The words you are searching are inside this book. To get more targeted content, please make full-text search by clicking here.

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

Discover the best professional documents and content resources in AnyFlip Document Base.
Search
Published by , 2018-01-04 18:16:27

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

TRANSIÇÕES À IDADE MÉDIA -MIGRAÇÕES GERMÂNICAS, DESENVOLVIMENTOS oco
DOUTRINÁRIOS E PAPADO 3D3

Enquanto, no oriente, as cidades continuavam sendo a estrutu­
ra da organização social, no ocidente, as propriedades rurais m an­
tinham essa posição. Os reis tinham de subsistir essencialmente das
possessões em suas próprias terras, então havia uma descentralização
de serviços governamentais.

C. Efeitos nas igrejas

Com o declínio do governo centralizado no ocidente, a igreja as­
sumiu muitos serviços públicos, por exemplo, a educação, que m anti­
nha sua base tradicional no oriente.

N o ocidente, as igrejas e os mosteiros estavam ligados à economia
agrícola e beneficiavam-se da proeminência dos poderes locais.

A igreja tinha vantagens sobre as monarquias. A ideia de uma
autoridade universal associada à igreja criava uma potencial superio­
ridade sobre a autoridade limitada dos reis regionais. N enhum a auto­
ridade secular no ocidente era capaz de controlar a igreja como um
órgão do Estado na mesma proporção que os imperadores orientais.

Nas fronteiras do império, o cristianismo não era tão bem estabe­
lecido. Esse fato e também a destruição causada pelas invasões resul­
taram na obliteração quase total da presença da Igreja ou, do contrá­
rio, pelo menos em uma retirada temporária.

Nas regiões mais distantes das fronteiras, os assentamentos de
novas populações e outros efeitos das invasões perturbaram a vida da
Igreja durante variados períodos de tempo, mas não a interrom peu
completamente.

Enquanto o império ia sendo sufocado, a Igreja, quase sozinha
entre as velhas instituições, sobrevivia, e nela os cristãos buscavam
apoio e continuidade. Os bispos geralmente mediavam entre os inva­
sores e os novos reis.

Mais próximo ao centro m editerrâneo do império ocidental, no
sul da Gália e Itália, a revolta foi menos extensiva, e a civilização
romana conseguiu levar uma vida fragilizada por diversas gerações.
Os clérigos ali podiam continuar dando-se ao luxo da controvérsia
teológica.

354 HISTÓRIA DA IGREJA

VI. ESTÁGIOS POSTERIORES DA CONTROVÉRSIA
ENTRE AGOSTINHO E PELÁGIO

Como vimos no capítulo 14, a primeira fase da controvérsia pe-
lagiana foi Agostinho contra Pelágio, e a segunda fase foi a reação se-
mipelagiana contra o agostinismo no sul da Gália. Uma terceira fase
inaugurou-se com a defesa de Agostinho por seus partidários na Gália.

D o ponto de vista literário, o principal campeão das idéias de
Agostinho foi Próspero de Aquitânia (c. 390— depois de 455). Ele
respondeu a Cassiano em Contra Collatorem (432) e procurou ajuda
do Papa Celestino contra os “semipelagianos”. A princípio, Próspero
parece mais fiel ao agostinismo rígido e tenta colocar sobre Cassiano
a heresia já condenada de Pelágio.

Para Próspero, a questão principal era o caráter completamente
gratuito da graça, e ele via a causa da desavença em estimativas dife­
rentes do efeito da queda sobre a capacidade humana para o bem. A
resposta de Próspero para as objeções que outros guardavam contra
os ensinos de Agostinho defendia a predestinação e a perseverança,
mas introduzia a presciência dos erros como a razão para Deus não
conceder a graça da perseverança para alguns.

A obra Sobre o chamado dos gentios, de Próspero, lutava com a
vontade de Deus de salvar a todos, um conceito problemático para
os agostinianos. Ele explicava que a graça geral de Deus convidava a
todos e interpretava 1 Timóteo 2.4 como a vontade de Deus de que a
oração fosse feita para a salvação de todos. Embora fosse conciliatório
sobre a posição da vontade humana na salvação, o caso de Próspero,
no final, foi insatisfatório, porque sua ênfase na necessidade de uma
graça especial para a salvação era inconsistente com a vontade salva­
dora universal de Deus.

Uma quarta fase na controvérsia viu uma renovada oposição ao
agostinismo rígido como expresso por Lúcido, cujos pontos de vista
sobre a predestinação foram condenados em um sínodo em Aries em
473. Fausto, abade de Lérins em 433 e depois bispo de Régio (Riez)
em 418, escreveu Sobre a graça para opor-se à predestinação. Ele pro­
curou estabelecer uma posição mediana entre Pelágio e Agostinho, de­
fendendo tanto o livre-arbítrio quanto a necessidade da graça. Ávito,
bispo de Viena (c. 490— 518), e Fulgêncio, bispo de Ruspe, no norte

T R A N SIÇ Õ ES À ID AD E M ÉD IA - M IG R A Ç Õ ES G ER M Â N IC A S, D ESEN V O LV IM EN T O S 355
D O U TRIN Á RIO S E PAPADO

da África (c. 507—533), defenderam um “Rogo e exorto, com
agostinismo completo contra Fausto. grande humildade, que
qualquer que receber este
A fase final do conflito sobre a nature­ livreto em suas mãos deve
za humana e a salvação avistou o triunfo do lê-lo frequentemente e
que pode ser chamado de “semiagostinis- incuti-lo em outras pessoas.
mo”, como foi expressado por Cesário, bis­ (...) Muitas pessoas, e talvez
po de Aries (502—542). Cesário foi um dos até as religiosas, querem
bispos mais importantes de sua época. Ele manter seus inúmeros livros
era conhecido por sua benevolência e cui­ brilhando e lindamente
dados pastorais, suas homílias eram usadas encadernados; mas os
como modelos de pregação, e ele elaborou a
primeira regra escrita especificamente para

regular a vida comunal das freiras. mantêm trancafiados em

Embora Cesário tivesse sido treinado baús de forma que não

no Mosteiro de Lérins, ele adotou um agos­ podem lê-los, nem oferecê-

tinismo moderado, que incorporava a ênfase -los para que outros possam

de Agostinho na prioridade da graça, aceita­ ler. Elas não sabem que

va a ênfase monástica sobre as boas obras e não é de vantagem alguma

sua recompensa e castigo no julgamento, e possuir livros e não os ler.

evitava os aspectos mais controversos dos (...) [Um livro] que é lido

ensinos de Agostinho sobre a predestinação continuamente... não é

e a perseverança. bonito por fora, [mas]

Os pontos de vista de Cesário foram torna a alma linda por

aprovados por um pequeno sínodo de bis­ dentro” (Cesário de Aries,

pos reunidos em Orange, em 529, e rece­ Sermão 2).

beram maior valor com o endosso do Papa ----------------------------

Bonifácio II, em 531. Os pontos principais

eram os seguintes: a humanidade está sob o pecado original e perdeu

todo o poder de retornar para Deus. A graça preveniente (a graça que

precede boa vontade ou obra) é defendida contra os semipelagianos.

O batismo é a imposição definitiva da graça, perdoando o pecado ori­

ginal e renovando a capacidade de escolher o bem. Todos os que rece­

bem a graça no batismo podem ser salvos se agirem fielmente. Assim,

a base foi lançada para o comprometimento medieval* que insistia na

prioridade teológica da graça e na ênfase pastoral de alcançar méritos

por meio das boas obras.

356 HISTÓRIA DA IGREJA

Mesmo que Cesário e o Concilio de Orange fossem largamente
agostinianos, suas visões permitiam a predestinação para a graça, mas
não a predestinação para a glória (o dom absoluto da perseverança).

Embora existissem adeptos do agostinismo rígido, a visão geral
no ocidente latino era a do Papa Gregório, o Grande (capítulo 16),
que aceitava a graça preveniente sem seus aspectos irresistíveis e par-
ticularistas.

VII. DESENVOLVIMENTO DO PAPADO: QUARTO
E QUINTO SÉCULOS

A. Quarto e quinto séculos antes de Leão Magno

Alguns dos mesmos fatores que elevaram a igreja em Roma à pro-
eminência no ano 200 ainda estavam operantes, mas outros passaram
por mudanças significativas.

Teologicamente, Roma reivindicava a autoridade apostólica de
Pedro e Paulo, mas, no quarto e quinto séculos, Paulo saiu das for­
mulações, quando as memórias históricas se apagaram, e o argumen­
to textual baseado nas três “passagens petrinas” (M t 16.16-19; Lc
22.31,32; Jo 21.15-19) assumiu a centralidade.

O fator pessoal da firmeza do bispo de Roma durante a contro­
vérsia ariana (exceto no caso dúbio de Libério) m antinha a reputação
de Roma para a ortodoxia. O bispo de Roma nunca participava dos
concílios ecumênicos, portanto, ficava longe das maquinações e das
pressões que acompanhavam essas assembléias.

Organizacionalmente, Roma mantinha o uso de um sínodo pro­
vincial local que acontecia duas vezes ao ano. Esse corpo de bispos
estável e conservador - sempre em aliança com Roma - formava um
órgão consistente por meio do qual o papa agia, em contraste com
o Sínodo de Constantinopla, que dependia dos bispos visitantes e,
assim, estava sujeito à flutuação de regras.

Geograficamente, o bispo romano, por razão de sua localização,
tinha uma voz que podia ser ouvida em qualquer lugar. De forma
eclesiástica, Roma era o único patriarcado no ocidente.

De m odo político, Roma não era tão im portante nesse período
como havia sido antes. Milão era a capitão da região, e depois Ravena

TRANSIÇÕES À IDADE MÉDIA -MIGRAÇÕES GERMÂNICAS, DESENVOLVIMENTOS 0 C7
DOUTRINÁRIOS E PAPADO JJ/

se tornaria a capital. Não obstante, Roma ainda tinha importância,
pelo menos simbolicamente, e, com a ausência da corte real, o bispo
era a figura mais im portante da cidade. As associações da Roma im­
perial começaram a rodear o governo da igreja.

O termo papa vem da palavra “pai” em grego {pappas ou papas).
Este era usado em latim para o bispo de Cartago no início do tercei­
ro século. “Papa” era a palavra comum para o bispo de Alexandria
em meados do terceiro século e ainda é o título do patriarca cóptico
de Alexandria. O primeiro uso que se conhece desse termo para os
bispos em Roma é uma inscrição do ano 303 para Marcelino, mas o
termo tornou-se comum em Roma no quarto século. Este era usado
quase exclusivamente no ocidente para o bispo romano a partir do
sexto século.

Júlio (bispo 337—352) ficou ao lado de Atanásio na causa ni-
cena, porém, mais significativo para o desenvolvimento do papado
durante seu mandato foi o terceiro cânon de Sárdica, em 343. Esse
cânon estipulava que um bispo deposto no ocidente poderia ter uma
entrevista extra diante do bispo de Roma, um passo importante no
reconhecimento de sua autoridade de apelação.

Libério (352— 366) usou o termo papa referindo-se a si mesmo.
Em Sirmio, ele assinou um credo que sacrificava a terminologia nice-
na, fazendo isso a fim de permanecer no cargo contra um bispo rival
ariano.

O bispo de Roma mais importante de todos por ter dado pros­
seguimento às reivindicações de sua sé no quarto século foi Dâmaso
(366—384), que assumiu o cargo após uma eleição litigiosa na qual
houve derramamento de sangue entre seus partidários e os do rival
Ursino. Dâmaso fez frequentes referências à Roma como “a sé apos­
tólica” e falou da “primazia da sé romana” com base em Mateus 16.18.

Dâmaso honrou os túmulos de seus predecessores nas catacum­
bas com inscrições ornamentadas, empreendeu uma reforma na litur­
gia (latim em vez de grego) e comissionou Jerônimo para fazer uma
revisão da Bíblia em latim. Já que ele insistia em conduzir-se de forma
consistente com a importância que atribuía ao bispo de Roma, o his­
toriador pagão Amiano Marcelino observou que ele, também, talvez
se tornasse cristão se pudesse vir a ser o bispo de Roma.

358 HISTÓRIA DA IGREJA

Sirício (384—399) considerava suas cartas o lugar de decretos au­
toritários e denominou-as de “apostólicas”. Inocêncio I (402—417)
passou o cânon 3 de Sárdica para Niceia. Na controvérsia pelagiana,
ele reivindicava a maior autoridade de ensino para a sé apostólica. Ele
estendeu sua autoridade até Ilíria e iniciou o uso do termo “vigário”
para o bispo de Tessalônica. Bonifácio I (418—422) usou o termo
“vigário papal” e proibiu quaisquer apelos além de Roma.

B. Leão Magno e Gelásio

Leão I (440—461), que compartilha a designação “Magno” com

dois outros papas - Gregório I e Nicolau pode, com justiça, ser

chamado de “o primeiro papa”, considerando-se o sentido que esse

título possui para as pessoas hoje. Ele combinou os temas de autori­

dade sobre os concílios, autoridade sobre o imperador e de sucessor

de Pedro na construção de sua teoria do papado.

O Sermão 3 de Leão, no primeiro aniversário de sua eleição como

bispo d t Roma, elaborava a teoria petrina em termos da lei romana

da herança, segundo a qual um herdeiro assumia plenamente a po­

sição do testador. Pedro tinha as chaves do reino e autoridade sobre

os outros apóstolos, Pedro tornou-se o primeiro bispo de Roma, e

sua autoridade era transferida aos posteriores bispos de Roma. Por­

tanto, a autoridade perpétua de Pedro encontra-se no bispo romano,

“o vigário de Pedro” e “primata de todos os

bispos”. Leão tomou as passagens de João 21

“Foi pedido que vocês e Mateus 16 e descartou a teoria primitiva

compartilhassem a nossa de episcopado, tornando a autoridade dos

responsabilidade, não a bispos dependente dele.

plenitude do nosso poder” Cancelando o posicionamento de Ci-

(plentitudinem potestatis) priano de que todos os bispos compartilham

(...). [Os bispos não estão a autoridade de Pedro pela fé, que não pas­

em igualdade, e] o cuidado sou exclusivamente por Roma, Leão defen­

para com a igreja universal dia que, em João 21, Jesus Cristo estendeu a

converge em direção ao todos os bispos Sua autoridade por intermé­

único trono de Pedro” dio de Pedro e de seus sucessores.

