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Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

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Published by , 2018-01-04 18:16:27

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO - DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 253

oposição alegando que não era canônico para um bispo transferir-se
para outra sé. Ele assumiu o comando da igreja em Nazianzo até 384,
quando foi novamente viver em retiro até a sua morte.

Gregório é mais conhecido por suas Orações, especialmente as
cinco orações teológicas, nas quais ele, clara e convincentemente,
estabeleceu publicamente a compreensão dos Capadócios acerca da
Trindade. D entro de um Deus, três individuações podem ser distin-
guidas de acordo com seus modos de existência. Essas distinções são
derivadas da linguagem bíblica: o Pai não é gerado, o Filho é gerado,
e o Espírito Santo procede do Pai através do Filho.

Gregório foi menos bem-sucedido como poeta, usando formas
clássicas com um conteúdo cristão, mas seus poemas autobiográfi­
cos são m uito reveladores. Suas cartas também reproduzem o estilo
clássico.

C. Gregório de Nissa

Nascido no Ponto, no início dos anos 330, Gregório foi nome­
ado por Gregório Taumaturgo, cuja vida, mais tarde, escreveria. Sua
avó Macrina, mãe Emília e irmã Macrina foram influências formati-
vas em casa, e sua educação veio principalmente de seu irmão mais ve­
lho, Basílio. Ele foi nomeado leitor na igreja, tornou-se professor de
retórica e provavelmente casou-se. O exemplo de Basílio como bispo
e a morte da sua mãe podem ter voltado Gregório para uma vida mais
comprometida com a igreja.

Instruído em filosofia, retórica e medicina, Gregório de Nissa é
lembrado como o teólogo filosófico dos Capadócios, efetuando uma
síntese da filosofia grega e da teologia cristã. Seu platonismo cristão
transformou a filosofia de acordo com pressupostos cristãos.

Basílio nomeou Gregório bispo de uma pequena cidade de Nissa
em 372. Gregório relutantemente aceitou a posição, adequadamente
portanto, visto que mostrou uma falta de firmeza em lidar com pes­
soas e uma inaptidão para a política da igreja. Sua negligência nos
assuntos financeiros deu ocasião aos Arianos para cobrarem desvio
de fundos da igreja, e ele foi deposto por um sínodo em 376 e banido
pelo imperador Valente.

254 HISTÓRIA DA IGREJA

Recordado juntamente com outros bispos banidos por Graciano

em 378, Gregório voltou para uma recepção triunfante feita por sua

igreja. Seu principal período de atividade literária veio depois da mor­

te de Basílio, em 379. Gregório assistiu ao Concilio de Constantino-

pla em 381, e o imperador Teodósio nomeou-o dentre aqueles bispos

cuja doutrina sobre a Trindade deveria ser concordada por todos.

Além de suas contribuições ao pensamento trinitário, Gregório

de Nissa é importante por fazer da distinção entre o Criador e a cria­

tura a base de sua metafísica, por sua distinção entre o que a humani­

dade é por natureza e o que pode ser por participação na vida divina,

por sua clara afirmação da infinitude de Deus (sua mais distinta con­

tribuição ao pensamento cristão) e por seu desenvolvimento da teoria

do resgate da expiação.

De acordo com a explicação de Gregório

sobre a expiação, o diabo, depois de ver os

“Pois a perfeição da milagres de Jesus Cristo, escolheu-o como o
natureza humana consiste preço de resgate para a humanidade. O véu
talvez no seu crescimento da humanidade impediu o diabo de reconhe­
na bondade” (Gregório de cer a divindade de Cristo; assim, o diabo não
Nissa, Vida de Moisés 1.10). foi capaz de mantê-lo em seu poder. O enga­
nador foi, portanto, enganado, e a justiça de

Deus foi estritamente provida.

Gregório de Nissa influenciou muito a teologia moral e espiritu­

al da igreja Oriental. Ele definiu a perfeição na vida espiritual como

um progresso contínuo na virtude. O progresso permanente na per­

feição é o corolário humano do infinito divino. A perfeição não pode

ser alcançada apenas pela vontade e pelo esforço humanos. Em vez

disso, a graça divina vem para ajudar e completar os esforços morais

humanos.

A relação entre o cristianismo patrístico e a cultura grega, for­

mulada geralmente como a questão da Helenização do Cristianis­

mo, é tipificada nas interpretações de Gregório de Nissa. Gregório

conhecia diretamente a tradição platônica devido à familiaridade

com os escritos de Platão e Plotino e, talvez, ainda mais por influên­

cia de Porfírio, e conhecia o estoicismo de Posidônio e os elemen­

tos do estoicismo que haviam sido absorvidos pelo Neoplatonismo.

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -.DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 255

Essa circunstância levou à visão de que Gregório era um Heleniza-
dor do Cristianismo.

O consenso crescente da erudição contemporânea, no entanto,
é que a teologia de Gregório faz dele um dos cristianizadores mais
bem-sucedidos do Helenismo. Poucos pensadores cristãos conhe­
ciam a filosofia grega tão bem quanto ele. Menos ainda transcende-
ram-na tão completamente como ele. Como outros pensadores da
Capadócia, Gregório pensava que a filosofia grega poderia contribuir
positivamente para a exposição da doutrina cristã.

D. João Crisóstomo

João nasceu por volta de 347, em Antioquia. Sua mãe, Antusa,

perdeu o marido quando tinha vinte anos eJoão era uma criança. Ela

renunciou casar-se outra vez e dedicou-se ao seu filho. Ela forneceu-

-Ihe a melhor educação possível, tanto na Escritura como nos clássi­

cos. Em relação a esse último, João estudou sob o mais famoso retó­

rico pagão da época, Libânio, que elogiou

Antusa dizendo: “Deus, que mulheres têm

esses cristãos!”. “Tudo feito por Deus

Batizado aos dezoito anos, João tor­ está cheio de justiça

nou-se um leitor na igreja. Ele foi atraído e benignidade. Se ele

para a vida ascética e passou dois anos em houvesse exigido somente

uma caverna na montanha, uma experi­ justiça, então tudo teria

ência que arruinou sua saúde. De volta a sido destruído; mas se

Antioquia, foi ordenado diácono em 381 tivesse empregado somente

e presbítero em 386. Na última função, bondade amorosa, então a

serviu como pregador na igreja principal maioria das pessoas ficaria

da cidade até 397. indiferente. Variando sua

Ao longo do tempo, João estabeleceu abordagem para a salvação

sua fama como o maior dos oradores e ex­ dos seres humanos, ele
positores de púlpito cristão. Sua designa­ empregou ambos para
ção (“Boca de Ouro”) tem sido atual des­
de o sexto século. Seu método típico era sua correção” (João
pregar por meio de um livro bíblico, uma Crisóstomo, Comentário
passagem de cada vez, transmitindo, pri­
meiro, uma exposição dos principais pon- sobre o Salmo 111.6
sobre o Salmo 111.7).

256 HISTORIA DA IGREJA

tos no texto e, depois, voltando através dele com uma aplicação a seus
ouvintes. Ele tinha um dom para ver o significado do texto e fazer
uma aplicação imediata e prática do mesmo.

C onstantinopla frequentemente procurava em A ntioquia seus
líderes eclesiásticos e teológicos, e, em 397, João foi eleito bispo de
C onstantinopla e consagrado a esse ofício em 398. Isso provou ser
um grande infortúnio pessoal. Seus esforços para elevar o tom moral
da capital encontraram forte oposição. Depois que ele teve seis bis­
pos depostos, seus inimigos uniram forças: a imperatriz Eudóxia e o
clero local, que se ressentiam de sua pregação contra o luxo, e Teófi-
lo, bispo de Alexandria, que estava com ciúmes de um Antioquiano
na capital.

Q uando Teófilo foi convocado para responder a acusações de al­
guns monges, e Crisóstomo presidiu o tribunal, Teófilo resolveu des-
truí-lo. Trinta e seis bispos se reuniram no “Sínodo do Carvalho”, fora
de Calcedônia. Crisóstomo recusou-se três vezes a responder à sua
convocação para aparecer, e o Sínodo declarou-o deposto em 403. O
imperador aceitou a decisão e exilou João. O povo de Constantinopla
revoltou-se, e o imperador, assustado com a reação do povo, chamou
João de volta no dia seguinte.

A pregação de Crisóstomo irritou Eudóxia novamente. O texto
do Evangelho sobre a decapitação de João Batista ocasionou o co­
mentário não diplomático de Crisóstomo: “Uma vez mais Herodias
exige a cabeça de João em uma bandeja”.

Os inimigos de Crisóstomo buscaram seu banimento por reto­
mar ilegalmente os deveres de uma sé de onde havia sido deposto
canonicamente. O argumento deles: um sínodo de bispos poderia
depor um bispo de sua função; o imperador poderia exilar ou chamar
de volta do exílio, mas não poderia colocar uma pessoa de volta em
sua função. Crisóstomo, no entanto, não reconheceu a jurisdição dos
bispos.

O imperador ordenou, então, que Crisóstomo cessasse de desem­
penhar funções eclesiásticas, mas ele recusou-se a fazê-lo. Enquanto
ele estava reunindo os catecúmenos para o batismo, soldados apare­
ceram e expulsaram-no da igreja. A violência dos soldados acabou
manchando as águas batismais com sangue.

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO;': DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 257

Crisóstomo permaneceu no exílio de 404 até a sua morte, em
407. Em 438, seus restos mortais foram trazidos de volta a Constan-
tinopla e enterrados na Igreja dos Apóstolos.

E. Efrém da Síria

O escritor clássico da igreja de língua Siríaca é Efrém (c. 306-
373), de Nísibis e, depois, Edessa, onde ele fundou uma escola e for­
mou um coral feminino. Sua obra em prosa inclui comentários sobre
os livros bíblicos, nomeadamente no Diatessarão de Taciano, sermões
e refutações dos hereges, mas ele é especialmente honrado por suas
homilias métricas e seus hinos, pelos quais ele é chamado “A harpa do
Espírito Santo”.

"Quem, Senhor, pode contemplar seu esconderijo
que veio à revelação? Sim, a sua obscuridade
chegou à manifestação e notificação; seu Ser oculto
saiu ao aberto, sem limitação.
Seu eu impressionante veio às mãos
daqueles que o prenderam.
Tudo isso aconteceu com você, Senhor,
porque você se tornou um ser humano.
Louvores àquele que o enviou.
Mas, quem não temerá
porque, apesar de sua Epifania ter sido revelada
e, assim, também o seu nascimento humano,
seu nascimento do Pai permanece inalcançável;
isso tem confundido todos aqueles que o investigam."

(Efrém, o Sírio, H ino so b re F é 51.2-3,
tradução de Sebastian Brock)

Efrém representa basicamente um Cristianismo Semítico Pré-
-Niceno (mas antiariano), de tal forma que todos os ramos do Cris­
tianismo Siríaco posterior voltaram-se para ele como um professor
espiritual. Traçando suas imagens da natureza e da Bíblia, a rica e
sugestiva linguagem de Efrém descobre toda a realidade como uma

258 HISTÓRIA DA IGREJA

provisão de símbolos da verdade espiritual. Ele integrou o compro­
misso teológico com a espiritualidade, a fé ortodoxa com a humilda­
de adoradora. Seus hinos influenciaram os hinos bizantinos através
de Romanus Melodus (sexto século).

Em uma época quando teólogos gregos dividiam igrejas sobre
terminologia para descrever a Divindade, Efrém defendeu o mistério
essencial de Deus. Em vez de usar a filosofia, ele encontrou na poesia
(mais profunda, se menos precisa) um veículo mais adequado para
expressar o discurso teológico.

F. Ambrósio

Ambrósio é um doutor da igreja em especial referência ao seu

ensino sobre a relação apropriada entre igreja e estado.

Um grego na educação, Ambrósio também contribuiu para a ex­

posição ocidental da Trindade e para a teologia moral.

N(ascido em Trier, Ambrósio era o filho do prefeito pretoriano de

Gália. Estudou direito e foi nomeado governador da Emília-Ligúria,

em Milão. Em 374, foi eleito bispo de Mi-

lão, embora um catecúmeno não batizado,

“O imperador, de fato, por meio de um conjunto de circunstâncias

está dentro da igreja, não sem precedentes.

acima da igreja” (Sermão Na época, havia uma forte disputa entre

contra Auxêncio 36). as facções Ariana e Católica sobre a eleição

--------------------------- de um novo bispo. A história conta que,

quando Ambrósio pisou no púlpito para res­

taurar a ordem, uma criança, vendo-o na posição geralmente ocupada

pelo bispo, gritou: “Ambrósio, Bispo!”. A congregação, lembrando-

-se de que “um menino pequeno os guiará”, considerou a voz como a

vontade de Deus. Ambrósio precisou ser convencido, mas finalmente

ele também reconheceu o chamado de Deus, recebeu o batismo do

clero católico e, uma semana mais tarde, foi ordenado bispo.

