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Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

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Published by , 2018-01-04 18:16:27

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 403

bre o propiciatório e outros adornos do templo). Além disso,
não vivemos hoje sob a Lei do Antigo Testamento; ao encar­
nar, Deus nos instruiu a tornar Sua imagem pública. (João de­
fine a encarnação como argumento central de sua defesa das
imagens, elevando o debate do patamar de uma questão que
envolve somente práticas relacionadas à piedade a uma ques­
tão de ortodoxia doutrinária.)

3. Uma vez que os seres humanos são criados como corpo e alma,
os sentidos físicos são importantes para o conhecimento hu­
mano do divino. H á imagens por toda parte — os próprios
seres humanos são imagens de Deus. A tradição da Igreja per­
mite a existência das imagens, e isso basta sem a Bíblia.

4. É lícito venerar imagens. A matéria em si não é algo mau. Exis­
tem diferentes tipos de adoração: a verdadeira adoração deve
ser dirigida a Deus, mas outros podem ser honrados.

5. Finalmente, existem vantagens em relação às imagens e à sua
veneração. Elas nos ensinam e recordam os dons divinos, esti­
mulam a piedade e tornam-se instrumentos da graça.

Apesar dos argumentos de João Damasceno, os imperadores afas­
taram os iconodulistas de suas posições de poder e deram início a uma
perseguição ferrenha. Muitas obras de arte em prédios de igrejas an­
teriores ao século V III foram destruídas. Constantino V tomou me­
didas enérgicas contra monges, os principais porta-vozes do valor das
imagens, secularizando suas propriedades e obrigando-os a se casarem
com freiras. Muitos deles acabaram fugindo para o Ocidente. Algumas
das melhores formulações da independência da igreja, argumentando
que o imperador não era o seu mestre, foram feitas em cartas aos papas.

Em um mom ento posterior, os iconoclastas terminaram por selar
a sua própria derrota ao recusar-se a conceder às imagens de Jesus
Cristo a mesma reverência que dedicavam às imagens do imperador.

A reação contra o iconoclasmo finalmente foi instituída após o
final do reinado de Constantino V. Primeiro, o imperador Leão IV
(775-780) abrandou sua política em relação ao assunto e, em segui­
da, sua viúva Irene estabeleceu uma reversão completa. Irene era tuna
governante cruel (chegando mesmo a cegar seu próprio filho, Cons­
tantino VI, em 797), mas foi sincera em sua ação de venerar imagens.

404 HISTÓRIA DA IGREJA

Irene foi deposta em 802, mas, antes de isso acontecer, ela conse­
guiu promover o sétimo concilio ecumênico, Niceia II (787), presi­
dido pelo patriarca Tarásio, que apoiou a posição iconodulista, a qual
foi ratificada por legados papais enviados pelo Papa Adriano I. Esse
concilio declarou o anterior, de 754, herético.

O decreto-chave do Segundo Concilio de Niceia faz uma distin­
ção entre a “honorável reverência”, que pode ser dedicada às imagens,
e a “verdadeira devoção”, que diz respeito unicamente a Deus.

“Imagens de caráter santo para honorável reverência, estejam elas
registradas em mosaicos, pinturas ou outros suportes (...) devem ser
reconhecidas e reverenciadas da maneira devida (proskunesis), mas
não da mesma maneira que se dá a verdadeira devoção de fé (latreia),
que diz respeito exclusivamente à natureza divina” (Decreto do Segun­
do Concilio de Niceia).

Além disso, havia uma distinção entre a imagem e aquilo que era
adorado. A defesa teológica das imagens, no entanto, tornou-as ainda
mais providas da essência divina que residia em alguns dos ídolos do
paganismo.

A igreja de Santa Sofia, em Niceia (atualmente, Iznik), na Turquia, local do Segundo Concilio
de Niceia

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 405

O Segundo Concilio de Niceia argumentou que isso era verdade
porque uma imagem participa da natureza daquilo que ela represen­
ta: Porque a honra que é dedicada à imagem passa para aquilo que a
imagem representa, e quem reverencia a imagem reverencia nela o ele­
mento representado” (.Decreto do Segundo Concilio de Niceia). Em ou­
tras palavras, as imagens tornam-se “Deus conosco” em forma visível.

No entanto, no imaginário das pessoas, nem sempre a distinção
entre honorável reverência e verdadeira devoção observa a distinção
teológica. Essa é uma verdade que se mantém com o passar do tempo.

A rejeição do concilio ao passado anicônico da igreja incluía a
exclusão da opção de ser judeu messiânico mediante a exigência (câ-
non 8) de que os convertidos judeus abdicassem de seus costumes
judaicos.

A última fase da controvérsia iconoclasta iniciou-se em 814,
quando Leão V, o Armênio, implementou novamente uma política
iconoclástica. A oposição a ele partiu de Nicéforo, patriarca de 806
a 828, e de Teodoro (759-826), líder (hegoumenos) do mosteiro de
Estúdio, em Constantinopla, um excelente representante do mona-
quismo grego, que legislou em prol de um modo de vida para monges
e fez de Estúdio um mosteiro urbano influente na capital.

A segunda fase da controvérsia trouxe maior erudição e profun­
didade filosófica ao debate. Um concilio em 842 reafirmou as deci­
sões de Niceia II, e essa vitória para as imagens foi celebrada pelas
igrejas ortodoxas no primeiro domingo de Quaresma como o “Triun­
fo da O rtodoxia”.

As imagens haviam percorrido um longo caminho desde a sua
utilização inicial na decoração, instrução e como instrumentos para
a devoção religiosa e a espiritualidade até se tornarem objetos de ve­
neração. E, note-se, a controvérsia iconoclasta no Oriente se referia
apenas a pinturas; estátuas eram consideradas idólatras.

N o Ocidente, não existia esse tipo de limitação, embora algum
tempo antes tivesse havido uma considerável produção de imagens. A
veneração a imagens ocupava um lugar secundário na Igreja Ociden­
tal, pois considerava-se a imagem um intermediário e uma modalida­
de de adoração em relação ao objeto representado e, por isso, recebia
uma veneração relativa, enquanto no Oriente a imagem recebia uma

406 HISTORIA DA IGREJA

veneração direta, uma vez que era completamente assimilada ao ob­
jeto representado.

Como resultado da controvérsia iconoclasta, a arte tornou-se, no
Oriente, uma competência eclesiástica e sujeita à definição dogmática.
As decisões de Niceia II conferiram a ícones uma aura dada anterior­
mente às relíquias dos santos. Estas, no entanto, não foram negligen­
ciadas, já que Niceia II estabeleceu que as relíquias de santos fossem
colocadas no altar durante a consagração de uma igreja (cânon 7).

No desenvolvimento posterior da história, a arte experimentou
um desenvolvimento mais livre no Ocidente do que no Oriente,
onde foi limitada por restrições teológicas.

A vitória dos ícones também foi uma vitória para os monges na
igreja grega. O monaquismo tornou-se o padrão para o que se enten­
dia como vida cristã. Os monges não apenas se consideravam aqueles
que haviam renunciado ao mundo, como também aqueles que defini­
ram as normas da igreja, sua doutrina e sua vida espiritual.

Entretanto, a união entre igreja e Estado continuou a dar ao im­
perador — na posição de representante teocrático — enorme influ­
ência sobre a igreja. Os acordos entre a igreja e o Estado, na prática,
garantiram ao Estado uma proeminência característica sobre a igreja
e promoveram o tradicionalismo na sociedade.

A Igreja Ortodoxa considera ecumênicos apenas sete concílios
e, assim, as declarações oficiais de sua doutrina são consideradas en­
cerradas. Com o se pode perceber pelas discussões em relação à con­
trovérsia iconoclasta, a tradição consagrada nos concílios ecumêni­
cos e o consenso dos primeiros Pais da Igreja são pela autoridade da
Ortodoxia, pois estes fornecem o critério para não haver desvio na
interpretação da Bíblia.

V. O CISMA FOCIANO

Fócio foi um erudito, um hábil político e também uma pessoa
cativante, que serviu duas vezes como patriarca de Constantinopla
(858-867 e 878-886). O patriarca Inácio, que renunciou ou foi de­
posto em 858, e Fócio, um leigo e primeiro secretário do imperador
Miguel III, o Ebrio, foi eleito para sucedê-lo.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 407

Os detalhes da situação ilustram os cenários de realidade prática
enfrentados pela igreja bizantina. Inácio havia recusado a comunhão
com César Bardas, tio do imperador, devido à sua vida imoral, e por
isso foi afastado do cargo. Fócio foi ordenado por um bispo que havia
sido suspenso por Inácio, cujos seguidores declararam Fócio priva­
do da função e excomungado. Os partidários de Fócio responderam
na mesma moeda. O Papa Nicolau, o Grande, enviou legados para
investigar a situação. Excedendo seus poderes e passando um julga­
mento que o papa tinha reservado para si, os legados confirmaram a
deposição de Inácio, que, por sua vez, recusou-se a reconhecer a com­
petência deles. O papa depôs seus legados e declarou Fócio privado
do ofício.

Em uma encíclica de Fócio em 867 queixou-se da intrusão de
missionários romanos na Bulgária e de certas práticas da igreja Oci­
dental: o jejum no sábado na Quaresma, o celibato clerical e a recusa
em reconhecer a validade da confirmação por sacerdotes gregos (no
Ocidente, a confirmação era restrita ao bispo).

Fócio também se opôs à orientação Ocidental sobre a processão
do Espírito Santo a partir do Filho, bem como do Pai, expondo, as­
sim, a diferença entre a doutrina romana e a doutrina grega a respeito
da Trindade, uma vez que os romanos entendiam o princípio da uni­
dade na natureza divina comum às três pessoas, enquanto os gregos
viam a unidade no único Deus, o Pai.

Um sínodo em 867 declarou o papa deposto e excomungado.
Basílio I assumiu o poder unificado em Constantinopla em segui­
da, ainda em 867, e restaurou Inácio como patriarca. Um sínodo
em Constantinopla em 869-870 (identificado pelos latinos como
o oitavo conselho ecumênico) excomungou Fócio e, ignorando o
protesto dos legados papais, recebeu os búlgaros sob a jurisdição de
Constantinopla.

Q uando Inácio morreu em 877 (ou 878), Fócio novamente se
tornou patriarca. O Papa João V III estava disposto a aceitá-lo, caso
ele se arrependesse de sua conduta. Em um sínodo em 879-880, Fócio
voltou a atrair os legados papais para o seu lado e, quando teve acesso
às instruções papais, cuidadosamente om itiu a demanda por arrepen­
dimento. Ele foi, no entanto, reconhecido até mesmo pelo Papa. Em

408 HISTÓRIA DA IGREJA

886, o novo imperador, Leão VI, por razões políticas e por aversão ao
seu antigo professor, depôs Fócio e colocou-o em um mosteiro.

O cisma entre Roma e Constantinopla ligado a Fócio foi tem­
porário e apenas um dos vários que ocorreram nos primeiros séculos,
mas trouxe à tona questões que determinaram uma ruptura final na
comunhão delas.

Fócio declarou os argumentos contra a doutrina Ocidental sobre
a processão do Espírito Santo que se repetiría em discussões teológi­
cas posteriores e destacou algumas das diferenças de costumes entre
as igrejas romana e grega. Ele se opôs à interferência romana no que
considerou assuntos relacionados à esfera de influência de C onstan­
tinopla, no entanto, jamais chegou a ser o inimigo implacável do pri­
mado de Roma, como muitas vezes foi identificado.

A teoria grega da pentarquia (governo dos cinco patriarcas) não
implica a igualdade dos patriarcas e não foi proposta em oposição a
uma primazia por parte de Roma até os séculos 12 e 13. O chamado
cisma fociano era mais uma luta interna na igreja bizantina, para a
qual Roma foi atraída, do que uma controvérsia entre Roma e Cons­
tantinopla.

Fócio elaborou um código legislativo que proporcionou um guia
completo para as relações entre o imperador e o patriarca. O impera­
dor deveria ser responsável pelo bem-estar do império, pela defesa da
doutrina ortodoxa e por atuar como intérprete das leis. O patriarca,
por sua vez, deveria atuar como o único juiz em relação aos cânones e
decretos conciliares da igreja. Com o teórico do poder imperial, Fócio
estabeleceu a posição que deveria governar a relação do poder políti­
co e os assuntos religiosos nos mundos bizantino e eslavo.

VI. O FLORESCIM ENTO DA IGREJA BIZANTINA
M ED IEVA L

A cultura bizantina teve sua segunda idade do ouro (após a era de
Justiniano, no sexto século) no final do nono século até o século 11,
associada à dinastia macedônica (867-1056), um momento em que o
Ocidente ainda estava culturalmente lutando na escuridão compara­
tiva (capítulo 19).

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 409

Esse período foi marcado pelo reinado do imperador Basílio II
(976-1025), que reviveu o poder militar do Império Bizantino. Evi­
dência dessa conquista bizantina pode ser encontrada na vida espiri­
tual alimentada pelo misticismo, a produtividade literária e o flores­
cimento da arte.

