O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 503
Europa, no percurso, incitaram, na Europa Central, uma severa perse
guição aos judeus, os quais haviam sido perseguidos intensamente na
França no início do século. Seus esforços acabaram em desastre quan
do muitos foram mortos pelos turcos perto de Niceia, e Pedro fugiu.
O corpo principal dos cruzados começou em 1096. Entre os lí
deres, estavam: Godofredo de Bulhão, duque de Lorena, cujo ideal
permaneceu imaculado até o fim; Balduíno de Bolonha, seu irmão;
bispo Ademar de M onteil, o principal assessor religioso; Raimundo
de Toulouse; e Boemundo, um normando de Taranto, no sul da
Itália.
Em Constantinopla, os cruzados aprenderam a prestar um ju
ramento de lealdade ao imperador Aleixo, o que fizeram relutante
mente, pois o imperador preferia mercenários — não exércitos sob
seus próprios comandantes. Os turcos foram derrotados em Niceia;
Dorylaeum caiu em 1097; Antioquia caiu em 1098. A desunião entre
os muçulmanos contribuiu para o sucesso da Primeira Cruzada. Jeru
salém, o objetivo da cruzada, caiu em 1099, acompanhado de muito
derramamento de sangue. Após dificuldades e perdas que experimen
taram no caminho, a vitória convenceu os cruzados de que a mão de
Deus os tinha ajudado a capturar Jerusalém.
Os cruzados receberam muitas críticas por sua brutalidade. Um
cronista árabe declarou: “Todos aqueles que eram bem informados
sobre os francos via-os como bestas-feras superiores em coragem e em
ardor para pelejar, mas em nada mais, assim como os animais são su
periores em força e agressão”. Os cruzados, no entanto, não eram mais
brutais do que os muçulmanos, nem mais brutais do que era esperado
na guerra naquela época (e houve exemplos de conduta cavalheiresca
em ambos os lados).
Contingentes sucessivos de cruzados partiram por várias rotas
para o oriente até 1131, incluindo uma expedição organizada por ci
dades comerciais italianas em 1101.
D. Aspecto teológico da reunião
Em meio a essa luta, houve um esforço de reconciliação teoló
gica com a igreja grega. Um concilio se reuniu em 1098 em Bari, no
504 HISTÓRIA DA IGREJA
sudeste da Itália, para o qual o papa solicitou o apoio de Anselmo de
Cantuária.
O concilio discutiu alguns pontos de diferença entre as igrejas
grega e latina: a adição dofilioque ao Credo Niceno e as diferenças na
liturgia da santa ceia. Em relação à última, a igreja oriental convocou
o Espírito Santo na epiclese (invocação), enquanto, no ocidente, a
recitação das palavras de Jesus na Última Ceia efetuou a mudança nos
elementos do corpo e do sangue de Jesus.
O resultado da segunda controvérsia eucarística (capítulo 21)
tornou a compreensão da presença real mais problemática do que a
diferença entre o pão fermentado e o não fermentado. A autoridade
do papa não foi discutida.
Esse concilio poderia ter sido a pedra angular para a Primeira
Cruzada, mas, entretanto, de acordo com a visão do império oriental,
os cruzados haviam passado dos limites.
E. Resultados da Cruzada
Um importante resultado da Primeira Cruzada foi o maior dis
tanciamento dos gregos do ocidente. As ações independentes dos
cruzados não era exatamente o tipo de ajuda que Aleixo desejava.
Um distanciamento ainda maior dos muçulmanos resultou nos
subsequentes 200 anos de história das Cruzadas, que permanente
mente envenenaram a relação entre muçulmanos e cristãos e acabou
com o espírito de tolerância para os cristãos que viviam sob o dom í
nio muçulmano.
Talvez os únicos povos que receberam bem os cruzados foram de
minorias cristãs, que tinham sofrido tanto sob o dom ínio bizantino
como muçulmano, como os armênios e maronitas no Líbano. O úl
timo filiou-se a Roma em 1182 como uma igreja uniata, mantendo
seus próprios ritos litúrgicos e costumes, mas esses laços precisaram
ser reestabelecidos no século 15.
Para outros, como os coptas no Egito, as Cruzadas foram uma
calamidade, uma vez que os governantes muçulmanos eram suspei
tos de simpatizar com os ocidentais e eram tratados como cismáticos
pelos latinos. Na verdade, eles foram proibidos, pelos latinos, de fazer
peregrinação a Jerusalém.
O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 505
As relações com as igrejas orientais não melhoraram com a cons
trução de dois patriarcados latinos: Antioquia e Jerusalém. Mais tar
de, sob o comando de Inocêncio III, na sequência da Q uarta Cruza
da, um patriarca latino também foi nomeado para Constantinopla.
As Cruzadas enfraqueceram o Império Bizantino e, assim, acele
raram sua queda. Os governos árabes também foram enfraquecidos e
tornaram-se suscetíveis às invasões turcas e mongóis.
Os judeus não se saíram melhor que muçulmanos nas Cruzadas,
e, na verdade, a Primeira e Segunda Cruzadas foram desastrosas para
os judeus na Europa Ocidental, que — por causa da ênfase das C ru
zadas na cruz de Jesus Cristo e da acusação relacionada ao deicídio —
experimentaram linchamentos antissemitas por parte da população
em geral, apesar da oposição a tal tratamento pelos papas e líderes da
igreja, como Bernardo de Claraval.
Um resultado imediato da Primeira Cruzada foi o estabeleci
mento de estados latinos no oriente: (1) Edessa tornou-se um conda
do sob o domínio do conde Balduíno; (2) o principado de Antioquia
era governado por Boemundo; (3) as cidades italianas fundaram um
estado em Trípoli; (4) Jerusalém foi declarada governo de Jesus como
Rei e Godofredo como Protetor do Santo Sepulcro. Godofredo teve
o cuidado de não receber o título de “rei” sobre a cidade onde o seu
Senhor foi crucificado, atitude não compartilhada por seu irmão
Balduíno, que o sucedeu após sua m orte e recebeu o título de “rei”
(1100— 1118).
Um novo desenvolvimento significativo na história monástica
foi a ascensão das ordens da cavalaria monástica. A primeira delas foi
a Ordem dos Templários, fundada em 1118 sob o comando de Hugo
de Payens. O rei Balduíno deu aos Templários o seu nome, e, a partir
deles, a ideia de lutar pelo Templo passou para outras ordens.
Bernardo de Claraval (capítulo 22), embora não tenha sido o au
tor dos preceitos dos templários, como a lenda reivindicava, escreveu
E m louvor da nova milícia de Cristo. O rei Filipe IV, da França, con
fiscou a propriedade dos Templários em 1307, e o Papa Clemente V
dissolveu a ordem em 1312.
As práticas dos Templários logo foram imitadas pelos Hospitalá-
rios, que anteriormente originaram de uma ordem de caridade. Eles
506 HISTÓRIA DA IGREJA
haviam sido organizados em 1050 pelos mercadores de Amalfi que
residiam em Jerusalém para proteger os peregrinos. Eles forneceram
hospitalidade e, mais tarde, cuidaram dos doentes, exemplificando
a mudança da conotação da palavra “hospitalidade” para a palavra
“hospital”. De acordo com Gerard (m. 1120), os Hospitalários ga
nharam a aprovação papal. Seu sucessor, Raymond de Provença, re
organizou os Hospitalários como uma ordem militar de acordo com
o padrão da Ordem dos Templários. Os Hospitalários ou Cavaleiros
de São João Batista foram conhecidos após 1310 como os Cavaleiros
de Rodes e, depois de 1530, como a 20a Divisão dos Cavaleiros de
Malta.
O utra ordem militar, os Cavaleiros Teutônicos (a O rdem de San
ta Maria de Jerusalém), mais tarde, surgiu (na aprovação papal em
1199) na Terceira Cruzada.
As ordens dos cavaleiros monásticos tinham certas características
em comum. A guerra era um ato de devoção temporário, mas, com
as ordens, a guerra, tornava-se uma forma de vida devocional. Eles
representavam uma fusão de dois significados da “milícia de Cristo”:
monges e cruzados. A antiga ideia monástica de combater os dem ô
nios uniu-se a um objetivo militar literal.
Os membros fizeram votos comuns de outros monges — pobre
za, castidade e obediência e, além disso, uma promessa de defender
outras pessoas por armas. A pobreza não foi enfatizada, recursos co
letivos da ordem eram para ser utilizados para beneficiar outros, e os
Templários, mais tarde, tornaram-se alvo de inveja por causa de sua
riqueza.
Como a missão militar tornou-se dominante, ordens menores de
caridade (benevolentes) surgiram. Todas as ordens dos cavaleiros fo
ram dedicadas à ideia de peregrinação aJerusalém. Cavaleiros, irmãos
que serviam e sacerdotes compunham a membresia das ordens. Um
grão-mestre estava no controle, e havia reuniões anuais da divisão de
todos os locais principais. Os Hospitalários e os Templários torna-
ram-se internacionais.
Ao estudar os aspectos militares das relações entre o cristianis
mo e o islã, deve-se lembrar que havia intercâmbios pacíficos na Ida
de Média entre muçulmanos e cristãos. Alguns cristãos defendiam
O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 507
Nome Datas CRUZADAS Características
Primeira 1096-1099 Captura deJerusalém
Participantes
Balduíno, Boemundo,
Godofredo, Raymond
Segunda 1147-1049 LuísVII, Conrado III Insucesso
Terceira 1187-1092 Frederico 1Barbarossa, Captura de Acre eterras
FilipeII Augusto, costeiras
Ricardo 1Coração de Leão
Quarta 1202-1204 Veneza Captura de Constantinopla
Crianças 1212 Crianças Desastre
Quinta 1217-1221 Rei João deJerusalém, Captura eperda de Damieta
Legado papal
Sexta 1228-1229 Falha no Egito; Jerusalém
Sétima 1248-1254 Frederico II reconquistada por
Oitava 1270-1271 negociação
Luís IX
Luís IX, Príncipe Eduardo Falha no Egito
Derrota emTúnis; perda
adiada da costa palestina
o ato de fazer missões pacíficas entre muçulmanos. Encontros não
violentos podiam ser vistos especialmente nos empréstimos mútuos
de obras de arte. Cristãos valorizavam trabalhos com metais e têx
teis muçulmanos. Vestimentas eclesiásticas foram feitas, muitas ve
zes, por tecelões muçulmanos. A amostra de um tecido exposto em
Cantuária, reutilizado na roupa vestida por um padre, continha, em
árabe, o seguinte: “Grande é Alá, e Maomé é seu profeta”.
No lado positivo, as Cruzadas promoveram um maior sentido de
unidade na Europa Ocidental. Seus vários povos, que partilhavam de
uma cultura latina comum e ofereciam lealdade ao papa em Roma,
juntaram-se em uma empreitada religiosa-militar e tornaram-se mais
conscientes de sua união.
As Cruzadas resultaram no aumento do prestígio do papado. O
envolvimento dos leigos nas Cruzadas mexeu com as sensibilidades re
ligiosas, que podem estar relacionadas, em alguns aspectos, aos novos
movimentos religiosos dos séculos 12 e 13 (veja os capítulos 22—24).
508 HISTÓRIA DA IGREJA
O utro resultado das Cruzadas foi o estímulo de uma renovação
intelectual na Europa Ocidental. De certa forma, esse florescimento
intelectual já estava presente (capítulo 21), caso contrário, não have
ría energia suficiente para iniciar uma cruzada. Porém, os cruzados
trouxeram consigo novas experiências e conhecimentos de outra par
te do mundo, que estimulou grandemente a vida intelectual.
Além disso, houve o contato direto com o pensamento muçul
mano na Espanha e na Sicília, que contribuiu para o Renascimento
do século 12 na Europa. Uma revitalização na teologia e em outras
áreas pode ser localizada especialmente na Normandia, como nos
mosteiros de Bec e Comte. Essa atividade intelectual está associada
ao desenvolvimento do Escolasticismo.
LEITURA COMPLEMENTAR
B L U M EN TH A L, Uta-Renate. The Investiture Controversy:
Church and Monarchy from the N inth to the Twelfth Century. Fila
délfia: University ofPennsylvania Press, 1988.
COW DREY, H erbert E. J. Pope Greçory VIL Oxford: Claren-
don, 1998.
___________ . Popes, Monks, and Crusaders. Londres: Hamble-
don, 1984.
M ORRIS, C. The Papal Monarchy: The Western C hurch from
1050 to 1280. Oxford: Oxford University Press, 1989.
RILEY-SM ITH, Jonathan. The Oxford Illustrated History o fthe
Crusades. Oxford: Oxford University Press, 1995.
___________ . W hat Were the Crusades? 3. ed. Lanham, M D :
Rowman and Littlefield, 2002.
R O B IN SO N , I. S. The Papacy 1073-1198: C ontinuity and In-
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TIERNEY, Brian. The Crisis o f Church and State, 1050-1300.
Englewood Cliíf, NJ: Prentice-Hall, 1964.
U LL M A N N , Walter. The Growth o f Papal Government in the
M iddle Ages: A Study o f the Ideological Relation o f Clerical to Lay
Power. 3. ed. Londres: M ethuen, 1970.