Ambrósio esteve envolvido em quatro conflitos com o governo

romano.

1. Em 384, o senado pediu a restauração do altar dedicado à

deusa Vitória que o imperador Graciano tinha removido dois

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 259

anos antes. Ambrósio influenciou o imperador Valentiniano
II a rejeitar a restauração desse símbolo do paganismo para a
sede tradicional do governo romano.

2. Em 385—386, Ambrósio manteve, com sucesso, aposse orto­
doxa de uma basílica em Milão, que os arianos, por instigação
da mãe de Valentiniano II, Justina, solicitaram para seu uso.
Ambrósio organizou um “protesto” pelos ortodoxos, cujos es­
píritos ele manteve cantando hinos até que as tropas do impe­
rador retiraram-se.

3. Em 388, uma sinagoga judaica foi destruída por tumultos cris­
tãos, e o imperador Teodósio exigiu que os cristãos a recons­
truíssem. Ambrósio opôs-se, com êxito, a essa ordem argu­
mentando que o dinheiro cristão não poderia ser usado para
construir uma sinagoga judaica.

4. Em 390, Teodósio ordenou o massacre de 6 mil a 7 mil cida­
dãos de Tessalônica por sedição depois que uma revolta resul­
tou no assassinato de vários funcionários imperiais. Q uando
Teodósio apareceu na igreja em Milão, Ambrósio recusou-lhe
a comunhão até que ele fizesse penitência pelas execuções. Te­
odósio, ao contrário de seus antecessores, já estava batizado e,
portanto, sujeito à disciplina da igreja.

Ambrósio alcançou o sucesso que fez porque tinha a população
cristã atrás dele, e os próprios imperadores eram devotados cristãos
(além disso, Graciano e Valentiniano II eram jovens). Foi por meio
da fé pessoal dos imperadores que Ambrósio influenciou a política
do estado. Ele tinha uma visão espiritual da igreja e não visava uma
igreja-estado, mas esse foi praticamente o resultado.

As decisões de Ambrósio alcançadas com um motivo religioso
parecem intolerantes agora, especialmente quanto à reconstrução da
sinagoga. Menos intolerante é o episódio do altar da deusa Vitória,
pois a questão não era a tolerância religiosa, em si, mas um símbolo
do paganismo no centro do governo.

Ambrósio formulou uma teoria dos dois poderes — civil e eclesi­
ástico — , mas, em suas ações, ele representou uma autoridade da igre­
ja sobre o estado, e isso se tornou a significação de seu precedente na
Idade Média. No entanto, Ambrósio tinha uma concepção diferente

260 HISTÓRIA DA IGREJA

da igreja em relação àqueles da Idade Média que olhavam para o seu
exemplo, pois ele não buscava poder político para a igreja.

H á outras coisas notáveis na carreira de Ambrósio. Seu tratado
Sobre osDeveres do Clero foi uma obra influente sobre o papel pastoral
dos sacerdotes. O título D e officiis foi emprestado de um trabalho so­
bre ética por Cícero, mas Ambrósio deixa claras as diferenças cristãs.
O sacerdos (ainda que geralmente o bispo) era também u m prophetes
(profeta) que devia repreender enquanto guiasse o povo em sua con­
duta moral. Seu De Fide foi uma importante contribuição para a dou­
trina latina da Trindade. Na verdade, a posição de Ambrósio como
bispo de Milão tornou-o mais importante do que o bispo de Roma na
vitória da igreja sobre o paganismo e o arianismo no Ocidente.

Ambrósio era um pregador capaz, cujas exposições da Escritura
tiveram um papel na conversão de Agostinho, algo que, por si, teria
concedido a ele um lugar na história da igreja. Ele promoveu o cul­
to das relíquias e foi um dos primeiros a transferir as relíquias para
um lugar debaixo do altar de uma igreja. Ele também promoveu o
ideal ascético para virgens e o clero. Sua atividade litúrgica incluiu
a composição de hinos e a introdução do canto antifonal grego no
Ocidente.

Suas obras Sobre os Mistérios e Sobre os Sacramentos (sua autoria
deste último, embora questionada, é admitida) são importantes na
história litúrgica para os ritos de iniciação cristã. Ele é uma testemu­
nha inicial da teoria metabólica da eucaristia, em que o pão e o vinho
são transformados pela consagração no corpo e no sangue de Cristo.

A tradição do manuscrito atribui a Ambrósio um comentário so­
bre as epístolas de Paulo feito por um escritor anônimo do quarto
século, a quem os estudiosos modernos têm dado o nome de Am-
brosiastro. Esse escritor foi também o autor de uma obra a respeito
de Perguntas sobre o Antigo e o Novo Testamentos transmitido sob o
nome de Agostinho. De suas obras, podemos concluir que ele p ro ­
vavelmente serviu na corte imperial e teve contatos com o Judaísmo.
Ele usou a versão Latina Antiga da Bíblia em vez da nova tradução de
Jerônimo.

Ambrosiastro opôs-se a Dâmaso, bispo de Roma, que procurou
colocar as práticas eclesiásticas em conformidade com o novo papel

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 261

da igreja como uma religião de estado e adotou um estilo de vida cor­
respondente. Em vez disso, Ambrosiastro insistiu em que o bispo de­
veria viver em humildade, não na glória do imperador. Ele também
apontou que, no Novo Testamento, não havia diferença entre um
bispo e um presbítero.

G. Rufino

Nativo de Aquileia, Rufino estudou em Roma e viajou no Orien­
te visitando monges. Juntou-se a Melânia na criação de um mosteiro
duplo, para homens e mulheres, em Jerusalém. Retornando a Aqui­
leia, tornou-se um presbítero, em 399.

A principal contribuição de Rufino foi como tradutor de obras
gregas para o latim: Os primeiros princípios de Orígenes, o Pseudo-
clementino Reconhecimentos, História da Igreja de Eusébio, e outras
obras. Um im portante trabalho original é seu Comentário sobre o
Credo dos Apóstolos.

Rufino foi envolvido em uma amarga controvérsia com Jerôni-
mo sobre a ortodoxia de Orígenes, que Rufino defendeu. Ele teve a
coragem de apontar a dependência anterior de Jerônimo em relação a
Orígenes, um fato que irritou a pele fina de Jerônimo.

H. Jerônimo

Os dois homens acima provocaram a ira de Jerônimo, mas isso
dificilmente os torna distintivos, pois Jerônimo era mal-humorado e
temperamental. Sua história de vida é a de barbáries com associados e
controvérsias sobre questões religiosas da época.

Jerônimo nasceu na Dalmácia, de pais cristãos, que lhe deram
uma boa educação. Ele foi batizado em Roma no final de seus dias de
estudante. Por volta do ano 370, ele fez parte de um grupo ascético
em Aquileia, mas o grupo acabou, e ele foi para o Oriente.

D urante um período de doença em Antioquia, Jerônimo teve
um sonho no qual foi repreendido como “um Ciceroniano, não um
Cristão”. Ele resolveu abandonar seus estudos clássicos e dedicar-se
à escrita cristã, mas a renúncia ao ensino pagão não era tão absoluta

262 HISTÓRIA DA IGREJA

quanto professava, pois seu trabalho continuou a mostrar a influên­

cia dos autores clássicos.

Retirando-se para o deserto como um eremita (.Epístola 22.7),

Jerônimo aprendeu Hebraico. Seus companheiros eremitas, no en­

tanto, não gostaram de sua companhia, então Jerônimo voltou para

Antioquia, onde o bispo da comunidade Nicena, Paulino, ordenou-o

presbítero.
De volta a Roma em 382, Jerônimo foi designado por Dâmaso

para trabalhar em uma nova tradução latina dos Salmos e do Novo

Testamento. O caráter literal e não literário das versões latinas an­

tigas da Bíblia ofendeu muitas pessoas instruídas, e Dâmaso queria

o melhor para a igreja. Jerônimo promoveu o ascetismo, declarando

que “todos os que têm medo de dormir sozinhos devem ter esposas

{Epístola 50.5).
Entre os partidários de Jerônimo, havia um círculo em torno da

rica Paula e de suas três filhas. Os ataques de Jerônimo ao luxo e ao es­

tilo de vida não ascético provocaram a oposição de vários cleros, e sua

decepção com a eleição de Sirício como bispo levou-o a deixar Roma

em 385. Com Paula, ele percorreu a Palestina, e eles estabeleceram-

-se em Belém, fundando mosteiros duplos, para homens e mulheres.

Assim começou seu período mais frutífero de estudo e de escrita.

Embora vivesse na Palestina, Jerônimo permaneceu essencial­

mente um ocidental. Ele queria parecer ortodoxo, mas não se impor­

tava com os detalhes da controvérsia teoló-

---------------------------------- gica Oriental. Ele esperava ser um cristão

“Eu louvo o casamento Cícero, um professor abrangente de cultura

porque traz virgens ao cristã e, alem disso, um monge e um santo,

mundo” (Jerônimo, Embora comprometido com o ideal filosó-

Epístola 22.20). fico e aparente do ascetismo, Jerônimo não

______________________ era realmente um monge no coração. A in­

coerência de seus ideais, como tem sido su­

gerida, chegou às raízes do seu ser, levando-o a um trabalho implacá­

vel e, talvez, explicando algumas das contradições do seu caráter.

Jerônimo foi arrastado para uma série de controvérsias envol­

vendo o ascetismo e as questões eclesiásticas da época, escrevendo

contra: (1) Helvídio, que negou a virgindade perpétua de Maria; (2)

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO - DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 263

Joviniano, que negou que o monasticismo era uma forma superior de
vida cristã; (3) Vigilâncio, que negou o culto dos mártires; (4) Rufi-
no, que apoiou a ortodoxia de Orígenes; e (5) Pelágio, que apoiou a
possibilidade de impecabilidade humana. Em cada caso, as posições
defendidas por Jerônimo, embora com exagero e amarga injúria, aca­
baram prevalecendo na igreja Católica.

É como um homem literário que Jerônimo é lembrado. Sua no­
tável contribuição para o futuro da cristandade Ocidental foi a tradu­
ção latina da Bíblia. Embora não ganhando imediatamente aceitação
geral, ela tornou-se a versão comum e, portanto, é conhecida atual­
mente como a Vulgata.

Ao contrário das versões latinas antigas, que traduziram o Antigo
Testamento da Septuaginta grega, Jerônimo traduziu-o do Hebraico,
dando à sua tradução um valor como um testemunho independente
para o texto hebraico do seu tempo. Seu conhecimento das Escrituras
Hebraicas levou-o a rejeitar os Apócrifos do cânon. Sob pressão dos
seus amigos, ele traduziu (embora apressadamente) alguns dos livros
Apócrifos, dos quais todos vieram a ser incluídos na Vulgata.

Jerônimo fez outras traduções de autores cristãos gregos e escre­
veu uma série de comentários sobre livros bíblicos. Estes basearam-se
fortemente em comentadores gregos anteriores, incluindo Orígenes.
Com o passar do tempo, a interpretação “mística” era cada vez mais
esmagada pela exposição histórica e filológica. Ele empregou tipolo­
gia na interpretação do Antigo Testamento. Ele afirmou que a Escri­
tura não continha contradições e era infalível, mas não desenvolveu
uma hermenêutica própria.

Embora Jerônimo estivesse comprometido com as línguas origi­
nais em que a Bíblia foi escrita, ele reconheceu a responsabilidade
pastoral do intérprete: “Temos a obrigação de expor a Escritura como
é lido na igreja, e ainda não devemos, por outro lado, abandonar a
verdade do Hebraico” (Comentário sobre Miqueias 1.16).

A extensa correspondência de Jerônimo é uma janela em sua
personalidade e sobre a vida e controvérsias da época. Para destacar
algumas das suas cartas: Epístola 15 a Dâmaso ilustra o problema se­
mântico entre Grego e Latim nas discussões trinitárias; Epístola 146,
escrita contra as presunções dos diáconos romanos, atesta a identida­

264 HISTÓRIA DA IGREJA

de original dos presbíteros e bispos no Novo Testamento; Epístolas
107 e 128 dão instrução sobre educação; e Epístolas 22 e 130 prom o­
vem a virgindade.

Vidas de Homens Ilustres de Jerônimo é a primeira história da li­
teratura cristã. As vidas dos monges Paulo, Hilarião e Malco são suas
obras mais polidas do ponto de vista estilístico, mas seu núcleo histó­
rico é mínimo.

Jerônimo escrevia sempre com ênfase. Suas obras foram casuais
(muitas vezes, ele escrevia muito rápido), mas ele era extremamente
erudito (embora grande parte de seu aprendizado fosse de segunda
mão). Ele leu extensivamente e tinha uma memória tremenda; sem
suas obras, m uita informação estaria perdida para nós hoje.

Apesar da sua personalidade — descrita como amarga, vingativa,
vaidosa e inconsistente —, a erudição de Jerônimo deixou séculos fu­
turos em débito com ele.

