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Orientação vocacional

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Published by aida.psi.edu, 2020-04-07 06:08:30

Caderno O.V.

Orientação vocacional

Keywords: Orientação

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Orientação Vocacional Ocupacional 151

Negação • Sem um pistolão é difícil conseguir o
cargo.
A negação da morte também está presen-
te nas verbalizações, como, por exemplo: As múltiplas referências feitas à necessi-
dade de um pistolão nos remete à ausência do
• Quando ele morreu eu estava choran- pai. É como se a presença do pai fosse funda-
do, só que parecia que tinha morrido mental para facilitar a inserção do sujeito no
um primo meu, e não meu pai. mercado. Eles se sentem desprotegidos sem o
pistolão, ou seja, psicanaliticamente falando, o
• Não sei se ele está vivo ou morto. falo fundamental para facilitar a inserção do
sujeito na cultura e no trabalho.
Bromberg (1998) considera que a teoria
de Bowlby “oferece uma boa interpretação Efeitos da baixa autoestima
teórica para aspectos dos lutos normal e pa-
tológico, não explicados por outras aborda- Entre os grupos pesquisados, esse é o
gens” (p. 24). Ocorre a sensação de ter a pre- único a apontar um questionamento medro-
sença da pessoa morta, da raiva sentida, dos so sobre sua capacidade para desempenhar
sentimentos ambivalentes, das tentativas de determinada profissão. Esses sentimentos de
manter o vínculo mesmo desconsiderando as inadequação, fracasso e incompetência nas
evidências da realidade e da necessidade de próprias possibilidades e o sentimento de que
encontrar a pessoa perdida. nada vale a pena aparecem também como si-
nais da presença do luto (Stroebe e Stroebe,
É possível que tudo isso explique o fato 1987, citados por Bromberg, 1998).
de esse grupo apontar apenas verbalizações
com conteúdo de muita indecisão e dúvida Na pesquisa de Frischenbruder (1999),
com relação à escolha profissional, pois, para com adolescentes em vias de escolher a pro-
fazer uma escolha ajustada, é preciso tolerar a fissão, a dimensão da depressão apresentou
ambivalência nas relações de objeto (Bohosla- baixa pontuação, apontando que os adoles-
vsky, 1982; Levenfus, 1997c; 1997d). centes em geral percebem seu autoconceito
com poucos aspectos depressivos, contribuin-
Pessimismo quanto ao mercado de do para um autoconceito harmônico. Esse
trabalho e necessidade de ter um Pistolão não foi o caso dos jovens com perda parental,
como segue.
Outra evidência da presença do luto é o
pessimismo sobre as circunstâncias atuais e A categoria Autoconceito desse grupo é
futuras, a desesperança e a perda de propósi- marcada por algumas peculiaridades. É o úni-
to na vida (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por co grupo que faz referências a ser do Estado
Bromberg, 1998). Esse conteúdo está presente do Rio Grande do Sul. Essa subcategoria ocu-
nas verbalizações acerca do mercado de traba- pa mais da metade das verbalizações do au-
lho. Uma visão negativista toma conta desse toconceito. A grande maioria das falas revela
grupo que acha que o mercado não é bom ou aspectos negativos de ser gaúcho. Em parte,
apenas é bom em algumas áreas. Na maior parte são feitas relações entre ser gaúcho e a pouca
das verbalizações relativas a esse tema, afir- aceitação destes no mercado de trabalho em
mam que sua inserção no mercado depende outros Estados. De outra parte, são feitas ver-
mais das condições deste do que de seus es- balizações de como os outros percebem o gaú-
forços pessoais. Nas referências ao predomi- cho como veado (homossexual ou desprovido
nante locus de controle externo, encontra-se a de pênis-pistolão), da roça, ou seja, de forma
ideia de que é necessário um pistolão para colo- desvalorizada. O que se faz necessário ressal-
car a pessoa no mercado de trabalho: tar é que essas referências feitas aos gaúchos
vieram nas associações do grupo a respeito do
• Sempre tem que ter alguém que lhe in- estado de orfandade. O grupo fazia referên-
dique para entrar no cargo. cias no sentido de que:

• Sempre tem que ter alguém conhecido
que vai lhe dar informação, ó, tá acon-
tecendo tal coisa, corre lá que tem.

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152 Levenfus, Soares & Cols.

• nós não somos 100% pessoas normais; aspirações. No entanto, algumas dessas aspi-
• não que a gente seja louco; não somos rações, como o desejo de tirar as crianças da
rua, retratam identificação com sua situação
normais dentro dos padrões da socie- de orfandade.
dade;
• criança precisa dos dois pais vivos para Ao referir-se aos lutos pelo self, Bohos-
ser uma pessoa equilibrada. lavsky (1982) aponta um sentimento que ex-
pressa a ânsia de se completar. O adolescente
Dessa forma, entendendo pelo prisma menciona isso como quero me encontrar, quero
psicanalítico, diríamos que, por mecanismos me realizar, ou como foi referido no grupo,
de projeção e deslocamento, as associações re- quero uma profissão perfeita, satisfazer uma re-
feridas como ser gaúcho se relacionam ao esta- alização espiritual. Supõe a busca de um reen-
do de orfandade. Em poucas falas os sujeitos contro com algo que gostaria de ter ou ser e
apontam aspectos positivos do Estado do Rio que não possui. Falta-lhe na fantasia porque
Grande do Sul. Nestas, por exemplo, enaltecem sente que perdeu esse atributo que, certa vez,
o Orçamento Participativo, o que entendemos possuíra. Esse é um dos fatores que motiva
como estando relacionado a ser o único grupo a identificação com os outros. A escolha da
que verbaliza que os filhos trabalham para aju- carreira seria uma situação em que se vive
dar no orçamento familiar: nós (os filhos) traba- essa ânsia por complementar-se e implica a
lhamos também; eu trabalho o dia inteiro.8 recuperação dos afetos e dos objetos que sen-
te perdidos; portanto, evoca capacidade de
Além dessas, houve referências, por reparação e elaboração de lutos. Nas depres-
exemplo, a sentir-se como filho não desejado, sões, a idealização é mantida pela liberação
a saber de seus limites, a se autoanalisar, a ser da busca do prazer para que nada falte, im-
materialista, demonstrando manter contato possibilitando que a perda do objeto se sim-
com o mundo intra e extrapsíquico. Em uma bolize (García, 1999).
fala – não sou um rebelde sem causa – fica muito
claro que não é a troco de nada que o grupo A influência do morto
apresenta tantas “auto” e “alo” referências ne-
gativas. A orfandade reina quase que absoluta A respeito dessa questão, encontramos
na categoria do autoconceito. a peculiaridade do grupo em apontar, entre
as influências dos pais, algumas referências a
O melancólico exibe uma diminuição pai/mãe morto(a). A categoria Identificação nos
extraordinária de sua autoestima, um empo- chamou a atenção por não aparecer apenas no
brecimento de seu ego em grande escala. No referido grupo. Poderia-se pensar na ausência
luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; de objeto para identificação em função da per-
na melancolia, é o próprio ego. O paciente da, mas nos parece não ser o caso – porque
representa seu ego como sendo desprovido existem outras relações de objeto e porque fo-
de valor, incapaz de qualquer realização e ram feitas referências à ocupação e ao supos-
moralmente desprezível; ele se repreende e to desejo do morto. Como a maior parte das
se envilece, esperando ser expulso e punido, lembranças do morto é negativa, isso pode
tal qual as referências de que acenam o gaú- dificultar a identificação. Mas o que chama a
cho como nãoreconhecido, desvalorizado e atenção é que na categoria das Influências são
rejeitado pelos demais (Freud, 1923/1974). feitas referências a que pai/mãe vivo sugere
ao filho profissões identificadas com o gênero
Interesses profissionais e luto do morto.9 Dessa forma, algumas mães pra-
ticamente impuseram o desejo de que a filha
Para todos os efeitos, esse grupo apre- escolhesse alguma Engenharia, bem como foi
senta uma distribuição harmônica de inte- sugerido a um sujeito masculino que perdera
resses profissionais, sendo que é o único a
apresentar também a categoria desejos como

8 Especialmente no caso da morte de um dos pais, o adolescente é afetado não apenas pela perda emocional
significativa, como também pela mudança na responsabilidade familiar e na vida cotidiana (Riera, 1998).

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Orientação Vocacional Ocupacional 153

a mãe, e que se ocupa das tarefas domésticas, afirmar que, se estivesse vivo, estaria apoian-
que cursasse Hotelaria. do sua escolha. A idealização do falecido, ma-
nifesta pela tendência a ignorar qualquer de-
Entendemos essa situação como uma es- feito e a exagerar as características positivas,
colha profissional baseada em uma identifica- também é um indicador de que o luto está
ção com o morto e com uma fantasia de união presente (Stroebe e Stroebe 1987, citados por
com ele que, na fala dos sujeitos, é mais por Bromberg, 1998).
desejo do vivo do que deles próprios. Fenichel
(1981) explica que é preciso identificar Nesse grupo, namorados e tios aparecem
como pessoas influentes, sendo importante
quais são as ideias que, inconscien- destacar que em todos esses casos essas pessoas
temente, se ligam ao conceito de morte. ocupam o lugar de pai/mãe falecido(a) no sen-
Há vezes em que essas ideias são de ín- tido de que é a pessoa com quem mais os ado-
dole libidinal e se fazem inteligíveis pela lescentes pesquisados mantêm contato.
história do paciente. Por exemplo, estar
morto significa reunião com uma pessoa Algumas verbalizações são feitas no sen-
morta. (p. 195) tido da não aceitação das influências que de-
vem ser ignoradas. Quando a relação pais-filhos
Talvez por isso, na categoria Dependên- se dá de forma harmoniosa, as opiniões dos
cia versus Independência, é expresso o desejo pais permanecem valorizadas sem que haja aí
de se afastar do vivo. Por um lado, existem submissão, e a família permanece sendo sen-
queixas dessas imposições profissionais; por tida como um fator estabilizador e apoiador.
outro, de forma mais clara, o vivo faz movi- Não é o caso desse grupo, que faz diversas
mentos de engolfamento do filho para subs- queixas de abandono e expressa sentimentos
tituir o morto ou para aplacar sua solidão. de raiva para com pai/mãe vivo(a) e demais
Segundo Stroebe e Stroebe (1987), citados familiares.
por Bromberg (1998), o rechaço ao vivo, bem
como uma irritabilidade em relação à família Solidão
e aos amigos, pode ocorrer por sentir que não
entendiam ou não gostavam tanto do morto, O grupo afirma sentir falta não apenas
ou não entenderam o luto ou mesmo por eles de pai/mãe morto(a), mas também do vivo.
não substituírem o morto. Inúmeras são as queixas de que o vivo ou au-
senta-se muito do lar, ou conversa pouco.
Ainda com relação às influências, na
fala dos sujeitos, embora também existam • “No fim de semana quando eu quero
percepções de que os pais impõem seu dese- que ela (mãe) esteja ali para conversar,
jo, na maioria das vezes, atuam no sentido de ela sai com alguém.”
discordar ou questionar a escolha dos filhos,
deixando-os em dúvida. Afirmam que, em • “Eu sinto falta da minha mãe porque
geral, os pais dão o contra quando o mercado ela viaja a semana inteira.”
não é bom. Essa grande preocupação do vivo
com relação a garantir o mercado pode estar • “Meu pai eu vejo só à noite.”
relacionada à vivência da morte, que torna • “Eu me sinto como ela, como se não ti-
real a visão de que os pais não são eternos e
os filhos terão que prover meios de sustento vesse pai nem mãe.”
na falta deles. Poucas são as verbalizações
que denunciam tanto as imposições quanto à Algumas tentativas são feitas no senti-
neutralidade dos pais. do de amenizar o sentimento de solidão. Na
maioria das verbalizações, a tentativa consis-
As referências feitas a pai/mãe morto(a) te em substituir a falta dos pais por um na-
com relação à influência são no sentido de morado mais velho que, segundo o grupo,
dá atenção e proteção. Percebemos aqui claros
indicadores de confusão de objeto em falas

9 Pesquisando gênero e escolha profissional, Lassance (1987) e Strey (1994) apontaram para uma tendência à
qualificação das profissões como tradicionalmente femininas ou masculinas.

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154 Levenfus, Soares & Cols.

explícitas, como: eu não sei se eu o enxergo como Em raras ocasiões, houve verbalizações
um pai ou como um namorado. nas quais os sujeitos declaram estar decididos
quanto à profissão.
Também fazem tentativas de aplacar a so-
lidão buscando a companhia de amigos, mas Existem estudos acerca deste tipo de
é referida como não sendo suficiente. O grupo comportamento, em que as escolhas ocupa-
aponta que tios e outros parentes próximos cionais seriam presididas por uma progres-
também não substituem afetivamente o lugar siva eliminação de alternativas e pelo reforço
do pai morto. É comum que pessoas enluta- das alternativas não excluídas, restringindo
das apresentem dúvidas quanto aos motivos gradativamente a gama de opções e aumen-
daqueles que oferecem ajuda. A sensação de tando a certeza da decisão (Hershenson e
solidão, mesmo na presença de outras pesso- Roth, 1966, citados por Levenfus, 1997b). Es-
as, e crises periódicas de intensa solidão, são ses mesmos autores afirmam que o processo
manifestações frequentes na situação de luto é diferencial e específico de cada sujeito e tem
(Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom- relação com a base experiencial e com a sua
berg, 1998). história pessoal. Assinalamos aqui que essa
forma de escolha ocorreu com ênfase apenas
Tudo isso redunda em um doloroso sen- no grupo de jovens com perda parental. Asso-
timento de vazio e desesperança. ciamos essa situação àquilo que Bohoslavsky
(1982) resumiu no termo deuteroescolha10. Ou
O negativo das profissões seja, como o adolescente escolhe escolher, po-
dendo implicar, inclusive, não escolhas, esco-
Uma visão acerca das profissões, que lhas por omissão.
classificamos como negativa, foi característica
desse grupo. Predominam as falas em que o Pouca informação
sujeito revela que a escolha ocorre por elimi-
nação do que não gosta, restando algo em que Esse grupo, assim como os demais pes-
pensar, as sobras: quisados, apresenta busca ativa de infor-
mações; no entanto, elas foram reveladas de
• “Pega todas as profissões e começa a forma superficial. Referem desejo de obter
descartar tudo aquilo de que você não mais informações demonstrando consciência
gosta.” do despreparo. A pesquisa realizada por Fris-
chenbruder (1999) revelou que:
• “Você vê aquelas poucas coisas que so-
braram.”

As demais verbalizações correm todas no Estados depressivos nos adoles-
sentido de que o sujeito só identifica coisas de centes que buscam escolher a profissão
que não gosta, os pontos negativos e os senti- estão associados a pouca informação
mentos de que nada o atrai: vocacional, a menor satisfação com a in-
formação profissional obtida no proces-
• “É como ele, eu só sei o que eu não so exploratório, a menor certeza de suas
quero.” preferências vocacionais, a menor per-
cepção das semelhanças entre suas op-
• “Eu não quero medicina, eu não quero ções profissionais e as possibilidades de
engenharias.” trabalho oferecidas no mercado e a uma
exploração do self e do meio realizada
• “A gente sempre tira o pior da profis- de forma assistemática. (p. 60)
são.”
Algumas verbalizações foram feitas afir-
• “A gente nunca olha o lado bom da mando saber tudo de todas as profissões. Estas
profissão.”

10 O termo deuteroescolha foi referido por Bohoslavsky (1982, p. 108). Criou-se esse termo em analogia ao de
deuteroaprendizagem (aprender a aprender), para referir-se ao processo de como o sujeito escolheu esco-
lher.

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Orientação Vocacional Ocupacional 155

foram realizadas todas por um mesmo sujeito vivo se case de novo ou de que o namoro acabe.
que apresenta traços de comportamento com- Uma estratégia para não perder o vínculo com
pulsivo e onipotente. o vivo, para não magoá-lo, é procurando fazer
tudo o que o vivo deseja, inclusive com relação
Esse traço compulsivo está presente tam- às suas escolhas. Ao optarem, muitas vezes, os
bém nas verbalizações relacionadas a dificul- jovens estarão priorizando exageradamente as
dades financeiras que ocorreram depois da opiniões e os valores da família, sendo muito
morte. Em geral, as queixas referem-se a limi- comum o jovem sentir que, com sua opção, es-
tações e à perda financeira, mas, em alguns ca- tará beneficiando ou magoando algum familiar
sos, a perda não interferiu no padrão de vida. (Andrade, 1997).
Encontramos relatos de raiva do destino em
que a morte tenha ocorrido e sentimentos de Os orientandos com perda parental fo-
injustiça, como, por exemplo: ram os únicos a fazer projetos de casamento,
que denominei como Futuro da dependência, ou
• “A gente era tri bem financeiramente seja, planejam casar-se e dividir as despesas
quando o pai era vivo.” da casa com o parceiro. Essa afirmação, como
se pode ver no Capítulo 10, é feita de forma
• “Eu seria exatamente como minha pri- totalmente oposta pelos orientandos filhos de
ma (se o pai estivesse vivo).” pais separados. Isso leva a pensar que o fato
de terem perdido por morte um dos pais não
As referências a comportamentos compul- atrapalha a ideia de, no futuro, vir a constituir
sivos ocorreram como nos exemplos a seguir: uma família.