Renovação intelectual:
surgimento da Escolástica
Uma série de fatores externos influenciou o renascimento in
telectual dos séculos 11 e 12. Esses fatores incluíram o movimento
da paz associado à Cluny, os esforços da reforma monástica, o cres
cimento da m onarquia papal, que atraiu clérigos e advogados para
Roma, e a Controvérsia da Investidura, que provocou o estudo das
leis e a produção de uma literatura em forma de livreto.
Fatores também incluíram a expansão do intercâmbio e do co
mércio com o desenvolvimento resultante da vida urbana, a estabi
lização política, que trouxe um maior grau de paz interna e comuni
cação mais fácil, o aumento da prosperidade, que poderia pagar pela
cópia de manuscritos e criação de obras de arte, e traduções de obras
filosóficas e científicas do árabe e do grego, resultado do contato com
muçulmanos e gregos.
Enquanto esses fatores definiram o contexto, os movimentos
intelectuais raramente puderam ser atribuídos somente a aspectos
externos.
510 HISTÓRIA DA IGREJA
Mosteiros administraram escolas externas de artes liberais para
aqueles que não ingressavam na vida monástica, bem como as escolas
dentro dos mosteiros para a formação dos seus monges (capítulo 18).
Eles deram ênfase à formação espiritual por meio da leitura da Bíblia,
dos Pais da Igreja e da participação na vida litúrgica. Os mosteiros man
tiveram a chama da aprendizagem acesa mesmo em tempos difíceis.
Um mosteiro sem biblioteca é como umafortaleza sem armas.
(Provérbio Medieval)
Ao longo do tempo, as escolas catedráticas para clérigos desen
volveram uma diferente abordagem à aprendizagem, ao contrário das
escolas monásticas. As escolas das catedrais colocaram, relativamen
te, mais ênfase em lógica e em filosofia.
O antigo aprendizado apoiava-se na autoridade moral própria do
professor e era principalmente de caráter oral. A nova aprendizagem,
que começou a crescer no final do século 11, baseou-se no debate e na
argumentação e tornou-se cada vez mais fundamentada em textos es
critos. Inicialmente, a ética era o elemento dominante no ensino das
artes liberais. Em 1180, no entanto, a filosofia não era mais a discipli
na prática de uma vida virtuosa. Em vez disso, tornou-se uma disci
plina teórica focada na dialética e na metafísica. Enquanto a teologia
monástica estava disposta a admirar o divino, a teologia escolástica
começava a especular.
Essas mudanças na educação foram anunciadas por Berengário e,
especialmente, Abelardo, que desafiaram seus mestres, ultrapassaram
a tradição e iniciaram uma nova abordagem, a qual substituiu o deba
te fundamentado pela autoridade pessoal.
Com o resultado dessas mudanças, o centro da educação mudou,
no século 12, de escolas monásticas para escolas catedráticas (capítu
lo 18), e, a partir delas, surgiram as universidades.
O professor, nas escolas catedráticas, era comumente conhecido
como erudito, e o novo aprendizado floresceu e foi chamado de Es
colástica. Havia algo novo na vida intelectual dos séculos 11 e poste
riores, mas o termo escolástica tem sido usado de muitas maneiras, e,
para que a palavra não seja inútil, deve ser dada uma definição cuida
dosa de seus diferentes elementos.
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 511
Começaremos com algumas características gerais da atividade
intelectual dos séculos 11 ao 14 e, em seguida, retornaremos às fases
iniciais do renascimento intelectual.
I. ASPECTOS DA ESCOLÁSTICA
Porque tamanha ênfase do estudo da Escolástica foi direcionada
ao seu uso na dialética e na filosofia, é relevante lembrar a im portân
cia que teólogos escolásticos deram ao estudo da Bíblia.
A explanação dos livros da Bíblia foi de grande importância na
educação escolar. Anotações feitas à Bíblia Latina foram compiladas
por muitos desde a época carolíngia, mas elas tornaram-se padroniza
das no século 12 como um livro-texto para cursos básicos de teologia.
Anselmo de Laon foi fundamental nesse desenvolvimento (m.
1117), o qual coletou textos dos Pais da Igreja e organizou comentá
rios explicativos junto ao texto bíblico. A atividade prosseguiu em sua
escola na catedral de Laon e resultou na Glossa Ordinaria (“Glossa
Ordinária”), que começou a circular por volta de 1130. Foi revisada
posteriormente por Pedro Lombardo (capítulo 22) e tornou-se o co
mentário bíblico medieval padrão que foi utilizado, de forma ampla,
como obra de referência.
A Escolástica foi uma cultura baseada em escritos. As Escrituras
foram o texto principal, porque colocam os seres humanos em con
tato direto com o divino. Comentários sobre as Escrituras, escritos
dos Pais da Igreja, textos de Aristóteles e anotações sobre ele também
possuíam autoridade. A produção e o estudo de comentários sobre os
textos foram importantes para Escolástica. Esses textos eram tão ricos
e inesgotáveis que desafiaram os esforços humanos para compreendê-
-los plenamente. Pensadores escolásticos começaram com a premissa
de unidade doutrinária. Aparentes contradições nos textos oficiais
levaram à exploração da relação de autoridade e razão.
A Escolástica pode ser definida em relação à atitude (confiança
na razão), ao método (raciocínio dialético), ao conteúdo (questões
filosóficas universais) e à forma (reunião de textos e argumentos a
favor de um assunto e contra ele).
Q uanto à atitude, os escolásticos foram caracterizados por uma
grande confiança nos poderes da argumentação. Eles estavam con
512 HISTÓRIA DA IGREJA
vencidos de que não há contradição entre fé e razão — Anselmo es
tava mais convencido do que a maioria. Ele procurou demonstrar as
propostas da fé — a existência de Deus, a Trindade, o pecado original
e a expiação — usando apenas a razão.
Pensadores recentes foram mais castigados em suas expectativas
acerca do que a razão poderia realizar, mas foram cuidadosos na utili
zação da razão para explorar questões relacionadas à fé. D entre quase
todos eles, a confiança nos poderes da razão humana foi balanceada
pela humildade na presença do divino.
Entre alguns escolásticos, uma mudança sutil ocorreu, por meio
do qual a autoridade da razão assumiu a posição anteriormente ocu
pada pela autoridade dos Pais da Igreja sobre quem eles comentavam.
Q uanto ao método, os escolásticos empregavam o raciocínio
dialético, que historicamente significava discussão oral usando per
guntas e respostas. O método escolástico era uma técnica de inter
pretação de textos e ensino que envolvia distinções, definições e deba
tes. O m étodo implicava a apresentação de um problema (quaestio),
expondo argumentos a favor e contra (disputatio) e propondo uma
solução (sententia). Autoridades eram citadas em lados opostos das
indagações, e algum tipo de reconciliação foi procurado.
Dessa maneira, os teólogos escolásticos estavam envolvidos na
produção de comentários, levantando questões teológicas e harmo
nizando textos oficiais. A convicção fundamental era de que somente
por meio da combinação de verdades parciais inadequadas poderia
obter-se uma percepção de toda a realidade.
Os escolásticos certamente não foram os primeiros pensadores
cristãos a usar a razão, mas eles procuraram demonstrar e expor as
verdades da religião pela lógica. O estudo da dialética ou lógica era a
área onde o renascimento intelectual apareceu pela primeira vez. A
Escolástica foi caracterizada pela aplicação do raciocínio crítico para
questões de fé.
Por essa razão, os primeiros escolásticos interpretaram a relação
entre universais (conceitos de classe, retornando às “Idéias” de Pla
tão) e particulares (representantes individuais de uma classe). Dessa
maneira, a Escolástica dava importância, em seu conteúdo, a um pro
blema filosófico especial.
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 513
Cada aluno, mesmo na “Idade das Trevas”, estudou a Isagoge
(“Introdução” à lógica de Aristóteles), escrita por Porfírio e traduzida
para o latim por Boécio. A passagem crucial que levantou a questão
dos universais foi a seguinte:
Concernente a gêneros [classes de objetos com característi
cas comuns] e espécies [manifestações de uma classe maior],
saber se eles têm uma existência substancial [Realismo], ou
consistem apenas de conceitos intelectuais [Conceitualismo
e, posteriormente, Nominalismo], ou têm uma existência
substancial, se são corporais ou incorpóreos, se são separá
veis [Realismo extremo] das propriedades sensíveis das coisas
(ou partículas do sentido) ou estão apenas nas propriedades
[Realismo moderado] e subsistindo sobre elas é algo que me
absterei de determinar. Uma questão desse tipo é muito pro
funda e requer uma investigação mais extensa.
N a realidade, essa questão tem ocupado escolásticos durante qua
tro séculos. “Realismo” (do latim res, “coisa” ou realidade) referia-se
à existência real de conceitos universais (“Idéias” ou “Formas”) e, por
isso, foi usado de modo diferente do termo realismo, como utilizado,
mais tarde, na filosofia. “Nominalismo” (do latim nomen, “nom e”)
referia-se à posição de que um conceito de classe era apenas o nome
dado às características comuns dos membros da classe e não tinha
existência real de si mesmo.
As principais correntes que surgiram foram três:
1. Realismo extremo. Essa corrente é representada por Anselmo e
corresponde à visão de Platão, que disse que os universais têm
existência real à parte e antes dos indivíduos. Esse posiciona
mento, dominante no início da Escolástica, foi expressado
pela fórmula latina universalia ante rem (“universais prece
dem o individual”).
2. Realismo moderado. Essa corrente é representada por Tomás de
Aquino e — segundo Aristóteles — declara que os universais
são reais, mas sempre existem em individualizações autênticas,
subsistindo como forma para a matéria. Esse posicionamento,
que se tornou dominante no século 13, foi expressado pela
fórmula universalia in re (“universais são coisas individuais”).
514 HISTORIA DA IGREJA
3. Nominalismo. Essa corrente é representada p or Guilherme de
Ockham, o qual disse que os universais são apenas inferências
extraídas de indivíduos observadores. Essa linha de pensa
mento dominante no século 14 foi representada pela fórmula
universaliapost rem (“universais vêm depois do individual”).
POSIÇÕES DIFERENTES SOBRE OS UNIVERSAIS
Realismo extremo
Anselmo universalia ante rem Aexistência real alémdos indivíduos
Realismo moderado Aexistência real apenasemindivíduos
Aquino universalia in re
Nominalismo
Ockham universalia post rem Apenas nomes paracaracterísticascomuns
, A forma na qual os escolásticos, mais tarde, apresentaram seus ar
gumentos foi desenvolvida a partir de seus métodos (veja o quadro), es
tando em grande débito com os debates nas escolas (capítulo 23) e, de
pois, especialmente com a compilação de Abelardo das citações oficiais
em diferentes aspectos sobre determinado assunto (veja mais adiante).
Desses métodos de ensino, derivaram-se os gêneros literários. N o
ensino, a lectio (leitura, palestras) foi a maneira de ler um texto oficial,
seguida de um comentário sobre seu significado. O comentário expli
cava o significado literal (littera), parafraseava-o (sensus), e, em segui
da, o professor declarava seu ponto de vista sobre as questões doutri
nárias (.sententia). N a disputatio, o mestre fazia perguntas, os alunos
respondiam a favor ou contra, e, então, o mestre dava o veredito final.
Mesmo a lectio passando a ser inserida nos comentários, a disputatio
deu origem à quaestio, o equivalente literário das disputas orais.
Na quaestio, dois pontos de vista opostos eram justapostos. Eles
eram discutidos de acordo com várias distinções, de m odo a chega
rem a perspectivas a partir das quais um elemento de verdade era en
contrado em cada uma, ou era possível encontrar uma síntese final.
Assuntos vieram a ser discutidos como problemas em seu próprio
direito, independente dos textos que deram origem a eles.Quaestio-
RENOVAÇÃO JNTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 515
nes exegéticas originárias do texto bíblico, especialmente das cartas
de Paulo, começaram a ser debatidas de forma separada, e, dessas dis
cussões, surgiu a “teologia” como uma disciplina acadêmica separada.
Abelardo estava impaciente com o tradicionalismo de Anselmo
de Laon, mas esse tipo de disputa combinava com sua mentalidade
crítica e criativa.
II. SEGUNDA CONTROVÉRSIA EUCARÍSTICA
A primeira controvérsia teológica em que o novo raciocínio dia
lético foi empregado nas escolas foi a controvérsia eucarística do sé
culo 11.
A causa da controvérsia foi o ensino de Berengário, nascido em
Tours por volta do ano 1000 e educado por Fulbert, em Chartres. Ele
tornou-se escolástico na catedral de Tours, onde ensinou aos alunos
a buscarem o significado literal e profundo das Escrituras, e não o
significado alegórico. (Por volta do século 11, as escolas catedráticas
tinham começado a tom ar a liderança educacional das escolas m o
násticas beneditinas.)
Desde a controvérsia eucarística do nono século, o ponto de vista
da presença real física do corpo e do sangue de Cristo nos elementos
da santa ceia cresceu em popularidade, como um ponto de piedade
devocional.
O motivo da eclosão da segunda controvérsia foi uma carta que
Berengário enviou, em 1049, para Lanfranco, antes em Bec e pos
teriormente arcebispo de Cantuária, procurando, sem sucesso, seu
apoio em oposição a essa interpretação materialista.
