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Orientação vocacional

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Published by aida.psi.edu, 2020-04-07 06:08:30

Caderno O.V.

Orientação vocacional

Keywords: Orientação

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Orientação Vocacional Ocupacional 51

consciência da tarefa com suas causas e madura. Segundo os autores que estudam as
consequências. características maduras ou imaturas da esco-
• Apresentou uma divisão harmônica de lha profissional, na considerada madura, o su-
interesses profissionais, sendo o único jeito aponta escolhas fundamentadas na reali-
que também os agrupa por áreas. dade. Existe conflito na situação, pois esse não
• Denota maior grau de resolução de dú- é negado, mas o conflito existente tem condi-
vidas. ções de ser administrado. A escolha madura
• Centraliza a questão do medo na ideia não o libera da necessidade de revisar outras
de ter que mudar baseado em uma sé- escolhas e elaborar os abandonos de outros
rie de referências reais que apontam projetos.
pessoas conhecidas que mudaram de
curso ou de profissão. Na escolha ajustada, o adolescente con-
• Aponta a maior quantidade de refe- segue fazer coincidir seus gostos com as
rências de busca ativa por informações oportunidades exteriores, buscando encaixar
com elevado nível de conhecimento interesses e aptidões com o que a realidade
em relação a elas. e a carreira lhe oferecem. Demonstram ini-
• É o único grupo que abordou a univer- ciativa para explorar o mundo do trabalho.
sidade em sua discussão. Empreendem inúmeras atividades explora-
• É o único grupo que refletiu acerca do tórias, a saber: visita a universidades, cursos
vestibular. extraescolares, observação de atividades pro-
• É o único grupo que retratou o caráter fissionais e busca de informações por meio
evolutivo da escolha, apontando que a de leituras e conversas (Small, 1953, citado
decisão vocacional pode ser uma ques- por Nicholas, 1969; Bohoslavsky, 1982; Ma-
tão de tempo durante o processo matu- galhães, 1995).
rativo do sujeito.
Dessa forma, percebemos existir correla-
Esse grupo comportou-se de maneira ção entre a qualidade das relações objetais e a
próxima àquela que os autores definem como produção no momento da escolha profissional.

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52 Levenfus, Soares & Cols.

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Orientação Vocacional Ocupacional 53

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II

DIFERENTES CONTEXTOS EM ORIENTAÇÃO

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4

Orientação profissional na escola privada

Regina Anzolch Crestani

O tema Orientação Profissional impõe- particular de ensino médio de Porto Alegre
se como um dos mais relevantes na discussão e interior do Estado do Rio Grande do Sul.
atual sobre vida escolar e inserção do aluno A pesquisa foi realizada por e-mail e contato
no mundo do trabalho. Essa discussão, evi- telefônico com quatro perguntas fechadas (1.
dentemente, precisa acontecer no universo A escola disponibiliza Orientação Profissio-
dos ensinos público e privado. Contudo, a nal a seus alunos? 2. Há quanto tempo existe
presente reflexão restringe-se ao universo da esse serviço? 3. Em qual série é ofertado esse
escola privada. serviço? 4. A atividade é curricular ou extra-
curricular? ) e uma pergunta aberta quanto
As considerações a propósito da Orien- à metodologia utilizada no trabalho de OP
tação Profissional na escola privada, neste (número de encontros, técnicas e instrumen-
capítulo, partem de três estudos: o primeiro tos utilizados). Das 52 escolas pesquisadas
é direcionado à existência da OP nas escolas no RS, 15 oferecem o trabalho de OP em suas
privadas de Porto Alegre e interior do Rio escolas, 7 não oferecem e 30 não responde-
Grande do Sul; o segundo, realizado no iní- ram. Das 15 que oferecem, 6 escolas seguem
cio das minhas atividades profissionais, há o modelo curricular e nove o extracurricular,
18 anos, ocorreu junto a adolescentes pres- distribuídos tanto nas 2a séries quanto nas
tes a enfrentarem o concurso vestibular; o 3a séries. No que se refere à metodologia,
terceiro, focado na área da pedagogia, trata 80% realizam as atividades baseadas no au-
da correlação entre a escolha profissional e toconhecimento, por meio de dinâmicas de
os aspectos cognitivos. Busco também olhar grupo; aspectos informativos (visitas às uni-
para nossa realidade educativa brasileira, in- versidades e aos locais de trabalho, palestras
cluindo reflexões de Paulo Freire, e finalizo com profissionais e Feira das Profissões) e
com um modelo que reflete a minha prática uso de testagens (LIP, EMEP, QUATI). Os
de OP no Colégio João Paulo I, respaldada, profissionais que atuam na OP são, em sua
em nível teórico, por Pelletier, Bohoslavsky, grande maioria (87,5%), psicólogos e orien-
Piaget, Vygotsky, entre outros. tadores educacionais.

Em virtude do VIII Simpósio Brasilei- Em suma, no primeiro estudo, pode-
ro de Orientação Vocacional e Ocupacional, mos inferir que as escolas pesquisadas e que
que ocorreu na cidade de Bento Gonçalves, oferecem OP a seus alunos estão bem estru-
RS, em 2007, e por ter sido convidada a inte- turadas, tanto por profissionais quanto pela
grar a mesa-redonda intitulada Demandas e metodologia adotada. Porém, infelizmente,
Modelos de OP na Escola Privada, realizei uma algumas escolas ainda não despertaram para
pesquisa em março de 2007. Para essa pes- a necessidade do trabalho de OP. Note-se que
quisa foram contatadas 52 escolas da rede

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58 Levenfus, Soares & Cols.

