Algumas situações trazidas por clientes justificam que a atuação do analista do comportamento ocorra para além da interação eminentemente verbal - mais típica da prática de consultório incidindo diretamente nas contingências naturais da vida do cliente, prática denominada de acompanhamento terapêutico. Compreender a interação entre regras e contingências é fundamental para conduzir decisões terapêuticas acerca de quando a atuação dentro e fora do consultório é pertinente. Esses enunciados teóricos servirão de referência para pensarmos a relação entre verbal e não-verbal na atuação clínica, em especial para as especificidades dessas relações quando o atendimento ocorre dentro e fora do setting tradicional. } COMPORTAMENTO GOVERNADO POR REGRAS E COMPORTAMENTO MODELADO POR CONTINGÊNCIAS: DEFINIÇÕES CONCEITUAIS No livro Verbal behavior, de 1957 (publicado no Brasil com o título Comportamento Verbal), Skinner define comportamento verbal como o comportamento que altera o ambiente apenas indiretamente; seu efeito primeiro ocorre sobre o comportamento de outras pessoas. Na medida em que o comportamento verbal é impotente diante do mundo "físico”, sua forma não resguarda um a relação geométrica ou mecânica com as conseqüências por ele produzidas. É o comportamento de outro homem, especialmente treinado pela comunidade verbal para reagir aos padrões gerados pelo falante, que terá o efeito de produzir a conseqüência última responsável pela manutenção do comportamento do falante. Nessa obra, Skinner produz um a classificação do comportamento verbal do falante em relação a possíveis variáveis envolvidas em seu controle, apresentando o que seriam os operantes verbais básicos: mando (comportamento verbal sob controle de condições de privação ou de estimulação aversiva) ecóico; textual; ditado; cópia; eintraverbal (comportamento verbal sob controle de estímulos verbais); autoclítico (comportamento verbal sob controle de outros estímulos verbais e dos efeitos gerados no ouvinte); e tato (com portam ento verbal sob controle de estímulos não-verbais). Podemos afirmar que em Verbal behavior Skinner conduz a maior parte de sua análise a respeito do comportamento do falante, não empregando tanta ênfase na análise do comportamento do ouvinte. Isso quer dizer que, nesse mo48
mento, a discussão ruma na direção de compreender “o que leva alguém a emitir um comportamento verbal”. A questão “o que leva alguém a se comportar sob controle do comportamento de um falante”, ou seja, o que leva alguém a seguir 0 que outro disse só seria aprofundada mais adiante, em textos posteriores. Transcorridos nove anos da publicação de Verbal behavior, Skinner publica, em 1966, um artigo intitulado "Uma análise operante da resolução de problemas" (1984), no qual cunha o term o comportamento governado por regras com o distinto a comportamento modelado por contingências. Comportamento modelado por contingência deve ser empregado para se referir a comportamento que é emitido, de uma certa forma, devido a conseqüências que a ele se seguiram no passado; ao passo que comportamento governado por regras refere-se a comportamentos que são emitidos sob controle de descrições verbais de contingências. Skinner (1984) afirma que essa descrição - feita por outrem ou por si mesmo - funciona como um estímulo discrimi nativo para uma determinada resposta e, portanto, a regra seria um estímulo antecedente espedficador de contingência. Embora existam divergências conceituais sobre a definição do termo regra1, há dois processos distintos na aquisição de novas respostas: viver direta mente as contingências e emitir novas respostas em função da descrição feita sobre as contingências. Tal distinção é ilustrada, a seguir, por Skinner (1984): Um cientista pode jogar bilhar intuitivamente, como resultado de longa experiência, ou pode determinar as massas, ângulos, distâncias, 1 Após essa definição de Skinner (1984) é possível acompanhar um debate conceituai entre os analistas do comportamento acerca do conceito de comportamento governado por regras (Schoneherger, 1990). Há autores em consonância com a proposta de Skinner de analisar regras com o estímulos discriminativos (Cerutti, 1989); análises de que comportamento governado por regra é comportamento envolvido era dois conjuntos de contingência (Zettle BC Hayes, 1982); autores tais como Blakely e Schlinger (1987) e Schlinger (1990) que criticam o conceito de regra como estímulo discriminativo e propõem que o emprego do termo "regra" seja reservado para estímulos especiíicadores de contingências com o papel de alterar as funções respondentes e operantes dos estímulos que descrevem; e Gatania (1989), que defende uma definição funcional de regras e critica a proposta conceituai de Glenn (1987; 1989) por uma definição topográfica. 49
fricções etc. e calcular cada jogada. Provavelmente optará pela primeira alternativa, é claro, mas há circunstâncias análogas nas quais ele não pode se subm eter às contingências de maneira análoga, e deverá adotar a última opção. Ambos os tipos de com portam ento são plausíveis, naturais e eficazes; ambos demonstram “conhecimento das contingências”, e (à parte dos cálculos pré-correntes no segundo caso) podem ter topografias similares, (p. 296) Este exemplo é especialmente interessante por m ostrar que a simples descrição topográfica do comportamento, neste caso o de jogar bilhar, não pode ser um critério de distinção entre o com portam ento governado por regras e o modelado por contingências. SegundoSkinner(1984), uma análise das variáveis controladoras nos levaria a identificar que asjogadas, apesar de muito parecidas em suaforma, se encontram sob diferentes controles: num caso, seria resultado do cálculo das massas, ângulos e fricções, que funcionariam como regras para o comportamento de jogar; no outro, um produto de uma longa história passada de jogadas ora mal ora bem-sucedidas, caracterizando-se como comporta men to modelado por contingências. Assim, apesar do comportamento governado por regras poder, em muitos casos, se assemelhar ao modelado por contingências, eles nunca serão exatamente os mesmos. Comportamentos sob controle de variáveis diferentes possuem, necessariamente, propriedades distintas. A especificação da contingência, com o “evento do ambiente", pode entrar em um a determinada relação de controle com a resposta. Segundo Skinner (1984): Enquanto estímulo discriminativo, [a regra] é eficaz com o parte de um conjunto de contingências de reforçamento. Uma especificação completa deve incluir o reforço que m odelou a topografia da resposta e colocou-a sob controle do estímulo, (p. 283) Decorrem dessa afirmação duas características fundamentais do conceito de regra: uma descrição só altera a probabilidade de emissão de um dado comportamento quando faz parte, como estímulo discriminativo, de uma contin50
gênda de reforço; e devemos considerar como uma especificação completa de contingência a descrição dos três termos que a compõe - o estímulo discriminativo, a resposta e a conseqüência. Vale ressaltar que Skinner (1984) elabora um a análise mais minuciosa, não apenas sobre a regra completa, como também a respeito dos tipos possíveis de regras em função dos termos da contingência que são descritos, tais como: regra incompleta, regra fragmentada e regra grosseira. Essa consideração é importante para o entendimento da prática clínica, uma vez que a descrição, ainda que parcial, por parte do terapeuta ou do próprio cliente, das contingências vividas por este, pode funcionar como estímulo que afeta o comportamento não-verbal sob análise. Para entender as razões que levam ao controle por regras, devemos nos perguntar sobre os motivos que levam um indivíduo a analisar as contingências além de vivê-las. O desenvolvimento do comportamento verbal tom ou possível para a espécie humana descrever as relações entre o comportamento e as variáveis que o afetam. Tais descrições são importantes porque possibilitam ao homem gerar comportamento novo e efetivo sem que seja necessária uma exposição, geralmente longa e tediosa, às contingências descritas (Skinner, 1984). A aquisição de comportamento via regra, ao invés de via modelagem pelas contingências, é especialmente necessária quando as conseqüências produzidas por uma resposta são muito atrasadas ou raras e as conseqüências imediatas e mais poderosas modelariam respostas opostas e indesej áveis, uma vez que seriam consideradas como comportamentos de desperdício segundo o grupo (problemas relativos à economia de recursos naturais, por exemplo) ou colocariam o indivíduo em perigo (fumar pode produzir, em longo prazo, câncer de pulmão). Uma outra vantagem do controle via descrição de contingências seria ge* rarnovas respostas no repertório de outro indivíduo, semesperar por variaçõet na direção desejada para o reforçamento da resposta, processo característico dâ modelagem. Assim, a emissão de uma regra possibilita a aquisição de resposta» que, via modelagem, poderiam gerar danos imediatos (por exemplo, aprender a atravessar um a rua movimentada) e propicia uma abreviação no tempo necessário para a instalação de uma resposta via modelagem. Ainda há uma outra vantagem no controle por regras referente à manutenção e não à aquisição do comportamento: quando um comportamento instalado via
modelagem já existe no repertório de um indivíduo, a especificação das contingências pode complementar as contingências responsáveis pela sua manutenção. Essas são, grosso modo, as razões existentes para que um sujeito analise as contingências e formule descrições que controlem o comportamento. Apesar dessas vantagens, entretanto, algumas desvantagens do controle por regras são ressaltadas por Skinner (1984). Primeiramente, podemos identificar a simplificação do com portam ento resultante, uma vez que ele é evocado por descrições verbais que atentam, apenas,, para as dimensões relevantes d© comportamento na produção de determinadas conseqüências. Uma outra implicação pode ser identificada no trecho a seguir: A medida que uma cultura produz máximas, leis, gramática e ciência, seus membros acham mais fácil comportar-se eficientemente sem contato direto ou prolongado com as contingências de reforço assim formuladas. (Preocupamo-nos aqui apenas com contingências estáveis. Quando contingências mudam e as regras não o fazem, regras podem serprobíemáticas emvez de úteis.) (Skinner, 1984, p. 279, grifos das autoras) Podemos notar que no inído desta dtação Skinner aponta para uma vantagem do comportamento governado por regras e que essa vantagem se reladona com o fato das contingêndas serem estáveis. No final da dtação, Skinner afirma que, caso as contingêndas sejam instáveis, o controle por regras pode se mostrar desvantajoso. Sendo assim, caso um a determinada contingênda se altere, mas a regra que a descreve permaneça a mesma, seguir essa regra pode ser problemático. Quando lemos este alerta, o que imaginamos como problemático? Supomos que problemático é a possibilidade do comportamento não se alterar, na medida em que continua seguindo a mesma regra, mesmo que a contingênda tenha mudado. E exatamente esta possível característica do comportamento governado por regras que vem sendo considerada pela literatura espedalizada como insensibilidade às contingêndas, ou seja, a não alteração do desempenho, supostamente em função do responder sob controle de regras, quando há mudanças nas contingêndas2. 1 A presente reflexão sobre a questão de regras e insensibilidade, bem com o sobre a adequação desse termo poderá ser encontrada pelo leitor em N ico (1999). 52
REGRAS E INSENSIBILIDADE ÀS CONTINGÊNCIAS Consideremos o exemplo de um pintor que descreve a um aprendiz a proporção correta de tinta e água utilizada para fazer a mistura que produz um efeito cintilante na tinta sobre a tela. Suponha que esta descrição do mestre-pintor funcione como estímulo discriminativo para a resposta do aprendiz de misturar naquela exata proporção a tinta e a água. Tal resposta poderia produzir duas conseqüências: uma conseqüência diretamente produzida pela resposta descrita pela regra (a tinta ficar cintilante sobre a tela) e outra conseqüência, liberada pelo emissor da regra, contingente ao seguimento desta (a aprovação do mestre contingente à resposta de preparar corretamente a mistura de tinta e água), conforme mostra a Tabela 1. TABEIA 1: Exemplo de episódio envolvendo uma destricâo de contingências ESTÍMULO DISCRIMINATIVO RESPOSTA CONSEQUÊNCIA "Misture sempre a mesma quan- - > Fazer a mistura —► A tinta ficar cintilante sobre a tela tidade de tinta e água para obter na proporção correta (Consequência diretamente produzida o efeito da tinta cintilante" pela resposta) Aprovação do mestre (Consequência liberada pelo emissor) Suponha que após vários quadros confeccionados com a utilização desta proporção de tinta e água para produzir o efeito cintilante, o fabricante tenha alterado a composição química da tinta e que, com isto, aquela quantidade de água não mais fosse suficiente para fazer a mistura que resulta no efeito desejado. Assim, a alteração na qualidade do estímulo “tinta" e a manutenção do responder instalado via regra - colocar exatamanete a mesma quantidade de água e tinta - a partir dc agora não produz mais o mesmo efeito cintilante produzido sob a contingência anterior. Imagine que apesar desta alteração contribuir para uma grande diminuição no efeito cintilante - diminuição na magnitude do reforço-o aprendiz continue realizando a mistura exatamente da mesma maneira que seu mestre ensinou. Este seria um possível exemplo cotidiano indicando a existência da não alteração de uma resposta a despeito da modificação nas contingências de reforço, em função desta resposta estar sob controle de regra.