A liturgia eucarística dominical continuou a ser o ponto focal da
vida eclesiástica e da espiritualidade. Além disso, três festas móveis
destacaram o ano eclesiástico: Domingo de Ramos, Páscoa e Ascen­
são (Pentecostes). Nove festas fixas compõem o resto do calendário
da igreja: Anunciação de Maria, Natividade de Cristo, Epifania de
Cristo (seu batismo), Hypapante (o “encontro” de Simeão e Ana com
Maria e o menino Jesus na apresentação deste último no Templo),
Transfiguração de Cristo, Nascimento da Virgem, Apresentação da
Virgem, a Dormição da Virgem e a Exaltação da Cruz. As comemo­
rações dos mártires preencheram o restante do ano eclesiástico.

Durante o século oitavo, um tipo de hino conhecido como o
Kontakion foi substituído pelo Kanon. O Kanon consistia em pará­
frases de oito ou nove versos das nove odes bíblicas que anteriormen­
te ocupavam a liturgia. O modelo da estrofe abria o hino e definia sua
melodia e ritmo.

A devoção mariana floresceu. No quarto século, Maria tornou-se
um símbolo da vida virginal e, no sexto século, a protetora das cida­
des, mas, no nono século, tornou-se m uito mais humana, como no
destaque na literatura e na arte do tema “Lamento da mãe de Deus”
ao pé da cruz. Teodoro Estudita desenvolveu esse tema, e o sermão so­
bre o “Lamento da Virgem”, de George de Nicomédia (bispo a partir
de 860), na Sexta-feira Santa foi marcante. Ele foi o primeiro a desen­
volver o tema da salvação a partir de um ponto de vista mariológico.

Os elementos essenciais do culto dos santos foram desenvolvidos
no quarto e no quinto séculos e, por isso, foram semelhantes nas igre­
jas oriental e ocidental. Relíquias, bem como ícones, eram lembran­
ças tangíveis dos exemplos e dos poderes para ajudar que os santos
ofereciam. As relíquias foram reconhecidas como capazes de prote­
ger inimigos, trazer boas colheitas, proprocionar a cura e operar ou­
tros milagres. A consagração de uma nova igreja requeria a colocação
de relíquias de santos no edifício. Partes do corpo de um santo foram

410 HISTÓRIA DA IGREJA

colocadas em recipientes onde podiam ser exibidas para veneração
no dia da festa em sua homenagem, enquanto pequenos fragmentos
eram usados em filactérios pelo clero e por leigos. Hagiógrafos relata­
ram que, com a morte de um homem considerado santo, multidões
tentavam obter relíquias a partir de partes do seu manto e arrancando
fios de cabelo de sua barba.

Eram três os principais tipos de monaquismo praticados no
mundo bizantino:

1. Grandes mosteiros cenobíticos localizados perto de cidades.
Estes foram envolvidos na vida da cidade, servindo como cen­
tros de culto e peregrinação, proporcionando hospitalidade a
viajantes, cuidando dos doentes e dos idosos e, ainda, produ­
zindo itens para uso diário, bem como objetos de arte sacra.

2. Eremitas ou solitários, que se retiravam das cidades para uma
vida de oração e ascetismo.

3. Uma pequena comunidade de “eremitas” que vivem longe das
cidades sob a direção espiritual de um homem velho. Desde
o sexto e sétimo séculos, um processo típico havia emergi­
do, dando conta de um jovem monge que (a) entrava em um
cenóbio e, (b) em seguida, o chefe do mosteiro lhe permitia
levar uma vida de acordo com seu próprio padrão de espiritu­
alidade sob a direção de um velho homem em uma colônia de
eremitas e (c), então, tornando-se experiente na sua espiritua­
lidade, ele passava a viver em completa solidão.

Um caso especial de uma grande comunidade cenobita que se
desenvolveu para além de uma cidade ocorreu no monte Atos, a pe­
nínsula rochosa que se projeta ao mar Egeu a partir da costa nordeste
da Grécia. Eremitas viveram ali desde o nono século, mas o m ona­
quismo cenobita começou por volta de 961, quando Santo Ataná-
sio construiu a Grande Laura e estabeleceu regras para os monges. A
partir daí, outros mosteiros foram estabelecendo-se naquela locali­
dade, e o monte Atos tornou-se o principal centro do monaquismo
ortodoxo.

Duas ondas de influência estiveram presentes na civilização bi­
zantina — o elemento ascético/monástico do Cristianismo e o ele­
mento humanista da Grécia clássica. Ambas as influências encon-

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 411

traram expressão na literatura e na arte do “A nossa tendência
período bizantino medieval. ao esquecimento

A escrita cursiva, ou em letras minús­

culas, começou a substituir a escrita uncial definitivamente precisa ser

(letras maiusculas) no nono século, come­ combatida por meio de sua

çando pelos escritos religiosos, de modo contínua renovação pelo
que muitos dos manuscritos gregos da Bí­ poder da palavra escrita,
blia que sobreviveram vêm do nono século a qual, por sua natureza,
e do século 10. é capaz de preservar as
lembranças ilesas e íntegras”
Grande parte da literatura produzida, (Máximo, o Confessor,
consistindo em compilações, era de nature­ prefácio da Mistagogia).
za secundária. No século nono, Fócio reu­
niu notas com base em suas amplas leituras

e sua biblioteca, valorizando a preservação

do conteúdo de muitas obras perdidas.

No século 10, Suidas compilou um léxico do grego ático (a Sou-

da), contendo sua gramática e uma biografia, bem como definições,

que hoje em dia ainda é consultado por lexicógrafos.

Simeão Metafrasta (floresceu c. 960) desenvolveu a principal co­

leção de hagiografia bizantina, o Menologion, que contava a vida dos

santos organizada pelo calendário litúrgico.

No século 11, Miguel Pselo foi um historiador e entusiasta do

renascimento da cultura clássica, especialmente a filosofia platônica.

O teólogo mais criativo daquele período e o maior dos místicos

bizantinos foi Simeão, o Novo Teólogo (949-1022). Sem grandes

conhecimentos acerca da literatura teológica tradicional, Simeão

deu prioridade à experiência interior diretamente revelada. A forma

característica de seu misticismo foi a experiência da luz. Em várias

ocasiões, ele teve visões de uma luz divina brilhante, que registrou

em seus escritos. Os principais ensinamentos de Simeão envolveram

a primazia de um pai espiritual para guiar o discípulo a uma experi­

ência direta com Deus e a importância, em meio às próprias lágrimas

e à dor, de sentir a graça divina.

A cultura bizantina do período macedônio tem sido descrita

como apenas uma fina camada no topo da sociedade, mas os séculos

10 e 11 nos deixaram mais manuscritos e mosaicos do que qualquer

412 HISTÓRIA DA IGREJA

outro período. Essa foi uma fase de florescimento da arte bizantina
medieval. Manuscritos iluminados (de Patmos, Atos e outros centros
monásticos), esculturas de marfim e outras artes experimentaram um
desenvolvimento esplêndido, mas especialmente impressionante é a
arquitetura, com a sua decoração em mosaico. Essa arte bizantina é
definida pela dignidade hierática e pela solenidade monumental.

Muitos edifícios da igreja do século 11 ainda podem ser vistos
em Atenas, enquanto outros estão espalhados pelo m undo grego.
Trata-se normalmente de pequenos edifícios em forma de cruz grega
(como um sinal de mais com os braços de igual comprimento), uma
cúpula sobre o cruzamento, um nártex na extremidade oeste e uma
ou mais absides na extremidade leste. O padrão foi estabelecido pela
igreja do palácio de Basílio I em 881, que já não existe.

As construções das igrejas bizantinas refletiam uma imagem do
cosmos, dando a impressão de que se encontravam penduradas. A cú­
pula representava o céu, e o movimento era descendente, em direção
à ferra (em contraposição às basílicas da igreja antiga, nas quais o m o­
vimento é para a frente, como o tempo, e em contraste com as igrejas
góticas posteriores do Ocidente, nas quais o movimento é para cima.
Belíssimos mosaicos ou afrescos cobriam as paredes interiores em três
zonas. N a cúpula, estava o Cristo Pantocrator (Todo-Poderoso); nos
pendentes e em outros lugares mais altos, havia as cenas narrativas
do ciclo festivo da igreja (representando a Terra Santa); e nas paredes
inferiores (representando a terra) estavam representações individuais
de santos. O segundo item em importância para a cúpula foi a abside,
que muitas vezes representava Maria.

Exemplos impressionantes de mosaicos bizantinos medievais
na própria Grécia podem ser encontrados em Nea Moni, na ilha de
Quios, e no continente em Dafne, perto de Atenas e São Lucas, a
oeste de Delfos. Duas tendências na arte bizantina são exemplificadas
nesses dois últimos locais. Os mosaicos e afrescos no Mosteiro de São
Lucas apresentam cenas no estilo hierático — cenas rígidas e austeras,
poses frontais e uma gama limitada de cores. Os mosaicos em Dafne
mostram a influência da arte clássica com o retrato realista de figuras
e peças de vestuário fluindo.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 413

A arte sacra bizantina em mosaico do período medieval encontra
algumas de suas melhores representações remanescentes em Veneza e
na Sicília, onde o Ocidente estava em contato com Bizâncio e, assim,
mosaicos bizantinos foram adotados. A basílica de São Marcos, em
Veneza, onde influências artísticas bizantinas são evidentes na arqui­
tetura e nos mosaicos, que datam do século 11 ao 14, oferece um dos
melhores lugares para ganhar a impressão de uma igreja bizantina. Os
governantes normandos da Sicília do século 12 tomaram emprestada
em grande escala a arte do mosaico bizantino, bem como incorpora­
ram influências árabes, e aplicaram-nas à decoração da capela Palati-
na, em Palermo, e das Catedrais de Monreale e de Cefalu.

O florescimento da civilização bizantina medieval teve uma con­
trapartida na Armênia, onde o primeiro terço do século 10 consis­
tiu em uma idade de ouro intelectual e arquitetônico sob a dinastia
Bagratuni. Assim, somos levados a olhar para as fortunas de igrejas
orientais fora de Bizâncio.

VII. EXPANSÃO MISSIONÁRIA

As missões à Europa central que converteram os eslavos e búlga­
ros ao cristianismo ortodoxo foram de enorme importância para o
futuro da Igreja Oriental.

O imperador Miguel III, em resposta a um pedido do rei dos esla­
vos na Morávia, Rastislau, enviou, em 864, dois irmãos — Constanti-
no (mais conhecido pelo nome monástico que adotou no final de sua
vida, Cirilo) e M etódio — como missionários à Morávia. Cirilo, nas­
cido em Tessalônica, cresceu falando grego e a língua eslava e apren­
deu também as línguas semíticas, tendo sido aluno de Fócio. Ambos
os irmãos haviam servido a altos funcionários. D urante sua missão,
veio a adaptação do alfabeto grego para a língua eslava (denominado
mais tarde, em homenagem a Cirilo, como alfabeto cirílico), o qual
foi aperfeiçoado na Bulgária, de onde se espalhou entre os povos es­
lavos do sul. Após a morte prematura de Cirilo, M etódio continuou.

O trabalho de Cirilo e de M etódio é um exemplo do que veio a
ser a política da Igreja Oriental, que foi organizar igrejas com base em
linhagens étnicas e nacionais, levando a uma federação de igrejas au-

414 HISTÓRIA DA IGREJA

tônomas, com costumes diferentes, mas uma mesma doutrina e espí­
rito. A prática romana em missões era diferente, insistindo na mesma
língua litúrgica (o latim, que persistiu em todas as igrejas Católicas
Romanas até a Constituição do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia,
1963) e nos mesmos costumes.

Cirilo e Metódio asseguraram o apoio papal para a sua missão.
Roma ganhou jurisdição na área e permitiu por um período a liturgia
eslava, que foi bem acolhida na Bulgária e finalmente encontrou seu
lar na Rússia. Essa antiga forma eslava de liturgia, no entanto, tornou-
-se cada vez mais distante da língua falada do povo.

Havia cristãos entre os búlgaros desde o sétimo século, mas o
Cristianismo foi estabelecido na Bulgária durante o reinado de Boris
(852-884). Ele optou por Constantinopla em detrimento de Roma,
uma vez que seu patriarca estava disposto a reconhecer uma igreja au-
togovernada, de modo que, em 870, um concilio em Constantinopla
colocou a Bulgária sob a sua jurisdição. Seu neto, o czar Simeão, criou
uma cultura que era eslava na língua, mas bizantina em espírito.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 415

O primeiro bispo de língua búlgara foi Clemente de Ocrida
(893), um discípulo de Metódio, que estabeleceu um monastério em
Ocrida (atualmente na Macedônia), que se tornou um im portante
centro religioso. O patriarcado búlgaro foi instituído em 925. Assim,
a Igreja da Bulgária se tornou a primeira Igreja O rtodoxa nacional,
fora do império. O monastério de Rila, fundado no século 10, tor­
nou-se o centro cultural da Bulgária.

Os primórdios da conversão da Rússia acabou por trazer um
maior número de fiéis para o rebanho ortodoxo. Os vikings, ou es­
candinavos (capítulo 19), que migraram para o leste entre o oitavo
e o décimo séculos, ficaram conhecidos como rus’. Eles penetraram
no território da Rússia moderna, seguindo os rios D nieper e Volga
meridional, abrindo rotas comerciais com Bagdá e Constantinopla.
Alguns se estabeleceram entre a população eslava, adotaram a língua
eslava, tornaram-se seus governantes e deram seu nome ao povo nati­
vo, com quem eles miscigenaram-se.

