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Orientação vocacional

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Published by aida.psi.edu, 2020-04-07 06:08:30

Caderno O.V.

Orientação vocacional

Keywords: Orientação

ORIENTAÇÃO
VOCACIONAL
OCUPACIONAL

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O69 Orientação vocacional ocupacional [recurso eletrônico] / Rosane
Schotgues Levenfus, Dulce Helena Penna Soares &
colaboradores. – 2. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre :
Artmed, 2010.
Editado também como livro impresso em 2010.
ISBN 978-85-363-2195-0
1. Psicologia. 2. Orientação vocacional. I. Levenfus, Rosane

Schotgues. II. Soares, Dulce Helena Penna.
CDU 159.98

Catalogação na publicação: Renata de Souza Borges CRB-10/1922
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ORIENTAÇÃO
VOCACIONAL
OCUPACIONAL

2ª edição

ROSANE SCHOTGUES LEVENFUS
DULCE HELENA PENNA SOARES

e colaboradores

2010

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© Artmed Editora S.A., 2010
Capa: Paola Manica
Preparação do original: Márcia da Silveira Santos
Leitura final: Janine Pinheiro de Mello e Marcos Vinícius Martim da Silva
Editora Sênior - Saúde Mental: Mônica Ballejo Canto
Editora responsável por esta obra: Carla Rosa Araujo
Editoração eletrônica: VS Digital

Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à
ARTMED® EDITORA S.A.
Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Santana
90040-340 Porto Alegre RS
Fone (51) 3027-7000 Fax (51) 3027-7070
É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,
sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação,
fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora.
SÃO PAULO
Av. Angélica, 1091 - Higienópolis
01227-100 São Paulo SP
Fone (11) 3665-1100 Fax (11) 3667-1333
SAC 0800 703-3444
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL

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À Silvia,
Com a esperança de que, um dia, seu trabalho

seja tão prazeroso quanto brincar!
Rosane Schotgues Levenfus

Aos meus alunos do Curso de Psicologia da UFSC e do Curso de Formação
em Orientação Profissional do Instituto do Ser por acreditarem
que é possível “facilitar” as escolhas de nossos clientes.
Dulce Helena

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Autores

Rosane Schotgues Levenfus (org.)
Mestre em Psicologia Clínica. Diretora da Projecto - Estudos Avançados em Educação e
Saúde. Sócia fundadora e ex-presidente da Associação Brasileira de Orientação Profis-
sional (ABOP), biênio 2005-2007.

Dulce Helena Penna Soares (org.)
Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Louis Pasteur, Strasbourg, França.
Professora Associada II da Universidade Federal de Santa Catarina, no Programa de
Pós Graduação e na Graduação do Departamento de Psicologia. Ex-presidente da Asso-
ciação Brasileira de Orientação Profissional (ABOP), biênio 1997-1999.

Acácia Aparecida Angeli dos Santos

Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo.
Docente da graduação e do programa de pós-graduação stricto sensu em Psicologia da Universi-
dade São Francisco, Itatiba, São Paulo. Bolsista produtividade do CNPq.

Ana Paula Porto Noronha

Doutora em Psicologia, Ciência e Profissão pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Docente da graduação e do programa de pós-graduação stricto sensu em Psicologia da Universi-
dade São Francisco, Itatiba, São Paulo. Bolsista produtividade do CNPq.

André Jacquemin

Professor titular (aposentado) do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filoso-
fia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Presidente-fundador
da Sociedade Brasileira de Rorschach e outros Métodos Projetivos, desde 1993.

Caioá Geraiges de Lemos

Doutora em Psicologia, Orientação Profissional, pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro da
Comissão Primeira Escolha da Associação Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP), biênio
2007-2009. Atua como Orientadora Educacional no Colégio Franciscano Pio XII.

Denise Ruschel Bandeira

Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre em Psicologia pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especialista em Diagnóstico Psicológico pela Pontifí-
cia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul. Docente e pesquisadora na área de Avaliação Psicológica na Universidade Fe-
deral do Rio Grande do Sul. Coordenadora pedagógica do Curso de Especialização em Psicologia
Clínica com ênfase em Avaliação Psicológica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Edite Krawulski

Doutora em Engenharia de Produção, área de Ergonomia pela Universidade Federal de Santa
Catarina. Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina. Psicóloga pela

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viii Autores

Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora do curso de graduação em Psicologia
da Universidade Federal de Santa Catarina. Membro do Laboratório de Informação e Orientação
Profissional (LIOP).

Fabiano Fonseca da Silva

Mestre e doutorando em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo. Profes-
sor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Psicólogo do Serviço de Orientação Profissional da
Universidade de São Paulo. Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre o Trabalho e Orientação
Profissional da Universidade de São Paulo (LABOR-USP).

Fermino Fernandes Sisto

Doutor em Pedagogia pela Universidad Complutense de Madrid. Livre docente em Psicologia do
Desenvolvimento pela Unicamp. Docente da graduação e do programa de pós-graduação stricto
sensu em Psicologia da Universidade São Francisco, Itatiba, São Paulo. Bolsista produtividade do
CNPq.

Kathia Maria Costa Neiva

Doutora em Psicologia pela Université Paris V – René Descartes. Especialista em Orientação Pro-
fissional pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professora e Coordenadora do curso de Psicologia da
Universidade Ibirapuera, São Paulo.

Luciana Albanese Valore

Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo.
Mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Professora do curso de Psicologia da
Universidade Federal do Paraná. Coordenadora do Centro de Estudos e Assessoria em Psicologia
e Educação da Universidade Federal do Paraná.

Lucy Leal Melo-Silva

Doutora em Psicologia pela Universidade São Paulo. Mestre em Educação Especial pela Univer-
sidade Federal de São Carlos. Especialista em Grupo Operativo pelo Instituto Pichon-Rivière de
Ribeirão Preto. Professora no Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Editora da Revista da Associa-
ção Brasileira de Orientadores Profissionais (ABOP).

Maria da Conceição Coropos Uvaldo

Mestre e doutoranda em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de São Paulo. Coor-
denadora e professora do curso de especialização em Orientação Profissional e de Carreira do
Instituto Sedes Sapientiae. Psicóloga do Serviço de Orientação Profissional da Universidade de
São Paulo. Pesquisadora do Laboratório de Pesquisas sobre o Trabalho e Orientação Profissional
da Universidade de São Paulo (LABOR-USP).

Maria da Glória Hissa

Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Especialista em Psicologia
Clínica e Psicologia Educacional. Coordenadora do Núcleo de Desenvolvimento Psicodinâmico
(NOVO), Rio de Janeiro. Membro da Associação Brasileira de Orientação Profissional (ABOP).

Maria Lucia Tiellet Nunes

Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade Livre de Berlim. Psicóloga. Mestre em Psicolo-
gia Teórico-Experimental pela Universidade Federal da Paraíba. Professora Titular da área de Psi-
cologia Clínica nos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Psicologia da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Coordenadora do programa de pós-graduação em
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

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Autores ix

Mariza Tavares Lima

Psicóloga. Especialista em Educação. Professora titular de Orientação Profissional no curso de
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Docente no curso de pós-gra-
duação em Orientação Profissional e de Carreira na Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte.
Vice-presidente da Associação Brasileira de Orientação Profissional (ABOP), biênios 1999/2001 e
2003/2005.

Marita de Almeida Pinheiro

Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Pedagoga pela Uni-
versidade Santa Úrsula, Rio de Janeiro. Orientadora Educacional pela Coordenadora do Núcleo
de Desenvolvimento Psicodinâmico (NOVO), Rio de Janeiro. Membro da Associação Brasileira de
Orientação Profissional (ABOP).

Marucia Patta Bardagi

Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente no curso de
graduação da Universidade Luterana do Brasil, Campi Santa Maria, Rio Grande do Sul. Docente
nos cursos de especialização em Orientação Profissional e Avaliação Psicológica na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. Atua nas áreas de avaliação psicológica, aconselhamento de carrei-
ra e recursos humanos.

Mauro de Oliveira Magalhães

Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente no Instituto
de Psicologia da Universidade Federal da Bahia. Career Coach (Certificado pelo Career Plan-
ning and Adult Development Network, Estados Unidos). Consultor em desenvolvimento de
carreiras.

Milta Costa da Silva Rocha

Psicóloga. Mestre em Engenharia de Produção. Especialista em Saúde Mental e Trabalho.
Docente no Ibmec, Minas Gerais. Docente na Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte e na
Agência de Capacitação e Orientação para o Trabalho (ACOT) .

Regina Anzolch Crestani

Psicóloga. Coordenadora Pedagógica e Consultora de Escolas Franqueadas ao Universitário. Vice-
diretora do Colégio João Paulo I, Rio Grande o Sul. Sócia-fundadora da Associação Brasileira de
Orientação Profissional (ABOP), secretária no biênio 1995-1997) e tesoureira no biênio 2005-2007.

Sônia Regina Pasian

Doutora em Ciências, Saúde Mental pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade
de São Paulo. Mestre em Filosofia, Epistemologia da Psicologia e da Psicanálise, pela Universi-
dade Federal de São Carlos. Docente do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP. Presidente da Associação Brasileira de
Rorschach e Métodos Projetivos (ASBRo).

Yvette Piha Lehman

Doutora e Mestre em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São
Paulo. Psicanalista. Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Professora As-
sociada do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Univer-
sidade de São Paulo. Livre Docente pela Universidade de São Paulo. Coordenadora do Serviço de
Orientação Profissional da Universidade de São Paulo e do Laboratório de Estudos sobre Trabalho
e Orientação Profissional (LABOR).

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Sumário

Apresentação à 2ª edição ........................................................................................ 15

PARTE I

CONTEXTUALIZANDO

1 Orientação profissional na pós-modernidade.......................................................... 19

Yvette Piha Lehman

2 Escola e escolha profissional: um olhar sobre a construção de projetos

profissionais............................................................................................................ 31
Maria da Conceição Coropos Uvaldo e Fabiano Fonseca da Silva

3 Principais temas abordados por jovens vestibulandos centrados na escolha

profissional ............................................................................................................ 39
Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

PARTE II

DIFERENTES CONTEXTOS EM ORIENTAÇÃO

4 Orientação profissional na escola privada............................................................... 57

Regina Anzolch Crestani

5 Orientação profissional em grupo na escola pública: direções possíveis,

desafios necessários ................................................................................................ 65
Luciana Albanese Valore

6 Projeto de carreira, plano de vida: passos para um gerenciamento de vida

profissional e pessoal .............................................................................................. 82
Milta Costa da Silva Rocha

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12 Sumário

PARTE III

DIFERENTES ABORDAGENS EM ORIENTAÇÃO

7 A abordagem cognitivo-evolutiva do desenvolvimento vocacional ......................... 95

Marucia Patta Bardagi

8 Metodologia de ativação da aprendizagem: uma abordagem psicopedagógica

em Orientação Profissional ..................................................................................... 106
Maria da Glória Hissa e Marita de Almeida Pinheiro

9 Orientação vocacional ocupacional: abordagem clínica psicológica...................... 117

Rosane Schotgues Levenfus

PARTE IV

ORIENTAÇÃO EM SITUAÇÕES ESPECÍFICAS

10 O temor da escolha errada em filhos de pais separados .......................................... 135

Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

11 Jovens com perda parental: lidando com o luto e com a escolha profissional ......... 146

Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

12 A não escolha profissional em jovens simbiotizados ............................................... 158

Rosane Schotgues Levenfus e Maria Lucia Tiellet Nunes

PARTE V

TESTES E INSTRUMENTOS PARA DIAGNÓSTICO E INTERVENÇÃO
EM ORIENTAÇÃO

13 Teste de Avaliação dos Interesses Profissionais (AIP): uma proposta 173

de interpretação psicodinâmica ..............................................................................
Rosane Schotgues Levenfus e Denise Ruschel Bandeira

14 Contribuições da Escala de Aconselhamento Profissional (EAP) 183

para a orientação de carreira ..................................................................................
Ana Paula Porto Noronha, Acácia Aparecida Angeli dos Santos
e Fermino Fernandes Sisto

15 Desenhos de profissionais com estórias na orientação profissional: possíveis 194

aplicações...............................................................................................................
Caioá Geraiges de Lemos

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Sumário 13

16 Escala de Maturidade para a Escolha Profissional (EMEP)........................................ 204

Kathia Maria Costa Neiva

17 Berufsbilder Test (BBT): teste de fotos de profissões em processos de orientação 211

profissional .............................................................................................................
André Jacquemin, Lucy Leal Melo-Silva e Sônia Regina Pasian

18 Teste de frases incompletas para orientação profissional: uma proposta 225

de análise ..............................................................................................................
Kathia Maria Costa Neiva

19 Jogo: critérios para a escolha profissional ............................................................... 237

Kathia Maria Costa Neiva

PARTE VI

TÉCNICAS PARA INTERVENÇÃO EM ORIENTAÇÃO

20 Modalidades de trabalho e utilização de técnicas em orientação profissional......... 247

Dulce Helena Penna Soares e Edite Krawulski

21 Técnicas e jogos para utilização em grupos de orientação...................................... 260

Dulce Helena Penna Soares

22 O uso de narrativas de vida na orientação de carreira: um enfoque 274

construtivista...........................................................................................................
Mauro de Oliveira Magalhães

23 A avaliação dos valores na orientação de carreiras ................................................. 287

Mauro de Oliveira Magalhães

24 O uso da autobiografia escrita na orientação vocacional ........................................ 299

Rosane Schotgues Levenfus

25 Técnica dos bombons ............................................................................................. 309

Rosane Schotgues Levenfus

26 Técnica do “Círculo da Vida” ................................................................................. 314

Mariza Tavares Lima

Índice ...............................................................................................................................327

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Apresentação à 2a Edição

A primeira edição do livro foi muito bem-aceita pelos colegas de todo o Brasil, o que nos
deixou muito felizes, pois nosso objetivo de difundir o que há de mais moderno campo da Orien-
tação Profissional estava sendo alcançado. Recebemos inúmeros e-mails de várias regiões com co-
mentários diversos, o que nos trouxe outros questionamentos. Vários convites nos foram feitos
para participar de simpósios e congressos, cursos de especialização em Orientação Profissional,
matérias de jornais, revistas e televisão, em função deste livro. Em vários lugares do Brasil, co-
mentava-se a qualidade do livro, carinhosamente chamado por alguns de “A Bíblia da OP”. Esta
obra foi indicada como bibliografia obrigatória em diversos cursos de Psicologia nas disciplinas
de Orientação Vocacional ou Profissional, confirmando mais uma vez o seu alcance.

A modernidade tem feito a vida humana transformar-se de forma muita rápida. O mundo
do trabalho vem sofrendo transformações que não eram sequer imaginadas há cerca de 20 ou 30
anos. Assim também a OP tem sido obrigada a considerar todas essas mudanças. Ressaltamos a
importância de atualizar este livro e por isso estamos agora apresentando sua 2ª edição.

O processo de reconstrução foi iniciado durante o I Congresso Latino-Americano e o VII
Simpósio de Orientação Vocacional Ocupacional organizado pela Associação Brasileira de
Orientação Profissional (ABOP), em Bento Gonçalves, em 2007. Nessa ocasião, constatamos
como nossa área tem se desenvolvido ao vermos novos e antigos colegas apresentando seus tra-
balhos com questionamentos diferentes. Novas abordagens estão sendo desenvolvidas, diversos
testes e instrumentos para a intervenção em Orientação Profissional e de Carreira têm recebido
aprovação do Conselho Federal de Psicologia, além de novas pesquisas com resultados surpre-
endentes na área. Então, não poderíamos deixar de convidá-los a fazer parte deste livro.

Muitos capítulos continuam os mesmos, mas com algumas revisões e alterações que julga-
mos necessárias.

O livro divide-se em seis partes: a contextualização; os diferentes contextos; as diferentes
abordagens; a orientação profissional em situações específicas, finalizando com a apresentação
de testes e instrumentos específicos para diagnóstico e intervenção e as técnicas para intervenção
em orientação.

O resultado será aqui apresentado e desejamos uma boa leitura a todos.