Assim, a avaliação experimental da existência de insensibilidade requer que se planeje as seguintes situações: 1) um sujeito sendo instruído a se comportar sob um a dada contingência e o seguimento desta instrução levando-o, efetivamente, a produzir conseqüências reforçadoras; 2) a alteração desta contingência sem um a alteração da regra^Pox exemplo, vamos suporum a situação experimental na qual é dito para uma criança que para obterum a consequência reforçadora (pontos que serão trocados por brinquedos) ela deve apertar um botão bem devagar (de acordo com um esquema DRL3). Ela segue a règra e ga~ nha vários pontos. Agora, sem que se avise a criança, a contingência muda: para ganhar pontos ela deverá apertar bem rápido (agora, o esquema em vigor é um DRH4). Portanto, temos um a alteração de contingência e um a m anutenção da regra. De acordo com este planejamento, se o desempenho se alterasse, apertar mais rápido, quando a contingência fosse alterada, diríamos que o comportam ento foi sensível às contingências. Mas, se o comportamento permanecesse o mesmo, apertar devagar, a despeito da mudança na contingência, diríamos que ele foi insensível às contingências - um experimento semelhante a este foi conduzido por Assis (1995) e parte dele replicado por Nico (1997). Podemos considerar que esta identificação de insensibilidade baseia-se numa comparação do desempenho do m esm o sujeito em duas condições diversas. Dizemos que esta é um a definição intra-sujeito. O term o insensibilidade às contingências pode ser encontrado em vários estudos para se referir a um a não alteração de desempenho de um mesmo sujeito quando as contingências mudam, mas as regras não (por exemplo, Matthews, Shimoff, Catania & Salgvolden, 1977; Shimoff, Catania, Byron 8í Matthews, 1981; Hayes, Brownstein, Haas& Greenway, 1986; Hayes, Brownstein, Zettle, Rosenfarb & Kom, 1986). ’ DRL é sigla de dijferential reinforcement o f imv rate. N este esquema uma resposta só é reforçada após ter transcorrido um tempo mínimo, dado pelo valor do esquema, a partir da última resposta reforçada. Caso alguma resposta seja emitida antes deste tempo mínim o, o temporizador reinicia a contagem do tempo. 4 DRH é a sigla de differenaal reinforcement of high rate. N este esquema uma resposta só é reforçada se ocorrer antes de ter transcorrido um tem po mínimo, dado pelo valor do esquema, a partir da última resposta reforçada. Caso alguma resposta seja emitida depois deste tempo mínimo, o temporizador reinicia a contagem do tempo. 54
Entretanto, segundo Madden, Chase & Joyce (1998), num artigo de revisão da área de insensibilidade, esta definição se opõe a uma outra também com um na literatura, a saber: uma definição baseada em comparação entre espécies. De acordo com essa definição, o comportamento humano deve ser Considerado sensível se apresenta um padrão semelhante ao mostrado por sujeitos não humanos, quando ambos são expostos às mesmas contingências de reforçamento. De modo contrário, quando o padrão humano difere do padrão animal ele deve ser descrito como insensível (ver, por exemplo, Lowe, Harzem & Hugues, 1978; Lowe, 1979; Lowe, Beasty & Bentall, 1983; Bentall, Lowe & Beasty, 1985; Bentall ÕC Lowe, 1987; Madden, Chase &Joyce, 1988; Assis,1995) Madden et al. (1998) apontam três razões básicas para a não adoção da definição baseada na comparação entre espécies. Em primeiro lugar, o compor lam ento animal tomado como típico sob um dado esquema, pode não ser tão típico quanto muitos supõem. Uma segunda razão seria a de que o padrão de resposta produzido por certos esquemas não é consistente entre várias espécies (por exemplo, quando submetidos a DRL, ratos apresentam taxas de respostas mais baixas do que pombos). Neste caso, com qual espécie o responder humano deveria ser comparado para que "sensibilidade” fosse avaliada? Finalmente, os autores argumentam que os procedimentos empregados com humanos e não humanos podem ser similares em termos estruturais, porém não em termos funcionais. Aspectos do controle experimental (sistema de liberação de reforço, custo da resposta, condições de privação etc.) podem ser mantidos os mesmos em estudos com não humanos e humanos, garantindo similaridade estrutural entre os procedimentos, entretanto esta similaridade não garante que as variáveis controladoras exerçam a mesma função de modo a permitir uma comparação entre espécies. Com base nestes três argumentos, os autores concluem que sensibilidade não deveria ser definida a partir de uma comparação entre espécie. Desta forma, sugerem que o term o replicação entre espécies descreve mais adequadamente a consistência dos efeitos obtidos entre espécies do que o termo sensibilidade-, isto é, um comportamento pode ser considerado sensível mesmo que não reproduza os dados de experimentos com não humanos. Estando de acordo com esta conclusão, temos reduzida a quantidade de
dados experimentais sobre insensibilidade, já que não vamos considerar como insensível um desempenho humano que difere de um desempenho animal. Passemos, portanto, para os estudos sobre insensibilidade, como um produto de comportamento governado por regras, e que se baseiam numa comparação intra-sujeito. Uma primeira tarefa (para verificar se há insensibilidade e quais as variáveis envolvidas) deveria ser a revisão da literatura considerando a existência de cinco condições experimentais: 1) fornecimento de uma regra a respeito da resposta que produz conseqüências reforçadoras sob a contingência à qual o sujeito será exposto; 2) estabilidade do desempenho nesta primeira condição - aum entando a ■ probabilidade de que uma eventual alteração de padrão seja função da mudança na contingência e não um a alteração aleatória; 3) alteração efetiva das contingências de reforço, de m odo que o padrão de resposta apresentado sob a primeira condição não mais produza reforço e que, portanto, uma alteração do desempenho seja realmente necessária para a produção de reforçador; 4) manutenção, na segunda contingência, da regra fornecida sob a primeira contingência; 5) dados sobre o desempenho quando gerado na ausência de regra e submetido a alteração de contingência - para que se possa afirmar que a não alteração, insensibilidade, é produto do seguimento de regra e não de qualquer outra variável presente na situação experimental. Estando asseguradas estas condições, poderíamos começar a defender a existência de dados experimentais sobre insensibilidade e, possivelmente, conhecer de quais variáveis, presentes no controle por regras, a insensibilidade às contingências seria função. Portanto, os problema existentes são: 1) Existem duas definições de insensibilidade, completamente diferentes, convivendo na literatura. Mais do que isto, a defesa por um a destas definições não é prática comum na literatura. Isto seria apenas um problema de falta de debate teórico não fosse o fato de que ambas as definições são aplicadas aos achados de pesquisa. 56
2) Um problema metodológico para avaliar experimentalmente a insensibilidade. Também em relação a este problema é de extrema importância que se conduza uma revisão das metodologias empregadas pelos estudos da área, restringindo-se àqueles que partem da definição intra-sujeito, para que possamos mais consistentemente a) afirmar ou negar a existência de evidências experimentais que suportem a conclusão de que insensibilidade existe e, caso identifiquemos alguma evidência; b) conseguir dizer de quais variáveis ela é função. Adespeito dessas questões de definição e de metodologias, fomos capazes de fornecer um exemplo cotidiano, e com certeza muitos outros podem ser formulados, que parece indicar a existência de insensibilidade. Voltemos a ele para que possamos mais claramente colocar uma última questão que se refere à adequação do termo insensibilidade às contingências. Para realizar este questionamento é necessário que foçamos uma análise comportamental mais minuciosa a respeito do que fomos capazes de identificar como insensibilidade às contingências. Parece que naquele caso estávamos considerando como insensibilidade a característica de não alteração do comportamento (continuar a fazer a mistura com a mesma quantidade de água e tinta) a despeito da mudança nas contingências implicar em perdas de reforço (drástica redução no efeito “cintilante” da tinta sobre a tela). Sendo assim, podemos afirmar que o que estamos considerando como fundamental para a identificação de insensibilidade é o término da produção do reforçador "efeito cintilante" e a continuidade de emissão da resposta anteriormente necessária para sua produção, ou seja, mesma quantidade de água e tinta na confecção da mistura. Assim, estamos enfatizando, na identificação de insensibilidade, a análise da relação entre a resposta descrita na regra e a conseqüência diretamente por ela produzida. Entretanto, parece razoável esperar de um psicólogo pertencente a uma abordagem como a análise do comportamento a busca das variáveis ambientais responsáveis pela manutenção do comportamento e não a simples afirmação de que, surpreendentemente, o comportamento não se modifica em função das alterações em algumas variáveis ambientais, qualificando-o, portanto, como insensível às contingências. 57
O próprio term o insensibilidade às contingências soa como um contra-senso dentro do corpo teórico da análise do comportamento visto que esta abordagem se edifica sobre o pressuposto de que é possível estudar o fenômeno comportamental, prevê-lo e controlá-lo, a partir do conhecimento acumulado sobre as variáveis ambientais das quais é função; de que o com portam ento “é um processo, e não um a coisa... é mutável, fluído e evanescente" (Skinner, 1994, p. 27) e que esta mutabilidade, fluidez e evanescência é função de alterações nas contingências ambientais. Assim, como podemos, sem grande intranqüilidade teórica, afirmar que um comportamento pode ser insensível às contingências d£ reforço? Não estaríamos colocando em xeque pilares m uito sólidos dentro de nossa abordagem? Diante de tal inquietação, resta-nos investigar quais possíveis variáveis poderiam ser responsáveis pela manutenção de uma resposta que, apenas aparentemente, parece ser insensível às contingências. Serão apresentadas aqui duas possibilidades de explicação deste padrão dito insensível. Ambas as possibilidades implicam a constatação de que o termo insensibilidade ás contingências seja talvez inadequado para se descrever o fenômeno comportamental em questão. Uma primeira possibilidade se origina da suposição de que o emissor da regra permaneça liberando reforços contingentes ao seguimento desta, mesmo que a conseqüência diretamente produzida pela resposta descrita na regra não mais estivesse ocorrendo. No nosso exemplo, esta possibilidade seria constatada caso observássemos que o mestre-pintor continua reforçando seu aprendiz a misturar a mesma quantidade de tinta e água mesmo se o efeito produzido não seja mais o mesmo. Frente a tal observação, poderíamos continuar a qualificar tal comportam ento como insensível às contingências? Caso a resposta fosse "sim, podemos qualificá-lo como insensível às contingências já que ele não se altera m esmo com o término da produção de reforços que eram diretamente produzidos por ele", não estaríamos incorrendo num erro de definição da classe de resposta à qual a resposta sob análise pertence? A continuidade de emissão da resposta "misturar na mesma proporção tinta e água”, quando daretirada da conseqüência diretamente produzida e a manutenção da conseqüência social, deveria ser um indício de que tal resposta faz parte da classe de respostas definidas por sua 58
