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Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

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Published by , 2018-01-04 18:16:27

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

Historia da Igreja Vol.1 - Everett Ferguson

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 153

-no a interpretar as Escrituras publicamente na igreja em Cesareia,
embora ele ainda não tivesse recebido ordenação para o presbiterado.

O bispo Demétrio - fosse por inveja, desejo de fortalecer a au­
toridade do bispo ou preocupação pela ortodoxia de algumas espe­
culações de Orígenes - causava-lhe cada vez mais problemas. Os bis­
pos na Palestina, criticados por perm itir que Orígenes, como leigo,
pregasse na igreja, ordenaram-no em uma visita posterior. Demétrio,
então, trouxe à tona a questão da castração de Orígenes, considerada
uma desqualificação para o cargo eclesiástico, e o m andou para casa.
As dificuldades eram tão grandes que Orígenes se m udou para Cesa­
reia em 232, onde deu prosseguimento ao ensino.

Dentre os que foram estudar com Orígenes estava Gregório
(posteriormente conhecido como Taumaturgo), cujo Panegírico a
Orígenes apresenta uma imagem vivida de seu ensinamento. Em esti­
lo ornamentado, esse im portante documento para a educação cristã
descreve o vasto âmbito da instrução: dialética, ciências naturais, ge­
ometria, astronomia, filosofia, ética, teologia e Escrituras. Orígenes
incentivava seus alunos a lerem todos os filósofos, exceto aqueles que
não criam em Deus. Empregando tanto preleções quando o método
socrático de questionamento, ele transmitia mais informações - em
homenagem a Gregório - por meio de exemplos do que de preceitos.

Na perseguição de Décio em 251, Orígenes foi preso e torturado,
o que provavelmente acelerou sua morte algum tempo depois. Pânfi-
lo herdou sua biblioteca em Cesareia e, junto com seu aluno Eusébio,
escreveu uma apologia em defesa de Orígenes. Essa biblioteca foi a
base das próprias obras históricas e teológicas de Eusébio.

Uma das grandes realizações acadêmicas de Orígenes foi a Héxa-
pla, seis colunas paralelas comparando linha por linha o Antigo Tes­
tamento em hebraico a uma transliteração grega e às traduções gregas
de Áquila (mais literal), Símaco, Septuaginta e Teodócio. A obra visa­
va a estabelecer uma base textual sólida para os comentários de Oríge­
nes sobre o Antigo Testamento e seu debate com os judeus acerca de
sua interpretação. Provavelmente, nunca houve mais do que uma có­
pia da obra, a qual não sobreviveu, e as cópias feitas da quinta coluna
não reproduziram os sinais textuais de Orígenes, onde a Septuaginta
apresentava adições e subtrações em relação ao texto hebraico.

154 HISTÓRIA DA IGREJA

Grande parte do estudo de Orígenes tomou a forma de inter­
pretação do texto bíblico: escólios ou observações sobre passagens
difíceis, homilias pregadas sobre os livros da Bíblia e comentários
científicos em grande escala sobre livros bíblicos. O comentário mais
amplamente preservado é o Comentário sobreJoão, do qual nove dos
32 livros sobreviveram. Ele nunca foi concluído; uma indicação desse
detalhe é o fato de que foram necessários dez livros para chegar ao fim
do segundo capítulo de João.

Em Os primeiros princípios 4, Orígenes delineou um princípio
hermenêutico tripartido, encontrando três níveis de interpretação
das Escrituras correspondentes às três partes da natureza humana:

(D o sentido físico é o significado literal, histórico, das Escrituras;

(2) o sentido psíquico (alma) refere-se ao ensinamento moral; (3)
o pneumático (espiritual), à interpretação alegórica ou escatológica
que revela os mistérios da fé.

A distinção básica de Orígenes, entretanto, era entre o literal e o
espiritual, ou não literal, podendo este último ter aplicações m últi­
plas. Na prática, seu procedimento exegético consistia em partir do
significado linguístico ao significado “oculto sob as letras”. Esse úl­
timo significado era o primeiro de todo sentido doutrinário cristão
e, então, vinha a prática moral dependente desse ensinamento, bem
como suas implicações escatológicas.

Para Orígenes, as Escrituras, por serem inspiradas pelo Espírito,
têm sempre um sentido não literal, mas podem não ter um signifi­
cado literal (se este último falar de forma antropológica sobre Deus,
legislar leis irracionais ou registrar impossibilidades na narrativa his­
tórica). Em suas homilias, Orígenes dedicava atenção especial às li­
ções morais a serem extraídas das Escrituras. Seu tratamento variava,
mas, com base em suas formulações, foi posteriormente desenvolvido
um significado quádruplo das Escrituras: histórico (literal), moral,
alegórico (doutrinário) e anagógico (escatológico).

O sistema intelectual de Orígenes era uma espécie de neoplato-
nismo, o qual estava surgindo em sua época. Q uando se pensa, em
termos platônicos, no fato de que existe um verdadeiro m undo espi­
ritual do qual este m undo material é apenas uma imitação imperfeita,
então a alegoria é um método adequado de interpretação, pois, por

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 155

meio dela, olha-se para os textos “materiais”, a fim de enxergar uma

realidade espiritual por trás ou além deles.

Se, em vez de tal visão ontológica, utilizar-se uma perspectiva

mais histórica de antes, agora e depois, como os hebreus faziam, a

interpretação tipológica (cumprimento na história) é mais propensa

a se desenvolver - o que de fato aconteceu em Antioquia conforme

veremos (capítulo 13).

A obra Contra Celso, de Orígenes, a maior e mais longa apologia

grega em favor do cristianismo na igreja antiga, levou a apologética

cristã a um nível superior. Ele respondeu a críticas gerais e detalhadas

de Celso, a saber: os cristãos acolhiam pessoas más e ignorantes; os

cristãos alegavam, com arrogância, que tudo

havia sido criado para os seres humanos e “A pessoa que ‘ora sem
que só eles tinham o direito exclusivo à ver­ cessar’ (ato de virtude
dade; e que o cristianismo introduziu uma
nova religião hostil à sociedade tradicional e cumprimento das
e sua religião. ordens como parte da

Além dos argumentos cristãos habituais oração) une oração aos
com base em profecias cumpridas e milagres, atos necessários e ações
Orígenes desenvolveu o argumento moral a apropriadas à oração. Só
favor da verdade do cristianismo, a fim de seremos capazes de aceitar
reagir à acusação de que os milagres de Jesus a ‘oração sem cessar’ como

eram feitos por magia. Jesus e Seus seguido­ palavras possíveis de serem

res, diferentemente dos magos da época, não praticadas se pudermos

recebiam quaisquer recompensas ou ganhos afirmar que toda a vida

terrenos por suas obras; eles levavam bene­ da pessoa santa foi uma

fícios aos outros. O crescimento do cristia­ grande oração, da qual

nismo, apesar da oposição e perseguição, foi uma parte é aquilo que

mais uma prova de seu poder divino. comumente se chama

Duas obras mais breves mostram Oríge­ de oração” (Orígenes,

nes não só como um profundo pensador e Oração 12.2).

intérprete versado das Escrituras, mas tam­

bém como um clérigo interessado e guia es­

piritual. Exortação ao martírio e Oração discutem expressões básicas

de espiritualidade na Igreja primitiva, uma para os poucos eleitos e a

outra para todos os cristãos.

156 HISTÓRIA DA IGREJA

Orígenes, além disso, produziu a primeira teologia sistemática da
Igreja, Sobre osprimeirosprincípios, comparável às obras daquele perí­
odo sobre os primeiros princípios da filosofia.

No começo, Orígenes estabelece a “regra da fé” transmitida aos
fiéis como base do cristianismo: o único Deus, Jesus Cristo como
Deus e homem, o Espírito Santo que inspirou os profetas e apóstolos,
a ressurreição do corpo com recompensas e punições para as almas, o
livre-arbítrio, a existência de anjos bons e maus, as Escrituras inspira­
das com significados evidentes e ocultos.

A tarefa do teólogo é esclarecer, definir e expressar o que está im­
plícito nesse depósito da fé. Essa obra é dominada pelos ensinamentos
que foram revelados, mas a especulação com o propósito de produzir
um corpo unificado de doutrina é possível em áreas não claramente
definidas no ensinamento tradicional da igreja.

Ao passo que outros teriam falado do Logos como “emitido”,
Orígenes introduziu o termo geração, da linguagem do Pai e Filho,
à especulação do Logos. O problema, como outros explicitariam, era
que os seres humanos consideravam o Pai já existente antes do Filho,
e isso introduziría um elemento de tempo na eternidade. Para Oríge­
nes e os pensadores platônicos, não havia antes e depois na eternida­
de, e a linguagem da geração tinha a vantagem de assegurar a mesma
essência do Pai para o Filho. Assim, Orígenes podia declarar uma ge­
ração eterna.

No entanto, houve um elemento de subordinação no pensamen­
to de Orígenes, pois o Filho é derivado do Pai. A subordinação torna-
-se mais explícita no que se refere ao Espírito Santo, o qual ele descre­
veu como o principal dos espíritos.

Embora sem a formulação exata dos teólogos posteriores e sem o
emprego consistente dos termos segundo a precisão posterior, Oríge­
nes utilizou as palavras que se tornaram a linguagem ortodoxa para
discutir a Trindade: ele usou ousia e hypóstasis como sinônimos, mas
esses termos passaram a fazer referência respectivamente à unicidade
e à individualidade na divindade.

Orígenes também especulou sobre questões que geraram contro­
vérsias em sua época e pelas quais acabou sendo condenado (no sexto
século, veja o capítulo 16). Ele conferiu uma definição mais espiritual

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 157

à natureza do corpo ressurreto do que aquela que estava tornando-se
comum na época. Orígenes considerou a possibilidade de preexistên­
cia de almas como explicação para a queda da natureza humana e as
circunstâncias distintas dos seres humanos. Além disso, sua compreen­
são dos propósitos salvíficos de Deus possibilitava a salvação universal.

E. Hipólito e Calisto em Roma

Fontes antigas transmitiram informações contraditórias sobre

Hipólito (c. 170-236). Ele era presbítero ou bispo, em Roma ou Por­

to, clérigo ou cismático? Estudiosos moder­

nos complicaram a situação postulando que “Nós, como sucessores dos
as obras atribuídas a Hipólito são provenien­ apóstolos e participantes
tes de, pelo menos, dois autores diferentes. nesta graça, neste sumo
sacerdócio e neste cargo
Além disso, a reconstrução aparente­
mente bem-sucedida, no século 20, da in­ de ensino, bem como
fluente Tradição apostólica de Hipólito é guardiões reputados da
agora questionada. O material comum das Igreja, não devemos ser
ordens eclesiásticas baseadas nesse docu­ encontrados deficientes em
mento será utilizado no próximo capítulo

para descrever a vida e o culto da Igreja no vigilância ou inclinados

segundo e terceiro séculos. a suprimir a doutrina

Uma interpretação plausível é a de que correta” (Hipólito?,

Hipólito foi um presbítero em Roma, que Refutação de todas as

se afastou por ocasião da eleição de Calisto heresias 1. Prefácio).

como bispo e foi exilado - juntamente com o

bispo romano posterior, Ponciano - pelo im­

perador Maximino Trácio na Sardenha, onde ambos morreram. Ele foi

reconciliado (seus seguidores) à igreja principal e tratado como mártir.

O relato a seguir continuará empregando o nome Hipólito com

o entendimento de que o nome da pessoa assim representada talvez

tenha sido outro.

Para nossos propósitos agora, as questões da autoria hipolitana

podem ser deixadas de lado para concentrarmo-nos em uma obra

atribuída a Hipólito, Refutação de todas as heresias, e um episódio

descrito nessa obra, o conflito do autor com dois bispos de Roma:

158 HISTÓRIA DA IGREJA

Zeferino e Calisto (.Heresias 9.7). Nenhum a passagem na literatura
cristã fornece uma noção tão vivida das realidades sociais da Igreja
primitiva.

Apesar da ira do autor, o escravo Calisto deve ter demonstrado
perspicácia e habilidade no serviço de seu mestre Carpóforo. Na épo­
ca, o escravo perdeu uma quantia considerável do dinheiro que lhe
havia sido confiado, talvez por má sorte ou investimentos especulati­
vos, embora o autor sugira fraude.

Ao ser chamado para prestar contas, Calisto fugiu - o que não
surpreende, haja vista a personalidade severa de seu amo. Carpóforo
capturou-o em um barco ainda aportado, mas, a pedidos, libertou-o
para que tivesse a oportunidade de recuperar o montante.

Calisto foi à sinagoga judaica para, segundo ele, aproximar-se da­
queles que lhe deviam dinheiro, mas, de acordo com o autor, foi até lá
para criar tumulto, alegando ser cristão e, assim, provocar sua própria
morte.

S^eja como for, a consequência disso foi um alvoroço, e o prefeito
da cidade flagelou Calisto e enviou-o para trabalhar nas minas do go­
verno em Sardenha. Márcia, concubina cristã do imperador C ôm o­
do, conseguiu a libertação dos mártires ali. O autor afirma que, em­
bora o nome de Calisto não estivesse na lista dos que seriam libertos,
ele persuadiu o oficial a adicioná-lo (isso soa completamente ilógico).