57% das escolas não responderam à pesquisa, de uma escola particular de Porto Alegre (RS).
o que significa um descaso para a preparação Os resultados indicaram que 82,6% dos jovens
dos alunos em relação à sua futura inserção pesquisados optaram por estudar em determi-
no mercado de trabalho. nada escola devido à sua característica de pre-
parar para o vestibular. Após o ingresso no co-
O resultado dessa pesquisa muito me en- légio, 60,8% dos pesquisados afirmaram que o
tristeceu quando comparado a uma outra, nos interesse em ser aprovado na universidade fe-
mesmos moldes, realizada em 1990, quando deral aumentou ainda mais. A pesquisa apon-
iniciei minhas atividades junto à OP, em um tou, também, que o motivo que os impedia de
curso pré-vestibular, quando 60% dos adoles- melhorar o desempenho era o fato de 58,6%
centes relatavam que nunca haviam passado deles não terem feito ainda sua escolha profis-
por nenhum tipo de OP. Ou seja, passados 18 sional; 63% acreditavam que o simples fato de
anos, pouco mudou no cenário da psicologia estudar nessa escola e atingir a média mínima
escolar e da orientação educacional no que se para aprovação já era o suficiente para garan-
refere à OP. Psicólogos e orientadores enfocam tir automaticamente a aprovação no concurso
variados aspectos do mundo escolar e esque- vestibular e, consequentemente, sua inclusão
cem (ou não priorizam) essa linda fatia que é no mercado de trabalho.
preventiva e sadia: a de preparar o jovem para
sua inserção no mercado de trabalho. A contemporaneidade e o início deste
novo século caracterizam-se como um tempo
A minha insistência na importância do marcado por inúmeras mudanças sociais, eco-
trabalho de OP na escola privada de forma nômicas, culturais e políticas. Essa não é uma
curricular não é de hoje. As estatísticas de afirmação nova, assim como também não o
transferência e evasão dos cursos de gradua- é a de que as mudanças estão circunscritas a
ção nas universidade/faculdades são aterro- um processo de mundialização da economia e
rizantes. Além disso, a correlação existente de reestruturação da divisão internacional do
entre o desempenho escolar dos alunos e a trabalho, de desregularização dos mercados e
escolha profissional não vem sendo conside- de modificação dos parâmetros de organiza-
rada por uma parcela muito significativa de ção social e política.
escolas que tendem a observar os alunos de
ponta – os com maiores dificuldades ou os Ao serem discutidos e estudados por
bem-sucedidos – não dando tanta importân- profissionais da área, os processos de desen-
cia no olhar pedagógico aos alunos media- volvimento econômico e o conhecimento,
nos. O estudo objetivava a busca dos motivos frequentemente, são caracterizados como
que levavam o estudante de ensino médio a um dos principais fatores das novas formas
não procurar melhor desempenho cognitivo de organização social e econômica. Muitas
escolar e a se conformar com sua situação de vezes, é tido também como condicionante e
mediano. Considerando o fator conhecimen- gerador de desigualdades e exclusões.
to, foi pesquisado um grupo de adolescentes
do ensino médio proveniente de escola parti- Freire, em seu livro Educação como prá-
cular. O tema focado foi o “aluno mediano”. tica da liberdade, caracteriza a sociedade bra-
Ou seja, o que instiga um aluno a se manter sileira, a partir dos anos de 1960, como em
“medianamente”, a não se tornar melhor, transição. Considera a sociedade vigente
com mais condições cognitivas de enfrentar como alienada, uma sociedade fechada, por-
as provas de vestibular, de se inserir no ensi- que o centro das decisões está fora dela. É
no superior e, por conseguinte, no mercado uma sociedade dirigida por uma elite que se
de trabalho, para, por fim, tornar-se um futu- superpõe a seu mundo, uma elite que não
ro “agente de mudança”. está integrada à sociedade. Para Freire, tal
estrutura dificulta a mobilidade social ver-
A amostra foi composta por 46 alunos tical, porque apresenta grandes índices de
de ambos os sexos, com idade entre 15 e 16 analfabetismo é colonial, antidemocrática,
anos, estudantes do 2o ano do ensino médio antidialogal, etc.

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Orientação Vocacional Ocupacional 59