IV. A IMPORTÂNCIA DA BÍBLIA

O dom ínio dessas figuras e outras a serem notadas nos capítulos
subsequentes, dentro das igrejas grega, latina e siríaca, não deve cegar
o aluno para a centralidade da Bíblia em todos os aspectos da Igreja
primitiva e na teologia e espiritualidade desses homens.

Para quase todos esses líderes, a maior parte dos seus escritos so­
breviventes são comentários sobre livros bíblicos ou homilias prega­
das sobre eles. Suas controvérsias doutrinárias foram argumentadas
em termos de interpretação bíblica. A Bíblia foi importante em todas
as expressões de espiritualidade — inspirando o martírio, guiando a
oração e a meditação, fornecendo uma fonte de sabedoria para asce­
tas e fornecendo temas para a arte.

As Escrituras, especialmente, foram o ponto focal das assem­
bléias litúrgicas, onde grandes segmentos foram lidos. O mais antigo
lecionário que conhecemos foi desenvolvido em Jerusalém no final
do quarto século e início do quinto século, mas, nos séculos seguin­
tes, os textos lecionários foram produzidos em profusão, e são atual­
mente uma das fontes para a crítica textual da Bíblia.

Além disso, todos os Pais da Igreja do quarto século promoveram
o estilo de vida ascético como a forma mais elevada e autêntica da vida

A IGREJA NO QUARTO SÉCULO -DOUTRINA, ORGANIZAÇÃO E LITERATURA 265

cristã, mesmo que eles próprios fossem presbíteros e bispos em vez de
monges. A esse desenvolvimento, passamos agora.

LEITURA COMPLEMENTAR

AYRES, Lewis. Nicaea and Its Legacy. Oxford: Oxford Univer-
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BARNES, Michel. The Power o f God in Gregory ofNyssas Trini-
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Y O U N G , Francês. Frorn Nicaea to Calcedônia: A Guide to the
Literature and its Background. Filadélfia: Fortress, 1983.

Monasticismo,
expansão, vida e culto

A Igreja no quarto século

A abundância de literatura no quarto e quinto séculos faz desse
período um momento conveniente para rever alguns desenvolvimen­
tos importantes do início da história do cristianismo. Esse foi um
tempo significativo em relação ao monasticismo, à expansão missio­
nária, ao vínculo entre o cristianismo e a sociedade romana e a elabo­
ração da liturgia.

I. MONASTICISMO
A. Origens

Na sua expressão monástica, o cristianismo aproxima-se de algu­
mas outras religiões do mundo, mais notavelmente do budismo.

Afluentes do monasticismo cristão incluem o seguinte:

1. Judaico

O judaísmo, embora geralmente não ascético em sua abordagem
à vida, no primeiro século, incluiu algumas idéias ascéticas. Sabemos

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 267

de essênios celibatários e, talvez relacionados a eles, terapeutas, no
Egito, que mantiveram uma separação entre membros masculinos e
femininos. Além disso, alguns profetas do Antigo Testamento, e pos­
teriormente pessoas como João Batista, ofereceram potenciais mode­
los de vida religiosa solitária, similar a uma vida religiosa desabrigada.

2. Pagão

Os pitagóricos eram vegetarianos e exerciam uma vida disciplina­
da que pode ter servido de modelo para os terapeutas. Os gnósticos
normalmente consideravam a matéria algo mau. Alguns cínicos “ne­
garam o m undo” em um protesto intransigente contra as normas da
sociedade.

3. Leste

Os maniqueístas podem ter providenciado os precedentes das
comunidades celibatárias. O mundo helênico também ficou intriga­
do com os relatos dos gimnosofistas (indivíduos sábios nus), homens
santos na índia.

4. Novo Testamento

As palavras de Jesus, como vende tudo o que tens, dá-o aos pobres
(M t 19.21), tiveram grande influência nos círculos monásticos. Jesus
e os Doze tornaram-se modelos de monges ideais. Os Atos Apócrifos
deram destaque ao tema ascético.

5. Secular

Fatores sociais, como a fuga de encargos da sociedade, levaram
os pagãos a retirarem-se para regiões desertas, na fronteira com o vale
do Nilo.

6. Cristão

O ascetismo, em diferentes graus de abnegação (em matéria de
casamento e dieta), tinha sido praticado por alguns cristãos desde os
primórdios da Igreja. Em grande parte, era individual, com a pessoa

268 HISTÓRIA DA IGREJA

vivendo em sua casa com a família ou em aposentos pessoais. Portan­
to, o ascetismo inicial não foi retirado da vida cotidiana.

Em contraste com as práticas ascéticas não ortodoxas (no mar-
cionismo, talvez no encratismo e em algumas formas de gnosticis-
mo), o ascetismo inicial não considerou a matéria um mal. Em vez
disso, adotou a autonegação, como a renúncia ao bem em busca de
uma vida mais elevada e totalm ente dedicada ao ministério religioso.

Muitas mulheres adotaram a vida ascética, algo obscurecido
pelo fato de que a maioria da literatura foi escrita por homens para
homens. Embora as mulheres parecessem ter precedido os homens
em viver uma vida ascética em casa ou em pequenos grupos de apoio
mútuo, os homens, em maior número, fizeram a pausa para retirar-se
para áreas desertas.

No fim do terceiro século, o impulso ascético começou a expres-
sar-se em um grau maior de retirada da sociedade, de início, perto de
cidades e aldeias, mas, depois, para mais longe, em regiões desabita­
das ou escassamente habitadas perto do vale do Nilo.

No Egito, comunidades maniqueístas e melecianas surgiram pelo
menos tão cedo como as comunidades organizadas entre os ortodo­
xos. A conexão dos códices de Nag Hammadi com um mosteiro de
Pacômio sugere que o ascetismo, às vezes, era mais im portante do que
a ideologia de reunir os primeiros ascetas.

Embora as contribuições egípcias para o monasticismo cristão
sejam mais conhecidas, o ascetismo na Síria tinha raízes mais profun­
das e antigas (encratismo, marcionismo e dentro de círculos ortodo­
xos ascetas, vivendo com a população comunitária), com o resultado
de que a igreja síria teve um forte impulso ascético.

Os termos empregados para os ascetas incluíam “monge” (ho­
mem solitário que morava sozinho), “anacoreta” (aquele que se re­
tira) e “eremita” (da palavra usada para uma região deserta). N o uso
comum, monge tornou-se a palavra geral, e os termos anacoreta e ere­
m ita são usados para aqueles que adotam uma vida solitária. O termo
usado para descrever a comunidade é “cenobita” do significado grego
para comum ou vida comunitária”. Ascetas que viviam juntos em
pequenos grupos — seja em cidades, vilas ou aldeias — eram chama­
dos apotaktikoi.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 269

A trajetória ascética no mundo, tomando a forma de uma separa­
ção espacial da sociedade, irrompeu em popularidade no quarto sécu­
lo e deixou um impacto indelével no cristianismo nos séculos subse­
quentes. O fator social mencionado anteriormente afetou os cristãos,
bem como os pagãos. Motivações cristãs, de forma específica, foram
citadas, às vezes, como envolvidas na nova popularidade do ascetis­
mo. Havia também um elemento de protesto, tanto contra a igreja
institucional como contra a crescente secularização da igreja. Além
disso, um esforço foi feito por alguns para encontrarem a verdadeira
vida cristã em termos de autonegação, que era requerida em tempos
de perseguição.

Motivos menos dignos também estavam entre alguns que bus­
cavam escapar das responsabilidades, e seus comportamentos desor­
deiros trouxeram algum descrédito ao movimento, cujos defensores
procuraram corrigir tais expressões de escapismo.

N o quarto século, os defensores do monasticismo trataram-no
não como uma forma especial de vida cristã, como veio a ser mais
tarde, mas como a atualização do que era, em princípio, uma vida
exigida a todos os cristãos.

Nos primórdios do movimento, no entanto, o monasticismo
frequentemente competia com a Igreja e foi, em certo sentido, uma
rejeição dela, até que estadistas eclesiásticos (Atanásio, Basílio de Ce-
sareia, Agostinho) capturaram e domesticaram o impulso monástico
como parte da vida total da Igreja.

Três formas de monasticismo desenvolveram-se no Egito: (1) a
vida eremita, na qual os monges viviam uma vida isolada e austera
de luta espiritual em oração e meditação, representada por Antônio;
(2) o modelo cenobítico ou comunal, no qual um grupo de monges
vivia, orava e trabalhava sob a autoridade de um superior, um modelo
desenvolvido por Pacômio; e (3) uma forma intermediária, na qual
um grupo espontaneamente organizava os pequenos assentamentos
(de 2 a 6 pessoas), em estreita proximidade, guiados p or um líder es­
piritual comum, um tipo pioneiro de Amum.

Semelhante à última foi a laura que se desenvolveu na Palesti­
na. Alcovas ou cavernas para indivíduos estavam localizadas perto o
suficiente que uma pessoa poderia viver como eremita, mas reunida

270 HISTÓRIA DA IGREJA

Edito de Graciano, com os outros para o culto e outras ocasiões.
Valentiniano II e Teodósio Entre os vários que desenvolveram lauras,
Saba(s) (439-532) foi o mais famoso.
I, 380: “É nosso desejo
que todos os povos que Na Síria, um desenvolvimento distinto
da vida eremita estava subsistindo em uma
são governados pela pequena plataforma, no topo de uma colu­
administração da nossa na abandonada. O primeiro desses “pilares
santos” foi Simeão Estilita (c. 390-459), que
clemência pratiquem progressivamente ergueu a altura do seu pi­
a religião que o divino lar para aumentar sua separação entre a terra
apóstolo Pedro transmitiu e as pessoas. Outros estilitas seguiram seu
aos romanos... É evidente exemplo.
que essa é a religião seguida
pelo Pontífice Dâmaso B. Temas do monasticismo
[de Roma] e por Pedro,
bispo de Alexandria, A literatura do monasticismo incluía a
um homem de santidade vida dos monges (por exemplo, Atanásio,
apostólica; ou seja, de Vida de Antônio, e a obra anônima Vida de
acordo com a disciplina Pacômio, preservadas em várias formas), co­
apostólica e a doutrina leções de relatos dos Pais do Deserto (.Apo-
evangélica, acreditamos na phthegmata Patrum), histórias que são, em
única divindade do Pai, do grande parte, biográficas e anedóticas (Palá­
Filho e do Espírito Santo, dio, História Lausíaca, e Teodoreto, Histó­
sob o conceito de igual ria dos monges da Síria) e regras para mostei­
Majestade e Santíssima ros (Basílio de Cesareia e, mais tarde, Bento
Trindade. Ordenamos que de Núrsia).
aquelas pessoas que seguem
esta regra devam adotar o Dessaliteratura, certos temas surgem como
nome de cristãos católicos” interpretações sublimes da vida monástica.
(Codex Theodosianus).
1 . Militar

Os monges eram os soldados cristãos do
quarto século. A imagem do militar tinha sido proeminente em fi­
lósofos populares e foi empregada por Paulo no Novo Testamento e
pelos escritores cristãos pré-nicenos. Como o cristianismo nominal
tornou-se mais comum, e as melhores mentes estavam ocupadas com
teologia, muitos que queriam voltar ao ideal do cristianismo moral

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 271

interpretaram suas lutas espirituais como guerra contra o mal. Alguns
levaram sua missão militar também literalmente e empregaram a vio­
lência contra filósofos e templos pagãos, e até mesmo contra outros
cristãos nos conflitos cristológicos do quinto século.

2. Martirizante

Os monges viam os mártires como importantes protótipos e p ro ­
curavam imitar seu sacrifício para o Senhor. Um novo tipo de perse­
guição estava afligindo a igreja secularizada, exigindo “atletas da pie­
dade” para defenderem a fé. Os monges passaram a ser considerados
sucessores dos mártires, o equivalente espiritual dos confessores em
tempos de perseguição.

3. Demoníaco

A guerra dos monges e sua resistência aos inimigos do cristianis­
mo eram dirigidas contra os “demônios”. Em Justino Mártir, os de­
mônios eram inimigos externos, causando perseguições e heresia. Em
Orígenes, os demônios ainda eram externos, mas trabalhavam dentro
das pessoas, causando as tentações. Em Vida de Antônio, de Atanásio,
em que o elemento demoníaco se destaca, os demônios são internali­
zados, de maneira psicológica, como as próprias tentações.

4. Angelical

Em oposição às forças demoníacas, ou seja, aos anjos caídos que
procuravam tentá-los, os monges viviam de forma angelical. Renun­
ciando às relações sexuais a fim de viverem como os anjos (Lc 20.36),
eles antecipavam a vida no paraíso. Sustentados pela graça, espera­
vam restaurar o paraíso, mantendo as mulheres (e a sexualidade) fora
da vida deles. É claro que as mulheres também assumiram esse estilo
de vida.

