HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 103
A filosofia grega fornece outro grande componente do gnosticis-
mo. Influências neopitagóricas podem ser vistas na avaliação negativa
da matéria, nas práticas ascéticas e nas especulações sobre o cosmo.
Alguns falam do gnosticismo como um “platonismo desvairado” por
causa das declarações em Platão desenvolvidas p or gnósticos: um ser
supremo remoto e a alma como algo imortal e sujeita ao corpo. Ana
logias pagãs também podem ser encontradas na literatura hermética
e nos Oráculos caldeus.
Muitas idéias no Novo Testamento, especialmente em Paulo e
João, demonstraram ser suscetíveis à interpretação gnóstica, de modo
que alguns estudiosos modernos acreditam que tais autores do Novo
Testamento empregaram o pensamento gnóstico na elaboração das
próprias idéias.
Embora tenhamos dado continuidade à prática comum de falar
do gnosticismo como se ele fosse uma entidade única, esse estava longe
de ser o caso. Cada mestre gnóstico tomava esses componentes e unia-
-o$ de acordo com seu modo de pensar, a fim de construir seu próprio
sistema. Por esse motivo, há uma grande variedade nos detalhes dos
sistemas concebidos por diferentes mestres gnósticos. O gnosticismo
era um agregado de uma série de respostas individualistas à situação
religiosa feito por mestres que não se consideravam excêntricos.
D. Características comuns dos mitos gnósticos
Cada mestre gnóstico tinha seu próprio sistema de pensamento
para representar a realidade. O que mantinha cada comunidade gnós
tica unida era o mito das origens, o senso de identidade de grupo e o
linguajar dos membros.
As principais características dos diversos mitos eram as seguin
tes: (1) o elemento divino original produziu outros princípios espiri
tuais; (2) houve uma “falha” no m undo divino, espiritual; (3) como
consequência, a matéria passou a existir; (4) parte da natureza espiri
tual pura foi plantada em (algumas) almas; (5) um “rem idor” revelou
a forma de escape do m undo material para o elemento divino; (6) a
alma passa pelos domínios dos governantes mundiais em seu retorno
ao lar espiritual.
104 HISTÓRIA DA IGREJA
A tentativa gnóstica de explicar o problema do mal postulava
uma queda no m undo divino, na divindade. Esse esforço para “elevar”
o problema do mal foi uma solução notável - mas, em última análise,
insatisfatória - para uma das difíceis questões filosóficas humanas.
A forma de lidar com essa questão era uma expressão do uso gnós-
tico, especialmente valentiniano, do conceito - em parte poético e
em parte filosófico - de “correspondência metafísica”. Ao aplicar a
ideia platônica das realidades terrenas como imitações do m undo das
idéias, os gnósticos consideraram os componentes do pleroma equi
valentes à totalidade da natureza espiritual da humanidade. H á uma
contraparte celeste da alma. Assim sendo, as narrativas do evangelho
eram lidas como reflexos do drama ocorrido no m undo celestial.
Portanto, apesar do dualismo, “a gnose do gnosticismo envolve
a identidade divina do conhecedor (o gnóstico), o conhecido (a subs
tância divina do eu transcendente) e [os] meios pelos quais se conhece
(gnose como faculdade divina implícita a ser despertada e atualiza-
, da)” (Bianchi).
E. Principais m estres
O escritores anti-heréticos da Igreja primitiva traçavam o “gnos
ticismo” a Simão Mago, “o pai de todas as heresias”. Essa genealogia
da heresia nos Pais da Igreja parece artificial, sendo influenciada por
diversas listas de sucessão empregadas na antiguidade, e o relato em
Atos 8 não sugere que Simão tenha transmitido qualquer ensino par
ticularmente “gnóstico”.
As possibilidades são: uma confusão entre o Simão de Atos 8
e outro Simão, um gnóstico; Atos 8 não contar toda a história; ou
Simão estar ainda se transformando em gnóstico, e seus seguidores
terem se tornado gnósticos depois.
De qualquer forma, a atribuição do gnosticismo a Simão pode
apontar para uma origem samaritana, à qual agora alguns se atentam.
O ensinamento posteriormente atribuído a Simão apresenta de fato
características dos sistemas gnósticos, incluindo uma queda da divin
dade e a descensão de um poder celestial (o próprio Simão) para tra
zer salvação.
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 105
ALGUNS M ESTRES CONSIDERADOS HEREGES
Nome Data Local
Sim ão Mago Prim eiro século Sam aria e Rom a
M enandro Fim do prim eiro século Sam aria e Antioquia
C e rin to Fim do prim eiro século Á sia M enor
S a tu rn in o Início do segundo século A n tio q u ia
Carpócrates Início do segundo século A le x a n d ria
B asílides Início do segundo século A le x a n d ria
V a le n tin o Segundo século A lexandria e Rom a
Ptolom eu Segundo século Rom a?
Teódoto Segundo século A lexandria?
H eraclião Segundo século Itália?
Há relatos aparentemente contraditórios sobre o ensinamento
de Cerinto, o qual, segundo consta, enfrentou oposição do apóstolo
João em Éfeso. O relato mais antigo existente (Irineu) situa Cerinto
no âmbito gnóstico: um Poder inferior, e não o Deus supremo, te-
ria feito o mundo; Jesus foi um filho de José e Maria que excedeu os
demais em justiça e sabedoria; o Cristo divino desceu sobre Ele em
forma de pomba no batismo e partiu antes da crucificação, permane
cendo, assim, um ser espiritual impassível.
Um relato ligeiramente posterior menciona Cerinto como um
mestre de milenarismo judaico e atribui-lhe o livro de Apocalipse.
Uma maneira de conciliar a aparente incongruência dessas imagens
de Cerinto é concluindo que ele antecipou Marcião ao dizer que a
expectativa judaica de um reino messiânico na terra era uma leitura
correta das profecias do Antigo Testamento, mas que Cristo revelou
o Pai desconhecido e uma salvação espiritual.
Irineu traçou um linha desde Simão, passando por Menandro,
Saturnino e Basílides. A Saturnino, ele atribuiu um resumo com
pacto que corresponde aos elementos principais do m ito gnóstico
básico: o Pai desconhecido fez os diversos níveis de seres angélicos;
sete deles criaram o m undo e o primeiro homem, sendo o Deus dos
106 HISTÓRIA DA IGREJA
judeus um desses anjos. O Cristo, que é incorpóreo, mostrou-se ape
nas para depor o Deus dos judeus e salvar os seres humanos bons. Os
seguidores do movimento renunciavam o casamento e a procriação,
além de serem vegetarianos.
Carpócrates também afirmava que o m undo foi feito por anjos,
os quais eram m uito inferiores ao Pai eterno. Jesus nasceu de José da
mesma forma como os outros homens, mas, por causa da pureza de
Sua alma, recebeu poder do alto e, desse modo, pôde escapar dos go
vernantes mundiais. As almas semelhantes à de Jesus também rece
bem poder para escapar dos governantes mundiais e podem tornar-se
mais fortes do que os discípulos ou do que o próprio Jesus.
Os seguidores de Carpócrates denominavam-se “gnósticos”, mas
apresentavam características diferentes de outros indivíduos conhe
cidos como gnósticos. Eles ensinavam a reencarnação e, em contraste
com o ascetismo no que tange à sexualidade (característico de outros
gnósticos), eram libertinos e envolviam-se em imoralidade sexual. O
, filho de Carpócrates, Epifânio, defendia a promiscuidade com base
em uma “lei da natureza” que tornava todas as coisas propriedade
comum.
Basílides tinha uma cosmologia m uito mais elaborada em com
paração com outros mestres que procuravam unir o cristianismo a
especulações gnósticas. O Pai não gerado (ou “o Deus não existente”,
isto é, o Deus que está além da existência, em outra versão) gerou
diversas qualidades espirituais e, a partir delas, produziu “poderes,
principados e anjos”, um conjunto de cada para todos os 365 céus.
Entre os seres celestiais, havia um arconte que era Deus dos judeus.
O Pai não gerado enviou Sua Mente primogênita (ou Intelecto)
para libertar aqueles que cressem nele do poder dos seres criadores
do mundo. Esse emissário corresponde a Jesus, que realizou mila
gres, mas não sofreu. Simão de Cirene, que carregou a cruz de Jesus,
foi crucificado em seu lugar inadvertidamente; enquanto isso, Jesus,
tom ando a aparência de Simão e rindo, ascendeu de forma invisível
para o Pai que o enviara. A salvação pertence somente à alma; não
ao corpo. Em épocas de perseguição, Seus seguidores estavam pron
tos para negar que eram cristãos porque, assim como os anjos, não
sofriam.
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 107
Daqueles que os Pais da Igreja chamavam de “gnósticos”, de
longe, o mestre mais influente foi o gênio religioso Valentino, um
reformador cristão da teologia gnóstica. Valentino foi educado em
Alexandria e, após lecionar ali, foi para Roma, onde era ativo na igre
ja. Supostamente com a esperança frustrada por não ter sido eleito
bispo e enfrentando grande oposição ao seu ensinamento, acabou
saindo de cena.
H á pouquíssimo material cuja autoria é seguramente de Valen
tino, mas sugere-se que o Evangelho da verdade, encontrado em Nag
Hammadi, seja um sermão dele. Valentino era mais explicitamente
“cristão” do que seus antecessores gnósticos, mas também se apro
priou de forma mais completa da linguagem de Platão.
Além disso, o misticismo de Valentino modificou o misticismo
gnóstico pela compreensão de que a salvação vem por meio da gno-
se, o conhecimento (ou a familiaridade experiencial) do salvador, do
eu e de Deus. Seu mito das origens começa não com uma mônada
original (a entidade única e máxima), mas com um par de princípios
iniciais: o inefável (a profundidade) e o silêncio. Fazendo uso de lin
guagem agrícola, Valentino diz que eles produziram outras dualida
des para constituir a primeira ogdóada (“oito”), da qual derivaram
outros 22 poderes, totalizando 30 éons no pleroma (plenitude [do
universo espiritual]).
Um desses éons (chamado Sophia, palavra grega para sabedoria,
presente em outras versões do mito) revoltou-se, gerando Cristo e
uma sombra (matéria). Cristo retornou ao pleroma, e a “mãe” rebelde
enviou o Demiurgo (o criador). Jesus era uma emanação do Cristo ou
de outros éons do pleroma. Entidades terrenas, como a humanidade e
a Igreja, eram vistas, portanto, como reflexos de realidades espirituais.
Segundo consta, os seguidores de Valentino teriam se ramificado
em duas escolas: uma ocidental (por exemplo, Heraclião e Ptolomeu)
e uma oriental (por exemplo, Teódoto e Bar Daisan, ou Bardesanes).
As contribuições originais deles à interpretação bíblica testificam a
genialidade de Valentino como mestre. Heraclião escreveu possivel
mente o primeiro comentário sobre um livro do Novo Testamento,
o Evangelho de João, e Ptolomeu forneceu um método triplo para a
interpretação da lei do Antigo Testamento: uma parte sendo prove
108 HISTÓRIA DA IGREJA
niente do próprio Deus, outra de Moisés e outra dos anciãos. Os Pais
da Igreja fornecem relatos mais completos sobre os sucessores do que
sobre o próprio Valentino.
Muitas vezes, é difícil deduzir como um sistema intelectual se
aplica às realidades sociais em que ele opera, e esse é especialmente
o caso do gnosticismo. Por exemplo, a preeminência de elementos
femininos no pleroma dos gnósticos não parece ter necessariamente
se refletido na igualdade das mulheres em comunidades gnósticas.
No entanto, havia mulheres importantes que lecionavam em cer
tos círculos gnósticos, dentre elas, uma anônima da seita cainita, cujo
menosprezo pelo batismo na água fez com que Tertuliano redigisse a
obra Sobre o batismo, e Filomena, uma profetisa e mestra que influen
ciou Apeles, discípulo de Marcião.
Todavia, não parece haver qualquer constância de uma abertura
maior à liderança feminina entre as igrejas “hereges”, nem uma hosti
lidade constante contra as mulheres entre as igrejas “ortodoxas”.
F. Amostra de mito gnóstico sobre criação e
salvação
Duas elaborações amplificadas do sistema gnóstico básico sobre
viveram: uma da forma “setianista” de gnosticismo, escrita por um
seguidor e encontrada no Apócrifo de João (também conhecida por
Irineu em uma versão ligeiramente diferente); e a outra do valentia-
nismo, o sistema de Ptolomeu descrito em detalhes por Irineu.
Segundo o Apócrifo deJoão, o Primeiro Princípio, “o Pai de todas
as coisas”, preencheu o m undo divino com emanações por intermédio
do Segundo Princípio, “Barbelo”. O criador do m undo é um artífice
maligno, “Ialdabaoth”. A criação de Adão ocorre em duas etapas: pri
meiro, ele é feito apenas de alma; depois, é materialmente revestido.
O Apócrifo deJoão já é uma versão cristã do sistema gnóstico, pois
um dos seres espirituais é um “Cristo” preexistente, e o conteúdo da
obra é apresentado como uma revelação pós-ressurreição de Jesus. To
davia, o verdadeiro revelador é Barbelo.