(Epístola 14.2,11). O bispo de Roma agora se posiciona­

va entre Jesus Cristo e os outros bispos: “E

TRANSIÇÕES À IDADE MÉDIA -MIGRAÇÕES GERMÂNICAS, DESENVOLVIMENTOS o i-q
DOUTRINÁRIOS E PAPADO J3

verdade que todos os bispos considerados separadamente presidem,
cada um com sua devida solicitude sobre seu próprio rebanho, e sa­
bem que terão de dar conta das ovelhas que lhes foram confiadas.
A nós [bispos de Roma], contudo, está confiado o cuidado geral de
todos; e a administração de nenhum bispo é outra coisa além de parte
da nossa tarefa” (Sermão 5.2).

Nesse mesmo Sermão 3, Leão declara: “Fala aquele cujos re­
presentantes somos”, usando o plural real. Q uando o Tomo de Leão
foi lido em Calcedônia, os bispos ecoaram sua reivindicação com a
aclamação de que Pedro estava falando por intermédio de Leão. Cal­
cedônia deu um parecer favorável à autoridade de ensino de Roma
previamente desconhecida e, depois, reconhecida, de forma rara, no
oriente, mas a competência de Roma na disciplina e na jurisdição es­
tava em perigo.

A primazia de Roma estava bem estabelecida no ocidente, mas a
história era diferente no oriente, como demonstrado pelo ranking do
cânon 28 de Constantinopla após Roma. Roma nunca aceitou esse
cânon (capítulo 13).

Na implementação de sua teoria sobre o papado, Leão tentou ga­
rantir uma primazia prática. Um desafio veio do metropolitano de
Aries, que caminhava em direção ao desenvolvimento de um patriar-
cado próprio. Em 445, Valentiniano III apoiou Roma, um decreto
que foi, mais tarde, uma vergonha para Roma, pois representava o
Estado decidindo a constituição da Igreja.

Em sua teoria política, Leão traçou uma comparação entre as
duas naturezas de Jesus Cristo e as duas partes do império, o sacerdó­
cio (.sacertotium) e o reinado (regnum). Ele comparou Pedro e Paulo,
como fundadores da igreja romana, com Rômulo e Remo, como fun­
dadores da cidade de Roma, e apresentou a pax christianum (a paz
cristã) como a contrapartida dapax romanum.

A política de Leão em relação aos bárbaros era tanto civilizá-
-los como santificá-los. Eles chamavam-no de cônsul dei (o cônsul de
Deus). Leão negociou com os hunos liderados p or Átila para conse­
guir que eles se retirassem de Roma. Ele reivindicou para si o título
do sumo sacerdote pagão de Roma, “pontifex m axim us”, e foi o pri­
meiro bispo romano a ser enterrado em São Pedro.

360 HISTÓRIA DA IGREJA

“Existem dois fatores Resumindo, os poderes e as prerrogativas
principais pelos quais este do futuro papado estão delineados nos méto­
mundo é regido: a sagrada dos, na política e nos ideais de Leão: agindo
autoridade dos sacerdotes como líder do governo da cidade, examinan­
e o poder dos reis. Desses do os avanços dos bárbaros, exercendo sua
autoridade sobre os bispos distantes, pregan­
dois, a autoridade dos do a doutrina e intervindo, com sucesso, em
sacerdotes é a que tem Calcedônia. Agostinho forneceu a substância
mais peso” (Gelásio, Ao intelectual para a igreja ocidental medieval, e
imperadorAnastácio 2). Leão esquematizou sua forma institucional.

Gelásio (492—496) desenvolveu a teo­

ria político-religiosa de Leão. Ele percebeu

que a aclamação do imperador Marciano, em Calcedônia, como pro­

fessor da igreja e sacerdote-rei, estava repleta de perigos. As funções

de profeta, sacerdote e rei, no Antigo Testamento, segundo Gelásio,

foram cumpridas em Jesus Cristo, plenamente Deus e plenamente

homemvSomente alguém que fosse divino poderia preencher todas

as três. Entre os homens, essas funções deveriam manter-se separadas.

O ponto de vista de Gelásio quanto à superioridade dos sacerdo­

tes sobre os reis seria ecoada ao longo da Idade Média. Gelásio repetiu

a reivindicação de que era da competência da igreja de Roma julgar

as outras igrejas, mas não ser julgada por nenhum tribunal humano.

O ocidente agora considerava o Reino de Jesus Cristo incorporado à

Igreja, enquanto o oriente persistia no ideal eusebiano de um império

cristianizado, incorporado na regra de Justiniano (capítulo 16).

Os papas do sexto século serão considerados no próximo capítulo.

LEITURA COMPLEMENTAR

DEANESLY, Margaret. A History ofEarly MedievalEuropefrom
4 7 6 to 911. 2. ed. rev. Londres: Methuen, 1969.

RUSSELL, J. C. The Germanization ofEarly Medieval Christia-
nity. Oxford: Oxford University Press, 1994.

WESSEL, Susan. Leo the Great and the Spiritual Rebuilding o fa
Universal Rome. Leiden: Brill, 2008.

WOLFRAM, H. The Roman Empire and Its Germanic Peoples.
Berkeley: University of Califórnia Press, 1997.

Igrejas orientais e ocidentais
no quinto e sexto séculos

M3é< ^

O fim do quinto século e o sexto século viram importantes de­
senvolvimentos na teologia, na liturgia e na espiritualidade da igreja
oriental. O sexto século foi também a era do homem, que se tornou o
modelo de imperador bizantino: Justiniano.

Dois outros homens se destacaram durante o sexto século e fize­
ram formidáveis contribuições para as instituições mais importantes
da igreja medieval no ocidente: Bento de Núrsia para o monasticis-
mo e Gregório, o Grande, para o papado.

Já no fim do sexto século, as características distintas das igrejas
orientais e ocidentais haviam formado duas tradições eclesiásticas di­
ferentes, e, no oriente, surgiram diversos subconjuntos.

I. DESENVOLVIMENTOS TEOLÓGICOS NO
ORIENTE ANTES DE JUSTINIANO

Os Concílios de Éfeso e Calcedônia (capítulo 13) produziram
uma divisão tríplice nas igrejas orientais que continua até hoje: (1)

362 HISTÓRIA DA IGREJA

os calcedônios ou ortodoxos bizantinos, (2) geralmente chamados de
monofisistas ou ortodoxos orientais (reivindicando a herança de Ci-
rilo de Alexandria), e (3) a igreja do oriente (injustamente chamada
de “nestoriana”).

Houve muita insatisfação no oriente com a fórmula de Calce-
dônia (451) inspirada no ocidente, a qual parecia nestoriana para os
seguidores de Cirilo (capítulo 13). As objeções de Calcedônia eram
tanto doutrinárias como jurisdicionais.

Os adversários cirilinos de Calcedônia, que diziam que Jesus
Cristo era “uma pessoa com duas naturezas”, queriam dizer que Ele
era “feito de duas naturezas” antes da união, mas, depois da união,
tinha uma só natureza. Essa fórmula posterior deixava a humanidade
de Cristo um tanto abstrata e impessoal, contudo, enfatizava a unida­
de de Seu ser e a predominância do divino na pessoa resultante.

Porque a presença da humanidade não fora negada, o nome mo-
nojisistas, comumente dado a eles, não é muito preciso, nem é aceito
pelos herdeiros modernos dessa posição. O grego monos, na palavra
monofisista, implica “uma só” natureza. Um termo m elhor seria he-
nofisista (ou miafisista), pois o grego hen (feminino m ia) diz “uma”
sem a implicação de “só”.

Assim como os antioquenos não se consideravam “nestorianos”
e rejeitavam a posição de “duas pessoas”, que era creditada a Nestório,
assim também os seguidores posteriores de Cirilo de Alexandria não
se consideravam eutiquianos e rejeitavam a visão de que a natureza
humana estivesse completamente perdida no divino, ponto de vista
ao qual o termo monofisista se aplicaria.

Havia também sentimentos nacionais contra o Concilio de Cal­
cedônia. O Egito estava praticamente em revolta após o concilio, pois
era leal ao seu patriarca deposto, Dióscoro. Tanto Alexandria quanto
Antioquia estavam insatisfeitas com o prestígio dado à Constanti-
nopla em seu cânon 28. Os bispos que apoiaram Calcedônia foram
chamados de “melquitas”, monarquistas, adeptos da igreja imperial.

Os bispos rivais competiam pela posse das sés de Alexandria e
Antioquia, mas o sentimento popular favorecia os pretendentes mo-
nofisistas/henofisistas. Um deles, Pedro de Antioquia, vez e outra
bispo de Antioquia, acrescentou ao triságio (“Santo, Santo, Santo”)

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 363

a frase: “Que foi crucificado por nós”. Esse acréscimo se tornou um
ponto focal de controvérsia, mas não só como algo novo em uma im­
portante parte da liturgia. A frase poderia ser ortodoxa no entendi­
mento de que aquilo que era dito sobre a natureza humana de Jesus
Cristo poderia ser dito também sobre a divina, e o que era dito da
divina poderia também ser dito da humana (communicatio idioma-
tum , “comunicação das propriedades”), já que Ele era uma pessoa;
contudo, ao enfatizar a deidade daquele que foi crucificado, isso era
especialmente adequado aos monofisistas. Mudanças litúrgicas como
essa, ligadas a diferenças doutrinárias, sempre eram ocasiões para
controvérsias.

A política imperial, por dois séculos, teve de entrar em acordo
com o sentimento henofisista nas províncias orientais. C om a evasão
do controle imperial no ocidente, os imperadores podiam ignorar,
com segurança, os pontos de vista do Papa Leão I, entretanto, que­
riam manter a lealdade de suas posses orientais. Eles tentaram fazer
modificações dentro da estrutura de Calcedônia, a qual não estavam
dispostos a repudiar, já que ela havia estabelecido a lei canônica da
igreja e reconhecido a posição especial de Constantinopla na igreja.

A disputa do trono imperial entre Zeno (747—475, 476—491)
e Basilisco (475—476) produziu os primeiros esforços imperiais para
discutirem a teologia fora do concilio. Basilisco, em 476, emitiu o
Encyclion, preparado pelos henofisistas Tim óteo de Alexandria, o
Gato, e Pedro de Antioquia, o Pisoeiro. Este aceitava os três primei­
ros concílios ecumênicos, mas condenava o Tomo do Papa Leão e
“todas as coisas feitas em Calcedônia” que eram contrárias a Niceia.
Zeno retom ou o poder e, em 482, modificou o repúdio de Calcedô­
nia com o Henótico, um edital de reunião. Este condenava Nestório
e Eutiques, exaltava os D oze anátemas enviados por Cirilo a N estó­
rio e não fazia menção alguma ao Tomo de Leão. Esse acordo, que
pretendia agradar os moderados de ambos os lados, fracassou, como
geralmente acontece com os comprometimentos, em satisfazer tanto
os henofisistas como os calcedônios.

O patriarca de Constantinopla, na época, era Acácio (471—
489), o qual apoiava a tentativa de alcançar-se a unidade. Todavia,
o Papa Félix III, em 484, excomungou-o, porque estava interferindo

364 HISTÓRIA DA IGREJA

em outras igrejas orientais, algo que ele sentia ser um exercício de seus

direitos segundo o cânon 28 de Calcedônia. Para Roma, os direitos

dos bispos corriam mais riscos do que a ortodoxia. O “cisma acacia-

no” entre Roma e Constantinopla foi levado ao fim pelo imperador

Justino em 519.

Os moderados aceitaram o Henótico, e

“Confessamos que este agora é o padrão doutrinário da igreja
o Filho unigênito de jacobita (por causa do nome de Jacó Bara-
Deus, sendo Deus, que deus, discutido a seguir). Em 512, Severo
verdadeiramente tomou tornou-se bispo de Antioquia e deu uma in­
sobre si a humanidade, o terpretação definitivamente anticalcedônia
nosso Senhor Jesus Cristo, para o Henótico. O mono/henofisismo, que
o qual, com respeito à Sua dura até os tempos modernos na Síria, é da
divindade, é consubstanciai teologia de Severo.
com o Pai e consubstanciai
conosco com respeito à Sua Severo continuou, como Cirilo, a usar
humanidade; òonfessamos “natureza” (physis) e “pessoa” (hypóstasis)
que Ele, tendo vindo como sinônimas. Para ele, não existe uma
do Espírito Santo e da distinção real, mas lógica, entre as duas na­
virgem Maria, portadora turezas de Jesus Cristo. Contra os monofi-
de Deus, é um, e não dois; sistas mais extremos (os aphthartodocetae),
pois afirmamos que tanto que diziam que o corpo de Cristo, mesmo
Seus milagres quanto antes da crucificação, não era corruptível,
Seus sofrimentos, os ele atribuía incorruptibilidade ao corpo de
quais Ele, de Sua própria Cristo somente após a glorificação.
vontade, suportou na
carne, pertencem a uma Depois da morte de Severo em 538,
só pessoa; nós, de modo houve uma sucessão dupla do patriarcado
algum, admitimos os que de Antioquia, uma melquita ou “ortodoxa”
causem divisão ou confusão e outra anticalcedônia ou “henofisista”.
ou tragam um simulador”
A igreja na Armênia adotou a posição
{Henótico). henofisista em 491. O Sínodo de Dvin, em
506, incluía bispos da Armênia, da Geórgia
e do Cáucaso que rejeitaram o Credo de
Calcedônia. A igreja da Geórgia, então,

elegeu seu próprio católico/patriarca. Por

volta do ano 600, porém, ela voltou para a ortodoxia bizantina e foi

excomungada pela igreja da Armênia.