Rosane Schotgues Levenfus
Dulce Helena Penna Soares

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I

CONTEXTUALIZANDO

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1

Orientação profissional na pós-modernidade

Yvette Piha Lehman

INTRODUÇÃO e sensoriais, personalidade, além de definir
qual a profissão mais adequada para o in-
Neste capítulo, serão abordadas as evo- divíduo.
luções e os questionamentos a partir de nossa
experiência no campo de Orientação Profis- 3. Clínico: Enfatizava o papel ativo do indi-
sional que tiveram influência nas transforma- víduo, atribuindo-lhe potencial e recursos
ções no próprio campo de atuação dos orien- para a autocompreensão e autodireção. O
tadores. Isso nos traz novas problemáticas e papel do orientador era facilitar o reconhe-
a necessidade de novas abordagens, as quais cimento e o desenvolvimento do processo.
tanto enriquecem quanto tornam tal tarefa
no processo de Orientação Profissional mais 4. Político e Social: Incluía como fator rele-
complexa. Inicialmente, é importante apre- vante o contexto sociopolítico do processo
sentar um esboço da evolução da Orientação de escolha profissional, para o qual conver-
Profissional no Brasil. giam complexas configurações sociais pas-
sadas, presentes e futuras (Lehman, 1988).
A Orientação Profissional passou por
quatro estágios teórico-práticos, segundo Essas quatro etapas apresentavam aspec-
Oswaldo de Barros Santos – pioneiro na área tos afins: em todas elas, a Orientação Profis-
no Brasil. Conforme palestra proferida no sional é considerada como “o processo pelo
Simpósio de Orientação Profissional (realiza- qual o indivíduo é ajudado a escolher e a se
do em maio de 1987 no Instituto de Psicologia preparar para ingressar e progredir em uma
da USP), os estágios foram os seguintes: ocupação” (Super e Bohn Jr., 1976, p. 199).
Evidenciando um espaço institucional com
1. Informativo: Oferecia informações a res- possibilidades de escolhas, o processo visava
peito das profissões, suas perspectivas e a harmonizar a inclusão do indivíduo no mer-
exigências. cado de trabalho e a favorecer um desenvol-
vimento profissional em etapas sequenciais
2. Psicométrico: Não atribuía tanta importân- previsíveis e lineares.
cia à realidade e à diversificação do mercado,
mas valorizava as características pessoais A partir dos anos de 1990, as transforma-
para o sucesso em determinado campo pro- ções no mundo do trabalho ocasionaram um
fissional. O orientador, a partir da análise efeito em escala, o qual teve como consequên-
das funções exigidas em cada tipo de traba- cia o esvaziamento do espaço vital e de subje-
lho, avaliava inteligência, aptidões motoras tivação do sujeito por meio de seu trabalho.

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20 Levenfus, Soares & Cols.

Novos paradigmas e novos contextos se resgatem as articulações entre o indivíduo e
impõem devido à nova realidade de contí- os sistemas sociais.
nua ruptura e imprevisibilidade. O campo da
Orientação Profissional passa agora por um Os novos modelos de vinculação com o
novo estágio: como a dinâmica do mundo do trabalho introduzem uma realidade que, na
trabalho é cada vez menos previsível, estabe- prática, aumenta as dificuldades do orienta-
lece-se um cenário de transição o qual exige dor profissional: a fragilização das institui-
das pessoas adaptabilidade e multifunciona- ções e a consequente desorientação e a exclu-
lidade e coloca a realização do projeto profis- são social.
sional em um contexto complexo e mutante.
A conscientização de tais modificações
Estamos vivendo agora uma quinta etapa, sociais implica a necessidade de um modo
a ERA DE KAIRÓS, a qual, na mitologia gre- ativo de elaboração de projetos profissionais
ga, é associada ao tempo descontínuo, impre- sólidos, e ao mesmo tempo, com um objetivo
visível – em oposição à época de administração operacional flexível e criativo, a fim de ultra-
científica de Chronos, associada a um tempo passarem a descontinuidade e a fragilidade
linear, lógico e previsível, no qual era possível das instituições sociais.
prever um desenvolvimento ocupacional em
um espaço e um tempo determinados. A reorganização da própria sociedade,
atrelada às novas relações de trabalho (basea-
Kairós das principalmente no modelo de qualificação
Tempo não absoluto, descontínuo, não linear, da mão de obra), tem feito surgir novos espa-
(eventos ocorrem de maneira pouco previsí- ços de intervenção, de reflexão e de trabalho
vel) para a Orientação Profissional, de importân-
cia substancial.
Chronos
Tempo linear, contínuo, previsível MUDANÇAS DE PARADIGMA
(eventos acontecem em linha sucessória)
O espaço de atuação da Orientação Pro-
Qual seria o papel da Orientação na Era fissional – contido em um campo de interme-
de Kairós? Esse é um questionamento essen- diação entre o indivíduo, o sistema educa-
cial, pois, nessa nova etapa, descortina-se um cional e o mercado de trabalho – sofre uma
campo muito mais amplo e complexo, o qual importante transformação, pois passa a traba-
apresenta uma perspectiva de trabalho árduo lhar com problemáticas mais amplas, os quais
a fim de elaborar uma teoria cujos modelos não se atêm apenas a um momento da vida
(jovens no final do ensino médio).

Atualmente, é necessário orientar adul-
tos empregados, desempregados, aposenta-
dos, entre outros. A desconstrução do merca-
do de trabalho, fruto das grandes mudanças
ocorridas nas organizações do trabalho e da
mecanização, altera profundamente a relação
do homem com o próprio trabalho e com seu
projeto de vida.

A globalização trouxe para o homem,
para a educação e para a relação homem-tra-
balho inúmeras questões. Confrontamo-nos
com novas demandas e com novas ideologias
que sustentam essa relação.

Na área de Orientação Profissional, ocor-
re uma migração do paradigma primordial
do desejo, da realização pessoal e da busca de
identidade. Antes, a Orientação Profissional
coincidia com um conjunto de práticas que ti-

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Orientação Vocacional Ocupacional 21

nha como perspectiva o ingresso no mercado continência do indivíduo; como parte de polí-
de trabalho, ou seja, a transição da escola para ticas públicas e verificação da sua efetividade.
o campo profissional; no entanto, agora, enfa- A Orientação Profissional começa a ser consi-
tiza-se o encaixe e a elaboração de projetos, no derada pelas organizações como um modo de
sentido da sobrevivência. upgrade do espaço profissional na instituição.
Isto é, as empresas lançam mão da Orientação
Vemos que os dois paradigmas correm Profissional para desenvolver metas tanto
paralelamente, muitas vezes um desqualifi- para seus funcionários quanto para a própria
cando o outro. Entretanto, não devem ser con- empresa, a fim de que a própria instituição se
siderados de maneira isolada, pois isso pode fortaleça no mercado.
acarretar consequências muito negativas. Por-
tanto, esse é um alerta para o orientador pro- Em um mundo de constantes transfor-
fissional: é importante que seu trabalho pres- mações, a Orientação Profissional surge um
suponha a articulação dos dois paradigmas, processo necessário em diversas etapas da
ou seja, a manutenção da dialética entre o Ser vida nas quais ocorrem rupturas na trajetória
e o Fazer. pessoal e profissional, dado o momento de
grandes modificações no significado social do
Salienta-se também que vivemos um trabalho dentro do capitalismo globalizado.
momento em que cresce o desequilíbrio entre
o sistema de formação e o mercado de traba- De certo modo, a noção do relativismo do
lho. O enxugamento dos empregos tem como mundo pós-moderno gera no homem um sen-
consequência seleções cada vez mais rígidas timento de continência circunstancial e frágil.
e o desenvolvimento de um ideal da hiper- Isso faz com que as realizações humanas ad-
qualificação, o qual começa a ser o novo lema quiram um cunho deformado e fragmentado,
do mercado. Para sobreviver a esse cenário, o perdendo sua autenticidade social.
campo da Orientação Profissional passa a ter
como foco uma problemática que vai além da Nesse espaço, o papel que o orientador
escolha de uma profissão e que deve incluir profissional desempenha é o de resgatar o
também a importância do trabalho como for- indivíduo das tendências de valor de uso
ma de inserção social. (vínculo alienado) dando sentido à relação
do indivíduo com seu trabalho, assim como
Atualmente, não é suficiente nos deter- o de lhe devolver as atividades que produ-
mos na questão da inserção e da transição zem efeitos sobre o mundo (modificações da
profissional, pois caminhamos para uma ar- natureza, objetos novos, produtos culturais,
ticulação dinâmica dos distintos papéis pro- relações sociais, etc.) e que são seguidas por
fissionais (Super, 1985). As formas normativas um reconhecimento próprio, ou seja, pelo
já não são tão previsíveis; passa-se a olhar o reconhecimento e pela recuperação daquilo
jovem como determinante de si mesmo, e o que é criado.
orientador profissional servirá, de maneira
exaustiva, como suporte tanto para a forma- É necessário ainda enfatizar o sentido
ção deste último quanto para seu desenvolvi- dos vínculos construtivos para si e para os
mento pessoal. demais, a fim de que, por meio deles, o in-
divíduo se sinta criando, preparando e reco-
As fronteiras entre a atividade de forma- nhecendo melhor a realidade e os outros seres
ção e de orientação tornam-se menos claras. humanos.
Em um contexto de educação continuada, a
demanda por Orientação Profissional é cons- Por fim, cabe ao orientador, nesse novo
tante, pois as crises profissionais ressurgem papel, auxiliar no desenvolvimento de uma
em vários momentos da vida. identidade interiorizada (Bleger, 1970), pres-
supondo um sentido coerente e não fragmen-
A tarefa do orientador é completamente tado, um sentimento de continuidade do ser
diferente em cada contexto: uma orientação es- ao longo do tempo e a capacidade de pensar
colar, junto a jovens que devem articular sua de um modo coeso e em um continuum tem-
profissão; junto a populações específicas que poral (passado, presente e futuro).
correm risco constante; orientação em institui-
ções educativas, para refletir sobre o papel de No entanto, tal tarefa torna-se cada vez
mais difícil, pois, no cenário do capitalismo

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22 Levenfus, Soares & Cols.

globalizado, novas combinações estão sendo com que o homem caia em uma cultura de
feitas constantemente na sociedade pós-in- sobrevivência. O que passa a importar é o mo-
dustrial, tornando as representações frágeis e mento, o modismo, o passageiro; e isso afeta
tirando das pessoas uma perspectiva de tota- o homem em sua produção, em seu trabalho,
lidade. Tem-se diante dos olhos apenas vários nas organizações e nas próprias políticas or-
fragmentos em constante mudança os quais ganizacionais.
colocam em risco os vínculos, enfraquecendo
o engajamento em projetos coletivos. Flexibilidade torna-se sinônimo de ilusó-
rio: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”,
Este aspecto da pós-modernidade pode, e cada vez mais a estrutura social oferece me-
caso não haja plena consciência dele, desvita- nos elementos de sustentação para essa crise.
lizar a ação e a criatividade – transformando- O campo social perde sua força de coesão no
a em uma criatividade impregnada de iso- novo momento de contínua mudança, no qual
lamento e destruição, o que faz daquilo que o vínculo tem de ser prospectivo e a possibili-
criamos pouco compartilhado. dade de fracasso é cada vez maior.

É possível estabelecer um paralelo com Nessa Cultura de Sobrevivência (Lasch,
a constituição do Ser, tal como é descrita por 1983), o futuro se desconecta do passado e do
Winnicott: o bebê primeiro se reconhece a par- presente, impedindo-nos de delinear e repre-
tir do olhar da mãe. Não havendo reconheci- sentar coerentemente um projeto de vida.
mento, acredita que sua ação e que aquilo que
ele criou não têm sentido: o bebê acha que foi Lyotard (1998) assinalou que “o contrato
ele que fracassou e sente-se desvitalizado, sem temporário está suplantando, na prática, as
força para acreditar em sua ação criativa, sem instituições permanentes nos domínios pro-
perceber que o ambiente não lhe foi adequado. fissionais, nos emocionais, nos sexuais, nos
De modo similar, é o que ocorre quando refle- culturais, nos familiares e nos internacionais,
timos sobre nossa ação e participação social. bem como nos assuntos políticos” – o que po-
deria anunciar uma próxima crise social e po-
As deformações chegam ao ponto de cer- lítica, dada a perda da continuidade histórica
tos indivíduos perceberem a realidade social e temporal.
com tanta autonomia, que buscam na Orien-
tação Profissional um objeto a ser consumido COMO ESSA IDEOLOGIA AFETA A
(“Qual profissão vai me dar maior oportuni- ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL?
dade?”, perguntam os adolescentes; “Aceito
qualquer ocupação”, dizem os desemprega- A questão que se coloca hoje não é a de
dos; “Submeto-me a qualquer coisa para me tentar encaixar as antigas teorias aos novos
manter no emprego”, afirmam outros). É evi- problemas, e sim a de desenvolver novas es-
dente, nesses casos, certa inércia. tratégias que não surjam como modelos está-
ticos, mas que se reelaborem e se rearticulem
Na sociedade atual, em que predomina a a todo o momento com as demandas e as rea-
mecanização, muitas vezes, não se discrimina lidades que se apresentam.
o sujeito das coisas, chegando-se, às vezes, a
um perfil de homem ambíguo, não discrimi- Em um momento de caos, a situação re-
nado e dependente. quer não um padrão comum, mas sim uma
intervenção mais pontual, a qual consiga res-
Como Guichard (2001) assinalou, é neces- gatar o indivíduo envolvido em um processo
sário esclarecer para o indivíduo que nos pro- vertiginoso de incompreensão e de perda de
cura o impacto da ideologia da pós-moderni- sentido.
dade, a qual transforma o vínculo do homem
com o trabalho e com a sua produção social, Isso torna a tarefa do orientador mais
trazendo mudanças profundas que se contra- complexa, pois ele deve tolerar inúmeros
põem amplamente aos modelos e aos sentidos paradoxos: no mundo pós-moderno a identi-
que o trabalho teve até então para a humani- dade deve constantemente incluir a constru-
dade. ção e, ao mesmo tempo, a desconstrução; e
o orientador deve buscar a individualização,
Harvey (1993) observa que as transfor- assim como a diversificação.
mações vertiginosas do mundo atual fazem

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Orientação Vocacional Ocupacional 23

É preciso também combinar e considerar sequência de atividades ocupacionais e pro-
fatores que outrora eram totalmente diversos fissionais que uma pessoa executa durante a
e excludentes, mas que, no momento, não são trajetória de vida, incluindo todos os momen-
mais. Recordo o que disse certo aluno de En- tos e os papéis os quais desempenha, em uma
genharia Mecânica: “A área está acabando... sequência singular e intransferível, mas que
Agora é só eletrônica”. Dois anos depois, nas- segue um ordenamento previsível e deter-
cia a mecâtronica. minado por estágios de vida – um padrão de
carreira (resultante da interação entre fatores
Assim sendo, a Orientação Profissional internos e externos).
deve dar maior ênfase não à teoria ou à técni-
ca, mas à busca do desenvolvimento de apor- Segundo Super, cada estágio envolve
tes diferenciados, adequados a populações uma série de tarefas vocacionais (respostas
específicas, revelando modos mais sensíveis às demandas e aos estímulos internos e exter-
de abordar o problema da escolha profissional nos), as quais requerem um conjunto de ha-
e subordinando-a ao diagnóstico que aponte bilidades, de qualificações e de competências
qual teoria e qual técnica seriam mais relevan- necessárias para lidar com as experiências de
tes no trabalho com essa ou aquela situação. cada estágio da vida. Nesse modelo profissio-
nal predomina a ideia de profissionais espe-
JUSTAPOSIÇÃO DO PAPEL cialistas (modelo fordista).
PROFISSIONAL E DE ESTUDANTE
Mudanças na carreira e na educação A introdução de novas tecnologias e a
globalização trouxeram uma dinâmica nova
O conceito de carreira teve origem em na realidade da carreira. Os padrões de de-
uma expressão de Roma Antiga: via carraria, senvolvimento profissional que definiam as
que, em latim, significava “estrada para car- carreiras até então desmoronaram: não há
ros”. Foi somente no século XIX que a palavra mais como estabelecer as etapas de ascensão
“carreira” passou a definir “trajetória profis- profissional segundo critérios previsíveis e
sional” – uma propriedade estrutural das or- esperados.
ganizações ou das ocupações, implicando a
noção de avanço, com expectativa de progres- A carreira antes seguia uma direção verti-
são vertical na hierarquia de uma organiza- cal. Ao se ingressar em uma organização, pre-
ção, e, por fim, associando-se a uma profissão, via-se o que se podia esperar de cada cargo e
pressupondo uma estabilidade ocupacional. quais as habilidades que ele exigia. Hoje, essa
estrutura não se mantém. A noção de carreira
Super (1985) foi um dos pioneiros das em uma era neoliberal é mais indiscriminada
concepções de “carreira”, definida como a e segue um modelo de “serpente”, predomi-
nando a horizontalidade (pois caminha na
superficialidade). Dessa forma, nem sempre

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a mudança é um movimento de ascensão; é em ensino atingem o aluno de forma direta,
apenas um deslocamento de posição. podendo até desmotivá-lo no estudo.