A elaboração da versão valentiniana do sistema gnóstico, feita
por Ptolomeu, é mais explicitamente “cristã”, embora seja “hetero-
SISTEMA VALENTINIANO HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO
Segundo Irineu, Contra as heresias 1.1-5
Pleroma (composto por 30 éons)
Ogdóada
__________________ I__________________
Bythos (Propator) + Sige = Nous (Monogenes) + Alétheia = , Logos + Zo e , = , Antropos + Edésia,
Propator, por meio de Monogenes, criou Horas produziram produziram Duodécada (da qual o último
Década foi Sophia, tomada por paixão)
(também chamado Stauros, o poder sustentador e separador)
Monogenes produziu Cristo e o Espírito Santo,
os quais restabeleceram a ordem ao Pleroma
(Todos estes pares compostos por masculino e feminino são frutificações espirituais,
assim como a árvore na semente.)
Trinta é um número místico.
O Pleroma é englobado pelo Horas.
Todos se uniram para formar o ser perfeito: Jesus (Soter).
A paixão de Sophia (entímese ou "ideia inata") foi excluída do Pleroma e
chamada deAchamoth ("Segunda Sabedoria").
Cristo teve pena e deu-lhe forma; Soter, então, deu-lhe inteligência, de modo que
ela passou a ser uma hipóstase da matéria ideal.
Três tipos de existência foram formadas:
(da paixão) Material (da conversão) Animal (dela mesma) Espiritual
Demiurgo (da substância Animal) 109
(Pai e Rei de todas as coisas fora do Pleroma)
Criou sete céus
Criou os humanos (o corpo a partir da matéria, a alma animal a partir do Demiurgo
e a natureza espiritual a partir de Achamoth sem conhecimento do Demiurgo)
Quando toda a semente espiritual é aperfeiçoada, Achamoth entra no Pleroma e é integrada ao Soter.
110 HISTÓRIA DA IGREJA
doxa”, e procura fornecer explicações mais ordenadas à imagem do
mundo espiritual.
Existe uma duplicação que consiste de Cristos e Sabedorias supe
riores e inferiores. O Cristo superior é uma emanação do Intelecto e
tem o Espírito Santo como consorte; o Cristo inferior, ou Jesus, tam
bém chamado Salvador, é uma emanação de todos os éons e desceu
sobre o Jesus nascido de Maria. A Sabedoria superior, Sophia, era um
dos trinta éons; sua paixão por Profundidade (o Pai perfeito) gerou a
Sabedoria inferior, Achamoth, que, por sua vez, deu à luz o Demiurgo
(criador do mundo) e acabou tornando-se esposa de Jesus, o salvador.
Os seres humanos pertencem a três categorias: os materiais que
serão consumidos, os psíquicos ou cristãos comuns e os cristãos espi
rituais ou valentinianos. Os dois últimos recebem diferentes tipos de
salvação.
G. Erros doutrinários e a relevância do
gnosticismo
Ao contrário do costume contemporâneo de postular-se conside
rável variedade ao cristianismo primitivo (discutido mais adiante), as
reações de muitos cristãos do segundo século aos ensinamentos dis
cutidos neste capítulo mostram que algumas doutrinas fundamentais
eram comumente consideradas básicas à fé cristã.
Aqueles que vieram a prevalecer como cristãos ortodoxos con
cluíram que os gnósticos, incluindo os valentinianos, negavam algu
mas doutrinas fundamentais:
1. Identidade do Criador (a qual os gnósticos apresentavam
como uma figura inferior e, na melhor das hipóteses, moral
mente ambivalente) com o único Deus supremo.
2. Ordem criada do universo como algo bom (a maioria dos
gnósticos tratava a matéria como algo mau).
3. Plena encarnação de Cristo (embora houvesse variações na
maneira como o Cristo divino relacionava-se com o Jesus hu
mano).
4. Revelação em acontecimentos históricos (não em mitos espe
culativos e tradições secretas).
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 111
5. Redenção mediante o sangue da cruz (a cruz era tratada de
modo alegórico até mesmo no valentianismo).
6. Ressurreição do corpo (não apenas da alma).
Não se admira que os pioneiros no desenvolvimento da teolo
gia ortodoxa tenham rejeitado os ensinamentos associados à rejeição
dessas doutrinas.
A despeito do que seus oponentes identificavam como erros dou
trinários fundamentais, o pensamento gnóstico demonstrou ser atra
ente a muitos. Os cristãos gnósticos representavam um esforço para
interpretar a fé em termos da atmosfera filosófica e religiosa da época
e, assim, para lutar contra os problemas constatados na natureza do
mundo e na existência humana.
Por causa dessas preocupações, o valentianismo influenciou, de
modo especial, pensadores cristãos ortodoxos em Alexandria no de
senvolvimento de sua teologia. Aprendemos - às vezes, sem perceber
- , com os oponentes e a refutação de outras idéias, que nossos p ró
prios pensamentos são aprimorados ao absorver elementos dos pon
tos de vista rejeitados.
O gnosticismo, além do mais, demonstrava preocupação com a
salvação. Embora o meio para alcançá-la fosse pelo conhecimento, o
gnosticismo como religião de redenção testificava a necessidade de
as almas humanas terem algo além deste mundo para satisfazer seus
anseios.
H. Lições da luta contra o gnosticism o
Embora a cultura e a filosofia sempre moldem as expressões do
cristianismo em certa medida, o gnosticismo ilustra o perigo de se
perm itir que um sistema de pensamento “externo” seja determinante
na tessitura do cristianismo.
O risco é aquele que existe na tentativa de relacionar a fé cristã à
qualquer cultura em que se esteja inserido, mas os resultados de uma
apropriação tão extrema alertam que não se deve passar da comunica
ção à aceitação. A ameaça do gnosticismo pode não ter sido tão dire
cionada aos sistemas de crença ortodoxos, mas, sim, à sua identidade
(por motivo de assimilação).
112 HISTÓRIA DA IGREJA
H á uma lição relacionada, que tem a ver com o emprego das pa
lavras. É possível dizer as palavras corretas, mas ter idéias erradas. Os
gnósticos foram capazes de utilizar as Escrituras cristãs e conformar-
-se ao credo cristão por atribuírem a essas palavras um significado di
ferente.
Além disso, o gnosticismo pode servir como uma advertência
contra o orgulho intelectual. É possível que os pensadores gnósticos
tenham sido humildes como indivíduos, mas a abordagem gnóstica
propriamente dita criou diferentes classes que situavam os detentores
do “verdadeiro discernimento” em um grupo especial e superior ao
cristãos comuns. O elitismo intelectual é um perigo sempre para os
“conhecedores”.
A controvérsia gnóstica demonstra a importância das institui
ções. Em um sentido amplo, pode-se dizer que os gnósticos tiveram
uma “igreja”, mas eles se aproximaram mais de uma organização social
escolar no sentido de que os seguidores davam continuidade aos ensi-
napientos e às práticas dos mestres. O cristianismo, entretanto, criou
laços organizacionais mais fortes que uniam os membros.
Apesar de todas as falhas ao longo da história, a “Igreja institu
cional” preservou a fé cristã, e o mesmo se deu em relação a todos os
mestres e ensinamentos remanescentes. A menos que uma instituição
incorpore e perpetue determinada ideia, a ideia fracassará.
A verificação de tal realidade no segundo século, entretanto, não
deve ser feita sem um espírito crítico. O reconhecimento de que a
doutrina ortodoxa foi preservada na Igreja hierárquica deve ser equi
librado pelo reconhecimento de que os “hereges”, muitas vezes, pre
servavam mais percepções bíblicas sobre a liberdade e o ministério da
Igreja.
III. MONTANISMO
O marcianismo e o gnosticismo tornaram-se as heresias arquetí-
picas ao cristianismo ortodoxo. De modo semelhante, o montanismo
- movimento primitivo com características sectárias - foi forçado
ao cisma após um período de atividade dentro da Igreja maior. N e
nhuma discrepância doutrinária fundamental estava envolvida, mas
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 113
divergências na prática e em questões disciplinares acabaram gerando
perturbações demais para a existência de uma única congregação.
O termo montanismo vem de M ontano, o qual, junto com duas
mulheres - Priscila e Maximila deu início a um movimento pro
fético na Frigia nos anos 150 ou 170. Os adeptos do movimento de
nominavam-no “Nova profecia”; já os oponentes chamavam-no de
“Heresia frigia” (ou Catafrígia).
O movimento alastrou-se da Ásia M enor até Roma e o norte
da África. Os críticos objetaram que a profecia montanista envolvia
algum tipo de possessão e discursos tomados por êxtases frenéticos
(diferentemente dos profetas bíblicos, os quais mantinham pleno d o
mínio de seu entendimento).
Para os montanistas, as profecias e os dons espirituais eram a
marca do cristianismo apostólico. Segundo o movimento, o Paracle-
to prom etido (Espírito Santo) do Evangelho de João falava por inter
médio deles, e oponentes posteriores citaram M ontano, alegando ser
o próprio Paracleto.
Diferenças na prática e nos graus de ênfase logo surgiram entre
os montanistas e a corrente predominante da Igreja. O adepto mais
conhecido, Tertuliano, foi atraído ao rigor do movimento e ajudou
a desenvolvê-lo. Ele incluía a observância de jejuns mais rigorosos, a
proibição do segundo casamento - mesmo após a morte do cônjuge
- e a condenação da fuga como escape ao martírio.
Não parece necessariamente ter sido o caso de os montanistas
serem mais ávidos do que os demais cristãos para o voluntariado ao
martírio. Estudiosos modernos atribuíram aos montanistas expec
tativas escatológicas intensas centradas em Pepuza, um povoado da
Frigia que chamavam de “Jerusalém”. N o entanto, uma interpretação
escatológica de Pepuza aparenta ser um desenvolvimento posterior, e
não há confirmação de uma expectativa especificamente milenar no
montanismo primitivo.
Além da preeminência das mulheres no início desse movimento
profético, elas continuaram sendo importantes em seu desenvolvi
mento posterior (é possível que tenha havido uma profetisa chamada
Quintila) e ocupavam cargos eclesiásticos que lhes eram proibidos
pelos ortodoxos.
114 HISTÓRIA DA IGREJA
A controvérsia quanto à profecia envolvia a questão da autorida
de na Igreja: quem a detém e como deve ser exercida. Os montanistas
aparentemente não se opunham à organização da Igreja, limitando-se
a reivindicar um espaço para os dons espirituais. Contudo, a resposta
da Igreja situou o conflito em termos de organização e ministério. Ao
que parece, o recurso à autoridade do Espírito Santo foi combatido
na Igreja em três episódios.
1. Os primeiros sínodos de bispos registrados foram realizados
na Ásia Menor, a fim de se considerar as atitudes adequadas
em relação aos montanistas. Essas reuniões eram comparáveis
aos conselhos civis (koinon), que reuniam os líderes do culto
imperial nas cidades de determinada província com o objetivo
de discutir questões de interesse comum. Esses encontros de
bispos, com vistas a debater a atividade do Espírito Santo, es
tabeleceram as bases na prática atual da Igreja para a teoria de
que o Espírito Santo opera por meio de conselhos.
2. A fonte da autoridade nas Escrituras era enfatizada. Argu-
mentava-se que a profecia montanista não era a verdadeira
profecia, segundo os padrões bíblicos, por ser extática.
3. Os bispos alegavam ser os verdadeiros líderes espirituais da
Igreja e possuir o Espírito Santo em razão de seu cargo. Uma
vez que reivindicavam a autoridade apostólica e doutrinária
na Igreja em oposição aos mestres gnósticos, eles se contrapu
nham ao apelo montanista feito aos profetas com sua própria
posse do Espírito. Desse modo, a tríade primitiva de apósto
los, profetas e mestres passou a ser centralizada nos bispos.
O montanismo pode ser entendido como um protesto contra o
mundanismo e a formalidade crescentes na Igreja. Ele ganhou muitos
adeptos insatisfeitos com o “elitismo” gnóstico e com a conformação,
cada vez maior, da Igreja ao mundo. O movimento tinha diversas ca
racterísticas atraentes: apresentava-se como um retorno ao cristianis
mo primitivo, era uma religião de exuberância emocional e estruturas
organizacionais menos rígidas e oferecia uma revelação direta quanto
àquilo que parecia ser uma forma de vida mais comprometida.
Os próprios excessos do montanismo, entretanto, trouxeram-lhe
descrédito. Não raro, os movimentos reativos oscilam para um opos
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 115
to extremo, e seus oponentes acabam confirmando as práticas comba
tidas com ainda mais firmeza. Por quê ? Por concluírem que, uma vez
que os indivíduos tentando fazer correções estão claramente errados,
então aquilo a que estão se opondo deve estar correto.
IV. ENCRATISMO
Encratismo [gr. egkrateia] ( ter sob o poder”, “autocontrole”)
era uma das palavras utilizadas para “ascetismo” [gr. askêsis] (“disci
plina atlética ) e, com sentido positivo, esteve presente no cristianis
mo desde o início.
Algumas práticas ascéticas, entretanto, eram consideradas exces
sivas: a rejeição ao vinho, a ingestão de carne e ao casamento. Q uan
do aceitas pelos ortodoxos, elas eram criticadas devido à prática de
outros, com o argumento de terem as motivações erradas, isto é, de
derivarem não da precedência de algo bom a serviço de um objetivo
mais elevado ou espiritual (o que era aprovado), mas por considera
rem o mundo criado como algo mau (o que era herético, como no
gnosticismo).