função em comum de produzir a aprovação social e não da classe de respostas definidas pela sua função em comum de produzir "efeitos artísticos”. Dessa fbrma, o comportamento seria sim sensível às contingências, no caso às contifl gências que incluem conseqüências sociais. Portanto, continuar atribuindo a tal -comportamento a característica de insensibilidade é no mínimo negligenciar o : poder reforçador de conseqüências fornecidas pela comunidade contingente à obediência, sujeição, condescendência, submissão... e, no máximo, impedir o estudo das variáveis críticas no controle deste tipo de padrão que, apenas aparentemente, poderia ser denominado de insensível. Porém, podemos apresentar ainda uma segunda possibilidade de explicação para padrões de comportamento denominados de insensíveis. S uponha que nossa investigação levasse à constatação de que realmente a(s) conseqüênaa(s) responsável(eis) pela manutenção do comportamento não mais estivesse(in) àèhdo produzida(s), fosse(m) ela(s) a conseqüência direta, a conseqüência social o u ambas e, a despeito deste fato, a resposta continuasse sendo emitida. *Fi*ente a tal constatação, poderíamos continuar a qualificar tal com portam ento Com insensível às contingências? Mesmo estando ausentes as conseqüências ítsponsáveis pela manutenção do comportamento e este, ainda assim, continuar a ser emitido, considerar tal comportamento como insensível não implica ilicorrer no erro de descartar toda uma literatura que investiga as variáveis que contribuem para aumentar a resistência à extinção? Já é bem sabido, entre os analistas do comportamento, que manipulações no nível de privação, histórias prévias com diferentes esquemas, tempo de exposição às contingências de reforço, entre outras, são todas variáveis que interferem na velocidade com a qual o comportamento deixa de ser emitido quando não mais produz as conseqüências responsáveis pela sua manutenção. Até onde temos conhecimento, não se tom ou prática comum na literatura sobre resistência à extinção adjetivar comportamentos mais resistentes de insensíveis às contingências. Entretanto, parece que quando a variável em questão é o controle por regras, deixa-se de caracterizar o efeito observado como resistência à extinção e passa-se a atribuir a ele como que um status especial na medida em que se reserva o termo insensibilidade às contingências", o qual além de tudo, como já foi dito, parece incoerente dentro de nossa abordagem. Assim, não seria o controle por regras 59
apenas mais uma possível variável que, sob algumas condições, poderia aum entar a resistência a extinção? REGRAS DO TIPO CONSELHO E REGRAS DO TIPO MANDO Além de refletir a respeito das vantagens e desvantagens presentes no controle por regras, podemos pensar sobre as razões para que alguém dê importância à descrição de outrem. Por que seguimos regras? Por que alguém se comporta do modo descrito pelo outro? Skinner (1984) responde essa questão ao fazer uma diferenciação entre o operante seguir regra do tipo conselho e seguir regra do tipo mando}. É a análise das relações estabelecidas entre a regra (estímulo discriminativo) e os outros termos da contingência que permite tal distinção. Uma regra é classificada do tipo conselho quando as conseqüências contingentes à resposta de seguir a regra são as mesmas que modelariam diretamente o comportamento na ausência dessas regras. Nesse caso, as conseqüências não resultam de qualquer ação tomada pelo conselheiro; são intrínsecas ao comportamento descrito pela regra. No exemplo acima, a regra seria considerada como conselho se a conseqüência mantenedora de seu seguimento fosse o "efeito cintilante” diretamente produzido pela resposta de “misturar na mesma proporção tinta e água". De outro modo, devemos qualificar um a regra como mando quando algumas conseqüências da ação descrita na regra estão sob o poder do mandante, ou seja, são conseqüências sociais, extrínsecas ao comportamento, em sua maioria aversivas. Se o aprendiz de nosso exemplo emitisse a resposta descrita na regra sob controle, apenas, da aprovação de seu mestre contingente ao seguimento da regra, então esta seria um mando. Assim, os termos conselhos e mandos designam diferentes variáveis relacionadas ao seguimento de regras. 5 Vale notar que o termo conselho e mando, nesse m om ento, é utilizado por Skinner para se referir ao comportamento do ouvinte sob controle de regras. Anteriormente, em Verbal behavior (1957) Skinner utiliza os mesmo termos ao se referir ao comportamento do falante. Naquele m omento, conselho é um sub-tipo de mando no qual o beneficio maior pelo seguimento do mando é do ouvinte e não do falante, ao contrário do mando do tipo ordem ou súplica, casos em que o maior beneficiado é o falante. 60
Seja o controle por regras do tipo conselho seja do tipo mando, o importante é considerar que a simples presença da regra não é suficiente para que ela seja seguida. É necessária uma história de reforçamento por seguir regras. Seja reforçamento diretamente produzido pela resposta, em que quem descreve a regra não manipula as conseqüências, seja reforçamento por conseqüências detidas pelo emissor da regra. Um indivíduo pode seguir não apenas descrições elaboradas por outros, mas tam bém desenvolver um repertório visando analisar contingências, form ular regras e se com portar de acordo com a análise feita. Para que isso ocorra, o sujeito deve possuir um repertório de auto-observação, ou seja, atentar para seu comportamento e as condições do ambiente que o afetam. Essas respostas de observação podem vir a servir como estímulo discriminativo para respostas de descrever essas relações. Assim, seria estabelecido um repertório para analisar as contingências em vigor e, posteriormente, essas análises poderiam funcionar como estímulos discriminativos para determinadas respostas. Portanto, o processo de formular regras passa por três momentos, descritos por Sério, Andery, Gioia & Micheletto (2004): o primeiro refere-se às interações com o ambiente vividas pelo sujeito, o que não garante que ele as observe e as descreva; o segundo é aquele em que o sujeito emite respostas de auto-observação e autodescríção das relações comportamentais que estabelece com o mundo; e, por fim, o terceiro é o momento em que o comportamento de autodescríção afeta o comportamento descrito. Disso conclui-se que a auto-observação e a autodescríção não são automáticas e que a autodescríção do comportamento pode ou não alterar a resposta descrita. Portanto, é importante investigar por que alguém observa o próprio comportamento e passa a descrevê-lo e em que condições a resposta de autodescrever altera a resposta descrita; isto é, por que a autodescríção se transforma em um estímulo antecedente para a resposta descrita na contingência. Assumir que para a autodescríção funcionar como estímulo antecedente é necessária uma história complexa, significa assumir que a consciência-como comportamento autodescritivo- não é produto imediatoda experiência e, além disso, que a consciência não é suficiente para a mudança comportamental.
Tendo apresentado os principais conceitos e discussões acerca da relação entre descrição verbal e comportamento, podemos prosseguir com a análise das especificidades da interação verbal terapeuta-diente que ocorre no settiwg tradicional de consultório. A CLÍNICA ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL NO CONSULTÓRIO: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A INTERAÇÃO VERBAL CLIENTETERAPEUTA As primeiras tentativas de aplicação dos conceitos desenvolvidos em laboratório pelos analistas do comportamento para contextos clínicos ocorreram a partir de meados dos anos 60, prática então denominada modificação do comporiamento6. Naquele momento, a atuação dos modificadores de com portam ento se desenvolveu, preponderantemente, sobre problemas específicos apresentados por pessoas institucionalizadas, e as intervenções ocorriam especialmente sobre respostas discretas cujo controle era facilitado nos ambientes institucionais, uma vez que se tinha acesso direto a elas para observação e manipulação das variáveis relevantes. De acordo com Pérez-Álvarez (1996), tais aplicações caracterizavam-se como modificação do com portam ento e não como terapia, porque o que se fez foi modificar respostas "discretas", o que possivelmente contribuiu para o êxito dessa prática - "que foi mais local do que global" (idem, p. 45) aspecto que, posteriormente, caracterizou-se como um a limitação. Guedes (1993) afirma que, em razão de severas críticas e das limitações dessa prática, os analistas do com portam ento -q u e objetivaram aplicar os princípios da análise experimental do com portam ento para problemas de natureza clínica-reviram seu modelo de atuação e, a partir da década de 1980, tomaramse terapeutas comportamentais, passando a atender, principalmente no setting tradicional do consultório, pacientes não institucionalizados. Com a mudança de setting e da população-alvo, as características da prática e da interação com o cliente mudaram, uma vez que o ambiente de consultório impedia o contato direto com as contingências vividas e dificultava o controle de variáveis no ambiente natural. 4 Para revisão histórica do movimento da modificação do comportamento, ver Kazdin (1978). 62
Essa mudança parecia acrescentar uma dificuldade na prática clínica do finalista do comportamento: como lidar com uma terapia de cunho verbal se o •objetivo da terapia é modificar as contingências responsáveis pelo sofrimento /.(lo cliente (Banaco, 1997)? Se partimos do pressuposto de que todo comportam ento é produto de seleção filogenética, ontogenética e cultural e se algum ;comportamento existe no repertório de uma pessoa é porque ele foi instalado ;7Q está sendo mantido por variáveis ambientais, parece razoável afirmar que só isetá possível uma mudança na conduta e, conseqüentemente, no sofrimento, ijse houver mudança nas variáveis ambientais. Ferster (1979), ao discutir a aplicação dos pressupostos teóricos da análise • do comportamento, assume que a freqüência de respostas deve ser considerada o dado básico para qualquer análise e que, a partir daí, dever-se-ia definir de ^ maneira objetiva o comportamento individual, de forma que seja facilitada a í investigação das variáveis responsáveis pela freqüência de respostas: A primeira tarefa de um analista comportamental é definir o comportam ento de maneira objetiva, dando ênfase a classes funcionais (genéricas) de desempenho que estejam de acordo com os fatos que prevalecem na clínica, cujos componentes comportamentais podem ser observados, contados e classificados. Então, será possível descobrir, através da aplicação de procedimentos comportamentais, o tipo de circunstâncias que permitem aumentar ou diminuir a freqüência de certos tipos de atuação. (Ferster, 1989, p. 700) Pérez-Álvarez (1996) discute a terapia comportamental como a análise do comportamento aplicada no setting de consultório, contexto esse que, no início, não contemplava o analista do comportamento. T rabalhar neste setting significa, para o autor, lidar com os "pacientes externos” (p. 94), ou seja, pacientes não institucionalizados, com problemas complexos7 que ocorrem na vida cotidiana e, conseqüentemente, fora do controle do terapeuta. Assim, afirma o autor, a 7 Vale atentar que o termo complexo utilizado por Pérez-Álvarez (1996) para caracterizar os tipos de problemas que o paciente externo apresenta possivelmente opõe-se a respostas discretas, foco da intervenção do modificador do comportamento nos ambientes instiiudonais. 63
