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Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

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Published by , 2018-01-04 18:16:27

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 203

VI. POR QUE O CRISTIANISMO PROSPEROU?

Ao final do terceiro século, os cristãos compunham uma m ino­
ria considerável da população no Império Romano. Os historiadores
apontam diversos fatores como responsáveis por esse sucesso. Mesmo
se alguém apontar para a divina providência, quais foram as circuns­
tâncias humanas ou naturais pelas quais a providência atuou?

As condições externas no início do cristianismo eram favoráveis:
(1) a propagação do judaísmo forneceu uma base de operações para a
pregação cristã em todo o mundo romano, (2) a helenização do Me­
diterrâneo oriental gerou uma língua e idéias comuns, e (3) a unida­
de política em Roma ofereceu paz, estabilidade e possibilidades para
viagens. Não obstante, essas condições externas estavam disponíveis
a todos; por que, então, o cristianismo deixou para trás rivais em p o ­
tencial?

As condições internas, sugeridas por diversos historiadores como
parte do apelo do cristianismo, incluem as seguintes: (1) a crença fir­
me na verdade da religião cristã (embora a insistência de que ela era
o único caminho fosse um escândalo para muitos, como hoje); (2)
a universalidade da fé cristã, aberta a todos; (3) a prática eficaz de
amor fraterno e caridade, a qual resultava em uma sociedade que su­
pria todas as necessidades de seus membros; (4) o governo autônomo
e disciplinado de comunidades cristãs individuais que estavam unidas
umas às outras; (5) a prática da comunhão que gerava um forte senso
de comunidade; e (6) a combinação dos pontos fortes da prática reli­
giosa ao pensamento filosófico.

As idéias cristãs eram, em sua maior parte, aceitáveis aos pagãos:
padrões de moral elevados, monoteísmo e revelação profética. Em
contrapartida, a ideia da encarnação da divindade era estranha (espe­
cialmente na versão cristã), mas não incompreensível. A ressurreição
do corpo, entretanto, era o aspecto mais repelente da doutrina cristã.
Apesar disso, os milagres cristãos pareciam ser mais poderosos do que
as coisas que os mágicos eram capazes de realizar.

O fator psicológico de exaustão do paganismo contrastava com a
esperança do cristianismo - uma vez que valia a pena morrer por essa
esperança, também valia a pena viver por ela.

204 HISTÓRIA DA IGREJA

Fatores sociológicos envolviam a postura positiva em relação às
mulheres, à família e aos filhos, bem como o cuidado aos doentes em
tempos de doenças e epidemias, o que também favoreceu o cresci­
m ento numérico cristão.

Em última análise, contudo, tais tentativas de justificar o sucesso
do cristianismo acabam sendo mais descritivas do que explicativas.
Muitos itens selecionados anteriormente são apenas julgamentos
modernos quanto ao que se supõe terem sido fatores atrativos.

O sucesso do cristianismo no nível político no quarto século
volta-se à conversão de um homem: Constantino, o Grande. Depois
dele, o apoio político passou a ser um fator im portante no crescimen­
to da Igreja.

LEITURA COMPLEMENTAR

.,BURNS, J. Patout. Cyprian the Bishop. Londres: Routledge,

2002
JEN SEN, Robin Margaret. Understanding Early Christian A rt.

Londres: Routledge, 2000.

Diocleciano e Constantino

No limiar do quarto século

I. PERSEGUIÇÃO NO GOVERNO DE DIOCLECIANO
A. Reorganização do império

Um breve estudo de administração governamental romana é ne­
cessário para entender o curso da perseguição contra os cristãos por
parte do império. O último foi muito ligado à história política do
quarto século.

A monarquia durante o principado, desde Augusto, teve sua base
teórica no Senado de Roma, dando sua sanção ao poder imperial. A
verdadeira base foi o exército, quando reconheceu o imperador por
aclamação. Uma confirmação religiosa veio da prática da apoteose, a
aceitação do falecido imperador no número dos deuses. O protocolo
do Tribunal da Pérsia foi retomado, enfatizando a distância entre o go­
vernante e seus súditos. A ênfase dada no decorrer do tempo ao faleci­
do imperador divinizado passou a divinizar toda a vida do governante.
A comprovação da ascensão do falecido imperador tornou-se rotina.

206 HISTÓRIA DA IGREJA

Portão de prata do palácio construído pelo imperador romano Diocleciano (Split, Croácia)

Durante esse tempo, prestou-se o princípio da legitimidade, pas­
sando a autoridade de pai para filho. A sucessão ordenada, no entan­
to, tornou-se a exceção, e não a regra no terceiro século. Nenhuma
das bases tradicionais da monarquia serviu para solidificar o trono.
As rivalidades dos exércitos gananciosos, liderados por generais am­
biciosos, produziram frequentes guerras civis. Instabilidade econô­
mica e defesas desintegradas nas fronteiras acompanharam e intensi­
ficaram os conflitos internos.

Diocleciano (284-305) combinou as bases anteriores do go­
verno imperial com um plano de reorganização. Seu propósito era
fornecer uma sucessão ordenada ao trono e oferecer aos altos coman­
dantes militares uma virada certeira na regra suprema, sem ter de re­
correr à rebelião para obtê-la. O império foi dividido em quatro regi­
ões (prefeituras) a serem governadas por dois Augustos assistidos por
dois Césares. A teoria era que, depois de dez anos, a situação viria a
ser revista, e os Augustos renunciariam, os dois Césares se tornariam
Augustos, e dois novos Césares seriam nomeados.

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 207

Sob esse plano de reorganização, Diocleciano e Maximiano tor­
naram-se Augustos e levaram os nomes de Júpiter e Hércules. Galério
e Constâncio Cloro foram nomeados a Césares, incumbidos princi­
palmente da administração civil. Cada imperador governou uma pre­
feitura. Cada prefeitura tinha sua própria capital (depois do ano 284,
Roma já não era uma residência imperial).

O império era dividido em 12 dioceses e, aproximadamente, em
100 províncias. O número de províncias variava conforme eram cria­
das, divididas ou combinadas, (observe que essa terminologia diferia
da que veio a prevalecer no mundo eclesiástico, onde províncias de­
signavam territórios maiores do que as dioceses).

As reformas de Diocleciano reconheceram que a força do Im­
pério Romano — numérica, financeira e culturalmente — estava no
oriente. A distribuição da potência pode ser mostrada em forma de
gráfico.

DIVISÃO DO IMPÉRIO SOB A GESTÃO DE DIOCLECIANO

Prefeitura Diocese Capital Governante
Nicomédia Diocleciano
Oriente (leste) Oriente (incluindo Egito),
Ponto, Ásia

llíria Trácia, Moésia (Macedônia, Sirmio Galério
Dácia), Panônia

Itália África, sul da Itália, Milão Maximiano
norte da Itália

Gália Espanha, sul de Gália, norte de Tréveris Constâncio
Gália, Grã-Bretanha Cloro

B. O curso da perseguição

Como um prelúdio à perseguição aos cristãos por todo o impé­
rio, Hiérocles, governador da Bitínia e, mais tarde, prefeito do Egito,
alegou que o império podería sobreviver somente se estivesse unifica­
do na religião. Aproximando-se dos ideais de Porfírio (c. 232-305)
no tocante ao ataque intelectual contra os cristãos, Hiérocles chamou
os cristãos de um “império no império” e insistiu no fato de que os
cristãos do exército oferecessem sacrifícios aos deuses.

208 HISTÓRIA DA IGREJA

A “Grande Perseguição” começou em 303 por instigação de Ga-
lério, mas com o apoio de Diocleciano. Quatro editos sucessivos fo­
ram emitidos:

A divisão dos impérios ocidentais e orientais sob o governo do imperador Diocleciano

1. Edifícios cristãos deveríam ser nivelados, as Escrituras foram
queimadas, e qualquer pessoa que aparecesse em um tribunal
da lei tinha de sacrificar (excluindo, portanto, os cristãos do
sistema judicial), como fazia qualquer um que fosse desafiado
a fazê-lo (eliminando assim, do alto cargo, aqueles que não
sacrificassem).

2. Governadores foram ordenados a prender e a encarcerar os
bispos.

3. Os bispos poderíam ser liberados se sacrificassem.
4. O sacrifício aos deuses tornara-se obrigatório a todos.

Essa perseguição foi mais sistemática do que a motivada por
Décio, mas, inicialmente, não tão brutal. Uma nova fase foi inseri­
da quando Diocleciano, que levou suas reformas no governo a sério,
pressionou o relutante Maximiano a juntar-se a ele para aposentar-se.
Galério e Constâncio Cloro tornaram-se os novos Augustos, e os no­
vos Césares foram Severo, na Itália, e Maximino Daia, no Oriente. A
perseguição foi renovada no oriente, e Daia voltou-se para a punição

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 209

capital. No ocidente, no entanto, a guerra civil se seguiu. Maximiano
deu suporte a seu filho Magêncio para conquistar o controle na Itália,
mas depois tentou, sem sucesso, depô-lo.

Constâncio Cloro foi moderado na perseguição, sem ir além de
demonstrar o cumprimento do primeiro edito de Diocleciano, mas
morreu em 306. Suas tropas, em rejeição ao novo regime constitucio­
nal de Diocleciano, proclamaram seu filho Constantino imperador.
Um aflito Galério emitiu um edito de tolerância para os cristãos em
311, pedindo-lhes que orassem por sua recuperação, mas a solicitação
(se respeitada) não impediu a sua morte. Licínio, aliando-se a Cons­
tantino, ganhou o controle do oriente.

O futuro jazia com Constantino, e nossa narrativa seguirá com a
história dele.

II. CONSTANTINO, O GRANDE

A conversão e o reinado de Constantino marcam um importante
ponto de virada na história da Europa e do Oriente Médio. Em mui­
tos tópicos na história cristã, a
distinção pré-constantiniana
e pós-constantiniana é mais
do que uma divisão crono­
lógica conveniente que os
historiadores empregam. Os
termos representam diferen­
ças reais e simbólicas. Alguns
desses principais recursos apa­
recerão no decorrer da nossa
narrativa.

A .In te rp re ta çã o

Tal como aconteceu com Uma estátua do imperador romano Constantino, o
outras grandes figuras da his­ Grande (Iorque, Inglaterra)
tória — cujas carreiras muda­
ram a história da humanida-

210 HISTÓRIA DA IGREJA

de ou foram atadas com mudanças significativas —, Constantino foi
objeto de várias interpretações. Interpretações conflitantes estavam
presentes desde o início de sua ascensão ao poder e correspondem aos
seus antecedentes familiares.

O pai de Constantino, Constâncio Cloro, foi um neoplatônico
tolerante do cristianismo. A mãe de Constantino foi Helena, que veio
de circunstâncias humildes. Ela era cristã e, mais tarde, ficou conheci­
da como santa Helena. Fontes pagãs dizem que Constantino, com a
morte de seu pai (306), teve uma visão em um templo de Apoio, que
foi interpretada para significar que ele seria o imperador. Fontes cris­
tãs descrevem uma visão em 312, antes da Batalha da Ponte Mílvia,
que marcou sua união à religião cristã.

N a Igreja Ortodoxa, Constantino era, por vezes, chamado de
“santo”, mas não de forma consistente. N o entanto, assim como os
santos, o nome dele continua sendo um dos mais populares na Gré­
cia. A avaliação da oposição trata-o como político, no máximo, como
cristão prudencial, cuja principal preocupação era manter o império
unido, e seus súditos pensavam nele como pagão ou cristão, de acor­
do com sua preferência.

Uma posição mediadora vê C onstantino como um sincretista em
assuntos religiosos, que começou como neoplatônico e nunca distin-
guiu claramente o culto ao sol e o culto ao Filho.

É possível que devamos considerar outra opção, ou seja, que
Constantino era sincero na sua conversão e usou o cristianismo para
seus próprios propósitos. Às vezes, as convicções e a fé de uma pessoa
provam ser o curso de ação politicamente vantajoso, em um deter­
minado momento, em eventos humanos. O próprio entendimento
de Constantino a respeito do cristianismo provavelmente aumentou
com o tempo.

Uma vez que é difícil conhecer nossas próprias motivações,
quanto mais as dos outros, especialmente no passado, o julgamento
a respeito do porquê de Constantino ter apoiado o cristianismo deve
ser reservado. Com certeza, ele queria unidade e harmonia, e conse­
quentemente buscou políticas em relação a todos os seus súditos —
em especial, nos conflitos na Igreja —, o que favoreceu a abrangência
e a flexibilidade.

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 211

Para a maioria dos crentes, o favor que se estendia de Constanti-
no ao cristianismo era o objetivo apropriado na direção que se movia
o crescimento inicial do cristianismo. Esse objetivo foi a criação da
cristandade — uma sociedade civil composta principalmente de cris­
tãos, na qual o cristianismo era a força dominante. Constantino não
conseguiu isso sozinho, e seus sucessores foram mais longe ao impor
o cristianismo sobre a população e ao interferir nos assuntos da Igreja.