O encratitas —sem aceitar as opiniões gnósticas sobre a origem
do m undo e considerando a matéria como algo necessariamente mau
—ainda consideravam certas praticas, em especial a reprodução h u
mana, como negativas e equivalentes a obstáculos para uma vida mais
elevada. O utro fator que influenciava o com portam ento ascético era
a associação de certos alimentos animais e vinho a sacrifícios pagãos.
Por essa razão, os ascetas abstinham-se de alimentos de origem ani
mal e substituíam o vinho por água na santa ceia.
A popularidade do estilo de vida ascético como representação de
uma forma superior de espiritualidade reflete uma atmosfera desespe-
radora no segundo e terceiro séculos em círculos pagãos e cristãos. Ao
identificar-se com esse sentimento dominante, o encratismo absorveu
a espiritualidade do m undo ao redor à sua expressão do cristianismo,
atraindo muitos seguidores. A tendência encratita é notável nos atos
apocrifos dos apostolos e, segundo alguns estudiosos, caracteriza da
melhor forma o ponto de vista do Evangelho de Tomé.
A literatura anti-heretica associa um encratismo herético espe
cialmente ao apologista Taciano. Ao que tudo indica, após a morte de
116 HISTÓRIA DA IGREJA
seu mestre, Justino, ele retornou ao oriente e tornou-se um defensor
das idéias encratitas, condenando o matrimônio e a ingestão de carne.
Os escritores anti-heréticos consideravam particularmente condená
vel a conclusão dele de que Adão não foi salvo.
A despeito de algumas semelhanças observadas por Irineu e ou
tros, Taciano não deve ser considerado um valentiniano: o oriente
sírio não o tratava como herege. Ele tampouco fundou o encratismo,
como Irineu alegou; em vez disso, ao associar-se a essa tendência geral
da Igreja siríaca, passou a ser um de seus principais porta-vozes.
V. A HERESIA PRECEDEU A ORTODOXIA?
O estudo moderno da história primitiva do cristianismo salienta
a variedade de crenças e práticas presentes nos primeiros séculos, até
mesmo nos círculos que seriam, mais tarde, considerados ortodoxos.
O estabelecimento da “ortodoxia” é visto como a realização dos
bispos e Pais da Igreja ativos em torno do ano 200, que tinham co
m unhão com a Igreja em Roma. As características dessa ortodoxia e
os indivíduos importantes segundo seus padrões serão analisados nos
próximos dois capítulos. Se a ortodoxia é definida em termos institu
cionais e declarações fixas de crença, então a alegação do estabeleci
mento tardio da ortodoxia pode ser sustentada.
A variedade certamente esteve presente desde o início (como
o próprio Novo Testamento demonstra por meio daquilo a que se
opõe, se é que não o faz de outras maneiras) e continuou existindo
após a formulação de padrões objetivos de ortodoxia.
Por outro lado, os líderes da Igreja que se opunham aos movi
mentos discutidos anteriormente não se consideravam inovadores,
mas defensores de ensinamentos transmitidos pelos apóstolos e seus
companheiros. Havia padrões de crença e práticas comuns na doutri
na apostólica inicial.
Nesse sentido, uma “ortodoxia” e alguns padrões daquilo que
constituía a “ortodoxia” estavam presentes antes das posições que
passaram a ser consideradas heréticas ou cismáticas, mesmo que os
movimentos defensores desses ensinamentos se baseassem em ma
teriais anteriores ao cristianismo. Havia uma mensagem bem como
HERESIAS E CISMAS NO SEGUNDO SÉCULO 117
normas de conduta herdadas, que possibilitavam a identificação de
outros ensinamentos como divergentes e que podiam ser sistematiza
dos em normas, discutidas no próximo capítulo.
Problemas com divergências doutrinárias e tendências cismáticas
afligiram a Igreja cristã desde o início. Com o a fé e a prática verda
deiras podem ser discernidas e defendidas ?A Igreja primitiva adotou
estratégias que, com diferentes graus de eficácia, continuaram sendo
empregadas nos séculos subsequentes. A elas agora voltaremos nossa
atenção.
LEITURA COMPLEMENTAR
BRAKKE, David. The Gnostics: Myth, Ritual, and Diversity in
Early Christianity. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2010.
M ARK SCH IES, Christoph. Gnosis: An Introduction. Edin-
burgh: T & T Clark, 2003.
N O C K , A rthur Darby. “Gnosticism.” H arvard Iheological Re-
view 57,1964, p. 255-279. Reimpressão: SC H O LE R , David. Gnos
ticism in the Early Church. Studies in Early Christianity. 5. ed. Edi
tado por Everett Ferguson. Nova Iorque: Garland, 1993. p. 1-25.
(Veja outros artigos desta coleção.)
PEARSON, Birger A. A ncient Gnosticism. Minneapolis: For-
tress, 2007.
TABBERNEE, William. Prophets and Gravestones: An Imagi-
native History o f Montanists and O ther Early Cbristians. Peabody,
MA: Hendrickson, 2009.
W ILLIAM S, Michael A. R ethinking “G n o stic ism An Argu-
ment for Dismantling a Dubious Category. Princeton, NJ: Princeton
University Press, 1996.
Defesa contra
interpretações rivais
No segundo século, ocorreram desenvolvimentos que, desde en
tão, foram formativos para a maioria das igrejas cristãs. Eles acontece
ram em seu processo de definição defronte das interpretações diver
sas da mensagem cristã discutidas no capítulo anterior.
O problema entre a grande Igreja, como Celso já a chamava na
segunda metade do segundo século, e seus rivais - marcionitas, gnós-
ticos, montanistas, alguns judeus cristãos e encratitas - era a pergun
ta: “O que é fé e prática apostólica?”. O cristianismo autêntico tinha a
ver com a questão das origens. Os apóstolos e os primeiros discípulos
de Jesus Cristo eram universalmente reconhecidos como fontes auto
rizadas da mensagem cristã genuína.
A Igreja do segundo século desenvolveu uma defesa tríplice “da
quilo que é apostólico”. A ordem lógica de pensamento era a seguin
te: na pergunta “O nde o ensinamento apostólico deve ser encontra
do?”, a Igreja apontava para as Escrituras. N a pergunta “Com o estas
Escrituras devem ser interpretadas ?”, ela apontava para seu conteúdo
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 119
na regra da fe . Na ultima pergunta, "Qual é o canal p o r onde este
ensinamento foi preservado e onde ele pode ser encontrado agora?”, a
Igreja apontava para sua sucessão de bispos e presbíteros devidamente
nomeados.
De acordo com a ordem histórica em que cada um deles alcan
çou sua forma definitiva, a Igreja reivindicou um ministério apostó
lico (episcopado), uma fe apostólica (regra de fé e credo) e Escrituras
apostólicas (cânon). É na ordem histórica de surgimento que esses
três desenvolvimentos serão discutidos.
Todos os três tiveram raízes nas comunidades cristãs à parte dos
grandes conflitos do segundo século, mas todos foram influenciados
por esses conflitos e receberam definição mais precisa e maior ênfase
em resposta às questões suscitadas.
I. MONEPISCOPADO E SUCESSÃO APOSTÓLICA
Os últimos livros do Novo Testamento e alguns Pais Apostóli
cos fornecem evidência impressionante da vasta difusão geográfica de
uma ordem eclesiástica específica. Em cada igreja, a ordem envolvia
uma pluralidade de anciãos ou bispos (os termos eram empregados
com o mesmo sentido) auxiliados por diáconos:
1. Jerusalém e Judeia - Atos 11.30; 15.6; Tiago 5.14
2. Síria - D idaquê 15.1
3. Galácia - Atos 14.23
4. Ásia Menor - 1 Pedro 5.1-4
5. Éfeso - Atos 20.17,28; 1 Tim óteo 3.1-13
6. Filipos - Filipenses 1.1; Policarpo, Filipenses 6
7. C orinto - 1 Clemente 42.4; 44.3-6
8. Creta - T ito 1.5-7
9. Roma - 1 Clemente 42; 44; Hermas, Visão 3.5.1
Se aceitássemos o testemunho de escritores posteriores, Alexan
dria podería ser acrescentada à lista.
O surgimento de um único bispo no comando do presbitério
(monepiscopado) foi atestado pela primeira vez em Antioquia da Sí
ria e na Ásia M enor pelas cartas de Inácio. O bispo, conforme retrata
120 HISTÓRIA DA IGREJA
do nas cartas de Inácio, ainda era o bispo local de uma cidade (não um
bispo territorial), e nada é dito sobre sucessão apostólica ou alguma
função sacerdotal. Ele aparece em relação próxima com o restante do
clero - presbíteros e diáconos - que, juntam ente com ele, constitu
íam a liderança unificada da Igreja. Inácio preocupava-se com falsos
ensinamentos e assembléias cismáticas, então tentou opor-se à essas
influências, insistindo na obediência ao clero e no consentimento do
bispo para tudo.
O ministério tríplice da igreja local tornou-se o padrão geral em
meados do segundo século. O “presidente” da assembléia dominical
de Justino M ártir era provavelmente o “bispo”. A organização eclesi
ástica de Marcião (com um bispo) aparentemente copiou a organiza
ção da grande Igreja. Hegésipo e Irineu, no final do segundo século,
elaboraram listas de bispos em diversas cidades, uma indicação de
que as pessoas que se encaixavam na descrição de um único líder da
comunidade podiam ser identificadas algumas gerações antes. Dio-
,nísio, bispo de C orinto em torno de 170, faz referência aos bispos
das igrejas às quais escrevia e, às vezes, escrevia aos próprios bispos
(ao contrário de Clemente e Policarpo, que escreviam a igrejas, não
a bispos).
Alguns fatores envolvidos no surgimento de um único líder dos
presbitérios teriam incluído: a presidência da santa ceia, a adminis
tração dos fundos da igreja, a representação da igreja em correspon
dência e hospitalidade, e o ensino autorizado. A ordenação ainda não
era mencionada nas fontes; a limitação do direito de ordenação ao
bispo aparece pela primeira vez em Tradição Apostólica, presumivel
mente datada do início do terceiro século.
A posição fortalecida do bispo no fim do segundo século é de
monstrada no argumento de Irineu sobre a sucessão apostólica. Por
vezes, diz-se que Clemente de Roma foi a primeira testemunha da su
cessão apostólica, mas Clemente declara que a designação apostólica
dos cargos de bispo e diácono bem como a provisão desses cargos de
vem ser realizadas após a morte do titular. Essa é simplesmente uma
sucessão no cargo segundo um padrão estabelecido pelos apóstolos.
A “sucessão apostólica” torna-se algo mais notável por ocasião da
controvérsia de Irineu em relação aos gnósticos; ela se torna um forte
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 121
argumento a favor da fé ensinada nas igrejas. “Portanto, é necessário
A reivindicação de uma sucessão apostólica obedecer aos presbíteros
de mestres, no testemunho do próprio Iri- que estão na igreja, aqueles
neu, foi feita pela primeira vez por mestres
gnósticos. Eles certificavam seu ensinamento que, conforme mostrei,
com base em uma alegação de o terem rece receberam a sucessão dos
bido de uma sucessão iniciada em discípulos apóstolos; aqueles que,
dos apóstolos. juntamente com a sucessão
Com base na lista de Hegésipo, com do episcopado, receberam
posta por bispos de várias cidades, Irineu o dom da verdade segundo
formulou a declaração ortodoxa. Para ele, a a boa vontade do Pai.
sucessão apostólica era um argumento, não É necessário, porém,
um artigo de fé; porém, muitas vezes, argu suspeitar dos outros que
mentos bem-sucedidos tornam-se parte da se afastam da sucessão
posição que apoiam, deixando de ser um primitiva e reúnem-se em
mero argumento a favor da posição. outros lugares” (Irineu,
A posição que Irineu estava sustentando Contra as heresias 4.26.2).
era a de que a fé apostólica era preservada nas
igrejas pela sucessão pública de bispos e pres
bíteros (ele incluiu presbíteros na sucessão) desde os apóstolos, não
nas sequências dos mestres gnósticos.
O argumento de Irineu - todos os bispos em todas as igrejas en
sinavam a mesma doutrina - tomou a seguinte forma:
1. A estabilidade ou a uniformidade do ensinamento era garan
tida por sua publicidade. A mesma doutrina era ouvida de do
mingo a domingo na igreja. Na transmissão secreta, existe a
possibilidade de comunicação falha ou alteração deliberada,
mas, no ensinamento público, um número muito grande de
pessoas ouve a mesma coisa, para que mudanças significativas
passem despercebidas.
2. A exatidão da doutrina era confirmada pela conformidade
entre os ensinamentos ministrados em núcleos diferentes. O
fato de o mesmo ensinamento ser apresentado tanto em Roma
como em Filipos, Esmirna, Éfeso e outras cidades demonstra
va a origem comum da mesma mensagem apostólica.
122 HISTÓRIA DA IGREJA
3. Além disso, Irineu alegou que, se os apóstolos tivessem algum
segredo, eles o teriam compartilhado a homens em quem ti
vessem confiança o suficiente para entregar o cuidado das
igrejas, como bispos e presbíteros.
“A regra da fé em que se O mundo helênico teve suas sucessões
crê: há um só Deus, e só de mestres nas escolas filosóficas; os judeus
Ele é o criador do mundo, tiveram listas de sucessão de rabinos e sumo
o qual, por meio de Sua sacerdotes em Jerusalém. Nesse contexto de
Palavra no início, trouxe interesse por listas de sucessão, os montanis-
o universo à existência do tas sustentaram uma sucessão de profetas, e
nada. Essa Palavra chamou os gnósticos, uma sucessão de mestres.