Atravessa-se um momento de novas É nesse momento em que se observa uma
configurações, as quais fazem com que a con- tendência crescente da escola de abrir espaços
quista de espaço, a evolução e a sobrevivência para os alunos tomarem contato com o merca-
no mundo do trabalho passem a ser da res- do de trabalho e com o mundo das profissões,
ponsabilidade da própria pessoa. começarem a se integrar a ele. Com isso, sur-
gem um maior comprometimento, propostas
Nem mesmo as organizações mantêm um de projetos de OP e de “Semanas das Profis-
modelo de cargos e funções claros, associando sões”, expressões da participação ativa da
a qualificação do indivíduo a um processo de escola nessa tarefa, dando ao aluno suporte e
atualização contínua, cuja realização é delega- espaço de reflexão.
da a ele mesmo, o qual se torna o único respon-
sável por se manter na competitividade dese- É importante que a demanda – existente
jada pelo mercado de trabalho, bem como por no espaço social da Orientação Profissional –
atender aos critérios mutantes de seleção. seja apontada para que orientadores profissio-
nais, professores e orientadores pedagógicos
Assim, o sujeito, para se instrumentali- se dediquem a esse novo espaço, formalmen-
zar na nova realidade, deverá ser responsável te instituído pelo sistema ocupacional, ainda
por sua formação – isto é, por sua sobrevivên- novo no Brasil.
cia no mundo do trabalho. Ele buscará atin-
gir esse objetivo por meio do ensino, vendo-o A QUESTÃO DAS COMPETÊNCIAS
como seu principal aliado na possibilidade de
crescimento e sobrevivência profissional. O termo aponta para uma dinâmica
de “desconstrução” que está ocorrendo nas
Isso tem influência direta na Orientação profissões e no que diz respeito ao papel da
Profissional, à qual os indivíduos recorrem Orientação Profissional, uma vez que o mode-
por sentirem necessidade de reatualização, lo de especialista desmorona para surgir em
além de se questionarem constantemente a seu lugar um novo modelo de profissional: o
respeito de habilidades e qualificações neces- polivalente.
sárias em um mercado cujo modelo de pro-
fissional é o de um sujeito superqualificado. O trabalho, que era a transformação da
Apoiam-se na Educação Continuada, ou seja, natureza, é hoje, assumidamente, ação social.
na justaposição entre vida profissional e vida O trabalho que produzia coisas, hoje produz
estudantil que, do ponto de vista da Orien- sociedade (Touraine, 1994).
tação Profissional, abre espaço para uma in-
tervenção preventiva secundária ao atender Surpreendentemente o termo competência
profissionais em crise, desmotivados e sem começa a ocupar com frequência a literatura
perspectivas com a profissão – pois, mesmo sociológica francesa a partir de 1985, por in-
aqueles que têm emprego, vivem em constan- termédio de empresários, de industriais e de
te medo de perdê-lo. empregadores preocupados com as recentes
transformações nos postos de trabalho.
Nesse contexto, as próprias instituições
de ensino passaram a ampliar e a desenvol- O termo era inicialmente restrito aos
ver novas áreas que sirvam como indicador meios jurídicos, hoje em dia está marcado
de qualidade e competência, e é nessa con- pela polissemia; e seu uso limitado a uma elite
juntura que vem se ampliando o espaço de intelectual, visto que esta certa competência é
atuação e reflexão da Orientação Profissional exigida para julgar a competência de alguém
no ambiente escolar. (Isambert-Jamaty, 1994).

As escolas começam a participar da As competências são únicas e perten-
questão profissional de modo mais ativo. Isso cem a uma categoria formalizada. Pertencem
se deve, em grande parte, às novas demandas ao modelo de Especialista. As habilidades e
por parte do aluno e à necessidade de a escola as qualificações – da mesma forma que uma
estar presente na questão, uma vez que a es- característica individual – não podem ser en-
colha da profissão e o investimento da família contradas em todos os indivíduos. As compe-

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Orientação Vocacional Ocupacional 25

tências dizem respeito ao uso de técnicas de- A carreira depende, então, das especifici-
finidas que, embora não tenham sido criadas dades do indivíduo e diz respeito às capacida-
pelo indivíduo, são por ele usadas e podem des profissionais, à sua formação sistemática
por ele ser adaptadas às novas situações. A e socialmente controlada. A competência se
noção de competência está associada à exe- define pelo posto de trabalho e encontra-se
cução de tarefas complexas, organizadas, que também e, sobretudo, nos comportamentos e
exigem uma atividade intelectual importante. nas atitudes que têm por característica funda-
Tarefas são realizadas por especialistas. mental antecipar-se aos problemas, e não ape-
nas solucioná-los (Zarifian, 1995).
A noção de competência, a exemplo da
noção de qualificação, emerge em um mo- A pergunta que fica é: quando os empre-
mento de crise econômica o qual causa pro- sários pedem competência, estão preocupa-
fundas transformações no aparelho de pro- dos em fazer frente às mudanças já estabeleci-
dução e nas políticas de mão de obra. Alguns das no mundo do trabalho, ou precisam dela
autores sugerem que haveria uma correlação para produzir as mudanças que desejam?
entre o desenvolvimento da informática e o
surgimento de novas competências. Isso cor- A Orientação Profissional busca, nesse
responderia a um determinismo tecnológico. contexto, acompanhar essas mudanças, pois
Dadoy (1990) questiona tal aspecto tecnológi- elas atingem de modo violento o trabalhador,
co como único fator, pois a competência tem criando a necessidade de desenvolver e en-
sido exigida também em setores nos quais a contrar novos modelos e novas estratégias os
informática está ausente. quais se articulem e auxiliem o indivíduo a re-
constituir seu vínculo com o trabalho, preven-
Com o fim do fordismo-taylorismo, ocor- do as desestabilizações do sistema e atuando
re uma desestabilização do sistema de produ- como suporte para os eventuais momentos de
ção, o que tem levado a um grande número de crise.
disfunções. As dificuldades em reestabilizar
o sistema levam as organizações a interessa- PANORAMA ATUAL DA ORIENTAÇÃO
rem-se pela formação de pessoal (aumento da PROFISSIONAL NO BRASIL
procura pela área de Treinamento e Desenvol-
vimento) e pela designação de novas compe- Devemos apontar que no Brasil ocorre
tências (surgimento de conceitos como Gestão um movimento diferente do de outros países,
por Competências). Assim, as demandas das nos quais se concebe a Orientação Profissional
empresas por competências estariam menos principalmente relacionada à orientação esco-
ligadas às novas tecnologias e mais ligadas às lar. Levantamos a hipótese de que isso ocorreu
novas necessidades da produção. em função da falta de políticas públicas em re-
lação à questão da Orientação Profissional e
As mudanças ocorridas no mundo do em função da extrema cisão ocorrida entre a
trabalho variam conforme com os setores e as área de Orientação Educacional e Orientação
empresas estudadas, mas existem pontos em Profissional, fazendo com que o espaço desta
comum: aumento das exigências dos níveis última ficasse extremamente restrito à escola e
de conhecimento, a descompartimentação das com que apenas recentemente se abrisse den-
“especializações profissionais”, intelectualiza- tro dela um espaço de reflexão para a questão
ção do trabalho, tarefas mais complexas, poli- da escolha profissional.
valência e ampliação da autonomia. Em outras
palavras, trata-se menos de um conhecimento Observamos que os espaços educacionais
intrinsecamente novo do que de uma descom- que mais aderiram à Orientação Educacional
partimentação dos saberes. foram as escolas de ensino profissionalizante,
como o SENAI e o SENAC, os quais também
Dadoy (1990) também aponta que o sis- mantinham trabalhos de Orientação Profissio-
tema ainda está desestabilizado e que nossas nal – inclusive iniciativas como a rede de cur-
observações são deste momento de transição, sos vocacionais do SENAI, que, de 1945 a 1958,
advertindo: qual será, então, o lugar do traba- ofereceu ensino vocacional, ou seja, um espaço
lhador no sistema de produção quando este se para descoberta e desenvolvimento dos poten-
reestabilizar?

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26 Levenfus, Soares & Cols.

ciais de cada um para futuras escolha e inser- dos profissionais e que, em sua maioria, esta-
ção profissionais mais plenas. vam inseridos em universidades, com dupla
função – tanto de atendimento à comunidade
Em 1961, é promulgada a LDB (Lei de quanto o de treinamento de futuros profissio-
Diretrizes e Bases da Educação), que institui a nais na área, visando a pesquisas e à produção
Orientação Educacional (OE) e a então deno- de conhecimento em Orientação Profissional.
minada Orientação Vocacional (OV) no ensino
médio e especifica a necessidade de formação De certo modo, esses serviços têm sido
do profissional, possibilitando a ascensão do um ponto de referência para os próprios pro-
ensino privado médio e do início de trabalhos fissionais e vêm contribuindo efetivamente
de OV em escolas de ensino não profissionali- para a formação de orientadores profissionais
zante ou técnico. há quase 40 anos.

O orientador educacional poderia ser Estando ligado ao ensino, à pesquisa e ao
um profissional das áreas de Pedagogia, Psi- atendimento à comunidade, o objetivo maior
cologia, Filosofia ou Ciências Sociais. desses Serviços é o desenvolvimento de moda-
lidades de atuação, buscando atender a uma
Inspirados nos trabalhos do SENAI população não só no final do ensino médio,
são criados e instalados, no início da década mas também a pessoas em crise em qualquer
de 1960, os Ginásios Vocacionais no sistema momento da vida profissional. Assim sendo,
oficial de educação em São Paulo, os quais no Serviço de Orientação Profissional da USP,
tinham como função um acompanhamento em São Paulo, por exemplo, há atendimento
individualizado e coletivo dos alunos, visan- às 8a séries, a todas as séries do ensino médio,
do a um melhor preparo para a realidade do reescolha de cursos universitários, orientação
mundo do trabalho (Pimentel e Sigrist, 1974). de carreira, orientação para pessoas com defi-
ciência, entre outros.
Vale salientar que em 1970 é criado o Ser-
viço de Orientação Profissional da USP, coor- Além disso, o SOP assessora outras insti-
denado por Maria Margarida Carvalho, que tuições e profissionais, entre elas, o Curso Pré-
já fazia novas pesquisas e desenvolvia novos vestibular do Instituto de Psicologia da USP
métodos, partindo do pressuposto de que os (IPUSP), bem como outros cursinhos sem fins
testes psicológicos e a psicometria eram bons lucrativos, além de instituições como a Fun-
instrumentos diagnósticos, mas não atendiam dação CASA (antiga FEBEM) – atendendo e
à complexidade de um processo de OP. Dessa elaborando junto aos profissionais uma assis-
forma, buscou-se auxílio nas teorias de Kurt tência que possa colaborar no trabalho não
Lewin sobre dinâmica de grupo e no counseling só com populações que buscam a USP, como
de Carl Rogers (Carvalho, 1995), desenvolven- também com outras que dificilmente chega-
do-se a orientação profissional em grupo, que riam a esse Serviço da universidade.
até hoje é uma técnica diferenciada no serviço.
Portanto, o Serviço de Orientação Profis-
A área da Psicologia, em sua maior parte, sional é considerado como um espaço aberto
trabalha a problemática envolvida na escolha à comunidade, elaborando modelos que pos-
profissional basicamente nos consultórios ou sam fazer frente às problemáticas atuais da
em trabalhos pontuais em escolas, de forma área de Orientação Profissional. Com o tem-
paralela à estrutura educacional, em geral po, tivemos de separar e instituir novos seto-
sendo realizada por psicólogos escolares con- res, fundando:
tratados. Isso transforma a OP não em uma
meta que a escola tem a fim de ajudar todos Î LABOR – Laboratório de Estudos sobre
os alunos, mas em uma tarefa de ajudar ape- Trabalho e Orientação Profissional
nas aqueles que têm problemas de escolha e
de tomada de decisões. Congrega professores e alunos de pós-
graduação do IPUSP e de outras faculdades,
No Brasil, as questões referentes à Orien- tendo sido criado para possibilitar a reflexão
tação Profissional são diagnosticadas e pes- e a troca de experiências no campo da Orien-
quisadas mais frequentemente nos Serviços de tação Profissional, visivelmente carente de
Orientação Profissional (SOPs) que possuíam,
desde seu início, objetivos ligados à formação

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Orientação Vocacional Ocupacional 27

pesquisa e publicações em nosso país. Nesse Tendo em vista as mudanças observa-
sentido, destaca-se pela amplitude de pesqui- das no mercado de trabalho, a Orientação
sas que vem desenvolvendo (mudanças do Profissional se vê frente a novos espaços de
mundo do trabalho e impacto sobre os vários intervenção no sentido de atender às novas
níveis sociais, desenvolvimento de modelos demandas e atuar como suporte para os indi-
de atendimento para escolas públicas, adul- víduos em diversos momentos de crise.
tos, deficientes auditivos e visuais, psicóticos,
internos da Fundação CASA e outros) e reali- NOVOS ESPAÇOS DE INTERVENÇÃO
za várias parcerias, como, por exemplo, com a
Cidade do Conhecimento – USP, por meio de Aqui destacaremos alguns exemplos dos
cursos a distância para professores. novos campos da Orientação Profissional.

Atualmente, o LABOR vem estudando o Escolarização como garantia de inclusão
desenvolvimento de um projeto para implan- no mundo de trabalho
tação de políticas públicas na área, tendo sido
convidado a assessorar a Secretaria Estadual A Orientação Profissional nesses novos
de Educação. Além disso, também tem com espaços necessita desenvolver modelos de
prioridade o estudo da utilização da internet intervenção conforme cada problemática. En-
como veículo para a Orientação e informação tretanto, a consciência cada vez maior de que
Profissional. a inserção no mercado de trabalho depende
do desenvolvimento educacional parece ser
Î NOP – Núcleo de Orientação Profissional verdadeira para determinada camada da
para os alunos da USP população, mas não para outra, pois os tra-
balhadores com maior escolaridade são jus-
O NOP desenvolveu-se aos poucos como tamente os mais atingidos pelo desemprego
área de pesquisa, acompanhando as novas (Pochmann, 2001).
problemáticas da área de OP. Implantou-se,
assim, há cerca de três anos, um atendimento Orientação Profissional na Grade
específico para os alunos da USP que estavam Curricular
em crise ou em processo de desistência do cur-
so ou, ainda, em busca de uma mudança de O sistema de ensino brasileiro realizou
curso e de orientação para a futura carreira. algumas reformulações para acompanhar as
mudanças ocorridas no mundo do trabalho.
Î NAP – Núcleo de Apoio ao Estudante de A Lei de Diretrizes e Bases de 1997 determi-
Psicologia nou que 25% do currículo do ensino médio
deve ser flexível, de modo a incluir disciplinas
O Núcleo de Apoio ao Estudante de Psi- que sejam adequadas às necessidades da co-
cologia configura-se como um espaço ao qual munidade. Surge, então, um espaço para que
o aluno pode recorrer quando julgar necessá- a Orientação Profissional possa se integrar à
rio, tanto por questões relacionadas ao curso grade curricular, tornando formal a responsa-
quanto ao próprio desenvolvimento profis- bilidade da escola em lidar com a questão.
sional. Esse núcleo busca auxiliar os alunos,
principalmente os do 5o ano, no que se refere Orientação Profissional em Cursinhos
ao desenvolvimento de seus projetos profis- para a População de Baixa Renda
sionais, passando inclusive pela informação
sobre estágios e oportunidades de colocação Organizados pela própria comunidade,
profissional. O trabalho visa a formação de por universidades e por ONGs, esses cursi-
um Setor de Estágios, o qual possa não ape- nhos visam a atuar de forma mais ativa sobre
nas organizar e buscar estágios para os alunos as exigências educacionais, as quais excluíram
do IPUSP, mas também auxiliá-los na escolha os aluno de baixa renda do sistema educacio-
baseados nos projetos profissionais futuros. nal superior, preparando a população carente

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28 Levenfus, Soares & Cols.

para se inserir no sistema universitário e obter trabalho e mais precisamente questionam o
sucesso nos exames vestibulares. vínculo com sua profissão.