A questão para Berengário era teológica, mas tornou-se uma fer
ramenta da política eclesiástica do papado e da intriga política de seus
patronos. A falta de uma personalidade condutiva impediu Berengá
rio de fazer um apelo impressionante, e sua ausência de conhecimen
to e interesse político tornou-o um adversário fácil para os políticos
astutos e um dialético qualificado, como Lanfranco.
Após levantar a questão da interpretação materialista dos ele
mentos, Berengário chegou a usar a gramática e a lógica para debater
contra esse ponto de vista. A declaração de Jesus, “este é o meu cor
516 HISTÓRIA DA IGREJA
po”, não significava que a substância do corpo tornava-se a substância
do pão, como seus adversários alegavam, porque, gramaticalmente,
o predicado nominativo (“corpo”) deveria tom ar seu significado de
sujeito da frase (“este”, que é o pão), não o inverso. A menos que a
substância do pão continuasse, a afirmação (“este pão é meu corpo”)
seria sem sentido, porque não havia uma referência a “corpo”.
Além disso, “qualidades” ou “acidentes” (propriedades sensíveis)
de objetos não podem existir à parte de suas substâncias (correta, de
acordo com Aristóteles), de modo que as qualidades do pão não p o
deríam existir sem a substância do pão. Além disso, há o ponto óbvio
de que uma mudança para uma presença física é contrária aos senti
dos. Sua posição positiva pode ser descrita como simbolismo dinâmi
co : os elementos consagrados não se tornam o corpo e o sangue, mas
produzem os efeitos de Cristo sobre o receptor.
Berengário foi condenado em Roma, em 1050. Ele recebeu mais
tratamento favorável em uma audiência em Tours, onde Hildebrando
estava presente como o legado papal. Em 1059, em Roma, Berengário
foi forçado a ler uma confissão ordinária e obrigado a lançar alguns de
seus trabalhos ao fogo. A guerra literária continuou, mas um concilio
em Roma, em 1079, marcou a derrota final de Berengário perante
Hildebrando, agora Papa Gregório VII.
Os defensores da presença física real, que utilizaram um racio
cínio dialético em apoio à sua posição, obtiveram sucesso antes do
final do século 11 em estabelecer a teoria da transubstanciação como
modo da mudança sacramental.
Apesar de, no século seguinte, Lanfranco receber crédito por
ter derrubado o ensino de Berengário, ele ainda era essencialmente
um teólogo monástico com reservas em relação à dialética. O cardeal
H um berto foi mais im portante no nível oficial, e, na controvérsia li
terária, D urand e G uitm und foram mais significativos.
Dentre os adversários de Berengário, havia tradicionalistas como
Pedro Damião, que tomou uma interpretação realista da alteração
dos elementos e rejeitou a abordagem dialética. N o entanto, sem
encontrar Berengário em seus próprios fundamentos de dialética e
gramática, não foi possível derrubar seus argumentos e estabelecer o
realismo metabólico, isto é, uma mudança real nos elementos.
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 517
Lanfranco usou os termos qualidades e essência, e não a term i
nologia aristotélica de acidentes e substância que vieram a prevalecer.
Ele com entou acerca dos elementos “convertidos, em sua essência
\essentiam\, no corpo do Senhor”, como o conceito — mas não a
terminologia — da transubstanciação (mudança de substância).
G uitm und popularizou a frase substantialiter m utari (“ser alterado
na substância”).
O juramento exigido de Berengário, em 1079, incluiu o primeiro
uso oficial da frase “ser alterado na substância” (substantialiter con
vertí). A palavra transsubstantiatio para a mudança nos elementos co
meçou a aparecer por volta de 1140. A ideia era de que a substância
do pão e do vinho tornava-se, literalmente, o corpo e o sangue, mas
os “acidentes” — as qualidades acidentais (aparência, sabor, cheiro,
tato) — mantiveram-se os do pão e do vinho. Essa distinção aristoté
lica foi pertinente à doutrina eucarística no século 13. O resultado da
controvérsia forneceu o que estava faltando para antigos defensores
de uma presença real física, ou seja, uma explicação filosófica de como
a transformação do pão e do vinho foi efetuada.
Anselmo e outros, no século 12, relacionaram a doutrina da tran
substanciação ao restante da teologia católica, especialmente a da
encarnação. O Quarto Concilio de Latrão, em 1215, usou a palavra
transubstanciação em sua declaração sobre a mudança do pão e do
vinho, pelo poder divino, no corpo e no sangue de Cristo, mas os
teólogos da época viram esse uso do concilio apenas como a rejeição
da uma interpretação não materialista, e não como uma declaração
definitiva sobre o m odo da presença real.
Práticas litúrgicas refletiram o desenvolvimento teológico. A
partir do século 12, um tipo de comunhão praticada pelos leigos (o
pão) foi aceito: a totalidade de Cristo era passada para um elemento,
e havia menos perigo de derramar ou contam inar o vinho se ele fosse
tomado somente pelo padre. Por volta do ano 1200, a prática de er
guer a hóstia {hóstia, “vítima sacrificial”, usada para o pão eucarístico)
e o cálice tornou-se comum, então as pessoas sabiam o mom ento exa
to da consagração (falada em latim, não compreendida pela maioria
das pessoas).
518 HISTORIA DA IGREJA
III. IMPLICAÇÕES TEOLÓGICAS DA
CONTROVÉRSIA AOS UNIVERSAIS
Q uando a questão filosófica dos universais foi aplicada a questões
de fé, ela tornou-se crucial para as doutrinas da Trindade, do pecado
original, da encarnação e da Igreja.
Pode-se ver o potencial da dificuldade, considerando-se os pontos
de vista de Roscelino (1050— 1120), fundador do Nominalismo. Ele
considerou o fato de que categorias universais são nomes e não têm
existência real. Ele usou substantia (“substância”) em seu antigo senti
do filosófico de individualismo ou hipóstase. Dessa forma, aceitando
a definição de Boécio do homem como “substância racional”, ele en
xergou somente seres humanos individuais como realmente existentes
e “homem” como só um nome para suas características em comum.
Aplicando esse mesmo raciocínio à Trindade, Roscelino disse
que cada Pessoa (Pai, Filho e Espírito Santo) seria um indivíduo ra
cional. Ele negou que a Trindade pudesse ser una res (“uma coisa”
b u “uma realidade”), mas três indivíduos, com efeito, “três deuses”. A
“deidade” não é universal, e cada uma das três Pessoas é onipotente, e
não subordinada à outra.
Com tais implicações, pode-se ver por que Anselmo quis que
esse nominalismo incipiente fosse rapidamente rejeitado. Roscelino
foi importante, porque ajudou Anselmo a formular sua própria cor
rente filosófica do realismo, embora o termo não tivesse sido usado
ainda, nem mostrado em seu tratado Defide Trinitatis et de Incarna-
tione Verbi (“Fé na Trindade e na encarnação do Verbo”), escrito em
resposta a Roscelino. A igreja do passado tinha um corpus filosófico
não disponível na Idade Média, por isso a problemática do Uno e do
Trino precisou ser rediscutida. Por causa de Agostinho, a Idade Mé
dia ocidental herdou o realismo platônico, e este foi reapropriado ao
declarar que o universal é um “Ser”, portanto, todos os três são Um,
os quais “são”.
A interpretação realista dos universais forneceu uma forma útil
para explicar várias doutrinas. A transmissão do pecado original pode
ser reconhecida se houver uma natureza humana verdadeiramente
contaminada pelo primeiro pecado, o qual existe à parte dos seres
humanos individuais. N a encarnação, o Filho de Deus assumiu essa
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 519
natureza humana universal. A Igreja como o Corpo de Cristo tem
uma existência real além dos indivíduos que são seus membros.
IV. ANSELMO DE CANTUÁRIA (1033-1109)
O proeminente personagem intelectual do final do século 11 e
início do século 12 foi Anselmo. Sua vida foi escrita por seu discípulo
Eadmer, de importância doutrinária, como um dos primeiros defen
sores da imaculada concepção de Maria.
Anselmo foi chamado de “Pai da Escolástica”, mas é difícil atri
buir uma paternidade singular a um desenvolvimento tão multiforme
como a Escolástica. O uso do raciocínio dialético e a nova abordagem
do problema por muitos precederam Anselmo, e a forma distinta de
tratados escolásticos posteriores derivaram da abordagem de Abelardo.
Claramente, Anselmo exemplificou a confiança escolástica nos
poderes da razão e empregou a dialética e a lógica formal para de
monstrar as verdades da fé. Todavia, seu uso da razão deve ser defi
nido no contexto das circunstâncias intelectuais de seu tempo. Sua
Entrada da Catedral de Cantuária, com honras aos quatro arcebispos de Cantuária:
Agostinho, Lanfranco, Anselmo e Tomás Cranmer
520 HISTÓRIA DA IGREJA
abordagem foi uma resposta à situação dos textos das antigas escolas
que estavam sendo tratados não como oficiais para serem citados, e
sim como pontos iniciais para novas investigações.
A segunda controvérsia eucarística expôs a dificuldade em deba
ter sobre o significado dos textos oficiais. A maneira de contornar
esse impasse foi por meio de uma análise cuidadosa das palavras e de
seu significado: a lógica poderia fornecer
Uma placa pendurada, uma demonstração das verdades em vez de,
em 1908, sobre a casa de simplesmente, citar textos oficiais de dife
rentes visões de um assunto.
Anselmo, em Aosta, registra Anselmo nasceu em Aosta, na Itália, e
este tributo em francês: foi um jovem religiosamente sensível. Ele
“Aqui, nasceu em 1033 partiu, em 1060, para Bec, na Normandia,
St. Anselmo, Arcebispo famosa pelo ensino de outro italiano (de
de Cantuária, primaz da Pavia), Lanfranco. Anselmo tornou-se pa
Inglaterra, Doutor da dre em Bec, em 1063, nesse período, escre
Igreja, Metafísico e Teólogo veu Monologion e Proslogion e tornou-se
Profundo. O maior gênio abade em 1078. Ele continuou a seguir os
de sua idade, em sua passos de Lanfranco, sucedendo-o como
doutrina e em suas obras, arcebispo de Cantuária em 1093.
admiravelmente, uniu os Em um pontificado tranquilo e corajo
esplendores da fé e do culto so, Anselmo defendeu a igreja contra o con
da razão. Ele combateu trole do reinado de Guilherme, o Ruivo (m.
o erro com a eloquência 1100), filho de Guilherme, o Conquista
da filosofia e o ardor dos dor. O conflito entre o rei e o arcebispo veio
apóstolos. Ele lutou contra à tona no Concilio de Rockingham (1095)
os grandes da terra com uma sobre o reconhecimento de Urbano II como
energia indomável, com papa, contra o antipapa imperial protegido
retidão, justiça e liberdade”. de Rufus. A maioria dos clérigos estava ao
lado do rei, mas Anselmo trouxe os barões
para o seu lado. A verdadeira questão era os
direitos espirituais da igreja. Anselmo tomou o pálio de Urbano do
altar, não o pálio na mão do rei. O rei veio a reconhecer Urbano, mas
ele forjou acusações contra Anselmo que o obrigaram a deixar o país.
Anselmo foi para Roma em 1097 e depois para Cápua, onde es
creveu Cur Deus Homo e elaborou sua fórmula da transubstanciação
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 521
(Carta 54). Escolhido como teólogo do Concilio de Bari em 1098,
ele escreveu contra os gregos: Sobre a procissão do Espírito Santo; So
bre a eucaristia; e Sobre ospães semfermento.
Em Bari, Anselmo conheceu Ivo de Chartres (capítulo 20), que
elaborou a base para o estabelecimento da Controvérsia da Investidu
ra, adotada em 1122, mas implementada primeiro por Anselmo, na
Inglaterra. O novo rei da Inglaterra, Henrique I, convocou Anselmo
em 1100, mas a recusa deste de submeter-se ao rei fez com que ele
fosse outra vez para o exílio em 1103. Quando retornou em 1106, fez
um acordo reconhecendo os direitos da igreja e da coroa, respectiva
mente em nomeações para os cargos eclesiásticos.
Alguns cuidados devem ser tomados para compreender a moti
vação do raciocínio na abordagem de Anselmo. Ele julgou ser progra-
mática a frase: “A fé buscando o entendimento [ou o conhecimento]”
(fdes quaerens intellectum), que foi o primeiro título dado ao seu tra
tado Proslogion. O slogan de Anselmo era:
“Creio para que eu possa saber” (credo ut
intelligam), uma fórmula que derivou de “Um cristão deve avançar,
Agostinho e baseou-se nas traduções grega por meio da fé, até a
e latina de Isaías 7.9 (“A menos que acredi
tes, não compreenderás”). compreensão, não chegar
à fé pela compreensão
Anselmo não afirmou que a razão por ou afastar-se dela se não
si só podería descobrir as verdades da reve-
lação cristã, mas, uma vez que essas verda- compreender” (Anselmo,
des eram dadas a conhecer pela revelação e Epístola 136).
aceitas pela fé, a razão podería demonstra
das. Essa abordagem mostra que, na Idade
Média, fides (“fé”) tornou-se um termo intelectual, quase filosófico
(como era um de seus usos na Antiguidade Clássica). Quando, mais
tarde, Lutero usoufides, ele quis dizer “confiança”, e os protestantes,
consequentemente, tiveram apenas um conteúdo limitado da pala
vra. O Catolicismo Medieval, ao contrário, colocou um considerável
conteúdo intelectual na “fé”, como um substantivo que incluía todo
o depósito da tradição. Embora até mesmo os protestantes conside
rassem Anselmo um pensador interessante, “pela fé”, ele quis dizer,
basicamente, “acreditar”, e não “confiar”.
