IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 453
risdição do trabalho missionário em meio aos povos eslavos, foi o pri
meiro papa a fazer uso (Talvez de maneira inocente?) dos Decretos de
Pseudoisidoro. Ele forçou Incmaro a reconhecer o direito do papado
de intervir em sua disputa com um bispo, cuja causa Nicolau apoiou.
Nicolau também suprimiu os apelos de Viena em relação ao título e
à jurisdição patriarcal.
Além do mais, Nicolau estabeleceu um precedente para a inter
ferência papal na política, nesse caso, com base em fundamentos m o
rais, ao reforçar a intenção do rei Lotário II de retomar sua primeira
esposa.
D. Controvérsia eucarística
A primeira controvérsia eucarística ocorreu em meados do nono
século. Pascásio Radberto (m. 860) escreveu o primeiro monógrafo
doutrinário a respeito da Ceia do Senhor, Sobre o corpo e o sangue do
Senhor (831, revisado em 844). Radberto foi um monge e, depois,
abade em Corbie. Ele estabeleceu uma identificação realista entre o
corpo eucarístico e o corpo humano de Jesus Cristo, que nasceu de
Maria, foi crucificado e milagrosamente se multiplicou nos altares da
cristandade por meio da consagração do pão e do vinho. Esses ele
mentos se tornaram nada menos do que a carne e o sangue de Cristo
sob a figura do pão e do vinho, independentemente da fé dos par
ticipantes — uma fé que é necessária, contudo, para que se possam
receber as bênçãos espirituais.
A visão de Redberto sofria oposição em várias perspectivas —
desde Gottschalk e Rábano Mauro a João Escoto Erígena. Carlos, o
Calvo, instou Ratramo (m. 868), outro monge de Corbie, a respon
der. Ele se opôs à interpretação realista do pão e do vinho, afirmando
que o corpo e o sangue de Jesus estão presentes de forma figurativa,
e não literalmente. A presença espiritual do corpo de Cristo é um
mistério que se realiza apenas no nível da fé. Da mesma maneira que
os elementos nutrem o corpo humano, a realidade espiritual nutre a
alma. O Espírito Santo trabalha no pão e no vinho de maneira a trazer
uma bênção espiritual, mesmo que Ele o faça nas águas batismais.
N o interior dessa discussão, estavam duas tradições diferentes de
interpretação das palavras de Jesus na santa ceia e em João 6. Ambró-
454 HISTÓRIA DA IGREJA
sio estabeleceu uma visão metabólica da Ceia do Senhor segundo a
qual, por consagração, o sinal tornou-se real. Agostinho, por sua vez,
adotou uma distinção mais sutil, reafirmando o simbolismo do sinal
e o realismo da dádiva invisível sobrenatural. Na época de Beda, as
duas visões foram reunidas de uma maneira sintetizada, usando-se
termos de ambas.
De acordo com isso, tanto Radberto quanto Ratramo entendiam
o que Ambrósio e Agostinho tinham em concordância, uma vez que
partiam do pressuposto de que não existia conflito nas tradições,
mas que cada um havia interpretado o outro de acordo com a pró
pria perspectiva. Com o passar do tempo, a posição defendida por
Radberto consolidou-se, especialmente no que diz respeito à visão
popular da piedade.
E. Gottschalk e a predestinação
Filho de um conde da Saxônia, Gottschalk (804— 869) foi cria
do como um oblato (uma criança “destinada” à vida monástica) e
enviado a Fulda para ser educado. Luís, o Piedoso, definiu que um
oblato, na maturidade, poderia escolher se desejaria continuar na vida
monástica, mas Gottschalk havia entrado nela ainda sob o reinado
de Carlos Magno, quando os oblatos não possuíam esse privilégio.
O Sínodo de Mainz (829) aparentemente lhe permitiu sair de Fulda,
mas não o libertou dos votos monásticos, exigindo, ainda, que a pro
priedade dada por seu pai permanecesse com o monastério.
Durante muitos anos vagando como monge e pregador, G otts
chalk defendeu uma forma extrema de predestinação dupla. Acre
ditando que havia realmente compreendido Agostinho, Gottschalk
afirmou que Deus escolheu alguns para a vida eterna e atribuiu os de
comportam ento reprovável ao fogo eterno. Isso se deve a um decreto
de Deus, e não à Sua presciência.
Os Sínodos de Quierzy, realizados em 849 e 853 (o último, pre
sidido por Incmaro), condenaram a doutrina de Gottschalk e afir
maram que Deus elege as pessoas somente para a vida, que o livre-
-arbítrio perdido por Adão foi restaurado por Jesus Cristo por meio
do batismo, que Deus pretendia estender a salvação a todos, e que,
p o r fim, Cristo morreu pelo pecado de todos, e não só pelos eleitos.
IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 455
Um concilio em Valência, no ano de 855, por outro lado, deu
sustentação à predestinação dupla. Gottschalk, contudo, morreu
ainda condenado. As diversas manifestações em relação a seus ensi
namentos mostraram que o agostinianismo estrito permanecia ain
da vivo, embora muitas pessoas tivessem divergido bastante de suas
implicações.
F. Rábano Mauro e João Escoto Erígena
Rábano Mauro (780—856) tomou parte da discussão da santa
ceia e foi um oponente de Gottschalk. Ele habitava os mais altos cír
culos de influência do mundo carolíngio: aluno de Alcuíno, abade de
Fulda, arcebispo de Mainz e professor de alguns dos mais destacados
alunos carolíngios (ele foi tão bem-sucedido que era conhecido como
o professor da Alemanha).
Rábano Mauro exerceu influência, especialmente, por meio de
seus comentários sobre os livros da Bíblia
desenvolvidos a partir de trabalhos da pa- “[O Cristo histórico e o
trística e que apresentavam interpretações Cristo sacramental diferem]
alegóricas aplicadas aJesus Cristo e à Igreja.
não em natureza, mas em
Quando a disciplina irlandesa da pe forma; o corpo do Senhor,
nitência privada se disseminou, e muitos
penitenciais inéditos foram compilados, al- que é diariamente (...)
guns defensores de uma disciplina pública consagrado a partir da
e mais rigorosa, embora reconhecendo que substância do pão e do vinho
tenha caído em desuso, fizeram objeção. para a vida do mundo e que
Rábano Mauro optou por um caminho in é oferecido aos sacerdotes,
termediário e defendeu a confissão pública, é uma coisa, mas o corpo do
no caso de pecados públicos, e a confissão Cristo nascido de Maria e
privada, no caso de pecados de cunho pes- por meio do qual o anterior
soai. Ele foi representante de intelectuais e é transformado é, do ponto
religiosos tradicionais da época, em contra de vista de sua forma, algo
posição a João Escoto Erígena. diferente” (Rábano Mauro,
João, “o Escocês” (810—877), um ir Carta a Egolonem).
landês (seu nome significa “Ériu nasceu”)
que partiu para o continente e desfrutou do patrocínio de Carlos, o
Calvo, foi um pensador original do nono século no ocidente. D o
456 HISTÓRIA DA IGREJA
minando a doutrina dos gregos (o conhecimento a respeito da cul
tura dos gregos foi muito mais preservado ao longo do tempo nas
regiões celtas do que nas áreas gaulesas), ele traduziu os trabalhos
de Dionísio, o Areopagita, para o latim.
João Escoto Erígena desenvolveu o seu próprio sistema filosófico
que, mais tarde, foi posto sob a suspeição de panteísmo, uma vez que
pretendia reconciliar a emanação neoplatônica com a criação cristã.
Seu trabalho A divisão da natureza classificava a natureza em quatro
categorias: a natureza que não era criada, mas que criava (Deus); a na
tureza que era criada e criava (as idéias platônicas); a natureza que era
criada e não criava (a ordem natural do m undo que é percebida por
meio dos sentidos); e a natureza que não é criada e não cria (Deus,
para onde tudo retorna).
V. Resumo
O capítulo anterior e o capítulo seguinte, bem como este capítu
lo, apresentaram seções a respeito da expansão missionária. Diferen
tes modelos foram apresentados. Os monges missionários irlandeses
trabalharam por sua própria conta e estabeleceram a figura de uma
pessoa sagrada e individual como o centro da lealdade. Os benediti
nos tornaram possível que um monastério servisse como um centro
cristão. Os carolíngios usaram as estruturas eclesiásticas para prom o
ver a unidade política. Os bizantinos tornaram possível que igrejas
nacionais, com a sua própria língua, viabilizassem a coesão entre os
novos convertidos.
Os papas planejavam criar uma organização episcopal indepen
dente unida por aliança a Roma. Os três papas de nome Gregório
buscaram evitar extremos, como a imposição de aconselhamento
voltado à perfeição aos novos convertidos ou, por outro lado, a re
alização de conversões superficiais. Entretanto, o cristianismo, em
adaptação ao padrão de pensamento e com portam ento das religiões
pagãs, resultou em um catolicismo de natureza popular dentro de um
contexto eclesiástico com lideranças mais adaptadas.
Missionários gregos desfrutaram da vantagem de a pressão po
lítica e a superioridade cultural de bizâncio levarem os governantes
bárbaros da Morávia, da Bulgária e da Rússia a solicitarem profes
IGREJA OCIDENTAL DO SÉTIMO AO NONO SÉCULO 457
sores cristãos que os instruíssem. Missionários do ocidente, embora
frequentemente contassem com o apoio político, em geral, tomavam
a iniciativa de invadir novas áreas. A liderança bizantina trazia mais
estresse à doutrina, de modo que, por consequência, os papas retrans
mitissem essa pressão em termos de moralidade e necessidade de le
aldade a Roma. Todos os missionários deram ênfase à fraqueza dos
deuses pagãos e às vantagens em aceitar o cristianismo.
D o sétimo ao nono séculos, a matéria-prima para a construção
da Europa Ocidental estava sendo moldada. O período carolíngio
fundou as bases para a civilização europeia medieval, cujo laço de
unidade era mais religioso do que político. Os danos causados pelas
invasões germânicas no quinto e sexto séculos foram parcialmente
revertidos. A renovação do continente foi estimulada especialmen
te por missionários e professores da Grã-Bretanha e da Irlanda, ilus
trando bem como os campos missionários sempre mantiveram uma
vitalidade religiosa considerável e intensa com relação às áreas já es
tabelecidas.
O renascimento do aprendizado associado a um estabelecimento
de instituições de ensino trouxe consigo a prática da cópia de ma
nuscritos e atividades de renovação teológica. O período carolíngio
estabeleceu os contornos do mapa político-religioso da Europa que
vigoraria durante o futuro que se afigurava.
Ocorreu a combinação do caráter dos cargos político e religioso.
A instituição de um reino sagrado e o renascimento do imperador
romano no ocidente, coroado pelo papa, passaram a conferir um ca
ráter sagrado à lei civil. Por outro lado, a jurisdição civil por parte do
papado avançou com a criação dos estados papais.
O Renascimento associado ao período carolíngio, contudo, logo
viria a ser ameaçado por uma nova onda de invasores, dessa vez, da
Escandinávia.
LEITURA COMPLEMENTAR
M O O R E , M. E. Sacred Kingdom: The Bishops and the Rise o f
Frankish Kingship. Washington: Catholic University o f America
Press, 2011.
458 HISTÓRIA DA IGREJA
RIC H Y EA , Pierre. The Carolingians: A Family W ho Forged
Europe. Filadélfia: University ofPennsylvania Press, 1993.
TAFBOT, C. H . The Anglo-Saxon Missionaries in Germany.
Nova Iorque: Sheed & Ward, 1954.
W A FLA C E-H A D R IFP, J. M. The Frankish Church. Oxford:
Clarendon, 1983.
WARD, Benedicta. The Venerable Bede. Fondres: Chapman,
1990.
Declínio e renovação da
vitalidade no Ocidente
Do nono século ao inicio do século 11
I. A IDADE DAS "TREVAS"
Os historiadores medievais, por razões óbvias, preferem evitar o
termo “Trevas”. D entro de um limite de aceitabilidade, ele se aplica
bem ao período no Ocidente entre o final do nono século e o início
do século 11.
Em contraposição à florescente civilização medieval bizantina,
essa foi uma época em que a civilização da Europa Ocidental obteve
um pequeno declínio, mas, mesmo assim, houve forças de renovação
em atividade. Na verdade, houve mais uma situação de continuidade
do que a expressão “Idade das Trevas” permite supor, de m odo que o
século 10 acabou por fornecer os subsídios necessários para um enor
me progresso nos séculos 11 e 12.
460 HISTÓRIA DA IGREJA
Ameaças ao Cristianismo europeu vinham tanto do Oriente,
representado pelos magiares, que se mudaram para o que é agora a
Hungria no final do nono século, como do Norte, a que daremos
maior atenção. Esses mesmos invasores do norte, quando incorpora
dos à sociedade feudal da Europa Ocidental, associaram-se aos m on
ges beneditinos para dar impulso a uma era de vitalidade renovada
no Ocidente.