Embora não houvesse atividade missionária anterior, o primei­
ro convertido que fazia parte da nobreza rus’ foi a rainha Olga, na
sua capital, Kiev (Ucrânia). O verdadeiro fundador do cristianismo
russo, no entanto, foi seu neto, Vladimir, um libertino cruel, que, no
entanto, formalmente abraçou o cristianismo ortodoxo.

Essa história está relatada em Crônica Prim ária Russa, segundo a
qual Vladimir investiga o Islamismo, o judaísmo (adotado pelos cza­
res vizinhos no oitavo século), o catolicismo romano e a ortodoxia
grega. Os três primeiros tinham características que lhe desagradaram.
Sua delegação para Constantinopla trouxe de volta um relatório bri­
lhante dos esplendores de Santa Sophia e da liturgia, em que Deus
parecia habitar na terra.

Vladimir foi batizado em 6 de janeiro, Epifania, de 988, seguido
por um batismo em massa do povo de Kiev alguns meses depois (na
Páscoa ou em Pentecostes) — eventos comemorados em 1988 como
o milésimo aniversário do início do cristianismo russo. Ele instituiu
políticas que levaram a maioria de seu povo a se converter ao cristia­
nismo ortodoxo por ocasião de sua morte, em 1015.

Apesar de adotar a forma grega do cristianismo, a Rússia não se
apropriou da herança intelectual grega, no entanto, recorreu a m ui­

416 HISTÓRIA DA IGREJA

tos aspectos da tradição artística bizantina. Os laços com Constanti-
nopla também foram mantidos no nível administrativo: a igreja russa
foi, por muito tempo, administrada principalmente por gregos, e o
bispo metropolitano de Kiev era nomeado por Constantinopla. A
capital mudou de Kiev no ano de 1299 e, logo no início do século 14,
estabeleceu-se em Moscou, que se tornou um patriarcado em 1589.

Um dos filhos de Vladimir, Jaroslau I, o Sábio (1019-1054),
avançou no sentido da independência da igreja russa de Bizâncio
— codificando a lei russa, prevendo a tradução do direito canônico,
construindo a catedral de St. Sofia em Kiev, recolhendo livros religio­
sos e abrindo escolas.

Inicialmente, o centro da espiritualidade ortodoxa russa foi o
Mosteiro de Kiev-Petchersk, fundado por Antonio, que voltou à
sua terra natal depois de algum tempo passado no m onte Atos (veja
anteriormente). O cronista classificou o seu trabalho desta forma:
“M uitos mosteiros foram, de fato, fundados por imperadores, nobres
e magnatas [com prata e ouro], mas eles não são como aqueles funda­
dos com lágrimas, jejum, oração e vigília.”

Os húngaros (capítulo 19) e os eslavos ocidentais (boêmios, p o ­
loneses, croatas e eslovenos), ao contrário, permaneceram sob forte
influência romana.

A igreja Jacobita na Síria não era bem localizada para o trabalho
missionário; apesar disso, a primeira metade do nono século foi uma
idade de ouro para a sua produção de literatura siríaca.

Enquanto isso, a Igreja do O riente estava fazendo jus ao seu
nome, levando a mensagem cristã mesmo ao Extremo Oriente. De
sua base na Pérsia, esses cristãos estavam dispostos a seguir as rotas
comerciais abertas até o Oriente. Os membros foram enérgicos, os
monges estavam prontos para o autossacrifício como missionários, a
hierarquia era inteligente e foram empregados métodos eficazes que
envolviam serviços educacionais e médicos. A medida que novas se­
des episcopais iam sendo estabelecidas, a Igreja do Oriente também
abria escolas, bibliotecas e hospitais.

Estima-se que, na Idade Média, mais cristãos tenham dedicado
sua fidelidade aos católicos de Selêucia-Ctesifonte do que ao patriar­
ca de Constantinopla ou mesmo ao papa, em Roma. Em 775, esses

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 417

católicos mudaram sua sede para Bagdá, a nova capital da dinastia
abássida muçulmana (750-1258).

Grande parte dos progressos intelectuais no ambiente do cali-
fado abássida do oitavo e do nono séculos se deveu aos estudiosos
cristãos diofisistas (nestorianos), que traduziram obras de ciência e
filosofia grega para o siríaco e depois para o árabe. Um deles se encon­
tra entre os grandes nomes da história da tradução — H unain Ibn
Ishaq (809-873). Dentre aqueles que ocuparam o cargo de católicos
estiveram Yeshuyab II (628-643) e Tim óteo I (780-823).

Diversos relatos situam a chegada do cristianismo à índia durante
o primeiro e o segundo séculos, outras evidências aumentam a proba­
bilidade de o cristianismo ter surgido no quarto século naquele país,
mas é certo que já havia uma forte presença cristã no sexto século. Um
grande número de cristãos habitava a costa sudoeste (Malabar) da ín ­
dia, enquanto números menores viviam na região noroeste. Desde os
primeiros tempos, havia uma associação entre eles e os cristãos que se
comunicavam no idioma siríaco oriundos da Pérsia, de maneira que
o siríaco era a língua eclesiástica. D o sétimo ao nono séculos, a Igre­
ja do O riente proporcionou liderança episcopal para os cristãos na
índia e enviou monges missionários para lá. (A chegada de um bispo
sírio vindo do Ocidente em 1665 significava que a influência síria
ortodoxa [jacobita] estava substituindo a influência síria oriental.)

Já a partir do quarto século, havia cristãos ao redor do mar Cás­
pio e na região de Báctria. Até ao final do quinto século, missioná­
rios sírios do Oriente atuavam entre os hunos. Bispados surgiram nas
principais cidades ao longo da “Rota da Seda” até a China.

Uma longa inscrição em chinês datada de 781 e encontrada em
X i’an, capital da dinastia Tang, fala da chegada, em 635 (na época
em que o missionário irlandês Aidan foi da Escócia para a Inglater­
ra — capítulo 18), de um monge missionário sírio-oriental, Alopen,
que foi recebido favoravelmente pelo imperador. A inscrição dá uma
apresentação eficaz em chinês das doutrinas da religião “luminosa”
(Cristianismo).

A oposição trouxe destruição física à propriedade cristãs no iní­
cio do oitavo século, mas o favor imperial foi restaurado em 742.

O utra perseguição ocorrida em meados do nono século trouxe a
supressão do cristianismo na C hina e, em 980, um sacerdote cristão

418 HISTÓRIA DA IGREJA

sírio e outras cinco pessoas que haviam sido enviados para ajudar a
missão na China retornaram a Bagdá relatando que o cristianismo
estava extinto lá, o que talvez não fosse totalmente verdadeiro.

Pouco depois, do século 10 para o século 11, o cristianismo foi
se espalhando ao longo de uma rota mais ao norte até a Mongólia. O
rei dos keraites, uma tribo nômade, aceitou o cristianismo, havendo
ainda cristãos entre as tribos mongóis, de m odo que pode haver um
fundo de verdade por trás da lenda ocidental de um rei e sacerdote
cristão chamado Preste João. Posteriormente, no século 13, os cris­
tãos perderam a oportunidade de lançar um esforço de missões im­
portante durante o reinado de Kublai Khan (capítulo 24).

As Crônicas Coreanas falam de cristãos sírios do O riente no país
durante a dinastia Silla (661-932) talvez como resultado do conta­
to coreano com X ian durante o período em que o cristianismo foi
permitido lá. Fontes japonesas relatam que, em 737, um emissário
em viagem a X ia n retornou com um representante persa da “igreja
da çeligião luminosa”, havendo evidências de um edifício cristão em
Q uioto aparentemente datado do sétimo século.

VIII. A IGREJA COPTA

A igreja C opta do Egito passou por um mom ento de reaviva-
m ento durante o reinado dos califas fatímidas (969-1171), tendo os
seus membros atingido excelência artística e chegado a ocupar altos
cargos governamentais servindo a seus mestres muçulmanos. O perí­
odo foi marcado por perseguição no final do século 10 e no início do
século 11.

O século 11 testemunhou a primeira composição em árabe de
uma gramática para a língua copta. Eruditos coptas viram a necessi­
dade de resistir à influência esmagadora do árabe e assim renovaram
a produção de gramáticas e dicionários no século 13, mas essa explo­
são tardia da atividade literária não teve sucesso na preservação copta
como uma língua viva fora da liturgia, na qual ainda é usada.

O patriarca Christodoulos (1047-1077) transferiu a sede do pa-
triarcado de Alexandria para o Cairo. No século seguinte, foi compi­
lada a história dos patriarcas da igreja egípcia, uma importante fonte

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 419

de história da igreja copta, apesar de conter muito material lendário
no que diz respeito aos primeiros séculos.

LEITURA COMPLEMENTAR

B ESA N Ç O N , A. The Forbidden Image: An Intellectual History
o f Iconoclasm. Chicago: University o f Chicago Press, 2000.

B O W E R SO C K , G. W. Mosaic as History: The Near East from
Late A ntiquity to Islam. Cambridge, MA: Belknap, 2006

D V O R N IK , Francis. The Photian Schism: H istory and Legend.
Cambridge: Cambridge University Press, 1970.

EVANS, Helen C., E W illiam D. W ixom (Ed.). Glory ofB yzan-
tium : Arts and Culture o f the Middle Byzantine Era, A.D. 843-1261.
Nova Iorque: M etropolitan Museum, 1997.

G A RSO Y IU A N, N ina G. The Paulician Heresy: A Study o f the
Origin and Development o f Paulicianism in Armênia and the Eas-
tern Provinces of the Byzantine Empire. The Hague: M outon, 1967.

GIAKALIS, A. Images o fthe D ivine: The Theology o f Icons at
the Seventh Ecumenical Council. Leiden: Brill, 1994.

G R IF F IT H , Sidney H . The Church in the Shadow o fthe Mosque:
Christians and Muslims in the W orld o f Islam. Princeton: Princeton
University Press, 2008.

L O U T H , Andrew. St. John Damascene: Tradition and Origina-
lity in Byzantine Theology. Oxford: Oxford University Press, 2002.

TO LLEFSEN, T. Christocentric Cosmology o f St. M axim us the
Confessor. Oxford: Oxford University Press, 2008.

Igreja ocidental do sétimo
ao nono século

I. CRISTIANISMO CELTA E ANGLO-SAXÔNICO
A. Início da história do cristianism o na

Grã-Bretanha e Irlanda

De acordo com Tertuliano (Contra osjudeus 7), havia cristãos
entre os britânicos no final do segundo século.

Três bispos britânicos participaram do Concilio de Aries, em
314, no qual aprenderam a estabelecer a data da Páscoa. Quando o
método pôde ser revisto em Niceia, no ano de 325, no entanto, a
nova data não foi adotada na Grã-Bretanha, e a diferença tornou-se
um ponto de conflito quando o novo método foi trazido à região
posteriormente por missionários romanos.

Achados arqueológicos associam o cristianismo na Grã-Breta­
nha, no quarto século, principalmente aos proprietários de terras ro-

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 421

manos, ao passo que os mais pobres não deixaram vestígios materiais
de suas crenças.

N iniano (360—432) é considerado o “apóstolo da Escócia”. Ele
era de origem britânica, mas foi educado em Roma. Niniano encon­
trou-se com M artinho de Tours, na França, onde absorveu a ideia de
que um monge precisava ser um missionário. A partir de sua base em
W hithorn, em Galloway, ele atuou principalmente entre os pictos do
sul, entre a M uralha de Adriano e a Muralha de Antonino.

Patrício (389—461) é considerado o “apóstolo da Irlanda”. Nas­
cido em uma família cristã no noroeste da Inglaterra, ele foi raptado,
ainda jovem, por piratas e vendido na Irlanda. Depois de fugir para a
Gália, onde conheceu mais sobre o monasticismo, retornou à Irlanda
como missionário. Apesar de não ser o primeiro missionário a visitar
os irlandeses (foi precedido por Paládio, enviado pelo Papa Celestino
em 431 para trabalhar entre “os irlandeses crentes em Jesus”), Patrício
lançou as bases para a vitalidade posterior do cristianismo irlandês.

Apesar de o cristianismo já existir no País de Gales, o padroeiro
da região é Davi (m. 601), conhecido por seu ascetismo extremo e
pela promoção do monasticismo.

A retirada das tropas romanas da Grã-Bretanha, em 402, e as
invasões de anglos, saxões e jutos trouxeram um recrudescimento
do paganismo, agora em sua forma germânica, à Grã-Bretanha. Os
cristãos britânicos, que não tinham a menor intenção de reencontrar
seus conquistadores anglo-saxões novamente no Paraíso, não se pre­
ocuparam em levar o evangelho a eles, mas os cristãos celtas demons­
traram grande interesse em partir em missões pelo continente.

Q uando os missionários romanos chegaram à Inglaterra no fi­
nal do sexto século, já havia três expressões do cristianismo nas Ilhas
Britânicas: (1) os antigos cristãos romano-britânicos, confinados às
regiões do País de Gales e da Cornualha; (2) os cristãos irlandeses,
que representavam uma forma mais pura e intensa do cristianismo
desenvolvida por Patrício; e (3) os cristãos iro-escoceses, que vieram
da Irlanda para a Escócia. A expressão cristianismo celta é, às vezes,
aplicada a todos os três e, às vezes, apenas à forma irlandesa que tam ­
bém se espalhou pela Escócia e pelo norte da Inglaterra.