Após o regresso de Calisto a Roma, o bispo V itor forneceu-lhe
um lugar para ficar e alimento. Q uando Zeferino assumiu a posição
de Vitor, ele colocou Calisto como diácono responsável pelo cemité­
rio da igreja. Por ter sido muito próximo a Zeferino, Calisto sucedeu-
-o como bispo. Em vez de “Igreja Católica”, o autor diz que eles deve­
ríam ser chamados de escola de “calistianos”.

O conflito entre H ipólito (se é que esse é o nome do autor) e
Calisto ilustra as dificuldades na igreja em Roma, no terceiro século,
em tornar-se verdadeiramente inclusiva (ou seja, “católica”). Tanto
H ipólito quanto Calisto foram vítimas de perseguição, mas as seme­
lhanças terminam por aí. Eles eram provenientes de diferentes classes
sociais: H ipólito, um culto falante de grego com contatos no oriente
grego; Calisto, um ex-escravo que ascendeu à notoriedade por mérito
próprio. Eles tornaram-se rivais na igreja romana.

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 159

H ipólito e Calisto diferiam, de m odo especial, na cristologia. Hi-
polito representava a teologia do Logos dos apologistas gregos, uma
posição que Calisto rotulou de diteísta (uma acusação realmente
cruciante). Calisto, então, tentou declarar tanto a unidade de Deus
como o sofrimento separado do Filho, uma tentativa que Hipólito
considerou um fracasso por alternar entre os ensinamentos de Sabé-
lio e os de Teódoto (veja a seguir).

O desacordo que quebrou a comunhão dizia respeito à disciplina
na igreja: quais pecadores podem ser reconciliados à igreja, mediante
quais condições e qual deve ser a postura da igreja quanto às questões
sociais e morais ?

Hipólito assumiu a posição rigorista de que determinados pe­
cadores, tais como assassinos e adúlteros, não poderíam ser reconci­
liados a igreja (alguns pecados só Deus pode perdoar). Calisto, por
sua vez, alegou ser capaz de perdoá-los e readmiti-los à comunhão
da igreja. H ipólito acusa Calisto de ser conivente com o perdão do
adultério e do homicídio; contudo, lendo nas entrelinhas de alguns
detalhes do relato, é possível obter uma compreensão mais compassi­
va das políticas de Calisto.

Segundo a lei romana, por exemplo, o casamento de uma mulher
livre com um escravo não era reconhecido. O número maior de m u­
lheres cristãs do que homens cristãos, nas classes livres, levou algumas
delas a tomarem escravos cristãos como parceiros. H ipólito conside­
rava tais uniões adúlteras”, mas Calisto deu um passo im portante na
ética social ao reconhecer casamentos não sancionados pela lei.

Q uando algumas dessas mulheres procuravam realizar abortos, a
fim de que seus filhos não fossem considerados ilegítimos (tais abor­
tos eram considerados assassinatos e eram imperdoáveis a H ipólito),
Calisto estava disposto a estender perdão. O que permanece incerto
é a base sobre a qual Calisto alegava conceder perdão, isto é, oferecer
a reconciliação com a igreja. Será que ele o fazia por ser "próximo de
Pedro” (ou seja, por ser sucessor de Pedro ou estar em seu encalço),
por ser bispo, por ser bispo reunido em conselho com os presbíteros
ou por ser um “homem espiritual” (tecnicamente um mártir)?

Tanto H ipolito quanto Calisto defendiam princípios válidos:
H ipólito, o ideal da igreja como uma comunidade pura; Calisto, a

160 HISTÓRIA DA IGREJA

possibilidade de perdão e reconciliação. Ambos cometeram erros:
H ipólito, com seu espírito vingativo e falta de amor pelos peca­
dores; Calisto, com sua postura arbitrária, sendo rápido demais
em perdoar e pactuando com os abusos que acompanhavam suas
medidas.

A posição de Calisto representava o curso que a igreja romana
tomaria, entendendo a igreja, de modo geral, como uma sociedade
inclusiva, salvadora. Ele comparou a igreja à arca de Noé, a qual conti­
nha animais puros e impuros. H ipólito, por sua vez, queria uma igreja
composta somente por puros.

Essas compreensões distintas sobre a natureza da igreja, as quais
entraram em conflito no tratamento dos culpados de pecados pós-ba-
tismais graves, haviam perturbado os cristãos em Roma desde, pelo
menos, a época de Hermas.

O conflito foi retomado uma geração depois de Hipólito e Ca­
listo, quando seus respectivos pontos de vista foram defendidos por
Novaciano e Cornélio (veja capítulo 9).

II. ASCENSÃO DA IGREJA EM ROMA À
PREEMINÊNCIA

N o fim do segundo século, a igreja em Roma estava começando
a afirmar-se como principal igreja do m undo cristão. Essa situação es­
tava longe de encontrar expressão institucional e não significava que
todos estavam preparados para seguir a liderança de Roma.

No entanto, a maneira como tantos mestres importantes diri­
giam-se a Roma e buscavam a aceitação de seus ensinamentos ali, bem
como o envolvimento dessa cidade nas controvérsias que afetaram os
cristãos no fim do segundo século, mostra a influência e importância
cada vez maiores da igreja romana.

Vários fatores contribuíram para a crescente preeminência da
igreja na capital:

1. C apacidade adm inistrativa dos bispos: em bora possam
ter sido m edíocres do p o n to de vista teológico, eles agiam
com prudência na m anutenção dos diversos elementos
eclesiásticos.

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 161

2. Tamanho da igreja: a igreja romana cresceu enormemente no
segundo e terceiro séculos, tanto por causa de novos membros
como pelas conversões, e ela possuía contatos internacionais.

3. Cidade capital: as pessoas naturalmente se voltavam para
Roma em busca de liderança, um hábito político que influen­
ciou o pensamento na igreja.

4. Reputação ortodoxa: em um século de considerável varieda­
de teológica, Roma manteve uma reputação de estabilidade e
equilíbrio ao preservar as tradições apostólicas.

5. Caridade: a igreja romana adquiriu bastante riqueza e empre­
gou-a no cuidado aos pobres e no auxílio de cristãos situados
em outros lugares (dinheiro atrai autoridade).

6. Influência em posições elevadas: é difícil avaliar se as evidên­
cias do fim do primeiro século indicam a presença de cristãos
nas famílias senatoriais, mas, no fim do segundo século, não
há dúvida de que alguns cristãos ocupavam posições de influ­
ência no governo.

7. Única igreja apostólica no ocidente: as controvérsias haviam
privilegiado contatos com os apóstolos, e Roma era a única
igreja da parte ocidental do império com contato direto e con­
firmado com os apóstolos.

8. M artírio de Pedro e Paulo: esses contatos apostólicos de Roma
eram extraordinários. Os dois importantes apóstolos não ape­
nas haviam estado ali, mas também tinham honrado a cidade
com seu martírio e, assim, com seu local de sepultamento.

O idioma da igreja em Roma foi o grego desde o início, pois a
cidade, como capital, tinha muitas nacionalidades representadas em
sua população. Ela m antinha laços estreitos com Alexandria, C orinto
e Cartago.

V itor (c. 189-198), se é que seu nome serve de indicação, pode
ter sido o primeiro bispo de língua latina. O elemento de língua latina
aumentou ao longo do terceiro século, mas foi somente no quarto sé­
culo que a liturgia (sempre a característica mais conservadora na vida
da Igreja) concluiu sua transição para o latim.

Seguindo Pedro e Paulo, um grande número de mestres cristãos
preeminentes - ortodoxos e outros - foi para Roma: não apenas

162 HISTÓRIA DA IGREJA

mártires, como Inácio, mas também mestres diversos, como Justino,
Marcião e Valentino. Logo, não é de admirar que algumas das mais
importantes controvérsias a afetar igrejas no fim do segundo século
tenham fervilhado em Roma.

III. PROBLEMAS ENFRENTADOS PELOS ANTIGOS
PAIS CATÓLICOS

Além do problema principal, que era defender a fé e a prática
ortodoxas dos desafios representados por heresias e cismas (capítulos
5 e 6), os antigos Pais Católicos enfrentavam outros problemas.

A. Controvérsia pascal

A controvérsia pascal é significativa por indicar a importância
crescente da igreja de Roma. A questão era em qual data se deveria
comemorar os eventos da salvação relacionados à m orte e à ressurrei­
ção de Jesus.

Algumas igrejas, especialmente na província da Ásia, eram cha­
madas - pelos discordantes - de quartodecimanas (“aquelas que ob­
servam o 14° dia do mês”). Esse nome veio da prática de se fazer uma
recordação anual da Paixão de Cristo na data da Páscoa [gr. Paskha\.
N o calendário judaico, essa data era o 14° dia do mês de Nisã, que
poderia cair em qualquer dia da semana. A maioria das igrejas havia
abandonado o calendário judaico, lembrando a morte e a ressurreição
de Jesus no domingo, após a primeira lua cheia da primavera.

Um corolário observável dessa diferença no calendário era que
os cristãos, nas diferentes tradições, quebravam seu jejum penitencial
em dias diferentes; alguns, no dia em que caía a Páscoa judaica, e ou­
tros, no domingo. Essa observância anual, embora não esteja atesta­
da no Novo Testamento, não é inesperada em vista das observâncias
anuais que caracterizavam as atividades religiosas judaicas e pagãs. Os
convertidos judeus teriam observado a Páscoa com um novo signi­
ficado, e os convertidos gentios teriam sido instruídos a dar ênfase
especial à época em que a redenção foi realizada.

A documentação mais antiga a sustentar os diferentes costumes é
a referência de Irineu ao fato de o bispo Sisto (115-125) não utilizar

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 163

os diferentes costumes como teste de comunhão (Eusébio, História
da Igreja 5.24.14). Ele também registra uma visita de Policarpo de
Aniceto (155-166) a Roma, ocasião em que discordaram sobre a ob­
servância pascal, mas mantiveram a paz. Aniceto perm itiu a celebra­
ção da santa ceia na igreja ao seu ilustre visitante de Esmirna (ibid.
5.24.16). De acordo com Irineu, Policarpo alegou o precedente de
João e outros apóstolos em favor da prática quartodecimana, e Ani­
ceto recorreu ao exemplo de presbíteros anteriores a ele.

O sinal de comunhão nas diversas igrejas domésticas em Roma
era o recebimento do pão eucarístico da mesa do bispo. Vitor pro­
vocou um conflito ao não enviar o sacramento às congregações que
seguiam a prática quartodecimana. Seus motivos para procurar esta­
belecer a uniformidade da práticas evadem-nos. Os bispos asiáticos,
liderados por Polícrates de Éfeso, vieram em defesa de seu costume.

Outros, como Irineu, tentaram mediar, afirmando que costumes
diferentes não ameaçavam a unidade da fé. Concílios de bispos foram
realizados em muitos locais, e as igrejas asiáticas ficaram isoladas nes­
sa questão. A grande maioria declarava que a ressurreição do Senhor
não deveria ser celebrada em outro dia além do domingo e que o je­
jum pascal deveria terminar nesse dia.

A prática quartodecimana não cessou, mas foi cada vez mais mar­
ginalizada. Diferentes métodos para se calcular qual domingo deveria
ser observado continuaram sendo aplicados até o Concilio de Niceia
em 325 (em alguns lugares, até mais tarde).

A controvérsia pascal demonstra vários pontos de importância:
1. A dependência da igreja aos costumes judaicos era evidente,

mas a influência deles estava em declínio, especialmente nas
regiões onde a presença judaica era menos sentida ou onde a
igreja procurava distanciar-se dela.

2. A falta de uma tradição apostólica uniforme indica que não
havia autoridade apostólica sobre o costume. A controvérsia
ilustra o problema de se seguir o que era antigo, mas que care­
cia de autorização apostólica explícita (escrita). Uma recorda­
ção anual da ressurreição provavelmente remonta aos tempos
apostólicos, mas a tentativa de estabelecer uma prática unifor­
me revelava a ausência de uma sanção apostólica verificável.

164 HISTÓRIA DA IGREJA

3. O forte sentimento quanto à im portância da ressurreição e
do domingo testemunhava a centralidade do evento e sua li­
gação indissolúvel com um dia determinado. A observância
semanal dominical estava tão estabelecida na prática cristã
que suplantou quaisquer outras considerações relacionadas
ao calendário.

4. A transferência da liderança de Éfeso para Roma foi simboliza­
da pelo resultado da controvérsia.

B. Patrip assianism o

A cristologia do Logos, promovida pelos apologistas do segun­
do século (capítulo 4), não foi a única interpretação de Jesus Cristo
proposta nos primeiros séculos. Os gnósticos apresentavam Cristo
como uma emanação do dom ínio espiritual (descrita de diversas ma­
neiras). Vestígios de uma cristologia angelical (Cristo como “o Anjo
do Senhor”) também encontram expressão (por exemplo, Hermas).
De acordo com Tertuliano, entretanto, a ideia mais ameaçadora era o
modalismo, também conhecido como “patripassianismo”.

Os antigos Pais Católicos, opondo-se à especulação gnóstica,
salientavam que o Pai Supremo é o mesmo que o Criador. Irineu
empregou a terminologia do Logos, mas diferiu dos apologistas ao
possibilitar apenas um estágio (a Palavra gerada existia desde a eter­
nidade), em vez de dois estágios no Logos preexistente. Além disso,
em vez de usar Palavra e Sabedoria como dois termos para o Cristo
preexistente, ele os distinguiu, aplicando Sabedoria ao Espírito Santo
e falando deles como “as duas mãos de Deus”. Assim, ao refutar os
gnósticos, os antigos Pais Católicos refinaram ainda mais a cristolo­
gia do Logos dos apologistas.