C om raízes no período conturbado do décimo século, os esfor
ços em prol de um reavivamento institucional - monástico, imperial
e papal - chegaram ao Ápice no século 11.
A. Invasores da Escandinávia
Os homens do N orte ou homens nórdicos (por isso, norman-
dos), incluindo os vikings e os dinamarqueses, eram povos germâni
cos da Escandinávia que representaram a última onda de migrações
em direção ao centro da Europa. A palavra “Viking” significava inva
sores piratas, que poucas dessas pessoas eram, mas esse nome acabou
por receber um significado maior, de m odo a se referir a invasores do
Norte, bárbaros pagãos que ameaçavam apagar a luz da civilização
acesa durante o renascimento carolíngio. N o período compreendido
entre o ano 800 e o ano 1100, os vikings passaram da Idade do Ferro
para uma sociedade plenamente medieval.
Os vikings haviam invadido a Irlanda no oitavo século e, no final
daquele século, tomaram os monastérios da Nortúm bria, na Inglater
ra. O primeiro ataque viking registrado é mencionado no livro Anglo-
-Saxon Chronicle {Crônica anglo-saxa), datado do ano de 793, tendo
uma placa em pedra sido gravada na Abadia de Lindisfarne um século
após como memorial do ocorrido. O rei Alfredo (871-899), de Wes-
sex, percebeu o seu avanço Inglaterra adentro. Extremamente intelec
tualizado e capacitado como regente para a sua época e para o lugar
em que se encontrava, Alfredo traduziu a obra magnífica de Gregório
Pastoral Rule {Leipastoral) e Consolation ofPhilosophy {Consolação
dafilosofia), de Boécio, do latim para a língua anglo-saxã.
Os normandos, por volta do século 10, estavam invadindo o
mar M editerrâneo e dirigindo-se à Rússia. Com base em um acordo
DECLÍNIO E RENOVAÇÃO DA VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 461
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
firmado com Carlos, o Simples, Rollo conseguiu que seus seguido
res se estabelecessem, após o ano de 911, na região da França então
conhecida como Normandia, onde foram cristianizados. Em todos
os lugares onde esses novos cristãos não haviam ainda conhecido o
evangelho, o povo local se incumbia de ajudá-los. A vitalidade dos
normandos conferiu a eles um grande significado religioso na reno
vação da cristandade ocidental.
B. O declínio do papado
Enquanto isso, guerras civis e disputas legais haviam reduzido o
território sobre o qual o imperador romano reinava a um pequeno
principado na região italiana. Isso perm itiu ao papado estabelecer
um domínio sobre o título de imperador no final do nono século e
suprimi-lo em 924.
Um incidente ilustra perfeitamente como a barbárie daqueles tem
pos aceitava a igreja Ocidental em seu cerne. O papa Formoso (891
896) viu-se envolvido em uma disputa política: ele coroou Lamberto,
duque de Espoleto, imperador, mas, em seguida, repudiou-o e coroou
Arnulfo. Após a m orte de Formoso, um sucessor, Estêvão, m andou
exumar o corpo do antigo papa, fez com que fosse colocado no trono
papal e julgou-o. Xodos os atos de Formoso foram condenados, os
três dedos com os quais ele conferiu a benção papal foram am puta
dos, suas vestes foram arrancadas, e o seu cadáver arrastado pelas ruas
e, por fim, jogado no rio Tibre.
D urante a maior parte dos séculos 10 e 11, a aristocracia romana
dominou o papado. As influências dominantes em Roma e no papa
do durante os primeiros 60 anos do século 10 foram Teofilato e suas
filhas, Marózia e Teodora. O filho de Marozia, Alberico, controlou os
negócios em Roma de 932 a 954.
Um ponto brilhante foi o papado de Gerbert, que adotou o nome
Silvestre II (999— 1003), fazendo referência ao primeiro Silvestre, a
quem C onstantino supostamente fez o convite para reinar sobre o
Ocidente e, assim, estabelecer a harmonia do imperador e papa. C o
nhecido como a “maravilha do mundo devido a seus conhecimentos,
G erbert estudou na Espanha, onde teve uma excelente formação com
462 HISTÓRIA DA IGREJA
tutoria árabe. G erbert declarou certa vez: “Sempre tentei combinar
a arte da oratória com a arte da vida equilibrada”, uma combinação
típica da educação daquela época. Ele lecionou em Reims, para cuja
escola catedrática doou sua preciosa biblioteca, tendo sido abade de
Bobbio, arcebispo de Reims e, mais tarde, também de Ravena, an
tes de tornar-se papa. Ele foi o pioneiro no uso de numerais arábicos
(embora não tenha chegado a adotar o 0) em lugar de usar os nume
rais romanos.
O papado retrocedeu novamente quando esteve sob o domínio
dos papas de Túsculo entre os anos de 1012— 1046. O conde Albe-
rico de Túsculo era descendente, pelo lado materno, da família Teo-
fílato. Ele levantou ao papado seu irmão Teofílato como Bento V III
(1012— 1024) e, em seguida, outro irmão como João X IX (1024—
1032). Ele finalmente entronou seu filho, Teofilato, como Bento IX
(1032— 1044), sob o qual o papado afundou em uma nova decadên
cia moral.
Nesse momento, o império reformado partiu em resgate do pa
pado, e os papas reformadores, por sua vez, desligaram-se do império
(a seguir e no capítulo 20). Os vergonhosos abusos do gabinete papal
durante os séculos 10 e 11 não abalaram a instituição, porque, desde
a controvérsia de Agostinho com os donatistas, costumava-se fazer
uma distinção entre o cargo e seu detentor.
C. Contra-ataque m issionário
Em uma época em que a cristandade Ocidental em seu cerne pa
recia irreversivelmente minada por intrigas políticas e corrupção m o
ral, em suas fronteiras, a fé cristã fazia novas conquistas. A vinda das
populações nórdicas proporcionou aos cristãos uma consciência do
paganismo ao Norte. Da mesma maneira que em uma determinada
época os intelectuais britânicos deram início ao renascimento caro-
língio, dois séculos mais tarde, o contato de líderes escandinavos com
a Bretanha forneceu alguns dos combustíveis para a evangelização da
Escandinávia.
Vilibrordo já havia visitado a Dinamarca, por pouco tempo, no
início dos anos 700, mas a principal ação missionária na Escandinávia
D E C L ÍN IO E R EN O V A Ç Ã O DA V IT A L ID A D E N O O C ID E N T E - D O N O N O S É C U L O 463
A O IN ÍC IO D O S É C U L O 11
começou com Anskar (ou Ansgar) a partir do reino Franco no nono
século. As reações pagãs, no entanto, foram muito prejudiciais aos
seus esforços.
O trabalho mais duradouro começou com a conversão, por vol
ta do ano 965, do rei Haroldo I da Dinamarca, que construiu a pri
meira igreja no local em que se encontra a catedral do século 12, em
Roskilde, onde os reis e rainhas dinamarqueses são enterrados. Sob
o reinado dos Svein (Svend, 985-1014) e Canuto (Knut), o Grande
(1014-1035), a fé cristã cresceu na Dinamarca.
O rei Olavo da Suécia foi batizado em 1008 por Sigfrido, um
monge da Inglaterra, mas o heathenismo não foi superado até por
volta de 1100.
O rei Olavo Tryggvason da Noruega foi batizado na Inglaterra por
volta de 995 após um eremita das ilhas sicilianas prever seu futuro. A
cristianização da Noruega, contudo, deve mais a Olavo Haraldsson
(1016— 1030), cujas medidas duras contra o paganismo provocaram
oposição, mas não impediram que ele viesse a tornar-se o santo padro-
A Catedral de tijolos vermelhos de Roskilde, Dinamarca, fundada no século 11, com a atual
igreja construída e modificada posteriormente
464 HISTÓRIA DA IGREJA
eiro da Noruega depois de morto em batalha. Entre 1150 e 1300, de-
senvolveu-se na Noruega a construção de igrejas de aduela (nome que
se deve aos postes verticais de madeira que sustentavam a sua estrutura).
A disseminação do cristianismo na Escandinávia foi auxiliada
pela expansão do império germânico nos séculos 10 e 11.
Na direção do Oriente, invasões por parte do império germânico
também faziam avançar a influência cristã na Boêmia e na Polônia.
Apesar da obra missionária realizada no nono século por parte de Ci-
rilo e M etódio na Morávia, o paganismo continuava a existir naquela
região e na sua vizinha Boêmia.
O Good King Wenceslas [Bom Rei Venceslau] da popular can
ção de Natal era, na realidade, o duque da Boêmia (910-929), que,
com entusiasmo e sucesso, promoveu o Cristianismo em seu reino
parcialmente pagão. Conflitos políticos causaram seu assassinato no
ano de 929, mas a lendária experiência de vida de Venceslau (Vaclav
em checo) corretamente enfatiza o seu caráter piedoso, humilde e ca
ridoso, de m odo que ele se transformou no santo padroeiro de sua
terra natal. Seus sucessores consolidaram a presença do cristianismo
na região, e a sede episcopal de Praga, estabelecida em 976, tornou-se
subordinada ao arcebispo de Mainz.
O cristianismo chegou à Polônia com o batismo do príncipe
Miecislau I (ou Mieszko) em 966. Ele doou seu reino ao papado em
992 a fim de garantir o bloqueio dos pleitos germânico e boêmio; já
no período de reinado de Boleslau I (Boleslas), a independência p o
lonesa foi reconhecida pelo imperador germânico Otão III (1000), e
assim uma sé m etropolitana foi estabelecida em Gniezno.
Os magiares (era assim que os húngaros se chamavam) aceitaram
o Cristianismo sob o reinado de Estêvão I (997— 1038). Assim que se
tornou rei, ele fez seu voto a Maria, porém, mais tarde, os governantes
cristãos passaram a dedicar seus votos a Cristo. Estêvão se autodeno
minava kral, uma variante de Karl (ou Carlos), demonstrando com
isso o poder que ainda emanava do reinado de Carlos Magno. Uma
das metades de seu reinado consistia em um presente do papa Silves
tre II, enquanto a outra era um presente do governo bizantino. Esse
fato é um alerta para a estreita competição existente entre Ocidente e
Oriente que precedeu a aliança húngara com a igreja Ocidental.
DECLÍNIO E RENOVAÇÃO DA VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 465
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
II. RENASCIMENTO MONÁSTICO: CLUNY
A. Proteção e autonomia
Devido às invasões vikings, à falta de proteção e às influências
secularizantes, a vida monástica declinou junto a outros aspectos da
sociedade Ocidental. Os abades leigos eram frequentemente ordena
dos devido ao sentimento de que os monastérios precisavam de al
guém para defendê-los, mas esses abades nem sempre colocavam os
interesses espirituais em primeiro lugar. O centro a partir do qual a
renovação monástica do século 11 começaria era Cluny, fundada em
909/910.
William, o Piedoso, de Aquitânia, colocou Berno (abade 910—
927) a cargo da nova fundação monástica em Cluny. Ele desenvol
veu uma estrutura que estava destinada a exercer grande influência.
O monastério possuía autonomia, sob a proteção de Pedro e Pau
lo (de modo que nem mesmo o bispo de Roma tinha autoridade de
transferir a propriedade das terras a outra pessoa), com o propósito
de libertá-lo do controle do bispo local e dos nobres.
Embora não tenha sido o primeiro Monastério a contar com pro
teção papal, Cluny utilizou sua posição para exercer grande influên
cia. Operava sob a Regra de Bento. Depois de Berno, os monges deve
ríam eleger seu próprio abade. O longo mandato dos primeiros abades
mostrou a estabilidade da nova fundação. Q uatro dos seis primeiros
(com exceção de Berno e Aymard) foram venerados como santos.
B. Características de Cluny
1. Independência
O direito de eleição do abade pelos monges e a isenção da fiscali
zação episcopal e dos impostos tinham precedentes, mas se tornaram
comuns com o exemplo de Cluny.
Um cânon adotado em Calcedônia havia proibido os monges de
movimentarem-se livremente sem a permissão do seu bispo, e uma
preocupação im portante para Bento tinha sido stabilitas (“permane
cer no lugar”) — ambos com o objetivo de manter os monges ainda
mais sob controle.
466 HISTÓRIA DA IGREJA
Da esquerda para a direita:
Estátua de Venceslau, duque da Boêmia, diante do Museu Nacional, em Praga
Estátua de Estêvão, primeiro rei cristão da Hungria, em Budapeste
PRIMEIROS ABADES DE CLUNY Naquela época, entre
tanto, existia a necessidade
Berno 910-927 de maior liberdade, e isso
podia ser garantido ape
Odo 927-942 nas se os monastérios se
mantivessem sob a super
Aymard 942-954 visão “externa” de Roma
(sob as circunstâncias do
Maiolo (Mayeul) 954-994 século 10, uma autoridade
muito distante).
