostólica” defendida por movimentos
heréticos e críticos da igreja.

Os franciscanos viam a pobreza como um fim em si e, assim, es­
tavam infestados da controvérsia sobre o assunto, ao passo que os do­
minicanos a viam como um meio eficaz de pregação e luta contra os
hereges.

2. Pregação popular

O utra novidade das ordens mendicantes foi a pregação ao povo
comum, por Francisco, e a outros, por Domingos. N a primeira crise
apresentada à igreja ocidental pela urbanização, os frades responde­
ram com uma preocupação pastoral por todos os estratos da socieda­
de, principalmente nas cidades, na tentativa de atingir pessoas pelo
exemplo de vidas virtuosas e pela comunicação do evangelho em ní­
vel pessoal.

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 579

3. Educação, especialmente o ensino
universitário

A ascensão das universidades apresentou novos desafios, e as
ordens mendicantes tinham maior liberdade para mover-se dentro
desses novos centros de aprendizagem. Os franciscanos não estavam
m uito atrás dos dominicanos em responder às oportunidades.

4. Terceira ordem ou fraternidade leiga

As ordens mendicantes promoveram uma renovação da piedade
entre os leigos que responderam à sua pregação e foram encorajados a
traduzir seus ideais na vida cotidiana.

5. O jugo imediato à visão romana

Vários mosteiros já apreciaram esse status, mas, agora, toda a or­
dem foi colocada nessa relação. A organização centralizada de cada
ordem, com a relativa autonomia das províncias de cada uma, deu
ao papado um instrumento eficiente para enfrentar os desafios que
vinham sobre a igreja.

6. Mobilidade

Os frades não eram ligados à velha exigência de “estabilidade”,
permanecendo em um único “lugar monástico”. Nos dias de Bento de
Núrsia, a “estabilidade” foi necessária para trazer a ordem e a discipli­
na para a vida monástica. Agora era necessário ir até onde as pessoas
estavam para levar a mensagem cristã para elas.

7. Uma ordem de frades

Isso foi antecipado em alguns aspectos pelos cistercienses, mas
agora era desenvolvido mais plenamente. A estrutura organizacional
instituída pelos mendicantes e sua pregação itinerante significavam
que novos recrutas, ao contrário de monges primários, entravam em
uma ordem, em vez de em um mosteiro individual, e professavam obe­
diência ao superior da ordem, em vez de ao chefe de uma casa local.

Outras ordens mendicantes incluem os Carmelitas (a “Ordem
dos Irmãos de Nossa Senhora do M onte Carmelo”, que começou
como eremitas na Terra Santa no século 12, antes de se tornarem

580 HISTÓRIA DA IGREJA

mendicantes, e foram reconhecidos por Inocêncio IV, em 1247), os
Eremitas de Santo Agostinho (reconhecidos por Alexander IV em
1256) e os Servitas (os quais começaram como uma irmandade lei­
ga, mas adotaram a regra agostiniana em 1240, que foi reconhecida
como uma ordem mendicante por M artinho V em 1424).

III. ORGANIZAÇÃO DAS UNIVERSIDADES

As raízes do desenvolvimento das universidades pertencem ao
renascimento intelectual dos séculos 11 e 12, mas o período decisivo
para sua formação foi na segunda metade do século 12, e sua organi­
zação institucional não foi definida até o século 13.

Alguns fatores que contribuíram para o surgimento das universi­
dades como organizações separadas foram: o crescimento da literatu­
ra acadêmica, a especialização no assunto em determinados lugares,
o aumento do número de alunos e a internacionalização de alunos e
professores.

Definições tradicionais de educação já não podiam acomodar a
situação. Os alunos iam a lugares onde eram ensinadas as matérias
que eles desejavam aprender. Professores proeminentes, tais como
Abelardo, atraíam um grande número de estudantes para certas cida­
des, e os alunos seguiam os passos dos professores ou de novos nomes
que ganhavam fama. Na educação, o professor é sempre mais impor­
tante do que o lugar, mesmo que tal lugar seja famoso.

Apesar de a agitação intelectual, da qual surgiram universidades,
ter sido mais evidente em escolas da catedral, às vezes, nem os profes­
sores nem os alunos eram formalmente anexados às escolas catedrá-
tica, colegiada ou monástica — ao contrário da situação anterior. O
chanceler da catedral (como, por exemplo, em Notre-Dame, Paris)
ou o arcediago (como em Bolonha), no entanto, deu aos professores
uma licença para ensinar.

Além da supervisão do chanceler, os professores começaram a
unir-se para controlar a admissão de seus membros. Eles levaram,
como modelo, as guildas de ofício e comércio, cujas cerimônias de
iniciação influenciaram as cerimônias acadêmicas. Em Bolonha, os
alunos também formaram uma guilda com regulamentos estritos do

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 581

ensino pelos professores (os estudantes italianos tinham, muitas ve­
zes, entre 30 e 40 anos e, por isso, eram mais maduros). Os professores
nas escolas de Paris formaram uma empresa para proteger seus direi­
tos e privilégios. Essa corporação tornou-se um modelo para muitas
universidades do norte.

As universidades tornaram-se a terceira força na cristandade, jun­
tamente com o imperium (império) e o sacerdotium (sacerdócio).

Em um primeiro momento, a expressão studium generale foi usa­
da para escolas de ensino superior com uma faculdade de artes e um
corpo docente de pelo menos um dos temas avançados (medicina,
direito ou teologia), que ensinavam aos estudantes de toda a Europa.

A palavra universitas significava, no início, uma corporação le­
gal, neste caso, uma organização de professores e alunos. Ela foi usada
para reunir professores, alunos ou ambos, e utilizada pela primeira
vez em 1215. Seu sentido institucional moderno de “universidade”,
comunidade de alunos e mestres, entrou em uso no final do século 14.
“Faculdade” refere-se ao grupo de pessoas que viviam juntas; só mais
tarde passou a referir-se ao prédio em si.

Embora as sete artes liberais tradicio-
nais tenham continuado a ser ensinadas, “Os italianos têm o papado,
uma tríplice classificação prevaleceu: filo- os alemães, o império, e os
sofia racional (gramática, retórica e lógica), franceses, a universidade.”
filosofia natural (metafísica, matemática e --------------------------------------
física) e filosofia moral (ética). Por volta do
século 12, o estudo da medicina foi concentrado em Salerno (onde já
havia uma fama de longa data nesse campo) e em Montpellier, o estu­
do das leis foi concentrado em Bolonha, e, no final do século, filosofia
e teologia foram o foco em Paris e Oxford.