Outras abordagens sobre a relação de Jesus Cristo com Deus co­
locavam mais ênfase na unicidade de Deus do que na Trindade. Com
efeito, o problema para a Igreja primitiva não era (tal como parece a
muitos cristãos contemporâneos) entender como três podem ser um,
mas como um pode ser três. O cristianismo resultou de uma forte
afirmação da unicidade de Deus no judaísmo - embora o judaísmo
incluísse especulações sobre outras entidades divinas.

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 165

Algo também encontrado nessa herança judaica era a imagem
apresentada pelo Antigo Testamento de Deus sofrendo com Seu
povo e em favor dele. Isso era impossível na especulação grega, segun­
do a qual a divindade, por definição, era impassível (incapaz de so­
frer). Todos os antigos Pais Católicos aceitavam a ideia de que Deus
é impassível e, p or essa razão, rejeitavam o “patripassianismo” (o fato
de que Deus Pai sofreu) e encontravam, na distinção entre o Pai e
Sua Palavra (Filho), uma solução para o problema da salvação pelo
sofrimento redentor, sem que o próprio Deus sofresse diretamente.

Várias outras teorias, entretanto, eram propagadas para defender
o monoteísmo adorando o Cristo Remidor juntamente com o Deus
Criador.

O monarquianismo ( governo único”) era uma palavra comum
para o monoteísmo, e duas formas principais de um monoteísmo ri­
goroso e literal foram difundidas no segundo século. Os estudiosos
modernos distinguiram-nas por meio dos termos monarquianismo
dinâmico e monarquianismo modalista (apenas a esse último se apli­
ca ao termo patripassianismo).

O monarquianismo dinâmico foi uma manifestação do ado-
cionismo primitivo, segundo o qual Jesus era tão digno que Deus
o adotou como Filho, ora na ressurreição, ora no batismo, ora pela
presciência de Suas virtudes por ocasião do nascimento. Algumas ex­
pressões primitivas podiam ser encontradas na órbita gnóstica com
Cerinto, e aparentemente foram combinadas com o docetismo no
Evangelho de Pedro. O termo dinâmico no nome é proveniente da
visão de que o poder (dynamis) de Deus estava sobre Jesus.

N o fim do segundo século, expoentes (os dois homens chamados
Teodoto e seus círculos) uniram o ponto de vista a uma preocupação
racionalista pelo desenvolvimento moral, humano, de Jesus e a um
esforço no sentido de aplicar a precisão matemática à teologia cristã.
Essa abordagem intelectual, em oposição à formulação filosófica do
Logos, transmitia uma motivação diferente das expressões anteriores
do adocionismo.

Paulo de Samósata (terceiro trimestre do terceiro século) foi o res­
ponsável pela apresentação mais sofisticada e plausível nessa linha de
desenvolvimento. Ele estava disposto a empregar o termo Logos, mas

166 HISTÓRIA DA IGREJA

em um sentido impessoal, equivalente à sabedoria de Deus no Antigo
Testamento. Jesus nasceu da virgem Maria pelo Espírito Santo; a sabe­
doria que havia habitado em outros residia de modo supremo em Jesus.

Uma vez que esse Logos impessoal estava unido a Jesus, Paulo de
Samósata não estava falando rigorosamente como um “adocionista”.
Paulo utilizava fórmulas trinitárias, pois, no Pai, sempre estava Stu. L o­
gos e Seu Espírito. O termo Filho era aplicado à pessoa humana de Jesus.

Paulo foi um im portante oficial romano em Antioquia e tornou-
-se bispo da cidade. Algumas práticas que suscitaram críticas dos
adversários - ter guarda-costas, utilizar um trono elevado na igreja
e uma pequena câmara para reuniões privadas, substituir os salmos
dirigidos a Jesus Cristo por hinos a ele mesmo entoados por um coro
de mulheres - podem ter sido provenientes de sua posição civil ou da
transferência de tais práticas à sua função de bispo.

Sínodos em Antioquia, com auge em 268, asseguraram sua con­
denação. Paulo de Samósata conseguiu manter o controle do templo
da igreja, entretanto, até que um apelo feito por seus adversários ao
imperador Aureliano garantiu o julgamento. Esse julgamento decla­
rava que a propriedade deveria pertencer àqueles que estivessem em
comunhão com os bispos na Itália e em Roma. Esse é o primeiro re-

M ESTRES MONARQUIANOS

Nome Data Local

Monarquianos dinâmicos

Teódoto de Bízâncio c. 185 Bizâncio/Roma
Teódoto, o Banqueiro c. 199 Roma
Artemon c. 210 Roma

Paulo de Samósata c. 260-268 Antioquia

Monarquianos modalistas

Noeto c. 200 Esmirna

Práxeas c. 200 Ásia/Roma

Epígono c. 200 Roma

Sabélio c. 215 Roma

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 167

gistro de apelo às autoridades civis para resolver um litígio entre fac­
ções cristãs pela propriedade do templo da igreja.

De acordo com Tertuliano, o modalismo oferecia uma ameaça
religiosa maior do que o monarquianismo dinâmico, pois um grande
número de cristãos comuns eram modalistas crédulos. Modalismo é
o nome do ponto de vista segundo o qual o Pai, o Filho e o Espírito
Santo são modos sucessivos de atividade e revelação do Deus único.
Era a essa doutrina que os antigos autores se referiam como m onar­
quianismo ou, em um sentido depreciativo, “patripassianismo” (“Pai
sofredor”).

O termo patripassianismo era empregado porque uma das impli­
cações da identificação modalista do Pai com o Filho era a de que o
Pai sofreu na cruz. Essa ideia talvez seja possível (se não declarada de
forma tão incisiva) no pensamento bíblico, mas claramente não era
atrativa no sentimento filosófico predom inante da época. (Sempre se
pode depender do adversário para apresentar as implicações de um
ensinamento da forma menos lisonjeira possível.)

Tertuliano apontou seu tino sarcástico para um dos primeiros
representantes do modalismo, Práxeas, o qual também se opunha ao
montanismo, com o seguinte comentário: 'Práxeas fez um serviço
duplo para o diabo em Roma: (...) afugentou o Paracleto e crucificou
o Pai” (Contra Práxeas 1).

O representante mais significativo do modalismo foi Sabélio. Ele
tornou-se tão influente que a doutrina no oriente recebeu seu nome
(sabelianismo). A diferença crucial entre Sabélio e a cristologia do
Logos era que, para Sabélio, o unico Deus revelou-se sucessivamente
como Pai, Filho e Espírito Santo; para os teólogos do Logos, essas
distinções na divindade eram simultâneas.

Os cristãos com mentalidade filosófica pertencentes à tradição da
cristologia do Logos desenvolveram uma Trindade interna para com­
bater o gnosticismo, a filosofia pagã e as diversas formas de m onar­
quianismo. Isso girava em torno do Logos e do pensamento helenista.

Tertuliano representou a ênfase ocidental na unidade divina,
identificando Deus como o Pai e identificando o Filho e o Espírito
Santo como a mesma substância de Deus. No entanto, assim como os
Pais Gregos, ele encontrava a fonte da divindade no Pai. Suas diferen­

168 HISTÓRIA DA IGREJA

ciações entre as pessoas na substância divina única eram associadas
ao plano salvífico de Deus (por esse motivo, a designação “Trindade
econômica” é, por vezes, empregada).

Orígenes representou a tendência oriental de enfatizar as dis­
tinções entre as três pessoas, ressaltando suas diferenças funcionais.
Isso significa que, do único Pai, derivavam o Filho e o Espírito; estes
eram relativamente subordinados ao Pai, mas, em natureza, eram um
com Ele.

Todas as alternativas possíveis de se explicar o relacionamento
entre Jesus Cristo e Deus já estavam presentes no fim do segundo
século. Pouco foi dito explicitamente sobre o Espírito Santo, pois a
doutrina de Cristo foi o alvo da maior parte da controvérsia. Pen­
sadores primitivos talvez tenham sido “trinitários” no pensamento,
mas eram “binitários” no sentimento.

C. Perseguição

' As relações dos cristãos com o governo e a sociedade pagã conti­
nuaram a formar o cenário para a obra dos antigos Pais Católicos. O
problema residia em cumprir a lei em face de um império deificado
que exigia culto ao Estado.

A igreja não se tornou revolucionária, apesar da provocação. Em
vez disso, um antigo Pai Católico morreu como m ártir (Cipriano),
outro morreu no exílio (Hipólito), e ainda outro sofreu tantas to rtu ­
ras nas perseguições que morreu pouco depois (Orígenes).

Além disso, três escreveram exortações ao martírio (Tertuliano,
Orígenes e Cipriano). Dois escreveram tratados sobre os aspectos
malignos da sociedade pagã, especialmente os jogos públicos (Tertu­
liano e Novaciano). Três escreveram apologias (Tertuliano, Clemen­
te de Alexandria e Orígenes) que, por causa de estilo literário, exaus-
tividade e poder de argumentação, constituíram as maiores apologias
a favor do cristianismo no período pré-niceno. Ademais, tensões in­
ternas produzidas pela perseguição causaram o cisma de Hipólito e
Novaciano e provocaram os principais problemas eclesiásticos con­
frontados por Cipriano.

Embora, por vezes, a postura geral fosse a de considerar os cris­
tãos os melhores cidadãos e a base para a melhor sociedade, naquele

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 169

período, houve uma nítida separação do Estado, representada pelo
ponto de vista de que os cristãos não podiam atuar no magistrado
nem no serviço militar (Tertuliano, Hipólito, Orígenes).

Não obstante, o início do terceiro século trouxe um período de
paz que começou a enfraquecer esses sentim entos sectários. Isso se
dava conforme a Igreja crescia em número e passava a atrair aten­
ção favorável nos círculos governamentais mais elevados (veja o
capítulo 9).

D. P en itên cia e política

A perseguição colocou dois ideais conflitantes em tensão na Igre­
ja. Os “rigoristas” viam a Igreja como o grupo dos salvos separados
do pecado; os “laxistas” viam-na como instrum ento de salvação (um
hospital para almas enfermas). A primeira posição é representada por
Tertuliano, Hipólito e Novaciano; a última, por Calisto; já Cipriano
tentava assumir uma posição mediadora, mas rejeitava a visão “rigo-
rista” consistente.

Essas interpretações concorrentes da natureza da Igreja refleti­
ram no debate sobre a disciplina a ser administrada aos lapsi, os que
haviam se “desviado” da Igreja em tempos de perseguição. Os rigo­
ristas queriam mantê-los em um estado de disciplina pelo resto da
vida, alegando que Deus podería salvá-los no fim se fossem verdadei­
ramente penitentes, mas que a Igreja não podería tomar a liberdade
de outorgar perdão, restaurando-lhes a comunhão plena. Os laxistas
desejavam o perdão imediato, a fim de fortalecer a fé dos membros
fracos, restaurando-os à vida da Igreja.

Uma questão relacionada que surgiu foi a autoridade dos con­
fessores e mártires. C om base na promessa de Jesus, segundo a qual
aqueles que confessassem a fé nele em tempos de perseguição te-
riam o Espírito Santo, os confessores alegavam ter autoridade para
perdoar os desviados. Essa nova expressão da tensão entre a autori­
dade do indivíduo e a autoridade da instituição (também a ser vista
nos conflitos entre a igreja organizada e mestres, profetas e - no
quarto século - monges) term inou quando os bispos receberam au­
toridade exclusiva para representar a Igreja na concessão de perdão
(Cipriano).

170 HISTORIA DA IGREJA

No fim do segundo século, o procedimento de confissão pública
e arrependimento estava estabelecido de m odo geral. Q uando uma
pessoa retornava à igreja após desviar-se, fazia uma confissão pública
do pecado. O arrependimento era expresso com trajes de luto, choro
e jejum. Ela, então, pedia oração de joelhos ou prostrada diante da
Igreja. A oração era feita, e a restauração à comunhão era demonstra­
da pela imposição de mãos do clero e a admissão à comunhão. Cos­
tumava-se afirmar que apenas um “segundo arrependimento” formal
estava disponível.

Quatro estágios no desenvolvimento do pensamento sobre a na­
tureza da Igreja podem ser discernidos:

1. Todos os membros são santos - refletido no Novo Testa­
mento. O m ontanism o esforçou-se para recuperar esse p o n ­
to de vista.

2. O clero deve ser composto por santos. Os novacianos e, de­
pois, mais explicitamente os donatistas representavam essa
posição.

3. A Igreja acolhia “santos” (mártires e confessores) e “pecado­
res”. Esse ponto de vista estava tom ando forma na corren­
te principal da Igreja do terceiro século e, no quarto século,
encontrou expressão na distinção dos monges em relação aos
membros comuns da Igreja.

4. A santidade da Igreja pertence não aos indivíduos, mas aos sa­
cramentos da igreja. Agostinho articulou essa etapa posterior
no desenvolvimento.

N o segundo século, o bispo havia presidido o culto, e os pres­
bíteros haviam, em grande parte, sido responsáveis pela discipli­
na. Em meados do terceiro século (C ipriano), entretanto, os bis­
pos assumiram o controle da disciplina, e, com o crescimento das
igrejas nas cidades, os presbíteros receberam funções litúrgicas
nas reuniões.