• “Eu tenho em mente trabalhar sábado, É importante registrar a verbalização a
domingo, feriado, 24 horas por dia.” respeito da ambivalência entre pais e filhos
com relação à independência e aos limites.
• “Quero poder adquirir televisão, vide- Embora tal fato pareça ser comum aos demais
ogame, videocassete, tudo.” adolescentes, esse registro só foi possível de
ser coletado na análise de conteúdo desse gru-
Tensão, inquietação atípica, hiperativi- po:
dade, frequentemente sem completar as ta-
refas (fazer coisas apenas para se manter ati- • “O jovem de hoje é meio estranho, nós
vo), também são citadas como manifestações ficamos surpresos com a reação dos
do luto (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por pais.”
Bromberg, 1998). Aqueles que labutam sem
parar sentem necessidade incessante de traba- • “Você fica esperando um NÃO e ela
lhar, a fim de não sentir uma tensão interna diz PODE.”
insuportável (Fenichel, 1981).
• “Você começa a pensar que ela não ta
Futuro da dependência nem aí para mim, está me largando de
mão.”
A perda financeira também aponta para
uma interferência na escolha da universidade. • “Se começa a prendê-lo, aí ela prende
Citam as universidades que consideram mais você demais.”
caras ou baratas, com pagamento facilitado,
e o desejo de ingressar preferencialmente em Conforme os achados de Liljja (1998), por
uma universidade pública. mais paradoxal que pareça, em seu processo
de independização e autodescoberta, o ado-
Por fim, na contrapartida de um anseio lescente necessita tanto de autonomia quanto
por independência, existem também expres- de contenção. Ele quer descobrir o mundo e
sões de medo de perder o vivo ou o namora- a si mesmo, mas necessita da proteção e con-
do.11 O medo é manifesto pelo temor de que o tenção familiar. A ausência dessa contenção e
de limites claros (autonomia total) é percebida

11 As referências ao namorado aconteceram em um caso em que o namorado é a única referência viva do
sujeito.

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156 Levenfus, Soares & Cols.

pelo adolescente como abandono, causador te às queixas de solidão pela ausência do vivo
de terríveis angústias. –, incapazes de dar limites claros e exercer a
função de reverie (Bion, 1994), provocando no
Os pais desejam que o filho se indepen- adolescente sentimentos de rejeição, este não
dize e, ao mesmo tempo, temem essa inde- encontrará condições favoráveis para o seu
pendização. Vivenciam a crescente autono- desenvolvimento e para a aquisição de novas
mia dos filhos de modo duplo: por um lado, aprendizagens que lhe possibilitariam o en-
sentem-se contentes ao ver o filho crescer e frentamento de novos desafios e a aquisição
desprender-se gradualmente. Por outro lado, de uma identidade (Liljja, 1998).
podem sentir a separação como algo sofrido e
vivenciam o crescimento do filho como uma O indivíduo que se encontra dominado
perda. Os movimentos de autonomia do filho por ódio, inveja ou ciúme dos pais poderá ser
poderão ser sentidos pelos pais como rejeição incapaz de formar símbolos, impossibilitando
da família, provocando movimentos de hosti- progressos, porque não há meio de gerar o
lidade dos pais para com os filhos. pensamento (Bion, 1974).

Por sua vez, os filhos desejam um espa- CONSIDERAÇÕES FINAIS
ço de privacidade longe dos pais e, ao mesmo
tempo, temem essa autonomia que, muitas Os jovens enlutados que buscaram
vezes, lhe é concedida de forma ambivalente. auxílio no momento de realizar a escolha
O jovem que escolhe e aceita crescer, de certo profissional, consumidos por dúvidas, apre-
modo, destrói, desestrutura o grupo familiar, sentaram uma série de fatores coadjuvantes
pois está dando um grande salto no sentido ou comorbidades que precisavam ser solu-
da separação, o que acarreta uma enorme re- cionadas antes, para que o adolescente dis-
estruturação de si mesmo e de todo o grupo pusesse de energia psíquica a fim de investir
familiar. Isso torna mais fácil entender o sig- na tarefa da escolha.
nificado que tem as expectativas da família a
respeito da carreira que o adolescente escolhe. Para fazer uma escolha ajustada, pressu-
É como se fosse uma forma de compensar e põe-se a existência da capacidade de adapta-
reparar os danos causados. Nas famílias para ção, de interpretação e de juízo da realidade,
as quais o sentimento de destruição é muito de discriminação, de hierarquização dos ob-
intenso, o filho fica culpado e/ou não conse- jetos e, em especial, capacidade para esclare-
gue escolher, ou procura escolher coisas que cer a ambiguidade e tolerar a ambivalência
não estão tão ligadas a seu interesse pessoal nas relações de objeto; por isso, propomos
como ao interesse da família (Bohoslavsky, que esses fatores sejam todos investigados e
1982; Levenfus, 1997a; Liljja, 1998). tratados em conjunto no processo de Orienta-
ção Vocacional (Bohoslavsky, 1982; Levenfus,
Se os pais são percebidos como forte- 1997c e 1997d).
mente hostis ou negligentes – e isso nos reme-

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Orientação Vocacional Ocupacional 157

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12

A não escolha profissional
em jovens simbiotizados1

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

Observamos, na prática com adolescen- der se ver. O momento da escolha pressupõe,
tes em processo de Orientação Vocacional, di- portanto, o estabelecimento de vínculos dife-
versos níveis de indecisão ou caracterizações renciais com os objetos.
da escolha profissional relacionados ao grau
e à qualidade de resolução do vínculo simbi- Alguns jovens que buscam auxílio para
ótico. Percebemos também que adolescentes resolução vocacional apresentam pais que
com antecedentes de grandes dificuldades na se identificam excessivamente com o filho e
fase de separação-individuação2 se apresen- sobre ele projetam expectativas onipotentes
tam, perante a eleição vocacional, bastante (Levenfus, 1997b). O pai frustrado pode ten-
conflitados (Levenfus, 1993, 1997b). tar experimentar, por meio do filho, o sucesso
que nunca obteve. O pai que teve excelente
De fato, Pfromm Netto (1976) já situa- desempenho pode ficar frustrado e ressentido
va a escolha ocupacional e o ajustamento ao caso o filho não alcance façanha semelhante.
trabalho como elementos constitutivos de Não raro, pais que sentem o filho como uma
um processo de diferenciação e integração extensão sua regulam a autoimagem por
sucessivos, desenvolvido ao longo da vida meio do sucesso daquele. Se o filho não for
do indivíduo. bem-sucedido, a autoimagem desses pais fi-
cará ameaçada. Esses jovens vêm em busca
Do ponto de vista clínico da Orientação de algo que os realize, desde que preencha a
Vocacional, Bohoslavsky (1982) já salientava expectativa dos pais. Mostram-se conflitados
que o momento de seleção e escolha profissio- e culpados frente ao sentimento que lhes des-
nal coloca em jogo a função (do ego) de dis- perta perceberem-se diferentes daquilo que
criminação. Segundo ele, é necessário discri- lhes foi projetado.
minar tanto objetos internos quanto externos,
e o fracasso da função de discriminação pode Buscando aprofundar essa questão, reu-
conduzir a projeções e introjeções maciças que nimos em um grupo de Orientação Vocacional
comprometem a capacidade de poder ver e po- apenas orientandos que manifestaram dificul-

1 O conflito básico da crise adolescente, conforme Paz (1986), é a elaboração do vínculo de dependência sim-
biótica, a remoção de suas relações objetais. Os vínculos simbióticos persistem em certos níveis, mesmo no
adulto, coexistindo com aspectos mais diferenciados e individualizados da personalidade. Apesar disso,
um certo grau de dessimbiotização é necessário para que se alcance um estado de autonomia e emancipação
(Mahler, 1982; 1993). O movimento de dessimbiotização aponta a existência de um impulso à diferenciação
e individuação gradativas, visando à aquisição e ao estabelecimento da identidade pessoal (Osório, 1995).

2 Refiro-me ao processo de separação-individuação teorizado por Mahler (1982, 1993). Esse tema encontra-se
detalhado em Levenfus (1997b).

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Orientação Vocacional Ocupacional 159

dades de resolução do segundo processo de dade de maternagem. Na hipótese de fixação,
separação-individuação.3 poderá preservar o estado simbiótico e estabele-
cer uma relação de dependência infantil em sua
A primeira reunião grupal foi gravada e vida amorosa. Na possibilidade de transformar
posteriormente transcrita e estudada na for- esse modelo relacional primitivo em algo fun-
ma de Análise de Conteúdo (Bardin, 1991). cional, como parte do seu self e de sua identida-
de masculina, pode tornar-se um pai maternal,
O conteúdo da conversação exposta pelo presente e provedor.
grupo apresentou características marcan-
tes, considerando as observações já pontua- O PROCESSO MOBILIZA DIVERSAS
das por Bohoslavsky (1982) e por Levenfus ANSIEDADES
(1997b, 2001), especialmente se considerados
os outros grupos pesquisados.4 A individuação adolescente é acompa-
nhada de sentimentos de isolamento, de soli-
Inicialmente abordaremos a questão ob- dão, de desamparo, de desespero, de confusão
jetal pertinente a esse grupo para, em seguida, e outros que justificam as mudanças de humor
apresentarmos de que forma essa questão in- da adolescência (Blos, 1996). Representa, con-
terfere no processo de escolha profissional. forme Blos (1994), o fim irrevogável de alguns
dos mais caros sonhos megalômanos da in-
A INDIVIDUAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA fância. Os processos de desprendimento e de
diferenciação na adolescência são vividos com
O conflito básico da crise adolescente é a angústia em vista da desorganização e de de-
elaboração do vínculo de dependência simbió- sestruturação da precária identidade adquirida
tica, a remoção de suas relações objetais (Paz, até o momento (Paz, 1986).
1986). Muito semelhante ao processo infantil
– e igualmente complexo – o processo de in- Tendo em vista as ansiedades mobiliza-
dividuação na adolescência deve constituir das pela ameaça da perda do vínculo simbió-
um passo final a um senso de identidade (Blos, tico residual da infância, Osório (1995) aponta
1994). que o adolescente tenta restaurar a situação
original com a adesão a substitutos aleatórios
Esse processo de discriminação eu-não- dos primitivos objetos parentais. É por isso
eu não ocorre repentinamente. Além disso, que os jovens se identificam maciçamente
seguindo o princípio epigenético das aqui- com seus ídolos, apresentam um caráter pos-
sições graduais e sucessivas, também tal di- sessivo em suas relações de amizade ou, ain-
ferenciação nunca se completa por inteiro, e da, supervalorizam o objeto amado quando se
certo grau de simbiotização se mantém inde- apaixonam. Existe, assim, um desejo de recu-
finidamente (Osório, 1995). perar um estado de fusão com o outro frente
à ameaça de separação e perda definitiva do
Se um remanescente da parte fusionada vínculo simbiótico inicial, ameaça acarretada
subsiste em toda a personalidade, é de sua pela intensificação dos mecanismos de dife-
amplitude que depende o déficit na personifi- renciação que agora ocorrem.
cação, no sentido de realidade, no sentimento
de identidade, na confusão de papéis mascu- Em contrapartida a essa tendência sim-
linos e femininos, no déficit na comunicação biotizante ou de manutenção do estado origi-
em plano simbólico como incremento dela no nal de indiferenciação com a matriz familiar,
plano pré-verbal (Paz, 1986). Osório (1995) aponta a existência de um im-

Levisky (1995) cita, por exemplo, a possibi-
lidade de um rapaz se fixar ou transformar suas
primeiras experiências simbióticas em capaci-

3 Os sujeitos inscreveram-se para um processo de Orientação Vocacional oferecido para fins de pesquisa
e preencheram um questionário prévio. Foram selecionados para esse grupo aqueles que preencheram
critérios característicos dentro dessa temática – tais como dificuldade de ingresso na escola fundamental,
somatizações e outros – sem que os sujeitos soubessem que estavam inseridos em um grupo homogêneo.

4 Foram pesquisados, além de grupo com jovens simbiotizados, outros três grupos: jovens que perderam
(por morte) um dos pais; jovens filhos de pais separados; jovens que não apresentam nenhuma das nuanças
levantadas nos grupos anteriores. Ver Capítulos 11, 10 e 4, respectivamente.

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160 Levenfus, Soares & Cols.

pulso à diferenciação e à individuação grada- mes paternos, agora, foram incorporados ao
tivas, visando à aquisição e ao estabelecimen- próprio sistema ético, e não mais por medo de
to da identidade pessoal. desagradar aos pais e defrontar-se com inten-
sos sentimentos de perda.
Bleger (1973), citado por Levisky (1995),
assinalou que a problemática do adolescente Desidentificação
consiste em “como desconectar-se a partir da
fusão primitiva e organizar outro tipo de co- É um processo necessário para a forma-
nexão ou relação” (p. 99). Essa parte fusiona- ção da identidade. O sujeito, antes identifica-
da da personalidade funciona como se fosse do com o objeto, passa a perceber-se de forma
um protótipo identificatório, com o qual a nova diferenciada, não totalmente identificado com
identidade em formação se compara, se des- o objeto.
vincula e se transforma, em grande parte, em
elementos que comporão a identidade adul- Muitos jovens apresentam dificuldade
ta. em desconectar-se dos objetos primitivos ao
nível da desidentificação. Conforme Cassor-
Desidealização la (1991), aspectos das múltiplas identidades
anteriores (ou múltiplas facetas da identida-
É o processo pelo qual o jovem passa de anterior) são desinvestidas para que o in-
quando percebe os objetos de forma mais rea- divíduo possa dar outro curso à sua história.
lista, menos onipotente e idealizada de como O indivíduo necessita se desvencilhar das
imaginara. identidades mais primitivas e se reidentificar
a partir da escolha de novos objetos. Embo-
O jovem apresenta grande resistência em ra carregado de dor e culpa, em vista do luto
deixar para trás as ligações objetais infantis que o acompanha, tal processo é fundamental
que tão importantes foram para a sobrevivên- para a construção de uma nova identidade e
cia psicológica e para perpetuar a crença na de um novo modelo de vida.
perfeição. Essa noção é duramente desafiada
na adolescência, levando o jovem a passar por Cabe pontuar ainda que a desidentifi-
um processo de desidealização com um efei- cação é um processo normal e esperado, di-
to desilusório mais ou menos devastador no ferindo do que se classifica como abandono
sentido de self do adolescente. prematuro, uma desconexão rápida dos ob-
jetos primitivos. Nesses casos, podem surgir
Grande parte do que tinha sido útil no profundos sentimentos de vazio, e Cassorla
superego diminui em importância e agora se (1980) aponta para a probabilidade de esses
torna parte do ego, ficando cada vez mais in- casos evoluírem para o suicídio, somatiza-
corporada à orientação básica com a qual são ções ou para a organização de uma pseudo-
tomadas as decisões. As diretivas que ajudam maturidade representativa de um falso self.
o indivíduo a decidir o que é aceitável agora
dizem respeito a normas sociais e culturais e Duas acepções acerca da separação
a padrões ideológicos que são superiores aos
ditames paternos (Lidz, 1973). É importante manter distintas as duas
acepções que a psicanálise tem acerca da se-
Tendo se tornado alguém capaz de per- paração. Uma acepção – significa que uma pessoa
ceber os pais de uma perspectiva mais adulta, deixa uma outra com a qual estabelecera uma rela-
menos onipotente e como sendo dissociados; ção de confiança. O indivíduo envolvido sabe
possuindo tanto capacidades como inadequa- quem é o outro, quem lhe falta, quem é ele
ções e com o superego mais ameno, o adoles- mesmo e o que a falta da pessoa o faz sentir.
cente tem mais probabilidade de transformar Admite-se desde sentimentos como solidão,
as emoções em sinais aliados para promover tristeza, raiva ou dor, até alívio e liberdade,
comportamentos e atitudes maduras e saudá- sem que um exclua o outro. Nesse contexto, o
veis (Lidz, 1973). outro é percebido como livre para ir e vir, para
escolher seus relacionamentos ou renunciar a
Dessa forma, conclui Lidz (1973), um
jovem poderá, inclusive, escolher a profissão
que fora sugerida pelos pais porque os dita-

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Orientação Vocacional Ocupacional 161

eles. Essas separações não implicam ruptura Esse grupo quase não fala
do vínculo afetivo com o objeto ou perda do
amor porque o objeto confiável não está de O grupo de Orientação Vocacional
fato abandonando o sujeito (Quinodoz, 1993). composto por jovens supostamente im-
Nas palavras desse autor: bricados em um processo de separação-
-individuação mal resolvido apresentou gran-
Nesse contexto, a separação adqui- de diferencial. Foi o grupo com a menor quan-
re um caráter provisório pois implica a tidade de verbalizações, chegando a apresen-
esperança do retorno, mesmo que toda tar menos que a metade da média dos demais
separação desperte o temor sempre pos- grupos. O debate transcorria de forma tranca-
sível de uma perda real definitiva ou de da,5 os assuntos pareciam não se desenvolver.
uma perda de amor. Em outros termos, a Apesar da pouca quantidade de verbaliza-
ausência da pessoa investida toca o indi- ções, qualitativamente nos pareceu suficiente
víduo em seus afetos, sem causar dano para entender o processo, até mesmo porque
à estrutura psíquica de seu ego. Em tais a alexitimia6 é característica da problemática
condições, no caso de perda – isto é, de psicossomática – asma – também apresentada
separação definitiva – existe dor psí- por este grupo.
quica ligada ao trabalho de luto, mas a
perda do objeto não provoca a perda do Muita indecisão e dúvida
ego. (p. 44)
Quanto à escolha, predominam verba-
Na outra acepção, o indivíduo apresenta lizações com conteúdo de muita indecisão e
sinais de angústia que indicam que a integri- dúvida: eu estou bem dividida.
dade de seu ego se sente ameaçada, incons-
cientemente, pela perspectiva do perigo de Nas situações nas quais o adolescente
separação de uma pessoa considerada impor- ainda não conseguiu estabelecer vínculos di-
tante. Nesse caso, persiste uma relação muito ferenciais com os objetos, a dificuldade da es-
particular de apego entre ego e objeto carac- colha pode retratar uma dificuldade pessoal
terizada, entre outras coisas, pela persistência frente à capacidade de discriminação e dife-
de partes do ego insuficientemente diferencia- renciação tanto das profissões quanto de seus
das de partes do objeto (Quinodoz, 1993). próprios aspectos. Podem manifestar indife-
rença (às vezes eu penso em ser outra coisa), como
Esse mesmo autor refere ainda que os se as profissões lhe parecessem equivalentes e
processos de diferenciação e de separação es- intercambiáveis.
tão estreitamente relacionados com o trabalho
de luto. Justifica isso afirmando que aceitar Conforme pesquisa fenomenológica rea-
separar-se de outra pessoa implica não só a lizada por Magalhães e colaboradores (1998),
capacidade de efetuar um trabalho de luto da os indivíduos indecisos com relação à esco-
relação entre duas pessoas – uma aceitando lha profissional apresentam dependência em
separar-se da outra – mas também a capaci- seus relacionamentos interpessoais dentro e
dade de realizar o trabalho de luto em termos fora do grupo familiar, redundando em pouca
de ego, o que supõe a renúncia à fusão com o autonomia para o comportamento explorató-
objeto do qual se separa – um aceitando dife- rio. Esse aspecto é identificado na formulação
renciar-se do outro. pobre, ou inexistente, de perspectivas de fu-
turo relevantes vocacionalmente e também na

5 Os pacientes psicossomáticos com pensamento operatório apresentam um tipo de relação, chamada de rela-
ção branca, devido à ausência de associação entre os fatos, uma vez que estes são relatados como isolados,
desvitalizados. A palavra expressa o relato da ação sem ideação fantasiosa, limitando-se aos gestos, assim
como o vincular-se à materialidade dos fatos relatados, não se conectando aos do passado, nem aos que
possam ocorrer futuramente. O relato é feito como uma sucessão de fatos privados de vitalidade, chegando
ao intento de forma pragmática e concreta, sem associações (Barros, 1995).

6 A alexitimia se apresenta como uma incapacidade de associar os afetos às representações mentais, não ha-
vendo palavras para as emoções (Barros, 1994, 1995).