522 HISTÓRIA DA IGREJA
Anselmo foi um homem que possuía gentileza e bondade e que
permaneceu como um dos melhores pensadores respeitados na histó
ria da Igreja. Ele próprio estava tão cheio das autoridades tradicionais
do pensamento cristão e era tão humilde que não tinha conhecimen
to da originalidade de seu próprio pensamento. Os leitores modernos
ainda são cativados pelo encanto de seus escritos e pelo esmero de sua
argumentação.
Dois aspectos do pensamento de Anselmo merecem atenção,
particularmente considerados como influentes: suas alegações em
favor da existência de Deus e sua satisfação sobre a teoria da expia-
ção. Ambos representam sua abordagem da “fé em busca do enten
d im e n to ”.
O Monologion de Anselmo procura provar a existência de Deus a
partir das características da natureza. A presença do bem em graus as
cendentes de bondade conduz a um Bem supremo. O ser aponta para
uma primeira causa, o Ser supremo (a forma do argumento cosmo-
^lógico). A hierarquia das perfeições culmina na perfeição de Deus, a
Trindade.
No Proslogion (também intitulado “A fé em busca de compre
ensão”, como mencionado anteriormente), Anselmo procurou com
binar esses argumentos em um único argumento abrangente — o
argumento ontológico. Até mesmo “o tolo que diz, em seu coração,
‘não há Deus”’ deve admitir que pode haver, na mente, “algo de que
nada maior pode ser concebido”. Esse “algo”, no entanto, não pode
estar apenas na mente, pois, se não existe na realidade, então qualquer
coisa que existisse na realidade seria maior.
"Eu oro, ó Deus, para conhecer-te, amar-te ealegrar-me emti. Se eu não
conseguir alcançar a plena alegria nesta vida, que eu possa pelo menos
avançar dia a dia, até que aalegria venha ao máximo. (...) Ea receberei,
para que a minha alegria seja completa. Enquanto isso, permite que minha
mente medite nessa alegria; que minha língua fale dela. Deixa meu cora
ção amá-la; minha boca falar dela. Que minha alma seja sedenta por ela;
que minha carne tenha fome dela; que todo o meu ser deseje-a até que eu
entre emTua alegria, ó Senhor, que és tanto Três como UmDeus, bendito
para todo osempre. Amém” (Anselmo, Proslogion 26).
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 523
Era uma questão de lógica e natureza do ser: “Se, portanto, aqui
lo além do qual nada maior pode ser concebido está apenas na mente,
aquilo que não pode ser concebido é ainda maior do que o que pode
ser concebido [isto é, algo que realmente existe], e isso certamente
não pode ser”. O u, para reformular: “O que não pode ser pensado não
existe” é maior do que “o que pode ser pensado não existir”, então,
“aquilo que não pode ser pensado” é “o que não se pode pensar que
existe”.
O utro monge, Gaunilo, respondeu a Anselmo em “Um apelo ao
tolo”, argumentando que, embora se possa imaginar a ilha mais boni
ta, isso não prova que tal ilha exista.
Anselmo respondeu que a objeção pode ser aplicada à ilha e a
qualquer coisa que tenha início, fim ou composição de partes —
tais “podem ser consideradas como se não fossem” —, mas ela não
se aplica a Deus. Deve-se distinguir a perfeição em seu próprio tipo
de perfeição absoluta. O argumento aplica-se ao próprio Ser, não aos
objetos particulares: O Ser perfeito existe necessariamente.
Desde Gaunilo, o argumento ontológico tem sido controverso
na filosofia. O argumento da validade formal lógica corresponde à
realidade, ou o argumento é só um jogo de palavras, uma construção
mental? Pensadores tão diversos, como Descartes, Spinoza e Hegel,
seguiram Anselmo; outros tão variados, como Aquino e Kant, não
aceitaram esse argumento.
Anselmo também deu uma grande contribuição ao explicar a
expiação, a doutrina central do cristianismo, mas também a sua dou
trina transcrita de forma menos fidedigna (nunca objeto de defini
ção conciliar). CurDeus Homo (“Porque o Deus-Homem”) ofereceu
uma prova lógica para a teoria satisfatória da expiação. Uma época
marcada pelas teses é a declaração mais coerente do que foi a explica
ção ocidental dominante acerca da base da fé cristã.
A veneração a Deus aumentou grandemente no Cur Deus Homo
de Anselmo. O pecado é tão grave porque ele é contra Deus, e este
exige lealdade inabalável. Ao mesmo tempo, o Senhor também se
preocupa com o bem-estar do ser humano. Junto com a ideia feudal
de dar a Deus o que lhe é devido, há um propósito Seu de comunhão
humana consigo próprio.
524 HISTÓRIA DA IGREJA
O propósito de Deus foi temporariamente frustrado pelo peca
do humano. A medida que o pecador, sendo apenas um ser humano,
devia fazer reparação pelo pecado, tão grande era a ofensa (já que era
contra o Deus supremo) que só Deus podería fazer a expiação. Daí a
necessidade do Deus-Homem, um tanto Deus como homem.
Jesus Cristo como ser humano fez o necessário para permanecer
justo, mas Ele fez algo mais — Ele morreu. A m orte era o castigo pelo
pecado, de m odo que uma pessoa sem pecado, isto é, Cristo, não ti
nha a necessidade de morrer. Cristo fez de Sua morte uma oferta (sa
crifício) a Deus, apresentando-se de livre e espontânea vontade. Ele se
ofereceu como homem; mas o que fez como hom em foi multiplicado
infinitamente em seu valor, pois Jesus também era Deus. Ele ofereceu
uma satisfação infinita pelo pecado.
Usando uma linguagem contratual, Anselmo, em seguida, diz
que Cristo podería querer a recompensa por Seu feito para com os
seres humanos, como um meio de redimi-los.
Anselmo extraiu seu imaginário do feudalismo, mas sua teoria
não era simplesmente um reflexo da teoria jurídica germânica. Com o
aluno de Agostinho, Anselmo empregou motivos mais antigos do
que o feudalismo. Grande parte da base conceituai de sua teoria foi
devida a uma mudança que havia ocorrido na doutrina sacramental.
Na igreja antiga, o batismo era o ponto principal na vida religiosa
de uma pessoa e o meio pelo qual o perdão era obtido. Ele dava o ima
ginário da vitória na água sobre as forças do mal, que contribuíam,
de forma tão poderosa, para a teoria clássica da expiação como uma
vitória conquistada sobre o maligno.
As idéias derivaram do batismo como uma decisão de o indivíduo
renunciar a um m odo de vida anterior que não era mais significativo,
no entanto, em uma época na qual o batismo era um ato de rotina mi
nistrado a crianças. O acesso ao altar, onde a comunhão com a morte
e a ressurreição de Cristo foi obtida, veio agora pela penitência, que
era o sacramento em que as pessoas estavam conscientes de ter seus
pecados declarados perdoados.
Os séculos 11 e 12 viram a formulação doutrinária dos sacra
mentos da santa ceia (transubstanciação) e da penitência (reparação
e “redenção” — veja o capítulo 20). Assim, sacrifício e satisfação to r
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 525
naram-se categorias-chaves e forneceram idéias para a teoria da expia-
ção de Anselmo.
C om a visão de que a santa ceia era consubstanciai em Jesus Cris
to, isso propôs mais do que uma participação com Cristo da que era
associada ao batismo, e essa participação não era com o Cristo vito
rioso do início do batismo cristão, mas com a humanidade sem peca
do, que foi para a cruz. O centro do interesse agora era Cristo na cruz.
As primeiras representações da crucificação (do quinto século
em diante) retrataram o Cristo vitorioso que reina a partir da cruz. A
arte do final do século 11 começou a readquirir uma ênfase na hum a
nidade de Cristo, o que gerou um novo interesse nos Seus sofrimen
tos e nas Suas feridas, que vieram a ser a mais completa expressão no
século 13.
O Novo Testamento emprega uma série de cenários para trans
m itir a realidade da expiação — justificação, reconciliação, sacrifício,
redenção, vitória — , mas, estritamente falando, não oferece uma “te-
^oria” de como a expiação é realizada.
Três das principais teorias da expiação no ocidente estavam pre
sentes no início do século 12.
1. A teoria do resgate (formulada de maneira diversificada), se
gundo a qual Jesus Cristo pagou o resgate para libertar a hu
manidade da escravidão do diabo que resultou do pecado, foi
a mais popular dos Pais da Igreja e, por isso, tem sido chamada
de teoria “Clássica” da expiação. Ela continuou a ser sustenta
da por Bernardo de Claraval, que, intelectualmente, permane
ceu na teologia patrística (capítulo 22).
2. A teoria do exemplo moral da expiação teve menos defensores
ao longo da história, mas avançou no século 12 por Abelardo
(a seguir).
3. A teoria do sacrifício ou da satisfação possuía uma declaração
prim ordial de Tertuliano, mas encontrou sua formulação clás
sica em Anselmo. Essa foi a visão mais seguida.
Como demonstração racional da expiação, a exposição de Ansel
mo parece permitir que Deus consinta meramente em aceitar a trans
formação dos benefícios da morte de Jesus Cristo para o mundo, mas
Anselmo afirma que isso é um ato de misericórdia divina. É assim
526 HISTÓRIA DA IGREJA
com qualquer teoria racional da expiação: Deus está ativo somente
de uma maneira mínima, a fim de que toda a realização seja quase
impessoal.
Os aspectos mais pessoais da teoria da expiação diminuíram não
só por causa do batismo ou por sua forma anterior haver perdido o
seu significado, mas também por causa do realismo filosófico. Isso
tornou a teoria da presença do demônio quase impossível, pois, no
Realismo, o mal é a ausência do bem. Mesmo que a misericórdia divi
na tenha uma aparência mais formal, o mesmo acontece com o diabo.
D o lado positivo, o Realismo possibilitou uma “humanidade”
abstrata que Jesus Cristo poderia assumir. Ele também, no entanto,
teve seu lado negativo: a identificação de Cristo com Seus irmãos e
irmãs não é tão evidente com um “Deus-Homem”.
A expressão do envolvimento humano e os sentimentos huma
nos na redenção dados anteriormente a Jesus foram, agora, dados a
Maria. Ela, na cruz e no túmulo, resultou em duas figuras favoritas no
final da Idade Média.
V. PEDRO ABELARDO (1079—1142)
Abelardo é proveniente de uma linhagem de cavaleiros, o que tal
vez tenha contribuído para seu senso de superioridade. Ele estudou
com Roscelino (um nominalista), Guilherme de Champeaux (um
realista exagerado que introduziu o argumento da dialética no seu
ensino em metafísica e teologia) e Anselmo de Laon. Após brilhan
temente refutar o Realismo de Guilherme, Abelardo começou a dar
palestras para classes de entusiastas em Paris, sem qualificação algu
ma, exceto seu gênio. Ele tornou-se líder da escola de Notre-Dame
em 1113 e decidiu migrar da filosofia (dialética) para a teologia.
No entanto, a carreira de Abelardo foi interrompida em 1118,
p o r causa do trágico acontecimento de seu caso de amor com uma
de suas alunas, Heloísa, sobrinha de Fulbert, um cônego de Notre
Dame. Q uando Heloísa engravidou e seu caso foi descoberto, eles
casaram-se secretamente, embora Heloísa houvesse tentado dissuadir
Abelardo a não dar esse passo, disposta a ser sua amante, em vez de
sua esposa, de m odo a não impedir sua carreira clerical.
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 527
Tendo se submetido à castração por instigação de Fulbert, Abe
lardo decidiu dissolver sua união, colocando Heloísa em um con
vento e tornando-se monge no mosteiro de São Dionísio (Dinis).
Sua correspondência revela tanto uma autoanálise, gerada por uma
consciência cristã ciente de um mergulho na paixão, como uma indi
vidualidade, geralmente associada à Renascença. Heloísa mostrou-se
intelectualmente igual a Abelardo e superior em amor desinteressado
e integridade pessoal. Ambos possuíam uma união de mentes e em o
ções e continuaram uma relação de amizade sem romantismo.
Heloísa, após receber o Mosteiro do Paráclito como doação de
Abelardo, tornou-se abadessa e fez (com suas seis casas) uma das ins
tituições religiosas mais importantes de mulheres na França. Ela era
conhecida por sua inteligência, seu interesse na educação por todas as
freiras e sua administração competente.
Os ataques à doutrina da Trindade de Abelardo como modalista
levou-o a ser condenado, sem ser ouvido, em um concilio em Sois-
sons, em 1121. Sua crítica acerca da lenda de que o santo padroei
ro de São Dinis foi Dionísio, o Areopagita, convertido de Paulo em
Atenas, obrigou-o a fugir de lá. Ele estabeleceu um pequeno oratório
chamado de Paráclito, perto de Troyes, e, em 1127, tornou-se abade
de São Gildas. Ele começou a ensinar em Paris em 1136.