O cristianismo celta, especialmente como era praticado na Irlan­
da, possuía as seguintes características:

422 HISTORIA DA IGREJA

1. Valorizava a vida monástica. Por volta da metade do sexto sé­
culo, viu-se a fundação de um grupo de mosteiros im portan­
tes: D erry (546), Clonard (549), Durrow (c. 553), Bangor (c.
555), Clonmacnoise (554— 558) e Clonfert (558— 564).

2. Era associado à vida do clã. O bispo era a figura menos im­
portante do que em outros lugares, sendo considerado quase
supérfluo, a não ser para a realização de ordenações. Abades
eram os líderes religiosos realmente importantes. Um bom
exemplo é o de Armagh que, apesar de posteriormente ter
passado a ocupar a posição de centro episcopal da Irlanda, co­
meçou como um mosteiro.

3. Cultivava o zelo missionário. Cada cristão devia comunicar o
evangelho a outras pessoas, por isso eram pessoas que tinham
uma mobilidade considerável. A peregrinação (ou as viagens
sem destino determinado) era um dever penitencial.

4. Ligava a vida cristã à penitência. Já existia uma disciplina peni­
tencial em vigor na época, a qual viria a tornar-se mais ampla­
mente observada em uma época posterior. A confissão pública
já era difundida, mas um sistema de confissões particulares,
com um cronograma de expiações, foi desenvolvido.

5. Possuía a sua própria data para a Páscoa, recomendava uma
forma particular de tonsura para os monges e adotava uma li­
turgia específica (em latim, mas com a pregação em gaélico).

Dois monges-missionários irlandeses conhecidos e importantes
foram Columba (Columcille) (521—597) e Columbano (543—
615). Columba foi educado no Mosteiro de Clonard, na Irlanda, por
Finnian. Em 563, a ilha de lona, próxima à costa sudoeste da Escócia,
tornou-se o centro de sua atividade missionária e o centro espiritual,
a partir do qual o cristianismo celta conquistou a Escócia e o norte
da Inglaterra. De lona, Aidan partiu para Lindisfarne e promoveu
missões no reino da N ortúm bria (635) a convite do seu soberano,
Osvaldo.

Columbano recebeu sua educação em Bangor, no norte da Irlan­
da, e foi um dos cristãos latinos mais instruídos de seus dias. Antes de
os missionários romanos chegarem à Inglaterra, ele foi missionário
entre os alemães no continente. Colum bano fundou mosteiros em

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 423

Luxeuil, na França oriental (590), e em Bobbio, no norte da Itália
(613), e evangelizou a população alemã que habitava as cercanias do
lago de Constança. Hom em de índole independente, ele se corres­
pondia com o Papa Gregório, o Grande.

Colum bano trouxe, para o continente, livros penitenciais irlan­
deses que ajudaram a divulgar a prática da penitência privada repetí-
vel. Monastérios irlandeses e galeses, durante o quinto e sexto séculos,
desenvolveram um m étodo de disciplina que foi formulado nas pe­
nitências e que, mais tarde, tornou-se largamente adotado no conti­
nente. Uma disciplina penitencial particular e individual tomou, em
grande parte, o lugar da disciplina coletiva e pública da Igreja prim i­
tiva.

De acordo com esse novo sistema, a confissão era realizada com
base em um pacto de sigilo com um padre, o qual impunha atos de ex-
piação que eram normalmente praticados em ambiente privativo. Os
livros penitenciais, com suas escalas de penitência, incentivavam um
sistema de punições equivalentes para os pecados e de comutações de
pena em troca de obras de expiação. Entre as disciplinas prescritas,
estavam a recitação de salmos, o jejum, as vigílias, a flagelação, as pe­
regrinações e as compensações monetárias.

Um seguidor, Galo, estabeleceu, por volta de 612, uma cela de re­
clusão em uma localidade que veio a tornar-se, no oitavo século, uma
abadia beneditina, a Abadia de São Galo, cuja biblioteca e escola, já a
partir do nono século, consistiam de um centro de cultura no norte
dos Alpes.

As carreiras desses monges irlandeses e de Agostinho de Cantu-
ária ilustram o fato de que, antes de 1100, os missionários eram, na
maioria das vezes, monges (ou reis), e não membros do clero comum.
A morte de Columba, em 597, correlaciona-se profundamente com
a chegada de Agostinho à Inglaterra.

B. Missão de Agostinho na Inglaterra

Conta-se que Gregório, o Grande, certa vez, viu alguns jovens
ingleses sendo vendidos como escravos e que eles eram anglos (ingle­
ses). Gregório ficou tão impressionado com sua aparência que fez a

424 HISTÓRIA DA IGREJA

seguinte observação: “Não os chamem de angli, mas sim de angeli”
(não anglos, mas anjos).

Seja qual for a origem de seu interesse pela Inglaterra, um século
após a conversão de Clóvis ao cristianismo católico, o Papa Gregório,
no ano de 596, enviou Agostinho e outros 40 monges à Inglaterra.

A pequena delegação da qual Agostinho fazia parte desembar­
cou na região governada por Etelberto, rei de Kent, no sudeste da
Inglaterra. A rainha de Etelberto chamava-se Berta, filha do rei dos
francos e bisneta de Clotilde (esposa de Clóvis) — e cristã. Um in­
térprete franco acompanhava Agostinho. Etelberto permitiu-lhes
permanecer em seu reino, desde que não usassem de coerção ao fa­
zer conversões. Ele mesmo foi batizado em 597. O centro da obra de
Agostinho foi Cantuária, por isso ele se distingue de seu mais famoso
homônimo pela designação Agostinho de Cantuária.

A correspondência entre Agostinho e Gregório oferece detalhes
dos problemas de adaptação do cristianismo romano aos pagãos. As
caçtas de Gregório apresentam uma clássica exposição da estratégia
católica em missões: o que era claramente incompatível com o cris­
tianismo deveria ser destruído, mas o que pudesse ser aproveitado ou
adaptado para fins cristãos deveria ser usado, de maneira a proporcio­
nar a maior continuidade possível da vida religiosa. As orientações da
missão de Gregório serviam para cristianizar tudo o que fosse sagra­
do, independentemente de local ou época.

Embora Gregório tenha percebido que Londres e Iorque viríam
a tornar-se importantes sedes metropolitanas, Cantuária manteve
sua influência na região sul.

Agostinho mudou-se entre os anos 602 e 603 para encontrar-se
com os bispos britânicos. Um homem santo havia dito aos bispos que,
se os romanos chegassem com uma postura de humildade, deveríam
ser recebidos como homens de Deus, mas, se optassem pelo orgulho,
deveríam ser rejeitados. M antendo coerência com sua posição de arce­
bispo e representante de Roma, Agostinho permaneceu sentado quan­
do os bispos britânicos se aproximaram. Eles entenderam esse com­
portam ento como um sinal de que deveríam recusar suas demandas.

A posição de Agostinho era de que os cristãos britânicos deves­
sem aceitar a data romana da Páscoa, realizar o batismo de acordo

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 425

com o ritual romano e juntar-se a ele na Convencido por uma visão de
evangelizaçao do povo inglês. O fracas­ que Deus estava a seu favor,
so dessa reunião levou a um século de Edwin reuniu-se com seus
conflito entre os celtas e o cristianismo conselheiros com o objetivo
anglo-romano. O insucesso dos cristãos de persuadi-los a aceitar o
britânicos, ao evangelizarem seus invaso­ cristianismo. Então, o sumo
res ingleses, foi especialmente desastroso sacerdote pagão declarou que
para o seu futuro. os velhos deuses jamais fizeram
algo de bom por ele e destruiu
C. Evolução na Nortúmbria os altares que ele mesmo lhes
havia dedicado. Um nobre da
O rei da Nortúmbria (região nordes­ época, sem registro histórico
te da Inglaterra), Edwin, foi casado com
Etelburga, filha de Etelberto e Berta, e, a seu respeito, contou a
por intermédio dela, a influência de rai­ história de um pardal que,
nhas cristãs se manteve. Etelburga trouxe para fugir do frio do inverno,
consigo, para sua nova casa, um represen­ entrou por uma janela e voou
tante do cristianismo romano, Paulino, pelo interior de uma casa
que evangelizou na área. onde estava sendo dado um
banquete, mas logo saiu pela
Edwin e seu povo foram batizados mesma janela e desapareceu
por Paulino. Esse trabalho missionário, novamente na escuridão. A
no entanto, foi posteriormente encerrado vida do homem, disse ele, é
pelo rei pagão Penda de Mércia (a grande como a aventura desse pardal:
área central da Inglaterra) ou absorvido aparece na terra por pouco
pela ação de missionários celtas. tempo, vindo da escuridão, e
depois de um breve intervalo
O rei Oswiu da Nortúmbria tornou- desaparece novamente naquela
-se um cristão celta. Ele foi fortemente mesma escuridão. “Se esse
pressionado por Penda, mas venceu uma novo ensinamento for capaz de
batalha crucial sobre ele em 655. A espo­ revelar-nos um conhecimento
sa de Oswiu, filha de Etelburga, era uma que nos dê mais certezas na
cristã romana, e isso a fez convocar um vida, parece justo que devamos
concilio em 664 para avaliar as diferen­ segui-lo” (Beda, História
ças entre o cristianismo celta e o romano. eclesiástica do povo inglês 2.13).
O concilio reuniu-se em Whitby, em um
mosteiro para homens e mulheres funda­
do e liderado pela notável abadessa Hilda,

426 HISTÓRIA DA IGREJA

Abadia de Whitby (edifícios do século 13), construída no local ocupado pelo mosteiro em que
o Concilio de Whitby se reuniu no ano de 664

que patrocinava Caedmon, o primeiro poeta conhecido no idioma
inglês. O porta-voz do lado romano foi o monge Wilfrid de Iorque;
do lado celta, foi Colman, sucessor de Aidan em Lindisfarne. (A for­
ma predominante do cristianismo em cada lado era a monacal.)

Os cristãos britânicos e celtas calculavam a data da Páscoa como
o domingo entre o décimo quarto dia e o vigésimo dia do calendário
lunar, enquanto os cristãos romanos entendiam que a data certa era
o domingo entre o décimo quinto e vigésimo primeiro dia. A tonsu-
ra romana deixava o cabelo com a forma de uma coroa em torno da
cabeça; o celta raspava o cabelo na parte frontal da cabeça. Por trás
do debate sobre a data exata da Páscoa e a tonsura adequada para os
monges, havia mais diferenças culturais significativas, de modo que a
aprendizagem produtiva foi prejudicada pelas acirradas disputas de
intolerância.

A conclusão final foi definida pela observação de Wilfrid de
que Pedro possuía as chaves do Reino dos Céus, com a qual Colman
concordou. Oswiu não tinha a menor intenção de ofender a figura de
Pedro, por isso, decidiu em favor dos costumes do sucessor do após­
tolo em vez dos de Columba. Posteriormente, o cristianismo romano
predominou na Inglaterra durante séculos.

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 427

Uma segunda missão romana na Inglaterra chegou em 668—669
na pessoa de Teodoro de Tarso, um seguidor grego de Roma que se
refugiou no ocidente durante a controvérsia do monotelismo e foi
nomeado arcebispo de Cantuária. Teodoro ajudou a organizar a igre­
ja na Inglaterra do ponto de vista eclesiástico, a partir de um sistema
paroquial, separando a organização diocesana dos governos civis. As­
sim, ele fundou uma nação inglesa por antecipação, mas a conclusão
da hierarquia da igreja, com duas províncias de Cantuária e Iorque,
não foi realizada até 755.

Bento Biscop, um monge anglo-saxão de Lérins, da corte de
Teodoro, trouxe a regra beneditina e fundou mosteiros em Jarrow
e Wearmouth. A vida intelectual floresceu no chamado “renasci­
mento nortumbriano” no sétimo e oitavo séculos. O grego e o latim
foram muito estudados, e manuscritos foram recolhidos e copiados
(incluindo a melhor cópia da Vulgata completa — o Codex Amiati-
nus, produzido em Wearmouth/Jarrow durante a vida de Beda, que
hoje se encontra em Florença).

Igreja de São Martinho, Cantuária, uma igreja de cristãos romanos, posteriormente, a Capela
da rainha Berta no momento da vinda do missionário Agostinho para o reino de rei Etelberto,
em Kent, Inglaterra

428 HISTORIA DA IGREJA

A arte encontrou expressão impressionante em manuscritos ilu­

minados, dos quais os mais espetaculares são os Evangelhos de Lindis-

farne (696—698) e o Livro de Kells (c. 800,

---------------------------- talvez preparado em lona) — com cores ex­

“Meu principal prazer travagantes, intrincados padrões, profusão

sempre esteve no estudo, de animais entrelaçados, plantas e figuras

no ensino e na escrita” humanas, e detalhes de humor característi­

(Beda, História eclesiástica cos da arte celta.

do povo inglês 5.24). Por volta do ano 700, a aprendizagem

----------------------------- europeia era mantida viva em grande parte

dos mosteiros da Irlanda e da Inglaterra, e

de lá surgiram os intelectuais que fomentaram o Renascimento Ca-

rolíngio no continente um século mais tarde.

O orgulho e a glória da erudição e da adoração inglesa residiam

no Venerável Beda (673—735), praticamente um contemporâneo de

João Damasceno (capítulo 17). Ele foi trazido para Wearmouth aos

sete anos de idade para ser educado e servir à igreja; mais tarde, foi

alocado no Mosteiro de Jarrow.