As principais formas de ensino eram feitas por palestra e disputa
(capítulo 21). Palestras “ordinárias” estavam no programa fixo para
o curso de estudos e eram obrigatórias. Palestras “extraordinárias”
ou “superficiais” foram dadas por professores menos proeminentes e
por alunos mais velhos sobre assuntos menos importantes. As cópias
dos livros tinham de ser feitas à mão ou seus índices tinham de ser
obtidos por notas das palestras do professor. Cidades universitárias
tornaram-se centros de um próspero negócio de livros.

582 HISTÓRIA DA IGREJA

Supervisionadas pela igreja e administradas pelos professores,
as primeiras universidades tinham certa independência. O Terceiro
Concilio de Latrão (1179), sob o comando do Papa Alexandre III,
decretou que cada igreja catedral tinha de fornecer um benefício para
oferecer suporte a um professor, o qual foi proibido de cobrar taxas
de meninos pobres, e cuja licença para ensinar seria concedida sem
cobrança alguma e era dada a qualquer candidato qualificado. Em
Bolonha, os professores dependiam do suporte das taxas dos alunos.
Estes apreciaram o status de um clérigo (escrivão), recebendo a ton-
sura (cabeça raspada) para distingui-los dos leigos, mas sem receber
ordens clericais (embora, na Itália, os leigos, bem como os clérigos,
foram para a escola).

Acordos com autoridades comunais, eclesiásticas ou reais de­
ram uma base jurídica que foi regularizada aproximadamente no
ano de 1200. M uitas vezes, esses regulamentos eram uma codifica­
ção dos costumes primários. Em casos de conflitos com as autorida­
des locais, as universidades geralmente podiam contar com o apoio
do papado para garantir sua independência. Os padrões típicos na
organização das universidades podem ser ilustrados em Paris, Bolo­
nha e Oxford.

Em Paris, os professores e os alunos ficaram isentos da jurisdição
civil pelo rei Filipe II Augusto, em 1200, e, nas próximas duas déca­
das, da jurisdição do bispo. O papado emitiu um estatuto em 1215,
mantendo sua supervisão sobre a “universidade”, que, por volta de
1222, tinha a organização essencial no seu devido lugar.

Havia quatro faculdades em Paris — teologia (a primeira a alcan­
çar autonomia, 1219), artes liberais, medicina e direito canônico — ,
e os professores e os alunos foram agrupados segundo quatro nações
(francesa, picarda, norm anda e inglesa, que incluíam alemães e escan­
dinavos). A faculdade de artes foi a maior e assumiu a liderança em
disciplinas diferentes de teologia, e seu reitor tornou-se o verdadeiro
chefe da universidade. Cresceu cada vez mais até se tornar uma fa­
culdade de filosofia. Em 1245, o papa deu à universidade seu próprio
selo e, portanto, a existência completa e legal.

Mesmo com a grande contribuição da Roma Antiga para a civi­
lização ocidental, o seu sistema foi o direito, por isso, em Bolonha, o

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 583

estudo das leis floresceu. As origens são obscuras, mas, nos séculos 11
e 12, o estudo do direito em Bolonha experimentou um crescimento
no escopo e na importância.

Três sistemas de lei contribuíram para a formação de códigos le­
gais ocidentais — direito romano, germânico e eclesiástico —, mas,
antes do século 19, práticas germânicas haviam sido integradas ao di­
reito romano, para que os dois ramos do estudo se baseassem na com­
pilação do direito civil de Justiniano (porém continha muitos pontos
relativos à religião) e no direito canônico da igreja.

Em Bolonha, os alunos foram organizados em grêmios (universi-
tates) de acordo com sua região de origem (“nações”). A Santa Sé esta­
beleceu seu controle da universidade a partir de 1224, subordinando
professores e alunos, fossem clericais ou leigos, ao bispo local, o qual
designava o chanceler. Cada universitas de alunos elegia seu próprio
reitor, a quem era dado o juramento de obediência que incorporava o
aluno à universidade.

Em Oxford, o legado papal em 1214 concedia privilégios para
o studium, que foi colocado sob a liderança do bispo de Lincoln, o
qual selecionou o chanceler dos professores de teologia. O bispo de
Lincoln, Robert Grosseteste, um antigo chanceler, deu os estatutos
para a universidade em 1252— 1253.

Nos primeiros séculos da igreja, a maior parte do pensamento
teológico foi produzida por bispos (além de alguns professores proe­
minentes, como Justino e Orígenes). N o início da Idade Média, veio
especialmente de monges (que, em alguns casos, foram também bis­
pos, como Anselmo e Pedro Lombardo). D o século 12 em diante, a
teologia veio dos professores nas universidades.

Nos tempos modernos, quando o ensino superior tem parecido
hostil à religião, tanto na igreja como na sociedade, é bom lembrar
que as universidades tinham muito de seu ímpeto da teologia e sua
origem no âmbito da igreja.

O pico da cultura intelectual medieval alcançado no século 13,
então, foi devido a três fatores:

1. O desenvolvimento das universidades

Como oferro com oferro se aguça. (Pv 27.17), a proximidade e o
contato de mentes afiadas estimulam a aprendizagem e continuam a
ser o componente básico da vida intelectual universitária.

584 HISTÓRIA DA IGREJA

2. A presença das ordens mendicantes

Os frades, não vinculados às limitações de ordens monásticas
tradicionais, estavam disponíveis para levar suas melhores mentes
a novas situações e, imediatamente, viram as oportunidades que as
universidades forneciam em sua missão de pregação. Os dominicanos
estiveram em Paris por volta do ano 1217, e os franciscanos, dois anos
mais tarde. Houve conflitos acirrados entre representantes das ordens
mais antigas e os frades sobre o ensino de prerrogativas nas universi­
dades, mas os mendicantes se estabeleceram como participantes per­
manentes e formidáveis na vida intelectual.