Odilo 994-1048
Hugo, o Grande 1049-1109
2. Categorias de m onges
Uma distinção logo se estabeleceu entre os monges laicos, que
eram sujeitos às regras do monastério, e os monges que eram sacerdo
tes. Originalmente, o monasticismo foi um movimento laico; tempos
depois, sacerdotes foram designados para ministrar educação a eles.
Nesse momento, as duas classes distintas de monges introduziram o
conceito de “clero regular”, ou seja, o clero que vivia por uma regra
monástica {regula). Além disso, havia servos para trabalhar a terra.
DECLlNIO e r e n o v a ç ã o d a v it a l id a d e n o OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 467
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
3. Ênfase na liturgia e no aprendizado
C ontando com terceiros para realizar as tarefas manuais, os
monges se tornavam supervisores dos bens que passavam a estar sob
sua posse. Eles preenchiam seu tempo com uma adoração mais elabo
rada. Devido ao interesse litúrgico, o monastério de Cluny é associa
do com o início de um novo evento no calendário da igreja, o Dia de
Todas as Almas, em 2 de novembro, subsequente ao D ia de Todos os
Santos.
C. A influência de Cluny
D urante o século 11, uma série de monastérios recebeu isenção
da jurisdição dos bispos, pela qual eles faziam um pagamento direta
mente a Roma, e associavam-se a Cluny. Desenvolveu-se uma forte
aliança entre o papado e o movimento cluníaco. O monastério de
cluny passou a ter sob sua liderança outros monastérios beneditinos
que haviam ficado isolados por muito tempo, e então foi formada
uma congregação de monastérios. Esses monastérios eram governa
dos por priores sob a autoridade do abade geral de Cluny, e assim
ele se tornou o centro de um movimento dentro do monasticismo
beneditino.
O sentimento de ser uma “igreja à parte” desenvolveu entre os
cluníacos uma consciência de ser a terceira força (que se somaria ao
papado e ao império) na cristandade. Uma congregação tão vasta de
veria demonstrar uma preocupação em relação a toda a sociedade.
O impacto de Cluny foi sentido em quatro áreas.
1. Reforma religiosa e monástica
A eleição direta para abades e priores se espalhou para outros m i
nistérios. M uitos monges cluníacos tornaram-se bispos, ao passo que
abades passaram a participar de sínodos diocesanos e provinciais. No
século 11, os papas Clemente II, Gregório VII e Urbano II foram
monges cluníacos. Muitas práticas e crenças pagãs foram mantidas
pelo povo (especialmente camponeses), por isso, ainda havia muitos
ensinamentos que bispos e monges precisariam transmitir.
468 HISTÓRIA DA IGREJA
2. Paz civil
A “Paz de Deus” e a “Trégua de Deus”, embora não tenham sido
produto de Cluny, foram bastante promovidas por esse monastério e
tornaram-se o primeiro movimento religioso popular na Idade Mé
dia. Seus termos faziam referência a decretos emitidos por vários con-
cílios entre os anos de 975 e 1040 com o objetivo de promover a paz.
Concílios de bispos, também frequentados por abades, reuniram-se.
Monges traziam suas relíquias de santos para servir como testemu
nhas celestiais dos acordos celebrados nos concílios e jurados por to
dos os nobres presentes. Multidões entusiasmadas atraídas pela pre
sença das valiosas relíquias amontoavam-se.
O primeiro desses encontros reuniu-
“[Nós] prescrevemos, -se em um campo aberto perto de Le Puy
de acordo com os em 975. O primeiro concilio ao qual so
Mandamentos de Deus e brevivem os cânones do movimento da
com a nossa lei, que nenhum Paz reuniu-se no mosteiro de Charroux,
cristão matará qualquer na Aquitânia, em 989. Tais decretos, muito
outro cristão, pois, sem semelhantes aos que se seguiríam, anuncia
dúvida, aquele que mata vam um anátema, a menos que fossem fei
um cristão está de fato tas reparações e compensações em relação
derramando o sangue àqueles que atacavam a igreja ou tiravam
de Cristo” (Concilio alguma coisa dela, àqueles que apreendiam
de Narbona, 1054). animais dos pobres e àqueles que roubavam
ou apreendiam algo de um clérigo desar
mado. Proteções similares foram estendi
das mais tarde a outras pessoas indefesas — viúvas, mulheres não
acompanhadas, peregrinos e mercadores — e a outros aspectos da
produção de alimentos. Com sua promessa de proteção para os fra
cos, a Paz de Deus foi um movimento popular em prol dos pobres
com implicações sociais, e, assim, opôs-se aos privilegiados.
A “Trégua de Deus” começou a ser praticada na década de 1030 e
atingiu sua expressão definitiva nos concílios de Aries, 1037— 1041.
Ela dava proteção a todas as classes em determinadas épocas — no
princípio, somente aos domingos, depois, de quarta-feira à noite até
segunda-feira e, em seguida, em festividades litúrgicas, de maneira
que, se cumprida, apenas 80 dias do ano seriam deixados para a guer-
DECLÍNIO E RENOVAÇÃO DA VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO ACCl
AO INÍCIO DO SÉCULO 11 4by
ra privada. Com o um comentário sobre os tempos, foi previsto o uso
de armas com o objetivo de reforçar a Paz e a Trégua, mas bispos e
nobres tomaram essas propostas como um meio de reduzir o derra
mamento de sangue e de limitar as contendas.
Aqueles que defendiam a Paz e a Trégua de Deus enxergavam
uma sanção religiosa por paz na terra como uma imagem da paz di
vina. Algumas dessas propostas, embora estabelecessem ideais, che
garam a alcançar certo sucesso do ponto de vista prático. O ímpeto
militar foi, mais tarde, canalizado para as Cruzadas, focalizando o
combate contra os inimigos da fé cristã e evitando o derramamento
do sangue de católicos. A Paz e a Trégua de Deus promoveram a ideia
de uma cristandade que transcendia as divisões políticas.
3. O clero celibatário
A Paz de Deus estava relacionada a um movimento de reforma
mais amplo, uma vez que os concílios que a promoveram também
decretaram cânones de reformas em relação ao celibato clerical e à
independência da igreja em relação a senhores seculares.
A conexão entre a Paz de Deus e a reforma clerical residia na pre
ocupação com a pureza da igreja em relação aos abusos que estavam
contaminando o clero: casamento e impureza, simonia e o uso de ar
mas. Os monges queriam impor castidade ao “clero secular”, que era
o clero que vivia no mundo. Eles chamavam a prática de casar-se do
clero de “nicolaísmo” (em referência a Apocalipse 2.6,15, versículos
tradicionalmente interpretados como uma referência à imoralidade
sexual) e chamaram as esposas dos clérigos de “concubinas”. Os sa
cerdotes que possuíam esposas, contudo, não as consideravam como
tais.
Existia uma tendência de que os filhos de casamentos envolvendo
sacerdotes herdassem igrejas paroquiais, o que resultava no envolvi
mento involuntário da igreja no sistema feudal, sem falar no signi
ficado espiritual de possuir ou não as qualificações necessárias para
exercer o serviço religioso.
As reformas de Cluny com seu desenvolvimento do monaquis-
mo sacerdotal procuravam impor o ideal do celibato a todo o clero
470 HISTÓRIA DA IGREJA
e tornar o não celibato uma questão de “heresia” para o clero. Esse
não foi um pensamento novo, uma vez que a legislação canônica an
terior do O cidente se opunha ao casamento de padres, mas isso não
vinha sendo seguido uniformemente nos últimos anos. A reforma
monástica trazia, então, uma nova pressão em favor do sacerdócio
celibatário, o que provocou oposição. Isso chegou a ser encarado
de uma maneira irônica, como no comentário de um escritor sobre
o celibato clerical: “Deus afastou os filhos dos bispos, mas o diabo
deu-lhes sobrinhos.”
4. A compra de ofício clerical
O termo “simonia”, originado da oferta de Simão Magno para
pagar aos apóstolos pelo poder de conferir o Espírito Santo (Atos
8.18,19) se refere à compra de dons espirituais. Entendia-se que a si
m onia era algo errado, mas havia incerteza sobre a sua natureza, e
assim os reformadores passaram a aplicar a palavra às práticas contra
as quais protestavam.
Em particular, os monges de Cluny aplicavam a palavra à prá
tica comum de pagar para receber um benefício. Os defensores de
oferecerem-se presentes ao proprietário de uma igreja ou mosteiro
viam isso como sinal de obediência ao senhor secular e distinguiam as
propriedades pertencentes à igreja do próprio ofício eclesiástico, uma
distinção negada por aqueles que queriam separar a igreja do controle
laico. Muitas pessoas com boas intenções pagavam conforme o costu
me geral de receber serviços, o que, muitas vezes, carregava consigo a
administração temporal e sua remuneração.
Por outro lado, clérigos que receberam pagamentos para admi
nistrar os sacramentos não encaravam isso como comercialização dos
dons do Espírito.
A palavra simonia foi posteriormente aplicada para designar tan
to o fornecedor de um ofício eclesiástico como o comprador, e esten
dia-se a qualquer compromisso relacionado a um ofício eclesiástico
por parte de um regente laico.
A reforma cluníaca, que defendia a independência da igreja,
opôs-se a essas práticas.
d e c l ín io e r e n o v a ç ã o d a VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 4 / 1a ~ 7 1
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
D. Desdobram entos relacionados
Outros movimentos de reforma surgiram. Na região da Lorena
(liderada por Gerard), da Borgonha e da Aquitânia, houve oposição
ao casamento do clero. N a Itália, a reforma encontrou expressão no
renascimento da religiosidade anacoreta (eremita). Pedro Damião
(veja mais abaixo) foi seu principal representante.
Os monastérios nos séculos 10 e 11 tornaram-se centros de cul
to a relíquias. Relicários (baús ou caixões, muitas vezes onerosos e
elaboradamente ornamentados, construídos para abrigar e exibir as
relíquias dos santos) foram criados, e prédios eclesiásticos maiores
passavam a ser exigidos nos monastérios, especialmente nas abadias,
para acomodar as multidões de peregrinos. Juramentos eram feitos
aos relicários; eles eram levados em procissões com a finalidade de re
pelir pragas, obter boas colheitas ou afastar um inimigo que se apro
ximasse.
A reforma da vida monástica, a renovação do culto dos santos e a
ampla construção e reconstrução de igrejas deram um forte senso de
renovação ao início do século 11.
III. RENASCIMENTO IMPERIAL
A liderança política na Europa Ocidental esteve por m uito tem
po com os francos, mas, depois das incursões vikings, passou para as
mãos dos alemães. (Com a eleição de Hugo Capeto como rei em 987,
a dinastia carolíngia foi substituída na França pelos capetianos, que
governaram até 1328.)
Cinco ducados (quando o governo é exercido por duques) na
Alemanha tornaram-se a estrutura básica do império — Saxônia,
Francônia, Lorena, Suábia e Baviera — a partir do qual o rei da Ale
manha foi escolhido. Além disso, o rei da Borgonha e o rei dos lom-
bardos faziam parte da estrutura do império.
A linhagem saxã de reis alemães (919-1024) começou com H en
rique I da Germânia, o Passarinheiro (ele estava falcoando quando
foi eleito), o que evitou uma coroação litúrgica. Seu filho, O tão I, o
Grande (936-973), deu início ao renascimento imperial que trouxe a
renovação cultural otoniana mais ampla dos séculos 10 e 11.
472 HISTÓRIA DA IGREJA
O tão I, o Grande, foi ungido e coroado rei em Aachen, sendo ins
talado no próprio trono de Carlos Magno. O arcebispo, ao entregar-
-lhe a espada, disse: “Receba esta espada para repelir os adversários de
Cristo, os bárbaros e os maus cristãos, como um símbolo da autori
dade divina que é conferida a você e para exercer o poder sobre o im
pério dos francos a fim de garantir a paz permanente da cristandade.”
Essas palavras resumem os reinados cristãos carolíngio e otoniano.
Não satisfeito em ser um “primeiro entre iguais”, O tão fortaleceu
a monarquia nacional. Ele atribuiu muita importância ao recebimen
to da coroação papal como imperador na Itália, que obteve em 962.
Q uando foi coroado pelo papa, ele reviveu o título imperial, com
base na teoria do nono século de que um imperador (ao contrário de
um rei) governava vários povos. Ele era o rei da Alemanha, da Lom-
bardia e, agora, Imperator augustus (não havia “romano” no título). A
dignidade imperial só se aplicou ao pequeno ducado de Roma, e, as
sim, O tão não reviveu o império de Carlos Magno em terras franco-
-ocidentais.
Otão liderou uma expedição à Itália em 951, mas uma rebelião
na Alemanha acabou impedindo que estabelecesse a sua autoridade
ali. Alberico governou Roma e entronou muitos papas, incluindo
seu imoral filho de 16 anos de idade, consagrado em 955 como João
XII, que estabeleceu aos papas o precedente de mudarem seus nomes.
Otão voltou à Itália em 961, e João X II coroou-o imperador em 962,
uma data significativa para as relações entre o papado e o império. Seu
acordo regulamentou a eleição do bispo de Roma: ele seria eleito pelo
povo e pelo clero da diocese; a eleição deveria ser anunciada ao rei da
Alemanha para aprovação antes da consagração.