O utros crentes não tiveram uma opinião favorável no tocante à
“igreja constantiniana” e pronunciaram-se contra a união entre a Igre­
ja e o Estado, e a desenvolvimentos associados a isso, como “a queda
da Igreja”. Eles agiram assim por causa do declínio do compromisso
entre os membros da Igreja, dos baixos padrões da vida cristã e da
introdução coercitiva como um aspecto da profissão religiosa.

Com certeza, as circunstâncias foram drasticamente alteradas,
mas, se a nova situação for pensada como declínio mais do que p ro ­
gresso, “queda” pode ainda não ser a palavra mais adequada. Pode ser
que alguém fale em “deslize”, pois o crescimento da Igreja no terceiro
século já havia trazido muitas acomodações com a sociedade roma­
na, e os envolvimentos com o Estado aumentaram após o tempo de
Constantino.

B. Conversão e favor aos cristãos

Após a morte de seu pai, Constantino rapidamente consolidou
seu domínio sobre a parte ocidental do império e marchou contra
Magêncio na Itália. Em 312, como suas tropas estavam acampadas
ao norte do rio Tibre, perto de Roma, Constantino teve uma “ex­
periência religiosa”, na qual admoestou para adotar-se o monograma
C hi Rho (as duas primeiras letras da palavra Cristo em grego) como
emblema de suas tropas. Lactâncio disse que as instruções vieram em
um sonho. Alegando repetir um relatório do próprio Constantino,
Eusébio relatou que houve tanto um sinal no céu, mais brilhante que
o sol do meio-dia, como uma aparição de Jesus Cristo na noite se­
guinte, em um sonho.

Mais uma vez, várias interpretações são possíveis: o incidente
inteiro foi planejado? Foi uma invenção da sua imaginação? E se

212 HISTÓRIA DA IGREJA

Carta de Licínio aos ele sonhou com algo ou viu alguma coisa,
governadores provinciais a o que foi? Uma explicação provável é que,
respeito do edito de Milão na verdade, ele teve algum tipo de experiên­
313: “Concedemos, livre cia — um sonho, uma visão ou ambos —,
e sem reservas, tolerância mas a interpretação foi fornecida por con­
aos cristãos para a prática selheiros cristãos (nomeadamente Osio ou
de seu culto. E quando se Hósio, bispo de Córdoba, Espanha) que o
percebe que concedemos acompanhavam. Eles podem ter ajudado
esse favor aos que se dizem Constantino a ver, em sua experiência, o
monograma de Cristo como a interpretação

cristãos, entende-se que, cristã do que ele viu.

para os outros, a liberdade De qualquer forma, Constantino es­

para sua própria adoração teve claramente consciente de uma missão

e culto é, também, divina e da promessa de ajuda divina, e esse

igualmente deixada em senso de missão continuou a caracterizar

aberto e concedida de suas políticas e sua propaganda. Ele ins­

forma livre, como convém truiu seus soldados a colocarem o m ono­
à tranquilidade dos nossos grama Chi Rho de Cristo em seus escudos,
e posteriormente esse cristograma se tor­
tempos, para que cada nou um símbolo cristão quase onipresente,
pessoa possa ter tolerância muitas vezes combinado com as letras alfa
e ômega (primeira e última letras do alfa­
completa na prática beto grego), para Cristo, como o princípio
de qualquer culto e o fim.

que escolheu” O menor exército de Constantino ven­
(Lactâncio, Sobre a morte ceu a Batalha da Ponte Mílvia (Saxa Rubra)

dosperseguidores 48).

e garantiu o controle de Roma — e, com

ela, o fim da oposição no ocidente. Eusébio interpretou o evento em

termos bíblicos grandiosos, comparando a derrota do exército de

Magêncio à destruição dos egípcios sob o comando de Faraó no mar

Vermelho.
Independentemente da natureza da “conversão” de Constantino

e seus motivos, depois do ano 312, ele lentamente, mas de modo fir­

me, começou a favorecer os cristãos e a mudar os fundamentos ideo­

lógicos do império. Constantino entrou em um acordo com Licínio

em Milão, em 313, estendendo o livre exercício da religião “para os

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 213

cristãos e todos os outros”. Esse acordo, o chamado “Edito de Milão”
é conhecido por meio das cartas oficiais enviadas por Licínio a p ro ­
víncias sob seu comando, concedendo aos cristãos no oriente a liber­
dade que os habitantes do ocidente já apreciavam por intermédio de
Constantino.

Em 320, já era aparente que Constantino e Licínio não concor­
davam. Licínio estava mais inclinado para o monoteísmo pagão, e a
perseguição iniciou-se novamente no leste. C onstantino o derrotou
em 324 e tornou-se, então, o governante geral e único do mundo
romano. Logo depois, C onstantino desfez da imagem de si mesmo
como representante do deus Sol e apresentou-se como representante
de Jesus Cristo, o Sol da Justiça.

C onstantino estava desconfortável com as associações pagãs de
Roma e as tradições em torno do Senado, e certos fatores atraíram-
-no para o oriente como o centro apropriado do império: sua maior
riqueza, seu comércio, sua cultura e suas oportunidades educacionais.
Consequentemente, em 330, ele fundou uma nova capital, Constan-
tinopla (moderna Istambul), no local da antiga cidade grega de Bi-
zâncio. Seu governo lançou as bases para o império cristão ortodoxo,
conhecido como Império Bizantino, que duraria mais de 1.100 anos
(até 1433).

Constantino adiou seu batismo até perto de sua morte, quando,
em 337, foi batizado por Eusébio, bispo de Nicomédia. Ele, portanto,
foi um precedente proeminente para outros, no quarto século, que
adiaram seu batismo até a velhice ou leito de morte, a fim de obterem
o máximo benefício do perdão dos pecados.

C onstantino m ostrou favor para os cristãos de várias maneiras,
mas muitas de suas ações foram projetadas para não ofender os pa­
gãos ou foram objeto de interpretação ambígua. A oração que ele
compôs para ser recitada pelo exército, por exemplo, foi religiosa­
mente neutra entre monoteísmo pagão e cristão. A legislação tornou
o domingo um feriado legal e concedeu lazer para os cristãos em suas
assembléias na igreja, mas foi formulada como uma homenagem ao
sol. (Os cristãos reuniam-se no domingo, o dia do Senhor, desde o
início, mas a legislação de C onstantino fez desse dia um dia de des­
canso também.)

214 HISTÓRIA DA IGREJA

Além disso, Constantino empregou o C hi Rho como um pa­
drão para as suas tropas e colocou o emblema em algumas de suas
moedas, o qual poderia ser visto como mais um talismã, e, na ver­
dade, Constantino (bem como um número crescente de cristãos)
parece ter tido um respeito supersticioso pela cruz. Outras legisla­
ções favoreceram os cristãos e colocaram-nos no mesmo patam ar
de outras religiões. Privilégios de isenção de direitos civis e apoio
monetário do governo, por muito tempo mantidos pelos sacerdotes
pagãos, foram dados aos sacerdotes cristãos (veja mais adiante em
Donatismo).

Outras políticas deram mais reconhecimento à Igreja. Aos bis­
pos, foi dado o privilégio de disputas adjudicantes quando os parti­
dos encaminhavam seus casos para eles. Às suas decisões, foi dado o
mesmo estatuto que às decisões dos juizes civis, um passo im portante
em direção à criação de tribunais eclesiásticos separados e um ato que
comprometia a jurisdição da justiça imperial.

, Talvez a maior demonstração externa de favor à Igreja tenha sido
o programa de construção extensivo de Constantino. Os edifícios da
igreja foram construídos para celebrar locais importantes da história
sagrada (na Palestina, por exemplo, a Igreja da Natividade em Belém,
a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, e a Eleona no m onte das
Oliveiras), em comemoração aos mártires (em Roma, São Pedro e
São Paulo Extramuros para marcar os locais de seus martírios) e para
reforçar o prestígio da Igreja e do próprio Constantino (em Roma,
Basílica de Latrão, hoje São João, e na nova igreja da capital dedicada
a Cristo, como a Santa Sofia, e aos 12 apóstolos, onde Constantino,
mais tarde, foi enterrado como um décimo terceiro apóstolo — ou
como um novo Cristo? — entre 12 sarcófagos vazios que represen­
tam os apóstolos).

Os imperadores comemoraram, por m uito tempo, seus governos
com projetos de construção monumental, e Constantino deu con­
tinuidade a essa prática, mas com a diferença de que, agora, eram os
edifícios da igreja que anunciavam a majestade e a generosidade do
imperador. O estilo arquitetônico adotado foi padronizado em ba­
sílicas imperiais usadas para audiência e salões de recepção, salas de
tribunal e outros assuntos de Estado (capítulo 12).

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 215

C. A nova situação das relações entre a Igreja
e o Estado

C onstantino percebeu os problemas causados pela divisão do Es­
tado, então “concordância” (ou harmonia) tornou-se a palavra-chave
da sua propaganda e das políticas de seu reinado. Ele claramente que­
ria a ajuda do Deus cristão para alcançar seus objetivos. Havia uma
longa condenação romana de que o bem-estar do Estado dependia
das relações corretas com a divindade e o devido exercício das fun­
ções religiosas. A transferência (ou adição) da lealdade de C onstanti­
no ao Deus cristão não alterou essas convicções.

Uma vez que existia um Deus supremo, C onstantino sentia que
devesse haver uma regra terrena correspondente a uma regra divina.
Sua missão era superar os demônios dos bárbaros e as divisões asso­
ciadas ao politeísmo. Renunciando o destino, ele afirmou que o im­
pério estava sob o controle da providência. Deus está ligado à ordem
no universo, e ele considerava-se instrum ento de Deus para realizar
essa tarefa.

M antendo a dignidade de pontifex m axim us (“sumo sacerdote”
na religião de Roma), Constantino sentiu responsabilidade sobre o
bem-estar religioso dos seus súditos. Ele se referiu a si mesmo como o
“bispo daqueles (ou coisas) sem bispo”, bispo daqueles fora da igreja
ou bispo dos assuntos externos da igreja. Seu filho Constâncio foi
mais longe e denominou-se “bispo dos bispos”.

Como resultado da nova situação, com um imperador apoiando
e favorecendo em vez de perseguir a Igreja, três grandes problemas
chamaram a atenção da Igreja: a competência do Estado em assuntos
da Igreja, a natureza desta e a definição de doutrina (O que é a Igreja
Ortodoxa?).

Relações entre Igreja e Estado sofreram uma mudança de para­
digma, agora requerendo a definição da competência de um império
cristão. A Igreja encontrava-se amplamente despreparada para a mu­
dança por que passava: de perseguida para favorecida. Ela não estava
pronta para assumir suas responsabilidades em um Estado que, se não
era cristão, pelo menos apoiava o cristianismo.

Tertuliano teria considerado um imperador cristão uma contra­
dição em termos, e a maneira de C onstantino e de muitos dos seus

216 HISTORIA DA IGREJA

“O Deus de todos, o sucessores governarem (Constantino teve
governador supremo de sua esposa Fausta e seu filho Crispo assas­
todo o universo, por Sua sinados por motivos políticos) pode ter de­
própria vontade, nomeou monstrado alguma verdade nisso. Eusébio,
por outro lado, exultava como se o reino
Constantino para ser tivesse chegado.
príncipe e soberano”
Eusébio viu o “reconhecimento” do cris­
(Eusébio, Vida de tianismo como um ato da providência de
Constantino 1.24). Deus para determinar um período de paz e

prosperidade antes do fim do mundo. Ou­

tros teólogos, especialmente aqueles que es­

crevem em latim, levaram a uma linha mais sóbria e enfatizaram as

responsabilidades agora colocadas sobre as autoridades responsáveis

pelo bem-estar de Roma.

A natureza da Igreja também requereu esclarecimento na nova si­

tuação. O cisma donatista levantou, mais uma vez, a questão da santi­

dade da Igreja: É a Igreja a Igreja da pureza, ou é um corpo misto, um

“hospital de almas doentes”? Pode uma igreja da maioria e de classe

dominante ser uma igreja santa?

O monasticismo constituiu uma nova reação a mudanças cir­

cunstanciais. Em parte, em resposta à nova ligação da igreja com um

status social e de aceitação, os monges procuraram resolver a verda­

deira vida cristã com a mesma intensidade que caracterizou os tem­

pos de perseguição. Negado o martírio literal, tentaram um martírio

de abnegação. (A história do monasticismo será reservada para o pró­

ximo capítulo.)

Outras mudanças também resultaram da nova condição. Até o

tempo de Constantino, o bispo conhecia seu povo, mas o senso de

companheirismo local começou a perder-se com o rápido aumento

da adesão. A igreja começou a adaptar sua organização, a fim de dar

estrutura a uma verdadeira catolicidade.