Bernardo de Claraval garantiu a condenação de Abelardo em
Sens, em 1140, confirmada pelo papa em 1141. Os erros imputados a
ele, além de sua doutrina trinitária, eram um otimismo exagerado so
bre criação, inclinações nestorianas em relação a Jesus Cristo, um pe-
lagianismo latente sobre a graça, transformando a expiação em uma
lição sobre a caridade e negligenciando o elemento objetivo da m o
ralidade por insistência excessiva no elemento subjetivo (o motivo).
O conflito entre Bernardo e Abelardo era mais do que uma con
trovérsia teológica. Entre eles, houve um choque de dois tipos de edu
cação: Bernardo representou o ensino mais antigo com base nas Escri
turas, a exegese monástica e a lealdade à tradição direcionada a oração
e à contemplação; Abelardo representou a nova filosofia escolástica,
que colocou a curiosidade e o poder de investigação da lógica a serviço
da fé. A carreira de Abelardo marca o nascimento do tipo de pessoa
que está em casa, na universidade moderna, o acadêmico profissional.
528 HISTÓRIA DA IGREJA
Por fim, Abelardo foi recebido em Cluny por Pedro, o Venerável,
e reconciliou-se com a igreja e com Bernardo. Com um bom toque
do romantismo francês, quando Heloísa morreu, ela foi enterrada ao
lado de Abelardo no Paráclito; seus restos mortais foram levados para
Paris após a Revolução Francesa e, agora, descansam no Cemitério de
Père-Lachaise.
Abelardo, em contraste com Anselmo, utilizou o princípio de
que ele tinha de duvidar (no sentido de questionar ou examinar),
a fim de saber. “Porque, por duvidar, chegamos ao inquérito e, por
meio da investigação, percebemos a verdade de acordo com a verdade
própria’. Abelardo antecedeu Tomás de Aquino em sua abordagem
da linguagem teológica. Abelardo reconheceu que há uma falta de
concordância entre a linguagem humana e a natureza divina. Elas
têm o suficiente em comum para fazer uma possível comunicação sig
nificativa, mas existem diferenças suficientes das quais todos falam
acerca de Deus, que é único, é ambíguo e sujeito a mal-entendidos.
A tarefa do teólogo é encontrar respostas mais próximas da verdade
possível.
A mais significativa de muitas obras de Abelardo foi Sic et Non
( “Sim e Não”), na qual ele dispôs declarações da Bíblia e dos Pais da
Igreja em lados opostos de 158 perguntas. O objetivo não era desa
creditar as autoridades da igreja, mas estimular o estudo. Aqui, ele era
tanto um precursor como o oposto de João Graciano (capítulo 22)
no tratam ento de diferenças nos concílios e Pais da Igreja. Esse m éto
do exerceu uma influência decisiva sobre o modelo da Escolástica: a
citação das autoridades a favor e contra tornou-se o padrão de estudo.
Apenas citando os Pais da Igreja opostamente, Abelardo (sem
tentar uma reconciliação de pontos de vista) sugere cinco maneiras
de tratar as diferenças de seus textos, uma elaboração dos comentá
rios feita por Agostinho:
1. Um texto não era autêntico.
2. Uma dada declaração era apenas um resumo do ponto de vista
de um oponente a ser refutado pelo Pai da Igreja.
3. Uma determinada opinião tinha significância somente local,
posteriormente substituída pela opinião dos papas ou concílios.
4. As mudanças no significado devido à tradução ou ao uso de
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 529
uma linguagem peculiar de um autor exigia que as distinções
semânticas fossem feitas.
>. Se ainda existem contradições reais, então, deve-se recorrer a
uma determinação de autoridades de acordo com a seguinte
escala: da Bíblia em primeiro lugar, de Agostinho em segundo
e de outros em terceiro.
O tratado de Abelardo introduziu o debate no estudo uni
versitário, produzido de forma meticulosa para o uso de autoridades
patrísticas, e gerou uma utilização maior da dialética.
Abelardo declarou sua teoria de influência moral da expiação em
seu Comentário sobre Romanos. Em contraste com a doutrina de uma
teoria objetiva da expiação de Anselmo, Abelardo tinha uma teoria
subjetiva. Deus enviou Seu Filho como uma revelação do Seu amor
e como um mestre e exemplo. Em Jesus Cristo, o amor de Deus foi
manifestado. Esse amor desperta uma reação amorosa nos seres hu
manos e é a base do perdão.
A visão ética de Abelardo, estabelecida no Conheça a si mesmo
(Scito te ipsum), enfatizou que a ação correta é determinada apenas
pelo motivo, a intenção de fazer a vontade de Deus. Abelardo não ne-
ALGUNS TEÓLOGOS ESCO LÁSTICO S
Nome Datas Origem Local Característica
Anselm o 1033-1109 Aosta C a n tu á ria A fé buscando
entendim ento
Pedro Abelardo 1079-1142 Nantes Paris Dúvida para conhecer
Hugo de São Vitor m .1142 Saxô nia (?) Paris "Sobre os sacram entos
Paris da fé cristã"
Pedro Lombardo 1100-1160 Novara
"Mestre das frases"
Alberto Magno m .1280 Perto de Ulm Colônia Reconciliação de
Aristóteles com a
teologia cristã
Tom ás de Aquino 1 225-12 74 Aquino Paris A graça perfeiçoa a
natureza
Boaventura 1 2 1 7 -1 2 7 4 Itália Paris Ilum inação m ística
Duns Escoto 1265-1308 Duns, Oxford; Paris "Doutor sutil”
Berw ickshire
530 HISTÓRIA DA IGREJA
gou, no entanto, que a intenção devesse ser informada por um conhe
cimento do certo e do errado, que era dependente da verdade revelada.
Sobre a questão dos universais, Abelardo começou mais próximo
do Nominalismo e se opôs ao Realismo, mas acolheu uma posição
intermediária, o Construtivismo. De acordo com esse ponto de vista,
os universais são concepções úteis, mas irreais, sendo apenas nomes.
Conceitos na mente de acordo com a realidade externa; nomes ou
palavras que correspondem ao entendimento de que existe na mente
de Deus. Sua formulação provou ser muito vaga, mas preparada para
o Realismo Moderado de Tomás de Aquino.
A grande influência de Abelardo não foi como escritor, mas
como professor. De seus alunos, um tornou-se papa, vinte e cinco tor-
naram-se cardeais, e cinquenta tornaram-se bispos. Abelardo não era
o representante medieval do racionalismo liberal, embora, às vezes,
rotulassem-no como se fosse, porque ele se via como um servo fiel da
igreja. Ele sinalizou novas visões de abor
dagem e identificou questões inéditas, uma
“Nós dizemos que uma vez que as pessoas se identificavam com ele
intenção é boa, isto é, e com os assuntos por ele delineados.
correta em si, mas uma A carreira de Abelardo é um exemplo
ação é boa não porque ela notável de como o “herege” de hoje pode
adquire qualquer tipo de marcar o curso em que a ortodoxia de ama
bondade em si, mas porque nhã será defendida. Os ortodoxos atuais,
vem de uma boa intenção. muitas vezes, não têm a clarividência de
Nessa linha de pensamento, reconhecer esses pensadores e os confunde
com inimigos, porque esses pensadores es
a mesma coisa pode ser tão em combate próximo a eles e não estão
feita pela mesma pessoa bombardeando-os com posições entrinchei
em momentos diferentes, e radas longe da linha de batalha. A igreja pre
ainda que a ação possa, às cisa de seus Abelardos para apontar suas in
vezes, ser chamada de boa, consistências e explorar novas abordagens.
às vezes, é ruim por causa de Por outro lado, Abelardo era uma pes
uma diferença de intenção” soa instável — obstinada e arrogante —,
(Abelardo, Conheça assim como muitas pessoas brilhantes são
a si mesmo 11). — não são o tipo de pessoa do qual uma
instituição dependería.
RENOVAÇÃO INTELECTUAL: SURGIMENTO DA ESCOLÁSTICA 531
VI. HISTÓRIA POSTERIOR DA ESCOLÁSTICA
A Escolástica continuou a ser um currículo educacional vital no
século 14 e nos séculos subsequentes e teve um renascimento m oder
no na Neoescolástica. A filosofia de Tomás de Aquino (capítulo 23)
tornou-se a filosofia oficial católica e, até meados do século 20, foi
igualada à ortodoxia católica.
A Neoescolástica fez uma distinção bem definida entre a filosofia
e a teologia dos pensadores estudados, embora isso não tenha sido a
forma como esses últimos viram seu trabalho. A diversidade entre os
teólogos escolásticos agora está mais bem reconhecida, e o formato e o
conteúdo de seus escritos são vistos como integralmente relacionados.
Além disso, os neoescolásticos omitiram os místicos de seu in
teresse, embora quase todos os pensadores escolásticos (capítulo 22)
tivessem um elemento de misticismo neles. O papel dos monges cis-
tercienses na criação e na disseminação da Glossa Ordinaria mostra
que a aprendizagem contemplativa (monástica) e a acadêmica (nas
universidades recém-fundadas) estavam entrelaçadas.
LEITURA COMPLEMENTAR
EVANS, Gillian R .Anselm. Londres: Chapman, 1989.
GASPAR, G. E. Anselm ofCanterbury and H is Theological Inhe-
ritance. Aldershot, UK: Ashgate, 2004.
G ILSO N , Etienne. History o f Christian Philosophy in theM iddle
Ages. Nova Iorque: Random House, 1955.
LUSCOM BE, David E. The School o fPeter Abelard: The Influ-
ence ofAbelard s Thought in the Early Scholastic Period. Cambridge:
Cambridge University Press, 1969.
M A C D O N A L D , A. J. Berengar and the Reform o fSacramental
Doctrine. Londres: Longmans, Green & Co., 1930.
MACY, Gary. The Theologies o fthe Eucharist in the Early Scholas
tic Period: A Study o f the Salvific Function o f the Sacrament Accord-
in g to the Theologians c. 1080-1220. Oxford: Clarendon, 1984.
M A R EN B O N , J. The Philosophy o f Peter Abelard. Cambridge:
Cambridge University Press, 1997.
PIEPER, Josef. Scholasticism: Personalities and Problems o f M e
dieval Philosophy. South Bend, IN: St. Augustines Press, 2001.
Atividades monásticas,
literárias, políticas e culturais
no século 12
O renascimento intelectual do século 11 e a energia que alavan
cou a Primeira Cruzada resultaram num período de crescimento eco
nômico e aumento da atividade da construção civil no século 12.
Alguns historiadores medievais falam de um “Renascimento do
Século 12” devido ao desenvolvimento da arquitetura e de outras
artes, à energia intelectual, aos avanços na educação (com foco na
dialética), aos trabalhos literários (como poesias líricas e romances
corteses no vernáculo, bem como trabalhos filosóficos e compêndios
de artes liberais em latim) e à antecipação de temas do Renascimento
Italiano, o qual surgiu dois séculos depois.
Uma diferença significativa do Renascimento dos séculos 14 e
15, no entanto, era que o século 12 ainda possuía um sentimento de
continuidade com a antiguidade, tanto pagã como cristã, algo que o
movimento posterior, que intencionalmente afastou-se do seu pas
sado medieval imediato em direção a uma antiguidade mais remota,
não possuía.
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 533
Assim como o Renascimento posterior, os intelectuais do século
12 desejavam retornar à tradição mais autêntica da antiguidade. No
entanto, assim como outros movimentos similares, eles produziram
algo novo.
D a mesma forma que, em outros tempos de crises e de oportuni
dades na história do catolicismo, novas ordens monásticas surgiram
e providenciaram inspiração e orientação para o novo período de vi
talidade.
I. NOVOS TIPOS DE ORDENS MONÁSTICAS
A. Vitalidade monástica renovada
D o final do século 11 para o início do século 12, muitos esfor
ços foram feitos para reformar a vida monástica, e muitas ordens reli
giosas novas foram fundadas. A variedade que surgiu de opções para
uma vida religiosa levou espíritos tolerantes a levantarem-se com o
slogan “diverso, mas não adverso”.
Começando pela metade do século 11 e continuando até a me
tade do século 12, os tipos monásticos antigos e novos viram um
grande crescimento no número (1) de conversões à vida religiosa e
(2) dos monastérios estabelecidos. Patronos tornaram a expansão
monástica possível; os financiamentos de templos religiosos que eles
faziam trouxeram prestígio social e benefícios espirituais, já que as
boas ações eram vistas como prosperidade da alma, e os que as rece
biam oravam pelos patronos. Muitos abrigos para pessoas pobres e
hospitais também foram fundados por leigos no século 12 e dirigidos
por cônegos e cônegas.
D urante o século 12, as diferenças entre monges e clero dim inu
íram com um considerável aumento na porcentagem de monges que
recebeu ordenação sacerdotal e com o aumento no número de padres
paroquiais e diocesanos que vivia sob um regime monástico (clero
“canônico” ou “regular”).
Alguns grupos novos que representaram esforços de reforma nos
séculos 11 e 12 seguiram os padrões convencionais monásticos. Esses
eram, em parte, reações à Cluny, na qual Pedro, o Venerável (abade
1122-1157), era o líder, na primeira metade do século 12.
534 HISTORIA DA IGREJA
Reformadores da vida monástica (tanto em fundamentos antigos
como em novos) tipicamente defendiam a austeridade e a regularida
de da vida, a separação do mundo, o silêncio e o trabalho manual. Os
temas dos movimentos de renovação dos séculos 11 e 12 que prosse
guiram nos séculos seguintes (capítulo 24) incluíram a imitação de
Jesus Cristo, a vida apostólica e o ideal da Igreja primitiva. A retórica
dos líderes religiosos comparava o monastério ao paraíso, ao jardim
do Éden e à Jerusalém celestial.