prática clínica comportamental caracteriza-se por uma prática verbal, que só é possível devido ao conhecimento produzido pela análise do comportamento sobre aprendizagem, principalmente aquela relativa ao comportamento verbal. O cliente, quando procura o serviço de um terapeuta, geralm ente tem um problema, seja porque ele sofre, seja porque seus comportamentos geram sofnmento para aqueles com os quais convive (Guedes, 1997), Desde a primeira interação cliente-terapeuta, se estabelece um a interação verbal. Ambos falam sobre os problemas trazidos pelo cliente com o objetivo último de minimizarlhe o sofrimento. Portanto, nesse setting, diénte e terapeuta estabelecem um a relação verbal na qual assumem os papéis de falante e de ouvinte. É essa interação verbal que constitui, a um só tempo, o objeto primeiro da intervenção e a base para a transformação das contingências vividas pelo cliente. Considerando que o objetivo da terapia analítico-comportamental seria alterar relações do cliente com seu ambiente de modo a diminuir seu sofrimento (Banaco, 1997) e que a terapia, quando ocorre no setting tradicional de consultório, define-se como uma prática eminentemente verbal; a questão que se coloca é: como interações verbais cliente-terapeuta permitiriam alterações nas relações vividas pelo diente em sua vida cotidiana, fora do consultório? Para responder essa questão, é necessário retomar por que ocorre a descrição verbal de contingências e como se dá o processo que leva ao estabeledmento desse relato como estímulo que controla as respostas descritas, seja a descrição feita pelo próprio cliente ou pelo terapeuta. Isso equivale a retomar os três momentos do processo envolvido no controle de um a resposta por uma (auto)descrição. O primeiro m om ento diz respeito a viver as interações com o ambiente e, obviamente, é experienciado por todo e qualquer cliente. O segundo é aquele em que tais interações são descritas. Devemos considerar que o trabalho no consultório permite acesso, apenas, ao segundo m om ento - com exceção das relações vividas pelo cliente com o terapeuta, dentro da sessão, que seriam semelhantes àquelas vividas fora e que, conseqüentemente, permitiriam observação e manipulação diretas de algumas variáveis relevantes. Ainda sobre o segundo momento, podemos afirmar que o diente chega ao consultório tendo a habilidade de descrever, em algum grau, aspectos de sua vida que, a seu ver, estão relacionados com seu sofrimento. A descrição das 64
experiências vividas já é um comportamento produzido na história individual do cliente, e uma primeira perspectiva de intervenção do terapeuta se daria sobre a qualidade dessa descrição. Com a intervenção verbal, o terapeuta é capaz v de modelar e/o u instruir uma resposta de auto-observação e autodescrição, de m odo a tomá-la mais consistente e precisa. Poderíamos dizer que a descrição do cliente foi controlada por uma regra do ^ terapeuta quando este instrui a resposta de descrever do cliente. Isto é diferente do que ocorre quando o terapeuta modela, com suas respostas verbais, a descrição de ^contingências. Nesse sentido, não podemos afirmar que toda resposta verbal do tei ^apeuta funciona como uma regra - estímulo antecedente - que controla a resposta do cliente. É possível que uma resposta verbal do terapeuta funcione como um estímulo conseqüente à resposta veibal de descrição do cliente, modelando-a. Dados experimentais indicam que a resposta verbal, quando modelada, produz um controle mais consistente sobre a resposta relatada do que quando o mesmo relato verbal é instruído (Catania, Matthews & Shimoff, 1982).* Antes da produção desses resultados experimentais, Skinner (1994), em escrito de 1953 sobre psicoterapia, afirma que o terapeuta produz mudança no diente de maneira mais eficaz quando, ao invés de descrever “qual a solução para o problema” (idem, p. 360) favorece a percepção do próprio diente sobre o que está errado para que ele descubra sua própria solução. Ao que tudo indica, o autor defende a modelagem da resposta de autodescrição como mais efetiva do que a emissão de regras pelo terapeuta - para produzir mudanças no comportam ento não-verbal do cliente. Sobre isso, afirma: Quando o próprio paciente vê que está errado, não é o fato de que a soluçãopartiu de dentro dele que é importante, mas o que importa é que, para descobrir sua própria solução, seu comportamento com relação ao problema deve ter se alterado enormemente (...) deve ser consumada um a mudança substancial se o indivíduo tem que identificar as variáveis 8 Pesquisas sobre a relação entre relato verbal e o responder não verbal investigam diferentes parâmetros das contingências em vigor que podem estar relacionados a um maior ou menor controle da resposta verbal sobre a não-verbal (Arnorim, 2001; Ceruttí, 1991; Rosenfarb, Newland, Brannon & Howey, 1992; Torgrud 8c Holbom, 1990). 65
importantes. Uma solução que parte do sujeito representa, assim, um considerável grau de progresso. N enhum progresso semelhante está implícito quando o terapeuta enuncia a solução. A terapia consiste, não em levar o paciente a descobrir a solução para o seu problema, mas em mudálo de tal modo que seja capaz de descobri-la. (Skinner, 1984, p. 361) Mesmo que o cliente descreva as contingências, não se garante que essa descrição funcione como estímulo antecedente para uma outra resposta. Esse seria o terceiro m om ento do processo descrito por Sério et al. (2004). Para que qualquer estímulo antecedente (verbal ou não) afete uma resposta, é necessária utna história de reforçamento diferencial em que o critério para o reforçamento da resposta seja a sua emissão na presença tam bém desse estímulo. Se o objetivo final da terapia analítico-comportamental não é a autoconsciência por si só e sim a mudança no padrão compoitamental responsável pelo sofrimento do indivíduo, toma-se relevante investigar se as descrições continuamente aprendidas e refinadas no processo terapêutico funcionarão como uma variável relevante para a mudança na relação do sujeito com o mundo. Isso dependerá de uma história pregressa de reforçamento da resposta de seguir regras, além da relação estabelecida entre terapeuta-diente, de modo que análises elaboradas na relação com o terapeuta controlem o responder do cliente fora do consultório. A resposta emitida pelo cliente fora do consultório, prim eiram ente devido a análises produzidas na terapia, irá se m anter se os reforçadores forem diretam ente produzidos pela resposta do cliente (regra do tipo conselho) e se não estiverem sob poder exdusivo do terapeuta (regra do tipo mando). Se o terapeuta não planejar sua intervenção de m odo que o cliente fique sensível predominantemente às conseqüêndas intrínsecas do seu responder, corre-se o risco de o responder do cliente ficar sob controle somente da "conseqüenciação” provida pelo terapeuta à resposta de agir de acordo com as descrições elaboradas. Nesse caso, as contingências extraconsultório que a regra descreve podem m udar e o sofrimento advindo da relação com o ambiente não, já que tanto a descrição como o responder permanecem sob controle do reforço social, extrínseco, liberado pelo terapeuta - fenômeno denominado insensibilidade às contingências. 66
QUANDO A TERAPIA VERBAL É INSUFICIENTE PARA PRODUZIR MUDANÇAS 1 COMPORTAMENTAIS Pérez-Álvarez (1996) discute se a característica verbal da terapia no consultório pode limitar seu alcance, principalmente nos casos de pacientes graves ? - íòra do ambiente institucional talvez porque eles apresentem problemas v Oiais complexos, que não aparecem durante a sessão terapêutica e, portanto, não podem ser diretamente observados ou reforçados. O autor caracteriza o limite da terapia verbal de consultório baseado nos critérios de gravidade do caso e na complexidade do problema; e, ainda, no não-aparecimento dos comportamentos alvo na sessão terapêutica - o que imy pediria a observação e reforçamento deles. Zamignani (1997) parece concordar com a proposta de Pérez-Álvarez I (1996), ao defender que o relato verbal permite ao terapeuta comportamental ,1 T trabalhar de maneira eficiente no consultório, a partir da análise funcional, i principalmente em casos menos graves e que, no atendimento de casos psiquiátricos mais graves, a impossibilidade da atuação direta no ambiente do cliente pode ser um problema. Apesar de concordar com Pérez-Álvarez (1996) no critério de gravidade .1 do caso, como um limite do alcance da terapia verbal, Zamignani (1997) não considera a complexidade do problema trazido pelo cliente como um definidor da gravidade do caso. Provavelmente, a inexistência dessa discussão deva se à consideração de que toda e qualquer relação entre homem e ambiente é complexa por definição, em acordo com Banaco (1997), que retoma a multídeterminação do comportamento. Assim, quando Pérez-Álvarez (1996) refere-se aos comportamentos que foram alvo de intervenção, pelos modificadores do comportamento, como não-complexos, parece referir-se à restrição da compreensão das muitas e intricadas variáveis relacionadas à origem e manutenção de uma resposta e não à natureza do comportamento. De qualquer maneira, ambos consideram a terapia verbal insuficiente, a depender da gravidade do caso. Mas não apresentam uma definição comportamental acerca do que seria um caso mais ou menos grave, ou seja, quais características desses casos limitariam o alcance de uma terapia verbal. Baumgarth, Guerrelhas, Kovac, Mazer & Zamignani (1999) aproximam-se 67
de uma caracterização de “repertório básico de com portam ento” (p. 167) cuja existência viabilizaria a terapia verbal, a saber-, comportamento de interação com outros homens, habilidades de linguagem que possibilitem a com unicação e habilidades físicas e motoras que permitam contato e exploração do mundo. Supõe-se, portanto, que a ausência desses padrões comporta mentais estaria relacionada com uma maior gravidade do caso em questão e justificaria a intervenção em contingências extraconsultório. Os autores destacam que as contingências presentes na vida cotidiana possuem maior variabilidade de estimulação do que aquelas do ambiente da terapia tradicional. Essa maior gama de estímulos aumenta a probabilidade de que novas respostas sejam evocadas e possam ser reforçadas diferencial mente, seja pela conseqüência diretamente produzida pela resposta do cliente, seja pela ação do terapeuta. Nesse sentido, a atuação fora do consultório pode favorecer tanto a ampliação na classe de estímulos antecedentes e conseqüentes que passam a afetar as respostas como a diversidade das respostas que compõem o repertório do cliente. Qualquer lacuna no repertório comportamental básico do cliente identificada pelo terapeuta via análise de contingências, e indentificada como responsável pelo sofrimento, deve ser suprida por meio do planejamento de condições que favoreçam a aprendizagem de novas respostas ou novos controles ambientais. Vale atentar que é fundamental o terapeuta destrinchar essa lacuna comportamental e avaliar quais com portam entos serão primeiramente desenvolvidos, de m odo a facilitar a aquisição de outros. A cada etapa desse processo contínuo, cabe ao terapeuta analisar quais as melhores condições de aprendizagem e como elas deveriam ocorrer. O atendimento no consultório tem algumas desvantagens, provenientes de déficits no repertório verbal necessário para exercer a função de ouvinte e falante na relação terapêutica de consultório, o que pode ser minimizado se a atuação ocorrer diretamente no ambiente do cliente. No consultório, toda informação acerca da vida do cliente é obtida via relato verbal. Caso a lacuna com portam ental seja exatamente no repertório de auto-observação e descrição das experiências vividas fora do consultório, a atuação relevante deve ocorrer com o objetivo de propiciar a aquisição de uma resposta verbal sob controle do próprio comportamento. 68