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162 Levenfus, Soares & Cols.

ausência de uma atitude antecipatória e pla- que apresentou a menor quantidade de busca
nificada, a qual seria resultante de uma cons- ativa por informações. Todas as demais ver-
ciência autônoma da necessidade de decidir. balizações foram no sentido de descrever de
A autonomia é prejudicada por interferência forma muito superficial aquelas que dizem
de aspectos afetivos e, embora sujeitos inde- conhecer:
cisos tenham a consciência da necessidade de
cumprir a tarefa da decisão ocupacional, fato- • “A área da Medicina é muito ampla,
res de personalidade, interpessoais e afetivos sabe, tem muita coisa, sabe.”
boicotam os comportamentos independentes
e racionais para a solução do problema. • “Engenheiro constrói casa, prédio,
tudo relacionado com cálculo.”
Na teorização de Mahler (1982), esse
fenômeno encontra explicação se considerar- • “RP é legal, você vai organizar festas.”
mos a segunda subfase do processo de separa-
ção-individuação (a de exploração) que ocorre Parecem mais alheios à realidade exter-
entre o 8o e 16o mês. Inicialmente, a explora- na e com pouco comportamento exploratório.
ção é caracterizada pelo início da capacidade Pesquisas recentes na área apontam que os
da criança de separar-se fisicamente da mãe. sujeitos indecisos vocacionalmente caracteri-
Após vem o período de exploração propria- zam-se por pouca motivação e pouca inicia-
mente dito, caracterizado pela locomoção em tiva para explorar alternativas ocupacionais
postura vertical. A criança passa a demonstrar (Magalhães, 1995; Magalhães et al., 1998).
uma aparente falta de interesse pela mãe, com
grande investimento no exercício de suas fun- Sem influência e sem desejo dos pais
ções autônomas; no entanto, necessita ainda
muito de sua mãe como ponto estável para É o único grupo pesquisado que, ao fa-
preencher a necessidade de reabastecimento lar em influências e em ocupações de pesso-
emocional por meio do contato físico. as próximas, refere-se apenas aos pais. Nos
demais grupos, os jovens falaram de amigos,
A mãe que se torna ambivalente, reagindo professores, namorados, avós, vizinhos, en-
ao distanciamento do filho, provavelmente di- tre outros. Isso demonstra como esses jovens
ficultará sua separação; aquela que o estimula tendem a ficar encerrados na relação familiar
às novas descobertas, por sua vez, oportuniza nuclear, alheios aos contatos com o mundo
que ele desloque seu interesse a outros objetos externo.
e ao mundo que o rodeia. Para separar-se é ne-
cessário antes estar unido por um vínculo se- É quase nula a expressão de desejos por
guro em que predomine amor, aceitação, e não parte dos pais. Imposição não aparece nesse
hostilidade e rejeição. Também é necessário um grupo. Segundo eles, a forma de os pais inter-
encorajamento por parte dos pais de atitudes ferirem é com informações sobre as profissões,
exploratórias fora do círculo familiar. com tentativas muito indiretas de deixar trans-
parecer seus desejos. Na fala desses jovens, na
Para além do grupo familiar está o traba- maior parte das vezes, os pais dão apoio incon-
lho como um importante fator de aproximação dicional às escolhas dos filhos. Não parece exis-
do indivíduo com a realidade. Por meio dele, tir espaço para discórdias ou raivas:
o indivíduo está preso a uma parte da realida-
de, que é a comunidade humana, proporcio- • minha mãe e meu pai sempre me
nando uma valiosa oportunidade de descarga apoiaram;
dos impulsos libidinais, componentes narcísi-
cos agressivos e eróticos (Blos, 1994). • eu tenho certeza de que se eu quisesse
fazer Educação Física eles iam estar a
Alheios à realidade externa e baixo índice mesma coisa;

de informação • eles só dizem que sabem de outras fa-
culdades;
O grupo composto por jovens simbioti-
zados, quando comparado aos demais, foi o • falam em outras profissões só para me
dizer o que que é; para mostrar o cam-
po que tem mais ou menos mercado.

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Orientação Vocacional Ocupacional 163

Pela observação de Bowlby (1998), se Identificado com a doença, foi o único
entende que pessoas com ansiedade de sepa- grupo a relacionar o desejo de cursar Medici-
ração exacerbada não conseguem demonstrar na em vista de ser asmático e querer ajudar a
raiva e ódio devido ao medo de serem aban- outros asmáticos a lidar com a problemática:
donadas novamente. Portanto, esse ótimo cli-
ma mascara dificuldades de relacionamento • “Influenciou eu querer Medicina por
familiar. Estudos apontam que bons níveis de causa da asma.”
saúde familiar, muitas vezes, encontram-se
associados não somente a núcleos que favo- • “Acho que um pouco tem a ver com
recem a expressão de carinho, ternura e afeto, isso.”
mas também de agressividade, raiva e hostili-
dade (Wagner, Ribeiro, Arteche e Bornholdt, Nesse sentido, Labate e Cassorla (2000)
1999). perceberam, em sua pesquisa com profissio-
nais da saúde que lidam com câncer, que eles
Nas poucas falas em que registramos in- frequentemente são identificados com as fan-
fluência dos pais, notamos a marca da indife- tasias e ansiedades do paciente. Concluíram
renciação: que esses profissionais escolhem sua área de
atuação movidos principalmente por motivos
• “Sabe aquelas famílias tradicionais que inconscientes.
só têm médicos, aí tem que fazer Me-
dicina.” Quinodoz (1995) observa que as resso-
nâncias corporais permitem analisar as vicissi-
• “Eu não pude ser então você vai ser.” tudes das relações de objeto. Segundo McDou-
• “Às vezes, os pais impõem assim, fazer gall (1987), a criança inicia o destino de doenças
psicossomáticas em seus conflitos primitivos e
a mesma profissão dos pais.” iniciais em sua relação com a mãe. Essa autora
afirma que as pessoas que sofrem de reações
O projeto dos pais nem sempre é único; psicossomáticas graves tiveram um relacio-
ele pode conter uma série de contradições namento muito complicado no início do seu
mais ou menos antagônicas, ligadas a duas desenvolvimento. Quando o trauma psíquico
lógicas: uma que leva à reprodução e outra é precoce, o bebê, por não poder elaborar situ-
que leva à diferenciação. Na lógica que leva ações de tensão, de dor mental ou de uma esti-
à reprodução – e que eu chamaria de indife- mulação excessiva, apresentará manifestações,
renciação – os pais desejam que o filho torne- invariavelmente, de natureza psicossomática
se como eles, que seja a continuação de suas (Mc Dougall, 1989).
vidas, que façam aquilo que eles fazem. Na
lógica da diferenciação, o desejo dos pais é o Pedrozo (1995) explica que:
de que o filho seja alguém, diferente, encora-
jando a singularidade e a oposição (Soares- a localização do self no corpo não
Lucchiari, 1997). é automática, nem está presente no mo-
mento do nascimento. De forma gradual,
PROBLEMAS RESPIRATÓRIOS E o bebê vai se tornando capaz de integrar
MÉDICOS IDENTIFICADOS partes do corpo, sensações físicas, esta-
dos mentais e estados emocionais com a
Todos os participantes desse grupo ajuda do ego materno. A mãe atenta aos
apontaram para histórico de asma, sendo que cuidados físicos com o bebê, ao segurá-
alguns, inclusive, a apresentam na atualidade. -lo, manipulá-lo e ao estar por perto para
Alguns autores relacionaram a síndrome as- atendê-lo, oferece uma moldura, uma
mática a processos identificatórios precoces. sustentação que ajuda a criança a definir
Citados por Dias (1996), Greene e Engel (s/d) e a fortalecer seus contornos em termos
estudaram a qualidade das relações objetais físicos e psíquicos. O bebê então passa
precoces para compreender como o sintoma a ter existência no corpo, com um inte-
asmático se relaciona com conflito entre de- rior e um exterior demarcados por uma
pendência e independência. membrana, e o corpo é sentido como o
centro do self. (p. 90)

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164 Levenfus, Soares & Cols.

O desenvolvimento pleno da psique pos- • “Ataca só quando está muito frio; as
sibilita ao ser humano relacionar-se com a rea- crises vinham de madrugada.”
lidade externa e adaptar-se, ou recusar-se a se
adaptar, criar e fazer suas próprias escolhas. • “Quando dá crise, dá falta de ar; eu
Para relacionar-se com a realidade de ma- quase morria sufocada.”
neira adaptativa, não pode ter havido falhas
excessivas na relação mãe-bebê que abalem a • “Minha mãe tinha asma também.”
estrutura básica de self. Caso contrário, pode
emergir o colapso (breakdown), apontando que Além disso, o grupo refere fragilidade
o excesso de falhas pode resultar no fracasso e risco. Mesmo os que apresentam remissão,
de uma organização de defesa, um estado da abordam a fragilidade com a ideia de que:
psique que não pode ser pensado. O funcio-
namento psíquico normal se expressaria pelo • “A gente não pode fazer nada, tem que
pensar, ou seja, pela aquisição de símbolos. estar sempre cuidando.”
No caso de um colapso, a invasão é de tal pro-
porção, que é impossível representá-la (Paiva, • “corri risco de vida no domingo.”
1985; Winnicott; Shepherd e Davis, 1994; Pe- • “Qualquer gripezinha pode virar uma
tersen, 1997; 2000).
pneumonia.”
Como comentamos anteriormente, essa
pode ser a explicação para a baixa produção Essa questão parece estar intimamente
desse grupo em termos de verbalizações. relacionada à característica particular desse
grupo em referir-se às profissões classifican-
Em seus estudos, Barros (1994; 1995) do-as como leves ou pesadas.
aponta a alexitimia como uma incapacidade
de associar os afetos às representações men- As referências a que profissões relacio-
tais, não havendo palavras para as emoções. nam o leve e o pesado são bastante subjetivas,
Enfatiza que os sintomas, o pensamento ope- atendendo à ótica de cada sujeito. As rela-
ratório e a alexitimia são expressões da pato- ções feitas adjetivando, por exemplo, o Di-
logia dos sentimentos, com consequente difi- reito como pesado porque tem que ler muito, e
culdade no estabelecimento do contato afetivo descartando-o como escolha por esse motivo,
real e na expressão da capacidade de criação ou Relações Públicas como leve porque organiza
e/ou de ciência. festas parece estar relacionada à autoimagem
de doença e fragilidade explicitadas por esse
Quero uma profissão bem leve grupo.

Os jovens desse grupo fizeram diversos A forma como o jovem agrupa as carrei-
comentários com relação a seu histórico de ras por meio de critérios que busca escolher
asma, abordando sintomas, providências to- (como êxito ou fracasso, mais fácil ou difícil,
madas nas situações de crises, hereditarieda- prestígio ou desprezo) – e que, por sua vez,
de, como: aparecem mais relacionadas às fantasias do
que à realidade dessas carreiras –, constitui-
• “Minha mãe me levava direto para o se em um dado diagnóstico que nos confere
médico.” importantes impressões para o tratamento
da conflitiva vocacional (Bohoslavsky, 1982).
• “Minha mãe levantava para dar remé- Esse mesmo autor salienta ainda uma questão
dio.” pertinente à escolha que deve ser observada
com finalidade diagnóstica para estabelecer o
• “Tive que ficar um tempão usando rumo da orientação. Diz respeito à relação que
bombinha.” o jovem estabelece entre a escolha e o objeto,
ou seja, o que denominou de carreiras como
• “O remédio dá taquicardia.” objeto. Consiste em analisar as carreiras como
• “Quando eu tinha um mês eu fui parar objetos do comportamento do adolescente.
Esses podem caracterizar-se como objetos que
no hospital com risco de vida por cau- acompanham, protegem, perseguem, destro-
sa da asma.” em, reparam, retêm, independentemente do
que carreira ou profissão seja na realidade.

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Orientação Vocacional Ocupacional 165

Confusão quanto às classificações afetivas O grupo refere também oscilações de hu-
mor, como:
Nessa situação, os sujeitos podem ma-
nifestar também confusão quanto às classifi- • “Quem me conhece sabe que ou eu es-
cações afetivas que fazem de carreiras e pro- tou rindo ou estou chorando de emo-
fissões, como, de fato, é o teor principal da ção.”
categoria autoconceito do grupo, expressas
em falas como o desejo de ser médica porque McDougall (1989) amplia a noção de ale-
xitimia: não se trata somente de ter palavras
• “Quando vejo na TV crianças nascen- para as emoções, mas também de apresentar
do, eu choro três vezes mais que a mãe uma incapacidade para distinguir um afeto
que está ali.” do outro, seja doloroso ou prazeroso.

• “Se uma criança olha pra mim eu já fico Na contrapartida da emotividade, le-
assim, em estado de graça.” vantamos também referências de sujeitos que
dizem:
As alterações desse momento caracteri-
zam-se, basicamente, por bloqueios afetivos • “Não gosto de conversar com os ou-
ou, pelo contrário, por “namoros” manía- tros.”
cos com uma ou outra porção da realidade
ocupacional (Bohoslavsky, 1982; Levenfus, • “Tem uma amiga minha que diz que eu
1997c). sou superfechada com certas coisas.”

AUTOCONCEITO DE EMOTIVIDADE E • “Quando estou deprimida não gosto
INCOMPETÊNCIA de botar pra fora.”

As verbalizações relativas ao autocon- Isso parece coincidir com a dificuldade
ceito descrevem esses sujeitos como muito respiratória do asmático que é a de não conse-
emotivos. São muitas as referências a ser ex- guir colocar o ar para fora. De uma forma ou
tremamente emotivo. Sobre essa emotividade o de outra, não existem palavras para expressar
grupo apresenta crítica sendo o único que fala sentimentos.
em necessidade de submeter-se a tratamento
psicoterápico: acho que eu tenho que tratar a mi- Pânico
nha loucura. Associações são feitas no sentido
de que tal emotividade atrapalharia o desem- Além das referências à emotividade, exis-
penho profissional do sujeito, o que também tem outras relacionadas a ser tímido e ser apa-
gera sentimentos de culpa por antecipação, vorado. Resgato novamente a expressão: imagi-
como, por exemplo: na o médico chorando, eu ia me apavorar também,
para apontar sinais de Transtorno de Pânico
• “Já pensei que eu podia ser menos a que esses sujeitos estão suscetíveis, além do
emotiva.” sintoma da Asma. É interessante assinalar que
alguns pesquisadores encontraram correlação
• “Imagina o médico chorando, eu ia me entre Transtorno do Pânico e asma brônquica
apavorar também.” (Shavitt et al., 1992; Gentil, 1997 citados por
Menezes, 2000). Portanto, o sujeito não está
• “Já pensei várias vezes: e se nasce uma preparado para o relacionamento com terceiros
criança com problemas e morre?” e denuncia também a falta de continência ma-
terna ou função de reverie7 (Bion, 1975; 1994),
• “Tenho medo às vezes até de me sentir que daria conta do pavor, das ansiedades ca-
culpada.” tastróficas, como antes descrevi, e que pode es-
tar associada ao Transtorno do Pânico.
• “Eu começo a chorar porque eu estava
ali para salvar.”

7 “Reverie é aquele estado anímico que está aberto à recepção de qualquer objeto do objeto amado e, por-
tanto, capaz de receber as identificações projetivas do lactente, sejam sentidos por ele como boas ou más”
(Bion, 1975, p. 59).

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166 Levenfus, Soares & Cols.

Em sua pesquisa, Silva (1996) aponta quanto intelectual e social, podendo, inclusi-
sinais de que o pânico está relacionado a es- ve, protagonizar o aparecimento de enfermi-
tados evolutivos iniciais, que envolvem um dades físicas e mentais.
sentimento de extremo desamparo, levando
a uma reação global, intensa e primitiva do Peculiaridades
organismo.
Alguns temas levantados por esse grupo
Shear e colaboradores (1993), citados foram demasiadamente particularizados. Ou-
por Silva (1996), propuseram um modelo no tros temas que foram abordados pelos demais
qual uma irritabilidade neurofisiológica inata grupos simplesmente foram ignorados por
predispõe ao medo primitivo, que seria au- esses jovens. Todas as questões que vêm a se-
mentado em uma relação com pais não tran- guir ajudam a dar o colorido desse grupo.
quilizadores, resultando em um transtorno
na relação de objeto e persistência do conflito Em suas falas a respeito da Orientação
entre dependência e indepen dência. Haveria Vocacional, foi o único grupo a apresentar hi-
um incremento dos temores catastróficos de póteses sobre o que a pesquisa estaria queren-
abandono e fantasias de perigo catastrófico do observar.
que, em conexão a uma vivência negativa,
dispararia a crise de pânico. A autora cita • “A pesquisa quer ver se a escolha da
também indícios de que os pacientes com profissão pode ter a ver com algum
Transtorno do Pânico vivenciaram uma rela- trauma.”
ção simbiótica com uma mãe superprotetora,
levando à hipótese da ansiedade de separa- • “Pode ter a ver com algum medo que
ção ser um fator significativo no desenvolvi- ocorre quando você está escolhendo a
mento desse transtorno. profissão.”

Por fim, a situação de emotividade e as As hipóteses relacionaram-se à existên-
oscilações de humor podem ser entendida cia de traumas e medos que podem interferir
também pela teorização de Bowlby (1989) na escolha, demonstrando que esses jovens
que reforça a importância de os pais forne- têm algum reconhecimento e sintonia com
cerem uma base segura a partir da qual uma sua problemática.
criança ou um adolescente pode explorar o
mundo exterior e a ele retornar, certos de que É pertinente apontar que, em sua totali-
serão bem-vindos, nutridos física e emocio- dade, os sujeitos foram inscritos por terceiros
nalmente, confortados se houver um sofri- na pesquisa, ou seja, não foi de forma autô-
mento e encorajados se estiverem ameaça- noma que tomaram conhecimento da pesqui-
dos. A consequência dessa relação de apego é sa; demonstraram interesse e inscreveram-se
a construção de um sentimento de confiança – como ocorreu com a maioria dos outros
e segurança da criança em relação a si mes- jovens pesquisados. Referem uma forma to-
ma e, principalmente, em relação àqueles talmente passiva e dependente diante da rea-
que a rodeiam, sejam estes suas figuras pa- lidade:
rentais ou outros integrantes de seu círculo
de relações sociais. Um importante traço • “Uma amiga minha me inscreveu.”
do comportamento de apego é a intensida- • “Eu sou amiga deles e colocou nós pra
de da emoção que o acompanha, o tipo de
emoção que surge de acordo com a relação se inscrever [sic]”
entre a pessoa apegada e a figura de apego. • “Ela colocou meu nome na pesquisa,
Lebovici (1987), desenvolvendo essas ideias,
reforça que, se tudo está bem, há satisfação daí a secretária me ligou pra ver se eu
e um senso de segurança, um sentimento de ia vir.”
estabilidade; mas se essa relação está amea-
çada, existem ciúme, ansiedade e raiva, acar- McDougall (1983) refere também a limi-
retando consequências tanto de ordem física tada capacidade desses sujeitos de desem-
penhar um papel parental protetor para si
mesmos; eles ficam como que esperando que
outra pessoa o faça por eles.