Seu Filho, (...) que foi
trazido à virgem Maria Em resposta a esses últimos, Irineu tinha
(...), foi feito carne em seu uma sucessão coletiva (presbíteros das igre
ventre e nasceu como Jesus jas) bem como individual (bispos) e enfati
Cristo. Depois, proclamou zava uma sucessão de fé e vida em vez de uma
uma nova lei e uma nova transmissão de carismas especiais.
promessa do Reino dos
Céus, realizou milagres, Cada responsável pelo ensino recebia
a verdade como um dom de seu antecessor,
foi pregado na cruz, mas não o dom que garantia a verdade do
ressuscitou ao terceiro dia, que ensinava. A verdadeira sucessão exigia
vida santa e sã doutrina (Contra as heresias
foi levado ao céu para se 4.26.5); apenas estar na sucessão não basta
assentar à destra do Pai va, embora apontasse para os hereges que se
e enviou, em Seu lugar, o desviavam.
poder do Espírito Santo
para guiar os crentes. Por Em contraste com o que a sucessão apos
fim, virá novamente em tólica se tornou mais tarde, para Irineu, ela
glória para levar os santos era transmitida de quem ocupava o cargo do
ao gozo da vida eterna” ensino ao próximo, não do ordenador ao or
denado.
(Tertuliano,
Prescrição contra Tertuliano, com perspicácia e exagero
característicos, levou mais adiante o argu
os hereges 13). mento de Irineu. Ao passo que Irineu deixou
que a igreja em Roma apoiasse seu argumen
to, Tertuliano recorreu a outras igrejas de
base apostólica além de Roma. Ele mencio
na apenas o bispo, não presbíteros. Com um
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 123
sarcasmo brilhante, contrastando a uniformidade do ensinamento
nas igrejas com a variedade dos diferentes grupos hereges, ele ques
tionou como todas as igrejas, se não mantivessem uma única fé apos
tólica, poderíam ter acidentalmente incidido no mesmo “erro”.
Em Hipólito (início do terceiro século), encontramos, aparen
temente pela primeira vez, a ideia de que os bispos não apenas estão
na sucessão dos apostolos, mas também são, eles mesmos, “sucessores
dos apóstolos”.
Isso se torna evidente em uma passagem de Cipriano (meados do
terceiro século), para quem o bispo era um bispo em toda a igreja, não
apenas o bispo de sua própria comunidade. O episcopado era uma
única propriedade que governava a igreja, uma propriedade compar
tilhada por todos os bispos (capítulo 9). A identidade do episcopado
e do apostolado tornou-se a regra no quarto século.
II. REGRA DE FÉ E CREDO APOSTÓLICO
O ensinamento correto transmitido nas igrejas pelos bispos e
presbíteros era resumido, para Irineu, pela “regra da fé” ou, em suas
palavras, era o cânon da verdade”. Para ele, o cânon da verdade re
presentava o enredo das Escrituras, o desenrolar das disposições ou
dispensações no plano salvífico de Deus.
Os antigos investigadores da história do desenvolvimento dos
credos, muitas vezes, obscureciam as coisas confundindo regra de fé
com credo. O conteúdo dos dois está relacionado, mas tinham dife
rentes funções, as quais explicam a variedade de expressões emprega
das em referencia as regras de fé e a relativa imobilidade de expressão
no Credo Apostólico.
A regra de fé era um resumo da mensagem apostólica que expres
sava o conteúdo legítimo das Escrituras, não um corpo separado da
doutrina. Em termos de conteúdo, ela era mais ou menos semelhante
ao querigma, como agora se utiliza nos estudos do Novo Testamen
to como resumo da pregação apostólica. O credo, em contrapartida,
era a fé confessada pelos convertidos à pregação apostólica, uma fé
confessada especialmente como parte da cerimônia batismal. A fé
pregada (regra de fé ou cânon de verdade) também era a fé crida e
confessada (Credo Apostólico).
124 HISTÓRIA DA IGREJA
As declarações da primeira serviam a muitas situações, e, assim,
suas expressões eram flexíveis conforme o propósito do autor, ao pas
so que as declarações do segundo ocorriam principalmente em con
textos litúrgicos específicos e, em pouco tempo, estabilizaram-se em
uma expressão relativamente definida.
As declarações da regra da fé concentram-se nos atos históricos
da obra salvífica de Deus em Jesus Cristo: nascimento virginal, minis
tério, morte, ressurreição e segunda vinda em juízo. Em um contexto
anti-herético, esses resumos costumam receber uma estrutura trinitá-
ria, relacionando a obra de Cristo a Deus Pai como Criador e ao Es
pírito Santo, que profetizou a vinda de Cristo e agora opera na Igreja.
A primeira confissão de fé a receber uma elaboração de credo foi a
confissão batismal da igreja em Roma, conhecida como Credo Apos
tólico ou Símbolo Apostólico. “Símbolo” significa sinal, emblema de
uma identidade ou marca de um pacto, e assim passou a ser quanto à fé.
Estudiosos haviam reconstruído, a partir de duas fontes do quar-
tQ século, o antigo Símbolo Romano - a confissão de fé batismal uti
lizada em Roma no terceiro século. A confissão de fé que Marcelo de
Ancira transmitiu à igreja em Roma (em grego) e o Comentário do
Credo Apostólico de Rufino (em latim) eram tão semelhantes que se
deduziu a existência de uma origem comum mais antiga (pelo menos
do terceiro século) em grego.
Depois, a descoberta de Tradição Apostólica, atribuída a Hipóli-
to, revelou o mesmo conteúdo em três perguntas feitas aos candida
tos ao batismo, uma antes de cada imersão. A principal diferença era
que, em Tradição apostólica, o credo é interrogativo. Perguntava-se ao
candidato: “Você crê (...)?”, e ele respondia a cada pergunta: “Creio”.
O antigo Símbolo Romano, conforme reconstruído a partir de Mar
celo e Rufino, era declarativo: a pessoa recitava o credo, e não apenas
respondia afirmativamente às perguntas.
Ao que tudo indica, H ipólito refletia a prática litúrgica de sua
época, isto é, uma confissão de fé interrogativa. As perguntas, então,
foram transformadas em declarações e tornaram-se a base da instru
ção de fé concedida aos novos convertidos. Na prática desenvolvida do
quarto século, elas se transformaram em declarações que os converti
dos tinham de memorizar e recitar como parte da preparação batismal.
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 125
A igreja romana parece ter sido pioneira na produção de uma fór
mula de credo cristalizada. O nome “Credo Apostólico” ou “Símbolo
Apostólico” foi dado porque o conteúdo era considerado um resumo
preciso da fé apostólica. Sob a influência de Roma, ele obteve ampla
aceitação no ocidente, mas parece não ter sido utilizado no oriente. Os
credos batismais orientais apresentavam mais variedades e costumavam
ser mais especulativos, além de conferir um cenário mais propício à fé.
Somente após o Concilio de Niceia, em 325, os credos deixa
ram de ser meras confissões de fé e passaram a servir como testes de
fraternidade.
Na época de Rufino, em torno de 400, acreditava-se que o Cre
do Apostólico era não apenas “apostólico” em conteúdo, mas tinha
sido realmente redigido pelos apóstolos como forma de assegurar
que todos transmitiríam a mesma mensagem quando se dispersassem
para pregar o evangelho. O credo acabou sendo dividido em 12 fra
ses, cada uma delas sendo contribuição de um dos apóstolos. A forma
atual do Credo Apostólico, ainda utilizada por muitas igrejas ociden
tais, recebeu sua formulação no oitavo século, mas as diferenças são
mínimas em relação à forma já conhecida no quarto século.
ANTIGO SÍMBOLO ROMANO
Creio em Deus Pai todo-poderoso;
EemJesus Cristo, Seu único Filho, nosso Senhor;
Que nasceu do Espírito Santo e da virgem Maria,
Que, sob o governo de Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado,
Ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos,
Ascendeu ao céu,
Está assentado à direita do Pai,
De onde virá julgar os vivos e os mortos;
Etambém no Espírito Santo,
Na santa Igreja,
No perdão dos pecados,
Na ressurreição da carne.
126 HISTÓRIA DA IGREJA
Parte da terminologia no Credo Apostólico provavelmente re
flete questões em desacordo com gnósticos e marcionitas. No en
tanto, as crenças declaradas já estavam presentes na doutrina cristã
antes dessas controvérsias. N o que diz respeito à(s) regra(s) de fé e ao
Credo Apostólico, a Igreja tom ou o que já estava em uso e conferiu
ênfase, formalidade e, no caso do Credo, invariabilidade. O mesmo
ocorreu em relação ao desenvolvimento do episcopado e à determina
ção dos limites do cânon.
III. CÂNON BÍBLICO
A Igreja com eçou com um cânon das Escrituras, isto é, ela
tom ou posse das Escrituras judaicas e reivindicou-as. Desde o iní
cio, entretanto, os cristãos colocaram Jesus no centro da fé; assim,
seguiam o Antigo Testamento e interpretavam-no com referência
a Ele.
O Evangelho de João reflete a situação inicial: [Os discípulos]
creram na Escritura e na palavra que Jesus tinha dito (2.22). O A n
tigo Testamento era seguido à luz da vinda de Jesus: Convinha que
se cumprisse tudo o que de m im estava escrito na L ei de Moisés, e nos
Profetas, e nos Salmos. Então, abriu-lhes o entendim ento para compre
enderem as Escrituras (Lc 24.44,45). As Escrituras eram lidas pelos
olhos da fé em Jesus: A s sagradas letras, quepodem fazer-te sábio para
a salvação, pela f é que há em Cristo Jesus (2 Tm 3.15). Ao Antigo
Testamento, então, os primeiros cristãos acrescentaram sua interpre
tação por interm édio de Jesus, as palavras proferidas por Ele e a sal
vação mediante a fé nele.
Marcião tinha, até onde sabemos, a primeira coleção definida de
livros do Novo Testamento, mas, em sua época, as cartas de Paulo
certamente estavam disponíveis em coleções e, m uito provavelmen
te, os quatro Evangelhos também. Ele não originou a ideia do cânon
dentro da Igreja, e a reação imediata desta foi considerar sua atitude
um estreitamento da mensagem apostólica que compunha sua base
(cf. Eusébio, H istória da Igreja 2.25).
A Igreja teria tido seu próprio cânon apesar de Marcião, mas é
possível que ele tenha acelerado o processo de reunir livros autoriza
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 127
dos; afinal, não haveria necessidade de pronunciamentos diante de
algo que não estava em discussão.
A. Canon do Antigo Testamento
N o nascimento do cristianismo, as principais linhas do cânon
judaico já estavam claramente definidas. Das três partes da Bíblia
Hebraica - Lei, Profetas e Escritos (correspondentes, em ordem di
ferente, aos 39 livros do Antigo Testamento protestante atual) - , os
limites das duas primeiras já estavam firmemente estabelecidos. As
evidências não possibilitam o mesmo grau de certeza quanto ao con
teúdo da terceira parte na época de Jesus. Embora se possa defender
a hipótese de que ela já estivesse bem definida, ainda havia dúvidas
entre os judeus em relação a alguns livros, como Ester, Eclesiastes e
Cantares de Salomão.
Além disso, alguns livros não inclusos no cânon eram altamente
respeitados por alguns: Sirâcida e Sabedoria de Salomão (os quais es
tavam entre os livros que alcançaram a posição de deuterocanônicos
entre os cristãos) e 1 Enoque (que teve aceitação mais limitada em
círculos cristãos, mas foi incluído no cânon da igreja etíope). Os cris
tãos receberam, juntam ente com sua herança judaica, não apenas as
Escrituras Hebraicas, mas também outros escritos considerados úteis.
Portanto, em manuscritos da tradução grega do Antigo Testamento
(Septuaginta) preservados por cristãos, frequentemente se encontra
va incluída uma variedade de livros não encontrados no cânon he
braico das Escrituras.
Não se chegou a um acordo quanto a quais desses livros adicio
nais deveríam ser considerados canônicos. Foi somente na época da
Reforma, quando os protestantes insistiram em limitar o Antigo
Testamento aos 39 livros aceitos pelos judeus, que a Igreja Católica
Romana promulgou uma determinação oficial de quais livros (os cha
mados “apócrifos” pelos protestantes, deuterocanônicos para os cató
licos) seriam incluídos no Antigo Testamento (Concilio de Trento,
1546). A Igreja O rtodoxa aceita, além dos livros reconhecidos pelos
católicos romanos, 1 Esdras, a Oração de Manassés, o Salmo 151 e 3
Macabeus como textos deuterocanônicos.