O tão jurou honrar a autoridade papal e, depois de sua coroa
ção, confirmou e estendeu a concessão carolíngia dos estados papais.
João XII, no entanto, se deu conta de que O tão era muito poderoso
e, então, voltou-se contra ele. Otão, em seguida, depôs João X II em
um sínodo, e um novo papa, Leão VIII, foi eleito. O povo romano
permaneceu ao lado de João X II e revoltou-se, mas O tão subjugou a
população romana.
N a Alemanha, O tão I, o Grande, usava bispos e abades para ga
rantir a segurança de sua autoridade sobre os poderosos ducados. Ele
d e c l ín io e r e n o v a ç ã o d a v it a l id a d e n o OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 473
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
formou príncipe-bispados com prelados da igreja como parte inte
grante da estrutura do governo, promovendo a evolução gradual das
propriedades eclesiásticas em principados eclesiásticos. As arquidio
ceses da Alemanha ficavam em Trier, Colônia, Mainz, Salzburgo,
Hamburgo-Bremen (desde Luís, o Piedoso) e em Magdeburgo (pro
movida por Otão I em 962).
Otão fortaleceu a posição dos arcebispos e abades imperiais,
usando-os na administração do império, a fim de contrabalançar a au
toridade dos duques e dos condes. O controle das eleições de abades e
bispos passou quase inteiramente para as mãos do rei. Ele reconhecia
a equipe do pastor em sua consagração. Henrique III posteriormente
estendeu à cerimônia a outorga do anel do bispo (indicativo de que
o único cônjuge legítimo era a diocese do prelado). Entre os direitos
régios dados aos bispos estavam a cobrança de pedágios, cunhar di
nheiro, exercer poder judicial e fortificar suas cidades.
Nem todos os clérigos eram leais ao rei — alguns uniram-se a
uma revolta em 953 —, mas, em geral, os bispos eram pilares de sus
tentação real. Clérigos eram nomeados a partir da nobreza. Luís, o
Pio, havia nomeado servos, porque eram mais piedosos, mas isso não
foi feito de novo até Henrique II, que os nom eou por serem mais
complacentes.
Os mosteiros continuaram a oferecer educação baseada nas Es
crituras e nas sete artes liberais. O mosteiro de St. Gallen (Suíça) era
um centro de ensino sob a autoridade de O tão e seus sucessores. Nos
séculos 10 e 11, as escolas catedráticas passaram a acentuar a ênfase
em costumes, maneiras e conduta, de modo que a educação passou
a resumir-se na combinação de “letras e costumes” (ou literatura e
conduta, aprendizagem e virtude).
Bruno, que terminou sua carreira como arcebispo de Colônia
(953-965) e era irmão de O tão I, desempenhou um papel pedagó
gico semelhante em círculos otonianos ao de Alcuíno na corte de
Carlos Magno, exceto pelo fato de sua atividade centrar-se mais na
formação de clérigos para o serviço público do que para seus deve
res religiosos. As escolas catedráticas preparavam eclesiásticos para o
serviço em uma igreja imperial com frequentes negociações no m un
do secular. Uma sequência comum no contexto otoniano era seguir
474 HISTÓRIA DA IGREJA
de uma escola catedrática para uma capela tribunal e, posteriorm en
te, para um bispado.
Em três regiões, O tão I, o Grande, exerceu a atividade de missio
nário com interesses territoriais: entre os magiares (atual Hungria),
que ele derrotou em Lechfeld em 955; os nórdicos (subjugando a atu
al Dinamarca), e os eslavos (leste da Saxônia). O papa perm itiu que o
rei cuidasse da organização eclesiástica nessas áreas.
Os contatos diplomáticos com o império oriental, incluindo o
casamento de Otão II com a princesa bizantina Teofânia, abriram o
caminho para a influência bizantina na arte otoniana, especialmente
vista nos afrescos em igrejas e em iluminuras de manuscritos bíblicos
e litúrgicos.
O tão II (973-983) foi agraciado com o título de “Imperador R o
mano”. Ele o fez em clara oposição ao imperador bizantino Basílio
II (cujo título era o de “Imperador Romano”). O título permaneceu
com seus sucessores. Em segundo plano, notava-se a contínua influ
ência da interpretação do quarto reino em Daniel 7 como Roma,
uma interpretação que remontava a Hipólito e Jerônimo. Pairava a
sensação de que o nome deveria ser mantido para que o reino fosse
duradouro.
O reinado de O tão III (983-1002) foi significativo para as rela
ções Igreja-Estado. Ele nomeou o primeiro papa alemão, seu primo
Bruno, como Gregório V, e o primeiro papa francês, seu tutor Ger-
bert, como Silvestre II.
Com Conrado II (1024-1039), a dinastia saliana (1024-1125)
sucedeu os saxões como governantes alemães. Sob sua autoridade,
por volta de 1034, o título de “Império Romano” entrou em uso para
todas as terras sob o domínio do imperador alemão.
O imperador Henrique III (1039-1056), que já não se denomi
nava “rei dos alemães”, mas “rei dos romanos”, estabeleceu uma co
nexão entre o reavivamento monástico e o renascimento imperial,
pois era casado com a filha do duque da Aquitânia, cuja família havia
fundado Cluny, e ele próprio era um governante verdadeiramente re
ligioso e um grande patrono da ordem cluníaca.
Henrique III também estabeleceu outra conexão entre o renasci
mento imperial e o ressurgimento papal, uma vez que removeu três
DECLÍNIO E RENOVAÇÃO DA VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO ._ P
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
4 75
papas rivais e substituiu-os por seus próprios candidatos no cargo.
Essa situação ocorreu porque, em Roma, na primeira metade do sé
culo 11, repetiu-se o que aconteceu na primeira metade do século 10,
quando o papado afundou novamente em uma condição miserável.
Bento IX (1032-1044) tinha apenas 18 anos de idade quando foi
indicado para o papado, tendo se saído m uito mal. Ele foi expulso de
Roma, mas conseguiu retornar posteriormente e assumir a igreja de
S. João de Latrão. Silvestre III era bispo de Sabina quando veio a ser
eleito para substituir Bento em 1036; ele ocupou a Basílica de São Pe
dro no Vaticano. Gregório VI (1043-1046), oriundo de uma família
de convertidos do judaísmo, decidiu resgatar o papado. Ele comprou
a função por 1.000 libras de prata, pagas a Bento, que, em seguida,
tentou recuperar a sua posição. Gregório ocupou a basílica de Santa
Maria Maggiore.
O imperador Henrique III convocou três sínodos em 1046: em
Pavia, em Sutri (onde Gregório VI abdicou e Silvestre III foi destitu
ído do cargo) e em Roma (onde Bento IX foi deposto). Henrique III
assegurou ao povo romano o direito de designar o bispo de Roma.
Com o governante reformista, Henrique III fez oposição ao nico-
laísmo e favoreceu o celibato. Ele tom ou essa posição não apenas para
salvaguardar a pureza da igreja, mas também para controlar benefí
cios eclesiásticos que, de outra forma, seriam herdados pelos filhos
do clero casado. Os papas favoreceram o celibato não só por razões
religiosas de longa data, mas também para evitar um sacerdócio here
ditário que afundaria a igreja ainda mais no feudalismo (capítulo 20).
Tanto o imperador como os papas eram opositores da simonia,
mas os governantes sentiam-se obrigados a nomear bons homens
para o ofício, enquanto os papas justos tinham de opor-se às nomea
ções dos governantes no interesse da independência da igreja.
IV. RENASCIMENTO PAPAL
Até meados do século 11, a influência efetiva do papa, embora te
oricamente cabeça da cristandade ocidental, era, em grande parte, pro
vincial. O renascimento papal que ocorreu nessa época marca o início
de um processo de mudanças que transformou a teoria em realidade.
476 HISTÓRIA DA IGREJA
O imperador Henrique III nomeou Suidger, o bispo de Bam-
berg, para a posição de Papa Clemente II (1046-1047), seguido por
Dâmaso II (1048). O ano de 1046 deu início a uma nova era na histó
ria da igreja. Os papas começaram a tomar novos nomes, e um grande
número de “segundos” começou a ocorrer: V ítor II (1055-1057), Ni-
colau II (1058-1061), Alexandre II (1061-1073) e Urbano II (1088-
1099), iniciando uma série de oito papas consecutivos que usaram
o complemento “segundo”. Formava-se uma consciência de que algo
novo estava acontecendo.
Em 1049, surgiu um grande papa, Leão IX (1049-1054). Ele era
um produto dos esforços de reforma em Lorena, que haviam partido
do clero secular, e tinha sido bispo de Toul. Ele não concordou com
a ideia de tornar-se papa sem a devida eleição pelo clero e pelo povo
de Roma.
Leão IX trouxe consigo para a administração da igreja os seguin
tes associados:
1. Frederico de Lorena — arcebispo de Liège e irmão de G odo-
fredo, duque da Toscana e segundo cônjuge de Beatriz (dan
do início à aliança da Toscana com o papado), que se tornou
chanceler de Leão, então abade de M onte Cassino e, final
mente, Papa Estêvão IX.
2. H um berto — de Lorena, um monge cluniacense convicto de
que Cluny havia comprometido os ideais de seus fundadores e
que veio a tornar-se cardeal.
3. Hugo, o Branco — monge (e, em seguida, cardeal) que, mais
tarde, voltou-se contra a reforma.
4. Hildebrando — nomeado arquidiácono das finanças papais,
o qual mais tarde tornou-se o papa Gregório VII.
5. Pedro Damião, que veio a tornar-se cardeal sob o dom ínio de
Estêvão IX. Pedro Damião foi importante como autor e elo
quente porta-voz do ascetismo. Ele promoveu o celibato do
clero e sua separação do envolvimento secular, porém foi mais
moderado em sua abordagem do que Hildebrando.
O colégio de cardeais foi criado a partir do antigo conselho con
sultivo presbiteral do bispo de Roma. Escolhidos entre 736, sete bis
pos de sés suburbanas (Ostia, Porto, Alvano, Sabina, Túsculo, Fras-
DECLÍNIO E RENOVAÇÃO DA VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 477
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
cati e Palestrina) faziam parte do conselho consultivo ordinário do
papa. Os arciprestes das igrejas titulares e de outras igrejas de des
taque tornaram-se os padres cardeais, enquanto 18 diáconos foram
incluídos no cardinalato.
Sob o regime de Leão, os cardeais tornaram-se mais instituciona
lizados como um “senado da igreja romana”, porém com menos im
portância para a liturgia e a vida espiritual de igrejas romanas indivi
duais e mais importância em relação a servirem como assistentes dos
papas. A estratégia de Leão foi colocar nessas posições o máximo que
pudesse de colegas reformadores de Lorena. Embora sobrevivesse o
sentimento de que um bispo estava casado com sua igreja original e
que não deveria ser transferido, Leão internacionalizou o cardinalato.
Com base no modelo do imperador alemão nas assembléias im
periais, Leão IX saiu a campo para convocar sínodos e concílios lo
cais, para julgar disputas e promover a reforma. Ele elaborou a ideia
de autoridade petrina do papado e defendeu o celibato para o clero e
a eleição canônica de prelados.
A primeira política de Leão na Itália foi dirigida não contra os
sarracenos ou bizantinos, mas contra os bárbaros normandos que vi
nham sendo uma ameaça no sul da Itália desde 1016. Leão reclamou
essa área como parte do patrim ônio de Pedro com base na Doação
de Constantino. Ele criou a primeira bandeira papal e levou-a para a
batalha, mas suas tropas foram derrotadas em 1053, e ele foi mantido
em cativeiro por nove meses. Sua ação militar alarmou o imperador
bizantino, que estava preocupado com as propriedades bizantinas no
sul da Itália.
O restante da história do papado renovado pode ser narrado em
termos da ruptura na comunhão com a igreja grega (a seguir) e da
Controvérsia das Investiduras (capítulo 20).
V. CISMA ENTRE OCIDENTE E ORIENTE (1054)
A figura homóloga a Leão IX na igreja grega era Miguel Cerulá-
rio, Patriarca de Constantinopla (1043-1058). Ele foi um patriarca
particularmente assertivo, mas, em muitos aspectos, parecido com
478 HISTÓRIA DA IGREJA
Leão IX — interessado na independência da igreja, preocupado
em manter um alto ideal de seu oficio e em promover a educação.
Miguel era ambicioso em relação à extensão da dignidade bizan
tina. Recordando os papas do século anterior, ele encarava a igreja
romana como rude e bárbara. Quando Leão IX foi capturado pelos
normandos, Miguel ordenou que os bizantinos na Itália se abstives-
sem de ajudar os romanos e fechou as igrejas no O riente que usavam
a liturgia latina.
Miguel atuava de acordo com a teoria oriental de um império
com um imperador, e da igreja como um corpo no qual os cinco sen
tidos fossem representados pelos cinco patriarcas.