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Orientação Vocacional Ocupacional 167

Além disso, foi o único grupo que não frustrações e a encontrar satisfação por meio
fez referências ao futuro da escolha, nem de tarefas realizadas de forma mais livre, sem
referiu medos de escolher errado. O fato de a ajuda parental.
não encontrarmos essa subcategoria coincide
com sua tendência a fazer mais referências De um processo de separação-individua-
ao passado do que a projeções futuras, bem ção bem-resolvido se espera o surgimento de
como a somatizar sentimentos não verbali- um self bem delimitado, que discrimina o que
zados. está dentro do self e o que está fora e, em ter-
mos relacionais, relaciona-se com o objeto to-
Esse grupo também não apresentou a tal (Ladame, 1978, citado por Liljja, 1998).
categoria Mercado – apresentada por todos
os demais. Não referiu também a categoria Entendendo que a escolha profissional
Identificação; não fez alusões a estar profis- acarretará um elemento que virá a constituir
sionalmente decidido ou à temática univer- a identidade de um sujeito, percebemos que
sidade ou ao vestibular. Parece estar dema- esse elemento só poderá agregar-se genuina-
siado preso ao passado e alheio ao mundo mente a uma identidade que já possua seus
externo. elementos básicos, adquiridos no processo de
separação-individuação (Levenfus, 1997b).
Pensamos que a ausência desses conteú-
dos pode estar relacionada à falta de um “des- Dessa forma, concordamos com a obser-
ligamento bem-sucedido dos objetos familia- vação de Magalhães (1999):
res infantis internalizados. A descoberta de
novos objetos extrafamiliares no mundo exter- os sentimentos de ansiedade e de
no é impedida, retardada ou permanece restri- confusão referidos pelos clientes podem
ta à simples reprodução e substituição”(Blos, ser específicos às tarefas evolutivas que
1996, p. 98). Da mesma forma, é impossível enfrentam, mas também podem estar as-
identificar-se com o que não está fora. sociadas às perturbações recorrentes na
integração da personalidade, quais se-
CONSIDERAÇÕES FINAIS jam, as dificuldades na aquisição de um
sentimento autônomo, coerente e estável
Os autores comentam sobre as dificul- de si mesmo, capaz de reconhecer neces-
dades dos pais em facilitarem o processo de sidades prioritárias, fazer opções e assu-
individuação dos filhos e sobre as dificulda- mir responsabilidades. (p. 172)
des dos filhos em se separarem de seus pais,
chegando a afirmar que a separação de pais Se, como aponta Klein (1981), “o simbo-
e adolescentes é a tarefa desenvolvimental lismo é o fundamento de toda sublimação e
mais importante da adolescência (Paz, 1986; de todo talento, (...); além disso, sobre ele se
Fleming, 1993). constrói a relação do sujeito com o mundo
exterior e com a realidade em geral” (p. 297),
Fleming (1993) entende o processo de au- presumimos o quão comprometidos estão
tonomização do adolescente como estando em para a tarefa da escolha profissional os ado-
estreita interdependência com a individuação, lescentes que, nessa pesquisa, apresentaram-
ou seja, à medida que a individuação se pro- se com dificuldades na resolução do vínculo
cessa, a autonomia cresce. A estimulação por simbiótico ou com traumas que comprome-
parte dos pais leva o adolescente a explorar e tem a função simbólica.
a experimentar o novo, levando-o a superar

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168 Levenfus, Soares & Cols.

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V

TESTES E INSTRUMENTOS PARA DIAGNÓSTICO
E INTERVENÇÃO EM ORIENTAÇÃO

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13

Teste de Avaliação dos Interesses Profissionais (AIP)

uma proposta de interpretação psicodinâmica

Rosane Schotgues Levenfus • Denise Ruschel Bandeira

Durante muitos anos, sem testes de in- -Graduação em Psicologia da UFRGS, foi pos-
teresses validados para Orientação Voca- sível a sistematização do AIP. A partir de então
cional, Levenfus começou a trabalhar com o se observou, dentre outros aspectos, interes-
LIP (Carlos Del Nero, 1984; Levenfus, 2002). ses diferenciados por sexo, nova distribuição
A opção se deu, em 1986, pela busca de um dos interesses por campo, diferentes graus de
instrumento de fácil aplicação individual e co- interesse (interesse real e interesse relativo),2 e
letiva, de rápido levantamento1, que pudesse surgiu a necessidade de criar um novo instru-
ser utilizado como mais um subsídio para o mento que atendesse a essas observações. A
atendimento. construção do AIP surgiu também da necessi-
dade de oferecer aos psicólogos que trabalham
Depois de alguns anos e de mais de duas com orientação vocacional um instrumento
mil aplicações do LIP em Orientação Voca- eficaz, confiável e atualizado na avaliação dos
cional, Levenfus pode perceber o quanto um interesses profissionais. Dessa forma, subme-
teste de interesses profissionais, com caracte- temos o instrumento à avaliação do Conselho
rísticas mais objetivas, pode fornecer também Federal de Psicologia e, desde maio de 2009,
um bom panorama psicodinâmico. os psicólogos brasileiros passaram a dispor de
mais um instrumento validado.
Esse foi nosso ponto de partida para a
construção do AIP. Em conjunto com a Profa.
Dra. Denise Bandeira, do Programa de Pós-

1 Esses requisitos ocorreram em vista de que Levenfus começara a trabalhar em um curso pré-vestibular com
grande demanda de orientandos.

2 Utilizando o LIP em uma sessão com um adolescente “extremamente quieto”, que apresentava muita di-
ficuldade para desenvolver suas ideias, ficando em atitude totalmente passiva frente à orientadora e se
comunicando de forma monossilábica, Levenfus (2002) decidiu aplicar o LIP de um modo diferente. Pediu
ao jovem que ficasse com o caderno de questões, deixando para a psicóloga a tarefa de marcar suas respos-
tas, que lhe seriam comunicadas. O jovem aceitou prontamente a tarefa, parecendo aliviado. Em mais de
80% das questões o rapaz referia não gostar de nenhuma das duas dizendo estar escolhendo uma porque
o teste obrigava.

Levenfus começou a fazer uma marca diferente na folha de respostas: quando o rapaz escolhia uma porque
gostava, marcava um X. Se a escolha era feita por obrigação, marcava apenas /.

Com isso, foi possível fazer um gráfico em dois planos: um como “manda o teste”, e outro, apenas com as
respostas “inteiras” do sujeito. Essa possibilidade resultou em observações que muito contribuíram para
a elaboração do AIP com a possibilidade de sinalizar se a escolha foi feita “por obrigação”, ou seja, se seu
interesse é real ou relativo. Ao repetir esse procedimento com diversos orientandos percebemos grande
receptividade por parte dos mesmos. Era comum que durante o rapport demonstrassem descontentamento
com a ideia de serem obrigados a marcar questões de que não gostavam. Dessa forma, ficaram aliviados,
pois, por meio da marca / poderiam comunicar seu descontentamento com a questão marcada.

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174 Levenfus, Soares & Cols.

CAMPOS DE INTERESSES a investigação do mundo físico, mas no que
diz respeito ao estudo dos fenômenos natu-
O AIP foi construído com base em 10 dife- rais, da reação química (orgânica e inorgânica)
rentes campos de interesses, cabendo ao orien- e das práticas experimentais em laboratório.
tador observar, no conjunto de interesses, quais
profissões atendem às maiores demandas. Se a preferência apresentada for predo-
minantemente pelo CFQ, o orientando pode-
• CFM – Campo Físico/Matemático rá se interessar, por exemplo, por Engenharia
• CFQ – Campo Físico/Químico Química ou por Bacharelado em Química. No
• CCF – Campo Cálculos/Finanças entanto se, junto com esse, também for apon-
• COA – Campo Organizacional/Admi- tado interesse pelo CBS, poderá relacionar
profissões tais como Farmácia, Bioquímica ou
nistrativo Nutrição.
• CJS – Campo Jurídico/Social
• CCP – Campo Comunicação/Persua- CCF – Campo Cálculos/Finanças: É impor-
tante distinguir o interesse pela matemática
são financeira da matemática pura “aplicada às
• CSL – Campo Simbólico/Linguístico engenharias” do CFM. Derivamos para esse
• CMA – Campo Manual/Artístico campo os interesses pelos cálculos do tipo esta-
• CCE – Campo Comportamental/Edu- tístico e financeiro. Como descreveu Del Nero
(1998), essa área relaciona-se à aplicação de re-
cacional gras para determinar quantidades, circunstân-
• CBS – Campo Biológico/Saúde cias por meio de cálculo, avaliação, investiga-
ção, previsão de riscos, bem como ao interesse
CFM – Campo Físico/Matemático: tem re- por previdência, pecúlios e pensões.
lação com a investigação dos mundos físico e
matemático. Diz respeito à aplicação de leis e É comum ouvir jovens referirem “eu
de propriedades dos corpos, bem como a um odeio matemática” e encontrar baixo interes-
tipo de pensamento lógico-dedutivo. Traduz se pelo CFM e alto interesse pelo CCF. No se-
também o interesse pelas ciências que revelam guimento da entrevista torna-se perceptível a
fenômenos da natureza nos campos elétrico/ atração desse jovem por negócios, finanças e
eletrônico e mecânico. atividades afins. Todo sujeito que tenha “es-
pírito empreendedor” estará às voltas com
Todas as profissões que compreendem pensamentos financeiros, calculando o custo-
interesses puros por Física ou por Matemática benefício de seus empreendimentos. Inclusive
estarão cotadas, seja na forma de licenciatura o advogado pode ser muito interessado, por
ou de bacharelado, bem como a maior parte das exemplo, no campo tributário; o arquiteto
engenharias. Dessa forma, por exemplo, se o su- também deve preocupar-se com o custo da
jeito também demonstrar interesse pelo Campo obra. Cabe ao orientador compreender o in-
Físico/Químico (CFQ), poderá nos levar a pen- teresse por um campo conjugado aos demais.
sar em engenharias e em tecnologias relacio- Porém, certamente, o orientador encontrará,
nadas à Química. Se os interesses relativos ao em níveis muito acima da média, o interesse
CFM estiverem conjugados ao Campo Biológi- nessa área quando o orientando estiver iden-
co/Saúde (CBS), poderão nos levar a pensar em tificado com profissões tais como Economia,
“engenharias relacionadas à biologia” – Enge- Ciências Contábeis, Atuariais e outras tipica-
nharia de Pesca, Sanitária, Meio Ambiente. mente financeiras.

Alguns orientandos, por sua vez, apre- COA – Campo Organizacional/Administrati-
sentarão grandes interesses pelo grupo CFM vo: Embora o interesse por esse campo possa
+ CSL + CMA – revelando um grupo de in- evidenciar profissões de cunho empreendedor,
teresses que coincide bem com as exigências comercial e empresarial, o orientador deverá
reveladas, por exemplo, pelos cursos de Ar- ter o cuidado de perceber a amplitude de pro-
quitetura, Design ou Desenho Industrial. fissões que podem estar relacionadas a esse

CFQ – Campo Físico/Químico: O Campo
Físico/Químico também guarda relação com

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Orientação Vocacional Ocupacional 175

interesse. Administrar pode relacionar-se à Bi- versas questões que envolvem tributos, leis
blioteconomia, à Enfermagem, assim como ao trabalhistas, etc.
engenheiro (especialmente Engenharia de Pro-
dução) ou ao arquiteto que estiver gerenciando CCP – Campo Comunicação/Persuasão:
uma obra. Um processo judicial, além de ser Embora os inventários de interesses não se
muito burocrático também requer controle ad- ocupem da determinação de habilidades ou
ministrativo sobre prazos e procedimentos. de capacidades para desempenho de tare-
fas, notamos que o CCP atrai o interesse de
Ao notar níveis de interesse muito infe- pessoas habilidosas em seu potencial verbal
riores à média, o orientador poderá se indagar de argumentação. Persuadir está fortemen-
sobre qual o motivo de tal desinteresse. Fre- te relacionado ao convencimento de pessoas
quentemente encontramos esse interesse muito acerca de um pensamento que o sujeito deseja
baixo em jovens que estão com dificuldades de transmitir. Dessa forma, esse campo reúne in-
“administrar os próprios conflitos”, inclusive teresses voltados a induzir, comandar, liderar,
os relacionados à escolha da profissão. Obser- influenciar, formar juízo, vender ou conven-
vamos que não é comum encontrar índices de cer pessoas ou grupos.
interesse muito superiores à média nesse cam-
po. Quando isso ocorrer, pode ser que coinci- O conhecido dito popular “Quem tem
dentemente estejamos frente a um sujeito com boca vai a Roma” é sábio em apontar o quanto
fortes traços de personalidade obsessiva (Le- essa capacidade verbal, quando devidamente
venfus, 2002). Todas essas observações hipo- polida, pode facilitar a conquista de objetivos
téticas só poderão ser confirmadas mediante o e, nos tempos modernos, a entrada no merca-
uso de instrumentos de avaliação apropriados. do de trabalho. Em estudos clínicos, podemos
perceber o quanto o CCP pode apresentar-se
CJS – Campo Jurídico/Social: O CJS respon- muito inferior à média em pessoas inibidas
de por um campo de interesse em “Humanas”. (Levenfus, 2002, 2005).
Diz respeito ao interesse pelo comportamento
humano em nível grupal, religioso, cultural, Em termos ocupacionais, pode-se dizer
racial, amplamente social. Os interesses pelo que professores, políticos, vendedores, Rela-
campo jurídico certamente se formam em vis- ções Públicas e outros costumam apresentar
ta das diferenças nos comportamentos huma- fortes interesses nesse campo da comunicação
nos. Não por acaso, o curso de Direito chama- verbal. Contudo, sempre é necessária uma
-se Ciências Jurídicas e Sociais e o campo da avaliação contextualizada. Por exemplo, po-
comunicação chama-se Comunicação Social. pularmente, a persuasão é tida por muitas
Afinal, se todos os homens se comportassem pessoas como uma habilidade fortemente li-
de maneira idêntica, para que serviriam as gada à advocacia. Porém, no Brasil, o Direi-
leis? Se a comunicação não for fenômeno di- to é exercido na maioria das vezes por meio
rigido ao ser humano, a quem será? de comunicações escritas e não verbalizadas.
Muitos jovens identificam-se com o advogado
Contudo, nesse teste diferenciamos tal do cinema americano e ignoram as diferenças
campo sociológico daquele que diz respeito ao no exercício dessa profissão nas diferentes
interesse específico pelo comportamento hu- culturas. Por isso, sempre há de se ter o cui-
mano em nível da Educação e da Psicologia, dado com as estereotipias criadas em torno
que aparecerão no CCE – Campo Comporta- de muitas profissões. Sabiamente, Del Nero
mental/Educacional. (1998) já apontava que o Direito Criminal po-
deria estar também relacionado a habilidades
É importante observar que, embora nesse campo, mas que a escolha pelo Direito
qualquer ser humano inserido em normas baseia-se preponderantemente no Campo
sociais deva ser conhecedor das mesmas e Simbólico/Linguístico – CSL, como apresen-
todo profissional será regido por normas taremos adiante.
éticas, em algumas profissões esses conheci-
mentos são objeto e ferramentas de trabalho CSL – Campo Simbólico/Linguístico: O CSL
como, por exemplo, nas Ciências Contábeis é de uma riqueza ímpar em termos de infor-
em que o profissional terá de lidar com di-

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176 Levenfus, Soares & Cols.

mações que podem prestar ao orientador em áreas exatas que necessitam trabalhar com
sua tarefa. Preferimos abordar esse tema divi- desenho, volumes, como no caso da Arqui-
dindo-o em dois campos: 1) enquanto estudo tetura, do Design Industrial, da Engenharia
da linguagem e das línguas; 2) enquanto refe- Mecânica; ou linguagens como na produção
rência ao mundo simbólico e potencial inter- de softwares ou de composição musical. Des-
pretativo da linguagem. sa forma, torna-se compreensível o interesse
conjugado por CFM + CSL.
1) Estudo da linguagem e das línguas: Com-
preendido dessa forma, o campo da Lin- A presença de índices baixos no CSL só
guística traduz o potencial de comunicação deve preocupar o orientador em situações nas
de ideias e fatos por meio da escrita de li- quais um substrato emocional ou cognitivo
vros, artigos e outros textos. O potencial de possa responder pelo baixo índice de produ-
comunicação verbal, como já descrevemos, ção simbólica como nos casos de alexitimia3,
encontra-se no CCP. O sujeito interessado dislexia ou inibições na área do pensamento e
no CSL seguidamente apresentará gosto da linguagem (Levenfus, 2002, 2005).
pela leitura geral e pela literatura, ou pode
ser que se sinta atraído pelo estudo da lín- CMA – Campo Manual/Artístico: Observa-
gua nacional e/ou línguas estrangeiras. O mos que o interesse pelo campo artístico tra-
interesse no manejo da linguagem escri- duz mais claramente o fazer artístico do que
ta poderá se apresentar em uma série de o pensar criativo. Por esse motivo, denomi-
profissões que nela se apoiam, como, por namos esse campo como Manual/Artístico.
exemplo: Letras, Jornalismo e Direito. Seguidamente o sujeito refere gosto por tra-
balhos manuais diversos, pela observação da
2) Mundo simbólico e potencial interpretativo: estética das artes ou pela expressão corporal.
a linguagem enquanto manifestação simbó- É comum referirem, por exemplo, que gostam
lica é o que atribui a esse campo a riqueza de copiar desenhos, mas que não conseguem
de informações que mencionamos anterior- produzi-los mentalmente. Normalmente, isso
mente. O campo da interpretação aqui se acontece quando o CSL está baixo, eviden-
manifesta como necessário à compreensão ciando estar nessa área o potencial criativo –
do conjunto de letras e palavras. É nesse relativo ao mundo simbólico.
campo que se atribui significado aos obje-
tos. Em sujeitos com fortes interesses nesse Sujeitos interessados em cursar Artes
campo, poderemos encontrar desejosos em Plásticas ou Artes Cênicas costumam apresen-
cursar, por exemplo, Psicologia, descreven- tar esse interesse acima da média. No entanto,
do uma facilidade em compreender os sen- um razoável conjunto de profissões também
timentos dos outros; em entender os desenhos contempla esse interesse em vista das ativida-
das crianças. A experiência clínica mostra des manuais que lhe competem. É o caso da
que sujeitos que se descrevem como cria- Odontologia, da Arquitetura, das atividades
tivos costumam apresentar índices acima laboratoriais, cirúrgicas, etc.
da média nesse campo, que responde mais
pela criatividade do que o Campo Manual Nos últimos tempos, com o advento da
Artístico – CMA, como apresentaremos a internet e com a expansão tecnológica, muitas
seguir. Pessoas com facilidade para escul- profissões que surgiram contemplam interes-
pir, pintar, escrever poesias e ler partituras ses pelo campo artístico. Destacam-se nesse
poderão demonstrar interesse no CSL. campo as profissões ligadas a Web Design, De-
sign Visual, Desenvolvimento de Games.
O interesse manifesto por esse campo
parece imprescindível aos profissionais das CCE – Campo Comportamental/Educacional:
O CCE diz respeito ao interesse pelo compor-
tamento humano, no nível individual, grupal,
familiar ou amplamente social. Os interesses

3 A alexitimia se apresenta como uma incapacidade de associar os afetos às representações mentais, não ha-
vendo palavras para as emoções (Barros, 1994; 1995).