3. A disponibilidade do corpus inteiro de
Aristóteles

Alguns escritos de Aristóteles sobre lógica estiveram disponíveis
durante a Idade Média, mas o corpo completo tornou-se acessível
para a Europa Ocidental no século 13. O utros se tornaram conhe­
cidos p or um caminho tortuoso — traduzidos do grego para o sírio,
nos primeiros séculos cristãos, e, em seguida, para o árabe, após as
conquistas muçulmanas do O riente Médio, e, depois, apresentados
a estudiosos latinos no sul da Itália e Espanha, onde tiveram contato
direto com a aprendizagem árabe.

Traduções do árabe para o latim, bem como os contatos entre
cristãos ocidentais e muçulmanos, haviam começado muito antes das
Cruzadas, mas estas se aceleraram nos séculos 12 e 13. A filosofia de
pensadores árabes, como Avicena e Averróis, e pensadores judeus,
como Maimônides (capítulo 22), os quais procuraram interpretar a
fé na religião revelada em relação à filosofia de Aristóteles, teve uma
influência significativa na vida intelectual cristã. As obras de Aristó­
teles também foram traduzidas diretamente do grego para o latim.

A presença de um formidável sistema de pensamento não cristão,
especialmente porque ele foi incorporado à filosofia muçulmana, es­
timulou o pensamento dos teólogos escolásticos.

IV. TOMÁS DE AQUINO (1225-1274)

O utros pensadores produziram summae no século 13, mas esse
empreendimento alcançou seu ápice com o trabalho de Alberto, o

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 585

Grande, e seu maior aluno, Tomás de Aquino, que produziu uma sín­

tese da fé e da razão, da ciência e da santidade, que ainda hoje, em

princípio, se não em detalhes, tem seu atrativo.

Tomás foi o filho mais novo do conde de Aquino. Aos cinco anos

de idade, foi enviado para a escola nas proximidades de monte Cas­

sino. Quando Frederico II expulsou os monges em 1239, Tomás foi

para Nápoles, que teve a primeira universidade independente da igreja

(fundada por Frederico II em 1224), para terminar seu curso de artes.

Lá, ele resolveu seguir uma carreira intelectual e entrar para a ordem

dominicana, o que fez em 1244. Sua família se opôs veementemente a

isso e o manteve prisioneiro por 15 meses antes de se arrepender.

Tomás foi para Paris sob a influência de Alberto, o Grande (Al­

berto Magno). Os dons de Alberto eram

mais em ciências naturais do que em filoso­

fia e em teologia, mas ele apresentou Tomás Outra história contada

a Aristóteles e a um programa para adequar sobre Tomás reporta Jesus

a filosofia aristotélica à teologia cristã. To­ dizendo- lhe: “Você tem

más acompanhou Alberto à Colônia em escrito bem sobre mim,

1248; ele então retornou a Paris como pa­ Tomás, que recompensa você

lestrante (1252— 1259) e recebeu seu tí­ receberá?”. Sua resposta foi:

tulo de mestrado em teologia em 1256. A “Nada além de ti”.

carta de recomendação do Papa Alexandre

IV para o chanceler de Notre-Dame, em

Paris, contém um eufemismo clássico: “Tomás de Aquino [é]... um

homem de ascendência nobre, distingue-se pela aprendizagem e pelos

padrões morais elevados”.

Como um teólogo para a corte papal na Itália (1259-1268),

Tomás estudou especialmente Aristóteles e, em seguida, retornou a

Paris (1268-1272).

Os agostinianos, que defendiam os velhos métodos da teologia,

e os inimigos das ordens mendicantes se opuseram a Tomás, que foi

apanhado na controvérsia sobre a adoção da filosofia árabe por al­

guns professores da faculdade de artes. Ataques a vários ensinamen­

tos de Tomás, antes e depois da sua morte, evidenciam uma confusão

de fé com sua defesa tradicional e uma “culpa por associação”. Ainda

assim, Tomás é um exemplo marcante de como o ensinamento, uma

586 HISTÓRIA DA IGREJA

vez considerado por alguns com desconfiança, pode tornar-se, mais
tarde, a principal base da apologética.

Enquanto ensinava em Nápoles (1272— 1274), Tomás foi en­
viado para o Conselho de Lyons (capítulo 24) como teólogo, mas
morreu a caminho.

A capacidade de memória e concentração de Tomás foi lendária,
pois foi relatado que ele poderia ditar obras diferentes de uma só vez
a vários secretários, sem perder a continuidade do pensamento em
nenhuma. A extensão dos escritos de Tomás é imensa. Sua filosofia
é exposta em uma série de comentários sobre Aristóteles e outros.
Muito da teologia e da espiritualidade de Tomás está contido em co­
mentários exegéticos sobre a Bíblia, que, para ele, era a única fonte da
revelação. (Por causa do silêncio de muitas obras secundárias, é fácil
esquecer quão central a Bíblia era para os estudiosos.)

Tomás compilou a Catena aurea, um comentário contínuo so­
bre os Evangelhos tirados de fontes patrísticas, gregas e latinas. En-
trq muitas outras obras, nota-se a liturgia que compôs (1264) para a
recém-instituída festa de Corpus Christi, e alguns hinos que continu­
am em uso na Igreja Católica Romana.

Tomás é outro exemplo da combinação de espiritualidade e Es-
colástica na Idade Média. Na verdade, Tomás, perto do fim de sua
vida, teve uma experiência que ele descreveu desta forma: “Tudo o
que escrevi parece palha em comparação ao que vi e ao que foi reve­
lado para mim”.

Estudantes modernos tendem a colocar os teólogos escolásticos
e os teólogos místicos — ou seja, aqueles que enfatizavam a razão e
aqueles que enfatizavam uma espiritualidade afetiva — em lugares se­
parados. As abordagens podem ter diferido. Uma começa com cren­
ças cristãs e usa-as para se refletir sobre as práticas e as experiências
religiosas, a outra começa a partir da experiência e relata-a de m odo a
induzir outros à experiência semelhante. Mas, na Idade Média, essas
abordagens eram vistas como complementares, cada uma informan­
do sobre a outra.

O culminar do trabalho literário de Tomás veio em sua Summa
contra Gentiles, um trabalho apologético sintetizando argumentos
cristãos contra visões não cristãs, e sua Sum m a Theologiae, uma teo-

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 587

logia sistemática incompleta devido à sua morte, mas concluída pelos
alunos de suas outras obras.