As ordens militares discutidas em conexão com a Primeira C ru
zada (capítulo 20) foram um novo e distinto desenvolvimento no mo-
nasticismo. Eremitas e membros do clero canônico estavam entre os
tipos mais antigos que encontraram novas expressões neste período.
Os camaldulenses eram eremitas que viviam em cavernas e ba
tiam em si mesmos. Eles começaram o movimento na Itália em 1012,
fundado por Romualdo (m. 1022), com a intenção de restaurar a vida
ascética primitiva. Pedro Damião se tornou seu porta-voz principal.
Os cartusianos também tomaram como ideal a prática de vida
dos eremitas antigos do Egito. No início de 1084, o fundador, Bruno
de Reims (m. 1101), decidiu ir para os Alpes Franceses em Grande
Chartreuse (de onde seu nome deriva) para estabelecer uma colônia
de eremitas cuja língua era o alemão. Cada eremita tinha indepen
dência, mas pequenos grupos de 12 ajuntavam-se ao tocar de um sino
que os chamava para devoções comunitárias. Indo além da prática be
neditina, o ascetismo cartusiano não permitia carne, quase nenhum
vinho, e seus adeptos cozinhavam refeições apenas duas vezes por se
mana. Era uma ordem estritamente contemplativa, e os cartusianos
faziam voto de silêncio.
Os cânones agostinianos (Austin) tiveram sua origem em comuni
dades de clero no norte da Itália e no sul da França, em meados do sé
culo 11, que - inspirados pela reforma gregoriana - viveram uma vida
comum de pobreza, celibato e obediência. No início do século 12, ado
taram a regra atribuída a Agostinho de Hipona (compilada a partir dos
escritos de Agostinho para monges e freiras, alcançando ampla utiliza
ção no século 12). Com o viviam por uma regra monástica, eles eram
conhecidos como cânones regulares (de regula, “regra”). Eles eram a
equipe oficial de uma catedral ou de uma igreja com vários sacerdotes.
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 535
Os premonstratenses surgiram em Prémontré na França no ano
de 1120, fundada por N orberto (c. 1080-1134), um alemão de Xan-
ten. Eles eram cônegos do clero secular, e foram praticamente m on
ges. Eles seguiram a regra de Santo Agostinho, como fizeram outros
cônegos regulares, mas com mais austeridades, tais como a abstinên
cia de carne. Muitas mulheres, assim como homens, foram atraídas
para a ordem inicialmente.
B. Cistercienses
O mais im portante dos novos movimentos religiosos foi o dos
cistercienses, um movimento de reforma dentro do monasticismo be
neditino que terminou criando uma nova ordem. A origem do nome
do movimento veio da sua primeira casa em Citeaux. Sua fundação
em 1098 foi liderada por Roberto, o fundador anterior de Molesme,
mas seu retorno dentro de 18 meses para sua fundação anterior dei
xou seus companheiros com sentimentos ambíguos sobre ele.
Um inglês, Stephen H arding (m. 1134), que foi um líder na fun
dação de Citeaux, tornou-se seu terceiro abade e elaborou o núcleo
da regra para a comunidade, a Carta caritatis (“carta do am or”) em
1119 (provavelmente datado em meados do século).
Reconhecendo que havia muito poder nas mãos do abade de
Cluny, os cistercienses concentraram-se na descentralização. A orga
nização providenciou quatro casas de irmandade em Citeaux: Mori-
m ond, La Ferté, Pontigny e Claraval. Com esse arranjo, o abade de
Citeaux era um monarca limitado. Deveria haver uma uniformidade
de costume e disciplina de acordo com a Regra de Bento.
Os cistercienses eram críticos da riqueza de Cluny, sua igreja
grande e ricamente adornada, a elaboração da liturgia e a vida fácil
com servos para fazer o trabalho. Entre os tópicos sobre os quais os
cistercienses e os apoiantes de Cluny debatiam, estavam suas vesti
mentas. Os monges beneditinos usavam preto, que acreditavam ser
uma expressão de humildade. Os cistercienses viam o preto como os
tentação e usavam vestes brancas e não tingidas como uma expressão
de simplicidade, assemelhando-se às vestimentas dos anjos, vestuário
que os cluniacenses consideravam uma marca de orgulho.
536 HISTÓRIA DA IGREJA
Cluny representava a tradição, enquanto os cistercienses queriam
voltar para a regra original de Bento. O novo movimento ganhou
muitos seguidores, mas os defensores dos velhos costumes eram con
tra as novas ordens, como, por exemplo, Orderic Vitalis (m. 1142) em
sua obra História Eclesiástica, notável por seu relato sobre as conquis
tas dos normandos.
Para os cistercienses, era para ser um retorno à simplicidade bene
ditina. A riqueza da linguagem na liturgia foi podada a fim de deixar
tempo para contemplação. Os edifícios eram para ser simples, sem
ornamentação artística. Os monges deveríam envolver-se no trabalho
manual. Em vez de servos, os cistercienses incluíam em seus mostei
ros irmãos leigos (conversi) que eram inteiramente membros da co
munidade, exceto em relação aos direitos reservados aos sacerdotes,
mas estavam dispostos a empregar ajuda contratada também. A ideia
de incluir irmãos leigos não era nova, mas tornou-se uma característi
ca dos mosteiros cistercienses. Em sua ênfase no autossustento, os cis-
tçrcienses foram pioneiros em experimentos como criação de plantas
e de ovelhas, de maneira que passaram a ter um impacto substancial
sobre a economia do norte da Europa.
Muitos mosteiros cistercienses foram construídos no século 12,
com preferência em áreas isoladas. Suas impressionantes ruínas agora
pontilham a paisagem da França, Grã-Bretanha, Irlanda e outros lu
gares. D o mosteiro construído por Villiers para a abadia de Bernardo
em Claraval veio uma planta comum para as abadias da ordem de
Cister. Construída em torno de um pátio, ou claustro, a igreja com
um presbitério raso quadrado, em vez de uma abside, ocupava o lado
norte. A casa capitular e outros cômodos ficavam no lado leste, o re
feitório ficava no lado sul, e os quartos para hóspedes, no lado oeste.
Uma passarela com colunas cercava o pátio do claustro. Alojamentos
para os monges eram localizados no segundo andar acima da sala de
reuniões e do refeitório. Os cistercienses projetaram eficientes moi
nhos de água, e seu desenvolvimento de canalizações e esgotos torna
va-os pioneiros no encanamento e também na agricultura.
Havia freiras cistercienses relativamente cedo na história da or
dem. Os cistercienses deram grande devoção a Maria. Embora no iní
cio cultivassem a vida religiosa individual, depois de uma geração, os
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLlTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 537
cistercienses estavam apresentando um impacto sobre os assuntos do
mundo.
Com o o historiador Roland Bainton observou: “Q uando o Cris
tianismo se leva a sério, ele deve abandonar ou dom inar o mundo,
e em diferentes pontos pode tentar fazer as duas coisas ao mesmo
tem po”. Nessas características e em outras, a figura de Bernardo de
Claraval é típica.
II. BERNARDO DE CLARAVAL (1090 - 1153)
Bernardo foi a figura dominante da primeira metade do século
12; às vezes, chamado de “a era de Bernardo”. Em círculos católicos,
ele é conhecido como o “doutor melífluo”, por ter prolongado a d o
çura da vida cristã.
Nascido de pais nobres da Borgonha, Bernardo foi reconhecido
como um aristocrata entre os homens. Ele se tornou associado com
Cister em 1113, e seu sucesso em ganhar recrutas (incluindo quatro
irmãos) para o mosteiro salvou o novo movimento. O crescimento
perm itiu estabelecer uma casa de irmandade em Claraval, onde ele
era o abade. A grande expansão dos cistercienses no século 12 foi
principalmente devido à sua influência. Sua combinação de sinceri
dade e eloquência mostrou-se bastante persuasiva.
Bernardo se envolveu nos assuntos mais amplos da igreja e da so
ciedade. De 1130 a 1153, ele foi o árbitro da Europa, repreendendo
reis, clérigos e monges. N a eleição papal disputada entre Anacleto II
(1130-1138) e Inocêncio II (1130-1143), Bernardo favoreceu Ino-
cêncio, que levou refúgio para a França. Bernardo procurou a ajuda
dos reis da França, Inglaterra e Alemanha e finalmente alcançou seu
objetivo.
Um dos discípulos de Bernardo tornou-se Papa Eugênio III
(1145-1153), e ele escreveu a obra D e consideratione, um trabalho
com foco na perfeição e no conhecimento de Deus, que incluiu um
programa de restauração da disciplina eclesiástica, para guiar a ele e a
seus sucessores.
Eugênio III organizou a Segunda Cruzada (1146-1148) e pediu
a Bernardo que fizesse uma chamada fervorosa para a cruzada em um
538 HISTÓRIA DA IGREJA
sermão em Vézelay. Isso é um indicativo do espírito dos tempos e das
contradições no caráter humano, visto que uma pessoa que tão elo
quentemente ensinava sobre o amor e praticava uma piedade tão pro
funda pudesse também promover uma cruzada. Por sua parte, Ber
nardo viu as invasões dos sarracenos como injustas e esperava resgatar
as igrejas orientais, ao mesmo tempo em que desviava as energias dos
cavaleiros ocidentais da violência doméstica para uma guerra justa.
A falha dos exércitos dos reis Luís VII, da França, e Conrado III, da
Alemanha, em cooperar condenou o esforço ao fracasso.
Bernardo, o último grande representante do estilo mais antigo de
educação cristã, viveu na teologia dos Pais da igreja e desconfiava da
aprendizagem humana. Em contraste com Anselmo e Abelardo, ele
dizia: “Eu creio a fim de que eu possa experimentar”. Impaciente com
o racionalismo e a contenção de Abelardo de que havia contradições
entre os padres, Bernardo tornou-se um dos principais impulsiona
dores da sua condenação no Concilio de Sens (1140) e pelo Papa Ino-
>cêncio II (1141).
Bernardo lembrou os estudiosos da dialética da necessidade de
uma teologia tradicional. Ele apelou para o livro da experiência re
ligiosa, para a natureza e para as Escrituras. Bernardo sugeriu quatro
razões possíveis para a aquisição do conhe-
----------------------------- cimento: fazer um nome para si mesmo por
“A razão para nosso vaidade; vender as informações a partir de
amoroso Deus é o próprio um desejo de lucro; ajudar os outros por
Deus; e a medida desse caridade e aprender por si mesmo, por pru
amor não deveria existir... dência.
A alma que ama a Deus Entre os primeiros escritos de Bernar
procura por Deus, e do está Sobre a humildade, com base na
não quer outro prêmio” regra de Bento, que discute três graus de
(Bernardo de Claraval, humildade e 12 graus de orgulho (os seres
Sobre o amor de Deus 1; 7). humanos sempre encontram mais fascínio
em diferentes formas de pecado do que em
___________________
diferentes formas de ser virtuoso). Outro é
Sobre o amor de Deus, com base no que Bernardo pensava ser uma fra
se de Agostinho: “A medida do amor de Deus é amá-lo além de toda
medida”. Ele descreve os quatro graus do amor: o amor a si mesmo
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POÜTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 539
por uma questão de autossuficiência (amor “Ó vaidade das vaidades.
egoísta); o amor de Deus pelo que ele dá . . . Toda a igreja brilha,
(amor mercenário); amor de Deus pelo mas o pobre homem está
que ele é (amor de filho, que é verdadeiro, com fome. As paredes da
puro e justo); amor até de si mesmo apenas igreja estão vestidas de
por causa de Deus (amor divino). ouro, enquanto as crianças
da igreja permanecem
A maior obra de Bernardo foi Sermões nuas.. . . O que o ouro está
sobre o Cântico dos Cânticos, baseando-se fazendo no lugar santo?
em uma longa história de interpretação es
piritual cristã que fazia uma analogia do li
vro com o amor entre Jesus Cristo e a Igreja Francamente, a ganância é
e entre Cristo e a alma humana. Nela, ele a raiz de todos os m ales,. . .
ensinou que o amor pela natureza humana pois a vista dessas vaidades
de Cristo leva ao amor espiritual. Na busca suntuosas e incríveis
pelo divino, o desejo é importante; como o encorajam o homem a dar
amor oferecido à mulher escolhida na po em vez de orar. Então, ricos
esia delicada, o amor a Deus era para ser atraem ricos, e dinheiro atrai
perfeito, puro e desinteressado. Os cristãos dinheiro.. . . Quanto mais
devem aprender com o exemplo de Cristo, abundância de ricos, mais
para amá-lo terna, sábia e fortemente. vontade os homens têm de
A influência da ordem de Cister trou dar” (Bernardo de
xe uma reforma em Cluny sob o abade Pe Claraval, Apologia).
dro, o Venerável. No entanto, este último
manteve uma visão mais ampla do lugar
das artes na vida religiosa do que o permitido por Bernardo. Os escri
tos de Bernardo sobre as artes não faziam parte de uma controvérsia
simplesmente entre Citeaux e Cluny, pois alguns cistercienses mais
antigos promoviam a suntuosa arte religiosa e havia casas cluníacas
interessadas na reforma monástica. Nem a controvérsia sobre o lugar
das artes era uma repetição da controvérsia iconoclasta, pois ambos
os lados aceitavam a arte, mas divergiam sobre quanto, tipo e propó
sito pelo qual ela era colocada.