Nesse objetivo de dar suporte à inclusão, No primeiro caso, há a necessidade de um
abre-se um espaço de Orientação Profissional Planejamento de Carreira; no segundo, os ter-
longitudinal, no qual é enfocado tanto a ques- mos “Orientação Profissional” ou “de Carreira”
tão da escolha como o apoio durante as crises são mais adequados.
e as inseguranças na manutenção do projeto,
como plantão de informação profissional, pla- Em geral, encontramos em São Paulo um
nejamento de estudos, etc. número significativo de Consultorias que se
dedicam ao Planejamento de Carreira para os
Criação de Centros de Carreira nas cargos executivos no mundo corporativo. En-
Universidades tretanto, outros tipos de trabalhadores – como
os profissionais liberais – apresentam grande
Recentemente, configuraram-se como dificuldade em encontrar alguma forma de
um problema social os altos índices de desis- atendimento.
tência universitária, servindo como indicado-
res da problemática vivida pelo universitário Quanto ao trabalho de Orientação de
devido à falta de clareza quanto ao projeto Carreira, este, em geral, restringe-se a alguns
profissional futuro. Esses centros visam a poucos orientadores, destacando-se as uni-
amparar os universitários durante o curso, versidades e algumas iniciativas nas próprias
assim como ajudá-los a elaborar um projeto empresas.
profissional, minimizando, com isso, o pre-
juízo que a própria universidade tem com a Sindicatos e Órgãos de Classe
desistência.
Os Sindicatos e Órgãos de Classe vêm
Orientação e Planejamento de Carreira pouco a pouco mudando seus eixos de ação na
negociação salarial e na obtenção de garantias
Essas duas expressões são normalmente para a qualificação de seus associados por meio
utilizadas como sinônimos por vários autores de cursos, de palestras e de outros espaços ain-
(Vodracek e Kawasaki, 1995; Dias, 2000). Se- da pouco explorados pelos orientadores.
gundo Holland (1988), “orientar” se refere a
determinar, adaptar ou ajustar uma posição; Desemprego e Grupos de Reflexão de
dirigir, guiar, reconhecer ou examinar o lu- Inclusão Social
gar, a posição em que se encontra, para poder
guiar-se. Enquanto “planejar” refere-se a fa- Junto à Secretaria do Trabalho, criaram-
zer planos, projetar, traçar. Podemos entender se espaços importantes para o desenvolvi-
que os vocábulos remetem a dois momentos mento de modelos de atendimento às popu-
distintos. “Orientar” contém a ideia de deso- lações desempregadas, que estão à margem
rientação, de alguém que necessita de parâ- do processo produtivo – mesmo que esses
metros para se guiar; e “planejar” implica um avanços ainda se restrinjam, em grande parte,
conhecimento das variáveis para desenvolver a pesquisas acadêmicas.
um projeto (portanto, não contém a ideia de
desorientação, mas sim a de traçar planos). Políticas Públicas

É importante diferenciar e ter parâme- Visam basicamente à preparação de par-
tros para distinguir aqueles que precisam ou celas da população para ingressar no mercado
desejam traçar algumas metas em sua carrei- ou voltar a ele e ao atendimento de desem-
ra (p. ex., troca de emprego), de pessoas que pregados cujas funções são extintas, os quais,
voluntária (p. ex., crescimento pessoal, desin- então, passarão por um centro de treinamento
teresse pelo atual trabalho) ou involuntaria- para novas funções.
mente (demissão, acidente de trabalho, etc.)
se sentem desorientados frente às questões de Além disso, destacam-se os programas
de estágio oferecidos aos alunos do ensino
médio, dando a eles a oportunidade de desen-

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Orientação Vocacional Ocupacional 29

volver as competências necessárias para sua indivíduo é o único responsável por estar ou
inserção no mundo do trabalho. não trabalhando, retirando das empresas, e
mesmo das ações políticas, a responsabilida-
NOVOS ESPAÇOS DE REFLEXÃO de pelo atual estado de precarização da mão
de obra.
Destaca-se a iniciativa do Fórum de Polí-
ticas Públicas em Orientação Profissional, o CONSIDERAÇÕES FINAIS
qual visa a congregar profissionais da área de
Orientação Profissional na elaboração de pro- Como orientadores profissionais, pre-
postas e stratégias com o objetivo de sensibi- cisamos ter consciência da atuação da crise
lizar os governantes em relação à necessidade atual, seja porque o trabalho – ou a noção de
de desenvolvimento e da implantação do pro- trabalho – está se modificando, seja porque
jetos de Orientação Profissional junto às mais o valor do trabalho hoje não é o mesmo que
diferentes populações. antes. Hoje em dia, estamos frente a uma sé-
rie de ideologias paradoxais, que nos mergu-
A criação de um espaço no qual os pro- lham em contradições. Na área da Orientação
fissionais possam discutir seus projetos pas- Profissional fica explícita a influência do psi-
sados, presentes e futuros, e resgatar a pos- cológico no social e o contrário disso.
sibilidade de vinculação social tem sido uma
experiência de importância fundamental. Dessa forma, cada vez mais nos confron-
tamos com as encruzilhadas profissionais e
NOVOS ESPAÇOS POSSÍVEIS somos obrigados a lidar com elas. Precisamos
conhecer (e até tentar prever) as condições fu-
Programas de TV: Dois canais pagos já turas da profissão escolhida e ter em mente a
apresentam programas semanais de informa- realidade da educação e da economia do Brasil
ção profissional, sendo que, em um deles, car- – o que parece ser utópico, pois as condições de
reiras de todos os níveis são apresentadas. trabalho são díspares em nosso país, tanto em
nível técnico quanto educacional.
Orientação Profissional pela internet:
Apesar do interesse por essa possibilidade, o Nesse momento, em que o aspecto social
que encontramos nos sites brasileiros são basi- passa por uma transformação vertiginosa,
camente informações sobre profissões e testes a apreensão da realidade torna-se confusa e
vocacionais. A Pontifícia Universidade Católi- difusa. Nosso trabalho, muitas vezes, começa
ca (PUCSP) de São Paulo vem desenvolvendo por clarificar, nessa confusão, o que é realmen-
uma pesquisa para criar um modelo de aten- te importante para o indivíduo que escolhe.
dimento não presencial, por meio da internet
(os resultados dessa iniciativa ainda estão em Isso faz com que o campo de Orientação
elaboração e, por essa razão, ainda não foram Profissional comece a se ampliar e com que no-
divulgados). vas situações se delineiem. Tem crescido o in-
teresse por essa área e ela passou a despertar a
Publicações de autoajuda: Esse é um atenção de vários setores. Existem diversos ins-
mercado em franca expansão. Em linhas ge- titutos de orientação especializados que visam
rais, esses livros têm como ponto de partida a a fazer frente a essas novas situações, oferecen-
ideia de que é necessário tomar contato com do orientação de carreira e atendimento tanto a
a própria história profissional para poder profissionais de alto nível quanto àqueles que
mudar o rumo dela. É uma abordagem basi- foram dispensados e precisam ser recolocados
camente cognitiva, partindo do princípio de ou, ainda, àqueles que se aposentaram.
que, se entendermos nosso modo de funcio-
namento, poderemos modificá-lo de forma A Orientação Profissional é hoje um cam-
racional, por meio da aprendizagem de novos po que transcende em muito as teorias e as
modelos de atuação. técnicas de cada orientador, pois nela conver-
gem todos os conflitos de ordem social, insti-
Esses novos modelos invariavelmente tucional e psicológica que marcam a realidade
remetem à figura do prestador de serviços dos jovens e dos trabalhadores nesse momento
autônomo. O princípio fundamental é que o histórico.

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30 Levenfus, Soares & Cols.

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2

Escola e escolha profissional

um olhar sobre a construção de projetos profissionais

Maria da Conceição Coropos Uvaldo e Fabiano Fonseca da Silva

O homem é, antes de mais nada, um da Estrada de Ferro Sorocabana. Já em 1931,
projeto; um projeto que se vive subjeti- Lourenço Filho fundou o primeiro Serviço Pú-
vamente. (...) O homem não é outra coisa blico de Orientação Educacional e Profissional
senão aquilo que se faz. no Colégio Caetano de Campos.

Jean Paul Sartre Em 1942, a profissão de Orientador Edu-
cacional é regulamentada pela Lei Orgânica do
Previsibilidade é cada vez menos uma re- Ensino, tendo como tarefas o acompanhamen-
alidade do mundo do trabalho. Nesse cenário to individualizado dos alunos e a assessoria
de transição, exige-se das pessoas adaptabili- na escolha ocupacional, sempre visando à in-
dade, multifuncionalidade; uma luta diária tegração entre escola, família e comunidade.
pela sobrevivência. A educação encontra-se no
centro das atenções nesse contexto, apresen- Assim, o ensino profissionalizante foi
tada como a solução para a formação desses o berço da Orientação Profissional no Brasil.
“novos” profissionais, para o desenvolvimen- Nunca é demais lembrar que a origem das
to econômico e para a inserção no mercado escolas profissionalizantes ou técnicas está
de trabalho. Apesar disso, a Orientação Pro- intimamente relacionada à libertação dos es-
fissional ainda está muito longe do cotidiano cravos e à necessidade de dar formação aos
escolar. Por quê? Razões históricas e a falta de órfãos (Plantamura, 1993).
modelos talvez nos guiem ao entendimento e
à busca de alternativas a essa questão tão im- A ideia de educação para todos, contida
portante. na Lei Orgânica de 1942 – “até onde permitir
suas aptidões naturais, independentemente de
BREVE HISTÓRICO DA ORIENTAÇÃO razões econômicas e sociais” (Garcia e Maia,
PROFISSIONAL NAS ESCOLAS 1990, p.13) – vai de encontro à ideologia das
BRASILEIRAS aptidões, sintetizada no sucesso dependente
de esforço pessoal, encontrando nas teorias
Segundo Santos (1973), a Orientação Pro- traço-fator o sustentáculo para sua efetivação.
fissional surge no Brasil no início do século Os instrumentos dos Orientadores Educacio-
XX como um Serviço do Liceu de Artes e Ofí- nais para a tarefa de Orientação Profissional
cios em São Paulo, para selecionar e orientar eram as baterias de sondagem de aptidões e
jovens para o curso de mecânico, coordenado habilidades, testes de inteligência, inventários
por Roberto Mange, em 1924, que posterior- de interesses e informações ocupacionais; ou
mente, em 1930, dá origem ao Serviço de Se- seja, o chamado modelo clássico de Orienta-
leção, Orientação e Formação de Aprendizes ção, os “Testes Vocacionais”.

Apesar da legislação, não havia profis-
sionais capacitados e preparados para o exer-

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32 Levenfus, Soares & Cols.

cício da profissão. O primeiro curso superior Aparentemente dois caminhos distintos
em Orientação Educacional surge em 1945, são trilhados, o da Psicologia e o da Pedago-
mas não teve procura, por ainda não estar gia, ambos em busca de outros referenciais
consolidada a função nas escolas. para o trabalho.

Em 1947, é inaugurado o Instituto de Se- A Psicologia cuida da problemática da
leção e Orientação Profissional (ISOP), tendo escolha profissional, basicamente em consul-
como responsável técnico o psiquiatra e psi- tórios particulares e instituições, valendo-se
cólogo espanhol Mira Y Lopes. das teorias psicológicas, sobretudo a estra-
tégia clínica desenvolvida por Bohoslavsky
Em 1961, é promulgada a LDB (Lei de Di- (1981).
retrizes e Bases da Educação), a qual institui a
figura do Orientador Educacional nas escolas Enquanto os educadores buscam alter-
de ensino médio não técnicas e explicitamen- nativas, destaca-se o trabalho de Celso Ferreti
te concede a ele a incumbência do trabalho e colaboradores no CENAFOR, concretizan-
de Orientação Profissional. Naquela época, do-se no Parecer no 75 de 1976, que inclui a
podiam atuar como orientadores educacio- disciplina de PIP (Programa de Informação
nais pessoas com as mais diversas formações. Profissional) nos currículos do ensino médio
Apesar de a bateria de testes ser o instrumen- nas escolas estaduais de São Paulo.
to consolidado do trabalho, começam a surgir
ideias diferentes sobre como entender e rea- O PIP fez parte do currículo de 1977 a 1983
lizar a Orientação Profissional. Destacamos com o objetivo principal de estabelecer um vín-
Santos (1973) e, mais tarde, Carvalho (1995). culo entre a população escolar e o mercado de
trabalho, sob coordenação da Orientação Edu-
A regulamentação da profissão de psi- cacional, mas realizada pelos próprios profes-
cólogo, em 1962, coloca os testes psicológicos sores, como já propunha Santos (1973) e Gibson
como de uso exclusivo desse profissional, ex- (1975). A ideia básica era a de que o professor
ceto os Inventários de Interesses, que até hoje é o agente institucional dentro de uma escola,
podem ser comprados e aplicados por peda- é quem mais participa do cotidiano do aluno;
gogos. Acreditamos que seja esse o motivo de é, portanto, figura privilegiada para a tarefa de
os Inventários virarem, no Brasil, sinônimo de Orientação Profissional.
“Teste Vocacional”.
O objetivo do PIP era criar condições
Em 1968, a profissão de Orientador para a conscientização sobre o processo e so-
Educacional é prevista em lei, vindo a ser bre o ato de escolha, sobre a realidade socio-
regulamentada em 1973, transformando a econômica, sobre o lugar do indivíduo nessa
Orientação Educacional em uma habilitação realidade; ou seja, uma reflexão muito além
da Pedagogia. O Decreto no 72846, que regu- da escolha. O conteúdo programático tinha
lamenta a profissão, apresenta no Artigo 8o as como pontos principais (Baptista,1984):
atribuições privativas do Orientador Educacio-
nal, relacionadas à Orientação Profissional: 1. Problema da escolha.
2. Informação profissional.
1. Coordenar a Orientação Profissional 3. Mundo do trabalho.
do educando, incorporando-o ao pro- 4. Relação entre educação e trabalho.
cesso educativo global. 5. Oportunidades educacionais relacio-

2. Coordenar o processo de sondagem de nadas ao ensino médio.
interesses, aptidões e habilidades do 6. Plano para escolha profissional.
educando.
Baptista (1984) conclui que o PIP não ob-
3. Coordenar o processo de informação teve eficácia porque partiu de uma imposição
educacional e profissional com vistas à da legislação, e não de uma demanda da esco-
Orientação Vocacional. la, o que gerou pouco envolvimento por parte
de alunos e professores.
Nesse ponto, temos um “cisma”: os psi-
cólogos detentores de ferramentas e os peda- A Orientação Profissional na escola pa-
gogos coordenadores do processo. rece ser uma imposição de lei, nunca uma