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Orientação Vocacional Ocupacional 177

podem ser de ordem emocional, educacional, MATERIAL E APLICAÇÃO
ajuste social e outros, evidenciando, em seu
maior grau, profissões tais como a Psicologia, O AIP é constituído por um caderno de
Serviço Social, Pedagogia e Ciências Sociais. aplicação reutilizável, uma folha de respostas,
um protocolo de levantamento para cada sexo,
Já em níveis de interesse pelo menos pró- um crivo de apuração e um manual. Este, além
ximo à média, é possível encontrar toda uma de todas as instruções pertinentes, inclui um
gama de profissões que dirigem seu objeto guia com 210 profissões de nível superior.
ao ser humano quando somados ao CJS tais
como a Comunicação Social, as Ciências Jurí- 1) Caderno de aplicação: Trata-se de um cader-
dicas e Sociais, e a Administração no campo no reutilizável contendo 200 atividades as
de RH. quais 20 atividades de cada campo de inte-
resse e estão distribuídas de tal forma que
Esse campo pode despertar interesse cada campo seja confrontado com todos os
mesmo em quem apresenta alto interesse em outros e com ele mesmo duas vezes.
áreas exatas como CFM e/ou CFQ. Por exem-
plo, seguidamente o encontraremos presente 2) Folha de respostas e rapport: Para cada ati-
em candidatos à Arquitetura, pois seu objeto vidade numerada, existe um espaço corres-
está muito relacionado ao homem em seu ha- pondente na folha de respostas. Esse espaço
bitat. Nessa configuração, poderá ser encon- é um quadrado dividido por um risco em
trado também nas licenciaturas em Matemá- diagonal. É nesse espaço que o sujeito de-
tica, Química e Física. É importante observar verá responder acerca de seu interesse real
que esse campo também apresenta diferenças ou relativo pela atividade. Dessa forma,
de interesses relacionados ao sexo do sujeito, o rapport consiste em pedir ao orientando
tendendo a interessar as mulheres em níveis que escolha, dentre cada par de atividades,
mais evidentes (Levenfus, 2002, 2005; Leven- aquela que lhe desperta maior interesse,
fus e Bandeira, 2007). assinalando essa preferência no respectivo
espaço na folha de respostas. É permitido
CBS – Ciências Biológicas e da Saúde: As ao sujeito marcar as duas atividades do par
Ciências Biológicas dizem respeito ao corpo desde que perceba gostar muito das duas,
humano, ao reino animal, ao vegetal e aos com a mesma intensidade. Em contraparti-
microorganismos. O interesse por essa área da, é proibido deixar um par em branco, ou
diz respeito à própria vida. seja, caso não goste de nenhuma das duas,
mesmo assim, o sujeito deverá marcar aque-
É novamente na observação sobre o con- la que, comparada à outra, desperte maior
junto dos campos que notaremos, por exemplo, interesse. Nesse caso, o sujeito deverá mar-
se o interesse pelo Campo Biológico e da Saúde car somente metade do quadrado.
(CBS) reside predominantemente sobre o ser
humano ou sobre plantas, animais ou micro- 3) Crivo de apuração: É uma folha vazada a ser
-organismos. Caso no mesmo teste se apresente colocada sobre a folha de respostas a fim de
também um interesse pelo CCE, o sujeito ten- apurar o total de itens de interesse real e re-
derá a optar por áreas da saúde, envolvendo lativo em cada campo.
humanos ou animais em vez de plantas.
4) Protocolo de levantamento: É composto de da-
Frequentemente, o sujeito com interesses dos de identificação do sujeito, uma tabela
muito superiores à média nesse campo será de registro dos interesses reais, relativos e
aquele que manifestará interesse pela Medi- totais por campo e gráficos para registro
cina, pelas Ciências Biológicas, pela Enfer- das respostas para cada sexo. Nos gráfi-
magem, pela Medicina Veterinária ou pelas cos, as médias estão demarcadas. Por fim,
Ciências Biomédicas. No entanto, esse inte- há um espaço para registro de informações
resse também é perceptível, com menor inten- adicionais de interesse do psicólogo.
sidade, mas pelo menos na média, nos cursos
como: Psicologia, Educação Física, Nutrição,
Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Tera-
pia Ocupacional (Levenfus 2001, 2002, 2005).

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178 Levenfus, Soares & Cols.

ACHADOS SOBRE INTERESSES ACHADOS SOBRE LEVANTAMENTO
DIFERENCIADOS POR SEXO DE ÁREAS CONJUGADAS

Já havia sido observado que algumas Ao mesmo tempo em que damos atenção
áreas de interesses apresentavam médias di- às diferenças de gênero, devemos observar os
ferenciadas entre as respostas de moças e ra- Campos de forma conjugada. Nesse teste, não
pazes (Bueno, Lemos e Tomé, 2004; Levenfus, se interpreta a partir do Campo de interesse
2002; Levenfus e Bandeira, 2007; Sáinz, Lois maior, mas, conjuntamente, a partir de todos
e Sáez, 2007). No AIP, os homens costumam os interesses que estiverem acima da média,
pontuar mais alto do que as mulheres nos já que as profissões reúnem em si diferentes
campos CFM e CCF. Já as mulheres pontuam áreas de interesse. Isso quer dizer que o orien-
mais alto que os homens nos campos CCE. tador deve ter um olhar dinâmico e sempre
atualizado acerca das diversas profissões exis-
Assim sendo, o orientador deve estar tentes no mercado.
atento ao fato de, por exemplo, uma moça
estar interessada por esse campo mesmo que Por exemplo, no caso da Administração
não pareça ser seu maior interesse registrado de Empresas (Figura 13.1), existe um predomí-
no teste como um todo. É preciso verificar o nio de interesses conjuntos em CCF e COA.
interesse comparado à média de cada sexo.
Pensando dessa forma, é possível perce-
Existem estudos que apontam profissões ber que, alguém com interesse concomitante
predominantemente femininas ou masculi- pelo CBS e COA poderá estar interessado em
nas. Outro indicador dessas preferências é Administração Hospitalar. Outro exemplo
observável pela proporção de homens e mu-
lheres em alguns cursos de graduação, tais 20 20
como Psicologia e Pedagogia, caracterizadas 19 19
pelo Campo Comportamental Educacional, e 18 18
Engenharias, caracterizadas pelo Campo Físi- 17 17
co Matemático. 16 16
15 15
Esses resultados chamam a atenção 14 14
para alguns fatores relevantes. Por exemplo, 13 13
se a resposta para o sexo feminino em CFM 12 12
aproxima-se, na média, aos 7 pontos, então 11 11
podemos afirmar que a moça que preencher 10 10
11 pontos nessa área encontra-se em nível su- 99
perior à média e pode demonstrar, com isso, 88
forte interesse por essa área. Enquanto isso, 11 77
pontos para os rapazes, aponta, apenas, um 66
interesse mediano, já que a média para o sexo 55
masculino é 11. A diferença também existe em 44
outros campos, especialmente no CCE, indi- 33
cando que as mulheres, comumente, têm mais 22
interesse por esse campo, sem que isso sig- 11
nifique, necessariamente, que seja indicador
do seu perfil profissional. Ou seja, uma moça AB CDE F GH I J
que apresentar em seu gráfico, o valor 11 para CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS
CFM e 11 para CCE, estará apontando interes-
se maior por CFM do que por CCE, visto que Figura 13.1 Exemplo de um gráfico de um
esse valor encontra-se superior à média para jovem do sexo masculino interessado em
as mulheres em CFM enquanto que está em
nível médio inferior em CCE. Administração de Empresas.

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Orientação Vocacional Ocupacional 179

seria de alguém muito interessado em CFM CMA, é importante que tenha criatividade
e COA. Nesse caso o interesse em Adminis- e pensamento abstrato (CSL). Mas não pode
tração pode ser satisfeito em Engenharia de ficar no esquecimento o fato de esta ser uma
Produção. área exata, com uma base de cálculos pareci-
da com Engenharia (CFM). Em diversos casos
Vejam abaixo alguns outros exemplos atendidos em psicoterapia e reorientação pro-
de gráficos característicos. Eles são meramen- fissional, com estudantes de Arquitetura em
te ilustrativos das diferentes possibilidades. iminência de desistir do curso, observamos
Cada orientando deve ser entendido pelo que o desejo de desistência estava relacionado
orientador como caso único e deve ser consi- a uma grande dificuldade em conseguir apro-
derada a história pessoal de cada sujeito. vação na cadeira de Projeto I, apresentando
inúmeras repetências. Em todos os casos nos
No caso da Medicina (Figura 13.2), exis- quais a dificuldade de realizar projetos esta-
te um predomínio de interesses conjuntos em va presente, os sujeitos apresentaram níveis
CFQ e CBS. abaixo da média em CSL. Também era co-
mum que jovens fossem para a Arquitetura
Na Figura 13.3 é possível visualizar um baseados em um interesse somente em CMA
exemplo de resposta para Arquitetura, em (gosta de desenhar ou decorar) sem que fosse
que existe um predomínio de interesses con- verificado seu interesse no CFM.
juntos em CFM, CSL e CMA.
É enriquecedor perceber a gama de va-
A Arquitetura é uma profissão que re- riações possíveis por meio de uma leitura di-
quer múltiplas habilidades e, portanto, múl-
tiplos interesses. O arquiteto conjuga a área
humana e a exata como poucos. Além do

20 20 20 20
19 19 19 19
18 18 18 18
17 17 17 17
16 16 16 16
15 15 15 15
14 14 14 14
13 13 13 13
12 12 12 12
11 11 11 11
10 10 10 10
99 99
88 88
77 77
66 66
55 55
44 44
33 33
22 22
11 11

AB CDE F GH I J AB CDE F GH I J
CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS

Figura 13.2 Exemplo de um gráfico de uma Figura 13.3 Exemplo de um gráfico de
jovem do sexo feminino interessada em jovem do sexo masculino interessado em
Medicina.
Arquitetura.

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180 Levenfus, Soares & Cols.

nâmica. Nossa proposta aqui não é apresentar mos verificar o motivo. Assim como, também
todas as variações, até mesmo porque seria im- podemos questionar quando as respostas fo-
possível fazê-lo, em vista de sua infinitude. rem muito diferentes da média em seu con-
junto.
ENTENDENDO A QUALIDADE DA
RESPOSTA Na Figura 13.4 temos um gráfico de uma
jovem que se dizia muito interessada por Psi-
O AIP foi construído com a possibilidade cologia. Embora sua pontuação fosse muito
de assinalar meia resposta no caso de o inte- acima da média em CSL e CCE, ambas espe-
resse ser relativo, ou seja, quando o sujeito radas para a escolha de Psicologia, grande
não se interessa por nenhuma das atividades parte das escolhas foram relativas, marcadas
da dupla, mas se vê frente à necessidade de por obrigação.
escolher. A essa escolha, chamamos interesse
relativo. Dessa possibilidade, podem-se obser- Após o exame dessa jovem, entendeu-se
var diferentes fenômenos que, se constatados que a quantidade de respostas relativas era
em entrevista clínica e/ou outros testes, aju- um indicador do quanto ela estava envolvida
dam o psicólogo a entender alguns motivos severamente com uso de drogas. Percebemos,
que podem estar interferindo na possibilida- em diversos casos, que a defasagem grande
de de escolha. em diversas áreas pode ser demonstrativa de
baixa motivação, quadros depressivos e abu-
Percebemos que, em média, três ou qua- so de drogas. Em outras palavras, quando al-
tro escolhas são relativas em cada Campo. guém vai escolhendo sem gostar, está comu-
Quando essa média for ultrapassada, deve- nicando algo como: não gosto de nada; nada me
dá vontade. Casos semelhantes podem ocorrer
20 20 em jovens que não têm interesse por cursar a
19 19 universidade e se veem pressionados a esco-
18 18 lher um curso. Às vezes, o maior interesse do
17 17 jovem é realizar um intercâmbio após o ensi-
16 16 no médio e seus interesses se apresentam al-
15 15 tos em tudo o que diz respeito ao intercâmbio
14 14 e baixos nas questões ocupacionais.
13 13
12 12 No caso a seguir (Figura 13.5), a jovem
11 11 interessada em cursar Odontologia apresenta
10 10 interesses totalmente compatíveis com essa
99 profissão. Durante entrevista clínica, queixou-
88 se de timidez, medo de entrar na faculdade e
77 ficar muito vermelha ao conviver com colegas
66 que não conhecia. Referiu também dificulda-
55 des para apresentar trabalhos em sala de aula.
44 Como pode ser observado, os interesses rela-
33 tivos foram justamente marcados em grande
22 quantidade nos campos relacionados à vida
11 social, comportamental e comunicação. Em
casos como esse, é responsabilidade do psicó-
AB CDE F GH I J logo, além de dar um feedback ao orientando
CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS relativo à escolha profissional, instruí-lo ou
encaminhá-lo para o alívio dos sintomas.
Figura 13.4 Exemplo de um gráfico de uma
jovem interessada em Psicologia. CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Não é compatível com um conceito di-
nâmico da personalidade o uso de testes cujos
fundamentos pertençam a posições atomísticas

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Orientação Vocacional Ocupacional 181

que mostrem funções isoladas sem ver a estru- Social pode estar relacionado, para alguém, a
tura e a dinâmica global da personalidade” vivências de carência? Não raro alguém é ca-
(Bonelli, 1995, p.73). paz de se interessar por Educação Física ba-
seado em fantasias de permanecer jovem ao
As escalas e os levantamentos de prefe- longo da vida!
rências profissionais, em sua maioria, podem
estar a serviço de uma concepção basicamente Enfim, muitos questionamentos e casos
atuarial da orientação vocacional em que, para poderiam ser apresentados. A maior preocu-
determinados interesses correspondam deter- pação, no entanto, foi a de lançar uma nova
minadas ocupações, de forma taxativa e este- luz sobre a possibilidade ainda pouco explo-
reotipada. A interpretação da pontuação, em rada em testes de levantamento de interesses
um enfoque psicodinâmico, como diz Bonelli profissionais, como a de levantar hipóteses
(1995), deve realizar-se não a partir da pontua- qualitativas a partir de dados essencialmente
ção, mas do sujeito em questão. quantitativos. Nesse momento, contando com
o AIP, instrumento que proporciona um exa-
Dessa forma, nos interessa compreender me aprofundado, essa tarefa se torna muito
o que determinado interesse significa para de- mais acessível aos Orientadores Profissionais
terminado adolescente. Quantas vezes encon- e beneficia de forma inquestionável o orien-
tramos um jovem tímido que busca aprimorar tando.
suas relações sociais por meio de um curso li-
gado a Comunicações? Interesse pelo Serviço

20 20
19 19
18 18
17 17
16 16
15 15
14 14
13 13
12 12
11 11
10 10
99
88
77
66
55
44
33
22
11

AB CDE F GH I J
CFM CFQ CCF COA CJS CCP CSL CMA CCE CBS

Figura 13.5 Jovem interessada por
Odontologia refere queixas características

de fobia social.

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182 Levenfus, Soares & Cols.

REFERÊNCIAS

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BONELLI, A.R.L. La orientación vocacional como proceso: teoria, técnica y práctica. Buenos Aires:
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DEL NERO, C. Áreas, profissões e objeto, 1º contato: sucessor de vocação e seus caminhos, 8 áreas,
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_____. LIP – Levantamento de interesses profissionais. 2.ed. São Paulo: Vetor, 1984.
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& OCUPACIONAL, 4., 2001, São Paulo. Anais... São Paulo: Vetor, 2001. p.51-52.
LEVENFUS, R.S.; BANDEIRA, D.R. Avaliação dos Interesses Profissionais (AIP): um estudo
sobre as diferenças de gênero. In: CONGRESSO LATINO-AMERICANO DE ORIENTAÇÃO
PROFISSIONAL DA ABOP, 1.; SIMPÓSIO BRASILEIRO DE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL &
PROFISSIONAL, 8., 2007, SÃO PAULO. São Paulo: Vetor, 2007. p. 122-123.
MILAGROS SÁINZ, A.L.; LOIS, D.; LÓPEZ SÁEZ, M. Comparación entre estudiantes de carre-
ras típicamente femeninas o masculinas sobre sus expectativas de futuro. In: SEMANA DE IN-
VESTIGACIÓN, 4., 2002, Madrid. Resumo disponível em: <http://www.uned.es/psicologia/
IVSemana/comunicaciones/sainz_lisbona.htm>. Acesso em: 05 mar. 2007.
.