A realidade, no entanto, foi que, após o cisma fociano no nono
século, o vínculo entre o O riente e o Ocidente nunca mais se forta
leceu. Havia diferenças de linguagem, caráter nacional, organização
eclesiástica, liturgia e teologia. Tais diferenças eram mais em termos
de ênfase do que de contradições.
A Igreja Oriental percebia a si mesma a partir da assembléia local
unida na comunhão eucarística, nos sacramentos e nos credos ecu
mênicos. Por outro lado, a Igreja Ocidental definia-se mais em ter
mos de direito canônico e de submissão hierárquica a uma liderança
monárquica.
A essas diferenças, haviam sido adicionadas graves complicações
políticas: a perda do controle bizantino no centro e no norte da Itália,
a aliança dos papas com os francos, a formação dos estados papais em
detrimento de Constantinopla, o renascimento do império ocidental
sob o domínio de Otão I e a perda do território bizantino no sul da
Itália para os normandos no início do século 11, que interrom peu a
última ligação geográfica entre Oriente-Ocidente e a política militar
otoniana e, depois, papal no sul da Itália.
A questão da autoridade sobre o sul da Itália e os diferentes p on
tos de vista sobre o primado de Roma preocuparam Miguel, que foi
capaz de habilmente manipular o sentimento popular de tal maneira
que o longo e ameaçador cisma entre Roma e Constantinopla pare
ceu ser quase que inteiramente obra sua.
Miguel atacou os latinos como heréticos por uma variedade de
razões. A igreja latina usava pão ázimo na eucaristia (os gregos, argu
DECLÍNIO E RENOVAÇÃO DA VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 479
AO INlCIO DO SÉCULO 11
mentando que os Evangelhos usam a palavra correspondente a pão
comum nos relatos da Última Ceia, preferiam usar o pão fermenta
do), tornando-os iguais aos judeus. Eles forçaram o celibato a todo
o clero. Retratavam Jesus Cristo como um Cordeiro (por causa da
encarnação, Ele deveria ser retratado como um homem). Cantavam
Aleluia somente na Páscoa, om itindo-a na Quaresma. Eles não proi
biam o consumo de carne sufocada (os alemães gostavam de salsichas
de sangue!).
A questão da adição da cláusulafilioque ao Credo Niceno, critica
da por Fócio, desempenhou apenas um papel secundário na disputa
anterior ao século 12.
Tais diferenças persistiram por algum tempo. Porém, mais im
portante que todas as diferenças, fossem elas políticas ou religiosas,
entre Oriente e Ocidente foi a perda da vontade de unidade. Onde
essa vontade de unidade está presente, grandes diferenças podem ser
superadas; quando ela está ausente, por menores que sejam as dife
renças, tudo se torna motivo para divisão.
Leão IX respondeu aos ataques de Miguel com cartas dissertati-
vas: In terra p a x e More romano. Nesses tratados, Leão argumentava
que uma variedade de costumes poderia coexistir e que, como conse
quência, não pretendia fechar as igrejas gregas em território romano.
Entre os costumes gregos que ele considerava censurável, encontra-
vam-se o casamento clerical, o rebatismo dos romanos por gregos, a
espera até o oitavo dia antes de batizar crianças, o fato de Miguel usar
o título “patriarca ecumênico” e suas reivindicações de autoridade
sobre os patriarcas de Alexandria e Antioquia.
Leão IX insistiu em que Roma era a igreja-mãe, e as igrejas que
não se unissem a ela seriam sinagogas de Satanás. Constantinopla,
segundo ele, era filha de Roma. Além disso, Leão destacou as heresias
que alguns patriarcas de Constantinopla haviam abraçado, em con
traste com os sucessores de Pedro, que jamais poderíam abandonar
a fé. Leão IX incluiu um apelo aos Decretos Pseudoisidorianos para
apoiar suas reivindicações ao bispo romano.
O Imperador Constantino X (1042-1054) promoveu esforços de
reconciliação. Leão IX enviou mais duas cartas: uma para o impe
rador apelando por ajuda contra os normandos e uma para Miguel,
480 HISTÓRIA DA IGREJA
referindo-se aos erros cometidos por este e incluindo o uso do falso
título de “patriarca ecumênico”. Os administradores da igreja romana
(a cúria), visando à rejeição do título de “patriarca ecumênico” e à
aceitação do primado romano, enviou uma delegação de três repre
sentantes ao imperador: Humberto, Frederico de Lorena e Pedro de
Amalfi.
H um berto era um especialista em autoridade papal. Ele alega
va que a Sé Apostólica de Roma era a fonte e a norma a ser seguida
por toda a lei da Igreja e defendia a liberdade da igreja em relação ao
controle leigo. H um berto escreveu Diálogo entre um romano e um
Constantinopolitano, no qual defendeu o celibato do clero não como
uma questão de disciplina, mas de fé (qualquer casamento sacerdotal
deveria ser considerado “concubinato”) e afirmou que sacramentos
administrados por clérigos casados eram inválidos.
Uma obra posterior de H um berto, Contra os simoníacos, em três
volumes, trazia uma afirmação semelhante: qualquer clérigo nomea
do çara um cargo por um leigo, não im porta quão honestamente, não
poderia administrar sacramentos válidos, uma doutrina que reviveu
o ponto de vista do donatismo, que fazia a validade dos sacramentos
depender do status do administrador.
Nicetas, um monge no mosteiro de Estúdio, escreveu contra o
uso romano dos pães ázimos, e H um berto, irritado ao responder, ata
cou o monge. O imperador foi para Estúdio e insistiu em que Nicetas
recolhesse as cópias de seu livro e as queimasse. Essa foi a atmosfera
em que a delegação papal chegou a Santa Sofia em 1054 e colocou
em seu altar-mor uma bula de excomunhão contra Miguel Cerulário
e seus seguidores, declarando ortodoxos o imperador e as pessoas de
Constantinopla.
Miguel requereu uma conferência com os três legados. Eles fica
ram temerosos com essa convocação e rogaram pela presença do im
perador, um pedido que foi recusado com o argumento de que apenas
questões eclesiásticas estavam em jogo. Os legados, levando presentes
do imperador ao papa, deixaram Constantinopla, mas Miguel emitiu
uma contraexcomunhão dos legados papais e de seus apoiantes. Leão
IX, no entanto, havia falecido alguns meses antes sem saber que a
excomunhão tinha sido consumada.
DECÜNIO E RENOVAÇÃO DA VITALIDADE NO OCIDENTE - DO NONO SÉCULO 481
AO INÍCIO DO SÉCULO 11
O fato é que já tinha havido rupturas na comunhão entre Roma e
Constantinopla antes — especialmente, como afirma a terminologia
da igreja ocidental, o cisma acaciano (482-519), o cisma m onotelita
(646-681) e o cisma fociano (869-880). Depois de dois séculos, ha
via chegado a hora para mais uma ruptura da comunhão, e não havia
razão para pensar que esta não viría a ser corrigida da mesma maneira
que as anteriores.
Além disso, como as excomunhões não se aplicavam às suas res
pectivas igrejas como um todo, e nem mesmo a seus líderes, ao papa e
ao imperador, pouco m udou nas relações entre as duas igrejas duran
te algum tempo. N o entanto, as recriminações tornaram-se mais ve
ementes, assim como o senso de um maior distanciamento. O cisma
permanece sem cura, embora, em 1965, o Papa Paulo VI e o Patriarca
Atenágoras tenham cancelado as excomunhões de 1054.
Desde o século sexto, tornou-se necessário contar a história das igre
jas romana e grega separadamente. Com o afastamento entre as duas
igrejas, nossa linha narrativa da história acompanhará a evolução da
igreja no Ocidente e incluirá temas sobre o Oriente principalmente
para registrar as respectivas interseções históricas.
LEITURA COMPLEMENTAR
E V A N S, ]onn. MonasíicLife a t Cluny, 910-1157. Hamden, C T:
Archon, 1968.
R U N C IM A N , Steven. The Eastern Schism: A Study o f the Pa-
pacy and the Eastern Churches during the X lth and X llth Centuries.
Oxford: Clarendon, 1955.
0 movimento de Reforma
Papal e a Primeira Cruzada
Dois temas dominaram a história da Igreja ocidental no final do
século 11 e início do século 12: os esforços inspirados pelo papado
para reformar a Igreja e libertá-la do controle secular, e a reunião de
governantes seculares pelo papado para realizar uma reconquista ar
mada da Terra Santa do domínio dos muçulmanos.
A consequência foi o conflito entre o papa e o imperador a res
peito das nomeações de leigos (príncipes seculares dando aos cléri
gos os símbolos de seus cargos). O movimento de Reforma Papal fez
surgir novamente a teoria papal do império como o braço secular
da igreja. Q uando a igreja — defendendo o princípio da indepen
dência — se opôs a nomear bons homens para cargos eclesiásticos,
preferindo os leigos piedosos, os sentimentos foram condicionados a
tornar-se amargos, porque, originalmente, foram essas nomeações de
governantes leigos piedosos que mostraram à igreja sua missão.
A outra vertente das relações entre Igreja e Estado consistia no
fato de que a igreja precisava do apoio dos governantes seculares, es
pecialmente na medida em que as energias belicosas dos nobres oci
dentais se redirecionavam para a causa religiosa das Cruzadas.
O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 483
I. O PAPADO E GREGÓRIO VII
Após a morte de Leão IX em 1054, por um tempo, pareceu pos
sível que os ganhos da reforma fossem perdidos, mas os reformadores
mantiveram-se focados em suas metas. Notável para o futuro foi o
pontificado de Nicolau II (1058— 1061), o primeiro papa, ao que
parece ter sido coroado como rei ou imperador. Os Decretos de Pseu-
doisidoro foram firmemente tecidos no direito canônico por volta do
século 11, e Nicolau II neles permaneceu. Em suas relações exterio
res, o princípio da guerra santa exercido por Leão IX foi reconhecido
como parte da política papal, as relações com Toscana prosseguiu, e
a paz foi conquistada com os normandos, que agora controlavam as
antigas terras bizantinas do sul da Itália e Sicília.
O decreto de Latrão de 1059 confirmou a afirmação de Leão acer
ca da independência papal do poder real e dos regulamentos emitidos
para a eleição do papa, com algumas modificações na “constituição
mais antiga do m undo” ainda em vigor. A eleição do papa deveria ser
realizada pelos bispos cardeais, confirmada pelos cardeais presbíteros
e diáconos (posteriormente, todos os cardeais tinham uma opinião
igual na eleição do papa — veja o capítulo 22 sobre o Concilio de
Latrão em 1179) e ratificada pelo povo de Roma. Uma notificação
deveria ser enviada ao imperador. O papa poderia ser escolhido fora
da cidade de Roma, com a possibilidade de vir de qualquer lugar da
igreja, e tomava posse imediatamente após a eleição. Esse decreto es
tabeleceu o direito exclusivo dos cardeais de eleger o papa e reduziu o
papel desempenhado pelo “clero e povo” (isto é, a nobreza de Roma
e do imperador).
A situação política na Itália e na Europa introduziu novos fato
res e acrescentou novas dimensões a aspectos antigos em relação à
autoridade papal desde os tempos dos “Grandes” — Leão, Gregório
e Nicolau. Esses fatores incluíram: (1) a jurisdição territorial sobre
os estados papais, que impediu o surgimento de um único governo
italiano e proporcionou ao papa certa porção de independência polí
tica; (2) o direcionamento a uma política para equilibrar os poderes
dos governantes seculares na Itália; (3) a consolidação do feudalismo,
que confirmou a compreensão hierárquica da igreja; e (4) o papado
484 HISTÓRIA DA IGREJA
como forma de permitir uma fonte vantajosa de arbitragem, como
um “tribunal de mediação” para a Europa.
A renovação papal atingiu seu clímax na época de Hildebran-
do, Gregório VII (1073— 1085). Ele foi vinculado aos esforços de
Gregório VI para resgatar o papado (capítulo 19), motivo pelo qual
escolheu esse nome. Com o arquidiácono e diplomata no reinado de
Alexandre II (1061 — 1073), já era a verdadeira autoridade na corte
papal. D urante o funeral de Alexandre II, as pessoas tomaram Hil-
debrando e o levaram para ser empossado como papa, uma ação que,
mais tarde, foi ratificada pelos cardeais. Essa atividade não foi canô
nica, de acordo com a constituição que Hildebrando auxiliara a pro
mulgar sob o governo de Nicolau II, e seria usada contra ele, depois,
em sua contenda com o rei Henrique IV.
Gregório VII era um homem com uma forte convicção a respei
to de seu chamado divino, portanto, ele agia por motivação moral
e religiosa e possuía firmes compromissos com a justiça e com a sé
de Pedro. Ele teve uma visão turva do estado da igreja em seu tem
po. Mesmo assim, com confiança inabalável em suas convicções, ele
fez reinvindicações agressivas e rígidas pela autoridade papal e pelos
direitos da igreja. Dessa forma, Gregório foi uma figura-chave no de
senvolvimento da monarquia papal. Ao prosseguir com seu progra
ma de reforma da igreja, ele tinha três fontes de apoio político: os
normandos no sul da Itália, os interesses comerciais no norte da Itália
e os condes de Toscana, na Itália central.