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Orientação Vocacional Ocupacional 33

realidade ou um desejo manifesto. O mundo técnico – apesar de cada vez mais vermos o es-
do trabalho parece não ser o mundo da esco- vaziamento deste em relação à busca de cursos
la. Pimenta (1984) tenta resolver essa equação superiores – e abre novamente a possibilidade
afirmando que a Orientação Profissional, nas de a Orientação Profissional integrar a grade
suas mais variadas tentativas, não conseguiu curricular, compondo os 25% de disciplinas
cumprir seu objetivo de integrar plenamente escolhidas pela escola para a formação de seus
os vários aspectos envolvidos na escolha, o alunos.
que se daria pela síntese de múltiplas deter-
minações. Novos trabalhos de Orientação Profis-
sional nascem da criatividade e da disponibi-
O que temos na escola a partir dessa lidade de alguns professores e orientadores,
época são ações voltadas à informação, cujo mas de forma isolada e assistemática, sendo
evento mais comum é a feira ou o fórum de realizados nessa escola em mudança, em um
profissões, quando profissionais vão à escola e mundo que passa constantemente por trans-
apresentam suas profissões. Apesar de impor- formações.
tante, certamente não resolve as questões de
grande parte dos alunos, além de a qualidade Mesmo assim, a escola resiste em reco-
da informação oferecida ser questionável. nhecer seu papel nesse processo e, o que é
ainda mais complexo, desconhece, ou pouco
O mundo da Orientação Profissional no percebe, sua influência nos projetos profissio-
Brasil é a esfera dos psicólogos que acabam nais de seus alunos.
prestando serviços em algumas escolas, qua-
se sempre privadas. O modelo desenvolvido DA ESCOLHA À NOÇÃO DE PROJETO
para o consultório é transferido para a escola.
Sendo assim, deve-se ter consciência de que Na Europa, a Orientação Profissional no
grande parte deles, como já apontava Ferretti esforço de compreender e incorporar essa nova
(1988), dedicava-se apenas a trabalhar os com- configuração do mundo do trabalho apoia-se
ponentes psicológicos da escolha; e, mais do na noção de projeto, nas práticas voltadas aos
que isso, um trabalho que visa apenas à es- adolescentes, distinguindo-se da de escolha pro-
colha de um curso superior, sendo, portanto, fissional. Para alguns autores (Guichard,1995;
restrito a uma classe social. Fonseca, 1994), escolha refere-se a um momen-
to pontual, produzida a partir do conhecimen-
Outro aspecto que merece destaque é o to das próprias características e da realidade
fato de que a Orientação Profissional é sem- do mundo do trabalho: da articulação entre in-
pre oferecida como atividade extracurricular, formações ocorreria, então, a escolha profissio-
geralmente no período oposto ao de aulas, nal. Guichard (1995) acredita que essas opções
concorrendo com outras atividades, tais como: dos adolescentes se baseiam normalmente em
campeonato de futebol, excursões, aulas de re- aspirações gerais, mais do que em projetos de-
forço. Assim, a Orientação Profissional é enten- liberados. Para ele, o projeto se configura como
dida como a resolução de um problema, e não um conjunto de representações do que se con-
como uma ação educativa, ocupando, em ge- sidera mais desejável, não se reduzindo apenas
ral, um espaço de acessório no contexto esco- a um desejo ou a intenções vagas. Comporta
lar, refletindo a pouca importância que a escola uma tripla reflexão: sobre a situação presente,
dá a essa questão (Ramos e Lima, 1986). Como sobre o futuro desejado e sobre os meios de
consequência, Lehman (2005) aponta, em seu alcançá-lo, levando à criação de estratégias de
estudo sobre evasão universitária, que 76% dos ação.
alunos que cogitam abandonar seus cursos não
refletiram sobre a escolha e mesmo não procu- O conceito de projeto refere-se a um ho-
raram informações sobre o curso escolhido. mem que não está completamente determinado
pelas circunstâncias, por seu passado e por
A escola não pode mais negligenciar o seu presente. Pressupõe que o homem possa
mundo do trabalho e, pouco a pouco, assimi- perceber, analisar e compreender sua situação
la a ideologia e o discurso das empresas e do passada e presente e, a partir dessa leitura,
capital. A nova LDB (1996) apresenta muitas criar um projeto como intenção futura (Uval-
dessas ideias em seu bojo. Reorganiza o ensino

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34 Levenfus, Soares & Cols.

do, 2002). Para Bohoslavsky (1981), qualquer focando o vestibular e os processos seleti-
escolha implica um projeto, e um projeto nada vos.
mais é do que uma estratégia no tempo; con-
tudo, o trabalho de Orientação Profissional, Crites (1974) já havia afirmado que,
em geral, limita-se ao momento da escolha. depois da família, a escola é o agente mais
importante da socialização e “vocacionali-
O projeto, por sua vez, vai além: é uma zação”. Idealmente poderíamos esperar que
ação que deve ter em seu cerne o questiona- o papel da escola devesse ser o de favorecer
mento dos meios utilizados e mesmo prever as escolhas autônomas, não reforçando este-
que ocorram resistências, dificuldades ou im- reótipos ou replicando valores. No entanto,
possibilidades em sua realização (Boutinet, essa neutralidade seria possível? Ora, se dese-
2002). Projeto corresponde a uma apropria- nhamos o ambiente escolar como reprodutor
ção em que, a partir de uma confrontação eu- dos valores sociais, como poderia manter-se
exterior, o indivíduo seleciona determinados imparcial na escolha profissional? Mediante a
objetivos, preferíveis a outros. Fica implícito essas interrogações, o que teriam a nos dizer
que, seja qual for o projeto, há sempre uma as teorias e os pesquisadores da área?
elaboração pessoal, na qual o sujeito toma
plena consciência do significado que a opção Em geral, a ênfase recai sobre o grupo fa-
particular comporta no presente e no futuro, miliar (Roe, 1976), sobre fatores psicodinâmi-
e que, para sua concretização, é necessário o cos (Bohoslavsky, 1981) ou fatores sociais am-
cumprimento de certas condições, de certas plos (Ferretti, 1988; Bock, 2002). Entretanto,
etapas, de um plano de ação (Fonseca, 1994, para Guichard (1995), a escola desempenha
p. 54). Nesse sentido, no desenvolvimento do hoje um papel primordial na vida das pessoas
projeto estão envolvidos componentes confli- – mais amplo do que em períodos históricos
tivos e afetivos em interação constante. O que anteriores –, auxiliado pela divisão crescente
a noção de projeto traz com maior clareza é a do trabalho e pela ramificação das possibili-
proposta de ação, de como essa solução pode dades de formação. Portanto, para esse autor,
ser implementada (Ribeiro, 2005). a pesquisa de motivações na determinação de
projetos profissionais deve receber novos es-
A INFLUÊNCIA DA ESCOLA NA tudos, nos quais se considere o papel da esco-
CONSTRUÇÃO DE PROJETOS la frente aos alunos.
PROFISSIONAIS
UM OLHAR SOBRE A ESCOLA
Fonseca (1994) ressalta que a escola está BRASILEIRA
ocupando um novo lugar na vida dos alunos,
com atribuições que antes eram da família. A Inspirado pelos escritos de Guichard
necessidade de melhoria do nível de forma- (1995, 2001), que confere às escolas de ensino
ção de mão de obra e o desejo de promoção médio o papel de delimitadoras da trajetória
social – motivado nas famílias pelo crescimen- profissional de seus alunos, e a partir do seu
to econômico e, sobretudo, pela necessidade corpo de valores e de sua postura, foi desen-
de escolarização das aprendizagens profissio- volvida uma pesquisa em duas escolas, uma
nais – refletiram-se em um recuo da influên- pública e outra privada, da cidade de São
cia familiar para o campo da vida privada e Paulo (Silva, 2003). Em ambas realizaram-se
em um aumento do peso da escola em tudo grupos focais com professores, entrevistas
(ou quase tudo) o que diz respeito à educação com orientadores educacionais e aplicação
para a vida pública e à aprendizagem da vida de questionário aos alunos do último ano
em sociedade. (Fonseca, 1994, p.12) do ensino médio. Três aspectos foram con-
siderados no estudo: escolarização, imagens
Assim, a escola é chamada a dar conta de trabalho e gêneros, todos fundamentais
da transição escola-trabalho, apesar de ainda para a construção dos projetos profissionais
assumir um papel passivo, apenas ocupan- e, como apontam Guichard (1995) e Freire
do espaço na mudança de ciclos formativos, (1990), centrais na definição das carreiras dos
principalmente ensino médio-universidade, adolescentes.

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Orientação Vocacional Ocupacional 35

A escola é por excelência o lugar da Na escola pública, a experiência educa-
constituição dos projetos profissionais de cional reforça no aluno a construção de uma
crianças e adolescentes incluídos no sistema imagem de fracasso, desprovida de compe-
educacional (Guichard, 1995, 2001; Fonseca, tências e qualidades (Guichard, 1995, 2001),
1994; Vondracek, Skorikov, 1997). Nessa pes- também colocando a perder a possibilidade
quisa confirmou-se essa premissa, mas com de atuar sobre as dimensões simbólicas das
diferenças importantes entre as escolas pú- permanentes reconstrução e legitimação das
blica e privada. desigualdades sociais.

A escola privada estudada reforçava a A participação dos alunos de escola
ideia do ingresso em um curso superior ou pública no sistema educacional não garante
faculdade tradicional, com respaldo de pro- acesso às melhores oportunidades de forma-
fessores, de orientadores e, provavelmente, ção após o ensino médio, tampouco a lugares
da maior parte das famílias que escolheu essa diferenciados no mercado de trabalho. Bour-
escola. dieu e Champagne (1997) chamam esses alu-
nos de “excluídos do interior”, pessoas que
A visão de trabalho dos alunos da escola não abandonam a escola, mas estudam em
privada é distorcida, e os professores interfe- escolas desqualificadas, obtendo diplomas
rem na construção dessa imagem ao servirem que têm peso menor no mercado de trabalho,
de modelo, como afirmam Paa e McWhirter menos capital cultural incorporado.
(2000), reforçando uma imagem estereotipada
de carreira. Nesse processo de desfiliação, a experiên-
cia de trabalho dos alunos da escola pública é
A questão de gênero é marcante, mas tra- invisível para seu corpo de professores, pois
tada com desconforto ou simplesmente omiti- não é valorizada como parte do sistema for-
da como preocupação. Os professores das dis- mal de educação. Para os professores e para
ciplinas mais valorizadas são homens, assim a coordenadora, as pessoas que ascendem a
como os coordenadores e donos do colégio. uma identidade ocupacional são aquelas que
No entanto, as alunas afirmam que não há di- adquirem o aprendizado a partir da formação
ferença no trabalho para homens e mulheres. vinculada à educação formal, como cursos
técnicos ou superiores.
Os alunos da escola pública aceitam
os tradicionais papéis de gênero sem tantos A escola seria a última alternativa den-
questionamentos, ao contrário dos alunos da tro de uma comunidade empobrecida, onde
escola privada, o que confirmou as observa- as meninas engravidam cedo e os meninos
ções de Paiva (2000) sobre os alunos de escola são expostos a situações de violência, inclusi-
pública noturna. O ambiente da escola pública ve com alguns participando do tráfico e das
é “feminizado”, com mais professoras e uma ações de roubo. A função que resta à escola
perspectiva que valoriza mais o cuidado dos seria, segundo os professores, resgatar uma
alunos do que a preparação para a continui- suposta “autoestima”, ocupando o papel de
dade de sua vida escolar. “cuidadora”.

Em ambas as escolas, mas em graus di- Esse estudo confirma Campos Silva
ferentes, se reforça (e não se desconstrói) a (1996), que considera que as escolhas se inscre-
hierarquização, marcada pelos gêneros, dos vem em campos diferentes para os grupos so-
postos de trabalho. A escola perde a oportuni- ciais desfiliados (em que o projeto profissional
dade de diminuir as iniquidades sociais entre estaria baseado na necessidade de gerar renda
homens e mulheres. e se manter) e nos grupos privilegiados econo-
micamente (em que seria possível incorporar à
Os alunos e os professores da escola pri- escolha os desejos e os interesses).
vada pesquisada se veem como os eleitos, o
que possibilita o ingresso nas carreiras e nas Os dois grupos têm possibilidades de
universidades públicas valorizadas. Essa per- escolha, mas as teorias tendem a tratar dos
cepção certamente também incorpora valor grupos privilegiados e a expandir suas con-
para a escola, que é reconhecida na comuni- clusões para o grupo de desfiliados, como
dade por aprovar seus alunos na melhores fez Ginzberg, segundo a leitura de Guichard
faculdades.

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36 Levenfus, Soares & Cols.

(1995), em sua proposta de teoria desenvolvi- além de propiciar condições práticas e teóri-
mentista. cas de desenvolver um projeto próprio para
aquela escola, para aquele grupo de alunos,
A literatura coloca a escola ora expro- naquela determinada comunidade. É muito
priando o aluno de uma identidade, ora interessante observar que, em geral, os pro-
abrindo espaço para a construção de um pro- fessores percebem que influenciam seus alu-
jeto particular, apontando uma encruzilhada: nos a gostar ou não de sua disciplina, mas têm
reproduzir valores sociais ou possibilitar a grande dificuldade de perceber que isso tam-
criação de um espaço de autonomia? bém ocorre em relação aos projetos profissio-
nais dos alunos, remetendo necessariamente a
A escola pode ser um espaço de promo- uma autoavaliação de carreira e dos próprios
ção de autonomia e cidadania, desde que re- projetos profissionais.
conheça quais são os fatores que interferem
nos projetos de seus alunos. A escola possui Leão (2006, p. 75) ressalta que somen-
um lugar central nos projetos, reproduzindo, te uma escola aberta e comprometida com a
muitas vezes sem intenção consciente, valores comunidade terá possibilidades de diversi-
e imagens por meio de seu currículo e, princi- ficar as atividades do projeto de Orientação,
palmente, da relação entre professores e equi- enriquecendo o leque de experiências, como
pe educacional com os alunos. voluntariado, visitas e estágios com profissio-
nais escolhidos, explorando os diferentes re-
A questão que permanece é: como criar cursos de formação e informação.
na escola um espaço que permita de fato a
seus alunos e, por que não, à comunidade es- Inclusive, é muito comum a escola dispo-
colar explorar ao máximo suas potencialida- nibilizar muitas atividades que dizem respeito
des, permitindo a construção de projetos pro- à profissão durante a trajetória do aluno, mas
fissionais autônomos e inseridos na história este acaba não as reconhecendo como tal ou
viva de seus grupos de origem? não conseguindo relacioná-las, porque, de fato,
essas iniciativas não constituem um processo
Qual projeto de orientação deveríamos de Orientação Profissional articulado, reduzin-
produzir para auxiliar a escola nesse desafio? do-se a meras atividades, não sendo possível
antecipar, avaliar ou controlar os potenciais
Pelletier e Dumora (1984) consideram efeitos. Assim, um projeto de Orientação Pro-
que, face à instabilidade característica de nos- fissional requer, além de um programa prévio
so tempo, o objetivo da Orientação Profissio- bem-articulado, uma teoria que o embase e dê-
nal é fazer com que o adolescente adquira a lhe sentido.
competência de analisar em cada encruzilhada
profissional suas características, seus trunfos, Nesse sentido, a proposta de Ativação
seus limites, o ambiente, as oportunidades e do Desenvolvimento Vocacional e Pessoal
as dificuldades; construindo projetos com es- (ADVP), proposta por Pelletier e colaborado-
tratégias de curto prazo, fazendo os ajustes res (1982), tem grande aceitação e aplicação.
possíveis e disponíveis.
Esse referencial propõe a instrumentação
Algumas experiências em escolas priva- do aluno, possibilitando-o desenvolver habili-
das (Uvaldo e Silva, 2001) e públicas (Ribeiro, dades que o levarão à construção de um pro-
2001) apontam para o sucesso de um modelo cesso de escolha.
de Orientação Profissional que estende a inter-
venção no tempo, não se limitando apenas aos O processo de ativação consta de quatro
momentos de tomada de decisão, intercalan- momentos: exploração (conhecimento de si e
do atividades em sala de aula com trabalhos do mundo do trabalho); cristalização (ordena-
coletivos e até acesso individual aos alunos, ção do seu modo de ser e de agir); especifica-
processo que pode se estender da educação ção (intersecção dos valores do sujeito com as
infantil ao final do ensino médio. possibilidades do meio e da escolha propria-
mente dita); realização (revisão das etapas an-
Contudo, a escola, como agente na cons- teriores e da escolha).
trução dos projetos profissionais de seus alu-
nos, deve preparar sua equipe educacional de Cada uma dessas tarefas foi dividida
forma a possibilitar o reconhecimento de seus pelos autores em subtarefas, organizadas de
alunos como portadores de competências,

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Orientação Vocacional Ocupacional 37

forma a ir das mais gerais às mais específicas, por meio da atuação do desenvolvimento vo-
seja na própria tarefa, seja no processo geral. cacional, ou seja, da transformação das com-
O método se resume em dois momentos: petências que o sujeito possui e do desenvolvi-
mento das que ele não possui para a realização
1. Propor experiências a serem vivencia- de um projeto de vida profissional, e isso, para
das pelos alunos seguindo o progra- os autores, deve ser incorporado ao currículo
ma. escolar (Ribeiro 2001).