5. Gnosticista

Clemente de Alexandria e Orígenes tinham se apropriado de
muitos temas gnósticos para a espiritualidade cristã. Reivindicando
esse legado, muitos monges intelectuais viram sua intensa contem­

272 HISTÓRIA DA IGREJA

plação da verdade eliminar a necessidade de comunhão e disciplina
habituais da Igreja. O objetivo dos monges era “im itar Deus” tornar-
-se ‘como Deus”. Eles procuravam conhecer Deus não só intelectual­
mente, mas também de forma vivencial.

6. Filosófico

A filosofia tornou-se um “m odo de vida”, e a vida “filosófica” foi
igualada ao ascetismo. Autores cristãos desenvolveram essa termino-
logia, para que viver como um filósofo fosse viver de maneira eclesi­
ástica. Um ramo da filosofia grega, em particular, os cínicos, forneceu
um precedente para o estilo de vida dos monges cristãos. Mesmo que
muitos ja tivessem procurado a orientação de filósofos para a vida,
agora muitos cristãos iam ao deserto buscar orientação espiritual dos
novos heróis da fé.

7. Batismal

Tornar-se um monge foi descrito em termos de batismo. Adotar
uma vida monástica era um novo nascimento. O abade (abba) era o
pai espiritual dos monges. (O estilo monástico vivenciado pelo clero
logo começou a incentivá-lo a ser chamado, também, de “Padre” — o
termo Papas ja estava em uso para os bispos de Alexandria e Cartago
por volta do século terceiro.)

8. Escatológico

O tema do paraíso recuperado é proeminente. As alcovas e ca­
vernas dos monges eram chamadas de paraíso. Existia, na Bíblia, uma
atitude ambígua para o deserto. Por um lado, o deserto era um lugar
de testes para Israel e Jesus. Por outro, o deserto foi o tempo de “lua
de mel de Deus com Israel e podería ser interpretado positivamente
na experiência pós-conversão de Paulo.

Então, esse lugar de disciplina, onde as serpentes e os escorpi­
ões representavam o diabo tentador dos santos, também era o lugar
de contemplar a natureza como idílica. Era um lugar, supostamente,
onde não havia desarmonia alguma entre as criaturas e onde até os
animais selvagens reconheciam o verdadeiro santo.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 273

C. Primeiros líderes

Muitos líderes importantes na história primitiva do monasticis-
mo são discutidos em outra parte:

1. Em Vida deAntônio, Atanásio definiu o estilo de vida dos mon­
ges e popularizou o modelo eremita do monasticismo, embora
reservasse suas energias para a causa da ortodoxia doutrinária.

2. Basílio de Cesareia incentivou um monasticismo comunal ba­
seado no amor e integrou o monasticismo à grande Igreja.

3. Jerônimo, um expoente ocidental precoce da vida monástica,
fundou um monastério em Belém e incentivou as mulheres
em sua vida ascética.

4. Agostinho foi influente em fornecer um modelo para combi­
nar a vida monástica com os deveres pastorais.

Antônio não foi o primeiro eremita, pois Atanásio diz que ele to­
mou o conselho de um velho homem que viveu como eremita desde a
sua juventude em uma aldeia próxima. Ainda assim, Antônio tornou-
-se, pela sua retirada para o deserto a leste do Nilo e por sua santidade,
o exemplo para futuros eremitas. Se Vida de Antônio, de Atanásio, é
exato ou não, sua importância está na sua influência. A imitação de
Deus foi o tema básico de Antônio.

IMPORTANTES NOMES NA HISTÓRIA DO MONASTICISMO

Nom e D ata Lugar C o n trib u içã o
A n tô n io 251-356 Egito Modelo dé vida erem ita
Pacôm io 293-346 Egito
Prom oveu o m onasticism o cenobita
Basílio de Cesareia 330-379 C a p a d ó c ia
Regras m onásticas para os m onastérios
gregos e eslavos até o presente

Evágrio do Ponto 345-399 Egito Teologia de O rígenes do m onasticism o
Sim eão Estilita 390-459 Síria
S a b a (s) 439-532 Palestina Pilar santo
M artinho de Tours
316-3 9 7 Gália Lauras
João Cassiano
365-433 Gália Bispo m issionário e fundador de uma
com unidade m onástica episcopal

Apresentou o m onasticism o egípcio ao
o c id e n te

274 HISTÓRIA DA IGREJA

O equivalente de A ntônio entre os cenobitas foi Pacômio, cujos
mosteiros desenvolveram-se pela primeira vez em conexão com al­
deias, como uma extensão das formas anteriores de ascetismo, e só
mais tarde expandiram-se às áreas desérticas e periféricas. A regra de
Pacômio era um pouco rigorosa, mas deu provisão àqueles que que­
riam trabalhar, com mais rigor, na vida ascética.

Outros nomes importantes na história do monasticismo egípcio
incluem Amum, que fundou comunidades semieremíticas, com en-
xovias de eremitas que viviam próximas umas das outras, e Shenoute,
cujos escritos em Sahidic, o dialeto do copta usado no Alto Egito, re­
presentam a forma indígena do monasticismo entre os coptas nativos
no Egito.

Evágrio do Ponto passou sua vida no Egito. Sob o encanto da
teologia de Orígenes, ele carregou algumas idéias de Orígenes jul­
gadas inaceitáveis pela maioria na Igreja, mas tornou-se o teórico
filosófico da vida monástica. Seus escritos espirituais afirmaram uma
afia teologia para o monasticismo que era muito influente, apesar de
suas idéias terem sido rejeitadas.

Enquanto Evágrio era o teórico filosófico do monasticismo, Ba-
sílio de Cesareia, na Capadócia, era o teórico prático que deu organi­
zação institucional ao monasticismo grego. Bastante comuns eram os
monastérios duplos de homens e mulheres na comunidade sob uma
liderança, mas com quartos separados para ambos os sexos. |A irmã
mais velha de Basílio, Macrina, foi a verdadeira criadora do que é co­
nhecido como monasticismo basiliano.

Assim como Jerônimo era um campeão do monasticismo oci­
dental que foi para o leste, também João Cassiano era um oriental
que foi para o oeste (veja o capítulo 14). Conferências e institutos de
Cassiano trouxeram a sabedoria e os ideais dos monges egípcios para
o sul da Gália. Ele pensou na vida cenobita como um treinamento
para a vida espiritual mais elevada do eremita. Bento de Núrsia (sex­
to século) discordou sobre essa avaliação do eremita. Por outro lado,
escritos de Cassiano tiveram influência suficiente para afirmar que, se
Benedito é o pai do monasticismo ocidental, então Cassiano é o avô.

M artinho de Tours foi um dos primeiros seguidores ocidentais
do monasticismo. Após sua conversão, ele evangelizou ao norte da

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 275

Gália e tornou-se uma influência im portante para os monges britâ­
nicos. Depois de tornar-se o bispo de Tours, ele continuou sua vida
monástica, vivendo na periferia da cidade e, portanto, definiu um
exemplo de vida monástica clerical. M artinho exemplificou o impor­
tante papel que os monges passaram a desempenhar em missões, já
que muitos se tornaram missionários itinerantes.

Um exemplo oriental da influência dos monges na evangeliza-
ção foi Simeão Estilita, que se tornou tão famoso que multidões
saíam para procurar seus conselhos, e houve muitas conversões de
pagãos.

II. EXPANSÃO MISSIONÁRIA NO QUARTO E
QUINTO SÉCULOS

O quarto e quinto séculos proveram um dos períodos significa­
tivos na história das missões cristãs. Especialmente im portante para
a história do ocidente foi o trabalho missionário de Úlfilas entre os
godos, uma história que será reservada para o capítulo 15.

Embora, muitas vezes, tenha sido realizado com a bênção dos
bispos, o trabalho missionário no quarto século nã(j) foi oficialmen­
te organizado e dirigido pela autoridade eclesiástica. O movimento
missionário foi mais espontâneo e resultou da iniciativa de cristãos
individuais em circunstâncias muito especiais.

Uma vez que a expansão ocidental da fé na Irlanda e na Escócia
será discutida posteriormente (capítulo 18), a apresentação a seguir
traçará sua expansão geográfica oriental além das áreas de línguas gre­
ga e latina, bem como fora dos limites do Império Romano.

A. Síria

O cristianismo siríaco surgiu relativamente cedo dentro das fron­
teiras do Império Romano. Traduções siríacas das partes do Novo
Testamento estavam presentes no segundo século, mas essas versões
siríacas antigas foram revistas e, eventualmente, substituídas pela
Peshitta, associada ao nome de Rábula, bispo de Edessa (411-435),
que a apoiou. O cristianismo siríaco espalhou-se pelas fronteiras do
dom ínio romano e continuou vital por séculos.

276 HISTÓRIA DA IGREJA

Uma lenda alegou que Addai, enviado pelo apóstolo Tomé, con­
verteu o rei Abgar de Osreona, cuja capital era Edessa. A história
recuou para os tempos apostólicos o pedido de conversão de Abgar
VIII (177-212), supostamente o primeiro rei cristão. Edessa foi o
primeiro centro do cristianismo siríaco, já na segunda metade do se­
gundo século, mas logo seguido de Nísibis.

D urante o quarto século, uma cultura literária siríaca floresceu.
O primeiro grande escritor foi Afraates {Aphraates, em latim, no iní­
cio do quarto século), conhecido como o “sábio persa”, que escreveu
ensaios sobre a doutrina e a prática cristã, muitos dos quais tratam de
pontos em questão com os judeus. O maior representante do cristão
siríaco é Efrém (capítulo 11).

O cristianismo siríaco apresentou as seguintes características:
1. Ênfase em escolas — estabelecimentos de ensino, talvez dan­

do continuidade ao propósito judaico na educação religiosa e
treinando especialmente o clero, mas outros também. /

2. Impulso missionário — cristãos siríacos levaram a fé à Lídia
(como cedo é contestado) e, eventualmente, à China e a m ui­
tas regiões pelo caminho (capítulo 17).

3. Ascetismo — o celibato foi altamente valorizado. Entre os
“Filhos e Filhas da Aliança” ou “Aliançados”, pessoas solteiras
foram dedicadas a várias formas de serviço à Igreja. Ainda as­
sim, um clero casado (inclusive bispos) era permitido.

4. Separação doutrinária — devido a razões teológicas, políticas
e geográficas, a maioria dos sírios e aqueles influenciados por
eles seguiram uma cristologia diferente da maioria das igrejas
gregas e latinas (capítulos 13 e 16).

B. Pérsia

Cristãos de língua siríaca logo espalharam a fé na M esopotâmia
e na Pérsia. Q uando a dinastia sassânida derrubou o povo parto por
volta do ano 225, havia um número de congregações cristãs na Pérsia.
Os sassânidos fizeram do zoroastrismo a religião de Estado, mas os
cristãos, perseguidos pelo adversário persa de longa data, o Império
Romano, apreciavam a paz.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 277

Q uando C onstantino abraçou o cristianismo e, mal aconselha­
do, escreveu ao imperador persa em nome dos cristãos, a lealdade dos
cristãos tornou-se suspeita. Eles não reconheciam a religião oficial,
mas pertenciam à religião agora favorecida pelo inimigo romano.

A perseguição aos cristãos persas começou em 339 e durou 40
anos, produzindo mais mártires e menos apostasia do que as perse­
guições romanas dos três séculos anteriores. O historiador cristão So-
zomeno, do quinto século, alegou que os nomes de 16.000 mártires
eram conhecidos.

O utro período de perseguição começou em 420, mas, em 424,
um sínodo de bispos declarou sua independência da jurisdição dos
bispos romanos e gregos e chegou a um acordo de trabalho com o
governo.

Já em 410, um sínodo em Selêucia-Ctesifonte havia reconhecido
seu bispo como líder de toda a igreja persa (o título “católicos” esteve
em uso até ao fim do quinto século).

C. Armênia

A Armênia foi o primeiro país como nação a aceitar o cristianis­
mo. Em um padrão a ser seguido em muitos lugares mais tarde, foi
o trabalho de um único grande homem — nesse caso, Gregório, o
Iluminador — que converteu o rei (Tirídates III, m. 314). O cristia­
nismo então se espalhou do rei e da aristocracia para baixo.

A igreja foi organizada em torno de uma única sede, agora co­
nhecida como Echmiatsin, ocupada por Gregório e depois por seus
descendentes. O titulo católicos” para essa sede da igreja na Armê­
nia tem sido usado de maneira oficial desde o quinto século. O bispo
Nerses (339-373) aprofundou a vida religiosa do país.

Durante o quinto século, com o incentivo dos católicos Sahak,
Machtots (Mesrob) e seus discípulos (nomeadamente Eznik, que es­
creveu contra as seitas), desenvolveu-se um alfabeto escrito para o idio­
ma armênio e estabeleceu-se uma importante escola de literatura cristã.

O impulso para isso foi a tradução da Bíblia, realizada a partir do
sírio, por volta de 415, e do grego, por volta de 435. O trabalho mis­
sionário acompanhou, muitas vezes, a tradução das Escrituras, e, para
os povos sem um idioma escrito, isso exigiu a criação de um alfabeto.