Gregório manteve um arquivo de autoridades legais relativas a
atribuições do papa. Em 1075, um resumo, ou talvez uma “tabela
de conteúdos” dessa coleção, foi copiado no registro de suas cartas.
Gregório foi um canonista, e essas 27 declarações, conhecidas como
Dictatus Papae, serviram como índice para os princípios da suprema
cia papal. As reivindicações expressas nesse documento eram a base
de sua política para a igreja oriental, o imperador e eclesiásticos que
eram indisciplinados.
Gregório I exerceu uma primazia espiritual, e Gregório VII rei
vindicou, também, um poder supremo secular. Posteriormente, ou
tros papas tiveram, de fato, mais autoridade, mas não houve necessi
dade de estender as afirmações de Gregório VII.
0 MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 485
AFIRM AÇÕ ES DO D IC TA TU S PAPAE
(Declarações selecionadas e organizadas por tópicos)
Preeminência da sé romana
1. A igreja rom ana foi fundada a p e n a s por Deus.
2. Som ente o bispo de Rom a será cham ado de universal.
Privilégios especiais dos papas
8. A penas o papa pode usar insígnias im periais (por exem plo, tiara e tapete
verm elho que foram tom ados em prestados da Pérsia pelo im perador D iocleciano).
9. Todos os príncipes devem beijar seus pés, e som ente os seus.
Infalibilidade da igreja romana
22. A igreja rom ana nunca errou, nem nunca errará de acordo com as Escrituras.
2 3 .0 papa, se canonicam ente ordenado pelos m éritos de Pedro, torna-se santo.
26. Ninguém poderá ser considerado católico se não concordar com a igreja romana.
Jurisdição papal
4. Seus legados têm precedência sobre todos os bispos no concilio e podem dar
sentenças de excomunhão.
7. O papa tem o poder de fazer leis, se necessário.
16. Nenhum sínodo pode ser cham ado de ecum ênico, exceto com sua perm issão.
17. N enhum a d e claração legal nem qualquer livro canônico poderão ser aceitos sem
sua autoridade.
Autoridade sobre os bispos
3. Só o papa tem poder para destituir ou reconciliar bispos.
1 3 .0 papa pode transferir um bispo para outras dioceses, em caso de necessidade.
Autoridade na adjudicação
18. A penas o papa pode revisar qualquer um a de suas frases.
1 9 .0 papa não pode ser julgado por alguém .
20. N inguém ousa condenar alguém que recorreu à sé apostólica.
Direitos papais no tocante a governantes seculares
1 2 .0 papa pode destituir im peradores.
2 7 .0 papa pode absolver os súditos que quebrarem a lealdade devida a governantes
ím pios.
486 HISTÓRIA DA IGREJA
II. CONTROVÉRSIA DA INVESTIDURA
O conflito entre o Papa Gregório VII e o rei Henrique IV da Ale
manha foi tão im portante para o futuro rumo da igreja, do papado
e das relações Igreja-Estado que revelou as circunstâncias da época e
prendeu a atenção de pessoas outrora, merecendo, assim, ser contado
em detalhes.
Apesar de seu nome, o conflito envolveu mais do que investidura.
Duas concepções de longa data, mas contrastantes quanto a esferas
religiosas e políticas, entraram em confronto: a igreja como livre, mas
sob a supervisão do estado superior (ponto de vista real) versus a igre
ja como independente e adiada pelo Estado (ponto de vista papal).
Em outras palavras, dois líderes da cristandade sustaram dois
pontos de vista diferentes de reinado: para Gregório, era um cargo
político sujeito ao papa; para Henrique, era um cargo teocrático exer
cido por alguém designado rei pela graça de Deus, liturgicamente un
gido, que servia como mediador entre o povo e o clero.
Seu conflito veio à tona na cidade de Milão por causa da esco
lha do bispo da cidade. A situação complicou-se, porque patarenes
(“mendigos”) opuseram-se ao bispo e ao clero por sua corrupção e
frouxidão moral; Gregório VII apoiou-os contra o candidato real.
Milão tornou-se um caso de teste para o qual o ponto de vista preva
lecería.
A verdadeira questão sobre o que veio a ser chamado de “C ontro
vérsia da Investidura” foi, portanto, a relação da autoridade espiritual
e da secular. O rei/im perador alemão reivindicou a autoridade como
representante dos leigos, e o papa exigiu obediência até mesmo por
parte do imperador.
A controvérsia foi reduzida à prática da “investidura laica” (con
cessão de cargos espirituais na igreja por governantes leigos), e o com
promisso de solucionar a disputa ficou nesses termos.
Em seus livros de teologia e de direito canônico, os alunos apren
deram sobre a maldade da “simonia” (definida como o que recebe n o
meação para cargo espiritual de governantes seculares), a necessidade
de celibato do clero e a supremacia da sé romana. Os séculos 11 e 12
presenciaram a tradução dessas teorias antigas em algo semelhante à
prática com a criação da monarquia papal.
O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 487
Na guerra propagandista entre o papado e o império, a oposição
papal tinha clareza e coerência: o espiritual é superior ao secular, e o
papa representa a autoridade espiritual. A posição imperial tinha tra
dição e conveniência política por trás: Por que a igreja está aborrecida
agora? Por que não continua a fazer o que tem feito sempre ?
A. Contexto do conflito
O bispo Adalberão de Laon, em 1015, identificou três classes da
sociedade: clero, cuja tarefa era orar; militares, cuja tarefa era guer
rear; e camponeses, cuja tarefa era produzir alimentos. Essa foi uma
classificação simplista, mesmo para a época, mas, durante o século 11,
as relações dos elementos na sociedade tornaram-se mais complexas.
As definições de cleros e leigos, por exemplo, passaram por um p ro
cesso de refinamento. O clero tornou-se mais distinto do que o leigo,
e, ao longo do pior declínio do papado, uma terceira força surgiu:
a congregação de Cluny, com seus padres monásticos. Em Roma, a
“plebe” não era formada por pessoas como um todo, mas por aristo
cratas. Fora de Roma, os leigos eram condes e reis; um tipo especial
de leigo era o rei alemão, eleito pelos duques e ungido pelo papa.
A igreja estava muito envolvida na parte social, econômica e polí
tica, cujo nome moderno é feudalismo (defeudum , a posse de um pre
sente que traz obrigações). O feudalismo tornou-se mais claramente
delineado na França dos séculos 10 a 11 e, a partir dali, propagou-se.
As interpretações modernas diferem, mas três elementos no feu
dalismo podem ser identificados: o elemento social do senhorio e da
vassalagem (que eram as palavras medievais para essa relação), o ele
mento econômico da propriedade (um feudo) e o elemento político
do governo descentralizado e a lei (os quais forneceram a definição e
a necessidade desses mecanismos).
Um elemento-chave nessa relação, a vassalagem, é confirmado
no oitavo século: um senhor protegia seu “hom em ”, que, como um
vassalo, auxiliava seu protetor. Desde o final da época dos carolíngios,
o dever de trabalhar tornou-se associado não apenas à pessoa, mas à
concessão de terra, e esse último ficou conhecido não como o usu
fruto temporário dos produtos de uma propriedade, mas como uma
dádiva completamente definitiva.
488 HISTORIA DA IGREJA
O feudalismo remete, assim, à relação pessoal entre duas pessoas
com status de cavalheiro ou nobre (e, socialmente, da classe alta), na
qual uma concede à outra propriedades geradoras de renda (em geral,
terra), o feudo, em troca de várias formas de assistência. A vassalagem
afetou todos os níveis superiores da sociedade: o nobre adquiriu seu
feudo de um barão, o barão, seu feudo de um conde, e o conde, seu
feudo do rei.
A cerimônia de homenagem selava o relacionamento, o vassalo
recebia um feudo ou benefício e uma promessa de proteção, por meio
da qual se comprometia em servir ao seu senhor. N o final do século
11, a cerimônia desenvolvida incluía uma promessa pelo vassalo ajoe
lhado, sem armas, colocando suas mãos juntas entre as mãos de seu se
nhor, que o levantava e o beijava. (As mãos estendidas colocadas jun
tas é aparentemente a origem do gesto que veio a simbolizar a oração.)
O senhor tinha de defender seu “servo”, dar-lhe presentes, recebê-
-lo à mesa, criar seus filhos e dar suas filhas em casamento, se necessá
rio fosse. O vassalo fornecia ao senhor ajuda financeira, hospedagem,
serviço militar e aconselhamento. Q uando um feudo passava a ser
posse da igreja, esta efetuava uma compensação financeira pela perda
de serviços.
Muitas pessoas tiveram terras requeridas pela igreja ou por um
mosteiro, de m odo que os bispos e os abades herdaram obrigações
com o feudo e tornaram-se grandes senhores feudais, com servos que
trabalhavam na terra. Homens ambiciosos e gananciosos desejavam
esses altos cargos na igreja, os quais tinham o controle de expressivas
participações nela, que eram bem mais do que funções espirituais.
Além disso, os nobres tinham controle sobre a escolha de bispos
e abades, porque, a menos que eles aceitassem uma pessoa como vas
salo, podiam reter a posse das terras associadas a esses cargos. Muitas
vezes, uma capela privada do nobre (eigenkirche, “igreja privada”) ser
via de igreja para o vilarejo, mas o nobre queria manter-se na escolha
do padre.
O movimento de reforma nos séculos 11 e 12 tentou remover
esses locais de culto dos leigos e dá-los aos bispos. Os proprietários
de terras preferiam, caso devessem entregá-las, cedê-las aos mosteiros
em troca de orações dos monges pelas suas almas. Os oficiais da igre-
0 MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 489
ja, além disso, assumiram muitas funções civis no colapso do império
ocidental e, por isso, tinham obrigações para com os governantes civis.
A Igreja e o Estado, portanto, foram entrelaçados em uma grande
variedade de funções sociais. Cada governante secular era dependen
te de recursos e pessoal da igreja. Todos os departamentos adminis
trativos e de secretariado eram compostos por clérigos, e assim foi
pavimentado o caminho para a eventual mudança do significado da
palavra “clérigo” para aquele que exercia funções “clericais”. A renda
de terras da igreja era im portante para governantes civis e eclesiásti
cos. Os reis e outros governantes julgavam que eles devessem ser capa
zes de escolher seus próprios sacerdotes, mas a igreja não achava que
deveria aceitar abades escolhidos por razões políticas.
A “investidura leiga” foi o assunto problemático sobre o qual a
luta acerca de interesses conflitantes e pontos de vista opostos foi
travada. A expressão significou, tecnicamente, a atribuição das in
sígnias do ofício eclesiástico, como o anel e o cajado dos bispos, aos
governantes seculares. (O anel simboliza a união do bispo com sua
igreja, e o cajado, seu ofício como pastor.) Observou-se que a dupla
função dos clérigos, muitas vezes inconsistentes entre si, gerou um
conflito inevitável, mas, ao mesmo tempo, sem solução, uma vez que
nem a Igreja nem o Estado poderiam dar-se ao luxo de perder seus
serviços.
Quatro ações foram tomadas para lidar com direitos e privilégios
do cargo eclesiástico, mas essas ações não foram tão claramente nota
das no século 11 como vieram a ser posteriormente. Ivo de Chartres
(1040— 1116), um aluno de Lanfranco, em Bec, bispo de Chartres
de 1090, e um canonista, cujo Decretum e Panormia influenciaram o
desenvolvimento do direito canônico, assumiram uma posição me
diadora na Controvérsia da Investidura.
Ivo preparou-se para a resolução do conflito, distinguindo as di
ferentes ações envolvidas na nomeação de um bispo: (1) eleição pelos
cânones de uma catedral e aclamação popular; (2) consagração por
um arcebispo, que concedia o cajado e o anel como símbolo da nome
ação; (3) juram ento de fidelidade ao senhor secular, que concedia a
posse da propriedade da diocese; e (4) concessão da jurisdição, a qual
um bispo auxiliar não obtinha e que poderia ser removida pelo papa.
490 HISTÓRIA DA IGREJA
No século 11, a eleição foi quase uma “indicação” pelo rei ou pelo
nobre local. Uma eleição livre, muitas vezes, significava uma luta li
vre. (Nos séculos 13 e 14, o papado começou a substituir a escolha
leiga de bispos pela provisão papal.)
A consagração era a ação litúrgica por meio da qual o Espírito
Santo era transmitido.
A propriedade pertencente à diocese, ao mosteiro ou à paróquia
era o benefício que gerava renda para cargo.
A jurisdição era o direito de exercer as funções (incluindo civil)
que acompanhavam os cargos.