Partindo dessa concepção da realidade cos. O ensino público só foi instaurado, e ainda
brasileira, Paulo Freire propõe métodos para assim de forma precária, durante o governo do
conduzir um processo educativo no qual nin- marquês de Pombal, na segunda metade do sé-
guém seja excluído. Buscando inspiração na culo XVIII. No século XIX, a alternativa para os
maiêutica socrática, pretende viabilizar uma filhos dos pobres não seria a educação, mas sua
pedagogia do processo educativo que inicia transformação em cidadãos úteis e produtivos
pelo diálogo, estabelecendo relações humanas na lavoura, enquanto os filhos de uma peque-
que possibilitem ao povo a elaboração de uma na elite eram ensinados por professores parti-
consciência crítica da realidade do mundo em culares, realidade que permanece até os dias de
que vive. Em outras palavras, o educando, no hoje, em pleno século XXI.
desenvolver do processo educativo, precisa to-
mar consciência da realidade, isto é, conhecer a A escola, pública ou privada, tem a fun-
realidade em que vive. ção de desenvolver a capacidade geral de
pensamento e julgamento do aluno, pois o
O processo educativo não é transmis- que acompanha o ser humano até a velhice
são nem doação de conhecimentos, mas sim são as habilidades de deduzir, inferir, com-
participação, envolve educando e educador a parar e raciocinar, a partir de três fatores bá-
partir de uma situação concreta e desafiadora, sicos (cognitivo, afetivo e social), para que se
da qual devem brotar significações e valores estabeleça a identidade no desenvolvimento
para o educando. Nessa perspectiva, o pro- da personalidade, além da transmissão de
cesso educativo acontece a partir do diálogo, conhecimento. Para Piaget (citado por Ries,
durante o qual o educando é, desde o início, 1997), o conhecimento não é, em parte, in-
provocado pelo educador a despertar a cons- fluência do meio e, em parte, produto da
ciência para perceber e compreender a reali- herança; o conhecimento não está no sujeito
dade que o rodeia, a realidade em que vive. O nem no objeto nem no somatório dos dois,
processo educativo deve levar o educando à visto que, entre o sujeito e o objeto, existe a
conscientização do significado real das situa- ação, e é essa que lhe permite construir seu
ções vivenciadas por ele. conhecimento. Segundo o autor, o desenvol-
vimento cognitivo é um processo que se re-
O principal conceito de Paulo Freire aliza em todo ser humano e tem um caráter
privilegia a educação como forma de conhe- sequencial, isto é, ocorre em uma série de
cimento que se processa por meio da cons- estágios, sendo cada um deles necessário.
cientização da realidade. Isso ocorre quando o Logo, cada estágio resulta, necessariamente,
indivíduo estabelece relações com a realidade do precedente e, ao mesmo tempo, prepara
circundante na tentativa de desvelá-la, isto é, o seguinte. Portanto, a diferença entre crian-
percebe a realidade e estabelece as mais di- ças e adultos é de natureza qualitativa, e não
versas conexões existentes entre as diferentes quantitativa. À medida que a criança desen-
situações possíveis. volve sua inteligência, constrói estruturas
cognitivas progressivamente mais comple-
A conscientização tem implicações po- xas e mais abrangentes, isto é, ela não se tor-
líticas e sociais, porque não basta desvelar a na mais inteligente enquanto se desenvolve,
realidade, é necessário transformá-la. E, para mas passa a apresentar um tipo de inteligên-
transformar, é necessária a ação prática sobre cia diferente da do estágio anterior.
a realidade. Então, desvelar a realidade é agir
sobre ela, é o que, na filosofia, chamamos de Estudar não significa o que muitos pen-
práxis (saber unir a teoria e a prática), quando sam e concebem como um simples sentar em
o sujeito, a ação e o objetivo da ação são inse- bancos escolares e ouvir o que os professores
paráveis. transmitem para refletir, tal e qual, posterior-
mente, em provas ou exames. Trata-se de uma
E qual é, efetivamente, o papel da escola visão muito simplória, tradicional e passiva.
e de seus orientadores? Pelo contrário, estudar é um ato que envolve

Desde o início da colonização, as escolas
jesuítas eram poucas e, sobretudo, para pou-

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60 Levenfus, Soares & Cols.

dinamismo e requer muito esforço por parte do Em virtude da problemática pela qual
estudante. Estudar é ação, ação transformadora, todo adolescente passa – elaboração dos lu-
libertadora e construtora de uma nova realida- tos, identificações, transitoriedade do perío-
de. Isso, de certa forma, aparece na pesquisa, na do –, por definição, a adolescência significa
qual nem todos os alunos possuem consciência “crise”. Os chineses, que sempre tiveram uma
de que eles são os agentes de mudança do futu- visão inteiramente dinâmica do mundo e uma
ro e que podem transformar o mundo. A ideia percepção aguda da história, parecem estar
que esses alunos passam é a de que falta muito cientes dessa conexão entre crise e mudança.
tempo para o agir, ou seja, estão no momento O termo que usam para “crise” – wei-ji – é
de acomodação, como fica evidente nos relatos composto dos caracteres “perigo” e “oportu-
de alguns alunos: “ano que vem eu penso no nidade”. Por ser essa uma crise vital – pela
vestibular”; “falta vontade”; “tenho preguiça, qual todos nós, adultos, já passamos, uns de
nunca serei o melhor”; “sei que não vou conse- forma mais acentuada que outros – possui a
guir ser um destaque”. conotação de normalidade.

O orientador, segundo Folberg (1986), Apesar da “crise” e dos conflitos, todo
deve desempenhar o papel daquele que per- adolescente é capaz de escolher. Para isso,
cebe o aluno como um todo, como um ser no entanto, é necessário que ele se conheça
em evolução, em marcha para a maturidade. (gostos, interesses, expectativas) e se motive
Volta-se para a realidade biológica, social, psi- a buscar informações a respeito de seu desejo
cológica e vocacional do orientando e ajuda-o quanto à escolha profissional.
a melhor realizar-se e integrar-se no proces-
so geral do viver como autêntico cidadão, no Com as pesquisas realizadas, os estudos
contexto social em que tem de atuar. Confor- teóricos e as experiências com os adolescentes,
me Super (citado por Pelletier, 1985, p.12): penso que urge um trabalho de conscientiza-
ção das autoridades (diretores, supervisores,
[...] o papel do orientador consiste orientadores, psicólogos e professores) e das
em auxiliar o indivíduo não só a desen- escolas da rede privada, a fim de dar uma es-
volver uma imagem verdadeira de si cuta maior ao trabalho de OP.
mesmo e do mundo do trabalho, mas em
auxiliá-lo também a verificar essa ima- A seguir, apresento a filosofia que norteia
gem em contato com a realidade e atua- e o modelo de OP realizado de forma curricu-
lizá-la de modo satisfatório. Ajuda-o, em lar e extracurricular, em uma escola privada
particular, a compreender para onde vai, de Porto Alegre; escola que tem por propósi-
isto é, as etapas pelas quais deve passar, to ser um espaço social onde o construir da
os fatores capazes de influenciar suas de- educação do indivíduo não pode perder de
cisões quanto à carreira, a natureza das vista as ansiedades e os conflitos inerentes à
tarefas de que deve desincumbir-se para própria transformação física e psicológica que
conseguir uma adaptação vocacional o aluno está passando. Faz-se necessário não
satisfatória, a maneira de cumprir essas prescindir de objetivos claros que garantam
tarefas e as condições que facilitam ou a aquisição de competências e de habilida-
dificultam seu desempenho. des necessárias ao aprimoramento intelec-
tual, forjadoras de um cidadão crítico e au-
Super (citado por Pelletier, 1985, p. 38) tônomo, capaz de participar e interferir no
salienta ainda que o “desenvolvimento voca- mundo em que está inserido.
cional é um processo que se estende da infân-
cia até a velhice”. Ele se desenrola de maneira Assim, a escola está comprometida com
ordenada, previsível, dinâmica, visto que re- uma formação que se caracteriza pela inten-
sulta da interação entre os conhecimentos do cionalidade, pela sistematização e pela or-
indivíduo e as solicitações da cultura. ganização de conteúdos de ensino, de forma
a preparar o educando para a construção do
conhecimento, para a responsabilidade, para a
liberdade, para o trabalho, para a solidarieda-