A definição da ortodoxia doutrinária foi trazida à tona pela con­

trovérsia trinitária provocada pelos ensinamentos de Ario. A contro­

vérsia doutrinária ameaçou a unidade da igreja e, com ela, o objetivo

de Constantino de harmonia no império. Os problemas do arianis-

mo e do donatismo surgiram durante o reinado de Constantino. Eles

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 217

levantaram questões fundamentais sobre a definição da igreja e da
divindade a que adoravam.

D. Eusébio de Cesareia: historiador do imperador

Eusébio (c. 260-339) tornou-se herdeiro da teologia e da erudi­

ção de Orígenes por intermédio da influência de seu professor Pân-

filo e do acesso à última biblioteca, construída a partir de Orígenes.

Ordenado bispo de Cesareia, na Palestina, por volta do ano em que

uma paz temporária chegou à Igreja (313), Eusébio envolveu-se ativa­

mente nas questões intelectuais e políticas de sua época. Ele estava mui­

to interessado em apologética e escreveu duas grandes obras (Prepara­

çãopara oEvangelho, uma refutação do paganismo, e Demonstração do

Evangelho, uma prova do evangelho da profecia cumprida).

Eusébio também estava profundamente interessado na interpreta­

ção bíblica, escrevendo comentários sobre Salmos e Isaías, bem como

na preparação de um conjunto de tabelas,

para identificar passagens paralelas nos Evan­ “Embora esteja claro
gelhos, e uma lista de nomes de lugares na Bí­ que somos novos e que
blia com uma descrição geográfica e histórica.
esse novo nome dos
Envolvido nas questões teológicas da cristãos tenha sido, mais
época, Eusébio trabalhou, sem sucesso, pela recentemente, conhecido
unidade da controvérsia ariana (da qual é

dito mais a seguir). Eusébio é especialmente entre todas as nações,

lembrado por sua obra histórica, na qual es­ nossa vida e nossa conduta,

creveu uma.História da Igreja que coletou in­ com nossas doutrinas

formações desde o início da igreja de seu tem­ de religião, não foram

po. Em sucessivas edições, Eusébio detalhou inventadas ultimamente por

eventos das perseguições sob o comando de nós, mas, desde a primeira

Diocleciano e seus associados e sucessores. criação da humanidade,

Eusébio também é importante para a te­ foram estabelecidas pela

ologia política que ele desenvolveu em Vida compreensão natural

de Constantino eLouvor de Constantino. Em­ de pessoas divinamente

bora não estivesse tão perto de Constantino favorecidas de antes”

como poderia parecer, ele promoveu Cons­ (Eusébio, História

tantino a mensageiro de Deus nomeado para da Igreja 1.4.4).

trazer paz à Igreja e cura para as nações.

218 HISTÓRIA DA IGREJA

III. CISMA DONATISTA

Os cismas ocorreram em Alexandria (impulsionados pela posi­
ção rigorista de Melécio) e em Roma, no rescaldo da “Grande Perse­
guição” iniciada sob o governo de Diocleciano, porém o cisma dona-
tista, no norte da África, tornou-se o mais importante.

Os donatistas continuaram a compreensão sectária da Igreja des­
de os tempos pré-constantinianos, mas, em muitos lugares no norte
da África, eles formaram a igreja da maioria. O problema subjacente
era a velha questão do laxismo versus rigorismo no tratam ento da­
queles que pensavam terem se comprometido de alguma forma com
as autoridades governistas durante a perseguição. Só que, agora, a
questão era complicada pela entrada do imperador nas decisões, e, à
medida que a controvérsia se desenrolava, as diferenças sociais e cul­
turais intensificavam o conflito.

A ocasião do cisma no norte da África envolveu a eleição de Ce-
ciliano para suceder Mensúrio como bispo de Cartago. Um adversá­
rio católico'dos donatistas, O ptato, mais tarde, afirmou que o cisma
surgiu “pela raiva de uma mulher desonrada, que foi alimentada pela
ambição e recebeu a força da avareza”. Deve-se levar em conta a natu­
reza polêmica da declaração, mas é bom notar as acusações, uma vez
que mostram tão bem o lado humano da história da Igreja.

Lucila, uma mulher rica e piedosa, tinha o costume de beijar o
osso de um mártir antes de tomar a comunhão. Mensúrio, em um
esforço para manter o culto dos mártires sob o controle da igreja e
fora da propriedade privada, tinha proibido a honra não autorizada
aos mortos em perseguição e a veneração indevida aos confessores, e
seu chefe diácono Ceciliano repreendeu Lucila por sua prática. Isso
requereu um pouco de coragem, pois ela era rica, mas sua prática era
extrema e representava um desafio à autoridade da Igreja.

A infeliz Lucila tornou-se um ponto central da oposição à elei­
ção de Ceciliano com a morte de Mensúrio em 311. Dois homens,
que desejavam ser eleitos bispos, não conseguiram obter seu desejo e
voltaram-se contra Ceciliano.

O utro problema era que Mensúrio, a fim de proteger as posses
da igreja durante a perseguição, confiou-as a alguns membros mais
velhos da igreja, que já não eram capazes (ou recusaram) de devolver

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 219

a mercadoria quando Ceciliano exigisse uma contabilidade. Outra

complicação veio do costume dos bispos da Numídia quanto a par­

ticiparem da eleição e consagração do bispo de Cartago, no entanto,

Ceciliano assumiu o cargo antes de sua chegada.

Os bispos númidas, por instigação dos elementos descontentes

na igreja cartaginesa, procederam à nomeação de Majorino, que per­

tencia à casa de Lucila, como bispo rival.

O ponto doutrinário utilizado para justificar o cisma foi a par­

ticipação de Félix, bispo de Aptunga, na consagração de Ceciliano.

Félix foi acusado de entregar cópias das Escrituras às autoridades du­

rante a perseguição, tornando-se um traidor (“aquele que entregou”

os livros da Igreja).

Os críticos de Ceciliano argumentaram que ele tinha negado

a fé e, então, não podia executar funções eclesiásticas; portanto, a

consagração de Ceciliano era inválida. A questão foi levantada: O

que o caráter moral de um clérigo tem a ver com a validade de suas

ações em nome da Igreja?

Investigações posteriores livraram Félix

das acusações, mas os donatistas questiona­ “Donato de Cartago foi
ram a imparcialidade das investigações, e, responsável, pois, por meio
certamente, nesse momento, o cisma foi en­ de suas astúcias venenosas,
tão estabelecido de modo que a determina­

ção dos fatos estivesse além da objetividade. foi trazida a questão da

Com a morte do Majorino, em 313, unidade... Enquanto todos

Donato sucedeu-o como chefe da igreja ri­ aqueles que creram em

val em Cartago, a qual ele liderou até 355, Cristo foram, antes do dia

tempo suficiente para que aqueles que ti­ de sua insolência, chamados

nham comunhão com ele viessem a usar o de cristãos, ele aventurou-

seu nome, “donatistas”. -se em dividir o povo de

Já em 313, o governo imperial envol­ Deus, para que aqueles que

veu-se na disputa quando Constantino fez o seguissem já não fossem

duas concessões ao clero cristão, que lhes chamados de cristãos,

estendia privilégios pertencentes a sacerdo­ mas de donatistas”

tes pagãos: distribuição de dinheiro e isen­ (Optato, Sobre o cisma

ção de responsabilidade cívica de coleta de dos donatistas 3.3).

impostos. Os donatistas reivindicaram o

220 HISTÓRIA DA IGREJA

dinheiro e as isenções, alegando que eles eram a verdadeira igreja no
norte de África. Eles apelaram seu caso a Constantino, que se referiu
ao bispo de Roma, Miltíades. Este reuniu um sínodo pequeno, mas os
resultados foram inconclusivos. Em contraste com sua certeza rápida
em lidar com assuntos políticos e militares, Constantino estava hesi­
tante em como lidar com os conflitos da igreja.

Em resposta à demanda dos donatistas para outro julgamento,
um sínodo maior reuniu-se em Aries, na Gália, em 314. Os bispos
vieram de todos os territórios sob o controle de Constantino, na
época, incluindo três bispos da Grã-Bretanha. Aries distinguiu-se
por ser o primeiro concilio da Igreja chamado pelo imperador, que
representava a maior área geográfica de qualquer concilio até o seu
tempo. Ele ultrapassou todos os concílios anteriores, que principal­
mente representavam não só uma província, mas também, às vezes,
áreas adjacentes.

Entre os 22 cânones adotados no concilio estavam decisões sobre
a dçterminação da data da Páscoa (desde que os bispos britânicos não
estivessem presentes em Niceia em 325, o m étodo mais recente para
determinar a data que chegou lá não foi observado na Grã-Bretanha),
proibindo os cristãos de rejeitarem o serviço militar em tempo de
paz (isto é, positivamente, perm itindo sua participação nas funções
policiais), aprovando os cristãos a manterem cargos locais e estadu­
ais, se fossem submissos ao seu bispo, regulamentando questões de
casamento e novo casamento, proibindo o rebatismo dos já batizados
em nome da Trindade, e (embora pedindo que traidores entre o cle­
ro fossem removidos) defendendo ordenações realizadas pelo clero
caducado.

O Concilio de Aries traçou um precedente não apenas para a for­
ma como o Estado lidaria com os problemas eclesiásticos, mas tam ­
bém constituiu um exemplo não intencional para posteriores conse­
lhos ao não conseguir pôr fim ao problema para o qual foi chamado.

Em 316, Constantino decidiu definitivamente em favor de Ce-
ciliano e, em 320, dirigiu a perseguição contra os donatistas, mas de­
sistiu no ano seguinte. Os donatistas eram de espírito missionário e
cresciam. Eles ergueram edifícios rivais, um pouco maiores e m elho­
res do que os das igrejas católicas. Eles apelaram à tradição teológica

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 221

norte-africana de Tertuliano e Cipriano e representavam-se como
continuadores de sua visão de igreja mártir.

Desapontado com sua apelação anterior às autoridades impe­
riais, os donatistas vieram a rejeitar a aliança da igreja com o governo
forjado por Constantino e seus sucessores. D onato fez uma sucinta
colocação: “O que tem o imperador com a Igreja?”, (citado por Op-
tato, Contra os donatistas 3.3). A igreja donatista compreendeu-se,
nos termos da santa assembléia de Israel no meio de seus inimigos
impuros e em consonância com essa autoimagem, interpretando toda
Escritura como lei sagrada.

O maior sucesso dos donatistas veio entre as populações rurais
púnicas e berberes, que se ressentiam da classe e dos privilégios eco­
nômicos dos governantes latinos. As privações econômicas e sociais
experimentadas por muitos alimentaram as reações violentas contra
latifundiários ricos pelos Circumcelliones, cuja conexão com os do­
natistas não é clara, apesar de sua violência ter sido lamentada por
Donato. Esses aspectos do conflito donatista-católico levam alguns
estudiosos a interpretarem o donatismo principalmente como um
movimento social.

Embora os fatores pessoais estivessem presentes no início do cis­
ma, fatores sociais foram certamente envolvidos na difusão do do­
natismo. Não seria seguro dizer, porém, que as diferenças religiosas
eram meramente a desculpa que justificava os pontos reais de con­
flito. Como preocupações teológicas estão interligadas com preocu­
pações pessoais e sociais, muitas vezes é difícil desenredá-las, e esse
é particularmente o caso do donatismo. Questões raramente vêm
como perguntas individuais, mais frequentemente como uma com­
plexidade de fatores, mas isso não significa que os fatores individuais
(nesse caso, os aspectos religiosos) não podem ser discutidos, de for­
ma separada, por seus próprios méritos.

A idade de ouro do donatismo veio sob o sucessor de Donato,
Parmeniano (bispo c. 362-392). D urante esse tempo, a resposta da
literatura católica apareceu no trabalho Contra os donatistas, por O p-
tato de Milevi.

Um rival de Parmeniano para a liderança intelectual entre os d o ­
natistas foi Ticônio, que acreditou em uma visão mais ampla da igreja

222 HISTÓRIA DA IGREJA

e foi contra a prática do rebatismo dos convertidos da Igreja Católica.
C ontra o sectarismo donatista, ele articulou pontos de vista sobre os
sacramentos e a distinção entre a igreja visível e a invisível, que foram,
mais tarde, elaborados por Agostinho. Ticônio produziu um livro
de regras hermenêuticas que Agostinho empregou, mas o milenaris-
mo, expressado em seu comentário sobre revelação, foi rejeitado por
Agostinho.

A história posterior do donatismo está tão envolvida com a re­
futação de Agostinho quanto com o melhor a ser dito em relação a
ele (capítulo 14). Mesmo que os motivos reais do donatismo fossem
sociais, o movimento levantou legítimas questões teológicas que de­
safiaram a mente criativa de Agostinho.