Tomás escreveu sua Summae sob a forma da quaestio escolásti-
ca, um diálogo escrito (capítulo 21). As quatro partes da sua Summa
Theologiae dividem-se em artigos (declarações de uma pergunta), e a
discussão de cada artigo tem cinco segmentos: a instrução da ques­
tão em perguntas de “sim” ou “não”, uma lista de objeções à posição
que ele adotará, uma declaração do ponto de vista do próprio Tomás,
argumentos para essa posição, e uma resposta para cada uma das ob­
jeções levantadas para sua posição.

A grande conquista de Tomás foi ter colocado Aristóteles a servi­
ço da igreja, conclusão de uma tarefa iniciada por Alberto. A teologia
cristã, desde o período patrístico, tinha sido montada em um quadro
filosófico platônico (especificamente neoplatônico). Essa foi a rea­
lização de Tomás para reconstruir a teologia cristã, de acordo com
Aristóteles, embora houvesse muito Platão nela também. Ele visou a
uma síntese filosófica e teológica de suas idéias cristãs herdadas com

A igreja dos jacobinos em Toulouse, a primeira casa dos dominicanos e o local da tumba de
Tomás de Aquino

588 HISTORIA DA IGREJA

as novas fontes grega, judaica e árabe, agora disponíveis para ele em
traduções latinas.

Como um historiador expressou, “[Tomás] acreditava no fato de
que não só havia toda a verdade em algum lugar, mas que também
havia alguma verdade em todos os lugares”. Mesmo assim, Tomás re­
conheceu: “N enhum ser humano pode alcançar o perfeito conheci­
m ento da verdade”.

Seu princípio da analogia do ser era central para o uso da linguagem
teológica de Tomás. Palavras usadas por Deus, que são também usadas
por seres humanos, não têm o mesmo significado (univocidade), nem
têm significados diferentes (equivocidade). Sim, elas têm significados
semelhantes, porque têm algo em comum; são análogas.

A abordagem básica de Tomás era fazer uma distinção clara, mas
não uma separação entre razão e fé, entre natureza e graça e entre o
correspondente da teologia natural e o da teologia revelada.

Impressionado com o quanto o pensador pré-cristão Aristóteles
tinha aprendido sem benefício da revelação, Tomás permitiu uma

TOMÁS DE AQUINO DUNS ESCOTO

0 triângulo tomista. Ateologia 0 triângulo de Duns Escoto. Existe

reveladaapoia-senateologianatural. Há uma ruptura entreomundo natural eo

umacontinuidadeeumpontodecontato sobrenatural, então, nãoháanalogia

entreanaturezaeosobrenatural, emque entre umeoutro.

oprimeiroforneceanalogiascomoúltimo.

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 589

grande parte de verdades que podia ser discernida somente usando
a razão humana. “Fé pressupõe a razão, como a graça pressupõe a na­
tureza”, algo que Lutero e Calvino não diriam. Algumas verdades, os
“preâmbulos da fé”, podem, em princípio, ser demonstradas pela razão.

Ainda assim, havia algumas coisas que podiam ser conhecidas ape­
nas pela revelação — os artigos de fé necessários para a salvação. Es­
sas verdades reveladas repousavam sobre as verdades que poderíam ser
aprendidas pela razão, não as contradiziam, mas iam bem além delas.

Tomás disse que a razão podería demonstrar a existência de Deus.
Ele formulou cinco provas da existência de Deus, baseadas no M o­
tor Imóvel de Aristóteles. Essas “cinco maneiras” são formulações
diferentes do argumento cosmológico, o raciocínio dos efeitos
observáveis para uma causa primeira. Por exemplo, movimento (ou
mudança) requer um motor, já que uma regressão infinita de uma
coisa atrás da outra, causando o movimento ou a mudança, não explica
o movimento em si.

Tomás rejeitou o argumento ontológico de Anselmo como apli­
cável apenas para um ser puramente inteligente; mas os seres hum a­
nos, tanto corpo como mente, devem começar com a percepção dos
sentidos. Aqui, ele segue a epistemologia de Aristóteles de que a base
do conhecimento é a informação recebida por meio dos sentidos que
a mente, então, organiza e generaliza.

Pode-se aprender sobre a existência de Deus pelo uso da razão,
mas a Trindade, em contraste, é uma questão de revelação. Revelação
é necessária, mesmo para verdades que podem ser aprendidas pela
razão, pois, caso contrário, tais verdades “seriam conhecidas apenas
por alguns, e isso só depois de um longo tempo e com uma mistura
de erros”.

Esse princípio foi aplicado a várias áreas. N a ética, as quatro vir­
tudes da Antiguidade Clássica — prudência, coragem, moderação e
justiça — são completadas por três virtudes reveladas do ensino cris­
tão — fé, esperança e caridade — para dar as sete virtudes cardeais.

No campo do direito, há uma lei natural que pode ser discernida
pela razão de que todos os seres humanos estão sujeitos. Governos
humanos estabelecem leis positivas, inclusive, para seus súditos. H á
também uma lei revelada (o mosaico e o evangelho) que se aplica a

590 HISTÓRIA DA IGREJA

crentes. A lei natural serve como um padrão para avaliar as leis posi­

tivas. Por toda parte, Tomás fundamentou-se no princípio de que a

“graça não anula a natureza, mas a conclui”.

A teologia de Tomás mostra um interesse especial na encarnação

[de Cristo] e nos sacramentos. Ele observou que a encarnação não

teria ocorrido sem a queda. Ela surgiu por meio da bem-aventurada

Virgem Maria, a qual imaculadamente concebeu.