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Orientação Vocacional Ocupacional 61

de e para a cidadania. O currículo da institui- a família o trabalho desenvolvido pela
ção possui garantia da universalização do sa- escola, convidando-os a serem parcei-
ber e de sua socialização, elevando o nível de ros, orientando e ajudando seus filhos
compreensão por parte do alunado e a do fim no processo da escolha profissional.
maior da educação: o pleno desenvolvimento • Palestra para os alunos do 2o ano: tam-
da pessoa, seu preparo para o exercício da ci- bém ocorre no início do ano, de pre-
dadania e sua qualificação para o trabalho. ferência, no mesmo instante em que
ocorre a dos pais. O colégio convida
MODELO DE ORIENTAÇÃO um profissional para conversar com
PROFISSIONAL – ENSINO MÉDIO os alunos sobre escolha profissional,
vestibular, possibilidades de inserção
Procedimentos no mercado de trabalho e novos cursos
de graduação oferecidos pelas univer-
Atendimento individual, coletivo e siste- sidades. Essa palestra tem por objetivo
mático aos alunos do ensino médio para que estimular e motivar os jovens quanto a
se conscientizem da importância de uma ade- seu futuro profissional.
quada escolha profissional. • Dinâmicas de grupo: de sensibilização
e de promoção de autoconhecimento –
Execução “Quem sou eu?”. Um dos aspectos mais
importantes dessa fase social e moral
• 2o ano do EM – Curricular: de março está relacionado à busca da identidade.
a setembro, encontros coletivos sema- Alguns autores chamam-na inclusive
nais. A partir de setembro até o final do de “drama da adolescência”, ou seja, re-
ano letivo, encontros individuais. solver o “Quem sou eu?”. A identidade
pessoal é a consciência de si mesmo, é
• 3o ano do EM – Extracurricular: no a coordenação das próprias experiên-
transcorrer do ano letivo, encontros cias e das expectativas de futuro, é a
individuais. apresentação de si mesmo aos outros.
A identidade pessoal forma-se a partir
Recursos Didáticos da história de cada um, de suas expe-
riências, da construção de suas teorias,
• Palestras para os pais dos alunos do 2o dos instrumentos para a sua relação
ano: no início do ano letivo é feita uma com a sociedade adulta, da assimilação
reunião com os pais, ocasião em que é das ideologias que caracterizam a so-
apresentado o projeto do trabalho de ciedade. Exemplos de dinâmicas: “Do
OP que será desenvolvido na escola, que gosto e do que não gosto?”. Téc-
bem como uma palestra ministrada por nicas dos “bombons”1, do “Espelho”2,
um profissional convidado que atua na
área de OP. O objetivo é estender para

1 Ver técnica dos bombons no Capítulo 25 deste livro.

2 Técnica do Espelho: Técnica que objetiva trabalhar questões de autoconhecimento e autoimagem. Para
a realização dessa técnica, há a necessidade de dois técnicos: o primeiro permanece com o grupo e dá as
devidas orientações sobre o procedimento, anotando as percepções trazidas e demonstradas pelos alunos; o
segundo fica do lado externo da sala, aguardando os alunos individualmente. O primeiro informa que cada
aluno sairá da sala e será apresentado uma figura; e posteriormente, cada um deverá falar sobre ela para
o grande grupo. A figura é o próprio aluno, seu reflexo no espelho. A técnica é finalizada apresentando o
conto “O Espelho” (Assis, 1998, p. 41) que diz:

Jacobina – personagem central do conto – toma a palavra e, em primeira pessoa, revela como descobriu sua
verdadeira essência, isto é, como reconheceu sua própria identidade ao vestir uma farda de alferes. O relato
é feito a partir da imagem de duas metades de uma mesma laranja que constituí, em última instância, as
duas almas humanas – a interior e a exterior.