IV. ÁRIO E O CONCÍLIO DE NICEIA

A. Contexto da controvérsia ariana

O contexto político da controvérsia ariana foi esboçado ante­
riormente, em conexão com a ascensão de C onstantino ao poder e
seus objetivos para a unidade no império. O cisma donatista levantou
questões religiosas e políticas no que se refere à natureza da Igreja
na parte ocidental do império. Os ensinamentos de Ário levantaram
questões semelhantes na parte oriental do império, no que se refere à
natureza de Jesus Cristo.

Começando com Constantino, a Igreja entrou na história im­
perial de tal forma que não se pode lidar com a história secular do
quarto século sem discutir sobre a Igreja, e não se consegue lidar com
a história religiosa sem considerar o Estado. C onstantino claramente
estabeleceu um precedente do envolvimento do Estado nos assuntos
da Igreja.

Anteriormente, um bispo, em conselho com seus presbíteros, de­
cidiu acerca de questões para a igreja sob sua jurisdição. Q uando se
tratava de disputas entre bispos e questões mais amplas do que impli­
cações locais, o “congregacionalismo” da Igreja primitiva não deixava
maquinaria alguma para a sua resolução.

Os concílios de bispos tornaram-se a maneira cristã característica
de lidar com esses problemas. No segundo século, as reuniões dos bis­

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 223

pos em uma província ou região tratavam com o montanismo e, em
seguida, com a observância pascal.

Ainda não significava, no entanto, lidar com algo envolvendo
áreas maiores. O caso de Paulo de Samósata e a posse de propriedade
da igreja em Antioquia (terceiro século) tinham um precedente para
algumas questões que se referiam ao governo romano. Depois, veio o
apelo dos donatistas a Constantino.

Nas fases iniciais da controvérsia donatista, ambos os lados pa­
receram adequados para o estado arbitrar, embora Constantino ini­
cialmente preferisse empurrar a questão de volta para as igrejas. Com
um imperador “cristão” interessado nos assuntos da igreja, era natural
que os líderes da igreja olhassem para ele. Constantino foi cauteloso,
mas seus filhos estavam mais abertos em suas tentativas de definir o
dogma.

O contexto eclesiástico das controvérsias teológicas do quarto
século é fornecido pelas rivalidades dos bispos das grandes sés. As
igrejas de Alexandria e Antioquia tinham desenvolvido tradições teo­
lógicas concorrentes. Constantinopla, emergindo tardiamente como
um centro cristão, era dependente de um ou outro para seu bispo e
sua orientação teológica. Roma, por algum tempo não envolvida em
controvérsias doutrinárias orientais, ofereceu sua mediação, mas logo
se aliou a Alexandria. Com sua autoridade antes honorífica, Roma
afirmou cada vez mais jurisdição e autoridade de ensino.

No início do quarto século, o bispo de Alexandria, chamado de
papas (“pai”, “papa”), tinha preeminência em todo o Egito e alguns
territórios adjacentes. Os presbíteros presidiram as igrejas locais em
Alexandria. Ário foi um dos principais membros do Clero Alexan­
drino como presbítero de uma igreja na área do porto. Seu bispo foi
Alexandre.

O contexto teológico para a controvérsia ariana precoce é for­
necido pelas maneiras diferentes em que os sucessores de Orígenes
desenvolveram sua teologia em relação às controvérsias monarquia-
nistas do terceiro século. O ponto de vista católico seguiu as linhas
da doutrina do Logos em vez de qualquer uma das duas posições do
monarquianismo (capítulo 7). N a filosofia grega, Deus é intranspo­
nível, e essa premissa controlava a especulação teológica entre os inte-

224 HISTÓRIA DA IGREJA

lectuais. Depois das controvérsias gnósticas e marcionitas, nenhuma
distinção foi possível entre Criador e Redentor.

Orígenes, mostrando a relação entre o Logos encarnado (isto é,
o Filho de Deus) e o Deus Supremo, o mesmo Logos preexistente e
único Deus, empregou a metáfora de “gerar”. Isso garantiu que o Lo­
gos fosse da mesma natureza que o Pai, mas Orígenes ainda postulava
uma subordinação do Filho ao Pai.

A teologia de Orígenes poderia ser desenvolvida tanto no senti­
do de enfatizar a unidade da natureza (como Alexandre fez) como no
sentido de enfatizar a subordinação a ponto de declarar diferentes na­
turezas (como Ario fez com uma propensão para conduzir as coisas
às suas conclusões lógicas). Uma vez que a relação exata do Logos com
o Deus supremo ainda não estava claramente acordada, uma formula­
ção posterior foi necessária.

Carta de Ario ao B. Episódios que levaram
seu bispo Alexandre: a Niceia
“Deus, sendo a causa de
todas as coisas, é sem Ario era um líbio de nascimento, mas
início e completamente recebeu sua educação religiosa de Luciano
único, mas o Filho, sendo de Antioquia (um mártir em 312). Ele já
gerado para além do tempo era um pregador popular em Alexandria
do Pai, e sendo criado quando desafiou os ensinamentos do seu
e encontrado antes dos bispo Alexandre de que o Pai e o Filho pos­
séculos, não foi antes de suem igual eternidade.
Sua geração; mas, sendo
gerado para além do tempo Ario afirmou: “Houve (uma vez) em
antes de todas as coisas, que Cristo não era”. Entendendo “engen­
foi feito para subsistir drar” como equivalente a “criar”, Ario en­
pelo Pai. Porque Ele não sinou que Jesus Cristo não foi derivado da
é eterno ou coeterno com substância do Pai, mas, como o primeiro e
o Pai, nem tem Seu ser mais alto das criações de Deus, tornou-se o
juntamente com o Pai” instrumento de todo o restante da criação.
(citado por Atanásio,
Sobre os sínodos 16). O bispo Alexandre garantiu uma con­
denação do ensinamento de Ario em um
sínodo em Alexandria (317 ou 318), que
enviou uma carta a outros bispos sobre a
exclusão de Ario da comunhão. Ario colo-

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 225

cou seus pontos de vista por escrito e apelou aos seus amigos, nota-
damente Eusébio, bispo de Nicomédia, para apoio. Ambos os lados
circularam correspondência conflitantes.

A disputa chegou aos ouvidos de Constantino, que enviou seu
assessor eclesiástico principal, Ósio de Córdoba, para analisar a situ­
ação, questão esta que veio à tona em um sínodo em Antioquia, no
início de 325. O sínodo condenou a cristologia de Eusébio, bispo de
Cesareia, e outros dois; Eustácio, um forte oponente de Ário, tornou-
-se bispo de Antioquia.

Um sínodo estava prestes a reunir-se em A ncirapara ouvir a retra­
tação de Eusébio, mas Constantino viu a oportunidade de combinar
esse encontro planejado com uma celebração de sua recente vitória
sobre Licínio e o próximo aniversário da vingança de sua aclamação
como imperador; por isso, convidou os bispos para irem em maio de
325 ao palácio real em Niceia. Ele ofereceu a ajuda do posto imperial
para fornecer transporte para a reunião. Provavelmente, entre 250 e
300 bispos responderam.

C. Concilio de Niceia, 325

A presença de bispos que mostraram lesões sofridas durante as
recentes perseguições, agora reunidas sob o favor e na presença do
imperador romano, foi uma experiência comovente. Constantino
chamou a atenção para a unidade.

Os adeptos de Ário ofereceram confissões de fé trazidas em lin­
guagem bíblica, mas, já que tais confissões não abordaram a diferença
de interpretação entre Alexandre e arianos, como Eusébio de N ico­
média sobre a origem de Cristo, elas foram insuficientes.

Os pontos de vista sobre a questão doutrinária representados
no concilio podem ser listados da seguinte maneira: (1) os adeptos
convencidos do ensino de Ário liderados por Eusébio de Nicomédia;
(2) os subordinacionistas moderados na tradição de Orígenes que,
embora não se referissem a assuntos tão agudamente como Ário, não
viram seus ensinamentos como perigosos, dos quais Eusébio de C e­
sareia pode ser tomado como representativo; (3) os conservadores
hostis a novas fórmulas e preocupados com a unidade, muitos sem

226 HISTÓRIA DA IGREJA

educação teológica; (4) aqueles que achavam o ensino de Ário peri­
goso e queriam proibi-lo, como Alexandre e Ósio; e (5) os monar-
quianistas, cujos pontos de vista foram percebidos por muitos como
carregados de um modalismo implícito, como Eustácio de Antioquia
e Marcelo de Ancira.

Uma esmagadora maioria de bispos não concordava com Ário,
mas foi mais difícil para eles chegarem ao acordo sobre uma decla­
ração positiva da doutrina. (Sempre é mais fácil chegar a um acordo
sobre a que as pessoas são contra do que sobre a que são afavor.)

Eusébio de Cesareia escreveu uma carta à sua igreja de origem,
indicando que ele tinha um lugar mais proem inente no processo do
que é provavelmente o caso. Ele apresentou o credo batismal de sua
igreja, a fim de garantir sua reabilitação. C ontudo, de acordo com o
seu relatório dos eventos, tornou-se a base do credo aprovado pelo
concilio.

A maior preocupação no relatório de Eusébio, e sem dúvida na
mente de muitos outros, foi a adição ao credo da palavra grega ho-
moousios (em latim, consubstantialis), “da mesma substância”. Eusébio
explica a palavra, “que não tem sido nosso costume usar”, afirmando
que o Filho de Deus “não tem semelhança alguma com as criaturas”
e como o Pai em todos os sentidos” e não deriva de qualquer outra
substância a não ser do próprio Pai. Ele, sem dúvida, teve o incentivo
de Constantino e de outros para entender a palavra desta forma am­
pla: “a paz sendo o objetivo que estabelecemos antes de nós”.

O concilio adotou a palavra homoousios para eliminar o ensi­
no ariano, bem como para afirmar que Jesus Cristo era plenamente
Deus, compartilhando, de alguma forma, a mesma natureza divina
do Pai. Homoousios, nesse momento, tinha um sentido mais fraco e
ambíguo do que veio a adquirir em consequência das discussões teo­
lógicas que se seguiram. Uma palavra não encontrada nas Escrituras
foi considerada necessária, porque os arianos interpretavam cada fra­
se bíblica em conformidade com o seu ensino, mas de uma forma que
a maioria sentisse que era incompatível com o significado pretendido
das Escrituras.

A afirmação do concilio sobre a identidade da substância entre
o Pai e o Filho, se “substância” for entendida de forma materialista,

DIOCLECIANO E CONSTANTINO -NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 227

carregava perigos de uma interpretação triteísta, referindo-se a três
entidades que consistem em uma matéria comum, ou uma interpre­
tação sabelianista (modalista) quanto à forma idêntica do mesmo ser.

O CREDO ADOTADO EM NICEIA, EM 325

Cremos em um Deus Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e
invisíveis;

Eem umsó SenhorJesus Cristo, o Filho de Deus, unigênito do Pai, isto é, da
substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus do verdadeiro
Deus, gerado, não feito, de uma substância [hom oousion] com o Pai, por
intermédio de quem todas as coisas foram feitas, coisas no céu e na terra;
que, para nós, homens, e para nossa salvação, desceu efoi feito carne ese
tornou homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e está
vindo para julgar os vivos e os mortos;

Eno Espírito Santo.

Eaqueles que dizem: "Houve quando Ele não era”,

E: "Antes de Ele ser gerado não era”,

Eque "Ele veio aser de algo que não é",

Ou aqueles que alegamqueoFilhode Deusé"de outra substância ou essência",
ou "criado" ou "mutável" ou"alterável",

Aestes a Igreja Católica Apostólica condena.

Portanto, Eusébio estava esforçando-se para remover um signifi­
cado materialista dessa palavra que foi claramente preocupante para
ele e para muitos outros, à medida que os eventos subsequentes se
desenrolavam. Homoousios era uma palavra que os arianos não pode-
riam aceitar e foi aprovada para essa razão negativa. Apenas quando
os debates pós-concílio prosseguiram, a palavra veio a adquirir um
significado mais preciso como salvaguarda do monoteísmo, a unida­
de da substância. Acontece, frequentemente, no desenvolvimento do
pensamento provocado pelo debate, o fato de uma pessoa achegar-se
para ver os pontos fortes e as virtudes em uma posição originalmente
adotada por outras razões.