278 HISTÓRIA DA IGREJA

EXPANSÃO MISSIONÁRIA

Lugar ou povo Missionário Data
Edessa, SíriaOriental Addai (?) Segundo século

Pérsia Por volta do terceiro século

Armênia Gregório, olluminador Fimdo terceiro século - início
do quarto século

Geórgia Nino c. 330
Etiópia Frumêncio Quarto século
Godos Úlfilas c. 311-383
Escócia Niniano c. 360-432

Irlanda Patrício m. c. 460

D. Geórgia

A região do Cáucaso, incluindo a Geórgia, foi evangelizada da
Armênia, e Machtots foi creditado também com a criação do alfabe­
to georgiano, tornando possível uma literatura cristã nacional. Ha­
via cristãos na Geórgia já no terceiro século, e a corte real aceitou o
cristianismo no quarto século.

A conversão da terra foi devido aos milagres e às virtudes de
Nino (c. 330), uma escrava cristã da Capadócia que curou a rainha
Nana de uma doença grave. Sua conversão foi seguida de rei Mirian.
A aderência à tradição grega era mais cultural do que um movimen­
to doutrinário. Conexões próximas com Jerusalém também foram
mantidas.

A Bíblia foi traduzida para georgiano no quarto e quinto séculos,
mas com forte influência ou do siríaco ou do armênio, ou de ambos.
Os “padres sírios”, no sexto século, fundaram comunidades monásti­
cas no modelo siríaco.

Desde o sexto século, a igreja georgiana tem sido uma igreja na­
cional independente, cujos católicos residem em Tbilisi. O santo pa­
droeiro é George, mas não porque o nome dele tem alguma conexão
com o nome do país.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 279

E. Etiópia

Dois jovens de Tiro, Frumêncio e Edésio, foram os únicos sobre­
viventes de uma viagem que conheceu o desastre no mar vermelho
na costa da Etiópia (ou Abissínia). Com o escravos, foram levados a
Axum, a capital. Eles ocuparam altos cargos e foram responsáveis pela
educação de crianças da corte real.

Q uando autorizados a voltar para casa, Edésio voltou para Tiro,
mas Frumêncio foi para Alexandria e solicitou que um bispo fosse
enviado à Etiópia. Atanásio assim ordenou, e ele voltou para Axum,
que ainda é a capital eclesiástica da igreja etíope, embora já não seja
mais a capital política do país. O rei Ezana foi batizado antes de 350.

Os “Nove Santos”, monges de origem possivelmente siríaca que
chegaram no fim do quinto século, difundiram o cristianismo entre
a população e promoveram o monasticismo, que manteve uma influ­
ência dominante no cristianismo etíope.

Em algum momento, tradições associadas à história judaica tor­
naram-se influentes, incluindo o pedido de posse da arca da aliança
do templo em Jerusalém.

A língua nacional, o ge ez, havia desenvolvido uma forma de es­
crita derivada de um alfabeto árabe do sul. É a única língua semítica
que normalmente toma nota das vogais e escreve-se da esquerda para
a direita. A tradução da Bíblia foi concluída entre o quinto e sétimo
séculos, e surgiu uma literatura cristã nacional característica da cris-
tianização de cada uma dessas terras.

A igreja etíope tem uma definição mais ampla do cânon das Es­
crituras do que outras igrejas, contando com 81 livros em seu cânon,
que inclui escritos judaicos pseudoepígrafos e trabalhos cristãos da
ordem da Igreja.

O ge ez continua como a linguagem litúrgica, mas tem sido subs­
tituído, hoje, pelo aramaico como a língua falada.

III. VIDA CRISTÃ E SOCIEDADE

O crescimento constante da Igreja dentro do Império Romano
atingiu seu clímax no quarto século e início do quinto. O quarto sé­
culo viu o cristianismo tornar-se a religião oficial do mundo romano.

280 HISTÓRIA DA IGREJA

O processo de cristianização da Europa foi lento e, antes da conclu­
são, recebeu o revés das invasões bárbaras do quinto século e subse­
quentes.

Camponeses da área rural do império e sua aristocracia refinada
— esses extremos opostos da escala social eram, tradicionalmente, os
elementos mais conservadores da sociedade — ofereceram maior re­
sistência ao cristianismo. Mas, de forma constante, ao longo do tem­
po (muitas vezes, estendendo-se para o quinto e sexto séculos), eles
foram impregnados pela nova religião.

As estátuas dos deuses foram demolidas, desfiguradas ou abando­
nadas. Os templos foram queimados, convertidos em igrejas ou dei­
xados como espólios para novos projetos de construção. Divindades
pagãs e locais sagrados viram suas funções e seus rituais serem toma­
dos por cerimônias e santos cristãos. Mais uma vez, a “cristianização”
de práticas pagãs foi tão suave que a Igreja substituiu o santuário pa­
gão sem a interrupção na continuidade da vida de um determinado
distrito. Festivais pagãos começaram a desaparecer ou a serem substi­
tuídos por homólogos cristãos.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 281

Gradualmente, ocorreu uma cristianização do espaço e do tem­
po. Para muitos, no entanto, a velha mentalidade pagã continuou a
persistir. Um estudioso (A. D. Nock) descreveu o resultado como “a
velha empresa [a velha religião] fazendo a mesma coisa, no mesmo
local, apenas sob um novo nome e nova gestão”.

A. Apoio imperial do cristianismo

Constantino começou uma política de favorecimento imperial
para o cristianismo (veja mais no capítulo 10), algumas de suas m edi­
das tiveram ramificações sociais. N o ano 318, ele perm itiu que igre­
jas recebessem legados. Por deferência, parece que, para os cristãos
ascetas, Constantino revogou a legislação de Augusto (raramente
cumprida), exigindo casamento. O cuidado dos órfãos foi deixado
para a Igreja. Os emblemas cristãos começaram a aparecer em moe­
das e em outros lugares oficiais. A legislação antipagã era rara, mas a
haruspicy confidencial (tomada de presságios) foi proibida em 319.
Constâncio II assumiu uma posição oficial mais vigorosa contra o
paganismo, proibindo todo o sacrifício pagão em 341 e ordenando o
fechamento dos templos em 356, mas suas medidas não foram refor­
çadas uniformemente.

Juliano procurou reverter a situação, revogando os privilégios
dos “galileus” e restaurando-os do paganismo. Em seus esforços para
remover os cristãos de posições de privilégio, proibiu-lhes de ensinar
literatura pagã, que era a base do currículo educacional e do caminho
para o avanço. Apolinário de Laodiceia foi além daqueles que luta­
ram pelo direito cristão de ensinar literatura pagã com uma interpre­
tação cristã. Em associação com seu pai, que tinha o mesmo nome,
Apolinário reescreveu alguns dos livros bíblicos em métrica e estilo
clássicos, a fim de proporcionar um currículo alternativo.

Joviniano, Valentiniano e Valente relegaram o paganismo à sua
posição sob Constantino, mas não o molestaram.

Graciano (375-383), no ocidente, renunciou o título de Pontífi­
ce Máximo, descontinuou subsídios estatais de templos pagãos, con­
fiscou as receitas dos sacerdotes pagãos e aterrou a propriedade dos
templos e removeu o altar da vitória do Senado em Roma.

282 HISTÓRIA DA IGREJA

Com a mesma severidade, agiu Teodósio (379-395), sob a quem
veio o clímax da legislação imperial, tornando o cristianismo a religião
oficial do Império Romano. Além de seu edito de 380, estabelecendo
a fé dos bispos de Roma e Alexandria como o padrão da ortodoxia
oficial, e o seu edito de 381, privando os hereges de seus lugares de
culto e proibindo suas assembléias de exploração em cidades, ele bus­
cou a supressão do paganismo. Seus decretos de 391-392 proibiam o
culto pagão, mesmo privado. Mais tarde, imperadores renovaram as
leis contra o paganismo, mostrando que este não estava morto.

Os judeus também caíram sob as medidas repressivas dos impe­
radores cristãos. Constantino, em c. 335, ordenou a libertação dos
escravos cristãos pertencentes a judeus e proibiu ataques judeus aos
cristãos convertidos ao judaísmo. Constâncio II requereu que cris­
tãos, que se convertessem ao judaísmo, perdessem sua propriedade
para o Estado. Medidas que visavam restringir a influência social e
política judaica vieram, principalmente, no quinto século, sob o go-
,verno de Teodósio II (408-450) — proibindo casamentos mistos,
abstendo os judeus de ocuparem cargos políticos, impedindo a cons­
trução de sinagogas e vedando o proselitismo.

Sem dúvida, o apoio imperial do cristianismo foi um fator signifi­
cativo no crescimento da Igreja no quarto século. A Igreja desenvolveu
ainda mais o catecumenato, que tinha começado no fim do segundo
século (capítulo 8), para lidar com o afluxo de novos membros (veja
mais adiante).

Apesar das muitas vantagens de aceitar a fé cristã, os imperadores
cristãos pelo menos não executaram pagãos, embora Constâncio II
ameaçou fazê-lo em alguns casos.

B. Influência cristã no mundo romano

A influência cristã na vida, no mundo romano, não era tão
grande como se poderia esperar. N o entanto, pode-se ver essa influ­
ência em uma série de maneiras positivas na legislação dos impera­
dores cristãos.

Homens casados estavam proibidos de manter uma concubina.
Adultério e estupro foram severamente tratados, e os obstáculos fo­

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 283

ram colocados no caminho do divórcio. O infanticídio foi proibido
em 374, presumivelmente incluindo a exposição das crianças. Foram
tomadas medidas para melhorar a condição de escravos, e a Igreja in­
centivou a emancipação. Houve esforços para introduzir um pouco
de humanidade em condições prisionais.

Pregadores cristãos continuaram, como faziam antes, a protestar
contra as imoralidades e os gastos associados com entretenimentos
públicos — os mímicos e pantomimas no teatro, as corridas de car­
ruagens no circo e as competições de gladiadores e animais selvagens
no anfiteatro. No que se refere ao último, o Estado baniu lutas de
gladiadores em 325, mas essa proibição não foi plenamente aplicada
até os anos 430. Os entretenimentos públicos estavam intimamente
ligados ao calendário de festivais pagãos e estaduais, mas, de forma
lenta, o calendário cristão (veja a seguir) começou a regular o ritmo
de vida social e empresarial.

As igrejas tomaram a iniciativa no estabelecimento de institui­
ções de caridade — abrigos para viajantes, doentes e pobres. Em uma
área crucial da vida cultural, o cristianismo teve um impacto despre­
zível no quarto e quinto séculos — o sistema educacional. Os cristãos

284 HISTÓRIA DA IGREJA

eram educados nos estudos clássicos. Com efeito, todas as figuras li­
terárias da Igreja — principalmente Basílio, Gregório de Nazianzo,
Jerônimo, Agostinho — usaram suas habilidades retóricas e literárias
a serviço da fé cristã. Mas foi apenas lentamente que surgiu um currí­
culo educacional modificado de forma significativa.

Os cristãos dependiam da instrução religiosa na Bíblia e na fé, que
predominava no lar e na igreja, para combater a influência pagã nas
escolas. Basílio, João Crisóstomo e Jerônimo ofereceram recomen­
dações específicas sobre o ensino religioso e sobre como selecionar
obras de literatura clássica adequadas, de acordo com sua qualidade
moral.

C. Fatores negativos do final do império

Existiram fatores negativos construídos na sociedade do mundo
da Roma Antiga que mitigaram a influência cristã. Mais e mais cristãos
for^m servir no exército durante o terceiro século, e o envolvimento
cristão nos assuntos do Estado no quarto século significava, agora,
que números ainda maiores estavam participando na guerra. Isso apa­
rentava ser uma parte inevitável em assumir a responsabilidade pelo
império com os seus muitos inimigos externos.

Além disso, há uma inércia em qualquer civilização que impede
a mudança. Não foi tarefa fácil cristianizar a sociedade pagã do m un­
do romano. Os imperadores cristãos herdaram um regime totalitário
que estava acostumado à coerção e à crueldade. A barbárie crescen­
te do império refletiu-se no uso frequente de tortura, e a traição foi
amplamente interpretada. Na Igreja em si, a intolerância religiosa ao
paganismo e ao judaísmo estendeu-se a variantes formas da doutrina
cristã.

Nos níveis social e econômico, a Igreja não estava em condições
de fazer mudanças fundamentais na tendência de estruturas feudais,
nem de fazer reformas básicas no poder dos grandes proprietários.