128 HISTÓRIA DA IGREJA
“Quando fui para o oriente Antigos estudiosos cristãos que pesqui
e cheguei ao local onde savam o assunto listaram os livros do Anti
go Testamento segundo o cânon judaico. O
essas coisas eram pregadas primeiro deles de que temos conhecimento
e praticadas, e aprendi foi Melitão de Sardes (cuja lista corresponde
ao cânon hebraico, exceto pela ausência de
com exatidão quais eram Ester) na segunda metade do segundo sécu
os livros da antiga aliança, lo. Mais tarde, Jerônimo defendeu o cânon
eu os registrei e agora os judaico e a exclusão dos livros apócrifos.
envio. Os nomes deles são:
Cinco livros de Moisés - Em contrapartida, houve quem defen
Gênesis, Êxodo, Números, desse um cânon mais amplo do que o en
Levítico, Deuteronômio contrado na Bíblia Hebraica. Dentre eles,
- , Josué, filho de Num, destacam-se Orígenes (até certa medida),
Juizes, Rute, quatro livros que reconhecia o cânon judaico, mas defen
dos Reinos, dois livros de dia adições encontradas no texto grego (em
Crônicas, Salmos de Davi, especial, de Daniel, a despeito das críticas
Provérbio\ s de Salomão de Júlio Africano), e, sobretudo, Agostinho,
- também [chamado de] cuja autoridade determinava a postura da
Sabedoria - , Eclesiastes, igreja latina, o qual estabeleceu a tradição que
Cantares, Jó, os livros dos culminou na decisão em Trento.
profetas - Isaías, Jeremias, A abordagem intermediária de Atanásio
os Doze em volume único, foi típica de muitos. Ele listou como “inclusos
Daniel, Ezequiel, Esdras” no cânon” os livros aceitos pelos judeus (salvo
(Melitão de Sardes, citado pelo fato de também omitir Ester), mas consi
em: Eusébio, História derou outros livros úteis para aqueles que “de
da Igreja 4.26.13,14). sejam ser instruídos na palavra da verdadeira
--------------------------- religião”: Sabedoria de Salomão, Sirácida, Es
ter, Judite e Tobias. Na prática, ele citava esses
livros, especialmente Sabedoria de Salomão, sem distinção dos canônicos.
A aceitação cristã da antiga visão expressa pelos judeus helenistas
(Carta de Aristeias, Fílon) de que a Septuaginta era uma tradução ins
pirada abriu caminho, para que os livros encontrados em manuscri
tos gregos do Antigo Testamento pudessem ser reconhecidos como
Escrituras.
A situação de muitos em relação ao Antigo Testamento era esta:
eles reconheciam a prioridade do cânon judaico e estavam em co-
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 129
mum acordo quanto a praticamente todos os livros dessa coletânea,
mas permitiam certa fluidez na definição dos limites exatos e no uso
de alguns outros livros em grego e suas traduções.
Obteve-se muito mais unanimidade, e em uma data muito ante
rior, com relação aos livros do Novo Testamento.
B. Canon do Novo Testamento
A determinação dos limites do cânon passou por quatro fases,
e a não distinção delas é a fonte de muita confusão nas iniciativas
de se registrar a história do cânon do Novo Testamento. A formação
do cânon passou por essas fases em momentos diferentes, em locais
diferentes e no pensamento de autores diferentes, mas as linhas de
desenvolvimento são claras.
1. Princípio das Escrituras
A primeira fase foi marcada pela transição da mensagem cristã da
forma oral à forma escrita. Esse processo foi gradual, e, durante um
longo período, as palavras de Jesus e o ensinamento dos apóstolos fo
ram preservados em forma tanto oral quanto escrita. A aceitação do
princípio das Escrituras foi o reconhecimento da autoridade escrita.
Em certo sentido, todas as demais fases estão implícitas no princípio
das Escrituras.
Eíá muitos indícios antigos do reconhecimento da autoridade,
não apenas do uso, de determinados escritos cristãos. A data de 2
Pedro é controversa, mas a carta mostra que uma coleção de escri
tos de Paulo estava incluída nas “Escrituras” (3.15). Clemente de
Roma, Inácio de A ntioquia e Policarpo de Esmirna conheciam as
cartas de Paulo, presumivelmente contidas em uma coletânea, e ci-
tavam-nas. O próprio Policarpo cita Efésios 4.26 como “Escritura”
(.Filipenses 12.1).
Tanto Barnabé (4.14) como 2 Clemente (2.4) citam Mateus
como “Escritura”. E verdade que o interesse de ambos os escritores
é a autoridade do Senhor, mas eles encontram Suas palavras em uma
obra literária tratada como fonte autorizada.
130 HISTÓRIA DA IGREJA
Pápias e Justino M ártir (Apologias 67.3) mencionam as “M em ó
rias” dos apóstolos, referindo-se aos Evangelhos, e Justino registra
que elas eram lidas na reunião dominical da igreja juntam ente com
os Profetas.
A recuperação de fragmentos do Evangelho em códices de papiro
no Egito, a partir do início do segundo século, é uma indicação de
que eles eram mais do que apenas utilizados; afinal, as cópias circula
vam longe do local de composição e foram reunidas para preservação.
A produção da literatura apócrifa do segundo século, de acordo com
os quatro tipos de escritos do Novo Testamento (evangelhos, atos,
cartas e apocalipses), mostra que esses gêneros haviam sido gravados
na consciência cristã.
Diatessarão, de Taciano (c. 170), pode ser entendido de duas for
mas: ou o autor teve tão pouca consideração pelo texto dos quatro
Evangelhos que foi capaz de tratá-los com liberalidade, criando um
texto composto; ou esses quatro Evangelhos tinham tanta im portân
cia que ele desejou harmonizá-los em um único Evangelho. Essa últi
ma foi a motivação de outros produtores de harmonias do Evangelho
em narrativas contínuas (não sinopses em colunas paralelas) ao longo
dos séculos. Ela também parece estar mais próxima da postura de Ta
ciano e da posição ocupada pelos quatro Evangelhos em sua época. A
aceitação do Diatessarão como forma padrão dos Evangelhos durante
um longo período na igreja siríaca parece demonstrar que ele era uma
compilação de livros autorizados.
Os gnósticos do segundo século argumentaram a partir das Es
crituras cristãs (por exemplo, Basílides), e foi em seu meio que os pri
meiros comentários sobre os livros do Novo Testamento foram escri
tos (por exemplo, Heraclião sobre João).
Sobrepondo-se à segunda fase, o princípio canônico, está a tra
dução dos escritos cristãos do grego a outros idiomas. Livros então re
conhecidos como parte do Novo Testamento foram traduzidos para
o latim e o siríaco, logo no segundo século, e para o copta (a palavra
deriva do termo grego para “Egito” e refere-se à língua vernácula dos
egípcios nativos), no terceiro século, se não antes. Essa prática é uma
indicação clara da importância e autoridade desses livros e da necessi
dade de que estivessem disponíveis na língua dos crentes.
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 131
Vários autores do segundo século (Policarpo, Inácio, Irineu, Cle
mente de Alexandria) fazem referência a um padrão triplo de autori
dade para os cristãos: os profetas, o Senhor e os apóstolos. Isso pode
refletir uma periodização cristã natural da história, mas o agrupa
mento em três autoridades talvez reflita uma alternativa cristã à divi
são tríplice das Escrituras Hebraicas em Lei, Profetas e Escritos.
Os profetas, para os cristãos, representavam todo o Antigo Tes
tamento, uma vez que consideravam Moisés um profeta e Salmos,
bem como outros livros dos Escritos, textos proféticos. O Senhor e
os apóstolos logo passaram a representar duas partes do Novo Tes
tamento: os Evangelhos e os escritos apostólicos, se é que isso já não
estava implícito aos primeiros que utilizaram a formulação. Assim,
o Senhor esta no centro; os profetas e os apóstolos, respectivamente
antes e depois, testificam dele.
2. Princípio canônico
A segunda fase na formação do cânon é marcada pela transição
do reconhecimento da autoridade escrita para o reconhecimento ex
plícito de que o número de documentos escritos autorizados é limita
do, embora a linha onde esses limites se encontram com precisão não
tenha sido traçada.
Nessa fase, o cânon é, na teoria, fechado; contudo, na prática,
ainda é aberto. H á o reconhecimento positivo de determinados do
cumentos como partes da fonte de autoridade, mas não há a deter
minação negativa de que somente esses documentos constituem a
autoridade, visto que poderia haver outros documentos desconheci
dos no momento ou acerca dos quais ainda não exista uma determi
nação final.
Em princípio, a ideia do cânon foi estabelecida em torno de
180. Q uando Tertuliano escreveu Prescrição contra os hereges, no
início do terceiro século, um de seus argumentos (37; cf. 36) dizia
respeito a quem tem direito às “Escrituras cristãs”. Deve ter exis
tido alguma ideia de uma entidade identificável (por mais impre
cisas que fossem as fronteiras), para que se discutisse quem detém
as Escrituras e sua correta interpretação (cf. Contra M arcião 4.1.3;
Contra osjudeus 2.7).
132 HISTÓRIA DA IGREJA
Eusébio cita um escritor antimontanista em 192, o qual pressu
pôs que a revelação da nova aliança estava completa e podia ser en
contrada nos documentos autorizados (.História da Igreja 5.16.3; cf.
5.24.7). O escritor faz um exagero retórico ao declarar sua relutância
em escrever por receio de estar “acrescentando (...) à palavra da nova
aliança do evangelho”, à qual nada se pode acrescentar nem retirar
- um ataque às profecias montanistas. Para que fizesse essa demons
tração exagerada de humildade, deve ter havido algum conjunto de
escritos reconhecidos - caso contrário, não podería ter identificado o
período da revelação com certos registros escritos.
Os escritos de Irineu, nas duas últimas décadas do segundo sécu
lo, partem das Escrituras como um todo, Antigo e Novo Testamen
tos. Ele passa pelas palavras de Jesus, pelos Evangelhos, por Atos, pelas
cartas de Paulo e por outros escritos apostólicos (citando praticamen
te todos os livros do Novo Testamento), a fim de refutar os hereges.
Ele é bem explícito quanto à existência de apenas quatro Evange
lhos, afirmando que também há quatro cantos no universo e quatro
ventos. Antes de descartarmos suas palavras por considerá-las a de
fesa fraca de uma posição igualmente fraca, devemos recordar a im
portância do simbolismo numérico no m undo antigo. Além disso,
Irineu não estava defendendo uma inovação no que dizia respeito aos
cristãos que representava.
Ao passo que Marcião estreitou os Evangelhos a um só (Lucas), e
os gnósticos expandiram-nos com a produção de novos evangelhos,
Irineu reconhecia apenas quatro Evangelhos autorizados. Seu simbo
lismo numérico não é um argumento para estabelecer algo novo. Não
é porque há quatro ventos que ele defendia os quatro Evangelhos; era
por crer na existência de quatro Evangelhos que ele se lembrava de
outros aspectos da natureza que se apresentam em número quatro.
Se ele acreditasse na existência de cinco Evangelhos, teria emprega
do outra analogia; se, na existência de três, outra. Um simbolismo
adequado podería ser encontrado independentemente do número de
Evangelhos que tivesse recebido.
A expressão “Novo Testamento” ou “Nova Aliança” era o título
de uma coleção de livros para Clemente de Alexandria, Tertuliano e
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 133
Orígenes, se já não o era para Irineu. Por ter havido um título coleti
vo, deve ter existido alguma entidade identificável a ser nomeada. Es
ses escritores talvez tenham diferido entre si quanto ao local preciso
dos limites, mas, ao menos, acreditavam ter algo sobre o que falar e ao
qual deveriam dar um nome.
A data do Fragmento Muratoriano entrou na discussão de quando
um princípio canônico foi reconhecido pela primeira vez na Igreja. A
data tradicional atribuída a ele, no fim do se
gundo século, sustenta aposição indicada pe “Antes, uma antiga aliança
las outras evidências já apresentadas, mas essa foi feita com os mais
posição praticamente não está condicionada
a essa data do Fragmento Muratoriano. Datá- antigos [judeus], e a lei
-lo do quarto século quase torna desnecessá instruía-os com base no
rio reescrever a história do cânon do Novo medo (...), mas uma nova
Testamento. O Fragmento Muratoriano re- aliança foi feita com o povo
flete, em linhas gerais, a situação que pode ser novo, o Verbo fez-se carne,
determinada com base em Irineu, Clemente e o medo transformou-se
de Alexandria, Tertuliano e Orígenes.
em amor” (Clemente
No fim do segundo século, havia um de Alexandria,
cânon essencial reconhecido praticamente
Opedagogo 1.7.59).
por toda a grande Igreja: quatro Evangelhos,
Atos dos apóstolos, treze cartas de Paulo e outros escritos apostólicos
variados. Em geral, o Apocalipse era aceito no ocidente, mas não no
oriente; Hebreus era aceito no oriente como um texto de Paulo, mas
não no ocidente. Dentre as epístolas, as que tinham mais aceitação
eram 1 Pedro e 1João; as outras eram bem menos conhecidas.
O cânon descrito no Fragmento Muratoriano reflete uma situa
ção semelhante, mas seu conteúdo exato é uma espécie de anomalia
na Igreja, seja ele do segundo ou do quarto século, oriente ou ociden
te. De nossos 27 livros, o Fragmento não menciona Hebreus, Tiago,
1 e 2 Pedro e, talvez, uma carta de João (não se pode determinar se
alguns destes foram mencionados, como Mateus e Marcos, nas partes
faltantes do documento). Ademais, o documento inclui, se transcri
tos com precisão, a Sabedoria de Salomão e o Apocalipse de Pedro em
seu cânon do Novo Testamento.
134 HISTÓRIA DA IGREJA
3. Cânon fechado
A terceira fase é a passagem lógica do reconhecimento de um câ
non à tentativa de definir seus limites exatos, de um cânon “aberto” a
um cânon “fechado”. Nessa fase, houve esforços no sentido de evitar
mais adições ou exclusões de uma lista já aceita. Logo, a partir do
quarto século, surgem várias listas das Escrituras canônicas. Esse fato
tem sido utilizado para sustentar uma data no quarto século do cânon
muratoriano; na forma, entretanto, ele não é uma lista como os ou
tros, mas uma discussão sobre os livros.