Eusébio diz que o imperador insistiu sobre a adição da palavra
homoousios. Esse, provavelmente, é o caso, mas é improvável que a
iniciativa tenha vindo dele, já que muitos dos próprios bispos não

228 HISTÓRIA DA IGREJA

entendiam as questões. Ela pode ter se originado com Ósio, que a
teria visto como equivalente ao termo latino com o qual ele estava
familiarizado, consubstantialis-, com Eustácio, para quem a implica­
ção de monarquianismo talvez fosse agradável; ou com Alexandre,
para quem a sua aceitabilidade para os arianos fosse uma justificativa

suficiente.
Se, por outro lado, aceitarmos a ideia de Eusébio de que Cons-

tantino era a fonte de homoousios em Niceia, pode ser que o impera­
dor tenha derivado o termo da filosofia religiosa pagã, que discorreu
dessa forma sobre as duas substâncias divinas, a mente (nous) e a pa­

lavra (logos).
Depois de fazer suas afirmações positivas no credo, o concilio

condenou os principais erros alegados contra os arianos: (l) que
“havia quando Ele não era” ou “Ele veio a ser a partir do nada e (2)
que o Filho de Deus é “criado” ou “alterável” ou “mutável”. N o últi­
mo anátema, as palavras hypóstasis e ousia (ambas as quais podem ser
traduzidas como “substância”) são usadas de forma intercambiavel;
uma consideração posterior distinguiria essas palavras. Eusébio teve
dificuldades para explicar a declaração dos anátemas. Ele tom ou essa
parte da decisão do concilio, como a proibição do uso desses termos
não encontrados, de forma explícita, nas Escrituras. Alexandre certa­
mente entendeu muito mais para ter sido destinado.

Outras matérias vieram antes das reuniões dos bispos. Eles apro­
varam o método para a determinação da data da Páscoa, que dora­
vante seria observada na cristandade. Eles definiram políticas para o
tratamento de seguidores de Novaciano, Melécio e Paulo de Samosa-
ta que voltaram para a Igreja. Vinte e dois cânones nos dão um retra­
to da vida institucional da Igreja. Esses cânones, juntam ente com os
aprovados em outros concílios, entraram para o corpus da lei canônica

para a igreja grega.
Atanásio, mais tarde, observaria a diferença na formulação em­

pregada no que se refere ao credo e no que diz respeito aos cânones.
N o primeiro caso, disseram os bispos: “acreditam os, pois a fé não
pode ser mudada, mas somente confessada; no último, disseram:
“nós decidimos”, porque questões de organização, disciplina e liturgia
permitiam o julgamento eclesiástico.

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 229

D. Importância de Niceia

O Concilio de Niceia é um dos importantes pontos de virada na
história da Igreja. Três aspectos podem ser destacados.

1. Niceia foi o prim eiro concilio ecumênico (“universal”), em­
bora não tenha sido chamado assim por dezenas de anos. Tais
assembléias gerais dos líderes da Igreja tornaram-se a manei­
ra de lidar com problemas dogmáticos que afetavam a igreja
universal.
Niceia foi uma assembléia consciente de sua singularida­
de, porque era muito diferente dos concílios anteriores. Era
inédito, para Roma, enviar legados a um conselho oriental,
e, embora o número dos bispos ocidentais fosse pequeno (os
nomes de apenas cinco, incluindo Osio, mais os dois presbí­
teros que representavam o bispo romano são conhecidos), sua
presença deu consciência de uma representação verdadeira­
mente universal.
Os bispos tinham um senso de autoridade. A unanimidade
era impressionante e parecia ser uma manifestação da presen­
ça do Espírito. Embora muitos tivessem de fazer contorções
com sua consciência, como fez Eusébio de Cesareia, no final,
apenas dois bispos da Líbia retiveram suas assinaturas, e eles
podem ter agido por motivos não teológicos, ou por desejo
de independência de Alexandria, ou pela amizade por Ario.
Foi maravilhoso reunir 250 bispos e ainda mais maravilhoso
levá-los a concordar.

2. Niceia serviu como um símbolo de envolvimento imperial
nos assuntos da Igreja. Era diferente dos concílios anteriores
por causa da presença pessoal de um novo e formidável fator,
o imperador Constantino. A aura de autoridade que veio de
Niceia resultou daqueles que carregaram as marcas da perse­
guição que estão sendo agora montadas pelo imperador com
grande publicidade e sinais de favor.
A idade da perseguição tinha chegado ao fim, e a idade da
cristandade — o cristianismo como uma religião favorecida
pelo governo — havia começado. De muitas maneiras, Niceia

230 HISTORIA DA IGREJA

foi uma celebração de “vitória” para a Igreja. O banimento de
Ario, no entanto, foi um lembrete de que havia um preço a pa­
gar pelo envolvimento imperial, e, em muitas épocas posterio­
res, questionariam os efeitos espirituais da vitória política. To­
davia, a aliança entre Igreja e Estado foi definida em um curso
que prevalecería para a maioria dos cristãos, por um período
de 12 a 14 séculos, e que em muitos lugares ainda prevalece.

3. Niceia marcou um desenvolvimento crucial na história dou­
trinária. Adotando um credo apoiado por anátemas, tornou
credos algo mais do que confissões de fé. Em vez de serem re­
sumos da instrução catequética confessada no batismo, como
eles costumavam fazer, os credos, no quarto século, torna­
ram-se formulações dos concílios. Em Niceia, não foram os
catecúmenos que precisavam de um credo, mas os bispos.

O uso da linguagem não bíblica no Credo de Niceia não foi tão
grande em significado como muitos então já haviam pensado.
O problema era salvaguardar um pensamento bíblico. Em
qualquer tempo, sermões são pregados ou tratados teológicos
são escritos, palavras e expressões que não estão na Bíblia são
usadas para comunicar e esclarecer a mensagem bíblica. Em­
bora as confissões de fé sejam habitualmente as mais privile­
giadas formas de discurso, elas não precisam ser mais restriti­
vas em sua terminologia. A questão é se a linguagem é fiel ao
significado e à intenção das Escrituras.

A novidade em Niceia era o fato de colocar um termo não bíbli­
co em um credo imposto pelos anátemas. (O Concilio anterior de
Antioquia é o primeiro exemplo conhecido por acrescentar anátemas
a uma declaração de fé.) Em vez de ser apenas uma confissão de fé, o
Credo de Niceia tornou-se um teste de comunhão. O precedente de
Niceia foi capaz de uma extensão considerável: o primeiro Credo de
Sirmio (351) contém 27 anátemas.

É verdade que qualquer afirmação positiva implica uma rejeição
do seu oposto, mas Niceia deu um passo importante na sua língua de
exclusão, um passo cujas consequências foram agravadas pelo novo
potencial de fiscalização do Estado.

DIOCLECIANO E CONSTANTINO - NO LIMIAR DO QUARTO SÉCULO 231

LEITURA COMPLEMENTAR

ANATOLIOS, Khalid. Retrieving Nicaea: The Development
and M eaning o f Trinitarian Doctrine. G rand Rapids: Baker, 2012.

DRAKE, H . A. Constantine and the Bishops: The Politics o f In-
tolerance. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2000.

FREND, W. H . C. TheDonatist Church: A Movement o f Protest
in Roman N orth África. 3. ed. Oxford: Clarendon, 1985.

KELLY, J. N. D. Early Christian Creeds. 3. ed. Londres: Long-
mans, 1972. p. 205-262.

O D A H L, C. W. Constantine and the Christian Empire. Lon­
dres: Routledge, 2008.

A Igreja no quarto século

,Doutrina organização e literatura

I. A CONTROVÉRSIA ARIANA DEPOIS DE NICEIA
A. De 325 a 361

A primeira fase da controvérsia ariana foi o breve período de sua
eclosão até o Concilio de Niceia, em 325. A segunda fase durou de
Niceia até a morte de Constâncio II e a adesão de Juliano, o Apóstata,
em 361.

O que é tradicionalmente chamado de “controvérsia Ariana” é
um tanto impróprio. Depois de acender o conflito, Ário praticamen­
te desapareceu de cena, quase nunca mencionado por aqueles que
continuaram a sua linha de pensamento. Além disso, as discussões
teológicas que se seguiram foram mais uma busca por uma definição
acordada de fé do que uma controvérsia constante.

Acontecimentos políticos providenciaram o pano de fundo para
a evolução eclesiástica. N a m orte de Constantino em 337, apesar de
toda a sua retórica sobre restaurar a unidade do Império, o governo

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO - DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 233

foi dividido entre seus três filhos. Ele pode não ter sido consistente
na sua política de unidade, mas era constante em nomear seus filhos:
Constantino II recebeu a Espanha, o País de Gales e a Grã-Bretanha;
Constante recebeu África, Itália e Ilíria; e Constâncio II recebeu o
Leste. (Constantino também teve uma filha, Constantina.) Após
340, Constante assumiu todo o oeste. Constâncio superou Constan­
te em 350 e o usurpador Magnêncio em 353 para dominar todo o
Império. Ele era um Arianizador.

O Credo Niceno foi concebido para o entendimento de tudo
o que se quisesse compreender, mas era problemático em ambos os
lados. Eustácio estava angustiado com que Eusébio de Cesareia pu­
desse assinar, e Eusébio devolveu o elogio. Muitos procuraram com­
plementar o Credo Niceno com outros credos e interpretações que
restringiríam a compreensão. Os Nicenos tentaram imaginar os m o­
derados Eusebianos como Arianos, e esses últimos tentaram retratar
os apoiantes de Niceia como Sabelianos.

Eusébio, Bispo de Nicomédia, assumiu a liderança daqueles cujas
simpatias estavam com Ário. Atanásio tornou-se bispo de Alexandria
em 328. Os dois lados eram agora os Eusebianos e o Atanasianos, mas
as opções nunca foram limitadas dessa forma, e mesmo esses partidos
viram um fracionamento devido aos ataques dos adversários e às pres­
sões da política imperial.

Constantino, em seu desejo de unidade, tornou-se cada vez mais
conciliatório: ele reintegrou os dois bispos que não haviam assinado
o Credo Niceno, e quando ele morreu em 337 deixou seus filhos sob
os cuidados espirituais de Eusébio de Nicomédia. Este provou ser um
hábil estadista eclesiástico e sobrevivente no emaranhado labirinto
doutrinário e político do quarto século.

Muitos dos campeões de Niceia (e outros também) experimenta­
ram depoimentos por sínodos dos bispos, cujas decisões eram agora
frequentemente impostas pelo poder das autoridades civis de enviar
para o exílio. C onstantino se voltou contra Atanásio por seus últimos
atos administrativos, e não por sua teologia, que, por si só, pode ter
interessado pouco a Constantino.

Embora a autoridade do Credo Niceno fosse incontestável en­
quanto C onstantino vivesse, o arianismo teve uma propagação rá­

234 HISTÓRIA DA IGREJA

pida. Por que isso aconteceu logo depois de ter sido oficialmente
condenado? Não foi simplesmente devido às habilidades políticas de
Eusébio de Nicomédia. Coalizões, depois de atingirem seus fins ime­
diatos, muitas vezes começam a desmoronar.

Niceia foi mais um triunfo de uma maioria antiariana do que de
um sentimento pró-Alexandrino. A grande maioria dos cristãos não
tinha nenhuma visão clara sobre a Trindade e não entendia o que es­
tava em jogo nas questões. Os arianos simpatizantes foram capazes de
explorar um prolongado “subordinacionismo” no pensamento sobre
Jesus Cristo.

Além disso, a nova palavra homoousios tinha um histórico suspei­
to: (1) não foi usada nas Escrituras; (2) havia sido usada pelos gnós-
ticos; (3) havia sido usada por Paulo de Samósata em algum caminho
não agora claro; e (4) soava sabeliana (e alguns Nicenos aproxima­
ram-se desta posição).

Então, o aparente ressurgimento do arianismo depois de Niceia
foi mais* uma reação antinicena explorada por simpatizantes de Ário
do que um desenvolvimento pró-ariano.

Ataques a indivíduos derrubaram alguns dos campeões mais de­
testados do credo Niceno. Por volta de 330, um Concilio em An-
tioquia excluiu Eustácio, Bispo de Antioquia. As acusações eram
morais: desrespeito para com a família real (e ele tinha uma língua
afiada). N a mesma época, em Constantinopla, Marcelo de Ancira foi
deposto, acusado de Sabelianismo, e ele estava perto disso. Ele não
tom ou medidas para conciliar Arianos, assim o desrespeito para com
o imperador também foi uma alavanca para se livrar dele.

A conquista culminante dos oponentes de Niceia foi o banimen­
to de Atanásio em 335 por um Concilio em Tiro. A maioria do clero
Oriental neste Concilio favoreceu a restauração de Ário. Atanásio foi
condenado por razões morais: atos de violência, indigna de um bispo.
Um Sínodo em Jerusalém levantou a excomunhão de Ário e pediu
ao imperador para reintegrá-lo como presbítero. A notícia aparente­
mente animou tanto o coração fraco de Ário que ele morreu em 336,
antes que isso acontecesse. O símbolo da nova ascensão dos pensado­
res pro-Ário foi a tradução de Eusébio de Nicomédia para tornar-se
bispo de Constantinopla em 339.

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 235

Nesse tempo, o Bispo de Roma apoiou Niceia e Atanásio. Julius
(bispo 337—352) convocou um Sínodo local em 341 que declarou
todos os banimentos como ilegais. Uma vez que o Imperador oci­
dental não era ariano, o Bispo de Roma foi mais independente, e Ju­
lius ofereceu seu apoio para Atanásio. O Ocidente como um todo foi
pouco afetado pelo conflito durante seus estágios iniciais. A aliança
entre Roma e Alexandria tornou-se um fator importante para o even­
tual triunfo da causa Nicena.