Bernardo criticou o uso excessivo da arte para atrair doações dos
ricos e dos peregrinos, a saturação da experiência sensorial que isso
estimulava, os gastos que tiravam o alívio dos pobres e a distração da
meditação espiritual pelos monges.
540 HISTÓRIA DA IGREJA
Defensores justificavam as suntuosas obras de arte como auxílios
à devoção, como honra a Deus e aos santos, por possuírem preceden
tes no Antigo Testamento e como expressão de uma associação entre
beleza e santidade.
Bernardo temia que belas imagens e esculturas de santos causas
sem “mais admiração pela beleza das estátuas do que pelas virtudes
dos santos”.
Dois temperamentos enfrentaram-se — um apreciador das artes
e da beleza, o outro (sem rejeitar um lugar para a arte sacra) austero
e temeroso de que as delícias da beleza pudessem distrair a alma das
coisas do espírito. Em um nível pessoal, no entanto, Pedro e Bernar
do foram reconciliados.
De acordo com Bernardo, cantar hinos é a mais elevada forma
de oração. Sua própria poesia ficou abaixo da qualidade de sua prosa:
ele sacrificou a métrica para dar vida ao sentido. Os hinos «Jesus, o
autêntico pensamento sobre T i” e “Jesus, Tua alegria em amar cora
ções” eram devido à sua influência, em vez de escritos por ele, pois ele
inspirou uma escola de canto.
A continuação da influência de Bernardo é devido à sua combi
nação única de santidade ascética e mística com gênio literário. Ele
ensinou as pessoas a negarem suas inclinações em direção à criatura e
à sensualidade e a cultivarem uma experiência de piedade devocional,
penitencial e centrada em Cristo.
Sua espiritualidade é caracterizada por uma ênfase no progresso
(a falta de vontade de avançar na vida espiritual já é um retrocesso),
na humildade, no amor de Deus e na devoção a Maria (embora ele
negasse a imaculada conceição de Maria).
A piedade mística de Bernardo frequentemente empregava ima
gens físicas: ele dizia ter recebido a substância espiritual do seio de Ma
ria. Apesar da piedade mariana, a espiritualidade de Bernardo não é
distintamente católica romana e pertence a mais alta devoção cristã. Ele
é um lembrete de que a piedade une, enquanto outras coisas dividem.
III. OUTROS IMPORTANTES PENSADORES DO
SÉCULO 12
A educação antes do final do século 11 era mais oral do que
baseada em texto. Ela tornou-se mais centralizada em textos no
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 541
século 12, e isso se reflete em um grande aum ento nas produções
literárias.
Importantes pensadores cristãos do século 12 incluem Hugo de
São Vitor, O tão de Freising, João Graciano, João de Salisbury, Pedro
Lombardo e Hildegarda de Bingen.
A. Hugo de São Vitor (m. 1142)
N o início do século 12, duas escolas foram abertas em Paris, além
da velha escola catedral: Sainte Geneviéve ou Santa Genoveva (igreja
colegiada), criada por Abelardo; e São V itor (uma casa de cânones
agostinianos), fundada em 1108 por Guilherme de Champeaux (m.
1121), um realista extremo, depois de ter sido superado em dialética
na escola catedral por Abelardo.
São V itor preservou uma ênfase no treinamento em virtudes,
mas entrou no novo fomento intelectual da época. Hugo chegou a
São V itor mais ou menos em 1115 e tornou-se diretor de estudos
em 1133. Acredita-se que ele tenha vindo da Saxônia, mas isso pode
não estar correto; a unidade cultural da Idade Média frequentemente
torna o local de origem irrelevante.
Bernardo e os Vitorinos representavam a continuação de uma
teologia “monástica” interessada principalmente na vida espiritual,
mas estes últimos também estavam envolvidos com a nova teologia
“escolástica” que abordou questões lógicas e teóricas.
Além disso, Hugo e Bernardo refletiram duas abordagens dife
rentes para o cultivo da virtude. Considerando que Bernardo come
çou com a consciência, o estado interior que da beleza da alma leva
para a graça exterior, Hugo enfatizou a disciplina que leva a conduta
para o exterior a fim de ensinar a vida virtuosa. Hugo tentou conciliar
a teologia científica mantendo seu caráter monástico.
Bonaventure chamaria mais tarde Hugo de um pregador, um mís
tico e um estudioso. Despreparado para distinguir entre scientia (co
nhecimento) e sapientia (sabedoria), Hugo não queria que houvesse
uma parede entre o intelectual e a vida devocional. A este respeito, ele
preserva o espírito dos ideais medievais educacionais primários. Hugo
542 HISTÓRIA DA IGREJA
promoveu uma educação bem abrangente,
“Aprenda tudo, e então você porque as artes liberais “pavimentaram o
verá que não há nada inútil” caminho para a mente penetrar no pleno
(Hugo de São Vitor). conhecimento da verdade filosófica”.
---------------------------------- — Respirando um espírito pessoal e de
beleza em seu trabalho que, muitas vezes,
está ausente da escolástica posterior, Hugo foi chamado de “o coração
de Deus”. Seus ensinamentos espirituais enfatizavam a oração e a vida
interior. Ele falava de meditação como a busca ativa em oração pelo
amor divino e falava da contemplação como a posse de uma profunda
paz que vem de união em amor com Deus.
Tendo em conta as opiniões de Bernardo e Abelardo, Hugo (1)
modificou a espiritualidade ensinada por Bernardo dando um lugar
expresso para a compreensão em seu misticismo, e (2) resgatou o mé
todo dialético de Abelardo do descrédito que lhe foi dado, respei
tando a tradição e unindo fé e razão. (Sucessores de Hugo em São
Vitor continuaram sua espiritualidade. Eles são conhecidos como os
Vitorinos, e o mais notável deles foi Ricardo.)
Hugo descreveu “três olhos” com os quais os humanos foram
criados e o efeito do pecado original sobre eles. O olho do intelecto,
que vê a Deus e a realidade espiritual e que estava totalmente cego
por causa da queda; o olho da razão, que estava parcialmente cego; e
o olho da carne, que não mais estava cego, mas é enganoso, porque vê
somente o mundo externo. Hugo também descreveu quatro estágios,
cada um envolvendo três graus, pelos quais a alma retorna a Deus:
despertamento, que envolve medo, tristeza e amor; purgatório, o que
inclui paciência, misericórdia e compunção; iluminação, que cobre o
pensamento, meditação e contemplação; e a união, que requer cora
gem, prudência e temperança.
Dentre as numerosas e abrangentes obras de Hugo, uma aten
ção especial pertence ao seu De sacramentis christianaefidei (“Sobre
os Sacramentos da Fé Cristã”). E a primeira síntese medieval da te
ologia, e é cristológica, sendo organizada de acordo com dispensa-
ções — antes e depois de Cristo. O Livro 1 é a preparação para a
encarnação, e o Livro 2 é a encarnação com suas consequências. Foi
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 543
escrito originalmente para os monges de São V itor e não foi destina
do a iniciantes. No entanto, circulou de maneira mais ampla do que
o planejado.
Em De sacramentis christianae fidei, H ugo ensinou a im por
tância do sentido histórico das Escrituras, mas enfatizou o sentido
alegórico como indo além do literal. Os m étodos históricos e os
métodos teóricos (ou contemplativos) são explorados por toda a
obra. Por exemplo, ele enfatiza que o relato da criação em Gênesis é
alegórico. Sendo um seguidor de Agostinho, ele o cita tanto quanto
a Bíblia.
Para Hugo, toda a vida cristã é sacramental, portanto os sa
cramentos são inumeráveis, mas ele preparou o caminho para uma
distinção entre ritos sacramentais e sacramentos principais, e ele ex
pressou sua opinião de que os sacramentos são sinais eficazes, não só
significando, mas também transmitindo a graça. Cada criatura é uma
expressão sensível de um pensamento divino. H á um movimento que
vai do estudo do mundo e também das Escrituras para uma medita
ção a respeito do divino.
N o segundo livro de D e sacramentis christianaefidei, Hugo deu
m uita atenção à Igreja, insistindo sobre a unidade do C orpo de Cristo.
B. Otão de Freising (c. 1114-1158)
O tão estudou depois de Abelardo e Hugo de São Vitor. Depois
de ter sido abade da casa cisterciense de M orimond, tornou-se bispo
de Freising em 1138. Ele ajudou a apresentar o estudo de Aristóteles
na Alemanha e participou na Segunda Cruzada (1147-1148).
O tão é notável como um filósofo da história. Ele dedicou sua
obra Crônica ou História das duas cidades a seu sobrinho Frederico
Barbarossa. Nessa obra, ele contempla o fracasso da Segunda C ru
zada empreendida sob tão grande liderança espiritual. Ele modifica
a obra “Duas cidades” de Agostinho compreendendo sua união na
Igreja Católica como a continuação do Império Romano.
Otão também escreveu uma história da primeira parte do reina
do de Frederico Barbarossa.
544 HISTÓRIA DA IGREJA
C. João Graciano (m. c. 1160)
Pouco da vida de João Graciano é conhecido, mas acredita-se que
ele tenha sido um professor de Direito em Bolonha e, possivelmente,
um membro da ordem dos camaldulenses. Sua fama repousa sobre
sua Concordantia discordantium canonum (Concordância de câno
nes discordantes, c. 1141), mais tarde conhecida como o Decretum
Gratiani, no qual ele reuniu as vertentes do direito canônico — tex
tos patrísticos, decisões conciliares e pronunciamentos papais.
No estudo do direito civil, Irnério (final do século 11) de Bolo
nha tinha recuperado o Corpus Iuris Civilis de Justiniano. Graciano
tinha antecessores também na compilação de autoridades legais para
o direito canônico, como, notavelmente, Ivo, bispo de Chartres (m.
1116). Ao apontar aparentes conflitos nas autoridades e estabelecer
os princípios pelos quais estes poderiam ser reconciliados, Ivo inspi
rou a metodologia de Abelardo (capítulo 20) e antecipou Graciano.
A importância do estudo jurídico se reflete no fato de que a maio-
Via dos papas dos séculos 12 e 13 foi treinada em direito canônico.
Graciano começou o Decretum pela
distinção entre lei natural (que é divina)
“A raça humana é governada e uso (que é humano), entre a lei moral e
por duas coisas: lei natural a ordenança humana, entre os costumes e
e usos. A lei da natureza é a as ordenanças escritas, entre a lei natural e
que está contida na Lei e no as leis civis e entre as leis reconhecidas por
evangelho, pela qual cada quase todas as nações e os decretos civis de
pessoa é ordenada a fazer cânones eclesiásticos.
ao outro o que ela deseja Graciano fez outra distinção entre as
que seja feito a si mesma e leis morais e os preceitos simbólicos na Lei
por meio da qual ela está de Moisés. Estes últimos foram alterados.
proibida de infligir ao outro Um exemplo é a proibição, na Lei de Moi
o que ele não deseja que seja sés, de uma mulher, após o parto ou na
feito a si mesmo” menstruação, entrar no templo, mas que,
(Graciano, Decretum 1). agora, poderia entrar na igreja e comungar
imediatamente após o parto ou durante a
menstruação. De acordo com Graciano,
os decretos eclesiásticos são superiores às autoridades seculares. A lei
escrita da igreja, em ordem decrescente de autoridade, está nas Es-
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 545
crituras, nos decretos papais, nas decisões Bernardo de Chartres,
dos concílios ecumênicos, nas decisões dos um mestre de sua escola,
concílios provinciais e diocesanos e nos es
critos dos Pais da Igreja. comparou as obras
modernas com os clássicos
As coleções formais das leis dos câno para anões “que pousaram
nes eram privadas, mas a obra de Graciano nos ombros de gigantes” e,
— embora nunca tenha recebido aprova assim, “veem coisas mais
ção formal — tornou-se (como um livro de numerosas e distantes, não
fontes) a base universal para o estudo e a
prática do direito canônico. Sua coleção foi em virtude de sua própria
a primeira a sistematizar o material, devido visão aguçada ou de sua
ao fato de seu trabalho não ter sido apenas própria estatura, mas
uma coleção, mas também um tratado so porque eles são levantados
bre a ciência canônica. Assim, Graciano ao alto pela magnitude dos
procurou dar ao direito eclesiástico a mes gigantes” (citado por João de
ma apresentação sistemática que o direito Salisbury — a analogia é, em
civil tinha na compilação de Justiniano. si mesma, clássica, atribuída
Graciano seguiu o método de Abelar ao autor latino Lucan,
do para organizar as autoridades, mas ele do primeiro século).
foi mais longe ao reconciliar discrepâncias, ------------------------------
oferecendo soluções para as dificuldades
(seu título é a chave para sua abordagem). O Decretum foi uma con
trapartida em direito canônico às Sentenças de Pedro Lombardo em
teologia (veja abaixo) na sistematização da tradição, mas o Decretum
estabeleceu-se mais cedo como um texto padrão.