Eusébio representa essa fase da história do cânon. Uma vez que
estava muito interessado em estabelecer os limites do cânon, ele pro
curou determinar o cânon de Orígenes com base em seus escritos
(Eusébio, História da Igreja 6.25; cf. Orígenes, H om ílias sobreJosué
7.1, não citado por Eusébio). Sua conclusão sobre o cânon correspon
de àquilo que descobriu em Orígenes, com a diferença de que reduziu
os resultados alistas e classificou os livros em diversas categorias (H is
tória da Igreja 3.25).
Eusébio apontou como livros aceitos em todo lugar: quatro
Evangelhos, Atos dos apóstolos, epístolas de Paulo (incluindo He-
breus, mencionado por Orígenes, mas não por Eusébio), 1 João, 1
Pedro e Apocalipse (o qual ele questionava).
Estes eram amplamente reconhecidos, mas contestados por al
guns: Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João.
O utros livros que não eram genuínos, mas também não eram
considerados hereges, incluíam: Atos de Paulo, Pastor, Apocalipse de
Pedro, Barnabé e D idaquê (Eusébio queria colocar Apocalipse nessa
categoria).
Por último, havia livros hereges que deviam ser totalmente evi
tados: Evangelho de Pedro, Evangelho de Tomé, Evangelho de M atias,
Atos de A ndré e Atos deJoão.
A situação realmente não havia mudado entre a época de Oríge
nes e a de Eusébio.
Quaisquer dúvidas remanescentes ou a falta de conhecimento
sobre os livros presentes na segunda categoria de Eusébio foram logo
eliminadas, pois o conteúdo da primeira e da segunda categoria foi
unido, sem reservas, na lista do cânone de Atanásio de Alexandria
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 135
{Cartafestiva 39 para 367), a primeira lista antiga a corresponder exa-
tamente ao nosso cânon atual de 27 livros.
CÂNON DE ATANÁSIO, CARTA FESTIVA, 367
[Após listar os livros do Antigo Testamento, Atanásio diz:] Não devemos
hesitar em nomear os livros do NovoTestamento. São eles:
Quatro Evangelhos - segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas,
segundo João.
Depois destes, há Atos dos Apóstolos esete epístolas dos apóstolos: uma
de Tiago, duas de Pedro, três deJoão e, depois destas, uma deJudas.
Emseguida, há 14 epístolas do apóstolo Paulo, escritas nesta ordem: em
primeiro lugar, aos Romanos; depois, duas aos Coríntios, e, então, aos
Gálatas e aos Efésios; em seguida, aos Filipenses, uma aos Colossenses,
duas aos Tessalonicenses e uma aos Hebreus. Então, há duas aTimóteo,
uma aTito e, a última, a Filemom.
Além disso, há oApocalipse deJoão.
Essas são as "fontes da salvação". (...) Somente nelas se encontra a
doutrina da verdadeira religião, proclamada como boas-novas. Ninguém
acrescente a elas ou retire delas coisa alguma (...).
Existem outros livros além desses, os quais não estão incluídos no câ
non, mas foram designados desde aépoca dos Pais para serem lidos aos
recém-convertidos que desejam ser instruídos na palavra da verdadeira
religião. São eles: aS a b e d o ria de S a lo m ã o , aSa b e d o ria d e S irá cid a , Ester,
Ju d ite , Tobias, o chamado E n sin a m e n to d o s A p ó sto lo s [D id a q u ê ] e o P a s
tor. Contudo, embora os primeiros estejam incluídos no cânon e os últimos
sejam lidos, nenhuma menção deve ser feita aos apócrifos. Estes são
invenção de hereges.
4. Reconhecimento do mesmo cânon fechado
No quarto e quinto séculos, houve um acordo geral nas igrejas
grega e latina quanto à extensão do cânon do Novo Testamento, em
bora vários autores gregos tenham continuado a omitir o livro de
Apocalipse de suas listas, e algumas fontes latinas fossem ambivalen
tes em relação à autoria paulina de Hebreus.
Jerônimo tratava o cânon do Novo Testamento como “dado”, isto
é, não sujeito a modificações, e conselhos em Hipona em 393 e Car-
tago em 397 acompanharam Agostinho na ratificação de um Novo
Testamento com 27 livros.
136 HISTÓRIA DA IGREJA
As igrejas siríacas demoraram mais para atingir esse estágio: so
mente no sexto século, uma edição siríaca do Novo Testamento in
cluiu 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse, e a Igreja do Oriente
(Nestoriana) nunca aceitou esses livros.
C. Critérios de canonicidade
Não houve um tratam ento sistemático da canonicidade na igreja
antiga, mas o Fragmento M uratoriano é típico nas considerações que
suscita em observações incidentais.
1. Inspiração
“Todas as coisas [nos quatro Evangelhos] foram declaradas pelo
Espírito soberano.” A postura da Igreja em geral parece ter sido con
siderar a inspiração um requisito mínimo, mas nem todas as obras
consideradas inspiradas de alguma forma foram necessariamente in
cluídas no cânon das Escrituras.
2. Apostolicidade
Uma das razões para a rejeição de Pastor, de Hermas, foi que “ele
não pode ser publicado para o povo na igreja; nem entre os Profetas,
uma vez que o número destes está completo, nem entre os A pósto
los, pois estes vieram antes”. Não se insistia literalmente na autoria
apostólica, pois o compilador do cânon muratoriano reconhecia que
Lucas não tinha visto o Senhor em carne, sendo apenas um compa
nheiro de Paulo. Os escritos apostólicos incluíam, portanto, além de
livros escritos pelos apóstolos, livros provenientes de círculos apostó
licos, com autoridade apostólica.
3. Antiguidade
Intimamente relacionada ao item antecedente está a exclusão, se
a tradução anterior estiver correta, de obras “posteriores à sua época
[dos apóstolos] ”. As obras de João, em contrapartida, são louvadas
porque ele foi “uma testemunha ocular e ouvinte (...) das coisas ma
ravilhosas do Senhor”.
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 137
4. Aplicabilidade a toda a Igreja (universalidade)
Foi feita uma analogia ao Apocalipse de João para explicar que
Paulo, ao escrever a sete igrejas (duas cartas para Tessalônica e Co-
rinto) estava, na realidade, escrevendo a todas as igrejas: “Pois tam
bém João, embora tenha escrito a sete igrejas em Apocalipse, estava
dirigindo-se a todas”.
O número sete representava completude e, assim, significava o
todo, a “única Igreja espalhada por todo o globo terrestre”. Os escritos
canônicos precisavam ser úteis para a Igreja universal. Este provavel
mente foi um fator para que alguns escritos inspirados não tenham
sido preservados (por exemplo, cartas que Paulo alega ter escrito):
não tinham aplicabilidade a outras igrejas.
5. Leitura pública nas reuniões
Estritamente ligada à aplicabilidade geral estava a sua utilização
no culto, isto é, “a leitura na igreja”. Obras não canônicas eram, por
vezes, lidas nas reuniões em eventos especiais ou por razões específi
cas, mas a leitura regular limitava-se aos textos autorizados.
6. Doutrina correta
“H á muitas outras [epístolas] que não podem ser recebidas na
Igreja Católica, pois fel não pode ser misturado com mel.” O fato de
um escrito estar de acordo com o ensinamento recebido era impor
tante para sua aceitação.
N enhum desses critérios era, por si, suficiente para garantir a p o
sição canônica; todos tinham de ser considerados. Além disso, eles
não parecem ter sido padrões premeditados que foram aplicados aos
documentos, mas “argumentos apresentados segundo os fatos”.
Isso significa que os cristãos recebiam determinados documentos
e, então, refletiam sobre o motivo de estes terem sido transmitidos a
eles. Q uando outras obras eram introduzidas, a comparação com as
obras recebidas era feita segundo os padrões reconhecidos nos escri
tos aceitos.
As obras que apresentavam a maioria das características, mas não
todas, e carregavam a mensagem apostólica autêntica poderíam ga
138 HISTÓRIA DA IGREJA
nhar aceitação geral, mas ao longo de um processo mais lento. Os
escritos ortodoxos desprovidos de alguns critérios continuavam a ser
utilizados, mas sem posição canônica; já aqueles que continham ensi
namentos infundados eram rejeitados.
D. Reflexões teológicas
A igreja organizada não criou o cânon; ela o reconheceu. Isso é
evidente no fato de que as decisões dos conselhos eclesiásticos entra
ram no processo apenas em fases posteriores. Foi apenas na finaliza
ção do cânon no ocidente, em torno de 400 d.C., que as autoridades
da igreja exerceram alguma influência.
O cânon foi, em certo sentido, “herdado”. Escritores, a partir do
segundo século, referiam-se repetidamente aos escritos canônicos
como livros “transmitidos a nós”. Os livros autorizados eram recebi
dos como parte do depósito da fé transmitido dentro da igreja. Os
^séculos seguintes ratificaram uma situação já estabelecida.
A abordagem da igreja não foi “nós determinamos”, mas “nós re
conhecemos” esses livros como apostólicos. O cânon representava os
livros “recebidos” pela igreja.
A igreja, portanto, serviu como testemunha, não juiz, do proces
so de canonização. Nesse sentido, a igreja deu-nos a Bíblia. Ela rece
beu e preservou as Escrituras Sagradas.
Portanto, até certo ponto, se os cristãos contemporâneos aceitam
as Escrituras, eles também devem aceitar a igreja. Contudo, isso não
significa que eles devam aceitar a autoridade da igreja em si ou a au
toridade da igreja em todas as outras questões. Certamente, a igreja é
parte da fé apostólica e prática da vida cristã; logo, aceitar a fé inclui
aceitar a participação na vida da igreja.
Em contrapartida, quando a igreja posterior se afasta da fé e prá
tica descritas no Novo Testamento, seu testemunho da autoridade
desses escritos torna-se ainda mais significativo, pois uma testemunha
é mais convincente quando testifica contra seus próprios interesses.
Em vez de ser uma indicação de que a igreja tem autoridade so
bre as Escrituras, o papel da igreja em reconhecer o cânon das Escri
turas é um testemunho contra sua própria autoridade. Reconhecer
DEFESA CONTRA INTERPRETAÇÕES RIVAIS 139
um cânon foi um ato de colocar-se sob outra autoridade. Se a igreja
quisesse autoridade ilimitada, não teria dito: “Estes livros são nossa
autoridade em vida e doutrina”. O ato de canonização foi um ato de
declarar que a igreja não era sua própria autoridade, mas que estava
submetendo-se a outra autoridade.
Ordem da igreja, padrões de crença e reconhecimento das Escri
turas continuaram a ser fundamentais para as igrejas. Regimes eclesi
ásticos variam, credos diferentes são aceitos, e diferenças no conteúdo
das Escrituras (Bíblia católica e protestante) permanecem; contudo,
os passos iniciais dados no segundo século traçaram o caminho que
as igrejas seguiram desde então.
LEITURA COMPLEMENTAR
FERG U SON , Everett. Early Christians Speak . Abilene, TX :
A C U Press (v. 1, 3. ed„ 1999): p. 163-175; (v. 2, 2002): p. 23-99.
______ . (Ed.). The Bible in the Early Church. Studies in Early
Christianity 3. Nova Iorque: Garland, 1993.
______ •Norm s ofFaith and Life. Recent Studies in Early Chris
tianity 3. Nova Iorque: Garland, 1999.
______ ■Orthodoxy, Heresy, and Schism in Early Christianity.
Studies in Early Christianity 4. Nova Iorque: Garland, 1993.
M C D O N A L D , Lee M artin; SANDERS, James A. (Ed.). The
Canon Debate. Peabody, MA: Hendrickson, 2002.
W ESTRA, L. H . The Apostles Creed: Origin, H istory and Some
Early Commentaries. Turnhout, UK: Brepols, 2002.
Pais da antiga Igreja Católica
e seus problemas
I. PRIMORDIOS E DESENVOLVIMENTO INICIAL
DA TEOLOGIA CRISTÃ
Teologia pode ser definida como uma reflexão racional sobre in
formações relacionadas à fé cristã. Os ensinamentos básicos da fé cris
tã foram proclamados na época apostólica. Esses ensinamentos foram
apresentados, e houve esforços à sua interpretação nos documentos
do Novo Testamento. Os Pais Apostólicos procuravam preservar essa
fé e interpretá-la.
Os primórdios da teologia cristã podem ser encontrados nos
apologistas do segundo século, os quais buscavam explicar os ensina
mentos cristãos aos não cristãos por meio da filosofia da época. Entre
o segundo e o terceiro século, os Pais da Igreja deram continuidade
ao processo de reflexão filosófica sobre doutrinas cristãs. A diferença
era que, além de dirigirem-se aos de fora (continuaram a redigir obras
PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 141
apologéticas), eles escreviam aos que estavam dentro da igreja com um
propósito duplo: refutar falsos mestres e fortalecer os crentes na fé.
Assim, em termos gerais, houve um progresso na literatura cristã:
primeiro, a abordagem era aos de dentro, expondo-lhes a fé (Novo
Testamento e Pais Apostólicos); depois, a abordagem passou a ser aos
de fora, utilizando a filosofia e recorrendo pouco ao Novo Testamen
to (apologistas); por fim, a abordagem foi feita aos de dentro, utili
zando filosofia e argumentos racionais e tratando a Bíblia como um
todo, a fim de desenvolver uma compreensão teológica da doutrina
cristã em oposição à heresia (Pais da antiga Igreja Católica).