Tomás também estabeleceu a doutrina básica dos sacramentos,

mas essa parte de sua Summa estava incompleta no momento de sua

morte. Os sacramentos são canais da graça de Deus, pensados — na

teologia católica romana, geralmente em contraste com o protestan­

tismo — não tanto como a atitude de Deus

“Já que a graça não anula para com os seres humanos, mas como um
a natureza, mas a conclui, tipo de substância que pode ser infundida
a razão deve ser o servo da nos homens.
fé, assim como a inclinação
natural da vontade é o servo Tomás empregou a distinção aristoté-
do amor (...). A doutrina lica entre substância (o que algo realmente
sagrada usa [a autoridade é) e acidentes (qualidades exteriormente
percebidas), para explicar a transubstancia-
dos filósofos] como ção, e argumentou a partir da presença de
argumentos justificativos Cristo em cada um dos elementos da santa
ceia para justificar a comunhão dos leigos
e prováveis. Ela usa as em uma espécie (o pão).

escrituras canônicas como a Tomás também estabeleceu a doutrina

autoridade adequada, com básica do papa como sucessor de Pedro, que

a qual está comprometida personifica a igreja, define o que é fé e tem

para argumentar, e usa a plenitude da autoridade que deve ser obe­

outros professores da decida, a fim de receber a salvação.

igreja como autoridades, Os dominicanos oficialmente impu­

com quem, de fato, seram os ensinamentos de Tomás sobre a

pode argumentar com ordem em 1278. A igreja de Roma cano­

propriedade, ainda que nizou-o em 1323, declarou-o um “Doutor

só com probabilidade” da Igreja” em 1567, intimou o seu estudo

(Tomás de Aquino, Summa sobre todos os estudantes de teologia em

Theologiae 1.1.8). 1879 e fez dele patrono de todas as univer­

sidades católicas em 1880. Somente nos úl-

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 591

timos anos, o domínio na teologia católica e a filosofia de Tomás de
Aquino, o “D outor Angélico”, enfraqueceram-se.

Nos últimos tempos, levantou-se a questão para saber se a influ­
ência da distinção de Tomás entre razão e fé e entre filosofia e teologia
levou à secularização. Em caso afirmativo, isso estava longe de ser sua
intenção e demandou muito tempo para chegar.

V. ALTERNATIVAS FRANCISCANAS A TOMÁS DE
AQUINO

O correspondente dos franciscanos para Tomás de Aquino foi

Boaventura (c. 1217-1274), nascido com o nome de Giovanni di Fi-

danza e conhecido como o “D outor Seráfico”. Depois de ingressar na

ordem Franciscana em 1243, Boaventura estudou teologia com Ale­

xandre de Hales, em Paris, e recebeu seu doutorado (1253-1254).

Foi professor em Paris até 1257, quando foi eleito ministro geral de

sua ordem. Fez parte do Concilio de Lyons e morreu logo após a pro­

clamação da reunião com a igreja grega (capítulo 24).

Um místico, teólogo e filósofo, Boaventura mostrou-se uma

grande mente sistemática com clareza e abrangência de análise. Um

dos seus principais escritos teológicos é o Brevilóquio (1256-1257).

Fiel à tradição agostiniana, Boaventura fez do seu objetivo o amor

de Deus, em vez da verdade ou do conhecimento de Deus. Embora o

contraste possa ser exagerado, os dominicanos procuraram esclarecer

a mente, enquanto os franciscanos visavam à mudança do coração.

Boaventura deu prioridade ao estudo

das Escrituras como o fundamento da te-

ologia: “Toda a Escritura é o coração de “O propósito da teologia é

Deus, a boca de Deus, a língua de Deus, a que nos tom emos virtuosos

caneta de Deus” (Colações sobre o Hexame- e alcancemos a salvação.

rão 12.17). Os concílios da igreja, os escri­ Isso é realizado por uma

tos dos padres e os ensinamentos dos mes­ inclinação da vontade, em

tres mais recentes, nessa ordem, são para vez de meras especulações”

orientar a interpretação das Escrituras. (Boaventura, Prólogo

A maior obra de teologia mística de Brevilóquio 5.2).

Boaventura, A viagem da mente de Deus,

592 HISTÓRIA DA IGREJA

foi escrita como um guia para a contemplação e estabeleceu seu pon­
to de vista acerca de que toda a aprendizagem é voltada para o amor
de Deus. Ela adverte contra quem acredita “que basta ler sem unção,
especular sem devoção, investigar sem maravilha, examinar sem exul-
tação, trabalhar sem piedade, saber sem amor, entender sem humil­
dade, ser zeloso sem graça divina, ver sem a sabedoria inspirada por
Deus” (Prólogo 4).

A doutrina da iluminação divina de Boaventura fornece a base
de sua filosofia. O simples ato de saber requer algo mais do que um
objeto cognoscível e uma mente conhecedora; deve haver uma luz
pela qual o observador perceba o que é percebido. Como a luz natural
torna possível a percepção de sentido, assim também a luz interior da
razão torna possível o agarramento de verdades filosóficas, e a luz da
graça torna possível a recepção das verdades da fé reveladas.

Há uma continuidade entre o conhecimento natural e a ilumi­
nação “sobrenatural”, mas a diferença de grau entre a razão humana
e a fç torna-se uma diferença de tipo. O argumento cosmológico
é válido apenas em virtude da presença real de Deus para a mente
humana como a luz de sua compreensão; o argumento ontológico
não é realmente um argumento, mas uma interpretação da presença
imediata de Deus na alma. A existência de Deus, de fato, não precisa
de demonstração, sendo evidente como uma questão de observação
direta. Conhecimento religioso não é uma mera inferência, mas a in­
terpretação da experiência. Disposto a descrever coisas em trios, ele
analisou o objeto da fé como triplo: Deus, que pode ser conhecido
diretamente; que é revelado pela autoridade das Escrituras; e que é
investigado em inquérito teológico.

Cada objeto no universo, de acordo com Boaventura, fala-nos
de Deus (a doutrina do exemplarismo). Ele pode ser visto em suas se­
melhanças, ou expressões, no mundo. Alguns objetos são apenas uma
sombra da existência de Deus; outros, tendo uma semelhança mais dis­
tinta, são um traço do divino; ainda outros, como no caso da alma, são
uma imagem de Deus. Quando buscamos Deus dentro de nós mesmos,
viramos em direção a Ele, pois há uma pequena faísca {scintilla) de pura
luz divina dentro da alma. Uma pessoa comum de boa vontade, tão
facilmente como o estudioso erudito, pode ver Deus de forma clara.

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 593

Roger Bacon (c. 1220-1292) foi um inglês, franciscano, aluno e
professor em Oxford (para onde foi sob a influência de Grosseteste)
e em Paris. Ele poderia ter sido acentuadamente crítico daqueles de
quem ele discordou, incluindo Tomás de Aquino, mas nunca cons­
truiu um sistema filosófico alternativo. Sendo o estudioso de Oxford
mais importante no período medieval e amplamente estudado, Ba­
con defendeu mudanças no sistema educacional, de modo a enfatizar
as línguas bíblicas (ele escreveu gramáticas de grego e hebraico), ma­
temática, ciências naturais e filosofia moral. Ele queixou-se da prática
da faculdade de teologia em Paris por dar preferência a palestras sobre
as sentenças de Pedro Lombardo, em detrimento de palestras sobre
as Escrituras. Seus interesses na natureza e no cenário mais amplo do
mundo (especialmente o islã, com ênfase na necessidade de aprender
árabe), para que ele concebesse um plano para evangelizar o mundo,
foram reflexo dos interesses intelectuais mais amplos possíveis do sé­
culo 13, mas a extensão da sua influência no mom ento parece ter sido
mínima.