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62 Levenfus, Soares & Cols.

dos “Autógrafos”3, da “Bandeira”4, das pastas individuais ao longo do ano leti-
“Colagens”5, etc. vo, facilitando a análise do orientador,
• Frases incompletas de Bohoslavsky.6 oportunizando um momento de autor-
• Autobiografia.7 reflexão do orientando em relação a seus
• Técnicas Informativas: DVDs que tra- gostos, interesses e motivações referen-
tam do assunto; material didático como tes às profissões, e por fim, permitindo
Guia do estudante; encartes de jornais, ao aluno fazer sua opção.
revistas. Trabalho de campo, visita dos
alunos às universidades – salas de au- A cada início de ano letivo, no 3o ano do
las, laboratórios, biblioteca, CPD, etc. EM todos os alunos são chamados a participar
Visita a locais de trabalho, troca entre os de uma entrevista de sondagem sobre sua es-
pais de alunos. colha profissional, a fim de serem agrupados
• Feira das Profissões: tem por objetivo em três situações distintas: já decididos, em
propiciar maior contato dos estudan- fase de decisão e totalmente indecisos. Para
tes que estão em processo de escolha qualquer um dos três casos é aberta a possi-
profissional com os profissionais das bilidade de participar de uma “reorientação”,
mais diferentes áreas de atuação. Para em horário extracurricular, em grupos de até
tanto, são convidados pais, ex-alunos 10 alunos. Em nossa experiência, devido ao
da escola, alunos de universidades trabalho que realizamos em OP ao longo do
e de faculdades, com o propósito de ano letivo, junto aos alunos do 2o ano, são
conversar com os alunos interessados poucos os que procuram uma reorientação.
sobre curso específico, esclarecendo as Os que procuram, geralmente, são casos de
dúvidas quanto ao currículo, atrativos encaminhamentos para profissionais da área,
da carreira, do mercado de trabalho e a fim de trabalhar questões como ansiedade,
de experiências pessoais sobre o dia-a- conflitos, baixa autoestima, etc.
dia do exercício da profissão.
• Observação e devolução: todas as obser- Conclui-se que, mesmo passados 500
vações dos encontros são agrupadas em anos de nosso descobrimento, a educação bra-
sileira continua sendo de Terceiro Mundo, sub-

3 Técnica dos Autógrafos: Objetiva instigar a competição, situação essa inerente ao processo seletivo – ves-
tibular e mercado de trabalho. Ensina que toda conquista pressupõe doação e que sem a ajuda de nossa
espontaneidade pouco pode ser obtido, principalmente no que se refere ao relacionamento interpessoal no
futuro mercado de trabalho. Cada aluno recebe uma folha em branco cujo propósito é conseguir o maior
número de autógrafos possíveis em um tempo de 10 minutos. Depois, os alunos revelam suas impressões
e como se sentiram nesse processo de busca e de ser interpelado por alguém. Número de participantes: 15
a 20 (Antunes, 1991, p.77).

4 Técnica da Bandeira: Técnica extraída do livro Aprendendo a Ser e a Conviver, na qual cada aluno toma consciên-
cia dos seus valores, habilidades e limitações, facilitando o autoconhecimento e a reflexão. É entregue aos alu-
nos uma folha na qual consta uma bandeira desenhada, dividida em seis partes, que o aluno deve preencher
respondendo às respectivas perguntas: a) Qual sua melhor qualidade?; b) O que gostaria de mudar em você?;
c) Qual a pessoa que você mais admira?; d) Em que atividade você se considera muito bom?; e) O que mais
valoriza na vida?; f) Quais as dificuldades que você encontra em trabalhar em grupo?. A atividade com a
bandeira leva em torno de 20 minutos e, após, deve ser compartilhada com os demais colegas de sala de aula.
(Baleeiro, 1999, p.83)

5 Técnica da Colagem: Técnica aprendida no curso oferecido pelo SOP(UFRGS) e adaptada pelas estagiárias
do setor de psicologia. Objetiva um confronto com a problemática profissional. Cada aluno recebe uma fo-
lha A3, a qual eles dividem em dois lados, além de revistas, jornais, tubos de cola, canetas coloridas. Em um
dos lados solicita-se que sejam coladas fotos, reportagens, cenas, palavras, frases que revelem a situação,
o momento atual; no outro, que revelem a situação na qual eles se imaginam no futuro, por exemplo, dali
sete anos, tempo mínimo para a finalização do ensino médio e da graduação, momento em que estarão se
inserindo no mercado de trabalho. Finaliza-se com uma apresentação para o grande grupo, quando é feita
a análise final pelo orientador.

6 Ver Capítulo 18 deste livro.

7 Ver Capítulo 24 deste livro.

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Orientação Vocacional Ocupacional 63