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 365

A cristologia henofisista espalhou-se da Síria à Pérsia no sexto
século. Os escritores henofisistas em siríaco incluíam Jacó de Seru-
gh (m. 521) e Filoxeno de Mabugo (m. 523). N o Egito, os henofi­
sistas não possuíam um líder forte. O lema comum deles era “uma
é a natureza humanizada do Deus-Verbo”. A igreja copta fornecia à
igreja etíope o católico ou patriarca (o abuna - somente em 1959, os
etíopes tiveram o primeiro nativo nesse cargo), e a igreja na Etiópia
acompanhou o Egito no henofisismo.

Enquanto, na Síria, o maior grupo cristão era o henofisista, na
Pérsia, era o diofisista; porém, na Pérsia, ao contrário da Síria, os cris­
tãos eram a minoria da população.

A igreja do oriente e a Pérsia mantiveram a cristologia diofisista
(duas naturezas) antioquena. Embora oficialmente aceitasse o Credo
de Niceia (325) desde o Sínodo de 410, a igreja adotou uma declara­
ção de fé explicitamente nestoriana em um sínodo em 486 e depois,
em 497, rejeitou o Henótico. O utro concilio em 585 aprovou os escri­
tos de Teodoro de Mopsuéstia como o padrão teológico da igreja e,
ao mesmo tempo, considerou anátema a “heresia de Eutiques”.

A igreja do oriente, contudo, nunca ensinou o diofisismo heré­
tico dos dois Filhos ou duas pessoas. Como de costume na tradição
antioquena, a ênfase estava em uma deidade impassível. Os líderes
teológicos incluíam Narsai (m. 503), diretor da escola de Nísibis, e
Babai, o Grande (m. 628), abade de Santa Izla, perto de Nísibis.

A ironia da situação é que os estudiosos modernos concluem que
os calcedônios, os henofisistas e a igreja do oriente estavam essencial­
mente tentando dizer a mesma coisa acerca de Jesus Cristo - de algu­
ma forma, Ele era, ao mesmo tempo, dois (divino e humano), porém,
um indivíduo. Os diferentes pontos de partida deles geraram formu­
lações distintas que os oponentes consideravam inaceitáveis.

Por volta do ano 500, surgiu uma das pessoas mais influentes da es­
piritualidade ortodoxa grega, Pseudodionísio, o Areopagita. O verda­
deiro nome da pessoa é desconhecido. Ele atribuiu sua combinação de
cristianismo e neoplatonismo a um convertido de Paulo em Atenas (At
17.34), e seus contemporâneos aceitaram seus escritos como genuínos.

Pseudodionísio, posteriormente reivindicado tanto pelos calce­
dônios como pelos não calcedônios, era impreciso em sua cristologia,

366 HISTÓRIA DA IGREJA

falando de Jesus Cristo como um ser complexo com uma só energia

(divino-humana). Versado no neoplatonismo, ele era também um

místico. O misticismo, em seu sentido estrito, técnico, refere-se a

uma experiência de união com a deidade, todavia, nos estudos atu­

ais, é frequentemente ampliado, como uma espécie de espiritualida­

de. Pseudodionísio enquadra-se na definição estrita. Ele tornou-se o

manancial de uma linhagem de misticismo amplamente influente no

cristianismo grego e, após ser traduzido para o latim no nono século,

influenciou também o ocidente.

Mediante uma confusão com o primeiro bispo e mártir de Pa­

ris, Dionísio (Dinis), o Pseudodionísio tornou-se o santo padroeiro

da França. Seus escritos tinham certas reivindicações à autoridade de

Paulo, contendo o tipo de ensino com que ele supostamente se comu­

nicava com os atenienses filosóficos.

As obras de Pseudodionísio - Sobre a

---------------------------- hierarquia celestial, Sobre a hierarquia ecle­

“[Ele] é uma Unidade que é siástica, Sobre os nomes divinos e Teologia
a força unificadora de toda mistica - salientam a tendência que já se en­
contrava em autores cristãos gregos, como
unidade e uma Essência Orígenes, Atanásio e Gregório de Nissa,
superessencial, uma Mente para definir a meta da salvação humana
além do alcance da mente como divinização. Essa deificação é alcança­
e uma Palavra que não se da pela purificação, iluminação e perfeição
pode expressar, eludindo (união com Deus), que se tornou os três
estágios-padrão do misticismo.
o discurso, a intuição, o
nome e todo tipo de ser. Ele ainda identificava três estágios ao
Ele é a causa universal da descrever Deus: dê-lhe um nome (teologia

existência enquanto não afirmativa), negue o Seu nome (teologia ne­

existe, pois está além de gativa) e reconcilie a contradição contem­

todos os seres de tal forma plando além dos termos da experiência hu­

que somente Ele pode mana (teologia superlativa). O caminho da
oferecer a revelação de si negação {via negativa) leva à contemplação
mesmo” (Pseudodionísio, (teologia mística), uma ideia mais simples e
o Areopagita, Sobre os pura sobre Deus.

nomes divinos 1.1). A disposição dos anjos em nove níveis
tornou-se a base da doutrina medieval dos

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 367

anjos. Como parte de sua apropriação positiva do neoplatonismo (nes­
se caso, o filósofo Jâmblico, c. 245— 325), ele descreve os sacramentos
como um tipo de “teurgia cristã” (ação que produz poder divino).

II. ERA DE JUSTINIANO (5 2 7 -5 6 5 ) NO ORIENTE
A. Conquistas m ilitares e civis

Os membros da corte de Justiniano ainda se imaginavam como
líderes do Império Romano; chamá-lo de Império Bizantino é uma
terminologia moderna, que (entretanto) usaremos. O latim perma­
necia como a língua oficial do governo, embora o coração do império
fosse o O riente Próximo, de língua grega.

Justiniano procurou reconquistar as terras perdidas do império.
Nessa meta, ele era auxiliado pelo capacitado general Belisário. Em
534, os bizantinos colocaram um fim no Império Vândalo no norte
da África. A Guerra Gótica, 553— 555, reestabeleceu o governo na
Itália. Em 554, adquiriu-se um espaço na Espanha. Essas conquistas
esvaziaram os recursos econômicos do império. Os lombardos
invadiram a Itália em 556 e enfraqueceram a posição bizantina. Eles
ganharam o controle da península, com a exceção de uma faixa de
terra (a jarreteira na perna da Itália) de Ravena a Roma.

Durante o governo de Juliano, foi empreendida uma compilação
do Direito Civil, a Corpus Iuris Civilis (o editor-chefe foi Tribonia-
no), que se tornaria a base dos códigos legais da Europa por vários
séculos. Essa compilação continha quatro partes: (l) Institutas, um
manual que explicava aos alunos os princípios da lei; (2) Digesto, de­
cisões judiciais (pandectas) classificadas e harmonizadas; (3) Código
em si, mais de 4.000 leis desde Adriano até Justiniano, baseadas na
compilação anterior de Teodósio II; e (4) Novellae, novas leis de Jus­
tiniano e, mais tarde, de dois sucessores seus.

A partir do século 11, a compilação da lei de Justiniano lenta­
mente se estabeleceu nos países ocidentais europeus, exceto na Ingla­
terra, onde a antiga lei comum prevalecia.

Frequentemente visto como um restaurador do poder imperial,
Justiniano considerava-se, de muitas formas, um inovador que fazia
melhorias na lei e no governo. Os historiadores posteriores avaliam

368 HISTÓRIA DA IGREJA

“Se o sacerdócio for livre suas políticas de expansão como tão exausti­
da culpa em todos os vas de recursos econômicos a ponto de cau­
sar desastres de maior ou menor grau para
lugares, e o império cheio o império. Um surto da praga bubônica nas
de confiança em Deus for últimas décadas do reinado de Juliano en­
administrado com equidade fraqueceu ainda mais o seu império.

e justiça, o bem geral

resultará, e tudo o que for B. Regime religioso e político
benéfico será concedido

à raça humana. Portanto, Justiniano assumiu um interesse ativo
temos a maior diligência nos assuntos da igreja. Ele era um ótimo teó­
na observação das regras logo e advogado canônico, então, entrava nos
divinas e na preservação conflitos da igreja não como um estranho
da honra do sacerdócio” invadindo o domínio alheio, mas como um
(Justiniano, Novallae 6. familiar tentando desempenhar melhor os

Prefácio). deveres que lhe foram incumbidos. Ele con­

siderava o patriarca de Constantinopla seu

ministro-chefe para assuntos eclesiásticos.

Na legislação de Justiniano, a palavra “patriarcado”, com a ideia

expressa por ela concernente à igreja liderada por cinco patriarcas

(pentarquia), tornou-se oficial. Assim, foi concluída a obra constitu­

cional de Calcedônia, reconhecendo cinco igrejas líderes no cristia­

nismo - Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém.

Teodora, esposa de Justiniano, era simpatizante dos henofisistas, ao

contrário do próprio Justiniano, que, não obstante, buscava um com­

prometimento que pudesse manter os henofisistas na igreja ortodoxa

e leais ao império.

Uma série de controvérsias encheu o reino de Justiniano, e ele

esteve pessoalmente envolvido em muitas delas. A controvérsia teo-

pasquita envolvia a expansão da liturgia para que incluísse a fórmula:

“Um da Trindade sofreu na carne por nós”. A afirmação podería ser

ortodoxa, mas era suspeita pelos calcedônios, pois soava monofisista

e era nova. Justiniano garantiu a aceitação da fórmula teopasquita em

Roma e em Constantinopla em 534.

Tanto os diofisistas como os henofisistas temiam que Calcedônia

não pudesse ser interpretada sem implicações nestorianas. Os neo-

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 369

calcedônios - o próprio Justiniano, João de Citópolis, Leôncio Bi­
zantino e, depois, Leôncio de Jerusalém - ofereceram uma maneira
consistente de interpretar Calcedônia com a cristologia de Cirilo de
Alexandria.

Já que Calcedônia havia falado de duas naturezas em uma hypós-
tasis (pessoa ou indivíduo), a questão filosófica era como podería ha­
ver uma união hipostática das naturezas. Usando as distinções aristo-
télicas, os neocalcedônios diziam que, em Jesus Cristo, uma natureza
encontrava seus atributos na outra natureza. A natureza humana sub­
siste no Logos. Entre o estado de existir em si mesmo e ser não existen­
te ou a falta de autoexistência, existe o estado mediano de subsistir,
isto é, ter existência ou individualidade em outra hypóstasis.

A humanidade de Jesus Cristo não está sem hypóstasis, já que ela
existe, nem é uma hypóstasis, já que não existe “por si só”. Contudo,
uma natureza sem hypóstasis seria uma abstração, então a humanidade
de Cristo existe no Verbo, a quem a humanidade pertence e à qual dá
poder para existir ao tomá-la em si mesmo. Esse m odo de descrever a
união forneceu uma forma coerente de contínua aderência à Calce­
dônia e a Cirilo.

A controvérsia origenista começou entre os monges, alguns dos
quais foram os adversários mais amargos da teologia da espiritualiza-
ção de Orígenes. Houve uma reação antiorígenes no fim do quarto
século, especialmente contra o uso que Evágrio do Ponto fazia da te­
ologia de Orígenes.

Durante o reinado de Justiniano, houve um novo crescimento
do origenismo evagriano. Este foi oposto por Saba (m. 532), monás­
tico superior da Palestina cujos seguidores continuaram a perseguir
os monges origenistas. Em 543 ou 544, Justiniano condenou nove
pontos dos Primeiros princípios de Orígenes e condenou também o
próprio Orígenes. Iniciou-se a destruição das obras de Orígenes, que
resultou na perda de muitos de seus escritos nos originais gregos. Em
533, em antecedência à abertura oficial do Q uinto Conselho Ecumê­
nico, Justiniano garantiu 15 anátemas contra Evágrio com os bispos
que já estavam congregados.

O assunto principal do Q uinto Concilio Ecumênico (553), o se­
gundo em Constantinopla, foi os “Três Capítulos”. Houve uma con­

370 HISTÓRIA DA IGREJA

siderável oposição a três teólogos antioquenos: Teodoro de Mopsués-
tia, Ibas de Edessa e Teodoreto de Ciro, que, por darem maior ênfase
à humanidade de Jesus, eram suspeitos de nestorianismo. A fim de
apaziguar a igreja alexandrina, Justiniano concordou em condená-los.

Em 544, Justiniano publicou um edito, os “Três Capítulos”, con­
tra os escritos deles. Ele teve o cuidado de não prejudicar formalmen­
te a definição de fé em Calcedônia, mas a condenação dos escritos
desses antioquenos foi projetada para remover qualquer possibilida­
de de dar-lhe uma interpretação nestoriana. A interpretação cirílica
da Calcedônia (neocalcedonianismo) era agora a única oficial.

As igrejas orientais, até as ortodoxas, continuaram a dar mais ên­
fase à divindade do que à humanidade de Jesus Cristo.

Uma controvérsia simultânea ao Q uinto Concilio Ecumênico
estava ligada ao Papa Vigílio. Vigílio era um diácono ambicioso que
foi nomeado representante papal em Constantinopla. Ele foi prom o­
vido por Teodora, que pensava que ele pudesse ser favorável a ela. D e­
pois de Roma ser retomada pelos bizantinos em 536, o Papa Silvério
foi deposto em 537, e Vigílio foi consagrado como seu sucessor.

O novo papa, todavia, não favoreceu os henofisistas e recusou-se
a apoiar a condenação dos três teólogos antioquenos. Ele foi levado a
Constantinopla e, depois de consideráveis hesitações, concordou, em
548, com a condenação deles, mas com reservas expressas em favor de
Calcedônia.