B. Conflito entre Gregório VII e Henrique IV
A partir de 1074, uma série de sínodos de reforma sob o comando
do Papa Gregório VII proclamou novamente a exigência do celibato
sacerdotal, proibindo a nomeação de leigos (aqueles que a receberam
foram colocados sob a pena de excomunhão em 1078), e, em 1075,
rènovou a excomunhão (decretada pela primeira vez em 1073) como
simoníaco de cinco conselheiros do rei Henrique IV, com os quais ele
mantinha contato contínuo.
Legados papais chamaram os sínodos provinciais para impulsio
nar a reforma. Grande parte do episcopado alemão, no entanto, foi
contra as medidas. Houve tensão entre os bispos alemães e Gregório
por causa do tratam ento lhes dado; as reivindicações de Gregório por
autoridade raramente foram desafiadas, mas, muitas vezes, ignoradas
ou evitadas. Henrique, no fulgor da vitória sobre os rebeldes saxões,
deu prosseguimento à nomeação do arcebispo de Milão. Gregório
denunciou-o em uma carta de 1075.
Henrique IV estava furioso, e a D ieta do império, que ocorria em
Worms, em janeiro de 1076, declarou que Gregório VII se tornara
papa injustamente. Os bispos alemães enviaram uma carta de contes
tação para Gregório:
Você tem feito o seu melhor para tirar dos bispos todo o po
der que lhes foi conferido por Deus por intermédio do Es
pírito Santo. (...) Não podemos protestar o suficiente acerca
dos atentados lançados sobre os bispos a quem você chama
de meretrizes. Portanto, uma vez que a admissão foi iniciada
0 MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 491
por tais perjúrios, e desde que a Igreja de Deus começou a
desmoronar por causa da terrível comoção ocasionada pelas
suas inovações, e como sua vida está manchada pela má fama,
renunciamos à obediência que nunca lhe prometemos e não
nos atentaremos ao futuro, mas, como você diz que não so
mos bispos, então, dizemos que você não é papa.
Esta carta, com linguagem forte, foi enviada por Henrique IV ao
papa:
Henrique, rei não por usurpação, mas pela santa ordenança
de Deus a Hildebrando, não agora papa, mas um falso mon
ge. (...) Desça, então, do assento apostólico usurpado. Que
suba outro que pregue a sã doutrina do abençoado apóstolo
sem o manto da violência. Eu, Henrique, rei pela graça de
Deus, e todos os meus bispos dizemos: “Desça, desça e seja
para sempre condenado”.
Gregório VII respondeu, no sínodo quaresmal em 22 de feverei
ro de 1076, excomungando Henrique:
Pela honra e defesa de sua igreja, (...) por seu poder e sua
autoridade, eu destituo o rei Henrique, (...) que se levantou
contra a igreja com orgulho sem igual, do governo de toda
a Alemanha e Itália, eu absolvo todos os cristãos do vínculo
do juramento que tenham feito ou farão. Eu proibo qualquer
um de servir-lhe como rei.
Ainda que Henrique alegasse que seus bispos excomungaram
Gregório, no entanto, ele foi deixado em uma posição arriscada. Seus
inimigos na Alemanha tinham agora vantagem e deram-lhe um ano
para remover a excomunhão papal. O papa partiu para a Alemanha,
a fim de presidir a uma D ieta em Augsburg para resolver assuntos
alemães. Henrique, determinado a evitar uma coalizão do papa com
os príncipes, começou a atravessar os Alpes.
Gregório, não sabendo das intenções de Henrique, refugiou-
-se no castelo da condessa Matilde da Toscana, em Canossa, como
precaução, sendo acusado, depois, de estar “escondendo-se atrás da
saia de uma m ulher”. Henrique, no entanto, apareceu em trajes de
penitência, andando com os pés descalços na neve p o r três dias ao
lado de fora do castelo. Gregório tinha prom etido não tom ar medida
492 HISTÓRIA DA IGREJA
alguma sem consultar os príncipes, mas, como sacerdote (e, em toda
a controvérsia, ele teria agido assim por ter entendido que se tratava
de motivos espirituais), não poderia recusar a absolvição a alguém
verdadeiramente arrependido. O sábio Henrique aproveitou-se desse
fato, e Gregório retirou a excomunhão.
O contraste da humilhação de Henrique IV, em Canossa, em
1077, com a destituição de três papas rivais em 1046 por seu pai Hen
rique III mostra o quanto a realidade papal mudara em 30 anos.
Henrique obteve uma vitória diplomática pelo preço da humi
lhação pessoal. Ele recuperou seu poder na Alemanha, e os príncipes
recalcitrantes seguiram seu próprio caminho, sem levar em conside
ração o papa. Visto que Henrique continuou com suas antigas políti
cas, Gregório emitiu um novo edito de excomunhão contra Henrique
em 1080. Dessa vez, surtiu pouco efeito, porque os adversários do rei,
tendo sido deixados na mão pelo papa antes, deram pouca atenção
ao decreto. Dois terços do episcopado alemão apoiaram Henrique,
destituíram Gregório e concordaram com o antipapa Clemente III.
Henrique invadiu a Itália em 1081 e, em 1084, nomeou o antipapa,
que lhe deu a coroa imperial.
Uma vista de Canossa, Itália
O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 493
Gregório fugiu para Salerno, onde morreu em 1085 citando as
palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade, por esse motivo,
morro no exílio” (contraste com o Salmo 45. 7). Ele perdeu a luta
política no momento, mas ganhou uma vitória moral. A imagem do
rei pedindo perdão diante do papa foi um símbolo e precedente que
valeu a pena por ter quebrado a aliança com os príncipes alemães.
Apesar das circunstâncias da morte de Gregório, nessa ocasião,
a forma monárquica de governo da igreja romana estava solidamente
estabelecida.
C. Resolução
O pontificado de Gregório VII deixou o prestígio da igreja gran
demente ampliado, e esse novo prestígio não podería ser destruído
pela força bruta. Por outro lado, a influência prática do monarca foi
apenas ligeiramente reduzida. Henrique IV morreu em 1106, ainda
sob a excomunhão e com muito alvoroço na Alemanha.
O Papa Pascoal II chegou a um acordo com Henrique V em
1111, no qual Henrique renunciaria aos seus direitos de nomeação,
confirmaria os estados papais e garantiría às igrejas suas ofertas e bens
não pertencentes à realeza, e os bispos renunciariam às suas proprie
dades reais e aos seus cargos como príncipes do império. Essa solução
ampla e radical teria sido revolucionária em suas consequências eco
nômicas e políticas; tal retorno à pobreza apostólica deixaria a igreja
sem recursos e subserviente, por isso, os bispos rejeitaram esse acordo,
e ele falhou.
Em 1122, a Concordata de Worms entre o imperador Henrique
V e o Papa Calisto II resolveu o conflito entre o império e o papado
sobre as investiduras. O monarca abandonou o costume de nom e
ar prelados com anel e cajado (símbolos do ofício eclesiástico), mas
manteve sua influência na escolha dos prelados e o direito de conce
der a regalia (os símbolos da autoridade secular, incluindo a proprie
dade não eclesiástica e bens materiais).
O Primeiro Concilio de Latrão de 1123 — o nono Concilio Ecu
mênico, de acordo com a estimativa romana, e o primeiro no ocidente
e o primeiro a ser convocado por um papa — ratificou a Concordata
de Worms e os avanços do movimento de reforma. (Foi “ecumênico”
494 HISTÓRIA DA IGREJA
não porque os bispos vieram de todos os países, mas de acordo com a
nova definição que foi convocada, presidida e confirmada pelo papa
— um panorama já antecipado no Dictatus Papae.)
Os proprietários de igrejas eram o outro aspecto da mistura do
espiritual e do secular. Apesar de denúncias anteriores por papas e
concílios, eles continuaram até o século 12, quando a transformação
dos proprietários em benfeitores foi realizada.
A nomeação de leigos no sentido estrito foi abolida, mas o con
flito entre o império e o papado continuou durante a Idade Média. O
ideal de Hildebrando também.
III. SACRAMENTO DA PENITENCIA
Penitência é o nome dado aos atos para obter-se o perdão dos
pecados pós-batismais e, assim, os meios para a remoção de uma exco
munhão. Ainda que a teologia da penitência não tenha sido formula
da açé o século 12, as práticas estavam enraizadas na igreja pré-nicena.
A disciplina penitencial da Igreja primitiva, no entanto, tinha sido
alterada de várias maneiras, de pública e não repetitiva tornou-se par
ticular e repetitiva, e de castigadora tornou-se uma parte positiva da
vida religiosa.
Desde a época de Gregório I, o cená
rio básico seguido durante a Idade Média
O sacramento da penitência permaneceu o mesmo. As partes essenciais
foi um componente da eram contrição, confissão e obras de satis
Controvérsia da Investidura fação. Embora a ofensa {culpa) do pecado
e das Cruzadas. fosse perdoada, com base na penitência e
----------------------------- na confissão, a prática medieval, influen
ciada pela teoria jurídica germânica, exigia
ainda a punição (poena), “satisfações”. Essas “punições” pelo pecado
poderiam ser infligidas na terra ou no purgatório, os quais receberam
maior ênfase no século 12.
Em vez de jejuns severos e demonstrações públicas de penitên
cia que anteriormente serviam como pagamento pelos pecados, a
“redenção” ou a comutação que substituiu o ato de orar salmos ou
dar esmolas estava em uso desde os tempos carolíngios. Essas práticas
0 MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 495
definiram o pano fundo do desenvolvimento da indulgência que será
destacado a seguir.
A confissão particular, uma vez por ano na Quaresma, algo co
mum desde os tempos carolíngios, tornou-se obrigatória no Q uarto
Concilio de Latrão em 1215. A confissão pública, no entanto, não
desapareceu, e as práticas de penitência continuaram acontecendo
publicamente.
Desde o início do século 11, era costume conceder a absolvição
depois da confissão e antes de im por a punição. A partir do século 12,
estava sendo usada uma fórmula declarativa no lugar da oração, e, em
1350, eu vos absolvo” foi a fórmula declarativa comum. Grandes vo
lumes de casuísmo substituíram os livros penitenciais mencionados
no capítulo 18.
IV. PRIMEIRA CRUZADA
A Primeira Cruzada está relacionada com as afirmações sobre a
autoridade papal e a evolução gradual do sacramento da penitência.
Muitas famílias envolvidas na Primeira C ruzada tinham laços com o
movimento de Reforma Papal do século 11. Gregório VII explicou
que o serviço militar podería ser um ato de penitência quando dire
cionado contra seus adversários na Controvérsia da Investidura. Essa
antiga ênfase sobre ir à guerra como forma de penitência logo se tor
nou o levantar das armas no serviço de Deus. A Primeira Cruzada foi
o culminar de uma mudança ideológica da guerra como razão para
fazer penitência à batalha como castigo. A ideia de violência como
expressão de piedade foi um novo progresso e requereu alguma expli
cação de como isso surgiu.
A. Aplicação do conceito de Guerra Santa aos
cristãos
Seis linhas de pensamento contribuíram para a ideia de Cruzadas.
1. A aceitação da participação de um cristão em
guerras
Muitos cristãos primitivos viam-se como soldados de um impera
dor, Jesus Cristo, com o dever de nunca machucar o próximo. Outros
496 HISTÓRIA DA IGREJA
não viam distinção clara entre o exército e o poder policial do Estado
e serviam nas forças armadas, mas, tanto quanto possível, evitavam os
aspectos religiosos pagãos da vida militar.
Sob o comando de Constantino, todas as funções do Estado
passaram a ser consideradas como se estivessem dentro da esfera de
atividades de um cristão. O Concilio de Aries (314), em um cânon
sujeito a interpretações divergentes, recusou a comunhão aos cristãos
do exército que largaram as armas em tempo de paz.
Eusébio sugeriu que seria correta a guerra contra as forças dem o
níacas - a divisão dentro do império e as invasões bárbaras. N o entan
to, demorou um longo tempo até que pensadores cristãos aceitassem
a ideia de “guerra justa”, o que em si era mais antigo do que o cristia
nismo. Agostinho foi um expoente dessa corrente, mas ele ainda sen
tia que mesmo uma guerra justa estava associada a algo pecaminoso
pelo qual se deveria fazer penitência.
Ainda que os muçulmanos fossem considerados um legítimo alvo
da guerra justa, Carlos Martel ainda pensava em seu trabalho como
autodefesa. Carlos Magno cogitava empreender uma guerra missio
nária, mas a ideia de que a guerra era pecado continuou para além
do período carolíngio. (Posteriormente, as Américas foram tomadas
pelos poderes europeus sob a teoria da guerra missionária.)
Ainda era um pecado grave, no século 11, matar um homem em
uma batalha travada para fins seculares. Até mesmo os normandos, sob
o governo de Guilherme, o Conquistador, na Batalha de Hastings em
1066, uma batalha abençoada com a aprovação papal, lutaram contra
um perjuro de relíquias sagradas (rei Haroldo) e estavam sujeitos a pe
nitências pelas mortes infligidas. (Em meados do século 13, a teoria da
“guerra justa” deu às guerras de quase todos os governantes seculares
responsáveis o benefício da dúvida, a menos que fossem contra os in
teresses do papado ou daqueles a quem o papa oferecia sua proteção.)