João Duns Escoto (c. 1265-1308), o chamado “D outor Sutil”,
como o pensador mais afiado da Idade Média, representa o clímax do
agostinismo franciscano. Ele nasceu na Escócia e juntou-se aos fran-
ciscanos lá, estudou e ensinou em Oxford, completou seu doutorado
em Paris e morreu em Colônia — tal era o caráter internacional da
bolsa de estudos no ocidente latino. Duns Escoto tornou-se o teólogo
mestre da escola franciscana. Continuando o trabalho de Boaventu-
ra, ele diferia do último em ser essencialmente um filósofo sem o mis­
ticismo do seu predecessor.

Nas questões filosóficas do dia, Duns tom ou uma posição inter­
mediária entre o aristotelismo de Tomás e o agostinismo de Henrique
de Gand, indo contra Tomás no que tange ao fato de que o intelec­
to pode ter um conhecimento intuitivo, além do conhecimento das
idéias universais abstraídas da experiência sensorial, e contra Henry,
no tocante ao fato de que os princípios necessários podem ser conhe­
cidos p or conhecimento natural e não se limitarem à certeza de que
apenas a iluminação divina pode trazê-los. Ele rejeitou tanto a teolo­
gia negativa (seres humanos só podem afirmar que Deus não é, já que
a linguagem sobre Deus e sobre a humanidade é equívoca) como a

594 HISTÓRIA DA IGREJA

filosofia da analogia de Tomás. Em vez disso, defendeu a univocidade,
argumentando que a analogia, de fato, implica (se apenas de forma
limitada) a univocidade.

Duns Escoto enfatizou a contingência radical de todos os seres
criados (somente Deus existe necessariamente) e das ações de Deus.
A existência de Deus é demonstrada pela existência de seres contin­
gentes; já que foram fruto de uma causa, uma série infinita de causas
é impossível, e deve haver algum ser que exista absolutamente. Deus
tem total liberdade em relação a todas as Suas ações, então, Ele não
está vinculado aos constrangimentos externos nem internos nas Suas
relações com as criaturas. Duns continuou a posição franciscana de
que tudo deve ser considerado do ponto de vista do amor. O amor
dita as regras e ordena seu pensamento inteiro, pois encontra-se no
início do ser e do agir de Deus e os afeta na consumação da união dos
eleitos de Deus.

Uma das ênfases características de Duns é o voluntarismo, a tese
de que a vontade é primária e independente no que diz respeito à
inteligência. Deus é essencialmente vontade, não a união da vontade
e do intelecto que Tomás defendia. Por exemplo, a morte de Cristo
é uma expiação, porque Deus escolheu esse caminho; de outra for­
ma, poderia ter fornecido uma satisfação suficiente, se Deus assim o
tivesse querido. Os seres humanos têm uma verdadeira liberdade da
vontade, o que significa que alguém pode querer algo que outro não
escolha querer de fato. O intelecto pode oferecer orientação à vonta­
de, mas a vontade é capaz de ir contra a sugestão da razão.

A vinda de Cristo, como a manifestação suprema do amor de
Deus, não é dependente da queda. Duns foi o primeiro teólogo im­
portante a defender a imaculada concepção de Maria.

Com o outros teólogos escolásticos dos séculos 12 e 13, Duns Es­
coto viu uma harm onia entre a razão e a fé, mas ele as separou mais
do que Tomás de Aquino. Enquanto Tomás baseou a teologia na fi­
losofia, Duns colocou um espaço entre elas. Suas críticas do sistema
de Tomás forneceram uma base para a distinta tradição teológica
franciscana no século 18. Embora ele mesmo ainda funcionasse nos
moldes da escolástica medieval, o voluntarismo de Duns apontou o
caminho para a remodelação de Ockham desse quadro no século 14.

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 595

Foram mais as implicações que pensadores posteriores viram em seus
argumentos do que a própria posição de Duns que ocasionou o ceti­
cismo posterior de provas racionais para a teologia cristã.

A brincadeira com seu nome, “burro”, foi um resultado da reação
dos humanistas contra as sutilezas da filosofia escolástica.

VI. PIEDADE POPULAR

O espírito da época que produziu as grandes sínteses da teologia
encontrou expressão em uma coleção enciclopédica de vidas de san­
tos destinadas a fomentar a devoção aos santos por leigos. À medida
que Catena aurea, de Aquino, compilava um comentário sobre os
Evangelhos dos comentaristas patrísticos, Tiago de Voragine, apro­
ximadamente ao mesmo tempo (na década de 1260), coletava a vida
dos santos na Legenda aurea {Legenda dourada). Tiago foi um domi­
nicano e, posteriormente (1292— 1298), arcebispo de Gênova. O r­
ganizando suas contas de acordo com as datas dos dias santos do ca­
lendário litúrgico, ele empregou uma linguagem simples e adicionou
histórias de milagres. Seu trabalho popularizado foi bem-sucedido,
e sua compilação se tornou o texto mais copiado da Idade Média,
sobrevivendo em mais de 1.000 manuscritos e traduzido em quase
todas as línguas vernáculas da Europa Ocidental.

O Livro das horas, dando devoções para as horas diárias de ora­
ção, começou no século 13. Elas foram, muitas vezes, decoradas lin­
damente com pinturas em miniatura.

VII. ARQUITETURA E ARTE GÓTICAS

Os programas de construção extensivos dos séculos 12 e 13 são
indicativos da devoção do povo, bem como da crescente prosperidade
daqueles tempos. Clérigos e cidades disputavam o prestígio de cons­
truir edificações mais altas e maiores. Um dos meios de incentivar
o apoio financeiro foi a concessão de indulgências àqueles que con­
tribuíam, de modo que o dinheiro que antes era destinado a apoiar
Cruzadas passasse a apoiar a construção de edifícios religiosos.