A linguagem sacerdotal passou a ser cada vez mais comum du­
rante o terceiro século para o bispo e suas funções. C om a transfe­
rência do papel do bispo no culto aos presbíteros das igrejas “paro-
quianas”, a interpretação sacerdotal começou a ser estendida a eles
também.

PAIS DA ANTIGA IGREJA CATÓLICA E SEUS PROBLEMAS 171

LEITURA COMPLEMENTAR

C R O U Z EL, H . Origen. São Francisco: H arper & Row, 1989.
O SBO RN , Eric F. The Beginning ofC hristian Philosophy. Cam-
bridge: Cambridge University Press, 1981.
______ . Irenaeus o f Lyons. Cambridge: Cambridge University
Press, 2001.
______ . The Philosophy o f Clement o fAlexandria. Cambridge:
Cambridge University Press, 1957.
______ . Tertullian: First Theologian o f the West. Cambridge:
TR IG G , J. W. Origen. Fondres: Routledge, 1998.

Vida da Igreja no segundo
e terceiro séculos

I. INICIAÇAO CRISTA

O tratado de Tertuliano Sobre o Batismo e a Tradição apostólica
atribuída a Hipólito fornecem relatos semelhantes de iniciação, que
mostram o padrão geral para tornar-se parte da comunidade cristã no
início do terceiro século. Naquela época, os procedimentos simples
registrados no Novo Testamento e em fontes do início do segundo
século já haviam sido consideravelmente elaborados, mas o padrão
básico permanecia o mesmo. Grande parte dessa elaboração repre­
sentava o acréscimo de ações, com a finalidade de expressar idéias
doutrinárias associadas à conversão.

Um longo período de instrução e um rigoroso exame moral pre­
cediam a admissão à fase final de preparação para o batismo. A Tradi­
ção apostólica exigia que os candidatos recebessem instrução por três
anos, mas admitia que a conduta - não o tempo - fosse o fator decisi­
vo. A descrição a seguir assemelha-se à Tradição apostólica, mas alguns
trechos podem representar adições do quarto século.

VIDA DA IGREJA NO SEGUNDO E TERCEIRO SÉCULOS 173

N o que diz respeito à conduta, ensinava-se os escravos a agrada­
rem seus mestres, os casados a estarem satisfeitos com o cônjuge, e
os solteiros a evitarem fornicação. Prostitutas, sodomitas e feiticeiros
não eram sequer considerados para a membresia. Donos de bordel,
atores de teatro pagão, cocheiros, gladiadores, oficiais que organiza­
vam os jogos públicos, sacerdotes pagãos, militares e magistrados ti­
nham de abandonar a profissão; caso contrário, eram rejeitados para
o batismo.

Escultores e pintores não deveríam fazer ídolos, senão seriam re­
jeitados também.

Seria melhor que os educadores, responsáveis por ensinar a lite­
ratura pagã da época, deixassem o emprego; porém, se não tivessem
outras habilidades, teriam permissão para continuar. Os soldados não
deveríam matar nem fazer o juramento militar, e o catecúmeno ou
crente que desejasse entrar para o exército seria rejeitado. O homem
que tivesse uma concubina deveria casar-se com ela legalmente, a fim
de que não fosse rejeitado, e a concubina deveria ser fiel ao homem
com quem m antinha relações.

A preparação intensiva para o batismo começava na quinta-feira
antes do domingo de Páscoa (momento preferido para o batismo). O
tempo era destinado a jejum, oração, confissão de pecados, leitura e
instrução das Escrituras e exorcismo. Domingo de manhã, o adminis­
trador orava para que Deus trouxesse o poder santificador do Espírito
Santo sobre a água. Os candidatos removiam as roupas e eram bati­
zados separadamente: primeiro as crianças, depois os homens e, por
último, as mulheres. Os candidatos faziam uma renúncia verbal ao
“diabo, sua pom pa e seus anjos” - uma declaração de arrependimento
- e eram ungidos com o óleo de exorcismo.

Enquanto o indivíduo a ser batizado estava em pé dentro da água,
o bispo ou presbítero colocava a mão sobre sua cabeça e perguntava:
“Você crê em Deus Pai todo-poderoso?”, “Você crê em Cristo Jesus,
o Filho de Deus...?” e “Você crê no Espírito Santo, na santa Igreja e
na ressurreição da carne?”. A cada pergunta, o indivíduo respondia:
“Creio”. Após cada confissão, o administrador orientava a cabeça do
fiel para dentro da água (ou, se a mão ali posicionada não fosse fun­
cional, a água podia ser despejada sobre a cabeça, como muitas vezes é

174 HISTÓRIA DA IGREJA

a prática nos batismos ortodoxos posteriores). Algo bem notável nas
fontes é a associação de uma confissão de fé ao batismo. A imersão
tripla foi registrada pela primeira vez por Tertuliano, mas parece ter
sido o costume geral e continua sendo a prática nas igrejas orientais
ortodoxas.

Após a terceira imersão, o administrador ungia-os com o óleo de
ação de graças. Os recém-batizados secavam-se, vestiam-se e entra­
vam na assembléia. O bispo impunha a mão sobre a cabeça de cada
um, orava (Tertuliano associava a vinda do Espírito Santo a essa im­
posição de mãos pós-batismal) e, depois, (de acordo com a Tradição
apostólica) fazia outra unção. As pessoas, então, uniam-se à congrega­
ção para oração e ósculo da paz.

Seguia-se, então, a ceia batismal, que, segundo a Tradição apos­
tólica, incluía também um copo de água, simbolizando a purificação
ocorrida, e um copo de leite e mel, simbolizando o alimento dos pe­
quenos e a entrada na Terra Prometida.

Exceções à prática de imersão eram feitas em duas circunstâncias.
A D idaquê 7 prefere o batismo em água corrente (“viva”); em sua au­
sência, água fria é preferida à morna. Se não houver alguma dessas
opções, a D idaquê aprova o entorno de água três vezes sobre a cabeça,
“em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Além dos casos de falta de água suficiente para a imersão, uma
alternativa era perm itida às pessoas enfermas ou no leito de morte.
Cipriano defendia as “simplificações divinas” de se verter ou aspergir
em lugar de lavar. Q uando a “necessidade obriga, e Deus concede Sua
graça”, ele afirmava que os benefícios divinos não eram enfraquecidos,
contanto que o batismo modificado fosse feito na igreja e que a fé do
dirigente e do candidato fosse sólida.

Algo com que nem todos concordavam, entretanto, era o poder
do batismo para tornar os acamados cristãos legítimos. Q uando No-
vaciano se recuperou e seu bispo nomeou-o a presbítero, outros clé­
rigos e muitos leigos objetaram, alegando que quem recebia a água
do batismo na cama por motivo de enfermidade não podia tornar-se
membro do clero.

A Tradição apostólica é uma das primeiras referências ao batismo
de crianças pequenas. Tertuliano é a referência segura mais antiga à

VIDA DA IGREJA NO SEGUNDO E TERCEIRO SÉCULOS 175

prática - e posicionou-se contra. No entanto, meio século mais tarde,
na igreja em Cartago, Cipriano apresentou forte defesa do batismo
infantil, até mesmo de recém-nascidos.

A descrição na Tradição apostólica da cerimônia de batismo mos­
tra que ele era destinado àqueles com idade suficiente para ter uma
participação ativa. A confissão de fé era parte tão integrante da prá­
tica que os pais ou alguém na família falavam por quem não o podia
fazer por si. Até mesmo as liturgias posteriores mostram sua origem
em uma época em que o batismo pressupunha a condição de crente
do indivíduo. Toda a prática catequética do quarto e quinto séculos
partia igualmente do princípio de que a pessoa já havia alcançado
uma idade responsável.

Justino M ártir reproduziu a situação normal nos primórdios ao
dizer: “Todos os que foram persuadidos e creem que as coisas ensina­
das e ditas por nós são verdadeiras e prometem ser capazes de viver
em conformidade (...) são conduzidos à água” {1 Apologia 61). Apesar
disso, o batismo infantil tornou-se rotina no quinto e sexto séculos.

Tertuliano fez alusão a casos de “necessidade” como ocasião para
que crianças pequenas fossem batizadas. Aparentemente, a ameaça
de morte iminente foi a provável motivação para o surgimento do ba­
tismo de bebês e crianças. De grande influência era João 3.5, o texto
batismal mais citado na Igreja primitiva, do qual se entendia a neces­
sidade do batismo à entrada no céu.

Inscrições mortuárias, com informações sobre o momento do
batismo e a idade do falecido, mostram uma correlação próxima no
tempo entre o batismo e a morte, independentemente da idade da
pessoa. Essas inscrições revelam que o batismo infantil não era roti­
neiro, mas, sempre que a morte ameaçava (e a taxa de mortalidade in­
fantil era elevada no m undo antigo, assim como ainda é em algumas
partes do m undo hoje), a família desejava que a criança partisse desta
vida tendo recebido a graça do batismo.

A arte cristã logo desenvolveu uma iconografia padrão para o ba­
tismo, a qual retratava a mão do administrador sobre a cabeça daque­
le que estava sendo batizado. Fontes literárias, como a Tradição apos­
tólica, mostram que esse era o mom ento da confissão de fé. A postura
também podería ter sido funcional para a imersão e contrasta com as

176 HISTÓRIA DA IGREJA

pinturas medievais posteriores - quando outro método de batismo
havia se tornado normal no ocidente as quais mostram João Batista
vertendo água sobre a cabeça de Jesus.

O fato de o candidato estar em pé em uma pequena quantida­
de de água em muitas imagens primitivas era considerado evidência
contra a imersão como prática habitual, mas a mão do administrador
sobre a cabeça do candidato bem como a nudez deste enfraquecem
essa interpretação. Talvez seja por motivos artísticos que a presença
de água recebe mera alusão.

Nas representações primitivas, Jesus (ou o candidato) costuma
ser m enor do que o administrador. Isso pode ser uma alusão à ideia do
novo nascimento, mas o candidato não era retratado como criança;
assim, os tamanhos relativos podem, também, ser resultado de consi­
derações artísticas.

II. ASSEM BLÉIAS CRISTÃS

Desde os primeiros dias, a Igreja havia estabelecido o costume
de reunir-se para comunhão e adoração no primeiro dia da semana,
domingo, ao qual os cristãos deram o nome de “dia do Senhor”, em
homenagem à ressurreição de Jesus. Esse nome era distinto do dia de
sábado. Muitos cristãos judeus continuaram a observar o sábado (o
sétimo dia) como dia de descanso, além de reunir-se para a Ceia do
Senhor no primeiro dia da semana.

O governador romano Plínio registrou o costume dos cristãos de
reunirem-se para adorar Jesus Cristo em um dia determinado antes
do nascer do sol, uma prática necessária porque o domingo não era
dia de recesso antes da época de Constantino. Eles se reuniam n o ­
vamente à noite para uma refeição, talvez o ágape (festa do amor),
descrito por Tertuliano como uma ocasião para oração, conversas
santas e louvores, juntam ente com a refeição coletiva na qual os ne­
cessitados também eram alimentados. As reuniões cristãs aconteciam
principalmente nos lares dos membros mais abastados. No terceiro
século, os cristãos começaram a alugar ou adquirir propriedades para
uso próprio, remodelar casas e, ao final do século, construir salas de
reunião.

VIDA DA IGREJA NO SEGUNDO E TERCEIRO SÉCULOS 177

Justino M ártir fornece o relato explícito mais antigo que temos
das atividades na assembléia dominical: leituras das memórias dos
apóstolos ou dos escritos dos profetas, um sermão com base nas leitu­
ras, oração, a ceia do pão e do vinho misturado com água e uma con­
tribuição voluntária para os necessitados. Esses itens são comprova­
dos em outras fontes, bem como a entoação de salmos e hinos. Talvez,
ao final do terceiro século, tenha havido uma separação do culto em
duas partes. A primeira parte estaria centrada na instrução da Palavra,
à qual todos eram bem-vindos; a segunda parte estaria centrada na
Ceia do Senhor, à qual apenas os fiéis batizados, que não estivessem
sendo disciplinados, eram admitidos.

O nome comum na Igreja primitiva para a Ceia do Senhor ou a
Com unhão era “eucaristia” (“graças”), chamando atenção para o seu
aspecto principal. Ela ocupava um lugar central nas assembléias d o ­
minicais. Outros aspectos associados à eucaristia eram a comunhão, a
memória, a esperança escatológica e a oferta.

Tanto a declamação das palavras de Jesus na última ceia quanto
a invocação do Espírito Santo podiam ser incluídas na oração que
conferia aos elementos um novo significado. Uma linguagem rea­
lista sobre a presença de Jesus Cristo era comum, muitas vezes com
um propósito anti-herético, enfatizando que os elementos materiais
eram meios às bênçãos espirituais.

Inácio queixava-se dos docetistas, os quais se abstinham da santa
ceia por não a considerarem carne de Jesus, “que sofreu por nossos
pecados”. Irineu insistia na ideia de que a santa ceia apoiava os o rto ­
doxos em oposição aos gnósticos, pois a invocação de Deus acrescen­
tava uma realidade celestial à terrena e, assim, trazia a esperança da
ressurreição aos participantes.

O texto mais popular sobre a santa ceia era Malaquias 1.11, indi­
cando que os cristãos ofereciam o sacrifício puro desejado por Deus.
Em contraste com os sacrifícios sangrentos do paganismo e o templo
judaico, a linguagem sacrificial passou de orações de gratidão, como
culto espiritual (Justino M ártir), aos elementos, como primícias da
terra (Irineu), e, então, ao sacrifício de Jesus Cristo na cruz, comemo­
rado com o pão e o vinho (Cipriano).