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14

Contribuições da Escala de Aconselhamento
Profissional (EAP) para a orientação de carreira

Ana Paula Porto Noronha • Acácia Aparecida Angeli dos Santos
• Fermino Fernandes Sisto

INTRODUÇÃO enfoques teóricos que valorizam aspectos va-
riados, quer da indecisão para a escolha, quer
O presente capítulo analisa a Escala de do próprio significado do aconselhamento
Aconselhamento Profissional (EAP), cujo ob- profissional. Nesse sentido, podem ser desta-
jetivo é a caracterização das preferências por cados Chartrand e Camp (1991); Pope (2003);
algumas atividades profissionais em detri- Santos (1997); Santos e Coimbra (1994); Smith
mento de outras. A concepção que subsidiou e Campbell (2003), entre outros.
a construção do EAP prevê que as pessoas
gostam de realizar atividades que não são Essa temática tem sido tratada por estu-
apenas aquelas típicas de sua profissão. Con- diosos que se fundamentam em ampla gama
sequentemente, optou-se por falar em perfil de abordagens, com base nas quais foram de-
profissional, com base no qual é possível ca- rivadas propostas de práticas de aconselha-
racterizar diferentes níveis de intensidade de mento. Essa multiplicidade pode ser justifica-
escolhas em relação a diversos tipos de ativi- da em razão dos muitos fatores envolvidos no
dades. Também julgou-se pertinente incluir aconselhamento de carreira e, em alguma me-
uma breve revisão histórica e a descrição de dida, pode ter colaborado para a ampliação e
alguns dos trabalhos que foram divulgados a proliferação de abordagens. Algumas delas
em publicações recuperadas nas bases de da- são frequentemente mencionadas na literatu-
dos do Brasil e do exterior. ra específica da área, a saber, a teoria do traço
e fator, a psicodinâmica, a desenvolvimental
É importante lembrar que a Escala de e a de tomada de decisão, descritas com mais
Aconselhamento Profissional foi construída detalhes a seguir (Leitão e Miguel, 2004).
com base em pesquisas realizadas com estu-
dantes universitários. Tomando como referên- As teorias do traço e fator também são
cia os resultados obtidos com esse segmento denominadas como tipológicas e estão vincu-
da população, foram elaboradas as normas. ladas à abordagem diferencial da psicologia.
Também serão relatados os estudos de vali- Até os anos de 1950, a maioria dos autores
dade e de precisão, desenvolvidos quando da as adotava, encarando a escolha ocupacional
construção do instrumento. como um evento específico decorrente das
aptidões e de capacidades inatas das pes-
Interesses Profissionais e Orientação de soas. Assim sendo, a atuação do orientador
Carreira reduzia-se a identificá-las da melhor maneira
possível, haja vista que era entendido que a
Nas publicações sobre o tema, identifi- integração entre as características pessoais e
cam-se vários pesquisadores com distintos aquelas específicas das ocupações garantiria

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184 Levenfus, Soares & Cols.

o bem-estar pessoal e o desempenho profis- Sem dúvida, uma das perspectivas
sional adequado. A teoria de Holland (1963) mais conhecidas dos profissionais da área de
é apontada como a mais representativa e a orientação profissional é a desenvolvimen-
mais utilizada dessa abordagem. tal, divulgada amplamente a partir de Super
(1953). Segundo ela, a escolha de uma carrei-
Sob a perspectiva psicodinâmica, a esco- ra é encarada como um fenômeno intrinseca-
lha profissional é concebida como um dos perí- mente relacionado ao desenvolvimento geral
odos de transição para a identidade adulta. As- do ser humano, decorrente da integração de
sim, ela compreende necessidades individuais, experiências de vida. Na obra do autor, os
identificações, aptidões e valores, bem como estágios que antecedem e conduzem à matu-
as formas de defesa contra impulsos. Segundo ridade profissional são detalhadamente des-
Bordin e Koplin (1973), a escolha profissional é critos. Um de seus principais pressupostos
resultante do equilíbrio entre o autoconceito e é a crença de que, à medida que as pessoas
o papel profissional, havendo conflito quando crescem e experimentam a realidade, os in-
o indivíduo percebe que suas motivações não teresses mais específicos vão se delineando.
são compatíveis ao papel profissional preten- Nesse contexto, a compreensão dos fatores
dido. A orientação profissional característica dificultadores da escolha profissional depen-
dessa abordagem tem como principal foco o de do conhecimento sobre o desenvolvimen-
conflito motivacional intrapsíquico entre o au- to dos estágios ao longo da vida do sujeito
toconceito e o papel profissional. É importante em orientação.
observar que o autoconceito é concebido como
identidade operacional diferenciada, que favo- Santos e Coimbra (1994) consideram que
receria a integração aos papéis profissionais. a escolha saudável seria aquela cujo percurso
Em que pese a força que o autoconceito tem no conduz à maturidade profissional, facilitando
momento de escolha profissional, podem sur- o momento da decisão. Sob essa perspectiva,
gir problemas de integração sempre que hou- os autores entendem a maturidade vocacional
ver conflitos de identidade ou que o indivíduo como um conjunto de atitudes frente à esco-
não tiver clareza de foco. lha profissional. Dela fariam parte elementos
como a determinação, a responsabilidade e a
A aplicação da abordagem psicodinâ- independência, somadas a outros aspectos ne-
mica no aconselhamento profissional está cessários (autoconhecimento e conhecimento
fundamentada na identificação dos tipos de da realidade). A maturidade, em decorrência,
conflitos intrapsíquicos que ocorrem duran- seria o produto resultante de um processo que
te a indecisão profissional. Carvalho (1995) se dá durante a vida. Só ao longo do desen-
esclarece que o desenvolvimento de papéis volvimento o indivíduo consegue definir gra-
ocupacionais adultos envolve um processo dualmente o que quer e o que pode fazer no
bastante complexo, cujo resultado é o forta- âmbito profissional.
lecimento da identidade profissional. Alguns
estudiosos têm publicado pesquisas sobre Quanto aos aspectos perturbadores do
orientação profissional no enfoque psicana- desenvolvimento dos estágios, os autores re-
lítico. Nessa linha, reforçando as contribui- ferem-se a duas categorias, a saber, os aspectos
ções que essa teoria pode trazer para a área de ordem extrínseca e os de ordem intrínseca à
de orientação profissional, Zacharias (1994) pessoa (Duarte, 1997; Mangas, 1997; Santos, Ri-
recorreu aos tipos psicológicos junguianos beiro e Campos, 1997). Os aspectos intrínsecos
em pesquisa realizada com um grupo de ao indivíduo englobam dimensões afetivas,
policiais militares. Das publicações mais re- como dependência emocional, desmotivação,
centes, destacam-se os trabalhos de Velloso baixa autoestima; cognitivas, como rigidez de
(2000), que focalizam o momento de escolha pensamento, raciocínio infantil, desconcen-
profissional na adolescência à luz da psica- tração; e sociais, que estariam relacionadas à
nálise, bem como o de Campos (2001), que pouca informação a respeito da profissão, a
apresenta uma revisão da literatura de traba- dificuldades de adaptação ao cotidiano profis-
lhos desenvolvidos sobre a orientação profis- sional, entre outras. Tais categorias concernem
sional nessa mesma abordagem. a dois microssistemas presentes na vida do ho-

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Orientação Vocacional Ocupacional 185

mem, o educacional e o familiar. Assim, a qua- pressupostos teóricos, visa a oferecer condições
lidade das relações estabelecidas em cada um que facilitem a busca de uma identidade mais
deles pode auxiliar ou dificultar a formação da clara e diferenciada, uma vez que proporciona
maturidade vocacional. oportunidades de reflexão para a escolha ade-
quada (Müller, 1988). Nesse sentido, sempre
Muitos adeptos dessa teoria conside- pressupõe a existência da avaliação do indiví-
ram que o percurso desenvolvimental leva duo, que pode envolver, dependendo da con-
necessariamente a uma maior ou menor ma- cepção adotada, o conhecimento de suas carac-
turidade vocacional, compreendida como a terísticas – como personalidade, habilidades e
capacidade para resolver tarefas relaciona- interesses – bem como de condições do ambien-
das à carreira profissional. Assim, entendem te, especialmente as relacionadas à família.
a indecisão profissional como uma cristaliza-
ção precoce a qual impede que o indivíduo Há cerca de 40 anos, Mattiazzi (1977) fez
faça seleção e especificação de seu caminho críticas ao pequeno avanço no conceito de in-
profissional (Gati, Krausz e Osipow, 1996). teresses profissionais. Ele afirma que desde a
década de 1950 não havia incremento no cons-
A última abordagem – e a mais conhe- tructo, tendo sido Fryer, em 1931, um marco
cida na orientação profissional – é a do pro- importante na definição, com a publicação da
cesso de tomada de decisão. Seu pressuposto obra The Measurement of Interests. Posterior-
básico é o de que as dificuldades da escolha mente, Strong (1954) cria seu instrumento de
estão diretamente relacionadas à imaturida- avaliação, concebendo interesse profissional
de da pessoa para tomar uma decisão pro- como padrões de gostos, desgostos ou respos-
fissional, bem como à insuficiência de infor- tas indiferentes.
mações adequadas sobre si mesmo e sobre
as áreas profissionais. Dessa forma, aspectos Savickas (1995) faz uso das considera-
como a falta de motivação e a existência de ções iniciais de Strong (1954) em seus estudos.
mitos em torno da tomada de decisão sobre Para ele, os padrões podem ser medidos pelo
a carreira, entre outros aspectos, seriam os uso de escalas que possuem itens homogê-
desencadeadores dos problemas mais proe- neos (construção racional); pelas escalas que
minentes na orientação profissional. Na possuem itens heterogêneos referentes a inte-
perspectiva de Gati, Krausz e Osipow (1996), resses ocupacionais e construídas empirica-
que adotam o modelo taxonômico, a dificul- mente; por aqueles instrumentos derivados
dade inerente à escolha da profissão é com- de concepções teóricas. Em acréscimo, defen-
preendida como resultante da identidade de que o uso dessas escalas pode revelar os
difusa de elementos da experiência interna padrões de gostos dos indivíduos, ao mesmo
do orientando. Em decorrência disso, para os tempo em que revela características de sua
autores, a escolha mais ajustada é aquela que personalidade.
favorece o alcance das metas estabelecidas
pela própria pessoa. Em sintonia com essa concepção, mui-
tos estudos têm verificado a relação entre os
Entre outras teorias existentes, menos di- constructos por meio da correlação entre ins-
vulgadas e/ou mais recentes, encontra-se a teo- trumentos de medida. Um representante im-
ria sistêmica, que tem especificamente valori- portante dessa corrente é Holland (1963), com
zado a importância das características culturais seu modelo tipológico. Para esse autor, havia
e de suas implicações no desenvolvimento de uma profícua relação entre interesses profis-
carreira. Adotando uma visão multicultural, os sionais e a personalidade do indivíduo, de tal
adeptos da abordagem reputam como relevan- sorte que a congruência entre personalidade
te para expansão e aplicação do aconselhamen- e ambiente promoveria a satisfação no tra-
to de carreira a rede de influências originada balho. A ideia é compartilhada por Ehrhart e
de aspectos pessoais, sociais e ambientais dos Makransky (2007), entre outros. Para eles, em
vários contextos (Arthur e McMahon, 2005). especial, é importante avaliar em que medida
cada um dos constructos (interesses e perso-
Com base nos aspectos mencionados até nalidade) prediz a percepção dos indivíduos
aqui, pode-se concluir que o processo de Orien- sobre suas vocações e sobre o trabalho.
tação Vocacional, independentemente de seus

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186 Levenfus, Soares & Cols.

Especialmente no que se refere ao conceito mento de outras, tal como já afirmado ante-
de interesses, passados outros 40 anos, depois riormente. Dessa forma, o instrumento pre-
da apreciação de Mattiazzi (1977) a respeito da tende fornecer aos usuários o estabelecimento
lenta evolução dos estudos sobre o tema, Lei- de perfis de carreiras, entendendo-se que uma
tão e Miguel (2004) trazem à tona novamente pessoa que escolhe uma dada carreira possa
essa consideração. Eles defendem que Savickas não preferir atividades relacionadas tão so-
(1995) é o autor que melhor integra o conceito. mente à área subjacente diretamente envolvi-
Darley e Hagenah (1955, citados por Savickas, da nela, mas também apresentar interesse por
1995) defendem que o constructo pode ser vis- atividades tradicional ou aparentemente mais
to como uma ponte que liga o indivíduo ao relacionadas com outras carreiras.
papel social. A metáfora está em consonância
com a etimologia do termo; em latim, interesse Escala de Aconselhamento Profissional
significa ‘entre’ (inter) e ser/estar (esse).
(EAP)
Um aspecto importante que pode justi-
ficar a pequena evolução do conceito refere-se O instrumento foi elaborado pelos au-
à construção dos instrumentos de avaliação. A tores do presente capítulo. Foi utilizado um
maior produção de escalas elaboradas empiri- conjunto de 220 itens, organizados a partir
camente não favoreceu o desenvolvimento e a das descrições das várias profissões apresen-
consequente verificação de novas teorias. Tal tadas em guias de profissões e em descrições
consideração pode ser exemplificada pelo estu- dos perfis profissiográficos de universidades
do de Ottati, Noronha e Salviatti (2003). Os auto- brasileiras, disponibilizados na internet. Fo-
res analisaram oito manuais de testes utilizados ram catalogadas atividades de 65 profissões:
no âmbito da orientação profissional no Brasil. Administração; Agronomia; Arquitetura e ur-
Os resultados revelaram que grande parte deles banismo; Arquivologia; Artes cênicas; Artes
não apresentava fundamentação teórica. Plásticas; Astronomia; Audiovisual; Bibliote-
conomia; Ciências da Computação; Ciências
Em síntese, pode-se afirmar que o grande Aeronáuticas; Ciências biológicas; Ciências
desafio imposto ao orientador educacional/ biomédicas; Farmácia e bioquímica; Ciências
profissional é o de avaliar competentemente as Contábeis; Ciências Econômicas; Ciências So-
características do indivíduo e de seu contexto ciais; Cinema e Vídeo; Dança; Desenho Indus-
para, com base em uma das perspectivas teóri- trial; Direito; Ecologia; Educação; Educação
cas assumidas, auxiliá-lo no processo de desco- física; Enfermagem; Engenharia Aeronáutica;
berta de si e do mundo do trabalho. Sabe-se que Engenharia Agrícola; Engenharia de Alimen-
no exterior inúmeras são as pesquisas publica- tos; Engenharia Ambiental; Engenharia Civil;
das, tal como apontado até aqui. No entanto, no Engenharia da Computação; Engenharia Elé-
Brasil, há poucos instrumentos com qualidades trica; Engenharia Física; Engenharia Florestal;
psicométricas baseadas em estudos empíricos, Engenharia Mecânica; Engenharia Naval; En-
disponíveis para o uso, na atuação do psicólo- genharia de Produção; Engenharia Química;
go no aconselhamento profissional. A relevân- Estatística; Filosofia; Física; Fisioterapia; Fo-
cia desse tipo de instrumental se justifica, uma noaudiologia; Geografia; Geologia; História;
vez que tais ferramentas têm por objetivo iden- Hotelaria; Jornalismo; Letras; Matemática;
tificar as características próprias do avaliando Medicina; Medicina Veterinária; Meteorolo-
em relação aos interesses. Vale reafirmar que é gia; Moda; Música; Nutrição; Oceanografia;
importante que se realizem mais pesquisas bra- Odontologia; Pedagogia; Psicologia; Publici-
sileiras com o objetivo de construir ou validar dade, Propaganda e Marketing; Serviço So-
instrumentos já existentes. cial; Teologia e Turismo.

O foco do instrumento aqui apresentado A análise de conteúdo dos itens foi a
está voltado para a identificação de interesse tarefa seguinte. Assim, os autores organiza-
profissional. É importante salientar que nesse ram aqueles que eram semelhantes, ainda
trabalho o constructo de interesse profissional que representassem profissões distintas, de
está sendo compreendido como a preferência tal modo que foram eliminados os itens re-
por algumas atividades laborais, em detri-

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Orientação Vocacional Ocupacional 187

petidos e aqueles que, mais frequentemente, automatizadas de produção alimentícia, criar
representavam profissões distintas. Com isso, programas de computadores, projetar satéli-
chegou-se a uma escala de 61 itens, que in- tes e foguetes, estudar propriedades físicas da
cluem todas as áreas e representa várias pos- atmosfera, construir e montar instrumentos e
sibilidades profissionais. O formato da escala peças de aeronaves, projetar robôs e sistemas
é Likert, com cinco pontos, de frequentemente digitais para fábricas, desenvolver semicon-
(5) a nunca a desenvolveria (1). dutores de fibra ótica, produzir equipamentos
de captação de energia solar, elétrica e nucle-
O instrumento foi estudado a partir da ar” compõem a Dimensão 1 (Ciências Exatas).
aplicação em 762 universitários, sendo 59%
mulheres, com idades entre 17 e 73 anos, com A Dimensão 2 (Artes e Comunicação) reuniu
uma média de 24,14 (DP=7,14). Houve uma itens que investigam “o interesse por estudar a
nítida concentração entre os 18 a 22 anos, fai- origem e evolução do homem e da cultura”. Ao
xa que incluiu 55,3% da amostra. No que se lado disso, incorporou outros, a saber, “dese-
refere aos cursos, o de Psicologia esteve mais nhar; escrever e revisar textos; entreter hóspe-
representado (21,9%), seguido de Engenharia des, associados e turistas em hotéis, spas e clu-
(10,4%) e administração (10,4%). Os cursos bes; desenhar logotipos e embalagens; dublar;
que menos contribuíram para a composição recuperar obras e objetos de arte; produzir
da amostra foram Turismo, Jornalismo e Me- desfiles, catálogos, editorias de moda e campa-
dicina veterinária. nhas publicitárias; criar uma vinheta; criar, mi-
xar e editar trilhas sonoras de filmes ou vídeos;
Quanto aos estudos psicométricos, pro- coordenar a apresentação de um espetáculo
cedeu-se a análise fatorial exploratória pelo de dança; ensaiar artistas para um espetáculo;
método dos componentes principais e rotação responsabilizar-se pela direção teatral; fazer a
varimax. Nenhum item precisou ser eliminado, montagem das cenas de um filme”.
considerando-se os índices de saturação supe-
riores a 0,30; no entanto, alguns saturaram em A Dimensão 3 (Ciências Biológicas e da Saú-
vários fatores, o que era esperado, dado que de) caracterizou-se pelas atividades de “orien-
a escolha de atividades poderia ser comum a tar a população sobre prevenção de doenças;
várias carreiras. Dessa forma, foi alcançado o realizar cirurgias; participar de equipes de sal-
valor de 57,31% de variância explicada, para vamento; analisar o metabolismo dos seres ani-
os sete fatores encontrados, que a partir de mais e vegetais; fazer pesquisas genéticas; au-
agora receberão o nome de dimensões. xiliar no tratamento de pacientes com derrame
cerebral, paralisias, traumatismo, entre outros;
Dando continuidade à determinação da investigar a natureza e a causa de doenças; pre-
qualidade do instrumento, foi investigada a venir lesões e reabilitar sujeitos machucados;
correlação item-total. Considerando cada uma dar atendimento ambulatorial em empresas”.
das dimensões separadamente, identificando-
-se como menor coeficiente de correlação o va- A Dimensão 4 (Ciências Agrárias e Am-
lor 0,36. Pode-se afirmar que o índice está aci- bientais) ficou composta pelas seguintes ativi-
ma dos valores mínimos aceitáveis para esse dades: “analisar e controlar produtos indus-
tipo de análise (Guilford e Fruchter, 1978). A trializados, como medicamentos, cosméticos,
interpretação das sete dimensões extraídas da insumos ou alimentos; orientar a população
análise fatorial será descrita a seguir. sobre prevenção de doenças; elaborar plano
diretor de zoneamento de região ou cidade; re-
Descrição das dimensões alizar turismo ecológico; investigar a natureza
e a causa de doenças; desenvolver equipamen-
As atividades “envolver-se em pesquisas tos para monitoramento e controle das condi-
espaciais, montar bancos de dados digitais, ções ambientais; controlar propriedades físicas
controlar propriedades físicas dos solos, de- dos solos; prevenir doenças em lavouras e re-
senvolver equipamentos para monitoramento banhos; empenhar-se na preservação do meio
e controle das condições ambientais, divul- ambiente; analisar e elaborar relatórios sobre
gar e vender softwares, analisar e interpretar impacto ambiental; elaborar laudos sobre o
dados numéricos, planejar e implantar linhas impacto de atividades humanas no ambiente