À medida que a controvérsia Ariana se desdobrou durante o
quarto século, as seguintes posições gerais puderam ser distinguidas:

1. Os Homoousians apoiaram a redação adotada em Niceia (o
filho é da “mesma substância” que o pai). Seus porta-vozes te­
ológicos foram Atanásio no Oriente e Hilário de Poitiers no
Ocidente. Os bispos de Roma apoiaram essa posição, embora
com alguma hesitação, e tornaram-na a posição “católica”.

2. Os Homoiousians (que diziam que o filho é de “substância si­
milar ou semelhante” ao pai) estavam preocupados com pos­
síveis implicações Sabelianas de homoousios e queriam preser­
var a distinção de Pai, Filho e Espírito Santo, rejeitando os
Arianos extremos. Um dos primeiros líderes foi Basílio de An-
cira, que defendia a frase “como o Pai na ousia.” Essa posição
recebeu grande apoio na parte oriental do Império.

VERTEN TES SO BRE A RELAÇÃO DO FILHO AO PAI
H o m o o u s ia n s — o Filho é da mesma substância que o Pai
H o m o io u s ia n s — o Filho é de substância similar ao Pai
H o m o e a n s —o Filho é como o Pai
A n o m o e a n s — o Filho é diferente do Pai

3. Os Homoeans (de homoios, “similar”) preferiram evitar a pala­
vra ousia completamente. Essa é a menos claramente definida
das posições. Alguns estavam dispostos a dizer que Jesus Cristo
é como Deus “em todas as coisas”, como Eusébio incentivou os
membros de sua igreja em Cesareia a entender homoousios, e

236 HISTÓRIA DA IGREJA

Basílio de Ancira concordou em aceitar. Outros usaram a pala­
vra homoios como um termo vago, pois eles queriam preservar
a distinção entre o Pai e o Filho. Acácio, sucessor de Eusébio
como Bispo de Cesareia, um Ariano de coração que queria ser
ortodoxo na língua, representou a posição de Homoean. Esse
ponto de vista ganhou mais apoio por um tempo, tanto entre
aqueles que concordaram com Ário como entre aqueles que
não gostavam dos homoousios, e teve o apoio de Constâncio II.

4. Os Anomoeans (o filho é “diferente” do pai) foram um desen­
volvimento posterior da extrema visão Ariana, às vezes conhe­
cidos como “Neoarianos”. Para eles, é possível definir a nature­
za essencial de Deus como “não gerada”, e uma vez que o Filho
é “gerado”, Ele é, em essência, diferente do Pai. Os defensores
desse ponto de vista rejeitaram o rótulo anomoios dado por
seus adversários, porque eles concordaram que o Filho era
como o Pai em energia, poder e atividade, mas disseram que
Elç era diferente em substância, então eles preferiram a pala­
vra heterousios como sua palavra de ordem. Aécio e Eunômio
foram os líderes dessa posição.

Uma longa série de Concílios se reuniu no quarto século para
lidar com os problemas doutrinários. Estes mostraram até que ponto
o Credo Niceno era uma novidade, mas no início não eram explici­
tamente Arianos. O aumento da pressão imperial de Constâncio II
forçou acordo com credos Homoean, os quais ele pensou terem maior
possibilidade de unir a igreja. (Apesar das coisas duras ditas pelos Ho-
moousians, Constâncio foi até suave, para os tempos, em seu trata­
mento para com aqueles que não concordavam com suas políticas.)

Uma série de Concílios (nos anos 347, 351, 357, 358, 359 e no
disputado ano 378) reuniu-se em Sirmio, na província de Panônia
II (atual Hungria) na rota de viagem entre Oriente e Ocidente. Os
Nicenos, para saírem desses Concílios (357), rotularam o segundo
credo como a “Blasfêmia de Sirmio”, porque a influência de Ursácio
e de Valente assegurou a rejeição de homoousios e de homoiousios, até
mesmo forçando a assinatura do já envelhecido Ôsio.

O clímax da pressão imperial veio com os concílios em Arímino
(Rimini), na Itália, e em Selêucia, na Isáuria, 359, que se destinavam

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 237

a ser peças comuns de um concilio ecumênico. Embora fossem Ni-
cenos no sentimento, os ocidentais foram desgastados pela pressão
imperial para aceitarem um credo Homoean, uma vitória para Valente
e Ursácio. Uma cena semelhante em Selêucia resultou em Homoiou-
sians aceitando a fórmula Homoean defendida por Acácio e Eudóxio.
Jerônimo expressou mais tarde a sentença: “O mundo inteiro gemeu
e admirou-se ao encontrar-se Ariano”.

Havia agora, claramente, a necessidade de uma nova declaração
de pontos de vista. Como, às vezes, acontece no decorrer dos eventos,
o sucesso das forças antinicenas foi o seu fracasso. Foi o seu fracasso
porque eles estavam mais unidos no que eram contra do que naquilo
de que eram afavor.

Um sínodo local em Ancira, em 358, sob a liderança de Basílio de
Ancira eJorge de Laodiceia, e outro em Alexandria, em 362, sob Ata-
násio, lançou as bases para novas fórmulas. O sínodo antigo tentou
assumir uma posição entre homoousios e homoios, às vezes chamado de
“Semiariano” ou, melhor, “Neoniceno”. O último sínodo reconheceu
que aqueles que falavam dos homoiousios tinham as mesmas inten­
ções daqueles que usavam homoousios.

Os outros credos elaborados nos anos 340 e 350, então, eram
uma crítica implícita de Niceia. A crítica fez com que os adeptos de
Niceia lutassem por ela e percebessem o seu valor.

Entre os argumentos para o credo Niceno estavam os seguintes:
1. O Imperador ratificou as decisões. Vitorino, em 359, foi o

primeiro a declarar que Constantino confirmou o Credo de
Niceia.

2. O bispo de Roma ratificou as decisões. Documentos foram
forjados para esse efeito, e Dâmaso de Roma disse que Niceia
era autoritária porque o bispo de Roma tinha confirmado isso.

3. Os bispos de Niceia eram bons homens, muitos dos quais
eram confessores na perseguição.

4. A consideração mais influente, surpreendente para estudantes
modernos, foi o simbolismo numérico.

Nós sabemos os nomes de 220 signatários do Credo Niceno.
Eusébio diz que mais de 250 bispos participaram. Atanásio, certa
vez, disse que eram 300. Mas, Hilário, no ano 359, e, em seguida,

238 HISTÓRIA DA IGREJA

CONCÍLIO S NA METADE DO QUARTO SÉCULO

Local Data Credo Posição

A n tio q u ia 341 Consagração M oderada, Antissabeliana

Sárdica 343 Bispos ocidentais reafirm aram Niceia;
A n tio q u ia bispos orientais condenaram Atanásio
Sirm io
344 M acrostich Homoios-, co n d e n o u M arcelo

351 Prim eiro Sirm io D epôs Fotino

Aries 353 Bispos ocidentais forçados a
Sirm io abandonar Atanásio

357 Blasfêm ia de H om oousios e H om oiousios
Sirm io condenados

Sirm io 359 Credo Datado Filho com o o Pai "em todos os asp e cto s’

Arím ino - Selêucia 359 H om oios

o próprio Atanásio deram o número 318 para os que aprovaram o
Credo. O significado desse número foi a sua correspondência com o
número 318 para os servos de Abraão (Gn 14.14), que já tinha sido
interpretado como uma alegoria para Jesus Cristo e a cruz (veja em
Barnabé no capítulo 3). Portanto, “os 318” bispos em Niceia tinham
confessado a plena divindade de Jesus Cristo, que foi crucificado para
a salvação humana.

Não era óbvio nos anos 330 até 360 que o Credo Niceno era o
único credo universal da cristandade. Isso veio a acontecer, em grande
parte, devido à realização de Atanásio.

B. Atanásio

Atanásio, um dos gigantes da história da igreja, nasceu em um lar
cristão em Alexandria por volta do ano 300. Ele estudou com Pedro
o Mártir e foi influenciado por aqueles que enfatizaram a visão de
Orígenes da natureza comum de Pai e Filho. Como diácono sob a
liderança do bispo Alexandre, atuou como seu secretário no Concilio
de Niceia, em 325. Ele foi o sucessor de Alexandre como bispo de
Alexandria em 328.

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 239

As vicissitudes da política imperial e eclesiástica refletem-se nos

cinco exílios de Atanásio de Alexandria:

1. 335—337, deposto pelo Conselho de Tiro, ele foi enviado
por Constantino para Trier.

2. 339—346, banido por Constâncio enquanto ainda canonica-

mente deposto, ele foi para Roma.

3. 356—361, exilado novamente por Constâncio, ele escondeu-

-se entre os monges nos desertos do Egito, de onde foi capaz

de dirigir os assuntos da sua igreja.

4. 363, exilado por Juliano, ele esteve escondido novamente no

Egito.

5. 365—366, forçado por Valente a deixar a cidade, ele encon­
trou, mais uma vez, refúgio no deserto egípcio.

Cada vez que mudava o destino político, Atanásio era conduzido

à recepção entusiasta de seus paroquianos. Quase dezesseis anos de

seus quarenta e cinco anos no episcopado foram gastos em exílio. Ele

morreu em 373.

A maior parte dos escritos de Atanásio

são trabalhos polêmicos que tratam da con­ “Ele foi feito homem para
trovérsia Ariana, dos quais os maiores são que pudéssemos ser feitos
as Orações contra os arianos (dois dos quatro deuses, e Ele manifestou-
escritos são certamente genuínos, prova­ -se em um corpo para que
velmente o terceiro) e a Apologia contra os pudéssemos receber a ideia
arianos. Uma boa introdução às questões é do Pai invisível” (Atanásio,
sua Defesa da Definição Nicena, que defen­ Sobre a encarnação 54.3,).
de a linguagem do Credo Niceno contra as

críticas, argumentando que as afirmações

são bíblicas, embora não usem as palavras
da Escritura (os Arianos também, Atanásio ressalta, usaram palavras

não bíblicas para apresentar seus pontos de vista), e que estavam de

acordo com o ensino anterior na igreja. As obras polêmicas de Ataná­

sio, bem como as de outros escritores, mostram quanto a controvérsia

“Ariana” era um debate sobre o significado dos textos bíblicos.

Duas outras obras de Atanásio são notáveis. Sobre a encarnação

expõe a posição teológica básica de Atanásio. Ele enfatiza a encarna­

ção como o meio de salvação. O lado reverso da encarnação é a visão

240 HISTÓRIA DA IGREJA

da salvação como deificação. Pela presença de Jesus Cristo em um cor­
po, ele está unido a todos, trazendo a verdade e o conhecimento do Pai
no lugar da ignorância e trazendo a vida imortal no lugar da morte.

Para Atanásio, em sua compreensão da salvação como diviniza-
ção, era im portante o fato de que Jesus Cristo é totalmente divino.
Caso contrário, a salvação que ele trouxe seria incompleta. Essa foi a
preocupação soteriológica crucial que Atanásio trouxe à controvérsia
ariana.

A visão dos Arianos a respeito da salvação era diferente. Para eles,
Jesus Cristo como um ser criado, e assim sujeito a mudanças, serve
como um exemplo de obediência e de mudança moral para melhor.

Podemos apreciar melhor o significado da controvérsia Ariana se
nos lembrarmos de que não foi apenas uma disputa sobre a definição
metafísica da Divindade, mas também, uma luta sobre a própria na­
tureza do cristianismo e da salvação humana.

Para Atanásio, a encarnação incluiu a morte e a ressurreição de
Jesjus. N o entanto, pode ser dito, por meio de generalização, que a te­
ologia oriental deu mais atenção à encarnação, e a teologia ocidental,
à crucificação como meio de expiação. Nem deu a mesma centralida-
de que o Novo Testamento oferece à ressurreição, embora a ressurrei­
ção não fosse, de forma alguma, negligenciada.

Duas escatologias diferentes estavam sendo desenvolvidas: no
Oriente, uma escatologia mais concreta, na qual Jesus Cristo trouxe
salvação agora; e, no Ocidente, uma escatologia mais futurista, em
que a tarefa agora é im itar o humilde Jesus.

Em relação à imitação do Jesus humilde, a Vida de Antônio foi
m uito influente na publicidade dos ideais monásticos. Sua tradução
para o latim promoveu o monasticismo no Ocidente. Inicialmente,
os Donatistas e Arianos identificavam-se com os elementos rigoristas
na igreja. O tratam ento de Atanásio em A ntônio, no entanto, ajudou
a manter o impulso ao rigorismo dentro da igreja ortodoxa. Ele apre­
sentou o eremita Antônio como vindo à Alexandria para repreender
Constâncio e para falar em nome da ortodoxia Nicena. Depois disso,
os monges foram trazidos para os conflitos doutrinários da igreja.