À medida que o número de cristãos aumentava, a disciplina fica­
va relaxada, muitos eram cristãos nominais, e o nível de vida cristã era
superficial. Essa parece ser a história da natureza humana. Foi nessa at­
mosfera que a vida monástica apelou para os muitos “atletas da virtude”.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 285

Não devemos ignorar, no entanto, o “ [A Igreja], à medida que
fato de muitos cristãos comuns que procu­ ganhou força, cresceu por
raram dar expressão à sua condição humana perseguição e foi coroada
religiosa.
com o martírio, mas,

D. Práticas piedosas então, depois de atingir
os imperadores cristãos,

No quarto século, viu-se a evolução cris­ aumentou em riqueza e
tã distinta de certos aspectos na vida religio­ influência, mas diminuiu
sa greco-romana. Os elementos básicos no
culto dos santos já estavam ali durante o ter­ em virtudes cristãs”
ceiro século (capítulo 9). O culto dos santos (Jerônimo,

V idadeM alco 1).

teve um desenvolvimento cristão, mas idéias

pagãs influenciaram-no cada vez mais, con­

forme o tempo passava. As maneiras em que crenças e veneração aos

santos foram expressas, em grande parte, resultaram de práticas tra­

dicionais.

Quando apaz chegou à Igreja, o entusiasmo cristão pelos mártires

não pôde ser contido. Até o fim do quarto século e início do quinto, o

culto dos santos estava totalmente desenvolvido.

A comemoração anual da morte de mártir tomou mais o cará­

ter de uma festa popular do que de uma ocasião religiosa solene. Um

grande número de fiéis participava. Havia procissão. Uma oração

exaltava o exemplo do mártir.

Os locais de sepultamento foram, antes, locais de oração, e, ago­

ra, martyria (santuários ou edifícios de igreja) foram criados sobre

os túmulos dos mártires. M artyria, ao contrário das basílicas retan­

gulares, eram construídos tipicamente em um plano central, com o

objetivo de dar foco ao sepulcro ou ao lugar sagrado.

No quarto século, os calendários dos mártires foram compilados.

Novos nomes foram adicionados aos martirológios, e as igrejas em­

prestaram os dias dos santos umas das outras. As relíquias dos márti­

res tornaram-se populares e foram pensadas para ter poder sobre os

demônios e para efetuar curas.

Líderes cristãos como Ambrósio declararam que os santos eram

vizinhos dos vivos. Os santos conheciam a fraqueza da carne e po-

286 HISTÓRIA DA IGREJA

diam interceder pela fraqueza dos outros, e, já que compartilhavam
enfermidades humanas, sua perfeição poderia ser imitada. (Talvez as
controvérsias doutrinárias sobre a divindade de Jesus Cristo tenham
afetado a piedade popular, deixando uma necessidade de intercesso-
res que pareciam mais humanos.)

Nos panegíricos e na vida dos santos, a edificação era mais impor­
tante do que a exatidão histórica. Assim começou a grande produção,
que continuou nos séculos subsequentes, de hagiografias com suas con­
tas de milagres extraordinários e exaltação de virtudes morais específicas.

Crentes preferiam ser enterrados nas proximidades do túmulo de
um mártir. Os fiéis davam o nome de uma pessoa santa aos seus filhos.

Um fenômeno característico foi a descoberta de relíquias até en­
tão esquecidas ou desconhecidas, geralmente como resultado de uma
visão ou um sonho. Três tipos de relíquias vieram a ser reconhecidas:
o corpo ou partes do corpo de uma pessoa santa, objetos intimamen­
te relacionados com a pessoa (por exemplo, vestuário) e objetos como
areia, óleo ou água, que tocaram os restos mortais e foram armazena­
dos em ampolas (pequenos frascos).

De acordo com os hagiógrafos, milagres foram feitos não pelas
relíquias em si, mas por Deus ter trabalhado por intermédio do san­
to. No fim do quarto século, o sentimento contra a perturbação de
um túmulo começou a ser superado, e relíquias de mártires foram
movidas para serem colocadas sob o altar das igrejas. Assim, o culto
dos mártires trouxe uma mudança nas práticas funerárias, para que
os corpos mortos já não fossem mais considerados impuros (uma
mudança im portante das raízes judaicas do cristianismo). Em vez de
serem enterrados fora das cidades (como na prática greco-romana),
cadáveres começaram a ser levados para as igrejas. Essa união das relí­
quias dos santos com o altar foi importante para conduzir o culto dos
santos sob a supervisão de bispos e sacerdotes.

Também, durante o quarto século, a veneração do culto começou
a ser estendida dos mártires para incluir os monges e os bispos, cujo
sacrifício ascético e serviço à Igreja foram considerados equivalentes
dos mártires. Orígenes, com o martírio que ele desejava tendo sido
negado, já havia espiritualizado a piedade ascética como um martírio
interior. Esse ideal se tornou a base espiritual do monasticismo cristão.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 287

Antes do quarto século, os cristãos falavam de pessoas santas, da
santa igreja e das Escrituras Sagradas, mas, no quarto século, come­
çaram a falar de lugares sagrados. Embora os cristãos tivessem feito
viagens para a Palestina por razões religiosas, desde os primórdios da
Igreja, peregrinações como atos de devoção religiosa a lugares asso­
ciados à vida de Jesus e aos apóstolos começaram a ser amplamente
documentados no quarto século.

Dois importantes registros iniciais são o itinerário de Bordéus
para Jerusalém, datado em 333 por um peregrino anônimo, e o diário
de viagem mais extensivo da nobre mulher Egéria, da Gália ou da
Espanha, para Sinai, Egito, Palestina e Ásia M enor no fim do quarto
século.

A peregrinação combinava vários elementos: devoção às raízes
históricas da fé cristã, disciplina ascética e, em alguns casos, peniten­
cial da viagem, curiosidade e visão e, às vezes, inquietação emocional.
Gregório de Nissa, em uma carta, advertiu contra os perigos morais
da viagem e professou que não existia nada mais sagrado sobre a Pa­
lestina do que outros lugares, mas, em outra carta, ele falou da emo­
ção de ver os lugares santos lá.

D urante o quarto século, viagens foram realizadas para visitar o
povo santo, bem como os lugares sagrados. Muitos foram observar a
vida dos monges do deserto e consultá-los para aconselhamento espi­
ritual. Os mais supersticiosos voltavam com óleo abençoado, água ou
terra do lugar associado à pessoa santa.

À medida que a prática da peregrinação crescia, grandes igrejas de
peregrinos começavam a ser construídas no quinto e sexto séculos, nos
lugares associados a santos populares — por exemplo, Abu Mena, no
Egito, QaTat Sim an (Simeão Estilita), na Síria, e São João, em Efeso.

IV. ADORAÇÃO

A manutenção das Escrituras judaicas, como parte da Bíblia da
Igreja, significou que muitos conceitos do Antigo Testamento aca­
baram influenciando a prática cristã, mesmo sem contato direto com
os judeus. Assim, a diferença entre clero e leigos foi reforçada pela
distinção dos sacerdotes do povo do Antigo Testamento. O entendi­

288 HISTÓRIA DA IGREJA

mento sacerdotal do ministério, a compreensão sacrificial de adora­
ção e a vista do edifício da igreja como templo sagrado estavam entre
as idéias religiosas que se desenvolveram sob a influência do Antigo
Testamento.

A. Liturgias do batismo e da santa ceia

As Conferências Catequéticas entregues em 348 por Cirilo de Je­
rusalém, que representou o pensamento trinitário “ortodoxo” no les­
te, e as Constituições Apostólicas (especialmente o livro 7), compilado
provavelmente na Síria ou na Ásia Menor, no fim do quarto século,
por alguém com simpatias “arianas”, fornecem descrições da prática
batismal não muito diferente da que apareceu no ocidente, um século
antes (capítulo 8). As palestras de Cirilo parecem refletir uma forma­
lidade maior, acima de tudo, uma explicação mais desenvolvida das
várias práticas e uma elaboração do simbolismo.

Catecúmenos comuns, os “ouvintes” (audientes), eram autoriza­
dos a permanecer na missa de domingo para a leitura das Escrituras
e para o sermão, mas eram dispensados antes da celebração da ceia.
Não era permitido testemunhar os “mistérios” do batismo e da santa
ceia ou ouvi-los descritos até o momento da iniciação.

Aqueles que desejavam receber o batismo entregavam seus nomes
logo após o início do ano novo. Durante os 40 dias da Quaresma, ha­
via instrução na fé cristã, baseada principalmente no credo, mas dando
atenção à história bíblica da narrativa da salvação. Também havia ensi­
namentos sobre a moral cristã, mas, em comparação com a instrução
doutrinai, era consideravelmente menor do que no segundo século.

O batismo era administrado no domingo de Páscoa. A prepara­
ção especial para o batismo envolvia não só instruções, mas também
um tempo gasto em penitência e confissão do pecado. Realizavam-se
vários exorcismos para remover a pessoa do domínio das forças do
mal. Aqueles submetidos à preparação imediata para o batismo eram
chamados pelo termo gregophotizomenoi (“aqueles que são ilumina­
dos”) e pelo latino competentes (“candidatos”).

A cerimônia de batismo em si começou com a renúncia a Sata­
nás. O candidato, virado para o oeste e estendendo a mão, dizia: “Eu

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 289

renuncio a você, Satanás, e a todas as suas obras, e a todo o seu apara­
to, e toda a sua adoração”. Então, virando-se para o leste, o candidato
fazia a profissão de fé: “Associo-me a Cristo”, e recitava o credo.

O candidato depositava a roupa íntima, como símbolo para re­
mover a velha pessoa, e recebia uma unção com óleo. O sacerdote in­
vocava o Espírito Santo sobre a água para consagrá-lo com um novo
poder de santidade. De pé, na água, o candidato fazia a “confissão
salvadora”, provavelmente em forma de perguntas e respostas, e era
imerso três vezes.

Seguia-se uma unção com azeite consagrado, que Cirilo considera­
va a representação da unção de Jesus pelo Espírito em Seu batismo. A
igreja na Síria, em contraste, fazia da unção pré-batismal o símbolo da
recepção do Espírito Santo e, portanto, uma ação central da cerimônia.

D urante a semana seguinte ao batismo, havia instrução sobre
o significado do batismo, da santa ceia e da crisma (unção).

N o fim do quarto século, o culto de domingo tom ou a forma que
se manteve durante séculos. Houve diferenças individuais em distin­
tas regiões, que passaram a ser registradas nas liturgias escritas dos
séculos subsequentes (capítulo 16). As mulheres sentavam-se longe
dos homens. Havia uma clara separação entre a liturgia da Palavra, da
qual todos podiam participar, e a liturgia da mesa para os fiéis.

A primeira parte do serviço podia incluir até quatro leituras
das Escrituras: a Lei, os Profetas, as Epístolas ou Atos e os Evange­
lhos. Entre as leituras do Antigo e do Novo Testamento, um cantor
entoava salmos aos quais o povo cantava respostas. Os presbíteros e o
bispo entregavam homilias. Em seguida, vinha a destituição dos cate-
cúmenos, os possuídos por espíritos malignos e os que estavam sob a
disciplina.

D a Conferência Catequética 23, de Cirilo de Jerusalém, Cateque­
ses Mistagógicas 5 (que alguns, provavelmente de forma incorreta,
têm atribuído ao sucessor de Cirilo, João), “na sagrada liturgia e co­
m unhão”, podemos aprender uma liturgia de amostra dos fiéis como
era celebrada em Jerusalém. Os presbíteros começavam com um ce­
rimonial de lavagem das mãos (o Lavabo) como um símbolo de li­
berdade do pecado. A convite do diácono, trocava-se o beijo da paz,
significando o amor fraternal e a reconciliação.

290 HISTÓRIA DA IGREJA

O presbítero dizia: “Levantai os vossos corações” (Sursum corda),
para que o povo respondesse: “Nós os levantamos ao Senhor”. Então,
o sacerdote falava: “Dai graças ao Senhor”, e começava a oração de
ação de graças. Isso conduzia ao canto do Sanctus {Santo, Santo, San­
to, de Isaías 6.2,3). A epiclesis clamava a Deus para que enviasse Seu
Espírito Santo sobre o pão e o vinho.

Na Grande Intercessão, “sobre aquele sacrifício de propiciação”,
uma oração era oferecida a Deus, primeiro em favor dos vivos e, de­
pois, em comemoração aos mortos. (Houve m uita controvérsia sobre
o tema das orações pelos mortos no tempo de Cirilo, e ele tentava
responder a algumas objeções. Nada há, em qualquer outra liturgia
inicial correspondente à expectativa de Cirilo, que declare que, “em
suas orações e intercessões, Deus recebería nossa petição”.)

Em seguida, era recitada a Oração do Senhor. Então, o padre
convidava à comunhão com as palavras: “Coisas santas para o santo”,
às quais o povo respondia: “Um é Santo, Um é o Senhor Jesus Cristo”.
O,cantor entoava o Salmo 34, versículos 8 e 11. O pão e o cálice eram
recebidos, com reverência, com um “amém” bem alto. Uma ação de
graças e bênção finalizavam o culto.

B. Sacramentos

A palavra sacramento deriva do latim sacramentam, um “jura­
m ento”. Tertuliano usou a palavra em sentido cristão, em referência
ao juramento de lealdade para com o comandante celestial no m o­
mento do batismo. Devido à ampliação do significado da palavra,
esta foi estendida a outros ritos.