Essa condenação provocou uma forte oposição no ocidente, e um
concilio em Cartago chegou até a excomungá-lo. Vigílio retratou sua
condenação dos antioquenos. Ele foi levado ao oriente novamente,
mas declinou presidir o Segundo Concilio de Constantinopla (553).
Ele finalmente consentiu com seus decretos. Ele morreu (555) antes
de chegar a Roma. O norte da Itália retirou o apoio ao papado, e
Grado e Aquileia elevaram-se ao nível de patriarcas, de forma que
parte da política de Gregório, o Grande, pudesse retomar o controle
da região.

Em suma, a política de Justiniano para ganhar de volta aqueles
que ele chamava de “monofisistas” fracassou. Eles continuaram fortes
nas províncias orientais, agora com uma crescente consciência nacio­
nal. As concessões de Justiniano não foram suficientes, pois os “heno-

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 371

hsistas” exigiram uma condenação expressa de Calcedônia. Justiniano

voltou-se para as medidas repressivas, que lhes infligiu severos golpes.

Na década após 540, surgiu uma

verdadeira igreja separada. Isso foi CONCÍLIOS ECUMÊNICOS
devido grandemente ao incansável 325 Niceia 1
trabalho de Jacó Baradeus (Jacó, o

Maltrapilho) na Síria, o qual foi con­ 381 Constantinopla 1
sagrado metropolitano de Edessa em 431 Éfeso
542, mas passou a maior parte de sua 451 Calcedônia
vida viajando a pé pelo Oriente Próxi­ 553 Constantinopla II
mo, nomeando clérigos simpatizantes 680-681 Constantinopla III
do “henofisismo”, fortalecendo seus ir­ 787 Niceia II
mãos na fé e defendendo sua doutrina.

De Jacó, deriva-se o nome “jaco-

bita” para os “henofisistas” na Síria,

que denominavam a si mesmos de CONCÍLIOS ADICIONAIS
igreja ortodoxa siríaca. O monasticis- RECONHECIDOS PELA
mo era importante na igreja siríaca, e
IGREJA OCIDENTAL

o Monastério de Mar Barsauma (fun­ 869-870 Constantinopla IV
dado no quinto século) tornou-se um 1123 Latrão 1
importante centro jacobita até a sua 1139 Latrão II
destruição no século 14. No Egito, a 1179 Latrão III
igreja copta também era “henofisista”.

C. Cultura cristã no período 1215 Latrão IV
de Justiniano 1245 Leão 1
1274 Leão II

A oposição a Orígenes pode ser 1311-1312 Viena
tomada como um indicativo de certa 1414-1418 Constança
redução de interesses intelectuais em 1438-1345 Florença
contraste com a amplitude mental de 1512-1517 Latrão V
Orígenes.

Justiniano fechou a Academia de 1454-1563 Trento
Atenas em 529, uma data simbolica­ 1869-1870 Vaticano 1
mente significativa para a transição do 1962-1965 Vaticano II
mundo antigo para o medieval, pois

372 HISTÓRIA DA IGREJA

foi no mesmo ano do Concilio de Vaison, na Gália, que instruiu a to ­
dos os sacerdotes a darem uma educação cristã as crianças admitidas
ao estágio de leitoras (simbólico da transferência da educação para a
igreja no ocidente), do Concilio de Orange, que estabeleceu o semia-
gostinianismo como a fé do ocidente, e da fundação do Mosteiro do
M onte Cassino, por Benedito, na Itália.

Justiniano tom ou medidas contra os pagãos e os heréticos. As
decisões canônicas da igreja foram consagradas na lei civil. Por exem­
plo, o rebatismo foi proibido (segundo a rejeição da igreja quanto à
necessidade de rebatizar os heréticos convertidos).

Nas controvérsias teológicas, o argumento sobre a autoridade
assumiu um lugar ainda mais importante. Enquanto, no quarto sécu­
lo, os teólogos argumentavam a partir das Escrituras, depois de 381,
os argumentos crescentemente apelavam para os antigos Pais, bem

como para as Escrituras.
No Concilio de Éfeso, em 431, a leitura em voz alta dos docu­

mentos ^escritos, com os bispos dando seu julgamento, substituiu os
procedimentos conciliares compostos basicamente de debates orais.
Consequentemente, os teólogos bizantinos cada vez mais argumen­
tavam usando citações dos Pais. Isso é mostrado na produção de ca­
deias (citações de comentaristas mais antigos na exegese bíblica) e
florilégios (citações de tópicos teológicos).

Houve, entretanto, o outro lado do sexto século. M uita literatu­
ra foi produzida, e existiu suficiente pensamento teológico sutil para
demonstrar que a criatividade não havia cessado com Cirilo - viram
surgir os iniciantes Leôncio Bizantino e Leôncio de Jerusalem.

O maior poeta litúrgico da ortodoxia, Romano, o Melodista,
também surgiu durante a primeira metade do sexto século. Ele do­
m inou a forma de hino conhecido como kontakion, que floresceu do
quinto ao sétimo séculos. O kontakion era um sermão em verso, can­
tado pelo pregador ou cantor, que consistia de uma introdução e um
número diversificado de estrofes ligadas à introdução por um refrão e
às outras por um acróstico e por uma estrutura métrica comum.

Em resposta à ordem de Justiniano para que as tribos da periferia
do império se convertessem ao cristianismo, grande parte de Núbia
(nos tempos modernos, o sul do Egito e norte do Sudão e mais cor­
respondente à Etiópia da Bíblia do que à Etiópia moderna) aceitou o

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 373

cristianismo (eventualmente, em sua forma henofisista), acelerando o
movimento que havia começado já no quarto século. O reino cristão
núbio floresceu no nono e décimo séculos, mas a crescente onda de
Islamismo, a partir do século 12, levou à extinção o cristianismo nú­
bio lá pelos séculos 14 ou 15.

O reino de Justiniano viu o florescimento do primeiro grande
período da arte bizantina, e algumas de suas obras-primas ainda es­
tão expostas especialmente em Ravena, na Itália. Ravena, no quarto e
quinto séculos, era o local de encontro entre o oriente e o ocidente e,
já no quinto século, era o centro de algumas das maiores decorações
mosaicas cristãs em prédios religiosos - o famoso Mausoléu de Gala
Placídia, o Batistério Ortodoxo e as igrejas de Santo Apolinário Novo
e Santo Apolinário em Classe. Como certo contemporâneo escreveu
concernente a alguns mosaicos de Ravena: “A luz é capturada aqui,
todavia reina em liberdade”.

Ao sexto século pertence uma das grandes glórias da arte mosaica
cristã, o interior da Basílica de São Vital.

O ponto alto da realização artística do reinado de Justiniano foi
a basílica com cúpula de Santa Sofia em Constantinopla, projetada

Mosaico de Maria com o menino Jesus na Santa Sofia, em Istambul

374 HISTÓRIA DA IGREJA

por Antêmio de Trales e Isidoro de Mileto, uma das maiores reali­
zações arquitetônicas de todos os tempos. Ao contemplar o prédio
concluído, dizem que Justiniano exclamou: “Salomão, eu ultrapas­
sei você!”.

Na ortodoxia oriental, a manifestação básica da igreja é a reunião
eucarística. A liturgia ortodoxa passou a apresentar crescente pompa,
ostentação e esplendor. Ela enfatizava um senso de santo temor dian­
te dos mistérios divinos. Especialmente característico era o dramático
espírito comunitário da celebração. Ali, o diácono desempenhava um
papel insubstituível de intermediário entre os celebrantes e o povo;
dirigia a oração da congregação, convocava o povo a responder e in­
dicava os momentos importantes da cerimônia.

A devoção popular desenvolveu-se ao longo do caminho já tra­
çado: veneração dos mártires e agora dos santos, confiança em suas
intercessões e poderes miraculosos, apego às suas relíquias e amor às
peregrinações.

A veneração de Maria também assumiu um lugar de destaque. O
título theotokos (“Portadora de Deus” ou “Mãe de Deus”), que havia
sido aprovado no quinto século, era inicialmente uma afirmação
cristológica, e não mariológica, mas promoveu a exaltação de Maria.

Em hinos e homílias à virgem, a mariologia (como poesia, e não
teologia especulativa) surgiu no oriente vários séculos antes de surgir
no ocidente, não avançou até o século 18, porém, finalmente, passou
a assumir a liderança na devoção à Maria.

Maria era invocada em oração entre os falantes gregos no terceiro
ou quarto século, mas o primeiro hino em latim direcionado à Maria
é do quinto século. N o oriente, igrejas adotaram o nome de Maria,
festas marianas foram introduzidas no calendário litúrgico e figuras
de Maria foram produzidas.

Roma acrescentou o nome de Maria com o título “Mãe de Deus”
(.mater D ei) à missa no sexto século e, no sétimo século, acrescentou
as celebrações pascais da Anunciação, da Visitação, do Nascimento e
da Purificação.

A igreja passou a permear a sociedade em uma abrangência até en­
tão desconhecida. Aliás, no oriente, não houve, na mesma dimensão,
a separação que surgiu entre o clero e os leigos no ocidente. Não

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 375

havia, entretanto, confusão alguma quanto aos dois mundos, espiri­
tual e temporal, mas, ao contrário, uma associação íntima de ambos.
O ideal bizantino era a interpenetração da religião com a sociedade.

Realmente, tanto para o oriente como para o ocidente, duran­
te as eras medieval e bizantina, a Igreja e o Estado podem ser vistos
como os dois lados de uma moeda - isto é, de uma sociedade. Não
obstante, havia um sentimento de separação mais forte das duas
esferas no ocidente, logo, mais conflitos abertos entre o papa e o im ­
perador ocorriam no ocidente.

O imperador do oriente certamente exercitava m uita influência
nos assuntos da igreja. Contudo, os pensadores ortodoxos têm re­
jeitado o termo cesaropapismo (o imperador funcionando como um
equivalente ao papa) para descrever o envolvimento do imperador
nos assuntos da igreja. Eles insistem no fato de que a distinção entre o
imperador e o clero sempre foi mantida.

III. BENTO DE NÚRSIA, O "PATRIARCA DO
MONASTICISMO OCIDENTAL"

Bento (c. 480— 540), após sua educação em Roma, aposentou-se
em Subiaco para viver uma vida de eremita em uma caverna. Q uando
confrontado com alguma tentação, ele se jogava sobre espinheiros, na
certeza de desviar sua mente para outra coisa.

Decidido que podería prestar serviço a outros monges, Bento or­
ganizou 12 mosteiros com 12 monges cada. Alguns ressentiam seus
esforços para im por uma regra mais rigorosa sobre eles, e Bento, certa
vez, rejeitou uma taça envenenada.

Em 529, Bento mudou-se para M onte Cassino, onde estabeleceu
seu famoso monastério. Bento parecia, para os fiéis contemporâneos,
ter poderes que não eram dados às pessoas comuns, e milagres extra­
ordinários são atribuídos a ele. Ele não parece ter sido ordenado, nem
ter buscado uma ordem de clérigos; a princípio, a vida monástica e os
deveres eclesiásticos eram considerados incompatíveis. A irmã dele,
Escolástica, formou um convento para as mulheres da região, que se
tornou a base para as casas beneditinas para mulheres.

376 HISTÓRIA DA IGREJA

Bento trouxe as virtudes romanas tradicionais da austeridade, da

estabilidade, da autoridade e da moderação para a vida monástica.

Sua regra para seus monges é notável por suas qualidades:

1. Exatidão e integralidade.

2. Em contraste com as regras de Basílio, que eram fundamental­

mente morais, a regra de Bento provê não só as máximas, mas

instruções detalhadas sobre o que e quando fazer.

3. Moderação.

4. Era severa o suficiente para superar as inclinações humanas,

mas não se preocupava em atormentar o corpo, como Pacômio

e Cassiano faziam, e, assim, não desencorajava seus seguidores.

5. Ordem.

6. Introduzia estabilidade na vida monástica, em contraste com

os monges nômades ou com os grupos pequenos que não ti­

nham disciplina. A vida dos monges beneditinos deveria ser

um regime equilibrado de louvor divino (opus Dei, a “obra de

t)eus”), leitura espiritual (lectio divina, “leitura divina”) e tra­

balho físico {labor mannum, “trabalho manual”).

__________________ O monastério deveria ser organizado

“O primeiro grau da sob a direção de um abade, que tinha os po­
humilhação é ter o temor deres de um chefe de família romano, sendo
de Deus constantemente o paterfamílias do monastério. Os monges
diante dos olhos; nunca elegiam o abade, que, por sua vez, nomea­
esquecer o que é devido va outros oficiais. O assistente principal do
a Ele e sempre se lembrar abade era o prior. Os “decanos” eram líderes
de Seus mandamentos” de dez monges. Um monge cuidava da ade­
ga, e outro, das provisões. O abade reunia
(Bento, Regra 7). toda a comunidade para deliberar as ques-

tões de interesse comum, o capítulo.
A regra no capítulo 4 apresenta os “instrumentos do progresso

espiritual”, instruções morais sobre o que fazer e o que não fazer. Os
capítulos 5 a 7 discutem as virtudes da obediência, do silêncio e da

humildade - com muita atenção à última. Os 12 passos da humildade

tornaram-se a base da espiritualidade beneditina.
Na regra, dez horas do dia devem ser gastas em adoração e medi­

tação. Com base no Salmo 119, versículos 62 e 164, foram designa-

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 377

dos oito horários de oração: o ofício noturno ou vigílias (duas horas
da manhã no inverno), as laudes (ao romper do dia), a primeira, a
terceira, a sexta e a nona (os quatro ofícios curtos, que eram horas de
campo), a vespertina (meia hora antes do pôr do sol) e as completas
(antes de deitar-se). Começando com o ofício noturno todos os d o ­
mingos, o saltério completo era cantado toda semana.