Valeria notar que o déficit em questão refere-se ao segundo momento da história a partir da qual respostas podem ser afetadas pela descrição de contingências, descrito por Sério et al. (2004). A ausência de repertório autodescritivo impossibilita a análise de contingências por parte do terapeuta e também a capacidade de ser afetado pela descrição de contingências como estímulos ambientais. Tal intervenção poderia ser realizada dentro do consultório; no entanto, a aprendizagem da resposta autodescritiva seria potencializada se ocorresse no ambiente do cliente, pois o terapeuta teria acesso direto às variáveis ambientais que afetam o comportamento do sujeito e poderia favorecer, via modelagem ou m odelação, a emissão da resposta de descrição dessa relação. Portanto, em casos de déficit nesse repertório, o atendimento fora do consultório parece apropriado. Baumgarth et al. (1999) apresentam um outro aspecto relevante para que a terapia verbal de consultório seja efetiva: Para que haja um a aprendizagem satisfatória, é necessário que o cliente demonstre capacidade de generalizar conteúdos aprendidos no consultório, para outros ambientes e relacionamentos (. ..) testando por si próprio as hipóteses levantadas no consultório. Quando o cliente testa estas hipóteses, pode estar gerando alterações nas contingências que tragam conseqüências que poderão contribuir para aprendizagem e manutenção do repertório alternativo sugerido. (Idem, pp. 167-168) Provavelmente, os autores aqui se referem ao terceiro momento da história a partir da qual alguém pode ser afetado pela descrição de contingências, descrito por Sério et al. (2004), a saber, quando essa descrição adquire função de estímulo antecedente capaz de controlar uma resposta. Se o terapeuta nota que o cliente apresenta dificuldades de ser controlado por uma descrição verbal, seja dele mesmo ou do terapeuta, então deveria analisar quais as possíveis variáveis responsáveis por isso e atuar diretamente sobre elas. Propomos uma primeira aproximação a essa questão com base no olhar para a tríplice contingência descrita por Todorov(1985) nos seguintes termos: 69
Uma contingência tríplice especifica (1) um a situação presente ou antecedente, considerada discriminativa pela função controladora que exerce sobre o comportamento; (2) algum com portam ento do indivíduo, que se emitido na presença de tais estímulos discriminativos, tem como conseqüência (3) alguma alteração no ambiente, que não ocorreria (a) se tal comportamento fosse emitido na ausência dos referidos estímulos discriminativos ou (b) se o com portam ento não ocorresse. (Idem ,p. 75) A questão, então, seria: o que leva um cliente a não agir de acordo com as análises feitas pelo terapeuta? Ou seja, quais seriam as variáveis relacionadas à não-emissão da resposta de seguir as descrições verbais elaboradas no contexto do consultório? Uma primeira possibilidade refere-se ao segundo termo da contingência, à não-existênda da resposta descrita no repertório do sujeito. Isto é, o cliente não segue a regra porque não é capaz de emitir a resposta. Por exemplo: o terapeuta discute com o cliente a respeito da possibilidade de ele conhecer novas pessoas e ele não sabe emitir respostas de aproximação social, como fazer perguntas a respeito dc algum assunto ou manter contato visual. Nesse caso, o déficit não estaria no repertório de seguir regras, mas naquele relacionado à interação social. Se assim fosse, a intervenção terapêutica deveria se dar sobre o desenvolvimento do repertório, o que seria facilitado pela modelagem ou modelação no ambiente natural do cliente. Outra possibilidade relaciona-se ao primeiro termo, ou seja, a um a falha no controle pelo estímulo antecedente, sobre a resposta de seguir a descrição e /o u sobre a resposta descrita. No primeiro caso, o terapeuta deveria avaliar a capacidade operante de seguir uma regra, buscando investigar a história de seguir regras do cliente e intervindo nas variáveis cruciais para o controle desta resposta. Por exemplo, pensemos em um adolescente que é altamente reforçado por burlar e /o u contrariar sugestões feitas por adultos. A intervenção, nesse caso, deveria focar a relação terapêutica, de m odo que a generalização de estímulos “adulto/terapeuta" se altere. Esse processo só seria possível se o terapeuta "conseqüendasse" as respostas do cliente de maneira diferente dos 70
membros da dasse de estímulos "adultos”. Essa é uma questão cuja superação independe do locus no qual a terapia ocorre. No segundo caso, o cliente teria um histórico de seguir descrições, mas o estímulo não-verbal controlaria mais fortemente a resposta (oposta ao curso de ação sugerido) do que o estímulo verbal. Por exemplo, um dependente químico dedde evitar o consumo de drogas, mas em contato direto com esse estímulo o utiliza, apesar de "dizer querer” o contrário. Nesse caso, o terapeuta poderia propor um a intervenção direta no ambiente no qual há a possibilidade j de emissão da resposta de consumo (mais provável), com vistas a propiciar auxílio na manipulação dos estímulos antecedentes (autocontrole) e evocar respostas alternativas e /o u de enfrentamento. Em casos como esse, a saída seria a intervenção fora do consultório, em virtude do fraco controle verbal sobre a resposta não-verbai. Uma última possibilidade refere-se ao terceiro termo da contingência, isto é, aos estímulos conseqüentes que mantêm o responder. Nesse caso, o cliente teria a resposta descrita em seu repertório, seria sensível à condição na qual, se emitida, a resposta seria reforçada, mas não seguiria as descrições: por não ser afetado pelas conseqüêndas da resposta descrita ou por haver sinalização de punição se a resposta descrita for emitida. Em relação ao primeiro caso, podemos atar, por exemplo, uma pessoa deprimida, com baixa freqüênda de respostas mantidas por reforçamento positivo (como respostas de interação social) e alta freqüência de respostas de fuga/esquiva, geralmente passivas. Esse cliente poderia dizer que ‘‘sabe que precisa” sair com os amigos para se sentir melhor, que se divertia, no passado, ao sair de casa, mas que, entre sair e continuar em casa, emite a segunda resposta. Diante dessa situação, o terapeuta poderia privilegiar a atuação no ambiente natural, de modo a aumentar a probabilidade das respostas em baixa freqüênda, garantindo m enor custo de resposta e maior probabilidade de reforçamento, inclusive no inído, servindo como reforçador condicionado. Devereria-se, então, planejar a passagem do controle pelo terapeuta para o controle pelos reforçadores intrínsecos. Esse exemplo nos indica que não é porque o terapeuta sai do setting clínico que as variáveis a serem manipuladas são aquelas naturalmente relacionadas ao seu responder, na ausência do terapeuta. Mesmo no ambiente extraconsultório, 71
o terapeuta deveria garantir a passagem do controle arbitrário para o controle intrínseco, além de garantir o desenvolvimento de um repertório de autonomia do diente em relação às ações do terapeuta. Por fim, um diente pode não agir de acordo com as descrições verbais produzidas no contexto terapêutico porque, se assim o fizesse, entraria em contato com estimulações aversivas. Nesse caso é possível a existênda de diferentes gradações na aversividade da situação bem com o da combinação ou não com conseqüêndas reforçadoras, o que estabeleceria um conflito entre conseqüências. Esgotar, nesse m om ento, todas as possibilidades de conflito comportamental escapa dos objetivos deste capítulo. De qualquer modo, caberia ao terapeuta analisàr m om ento a m om ento se sua atuação no ambiente natural seria fundamental para a promoção de mudança. Por exemplo, o terapeuta poderia considerar pertinente acompanhar seu cliente na realização de um exame doloroso e urgente, mas necessário ao cuidado de sua saúde, o que teria probabilidade bem reduzida de se realizar sem essa ajuda; porém , pode considerar impertinente sua presença na casa do diente quando ele tem um conflito familiar a resolver. Nesse caso, o terapeuta poderia intervir convidando os envolvidos no conflito a participar de uma sessão conjunta no intuito de discutir os padrões comportamentais dos que geram sofrimento. Vale ressaltar que nem sempre o que se interpõe ao trabalho do terapeuta é de natureza da insufidênda do verbal e / ou do setting de consultório. Ainda que se prime por uma análise cuidadosa e pertinente das contingêndas em vigor na vida dos clientes e que se atue diretamente sobre elas, em última instânda, no ambiente natural haverá sempre um limite de alcance da terapia, naturalmente colocado pela multideterminação do com portam ento humano. 72
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V . -ff CAPITULO 3 O ambiente natural como fonte de dados para a avaliação inicial e a avaliação de resultados: suplantando o relato verbal1 Denise de Lima Oliveira e Nicodemos Batista Borges Quando o cliente chega até nós, vem em busca de autoconheci íento ou, o que é mais comum, em busca de alívio de um sofrimento. Diante dessas circunstâncias, nosso papel como terapeutas analítico-comportamenís é descobrir juntam ente com o cliente as contingências desencadeantes (avaliação funcional) de seu comportamento e, quando necessário, desenvolver estratégias para alterá-las de modo a minimizar o sofrimento proveniente delas (Banaco, 1999). Mas como se dá o processo terapêutico pelo qual poderemos ajudar nossos clientes? O processo terapêutico consiste de três etapas: avaliação inicial, intervenção e avaliação dos resultados. Vejamos brevemente cada uma delas. ETAPAS 0 0 PROCESSO TERAPÊUTICO A avaliação inicial é antes de tudo um a avaliação funcional e se dá pela formulação do caso em termos de relações funcionais entre os comportamentos-problema apresentados pelo cliente e suas interações com as variáveis ambientais; ou seja, na compreensão do comportamento-problema e dos eventos 1 O relato de caso apresentado no presente trabalho é derivado da dissertação de Denise de Lima Oliveira, desenvolvida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 77
que fazem com que este comportamento se mantenha, causando sofrimento para o cliente ou seus pares. A segunda fase do processo terapêutico é a intervenção, o período em que o terapeuta, ou o acom panhante terapêutico, prom ove alterações nas relações entre com portam ento-problem a e variáveis m antenedoras. Essas alterações podem vir tanto do cliente como do ambiente. Porém, em se tratando de terapia, em geral essa intervenção parece se dar pela m udança da forma como o cliente responde às situações, conseqüentem ente alterando as interações. O terapeuta tem, portanto, o papel de auxiliar seu cliente a responder de modo a produzir as conseqüências necessárias, sem que estas venham acompanhadas de sofrimento, ou seja: seu papel é otimizar as relações entre o cliente e seu ambiente, para que ele consiga ter um a vida com qualidade, na qual ele tenha acesso a reforçadores e consiga dim inuirão máximo as relações por controle aversivo. Após o processo de intervenção cabe ao terapeuta avaliar os resultados para que se possa planejar a alta do cliente. Esta etapa da terapia faz parte de um a avaliação final (avaliação funcional), na qual se observa se as interações do cliente com seu ambiente foram alteradas e se as novas relações estabelecidas estão sendo benéficas para o cliente e para o ambiente, pois só assim elas poderão se manter. Quando falamos em avaliação, inicial ou final, referimo-nos à avaliação funcional e , como veremos, ela é a ferramenta essencial para um bom processo terapêutico. Porém, antes de falarmos sobre a avaliação funcional é im portante destacar que, apesar da divisão didática das etapas do tratam ento aqui apresentada, na prática essas divisões não existem. Um processo terapêutico vconsiste em avaliações e intervenções constantes, desde seu início até seu fim. Ao darmos início à avaliação funcional, já estamos alterando o com portam ento de nosso cliente e, assim como ocorre quando interviemos sobre seu comportamento, devemos avaliar os efeitos produzidos pelas perguntas que fazemos ao cliente ao longo da coleta de dados e pelas descrições que fazemos de seu com portam ento ao sintetizarmos as informações coletadas,* em outras palavras, o processo terapêutico é feito de avaliações e intervenções contínuas, portanto, a divisão aqui apresentada é puram ente didática. 78