Beda adquiriu tal conhecimento do latim que deixou de falar o

idioma de sua terra natal, o anglo-saxão. Seus comentários sobre a Bí­

blia mostram conhecimento do grego, disponível em poucos lugares

na Europa Ocidental naquela época. Esse neto de pagãos alcançou

resultados impressionantes do ponto de vista exegético, espiritual e

histórico.

Beda é especialmente lembrado por sua História eclesiástica do

povo inglês, que apresenta três temas: fomentar uma identificação dos

Sobre otúmulo de Beda, na Catedral de Durham, Inglaterra, pode-se ler:
"Cristo é a Estrela da Manhã, aqual, quando a noite deste mundo chegar
aofim, trará aos Seus santos a promessa da luz da vida e inaugurará o dia
eterno" (Beda, C om entário so b re o A p o ca lip se 2.28).

Oração de Beda: "Eu lhe imploro, bomJesus, que, da mesma maneira que,
em Sua misericórdia, o Senhor gentilmente me concedeu o prazer de fruir as
palavras de Seu conhecimento, igualmente, em Sua benignidade, também
me conceda um dia para vir até o Senhor, a Fonte de toda asabedoria, afim
de prostrar-me para sempre diante de Seu rosto. Amém".

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 429

povos diferentes que coabitavam a Inglaterra como um único povo
inglês; apoiar a igreja romana e suas práticas; e fornecer modelos de
comportamento aos reis, monges e bispos, os quais, por sua vez, te-
riam a missão de promover uma sociedade cristã.

Acredita-se que Beda foi o primeiro a incluir, em uma obra his­
tórica, o sistema cronológico a.C.—d.C. criado por Dionísio Exíguo,
no início do quarto século (capítulo 15). Ele nos fornece uma ima­
gem aprazível dos cristãos celtas, mesmo sendo ele um saxão que m i­
grou para a forma romana do cristianismo.

Compara-se o que Beda fez pela Inglaterra ao que Cassiodoro
fez pela Itália, ao que Gregório de Tours fez pela França e ao que Isi­
doro fez pela Espanha: dar ao povo local, no caso, os germânicos,
um sentido de identidade em relação ao seu lugar nos propósitos de
Deus, transmitindo o método de aprendizagem clássica à Idade M é­
dia, colocando-se a serviço da igreja e fornecendo a base para uma
nova civilização cristã.

II. MISSÕES ANGLO-SAXÔNICAS NO CONTINENTE

Uma das primeiras levas de missionários celtas foi sucedida, um
século depois, por missionários anglo-saxões leais a Roma. Entre 690
e 770, um grande número de missionários anglo-saxões foi para o
continente.

Tendo sido recentemente convertidos ao cristianismo, esses mis­
sionários agora trabalhavam de forma específica, mas não exclusiva­
mente, entre os seus colegas saxões e os povos germânicos relacio­
nados. Eles vieram não tanto para acabar com o cristianismo celta,
mas para pregar àqueles que não conheciam a Palavra e para trazer
organização, a fim de que a presença cristã se sustentasse.

As perdas territoriais cristãs para o Islã, no sul e no leste, foram
parcialmente compensadas por ganhos no oeste e no norte, come­
çando com a Grã-Bretanha e, em seguida, movendo-se em direção ao
continente, onde o cristianismo se espalhou pela Europa do norte e
central. Dois representantes desse m omento são os missionários Vili-
brordo (Clemente) e Vinfrido (Bonifácio).

430 HISTÓRIA DA IGREJA

A. Estratégia

Os missionários anglo-saxões adotaram várias estratégias úteis
para alcançar seus objetivos no continente.

1. Eles colocaram o seu trabalho sob a autoridade do papa. As­
sim, portanto, estabeleceram os limites setentrionais do con­
trole papal.

2. Eles trabalharam sob a proteção de governantes locais e com o
apoio do major domo (prefeito da casa ou prefeito do palácio
— algo semelhante ao conceito de “primeiro-ministro”) dos
reis francos. Isso trouxe vantagens práticas, mas, muitas vezes,
criou barreiras em relação ao povo a quem eles procuravam
converter, porque eles eram vistos como agentes de um poder
político inimigo.

3. Eles desafiaram diretamente as superstições do povo, a quem
tentaram impressionar expondo as fraquezas dos deuses pagãos.

4. Eles evangelizaram de maneira objetiva e prática.
5. Eles praticaram conversões em massa, reunindo seus converti­

dos para o batismo na Páscoa ou no Pentecostes.
6. Eles organizaram dioceses com paróquias. Os missionários

celtas haviam dedicado pouca atenção aos arranjos diocesanos
e se mudado livremente, sem clientelismo político. Os anglo-
-saxões, por outro lado, percebiam a si mesmos como restau­
radores da ordem eclesiástica do antigo Império Romano.
7. Eles instituíram bispos auxiliares ou restauraram a função de
chorepiscopi (bispos rurais).
8. Eles fundaram uma infinidade de mosteiros, que funcionavam
como âncoras para o seu trabalho.

B. Vilibrordo (658-739)

Vilibrordo (Clemente) estudou com Wilfrid, bispo de Iorque
(norte da Inglaterra) e da Irlanda. Ele partiu para a Frísia (países do
Benelux atual) com 11 companheiros saxões no ano de 690. Embora
outros houvessem precedido Vilibrordo nessa região, quando ele che­
gou lá, encontrou uma terra pagã além dos antigos limites do Império

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 431

Romano, que, no entanto, já havia sido exposta à superioridade da
cultura e da religião do império. Algumas comunidades cristãs per­
maneceram após as legiões romanas partirem, então, nesses casos, já
havia alguns cristãos, mas não era o caso dos frísios nativos, em meio
aos quais o sincretismo abundava.

A base principal de Vilibrordo ficava em Echternach (Luxem­
burgo), mas o posto avançado em Utrecht (Holanda) acabou por
tornar-se a sede arquiepiscopal. A missão frísia experimentou um gra­
ve revés por ocasião de um levante contra os francos, mas a região foi
finalmente convertida em 784 graças aos esforços de Carlos Magno,
sob cuja proteção Alcuíno escreveu sobre a vida de Vilibrordo.

C. Vinfrido (673-754)

Tudo o que se conhece sobre a vida de Vinfrido (Bonifácio) deve-
-se à biografia escrita por Vilibaldo em suas cartas. Nascido em Wes-
sex (a Saxônia ocidental), Vinfrido foi colocado, aos sete anos, no
mosteiro de Exeter como oblato. Insatisfeito com a biblioteca escassa
de lá, ele conseguiu ser transferido para o mosteiro de Nutsall, perto
de W inchester, onde permaneceu até os 40 anos. Então, ele partiu em
uma missão para a região frísia, onde trabalhou, ainda que brevemen­
te, sob a direção de Vilibrordo.

Depois de uma visita a Roma, onde seu nome foi mudado para
Bonifácio, ele foi enviado pelo Papa Gregório II para trabalhar na
Turíngia e em Hesse. Em uma segunda visita a Roma, foi seguido por
mais trabalho missionário entre os saxões. Um incidente famoso foi
sua demonstração da impotência do paganismo quando derrubou um
carvalho sagrado dedicado ao deus Thor, em Geismar, e usou a ma­
deira para construir um oratório dedicado a São Pedro, em Fritzlar.

A correspondência de Bonifácio com seu patrono real na Fran­
ça e com os papas mostra a estratégia de sua missão. Sua abordagem
era prática e buscava evitar discussões filosóficas elaboradas. Ele
possuía a vantagem, como missionário, de apresentar-se como um
representante da cultura romana, tida como superior. Com a renún­
cia do paganismo e uma confissão de fé, os convertidos recebiam o
batismo.

432 HISTÓRIA DA IGREJA

O trabalho missionário de Bonifácio compreende a reorganiza­
ção e a restauração da vida da igreja nas antigas zonas fronteiriças que
haviam sido devastadas pelas invasões bárbaras. Seu principal estabe­
lecimento monástico ficava em Fulda (744), organizado no modelo
beneditino. Durante a maior parte da sua carreira como bispo (no­
meado em 722 por Gregório II) e arcebispo (nomeado em 732 por
Gregório III), ele não dispunha de um local de trabalho fixo, mas, a
partir de 747, fez de Mainz seu quartel-general, de maneira que essa
cidade, mais tarde, veio a tornar-se o maior bispado da Europa.

Sua correspondência incluía repreensões aos seus patronos reais
e até mesmo aos Papas Gregório II e III, que dedicavam total apoio
a ele. A esse último, Bonifácio disse que, a menos que as condições
melhorassem em Roma, ele não podería enviar mais peregrinos para
lá: em termos de relações conjugais, os pagãos do norte eram mais
exemplares do que os cristãos do sul.

Os esforços de reforma empreendidos por Bonifácio incluíam
participação ativa nos concílios do reino franco. Estes consistiam de
uma combinação de dietas civis e sínodos eclesiásticos que emitiam
capitulares calcadas tanto no direito canônico da igreja como no di­
reito civil.

O segundo desses concílios alemães (o primeiro ocorreu em 742),
realizado em Estienne, onde hoje fica a Bélgica, por volta de 743 ou
744, representou um passo importante no desenvolvimento do feuda­
lismo. O rei foi autorizado a usar terras cuja propriedade seria da igre­
ja e que renderíam a ela um determinado valor em caráter de aluguel.
Essa prática criou um precedente para o conceito de feudo, ou seja, a
concessão do uso de uma propriedade pela qual, em vez haver paga­
mento de aluguel, havería remuneração na forma de serviço militar.

O Concilio de Soissons, realizado em 744, foi o primeiro data­
do a partir do nascimento de Cristo. Bonifácio foi designado como
líder dos demais bispos sob sua autoridade; a partir de então, deveria
passar a ser realizado anualmente um sínodo dos bispos. Com o ha­
via poucas cidades na época, as dioceses eram grandes e divididas em
muitas paróquias; os padres costumavam permanecer em suas paró­
quias e ser visitados pelo bispo uma vez por ano. A escolha dos bispos
pertencia à prefeitura merovíngia.

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 433

Algumas das capitulares provenientes de vários concílios entre
742 e 747 ilustram a vida naqueles tempos e as dificuldades enfrenta­
das pela Igreja:

1. O dinheiro apropriado das igrejas por governantes devia ser
restaurado, mas essa preocupação prioritária dos concílios
acabou mostrando-se excessivamente ambiciosa.

2. Os clérigos não se dispuseram a pegar em armas ou a lutar;
eles, muitas vezes, foram a batalhas carregando relíquias, gri­
tando “aleluia” e orando antífonas.

3. O celibato era exigido por parte do clero, mas não uniforme­
mente obedecido. 4. Os monges foram obrigados a viver de
acordo com a regra beneditina.

5. Os bispos eram proibidos de criar falcões.

6. Os sacerdotes deveríam usar somente óleo consagrado por um
bispo, em um esforço para manter um símbolo de unidade sob
sua autoridade.

7. O objetivo era combater o sincretismo, um problema grave,
naquela época, de indefinição da cristandade (por exemplo,
os fogos cerimoniais dos alemães que deram origem às foguei­
ras).

Bonifácio retornou à Frísia em 753. Ele foi martirizado em 754
durante a preparação de convertidos para o batismo. Ele e seus cotra-
balhadores não opuseram resistência aos agressores pagãos.

A obra da vida de Bonifácio amarrou os nós que uniam o tecido
da estrutura eclesiástica, no reino franco e em suas terras adjacentes,
ao norte, mas não obteve o mesmo sucesso no trabalho missionário
entre os saxões.

III. ERA DE CARLOS MAGNO NO OCIDENTE

A. A ntecessores de Carlos Magno: Pepino e o
papado

Carlos Martel, prefeito do rei merovíngio, é lembrado por duas
coisas: conter o avanço muçulmano (733) na França e secularizar as
propriedades da igreja, a fim de financiar seus empreendimentos. O

434 HISTÓRIA DA IGREJA

nome dessa dinastia, carolíngia, deve-se a ele. Carlos M artel morreu
em 741 e foi sucedido no cargo por seus filhos Carlomano e Pepino.
Os 15 anos que se seguiram foram um ponto de mutação decisivo na
história política e religiosa ocidental.

Em 747, Carlomano, por razões religiosas, retirou-se para um
mosteiro, deixando seu irmão Pepino III, o Breve, na posição de úni­
co governante de fato da prefeitura de Childerico III, o último dos
“reis preguiçosos” merovíngios. N o mesmo ano, um concilio franco
enviou pedidos de direito canônico ao Papa Zacarias, marcando a
primeira abertura do reino franco a Roma e a restauração das relações
com a sede papal após um período de deterioração nas relações.

Pepino tinha como princípio a dignidade real, por isso, enviou
uma delegação em 751 a Roma, a fim de reunir informações sobre a
situação na França, onde o único que tinha o título de rei não possuía
autoridade real de fato. O Papa Zacarias respondeu “que seria melhor
que aquele que realmente detivesse o poder fosse chamado de rei, em
vez do outro que possuía o título, mas não o poder real”. Childerico
foi enviado a um mosteiro, e Pepino foi proclamado rei. É possível
que Bonifácio, na posição de representante do papa, tenha sido um
dos bispos que o ungiu; caso isso tenha sido um fato histórico, repre­
sentaria o ápice de seu trabalho de reorganização.