Um exemplo da sabedoria prática na regra é a instrução para que
os monges dormissem vestidos com seus hábitos, de m odo que esti­
vessem prontos para levantar-se assim que o sino tocasse para o ofício
da noite, mas não com suas facas do lado, “para que não se machucas­
sem enquanto dormiam”.

A regra beneditina veio a suplantar todas as outras regras, de
modo que o monasticismo ocidental, nos séculos 8 a 12, foi bene­
ditino. Os monastérios beneditinos tornaram-se um símbolo de es­
tabilidade em um m undo inconstante. Eles foram importantes na
transmissão da cultura e na conversão dos povos ao norte dos Alpes.
Uma ironia do início da Idade Média é que, no final da civilização
antiga, os que se retiraram da sociedade foram os que construíram a
nova ordem.

O grande futuro da regra de Bento provinha não só de suas p ró ­
prias qualidades, mas também do suporte que Gregório, o Grande,
deu ao contar a história de Bento em seus Dialogues.

IV. GREGÓRIO, O GRANDE, O PRIMEIRO PAPA
MONACAL

O Papa Gregório I (590—604) tem sido chamado de “o G rande”
desde o século 11. Reconhecido pela igreja romana como um de seus
quatro excelentes doutores em latim, a grandeza de Gregório era a de
um pastor, um edificador da igreja, um popularizador do agostinia-
nismo modificado, um teólogo moral e mestre espiritual.

Nascido em uma família aristocrata romana e muito estuda­
do para a sua época, Gregório tornou-se prefeito de Roma em 573,
aprendendo cada detalhe da administração municipal. Logo depois,
ele retirou-se da vida pública para tornar-se monge, estabelecendo
sete mosteiros no padrão do M onte Cassino, embora não haja evi­
dência de que ele tenha adotado a regra beneditina, que foi projetada

378 HISTÓRIA DA IGREJA

para uma casa, e não para uma ordem. Por causa de seu histórico,
Gregório trouxe o etos de uma comunidade monástica para a admi­
nistração da igreja romana com o seu papado.

O Papa Pelágio II enviou Gregório como seu representante para
Constantinopla, onde ele m orou de 579 a 586 e ficou impressionado
com a liturgia oriental, mas fracassou em aprender o grego. Após seu
retorno a Roma, a cidade sofreu com inundação e uma praga. Essa
última tom ou a vida de Pelágio II, e o povo aclamou Gregorio como

seu sucessor.
N a correspondência de Gregório, ele era respeitoso em dirigir-

-se ao imperador, porém, seu tom era mais superior para com os
líderes bárbaros. Em contraste com Gelásio, que via a Igreja e o
Estado como esferas bem separadas, e com Agostinho, que via o Es­
tado como essencialmente secular (ele realmente não esperava nada
espiritual do Estado, apesar de seu apoio ao uso da força contra
os donatistas), Gregório tinha uma visão um tanto bizantina sobre
as relações igreja-estado, vendo uma m utualidade na qual a Igreja
dava direção ao Estado, e o Estado ajudaria a Igreja e a Reforma, se

necessário.
Em se tratando do oriente, Gregório tinha um problema especial

com a reivindicação de João IV, o Jejuador (por causa de seus fre­
quentes jejuns), patriarca de Constantinopla (582— 595), para cha­
mar-se de “patriarca ecumênico”. “Ecumênico”, no uso da linguagem
oriental, veio a ser amplamente usado como referência aos patriarcas,
a fim de expressar seu poder em seus patriarcados. João agora fazia
uma simples aplicação da palavra para a posição suprema de Constan­
tinopla no oriente. Não era uma reivindicação de autoridade sobre
Roma, mas Gregório via aquele título como uma questão de orgulho
e pensava que ele só poderia significar “único” patriarca. Ele rejeitou
o título para si mesmo também, e, nesse contexto, declarou o proprio
conceito de seu ofício como “servo dos servos de Deus”, que depois se

tornou um título papal.
Gregório era mais importante no ocidente do que o exarco de

Bizâncio, cuja autoridade era bem confinada à sua capital em Ravena.
Com o imagem efetiva de autoridade, Gregorio fez as pazes com os
lombardos. Gregório teve de reafirmar a dignidade papal contra os

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 379

bispos de Ravena, Milão, Grado e Aquileia, que reivindicavam dig­

nidade papal.

Gregório lançou a base para o poder temporal do papado. No

vácuo do poder, ele assumiu certas funções do governo civil, não por

ambição, mas por necessidade. Ali, ele se beneficiou de sua experi­

ência civil. Ele nomeou governadores para cidades italianas e admi­

nistrou propriedades latifundiárias que haviam sido legadas à igreja

romana ao longo dos anos. Essas propriedades (latefundia) estavam

espalhadas pela Itália, Córsega, Sardenha, Sicília e norte da África.

Conhecidas como “patrimônio de Pedro”, elas forneciam alimento e

economia para Roma. Muitas das cartas de Gregório tratam da admi­

nistração dessas propriedades e mostram que ele tinha conhecimento

dos detalhes da vida administrativa, econômica e social.

Enquanto esteve em Constantinopla, Gregório começou a escre­

ver Moralia, uma exposição de Jó, a qual terminou quando era papa.

Como o título indica, Gregório estava interessado especialmente no

sentido moral da Bíblia, mais do que no sentido literal ou sobrenatu­

ral, e isso também serve para as suas homílias.

Gregório modificou a lista de João Cassiano e Evágrio dos oito

pecados principais, e sua lista foi então transmitida, com algumas va­

riações, ao ensino moral medieval como “os sete pecados capitais”:

orgulho (ou vangloria), cobiça (ou avareza), luxúria, inveja, gula, ira

e preguiça (ou acídia - enfado do coração, apatia).

As exposições bíblicas de Gregório continham uma análise de

experiência espiritual que deveria ser influente na vida devocional

monástica. Essa análise envolvia um remorso pelas tendências pe­

caminosas, o distanciamento do pecado, do ego e do mundo, e um

ardente e paciente anseio por Deus - tudo

conduzindo à paz. --------------------------------------

A Regra pastoral, escrita na época de “O governo da alma é a

sua ascensão ao trono papal, continua sen- arte das artes” (Gregório, o

do a obra mais influente de Gregório, por Grande, Regra pastoral 1.1).

meio de sua incorporação ao breviário para _________________________

a leitura diária dos sacerdotes romanos. A

Regrapastoral tinha uma influência sobre os clérigos ocidentais com­

parável à que a regra beneditina tinha sobre os monges ocidentais.

380 HISTÓRIA DA IGREJA

A Regra pastoral pode ser caracterizada como uma redação sobre
a humildade como a chave da unidade da igreja. O pastor deve ser
melhor que o povo, assim como o pastor segue diante de seu rebanho.
Ele deve ser puro e um líder. O pregador tem de alcançar todos os
tipos de pessoas; ele tem de ser amado, a fim de ser obedecido. Além
do mais, ele deve ter cuidado com os extremos.

Gregório recomenda substituir os vícios maiores pelos males me­
nores como uma boa técnica para a pessoa que não consegue galgar
as alturas da vida espiritual de uma só vez. Gregório possuía, em emi­
nente grau, a arte da supervisão espiritual, era dotado de bom senso e
um gênio sobre assuntos práticos.

Nas questões teológicas, Gregório transmitiu à Idade Média o
semiagostinianismo representado pelo Concilio de Orange (529).
Ele apoiava a reverência a santos e relíquias e a ideia do purgatório,
ensinando que o sacrifício de todos ajudava as almas que estavam lá.
Gregório era pessimista sobre as condições de sua época e esperava o
iminepte fim do mundo. O paradoxo que tem sido observado é que,
exatamente quando a igreja, em sua imaginação, tratava cada vez mais
com o outro m undo - anjos, demônios, purgatório - , na prática, ela
tornava-se cada vez mais envolvida com as coisas deste m undo - ter­
ra, servos, política.

O Diálogo de Gregório mostra a credulidade acrítica e as supers­
tições da época. Esses relatos dos monges promoviam o monasticis-
mo. Gregório, além do mais, concedeu privilégios aos monges que
serviam para afrouxar o controle episcopal e, assim, abriu o caminho
para a posterior submissão dos monges diretamente ao controle pa­
pal. Ele não hesitou em elevar os monges ao sacerdócio e viu a possi­
bilidade de usar os monges como missionários. Uma de suas influên­
cias mais importantes foi a missão para a Inglaterra (história contada
no capítulo 18).

Gregório tinha interesse pela liturgia da igreja, mas o famoso Sa-
cramentário Gregoriano é posterior (veja a seguir).

Semelhantemente, o canto gregoriano (cantochão ou canto
simples, que era m onofônico) tinha pouca ou nenhum a associação
a ele (apesar da tradição posterior de que ele reformara os cânticos
usados em Roma). O canto pode ter derivado de alguma antiga me­

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 381

lodia romana anterior a Gregório, usada para entoar Salmos, mas
alcançou sua forma clássica depois dele, durante o nono século, no
reino franco.

Gregório também não teve papel algum no desenvolvimento da
schola cantorum (“escola de cantores”) em Roma, que, provavelmen­
te, originou-se no fim do oitavo ou no início do nono século.

V. DESENVOLVIMENTO DA LITURGIA

As grandes liturgias surgiram ao longo do quarto ao sexto sécu­
los, e a maioria foi codificada no sexto e sétimo séculos (embora isso
seja confirmado apenas por documentos posteriores). Elas represen­
tam muito melhor elaboração do que a que se encontra nas liturgias
do segundo e terceiro séculos.

Diversos fatores favoreceram a criação e a utilização de liturgias
escritas.

1. Existem tendências naturais à uniformidade na linguagem da
adoração. Coisas bem expressadas, ou formas impressionantes
de fazer as coisas, tendem a ser repetidas.

2. Bispos e presbíteros indoutos precisam de direcionamento na
condução do louvor.

3. Uma liturgia estável e escrita tornava os cultos mais organi­
zados.

4. O desejo de apegar-se ao que era antigo e que se acreditava ser
apostólico tornava-se ainda mais profundamente enraizado, e
essa tendência funcionava contra qualquer desejo de mudança.

5. A preocupação com a ortodoxia e o medo de doutrinas heré­
ticas santificavam ainda mais aquilo que era antigo e bloque­
avam grandes inovações. Quaisquer mudanças litúrgicas que
eram feitas provocavam controvérsias.

6. A liturgia da sinagoga judaica recebeu uma formulação clás­
sica em um período comparável. Se é que existem quaisquer
influências mútuas, ou apenas desenvolvimentos paralelos nas
duas religiões em um estágio comparável ao seu desenvolvi­
mento, agora não está claro.

382 HISTÓRIA DA IGREJA

As famílias fundamentais da liturgia mostram certas semelhan­
ças amplas na estrutura, nos temas e, ocasionalmente, até nas pala­
vras, todavia possuem características distintas. Essas principais famí­
lias podem ser enumeradas agora.

As principais famílias da liturgia oriental e seus principais repre­
sentantes são os seguintes:

1. Alexandrina ou egípcia.
2. As primeiras provas estão nas orações de Serapião e nos papi­

ros de D er Balizeh. O primeiro texto completo é a Liturgia de
Marcos. A liturgia copta de São Cirilo está em uso atualmente.
3. Jerusalém.

4. Sua prática é representada pela Liturgia de Tiago. Juntam ente
com as duas próximas famílias (bem como a liturgia da igreja
arminiana), esta pode ser agrupada sob o título de siríaca oci­
dental.

5. Clementina.
6. Esse é o pseudônimo para a liturgia encontrada no livro 8 das

Constituições Apostólicas, do final do quarto século. Pode ser
derivada de Antioquia, que forneceu o fundamento para a
próxima liturgia.
7. Constantinopolitana.
8. Duas liturgias estão associadas à capital oriental e são conhe­
cidas pelos nomes dos dois grandes Pais Orientais. A Liturgia
de Basílio é a mais antiga e, em suas orações, pode retroceder a
Basílio e à sua igreja em Cesareia da Capadócia. A Liturgia de
Crisóstomo esteve em uso antes de 431, mas só foi ligada a C ri­
sóstomo no século 10. Essa última é a liturgia em uso comum
na igreja grega, com a anterior usada em certos dias especiais.
9. Siríaca oriental.

10. Essa família inclui as liturgias “nestorianas” de Siro-Malabar
e de Addai e Mari.

As principais famílias de liturgias ocidentais são as seguintes:
1. Romana.

2. Importantes testemunhas manuscritas são posteriores e in­
cluem: Sacramentários: Leonina ou Verona (início do séti­
mo século, preservando as orações antigas), Gelasiana (me­

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 383

ados do oitavo século) e Gregoriana (fim do oitavo e início
do nono século, representada pelo Hadrianum, enviado pelo
Papa Adriano a Carlos Magno) - as duas últimas preservando
material do sexto ou sétimo século. A posterior, Ordines ro-
mani traz descrições detalhadas (Ordo X I é a mais recente).
3. Galicana.

4. Essa é mais bem tipificada na Missale Gothicum (c. 700). A
Bobbio Missal (final do sétimo ou oitavo século) é uma liturgia
mista galicana e romana. As próximas três podem ser conside­
radas subespécies da galicana.