178 HISTÓRIA DA IGREJA

Nos dois primeiros séculos, apologistas cristãos como Justino
M ártir observaram a diferença em relação às religiões pagãs na ausên­
cia de templos, altares, imagens e sacrifícios materiais. N o terceiro sé­
culo, como parte de uma crescente distinção entre o clero e os leigos,
a linguagem do sacerdócio começou a ser aplicada com mais regula­
ridade aos ministros cristãos (talvez de um m odo mais comparativo
por Orígenes, mas direto por Cipriano).

A assimilação cristã da terminologia de culto aumentou ao longo
do terceiro século e tornou-se padrão no quarto século. Já na época,
os ministros eram sacerdotes, as construções das igrejas eram tem ­
plos, as mesas de comunhão eram altares, e a arte sacra era comum.

III. VIDA CRISTA

Além da reunião no dia do Senhor, a D idaquê estipulava que os
cristãos jejuassem às quartas e sextas-feiras, em contraste com os je-
quns dos judeus (fariseus), às segundas e quintas-feiras. Ela também
prescrevia a oração do Pai-nosso três vezes por dia. Diferentes fontes
refletem outras práticas de oração particular diária: nas refeições, três
vezes ao dia e à noite (Clemente de Alexandria), ou cinco vezes ao dia
e à noite (Tertuliano).

A Tradição apostólica instruía os fiéis a começarem o dia reu­
nindo-se onde os mestres davam instrução sobre a Palavra e orações
eram feitas e, se não houvesse instrução no dia, lendo o livro sagrado
e orando em casa. Uma versão do documento especifica outras seis
horas do dia e da noite para oração.

“Dois caminhos”, na D idaquê e em Barnabé, refletem o ensina­
mento moral judaico adotado pelo cristianismo primitivo. Os dez
mandamentos foram elaborados de forma que a proibição do hom i­
cídio incluísse o aborto e o abandono de crianças pequenas e que a
proibição do adultério incluísse a fornicação e as práticas homosse­
xuais. H á uma ênfase sobre os intentos do coração e também sobre as
ações externas.

Assim sendo, a D idaquê expandiu sua versão de “Cam inho da
vida”, adicionando os ensinamentos de Jesus sobre a não retaliação e o
amor ao próximo (incluindo inimigos), encontrados no Sermão do

VIDA DA IGREJA NO SEGUNDO E TERCEIRO SÉCULOS 179

M onte . A interpretação da lei por Jesus continuou servindo como
resumo da doutrina moral cristã nos apologistas e parece ter sido fun­
damental as primeiras instruções dos novos convertidos quanto ao
m odo de vida esperado dos cristãos.

Os apologistas tonaram a vida moral cristã o centro de seu ar­
gumento a favor da verdade do cristianismo. A Cayía a Diogneto e a
ApologiA de Aristides contêm belas descrições de cristãos “vivendo no
mundo, mas não sendo do m undo”. As práticas mencionadas incluem
honestidade no trabalho, pureza sexual, solidariedade familiar, boas
ações aos inimigos, cuidado dos pobres, obediência às leis e oração
diária.

A despeito de certa idealização, deve ter havido alguma base na
realidade para as atraentes descrições. O m odo de viver dos cristãos
e, ainda mais, seu m odo de morrer (dispostos a aceitar o martírio)
demonstraram ser um poderoso fator na conversão de pagãos à fé.

Nos casos em que a doutrina moral cristã coincidia com a filo­
sofia moral da época, os cristãos alegavam que sua religião concedia
poder espiritual ate mesmo a pessoas medíocres, incultas, para viver
a vida que, segundo os filósofos, apenas alguns podiam alcançar. O
fracasso dos cristãos em viver de acordo com os padrões do evangelho
podería resultar em disciplina (consulte o capítulo 7, “Penitência”).

De fato, o m odo de vida cristão atraía a atenção favorável de al­
guns pagãos. Galeno, médico e filósofo, observou que os cristãos, ao
seguir suas crenças em “recompensas e castigos na vida futura”, alcan­
çavam um m odo de vida nada inferior ao de filósofos genuínos”. Ele
observou especialmente o “descaso pela m orte” (martírio), a “restri­
ção da coabitação, o “autocontrole em questões de comida e bebida”
e a “busca ávida por justiça”.

As práticas sexuais estavam sob rigoroso escrutínio dos moralis­
tas cristãos. Os moralistas moderados, como Clemente de Alexan­
dria, opunham-se a fornicação, ao adultério e à homossexualidade,
mas defendiam a benignidade do matrimônio em oposição às ten­
dências ascéticas da epoca. Com o muitos outros escritores cristãos,
ele limitava a finalidade das relações sexuais no casamento à geração
de filhos, uma opinião partilhada também pelos moralistas estoicos
do início do império.

180 HISTÓRIA DA IGREJA

Tertuliano, em seu período montanista, considerava o celibato
melhor do que o matrimônio e era contra o segundo casamento, mes­
mo no caso de morte do cônjuge. Em seu tratado Monogamia, ele as­
sociou o casamento (apenas uma vez) ao monoteísmo (um só Deus).
Apesar de suas caracterizações, p or vezes, negativas das mulheres, ele
pintava uma imagem muito positiva do matrimônio cristão: os dois
tornando-se uma só carne e espírito, compartilhando uma esperança,
um desejo, uma disciplina comum de vida e serviço - orando, cantan­
do, jejuando, indo à igreja e realizando boas obras juntos.

Clemente de Alexandria produziu um manual de boas manei­
ras para os cristãos chamado Paedagogus, ou Instrutor (capítulo 7).
Ele abordou as atividades realizadas no curso de um dia, instruindo
como os cristãos deveriam comportar-se em diferentes circunstân­
cias. Por mais distintos que ele e Tertuliano fossem em temperamen­
to e abordagem, há um notável acordo entre eles quanto aos detalhes
comportamentais.
r Caridade aos pobres e não privilegiados era uma característica
do cristianismo primitivo. O forte senso de fraternidade gerava um
sentimento correspondente de obrigação de aliviar as necessidades
físicas dos outros crentes. A benevolência para com os outros era vista
como uma imitação da filantropia de Deus pelos seres humanos. Já no
início do segundo século, Inácio teve de alertar contra o uso excessivo
dos fundos da igreja à aquisição da liberdade de escravos.

Justino e Tertuliano relatam que as contribuições coletadas nas
assembléias eram destinadas a enfermos, idosos, viúvas, órfãos, pri­
sioneiros, viajantes e ao sepultamento dos pobres. Clemente de Ale­
xandria aconselhava que era melhor fazer o bem aos indignos do que,
prevenindo-se contra eles, deixar de fazer o bem aos dignos.

Os cristãos serviam no exército no fim do segundo século, no
mais tardar, mas muitos líderes do pensamento cristão - tais como
Tertuliano, Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes e Lactân-
cio - viam, com maus olhos, o envolvimento cristão na guerra. Eles
ora proibiam os cristãos de estarem no exército ora aconselhavam os
soldados a não participarem dos rituais religiosos do exército romano
e a não matarem (em grande parte do tempo, o exército mantinha a
ordem e construía estradas).

VIDA DA IGREJA NO SEGUNDO E TERCEIRO SÉCULOS 181

IV. MULHERES CRISTÃS

A vida das mulheres talvez não tenha sido amplamente abordada
na literatura sobrevivente da Igreja primitiva, mas elas, sem dúvida,
foram preeminentes em sua história. Apenas alguns nomes são co­
nhecidos, mas o número de mulheres crentes era maior do que o de
homens.

As mulheres são mencionadas principalmente em seu papel tra­
dicional de esposa e mãe, no qual se esperava que fossem amorosas e
fieis ao marido, gerenciando o lar de modo ordenado e educando os
filhos no tem or de Deus.

Em contrapartida, um estilo de vida celibatário era adotado
p o r muitas - tanto virgens que nunca se casavam quanto viúvas
que não se casavam novamente. A vida ascética foi, inicialmente,
vivida de m odo individual e particular dentro do próprio lar, mas,
no terceiro século, havia pequenas comunidades de virgens que vi­
viam juntas.

Alguns dos mártires mais heroicos da Igreja primitiva foram
mulheres, tais como Blandina em Lyon e Perpétua em Cartago. As
mulheres também se envolviam nas campanhas missionárias do
evangelho, acompanhando apóstolos e evangelistas em suas viagens
e trabalhando nos núcleos femininos das casas, aos quais os homens
não tinham acesso. O apócrifo Atos de Paulo concedeu posição de
destaque a Tecla, que se tornou objeto de culto como santa na Ásia
Menor. Apesar do sentimento de alguns de que as mulheres não eram
mestres dignas de confiança, elas estavam frequentemente envolvidas
no ensino privado.

Viúvas e virgens desempenhavam papéis especiais nas congrega­
ções desde os tempos antigos. Certamente, ao terceiro século, se não
antes, havia mulheres com o título de diaconisa. Somente em seitas
montanistas e em algumas seitas gnósticas as mulheres envolviam-se
na pregação pública e na presidência de funções litúrgicas. Tertulia-
no, por exemplo, objetava à ideia de mulheres realizarem o batismo,
mas outras fontes indicam a assistência delas no batismo feminino.

As censuras do Novo Testamento contra mulheres no ensino pú­
blico eclesiástico e na posição de anciãs parecem ter sido uniforme­
mente observadas na corrente principal da Igreja.

182 HISTÓRIA DA IGREJA

V. ESPERANÇA CRISTÃ

Dois padrões de esperança escatológica surgiram no início do
cristianismo. A partir de uma certa vertente do judaísmo apocalíp­
tico, desenvolveu-se uma escatologia quiliástica. De acordo com esse
ponto de vista, todos os falecidos aguardam, no mundo hadeano,
pela vinda do reino terreno, o reino messiânico temporário, com os
justos e os injustos separados em diferentes compartimentos.

O quiliasma cristão situava a ressurreição dos justos (primeira
ressurreição) na época do retorno de Jesus Cristo e da inauguração
de Seu reino terreno em Jerusalém. Baseada em Apocalipse 20.3, essa
visão limitava a duração desse reino em 1.000 anos - daí a designação
milênio (latim) ou quiliasma (grego). Ao final desse período, o res­
tante dos seres humanos seria levado para juízo, com a subsequente
separação eterna no céu ou no inferno.

O quiliasma fazia parte da polêmica contra Marcião e os gnós-
ticos em Justino Mártir, Irineu e Tertuliano. Irineu integrou o reino
"milenar em sua teologia, interpretando-o como um tempo em que os
corpos ressurretos seriam acostumados à existência espiritual e pre­
parados para a visão celestial de Deus. Tertuliano postulava que os
mártires eram uma exceção e não precisavam aguardar no Hades pela
ressurreição como os outros, indo diretamente para a presença de Je­
sus Cristo. O utros defensores do quiliasma no cristianismo primitivo
foram Pápias, Vitorino e Lactâncio.

Um padrão alternativo de escatologia, não quiliástico, entendia
o reino futuro de Deus e de Cristo como celestial, não terreno. De
acordo com esse ponto de vista, também derivado de fontes judaicas,
os justos que morreram já estão no Reino dos Céus (isto é, no paraí­
so), e não há qualquer vestígio de um reino terrestre provisório.

Em lugar das idéias sobre a permanência dos m ortos no Hades e
um milênio terreno, essa visão adotava a crença em uma estada inter­
mediária dos justos no reino celestial, na presença de Cristo. Muitas
vezes, expressava-se a convicção de que Cristo, na ressurreição, havia
libertado do Hades os justos m ortos no Antigo Testamento e os leva­
do para o reino celestial intermediário.

Essa forma não quiliástica de esperança cristã interpretava Apo­
calipse 20.3,4 como uma referência: (l) à prisão de Satanás pelo mi­

VIDA DA IGREJA NO SEGUNDO E TERCEIRO SÉCULOS 183

nistério, morte e ressurreição de Jesus; (2) à volta à vida dos decapi­
tados por amor aJesus, como a ressurreição de sua alma no momento
da morte para entrarem no paraíso com Cristo; e (3) a mil anos como
símbolo desse reino provisório dos fiéis com Cristo na Jerusalém ce­
lestial. N a segunda vinda, ocorrería a ressurreição dos corpos e o jul­
gamento final.

Essa corrente não quiliástica de pensamento escatológico foi am­
plamente difundida no cristianismo primitivo e é representada por
escritores como Hermas, Policarpo, os autores de Carta a Diogneto,
Ascensão de Isaías, Apocalipse de Pedro, M artírio de Policarpo e Carta
das igrejas de Viena e Lyon, Clemente de Alexandria, Orígenes e Ci-
priano.

Não existe qualquer prova de cemitérios exclusivos a cristãos no
período primitivo. Em torno de 200, a igreja de Roma adquiriu aqui­
lo que passou a ser o núcleo da Catacumba de Calisto, mas o uso
compartilhado dos mesmos túmulos por pagãos e cristãos continuou
sendo comum no quarto século. Os cristãos seguiam as práticas ha­
bituais de sepultamento da sociedade (elas serão examinadas no p ró ­
ximo capítulo com relação ao desenvolvimento do culto dos santos).
Por vezes, eles expressavam sua fé e esperança em inscrições, imagens
simbólicas e pinturas em seus sepulcros.