Pepino desejava uma confirmação papal mais direta de sua auto­
ridade, de modo que, em 754, o Papa Estêvão II rumou para o norte,
a fim de conferir uma unção papal pessoal a Pepino e a seus dois filhos
na Abadia de Saint-Denis, perto de Paris. A unção deu ao rei franco
a santidade cristã, como uma epifania de Jesus Cristo, em lugar da
santidade pagã herdada. É possível que reis visigóticos e merovíngios
tenham sido ungidos anteriormente, mas a menção expressa às un-
ções em 751 e 754 foi provavelmente um ato que se deveu ao desejo
do usurpador Pepino de legitimar seu reinado.

Em seguida, reis presentes em sua unção e em ocasiões cerimo­
niais passaram a usar vestes que eram, essencialmente, eclesiásticas.
Eles eram ungidos com o óleo sagrado usado na consagração de bis­
pos; sua espada, seu cetro, seu anel e sua coroa eram abençoados. Não
é de admirar que os reis considerassem possuir um caráter sagrado e
se sentissem posicionados acima de bispos e padres.

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 435

Estêvão II proclamou Pepino e seus filhos “patrícios de Roma”,
com a responsabilidade de proteger Roma dos lombardos, e, em tro ­
ca, Pepino declarou o corredor bizantino de territórios entre Roma e
Ravena pertencente ao papado.

Argumentou-se, durante a Idade Média, que se tratava de uma
restituição de terras já pertencentes ao papa ou de uma doação re­
alizada pelo rei. O que na verdade estava em jogo era saber: “Quem
mandava em quem?” N a verdade, os territórios não pertenciam a
Pepino nem ao papa, mas sim ao imperador oriental, no entanto, a
desculpa de que não fora garantida a segurança necessária para o con­
trole de sua posse foi a escolha oficial. A “Doação de Pepino”, mais
tarde, repetida por Carlos Magno, transformou as fronteiras privadas
dos territórios papais, o “Patrimônio de Pedro”, em jurisdição civil
papal, “a República de São Pedro”.

O estado papal representou a junção de vários elementos: as
propriedades deixadas para a igreja, as realizações administrativas de
cada papa em Roma, a teoria de que Roma pertencia ao papa desde a
“Doação de C onstantino” (veja a seguir) e a imagem do papa como
o representante do imperador com prerrogativas sobre o corredor bi­
zantino na Itália. O que vinha tomando forma há algum tempo final­
mente foi amplamente reconhecido do ponto de vista legal.

Em 751, Ravena caiu nas mãos do rei Astolfo, dos lombardos,
o último dos invasores germânicos da Itália. Eles ocuparam o vácuo
de poder bizantino na Itália, com exceção do extremo sul e do corre­
dor Roma-Ravena. Os imperadores bizantinos adotavam uma políti­
ca iconoclástica (o iconoclástico Concilio de Hieria veio a reunir-se
posteriormente em 754), considerada herética em Roma. Além disso,
eles estavam sendo perseguidos pelos muçulmanos e, por isso, não
tinham condições de oferecer proteção à Itália. Pepino enviou expe­
dições contra os lombardos para aliviar a pressão do norte e do sul
sobre Roma. Em 752, Zacarias, o último papa grego, morreu.

Então, em 754, o ano da morte de Bonifácio, o ocidente havia
concentrado sua atenção em Roma, ao passo que Roma tinha se afas­
tado de Bizâncio para olhar para os francos. Estêvão II foi o último
representante eficaz do poder imperial romano no ocidente e, quan­
do ele chegou à Gália em 754 para ungir Pepino, representou o espí­
rito do que seria a cristandade medieval ocidental.

436 HISTÓRIA DA IGREJA

Alguns diriam que esse evento simbolizou o fim do período de
transição a partir do quinto ao oitavo séculos, entre o fim do Império
Romano no ocidente e o início da nova civilização medieval.

O ano de 754 foi, certamente, muito significativo para os reli­
giosos e para a história política: o papado passou de bizâncio para
francos, passando a ser, então, governado por uma nova dinastia; era
o nascimento dos estados papais como entidade jurídica, e a unção
papal concedeu um caráter sagrado à realeza.

Pepino III morreu em 768 e foi sucedido por seus filhos Carlo-
mano e Carlos Magno, também conhecido como “Carlos, o Grande”.
Com a morte de Carlomano em 771, Carlos Magno tornou-se o úni­
co governante. Ele procurou construir um Império Franco-romano
inspirado na Cidade de Deus de Agostinho.

Concomitantemente com a controvérsia iconoclasta, em 754, o
papa decidiu voltar suas atenções do oriente para o ocidente em bus­
ca de apoio político e militar. Em 800, Carlos Magno era visto, no
ocidente, como o verdadeiro sucessor do imperador romano. Afinal
de contas, os francos, culminando em Carlos Magno, haviam propor­
cionado à Europa o fim de uma fase de declínio e trazido um breve
período de renascimento cultural, conhecido como o Renascimento
Carolíngio.

B. Expansão militar e missionária no governo de
Carlos Magno (768—814)

Carlos Magno conquistou, no ano de 774, a província de Pávia,
tornando-se rei dos lombardos, além de rei dos francos. Ele renovou
concessões ao papa, então Adriano, e passou a cunhar moedas em
seu próprio nome e a produzir documentos datados de acordo com
o ano de seu pontificado, sinais claros de independência política em
relação ao imperador bizantino. Carlos Magno assumiu, então, a Ba-
viera em 787 e deu início à sua reorganização eclesiástica. Ele expan­
diu suas fronteiras ao sul dos Pireneus, garantindo, assim, a lealdade
dos visigodos sobreviventes no norte de Espanha (788). A Frísia foi
conquistada em 790.

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 437

Os principais inimigos de Carlos Magno eram os saxões. Ele che­
gou a realizar 18 expedições militares em terras saxônicas no período
de 33 anos. Muitos missionários haviam trabalhado entre os saxões
obtendo pouco sucesso, uma vez que eles permaneciam leais à reli­
gião germânica. Em mom ento algum, os saxões pararam de invadir o
território franco.

Carlos Magno encarava as missões como parte de sua política
militar, mas sua demanda para que todos fossem batizados causou
enorme resistência por parte do líder germânico saxão Viduquindo.
A política brutal de Carlos Magno deixou uma cicatriz em todo o
povo. Após a vitória franca em Verdun, Viduquindo rendeu-se e foi
batizado em 785.

Uma capitular emitida por um determinado concilio ocorrido
em 781 ou 785, dizendo respeito à Saxônia, tornou o batismo de
crianças com menos de um ano de idade obrigatório, ameaçando,
com a pena de morte, quem escondesse uma criança (a pena de morte
era comum para muitos delitos). Essa legislação tornou o ato de não
batizar um filho sinal de paganismo. Como um contemporâneo ob­
servou: “Carlos Magno pregava com língua de ferro”.

A paz foi finalmente alcançada após 10.000 saxões sofrerem de­
portação para o território franco e serem substituídos por colonos
francos nas terras da Saxônia.

Uma visão particular a respeito do cristianismo que surgiu en­
tre os saxões é encontrada no poema épico H eliand (“O Salvador”).
Ele foi composto na primeira metade do nono século por um poeta
e monge nativo do idioma saxão antigo, a pedido do filho de C ar­
los Magno, Luís, o Piedoso. Conhecido como “O Evangelho Saxão”,
uma vez que consiste de uma releitura dos quatro Evangelhos no esti­
lo da poesia épica, o H eliand apresenta uma síntese do cristianismo e
da sociedade guerreira saxônica.

Empregando terminologia e conceitos familiares aos seus ouvin­
tes, o autor fala dos discípulos de Jesus como Seus “companheiros
guerreiros”, destaca a virtude da lealdade para com o chefe (contri­
buindo, assim, para a imagem depois da cavalaria cristã), justapõe o
destino com o Deus bíblico e toma emprestados itens da magia (por
exemplo, enfatizando o poder persuasivo das palavras e substituindo

438 HISTÓRIA DA IGREJA

a ênfase dos sacramentos no poder de Deus pela eficácia dos próprios
elementos).

Missionários foram enviados para cristianizar os ávaros, um
povo originário da M ongólia/Turquia que se estabeleceu na bacia
do Danúbio.

Exceto por incidentes isolados, os judeus viveram em paz e pros­
peridade, protegidos por Carlos Magno e seus sucessores.

C. Prática eclesiástica e organizacional no
governo de Carlos Magno

Carlos Magno tom ou a prática em suas mãos não apenas para
fortalecer a atividade missionária, mas também para organizar a igre­
ja por dentro. Ele, no controle de um reinado sacramentado por sua
unção divina, era visto como um novo Davi ou um novo Josias que,
como os reis do Antigo Testamento, supervisionou a vida religiosa e
a vida secular em seus territórios.

A principal preocupação da igreja carolíngia era com a ordem, e
isso significava a manutenção de uma hierarquia estável e leal à coroa.
O principal conselheiro de Carlos Magno, Alcuíno, dirigia-se a ele
como “Davi”, na corte. Havia uma mistura de poder sacerdotal e real.

Isso se refletia, por exemplo, nos sínodos panfrancos, que conti­
nham representantes leigos e eclesiásticos. Decretos que diziam res­
peito à igreja eram emitidos não como decisões partindo dos bispos,
mas como capitulares emitidas pelo regente. Os missi dominici (no­
bres de posição hierárquica intermediária e também clérigos) eram
enviados para manter o controle sobre as regiões de fronteira. Bispos
e abades, especialmente os que se encontravam sob a autoridade dos
sucessores de Carlos Magno, tornaram-se vassalos do rei, e seus escri­
tórios tornaram-se benefícios concedidos pelo governante.

Carlos M agno ouvia alguém ler a Cidade de Deus, de Agostinho,
toda noite, mas ele parece ter entendido a obra no sentido de que o
Estado devesse ser usado para submeter o m undo à Igreja. Os limites
entre os dois poderes, real e sacerdotal, eram indistintos. Nem mesmo
o bispo de Roma se opôs aos novos acordos; apenas Alcuíno o fez,
mas de uma maneira tão hermética que Carlos Magno nunca chegou
a perceber.

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 439

O termo arcebispo havia sido usado, no passado, por patriarcas
e bispos que foram representantes especiais do papa, mas começou,
então, a ser usado pelos bispos metropolitanos (bispos de sedes im­
portantes, como, por exemplo, capitais provinciais), que receberam
o pálio (uma peça de vestuário de lã branca) diretamente do papa,
como um sinal por ser seu representante.

O ito novas dioceses foram formadas durante o reinado de Carlos
Magno. A ideia era de que fossem sínodos anuais de bispos sob o seu
arcebispo, mas Carlos Magno deu preferência a sínodos panfrancos,
nos quais não havia distinção entre o bispo e arcebispo. No final do
seu reinado, havia em seus territórios 12 arcebispos franceses, cinco
italianos e quatro alemães.

Ao contrário da situação nos primeiros anos da Igreja, o advento
de dioceses e províncias eclesiásticas foi determinado a partir de acor­
dos entre o poder secular e o papa, e, assim, os bispos eram nomeados
pelo rei, como era o costume dos reis francos desde Clóvis. Eles de­
viam pregar, fazer visitas regulares às paróquias e evitar excessos na
vida.

O fato é que havia sido instituída uma poderosa rede de paró­
quias locais, a qual se tornou mais im portante do que a antiga organi­
zação baseada na cidade em que cada igreja situava-se, o que já não era
mais possível no sistema econômico e social eminentemente agrário
que havia surgido.

Cada paróquia possuía o seu próprio cemitério e batistério. N e­
nhum a igreja podia ser consagrada sem a presença de relíquias sagra­
das (revivendo a disposição de um concilio em Cartago no ano de
401, com base no qual foi determinado que relíquias devessem ser co­
locadas em altares). Embora o clero usasse vestimentas especiais (pelo
menos enquanto celebrava a liturgia), a partir do quarto ou quinto
séculos, passou a ser exigido o uso de roupas específicas em outras
ocasiões, a fim de desencorajar a sua presença em bordéis e bares sob
o anonimato das vestes laicas.

Uma característica distintiva do período carolíngio foi o desen­
volvimento do clero canônico em catedrais. Uma catedral (do grego
kathedra, “cadeira”, por meio do latim) era a igreja do bispo, onde fi­
cava seu “trono”. Anteriormente, existiam dois tipos de clero: o clero

440 HISTÓRIA DA IGREJA

“secular”, que vivia no m undo (saeculus) e realizava deveres pastorais
nas paróquias, e o clero “regular”, pessoas ordenadas que viviam como
monges de acordo com uma regra monástica {regula). O clero “canô­
nico” combinava ambos os recursos, desempenhando responsabilida­
des paroquiais no dia a dia mundano, mas vivendo de acordo com
uma regra.

O chefe do clero da catedral era o próprio bispo, mas, a partir do
nono século, por vezes, um deão era escolhido para ajudar o bispo
nos assuntos administrativos da diocese, de modo que arquidiáco-
nos eram nomeados por regiões para supervisionar a administração
financeira do reitor e dos arciprestes. Em igrejas colegiadas (igrejas
paroquiais maiores nas quais havia vários sacerdotes), um reitor (uma
espécie de abade secular) ou um arcipreste dirigia o clero. Crodegang,
bispo de M etz (m. 766), já havia, sob o reinado de Pepino, procurado
regulamentar a vida dos cânones, adaptando a regra beneditina ao
clero local.