Nosso objetivo neste capítulo é tratar da importância da observação em ambiente natural na formulação da avaliação inicial e de resultados, porém, antes disso, é necessário abordar brevemente o que se entende por avaliação funcional. A AVALIAÇÃO FUNCIONAL De acordo com Meyer (1999; 2003), a avaliação funcional é o instrumento básico de trabalho do analista do comportamento, que possibilita a identificação de contingências (relações estabelecidas entre organismo e ambiente - Banaco, 1999), a predição e o controle do comportamento. Na literatura encontra-se comumente o nome análise funcional como referência à etapa inicial do tratamento (Keefe, Kopel & Gordon,1980; Meyer, 1999, 2003). Entretanto, segundo Carr, Langdon ôí Yaibrough (1999), análise funcional envolve controle experimental e manipulação de variáveis, ou seja, é um procedimento análogo à execução de um experimento, o que dificilmente ocorre num a avaliação funcional em settingclínico. Na situação clínica, freqüentemente, utilizamos a entrevista - e em alguns casos a observação - e interpretamos os dados coletados com base em conceitos desenvolvidos pela análise do comportamento. Visto que são interpretações das relações entre o organismo (resposta) e o ambiente (estímulo), e não manipulações de variáveis, parece mais preciso e adequado chamar esse procedimento de avaliação funcional, conforme sugerido em trabalhos mais recentes (Carr, Langdon & Yarbrough, 1999; Meyer, 2003). A avaliação funcionai pode ser dividida em etapas. Meyer (2003) propõe a seguinte divisão: a) identificação dos comportamentos de interesse (comportamentos-problema) - levantamento junto ao cliente dos comportamentos-problema que ele apresenta. Esse levantamento deve ser feito em termos de ação, evitando qualificá-las. Exemplo: "P. pegou a cadeira da sala de aula e jogou-a em outro menino que estava sentado próximo a ele”. Devemos evitar descrições do tipo "P. foi agressivo porque estava com raiva”; b) identificação e descrição das características dos comportamentos de interesse (chamadas pela autora de efeitos comportamentais) - a duração, a freqüência com que ocorrem e seus graus de intensidade; 79
c) identificação das relações entre eventos ambientais (estímulos) e os comportamentos-problema (respostas do cliente) - condições antecedentes e conseqüentes relacionadas a cada comportamento-problema (resposta). Dc forma resumida, as condições conseqüentes (conseqüências), são eventos subseqüentes e contingentes a um a resposta. Já os eventos antecedentes são condições sob controle das quais a resposta ocorre. Geralmente, o processo de avaliação funcional é feito através de,entrevistas. Segundo De Rose (1997), a entrevista é a fonte de dados mais amplamente utilizada em psicologia e, durante sua condução, o olhar do psicólogo deverá éstar voltado para as relações estabelecidas entre eventos ambientais e as ações do organismo. A realização da entrevista é fundamental para se estabelecer a relação com o cliente, obter informações e influenciar e dirigir esforços para a mudança do comportamento-problema (Keefe, Kopel & Gordon, 1980). Além disso, a entrevista é uma importante fonte para a seleção das variáveis a serem observadas e manipuladas em uma análise funcional, pois ela propicia um primeiro levantamento de comportamentos-problema a serem avaliados e permite identificar algumas de suas prováveis variáveis de controle (Garr, Langdon & Yarbrough, 1999). Entretanto, a entrevista pode se mostrar insuficiente como ferramenta para formulação da avaliação funcional, já que o relato verbal está sujeito a limitações, que podem ser decorrentes de falhas no processo de atenção ou memória, de problemas com relação à acessibilidade do falante aos estímulos relevantes ou de distorções - deliberadas ou não - por parte do cliente (De Rose, 1997). Nos casos em que a entrevista é insuficiente para a formulação da avaliação funcional, é recomendada a utilização da observação em ambiente natural, ferramenta que pode suplem entar a entrevista na obtenção de dados para a formulação da avaliação funcional. OBSERVAÇÃO EM AMBIENTE NATURAL COMO FERRAMENTA PARA A FORMULAÇÃO DA AVALIAÇÃO FUNCIONAL A observação em ambiente natural pode suplantar a entrevista clínica na obtenção de dados. Através dela é possível levantar dados relativamente mais 80
confiáveis sobre o comportamento de interesse. O registro dos eventos na or dem em que eles acontecem pode impedir algumas das distorções que tipicamente envolvem o levantamento de dados por meio de entrevista. As informações produzidas a partir da observação, quando somadas àquelas previamente obtidas numa entrevista, permitem a formulação de uma avaliação funcional mais precisa, a qual proporcionará ao terapeuta uma maior clareza na escolha da intervenção aser feita. De acordo com Danna & Matos (1999), o uso da observação como forma de coleta de informações aumenta a probabilidade de que o observador fique sob influência do que acontece na realidade, ao invés de se pautar em suposições, interpretações e preconceitos. O m étodo de observação em ambiente natural consiste no registro de eventos por amostragem ou na obtenção de exemplos diretos de ocorrência dos comportamentos-problema. Através da observação em ambiente natural é possível acessar diretamente os comportamentos-problema que são o foco da queixa do cliente, as características deste comportamento problema, e as relações entre os comportamentos-problema e as variáveis ambientais. Por essas razões, Carr, Langdon ÕC Yarbrough (1999) elegem a observação como uma ferramenta complementar importante para a elaboração da avaliação funcional. O que ocorre tipicamente é que durante a entrevista são identificados os comportamentos-problema e suas interações com o ambiente, para posteriorm ente serem definidas as estratégias das sessões de observação de maneira mais sistemática2, permitindo a coleta de dados em relação aos comportamentosproblema que serão utilizados na avaliação funcional. De acordo com Danna 8C Matos (1999), a observação permite identifi car as deficiências existentes, as variáveis que afetam o comportamento e os recursos disponíveis no ambiente para que eventuais mudanças sejam implementadas. Esses recursos facilitam a escolha das técnicas e dos procedimentos 2 Segundo Danna & Matos (1999), uma observação é chamada de sistemática por ser planejada e conduzida de acordo com o objetivo anteriormente definido. De acordo com as autoras, planejar as observações significa estabelecer onde, quando, quem, o que e como elas serão conduzidas. «1
mais adequados para atingir os objetivos pretendidos. Além disso, ressaltam as autoras, a observação é im portante para avaliar a eficácia das técnicas e os procedimentos adotados. Se, por um lado, a observação em ambiente natural é eleita como ferramenta importante na formulação da avaliação funcional, por outro, ela traz consigo um problema: seu custo. Uma observação em ambiente natural exige maior disponibilidade de tempo do terapeuta (não só para a observação, que deve acontecer algumas vezes na semana, como também para o deslocamento até o local no qual o cliente convive), o que é revertido em maiores custos para o cliente. i Por se tratar de um procedimento muitas vezes essencial para um a avaliação funcional eficiente, alguns recursos são utilizados de m odo a diminuir os custos. Um dos recursos utilizados por equipes de saúde mental é o trabalho de acompanhantes terapêuticos(AT), em geral realizado por estudantes de psicologia ou psicólogos recém-formados. Como o AT é um profissional com maior disponibilidade e cujos honorários tendem a ser mais acessíveis em função de sua menor experiência, sua inserção em uma equipe pode viabilizar a observação em ambiente natural para uma gama maior de casos para os quais ela é necessária. Hoje há cursos especializados para a formação desse profissional. A contratação de um AT que tenha feito cursos específicos aumenta a probabilidade de um serviço de melhor qualidade. O utro fator que pode garantir o sucesso de uma observação em ambiente natural é a boa relação entre o AT e o profissional responsável pela condução do caso (psicólogos e psiquiatras), pois esse profissional poderá orientar o AT sobre como as observações deverão ser conduzidas. A observação em ambiente natural, em geral, interfere no com portam ento dos observados (cliente e seus pares), o que pode influenciar a qualidade dos dados registrados. Entretanto, esse problema pode ser minimizado por meio da extensão da duração da observação. Segundo Hart & Risley (1995), para a obtenção de informações mais fidedignas, a observação deveria durar no m ínim o um a hora, pois é mais difícil que as pessoas m antenham com portam entos diferentes de seu responder em situação natural por um tem po prolongado. Além disso, a observação deveria se iniciar depois de o observador conversar com os observados (ropport), e esses se envolverem em suas atividades cotidianas. 82
ICONDUZINDO A OBSERVAÇÃO É importante que o registro dos dados obtidos por meio da observação seja o mais completo e preciso possível, devendo refletir o que de feto ocorreu e reIpresentar todas as instâncias do comportamento-problema ocorrido no período de observação (Johnston & Pennypacker, 1993). Os dados registrados devem in fluendar o comportamento do terapeuta e /o u do acompanhante terapêutico, . Servindo como estímulos que levam o terapeuta e o AT a agirem enquanto o trabalho progride. Esses estímulos modelam as decisões de intervenção anteriores e influenciam as interpretações a serem desenvolvidas pela equipe. Vale ressaltar que a exigência apresentada por Johnston & Pennypacker (1993) de que a observação seja completa é inviável em um contexto de apli- . cação clínica, pois para isso seria necessário que a observação fosse contínua, ou seja, feita o tempo todo - o que dificilmente ocorrerá. As observações naJ turais que fazemos são descontínuas, todavia, artifícios podem ser utilizados ,, para sanar (pelo menos em boa parte) esse problema. As observações podem ■ ser divididas em períodos que garantam a representatividade dos comportamentos-problema. Por exemplo, observações em períodos diferentes do dia poderiam possibilitar maior representatividade desse comportamento. A estratégia de observação e o registro do comportamento do cliente dev vem ser definidos anteriormente entre o AT e o profissional responsável pelo caso, que juntos tomarão a decisão de como conduzi-los baseando-se nas informações levantadas na entrevista e, em alguns casos, numa revisão bibliográfica sobre o assunto. Com base nesses achados, os profissionais delimitarão quais informações sobre o comportamento-problema podem ser importantes e o | que deve ser observado e registrado. Um relato de observação precisa ser objetivo. Para tanto o observador deve evitar: a) termos que designem estados subjetivos: o observador deve descrever aquilo que observou; b) atribuição de intenções ao sujeito: ao invés de interpretar o observador deve descrever as ações; 83