Os gregos usavam a palavra musterion, “mistério”, para referir-se a
uma cerimônia sagrada secreta. Os judeus e o apóstolo Paulo tinham
usado a palavra para conselhos secretos de Deus que Ele, então, reve­
lou aos seres humanos, mas, desde Clemente de Alexandria, alguns
cristãos tinham se apropriado da terminologia das religiões gregas
misteriosas para comparar os ritos cristãos. D urante o quarto século,
algumas cerimônias cristãs começaram a ser tratadas da mesma forma
como os “mistérios” gregos, ou seja, como cerimônias secretas revela­
das apenas para iniciantes.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 291

ESBOÇO DE ALGUMAS CARACTERÍSTICAS COMUNS DE
LITURGIAS DOMINICAIS NO QUARTO E QUINTO SÉCULOS

(A colocação dessas características varia em diferentes liturgias, nem todas
estão presentes em cada liturgia, e alguns itens não estão incluídos aqui.)

I. Culto da Palavra (Missa dos Catecúmenos, também conhecida
como Sinaxe)

1. Orações e cânticos preliminares

2. Leituras do Antigo e do Novo Testamento

3. Salmos cantados entre as lições das Escrituras

4. Sermão

5. Orações e bênçãos para diferentes grupos

6. Despedida de catecúmenos e penitentes

II. Culto da Ceia (Missa dos Fiéis, também conhecida como Eucaristia)

1. Orações dos fiéis. Série de licitações feitas pelo diácono com as pessoas
respondendo: K y rie e le iso n ("Senhor, tenha piedade"). Concluída pela
oração do bispo

2. Ósculo santo

3. Ofertas trazidas pelo povo

4. Anáfora ou Cânon da Missa:
a. S u r s u m C o rd a ("Levantai os vossos corações")
b. Prefácio — "Demos graças"
c. S a n c t u s (ou T risa g io n — "Santo, Santo, Santo")
d. Oração de Ação de Graças:
(1) E p ic le s is — Invocação do Espírito Santo
(2) Palavras de Instituição
(3) A n a m n e s is ("Memorial" da paixão e ressurreição)
(4) Oblação — Oferta ou sacrifício
(5) Intercessão pelos vivos e pelos mortos
e. Oração do Pai-nosso

5. Comunhão

6. Bênção

Por voltado quarto século, três atos tiveram significado sacramental,
de acordo com a definição teológica mais recente de um sacramento,
ou seja, a utilização de elementos materiais ou ações exteriores como
canais de bênção espiritual interior: batismo (água), santa ceia (pão e
vinho) e crisma (óleo de unção). Houve um desenvolvimento significa-

292 HISTÓRIA DA IGREJA

tivo também em relação a outros atos que, mais tarde, foram conside­

rados sacramentos.
O batismo dos primeiros tempos da Igreja tinha sido a iniciação

do povo de Deus, que era definido pela fé, e não pela raça (em con­
traste com o judaísmo). A água, no antigo Oriente Próximo, tinha
sido ambígua — uma necessidade de vida, mas também representava
o caos e a morte. Os cristãos apropriaram-se dessas idéias na inter­
pretação do batismo como meio de transmitir a vida e compreender
a passagem pelas águas da imersão como uma libertação das forças

do mal.
A bênção da fonte servia para enfatizar a água como imbuída

com o poder do Espírito Santo. Os Pais da Igreja do quarto século
fizeram frequente uso de imagens identificadas com o batismo que
era feito em um tempo anterior — regeneração, novo nascimento,
morte e ressurreição, lavagem, iluminação e selagem. Eles associaram
o batismo à graça, à confissão de fé, ao perdão dos pecados, a liber­
dade da escravidão pelo diabo e ao início de uma nova vida moral
todos esses conceitos pertenciam à teologia batismal anterior, só que,
agora, de forma mais elaborada.

O que ficou conhecido como confirmação na igreja ocidental
não foi claramente separado do batismo, da imposição de mãos e da
unção que simbolizava a transmissão do Espírito Santo, quer tenha
sido administrado antes (como na Síria), quer após o batismo (como
em outros lugares), fazia parte da cerimônia batismal em si.

Conforme o batismo infantil crescia, a unção era frequentemen­
te separada no tempo do batismo, pelo menos no ocidente, onde era
administrado pelo bispo, ao contrário do oriente, onde o sacerdote
poderia também ungir e batizar.

O uso do óleo na cerimônia de batismo é confirmado, primeiro,
entre os valentianos no segundo século, mas, seja qual for sua origem,
ele rapidamente se tornou comum. Isso reforçou a imagem de morrer
com Jesus Cristo (pois o óleo era usado no embalsamamento), a ideia
de limpeza (pois era utilizado por atletas para limpar o corpo e por
todos após o banho) e da preparação da Noiva para o Noivo celestial.
Além disso, para o cristão ser ungido, como foi Jesus Cristo, foi im­

posta a ideia do sacerdócio real.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 293

O óleo batismal (“crisma”) foi descrito por vários líderes da Igreja
como sacramental, representando o Espírito Santo. Cirilo de Jerusa­
lém, ao que parece, considerava o batismo a remissão dos pecados e o
dom do Espírito Santo. Ele preparava a pessoa para uma participação
ativa nos deveres cristãos por meio do poder do Espírito Santo.

A santa ceia era o centro da assembléia dominical desde o início
da Igreja e, por volta do quarto século, estava sendo observada, em
algumas igrejas, no sábado também. Os recursos comemorativos e es-
catológicos da santa ceia precoce foram, por volta do quarto século,
suplantados por outros entendimentos. Nas igrejas orientais, a santa
ceia era vista como uma epifania do divino, com ênfase na epiclese
do Espírito Santo. N o ocidente, ela era vista como um sacrifício, com
ênfase nas palavras da instituição. Mas as duas idéias se misturaram,
e ambos os componentes foram frequentemente encontrados juntos
nas liturgias.

A crença na presença de Jesus Cristo com Seu povo reunido para
o partir do pão e a associação dos elementos ao Seu corpo e ao Seu
sangue voltaram ao início da Igreja. Autores do terceiro século, às
vezes, falavam realisticamente da identificação dos elementos com o
corpo e o sangue. Às vezes, eles discorriam sobre os elementos como
“símbolos” (grego) e “figuras” (latim).

Alguns bispos do quarto século começaram a falar de uma mu­
dança nos elementos que afetavam a presença do corpo e do sangue.
Assim, as Catequeses Mistagógicas de Cirilo de Jerusalém diziam que
o Espírito Santo “fez do pão o corpo de Cristo e do vinho o sangue de
Cristo”, um avanço marcado sobre declarações anteriores.

Gregório de Nissa cunhou uma palavra para expressar o seu pen­
samento: “Pelo poder da bênção, por meio da qual Ele transcende a
qualidade natural dessas coisas visíveis para aquela coisa imortal”.

Ambrósio identificou a consagração que tornou o pão no corpo e
o cálice de vinho e a água no sangue, com a repetição das palavras de
Jesus feita pelo sacerdote da instituição.

A visão de que os elementos foram alterados, não apenas em sua
função, mas também em sentido realista, ganhou maior importância
nos séculos subsequentes. Essa compreensão realística da presença de
Jesus Cristo nos elementos precedeu, por vários séculos, a doutrina

294 HISTÓRIA DA IGREJA

da “transubstanciação”, que é uma teoria sobre como a mudança ocor­
re, não o fato de m udar a si mesma (capítulo 21).

Idéias sacrificiais associadas à oração e à ação de graças foram
explicitamente relacionadas à santa ceia no segundo século, se não
antes (Didaquê). Cipriano, no terceiro século, tinha usado a lingua­
gem do sacrifício livremente para a santa ceia, declarando que o sacer­
dote (bispo), ao reproduzir o que Cristo fez na última ceia, “oferecia
um completo e verdadeiro sacrifício”. Ele foi mais longe em relação
à identificação desse sacrifício com a Paixão de Cristo, pois não só é
mencionada a Sua Paixão, mas também, como Cipriano explica em
um aparte, “a Paixão do Senhor é o sacrifício que oferecemos”.

Idéias sacrificiais foram totalm ente desenvolvidas em Ambrósio,
em Cirilo de Jerusalém e em Constituições Apostólicas. Ambrósio
fica mais perto do pensamento anterior ao afirmar que “o pão sagra­
do e o cálice da vida eterna” são uma “oferta impecável, razoável, não
sangrenta”. As Catequeses Mistagógicas marcam o desenvolvimento
futuro, combinando a presença real com o sacrifício: “Oferecemos
o Cristo que foi sacrificado por nossos pecados, propiciando (...) o
Deus misericordioso”. A disciplina penitencial da Igreja foi bem de­
senvolvida no fim do segundo século (capítulo 7), e Tertuliano tinha
chamado a humilhação pública e a confissão de pecados de uma “se­
gunda tábua” de salvação após o naufrágio.

A Epístola canônica, atribuída a Gregório Taumaturgo, no tercei­
ro século, listava as classes de penitentes: (1) os enlutados, que tinha
de ficar na porta da igreja, onde imploravam aos fiéis — à medida que
eles entravam — para orarem por eles; (2) os ouvintes da Palavra, que
poderíam estar por trás da porta para ouvir as Escrituras e a pregação;
(3) os ajoelhados, que estavam dentro da sala de reunião, mas ainda
eram dispensados antes da santa ceia; (4) os espectadores, que eram
associados aos fiéis, mas não ceavam; (5) os restaurados, que agora
compartilhavam em comunhão. Não ouvimos falar das duas primei­
ras classes no oeste, a menos que aqueles de quem a comunhão fora
retirada fossem os mesmos que os enlutados.

N o quarto século, a legislação canônica elaborou essa estrutura
com prazos prescritos em cada categoria para cada pecado, mas o bis­
po, finalmente, decidiu sobre a quantidade de penitência. Os formu­

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 295

lários de exercícios penitenciais e de reconciliação permaneceram os
mesmos do terceiro século.

O termo confissão (exomologesis) continuou a ser a designação
regular para a disciplina pública, mas uma confissão perante os fiéis
(além de uma privada confissão a um padre) nem sempre era obri­
gatória. A regra de haver apenas uma penitência pós-batismal conti­
nuou a ser afirmada.

Ouvimos falar de punições por ofensas morais, principalmen­
te na legislação canônica, e a maioria das referências à excomunhão
ocorre nos esforços para impor a uniformidade doutrinária. Basílio
de Cesareia já indicou que teve de lidar com um estado de disciplina
relaxada. Uma teologia sistemática de penitência como sacramento
não chegou até o século 12.

A antiga prática da eleição do bispo pelo povo se manteve em
tempos pós-nicenos, mas a maior influência foi exercida pelo clero,
os bispos vizinhos, ou mesmo (no caso de alguns descobrirem) pela
autoridade imperial.

A consagração de um bispo normalmente requeria três bispos.
O comportam ento continuou a ser a oração e a imposição de mãos.
A imposição de mãos era entendida como uma forma de conceder o
Espírito Santo.

Esse caráter sacramental da ordenação foi lento em evolução,
mas, no quarto século, Gregório de Nissa deu expressão à ideia de
mudança sacramental no status do ordenado. Ele fez um paralelo en­
tre as mudanças relacionadas aos elementos do batismo, da santa ceia
e da crisma com a mudança na pessoa ordenada. Ele atribuiu à ora­
ção de bênção a transformação, do Espírito, de uma pessoa que tinha
sido um indivíduo que fazia parte da massa comum de pessoas e que
permaneceu o mesmo na aparência externa. Por uma graça interior
e poder, o indivíduo era transformado em “um guia, um presidente,
um professor de retidão, um instrutor de mistérios”.

Sobrou, para Agostinho, no entanto, estabelecer as bases para o
entendimento sacramental da ordenação, formulando seu caráter in­
delével.

O lugar dos leigos na liturgia veio a ser reduzido ao mínimo.
O diaconato tornou-se um degrau na escada do avanço, não um

296 HISTÓRIA DA IGREJA

escritório particular da vida. (O termo arcediago estava em uso em
Roma no fim do quarto século).

O C anon 18 adotado em Niceia decretou que presbíteros passas­
sem os elementos da santa ceia para os diáconos, invertendo a práti­
ca anterior de diáconos servindo os presbíteros, que foram os únicos
a ter assentos nas igrejas domésticas. O C ânon deixou claro que os
presbíteros eram definitivamente sacerdotes (com funções delegadas
pelo bispo), e que os diáconos eram servos dos presbíteros, bem como
do bispo. Os bispos tornaram-se mais oficiais administrativos, pelo
menos nas maiores cidades, e foram os únicos a votar em concílios.

C. Calendário da Igreja

A comemoração dos dias dos santos (veja nas seções anteriores)
aumentou o número de dias festivos, mas os principais contornos do
calendário da Igreja dependiam das festas da salvação.