Presente em todas as formas de esperança escatológica ortodoxa

estava a crença na ressurreição corporal, em contraste com as opiniões

gnosticas quanto a ressurreição unicamente da alma. Tanto gnósti-

cos quanto não quiliasticos ortodoxos acreditavam que os justos iam

imediatamente para a presença de Deus no céu após a morte, mas os

não ortodoxos não associavam essa crença à expectativa de ressurrei­

ção do corpo. Orígenes enfatizava o “corpo espiritual”, mas a maioria

(talvez em oposição direta ao gnosticismo) enfatizava a ressurreição

d1a « carne ». *

Além de Orígenes, que aceitava a possibilidade da salvação uni­
versal apos um período de purificação e educação das almas na vida
após a morte, aqueles que discorriam sobre o assunto entendiam uma
divisão final da humanidade em ceu ou inferno. A expectativa de re­
compensa eterna sustentava a resistência cristã diante de perseguições
e outras dificuldades.

184 HISTÓRIA DA IGREJA

LEITURA COMPLEMENTAR

BRADSHAW, Paul F. Early Christian Worship: A Basic Intro-
duction to Ideas and Practice. Collegeville, M N : Liturgical Press,
2001.

FERGUSON, Everett. Early Christians Speak. Abilene, TX :
A C U Press, 1999, 2002. 2 v.

Desenvolvimento da Igreja
durante o terceiro século

I. PERSEGUIÇÕES
A. Fases principais

Entre a época dos imperadores romanos Domiciano (m. 96) e
Décio (m. 251), o cristianismo era entendido como algo distinto do
judaísmo e, uma vez que não se tratava de uma religião étnica, não
tinha direito à proteção. Ele era ocasionalmente reprimido em perse­
guições esporádicas, mas não havia um esforço geral para extirpá-lo.
O cristianismo, muitas vezes, enfrentou seus momentos mais difíceis
sob o governo dos imperadores mais fortes: Marco Aurélio e Septí-
mio Severo.

O período entre Marco Aurélio (m. 180) e Décio testemunhou
um declínio na vitalidade do império. As religiões do lado oriental
continuaram a espalhar-se para o ocidente. Após um pico de perse­
guição sob o governo de Septímio Severo, o qual, em 202, proibira

186 HISTÓRIA DA IGREJÀ

conversões ao judaísmo e ao cristianismo, houve o primeiro longo
período de paz na Igreja, de 211 a 250, interrom pido por uma breve
perseguição no governo de Maximino, em 235. O cristianismo cres­
ceu enormemente durante esse tempo, mas a postura da população
ainda era negativa.

O cristianismo viveu uma situação particularmente favorável sob
o governo de Alexandre Severo (222-235), o qual tinha interesse em
diversos filósofos e mestres religiosos (incluindo Jesus), e de Filipe, o
Árabe, (244-249), sob cujo domínio a situação foi tão favorável que
Eusébio acreditava na hipótese de o imperador ser cristão. H á evidên­
cias, em inscrições, da infiltração de um cristianismo confiante na Fri­
gia em meados do terceiro século. D urante esse período, ele cresceu
amplamente não só na Ásia Menor, mas também no Egito e norte da
África.

Sob o governo de Décio (249-251) e Valeriano (253-260), o im­
pério declarou guerra à Igreja com esforços voltados à opressão siste­
mática. ,Q uando essas perseguições se acalmaram, outros problemas
no império deram ao cristianismo um segundo longo período de paz,
de 260 a 303, até que Diocleciano procurou, mais uma vez, suprimir
a Igreja.

B. Perseguições deciana e valeriana

O reinado de Décio foi o divisor entre a perseguição local, espo­
rádica, e o ataque em todo o império ao cristianismo.

A situação da época fornece o cenário para as políticas de Décio.
Havia uma ameaça bárbara contínua nas fronteiras, a qual se tornou
mais perigosa por causa das dificuldades econômicas dentro do im­
pério. O renascimento da prosperidade romana ocorreu no exército
romano de Ilírico, provavelmente a parte menos cristianizada do im­
pério. A celebração do milésimo aniversário da fundação de Roma
segundo a tradição (753 a.C.) desencadeou uma revitalização de cos­
tumes antigos.

A primeira ação de Décio foi a prisão do alto clero. A segunda
foi a ordem universal de realizar sacrifício aos deuses do império
(queimar incenso, derramar libação e provar a carne sacrificial).

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 187

Aqueles que o faziam recebiam um certificado de que haviam cum­
prido a ordem.

Após uma geração de paz, a Igreja como um todo estava desprepa­
rada para o desafio. Muitos haviam ficado confortáveis com a aceitação
do cristianismo, e um grande número
abandonou a fé, obedecendo à ordem
de sacrifício. Os efeitos na Igreja pode­
ríam ter sido ainda maiores se a perse­
guição tivesse durado mais. Décio foi
assassinado em 251, e o surto de uma
epidemia em 251/252 voltou a aten­
ção do povo para outras preocupações.

Valeriano retomou a perseguição
em 257, exilando bispos e proibindo
reuniões cristãs. Em 258, o clero foi
trazido de volta, e muitos foram exe­
cutados. Os cristãos de posição eleva­ Imperador Décio, que iniciou a primeira
da foram aviltados e tiveram os bens perseguição de cristãos em todo o império
apreendidos; aqueles no serviço impe­ (moeda romana)
rial foram acorrentados para trabalhar
nas propriedades imperiais. A propriedade coletiva e os fundos da
Igreja também foram confiscados.

Os estudiosos sugerem diversos motivos para o intenso ataque à
Igreja: a cobiça dos governantes, a consideração do desfavorecimento
dos deuses como motivo para o colapso econômico, a hostilidade po­
pular, que levou à supressão do corpo estranho no Estado e à exigên­
cia de lealdade ao imperador, e o desejo psicológico de que todos o
apoiassem. Provavelmente, o mais significativo tenha sido uma políti­
ca religiosa conservadora destinada a fortalecer o paganismo romano
tradicional.

O filho de Valeriano, Galiano (253-268), reverteu a política de
perseguição e restituiu as propriedades às igrejas.

C. Culto aos mártires

Um número maior de membros da Igreja abandonou a fé do que
se tornou mártir. Apesar disso, a quantidade de mártires era conside-

188 HISTÓRIA DA IGREJA

rável, o que ocasionou a realização de cultos voltados a eles (ativida­
des associadas à adoração).

O respeito excessivo pelos mártires e os privilégios especiais atri­
buídos a eles eram a base de sua veneração em cultos. Sua elevada
honra já é evidente em M artírio de Policarpo, mas o cuidado com os
restos mortais de Policarpo não precisa ser considerado algo além da
consideração humana normal por um ente querido. Marcas de respei­
to e veneração não eram, em si, manifestações cultuais.

Por trás do desenvolvimento do culto cristão aos mártires, ha­
via idéias associadas ao culto aos heróis na religião grega e às prá­
ticas funerárias do m undo greco-romano. Os heróis eram aqueles
que haviam sido fortes em vida e que permaneceram fortes para
ajudar também depois da morte. Sua influência limitava-se às suas
relíquias e ao local onde estavam enterrados. O respeito pelos m or­
tos incluía refeições periódicas em memória do falecido no túmulo
com a família após a m orte da pessoa e, depois, anualm ente em seu
aniversário.

A prática cristã fez algumas alterações nesses costumes. As refei­
ções funerárias eram eucarísticas na Igreja (Atos deJoão e Tertuliano).
Cipriano é o primeiro a chamar a santa ceia de sacrifício oferecido
em memória dos mártires, comemorando sua vitória e orando pelo
seu descanso. O dia da morte era tratado pelos cristãos como “ani­
versário” (o aniversário da imortalidade), e, por isso, o aniversário de
morte - em vez do aniversário de nascimento - era comemorado.
Normalmente, o sepultamento (depositio) era realizado no mesmo
dia da morte.

A lista de aniversários a serem celebrados em cada igreja tornou-
-se a base dos primeiros martirológios. A família do falecido era a
comunidade cristã, e isso garantia a perpetuidade dos aniversários;
porém, as comemorações eram estritamente locais no princípio.

A segunda metade do terceiro século mostra que a veneração cul­
tuai dos mártires estava presente em todo lugar. Inscrições começa­
ram a aparecer em Roma: “Pedro e Paulo, orem por nós”. A term ino­
logia, entretanto, estava atrasada em relação à prática, pois a palavra
sancti, no latim cristão no quarto século, ainda designava todos os
fiéis falecidos, não apenas santos.

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 189

A principal expressão de culto, ou adoração, era a oração dirigida
ao mártir; logo, essa oração aos falecidos tornou-se mais im portante
do que a oração pelo repouso das almas. O m ártir já estava na presen­
ça de Deus e havia recebido “liberdade de expressão” iparrésia), estan­
do apto a servir como intercessor. A invocação dos santos baseava-se
nessa ideia de intercessão.

Haja vista a posição excepcional dos mártires na Igreja e as idéias
em voga sobre o relacionamento dos mortos com os vivos, a prática
da invocação dos mortos não teria sido estranha ao povo da cultura
greco-romana.

A prática da oração aos mártires era preferível na presença do
túmulo, pois ali o poder era mais evidente. Em Orígenes explicita­
mente, mas também nos teólogos do quarto século, a veneração aos
mártires tinha relação com Jesus Cristo - não significavam uma con­
corrência a Ele - pois eram Seus servos.

II. CIPRIANO E CISMA

N a crise ocasionada pelas perseguições de Décio e Valeriano, a
igreja no norte da África ganhou a liderança competente de Cipriano
como bispo de Cartago.

Fontes para o estudo da vida de Cipriano incluem as seguintes:
(1) sua Vida, escrita pelo diácono Pôncio, a primeira biografia cristã;
(2) Atos de Cipriano, um dos relatos autênticos do martírio dos pri­
meiros séculos; (3) tratados do próprio Cipriano e uma quantia con­
siderável de correspondências, fontes importantes de informações
sobre a época e o funcionamento interno da igreja; e (4) observações
secundárias de Jerônimo e outros.

Táscio Cecílio Cipriano nasceu na primeira década do terceiro
século, provavelmente em Cartago, em uma família pagã rica e culta.
Ele recebeu boa educação, mas sua repulsa à corrupção da vida p ú ­
blica levou-o a buscar algo mais elevado. Um presbítero em Cartago,
Cecílio, converteu-o em cerca de 246. Sua educação, posição e habi­
lidade quase o tornaram presbítero de imediato. Ele foi eleito bispo
em 248 “pela voz do povo”, em oposição a alguns presbíteros idosos
que se lembraram de Paulo afirmar que o bispo não podia ser recém-
-convertido (1 Tm 3.6).

190 HISTÓRIA DA IGREJA

A perseguição deciana de 250 provocou sua fuga da cidade. Ela
havia ceifado a vida de Fabiano, bispo de Roma, e Cipriano precisou
defender sua fuga. No entanto, manteve contato com a igreja por
cartas.

Durante a ausência de Cipriano, alguns confessores concederam
cartas de perdão aos lapsi, aqueles que haviam se desviado na perse­
guição, e exigiram sua reconciliação imediata à Igreja. Eles recorriam
à opinião da Igreja de que aqueles que confessavam a fé sob persegui­
ção recebiam uma medida especial do Espírito Santo e, assim, tinham
o direito de perdoar e exercer o privilégio dos presbíteros (responsá­
veis pela disciplina da Igreja).

Cipriano objetou, dizendo que essa ação deveria aguardar um
retorno de paz, quando os bispos pudessem reunir-se, e toda a Igre­
ja pudesse chegar ao acordo quanto a uma política unificada para os
apóstatas que desejavam perdão e retorno à Igreja.

Um diácono, Felicíssimo, liderou um cisma, ao qual se juntaram
cinco presbíteros que se haviam oposto à eleição de Cipriano, em
apoio às ações dos confessores.

Cipriano retornou a Cartago em 251 após a morte de Décio, e
um sínodo de bispos confirmou sua posição, excomungando os an­
tagonistas. Ao mesmo tempo, houve um cisma em Roma; dessa vez,
p or rigoristas, liderado por Novaciano, o qual se opunha a qualquer
reconciliação de apóstatas à plena comunhão na igreja.

Os anos restantes da vida de Cipriano foram ocupados por ativi­
dades em uma época tempestuosa para a Igreja. Ele continuou a tra­
balhar pela unidade em Cartago e em outros lugares, a fim de resta­
belecer a ordem e a estabilidade a uma Igreja ameaçada e desanimada.
Uma peste devastadora, em cujo período os cristãos foram ativos no
cuidado aos doentes, influenciou m uito o abrandamento da oposição
dos pagãos.

Cipriano também se envolveu em uma controvérsia acerca do re-
batismo com Estêvão, bispo de Roma, a qual não foi imediatamente
resolvida por causa da morte deste em 256 e da expulsão daquele em
257. Cipriano foi trazido de volta para Cartago e decapitado em 258.

Cipriano foi um homem de ação, interessado na administração
e direção de almas, não na especulação teológica. Ele era convertido,

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 191

mas naturalmente trouxe conceitos do passado pagão à sua interpre­
tação do cristianismo - por exemplo, empregava livremente a lingua­
gem da religião pagã para descrevê-lo. Embora não tenha criado a ter­
minologia, ele foi um dos primeiros a falar extensivamente do bispo
como sacerdote, da santa ceia como sacrifício e da mesa do Senhor
como altar.