c) atribuição de finalidades à ação observada: o observador deve descrever o comportamento e as circunstâncias em que ela ocorre (Danna & Matos, 1999). Vejamos dois exemplos de relato; Exemplo 1 - correto João pega o controle da m ão do pai e m uda de canal, o pai pega o controle da m ão de João e coloca no canal anterior. João pega o controle, desliga a televisão e sai correndo com ele para o quarto. Seu pai vai atrás e começa a 'conversar, diz em tom de voz mais alta do que as anteriorm ente observadas: “papai não gosta que você faça isso, isso é feio e deixa o papai m uito triste, dessa maneira o papai não vai gostar mais de você”. O pai pega o controle e volta para a sala. Exemplo 2 - incorreto João, por sentir-se sozinho e querendo atenção, pega o controle da mão do pai e muda de canal. O pai bravo pega o controle e coloca no canal anterior. João, querendo brincar, pega o controle e corre para o quarto. O pai não agüenta mais o mau comportamento dejoão, briga com ele, pega o controle e volta para a sala. Note que no prim eiro exemplo há um a descrição das ações na ordem de seu acontecimento; é um a observação mais "pura", pois relata com o os fatos aconteceram, sem atribuir a eles intenção, finalidade, qualificações ou estados subjetivos. N o segundo exemplo, o observador comete dois erros: supõe as intenções que levaram às ações ("querendo atenção”) e faz julgam entos ou registros não-descritivos (o pai “briga com ele”). O registro dos com portamentos observados deve ser feito de form a clara e precisa, registrando-se as ações e evitando term os amplos, indefinidos ou vagos e expressões ambíguas. Só depois de se observar o registro juntam ente com o profissional responsável pelo caso é que serão form uladas hipóteses funcionais a respeito das situações registradas. 84
Para uma observação ser objetiva, clara e precisa, o observador deve utijtlizar verbos que descrevam a ação observada e termos que identifiquem os H objetos ou pessoas presentes e referenciais físicos (Danna ôí Matos, 1999). Outra decisão a ser tomada, antes de iniciar as observações, é se o registro ||$ a s observações será feito de forma cursiva ou por categorias. O registro curilfivo consiste em anotar as observações exatamente como elas acontecem e na |ójrdem que acontecem, de forma seqüencial, sem preocupação com categorias ||>ü funções das respostas. O primeiro exemplo descrito anteriormente caracteriz a um registro cursivo (outro exemplo pode ser observado no Anexo I). No registro por categorias, o observador registrará comportamentos específicos, já anteriormente definidos (geralmente nas primeiras sessões de oblliervação). Dessa forma, antes de começar a observar e registrar, o observador Hprecisará agrupar esses comportamentos em categorias que devem ser m utualm e n te exclusivas (um comportamento só pode se enquadrar em uma das cate- )rias); após essa definição, o observador registrará a ocorrência de respostas ^ de cada categoria no tempo determinado, sem precisar descrevê-las. Independentemente da escolha pelo registro cursivo ou por categorias, |f aconselha-se levar folhas de registro (protocolo de observação) para garantir ! uma observação mais producente. Especificamente para o registro por categoI rias, o observador deve levar uma folha de registro com as categorias já definidas ; anteriormente e com a forma e o tempo de registro das categorias já estabelecidos. Esse registro pode ser realizado de diferentes maneiras, dependendo do objetivo da observação. Na Figura 1 apresentamos um exemplo de folha de registro, na qual é privilegiada a freqüência de emissão de cada com portamentoalvo3 (categoria) no tempo para observação de alguns comportamentos de uma criança ao interagir com um familiar. ’ O termo "comportamento alvo" está sendo utilizado aqui em detrimento do termo “coraportamento-problema”, pois numa observação muitas vezes podemos querer registrar não só comportamentos-problema como comportamentos adequados. 85
Ohsprvarãn n°- _ nata- Período.- nhw varia (0- C nntpxtrtCategoria Período (minutos) 0-5 6-10 11-15 16-20 21-25 26-30 31-40 4V45 46-50 Nomear Descrever Perguntar Repetir Observarnpsr FIGURA 1 - Modelo de folha de registro utilizada em coleta de dados tom observação sistemática através do registro de categorias, privilegiando a freqüência óos romportamentos-problema. Uma outra forma de registro pode ser desenvolvida quando o objetivo, além de registrar freqüência, é obter informações sobre a seqüência com que esses comportamentos-alvo (categoria) ocorrem. Conforme pode ser observado na Figura 2. Para efetuar um registro de categorias adequado, o observador (terapeuta ou acompanhante terapêutico) deve ter claro o objetivo do trabalho, pois ele norteará a decisão do tipo de registro escolhido. Outra variável importante para garantir uma boa observação é a familiarização com as categorias registradas e com a folha de registro. Para garantir que essa variável não intervenha na observação, aconselha-se que treinos-piloto sejam feitos ames da observação, pois assim será menor a probabilidade de ocorrência de problemas no andamento da observação. Um outro método utilizado para garantir ou pelo menos para minimizar os problemas de interpretação de categorias é o teste de concordância entre
observadores. Esse método consiste na utilização de dois observadores no ambiente natural, cada um fazendo seu registro de forma independente do outro, c o m posterior comparação entre os registros. Esse procedimento nem sempre é possível num processo terapêutico, devido principalmente ao seu custo. n lK P rv a rã o n°- IMa- Pprinrto: pp<;<;oa(s) n b w rv a rlíi/s): Contpxfo: . _ . Categorias: A - Nomear; D - Descrever; P - Perguntar; 7 - Repetir Período Categorias 0-5 A-P-0-A-T-D-P-T-A-D-D-P-A-T... 6-10 11-15 16-20 21-25 26-30 31-35 36-40 41-45 46-50 Observações.- : FIGURA 2 - Modelo de folha <Je registro utilizada em coleta de dados com observação sistemática através do registro ;<le categorias, privilegiando a freqüência e a ordem dos comportamentos. 87
Após a observação, deve-se sistematização os dados obtidos. Segundo Keefe, Kopel & Gordon (1980), a apresentação dos dados em forma de gráficos e quadros podem facilitar a visualização das informações obtidas para o entendimento, a análise e a tomada de decisão pelas pessoas envolvidas (terapeuta, acompanhante terapêutico, cliente e pessoas de sua relação, tais como professora e pais no caso de atendimento infantil). Dados apresnetados em forma de figura resumem as informações e tomam-nas mais visíveis, demonstrando, por exemplo, o aumento ou a diminuição na freqüência de determinada resposta. Além disso, quadros que demonstrem relações funcionais entre a resposta e os estímulos ambientais envolvidos num determinado comportamento podem ser mais precisos do que um relato cursivo do episódio. No caso relatado a seguir, a o b s e rv a ç ã o em ambiente natural foi essencial para a condução do processo terapêutico. A observação descrita foi feita por um dos autores e realizada tanto para a elaboração da avaliação inicial como para a avaliação de resultados. CASO CLÍNICO Um menino de cinco anos foi encaminhado para atendimento clínico porque "não falava” - na realidade apresentava baixa freqüência de emissão de respostas verbais mantinha pouca interação com seus pares e baixo desempenho escolar. Além disso, apresentava comportamentos considerados "inadequados”, tais como: bater a cabeça, gritar e jogar-se ao chão. A família desse menino era composta por quatro membros - pai, mãe e dois filhos - com perfil, segundo estudo socioeconômico, de classe baixa superior. A mãe era uma comerciante de 44 anos, que trabalhava no período vespertino e ficava em casa nos demais períodos para cuidar dos filhos. O pai, com 39 anos, era técnico cm informática, trabalhava em período integral e ficava em casa no período noturno e finais de semana, apresentando pouca disponibilidade para brincar com os filhos. O irmão, um menino de 10 anos, freqüentava a 2a série do çnsino fundamental, apresentava repertório verbal adequado para sua idade e bom-desempenho escolar. E3e brincava e assistia filmes com o irmão mais novo, sempre cedendo aos seus pedidos. Após entrevista com a mãe, foi possível levantar a hipótese de que a baixa
freqüência na emissãode verbalizações do menino era decorrente das interações estabelecidas entre a criança e seu núcleo familiar, ou seja, função das contingências de reforçamento existentes naquela família, tais como rcforçamento de mandos, "inadequados”, extinção de respostas verbais vocais e baixa freqüência de verbalizações em direção à criança desde a mais tenra idade. Percebeu-se que, apenas com entrevistas e orientações dentro do setting terapêutico, não seria possível distinguir quais seriam as interações responsáveis pela baixa freqüência de emissão de respostas verbais vocais. O levantamento de hipóteses mais precisas a esse respeito seria fundamental para que, posteriormente, fossem propostas para a família intervenções diretas no ambiente natural. Além disso, ficava extremamente difícil mensurar, com precisão, a freqüência de verbalizações da criança, tanto no início do trabalho, quando ela chegou ao consultório, quanto durante e após algumas intervenções. Baseado no exposto acima, (Oliveira, 2005) foi proposto à família atendimento domiciliar (ambiente natural), com o objetivo de observar as interações familiares. Tinha-se como objetivo identificar algumas das contingências responsáveis pela baixa freqüência de emissão de respostas verbais e pela alta freqüência de comportamentos inadequados (que haviam sido relatados na avaliação inicial com a mãe). A partir da entrevista e das observações, pretendia-se desenvolver procedimentos de intervenção por meio de orientação aos pais. Após o período de intervenção, ao longo do qual foram realizadas observações constantes, pretendia-se avaliar se as mudanças nas interações entre os familiares haviam provocado mudanças na freqüência de emissão de repostas verbais da criança (avaliação de resultados). AVALIAÇÃO INICIAL Para a realização de uma avaliação inicial mais precisa, clara e objetiva, foram feitas observações com todos os membros da família presentes. Na primeira observação, estavam presentes a mãe e a criança. Cada observação teve duração de uma hora (tempo mínimo recomendado) de modo a garantir que os membros da família estivessem engajados em suas atividades cotidianas. A observação iniciava-se depois que os familiares
conversassem com a pesquisadora e se envolvessem em suas atividades. Além disso, as observações ocorreram sempre no mesmo período do dia, para que se tomassem parte da rotina da família. A forma de registro das interações foi definida com base nos objetivos da observação. Como a meta era coletar informações sobre as interações familiares (principalmente as verbais), identificando contingências que pudessem diminuir a freqüência de emissão de respostas verbais e aumentar a freqüência de comportamentos inadequados, foram utilizadas duas formas de registro. A observadora (terapeuta) gravou todas as verbalizações da criança e de quem estivesse na residência e anotou em folhas de registro (Anexo II) o que a criança estava fazendo» o material com o qual estava em contato, quem estava presente no ambiente e as interações dessas pessoas com a criança. Nesses registros foram escritos trechos do diálogo para identificar os eventos no momento da transcrição. Como o foco principal eram as interações verbais, a gravação delas foi fundamental, pois permitiu o levantamento ponto a ponto das verbalizações da criança e de seus familiares, o que seria quase impossível de se obter sem a utilização desse recurso. No entanto, apenas o registro das verbalizaçõespoderia deixar a observação incompleta, pois muitas verbalizações ficariam descontextualizadas no momento da transcrição; por isso a importância das folhas de registro para anotar os episódios de apresentação das interações, assim como suas consequências, contextos, duração etc. As folhas de registro no inicio das observações eram divididas em intervalos de cinco minutos. AVALIAÇÃO FUNCIONAL INICIAL A coleta de informações em ambiente natural foi fundamental para a identificação de contingências de reforçamento que determinavam a baixa freqüência de respostas verbais da criança. Deforma concreta, foipossível quantificar e mensurar essas verbalizações, escapando assim das conotações subjetivas que podem estar implícitas no relato verbal, como por exemplo o significado de "muito” ou-pouco" para cada pessoa. Para tanto as observações foram transcritas e digitadas.