A obra posterior de Graciano foi amplificada e camuflada: apro
ximadamente nos anos de 1215-1218, Juan Teutónico e outros pre
pararam a Glosa ordinária. O nome Corpus Iuris Canonici foi dado
para toda a obra no século 16. Com sucessivas modificações e revi
sões (a mais recente em 1983), ainda serve como base para o direito
canônico da Igreja Católica Romana.
D. João de Salisbury (c. 1115-1180)
João saiu de sua cidade natal, Salisbury, na Inglaterra, para estudar
em Chartres e em Paris sob os ensinos de Abelardo. Como secretário
546 HISTÓRIA DA IGREJA
de Tomás Becket e, mais tarde, como seu biógrafo, ele vivenciou o
exílio do arcebispo e esteve presente na Catedral de Cantuária, quan
do Tomás foi assassinado durante uma disputa com Henrique II.
Em 1176, João de Salisbury tornou-se bispo de Chartres e incen
tivou a sua escola. João foi o primeiro escritor medieval familiarizado
com todos os escritos lógicos de Aristóteles. Mais moralista e hum a
nista cristão do que teólogo, ele defendeu — em sua obra Metalógica
— o lugar da razão e a dialética de seus críticos, motivados pelo amor
à ortodoxia, ao misticismo exagerado e pelos excessos dos dialéticos.
João também foi importante como um teórico político, especial
mente com sua obra Policrãtico. Bem familiarizado com os clássicos
latinos, ele mostra a confiança dos estudiosos na aprendizagem do
E. Pedro Lombardo (c. 1100-1160)
Nascido de pais humildes, em Lombardia, Pedro estudou em
Reims e em São Vitor, em Paris, antes de tornar-se um professor de
teologia na escola catedral de N otre Dame, em Paris. Ele foi nomea
do bispo de Paris em 1159. Pedro foi primeiramente um exegeta das
Escrituras e, em seguida, um teólogo. Suas glosas sobre os Salmos e
as cartas de Paulo, a Magna Glosatura, substituíram a Glosa ordinária
nesses livros e tornaram-se a obra mais citada da exegese bíblica na
Idade Média mais tarde.
Tal como aconteceu com outros teólogos medievais, Pedro usou
muito as obras de Agostinho, mas ele também usou as de João de
Damasco, cujo trabalho tinha recentemente se tornado disponível
em latim. Pedro foi o autor do livro de escolástica Quatro livros das
sentenças, pelo qual ele é conhecido como o “Mestre das sentenças”.
Ele combinou a dialética do Sic et non de Abelardo e o misticismo de
D e sacramentis (“Sobre os sacramentos”) de Hugo. Por intermédio
dele, o melhor de Abelardo tornou-se uma parte da herança da igreja
medieval.
Pedro não foi um pensador original, mas, por causa de sua
posição como bispo e como chefe da escola que se tornou a U ni
versidade de Paris, sua obra tinha uma espécie de autoridade com
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 547
muitos. O Sentenças ficou popular também por causa de sua ordem
lógica, sua clareza e seu arranjo sistemático, sua abrangência e sua
justiça sobre questões controversas, embora afirmando o consenso
contem porâneo.
Pedro conquistou para a teologia o que João Graciano fez pelo
direito canônico. Apesar de alguma oposição inicial, o livro foi aceito
como ortodoxo pelo Q uarto Concilio de Latrão em 1215. Ele veio
para substituir outras Sumas teológicas, e todos os teólogos tiveram
de estudá-lo por dois anos. A obra continuou a ser comentada duran
te séculos até ser substituída, no século 16, como um livro de texto,
pela Suma Teológica de Tomás de Aquino. Lutero, p or exemplo, como
parte de seus estudos, escreveu um comentário sobre o Sentenças.
Pedro tinha uma estimativa mais modesta da sua obra, compa-
rando-se com a viúva oferecendo o que tinha no templo. Com humil
dade rara para um teólogo, ele percebeu que o conhecimento da sua
obra não era necessário para a salvação.
O Livro I do Sentenças trata da Trindade e do conhecimento e
da vontade de Deus. O Livro II abrange a criação, os anjos, os seis
dias de Genesis 1, a queda e a graça. O Livro III discute a encarnação,
as virtudes, os pecados e os mandamentos. O Livro IV apresenta os
sacramentos e escatologia.
A distinção no quarto livro entre ações sacramentais (ações sim
bólicas) e sacramentos contribuiu adequadamente para estabelecer o
número de sacramentos: sete.
De acordo com Pedro, a união de palavras {verba) e matéria ou
coisa (res) faz um sacramento. O ato exterior, o sinal do sacramento,
era eficaz, e a causa do resultado do sacramento, sua graça. Ele fixou o
número de sacramentos como: (1) o batismo, (2) a confirmação, (3)
cânones (penitência), (4) altar (Eucaristia) e (5) o último altar (extre
ma-unção) — todos os cristãos participam destes cinco — , além do
casamento (6) e (7) da ordenação.
O motivo pelo qual o número sete foi fixado é a lista dos sete
dons do Espírito Santo, de acordo com as versões grega e latina de Isa-
ías 11.2,3. Pedro Lombardo identificou o Espírito Santo com amor,
de m odo que existem sete canais pelos quais o amor flui para os seres
humanos.
548 HISTÓRIA DA IGREJA
Também era tradicional alegorizar os sete povos com os quais
os israelitas deviam lutar depois da sua libertação do Egito como os
vícios que os cristãos devem combater. Desse modo, havia sete sacra
mentos para satisfazer as exigências da vida.
F. Hildegarda de Bingen (1098-1179)
Nascida de uma família nobre, Hildegarda foi colocada, a par
tir dos oito anos, em um convento perto de Bingen, comunidade na
qual se tornou abadessa em 1136. Mais tarde, construiu seu próprio
convento nas proximidades. Desde tenra idade, ela recebeu visões re
ligiosas que lhe deram a sensação de ser uma profetisa divinamente
designada. Suas profecias não ofereceram previsões do futuro, mas
revelaram as profundezas dos significados nas Escrituras.
Hildegarda combinou contemplação mística e um ministério iti
nerante ativo, indo a excursões de pregação e opondo-se a heresias.
Seu ministério foi aceito por Bernardo e pelo Papa Eugênio III. Ela
eia doutrinariamente ortodoxa. Sua compreensão trinitária da natu
reza, por exemplo, é mostrada em suas frequentes análises das coisas
dentro de três componentes ou aspectos.
Os escritos de Hildegarda incluem: Scivias domini (“Conhecei
os caminhos do Senhor”), um dos primeiros trabalhos teológicos
com relação às 26 visões; Liber vitae meritorum (“Livro dos méritos
da vida”), outra obra visionária que discutia as virtudes e vícios e suas
alegrias resultantes e punições após a morte; e o Liber divinorum ope-
rum (“Livro das obras divinas”), um impressionante trabalho maduro
recontando visões do m undo e das coisas criadas. Suas visões focaram
especialmente o processo da salvação e o juízo final. Ela acompanhou
seus escritos com desenhos notáveis.
As cartas incluem correspondência com Frederico Barbarossa,
reis e clérigos. Ela tinha interesses diversos, escrevendo canções e
também escritos sobre história natural e textos médicos, notáveis por
suas observações científicas.
G. Pensadores não cristãos
O século 12 foi uma época de renascimento intelectual não ape
nas no Cristianismo, mas também no Islamismo e no Judaísmo, cujos
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POÜTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 549
pensadores apropriaram-se da coletânea completa de Aristóteles um
século antes de os pensadores cristãos fazerem o mesmo, no século 13.
Moisés Maimônides (c. 1135-1204), que viveu na Espanha e,
em seguida no Egito, em seu Guia para osperplexos, criou uma síntese
da teologia judaica e do aristotelismo, que era muito admirado pelos
pensadores cristãos, os quais empreenderam uma tarefa comparável
no século 13.
As diferenças entre os filósofos árabes Ibn Sina (Avicena, 9 8 0 -
1037), que seguiu Platão, e Ibn Rushd (Averróis, 1126-1198), que se
guiu Aristóteles, colocaram em paralelo a mudança na teologia cristã
que começou no século 13, e que saiu da dependência do platonismo
para a dependência do aristotelismo.
Averróis, que representou o pico do racionalismo no Islã, tornou-
-se uma influência perturbadora sobre a vida intelectual cristã no sé
culo 13, porque ele desenvolveu uma visão filosófica do m undo inde
pendente da teologia.
IV. A IGREJA E AS ARTES
A. Arquitetura românica
Com exceção dos tempos carolíngio e otoniano, o período com
preendido entre o final do quinto século e o século 11 não viu muita
atividade de construção na Europa Ocidental. Alguns historiadores
de arte aplicaram o termo “românico” amplamente à evolução da
época carolíngia do século 12, mas outros limitaram o termo à arqui
tetura e às artes decorativas do final do século 11 e do século 12.
O período entre 1050 e 1350, quando os trabalhos espetacula
res da arquitetura românica e gótica (tratada no capítulo seguinte)
foram produzidos, tem sido chamado de “cruzada catedral”. O itenta
catedrais, sem mencionar milhares de igrejas paroquiais e monásticas,
foram construídas somente na França.
O boom da construção foi possível graças ao retorno de paz e or
dem à Europa Ocidental, ao aumento do comércio que trouxe maior
riqueza para as cidades e aos novos desenvolvimentos nas habilidades
arquitetônicas.
550 HISTÓRIA DA IGREJA
As primeiras igrejas românicas foram basílicas, algumas em uma
escala enorme, com a adição de torres (geralmente gêmeas, mas, às
vezes, apenas uma) no extremo oeste e um ambulatório com capelas
ao redor do coro no extremo leste.
Edifícios românicos posteriores diferiam das basílicas usando
tetos de pedras abobadadas, em vez de tetos de madeira plana. As
abóbadas de pedra e maior tamanho exigiam colunas e paredes mais
fortes e mais grossas.
Enquanto uma antiga basílica levava a vista para o altar e a absi-
de sem interrupção, as abóbadas, subdivididas em compartimentos
de igual tamanho, davam ao interior das igrejas românicas a aparên
cia de uma série de unidades espaciais visualmente distintas, porém
repetidas, cada uma seguindo a outra em ritmo monumental. Arcos
arredondados eram usados não só para a compartimentação, mas
também para paredes superiores (sustentadas por colunas) e para a
estrutura das janelas.
Igreja beneditina em Chapaize, França (construída por volta do ano 1000 e reconstruída
mais tarde), típica igreja românica de tamanho moderado em Borgonha
ATIVIDADES MONÁSTICAS, LITERÁRIAS, POLÍTICAS E CULTURAIS NO SÉCULO 12 551
Alguns elementos do estilo
românico continuaram em uso
mesmo depois que o Gótico se
tornou moda no final do século
12 e no século 13.
A grande abadia de Cluny no
início do século 12 poderia abri
gar 400 monges e 2.000 visitantes.
Sua igreja, construída entre 1080
e 1230 — a maior da cristandade
antes da construção de São Pedro,
no século 16 —, influenciou mui
tas igrejas românicas menores.
Um dos monumentos du
radouros do estilo românico é a
igreja da abadia de Vézelay, Santa A abadia da igreja de Vézelay, França, um exemplo
Madalena (dedicado a Maria Ma espetacular da arquitetura românica
dalena) em Borgonha, um objeto
de peregrinação devido aos supostos restos de Maria Madalena, e um
local de grandes encontros sobre a estrada dos peregrinos para Santiago
de Compostela no norte da Espanha.
As estruturas normandas na Inglaterra, como a Catedral de
Durham, também representam o estilo românico. A construção de
grandes edifícios românicos foi demandada por um grande número
de clérigos e monges em certos centros, pela enorme multidão em
festivais e pelas necessidades das procissões litúrgicas. Igrejas fornece
ram uma estrutura espacial para a liturgia, mas também fizeram uma
afirmação artística.
As características das construções românicas são solidez,
simplicidade e um senso de permanência.
B. Escultura e pintura
As fachadas de igrejas românicas proclamaram o edifício como “a
Casa de Deus e a porta do céu”. Grandes portais ricamente esculpidos
na entrada tornaram-se uma característica românica.
552 HISTÓRIA DA IGREJA
Cluny promoveu o tema de Jesus Cristo em glória, e essa cena
tornou-se ubíqua sobre a porta (o tympanaum [tímpano]) de todas as
igrejas românicas, onde Cristo é mostrado sentado em majestade (e/
ou em julgamento) acompanhado por figuras do livro do Apocalip
se — muitas vezes, 24 anciãos e, geralmente, os quatro seres viventes
(símbolos dos quatro evangelistas). Assim como um senhor feudal,
Cristo é atendido por seus vassalos maiores, os 12 apóstolos, abaixo
dele. Na verdade, Cristo em majestade foi o mais conhecido tema ar
tístico no período de 800 a 1200.
Para os primeiros mil anos da sua existência, a igreja cristã fez
pouco uso de arte tridimensional, embora seja encontrada em anéis,
lâmpadas e outros objetos para uso pessoal, em algumas pequenas pe
ças de escultura para decoração doméstica e nos baixos-relevos dos
sarcófagos.
A igreja oriental, enquanto fazia uso extensivo de pinturas bidi
mensionais e mosaicos, nunca, mesmo em anos posteriores, favoreceu
a escultura, porque a considerava muito próxima da idolatria pagã.
Portal da igreja de St. Trophime em Aries, França, com Cristo em glória rodeado por
símbolos dos quatro evangelistas