O grande mosteiro saxônico em Corvey (inspirado no mosteiro
francês de Corbie) foi fundado, sendo comparável em importância a
Fulda. Bento de Aniane (m. 821) decidiu estabelecer uma maior uni­
formidade de costumes entre os mosteiros, reformando-os de acordo
com a Regra de Bento de Núrsia. Ela foi estabelecida com o padrão
para casas monásticas no ocidente pelo filho de Carlos Magno, Luís,
o Piedoso, dando, assim, a ideia de uma “família” de mosteiros que,
mais tarde, influenciaram os cluníacos e os cistercienses.

Bento de Aniane enfatizou a importância do trabalho manual
sobre o estudo e o ascetismo. Várias mulheres solteiras e viúvas da n o ­
breza franca fundaram conventos e tornaram-se suas abadessas. No
século seguinte, Dunstan (909—988), como abade de Glastonbury
e, depois, arcebispo de Cantuária, alinhou o monasticismo inglês à
regra de Bento. Os mosteiros tinham, em média, de 70 a 150 mem­
bros. Corbie foi uma exceção por alcançar 300 membros.

Uma cópia do direito canônico foi recebida de Roma, a Diony-
sio-Hadriana, baseada na coleção de Dionísio Exíguo e suplementa­
da pelo Papa Adriano.

Sob o reinado de Pepino e a direção de Crodegang, a liturgia e o
canto romanos começaram a ser praticados na França. Em 785, o Papa

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 441

Adriano enviou à corte de Carlos Magno, em Aachen, uma cópia do
Sacramentário Gregoriano. Este foi adaptado por Alcuíno, utilizan­
do alguns elementos da Gália. Esse rito litúrgico, que foi transmitido
de Roma à Gália na sua forma modificada, voltou a Roma. O rito
gaulês-romano resultante aparentava ser romano, mas, na verdade,
continha uma grande mistura de elementos gauleses. Ele substituiu,
em larga escala, outros ritos litúrgicos ocidentais. O objetivo de uma
maior uniformidade nas normas monásticas do direito canônico e da
liturgia foi associado aos conteúdos recebidos pela França vindos de
Roma.

O ordenamento desejado envolvia a regulação da vida religiosa
do povo: batizar seus filhos ao nascerem, abster-se do trabalho no
domingo, confessar pecados e comungar três vezes por ano, sem falar
no dízimo. O batismo foi “cristianizado” (criando um novo cristão),
o que envolvia a concessão de um nome cristão sob os cuidados de
padrinhos, tornando o indivíduo parte integrante de seu parentesco,
para cálculo de graus dentro dos quais seria proibido o casamento.

Durante o oitavo século, na administração do batismo, a tríplice
imersão do recém-nascido era comum, mas a aspersão (borrifar
água sobre a cabeça do candidato) deu início a um longo processo
de substituição de imersão no ocidente, não só em casos de batismo
de acamados adoecidos (nos quais era normal), mas também como a
prática padrão. O batismo era supostamente administrado logo após
o nascimento, mas, a menos que houvesse uma emergência, era adia­
do até a Páscoa ou Pentecostes.

A educação na vida cristã frequentemente deixava muito a dese­
jar: em seu primeiro livro, Sobre o estado laico (820), Jonas de Orleães
lamentava que grande parte dos leigos pensasse no fato de que, só
por ter sido cristianizada, independentemente de como vivesse seu
dia a dia, não se perderia e jamais enfrentaria o fogo purgativo. M uito
pelo contrário, ele afirmava que os não batizados passariam a vida na
perdição.

A base econômica da igreja encontrava-se regularizada e reforça­
da pela cobrança de dízimos e pela coleta de impostos pelo Estado.
Além dos dízimos, as igrejas recebiam ofertas e bens legados, além de
suas propriedades lhe renderem aluguéis. Os dízimos eram divididos

442 HISTÓRIA DA IGREJA

em quatro partes: uma para o bispo, outra para o clero, a terceira para
os pobres e a quarta para a reconstrução de igrejas (essa distribuição
de ofertas era uma prática mais antiga, incluída nas orientações trans­
mitidas por Gregório, o Grande, a Agostinho).

A atividade intelectual e literária da época carolíngia deu origem
aos primeiros manuscritos em notação musical (conhecidos como
neumas), datados do nono e décimo séculos, que consistiam de uma
elaboração da música litúrgica e das primeiras manifestações de melo­
dias polifônicas. Tratados sobre música deram continuidade à prática
preexistente de tratamento de um tema como abordagem teórica, em
vez de deter-se em seu desempenho real. A participação congregacio-
nal na liturgia já havia sido m uito reduzida; em igrejas maiores, coros
realizavam o canto.

A corte bizantina presenteou Pepino com um órgão em 757 e
destinou outro a Carlos Magno no ano de 812. Esses eventos foram,
muitas vezes, entendidos como a introdução de música de órgão na
liturgia>ocidental, mas esse instrumento já era utilizado em Bizâncio,
só que apenas em funções cerimoniais da corte, e não na liturgia, o
que aparentemente também acontecia em Aachen. Os órgãos eram
usados em ocasiões cerimoniais também nos grandes mosteiros, em
datas que variam desde o período carolíngio até por volta do ano 1000
e, mais tarde, na abertura e no encerramento dos serviços religiosos (e
não inicialmente como um acompanhamento para a liturgia).

A primeira vez que os sinos foram usados na igreja parece ter
sido na África do N orte e na Gália durante o sexto século. Eles foram
empregados pelos missionários celtas no sétimo século e tornaram-se
mais comuns no período carolíngio. Os sinos anunciavam os horários
da oração, chamando os fiéis para rezarem e afastando os demônios.

Os costumes pagãos ainda sobreviveram entre as pessoas, espe­
cialmente os elementos de magia, feitiçaria e astrologia. Clérigos
faziam esforços para cristianizar os costumes, substituindo o “Pai-
-nosso” e o Credo Apostólico por encantamentos e até consagrando
árvores e fontes a santos.

As práticas piedosas que haviam sido instituídas anteriormente e
que se tornaram características da Idade Média, como, por exemplo,
o culto a relíquias e as peregrinações, eram comuns em tempos caro-

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 443

língios, bem como os abusos cometidos por fiéis. O desejo de possuir
uma relíquia fazia a ocasião para o ladrão. Peregrinações (a Basílica
de São Martinho de Tours era a localidade mais popular da França)
traziam tentações morais, de modo que era comum desencorajar as
mulheres de realizarem as viagens. Um observador desiludido escre­
veu: “Para ir a Roma, grande fadiga, pouco lucro. Você só encontrará
o rei que foi lá procurar se o levar consigo”.

Os bispos eram grandes empreendedores da construção civil e
eclesiástica. Modificações nas basílicas cristãs primitivas, que se tor­
naram precursoras da arquitetura romana nos séculos 11 e 12, co­
meçaram a ocorrer. Em um plano diferente e centralizado, encontra-
va-se a Catedral de Aachen — 16 lados com uma cúpula octogonal.
O projeto foi inspirado na igreja octogonal de São Vital, em Ravena.
A catedral foi construída em 794—798 e consagrada por Leão III
em 805.

"Embora a conduta correta possa ser melhor do que o conhecimento,
ainda assim, oconhecimento é mais importante que aconduta. (...) Temos
reconhecido [em cartas que recebemos] pensamentos corretos expressos
de maneira rude; porque o que a devoção piedosa dita fielmente à mente,
a língua, sem educação por causa da negligência no estudo, nem sempre é
capaz de expressar-se nas cartas sem erros. Por isso, começamos atemer
que, por acaso, como a habilidade na escrita é inferior ao desejado, assim
também a sabedoria para compreender as Sagradas Escrituras possa ser
muito menor do que justamente deveria ser" (Carlos Magno, Epístola em

relação às cartas).

D. Criação de escolas e renascimento intelectual

No final do oitavo e nono séculos, o ocidente vivenciou o que
chamamos hoje de Renascimento Carolíngio. O retorno a um de­
terminado nível de estabilidade e segurança política, reforçado pela
atitude de Carlos Magno e sua corte, tornou possível reviver a vida
intelectual que sofreu extremamente com o avanço das invasões
bárbaras. Carlos Magno ordenou que todo monastério e toda dio­
cese se responsabilizassem pelas escolas, mas isso foi difícil de ser
cumprido.

444 HISTÓRIA DA IGREJA

Além disso, Carlos Magno era cercado de homens extremamente
capazes, atraindo intelectuais de outros países, dentre estes, a Espa­
nha, a Itália e, especialmente, a Grã-Bretanha. Isso promoveu a disse­
minação do aprendizado em seus territórios. Esse interesse na educa­
ção possuía um objetivo especial de orientar as pessoas a tornarem-se
aptas a compreender melhor a mensagem das Escrituras. A premissa
era de que o conhecimento correto constituía um pré-requisito para
a ação correta.

As Bíblias em latim eram os livros mais frequentemente copia­
dos naquela época. Contando com o incentivo de Carlos Magno,
intelectuais de vários centros aplicavam-se à tarefa de criar um texto
confiável para a Vulgata. Uma nova forma de escrita, a grafia caro-
língia de letras minúsculas, surgiu. Comentários para os manuscritos
do Saltério forneceram protótipos da Glossa Ordinaria do século 12
à Bíblia como um todo. Paulo, o Diácono, preparou uma coletânea
de sermões dos Pais da Igreja organizados de acordo com textos das
Escrituras e com o ano litúrgico, de modo a servir como modelo para
uso em todo o reino.

Muitos livros sobre “a vida dos santos” também foram produzi­
dos. De fato, o primeiro gênero literário da Idade Média, tanto no
ocidente como no oriente, foi a hagiografia. Essas obras variavam na
abordagem às tradições clássicas da biografia e das homenagens fúne­
bres, mas incluíam conteúdos relacionados a temas lendários a respei­
to de milagres, com o propósito de exaltar as virtudes de cada santo e
promover a vida cristã aos leitores.

Alcuíno tornou a corte de Carlos Magno, em Aachen, um centro
de aprendizado e, mais tarde, assumiu a posição de diretor de uma
escola monástica em Tours. Ele já havia, anteriormente, atuado como
mestre em uma escola em Iorque, fundada pelo arcebispo Egberto,
pupilo de Beda. Antes de serem criadas escolas sob a patronagem da
corte, existiam três tipos de escolas na cristandade: as monásticas, as
episcopais ou catedráticas (projetadas para recrutamento de pessoal
para o clero direcionado à diocese) e, em alguns casos, as paroquiais.
Apenas na Itália os professores de gramática continuavam a transmi­
tir ensinamentos em troca de honorários. Alcuíno escreveu o prim ei­
ro catecismo conhecido: Perguntas e respostaspara crianças.

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 445

Mosaico (reconstruído no século 18) na sala de jantar do Papa Leão III, localizada no
Palácio de Latrão, em Roma, retratando, na região central, Cristo conclamando os apóstolos
a orarem, à esquerda, Cristo entregando as chaves a Pedro e o lábaro (a cruz imperial)
a Constantino, e, à direita, Pedro entregando uma bandeira romana (a partir de então, o
símbolo do cristianismo) a Carlos Magno e o pálio (manto papal) a Leão III

Durante a Antiguidade, o professor não ocupava uma posição
social em especial, mas, no período do cristianismo, o professor era
uma pessoa de caráter sagrado, um clérigo e estudioso. No caso dos
povos germânicos, o professor era uma figura reverenciada, havendo
uma relação de profundo respeito e temor concernente aos livros, es­
pecialmente porque eles eram escritos na venerável linguagem latina,
que prevaleceu durante a antiguidade cultural e foi considerada a lín­
gua da redenção.

A instrução compreendia as sete artes liberais da Antiguidade
Clássica: o Trívio da gramática (incluindo filologia, literatura e crítica
literária), a retórica (redação de cartas, pregação e arte da persuasão),
a dialética (lógica e, mais tarde, todo o conhecimento compreendi­
do na filosofia) e o Quadrívio (sem limitações) da astronomia (para
calcular a data da Páscoa), a música (eclesiástica), a aritmética (para a
contabilidade das igrejas) e a geometria. A proeminência da dialética
no currículo continha a raiz do posterior escolasticismo.

446 HISTÓRIA DA IGREJA

Os requisitos básicos para os sacerdotes era conhecer os credos, o
Pai-nosso, a missa, os sacramentos (as orações) e a catequese (leitura
das Escrituras) e, ainda, a música eclesiástica e as homilias aos Pais da
Igreja. As principais categorias de literatura produzidas nos três sécu­
los que antecederam esse período e que se encontravam disponíveis
para estudo consistiam de comentários à Bíblia, tratados teológicos,
relatos sobre a vida dos santos, obras de cunho histórico, tratados so­
bre artes liberais, calendários, enciclopédias e compêndios e, ainda,
coleções de leis.

E. Desenvolvimentos teológicos e controvérsias

As controvérsias teológicas da idade de Carlos Magno e de seus
sucessores estavam relacionadas à natureza de Jesus Cristo e da Igreja
e eram tratadas de maneira argumentativa em termos da correta in­
terpretação das tradições.