2. Criar condições para que essas experiên- Nessa abordagem, o mais importante
cias sejam compreendidas, integrando- não é proporcionar a aquisição de informa-
as a seu universo simbólico por um ções e conhecimentos, mas proceder ao esta-
processo lógico e psicológico. belecimento de uma relação pessoal, motivan-
do um processo de exploração e investimento
Para os autores, a ADVP pressupõe a in- em que os indivíduos situados face às infor-
ternalização de um modelo de escolha e de or- mações, às experiências e às significações te-
ganização de um projeto (tarefa da realização, nham oportunidade de lhes conferir sentidos
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2001.
VONDRACEK, F.W.; SKORIKOV, V.B. Leisure, school, and work activity and their role in vo-
cational identity development. The Career Development Quarterly, Alexandria, Va., v. 45, n. 4, p.
322-340, 1997.

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3

Principais temas abordados por jovens
vestibulandos centrados na escolha profissional

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

INTRODUÇÃO o faz que revelam sua maturidade vocacional,
seu desenvolvimento da personalidade e sua
Durante o processo de Orientação Voca- integração (Lidz, 1973). É necessário que se
cional, individual ou coletivo, é comum que os considere a trajetória que o jovem vem realizan-
orientandos abordem diversos assuntos direta- do, as variáveis psicológicas, afetivas, sociais e
mente relacionados à escolha profissional, além econômicas presentes em seu processo; porém,
de outros temas, os quais podem ser entendidos o fator crucial para a definição profissional é o
à luz da abordagem clínica em OV. Em alguns modo como a pessoa se posiciona frente a to-
casos, são problemas que impedem a escolha das essas variáveis, ou seja, o que ela faz disso,
profissional naquele momento; em outros, os como se apropria das influências e para que
temas paralelos podem facilitar nosso entendi- futuro escolhe se lançar (Scheibe, 1997).
mento acerca de determinadas escolhas.
Com essas bases, foi considerada, assim
Vale a pena observar, para fins diagnós- como temas centrados na tarefa, qualquer re-
ticos, o quanto os temas trazidos espontanea- ferência diretamente relacionada à questão
mente pelos orientandos encontram-se ou não da escolha profissional: decisão, influências,
centrados na tarefa da escolha profissional. informação, ocupação de pessoas próximas,
autoconceito, identificação, mercado de traba-
Nos Capítulos 10, 11 e 12, são apresenta- lho, a própria Orientação Vocacional e as dis-
das observações referentes a uma série de te- cussões sobre universidades e vestibular.
mas paralelos à tarefa da escolha, como separa-
ção dos pais, doenças, perdas; observações que A seguir apresentaremos os principais
surgiram em diferentes grupos de OV, confor- temas abordados pelos jovens centrados na
me características próprias, e que podem afe- tarefa da escolha profissional e sua relação
tar o momento da escolha profissional. com o momento da escolha profissional.

Neste capítulo, são discutidos os princi- GOSTO
pais temas abordados por jovens em OV nos
momentos em que consideramos estarem cen- Mencionam o que gostam em termos de
trados na tarefa da escolha profissional.1 ocupação, referendando a ideia de que nesse
momento o jovem está definindo sua identi-
Diversos autores já apontaram para um dade: quem ele quer ser e quem ele não quer
determinado número de tarefas das quais o in- ser, considerando a futura escolha profissional
divíduo deve desincumbir-se durante um pro-
cesso de OV. É o momento e a maneira como

1 Tópicos pesquisados e analisados pelo método Bardin (1991) na dissertação de mestrado de Levenfus,
2001.

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40 Levenfus, Soares & Cols.

a partir de seus interesses, do que gosta e o que ria mesmo; pega todas as profissões e
pensa ser possível realizar (Soares, 1988 e Ginz- começa a descartar tudo aquilo que tu
berg et al., 1951, citados por Levenfus, 1997b). não gostas; tu vês aquelas poucas coi-
sas que sobraram; é que nem ele, eu só
Essas referências podem ser diretas, indi- sei o que eu não quero; eu não quero
retas, claras ou confusas, referentes ao passado Medicina, eu não quero Engenharias.”.
ou ao presente. Coletamos as seguintes falas: • nada me atrai: “Eu não acho nada que eu
goste mais; nada me chama a atenção;
• nomeia profissão: “Eu gosto de Psicolo- todos os cursos eu os excluí 100%.”.
gia; eu quero Fisioterapia; eu quero ser • visão negativa: “A gente sempre tira o
médica; penso mais na Engenharia Ci- pior da profissão; a gente nunca olha o
vil.”. lado bom da profissão.”.

• não nomeia profissão: “Eu gosto de ana- DÚVIDA
lisar as coisas; sempre gostei de espor-
tes; adoro coisas de decoração, de botar O sentimento de dúvida é inerente ao
uma coisinha aqui, uma coisinha ali; é ser humano. Nas fases iniciais do desenvolvi-
uma coisa legal tratar com pessoas; eu mento, a capacidade de discriminação é tênue
gosto de computador.”. ou inexistente. Evoluindo para certo estado
de percepção afetiva, de natureza confusio-
• área: “É na área da comunicação o que eu nal, atinge-se a capacidade de discriminação.
quero; se fosse uma área exata eu busca- Nessa evolução, o ego passa por um estado de
ria mais uma área da engenharia.”. ambiguidade até alcançar um estado de ambi-
valência. Surge, então, a capacidade de se ter
• sonhos: “Quero poder tirar as crianças dúvida e a possibilidade de elaborar o pen-
da rua; meu sonho é traduzir novela; eu samento. Portanto, o sentimento de dúvida é
quero ser rica como todos os outros.”. uma condição adquirida, um sinal de maturi-
dade, pois pressupõe capacidade de suportar
• gostava de: “Quando eu era criança eu a ambivalência frente ao objeto (Levisky, 1995;
sempre queria ser Veterinária para cui- Levenfus, 1997e).
dar dos bichinhos; um tempo atrás, es-
tava pensando em Ciências Sociais; eu Em pesquisa sobre o sentimento de dú-
queria Medicina quando era pequena; vida em sujeitos indecisos quanto à escolha
até naquelas caixas de supermercado profissional, a partir da Análise de Conteúdo
eu pensei.”. da frase de número 172 do Teste de Frases In-
completas de Bohoslavsky3 (1982), Levenfus
Às vezes também surgem referências (1997e) chamou a atenção para a importân-
negativas com relação ao gosto expresso, por cia que tem o sentimento de dúvida frente à
exemplo, em uma tendência a escolher pela tomada de decisão. Os jovens apresentaram
eliminação das profissões das quais não gosta. tendência à impulsividade, sentimentos de
Esse pode ser simplesmente um elemento extra pânico e depressão, além de formas imaturas
na composição das manifestações que conver- e irresponsáveis na tomada de decisão, tais
gem para a decisão. Embora seja difícil a tarefa como relegar a escolha à sorte, ou aos outros,
de escolher, o jovem bem preparado é capaz de ou mesmo não decidindo por uma, ficando
fazê-lo mediante o balanceamento maduro en- com as duas.
tre os prós e os contras implicados na tomada de
decisão sobre essa ou aquela ocupação. As falas mais características a respeito do
tema DÚVIDA costumam aparecer conforme
• não gosto de: “Nenhum desses dois eu os exemplos seguintes:
gosto muito; Química não é o que eu
gosto.”.

• descarta o que não quer: “É que eu fui
descartando os outros que eu não que-

2 Quando fico em dúvida entre duas coisas..............................
3 Sobre o Teste de Frases Incompletas, consultar Capítulo 18

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Orientação Vocacional Ocupacional 41

• dúvida entre duas possibilidades: “Eu gosto ESCOLHA
muito de Publicidade e Artes Plásticas;
eu estou entre Medicina e Psicologia.”. Para fazer uma escolha ajustada, pressu-
pomos que exista capacidade de adaptação,
• dúvida entre mais de duas possibilidades: de interpretação e de juízo da realidade, de
“Estou indeciso com Relações Públicas, discriminação, de hierarquização dos objetos
Publicidade e Jornalismo; eu estou en- e, em especial, capacidade para esclarecer a
tre duas Engenharias, Medicina, Publi- ambiguidade e tolerar a ambivalência nas re-
cidade e Psicologia.”. lações de objeto. Esse tema, incluindo aspec-
tos que diferenciam a escolha madura e ajus-
• dúvida total ou indecisão: “Nunca conse- tada da imatura e desajustada, já foi abordado
gui saber se eu queria uma área exata por Levenfus (1997d). Reproduzimos aqui as
ou uma área humana; sem a menor principais verbalizações com relação à temáti-
ideia do que quero; eu não tenho a ca da escolha:
mínima ideia; eu estou bem dividida;
às vezes eu penso em ser outra coisa; • é difícil: “Eu tenho dificuldade de fazer
fica aquela coisa meio indecisa; eu te- escolhas em tudo; eu queria que fosse
nho muita dúvida do que eu quero; eu mais fácil (fazer escolhas).”.
estou em dúvida ainda; eu ainda não
decidi; eu ainda não sei bem direito o • é cedo para escolher: “Como era o primei-
que eu quero.”. ro vestibular que eu ia fazer, não sabia
direito o que queria; no ano passado,
DECISÃO chegou a hora do vestibular, e eu co-
mecei a pensar se é isso que eu quero,
Em raras ocasiões houve verbalizações será que não; daí na hora da inscrição
nas quais os sujeitos declararam estar deci- eu botei Medicina; decidi o que ia fazer
didos quanto à profissão. Como esses jovens na última meia hora de inscrição.”.
buscaram Orientação Vocacional por decla-
rarem-se indecisos, propomos pensar que as • vestibular: “Eu não sei o que eu vou fa-
verbalizações sinalizadoras de certeza quanto zer no vestibular.”.
à decisão podem significar que esses jovens
ainda não consolidaram a escolha, mas fazem É comum que os orientandos façam refe-
experimentos no sentido de assumir determi- rências a medos despertados pela situação de
nados papéis. Podem ser também tentativas escolha profissional. De forma geral, os medos
de reafirmar determinadas escolhas para sair referem-se a errar na escolha e ser infeliz e a
do estado de ambivalência. ter de mudá-la. Apontam também pressões
internas e externas as quais contribuem para
• estou decidido: “Eu sei bastante do que dificultar a tomada de decisão de mudança,
eu quero; agora decidi; eu estou bem uma vez já estabelecida a escolha. Essa ansie-
decidida sobre a minha profissão.”. dade parece estar centrada na realidade, pois
as pesquisas apontam para um alto índice de
Apontam ainda sentimentos de angústia evasão nas universidades por abandono ou
frente à indecisão ao pensarem que são os úni- troca de curso.
cos indecisos. Nesse sentido, a abordagem co-
letiva mostra-se muito benéfica, pois, em um Além disso, para Nicholas (1969), cada
grupo de iguais, percebem que existem outros decisão tomada reduz um pouco a possibilida-
indecisos também. de de mudança de orientação. O jovem pode
mudar, mas, muitas vezes, sente as mudanças
• os outros estão decididos: “Quando tu en- como inconvenientes, significando prejuízos,
tras no cursinho as pessoas já estão de- tempo perdido em um outro caminho. Segun-
cididas, a maioria das pessoas já sabe do o autor, nessas situações, mesmo difíceis,
o que pretende fazer; a maioria quer partir para a mudança pode ser bem melhor
Medicina.”. do que persistir no caminho errado. Embora
muitos jovens mudem seus planos, pensa-se

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42 Levenfus, Soares & Cols.

que são mais realistas, apesar de menos está- trocar de área: mas tu faz (X) e já tem
veis, do que aqueles que insistem em alcançar conhecimento: vai sair da área?”.
seus inadequados objetivos. • eternidade: “A profissão é para o resto
da vida.”.
Existe uma tendência nos jovens a ideali-
zar a ocupação que querem seguir. Eles se ima- INTERFERÊNCIA FINANCEIRA
ginam em uma profissão perfeita, ideal, a qual
responderá a todas as suas aspirações e sobre a A posição socioeconômica da família in-
qual poderão projetar seus sonhos (Soares-Luc- flui diretamente no desenvolvimento vocacio-
chiari, 1997b). Imaginam, muitas vezes, que, se nal do jovem no sentido de oferecer maiores
não encontrarem a profissão ideal, ficarão perdi- ou menores possibilidades educacionais. Nas
dos para sempre. Costumam descrever seu sen- classes sociais mais favorecidas, nas quais já
timento como se só houvesse no mundo uma existe uma segurança financeira, é possível
profissão que satisfizesse cada pessoa e temem uma maior preocupação com a realização ou
não encontrá-la. Dessa forma, mostram-se apa- com o desenvolvimento pessoal. Em contra-
vorados frente à possibilidade de escolher erra- partida, na classe média, observa-se um dire-
do (Levenfus, 1997d). cionamento para satisfação pessoal e preocu-
pação com o padrão financeiro (Schulenberg,
Em contrapartida, o medo de escolher 1984, citado por Lassance et al., 1993).
errado pode estar respaldado também na
convivência com diversos jovens que ingres- A falta de oportunidade ou de condi-
saram na universidade e a abandonaram. De ções para engajar-se nas tarefas do desenvol-
fato, várias pesquisas apontam alto índice de vimento traz angústia e tensão ao adolescen-
evasão nas universidades brasileiras, desmo- te, pois ele ainda não possui meios de lidar
tivação do estudante durante sua trajetória com essa situação (Witer, 1988). Nesse senti-
acadêmica ou durante o exercício da profissão do, é interessante assinalar o paradoxo refe-
em vista de escolhas imaturas (Rodrigues e rido por Soares-Lucchiari (1993): o ambiente
Ramos, 1997; Levenfus, 1997g; Pacheco et al., obriga o jovem tomar uma série de decisões
1997; Hotza e Soares-Lucchiari (1998); Andra- em relação a seu futuro, mas esse mesmo am-
de, 2000; Avancini, 1998). biente, muitas vezes, apresenta dificuldades
que impedem a realização de inúmeros pro-
Essa temática é abordada por diversos jetos seus.
ângulos:
A perda financeira também aponta para
• medo de escolher errado: “Medo de errar uma interferência na escolha da universidade.
na escolha; tenho medo de entrar na Citam as universidades que consideram mais
faculdade e ver que não é o que eu que- caras ou baratas, com pagamento facilitado,
ria; tenho medo de abraçar uma profis- e o desejo de ingressar preferencialmente em
são e depois ver que foi errado.”. uma universidade federal:

• ter que mudar: “Tinha medo de escolher • tem que ser na federal: “Eu tenho que
e mudar; medo de ter pouco tempo ir para a federal porque não tenho di-
para mudar; se deixar para mudar tar- nheiro; eu vou ter que passar na federal
de pode ter sérias consequências; para porque minha mãe não tem condições
mudar depende se têm condições de de pagar.”.
mudar.”.
• universidade mais barata: “Meu pai sem-
• pessoas que mudaram: “Minha irmã che- pre dizia: tenta passar na federal ou
gou a fazer um ano de Engenharia (X) e pelo menos na PUC.”.
parou; meu cunhado está deixando (X)
para fazer (Y); a minha mãe também • não quer gastar com universidade particu-
trocou de opção profissional.”. lar: “Também é o único grupo que faz
esta referência: para que que eu vou
• é difícil mudar: “É complicado desistir botar dinheiro fora se talvez eu não
de cursar Medicina; como tu já estás precise?”.
enrolada na escolha, fica difícil sair; as
pessoas ficam dizendo para quem quer

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Orientação Vocacional Ocupacional 43

UNIVERSIDADE • informações: “A ‘X’ trabalharia com três
teorias; dizem que o Direito é muito
O ingresso na universidade adquire um bom também na ‘Y’.“
caráter de tarefa evolutiva por si só, em de-
trimento da tarefa da adolescência relativa à • provão e MEC: “Eu sei que a universida-
escolha de uma profissão ou de uma profis- de ‘B’ está bem equipada de laborató-
sionalização. O adolescente, ao escolher sua rio; mas fica uma desconfiança; quase
profissão, estará pautando sua ação na repre- todos os cursos da ‘B’ tiraram D e E na
sentação social de adulto (Andrade, 1993). É nota do provão; o que me deixa com o
uma exigência familiar, uma continuidade pé atrás foi o resultado do Provão dos
natural dos estudos, sem a qual o adolescente três últimos anos.”
estaria alheio ao próprio grupo de pares. Isso
acarreta, muitas vezes, escolhas pela facilida- MERCADO
de de ingresso na universidade, geralmente
em profissões para ele de segundo escalão e É um importante item a ser considerado
sobre as quais pouco conhecimento possui na escolha, desde que não apareça como fe-
(Lassance et al., 1993). Para ele, o prestígio nômeno imutável, isolado, cristalizado. É im-
de cursar uma universidade é maior do que o portante que o jovem compreenda o mercado
status social da profissão, ou seja, ser univer- dentro da conjuntura em que vive e em uma
sitário é um fator de promoção pessoal. perspectiva dinâmica (Neves, 1993).