A importância de Atanásio está ligada à posição Nicena, da qual
se tornou um símbolo. Os adversários de Niceia trouxeram muitas

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO - DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 241

acusações contra ele, e a “doce razoabilidade” não era característica
dele como um controversista.

A firmeza de Atanásio e seus escritos bloquearam o progresso dos
Arianos e preparou para a eventual vitória da causa Nicena. A esse
respeito, a sua carreira é uma ilustração do princípio de que as ques­
tões são resolvidas quando alguém convence a maioria. Claro que a
maioria não é necessariamente certa, e ela pode basear suas decisões
em outras razões que não os méritos lógicos (ou em questões cristãs,
os teológicos) das respectivas posições.

Outros, além de Atanásio, foram importantes na vitória Nicena,
e a carreira de Atanásio mostra certamente as dificuldades que ele en­
frentou, mas é difícil imaginar a causa Nicena, sem ele, triunfar tão
completamente como triunfou.

C. De 361 a 381

A adesão de Juliano, o Apóstata (361—363), à regra imperial
marcou o ponto da virada para a terceira fase da controvérsia ariana.
Embora tenha sido criado como cristão, Juliano reagiu contra a falta
de sinceridade que viu à sua volta. M antendo seus sentimentos priva­
dos até chegar ao poder, ele tornou-se um defensor fervoroso de um
iluminado monoteísmo pagão. Seu objetivo era um culto monoteísta
pagão universal.

Nos esforços de Juliano para reavivar o paganismo, Gregório de
Nazianzo acusou-o de imitar os cristãos, exortando os sacerdotes pa­
gãos a pregarem a moral e a organizarem programas de benevolência.
Juliano não tentou perseguição direta (embora houvesse poucos már­
tires entre os militares), mas procurou remover os cristãos das posi­
ções de privilégio.

Juliano perm itiu que os bispos banidos retornassem às suas sés,
interpretado por alguns como um movimento cínico para destruir o
cristianismo de dentro para fora, fomentando o conflito teológico.
(Se esse era o propósito, ele pouco percebeu que o debate teológico é
uma expressão de profundas convicções e que os cristãos prosperam
em tais conflitos.)

De qualquer forma, o resultado foi que o breve reinado de Julia­
no reuniu os elementos díspares favoráveis a Niceia e opôs-se à inter­

242 HISTÓRIA DA IGREJA

pretação Homoean imposta por Constâncio. Juliano foi morto em
batalha na Pérsia. Uma lenda cristã citou suas últimas palavras como:
“O Galileu, Tu tens conquistado”.

Valentiniano I (364—375) era católico, mas ele acreditava que o
governo não deveria interferir em questões de dogma. Associado com
ele como governante no O riente foi Valente (364— 378), que revi­
veu a perseguição Ariana dos bispos. Graciano conseguiu governar
no Ocidente (375— 383), e Teodósio I (379— 395), no Oriente. Este
último tornou-se para os ortodoxos um “segundo C onstantino”, cujo
decreto de 380 declarou a fé do bispo Dâmaso de Roma, e do bispo
Pedro de Alexandria, a fé do império. Teodósio I também convocou
o Concilio de Constantinopla em 381.

D urante a terceira fase do conflito Ariano, quatro questões teo­
lógicas confrontaram os líderes da igreja:

1. A autoridade teológica do Concilio de Niceia

Os Atanasianos chamavam-se “Nicenos” e desenvolveram os
argumentos acima mencionados a respeito da autoridade do Credo
Niceno. Alguns dos que concordaram com o impulso antiariano de
Niceia, no entanto, não aceitariam o Concilio ou o seu texto como
sacrossantos e irreversíveis.

2. O problem a sem ântico

Os termos ousia e hypóstasis tinham sido usados indistintamente
em Niceia. A disposição dos adeptos de Niceia para fazer concessões
semânticas foi importante para a resolução das incertezas doutriná­
rias. Um acordo surgiu com a finalidade de usar ousia para a natureza
comum do Pai e do Filho e para usar hypóstasis para a identidade in­
dividual de cada um.

3. O problem a central da unidade e da
distinção na Divindade

O partido homoiousian insistiu em que “substância semelhante
(ou similar)” salvaguardava a separação das três pessoas em oposição
ao Sabelianismo, mas foi suficientemente longe ao mostrar identida-

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO - DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 243

de da substância. Dizer “mesma substância” significava, para este gru­
po, que não havia distinção e, portanto, encorajava o Sabelianismo.

4. O lu gar do Espírito Santo

Alguns Homoiousians não concederiam à terceira pessoa da
Trindade o que concederiam à segunda pessoa. Eles consideravam o
Espírito Santo o chefe dos anjos. Fontes primárias chamam-nos de
“Pneumatomacianos” (“Aqueles que lutam contra o Espírito Santo”).
Atanásio também os chamou de “Tropicistas”, porque eles queriam
tomar, de m odo literal, passagens sobre o “vento” metaforicamente
do “Espírito”. Eles também eram chamados de “Macedonianos” de­
pois de Macedônio, bispo de Constantinopla, mas sua ligação com
essa posição não é provada. Uma das principais figuras foi Eustácio
de Sebaste.

Quatro homens emergiram como líderes no assentamento: Ata­
násio e Hilário de Poitiers, dos Homoousians, e os dois Basílios (de
Ancira e de Cesareia, em Capadócia), dos Homoiousians. Hilário e
Atanásio conheciam tanto o grego como o latim, e, assim, poderiam
esclarecer a confusão na terminologia trinitária empregada nas duas
línguas. O latim usava substantia para a “substância” comum ou a na­
tureza da Divindade. O equivalente etimológico em grego era hypós-
tasis, uma palavra que veio a ser comumente usada pelos Homoiou­
sians para as pessoas individuais na Divindade. Portanto, aos gregos,
foi dada a impressão de que, quando os latinos diziam “uma subs­
tância”, significava “um indivíduo”, e, aos latinos, a de que os gregos
diziam “três substâncias”. Um esclarecimento dos diferentes sentidos
em que as duas palavras estavam sendo usadas facilitou a compreen­
são mútua.

N o que se refere à diferença entre os próprios gregos sobre o uso
de ousia e hypóstasis, Basílio de Ancira concordou em usar o termo
Niceno homoousios, só que no sentido Homoiousian, para proteger
as distinções das pessoas. Atanásio, por sua parte, disse que a fé co­
mum, não o texto, era importante. Em um sínodo em Alexandria, em
362, ele fez sua contribuição para a unidade doutrinária distinguindo
hypóstasis e ousia. O sínodo também afirmou, contra o Pneumatoma­
cianos, que o Espírito Santo é inseparável da ousia do Pai e do Filho.

244 HISTÓRIA DA IGREJA

Os três grandes capadócios Pais da Igreja, Basílio de Cesareia,
Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa, às vezes chamados de
“Neonicenos”, construindo sobre o fundam ento estabelecido pelos
Homoiousians, tornaram-se os grandes teólogos da nova síntese. Para
eles, o Pai é a fonte e a causa das outras duas Pessoas na mesma con-
dição[, ou seja, iguais]. Eles ajudaram a estabelecer a terminologia
hypóstasis para a Trindade e ousia para a unicidade da Trindade. Suas
exposições teológicas foram a base para a posição aprovada pelo con­
cilio ecumênico, Constantinopla, em 381.

D. O Concilio de Constantinopla, 381

Uma vez que uma pessoa permitisse uma pluralidade dentro do
entendim ento do monoteísmo, algo que os pensadores cristãos no
segundo e no terceiro séculos chegaram a fazer, não havia nenhuma
necessidade de que uma Trindade fosse o resultado. Os dados bíbli­
cos, não considerações lógicas ou teóricas, determinaram que três en­
tidades foram descritas como Deus, não duas ou quatro.

O Concilio de Constantinopla, realizado pelo imperador Teo-
dósio, em 381, não foi imediatamente considerado ecumênico. Na
verdade, somos mal informados sobre seus procedimentos, e as evi­
dências de seu credo são confusas. O concilio afirmou que seu credo
era o mesmo que o de Niceia, mas o credo que tem sido transmitido
como aprovado por este concilio é mais completo do que o do credo
adotado em Niceia, e omite seus anátemas. Esse é o credo recitado em
muitas igrejas como o “Credo Niceno”; mais precisamente, esse é o
“Credo N iceno-Constantinopolitano”.

Um problema ocorre porque o texto do credo é citado em uma
obra de Epifânio datada antes do concilio. O u o concilio aprovou um
credo já existente, ou (mais provável) um escriba substituiu o formu­
lário do credo com o qual ele era mais familiar pelo texto de Epifânio.

O credo do concilio reafirmou que o Filho era consubstanciai
(,homoousios) com o Pai e confirmou a divindade do Espírito Santo.

O concilio anatematizou os Eunomianos (Neoarianos), Pneu-
matomacianos, Sabelianos, os seguidores de Marcelo e Fotino, e os
Apolinarianos (veja capítulo 13).

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 245

Igreja de Hagia Irene (St. Irene), no local do Segundo Concilio Ecumênico, 381, em
Constantinopla (Istambul), Turquia

Entre outras decisões estava um cânon que deu ao bispo de Cons­
tantinopla a prerrogativa de honra posterior à prerrogativa dada ao
bispo de Roma, “porque Constantinopla é a Nova Roma”, uma de­
cisão que prenunciou a controvérsia que, mais tarde, existiria entre
Roma e Constantinopla, com base em seus privilégios (capítulo 13).

Os editos de Teodósio depois do concilio fizeram da versão pró-
-Nicena da fé cristã a religião oficial do império.

Por que os Nicenos (embora na forma modificada dos Neonice-
nos) venceram os debates doutrinários ? Por que os cristãos escolhe­
ram certos concílios como oficiais, e outros não ?Era uma questão de
recepção, de acolhimento, — por quem e como.

Gregório de Nazianzo, por exemplo, considerou o pequeno síno-
do reunido em Alexandria em 362 como a maior conquista de Ataná-
sio. Niceia é um paradigma do problema da autoridade dos concílios.
Seus apoiantes foram bem-sucedidos porque a maioria decidiu que
isso era o caminho certo para expressar o consensusfidelium (“acordo
dos fiéis”).

246 HISTÓRIA DA IGREJA

CREDO NICENO-CONSTANTINOPOLITANO

Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra, de todas
as coisas visíveis e invisíveis;
e em umsó Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai
antes detodos os séculos, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
gerado, não criado, consubstanciai ao Pai, por quemtodas as coisas foram
feitas; que por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus, efoi
feito carne pelo Espírito Santo e avirgem Maria, etornou-se homem, efoi
crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, epadeceu efoi sepultado, e ressusci­
tou ao terceiro dia conforme as Escrituras, eascendeu aos céus, e assenta-se
àdireita do Pai, ede novo há de vir, com glória, para julgar vivos e mortos, e
oseu reino nãoterá fim;
no Espírito Santo, Senhor que dá avida, que procede do Pai, que com o Pai e
o Filhoé adorado e glorificado, que falou pelos profetas;

emuma igreja santa, católica e apostólica;
reconhecemos umsó batismo para a remissão dos pecados;
esperamos a ressurreição dos mortos e avida do mundo que há de vir.

Amém.

Em termos práticos, outros credos não ganharam porque não
tinham Atanásio e Roma para eles. Isso não significa, porém, que
Atanásio e Roma tinham tudo o que eles queriam. Eles apoiaram
reivindicações de Paulino como bispo de Antioquia, por exemplo,
mas a maioria das igrejas orientais apoiava Melécio como bispo de
Antioquia.

II. ORGANIZAÇÃO DA IGREJA

O quarto século viu uma institucionalização e intelectualização
crescente da igreja. Os processos tinham começado antes, mas a evo­
lução organizacional e da literatura produzida fez do quarto século
um período significativo para a igreja e sua cultura.

Os debates Trinitarianos do quarto século foram marcados por
um grande número de concílios da igreja, muitos dos quais foram re­
alizados para fins específicos e não se enquadravam no padrão regular
dos concílios que vieram a prevalecer. Sínodos de bispos reuniam-se
desde a última parte do segundo século para lidar com problemas

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 247

comuns (como o Montanismo) ou para resolver controvérsias (como
a observância da Páscoa).

Antes do quarto século, o bispo de uma cidade e seus presbíte­
ros estariam juntos muitas vezes, mas, com o crescimento da igreja,
o bispo deveria reunir seu clero várias vezes por ano — um concilio
diocesano ou paroquial.

Durante o terceiro século, concílios a nível regional tornaram-se
uma característica comum da organização da igreja.

O Concilio de Niceia exigiu que os bispos de uma província se
reunissem duas vezes por ano sob a presidência do bispo da igreja
metropolitana ou da igreja-mãe — um sínodo provincial. Roma para
a Itália, Cartago para o N orte da África, Alexandria para o Egito e
Antioquia para a Síria, já no terceiro século, eram vistos como pos­
suidores de uma jurisdição maior do que uma província, e Niceia re­
conheceu tais jurisdições expandidas. Esses arranjos anteciparam os
sínodos patriarcais posteriores, principalmente no caso da liderança
de Alexandria no Egito e nos territórios vizinhos.