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188 Levenfus, Soares & Cols.

marinho; reduzir o impacto de atividades in- e epistemológicas; colaborar na elaboração de
dustriais, urbanas e rurais no meio ambiente; programas educacionais”.
dirigir unidades de preservação ecológica”.
A Dimensão 7 (Entretenimento), a última,
Já a Dimensão 5 (Atividades Burocráticas) englobou “produzir desfiles, catálogos, edi-
agrupou os itens “analisar e controlar produ- torias de moda e campanhas publicitárias;
tos industrializados, como medicamentos, cos- gerenciar os serviços de aeroportos; atender
méticos, insumos ou alimentos; elaborar plano hóspedes, associados e turistas em hotéis, spas
diretor de zoneamento de região ou cidade; e clubes; promover a instalação de hotéis; co-
participar de processos de seleção, admissão e ordenar a preparação de refeições em hotéis e
demissão; criar programas de computadores; restaurantes; gerenciar flats, pousadas, hotéis,
estruturar e manter base de dados; gerenciar parques temáticos”.
os serviços de aeroportos; classificar e organi-
zar documentos; analisar e interpretar dados Uma preocupação dos autores era inves-
numéricos; conduzir relações entre empresa e tigar em que medida as dimensões encontra-
empregados; divulgar e vender softwares; coor- das se ajustariam às carreiras universitárias
denar as operações fiscais e financeiras de em- cursadas pelos estudantes. Com vistas à inves-
presas; montar bancos de dados digitais; cuidar tigação dessa problemática, as médias obtidas
de princípios e normas relativos à arrecadação pelos participantes em cada dimensão foram
de impostos, taxas e obrigações tributárias”. comparadas, tomando-se como referência os
respectivos cursos. Os resultados obtidos per-
A Dimensão 6 (Ciências Humanas e Sociais mitiram observar que pessoas de diferentes
Aplicadas) ficou composta por itens condi- carreiras podem se interessar por atividades
zentes com atividades de “conduzir relações que não são características de suas dimen-
entre empresa e empregados; recuperar obras sões. A Tabela 14.1 ilustra a distribuição das
e objetos de arte; classificar e organizar docu- maiores e menores médias em cada uma das
mentos; atender instituições que realizem tra- dimensões. Assim sendo, reforça o argumento
balhos sociais voltados para a religião; escre- de que algumas atividades podem ser interes-
ver e revisar textos; estudar origem e evolução santes para as pessoas independentemente do
do homem e da cultura; classificar e indexar curso que escolheram. Também mostram que
livros, documentos ou fotos; estudar o passa- há casos em que se interessem por atividades
do humano em seus múltiplos aspectos; ana- pertencentes a mais de uma dimensão.
lisar a sociedade em questões éticas, políticas

Tabela 14.1 Carreiras com maiores e menores médias nas diferentes dimensões

Dimensão 1 Maiores médias Menores médias
Dimensão 2 Engenharias Fisioterapia
Dimensão 3 Educação física, Turismo, Pedagogia e
Jornalismo Veterinária e Medicina
Dimensão 4 Medicina, Fisioterapia e Veterinária
Educação física, Jornalismo e
Dimensão 5 Veterinária, Turismo Engenharias
Dimensão 6
Dimensão 7 Administração, Direito Educação artística, Jornalismo,
Pedagogia, Jornalismo, Psicologia, Engenharias, Fisioterapia, Educação
Direito física, Psicologia
Turismo
Educação artística, Medicina,
Fisioterapia

Veterinária

Medicina

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Orientação Vocacional Ocupacional 189

Pode-se afirmar, a partir do exposto, que No que se refere às carreiras com uma
pessoas de uma determinada carreira podem dimensão muito clara (Grupo 1), entre as es-
ter seu maior interesse em apenas uma dimen- tudadas, Educação artística e Fisioterapia ca-
são (p. ex., engenharia), enquanto outras po- racterizaram-se pelo foco de interesse muito
dem ter alto interesse em atividades de mais de específico. Chama a atenção o fato de que em
uma dimensão. Assim sendo, realizou-se outro 50% ou mais das atividades esteve presente o
estudo com o objetivo de compreender as pre- pouco interesse por elas. A Tabela 14.2 oferece
ferências, bem como as rejeições dos sujeitos, as distribuições em percentual dos estudantes
quanto às áreas avaliadas pelo instrumento. de educação artística pelas diferentes dimen-
sões. Para facilitar a leitura da tabela, as di-
Os resultados permitiram a organização mensões serão apresentadas pelos respectivos
dos dados em três grupos de perfis, caracteri- números, ou seja, Ciências exatas (1), Artes e
zados com base nos escores identificados em Comunicação (2) e assim sucessivamente.
cada uma das dimensões. O primeiro apre-
sentou um percentual alto em apenas uma di- A preferência dessas pessoas foi pela Di-
mensão, com percentuais baixos nas demais, mensão 2 (Artes e Comunicação), sendo que
sugerindo uma tendência à rejeição das ativi- não revelaram interesse pelas atividades das
dades que as compõem. Um segundo grupo Dimensões 1 (Ciências Exatas), 3 (Ciências
apresentou um percentual mais acentuado Biológicas e da Saúde) e 5 (Atividades Buro-
em uma ou duas dimensões, que poderiam cráticas), 4 (Ciências Agrárias e Ambientais) e 7
ser caracterizadas como escolhas secundárias, (Entretenimento). Quanto à Dimensão 6 (Ciên-
mas específicas. O último grupo ficou integra- cias Humanas e Sociais Aplicadas), a distribui-
do por carreiras cujos participantes não apre- ção foi homogênea.
sentaram preponderância nítida em nenhuma
das dimensões, mas percentuais médios em A Tabela 14.3 revela os achados referen-
várias delas. Uma apresentação mais detalha- tes ao curso de fisioterapia. Concluiu-se que
da dos três grupos será oferecida a seguir. as pessoas nitidamente preferem atividades
relacionadas à Dimensão 3 (Ciências Biológi-

Tabela 14.2 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Educação Artística

Dimensões

Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7

Baixo 50,7 10,4 52,2 43,3 68,7 26,9 25,4

Médio baixo 26,9 16,4 34,3 26,9 17,9 22,4 32,8

Médio alto 13,4 16,4 9,0 14,9 9,0 29,9 20,9

Alto 9,0 56,7 4,5 14,9 4,5 20,9 20,9

Tabela 14.3 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Fisioterapia

Dimensões

Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7

Baixo 59,5 42,9 31,0 52,4 52,4 28,6

Médio baixo 19,0 23,8 2,4 33,3 28,6 28,6 31,0

Médio alto 19,0 21,4 35,7 26,2 16,7 14,3 19,0

Alto 2,4 11,9 61,9 9,5 2,4 4,8 21,4

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190 Levenfus, Soares & Cols.

cas e da Saúde). Em contrapartida, há rejeições lhidas, assim como as das Dimensões 2 (Artes
pelas dimensões 1 (Ciências Exatas), 2 (Artes e e Comunicação), 4 (Ciências Agrárias e Am-
Comunicação), 5 (Atividades Burocráticas) e 6 bientais), 6 (Ciências Humanas e Sociais Apli-
(Ciências Humanas e Sociais Aplicadas) e, em cadas) e 7 (Entretenimento), cujo percentual
menor intensidade, pelas dimensões 4 (Ciências de escolha foi ainda menor. Dessa forma, suas
Agrárias e Ambientais) e 7 (Entretenimento). atividades preferidas são bastante específicas,
assim como as preteridas.
Entre as carreiras com uma dimensão
nítida, mas com aceitação de outras ativida- As escolhas do curso de Administração
des, das investigadas, sete encaixaram-se nes- também podem ser compreendidas dessa for-
se perfil. Assim, nas carreiras de Engenharia, ma. As informações estão relacionadas na Ta-
Administração, Jornalismo, Medicina, Peda- bela 14.5, apresentada a seguir.
gogia, Turismo e Veterinária, houve um foco
em dimensões específicas, e um interesse me- Observou-se uma predileção pelas ativi-
nor, mas considerável, foi mostrado para ou- dades da Dimensão 5, e pela 7 em menor grau.
tras dimensões. Também rejeições de ativida- Quanto às rejeições, as atividades da Dimen-
des em certas dimensões foram observadas. são 3, em maior intensidade, e as Dimensões
Na Tabela 14.4 é possível observar com mais 2 e 6 em menor intensidade, destacaram-se. A
clareza essas constatações. Dimensão 4 apresentou uma distribuição ho-
mogênea.
Os futuros engenheiros expressaram for-
te preferência pelas atividades da Dimensão 1 A Dimensão 6 (Ciências Humanas e So-
(Ciências Exatas) e secundariamente pela Di- ciais Aplicadas) foi a que mais se destacou en-
mensão 5 (Atividades Burocráticas), tal como tre os participantes do curso de jornalismo. Ao
pode ser observado na Tabela 14.4. Nessa lado disso, a Dimensão 2 (Artes e Comunicação)
mesma direção, as atividades da Dimensão 3 pode ser considerada secundária, conforme
(Ciências Biológicas e da Saúde) não são esco- pode ser observado na Tabela 14.6. Em relação
às maiores rejeições, estiveram representadas

Tabela 14.4 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Engenharia

Dimensões

Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7

Baixo 2,1 35,1 52,6 36,1 12,4 46,4 40,2

Médio baixo 3,1 32,0 26,8 18,6 20,6 23,7 32,0

Médio alto 21,6 26,8 13,4 22,7 35,1 22,7 20,6

Alto 73,2 6,2 7,2 22,7 32,0 7,2 7,2

Tabela 14.5 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Administração

Dimensões

Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7

Baixo 5,7 21,6 39,8 26,1 1,1 25,0 2,3

Médio baixo 33,0 28,4 36,4 26,1 12,5 25,0 28,4

Médio alto 38,6 34,1 15,9 26,1 27,3 28,4 29,5

Alto 22,7 15,9 8,0 21,6 59,1 21,6 39,8

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Orientação Vocacional Ocupacional 191

as atividades das dimensões 3 (Ciências Bio- ilustra também as atividades das dimensões
lógicas e da Saúde) e 5 (Atividades Burocráti- rejeitadas (Entretenimento, Ciências Humanas
cas), em maior intensidade, e as dimensões 1 e Sociais Aplicadas, Atividade Burocráticas,
(Ciências Exatas) e 4 (Ciências Agrárias e Am- Ciências Exatas, Artes e Comunicação).
bientais) em menor intensidade. Em relação à
Dimensão 7, qual seja, Entretenimento, há uma A última carreira incluída nesse grupo
distribuição razoavelmente homogênea. (uma dimensão nítida, mas com aceitação de
outras atividades) é a pedagogia. A Tabela
Os estudantes de medicina preferiram cla- 14.8 ilustra os resultados.
ramente as atividades da Dimensão 3 (Ciências
Biológicas e da Saúde) e, secundariamente, da 4 A carreira de pedagogia mostrou reações
(Ciências Agrárias e Ambientais). A Tabela 14.7 de aceitação de atividades de três dimensões,
ainda que sua preferência tenha sido pela Di-

Tabela 14.6 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Jornalismo

Dimensões

Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7

Baixo 46,2 11,5 57,7 46,2 50,0 7,7 23,1

Médio baixo 19,2 15,4 26,9 19,2 26,9 19,2 34,6

Médio alto 30,8 26,9 11,5 23,1 15,4 23,1 23,1

Alto 3,8 46,2 3,8 11,5 7,7 50,0 19,2

Tabela 14.7 Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Medicina

Dimensões

Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7

Baixo 42,5 43,8 1,4 11,0 46,6 39,7 54,8

Médio baixo 27,4 32,9 1,4 39,7 39,7 38,4 26,0

Médio alto 20,5 12,3 17,8 24,7 11,0 15,1 12,3

Alto 9,6 11,0 79,5 24,7 2,7 6,8 6,8

Tabela 14.8. Percentual do nível de preferência das atividades das diferentes dimensões pelos
participantes de Pedagogia

Dimensões

Nível de escolha 1 2 3 4 5 6 7

Baixo 29,4 8,8 41,2 29,4 20,6 2,9 14,7

Médio baixo 41,2 35,3 35,3 26,5 32,4 26,5 17,6

Médio alto 17,6 23,5 8,8 11,8 26,5 20,6 44,1
Alto 11,8 32,4 14,7 32,4 20,6 50,0 23,5

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192 Levenfus, Soares & Cols.

mensão 6 (Ciências Humanas e Sociais Apli- profissionais e rejeitam outras. Em acrésci-
cadas). Observou-se de maneira secundária mo, o instrumento favorece a interpretação de
que houve alto interesse por atividades das seus resultados, de tal modo que pessoas de
Dimensões 7 (Entretenimento) e 2 (Artes e Co- diferentes carreiras podem se interessar por
municação). A maior rejeição se deu pela Di- atividades que não são características de suas
mensão 3 (Ciências Biológicas e da Saúde) e, dimensões.
em menor intensidade, pelas Ciências Exatas
(Dimensão 1), Ciências Agrárias e Ambientais O objetivo dos autores foi o de apresentar
(Dimensão 4) e Atividades Burocráticas (Di- um instrumento de avaliação de interesses que
mensão 5). pudesse vir a colaborar com os processos de
orientação profissional e de carreira. Tal como
Por último, encontram-se as carreiras nas mencionado, a EAP permite olhar não apenas
quais não foi possível estabelecer uma dimen- para a definição de uma carreira, mas também
são muito clara. Nesse aspecto, em particular, analisar o interesse do indivíduo sob a pers-
podem ser incluídas as carreiras de direito, pectiva de escolha de atividades que podem
educação física e psicologia, cujas preferên- estar presentes em carreiras distintas.
cias e rejeições não se mostraram, em geral,
altas. Em síntese, há prevalência de certas di- Por certo, a realização de outras pesquisas
mensões, mas não há tendência marcada de com o instrumento poderá propiciar a expan-
escolha por parte dos participantes. são do conhecimento sobre as características
psicométricas deles. Ao lado disso, é necessá-
CONSIDERAÇÕES FINAIS rio que estudos com faixas etárias distintas se-
jam realizados com vistas a ampliar os limites
O presente capítulo teve como objetivo de sua aplicabilidade. Convém destacar que
a apresentação da Escala de Aconselhamen- muitos outros estudos são ainda necessários,
to Profissional, cujo pressuposto é o de que com amostras distintas e grupos de minorias,
os indivíduos escolhem algumas atividades para os quais há poucos instrumentos em con-
dições de uso no cenário nacional.

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15

Desenhos de profissionais com estórias
na orientação profissional

possíveis aplicações

Caioá Geraiges de Lemos

INTRODUÇÃO Descobri, além disso, nos estudos-
-piloto realizados com a técnica, que sua uti-
Em minha prática de atendimento a ado- lização não se limita aos adolescentes, poden-
lescentes em processos de Orientação Profis- do também ser aplicada nos atendimentos de
sional (OP), sempre senti a necessidade de aconselhamento de carreira de adultos jovens
encontrar um canal de comunicação que me em fase de inserção no mercado de trabalho e
possibilitasse dialogar com os orientandos a até mesmo de adultos que apresentam ques-
partir de proposições que eles mesmos pudes- tionamentos a respeito de suas carreiras, des-
sem construir e desenvolver. de que se disponham a realizar desenhos.

Durante meus estudos de mestrado (Le- Um processo de OP é um trabalho de
mos, 2000), cuja dissertação foi publicada em intervenção breve, que dura em torno de 8 a
livro (Lemos, 2001), desenvolvi o Procedimen- 10 encontros. Em face do tempo limitado que
to de Desenhos de Profissionais com Estórias o orientador profissional dispõe, a utiliza-
(DP-E), uma versão temática do Procedimento ção de uma técnica projetiva específica para
de Desenhos Livres com Estórias (D-E), pro- a área, como é o caso do DP-E, pode ser um
posto por Trinca (1987). Estava inicialmente importante recurso auxiliar, juntamente com a
motivada a criar um canal de comunicação entrevista semidirigida em Orientação Profis-
com o adolescente em fase de conclusão do en- sional. Ambas possibilitam o rápido levanta-
sino médio interessado em escolher uma pro- mento de um grande volume de informações
fissão. A técnica obteve ótima aceitação entre permitindo, além da elaboração do diagnós-
essa faixa etária, pois além de apresentar ca- tico vocacional, que essas informações sejam
racterísticas lúdicas, auxiliava o orientando a trabalhadas ao longo do processo a partir do
expressar seus anseios, suas aspirações e seus próprio material que o orientando produziu.
temores em relação à vida profissional futura.
A boa receptividade do DP-E deve-se também Ressalto ainda que as técnicas projetivas
ao fato de ser um recurso facilitador para o tra- são um meio menos usual de comunicação
balho com esse tipo de clientela, que, em geral, do que a linguagem oral; propiciam ótimas
tende a ser lacônica, utilizando-se apenas de condições para o diagnóstico da personali-
poucas palavras para explicar suas dúvidas e dade, pois possibilitam a emergência de as-
anseios. Além disso, por sua própria condição pectos mais profundos e inconscientes que
de imaturidade, trata-se de uma população o sujeito não tem conhecimento, não quer
que desconhece as razões que a motivam a se ou não pode revelar, uma vez que têm um
interessar ou a valorizar determinadas ocupa- conteúdo simbólico menos reconhecido (Van
ções em detrimento de outras. Kolck, 1984).