A maior parte das verbalizações apon- Os jovens pesquisados abordam a temá-
tam a universidade “A” como sendo a ideal tica do mercado de trabalho, preocupam-se
por proporcionar liberdade financeira e dar com ele, e a maioria tende a achar que a in-
status. Preocupam-se com o fato de a univer- serção no mundo profissional depende mais
sidade “B” ter tirado notas baixas no Provão das condições deste e de indicação de pessoas
do MEC* e o quanto isso pode comprometer influentes do que de seus esforços pessoais.
a imagem dos seus alunos. Discutem também
a questão de que, dependendo do curso, algu- Na realidade, quem ingressa no mercado
mas universidades têm mais destaque do que hoje encontra menos segurança em relação às
outras, ou seja, todas elas têm alguns cursos atribuições, menores previsões nos intervalos
destacados. de tempo e nas chances de carreira, bem como
maior exigência de flexibilização. O modelo
• liberdade por não depender financeiramen- precedente, fundado na segurança, na estabi-
te: “Eu penso em minha independên- lidade e na regularidade, tende a ser substi-
cia; se ingressar na federal, no sentido tuído por um outro que privilegia a possibili-
do dinheiro, acho que vou ficar mais dade de mudanças na formação e no trabalho
independente; daí ia ter que continuar (Meghnagi, 1998).
aquela dependência, e eu vou ter que
dizer aonde eu vou. Pode comprometer Diante desse quadro, o mercado que rege
a escolha: Se eu passar na universidade as relações sociais de produção exige profis-
X e na federal em Educação Física, vou sionais que saibam apreender, estejam abertos
fazer Educação Física mesmo gostando ao novo, sejam capazes de pensar seu próprio
mais de Fisioterapia. “. fazer e que o façam de forma coletiva.

• é a melhor: “A universidade ‘A’ é a ‘A’; a A partir do resgate feito das diversas
qualidade dos professores da ‘A’ é me- construções conceituais da noção de compe-
lhor; a parte científica é melhor; tem o tência nas áreas antes apontadas, Manfredi
status da ‘A’.” (1998) identificou um conjunto de conotações
histórica e socialmente construídas referentes
a essa noção, o qual poderia ser assim resu-
mido:

*N. de R. Exame Nacional de Cursos foi um exame aplicado aos formandos, no período de 1996 a 2003, com
o objetivo de avaliar os cursos de graduação da Educação Superior, no que tange aos resultados do processo
de ensino-aprendizagem. Fonte: INEP/MEC

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44 Levenfus, Soares & Cols.

• Ddesempenho individual racional e efi- Seguem algumas verbalizações dos
ciente, visando à adequação entre fins e orientandos com relação à temática MER-
meios, objetivos e resultados. CADO:

• Um perfil comportamental de pessoas • locus de controle externo: “Uma das
que agregam capacidades cognitivas, coisas que me leva a querer Medicina
socioafetivas e emocionais, destrezas também é o conhecimento; meus tios
psicomotoras e habilidades operacio- são conhecidos e influentes; parece um
nais, adquiridas por meio de percursos desperdício criar um currículo em cima
e trajetórias individuais (trajetórias es- do inglês, eles admitem qualquer pes-
colares, profissionais, etc.). soa que sabe inglês; sempre tem que ter
alguém que te indique para conseguir
• Atuações profissionais resultantes, o cargo; sempre tem que ter alguém co-
prioritariamente, de estratégias forma- nhecido que vai te dar informação, ó, ta
tivas agenciadas e planificadas visando acontecendo tal coisa, corre lá que tem;
à funcionalidade e à rentabilidade de sem um pistolão é difícil pra tu conse-
um determinado organismo ou subsis- guires o cargo.”.
tema social.
• locus de controle interno: “O mercado
Na opinião dos profissionais do CIEE/RJ não é bom, mas eu gosto; se tentar e ver
(1997), a compreensão de que o profissional, que é isso que quer, você será um bom
depois de qualificado pela academia, estaria profissional; se você for um bom profis-
apto para exercer sua profissão e galgar a pro- sional, chega aonde quiser; se a pessoa
metida estabilidade está sendo substituída realmente está passando por alguma
pela certeza de que tal estabilidade não existe. necessidade, ela corre atrás; o mercado
Assim, a dificuldade de inserção no mercado influencia, mas vai muito da pessoa.”.
de trabalho não está somente na falta de infor-
mações, ou na ausência de habilidades práti- • não é bom : “O mercado está terrível; o
cas, nem mesmo na ausência de qualificações mercado para tradutor e intérprete é
acadêmicas, mas também no receio de perder o mais difícil.”.
trem da história, ficar excluído, desatualizado e
não se realizar como ser humano. • é bom em alguma coisa: “O mercado de
trabalho é bom para informática; infor-
Strey (1994, p.193) concluiu em sua mática está evoluindo.”.
pesquisa que, “quando chega o momento de es-
colher uma profissão, a escolha frequentemente • não adianta fazer o que gosta se não tem
produz conflitos. O conflito surge porque a pes- mercado: “Para fazer minha escolha, eu
soa nem sempre sabe como equilibrar os custos penso que não adianta uma coisa que
com os benefícios, satisfação imediata e mal-estar eu adoraria fazer, se não tivesse muita
futuro”. retribuição depois; de que adianta fa-
zer cinco anos de uma coisa que gosta
Gus (1999) pontua que tudo isso deixa e na hora não tem onde trabalhar? Eu
o jovem temeroso: teme enfrentar uma socie- queria unir o útil ao agradável, ter uma
dade competitiva e excludente (que enaltece profissão de que goste e que tenha bom
a competência), ficando assustado e com difi- mercado.”.
culdades de amadurecer como consequência
do temor de não obter êxito. O futuro para a • não é bom escolher só pelo mercado: “Tanta
juventude é eclipsado pelo pessimismo. coisa que não levam adiante; ou você
continua sem gostar.”.
De fato, a pesquisa feita pela Unicef em
novembro de 1999, em 20 países da América • pensa no que tem mercado: “Penso o que
Latina e do Caribe, aponta o Brasil em se- está melhor no mercado de trabalho no
gundo lugar no ranking do pessimismo, atrás momento; dependendo da área, Educa-
apenas da Colômbia: 69% de crianças e jovens ção física pode dar dinheiro também.”.
brasileiros acham que a vida não vai melhorar
(Folha de São Paulo, 24 dez. 1999). • quer estabilidade: “Você não ganha bem,
mas todo final do mês tem um salário
ali garantido.”.

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Orientação Vocacional Ocupacional 45

INFORMAÇÃO A gama de profissões consideradas pelos
adolescentes no período de inscrição para o
Um dos principais itens observados vestibular é, em geral, restrita a conhecimentos
para que ocorra um consistente processo de mais próximos, como aqueles obtidos por meio
escolha profissional é a informação. de familiares, amigos, figuras estereotipadas e
até pelos meios de comunicação. E o adolescen-
Conforme a visão desenvolvimentista te não sente necessidade de checar ou aprofun-
de Super e colaboradores (1963), o comporta- dar essas informações (Lassance et al., 1993).
mento exploratório situa-se na adolescência. É
esse comportamento que permitirá ao adoles- É difícil para o adolescente entrar em
cente adquirir informações sobre si mesmo e contato com as informações do mundo profis-
sobre o mundo que o rodeia. O comportamen- sional, uma vez que essas informações, mui-
to exploratório vocacional visa a abastecer o tas vezes, não estão disponíveis, especialmen-
sujeito de informações novas, complementa- te porque fazê-lo representa entrar em contato
res ou corretivas para a empreitada da escolha com o novo, com o desconhecido, com o mun-
profissional. Da forma como foi definido por do adulto. O adolescente recua diante desse
Jordaan (1963), é um processo que envolve momento, resiste em obter informações, nega
diferentes graus de consciência. A informação conhecimentos que já possui, prefere não sa-
obtida ou pesquisada é influenciada pela per- ber, porque, permanecendo ignorante, não
cepção que tem de si e do ambiente. Super e escolhe, não cresce, não deixa a vida seguir
colaboradores (1963) também alertam para a (Zelam, 1993; Levenfus, 1997c).
resistência que o indivíduo pode desenvolver
frente à informação caso a experiência colo- Por fim, Bohoslavsky (1982) ressalta que
que em dúvida alguns aspectos do autocon- a informação é uma condição necessária para
ceito. Nessa situação, a percepção pode sofrer a escolha, mas não suficiente. É um alerta que
distorções a fim de preservar, validar ou con- faz a profissionais que durante muito tempo
firmar as fantasias que o sujeito tenta manter acharam que, ao receber informações, o jovem
(Frischenbruder, 1999). estaria instrumentalizado para a escolha.

Não raro, jovens alegam desconhecimento A seguir estão relacionadas as principais
total da profissão pela qual estão interessados. formas como o tema é abordado pelos jovens
Alguns apresentam ideias bastante distorci- em processo de escolha profissional:
das; outros demonstram inibições do pensa-
mento ou medo de errar ao expor suas ideias. • busca: “Eu já assisti a muita aula com
a minha irmã; eu entrei na Escola Téc-
É comum que os jovens estejam desin- nica da UFRGS e peguei os cursos; eu
formados. Verifica-se que a exploração pro- procuro buscar tudo; eu conversei es-
fissional desenvolvida por eles é pouco siste- ses tempos com o irmão de uma amiga
mática e pouco planejada intencionalmente. minha que faz RP; eu já pesquisei algu-
É significativa a falta de informações que o ma coisa; tentei estudar um pouco das
adolescente demonstra tanto acerca de si mes- profissões; li um livro que fala das pro-
mo quanto acerca do mundo do trabalho e das fissões; fui lá no IPA e me informei.”.
profissões em geral. Suas escolhas são feitas
dentre as profissões que podem observar no • tem informações: “Na Academia Agulhas
meio mais imediato, revelando um comporta- Negras você vai estudar Psicologia, Di-
mento exploratório consideravelmente pobre. reito, História, Matemática, todas; a Psi-
A tendência de jovens do ensino médio é fazer cologia tem vários tipos de pensamen-
uma escolha profissional apoiada em elemen- to; na Administração tem essa parte de
tos pouco consistentes: informações mínimas, calcular as percentagens, esse tipo de
geralmente distorcidas, idealizadas ou este- controle; estou a par de todos os cam-
reotipadas, além de serem desarticuladas do pos; estou a par de todos os cursos.”.
próprio perfil (Lassance, Grocks e Francisco,
1993; Rodrigues e Ramos, 1997; Frischenbru- • conheço pouco: “Acho que a gente co-
der, 1999). nhece pouco de cada profissão; eu não
conheço o mercado das Engenharias;
acho difícil escolher uma profissão

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46 Levenfus, Soares & Cols.

que não se conhece ninguém que faç Segundo Soares-Lucchiari (1993, 1997b),
aquilo.”. os pais têm um conjunto de expectativas so-
• quer mais: “Queria saber mais sobre bre o futuro dos filhos, um projeto. Desde
algum curso; estou meio querendo sa- antes do nascimento, o filho já é fruto de pro-
ber quais são as ênfases da Assistên- jeções dos pais que variam segundo a ordem
cia social.”. de nascimento do filho, o momento do casal,
• não conheço: “Eu também não conheço a história da família. Citando Carré, a auto-
muito da profissão.”. ra aborda a questão da delegação, apontando
• professor: “A professora falou algumas que a família distribui papéis que os filhos
coisas de Biologia.”. devem desempenhar, muitas vezes ligados
• superficial: “Os sujeitos não conseguem ao peso de realizar o sonho dos pais. O filho
aprofundar suas informações sobre as torna-se, então, depositário das aspirações,
profissões e fazem descrições apenas as mais profundas, que os pais não consegui-
elementares e superficiais: A área da ram realizar, assumindo, assim, o papel de
Medicina é muito ampla, sabe, tem delegado, isto é, (inconscientemente) respon-
muita coisa, sabe; engenheiro constrói sável de realizar uma profissão, por exem-
casa, prédio, tudo relacionado com plo, em seu lugar. Identificando-se ao ideal
cálculo; RP é legal, organizar festas. de seus pais, o jovem tenta corresponder a
Não chegam a falar sobre profissões suas expectativas de ser um grande médico,
e suas atividades; fazem pequenas re- um bem-sucedido empresário ou um célebre
ferências generalizadas: o salário para juiz de direito. Assim, a elaboração do projeto
tradutor e intérprete é mais alto; Psi- profissional vai estar submetida à influência
cologia é só diurno.”. exercida pela família na reelaboração do ideal
de ego na adolescência. Essa utilização dos
INFLUÊNCIAS filhos pelos pais deve deixar espaço suficien-
te para os filhos desenvolverem uma relativa
É muito comum que os orientandos fa- autonomia em suas escolhas. Se o filho não
çam referência ao fato de sentirem influências suscitar nenhuma expectativa nem desejo da
sobre sua escolha. As influências, explícitas parte de seus pais em relação a seu futuro, ele
ou sutis, existem e devem ser consideradas. se sente sozinho, abandonado e encontrará
É importante que sejam conscientes, pois, as grandes dificuldades no momento de fazer
conhecendo, o indivíduo pode utilizá-las de suas escolhas.
forma positiva e construtiva, selecionando-as
e adequando-as a seus próprios desejos e va- Em sua pesquisa acerca das questões fa-
lores. “A liberdade de escolha e de elaboração miliares relacionadas à escolha profissional,
de um projeto próprio de carreira depende Soares-Lucchiari (1997a) percebe que a esco-
muito mais do conhecimento das influências lha responde a um conjunto de significações
recebidas do que da ausência delas” (Andra- transmitidas aos jovens pela família, além dos
de, 1997, p. 134). ideais socioculturais. Essas significações estão
ligadas à dinâmica e à história familiar, fre-
Os jovens são unânimes em apontar os quentemente transgeracional, e a importância
próprios pais como os que mais os influen- dos avós deve ser assinalada.
ciam. É quase nula a percepção dos jovens
inclusive com relação à influência de amigos. Para Ramos (2000, p.64), a psicanálise,
Conforme Neves (1993), o grupo de amigos, partindo da concepção do “homem como de-
muitas vezes, se constitui em fator de pressão sejante, nos fornece operadores teóricos que
até mais autoritário do que a família, impon- nos permitem considerar que a matriz da es-
do valores e comportamentos; todavia, como colha profissional está no desejo da família”.
os adolescentes tentam afirmar uma grande
autonomia em suas decisões, muitas vezes Andrade (1997) aponta que a estreita
deixam de refletir sobre a influência do grupo correlação entre os aspectos psicossociais fa-
de iguais e dos meios de comunicação. miliares e a estruturação ocupacional do in-
divíduo evidencia-se nos planos contextual e
estrutural.