Cipriano foi impelido a uma posição de liderança em um m o­
mento repleto de problemas práticos imediatos, antes que pudesse
assimilar totalmente alguns aspectos do cristianismo. Seu principal
trunfo era a sabedoria prática, a qual empregou com o intuito de pre­
servar a Igreja como comunidade unificada, com o clero e os leigos
atuando em conjunto. A força da igreja no norte da África e em ou­
tros lugares, manifesta após o suplício da perseguição deciana, é um
tributo à sua moderação e habilidade política.

Os tratados de Cipriano abordavam essencialmente questões
práticas. D e imenso interesse teológico é Unidade da Igreja, uma im­
portante contribuição para a doutrina eclesiástica. De enorme inte­
resse histórico é Lapsos, que revela muito sobre a perseguição e a vida
da Igreja. Suas Cartas constituem o maior conjunto de correspon­
dências da Igreja pré-nicena, 65 cartas de Cipriano e 16 endereçadas
a ele ou ao clero de Cartago.

Cipriano envolveu-se em três controvérsias. A principal, em
torno da qual as outras giravam, dizia respeito à reconciliação dos
desviados.

Ele confrontava os extremos: o rigorismo, segundo o qual os
apóstatas não podiam ser restaurados à plena comunhão, devendo ser
mantidos na condição de penitentes pelo resto da vida; e o laxismo,
segundo o qual os apóstatas penitentes podiam ser restaurados à co­
munhão imediatamente. O primeiro curso de ação ensinava a gravi­
dade do pecado e fortalecia os fiéis a confessarem em toda persegui­
ção. O segundo restaurava os números da Igreja e fortalecia os caídos
em face de outras tentações.

Cipriano defendia um meio-termo que fazia distinções de acor­
do com a gravidade da transgressão. Aqueles que haviam chegado ao
ponto de sacrificar deviam ser disciplinados e poderíam ser reconci­
liados à Igreja no mom ento da morte. Isso ensinaria a gravidade do

192 HISTÓRIA DA IGREJA

pecado, mas lhes permitiría morrer na paz da Igreja e, assim, conferir
à consciência uma garantia de salvação.

Aqueles que tivessem obtido certifi­

“Como eles podem dizer cados de sacrifício sem sacrificar (algo que
que creem em Cristo se podería ser feito subornando um oficial ou
não fazem o que Cristo enviando um escravo ou amigo pagão para
ordenou?” (Cipriano, realizar o sacrifício) deveríam ser disciplina­
dos e poderíam ser reconciliados após um
Unidade da Igreja 2). período apropriado.

Por fim, aqueles que tinham considera­

do a ideia de negar a fé, mas não o fizeram,

deviam fazer uma confissão particular ao bispo, uma vez que seu pe­

cado fora particular.

Na época de Cipriano, a disciplina penitencial pública incluía os

mesmos elementos de 50 anos antes, mas era mais estruturada. Após

confessar ao bispo e procurar reconciliação com a Igreja, a pessoa pas­

sava por três estágios:

1. Execução de obras de penitência - oração, jejum, lamentação,

choro, roupas de saco, vigílias e caridade - enquanto estava

excluída da santa ceia.

2. Confissão (exomologesis) (a qual talvez não exigisse uma de­

claração detalhada do pecado) na presença da Igreja, pois as

pessoas tinham de concordar com a reconciliação.

3. Reconciliação por imposição de mãos do bispo e do clero e

pela oração.

A política de Cipriano estabelecia a disciplina como prerrogativa

do bispo e do clero (atuando em conjunto com a congregação) e colo­

cava os mártires sob a autoridade dos bispos (um passo que pode ter

inspirado a ideia de que um verdadeiro bispo tem o valor de um mártir).

A segunda controvérsia de que Cipriano participou, esta em se­

gunda mão, foi o cisma novaciano em Roma. Ao passo que o cisma

em Cartago foi causado pelos “laxistas”, os quais desejavam reconci­

liação imediata dos desviados, o cisma em Roma envolvia os “rigoris-

tas”, liderados por Novaciano, os quais consideravam a igreja como a

igreja dos puros e, assim, não desejavam restabelecer à plena comu­

nhão os culpados de apostasia.

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 193

Novaciano havia sido um presbítero dominante na igreja em
Roma e redigiu o primeiro grande tratado teológico em latim da igre­
ja romana ainda existente, Trindade. Ele foi ordenado bispo por três
bispos próximos após a igreja romana eleger Cornélio, um represen­
tante da posição moderada a favor da restauração dos “desviados” que
eram penitentes. Cipriano apoiava Cornélio como bispo legítimo de
Roma. Talvez seu tratado Unidade da Igreja tenha sido inspirado por
esse cisma em Roma, mas pode ter sido destinado à igreja cartaginesa
como consequência do cisma de Felicíssimo.

Cipriano envolveu-se em uma terceira controvérsia com Estêvão,
segundo bispo de Roma depois de Cornélio, quanto à validade do
batismo administrado por pessoas de fora da Igreja Católica.

Estêvão, fiando-se na tradição da igreja romana, afirmava que
uma pessoa em um grupo cismático ou herético que tivesse recebi­
do o batismo na água em nome do Pai, do Filho e do Espírito San­
to não precisava ser batizada novamente ao buscar comunhão com
sua igreja; apenas a imposição de mãos do bispo era necessária para
recebê-la (talvez uma concessão do Espírito Santo em cumprimen­
to do batismo ou, mais provavelmente, um ato de reconciliação de
alguém considerado um penitente sendo restaurado à comunhão da
Igreja). Estêvão considerava-se um sucessor de Pedro e, portanto, es­
tava mantendo uma tradição apostólica ao assumir sua posição contra
o rebatismo.

Em contraposição, Cipriano alegou, em suas cartas, que o batis­
mo administrado fora da igreja é inválido, pois “não pode ter Deus
como Pai aquele que não tem a igreja como mãe” (Epístola 74.7).
Quem “não possui o Espírito Santo não pode concedê-lo”, isto é, al­
guém que está fora da igreja não tem o Espírito e, logo, ao realizar o
batismo, não pode transmiti-lo (.Epístola 70.2,3). Em relação ao ar­
gumento de Estêvão com base na tradição, Cipriano respondeu que
o fato de algo ser antigo não significa que é correto: “O costume é a
antiguidade do erro” (.Epístola 74.9).

Um oponente norte-africano anônimo, no tratado Rebatismo,
contornou a posição de Cipriano. Considerando que o batismo he­
rético em si não conferia o dom do Espírito, o autor argumentou que
isso criava a possibilidade de receptividade espiritual que tornava a

194 HISTÓRIA DA IGREJA

repetição desnecessária. A imposição de mãos supria todas as defici­
ências. Assim, era possível receber o batismo na água como herege e o
batismo no Espírito (que normalmente deveria ser associado àquele)
para se fazer parte da Igreja por meio da imposição de mãos. Ele acres­
centou que fé sólida ou bom caráter não eram necessários ao adminis­
trador e que a invocação do nome de Jesus tinha poderes peculiares.

O assunto do batismo herético e cismático foi discutido por ou­
tros líderes da igreja. A opinião de Cipriano tornava a validade do
batismo dependente de quem o administrasse, e isso sempre introdu­
zia um elemento de incerteza quanto à salvação do candidato. A afir­
mação da validade objetiva de um batismo realizado adequadamente
tinha maior apelo. A posição de Estêvão, portanto, veio a prevalecer,
embora o ponto de vista de Cipriano tenha continuado a existir no
norte da África, sendo poderosamente reavivado pelos donatistas no
século seguinte.

Essas três controvérsias interferiam na postura de Cipriano em
relação à igreja em Roma. Em seu tratado Unidade da Igreja, Cipria­
no apresenta a Igreja originando-se em unidade a partir da promessa
do Senhor a Pedro (M t 16.18,19) e afirma que o episcopado é um só
e deve preservar essa unidade.

Cipriano considerava a posição dos bispos na igreja paralela à dos
apóstolos. Assim como o apostolado era compartilhado por todos os
apóstolos, cuja fonte de unidade estava em Pedro, o episcopado era
uma propriedade universal, compartilhada por todos os bispos.

Alguns manuscritos de Unidade da Igreja contêm essa ideia de
Pedro como centro e símbolo da unidade da Igreja. Embora Cipriano
identificasse Pedro como representante do bispo local, essas declara­
ções poderíam ser lidas, em vista das alegações de Roma, como refe­
rências ao bispo de Roma como sucessor de Pedro; e há uma edição
curta do tratado om itindo essas declarações. Pode ser que ambas as
formas do texto remetam ao próprio Cipriano.

Uma possível explicação é que Cipriano escreveu primeiro a edi­
ção longa no contexto de sua ênfase na unidade e necessidade de um
símbolo visível desta, mas, quando a controvérsia com Estêvão lhe
mostrou que o bispo de Roma podería estar em erro e ser alguém com

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 195

quem não se podia concordar em tudo, ele publicou um texto revisa­
do, deixando de fora as declarações fortes que poderíam servir-lhe de
embaraço na controvérsia.

O utra possibilidade é que a edição curta foi dirigida à situação
no norte da África e que a edição longa foi a forma enviada a Roma
em resposta ao cisma novaciano. Mesmo na edição longa, Cipriano
tinha em mente principalmente a prioridade cronológica de Pedro
em relação aos outros apóstolos como símbolo de unidade, não uma
primazia a que os outros estavam sujeitos.

III. PRIMÓRDIOS DA ARTE E ARQUITETURA
CRISTÃS

A maioria dos relatos da história cristã foi baseada quase exclu­
sivamente em fontes literárias, e o estudo da arte cristã avançou de
forma separada, como parte da história da arte - e, mesmo assim, de
forma mínima, praticamente como uma nota de rodapé para a arte da
antiguidade tardia. Há agora um reconhecimento crescente do valor
de se tratar as fontes literárias e artísticas como complementares, uma
vez que ambas surgiram da mesma comunidade.

A primeira arte cristã identificável surge em torno do ano 200.
Sua ausência por quase dois séculos, após o início da Igreja, costuma
ser atribuída (1) a uma continuação da aversão judaica às imagens ba­
seadas no Decálogo (Ex 20.4,5a), (2) ao cristianismo ser uma religião
espiritual contrária a manifestações materiais ou (3) à oposição cristã
a uma cultura pagã intimamente associada a imagens. Mais recente­
mente, essa ausência tem sido atribuída (4) a circunstâncias econômi­
cas e sociais da maioria dos cristãos, não a qualquer oposição inerente
a imagens ou outras expressões de arte.

Uma teoria das origens da arte cristã é que ela começou em pe­
quenos objetos de uso diário que todos precisavam ter, tais como si-
netes e lâmpadas. Clemente de Alexandria falou sobre imagens apro­
priadas para os cristãos empregarem em seus sinetes: pomba, peixe,
navio, lira, âncora, pescador. Não deviam ser utilizadas imagens de
ídolos, instrumentos de guerra, como espada ou arco, e taças (pois os
cristãos eram moderados).

196 HISTÓRIA DA IGREJA

De acordo com outra teoria, a arte cristã deriva do meio pagão.
Certamente em estilo e técnica, a arte cristã apropriou-se de influên­
cias tanto clássicas quanto não clássicas da arte na antiguidade tardia.
Com o contexto específico para o início da arte cristã, uma vez que
os pagãos decoravam seus túmulos, os cristãos também o faziam. De
fato, nossos exemplos identificáveis mais antigos de arte cristã são
provenientes de catacumbas, as câmaras de sepultamento subterrâne­
as, espalhadas por Roma.

As catacumbas não eram esconderijos em épocas de perseguição
(as autoridades sabiam de sua existência), nem locais normais de reu­
nião, embora as refeições funerárias em memória do falecido fossem
realizadas ali. Os quartos (cubicula) e suas entradas eram, por vezes,
decorados com pinturas pequenas, e as placas de pedra que cobrem
os nichos mortuários (lóculos) nas galerias eram, às vezes, esculpidas
com inscrições ou imagens simples.

As pinturas eram frequentemente cenas decorativas de plantas e
,aves, mas muitas retratavam acontecimentos do Antigo ou Novo Tes­
tamento. O mais popular do Antigo Testamento era a história de Jo-
nas; do Novo Testamento, a ressurreição de Lázaro. Representações
simbólicas eram ainda mais comuns, e a natureza simbólica da arte
cristã primitiva é sempre observada.

Particularmente frequentes na arte cristã como um todo, bem
como nas catacumbas, eram as imagens do bom Pastor (além de seus
precedentes bíblicos, essa era uma imagem associada à filantropia) e
uma silhueta em postura de oração, com os braços estendidos e as
mãos levantadas (orans - um símbolo de piedade). Cerimônias cris­
tãs são retratadas às vezes, tais como o batismo e cenas de refeição,
das quais os milagres de alimentação nos Evangelhos, a última ceia, a
santa ceia, o ágape e as refeições funerárias são agora indistinguíveis.
Por causa da dificuldade de se trabalhar embaixo da terra com luz
limitada, proveniente de pequenas lamparinas ou tochas, as imagens,
em sua maior parte, apresentam uma gama limitada de cores e pou­
quíssimos detalhes, mais aludindo à cena do que a descrevendo.