P calendário religioso judaico forneceu ao cristianismo sua ob­
servância da Páscoa e do Pentecostes. Com o resultado do conflito
quartodecimano do segundo século, o cristianismo afastou-se do cál­
culo judeu para Páscoa e moveu a observância para o domingo. Todos
os anos, o bispo de Alexandria enviava uma carta pascal, anunciando
a data da Pascoa daquele ano. O Concilio de Niceia determinou que
o domingo pascal seria o primeiro domingo após a primeira lua cheia,
seguida do equinócio da primavera.

A maior adição do quarto século ao calendário cristão foi a cele­
bração do nascimento de Jesus. Os seguidores do professor gnóstico
Basílides, no Egito, celebravam a manifestação (epifania) de Jesus no
Seu batismo em 6 de janeiro, um dia importante no culto a Dionísio
e associado, no Egito, ao início de um novo ano. Q uando os cristãos
ortodoxos no Egito e no oriente observavam esse dia, eles associavam
o aparecimento de Jesus ao Seu nascimento. Houve várias outras espe­
culações sobre o dia do nascimento de Jesus, centrando-se principal­
mente na primavera, mas, durante os três primeiros séculos, a Igreja
percebeu que o dia do nascimento de Jesus era desconhecido e não
tinha importância teológica. Existem registros no leste tanto do nas­
cimento como do batismo de Jesus lembrados entre 5 e 6 de janeiro.

MONASTICISMO, EXPANSÃO, VIDA E CULTO -A IGREJA NO QUARTO SÉCULO 297

O Natal foi uma festa ocidental celebrada, pela primeira vez,
em Roma, no segundo trimestre do quarto século. A data 25 de
dezembro foi influenciada pelo culto ao sol, que foi prornovido pelos
imperadores do terceiro século e continuou a ser reconhecido por
Constantino. Então, 25 de dezembro, como o aniversário de Jesus,
começou a ser introduzido na parte oriental do império, no fim do
quarto século. Essa data forçou uma separação da epifania. N o oci­
dente, 6 de janeiro associou-se à visita dos Magos a Jesus, mas, no
oriente, o dia continuou sendo uma associação ao Seu batismo, e, na
Armênia, manteve-se como o aniversário de Jesus. As considerações
teológicas foram importantes na propagação do festival, por causa da
ênfase na Sua natureza humana.

Com o Jerusalém tornou-se mais im portante como um local
de peregrinação no quarto século, uma celebração do Domingo de
Ramos, uma semana antes da Páscoa, desenvolveu-se lá por volta do
ano 400.

D. Basílicas e arte

As igrejas construídas sob o governo de Constantino estabelece­
ram o padrão para edifícios eclesiásticos durante os séculos seguin­
tes. As basílicas cristãs eram salões retangulares, normalmente com
um nártex (uma sala de entrada), uma abside (o ponto focal semi­
circular na extremidade oposta ao nártex), um clerestório, suporta­
do por colunas acima da nave central, e dois corredores laterais (às
vezes quatro). A forma retangular centrava a atenção sobre o altar e os
assentos para os presbíteros e a cadeira do bispo em uma extremidade.
Embora não seja verdade para todas as basílicas de Constantino, a
maioria dos edifícios da igreja foi orientada para o leste.

N a verdade, dentro dessa descrição geral, havia m uita diversidade
nos estilos locais. C om o apoio do imperador e de outros patronos
ricos, o mármore fino era incorporado na construção, e o mobiliário
e os recipientes de comunhão eram feitos de metais preciosos.

Provas da decoração dos locais de encontros cristãos tornaram-se
mais extensas no quarto século. N o início do quarto século, o bispo
Teodoro de Aquileia cobriu o chão de sua nova igreja com mosaicos

298 HISTÓRIA DA IGREJA

que incorporavam temas bíblicos e desenhos náuticos e florais. A ab-
side da basílica era o lugar mais im portante para fazer uma exibição
artística. Estava adornada com fotos em mosaico ou afresco de Jesus
Cristo como legislador ou professor.

A decoração figurai das catacumbas tornou-se m uito mais exten­
sa, e os sarcófagos mais elaborados começaram a ser produzidos, com
o repertório de cenas bíblicas expandidas. Em termos gerais, houve
um movimento no conteúdo da arte primariamente simbólica para
uma arte mais “histórica”.

Houve, também, na época de Teodoro, o início de algumas
características que evidenciaram, mais tarde, a arte bizantina — fronta­
lidade, simetria e idealização abstrata. Os vários retratos deJesus Cristo
mostravam-no assumindo as características de divindades pagãs.

LEITURA COMPLEMENTAR

FERGUSON, Everett (Ed.). Missions and Regional Characteris-
tics o f the Early Church. Studies in Early Christianity 12. Nova Ior­
que: Garland, 1993.

FRANK, Geórgia. lh e M emory o f the Eyes: Pilgrims to Living
Saints in Christian Late Antiquity. Berkeley: University o f Califór­
nia Press, 2000.

G O E H R IN G , J. E. Ascetics, Society, and the Desert: Studies in
Early Egyptian Monasticism. Harrisburg, PA: Trinity Press Interna­
tional, 1999.

HARMLESS, J. W. Desert Christians: An Introduction to the
Literature o f Early Monasticism. Oxford: Oxford University Press,
2004.

JO H N S O N , L. J. Worship in the Early Church: An Anthology
o f Historical Sources. Collegeville, M N : Liturgical Press, 2009. 4 v.

Controvérsias cristológicas
até Calcedônia (451)

I. PANORAMA DOS ÇUATRO PRIMEIROS
CONCÍLIOS ECUMÊNICOS

O conflito trinitário do quarto século estava relacionado com os
dois concílios que vieram a ser considerados ecumênicos, e também
com a controvérsia cristológica do quinto século.

D e uma forma bem simplificada, a relação entre esses quatro con­
cílios pode ser expressa de acordo com o esquema seguinte:

1. Niceia (325) enfatizava a unicidade de Deus (Jesus Cristo é
homoousios com o Pai).

2. Constantinopla (381) enfatizava a triunidade de Deus (Pai,
Filho e Espírito Santo).

3. Êfeso (431) enfatizava a unicidade de Jesus Cristo (Maria é
theotokos).

4. Calcedônia (451) enfatizava a dualidade de Jesus Cristo (duas
physes ou “naturezas”).

300 HISTÓRIA DA IGREJA

OS QUATRO CONCÍLIOS Segundo o desdobramento ló­
ECUMÊNICOS gico do debate teológico, pode-se
dizer que a solução do problema
N ic e ia - A unicidade de Deus trinitário acentuava o problema
C o n s t a n t in o p la - Atríunidade de Deus cristológico. Se Jesus Cristo é ple­
É f e s o - A unicidade de Cristo na e completamente Deus, qual é a
C a lc e d ô n ia - Adualidade de Cristo relação da deidade com a humani­
dade de Cristo ?

II. RIVALIDADES ENTRE ALEXANDRIA E ANTIOQUIA

As controvérsias cristológicas foram engajadas basicamente na
parte oriental da cristandade. Os ocidentais não se envolveram tan­
to quanto os orientais, embora Roma tivesse uma função crucial nas
decisões oficiais.

As rivalidades políticas, especialmente entre Alexandria e An-
cioquia, tornaram-se ainda mais proeminentes do que antes. Se as
maquinações políticas da controvérsia ariana já eram angustiantes,
há mais para se lamentar nas controvérsias cristológicas. A elevação
da sede de Constantinopla ao segundo escalão, abaixo de Roma, no
Concilio de Constantinopla em 381, foi uma humilhação para Ale­
xandria e pode ter sido um fator político contra Crisóstomo, Nestó-
rio, Flaviano e outros.

Além do ciúme eclesiástico, devem-se notar as diferentes tradi­
ções culturais e teológicas que influenciaram as igrejas de Antioquia
e Alexandria.

A igreja da Antioquia estava em contato mais próximo com as
fontes judaicas da Palestina. Ela possuía uma tradição mais acentuada
de investigações críticas, racionais. A escola antioquena desenvolveu
uma interpretação tipológica do Antigo Testamento que dava com­
pleta realidade histórica aos eventos que ele registrava e ao cenário de
suas profecias, ao mesmo tempo enxergando aqueles atos e palavras
como uma prefiguração da revelação cristã. Os líderes da igreja de
Antioquia davam mais ênfase à humanidade de Jesus Cristo.

Os intelectuais da igreja de Alexandria, por outro lado, estavam
mais sob a influência do judaísmo filosófico representado por Fílon e

CONTROVÉRSIAS CRISTOLÓGICAS ATÉ CALCEDÔNIA (451) 301

transmitido a posteriores pensadores cristãos por Clemente de Ale­
xandria e Orígenes. Eles tinham uma tradição mais ligada à piedade
contemplativa. N a interpretação das Escrituras, a escola de Alexan­
dria desenvolveu o método alegórico, que havia sido empregado pe­
los filósofos gregos na interpretação da mitologia grega, e por Fílon,
na interpretação da Bíblia. Esse método enxergava o verdadeiro signi­
ficado das Escrituras como realidades espirituais escondidas por trás
de suas palavras literais, históricas. Os líderes do pensamento na Ale­
xandria colocavam mais ênfase na divindade de Jesus Cristo.

As diferenças entre os antioquenos e os alexandrinos já haviam
aparecido em suas diferentes abordagens quanto à refutação do aria-
nismo, diferenças que prepararam o cenário para o conflito cristoló-
gico entre eles.

Os arianos produziram a maioria das passagens do Novo Testa­
mento, que sugerem uma subordinação do Filho de Deus ao Deus
Pai. Os versículos que eles citaram incluíam João 14.28, vou para o
Pai, porque o Pai é maior do que eu, e Mateus 24.36, ninguém sabe,
nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente meu Pai.

Com o resposta aos arianos, os teólogos de Alexandria argumen­
tavam que tais passagens foram aplicadas apropriadamente ao Filho
de Deus, mas em Seu estado humano.

Os teólogos de Antioquia pensavam que essa abordagem esti­
vesse, de fato, em rendição às reivindicações dos arianos quanto à
subordinação. Tomando outro rumo, eles remetiam essas passagens
não ao Logos divino, mas ao homem Jesus - à pessoa humana. Ambas
as abordagens forneciam uma defesa da teologia nicena, uma refuta­
ção aos argumentos arianos e uma estrutura para a interpretação dos
Evangelhos.

A abordagem alexandrina não tinha dificuldade alguma em re­
conhecer Jesus como Deus, mas tendia a diminuir a importância do
retrato humano de Jesus.

A abordagem antioquena raramente tinha dificuldade em levar
a sério esse retrato, mas sempre achava difícil dizer como esse Jesus
podia ser um com Deus.

Essa diferença é a razão pela qual o arianismo e o Credo Nice-
no continuavam a aparecer na controvérsia cristológica. Cada lado

302 HISTÓRIA DA IGREJA

achava que o outro estava vendendo-se ao arianismo (os líderes da
igreja sempre pareciam preferir enfrentar novas batalhas em termos
das velhas controvérsias, com cujos argumentos haviam ficado con­
fortáveis). Nestório de Antioquia e Cirilo de Alexandria, no quinto
século, foram incapazes de distinguir a defesa do Credo Niceno da
doutrina que este procurava defender.

Embora, no fim do quarto século, o dogma niceno tenha se tor­
nado uma ortodoxia católica, sua defesa se apoiava em abordagens te­
ológicas distintas. Já no quinto século, essas defesas distintas haviam
formado duas tradições teológicas diferentes, que, como resultado,
destruiu o apelo à tradição.

Houve uma época - até o fim do segundo século aproximada­
mente - em que os bispos podiam apelar para uma tradição comum.
Nas controvérsias cristológicas, entretanto, vemos o desmoronamen­
to do argumento clássico da tradição.

TEÓLOGOS ALEXANDRINOS E ANTIOQUENOS

------T--------- ■

Alexandria Antioquia

Cirilo, bispo (412-444) Diodoro, bispodeTarso (368-c. 390)

Dióscoro, bispo (444-451) Teodoro, bispode Mopsuéstia (392-428)
Eutiques, arquimandrita (428-451) Nestório, bispodeConstantinopla (428-451)
emConstantinopla (fl. 450)

Severo, bispo deAntioquia (512-518) Teodoreto, bispo deCiro(423-c. 460)

As três fases das controvérsias cristológicas do quarto e quin­
to séculos referiam-se a três posições que foram julgadas heréticas:
apolinarismo, nestorianismo e eutiquianismo.

III. FASE PRELIMINAR, 362-381:
APOLINARISMO

O problema em entender a natureza de Jesus Cristo tem sido ca­
racterizado como o conflito entre duas cristologias. Alexandria se­
guiu uma cristologia Verbo-carne, baseada em João 1.14: O Verbo se
fe z carne. Em contraposição a isso, Antioquia seguiu uma cristologia
Verbo-homem, falando do Verbo unido ao ser humano.


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