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Orientação Vocacional Ocupacional 47

Em termos contextuais, a influência ocor- desfrute estabilidade. Em menor proporção,
re por meio dos recursos oferecidos e das limi- encontramos verbalizações que apontam os
tações apresentadas. Um dos fatores marcantes pais como neutros, os quais procuram não
é a necessidade enfrentada por muitos jovens interferir e reforçam a liberdade que o filho
de sair da casa dos pais; ou, pelo contrário, a tem para escolher:
necessidade de ficar presos a ela, motivados
pela situação socioeconômica, por exigências • sonha com grandes empresas: “O que será
profissionais ou escolares. que os pais têm com o Polo?; o sonho
da minha mãe é eu trabalhar no Polo
No plano estrutural, Andrade acredita Petroquímico; eles dizem: tu podia
ser no seio da família que se estabelecem os conseguir uma coisa na GM; você po-
eixos da estruturação da personalidade ocu- dia conseguir uma coisa na Varig.”.
pacional do indivíduo. O nível de determina-
ção ocorre por meio das influências, muitas • influências ativas: “Minha mãe não gos-
vezes indiretas e não explícitas, da ideologia taria que eu fosse professor; o sonho da
familiar sobre valores e conceitos ocupacio- minha mãe é que eu faça Química; mi-
nais, inclusive pela determinação da própria nha mãe me inscreveu em Engenharia
identidade profissional e da autoestima, fato- de produção.”.
res fundamentais na escolha da carreira e na
administração da vida profissional. • cobrança e pressão: “Muitas vezes, ocorre
uma pressão na família; é muito chato
De qualquer forma, as influências não se isso, cobrança; a minha mãe sempre
dão unilateralmente. O indivíduo as filtra se- fala.”.
gundo suas próprias características e também
acaba por exercer, em seu meio, uma impor- • querem que se tenha sucesso na profissão.
tante influência. O jovem pode identificar-se • os desejos: “Em parte, ilustram desejos
com aquilo que é esperado para ele, pode re-
cusar tal identificação, e, ainda, em alguns ca- objetivos: Minha mãe disse que gos-
sos, toda escolha lhe é impossível (Andrade, taria que eu fosse Engenheira; a mãe
1997; Soares-Lucchiari, 1997). quer que eu faça Informática. Em parte,
indicam contrariedades: Minha mãe fi-
O autoconceito social é uma das impor- cou meio assim quando eu decidi fazer
tantes dimensões do autoconceito vocacional. Administração; quando se escolhe ser
Diz respeito à imagem social ou ao grau com professor a mãe aconselha a não fazer
que o indivíduo percebe sua receptividade no porque ganha mal; o pai diz: por que
meio social além do grau de valorização que não faz uma Engenharia?; a minha mãe
este mantém por si mesmo. A percepção de quer Administração; a minha mãe não
ser eficaz em um comportamento é autorefor- quer que eu seja bióloga.”.
çada socialmente e depende de uma valori- • deixa em dúvida: “Minha mãe me coloca
zação positiva do indivíduo (Frischenbruder, em dúvida; minha mãe fica me pergun-
1999). tando se eu tenho certeza se é isso que
eu quero; minha mãe diz: pensa bem.”.
Influência dos pais • imposição: “Apontam sentimentos de
que pai/mãe impõe: Geralmente os
O conteúdo predominante apresentado pais dizem: ‘faz isso porque eu que-
pelos jovens quanto à influência refere-se à in- ro’; quando perguntamos o porquê, os
fluência por parte dos pais. Em grande parte, pais dizem ‘porque eu quero esta’; os
é percebida pelo jovem como uma influência pais fazem isso porque eles têm domí-
ativa, na qual os pais falam abertamente ou nio sobre nós; ela botou na cabeça que
ditam suas preferências. Os pais, em muitas eu tinha que fazer uma Engenharia.
falas dos orientandos, mais do que enume- Apresentam o contra quando o merca-
rar profissões, sonham que o filho trabalhe do não é bom.”.
em grandes empresas brasileiras ou multina- • idealizam: “Os pais ficam idealizando,
cionais e apresentam o desejo de que o filho eu quero que meu filho seja isso, seja
aquilo; a mãe quer que eu seja famosa;

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48 Levenfus, Soares & Cols.

ela acha que Engenharia dá um status; que desse dinheiro, que desse status;
quer que seja uma coisa que dê dinhei- comecei a ver que minha avó achava o
ro.”. máximo Medicina.”.
• faça uma faculdade: “Meu pai diz: ‘faz • família: “Minha família inteira está ju-
uma faculdade porque não pode ficar rando que eu vou fazer Medicina; a fa-
parado’.”. mília do meu pai gosta de Z; minha tia
• indiferenciação: “Ela quer que eu faça me aconselhou fazer Hotelaria.”.
por ela; acho que ela queria fazer isso • meio: “Eu vim com a ideia de Medicina
e bota isso aí em mim; aquelas famílias porque eu me criei com velho; é muita
tradicionais que só têm médicos, aí tem dentista lá em casa: minha mãe, minha
que fazer Medicina; eu não pude ser irmã e duas tias são dentistas.”.
então você vai ser; às vezes, os pais im- • pessoas: “O pessoal pensa assim: todo
põem assim, fazer a mesma profissão mundo é faculdade; todo mundo dá
dos pais.”. palpite: acho que você combina mais
• apoio incondicional: “Minha mãe e meu com isso, combina com aquilo.”.
pai sempre me apoiaram; eu tenho cer- • amigos/namorado: “Com pouca expres-
teza de que se eu quisesse fazer Educa- são, surgem indicadores de que namo-
ção Física eles iam me apoiar do mes- rados e amigos também influenciam:
mo jeito.”. Só tive influência de meu namorado; eu
• só informam/indireto: “Dizem que sabem tenho vários amigos em faculdades.”.
de outras faculdades; falam em outras • professores: “A professora disse para
profissões só pra me dizer o que que eu fazer Biologia.”.
é; para mostrar o campo que tem mais • cara de...: “Muita gente olha pra mim e
ou menos; os pais influenciam indire- diz: essa aí vai fazer RP; meu pai acha
tamente.”. que eu tenho cara de jornalista; ela tem
• influências neutras: “É aquele negócio jeito de farmacêutica: na Farmácia você
assim: deixa que o X vai saber; meu pai, vê aquela moça magrinha, carinha re-
a princípio, está por mim; meus pais donda, nariz fininho; em meu colégio me
querem que eu faça o que eu quiser; acharam com cara de nutricionista.”.
neste ano eles estão neutros.”.
• não sofrem influências: “A mãe nunca AUTOCONCEITO
me influenciou; não tenho nenhuma
influência de meu pai; nunca disse- Embora nem todas as dimensões do au-
ram o que eu tinha que fazer; minha toconceito estejam ligadas ao comportamento
mãe até recomendou essa orientação vocacional, este ocupa um dos eixos princi-
porque ela quer que eu decida; minha pais da teoria desenvolvimentista de Super
mãe nunca questionou muito essa par- e colaboradores (1963). A autoestima e as ex-
te do que eu vou cursar.”. pectativas de autoeficácia são algumas das
importantes dimensões do autoconceito que
Além dos pais, os jovens pesquisados in- influenciam no comportamento vocacional
dicam sofrer influências por parte dos avós, da (Betz, 1994 citado por Frischenbruder, 1999).
família, do meio e um tipo de influência que
podemos chamar de cara de..., na qual, os su- De acordo com a pesquisa de Frischen-
jeitos descrevem uma tendência de as pessoas bruder (1999), o aspecto mais relevante do
associarem a cara, o tipo físico e a expressão à autoconceito dos adolescentes em vias de es-
determinada profissão, como, por exemplo, em colher uma profissão é a percepção de que são
meu colégio me acharam com cara de nutricionista. capazes de organizar seu comportamento de
forma a obter o rendimento esperado.
• avós: “Meu avô já está fazendo altos
planos para quando eu for médica; para Conforme Super e colaboradores (1963),
minha avó tinha que ser uma profissão ao assumir determinada ocupação, o sujeito
tenta implementar o conceito de si mesmo e,
ao estabelecer-se ocupacionalmente, alcança

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Orientação Vocacional Ocupacional 49

a realização de seu autoconceito. Para eles, a medo, não trema; todo mundo sente
construção da identidade profissional ocorre medo por um trabalho que apresenta,
em três processos: formação do autoconceito, mas eu gosto de estar lá na frente.”.
sua tradução em termos vocacionais e sua im-
plementação. Outras falas revelaram senso negativo
de autoeficácia. O fato de poder reconhecer
A formação do autoconceito ocorre na suas dificuldades e verbalizá-las pode colocar
infância concomitantemente ao desenvolvi- o processo em marcha, seja em direção a mu-
mento de identidade, ou self, e evolui a partir danças satisfatórias, seja em direção à manu-
dos processos de exploração, diferenciação, tenção, assunção e valorização de suas carac-
identificação, desempenho de papéis e testes terísticas pessoais.
de realidade. O desenvolvimento psicossocial
do indivíduo tem papel fundamental no sen- • sou muito emotiva: “Eu sou muito emo-
tido de fortalecer ou modificar autoconceitos tiva; acho que eu tenho que tratar a mi-
que foram adquiridos nessa fase. nha loucura; imagina o médico choran-
do, eu ia me apavorar também.”.
A tradução do autoconceito em voca-
ção, a qual ocorre na adolescência, envolve • preguiçoso: “Eu sou meio preguiçoso; só
aspectos como identificação com um adulto de pensar já desanima.”.
significativo, maior ou menor êxito no de-
sempenho de papéis, consciência da relação IDENTIFICAÇÃO
entre as características que o indivíduo pos-
sui, seus atributos, sua satisfação e sua reali- Escolha por identificação é um item raro
zação no exercício de determinado conjunto em todos os grupos pesquisados. Aparece em
de papéis ocupacionais. Mais tarde, ocorre o pequena escala.
processo de implementação do autoconceito,
com a entrada no mundo do trabalho. O ajus- Apesar disso, a estruturação de um
te vocacional do indivíduo com estabilidade processo de escolha passa pela via da identi-
e satisfação estaria relacionado diretamente a ficação do sujeito a algo que signifique para
uma tradução adequada do autoconceito no ele uma possibilidade de reconhecimento de
mundo ocupacional (Super et al., 1963; Las- uma instância paterna e que lhe possibilite re-
sance et al., 1993). conhecer nela uma filiação4. Uma boa escolha
estaria relacionada a satisfazer a necessidade
Conforme a pesquisa de Frischenbruder do sujeito de encontrar um lugar de filiação
(1999), a autoeficácia encontra-se relacionada (Golfeto e Junqueira, 1993).
a comportamentos de investigação sobre ati-
vidades profissionais e de mercado de traba- Ferreira (2000) aponta que as qualidades
lho. Os sujeitos com senso positivo de autoefi- e as preferências dos adolescentes estão rela-
cácia apresentam mais informação vocacional cionadas a identificações feitas com familia-
adquirida, maior grau de satisfação com essas res, professores ou amigos que parecem res-
informações e maior certeza sobre suas prefe- ponder às suas aspirações mais profundas.
rências vocacionais.
Para Neiva (1995), as identificações que
• falante: “Eu falo bastante; eu sentia que o indivíduo estabelece ao longo da vida con-
eu tinha um discurso legal para fazer tribuem para sua identidade vocacional. Res-
Direito.”. salta que é comum o adolescente desejar de-
sempenhar a mesma profissão de alguém com
• sou materialista: “Sou muito materialis- quem estabeleceu vínculo positivo. As figuras
ta; sou muito capitalista, levo jeito para parentais, em especial, são fonte importante
trabalhar com dinheiro.”. de identificação.

• enfrento dificuldades: “Vai lá na frente, Entretanto, devemos, como orientadores
você vai tremer, não que eu não tenha vocacionais, estar atentos à observação de Pi-

4 Uma das tarefas propostas pela OV tem a ver justamente com a tentativa de explicitar essas identificações
não reconhecidas como tais.

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50 Levenfus, Soares & Cols.

kunas (1988), de que “o arcabouço da família é tuada diminuição da autoestima. A grande
muito limitado para a maioria dos adolescen- maioria deles continua perseguida por sen-
tes experimentarem novas imagens e novos timentos de fracasso: a autoimagem passa a
papéis” (p. 328). ser motivo de vergonha; é acometido de sen-
timentos de infelicidade, desânimo, etc. (Le-
• pais: “Gosto de História porque minha venfus, 1997a).
mãe é professora; eu gostaria da área
militar porque meu pai é Militar.”. • a concorrência é grande: “Tem que estu-
dar muito; é muito concorrido; no que
• irmãos: “Gosto de Psicologia porque a eu gostaria de fazer seria mais de 60
minha irmã faz Psicologia.”. por vaga.”.

• outros familiares: “Falei Medicina porque • rodou: “No ano passado eu tentei e não
eu tenho três tios que fazem parte da consegui; fiz o vestibular e não passei;
Medicina; tinha uma época que eu que- rodei em Matemática.”.
ria ser dentista porque minha prima era
e tal; queria ser advogado desde peque- • quer passar de primeira: “Não sei em
nininho porque meus avós eram.”. que, mas eu tenho que passar; a pres-
são para cima de mim para passar de
• profissional: “Eu vi a psicóloga avalian- primeira é forte.”.
do, eu gostei.”.
Centralização na tarefa da OV e
• amigo: “Eu sou bem chegada a uma pes- maturidade para a escolha profissional
soa que fez comunicação e eu fui fazer.”.
Ao pesquisarmos diferentes grupos de
VESTIBULAR orientandos, foi formado um grupo composto
por jovens que não apresentam nenhuma das
Em nosso país, não se pensa em escolha relações objetais características dos demais
profissional com vistas ao ingresso na uni- grupos (conforme tratado nos Capítulos 10,
versidade sem que isso envolva a questão 11 e 12), ou seja, nenhum componente desse
do vestibular. Os jovens preocupam-se espe- grupo ou é filho de pais separados, ou perdeu
cialmente com a grande concorrência e citam – por morte – um membro da família nuclear
tentativas fracassadas de aprovação. Manifes- ou apresenta maiores dificuldades no proces-
tam também o desejo de passar de primeira e o so de separação-individuação.
quanto se sentem cobrados a serem aprova-
dos rapidamente. Comparado aos demais, foi o grupo que
apresentou o maior grau de maturidade para
O desejo de passar de primeira ou de ser a escolha profissional, haja vista os itens a se-
aprovado logo encontra explicação nos pen- guir5:
samentos que realizam equivalência entre o
vestibular e os rituais de passagem (Teixei- • Foi o único grupo que manteve 100%
ra, 1981; Alves, 1986; Levenfus, 1993b, 1997a, das falas relacionadas à temática direta
1997g; Levenfus e Trintinaglia, 1995). O ves- da escolha profissional, apresentando
tibulando estaria equiparado a uma entidade maior qualidade e engajamento na tare-
limiar: sem identidade enquanto permanecer fa da escolha.
“no vestíbulo” – nesse caso, espaço interme-
diário entre o término do ensino médio e o in- • É o único grupo a referir diretamente
gresso no curso superior. Mais do que ritual de os vários fatores que concorrem para
passagem, esses pensamentos apontam para o a decisão profissional, como mercado
vestibular como uma barreira ritualizada de de trabalho, meio, influência dos pais
ingresso à universidade. e fatores financeiros, demonstrando

Essa barreira coloca vestibulandos ex-
cedentes em situação que desencadeia acen-

5 As verbalizações computadas na primeira parte deste capítulo não pertencem apenas a esse grupo, e sim a
todos os grupos em momentos em que os jovens estavam concentrados na tarefa da escola.

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