Após transcrição e digitação das observações foram feitas análises quanti' tativa e qualitativa das verbalizações emitidas pela criança e pelos outros membros da família. Foi utilizado um programa de computador - criado para o trabalho - que permitiu comparar a quantidade de palavras emitidas por cada membro da família, por hora de observação. Além disso, o programa categorizava as palavras de cada membro da família em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio e outros, para comparação no decorrer das observações e entre os familiares. Foi feita também a divisão e quantificação das verbalizações emitidas peia família em sentenças (frases), que depois foram classificadas em categorias para análise da função. Essas categorias foram: nomear, descrever, perguntar, repetir, ordenar, elogiar, responder, chamar, insistir, ecoar, esquivar, interferir, desprezar, verbalizações mínimas e outras. A partir da avaliação dos dados coletados foi possível verificar que a criança passava um longo período sozinha assistindo T V , sem que houvesse qualquer interação com algum membro da família. Numa das observações a criança ficou os 60 minutos da observação di ante d a TV, um período com a mãe e outro sozinha. E quando sozinha diante da TV a criança repetia falas dos filmes, sem produzir qualquer conseqüência social. Foi possível observar que a criança chorava e gritava e que tais comportamentos eram seguidos por conseqüências reforçadoras imediatas dispensadas pelos pais-os pais faziam o que a criança queria, impedindo que outras respostas tidas como "adequadas” ocorressem. A criança, de fato, não precisava falar para obter o desejado (as conseqüências). Além disso, observou-se que o pai mantinha poucas interações com o filho, supostamente para se esquivar dessas respostas “inadequadas” da criança. Os pais mostravam-se desatentos às falas do filho, permanecendo em silêncio ou em interação com outra pessoa, o que provavelmente levava à extinção das verbalizações "adequadas” da criança. Além de não responderem às falas da criança em tom “adequado”, muitas vezes os pais respondiam apenas após insistência, quando a criança já estava gritando, o que caracterizava um reforçamento diferencial de verbalizações em tom ele vado e de respostas üidesejadas. A Tabela 1 mostra um exemplo desse tipo de interação.
TABELA 1 - Interação entre a mãe e a criança, retirada do registro de observação do dia 14.12.2004. A primeira linha indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as verbalizações da mãe na terceira linha. Contexto Na cozinha, mãe fazendo comida C. grita da sala c. Mãe. 0h, mãe (grifando). Vem logo mamãe, vem Ioga (gritando). já, isso ai (gritando). Mae (gritando). Mamãe (gritando). Eunao consigo, eu não consigo (gritando). M, Pera aí, deixa a mãe fazer a salada. Péra aí. Outra questão importante que foi observada refere-se ao excesso de verbalizações da mãe, o que restringia quantidade de verbalizações da criança e do pai. A mãe emitia muitas verbalizações em seqüência, sem “dar tempo" para a criança responder. Além disso, conseqüenciava com elogios e carinho quando a criança se esquivava de responder. A Tabela 2 mostra um exemplo dessas interações. TABELA 2 - Interação entre a mãe e a criança, retiraria do registro de observação do dia 10.6.2005. A primeira linha indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as verbalizações da mãe na terceira linha. Contexto Criança olhando o gravador Mãe apontando para a TV c. 0 que você está 0 que você está É roda roda? Olha o chapéu do Wood, C. vendo aí, heín?. vendo aí, C.? M. INTERVENÇÃO A partir da avaliação funcional, com base nas hipóteses levantadas, foram definidos nove procedimentos de intervenção que deveriam ser realizados pe~ los pais, sob orientação da terapeuta. Esses procedimentos foram ensinados através de orientação verbal. O principal objetivo era aumentar a freqüência de verbalizações e interações da criança com seus familiares e a diminuição 92
dos comportamentos indesejados. De forma geral, as orientações consistiam em: reforçamento diferencial de comportamentos alternativos e extinção de mandos inadequados; ensino de nomeação; reforçamento de mandos vocais4; alteração na freqüência de assistir TV ou jogar videogame; não-punição de respostas inadequadas; não-punição de emissões de respostas verbais; alternativa para colocação de regras e limites; conseqüenciação de emissão de comportamento verbal; e aumento das verbalizações. Durante todo esse período, foram feitas sessões semanais de observação que serviam para verificar a aplicação das intervenções pelos pais. Essas observações seguiram o mesmo critério das anteriores (período de avaliação inicial), mudando apenas o intervalo da folha de registro de cinco para um minu to5. No entanto essas observações não foram transcritas. Elas serviram para uma intervenção pontual da terapeuta, logo após a observação, sobre algum procedimento adotado pelos familiares. Eram destacados alguns episódios do período de observação que exemplificassem a possibilidade de intervenção e as mudanças já observadas, conseqiienciando com elogios os procedimentos corretos e corrigindo os que tivessem algum erro de aplicação. AVALIAÇÃO DE RESULTADOS Para a avaliação de resultados foram feitas duas observações: uma com todos os membros da família e outra com a mãe e a criança. Seguindo os mesmos critérios do período de avaliação inicial, as observações tiveram duração de uma hora e foram feitas no mesmo horário do dia. O objetivo da avaliação de resultados era verificar se as intervenções realizadas produziriam alterações na quantidade e qualidade da fala da criança, realizando comparação entre o período inicial e final das intervenções. Dessa forma, foi seguido o mesmo formato de registro das interações, mantendo a alteração realizada durante o período de intervenção (folha de registro com intervalo dc um minuto). 4 O capítulo 4 deste livro, de autoria de Denis Zamignani e Yara Nico, apresenta uma discussão aprofundada sobre a importância do mando na comunicação funcional. Essa mudança ocorreu, pois foi verificado que cinco minutos era um tempo muito iongo que algumas vezes dificultava a conre.xuialização da fala.
Após as observações, os registros foram transcritos e passaram pelo mesmo processo de avaliação realizado na avaliação inicial, pois isso permitiu a comparação dos dados entre os dois períodos. AVALIAÇÃO FUNCIONAL PÓS-1NTERVENÇQES Apartirdos dados coletados, foi possível verificar, de forma concreta e mais precisa, as alterações no comportamento da criança e de seus familiares, comparando com os comportamentos emitidos durante o período de avaliação inicial. Para essa análise comparativa, os dados foram agrupados em diversos gráficos, permitindo uma visualização rápida das alterações não só na quantidade de. verbalizações emitidas por todos, como no tipo dessas verbalizações (ver exemplos no Anexo III). Foi possível observar mudanças nos comportamentos dos pais (intervenção) que produziram alterações nos comportamentos da criança. Como exemplo, podemos citar o aumento na conseqüenciação de mandos vocais (pedidos) emitidos pela criança. A Tabela 3 mostra um episódio em que o pai está em interação com a criança. TABELA 3 - Interação entre pai e criança, retirada do registro de observação do dia 10.6.2005. A primeira linha indica o local e as pessoas presentes, a segunda linha indica as verbalizações da criança em interação com as verbalizações da mãe na terceira linha. Contexto Pai e irmão sentados no sofá e criança em pé em trente à TV C. 0 quê? Não. Nào, papai, quero colo. É, papai. M. E aí, fílho, como é que é? Senta Senta aqui, ó, aqui, ó. senta com o papai. Você quer colo? (Pega criança no colo) É importante ressaltar que, além das intervenções terem produzido mudanças em comportamentos específicos da criança, tais como aumento de pedidos, descrição de eventos e nomeação, houve a instalação de novos repertórios, tais como a emissão de elogios por parte da criança supostamente em decorrência da emissão de elogios pelos familiares (como pode ser observado nas Tabelas 4 e 5). 94
TABELA 4 intesação entre a mãe e a criança, retirada do legistro de observação do dia 3.6.2005. Contexto Mãe e criança na cozinha, criança vai para a lavanderia e mãe vai em seguida C. Mãe, fez cocô Olha. [referindo-se ao cachorro ter feito cocõ no lugar certo]. M. Deixa eu ver. Ah, fez mesmo. Fez no lugar certo. Parabéns, Butch. Fez cocô no lugar certo, muito bem! Tá de parabéns. TABELA 5 -Interação entre a mãe e a criança, retirada do registro de observação do dia 3.6.2005. Contexto M ãe e criança na lavanderia c. Butch, tá de parabéns! Muito bem ! M. É, está de parabéns! CONCLUSÃO Como pode-se perceber, a observação enquanto estratégia para a obtenção de dados permitiu uma intervenção baseada em informações bastante precisas sobre as relações familiares que produziam e mantinham o comportamento problema em questão. A intervenção em ambiente natural pôde ser feita de maneira segura e eficaz a partir da observação durante todo o proccsso, permitindo dessa forma a avaliação de cada etapa desenvolvida ao longo do processo terapêutico. O envolvimento de pessoas significativas no arranjo das contingências responsáveis pela manutenção do problema pareceu ser de fundamental importância para o sucesso terapêutico, deixando demonstrada a eficácia da utilização dc pessoas especialmente treinadas para a obtenção das mudanças desejadas. ANEXO I Lopez (2006), com o objetivo de caracterizar as práticas educativas de professores da 5a série do Ensino Fundamental, além de aplicar questionários e . fazer entrevistas com os professores, realizou observações em situações infor- '•rnais (não-estruturadas) e formais (estruturadas). Segundo a autora, as obser95
vações foram realizadas cm diferentes circunstâncias dentro da escola, e foram identificados comportamentos e interações entre os membros da comunidade escolar. Foram realizadas sessões de observações formais em quatro reuniões pedagógicas, uma reunião de pais e 56 observações formais (estruturadas) nas salas de aula, com o objetivo de identificar aspectos inerentes à prática educativa de professores de 5* série. Todas as observações foram registradas de forma cursiva e, em seguida, categorizadas para análise. A seguir, um trecho do registro cursivo ocorrido em sala de aula. Contexto: aula da professora de Ciências na 5a série B, logo após o intervalo (das 13h25 às 14h50). Estavam presentes 23 alunos, sendo 12 meninas e 11 meninos. As carteiras, em sua maioria, estavam dispostas em duplas. Descrição: P entra na sala6, coloca material (livros, diários, cadernos etc.) sobre a mesa e cumprimenta As: Bom-dia! / Asl mexem em material e dizem; Bom-dia! As2 mexem em material e con versam em voz baixa. As3 falam em voz alta sobre alteração de lugares determinada por P na aula anterior. / P fecha a porta, apaga a lousa e escreve a data. / Aslc As2 mexem em material e conversam em voz baixa. As3 falam alto sobre mudança de lugares. / P para As3; Nós vamos ficar duas aulas resolvendo problemas dos outros? / Asl conversam em voz baixa. As2 ficam em silêncio. / P diz: Psiu! O problema dos outros não nos diz respeito, vainos para a aula. / As permanecem em silêncio. / P em pé, próxima à lousa, diz: Na aula passada (...) ainda nem começamos a corrigir os exercícios, então vamos começar. / Al, sentado próximo à mesa deP, pergunta: Quer queeupegue os livros, professora? / P faz sinal afirmativo com a cabeça. / Al sai da sala e volta após alguns minutos com caixa de papelão cheia de livros didáticos referentes à disciplina. / P pega um dos livros, abre na página X, divide a lousa em 10 partes, sendo 5 espaços na parte superior e 5 na parte inferior, enumera-os e começa a corrigir as questões sobre conteúdo trabalhado em aula anterior (...) (Lopez, 2006, p. 49) 6 No registro cursivo, a letra "P” indica professor e "A(s)” indica aluno(s). As barras separam as ações do docente e dos alunos. 96
FOLHA DE OBSERVAÇÃO