desenvolvida, pois ainda é a da sociedade dos Além dessas atividades, no percurso das
excluídos. Mesmo após a nova LDB ter criado diversas definições da adolescência e nas apro-
políticas para a inclusão, dando autonomia e li- priações do termo, pode-se sintetizar o adolescer
berdade às escolas de criar educação dentro da como a busca de um lugar, tarefa historicamente
sua realidade, do seu contexto, ainda estamos agenciada sem duração determinada, ambígua,
engatinhando nesse processo. Neste vasto país, que remete o adolescente a inúmeras indaga-
temos vários “brasis”. No contexto geral das ções e à vasta busca de respostas próprias para
escolas privadas, temos diversos alunos com valores, relações, profissão. Além disso, no que
um único ou principal objetivo: a aprovação diz respeito especificamente à escolha da profis-
no vestibular. Enquanto isso, a grande maio- são, ela vem acompanhada dos terríveis exames
ria dos alunos brasileiros ainda não conseguiu vestibulares e da percepção de uma suposta de-
concluir o ensino fundamental. cepção com o mundo adulto, sem possibilida-
des de inserção no mundo do trabalho.
Essas são duas faces dos muitos “brasis”.
Enquanto na escola particular a preocupação Ter espaço na escola para discutir e orien-
concentra-se no desempenho dos alunos fren- tar o profissional do futuro – não só como
te ao desafio dos exames vestibulares, grande aquele capaz de exercitar e aprimorar cons-
parte da juventude brasileira não frequenta a tantemente seu “marketing pessoal” no fluxo
escola e, assim, aumenta significativamente os acelerado do empreendedorismo, da compe-
índices de exclusão. titividade, do darwinismo social e do indivi-
dualismo – é iniciar um trabalho cujo efeito se
Consideramos importante o olhar lançado estende para além do êxito de uma escolha de
sobre a escola cujos alunos corresponderam ao curso adequada. Nesse sentido, atividades que
nosso estudo e nos ofereceram elementos para discutam conceitos como democracia, justiça
analisarmos o porquê de não se sentirem mo- social, solidariedade e responsabilidade com-
tivados à luta por melhor desempenho, tendo partilhada parecem adequadas e enriquecedo-
em vista as oportunidades que lhes são ofereci- ras à experiência de um programa de OP.
das. Portanto, cabe à escola uma preocupação
maior em criar projetos, atividades em OP di- Em suma, não se pretende aqui encerrar
recionadas, envolventes e prazerosas para es- esse estudo, mas sim instigar profissionais de
ses alunos, para que motivem-se a progredir na diferentes áreas a se aprofundarem ainda mais
direção do sucesso, para que não desanimem, nessa questão, abordando outros aspectos,
evitando o aumento dos índices de fracasso, de como “a influência das relações familiares no
evasão escolar e, consequentemente, de trans- impedimento do processo de ensino-apren-
ferência em cursos de graduação. dizagem” ou “aspectos patológicos que blo-
queiam a aprendizagem”. Tais aspectos não
Sabe-se que as atividades não devem, são abordados no presente estudo, embora
e não podem, privilegiar a “memorização do sejam de extrema importância para a compre-
conteúdo”: devem ser significativas para os ensão do desempenho do “aluno mediano”
alunos. Ao contemplar as disciplinas de Filo- e para a temática da OP. O ser humano, com
sofia e Sociologia, agora obrigatórias nos cur- efeito, transforma o mundo pela ação social do
rículos das escolas de ensino médio, estamos trabalho. Nada mais coerente que a escola, des-
certos de que podem e devem contribuir com de sempre e em vários níveis de seu currículo,
os chamados temas transversais. A escola ins- preocupe-se com a orientação profissional de
tigará não só a motivação extrínseca, mas a seus alunos e que o faça de forma abrangente,
intrínseca também, objetivando uma maior garantindo a eles a possibilidade de se torna-
troca de diálogo entre educador e educando e rem, efetivamente, agentes de mudança e cons-
estimulando o processo de conscientização do trutores de uma sociedade mais ética, justa e
pensar, de acordo com as ideias de Paulo Frei- mais humana.
re para que o aluno saia da posição cômoda e
parta para a ação.

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64 Levenfus, Soares & Cols.

REFERÊNCIAS

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Filosofia da Educação; Sociologia da Educação.

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5

Orientação profissional em grupo na escola pública

direções possíveis, desafios necessários

Luciana Albanese Valore

Este capítulo tem como propósito com- Inicialmente, é importante situar esse
partilhar algumas reflexões referentes ao pro- tipo de intervenção no contexto mais amplo
cesso de Orientação Profissional no contexto das diferentes atuações que configuram o de-
da escola pública, a partir da experiência de- nominado “fazer psi”.1 É preciso deixar claro
senvolvida em um projeto de extensão uni- que psicólogo se tem em perspectiva e, tendo
versitária da Universidade Federal do Paraná, em vista que o assunto é orientação profissio-
junto a estudantes do ensino médio da rede nal, torna-se oportuno tentar delinear os con-
pública e privada do Estado. tornos que circunscrevem a identidade profis-
sional desse orientador profissional.
Ao sermos procurados para supervisão
em OP, é comum ouvir como primeira per- Para os propósitos deste texto, parece-
gunta: “Que técnicas devo utilizar?”. Natural- nos suficiente afirmar que a identidade profis-
mente, diante de um novo trabalho, nossas sional constrói-se em um processo contínuo,
inquietações iniciais costumam girar em tor- passível de revisão e de constantes ressigni-
no das ferramentas de que iremos dispor para ficações, definindo-se, essencialmente, pelo
obtermos êxito em nosso empreendimento. tipo de compromisso, de ideal e de meta com
Contudo, antes de nos propormos a tirar qual- os quais o profissional vincula-se e identifica-
quer coelho de dentro da cartola (se é mesmo se.
que tal coelho está lá!), é preciso considerar a
natureza e a razão de ser de tais ferramentas, Sendo assim, considerando o que se tem
articulando-as ao método do qual decorrem e, discutido nos recentes eventos e publicações
sobretudo, aos objetivos do profissional que que tratam da formação em psicologia2, vis-
as utiliza. lumbramos um profissional comprometido,
essencialmente, com a promoção de saúde,

1 Embora estejamos nos referindo ao psicólogo no papel de orientador profissional, cabe lembrar que a atuação
em OP não se restringe aos profissionais de psicologia, podendo ser exercida também pelo orientador educa-
cional. Fundamental, em qualquer caso, é a formação específica nesse campo de intervenção, em geral obtida
por meio de estágios profissionalizantes e de cursos de especialização. Tal formação deverá garantir a com-
preensão dos fundamentos e o domínio das estratégias que configuram o método clínico em OP, proposto
no presente capítulo. Nessa perspectiva, torna-se igualmente necessária uma formação em psicanálise, pois,
como se verá adiante, o método clínico vincula-se aos princípios formulados pela teoria psicanalítica. Além
disso, considerando-se as especificidades que envolvem a formação do psicólogo e a do pedagogo, parece-
nos ser sempre interessante pensar na OP como um campo de atuação interdisciplinar, envolvendo ambos
os profissionais tanto quanto os de áreas afins à temática da escolha profissional e de suas articulações com a
sociedade e com o mercado de trabalho, como o sociólogo, o economista e o administrador.