5. Ambrosiana.

Rito Romano LITURGIAS OCIDENTAIS
Rito Galicano

Liturgia da Palavra Liturgia da Palavra

Introito por dois corais Entrada

Kyries [Senhor, tenha m isericórdia] Saudação do celebrante e resposta

Saudação do celebrante K yries - B en ed ictu s ou Gloria in e xce lsis

Coleta (reunião dos pedidos da C o le ta
congregação em uma oração)

Leitura do Antigo Testam ento Leitura do Antigo Testam ento

Cântico antífona

Leitura da Epístola Leitura de Atos ou da Epístola

Gradual (Salm o cantado de forma Benedictu es
responsiva pelo cantor ou coral)

A le lu ia

Leitura do Evangelho com velas/ Leitura do Evangelho, procissão/incenso
in c e n s o

Canto - Tersanctus ou Kyries

Serm ão

Despedida dos que não cearão Litania do diácono
Liturgia da ceia Despedida dos catecúm enos
Liturgia da ceia

384 HISTÓRIA DA IGREJA

LITU RG IA S O CID EN TAIS

Rito Romano Rito Galicano

Ofertório (Salm o cantado) Ofertório (Salm o cantado)

Leitura dos dípticos (mortos lem brados na oração)

C o le ta

Saudação e Sursum corda Beijo da paz
[levantai o vosso coração] Saudação e Sursum corda

Oração de consagração Oração de consagração

Prefácio Prefácio

Sanctus [Santo, Santo, Santo] Sanctus

Canon [incluindo intercessões, Palavras de instituição e coleta
palavras de instituição, anam nese]

Beijo da paz

Fração [partir da pão] Fração (coleta, antífona, m escla de pão e vinho)

Oração do Senhor Oração do Senhor

0 celebrante abençoa o povo

Com unhão Com unhão

O ração de agradecim ento O ração de agradecim ento

D espedida pelo diácono D espedida pelo diácono

1. Essa era a liturgia de Milão, que sobrevive em uso ali; qual­
quer que seja a participação de Ambrósio na sua formulação,
os acréscimos posteriores tornam os seus elementos impossí­
veis de serem identificados.

2. Moçárabe.
3. Desenvolvida no sexto século, estava em uso na Ibéria até o

século 11 e sobrevive em Toledo.
4. Celta.
5. A Stowe Missal (oitavo século e posterior) preserva a liturgia

hiberno-galicana (irlandesa).
O termo missa (do latim missa ou dismissio) estava em uso no
quarto século para o rito litúrgico e, pelos meados do quinto século,

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 385

foi aplicado ao culto. A fórmula de despedida Ite missa est (“vão, estão
dispensados”), aparentemente, deu o nome de “missa” para o culto
inteiro, talvez pela associação da despedida com a bênção.

As duas principais liturgias ocidentais, como praticadas no sexto
e sétimo séculos, cuja mistura se tornou a missa medieval, podem ser
comparadas (veja o quadro seguinte).

VI. DIFERENÇAS ENTRE IGREJAS ORIENTAIS E
OCIDENTAIS

O desenvolvimento da igreja nos primeiros seis séculos tem sido
esboçado da seguinte maneira: uma igreja “católica primitiva” (se­
gundo século, e alguns querem colocar isso de volta nos documentos
posteriores do Novo Testamento); uma “antiga igreja católica” (final
do segundo e terceiro séculos); uma “igreja católica estadual” (quarto
século); uma “igreja católica romana” (quinto século no ocidente); e
uma “igreja ortodoxa” (sexto século no oriente).

As invasões germânicas trouxeram instabilidade política ao ociden­
te, mas um governo estável prosseguiu na metade oriental do império.

ESQ U EM A DA H ISTÓ R IA DA IGREJA PRIM ITIVA

Secundo século Igreja Católica Primitiva

Terceiro século Antiga Igreja Católica

Quarto século Igreja Católica Estadual

Quinto século (ocidente) Igreja Católica Romana

Sexto século (oriente) Igreja (Ortodoxa) Católica Bizantina

Os acontecimentos do ano 451 servem para simbolizar as dife­
renças: uma aliança dos visigodos, francos e romanos, na Gália, for­
çou a retirada de Átila, o huno, que então entrou na Itália, onde Leão
Magno negociou sua retirada; uma enorme assembléia de bispos reu-
niu-se em Calcedônia para discutir a natureza de Jesus Cristo.

Após a divisão do império, em 395, entre os filhos de Teodósio
I, a união do oriente com o ocidente nunca mais foi restabelecida. A

386 HISTÓRIA DA IGREJA

terra dos Bálcãs, que fazia uma ponte entre o oriente e o ocidente,
sofreu as mais pesadas invasões dos bárbaros depois do ano 380, e a
influência romana retirou-se do litoral dálmata. As invasões dos ava­
ros e eslavos, no sexto século, finalmente bloquearam a comunicação
direta em toda essa região.

Isso e também a subsequente conquista árabe das províncias
orientais e o controle das rotas marítimas, adicionadas à conquista
germânica do ocidente, causaram o desenvolvimento separado do
cristianismo oriental e ocidental, e acentuaram as diferenças já exis­
tentes entre as mentalidades gregas e latinas desses dois importantes
ramos do cristianismo.

É característico que chamemos a igreja oriental de “ortodoxa” e a
ocidental de “católica”. N o oriente, as controvérsias eram sobre Deus
e Cristo; no ocidente, eram sobre a natureza da Igreja e dos homens.
O oriente estava mais preocupado com as grandes questões filosóficas
levantadas pela fé; o ocidente era mais legalístico e prático em suas
preocupações.

Desse modo, o quarto século, no oriente, foi dominado teolo­
gicamente pela controvérsia ariana sobre a deidade; no ocidente, no
norte da África, o principal problema eclesiástico era o donatismo,
preocupado com a natureza da igreja e dos sacramentos.

N o quinto século, semelhantemente, o oriente estava preocupa­
do com a questão teológica da natureza de Jesus Cristo, enquanto o
ocidente estava dividido pela controvérsia sobre a questão antropoló­
gica levantada pelo conflito entre Pelágio e Agostinho.

Todas as grandes controvérsias podem ser consideradas preocu­
padas com a salvação: o arianismo, preocupado com o fato de como
Deus salva, e o donatismo, com a forma como a igreja se enquadra na
salvação; os debates cristológicos, preocupados com o papel divino, e
o pelagianismo, com o papel do homem na salvação.

Algumas articulações mencionadas neste capítulo refletem ou­
tras diferenças. Em relação à liturgia, o oriente enfatizava a presen­
ça divina, e o ocidente, o ato do sacrifício. Logo, o oriente colocava
mais ênfase na epiclese, a invocação da presença do Espírito Santo; o
ocidente, nas palavras da instituição, revivendo o sacrifício de Jesus
Cristo.

IGREJAS ORIENTAIS E OCIDENTAIS NO QUINTO E SEXTO SÉCULOS 387

Em relação à organização da igreja, o patriarca de C onstantino-
pla funcionava na sombra do imperador; o bispo de Roma não en­
frentava esse tipo de poder político competitivo.

As diferenças entre a igreja ocidental e a igreja bizantina (e entre
a sociedade ocidental e a sociedade bizantina) podem ser resumidas
dizendo que a igreja oriental não teve uma Idade Média. M uito mais
continuidade foi mantida nas igrejas ortodoxas (mas isso não quer
dizer que tiveram progressos significativos, como o desenrolar da his­
tória delas mostrará) do que por suas correspondentes ocidentais.

O fator principal aqui foi as invasões germânicas e a subsequente
conversão dos povos germânicos. As igrejas orientais tiveram, de al­
guma forma, experiências comparáveis na conversão de invasores es­
lavos e muçulmanos, mas os resultados foram diferentes. A conversão
dos eslavos não m udou a igreja bizantina de uma forma comparável
aos efeitos dos povos germânicos sobre a igreja latina.

Além do mais, as invasões muçulmanas foram m uito mais devas­
tadoras para as igrejas que ficaram sob o domínio muçulmano do que
as invasões germânicas o foram no ocidente, porque os conquistado­
res muçulmanos não foram convertidos ao cristianismo.

LEITURA COMPLEMENTAR

FREND, W. H . C. The Rise ofthe Monophysite M ovement. 2. ed.
Cambridge: Cambridge University Press, 1979.

GRILLM EIER, Aloys. Christ in Christian Tradition. Parte 1:
From the Council o fChalcedon (451) to Gregory the Great (590-604).
Parte 2: The Church o fConstantinople in the Sixth Century. v. 2. Lou-
isville: Westminster John Knox, 1987,1995.

JU N G M A N N , Josef A. TheEarly Liturgy: To the Time o f Gre­
gory the Great. N otre Dame: University o f N otre Dame Press, 1959.

K A R D O N G , Terrence G. Together unto Life Everlasting: A n In-
troduction to the Rule of Benedict. Richardton, N D : Assumption
Abbey, 1984.

MAAS, M. (Ed.). The Cambridge Companion to the Age ofjusti-
nian. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.

M ARKUS, Robert A. Gregory the Great and H is World. Cam ­
bridge: Cambridge University Press, 1997.

Igrejas orientais do sétimo
século ao século 11

Este capítulo abrange diversos avanços decisivos e definidores no
Cristianismo oriental.

Doutrinariamente, houve a definição final do dogma cristológi-
co, a contínua rejeição da heresia dualista e - após grande luta —a
rejeição da iconoclastia.

Em termos de números de cristãos, houveram as enormes perdas
devidas à expansão do Islamismo, compensadas, de certa forma, pela
obra missionária dos ortodoxos entre os búlgaros e eslavos, especial­
mente os russos, e pelas igrejas orientais separadas do Extremo Oriente.

As consequências da controvérsia iconoclasta produziram flores­
cimento da arquitetura e arte bizantinas. Avanços significantes ocor­
reram também no monasticismo, a vida de piedade e as produções
literárias.

As relações com a igreja ocidental eram pontuadas não só pela
controvérsia cristológica, pela iconoclastia e pela competição pela
aliança dos convertidos na Europa central, mas também pelo cisma

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO X I 389

de Fócio. Esse cisma identificava alguns pontos do distanciamento
entre as formas ocidentais e orientais do cristianismo que iriam cul­
minar no grande cisma de 1054 (capítulo 19).

Sem dúvida, o principal acontecimento, de abrangentes conse­
quências não só para os cristãos orientais, mas, finalmente, para todos
eles, foi o surgimento do Islamismo.

Os acontecimentos da igreja Ocidental a serem examinados no
próximo capítulo ficam em nítido contraste com a situação que en­
contramos no Oriente.

I. O PERÍODO DE HERÁCLIO E A CONTROVÉRSIA
MONOTELITA

Assim como os anos 400— 600 foram na Europa ocidental, os
anos 600— 800 foram uma época de invasão e assentamento bárba­
ros no Oriente. Os eslavos indo-europeus e os mongóis avaros e búl­
garos sobrepujaram os Bálcãs. Além do mais, os persas invadiram o
Egito, a Síria e a Ásia Menor.

Para enfrentar essa crise, surgiu um grande imperador, Heráclio
(610— 641). Ele conquistou vitórias militares sobre os persas em
628—629, porém, logo uma ameaça mais séria viria dos árabes (se­
ção III abaixo).

Na frente teológica, o imperador Heráclio empreendeu novamen­
te a tarefa de reconciliar os cristãos separados do Oriente com a versão
bizantina de ortodoxia. Assim como os outros imperadores, ele estava
preocupado em preservar a autoridade de Calcedônia porque a mes­
ma representava a participação de Roma, havia concedido proeminên-
cia a Constantinopla e havia arquitetado a lei canônica da igreja.

O objetivo de Heráclio era preservar a doutrina das duas natu­
rezas, mas encontrar a unidade de Jesus Cristo em algum outro as­
pecto além do humano. Lá pelo sétimo século, as linhas já haviam se
endurecido a ponto de a teologia não ser o verdadeiro problema da
separação dos henofisistas, mas seria cínico dizer que a teologia não
foi importante.

Sérgio, patriarca de Constantinopla (610— 638), defendia a fór­
mula “uma energia” (funcionamento ou atividade) - empregando

390 HISTÓRIA DA IGREJA

uma linguagem que se encontrava em Cirilo, Pseudodionísio e Se­
vero - para representar a unidade das duas naturezas de Jesus Cristo.
Sofrônio, um monge palestino que em 634 se tornou patriarca de Je­
rusalém, opunha-se à fórmula, dizendo que o monenergismo (“uma
energia”) era renascença dissimulada do monofisismo. Ele explicava
que havia um agente funcional que realizava duas operações segundo
a natureza apropriada.

Tanto Sérgio como Sofrônio escreveram para o papa Honório
(625—638), que aconselhou contra o uso de “uma energia”, mas em
sua própria exposição afirmou que Jesus possuía “uma vontade”. H o ­
nório presumivelmente estava falando concretamente do ato de de­
sejar, e não teoricamente de quantas “volições” haviam em Jesus, mas
sua sugestão foi tomada por Sérgio no sentido teórico.

Heráclio promulgou a Ekthesis, escrita por Sérgio, em 638, proi­
bindo a discussão sobre “uma energia”, mas confirmando “uma von­
tade” (monotelismo), o último em uma série de compromissos (o
HenóÇico, o Neocalcedonianismo, os Três Capítulos) objetivando a
reconciliação dos calcedonianos com os henofisistas. Isso fracassou
em conciliar os henofisistas, entretanto, e apenas conseguiu dividir os
calcedonianos. O papa João IV (640—642) condenou Honório, e a
controvérsia monotelita causou o cisma entre Roma e Constantino-
pla entre 646 e 681.

O imperador Constâncio II (642— 648), em 648, emitiu o Typos,
proibindo a discussão sobre as “volições” de Jesus. O ambicioso papa
M artinho I (649—655), em um sínodo em Roma em 649, proclamou
a doutrina das duas volições em Jesus e condenou H onório e Sérgio.

Máximo, o Confessor (c. 580— 662), um dos maiores teólogos e
mestres espirituais da igreja grega, era o principal defensor das duas
volições em Jesus. Máximo havia fugido para Roma quando foi bani­
do pelo imperador oriental, o qual também enviou o papa M artinho
para o exílio em Crimeia.

A posição de Máximo era que existe um que deseja e o mesmo
não pode realizar duas volições contrárias. É impossível que a von­
tade humana de Jesus Cristo, a qual é uma vontade verdadeiramente
humana, porém deificada como a plenitude de sua humanidade, não
concordasse com a vontade divina.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 391

Essa teologia era a base da espiritualidade de Máximo: Jesus Cristo

cura a nossa liberdade para que a imitação de Cristo traga uma submis­

são voluntária à vontade de Deus.