A partir da segunda metade do terceiro século, começou a surgir
entre os cristãos evidência de uma forma mais custosa de sepultamen­
to, os sarcófagos (caixões de pedra para depositar o corpo do falecido)

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 197

com cenas esculpidas. O mesmo repertório de temas bíblicos e simbó­
licos continuou a ser empregado, cujas seleção e forma costumavam
ser regidas pela existência de uma imagem disponível na arte greco-
-romana. Esculturas independentes, tridimensionais, foram bem ra­
ras na arte cristã por muitos séculos. N o entanto, existem pequenas
imagens, datadas a partir do terceiro século, de Jesus Cristo como o
bom Pastor e como Mestre, bem como imagens da história de Jonas.

O caráter funerário de grande parte da arte cristã sobrevivente
talvez forneça uma visão unilateral, pois, nesse contexto, a principal
preocupação é com a vida após a morte, o livramento da morte e Je­
sus Cristo como salvador poderoso. No entanto, esses temas podem
refletir o apelo do cristianismo ao povo em geral. A história bíblica
de Deus salvando Seu povo, e de Jesus como um mestre e operador
de milagres mais poderoso do que qualquer inimigo humano, era o
cerne da fé cristã e de seu sucesso, apesar da perseguição no mundo
greco-romano.

Alguns itens de arte cristã derivavam de considerações religiosas
cotidianas internas, quer como expressão do conteúdo doutrinário do
cristianismo, quer como resultado de culto e piedade cristãos. Uma
geração após as pinturas mais antigas serem encontradas nas cata­
cumbas, apareceram cenas bíblicas nas paredes da sala utilizada como
batistério na igreja doméstica em D ura Europos, na Síria (década de
240). Elas incluíam um bom Pastor e Adão e Eva (adicionados poste­
riormente) logo atrás da fonte; nas paredes laterais, a mulher no poço
de Samaria, Jesus curando o paralítico, Jesus e Pedro caminhando
sobre as águas e uma procissão de mulheres andando em direção ao
túmulo de Jesus. E notável a ausência de pinturas na sala de reunião.

Os locais mais antigos de reunião dos cristãos costumavam ser
as casas dos membros abastados (“igrejas domésticas”). Conforme os
números cresceram e os recursos aumentaram, as congregações locais
passaram a comprar casas como propriedade da igreja (domus ecclesiae,
casa da Igreja ), frequentemente remodelando seu interior de acordo
com as necessidades da comunidade (como em Dura Europos).

Às vezes, armazéns ou outras construções eram adquiridos pelas
igrejas locais para serem usados como locais de reunião (como em
Roma), e, ao final do terceiro século e início do quarto século, novas

198 HISTÓRIA DA IGREJA

estruturas em forma de sala (Aquileia e Ostia) surgiram {aula eccle-
siae, “sala da Igreja”).

Foi somente no governo de Constantino que a forma caracte­
rística da arquitetura cristã, a basílica, apareceu, desenvolvendo-se a
partir de edifícios seculares anteriores.

IV. NOVO DESAFIO: MANIQUEÍSMO

Após receber um chamado celestial em 240 para tornar-se o
“apóstolo da luz”, M ani (216-276) fundou um novo movimento reli­
gioso na Mesopotâmia e Pérsia semelhante às seitas gnósticas do sé­
culo anterior.

Com vistas a uma religião universal, M ani inspirou-se em ele­
mentos dos elcasaítas cristãos judeus, em meio aos quais fora criado,
de outros grupos cristãos heréticos (tais como os marcionitas), do
zoroastrismo e do budismo, além do próprio cristianismo ortodoxo.

, O ensinamento de Mani baseia-se em um dualismo extremo de
luz e trevas, bem e mal, espírito e matéria. Partículas de luz estão pre­
sas no m undo material, e a redenção é a libertação delas a fim de que
possam retornar ao reino celestial puro. O “eleitos”, ou membros per­
feitos da seita, eram vegetarianos, abstinham-se de sexo e evitavam a
maioria das formas de trabalho. Eles eram sustentados pelos “ouvin­
tes”, que viviam no m undo até aproximar-se da morte.

Um evangelismo agressivo propagou a nova religião de Mani
pelo Império Romano no ocidente (onde o imperador pagão Dio-
cleciano tentou proscrevê-lo em 295) e pelo oriente na Ásia central,
chegando até a índia e a China. O maniqueístas produziram belos
manuscritos contendo seus ensinamentos e liturgias.

Alertas contra o maniqueísmo, vindos de dentro da Igreja, sur­
giram cedo, mas as refutações escritas ainda existentes começaram
principalmente no quarto século.

V. IGREJA AO FIM DO TERCEIRO SÉCULO

O cuidado cristão dos enfermos durante a epidemia da década de
250, mencionado anteriormente, deu-lhes uma taxa mais elevada de

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 199

sobrevivência do que os pagãos, os quais muitas vezes fugiam das co­
munidades ou abandonavam os doentes por medo de contágio. Esse
fator de sobrevivência gradualmente conferiu aos cristãos uma por­
centagem maior da população, mesmo sem novos convertidos. No
entanto, logo houve novas conversões, em parte porque eles tinham
cuidado de não cristãos também.

A Igreja vivenciou um imenso crescimento durante o terceiro sé­
culo, um crescimento que precipitou o conflito culminante com o
Estado romano. A segunda metade do terceiro século foi um período
de repouso, crescimento e relaxamento moral para a Igreja. A história
externa foi mais importante do que os escritos e o desenvolvimento
interno da Igreja, de modo que há relativamente poucas informações
até a retomada da guerra contra ela no governo de Diocleciano.

Não obstante, há vislumbres do desenvolvimento da Igreja forneci­
dos por documentos adicionais e escritores que devem ser observados.

A. Ordem eclesiástica: Didascália

A Didascalia Apostolorum (“Ensinamento dos apóstolos”) vem

de aproximadamente meados do terceiro século na Síria e, embora

tenha sido escrita em grego, sobrevive na to­

talidade apenas em siríaco.

A comunidade cristã refletida nesse do­ “Õ bispos, imitai a Deus

cumento tinha contato próximo com suas para que sejais calmos e

raízes judaicas. O autor insiste no fato de mansos, misericordiosos e

que os cristãos devem obedecer apenas aos compassivos, pacificadores,

Dez Mandamentos do Antigo Testamen­ sem ira, mestres e

to; as outras exigências eram uma “segunda censuradores e recebedores

legislação”, das quais Jesus Cristo libertou e exortadores; e para

Seus seguidores. que não sejais iracundos

O documento apresenta o bispo como nem tirânicos; e para

líder necessário da igreja local - seu mestre que não sejais insolentes,
e pregador, sentinela moral, juiz em casos de nem arrogantes, nem
disciplina, pastor que procura ovelhas per­ prepotentes”
didas e médico espiritual para curar almas (Didascália 7).
enfermas que se arrependem. O bispo tam-

200 HISTÓRIA DA IGREJA

bém era administrador dos bens da igreja, com os quais ele, o clero
e os pobres eram sustentados. Além disso, era ele quem conduzia o
batismo, a unção e a santa ceia e servia como sacerdote da igreja (ofe­
recendo sacrifícios espirituais).

O bispo era auxiliado por presbíteros que atuavam como conse­
lheiros, mas principalmente por diáconos, a respeito dos quais mais
se fala do que os presbíteros. Havia também uma ordem de viúvas,
cuja responsabilidade era, sobretudo, orar, mas não ensinar ou bati­
zar, e uma ordem de diaconisas, que ministravam no núcleo feminino
das casas e ungiam e ensinavam mulheres por ocasião do batismo.

Além das advertências quanto à aceitação de costumes judaicos,
ao envolvimento com idolatria e ao dever de evitar-se heresias e cis­
mas, a Didascalia apostolorum também dá instruções sobre fidelidade
conjugal, criação de filhos, cuidado com os órfãos, tratamento dos
presos por causa da fé, ressurreição dos mortos e acontecimentos na
semana da Paixão de Jesus.

B. Teologia: os dois Dionísios

A teologia do Logos havia prevalecido em tamanha medida que
até Paulo de Samósata (condenado em 268) falava sobre o Logos
preexistente de Deus (capítulo 7). A situação da especulação sobre
a divindade, na segunda metade do terceiro século, é ilustrada pela
breve controvérsia literária entre Dionísio, bispo de Alexandria (c.
247-265), e um segundo Dionísio, bispo de Roma (c. 260-268).

Dionísio de Alexandria teve grande papel nas controvérsias do
terceiro século. Ele (1) apoiava Cornélio de Roma contra a ideia de
Novaciano de negar perdão aos desviados na perseguição deciana; (2)
compartilhava a posição de Estêvão de Roma contra a insistência de
Cipriano no rebatismo de hereges e cismáticos; e (3) opunha-se ao
milenarismo do bispo egípcio Nepos, argumentando que diferenças
de estilo indicavam que o apóstolo João, a quem o quarto Evangelho
era atribuído, não poderia ser o profeta João que escreveu o livro de
Apocalipse.

Ao (4) refutar os sabelianos, Dionísio de Alexandria enfatizou as
diferenças entre Pai, Filho e Espírito Santo a ponto de chegar perto

DESENVOLVIMENTO DA IGREJA DURANTE O TERCEIRO SÉCULO 201

do triteísmo. Por essas declarações, ele foi repreendido por Dionísio
de Roma. Seu esclarecimento defendia sua ortodoxia. Essa discussão
sobre a semelhança de natureza entre o Filho e o Pai, bem como a
questão de o Filho ter vindo à existência ou não e quando isso teria
acontecido, antecipou questões fundamentais da controvérsia ariana
no quarto século.

O diálogo entre os bispos das duas igrejas mais poderosas no
m undo cristão ilustra a forma como os teólogos ocidentais tipica­
mente enfatizavam a unicidade da divindade, ao passo que os teólo­
gos orientais costumavam ressaltar Sua Trindade.

C. Missões: Gregório Taumaturgo

Gregório Taumaturgo (“Milagreiro”) (c. 210-265) nasceu pagão
em Neocesareia, Ponto. Com o intuito de estudar direito em Berito
(Beirute), ele passou algum tempo em Cesareia, onde a presença em
várias preleções de Orígenes acabou servindo de divisor de águas em
sua vida.

Após cinco anos com Orígenes, Gregório tornou-se missionário
em Ponto e Capadócia e bispo de Neocesareia. Relatos de sua vida
narram numerosos milagres, os quais lhe conferiram seu apelido e
atestaram sua preeminência na evangelização em sua pátria.

A obra de Gregório proclama a importância dessa região para a
teologia cristã no quarto século e fornece o elo entre Orígenes e os
grandes padres capadócios da Igreja. Um deles, Gregório de Nissa,
cuja avó foi pupila de Gregório Taumaturgo, escreveu o relato mais
im portante da sua vida.

D. Literatura: Metódio, Lactâncio

M etódio (m. 311) e Lactâncio (c. 250-325) ilustram algumas
preocupações dos autores em grego e latim respectivamente na virada
para o quarto século.

Metódio foi bispo em Olimpo, Lícia, e morreu como mártir.
Muitas de suas obras foram perdidas, mas algumas sobrevivem em
uma tradução para o antigo eslavo eclesiástico. Com base em uma de­

202 HISTÓRIA DA IGREJA

las, Ressurreição, conhecemos seu argumento de que o corpo glorioso

da ressurreição seria idêntico ao corpo mortal - em oposição à ideia

de Orígenes sobre um corpo de ressurreição espiritual.

O tratado de Metódio Livre-arbítrio dá prosseguimento à insis­

tência dos pensadores da Igreja primitiva sobre a liberdade humana

como base da moralidade, das recompensas e dos castigos no juízo -

em oposição às opiniões gnósticas sobre a origem do mal.

Uma obra de Metódio sobrevive no original em grego, Banquete,

um longo diálogo que retoma muitos temas teológicos, mas se con­

centra na vida ascética e louva a virgindade.

Lactâncio foi o principal estilista do latim cristão, valendo-se

intensamente de Cícero, Virgílio e outros autores latinos clássicos.

Nativo do norte da África, ele foi convidado para a nova capital de

Diocleciano em Nicomédia, em 303, a fim de criar uma escola de re­

tórica. Ele logo perdeu essa posição após ser convertido ao cristianis­

mo, mas, alguns anos mais tarde, foi escolhido por Constantino para

lecionar ao seu filho mais velho, Crispo, em Trier, na Gália.

A principal obra de Lactâncio é Instituições divinas, na qual ele

não só refuta o paganismo, mas também se dedica a uma filosofia

apologética cristã da religião. Essa filosofia inclui uma história da reli­

gião, um sistema moral construído sobre uma compreensão cristã da

virtude clássica da justiça e uma cosmovisão

centrada na providência.

“Não deve haver violência Tal como seu modelo, Cícero, Lactân­
nem danos, pois a religião cio empregou forma e estilo oratórios para
o pensamento filosófico. Embora sua expo­
não pode ser imposta sição da doutrina cristã tenha sido conside­
à força; o assunto deve ser rada deficiente por pensadores posteriores,
conduzido com palavras, ele é importante pela apropriação cristã da
literatura e cultura latinas, com o objetivo de
não com golpes, para alcançar a classe culta do mundo romano.
que a vontade seja afetada.
Lactâncio escreveu Morte dos persegui­
(...) Afinal, nada é tanto dores para mostrar a justa vingança de Deus
uma questão de contra aqueles que perseguiam a Igreja. Ele
constitui uma das principais fontes de infor­
livre-arbítrio como a mação sobre a perseguição no governo de
religião” (Lactâncio,
Instituições divinas 5.20).

Diocleciano.


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