Como participantes iniciais no desenvolvimento da teologia cris
tã, os antigos Pais Católicos assumiram posições que, muitas vezes,
foram consideradas inadequadas pelos padrões do pensamento pos
terior. Portanto, apenas Irineu, Cipriano e Gregório Taumaturgo são
considerados santos. É possível que três (sem dúvida, Novaciano, p ro
vavelmente H ipólito e possivelmente Tertuliano) fossem dissidentes
do corpo principal da Igreja, e um foi classificado, mais tarde, como
herege (Orígenes). Apesar disso, foram decisivos na refutação de for
mas concorrentes à fé cristã. Irineu, Tertuliano e H ipólito escreveram
importantes obras anti-heréticas; Clemente e Orígenes desenvolve
ram uma teologia filosófica que incorporava o que era interessante no
gnosticismo, mas que subvertia suas premissas heterodoxas.
Uma abordagem biográfica de algumas dessas figuras literárias
revelará não só seus temperamentos distintos, mas também algumas
características de diferentes regiões, bem como muitas coisas sobre a
vida e as controvérsias da Igreja no fim do segundo século e início do
terceiro. (Os líderes que floresceram em meados do terceiro século
serão discutidos no capítulo 9).
A. Irineu
Irineu foi uma figura-chave na defesa ortodoxa contra o gnos
ticismo - e, por essa razão, nós já encontramos seu nome antes. Ele
também foi uma importante ponte entre a época subapostólica e o
desenvolvimento da antiga Igreja Católica, pois, durante sua juven
tude em Esmirna, ouviu ensinamentos de Policarpo, um renomado
seguidor do apóstolo João. Ele foi para o ocidente e tornou-se presbí
142 HISTÓRIA DA IGREJA
tero na igreja de Lyon, na Gália, a qual tinha contatos próximos com
a Ásia Menor.
Em 177, Irineu levou uma carta a Roma na tentativa de mediar a
controvérsia do montanismo. Durante sua ausência, ocorreu a perse
guição descrita na Carta das igrejas de Viena e Lyon, que tirou a vida
do bispo Potino, já idoso. Irineu sucedeu-o e continuou fazendo jus
ao seu nome “irênico”, escrevendo ao bispo V itor de Roma para me
diar a controvérsia pascal (consulte o item III.C).
PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA
Nome Data Localização Idioma
Irineu Grego
C. 115-202 Lyon
Clemente deAlexandria C. 160-215 Alexandria Grego
Tertuliano c. 160-220 Cartago Latim
Hipólito c. 170-236 Roma Grego
Orígenes c. 185-251 Alexandria/Cesareia Grego
Novaciano fl. 250 Roma Latim
Cipriano C. 200-258 Cartago Latim
Gregório Taumaturgo c. 210-265 Capadócia Grego
Ainda pertencentes ao período grego da igreja no ocidente, as
obras de Irineu sobrevivem principalmente em traduções. Sua obra
principal, conhecida como Contra as heresias - mas descrita por ele
mesmo como “Cinco livros para desmascarar e refutar a falsamente
chamada gnose” - , sobrevive em sua totalidade somente em uma tra
dução latina literal primitiva, a não ser por algumas passagens citadas
por autores posteriores. A Demonstração [ou Prova] da pregação apos
tólica, que sobrevive em uma tradução armênia, fornece instrução aos
novos convertidos com base na história bíblica da atividade salvífica
de Deus em um contexto trinitariano.
Ao promover suas próprias interpretações teológicas com o in
tuito de defender a igreja predominante e refutar a heresia, Irineu
foi um “inovador tradicional”. Sua teologia é baseada na unidade.
PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 143
Em oposição ao dualismo gnóstico e marcionita, ele ressalta o único
Deus, que e o Criador e Redentor; o único Senhor Jesus Cristo, que
é o mesmo ser preexistente que foi encarnado; e a única história da
salvação, que é o plano do único Deus centrado no único Cristo. Ele é
o primeiro grande autor de que temos notícia a argumentar com base
nas Escrituras como um todo, testemunhando do emergente cânon
do Novo Testamento e insistindo na harmonia do Antigo e do Novo
Testamentos como alianças sucessivas no plano salvífico de Deus.
Uma das principais idéias teológicas
de Irineu é a de “recapitulação”, uma pala
vra que, na retórica, referia-se ao resumo “A Palavra de Deus tornou-
de uma narrativa, mas com um significado se homem; o Filho de Deus
bíblico fornecido por Efésios 1.10. Irineu fez-se Filho do homem a
aplica a ideia aJesus Cristo não apenas como fim de que a humanidade,
um “resumo”, mas também como o “auge”, sendo tomada pela Palavra
ou clímax, do plano salvífico de Deus. Je
sus Cristo, como o novo Adão —tanto ho e recebendo adoção,
mem quanto Deus -, é a “nova cabeça” da pudesse tornar-se filha
humanidade que reverteu os passos do an
tigo Adão. Ele tomou parte na humanidade de Deus” (Irineu,
Contra as heresias 3.19.1).
completamente, com exceção do pecado, a
fim de unir os seres humanos a Deus, efetuando a salvação da carne.
Cristo venceu o inimigo da humanidade e tragou a mortalidade na
imortalidade.
O argumento de Irineu, com base na sucessão apostólica a favor
da validade dos ensinamentos da igreja, bem como seu apelo ao câ
non da verdade, como padrão apropriado para a interpretação das
Escrituras, foram contribuições duradouras para a compreensão ca
tólica sobre o ministério e a tradição da igreja.
Significativa para o futuro e controversa no significado foi o lu
gar que Irineu deu à igreja romana. A passagem crucial (preservada
apenas em latim) diz literalmente o seguinte: “Pois, com esta igreja
[Roma], por causa do poder supremo, é necessário que todas as igre
jas concordem [ou se reúnam, recorram a], isto é, os fiéis de todos os
lugares, pois nela [igreja] está preservada a tradição apostólica” {Con
tra as heresias 3.3.2). Quase todas as palavras-chaves são contestadas,
144 HISTÓRIA DA IGREJA
mas, ao que parece, Irineu apresenta a igreja romana como um espe
lho da igreja universal; representantes de igrejas de todo o império
iam a Roma como capital, e, portanto, achou-se nela testemunho da
tradição apostólica comum.
Irineu é im portante por representar a reação ortodoxa aos p ro
blemas de heresia no segundo século. Sua abordagem articulou as
premissas sobre as quais se desenvolveu a antiga Igreja Católica. Ele
enfatizou as doutrinas cristãs fundamentais: um único Deus, a bon
dade da criação, a redenção por intermédio do único Jesus Cristo, a
ressurreição do corpo, as raízes históricas da fé cristã e a autoridade
das Escrituras corretamente interpretadas.
Ele foi típico da antiga Igreja Católica ao antever doutrinas que
receberíam mais importância no futuro: a sucessão apostólica dos
bispos, a regra da fé [tradição apostólica] como padrão para inter
pretação da Bíblia, a referência aos elementos materiais da santa ceia
como corporificação de realidades espirituais e um lugar para Maria
nova Eva) em sua teologia de recapitulação. Assim, Irineu foi tanto
um teólogo “bíblico” como um teólogo “católico”.
B. Tertuliano e a Igreja ao norte da África
Tertuliano, que vicejou em Cartago nas duas primeiras décadas
do terceiro século, foi o escritor cristão mais prolífico em latim antes
do quarto século. Ele começou escrevendo em grego, mas, conforme
o idioma da igreja ocidental passou a ser cada vez mais o latim, so
mente suas numerosas obras nessa língua sobreviveram, um fato que
assegurou sua influência duradoura (em contraste com Hipólito de
Roma, que escreveu apenas em grego e caiu no desconhecimento).
É notável o fato de que o cristianismo de língua latina surgiu
como influência literária primeiro no norte da África, não em Roma.
Versões latinas antigas das Escrituras estavam sendo produzidas no
norte da África e na Itália, no fim do segundo século. N o segundo
século, os centros de cultura romana estavam situados nas províncias
ocidentais: África, Espanha e Gália.
Tertuliano é geralmente considerado o rigorista e legalista proto-
típico por sua abordagem ávida cristã e forma de argumentação, mas,
PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 145
para que melhor se aprecie sua formação in “Nós nos encontramos para
telectual, é preciso vê-lo como um retórico ler os textos sagrados. (...)
latino. Ele foi convertido ao cristianismo na
fase adulta da vida, no fim do segundo sécu Com as santas palavras,
lo; era casado, talvez presbítero, e ativo na alimentamos
igreja em Cartago.
a fé, despertamos
Em cerca de 207, Tertuliano foi atraí a esperança, confirmamos
do ao montanismo e tornou-se um loquaz a confiança. Fortalecemos
expoente da sua abordagem mais rigorosa a a instrução dos preceitos
questões disciplinares relacionadas ao com
portamento cristão. Com base no relato por inculcações”
posterior de Agostinho quanto a ter trazido (Tertuliano,
tertulianistas de volta à Igreja Católica, con Apologia 39).
sidera-se que Tertuliano liderou uma facção
que se desligou até mesmo dos montanistas. No entanto, “tertulia
nistas” pode ter sido o termo usado para os montanistas no norte da
África; além disso, não é certo que o apoio de Tertuliano ao monta
nismo o tenha, de fato, levado
A fama literária de Tertuliano reside em sua capacidade de cunhar
frases penetrantes, originais, técnicas. Seu latim intricado, abreviado,
é muitas vezes difícil de ler, mas ele era espirituoso, vigoroso e inci
sivo. Ele definiu a linguagem da igreja ocidental em conceitos fun
damentais, como: pecado original, pessoa e natureza na Trindade,
sacramento, mérito e outros.
Os leitores são ora repelidos pelo fanatismo “cristão” de Tertu
liano, ora fascinados por seus fraseados surpreendentes, impressio
nantes. Ele deu muitas expressões robustas e memoráveis à linguagem
cristã, tais como:
1. “Quanto mais somos ceifados por vós, tanto mais crescemos
em número; o sangue dos cristãos é semente” (Apologia 50),
muitas vezes parafraseada como: “O sangue dos mártires é a
semente da Igreja”.
2. “E crível porque é improvável” (Carne de Cristo 5.4), muitas
vezes citada erroneamente como: “Creio porque é absurdo”.
A afirmação de Tertuliano não é uma declaração de irraciona-
lismo cristão, mas um argumento de que a simples improba-
146 HISTÓRIA DA IGREJA
bilidade das principais alegações cristãs significa que elas não
foram inventadas por homens.
3. “O que Atenas tem a ver com Jerusalém? Que acordo há entre
a Academia e a Igreja?” (Prescrição contra os hereges 7). Isso é
parte de seu argumento segundo o qual a heresia, assim como
a filosofia, deriva da busca humana pela verdade longe da re
velação de Deus. Ele não renunciou à razão e à filosofia; pelo
contrário, investiu muito tempo em uma defesa filosófica do
cristianismo.
Alguns escritos de Tertuliano podem ser comentados. Apologia
é geralmente considerada a sua obra-prima literária, a maior apolo-
gética em latim em defesa do cristianismo antes de Agostinho. Ele
apresenta muitos argumentos encontrados em Justino Mártir, mas o
conhecimento jurídico adquirido na prática da retórica torna-o mais
persuasivo. Jerusalém nada tem a ver com Roma ou Atenas. Ele argu
menta, em oposição à perseguição do Estado, que a essência da reli
gião é a aceitação voluntária.
O utro escrito apologético, Testemunho da alm a, afirma que, em
bora “o indivíduo se torne cristão e não nasça sendo um”, a linguagem
e as atitudes humanas comuns testificam da verdade cristã. Os trata
dos de Tertuliano contra costumes romanos - tais como Idolatria e
Coroa - incluem a rejeição do serviço militar por cristãos, uma posi
ção que compartilhava com outros importantes pensadores cristãos,
tais como Hipólito, Orígenes e Lactâncio.
Os escritos anti-heréticos de Tertuliano são particularmente
importantes pelas informações que contêm acerca de interpretações
alternativas do cristianismo e do desenvolvimento da teologia orto
doxa. Sua obra Prescrição contra os hereges procura inviabilizar a justi
ficativa dos hereges, com base em um princípio jurídico romano, a fim
de alegar que as Escrituras pertencem à Igreja, e, portanto, somente
cristãos católicos têm o direito de usá-las. A regra da fé preservada na
tradição da Igreja é a chave para compreendê-las.
Em Contra Práxeas, Tertuliano empregou a terminologia de
“três pessoas” (trespersonae) e “uma substância” (una substantia) que,
quando combinadas em uma fórmula, tornava-se a forma aceita em
latim para exprimir a doutrina da Trindade.
PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 147
Contra Marcião é sua obra mais longa. Tertuliano defende a uni-
cidade de Deus e a bondade da lei. O propósito polêmico deve ser
reconhecido, mas o resultado faz de Tertuliano um “cristão do A nti
go Testamento” em quem o Sermão do M onte torna-se uma nova lei.
(Mas, como foi observado, Tertuliano nunca oferecia o outro lado do
rosto em um argumento!)