2. O retorno do direito da guerra justa do
governante imperial para os reis e para os
cavaleiros
Carlos Magno e seus sucessores reivindicaram que somente o im
perador possuía o direito de guerra. Em seguida, foi acordado que os
O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 497
reis ungidos poderíam empreender uma guerra justa, assim como o
imperador. O feudalismo, no entanto, cada vez mais, colocou a res
ponsabilidade de manter a ordem sobre nobres locais.
A partir do décimo século, o guerreiro, suas armas e suas insígnias
eram liturgicamente abençoados. Sob o código de honra, o cavaleiro
possuía uma espada sagrada, de modo que ele estava livre para usá-la
conforme seu entendimento de justiça. O cavaleiro com suas armas
tornou-se um símbolo da paz cristã. Os instintos belicosos dos bár
baros foram limitados pela reforma de Cluny e raramente recebiam a
aprovação da igreja.
O movimento A Paz de Deus (último capítulo), paradoxalmente,
contribuiu para o desenvolvimento da ideia de que o derramamento
de sangue na batalha era mais do que justificado e podería até mesmo
ser salvífico no serviço de Deus, quando direcionado contra pagãos
e hereges.
O ato de abençoar a espada foi originalmente usado apenas em
coroações reais, mas agora era autorizado, de maneira que os cavalei
ros pudessem usar livremente sua espada sagrada para a proteção das
igrejas e dos oprimidos.
O CAVALEIRO CRISTÃ O
0 código do cavaleiro cristão incluía as seguintes responsabilidades: (a)
dar sua vida pelo seu senhor —uma continuação da visão germânica de
lealdade; (b) não usar sua espada para ganho pessoal; (c) não tentar salvar
sua própria vida na defesa de seu senhor; (d) morrer pelo seu país (o que
poderia ser interpretado como aJerusalémcelestial); (e) dar sua vida na luta
contra hereges, cismáticos e excomungados; (f) defender pobres, viúvas e
órfãos; e (g) ser fiel ao seujuramento de fidelidade.
A bênção da espada representou um declínio na antiga visão de
que matar era errado e exigia penitência. A cerimônia de nomeação de
um cavaleiro recebeu um caráter religioso. O cavalheirismo tornou-se
a forma cristã da vida militar.
3. A influência do islã
A admissão da ideia de guerra santa pela igreja medieval talvez
possa ter sido, em parte, devida à influência desse conceito do islã. O
498 HISTÓRIA DA IGREJA
privilégio dos cruzados em receber o perdão do castigo pelos pecados
(veja a seguir sobre as indulgências) teve um paralelo na promessa do
paraíso aos guerreiros muçulmanos em uma guerra santa.
No sentido inverso, a oposição político-religiosa ao Islamismo,
mesmo antes do chamado para a Cruzada, levou os normandos do sul
da Itália a decidirem sobre a retomada da Sicília do islã. Também levou
cavaleiros franceses a participarem do início da reconquista da Espa
nha. Essa reconquista foi iniciada pelos governantes cristãos no norte
da Espanha no século 11 (uma tarefa que demandou dois séculos para
ser realizada e não foi concluída até a queda de Granada, em 1492).
4. A papalização da guerra
A origem dos exércitos em favor dos estados papais pelos papas,
como foi com Leão IX, levou à universalização da concepção da
guerra mais uma vez. Clérigos chegaram a aceitar a guerra, em certas
circunstâncias, como algo que podería estar envolvido com a autori
dade de Deus, e os teólogos interpretaram o ponto de vista de Agosti
nho de uma guerra justa para significar que soldados lutando em uma
guerra autorizada pelo papa não incorriam em culpa. A ideia de guer
ra santa, no entanto, teve vigorosos críticos (como Pedro Damião).
Alexandre II enviou estandartes papais ao conde Roger, por sua
incursão na Sicília, e para o duque Guilherme da Normandia, pela
invasão da Inglaterra. Gregório VII afirmou a superioridade da Igreja
sobre o Estado e, instintivamente, apelou para figuras militares em
assuntos espirituais. Ele usou as forças militares, nunca duvidou do
que era certo e definiu o que seria uma guerra justa.
O direito da igreja de defender os interesses da cristandade com
a espada foi ampliado pelo Papa Urbano II, pois, na ocasião, foi re
conhecido que a igreja, como tal, podería envolver-se em guerras. Ele
direcionou a atenção para longe dos conflitos dentro da cristandade,
para uma cruzada contra os infiéis. A Cruzada não foi apenas uma
guerra justa; foi uma guerra santa. Lutavam agora não apenas como
cristãos, mas porque eram cristãos. Os cristãos deveríam retomar a ci
dade santa dos infiéis. Nessa teoria, somente o papa poderia envolver-
-se em uma guerra santa além-fronteiras; em certo sentido, ele pode
ria fazer o que os antigos imperadores alegavam fazer.
O MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 499
5. A prática da peregrinação
Alguns fizeram peregrinação a um local sagrado, como penitên
cia imposta pelo sacerdote; outros, como ato de devoção (muitas
vezes, para cumprir um voto); e uns foram para Jerusalém, em sua
velhice, com a intenção de lá falecer. Peregrinos em direção a Jerusa
lém, a princípio, tinham sido proibidos de portar armas. Posterior
mente, eles levavam armas para defesa pessoal. Por fim, os “peregri
nos” tomaram a ofensiva contra os muçulmanos. As Cruzadas eram a
mistura de um estilo de peregrinação com uma expedição militar. A
peregrinação a Jerusalém foi um dos assuntos que inspiraram o zelo
dos cruzados.
6. A razão para unir a igreja novamente
O cisma entre o oriente e o ocidente ainda era algo recente na
mente dos clérigos ocidentais, que viam a ajuda militar dada ao Im
pério Bizantino como base para a renovação de boas relações e da
restauração da comunhão.
B. Discurso da Cruzada — Papa Urbano II
(1088—1099)
Geralmente, os muçulmanos eram tolerantes com os cristãos a
eles sujeitos, mas, às vezes, havia exceções, as quais geravam ressenti
mento nos cristãos. O califa Al-Hakim, que governou o Egito, alegou
ser uma divindade (os drusos são seus seguidores) e iniciou uma cam
panha contra aqueles que se recusavam a aceitar suas reivindicações.
Quando Al-Hakim destruiu o santuário do Santo Sepulcro em
Jerusalém, em 1009, como parte de uma ampla campanha para con
verter cristãos e judeus, isso se tornou uma lembrança viva de que os
locais mais sagrados do cristianismo eram controlados por descren
tes, e os sentimentos dos cristãos, mesmo no ocidente, foram infla
mados contra os muçulmanos, apesar de o sucessor de Al-Hakim ter
reconstruído a igreja.
O Império Islâmico no oriente teve uma experiência semelhan
te à que o Império Romano tivera no ocidente: como os invasores
germânicos eram convertidos ao cristianismo católico, os invasores
500 HISTÓRIA DA IGREJA
turcos dos territórios muçulmanos foram convertidos ao islã. Os
turcos seljúcidas, em 1070— 1071, tomaram a Palestina, incluindo
Jerusalém.
O declínio do império oriental de seu auge sob a Dinastia Ma-
cedônica foi marcado por duas derrotas militares em 1071: a queda
de Bari, a última grande ocupação bizantina no sul da Itália, infligida
pelos normandos, e a derrota em Manziquerta pelos turcos seljúcidas,
que prosseguiram ocupando grande parte da Ásia Menor. Embora a
prática tenha continuado, agora era mais difícil, para os cristãos, fazer
peregrinações a Jerusalém, o que levou o imperador bizantino Aleixo
I Comneno (1081— 1118) a fazer um pedido de ajuda ao ocidente.
O Papa Urbano II, produto do mosteiro de Cluny e apoiador
de Gregório VII, seguiu o exemplo desse último e trabalhou para a
união do oriente e do ocidente. Urbano pensou que a Cruzada pudes
se impressionar a igreja oriental com a vitalidade religiosa e a caridade
do ocidente. O resultado, no entanto, mostrou-se bastante diferente.
, Em um concilio em Clermont em 1095, Urbano reuniu os ele
mentos que resultaram em uma guerra santa, combinando os moti
vos da peregrinação a Jerusalém e da violência piedosa. Ele declarou
0 MOVIMENTO DE REFORMA PAPAL E A PRIMEIRA CRUZADA 501
que já não era possível ir aJerusalém sem armas; uma procissão arma
da era necessária.
Os gritos de guerra receberam autorização formal — Deus le volt
(“a vontade de Deus”). Os cruzados foram instados a costurar uma
cruz de pano na parte de trás de sua roupa exterior; em seu retorno,
ficaria à frente. Os antigos romanos diziam que é “doce e apropriado
morrer por seu país”; posteriormente, os mártires cristãos morreram
pela pátria celestial; o papa, na época, disse que era preciso estar pron
to para morrer pela Jerusalém terrena.
Urbano II, em Clermont, ofereceu aos cruzados a mesma remis
são dos castigos da igreja para os pecados que eram habitualmente
concedidos aos peregrinos a Jerusalém, mas, na divulgação subse
quente da Cruzada, os pregadores estenderam a promessa de remis
são de todas as punições para o pecado que Deus infligiría tanto nesta
vida como na próxima. Assim, as Cruzadas marcaram um passo im
portante no desenvolvimento de indulgências.
Uma indulgência era a remissão das punições temporais (infligi
da na terra ou no purgatório) para o pecado. A culpa do pecado (cas
tigo eterno) era perdoada pela absolvição em resposta à contrição e à
confissão pelo pecador, mas a satisfação (pena temporal) ainda tinha
de ser infligida pelos pecados.
Para obter uma indulgência, era prescrita a prática de boas obras.
N o início do século 11, os bispos da França e da Espanha concederam
indulgências aos que contribuíram para as construções da igreja. Os
rigores da campanha para retomar a Terra Santa eram vistos como
cumprimento dos requisitos para a punição temporal pelos pecados.
Nenhum outro pagamento pelos pecados era necessário. Urbano já
havia estendido a mesma promessa de remissão da penitência àqueles
que lutavam contra os muçulmanos na Espanha.
A guerra santa tornou-se uma nova maneira de ganhar o perdão
dos pecados, uma alternativa para entrar na vida monástica. Mais tar
de, a mesma promessa de remissão da punição pelo pecado foi esten
dida àqueles que provisionavam um cruzado. A promessa de remissão
dos castigos exigidos pelo pecado deu um caráter religioso a todo o
empreendimento das Cruzadas.
Urbano, sendo francês e cluníaco, destacou os franceses como
portadores especiais da ideia de cruzada. A língua francesa era o idio
502 HISTORIA DA IGREJA
ma dos cruzados, e ofrancês (ou “francos”) tornou-se o termo usado
entre os muçulmanos para referir-se aos europeus, assim como tur
cos surgiu entre os europeus como o nome genérico para os inim i
gos políticos e religiosos do cristianismo. Uma frase que ecoou pela
literatura das Cruzadas foi “vingar a honra de Deus”, que tinha sido
maculada pelos muçulmanos.
Aqueles que corresponderam ao chamado de Urbano e, mais tar
de, às convocações para as Cruzadas fizeram-no por uma variedade
de motivações pessoais. Várias interpretações das Cruzadas refletiam-
-se nas motivações atribuídas aos cruzados.
Para alguns, havia a expectativa de aumentar suas posses por meio
dos despojos, para outros, havia o amor pela aventura, e para uns, a
ambição de enriquecimento territorial ou o avanço social. A expectati
va de ganho material da iniciativa, no entanto, foi raramente atingida.
Alguns agiram por ódio religioso pelos “turcos infiéis”, enquanto
outros, por genuína devoção aJesus Cristo, pelo fato de sentirem uma
estima positiva em retornar o local de Sua crucificação para as mãos
dos fiéis.
Essas aspirações não eram mutuamente exclusivas, e, para m ui
tos, deve ter havido uma mistura de motivos a partir de uma perspec
tiva religiosa: alguns dignos e outros indignos. Quaisquer que fossem
as motivações individuais, realizar a peregrinação armada aJerusalém
requeria um comprometimento com um empreendimento perigoso,
exigente e caro. O suporte de familiares e comunidades religiosas tor
nou possível o sacrifício pessoal dos cruzados.
C. Cruzados e combates
O papa divulgou a Cruzada, mas ele tinha m uito pouco controle
sobre ela. O recrutamento, a organização e a supervisão acabaram fi
cando nas mãos dos cavaleiros, muitos dos quais surgiram dos nobres
de posições medianas.
Um primeiro contingente liderado por Pedro, o Eremita de
Amiens, e outros impetuosos pregadores antecederam o principal
exército de cruzados. Composta em grande parte por camponeses des
contentes, essa turba praticou pilhagem por seu caminho em toda a