Niceia foi o primeiro dos concílios que vieram a ser reconhecidos
como ecumênicos, representando a igreja universal. O Concilio de
Calcedônia, em 451, definiu quais concílios até o seu tempo seriam,
então, reconhecidos. Um tipo especial de concilio desenvolveu-se em
Constantinopla, o synodos endemousa, o santo sínodo permanente de
Constantinopla. Depois que Constantinopla se tornou a capital do
império, vários bispos de outros lugares estariam na capital a qual­
quer momento. O imperador convocaria um concilio do clero local e
quaisquer que fossem os bispos visitantes disponíveis para fazer avan­
çar suas preocupações.

Q uando concílios lidavam com questões de fé, suas declarações
eram conhecidas como “símbolos” ou “dogmas”. Decisões relativas a
assuntos organizacionais, disciplinares ou processuais eram conheci­
das como “cânones”.

O quarto século viu maior refinamento na diferenciação do clero
além do ministério triplo do segundo século. Já na metade do terceiro
século, a Igreja de Roma se vangloriou de ter 46 presbíteros, sete diá-
conos, sete subdiáconos, 42 acólitos, 52 exorcistas, leitores e portei­
ros e cerca de 1.500 viúvas arroladas. Poucas igrejas eram tão grandes,

248 HISTÓRIA DA IGREJA

mas a maioria das cidades requeria o desenvolvimento de um sistema
paroquial. O bispo tornou-se mais um administrador, e o cuidado
pastoral local e a liderança litúrgica passaram aos presbíteros.

As áreas rurais perto de uma cidade eram servidas por um presbí­
tero, um diácono ou um “bispo rural” (chorepiscopus) — um funcioná­
rio conhecido principalmente no Oriente, no quarto século, que era
dependente do bispo da cidade e limitado em seu direito de ordenar.

O ranking dos bispos foi determinado por dois fatores: os m éto­
dos de missão da Igreja primitiva, pelos quais o evangelho espalhou-
-se das cidades nas principais rotas comerciais para as regiões circun-
vizinhas, e a reunião de sínodos para lidar com problemas comuns. O
metropolitano era geralmente o bispo na capital da província políti­
ca, onde o imperador tinha seu representante oficial, mas em alguns
casos o bispo de outra cidade tinha prioridade como a primeira igreja
na província. O metropolitano também poderia ser chamado de arce­
bispo, que se tornou o termo normal no Ocidente a partir do século
10. í>Iiceia reconheceu quatro bispos com uma autoridade maior que
a de um metropolitano — os bispos de Roma, Alexandria, Antioquia
e Cesareia. Dessas jurisdições especiais, emergiram os patriarcas, não
totalmente posicionados até o quinto século, e não habitualmente
chamados de patriarcas até o sexto século.

A influência de Ambrósio, Jerônimo e Agostinho tornou o ce­
libato praticamente obrigatório no Ocidente para todos os clérigos
das grandes ordens. Cada vez mais, no quarto e no quinto séculos, os
bispos eram escolhidos entre os monges, tanto no Oriente como no
Ocidente, e, sob o reinado de Justiniano, o celibato foi imposto aos
bispos do Oriente. Os privilégios concedidos pelo estado do quarto
século em diante tendiam a, ainda mais, tornar o clero uma classe à
parte, uma característica realçada pela imagem de bispos das classes
sociais mais altas.

N o quarto e no quinto séculos, o clero começou a usar roupas es­
peciais, a princípio, na liturgia apenas. A mudança no vestuário cleri­
cal foi especialmente o resultado do fracasso em acompanhar as m u­
danças da moda na vida secular, visto que o clero continuava a usar
longas túnicas greco-romanas e mantos, e os leigos adotavam calças
germânicas. Em direção ao quinto século, o clero assumiu a tonsura

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 249

dos monges. O celibato e o traje distintivo faziam parte de uma cres­
cente monastização do clero (veja capítulo 12 em monasticismo),
pelo menos no ideal.

III. OS PAIS DA IGREJA NICENA E PÓS-NICENA

Os 125 anos que vão de Niceia (325) até Calcedônia (451) são
conhecidos como a “Era Dourada da Literatura Patrística”. Em ter­
mos de quantidade e qualidade da literatura, esse foi o período flo­
rescente da antiga igreja. Não há nada comparável novamente até os
séculos 12 e 13. Portanto, o quarto século e o início do quinto século
formam um dos períodos mais conhecidos na história da igreja. Esse
grande século patrístico” fornece um ponto fixo na discussão de qua­
se qualquer assunto, pois entramos em um período de plena luz.

Em muitos assuntos, as formulações alcançadas durante esse
período dominaram a abordagem cristã pelos séculos seguintes. Os
pensadores e escritores desse período — especialmente Agostinho no
Ocidente latino e os três Capadócios (Basílio, Gregório de Nazianzo
e Gregório de Nissa) no Oriente grego — formaram as bases intelec­
tuais para a cristianização da cultura clássica.

A Igreja Católica Romana reconhece oito grandes doutores da
igreja do período patrístico: quatro escritores latinos — Ambrósio,
Jeronimo, Agostinho e Gregório, o Grande; e quatro escritores gre-

ESCRITORES PATRÍSTICOS GREGOS, QUARTO E QUINTO SÉCULOS

Nome Data País Importância

Eusébio de Cesareia 260 - 339 Palestina H istoriador da Igreja; apologista;
origenista m oderado
A ta n á sio c. 300 - 373 Egito Cam peão de Niceia
Cirilo de Jerusalém m. 387 Palestina Bispo; palestras catequéticas
Basílio de Cesareia 3 3 0 -3 7 9 C a p a d ó c ia Eclesiástico estadista
Gregório de Nazianzo 329 - 390 C a p a d ó c ia O rador e teólogo
Gregório de Nissa 331 - 395 C a p a d ó c ia Teólogo filosófico
João Crisóstom o 347 - 407 Síria Pregador
Cirilo de Alexandria 375 - 444 Egito Teólogo e estadista eclesiástico

250 HISTÓRIA DA IGREJA

ESCRITORES PATRÍSTICOS LATINOS, QUARTO E QUINTO SÉCULOS

Nome Data País Importância

Hilário de Poitiers 3 1 5 - 3 6 7 Gália "Atanásio do O cidente"

Am brósio 339 - 397 Itália Eclesiástico estadista

Am brosiastro 4e séc. Itá lia Co m entarista da Bíblia
Rufino 345 - 410 Itá lia
Jerônim o Tradutor
347 - 420 Itália
Tradutor da Bíblia e cam peão do
m onasticism o

A g o stin h o 354 - 430 Norte da África Teólogo latino m ais influente

João Cassiano 365 - 433 Gália M ediador da teologia oriental e
do m onasticism o para o Ocidente

Vicente de Lérins 5Q séc. G á lia Doutrina da tradição

gos — Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio, o Grande e João
Crisóstomo. Todos, menos Gregório, o Grande, ocorrem no período
em consideração. Alguns desses receberam um tratamento mais com­
pleto em outro lugar (Atanásio, Agostinho, Gregório, o Grande). O
restante, além de mais alguns escritores importantes, recebe algum
tratamento biográfico aqui.

A. Basílio, o Grande de Cesareia

Os três grandes Capadócios — Basílio e os dois Gregórios — re­
presentam o auge da cultura cristã no quarto século, uma união da
educação literária e retórica grega com uma profunda fé cristã e leal­
dade à igreja.

A Capadócia era, outrora, considerada atrasada, e no quarto sé­
culo parte dela ainda estava dentro de um século de sua evangelização.
No entanto, essa região do quarto século moveu-se para a vanguarda
do empreendimento intelectual cristão e para uma posição de lide­
rança nos assuntos da igreja. Embora dotado em muitas áreas, Basílio
foi, acima de tudo, um administrador e eclesiástico estadista entre os
Capadócios.

Nascido por volta de 330, Basílio veio de uma das famílias cris­
tãs proeminentes da região. Seu pai, um retórico em Neocesareia, no

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 251

Ponto, era filho de Macrina, a Velha, uma convertida de Gregório
Taumaturgo. Sua mãe, Emélia, era filha de um m ártir na perseguição
de Diocleciano. Esses pais tiveram 10 filhos, dos quais três tornaram-
-se bispos (Basílio, Gregório de Nissa e Pedro de Sebaste), e sua filha
mais velha (Macrina) tornou-se um modelo de vida ascética. Além
da instrução de seu pai, Basílio estudou em Cesareia, na Capadó-
cia, onde se tornou amigo de Gregório de Nazianzo, bem como em
Constantinopla e em Atenas.

De volta para casa, a carreira de Basílio como um retórico foi
curta, pois um despertamento espiritual e uma viagem ao Egito e
Palestina para conhecer ascetas levaram ao seu batismo. Ele dividiu
sua fortuna entre os pobres e foi viver em retiro em Annesi, perto de
Neocesareia. Ele logo foi cercado pelos companheiros e começou um
mosteiro, para o qual elaborou suas regras monásticas. Em 364, foi
ordenado sacerdote em Cesareia, na Capadócia, e em 370 tornou-se
seu bispo.

Com o bispo, Basílio se tornou um pioneiro na criação de ins­
tituições cristãs benevolentes — casas para os pobres, hospícios e
hospitais. Esse último foi antecipado por Eustácio, bispo de Sebaste
(356— 380). Estas três instituições benevolentes cristãs tornaram-se
comuns no quinto e no sexto séculos.

Basílio manteve sua posição na controvérsia Ariana, resistindo
com êxito aos esforços do seu banimento, e começou a refutação li­
terária do Neoariano Eunômio. Ele trabalhou pela unidade entre os
adversários do arianismo e pela melhor compreensão entre as igrejas
orientais e ocidentais. Seus sermões, cartas e tratados doutrinários
lançaram as bases para as realizações teológicas dos dois Gregórios.

B. Gregório de Nazianzo

Gregório de Nazianzo foi o maior orador de sua época, mas é dis-
tinguido na tradição ortodoxa pela designação “O Teólogo”. Como
Basílio, que tinha aproximadamente a mesma idade, Gregório veio
de uma família aristocrática rica. Ele compartilhou com Basílio o de­
sejo de unir piedade ascética com cultura literária, mas, ao contrário
de Basílio, sua preferência pela contemplação tranquila não deixou

252 HISTÓRIA DA IGREJA

gosto pela vida eclesiástica ativa. A disposição obsequiosa de Gre-

gório transmitiu uma falta de determinação; de qualquer maneira,

permitiu-lhe ser atraído para várias posições de responsabilidade e

liderança pelas quais tinha pouco gosto.

Outros amantes da leitura e contemplação podem identificar-

-se com o sentimento de Gregório: “O sossego e a libertação dos ne­

gócios são mais preciosos do que o esplendor de uma vida agitada”

(.Epístola 131). A má saúde recorrente também limitou seu envolvi­

mento em responsabilidades para as quais ele foi chamado. Sua vida

é caracterizada por uma sucessão de fugas e de retornos ao mundo.

Gregório nasceu em Arianzo, perto de Nazianzo, onde seu pai se

tornou bispo mais tarde. Sua mãe, Nona, era filha de pais cristãos e foi

responsável pela conversão do seu marido

e pela formação religiosa inicial do seu fi­

Com relação à filosofia, lho, como aprendemos com o tributo de

Gregório de Nazianzo disse: Gregório às suas muitas habilidades.

“Evite os eçpinhos; arranque Gregório estudou em Cesareia na Ca-

as rosas” (Carta a. Seleuco padócia, Cesareia na Palestina, Alexan­

1.61), e sobre sua relação dria e Atenas. Depois de seus estudos, ele

com a fé: “Porque a fé, de retornou para a Capadócia e foi batizado.

acordo conosco, dá plenitude Ele se juntou a Basílio em seu retiro em

à razão” {Orações 29.21). 358—359, onde juntos trabalharam na

--------------------------------------- Philocalia, trechos dos escritos de Oríge-

nes (preservando o grego de muitas pas­

sagens conhecidas apenas a partir da tradução latina), e nas regras

monásticas de Basílio.

Muito contra sua vontade, o pai de Gregório ordenou-o presbí­

tero em 361. Em 371, Basílio o ordenou bispo da pequena cidade de

Sásima, como parte de seu programa de nomear adeptos em toda a

província, a fim de reforçar sua influência eclesiástica, mas Gregório

nunca obteve a posse da sé. Em 374, ele assumiu a sé de Nazianzo,

mas, um ano mais tarde, ele se retirou para a região de Isáuria. Um

chamado veio em 379 para tornar-se pregador em uma pequena con­

gregação ortodoxa em Constantinopla.

No Concilio de Constantinopla, em 381, Gregório foi nomeado

bispo da capital, mas ele renunciou durante o concilio por causa da


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