A tendência ao legalismo na igreja ocidental, como exemplificada
em Tertuliano, era a união entre as tradições jurídicas romanas e a lei
mosaica lida em aplicação direta às instituições da Igreja. O resultado
de se cristianizar a lei deveria levar à compreensão da salvação agora
possível por condutas meritórias - por intermédio de Jesus Cristo.
O tratado Alm a é o primeiro escrito cristão sobre psicologia.
Com base na antropologia estoica, Tertuliano entende a alma como
“material”, porém feita de uma matéria mais elevada e excelente do
que o corpo.
Batismo, o escrito mais antigo sobre o assunto hoje existente,
opõe-se a um pequeno grupo de gnósticos que negavam a necessida
de do batismo na água.
A obra Arrependimento é im portante por sua descrição do “se
gundo arrependimento” - as humilhantes disciplinas impostas na
“confissão” do pecado pós-batismal, a fim de que o pecador fosse res
taurado à comunhão da igreja (às quais vale a pena submeter-se, pois
a “mortificação temporal remove castigos eternos”).
Em seu período montanista, Tertuliano rejeitou a prática da igre
ja de perm itir o perdão de pecados pós-batismais. Suas obras práticas
desse período assumem uma posição cada vez mais rigorista quanto a
teoria e prática morais.
Tertuliano exerceu grande influência em um líder da igreja carta
ginesa na geração seguinte, Cipriano, o qual m oderou suas opiniões,
conferindo-lhes uma forma menos sectária e mais eclesiástica (veja o
capítulo 9).
C. Igreja em Alexandria e Clemente de Alexandria
Alexandria, fundada no quarto século a.C. por Alexandre, o
Grande, foi a segunda cidade do Império Romano. Ela foi o lar do
helenismo, onde a Grécia e o Oriente M édio se encontravam.
148 HISTÓRIA DA IGREJA
A cidade também abrigava a maior comunidade judaica no m un
do greco-romano. O helenismo judaico criou raízes profundas em
Alexandria. Foi ali que a Septuaginta - a Bíblia dos antigos Pais C a
tólicos - foi produzida. Também foi ali que Fílon, o filósofo judeu, no
início do primeiro século, procurou harmonizar revelação e filosofia.
Essa tarefa de adaptar as Escrituras à filosofia grega foi herdada pelos
filósofos cristãos alexandrinos, que - em contraste com a pergunta de
Tertuliano - procuravam demonstrar que Jerusalém era, sim, Atenas.
A introdução do cristianismo em Alexandria está imersa em
obscuridade. A igreja alexandrina posterior preservou a tradição de
que ela foi fundada por Marcos, discípulo de Pedro, e os laços foram
mantidos entre Alexandria e Roma no início de sua história. Tam
bém havia laços com a Palestina. Se a leitura variante do texto oci
dental (Códice de Beza) de Atos 18.25 tiver como base informações
históricas, Apoio aprendeu os ensinamentos de Jesus pela primeira
vez já em Alexandria. Algumas literaturas cristãs primitivas, Barnabé
e o appcrifo Evangelho dos egípcios, talvez tenham sido redigidas ali.
A igreja em Alexandria logo exibiu algumas características dis
tintivas:
1. O gnosticismo era muito influente, e os judeus helenistas tal
vez tenham se desviado para um gnosticismo judaico. C erta
mente um número de mestres gnósticos era ativo li, incluin
do Basílides, Carpócrates e Valentino. Alguns estudiosos
contemporâneos sugerem que a história inicial da igreja em
Alexandria fora suprimida pelos ortodoxos, porque a primeira
forma de cristianismo ali foi “gnóstica”. Clemente e Orígenes
procuraram desenvolver um gnosticismo ortodoxo no lugar
de sua forma herética.
2. Fiavia membros ricos na igreja em Alexandria. Um número
crescente de convertidos provenientes da próspera classe ocio
sa ficou aparentemente perturbado com as palavras de M ar
cos 10.17-22. Em resposta, o sermão de Clemente intitulado
Q ual rico será salvo ?explicou que Jesus não condenava os bens
em si, apenas o amor ao dinheiro.
3. Seu regime diferiu daquele em desenvolvimento na igreja em
outros lugares ou, pelo menos, manteve um padrão antigo por
PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 149
mais tempo do que as outras igrejas. Os 12 presbíteros elegiam
e nomeavam um dentre eles como bispo. Os mestres mantive
ram uma independência em Alexandria por mais tempo do
que em outros lugares, talvez porque o bispo não era uma fi
gura tão forte como havia se tornado na maioria das igrejas.
O termo escola é empregado em três sentidos, e todos os três são
aplicáveis ao uso eclesiástico da expressão “escola de Alexandria”. Ele
pode referir-se aos pupilos reunidos ao redor de um mestre, tais como
Justino ou Valentino, em Roma, e Clemente, em Alexandria. Pode
também referir-se a um grupo de pensadores com opiniões seme
lhantes (uma “escola de pensamento”). As preocupações especiais da
escola alexandrina, nesse sentido, eram a manutenção da liberdade
intelectual na igreja, a exploração das relações entre fé e razão, a inter
pretação alegórica das Escrituras e a cristologia do Logos.
A “escola de Alexandria” também se refere ao programa organi
zado de instrução catequética desenvolvido na igreja ali. H á contro
vérsias quanto à obra de Clemente e seu mestre Panteno já estar sob o
controle direto da igreja ou, como é mais provável, ser um empreen
dim ento privado como “escola” no primeiro sentido.
Sabemos que Orígenes, sob a comissão do bispo Demétrio em
Alexandria, abandonou o ensinamento dos clássicos e dedicou-se ao
estudo e ensinamento das Escrituras. Esse programa tinha forte su
pervisão episcopal. Mais tarde, Orígenes trouxe Héraclas para ajudar
na obra catequética, a fim de se dedicar à instrução avançada, uma
espécie de “universidade privada”.
Clemente nasceu (c. 160) de pais não cristãos. Ele é um repre
sentante dos cultos e instruídos convertidos ao cristianismo. Com o
alguém que buscava, tal qual Justino, a verdade filosófica, ele encon
trou - após um período viajando pelo Mediterrâneo - um mestre
cristão que apresentou uma interpretação impressiva do cristianismo
em uma forma filosoficamente aceitável.
Essa “abelha siciliana”, como Clemente o descrevia, era presumi
velmente Panteno, o qual se estabeleceu em Alexandria. Clemente
continuou sua obra e foi reconhecido como presbítero. Ele deixou
Alexandria em 202-203, durante uma perseguição liderada por Sep-
tímio Severo, e passou seus últimos anos na Capadócia, m orrendo em
150 HISTÓRIA DA IGREJA
torno de 215. Seu espírito de homem culto,
“Devemos, então, aberto e, ao mesmo tempo, moralista con
em minha opinião, servador foi captado na expressão “puritano
abordar a palavra salvííica liberal”.
não com base no medo do As três grandes obras de Clemente for
castigo, nem na promessa
de um dom, mas por causa mam uma trilogia. A Exortação aos gregos
(.Protrepticus) é uma apologia, extraindo
do bem em si mesma” noções do cristianismo da filosofia e lite
(Clemente de Alexandria, ratura gregas. O Instrutor (.Paedagogus) é a
primeira obra cristã sobre ética (capítulo 8).
Miscelâneas 4.6). Jesus Cristo como o mestre (em Sua capa
cidade como o Logos divino) instrui acerca
da moral e conduta cristã na sociedade. As
Miscelâneas (Stromata) é um “mosaico” de reflexões sobre diversos
aspectos do cristianismo relacionados a questões intelectuais da
época. A obra é enfadonha em algumas partes, mas é avivada por
reflexões profundas. Seu núcleo é a descrição do verdadeiro cristão
gnóstico, o qual busca conhecimento não para efeitos de salvação,
mas pelo conhecimento em si. No gnóstico ideal, a visão de Deus é
obtida. Tornar-se como Deus é uma ação moral, possível mediante
a graça.
Clemente sugeriu três teorias diferentes sobre a validade da filo
sofia para os crentes:
1. Sua sugestão mais original foi a de que, assim como a aliança
foi dada aos judeus, a filosofia foi dada aos gregos. Ela foi dada
aos gregos não pelo Logos, entretanto, mas por anjos - e, as
sim, era um conhecimento inferior.
2. Qualquer verdade que os gregos tinham foi extraída das Escri
turas. Esse ponto de vista havia sido sugerido por pensadores
judeus e foi assumido por vários apologistas cristãos.
3. As verdades existentes em meio aos gregos vinham de Deus
e, portanto, podiam ser reivindicadas pelos cristãos para uso
próprio. A “pilhagem dos egípcios” (com base em Êxodo
12.33,36) era uma ideia, mais tarde popularizada, para justifi
car a atitude dos cristãos de apossar-se de tudo o que havia de
valor na literatura e filosofia pagãs.
PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 151
Além disso, Clemente enxergava três usos da filosofia para os cris
tãos: (l) desmascarar os erros dos filósofos, (2) deixar o conteúdo da
fé mais preciso e (3) ajudá-los a transformar conhecimentos crédulos
em conhecimentos científicos.
A visão de Clemente sobre a relação entre fé e razão foi descrita
como uma teoria de fe du p la. Um tipo de fé seria a simples aceitação
do ensinamento das Escrituras, o que fornece um tipo imediato de
conhecimento; essa fé, quando demonstrada pela razão (fé racional),
é gnose - um conhecimento não diferente da fé, mas outra espécie de
fé. Clemente alegava a igualdade dessas duas formas de fé, opondo-
-se aos extremos tanto do gnosticismo, que dava valor mais elevado à
gnose, quanto dos crentes que rejeitavam a filosofia.
O significado da posição de Clemente pode ser apreendido em
contraste com as visões de Tertuliano e Orígenes. Tertuliano tinham
uma teoria de fe unica, a qual dava preeminência à fé simples (a bus
ca de demonstração filosófica reduzia o mérito da fé). A “fé única” de
Orígenes era o oposto: a fé racional seria superior à fé simples, tendo
mais mérito.
Em 1958, em um mosteiro perto de Jerusalém, descobriu-se uma
carta alegadamente de Clemente endereçada a alguém chamado Teo-
doro, na qual ele faz referência a um Evangelho secreto de Marcos e in
sere duas citações dessa forma “mais espiritual” de Evangelho, voltada
aos que estão em “busca da perfeição”. Embora ainda seja contestada,
a genuinidade da carta parece ser verificada. As citações registram
conteúdos do tipo encontrados em evangelhos apócrifos e gnósticos,
talvez com mais pretensão à autenticidade do que a maioria dessas
histórias.
O nde esse material se encaixa na transmissão do Evangelho canô
nico é incerto. Teria sido ele (1) uma forma primitiva do Evangelho
que foi posteriormente editada, talvez por má utilização herética; (2)
uma forma interpolada do Evangelho original; ou, como Clemente
acreditava; (3) uma das duas edições publicadas pelo próprio Marcos?
O manuscrito da carta é rompido no ponto onde Clemente ofe
rece sua interpretação dos episódios em oposição ao uso das passa
gens por hereges carpocracianos.
152 HISTÓRIA DA IGREJA
D. Orígenes em Alexandria e Cesareia
Orígenes foi o escritor cristão mais prolífico antes de Agostinho.
Ele foi um pioneiro no estudo e interpretação formais do texto bíbli
co, um pensador criativo com uma memória prodigiosa, que conti
nuou atuando como fermento na teologia cristã por séculos.
Orígenes nasceu em uma família cristã na cidade de Alexandria
em cerca de 185. Sabemos algo sobre sua vida e particularidades de
sua juventude, porque Eusébio de Cesareia, membro da escola orige-
nista, preservou muitas informações no sexto livro de sua História da
Igreja. Diz-se que o orgulhoso pai de Orígenes, Leônidas, agradecido
“por ser pai de tal rapaz”, aproximava-se dele durante o sono, desco
bria seu peito e beijava-o com reverência, “como se um espírito divino
estivesse guardado ali”.
A perseguição sob a liderança de Septímio Severo (202-203) fez
de Leônidas um mártir, e Orígenes foi poupado de uma consequên
cia semelhante, porque sua mãe escondeu suas roupas a fim de que o
jovem recatado não saísse de casa. Ele se contentou em escrever uma
carta ao pai na prisão, exortando-o a não ceder aos perseguidores por
preocupação pela família. Orígenes recebeu uma boa educação, não
apenas os estudos literários básicos do m undo grego, mas também a
filosofia, estudando na mesma atmosfera da qual emergiu o neopla-
tonismo.
Orígenes sustentava a família com o ensino secular, mas, aos 18
anos, foi colocado acima dos instrutores de ensino pelo bispo De-
métrio; assim, dedicou-se a estudar as Escrituras, vendeu seus livros
seculares e viveu modestamente com o lucro. Por ter muitas alunas,
Orígenes, seguiu Mateus 19.12 literalmente: Castraram a si mesmos
por causa do Reino dos céus, um ato mantido em segredo, com êxito,
por algum tempo. Patronos abastados passaram a colaborar com os
estudos de Orígenes; primeiro, uma senhora rica e, depois, Ambró-
sio, a quem Orígenes converteu do valentianismo.
Os estudos de Orígenes progrediam, bem como sua fama como
professor, e ele era convidado a muitas viagens para discursar e ensi
nar, incluindo uma audiência com Júlia Mameia, a mãe do imperador
Alexandre Severo. Em uma viagem à Palestina, os bispos convidaram-