Em sua Mistagogia, Máximo traçou uma comparação entre o

templo, o universo, a alma humana e a liturgia. O templo com o seu

santuário reservado para os sacerdotes, e a nave para todos os fiéis, é

uma imagem do universo, dividida entre um mundo espiritual invisí­

vel e um mundo corpóreo visível. E também

uma imagem da alma, que consiste de duas “A atração espiritual do
forças: intelecto e vitalidade. Cada ato da cântico sagrado expressa
liturgia, com suas duas partes (da Palavra e
do sacramento), marcado pela primeira en­ o intenso prazer a ser
trada do sacerdote no templo e pela segunda encontrado nas coisas
ou grandiosa entrada do sacramento santo, é divinas, o qual dirige as
símbolo de algum aspecto da fé cristã. almas para a vontade não
diluída e feliz de Deus
Os teólogos monotelitas eram os pa­ e as desperta para um
triarcas Ciro de Alexandria, Pirro de Cons- ódio intensificado contra
tantinopla e Macário de Antioquia. Eles

declararam que a vontade é uma questão o pecado” (Máximo, o

de pessoa e não de natureza (physis). Já que Confessor, Mistagogia 11).

Calcedônia havia dito que Jesus Cristo é

“uma pessoa”, a vontade daquela pessoa é a

vontade do Logos. O resultado foi uma psicologia teológica. A natu­

reza humana de Cristo se tornou meramente um instrumento passivo

que a atividade e a vontade divinas usam, desprovida de qualquer ini­

ciativa própria. A visão monotelita colocava o princípio da atividade

humana do Salvador na Palavra divina.

Ciro de Alexandria instituiu uma perseguição no Egito contra

a igreja Copta (henofisista em sua teologia) em nome da causa Mel-

quita (imperial), que apoiava a posição de “uma vontade”. Essa perse­

guição foi muito infeliz, pois afastou do imperador a maior parte da

população egípcia na véspera da conquista árabe.

O imperador Constantino IV (668—685) tentou remediar as

relações tensas entre Roma e Constantinopla. O Islã (a seguir) havia

dominado completamente as províncias orientais, então parecia mais

importante apaziguar Roma do que os henofisistas. Ele convocou o

392 HISTÓRIA DA IGREJA

sexto concilio ecumênico, Constantinopla III (680—681), também
chamado de Primeiro Concilio Trulano, porque a assembléia foi no
pavilhão Trullo (sala abobadada). O papa Ágato (678—681) era o
novo Leão por trás das decisões do concilio, e Máximo fornecia as
bases teológicas. Os monotelitas estavam dispostos a dizer, no lugar
de uma vontade ou energia, uma vontade hipostática e uma energia
teândrica (divina-humana). Essa teria sido uma boa teologia no rei­
nado de Justiniano, mas não foi aceita por aqueles comprometidos
com a linguagem das “duas vontades”. Assim, a teologia de C onstan­
tinopla III foi outra vitória romana.

O concilio condenou Sérgio, Ciro, Pirro, Macário e Honório. O
mesmo preservou a unidade em Jesus Cristo afirmando que a vontade
humana se submeteu à vontade do Logos.

Os quatro concílios cristológicos podem ser interpretados como
a representação do movimento de um pêndulo entre as ênfases da
escola de Alexandria (a unidade de Cristo) e a de Antioquia (a duali­
dade de Cristo): uma ênfase alexandrina em Éfeso (431), antioquina
efii Calcedônia (451), alexandrina novamente em Constantinopla II
(553) e antioquina outra vez em Constantinopla III (681).

Os católicos romanos têm defendido a ortodoxia de H onório (e
assim, a infalibilidade papal) com diversas explicações: (1) ele usou
“uma vontade” em um sentido moral, e não físico; (2) a opinião dele
era privada, e não exposta ex cathedra-, (3) o concilio estava errado em
atribuir a ele o mesmo ponto de vista dos outros condenados, e, por
causa de seu descuidado uso da linguagem, ele foi condenado junta­
mente com os outros; (4) o nome de alguém foi substituído pelo dele
em ações falsificadas do concilio.

Em qualquer explicação, mesmo que a infalibilidade fosse tecni­
camente salva, H onório provou não ser um guia teológico seguro nas
controvérsias de sua época.

Os cristãos sírios do Líbano mantiveram o ponto de vista mono-
telita e afastaram-se. Eles ficaram conhecidos como os maronitas, se­
gundo o nome de um eremita, Maro, do quarto— quinto século, mas,
na verdade, fundados por São João M aron (sétimo— oitavo século).

D urante o exílio do patriarca da A ntioquia em Constantinopla
na primeira década do oitavo século, os cristãos libaneses começaram
a prática de eleger seus próprios patriarcas. Mais tarde, aceitaram a

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 393

posição das duas vontades e, desde o século 12, têm sido uma igreja
uniata com Roma, isto é, uma igreja que preserva seus próprios costu­
mes e liturgia, mas em comunhão com Roma.

M uitos monges bizantinos e clérigos fugiram do Islã e dos impe­
radores monotelitas para o ocidente e levaram consigo arte bizantina,
disciplina monástica e liturgia. Entre esses, estava Teodoro de Tarso
(capítulo 18). Entre as práticas devocionais que se espalharam para o
ocidente estava a veneração da cruz.

Em contraste com a vitória teológica de Roma em Constantino-
pla III, sua sequela foi a derrota de Roma, uma derrota ainda maior do
que foram os cânones na organização da igreja em Calcedônia. Já que
nem o quinto ou o sexto concílios ecumênicos haviam estruturado câ­
nones disciplinares, Justiniano II (685—695; 704—711) convocou o
Segundo Concilio Trulano (692), também conhecido como Conci­
lio Quinissexto (quinto-sexto) em respeito à legislação canônica.

Essa assembléia completamente oriental, não reconhecida por
Roma, aprovou 102 cânones. Entre as decisões que se diferenciavam
da prática ocidental, estava a renovação do vigésimo oitavo cânon de
Calcedônia, que dava a Constantinopla privilégios iguais aos da an­
tiga Roma, perm itindo aos diáconos e presbíteros que se casassem se
o casamento fosse contraído antes da ordenação (a exigência de celi­
bato para bispos significava que os bispos eram retirados dos monges,
resultando em monges governando a igreja), renovando a proibição
de comer sangue, proibindo a representação de Jesus Cristo como um
Cordeiro (depreciando o Logos, que se havia tornado homem, não
um animal, e ilustrando a sacralização superior da igreja Oriental em
relação à arte religiosa), proibindo jejum no sábado na Quaresma,
exceto no Grande Sábado, e rejeitando o acréscimo teopasquita do
Triságio (capítulo 16) à liturgia.

Ao estabelecer o código disciplinar para a igreja bizantina, esse
concilio confirmou as práticas que deveríam formar uma barreira
contra a união com a igreja Ocidental.

II. PAULICIANOS

As fontes bizantinas dizem que o fundador dos paulicianos foi
certo Constantino da Armênia, no sétimo século, que adotou o nome

394 HISTÓRIA DA IGREJA

de Silvano. Essas fontes atribuem uma doutrina maniqueísta, dualista
e uma cristologia docética aos paulicianos, que, aliás, adotaram esse
nome do apóstolo Paulo ou, mais provavelmente, de Paulo de Samó-
sata (terceiro século).

As fontes armênias não são tão explícitas nos detalhes históricos,
mas indicam que o movimento estava ativo na Armênia um século
antes de ser conhecido pelos escritores bizantinos. Algumas caracte­
rísticas do grupo podem ter sido encontradas entre os cristãos armê­
nios primitivos. Os paulicianos uniram-se aos muçulmanos contra o
império, mas foram favorecidos pelos imperadores iconoclastas.

A Chave da Verdade, de origem medieval (talvez entre o sétimo e
o nono séculos), contudo conhecida de um manuscrito armênio data­
do de 1782, parece ser uma autêntica fonte pauliciana e traz uma pers­
pectiva diferente sobre as crenças desse grupo. As doutrinas apresen­
tadas incluem a unidade de Deus; a humanidade e a adoção de Jesus;
a importância do batismo para Jesus e para o crente (não o batismo
infantil); a rejeição dos sacramentos e da hierarquia de outras igrejas;
a rejeição do asceticismo, do culto aos santos e da adoração a imagens
(incluindo até o uso simbólico da cruz); e a afirmação de que Maria
não permaneceu virgem. Eles afirmavam que eram os verdadeiros cris­
tãos e só eles possuíam a fé apostólica. Exceto pelas doutrinas de Deus
e Cristo, essas posições são confirmadas pelas fontes bizantinas.

Parece que por volta do século nono houve uma divisão dos pau­
licianos. Um grupo no Bizâncio adotou a posição dualista-docética.
Esse grupo ocidental era aquele conhecido pelos polêmicos bizanti­
nos e influenciaram os bogomilos nos Bálcãs, os quais seguiam o pon­
to de vista dualista maniqueísta. A acusação do maniqueísmo contra
os paulicianos como um todo pode ter contido uma referência espe­
cial à iconoclastia, porque se entendia que o dualismo fornecia uma
base teórica para a rejeição das imagens.

A Chave da Verdade preservou a posição de outro grupo na A r­
mênia que permaneceu mais próximo das doutrinas primitivas. Sua
semelhança com Paulo de Samósata, juntam ente com a influência sí­
ria no cristianismo da Armênia, não requer uma proveniência direta
de Paulo de Samósata, mas pode sugerir que esse nome foi dado a
partir da aceitação de uma cristologia adocionista similar.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 395

III. O IMPACTO DO ISLAMISMO

Durante a época do imperador Heráclio, surgiu outra força de
significado histórico mundial — o Islamismo. Na ocasião da morte
de Heráclio (641), tanto a Pérsia como Bizâncio estavam severamen­
te enfraquecidos pelas invasões muçulmanas da Arábia. N o final, a
igreja perdeu três patriarcados (Jerusalém, Antioquia e Alexandria),
e muitos cristãos no Oriente viviam sob o Islamismo. Sua influência
ainda se sente em igrejas orientais modernas e, em m enor grau, sua
influência permanece no Ocidente, na península Ibérica e, portanto,
na América do Sul.

Para antecipar o próximo capítulo, notamos que o sucesso do
Islamismo ao sul e ao leste do M editerrâneo não só enfraqueceu o
império Oriental e quebrou a unidade do mundo mediterrâneo, mas
também produziu uma mudança política e cultural no Ocidente.
Conclusivamente, o sucesso do Islamismo criou circunstâncias nas
quais o reino franco chegou ao domínio, e o papado começou a p ro ­
curar, no norte e no oeste, o apoio político dos francos e um meio de
desenvolver-se como um estado independente.

A. Maomé e sua base cristã

Muitos árabes haviam se convertido a alguma forma do Cristia­
nismo. N o sul da Arábia, por exemplo, os himiaritas eram cristãos,
contra os quais houve uma insurgência nativa em Najran, em 523,
que produziu pelo menos 200 mártires.

As formas henofisista (Síria) e “nestoriana” (Pérsia) de Cristia­
nismo foram alienadas da ortodoxa bizantina e frequentemente pe­
savam na balança em favor da conquista islâmica na Palestina, Síria e
Mesopotâmia.

Muitos povos árabes haviam permanecido pagãos, e Maomé pro-
pôs-se a convertê-los.

Maomé (570—632) casou-se com uma viúva rica que morreu em
595 deixando somente filhas. Ele trabalhava em caravanas de camelos
e, desta forma, entrava em contato com judeus e cristãos. Em 622, ele
se m udou de Meca para Medina. Essa mudança, a Hégira, marca o
ano 1 do calendário muçulmano.

396 HISTÓRIA DA IGREJA

O Alcorão mostra algum conhecimento das crenças e dos cos­
tumes cristãos. Alguns são reprovados, como imagens religiosas e o
monasticismo (o Alcorão conhece principalmente mosteiros, e não
igrejas). Alguns são mal interpretados, como a Trindade consistir no
Pai, na virgem Maria e no Filho.

O “credo” do Islamismo afirma: “Ó, você que acredita em Alá e
em seu mensageiro (Maomé) e no livro (Alcorão) que ele enviou pelo
seu mensageiro e em seu livro (a Bíblia) que ele enviou anteriormen­
te; qualquer que não acredite em Alá, em seus anjos e em seus livros
e em seus mensageiros e no último dia já se desviou muitíssimo para
o erro”.

“Acreditar” significa “submissão”, que é o significado de “Islamis-
mo , e “muçulmano” é “aquele que se submete”.

De acordo com Maomé, o monoteísmo rigoroso não permitia
nem Filho”, nem “Espírito”. O anjo Gabriel supostamente entregou
o Alcorão a Maomé, que é “o apóstolo” ou “profeta” de Alá. O Al-
corãp, com o tempo, foi suplementado pela tradição (Hadith), pelo
costume (Suna) e consenso (Ijma). O Antigo e o Novo Testamentos
tinham o seu lugar, portanto judeus e cristãos como “povos do livro”
eram mais conceituados do que os pagãos. Jesus era considerado um
profeta anterior, mas o entendimento sobre Ele era bem docético.

O monoteísmo radical do Islamismo, a moralidade estrita, a lista
simplificada de deveres (oração diária, jejum durante o mês de Rama-
dã e a peregrinação à Meca) e o zelo fanático apelavam a muitos.