2 Novamente, cabe ressaltar que a referência ao campo da psicologia ocorre em função de nossa área de atua-
ção. Reflexão semelhante torna-se recomendável no que concerne à formação em pedagogia.

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66 Levenfus, Soares & Cols.

como bem colocam Bock e Aguiar (1995), com lação homem-trabalho-sociedade, os múltiplos
a superação de subjetividades heterônomas determinantes da escolha e o peso que lhes atri-
e com a explicitação das crescentes situações buímos, as indagações que nos faremos a res-
de exclusão predominantes na sociedade con- peito do objeto de intervenção serão diferentes.
temporânea. Nessa perspectiva, tem-se como Por qual prisma olhar: a escolha da profissão ou
ideal um psicólogo comprometido com a cria- a construção de uma identidade profissional? O
ção de novos canais de comunicação e com “o que fazer” ou o “quem ser”? As aptidões e os
o desenvolvimento de relações comunitárias interesses ou o sujeito como um todo? A carrei-
mais cooperativas. ra ou o projeto de vida?

Isso posto, pensamos que, da definição Baseados em nossa experiência e nos
dos objetivos que vêm norteando a práxis do trabalhos de renomados estudiosos em OP,
psicólogo, podem-se configurar os objetivos como Bohoslavsky (1991), Levenfus (1997),
dessa práxis quando ela assume a forma de Super (1957), Soares-Lucchiari (1993), Lisboa
um processo de OP. Como agente de mudan- (2000), entre outros, entendemos que o obje-
ças das relações sociais e do modo como o to de estudo e de intervenção em OP consiste
sujeito se posiciona quanto ao seu querer, na identidade profissional, a qual não remete
teremos que assumir que o lugar ocupado apenas ao “o que fazer” – como conjunto de
pelo orientador profissional, seja um psicó- tarefas ocupacionais predeterminadas –, mas
logo seja um orientador educacional, será o ao “quem ser e quem deixar de ser”, integran-
de instrumentalizador (um dos) da aprendiza- do-se à identidade pessoal mais ampla. Pensa-
gem da escolha da profissão e das transformações mos que a identidade profissional consiste em
pessoais nas relações do sujeito consigo mesmo e uma posição subjetiva diante da vida, do mundo
com seus ideais, com o outro e com o mundo que e de seu papel nesse mundo. Tal posição é cons-
o cerca. truída por meio das relações interpessoais e
deriva de uma série de princípios, valores e
A premissa de que o orientador profis- posturas – ora reconhecidos, ora desconheci-
sional opera como instrumentalizador da es- dos pelo sujeito – os quais, ao serem articula-
colha coloca-nos frente à questão do método dos com o ideal de cada um, constituirão um
a ser utilizado em OP. Não é nosso objetivo “projeto de vida”.
alongarmo-nos nessa temática, proficuamen-
te abordada em outros capítulos neste livro; Uma vez escolhido o prisma, será possí-
apenas gostaríamos de assinalar alguns pon- vel definir a lente com que conduziremos nos-
tos que norteiam nosso trabalho de OP em es- sa tarefa. Na perspectiva aqui assumida, tra-
colas, a fim de torná-lo mais claro ao leitor. ta-se do método clínico, tal como foi proposto
por Bohoslavsky (1991) em sua contraposição
OBJETO DE INVESTIGAÇÃO E DE à modalidade estatística em OP.
INTERVENÇÃO EM OP
Fazer clínica na escola?
No processo de OP, concebemos o méto-
do de intervenção como algo que, mais do que A opção pelo método clínico em OP, no
um conjunto de procedimentos, representa contexto da escola, pode suscitar mal-entendi-
uma estratégia do pensamento3, uma articu- dos entre os quais o de se conceber tal trabalho
lação de conceitos e de proposições que confi- como um processo psicoterapêutico. Parece-
gura um objeto de estudo e permite uma dada nos importante, para evitar possíveis equívo-
análise. Disso resulta que, para se poder esta- cos e frustrações quanto aos resultados preten-
belecer o método em OP, é preciso perguntar- didos e alcançados, que tanto a escola quanto o
se acerca de seu objeto. próprio orientador profissional tenham claros
os limites entre uma e outra proposta.
Dependendo de como concebemos o lugar
ocupado pela profissão na vida de alguém, a re-

3 Esta concepção é retirada do pensamento de Foucault, sendo abordada em sua obra História da Sexualidade
vol.1 A Vontade de Saber(1999).

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Orientação Vocacional Ocupacional 67