Catedrais góticas foram comparadas a summas escolásticas da te­
ologia como sínteses da realidade, com o objetivo de descrever a sua

596 HISTÓRIA DA IGREJA

totalidade e como expressões da aspiração humana para chegar até
Deus. Elas e sua arte ofereceram um “modelo” do cosmos, um resu­
mo da história, um espelho da vida moral e uma imagem da cidade
celestial. Reflexos de toda a realidade, muitas igrejas góticas incluíam
esculturas de reis, pessoas comuns e até mesmo demônios, além de
santos. Igrejas românicas pareciam fortalezas para refúgio em tempos
problemáticos; igrejas góticas, por outro lado, foram caracterizadas
pela abertura e harmonia, correspondentes à ênfase do escolasticismo
sobre a racionalidade e a reconciliação dos opostos. Como indicativo
da proeminência do culto de Maria nas idades posteriores, mais cate­
drais góticas foram dedicadas a ela.

O primeiro exemplo do novo estilo foi a igreja da abadia de São
Dinis. Localizada no local de enterro dos reis franceses, foi fundada
ao lado norte de Paris, no sétimo século, e reconstruída pelo abade
Suger, no século 12 (coro consagrado em 1144). Desde o início, o
gótico produziu suas maiores obras no século 13: Chartres, Reims e
Amiens. Espalhou-se para a Inglaterra — nomeadamente Salisbury,

Da esquerda para a direita:
Coro da igreja de São Dinis, Paris (século 12)
Notre-Dame, Paris, um exemplo de arquitetura gótica

GLORIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL -SÉCULO 13 597

PUREZA E ESPLENDOR

"Consciente das críticas de Bernardo sobre a riqueza, o abade Suger
defendeu o uso da decoração luxuosa:

"Deixe cada um ser convencido em sua própria mente. Quanto a mim,
declaro que sempre me pareceu certo que tudo o que é mais precioso
deva, sobretudo, ser adicionado à celebração da Santa Eucaristia. (...)
Vasos de ouro, pedras preciosas e tudo o que criação detém de mais
valioso devem ser usados. Aqueles que nos criticam afirmam que essa
celebração precisa apenas de uma mente santa, uma alma pura e uma
intenção fiel. Decerto, estamos de acordo com o fato de que eles são o
que realmente importa. Mas acreditamos que ornamentos exteriores e
cálices sagrados devessem servir como nosso santo sacrifício, e isso com
toda a pureza para dentro e todo o esplendor para fora" (Suger, Em sua
a d m in istra çã o 33).

mas influenciando muitas outras catedrais — e para a Alemanha,
onde a mais esplêndida é na Colônia. O gótico manteve a forma pre­
dominante de arquitetura ao norte dos Alpes até o final do século 15,
e edifícios foram ainda construídos nesse estilo no século 20.

São Dinis definiu a norma para a fachada oeste das catedrais do
gótico francês com duas torres, três portes esculturadas e uma janela
redonda acima da entrada central. Três outras características externas
do estilo gótico desenvolvido são facilmente observadas, em contraste
com seu antecessor românico: arcos pontudos em vez de arredonda­
dos, e arcobotantes (usados primeiro em uma catedral gótica de No-
tre-Dame, Paris). Tudo o que tinha sido usado antes, e tais caracterís­
ticas estilísticas e técnicas, é menos importante do que a concepção
geral do espaço arquitetônico. O estilo gótico representou um projeto
integrado, unificado, em contraste com o desenho modular de uma
combinação de peças em estilo românico. Dois aspectos desse efeito
coordenado são suas proporções e sua luminosidade. Os elementos ca­
racterísticos do gótico foram unidos para atingir altura e abrir espaço.

As proporções podem ser vistas tanto em dimensões horizontais
como em verticais. Como na arquitetura românica, o uso dos tran-
septos deu às igrejas ocidentais góticas a forma de um T, a cruz latina.
Elas eram construídas em segmentos de três, cada unidade de igual
tamanho.

598 HISTORIA DA IGREJA

O coro, no extremo leste, tinha três unidades de comprimento,
a terceira unidade entrecortada pelos transeptos, cada uma com uma
unidade de comprimento. A nave tinha seis unidades de comprimen­
to, terminando na entrada oeste. Se “maciça” é a palavra para o româ-
nico, “verticalidade” é a palavra para a arquitetura gótica, que parece
desafiar, ou até mesmo reverter, a gravidade. Os arcobotantes torna­
ram possíveis paredes mais altas e mais finas. A verticalidade foi enfa­
tizada pelo uso de espirais, em vez das torres de edifícios românicos.

Já que as paredes eram mais altas e mais finas, tonou-se possível
um uso muito maior de janelas, que tinham a aparência de paredes
transparentes. Arquitetos primários preocupavam-se em proteger os
ambientes interiores da luz solar, mas arquitetos góticos abriram seus
edifícios não só para um espaço maior, mas também para a luz. Os vi-
trais vieram por conta própria e, depois de meados do século 12, subs­
tituíram os afrescos na decoração de superfícies das paredes. Vidro
de janela com figuras coloridas foi um desenvolvimento do ocidente
mçdieval. Vitral refere-se ao vidro derretido, colorido pela adição de
óxidos metálicos e, em seguida, endurecido, cortado em pedaços, pin­
tado e definido em um projeto. Conhecido por referências literárias
do nono século, o ofício foi bem estabelecido por volta do século 12.
Objetos e pessoas retratadas em vitral incluem cenas cristológicas, his­
tória bíblica e vida dos santos. O vidro era caro e competia com o ouro
e a prata na preciosidade. A prosperidade econômica, portanto, e não
um novo interesse na teologia da luz, que sempre esteve presente na
tradição cristã, tornou possíveis os triunfos de vitrais dos séculos 12 e
13, mas a teologia da luz foi invocada para justificar a luminosidade
que o vitral tornou possível. Assim como a glória da arte cristã nos
períodos antigos e bizantinos esteve coberta de mosaicos e manuscri­
tos iluminados, sua glória na Alta Idade Média foi representada em
vitrais. O vitral alcançava, por meio da transmissão de luz, o brilho e a
riqueza de cores que mosaicos alcançavam por meio da reflexão da luz.