Alguns líderes da Península Ibérica, no final do oitavo século,
notavelmente Elipando, arcebispo de Toledo, e Félix, bispo de Urgel,
ensinavam uma cristologia que seus oponentes Beato e Alcuíno
denominavam de “adocianismo”, o que não deve ser confundido
com a antiga cristologia do “adocionismo”. Esse nome se origina
da caracterização dos ensinamentos consagrados de que o Filho de
Deus, por natureza, adotou o filho em Sua humanidade.

Alcuíno, teólogo de Carlos Magno, escreveu uma refutação,
Contra Félix, na qual defende que seria doutrinariamente mais cor­
reto dizer que o divino Cristo assumiu a natureza humana (homo as-
sumptus) em vez de afirmar que Ele tenha adotado um filho {filius
adoptivus). Ele afirmou, incorretamente, que os ensinamentos de Fé­
lix remontavam ao nestorianismo. A cristologia Ibérica era, de fato,
baseada em Filipenses 2.6,7, que faz referência à autossubmissão do
Filho de Deus. Sua visão foi condenada herética tanto pelo Concilio
de Frankfurt em 794, convocado por Carlos Magno, como pelo Papa
Leão III em 798.

A inclusão da cláusulafilioque (afirmando que o Espírito Santo
procedia do Pai e do Filho) ao Credo Niceno, adotado em Toledo no
ano de 589, foi trazida à liturgia gaulesa por ordem de Carlos Mag­

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 447

no. O Papa Leão III ordenou que ela fosse omitida da liturgia roma­

na, em vez de alienar os gregos, de modo que ela não foi incluída em

Roma no século 11.

O Segundo Concilio de Niceia, no ano de 787, opunha-se ao

Movimento Iconoclasta, fazendo uma distinção entre a veneração

permitida de imagens e a adoração que pertencia apenas a Deus.

Quando as decisões do concilio foram traduzidas para o latim, hou­

ve uma confusão nas distinções. Como nenhum bispo francês esteve

presente no concilio, Carlos Magno afir­

mou que ele não era ecumênico. O impe­

rador, então, incumbiu um teólogo, prova­ “Permitimos o uso de

velmente Teodulfo de Orleans, de produzir imagens dos santos nas

os Libri Carolini (“Livros de Carlos Mag­ igrejas não para que sejam

no”), que enunciavam a visão ocidental adorados, mas para garantir

tornada comum a respeito da arte religiosa, que as pessoas se lembrem

considerando-a adequada para a instrução de eventos passados e para

e a decoração, mas não para a adoração. adornar as paredes”

Rejeitando tanto o Concilio de Hieria (Libri Carolint).

(754) como o de Niceia II (787), o autor

afirma que “não devemos nem destruir,

como o que precede, nem adorar, como o que sucede”. O Concilio

de Frankfurt, em 794, repudiou o decreto do Concilio de Niceia II,

a despeito de este contar com o endosso papal e, dessa maneira, pre­

valecer, em última instância, como política oficial. A arte religiosa

do período carolíngio refletia os contatos culturais renovados no im­

pério baseados na arte italiana e bizantina, bem como na arte celta e

germânica.

F. Coroação de Carlos Magno como imperador

No Natal de 800, o Papa Leão III coroou Carlos Magno como
imperador em Roma. O evento fora claramente planejado, mas por
quem? A conjectura mais plausível é de que tanto Carlos Magno
como Leão III tivessem alguma coisa a ganhar com aquele evento.
Carlos Magno desejava intensamente o título imperial, mas precisava
lidar com um papa que estava sofrendo acusações de adultério, que

448 HISTÓRIA DA IGREJA

não admitia ser julgado por alguém e que ainda pretendia banir seus
inimigos por traição.

Carlos Magno entendia que o cenário mais plausível seria o de
receber a coroa se aceitasse um juramento do papa em relação à sua
própria inocência, sem a necessidade de um julgamento, o que de fato
ocorreu. Antigamente, quando um novo imperador era aclamado, a
coroa era dada a ele. O que Carlos Magno não previu foi que o Papa
Leão transformasse a coroação em uma encenação constitutiva, de
modo que a aclamação se tornasse um ato de aprovação “espontânea”
por parte do povo presente na igreja. Aquilo contam inou comple­
tamente o significado do evento, uma vez que o título de imperador
passou a soar como um presente concedido pelo papa, o que explica
por que a biografia de Carlos Magno por Einhard afirma que o impe­
rador ficara completamente contrariado com o que acontecera.

Carlos Magno e o papa possuíam concepções diferentes a respei­
to do significado de império, e isso deu origem a uma disputa por
supremacia que se estendeu pelos séculos seguintes: será que o impe­
rador desempenhava um papel de supervisão sobre a igreja, ou seria o
papa quem coroava (e destituía) imperadores ?

Com o pano de fundo da coroação de Carlos Magno, estava a luta
de Irene por poder em Bizâncio, no ano de 797. Como uma mulher
não era considerada capaz de deter o título imperial, o ocidente se
deu o direito de interpretar a situação como a de que o trono impe­
rial estivesse vago. Os bizantinos, por outro lado, reagiram negativa­
mente à coroação de Carlos Magno (embora um cronista bizantino
tenha relatado, na época, que Irene pensava em casar-se com Carlos
Magno). Por fim, foi negociado um acordo mediante o qual o impe­
rador Miguel I reconheceu, em 812, Carlos Magno como seu irmão
com regência estendida à Itália, com exceção de Veneza e da região
vizinha. Q uanto a Carlos Magno, evidentemente se via nele um novo
Constantino.

A coroação de Carlos Magno é frequentemente descrita como o
início do “Sagrado Império Romano”. Tal terminologia é um anacro­
nismo. Tendo em vista o que de fato veio a tornar-se, podemos perce­
ber que alguma coisa nova estava ocorrendo, embora a denominação
correta tenha levado séculos para surgir de fato.

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 449

A intenção dos participantes era eleger o novo imperador no im ­
pério que já existia. Carlos Magno era o rei dos francos e dos lom-
bardos. Além disso, do ponto de vista daqueles que o elegeram, ele
passara a ser o imperador do Império Romano existente. Carlos Mag­
no havia adquirido um novo título de nobreza, mas não chegado a
tornar-se imperador sobre novos territórios.

IV. CULTURA CAROLÍNGIA POSTERIOR E SEUS
PROBLEMAS

O novo século foi testemunha do início da desintegração do im­
pério e da cultura unificada que Carlos Magno procurou construir.
Nesse contexto, ocorreram controvérsias que afetaram a organização
da igreja, e surgiram questionamentos teológicos mediante os quais
poucos homens de notável capacidade intelectual demonstraram o
resultado de um reavivamento educacional anterior.

A. Contexto político

Se Carlos Magno não tivesse conseguido ver seu filho Luís, o Pie­
doso (814— 840), ser elevado à púrpura antes de sua morte, o título
de imperador teria morrido com ele. A influência do clero sobre seus
atos deu a Luís esse apelido. De acordo com a intenção de seu pai,
Luís coroou a si mesmo, mas perm itiu que a coroação fosse repetida
pelo Papa Estêvão IV, que também lhe concedeu a primeira unção
imperial em Reims, no ano de 816. A partir de então, os dois rituais,
de unção e coroação, passaram a ser sempre combinados.

A Constitutio romana (824) estabeleceu definitivamente as re­
lações entre o imperador e o papa. O imperador possuía jurisdição
suprema, ao passo que o papa atuava como regente local no exercício
do poder judiciário ordinário e administrativo de seus territórios. O
papa era eleito pelo povo romano sem nenhuma restrição. O impe­
rador deveria confirmar essa eleição, e, diante de sua consagração, o
papa faria um juramento de lealdade ao imperador. O papa possuía
direito de coroar e ungir o imperador.

Os filhos de Luís — Lotário, Luís, o Germânico, e Pepino — fo­
ram sub-regentes durante a vida de seu pai. N o ano de 840, Lotário

450 HISTÓRIA DA IGREJA

reclamou o controle de todo o reino, mas a situação complicou-se
diante das ambições de Carlos, o Calvo, filho de Luís com sua se­
gunda esposa. O resultado estabelecido em Verdun, no ano de 843,
foi a divisão do reino de três maneiras, um acordo que previa uma
futura reorganização política na Europa. Carlos, o Calvo, reinaria sob
o ocidente (a França), Lotário ficaria com a região intermediária (in­
clusive a Itália), e Luís, o Germânico, reinaria sob a região oriental (a
Alemanha). O título de imperador permaneceu como uma posição
pessoal.

O desenvolvimento da Dinastia Carolíngia é simbolizado pelos
nomes de seus líderes, começando por Carlos Martel (Martelo),
Carlos, o Grande (Carlos Magno), seguidos por Carlos, o Calvo,
Carlos, o Gordo (filho de Luís, o Germânico) e Carlos, o Simples
(neto de Carlos, o Calvo). (A tradução do nome dado ao último não
lhe é injusta, uma vez que a palavra simplex era usada conotando o
sentido de “ausência de maldade”.)

IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 451

Não obstante, os representantes da Igreja mantiveram a ideia cleri­
cal de um império cristão, enquanto os religiosos carolíngios avançaram
em importantes idéias acerca da teoria política. O anglo-saxão Catwulf
afirmou que existem duas naturezas em Jesus Cristo, de modo que há
duas naturezas na sociedade, o corpo político e o corpo eclesiástico.
Essa visão prevaleceu até a atualidade no ponto de vista anglo-saxão,
mas caiu em declínio à medida que o reino carolíngio se desintegrou.

Smargeus, em Caminho real, faz referência a uma unção que con­
fere ao rei o poder sacramental que lhe permite tornar-se um filho
adotivo do Rei dos Céus. Jonas, Bispo de Orleans, em sua obra Insti­
tuição real, afirma que o poder real vem de Deus, e não da linhagem;
até mesmo um regente, que não é considerado justo, deve ser obede­
cido, o que pode ser interpretado como um castigo de Deus sobre
Seu povo. Incmaro, arcebispo de Reims, em sua obra Autoridade dos
reis, insiste no fato de que os bispos são superiores na medida em que
consagram reis, mas não são consagrados por eles.

Quando o Papa João VIII coroou Carlos, o Calvo, em 875, de­
senvolvendo o pensamento de que o rei consagrado é uma imitação
do Rei verdadeiro, Cristo, ele declarou que o que Cristo possui por
natureza o rei possui por graça, palavras que ecoaram em coroações
posteriores. Tal aplicação da teoria política fez avançar a ideia de rea­
leza divina no ocidente.

B. Decretos de Pseudoisidoro

Os problemas eclesiásticos do nono século, na Gália, concen­
travam-se na autoridade dos bispos sobre os arcebispos. Incmaro, ar­
cebispo de Reims (845— 882), estava tentando promover a união e
descobriu que os bispos precisavam ter seu poder descentralizado. Os
papas haviam favorecido o restabelecimento dos arcebispos, mas ago­
ra temiam que os arcebispos, que possuíam muito poder, usassem-no
como vantagem para fortalecer determinados bispos contra reis e ou­
tros arcebispos.

A data dos Decretos de Pseudoisidoro é incerta, provavelmente
anterior ao oitavo século (c. 774—778) ou mesmo um pouco mais
recente que o ano de 850. O compilador presumido foi Isidoro Mer­
cador (pseudônimo), provavelmente associado a Isidoro de Sevilha.

452 HISTÓRIA DA IGREJA

Um dos propósitos dos Decretos de Pseudoisidoro era mostrar os pa­
pas como defensores dos bispos contra seus metropolitanos. Possi­
velmente, o material foi originado das cercanias de Reims, e, se a data
posterior fosse escolhida, é provável que tivesse Incmaro como alvo.
Houve outras falsificações semelhantes na época, mas aquela se to r­
nou a mais influente na história da Igreja Católica Apostólica Ro­
mana. Ela se tornou a base pelos apelos em favor de uma monarquia
papal na Alta Idade Média.

Após o prefácio, há quatro partes nessa compilação:
1. Comunicados papais (em todas as falsificações) — 50 “C âno­

nes Apostólicos” e 60 decretos de Clemente de Roma (a litera­
tura pseudoclementina é usada como apostólica) a Miltíades.

2. “Doação de Constantino” — a lenda de que o Papa Silvestre
curou e converteu Constantino, o qual posteriormente mudou
sua capital para Constantinopla e concedeu poder sobre o oci­
dente ao Papa de quem recebeu a coroa imperial, havia sido
amplamente aceita em Roma, no final do quinto século, e cir­
culou na forma de uma falsificação no oitavo século, em cone­
xão com a unção de Estêvão a Pepino. É muito fácil depreciar
essa história devotamente merecedora de crédito, mas a lenda
aponta para o resultado real da mudança realizada pelo impe­
rador em relação a transferir a capital para Constantinopla.

3. Cânones de concílios a partir de Niceia até o sétimo século, na
maioria, autênticos.

4. Cartas papais (40 das quais apócrifas) enviadas desde o papa­
do de Silvestre (m. 335) até o de Gregório II (m. 731).

O efeito geral dessa compilação foi proporcionar uma base legal
para a autoridade papal sobre a estrutura jurisdicional da igreja. A
“Doação de C onstantino” teve o significado adicional de conceder
uma base para as alegações de que o papa possuía superioridade sobre
todos os regentes, inclusive o imperador romano.

C. Papa Nicolau I, o Grande (858—867)

Nicolau I, que se viu envolvido na disputa com a igreja oriental
(capítulo 17) a respeito da eleição de Fócio, como patriarca, e da ju-


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