B. Expansão muçulmana

Depois da batalha de Jarmuque, em 636, os muçulmanos mar­
charam para Jerusalém. O patriarca da cidade mostrou o M onte Mo-
ria (como o cenário onde Abrão intencionava sacrificar Isaque) aos
conquistadores, que eram considerados por muitos como os liberta­
dores do jugo do domínio bizantino. A Antioquia caiu em 638. A
Alexandria foi, de certo modo, mais difícil de ser conquistada, caindo
em 641, depois que os árabes haviam tomado Babilônia no oriente. A
Armênia foi conquistada em 634, e a região de Geórgia submeteu-se
voluntariamente ao dom ínio árabe.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 397

Cartago, o último vestígio da resistência bizantina na África, caiu
em 697, e, em 709, todo o norte da África estava nas mãos dos muçul­
manos. Diferentemente da situação nos países do Oriente Médio, o
Cristianismo no norte da África desapareceu completamente. Diver­
sos fatores poderiam estar em ação: semelhanças de culturas entre os
muçulmanos e as populações púnicas e berberes da África do Norte,
as diferenças sociais e econômicas entre os povos romano-bizantinos
e a população nativa, a grande divisão entre os donatistas e os católi­
cos, e especialmente a visão vândala de Cristo como um chefe divini-
zado que não oferecia nenhum a alternativa forte à visão muçulmana
de Maomé.

D a África do Norte, os muçulmanos espalharam-se para a Espa­
nha, controlando a maior parte da península já em 711 e tomando
Toledo no ano 712. A expansão norte dos pireneus foi marcada pela
derrota dos invasores por Carlos Martel entre Tours e Poitiers em
733 (tradicionalmente datada de 732). O século de maior expansão
muçulmana está claramente demarcado pela morte de Maomé em
632 e a derrota de Tours em 733.

Como foi sugerido acima, o Islamismo era frequentemente re­
cebido como uma força libertadora contra o imperador bizantino. A
rápida expansão do Islamismo nas terras onde o Cristianismo havia
inicialmente criado raízes (Palestina, Síria, Egito) demonstra quão
superficial o Cristianismo havia se tornado. O povo havia sido ator­
mentado por controvérsias doutrinárias e sectarismo. O Cristianis­
mo de muitas pessoas estava ligado a antigas práticas e crenças pagãs,
orações aos santos, reverência à Maria e uso de amuletos e outras ca­
racterísticas de magia.

Q uando os muçulmanos chegaram dizendo que Maomé era o
último dos profetas, muitas pessoas aceitaram a nova religião. O mo-
noteísmo ético purificado e a oposição a práticas supersticiosas e re­
presentações pictóricas pareciam representar um ideal religioso mais
elevado.

O Islamismo inicialmente não fazia nenhum esforço para con­
verter cristãos não árabes, e não há evidência de destruição de templos
até o nono século. Os conquistadores destruíram imagens nas igrejas.
À medida que a burocracia dos governantes árabes desenvolvia-se,

398 HISTÓRIA DA IGREJA

impostos e indenizações eram exigidos dos cristãos. Além das cargas
tributárias, os cristãos não podiam ocupar certos cargos no governo.

A educação e a experiência de muitos cristãos, todavia, tornou-
-os indispensáveis para os novos líderes. Foi assim especialmente no
Egito, mas também em Bagdá, onde os estudiosos “nestorianos” que
dominavam o grego, o siríaco e o árabe traduziam as obras filosóficas
e científicas gregas para o árabe.

Não obstante, o apoio popular ao Cristianismo começou a de­
saparecer. Somente metade das igrejas em algumas regiões estava em
uso. N o início do oitavo século, havia uma enorme pressão sobre as
igrejas do Oriente Próximo. Alguns focos de Cristianismo deixados
no Oriente, entretanto, têm perdurado até hoje.

C. A resposta cristã ao Islam ism o

Q uanto os apologistas cristãos começaram a responder ao Isla-
mismo, eles ofereceram três, não mutuamente exclusivas, explicações
para o fenômeno da expansão dessa nova religião.

1. O Islamismo era uma heresia cristã. Existiam pontos suficien­
tes em comum com sua estrutura de fé - monoteísmo, reve­
lação profética, julgamento e vida após a morte - para tornar
isso plausível.

2. O Islamismo era o juízo de Deus pelas deficiências da igreja.
Sempre há deficiências suficientes na vida cristã dos fiéis para
tornar isso numa explicação para os infortúnios.

3. O Islamismo era uma imitação demoníaca da verdadeira reli­
gião. Os primeiros apologistas cristãos haviam usado esse ar­
gumento para explicar similaridades entre o Cristianismo e as
religiões misteriosas pagãs.

Podemos identificar três estágios na resposta cristã ao Islamismo.
A primeira resposta era ver o Islamismo como um castigo para os pe­
cados dos cristãos (número dois acima) e dizer que, se um número
suficiente de cristãos se arrependessem, a praga iria embora.

A segunda resposta (começando no final do sétimo século) pro­
movería uma explicação apocalíptica do Islamismo. Sua chegada pre­
cedia o fim do mundo, e logo os muçulmanos iriam experimentar
piores aflições do que as que eles infligiam.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 399

Somente cerca de 100 anos depois do aparecimento do Islamis-
mo foi que os escritores cristãos começaram a engajar-se em sérias
polêmicas contra o Islamismo (a terceira resposta ao Islamismo).

O primeiro escritor a articular o caso cristão em árabe foi Teodo-
ro Abucara (c. 745— c. 825), cuja obra era mais designada a impedir
que os cristãos fossem influenciados pelo Islamismo do que tentar
converter os muçulmanos.

IV. CONTROVÉRSIA ICONOCLASTA

A controvérsia iconoclasta (“quebra das imagens”, isto é, destrui­
ção de figuras) foi provocada, em parte, pela resposta à oposição do
Islamismo contra as imagens.

O debate dizia respeito ao figurativismo de Jesus Cristo (entre
outras pessoas), especialmente do divino em Cristo, de forma que os
argumentos cristológicos que foram usados transformaram a questão
inteira em um epílogo das controvérsias cristológicas.

A primeira fase da iconoclastia durou de 726 a 787; o esforço foi
reavivado de 815 a 843. A controvérsia tocou no nervo da piedade
popular, pois a forma mais significante da devoção oriental havia se
transformado no culto às imagens sagradas ou ícones (a palavra grega
significa “figuras”, e não “estátuas”) que figuravam Jesus Cristo, M a­
ria, os santos e os anjos.

A arte cristã já havia surgido no início do terceiro século (capítu­
lo nove). Isto foi basicamente simultâneo com a primeira evidência
da arte pictórica judaica, portanto, a teoria de que o Cristianismo
herdou uma tradição de iconografia religiosa das sinagogas heleniza-
das tem falta de evidências.

A mais antiga arte cristã distinta representava cenas da Bíblia. Era
decorativa, mas alguns diziam que ela ajudava no ensino. A arte fu­
nerária pode também ter servido para reforçar o caráter sagrado dos
monumentos.

As marcas de devoção às imagens aparentemente evoluíram das
marcas do respeito prestado aos retratos oficiais dos imperadores rei­
nantes durante o império anterior. Esses retratos eram considerados
substitutos da presença do imperador, então, os mesmos sinais de

400 HISTÓRIA DA IGREJA

respeito devidos ao imperador eram demonstrados aos seus retratos:
cortinas quando eles partiam, prostração diante deles, queima de in­
censo e iluminação de velas ao lado deles, carregando-os em procis­
sões solenes.

As primeiras imagens cristãs a serem envolvidas com essas mar­
cas de culto foram os retratos de indivíduos venerados como santos
enquanto ainda estavam vivos. O culto às imagens foi inicialmente
evidenciado durante o quinto século e tornou-se repentinamente
popular durante a segunda metade do sexto século e no sétimo. A
reserva que os líderes da igreja, como Epifânio e Agostinho, haviam
demonstrado em relação às primeiras imagens no final do quarto sé­
culo agora havia desaparecido.

As figuras forneciam uma representação mais concreta e direta
da presença das forças espirituais. A oração, a fé e a esperança eram di­
rigidas para além do símbolo à pessoa ou ao mistério ali representado,
mas a imagem em si tornou-se um objeto de veneração, possuindo seu
próprio poder de intercessão ou até propriedades miraculosas.

A atribuição de milagres a objetos relacionados aos locais da san­
ta peregrinação e a crescente devoção a Maria (capítulos 12 e 16) for­
neciam precedentes para atribuir poderes miraculosos e intercessão
às imagens.

Leão III, o Isáurio (ou sírio) (717—741) foi um imperador mi­
litar que se dedicou a fortalecer as fronteiras contra as ameaças ide­
ológicas e militares do Islamismo. Uma de suas primeiras realizações
foi expulsar os árabes de Constantinopla em 717—718, não muito
antes de Carlos M artel detectar a presença deles no Ocidente. Relata-
-se que ele disse: “Sou sacerdote e rei”, uma visão com um longo pre­
cedente no Oriente.

Entre 721—722, o imperador Leão III decretou a conversão for­
çada dos judeus, um decreto que foi repetido por imperadores pos­
teriores, todos sem sucesso. Em 726, ele publicou um código de lei
que tornava culpáveis ambas as partes envolvidas em um adultério,
tornou o noivado um compromisso vinculativo e impôs a mutilação
como uma punição simbólica para certos crimes.

As bases para a oposição de Leão às imagens nas igrejas são muito
questionadas, e a iniciativa pode ter vindo dos bispos da Ásia Menor.

IGREJAS ORIENTAIS DO SÉTIMO SÉCULO AO SÉCULO 11 401

Possíveis influências incluem (1) aqueles que atribuíam o sucesso do
Islamismo à idolatria dos cristãos, (2) aqueles que esperavam que um
cristianismo purificado convertería os muçulmanos e os judeus, (3)
as associações paulicianas em seu histórico, ou (4) o desejo de Leão
de controlar a igreja ao enfraquecer os mosteiros poderosos, onde os
monges faziam ícones e os vendiam por um alto preço aos peregrinos.

Após declarar sua oposição às imagens em 726, Leão III publicou
um edital contra elas em 730 e depôs o patriarca Germano por resistir
à sua regra. O maior apoio em favor das imagens vinha dos monges.
O papa Gregório III opôs-se ao imperador em dois sínodos sediados
em Roma em 731, e Leão III respondeu suspendendo a jurisdição
papal da Ilíria, do sul da Itália e da Sicília.

O imperador Constantino V (741—775) era um adversário do
culto aos santos e também das imagens religiosas. Ele convocou e par­
ticipou ativamente de um sínodo que se reuniu em Hieria, um palá­
cio imperial do outro lado do Bósforo de Constantinopla em 754.
Os iconoclastas consideraram-no o sétimo concilio ecumênico, mas
o único patriarcado representado foi o de Constantinopla.

Tanto iconoclastas como iconodulistas (aqueles que veneram
ícones) concordavam que o que há de divino em Jesus Cristo não
podería ser representado por imagens, apesar de Jesus Cristo possuir
duas naturezas.

Os iconoclastas defendiam a ideia de que representar a natureza
humana de Jesus significava cometer heresia nestoriana, uma vez que
dividiría Cristo, ao passo que representar ambas as Suas naturezas se­
ria algo que contrariaria a sua distinção (monofisismo) e transforma­
ria a divindade em uma imagem. Adorar imagens seria o mesmo que
adorar a natureza humana (arianismo).

Os iconodulistas respondiam que não representar Jesus Cristo
era monofisismo. (Esses argumentos ilustram o ato de debater novas
questões com base em erros já condenados.)

A rgumentando contra as imagens de Maria e dos santos, os ico­
noclastas afirmavam que não seria possível descrever suas virtudes;
por isso, imagens de qualquer tipo consistiríam em vaidade. Outros
pontos de argumentação levantados pelos iconoclastas aludiam ao
fato de que a única imagem verdadeira de Jesus Cristo seria a euca-

402 HISTORIA DA IGREJA

“Como Deus, que é bom rística ou a de uma pessoa santificada, que a
e mais do que bom, não imagem mais perfeita seria a do próprio im­
perador, santificado por seu ofício, e que os
encontrou satisfação primeiros Pais da Igreja, como Eusébio de
na autocontemplação, Cesareia, haviam dito que não seria possível
mas, em Sua bondade ter uma imagem de Cristo.
superior, desejou que
certas coisas viessem a Os defensores das imagens usaram ar­
existir e que desfrutassem gumentos articulados de maneira mais efi­
de Seus benefícios e caz por João Damasceno (morte c. 750),
compartilhassem de Sua um árabe cristão que escrevia em grego.
bondade, Ele trouxe João descendia de uma família cristã que se
tornou hereditariamente incumbida de co­
aquilo que jazia no letar impostos para os governantes muçul­
nada à existência e criou manos. Ele sucedeu seu pai nesse trabalho,
efetivamente as coisas, mas posteriormente se tornou um monge
no mosteiro de São Sabas, na Palestina,
tanto o que é invisível onde foi ordenado padre e dedicou sua vida
quanto o que é visível” à espiritualidade e à produção literária. Fora
do alcance do Império Bizantino, ele estava
(João Damasceno,
Sobre a Fé Ortodoxa 2.2).

a salvo de represálias por parte dos gover­

nantes iconoclastas.

João Damasceno foi o teólogo com maior envergadura sistemá­

tica e de abrangência na igreja grega desde Orígenes. Sua obra mais

importante é Fonte de conhecimento, cuja terceira parte (Sobre a fé

ortodoxa) oferece um excelente resumo a respeito dos ensinamentos

dos Pais da Igreja gregos no que tange às principais doutrinas cristãs.

Ele também produziu homilias, hinos e um comentário sobre Paulo.

Em Três Apologias Contra Aqueles que Atacam Imagens Divi­

nas, João Damasceno aborda essa questão sob diversos ângulos.

1. É impossível e ímpio representar Deus em uma imagem, uma

vez que Ele é espírito puro, mas Jesus Cristo, a virgem, os san­

tos e os anjos que apareceram aos seres humanos podem, sim,

ser representados. A Bíblia proíbe apenas ídolos.

2. E admissível criar imagens. A proibição do Antigo Testamen­

to às imagens não era absoluta, uma vez que algumas imagens

são apresentadas no texto (por exemplo, as dos querubins so-


Click to View FlipBook Version