D o mesmo m odo como igrejas românicas forneciam lições visu­
ais em suas pinturas nas paredes e colunas retratando cenas históricas
bíblicas e outras, as igrejas góticas forneciam programas de narrativa
para instrução na fé cristã por meio de seus vitrais por dentro e de
esculturas por fora. A decoração escultórica dos portais das igrejas foi

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 599

projetada para apresentar mensagens doutrinárias coerentes. Sob os
arcos da entrada da igreja, as estátuas dos apóstolos em cima das dos
profetas do Antigo Testamento representavam a igreja, e Cristo, em
glória, sobre a entrada, proclamava que todos deveríam vir sob a Sua
autoridade, antes de entrar em Sua casa.

O Cristo na glória ou no acórdão, mostrado no tímpano de igre­
jas românicas, continuou a estar presente em igrejas góticas, mas,
em vez de uma ênfase sobre a ameaça de condenação, mais espaço
foi dado à esperança da salvação. O programa foi m uito ampliado:
anjos segurando os instrumentos da Paixão, a virgem Maria e João
como intercessores, o anjo Miguel pesando as almas e a ressurreição
dos mortos. O Senhor na majestade começou a ser substituído ou
complementado em catedrais góticas francesas do final do século 12
pela coroação da virgem (sentada ao lado de Cristo e recebendo uma
coroa dele) ou pelo juízo final (com os salvos e os perdidos, separados
em Suas mãos direita e esquerda, respectivamente). N a verdade, M a­
ria teve uma crescente importância na escultura, não só adornando os
portais, mas também aparecendo em um grande número de estátuas
da virgem e o menino, dentro e fora de igrejas. Essa suplementação
de Cristo, como juiz, com cenas de Maria, como rainha do céu e vir­
gem mãe, tem sido interpretada como uma mudança da preocupação
potencialmente assustadora com temas escatológicos para uma ex­
pressão de um aspecto mais indulgente da virgem como intercessora.
Outros temas que, com frequência, apareciam na escultura medieval
são: apóstolos, profetas, anjos, as virgens sábias e as tolas, e as perso­
nificações de virtudes e vícios.

Além da cinzeladura de pedra do lado de fora e, ocasionalmente,
no interior das igrejas, a escultura em madeira encontrou expressão
no interior nas telas de coros, crucifixos e estátuas autônomas da vir­
gem. Igrejas foram usadas para o enterro de pessoas proeminentes.
N o início do século 13, as efígies superficiais definidas para o piso das
igrejas começaram a ser substituídas por figuras em alto relevo.

O tema do Jesus sofrido apareceu na arte no século 11, mas ago­
ra se tornou mais pronunciado. A devoção à humanidade de Jesus
encontrou expressão na festa de Corpus Christi e na elevação do hos­
pedeiro na santa ceia, nos hinos novos para o Sagrado Coração de

600 HISTÓRIA DA IGREJA

Jesus, em devoção à cruz e às feridas de Jesus, e mais claramente na
arte. Esse culto do Jesus humano tem sido relacionado ao interesse
dos cruzados na terra natal de Cristo, mas a atenção para o corpo de
Cristo moribundo foi especialmente promovida pelas preocupações
da ordem franciscana.

Essa mudança na tradição artística e devocional é evidente na for­
ma como o crucifixo começou a mudar no século 13. Cristo na cruz
não era mais a figura drapeada e sem paixão, mas agora mostrada rea-
listicamente despida, exceto por uma tanga, com as pernas cruzadas,
em uma pose retorcida, mostrando agonia. O Cristo real românico
foi sendo substituído pelo gótico “homem das dores”.

A relíquia preservada na Catedral de Chartres era, supostamente,
a túnica usada por Maria, quando ela concebeu Jesus. A túnica foi sal­
va quando houve um incêndio na Catedral em 1194. Alguns dos vi-
trais do século 12 foram salvos e incorporados à nova catedral gótica,
que tem alguns dos melhores vitrais medievais que sobreviveram ao
incêndio. A arquitetura interior permanece organizada, em contraste
com muitas igrejas medievais. Ela serve como uma moldura para os

GLÓRIA DA IGREJA MEDIEVAL OCIDENTAL - SÉCULO 13 601

vitrais. A escultura na fachada oeste de Chartres é também signifi­
cativa, tendo o mesmo significado para a escultura gótica, como o
coro de São Dinis tinha para arquitetura gótica. A escultura gótica
começou a afastar a aparência rígida e frontal da escultura românica
para um naturalismo refinado com mais figuras quase tridimensio­
nais, cujos corpos se mostram sob a roupagem, e cujos tipos de cabeça
são mais individualizados.

Um exemplo marcante de proporção e luminosidade em uma es­
cala menor do que as grandes catedrais é a capela real francesa Sainte-
-Chapelle, construída entre 1242 e 1248 pelo rei Luís IX (capítu­
lo 24), que trouxe um boom de construção para Paris. Erguida para
colocar a coroa de espinhos de Jesus e uma parte da cruz que Luís
IX obteve do imperador latino de Constantinopla em 1204, Sainte-
-Chapelle é a quintessência do gótico — na escultura, na arquitetura
e em vitrais. Sua capela superior combina cor, luz e perspectiva de
forma brilhante e espetacular. As paredes parecem desaparecer antes
da enorme extensão dos vitrais, cujos painéis retratam cenas bíblicas
do Gênesis ao Apocalipse.

Com o monumentos crescentes de devoção religiosa, catedrais
góticas ainda levantam o ânimo dos visitantes. Por outro lado, têm a
desvantagem de não serem feitas para comunhão na adoração.

VIII. RESUMO

O século 13 testem unhou algumas das maiores realizações do
cristianismo ocidental medieval: a influência do papado, o cres­
cimento dos frades como uma nova expressão do monasticismo, o
desenvolvimento das universidades como centros intelectuais inde­
pendentes, grandes sistemas de pensamento em filosofia e teologia e
magníficas catedrais góticas como triunfos de piedade e habilidade
técnica. Nem tudo foi uma história de sucesso, no entanto, e lá esta­
vam a trabalho outras forças e movimentos que trariam a dissolução
da síntese medieval nos séculos 14 e 15. Para essas outras correntes,
agora nos voltamos.

602 HISTÓRIA DA IGREJA

LEITURA COMPLEMENTAR

CROSS, R. Duns Scotus. Nova Iorque: Oxford University Press,
1999.

DAVIES, Brian. The Thought ofThomas Aquinas. Oxford: Clar-
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