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Orientação Vocacional Ocupacional 195

O material coletado durante a disserta- segundo pedido contém características mais
ção de mestrado foi tão rico, que excedeu os superegóicas e do Ideal de Ego. O terceiro
objetivos iniciais da pesquisa, o que me fez pedido representa os temores em relação à
dar continuidade aos estudos sobre o DP-E em vida profissional, a perda do Ideal colocado
minha tese de doutorado (Lemos, 2006). Nela, nos pedidos anteriores. Revela também como
desenvolvi estudos de validade e precisão o indivíduo faz para superar a crise, mesmo
com o objetivo de estabelecer critérios de aná- perdendo. O quarto desenho supõe uma sín-
lise seguros para seus futuros usuários. Este tese e uma elaboração dos três pedidos ante-
capítulo é uma breve apresentação da técnica riores, além de requerer do examinando um
a partir da apresentação de um atendimento esforço de abandonar sua condição de jovem
em orientação profissional que realizei. ou adolescente para imaginar-se como adulto,
exercendo uma ocupação. Os estudos sobre
Na próxima seção, há uma breve expli- os aspectos psicodinâmicos das unidades de
cação a respeito de algumas características do produção do DP-E encontram-se publicados
DP-E e alguns aspectos relevantes que devem em artigo científico (Lemos, 2007).
ser considerados para a análise do material
produzido. Na seção posterior, é apresenta- Com relação aos procedimentos de análi-
do um estudo de caso de atendimento em OP se e aos critérios para a avaliação do DP-E são
no qual foi empregado o DP-E como recurso vários os aspectos que devem ser observados.
diagnóstico: trata-se de um adolescente em A seguir, apresento alguns mais relevantes.
fase de escolha profissional (primeira esco-
lha). O nome do orietando foi modificado a Preliminarmente cada unidade de pro-
fim de preservar o sigilo de sua identidade. dução (Desenho + Estória + Inquérito + Títu-
lo) deve ser examinada segundo a estratégia
CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DOS holística de livre inspeção proposta por Trin-
DESENHOS DE PROFISSIONAIS COM ca (1987). Realizam-se sínteses por unidade
ESTÓRIAS1 de produção e uma síntese global das quatro
unidades.
Os Desenhos de Profissionais com Estó-
rias são compostos de quatro pedidos, cada Nesse tipo de análise procura-se identifi-
um deles considerando uma unidade de produ- car os principais conflitos expressos nos dese-
ção formada por desenho, estória, inquérito e nhos e nas tramas das estórias, a resolução que
título: o examinando faz (ou não) desses conflitos, se
Primeiro pedido: Desenhe um profissional fazendo ele propõe soluções mágicas e idealizadas ou
realistas e possíveis.
alguma coisa.
Segundo pedido: Desenhe um profissional realiza- Para as análises tanto dos desenhos
quanto das estórias utilizo o referencial pro-
do fazendo alguma coisa. posto por Van Kolck (1984), em termos dos
Terceiro pedido: Desenhe um profissional em crise aspectos adaptativos, expressivos e projeti-
vos. Para avaliação dos aspectos adaptativos,
fazendo alguma coisa. procuro verificar se a produção do orientando
Quarto pedido: Desenhe você, em sua profissão fu- está de acordo com os pedidos solicitados e
se os desenhos e estórias que realizou estão
tura, fazendo alguma coisa. adequados à sua idade, ao sexo e aos níveis
socioeconômico e cultural.
Cada uma das unidades de produção
apresenta características psicodinâmicas pró- Para avaliação dos aspectos expressi-
prias. O primeiro pedido está relacionado ao vos, analiso o significado dos aspectos gerais
desejo na vida profissional e está mais rela- do desenho partindo do princípio básico de
cionado ao Ego Ideal (ego do narcisismo). O que o desenho representa o indivíduo e a fo-
lha de papel, o ambiente: posição da folha,

1 Considerações mais detalhadas sobre os procedimentos de análise do DP-E, bem como sua aplicação, serão
futuramente publicadas em forma de manual, pois se encontram em fase de aprovação no Conselho Federal
de Psicologia.

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196 Levenfus, Soares & Cols.

localização do desenho na página, tamanho APRESENTAÇÃO DE ESTUDO
do desenho em relação à folha, atitudes em DE CASO
relação ao desenho, indicadores de conflito
(omissões, borraduras, sombreamentos, etc). Dados pessoais
Os aspectos expressivos sempre devem ser Nome: Paulo (nome fictício)
considerados em relação ao pedido especí- Idade: 18 anos
fico em que eles aparecem. Por exemplo, a Escolaridade: ensino médio concluído
omissão de pernas na figura humana tem o Tipo de escola: particular
significado de sentimentos de falta de auto- Profissão da mãe: psicóloga e professora
nomia (Buck, 2003). Se tal omissão ocorrer universitária
no segundo pedido (profissional realizado),
esse indicador de conflito sugere a percep- Profissão do pai: jornalista
ção do examinando de que não possui au- Irmão mais velho de 23 anos: estudante
tonomia para alcançar a realização profis- de Propaganda e Marketing
sional. Na estória, procuro observar, no caso
do exemplo citado, se o profissional conse- Resumo da entrevista em Orientação
gue empreender ações para superar as difi- Profissional:
culdades que enfrenta e para alcançar seus
objetivos, se essas ações estão adequadas ao Paulo foi trazido para a OP pela mãe (o
contexto e ao campo ocupacional retratado pai não compareceu às entrevistas). Ele con-
no desenho. ta estar em dúvida a respeito de várias pro-
fissões. Chegou a fazer seis meses do curso
Para a análise dos aspectos projetivos, de Pedagogia na PUC entretanto, achou-o
procuro identificar os fenômenos incons- muito teórico, não gostou do que aprendia
cientes que incluem a dinâmica encoberta e desistiu. Atualmente pensa em Jornalismo,
de conflitos. Para tanto, são levantadas as Psicologia ou alguma profissão na área de
características atribuídas aos profissionais criação, como Propaganda e Marketing, pois
que o examinando escolheu desenhar em diz gostar dessa parte. Refere também gos-
cada pedido: os temas retratados, as motiva- tar de profissões que estudam o lado social,
ções dominantes, as reações ao ambiente, o como Sociologia. Os pais apoiam suas opções
desempenho das figuras identificatórias, as profissionais.
características do Ideal de Ego e do Supere-
go, o manejo do tempo, os mecanismos de Primeiro pedido: Desenhe um profissio-
defesa, entre outros. nal fazendo alguma coisa.

Cabe observar também o movimento ela- Observações de aplicação: Demorou 15
borativo ao longo das unidades de produção, segundos para iniciar o desenho, após pen-
se o examinando é capaz de adaptar-se à ta- sar um pouco comentou: “Ah... tá bom!”.
refa e consegue realizar insights ao longo das Iniciou o desenho pela cabeça da figura hu-
quatro unidades de produção ou, ao contrá- mana central, fez o corpo e os cabelos, fez a
rio, se ocorre um progressivo incremento da lousa ao fundo, a mesa com seus objetos e,
ansiedade e dos mecanismos de defesa, não por último, finalizou desenhando as cabeças
permitindo que o examinando se aproxime dos alunos.
das questões mais conflitivas que experimen-
ta em relação ao futuro profissional. Estória: “É um professorzão, ele tá dan-
do uma aulinha pra molecada, ah, que mais,
Para melhor compreensão dos critérios sei lá, a galera tá gostando de assistir, não
explicados nesta seção, apresento na seção sei (risos), não sou muito bom pra isso... Eu
seguinte um estudo de caso de atendimento imaginei uma aula de professor (silêncio). (E
em OP que exemplifica como é realizado o o que mais?) sei lá, não sei o que mais... É um
diagnóstico vocacional utilizando-se o DP-E professor de terceiro ano do ensino médio,
como recurso técnico e de que maneira foi ele tá ensinando matéria pros alunos... (O que
pensada a intervenção a partir desse diag- ele está ensinando?) Não sei do que ele dá aula.
nóstico. (Tente imaginar alguma coisa)... Literatura...
Acho, não sei.”.

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Orientação Vocacional Ocupacional 197

Inquérito: (Qual a idade do profissional?) do, ele foi aproveitando as oportunidades de
28 anos, (Qualidades do profissional?) É engra- trampo e chamaram ele. (Coisas que mais gosta
çado... faz humor com os alunos... sabe ou- na profissão?) De dar aula. Poder passar para
vir... não se prende só ao profissional... não as pessoas, ajudando o futuro da molecada.
é chato, se preocupa com os alunos, mesmo Quando ele chega ele tem prazer em dar aula.
fora da sala, dá uma aula boa, o pessoal acaba (Coisas que menos gosta na profissão?) Não gosta
gostando dele mesmo assim. (Defeitos do pro- de ter que lidar com diretor, ele dá aula de um
fissional?) Ele chega atrasado, como profissio- jeito não tradicional e o diretor se mete, tô me
nal ele chega atrasado, demora pra devolver lembrando de um professor, ele levava coisas
as provas e às vezes se esquece de explicar diferentes pra aula, coisas atuais, revista com
alguma coisa importante. (Como chegou a ser o matérias, coisa não só de livro de escola, tinha
que é?) Ah, ele estudou muito na facu, sempre mais dinâmica de grupo... eu lembro disso.
soube o que queria, decidido até, se deu bem (Quais os desejos e as aspirações do profissional?)
no que ele queria e foi indo até ser contratado Tem vontade de não parar nunca de dar aula
na escola para dar aula. (Como ele era antes?) e de as pessoas para quem ele deu aula se lem-
Inteligente, mas ele não sabia que ele ia dar brem dele e tenham aprendido coisas que ele
aula um dia, conforme o tempo foi passan- ensinou nesse tempo todo.

Figura 15.1 Paulo: Primeiro desenho.
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198 Levenfus, Soares & Cols.

Título: A história do . . . o professor, não percebe o ambiente (folha) como insuficiente
sei (risos), um dia do cotidiano. para conter todos os aspectos de si mesmo
que deseja colocar, precisando “cortá-las” da
Análise da primeira unidade de produção folha.

O desenho do profissional apresenta um Paulo apresenta bastante dificuldade em
tamanho adequado, a figura aparece centrali- elaborar uma estória nesse primeiro pedido,
zada na folha e está em ação, o que evidencia que é um momento de adaptação à tarefa, pre-
bons recursos egóicos do examinando. O pro- cisando da aplicadora para incentivá-lo. Sua
fissional é desenhado sem rosto, o que sugere dificuldade pode também ser decorrente do
que é muito difícil para Paulo imprimir “uma fato de não conseguir atribuir uma identida-
cara”, uma identidade ao profissional. As rou- de ao profissional: apesar de definida a pro-
pas largas e os cabelos longos expressam o de- fissão (um professor) não consegue definir o
sejo de trabalhar em um ambiente informal e a que ele ensina. O inquérito aponta que Paulo
manutenção de características adolescentes. se identifica com esse profissional devido às
suas características de companheirismo, ami-
Paulo faz o desenho em perspectiva, de zade, afetividade, “um professorzão”, e não
tal forma que o observador é colocado atrás pela atividade que exerce. O professor é um
da cabeça dos alunos que estão assistindo à bom profissional por ser extremamente afeti-
aula, o que sugere um certo distanciamento vo com seus alunos, mas não é competente em
da situação que está sendo retratada. O traça- relação às funções exigidas pelo cargo. O de-
do no desenho é bastante carregado, e Paulo sejo desse adolescente parece estar relaciona-
reforça o desenho várias vezes, o que é indica- do a encontrar uma atividade profissional na
tivo de angústia frente ao pedido (Van Kolck, qual ele possa expressar sua afetividade e não
1984). As cabeças dos alunos aparecem corta- precise ficar preso às atividades burocráticas
das pelo papel, sugerindo a continuidade des- ou rotineiras. Identifica-se com um profissio-
sas três figuras humanas para além da folha. nal que tem uma maneira não convencional
Esse aspecto pode ser indicativo de que Paulo de exercer sua função.

Figura 15.2 Paulo: Segundo desenho.
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Orientação Vocacional Ocupacional 199

Segundo pedido: Desenhe um profissio- era de família pobre, sem muita chance, aí
nal realizado fazendo alguma coisa. sem querer ela descobriu que tinha resistência
para aguentar maratona, foi recebendo apoio
Observações da aplicação: Começa a da família, amigos e outros caras que sabiam
desenhar imediatamente após o pedido, faz da profissão dela e disseram que ela tinha fu-
primeiro a cabeça da figura humana, o corpo, turo e ela foi conseguindo. (Quais os desejos e
a linha de chegada e finalmente a plateia ao as aspirações dessa profissional?) Continuar ven-
fundo. cendo e ter saúde para continuar exercendo a
profissão dela. (Quais as principais qualidades?)
Estória: profissional realizado? Sabe o É persistente, não tem apoio de cima, só força
que eu pensei? Naquela mulher chegando da interior e o apoio de quem gosta dela. (Quais
corrida da maratona, ela tava realizada. En- os principais defeitos?) Engraçado... não consi-
tão... acabou de ganhar a maratona, tá feliz, go pensar nos defeitos... poucos, ela deve ter
era o objetivo mesmo dela, que era ganhar a tido uma vontade de desistir, mas não desis-
maratona, ela tá realizada porque conseguiu. tiu então não é um defeito, porque ela às ve-
Ela pensa no dinheiro que ela tá ganhando, zes é meio preguiçosa pra treinar, mas se ela
que a vitória também tá relacionada a poder ganhou já não é tanto mais, ela já tá sentindo
ter dinheiro para as coisas dela. (E o que mais?) realizada. (Então qual seria o defeito dela?) Não
Depois ela vai subir no pódio, receber um sei... ela vai ser convencida depois, porque ela
prêmio, reconhecimento das pessoas e a par- ganhou, mas é porque ela ganhou, ela não vai
tir daí mais chance de trabalho, de corridas, entender a fama, vai ficar achando “sou a me-
vai ter patrocinadores. lhor”, depois ela vai cair na real, que não é a
maior coisa do mundo, é só uma vitória.
Inquérito: (Qual a idade da profissional?) 22
anos, ela já é bastante realizada e é “mó” nova. Título: A corredora
(Quais as coisas de que mais gosta na profissão?)
O espírito de competição, competitividade, de Análise da segunda unidade de produção
se preparar para competir. (Quais as coisas de
que menos gosta na profissão?) A falta de patro- O desenho da profissional aparece no-
cínio, não reconhecimento pelo esporte, eu tô vamente bem constituído, centralizado, bom
imaginando uma brasileira. No Brasil, o único tamanho e sem rosto, características já discu-
esporte que é valorizado é o futebol e ela sofre tidas anteriormente. A presença de movimen-
pra conseguir patrocínio. (Como chegou a ser o to voluntário na figura humana é indicativo
que é?) Se esforçando muito, treinando muito de grande mobilidade psíquica (Van Kolck,
pra poder ganhar por que as outras pessoas
também treinam muito. (Como era antes?) Ela

Figura 15.3 Paulo: Terceiro desenho.
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200 Levenfus, Soares & Cols.

1984). Paulo escolhe retratar uma atividade tressante, só o que vem à minha cabeça é esse
ao ar livre, dinâmica, até certo ponto alter- negócio de escritório, relatório, prazo para
nativa, pois foge aos padrões tradicionais de entregar... essas coisas, pressão de chefe. (Me
profissão. Entretanto, esta requer disciplina, conta uma história sobre esse profissional que você
dedicação, empenho, persistência e força in- desenhou.) Eu imagino o cara cansado, depois
terior para enfrentar as adversidades, uma de trabalhar a semana inteira em algo que ele
vez que é muito difícil vencer devido à falta nem goste muito, trabalha para ter dinheiro,
de patrocínio e de reconhecimento do esporte. cansado de fazer o que não gosta, tipo insatis-
A escolha de uma mulher para retratar a rea- feito... (E como vai terminar essa estória?) termina
lização na profissão indica que ele possui re- o cara chegando em casa cansadão, aquela ve-
ferências profissionais femininas muito fortes lha rotina de não falar com a mulher direito e
e presentes, possivelmente a figura materna. com o filho, ir dormir porque tem que acordar
Pode indicar também a percepção de Paulo de no sábado porque tem que trabalhar também,
que a realização profissional é da “ordem do mais ainda.”.
feminino”; portanto, sentida como mais dis-
tante de si. Inquérito: (Idade do profissional?) 30 anos,
(Qualidades do profissional?) ele é... bom no que
Aprofissional aparece com características ele faz, por isso que tá contratado na empresa,
idealizadas, não consegue encontrar defeitos mas não é o que quer fazer, faz tudo direitinho,
nela, a preguiça e a falta de persistência são entrega tudo dentro do prazo, mexe bem no
características pessoais que ele procura negar computador, entende das manhas, é comuni-
nesse pedido. Diferentemente do pedido an- cativo. (Quais os defeitos do profissional?) Tá liga-
terior, no qual apresenta um profissional até do a não gostar de fazer o que ele faz, relaxado,
certo ponto displicente com suas obrigações faz o que pedem, mas poderia fazer melhor, se
no trabalho, Paulo busca corresponder às exi- tivesse amor pelo trabalho, ele entrega tudo,
gências sociais do que é considerado um bom mas não faz com capricho, sabe. (Como chegou
profissional, para então conseguir reconheci- a ser o que é?) Ele... não sei... ah, foi meio indi-
mento social, retorno financeiro e oportuni- cação, ele foi indo, foi aproveitando chance, já
dades de crescimento profissional. Nesse sen- que não fez a faculdade que ele queria, estava
tido, a unidade de produção apresenta mais insatisfeito com o curso, fazendo o que não
características do conjunto superego-ideal de queria, aí um amigo que devia trabalhar tam-
ego (Nijankin e Braude, 2000) que a unidade bém lá chamou e ele foi ficando, em vez de ser
de produção anterior, a qual apresenta mais um emprego temporário ele acabou ficando.
aspectos relacionados ao desejo na profissão. (E o que vai acontecer?) Vai demorar pra ele sair,
mais uns três anos, aí ele consegue sair. (E o que
Terceiro pedido: Desenhe um profissio- ele vai fazer?) Não sei, imaginei fazendo o que
nal em crise fazendo alguma coisa. ele gosta, 30 anos, não vai voltar pra faculdade,
fazer alguma coisa com essa área, mas em ou-
Observações de aplicação: Ao ouvir o tra empresa, ou abrir uma sociedade com um
pedido, faz o seguinte comentário: “Nossa, amigo. (E ele vai ficar menos infeliz?) Vai. (Como
meu!... Aaah tá! Primeira coisa que eu pen- ele era antes?) Eu imagino ele fazendo faculda-
sei: escritório... o cara em crise trampando na de, molecão . . . Ah, um cara normal, não é um
frente do computador.” Enquanto desenha a cara especial, ele foi pra um emprego formal,
figura humana, a mesa e o computador, co- trabalho normal. (Quais seus desejos e suas aspi-
menta sobre minhas anotações, o que será que rações?) Ter um emprego que não tivesse chefe,
eu estou analisando do inconsciente dele. En- ou até por mim, ele nem sabe o que queria na
quanto desenha as “baias” do escritório, faz a verdade, mas ele sabe que não é isso o que ele
seguinte observação: “Esse aqui é um que não quer, ele quer um emprego mais leve, menos
quer trabalhar em lugar fechado”. pressão, essas coisas. (Do que ele mais gosta na
profissão?) Não sei,... gosta do computador, da
Estória: “Um cara triste, trampando num parte da criação, uma parte do trabalho ele
escritório, de saco cheio, de gravata... (E o que
mais?) tipo, quando eu vejo um trabalho es-

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