Se, por um lado, não há como negar fins terapêuticos, fundamentado na psicopa-
as interfaces entre os processos, posto que a tologia). É útil também para se fazer o enqua-
OP pode produzir efeitos terapêuticos4 e, em dramento5 da intervenção em uma situação
certo sentido, guarda proximidade com a psi- institucional distinta da do consultório. Desse
coterapia focal, e que a psicoterapia implica modo, a intervenção nos grupos não seguirá
igualmente a revisão das escolhas pessoais, os moldes tradicionais da intervenção de um
por outro, não se pode sobrepor um tipo de psicanalista em situação de análise individual
intervenção a outro. Os objetivos, o manejo ou coletiva. O que aí se preserva, na medida
dos processos psíquicos (aí implicada a ques- do possível, em que o processo grupal de OP
tão da transferência), as intervenções e a pos- em uma escola assim o permita, é um certo
tura do coordenador dos grupos são distintos distanciamento por parte do orientador pro-
em cada situação. fissional, uma “dissociação instrumental”6, do
imaginário grupal. Todavia, sua atitude tende
Além disso, a OP realizada na modali- a ser muito mais participativa e, por vezes,
dade clínica apresenta um caráter psicopeda- diretiva.
gógico, uma vez que se propõe a auxiliar na
aprendizagem da escolha da profissão. Mas, Se pensamos em um orientador profis-
então, como conceber o termo “clínico”? sional comprometido com a promoção da
saúde e com tudo mais o que postulamos
Bohoslavsky (1991) tece várias conside- anteriormente, vemos que, em contraposição
rações relevantes a propósito dessa questão. à modalidade estatística em OP, o método
Não é nosso objetivo aqui retomá-las, e sim clínico, com sua implicação ética de respeito
sinalizar que, por “clínico”, entendemos uma ao desejo do outro, atende mais satisfatoria-
estratégia de escuta, uma determinada aborda- mente aos ideais que norteiam a intervenção
gem do objeto de intervenção que considera os do psicólogo na sociedade contemporânea,
aspectos inconscientes determinantes da posi- pois lhe permite propiciar condições para
ção subjetiva frente à problemática da escolha. que o orientando possa redimensionar suas
Nesse sentido, em nosso trabalho, valemo-nos escolhas, seus ideais, seus interesses e suas
da escuta clínica psicanalítica para compreen- potencialidades, considerando o que possa
der o universo singular de cada orientando vir a conhecer de si e do chamado “mundo
em seu processo de escolha, de crescimento e do trabalho”, e o que possa vir a reconhecer
de construção da sua identidade e do seu pro- de si pela via das identificações nesse mundo.
jeto de vida, bem como para poder discernir Além disso, por meio do trabalho em grupo,
os meandros do acontecer coletivo. A escuta o orientando poderá vir a aprender novas for-
clínica revela-se um valioso instrumento no mas de se comunicar e de se relacionar com o
trabalho com a resistência, entre outros me- outro, em um rico exercício de inserção social.
canismos psíquicos, e com os boicotes (tantas Ao se trabalhar com a ideia de um projeto de
vezes observados no processo de OP) frente às vida, e não apenas com a de um curso a ser
angústias suscitadas pelo/no movimento de escolhido por ocasião do vestibular, oferece-se
tornar-se “gente grande”. ao orientando a oportunidade de exercer um
papel comprometido e responsável, tanto na
Em certa medida, pode-se afirmar que construção de seu destino individual quanto
o referencial clínico psicanalítico serve, exa- no da comunidade em que se insere.
tamente, em seu caráter de referência, para se
pensar a dinâmica da escolha profissional e São exatamente esses nortes da atuação
a implicação de cada orientando em relação psicológica, ao mesmo tempo tão gerais (a
ao processo de OP (sem qualquer pretensão ponto de permitir a descrição de uma catego-
de se fazer um estudo psicodiagnóstico com

4 Como o do autoconhecimento e o da mudança pessoal (aspectos bem observados por Müller, 1988).

5 Retornaremos a este ponto na discussão referente aos procedimentos.

6 O conceito de “dissociação instrumental” foi desenvolvido por Bleger (1984) e refere-se a uma atitude clíni-
ca a ser mantida pelo psicólogo, a qual irá lhe permitir, por um lado, identificar-se com os acontecimentos
ou com as pessoas; por outro lado, irá lhe possibilitar manter certa distância, a fim de que não se veja pes-
soalmente implicado nos acontecimentos que devem ser estudados.

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68 Levenfus, Soares & Cols.

ria profissional) e tão singulares (posto que se vorecendo a compreensão do papel
redefinem em cada ato de intervenção, segundo social que cada profissional exerce em
as representações particulares que cada psicólo- um determinado cenário (como algo
go constrói acerca de sua prática, de si e desse si que não está dado de saída, mas que
em prática; que determinam os procedimentos se constrói continuamente na relação
e as técnicas de seu fazer). Nesse sentido, não dialética entre o profissional e a comu-
se iluda: não há receita pronta. É justamente nidade), e possibilitando a superação
isso o que torna este trabalho tão gratifican- da postura individualista passiva pela
te. Os procedimentos são criados conforme o postura cooperativa e comprometida
contexto e o que se espera dele. Além disso, com o outro.
há que se considerar o que o próprio contex-
to deseja para si próprio. Tendo isso em vista, A inserção institucional do trabalho de
apresentamos a seguir – a título de inspiração OP oferece oportunidades extremamente fér-
- algumas ideias para se pensar em uma pro- teis que podem contribuir para a ampliação
posta de OP em grupo, para alunos do ensino do alcance da intervenção psicológica, valo-
médio, na escola pública. rizando, inclusive, aos olhos da comunidade
como um todo, a presença – geralmente rara
PROPOSTA DE OP PARA AS ESCOLAS – do psicólogo na escola. O mesmo pode ser
PÚBLICAS dito quanto ao orientador educacional, pois,
embora normalmente faça parte da equipe
Objetivos principais da OP na escola pedagógica, nem sempre encontra-se atuando
pública em OP. Assim, junto à realização dos grupos
de OP, parece-nos bastante viável, e desejável,
Ancorados no objetivo central da OP – que o orientador profissional trabalhe visan-
instrumentalizar a escolha e a construção da do a oportunizar, para os educadores, a reflexão
identidade profissional pela via do autoco- acerca da problemática da escolha profissio-
nhecimento e da articulação entre o conheci- nal e do papel por eles exercido na construção
mento dos aspectos implicados no “mundo da identidade de seus alunos, possibilitando
do trabalho” e o universo subjetivo de cada um lugar de fala e de escuta também para a
orientando –, no contexto da escola pública, escola.
caberia propor alguns outros objetivos igual-
mente relevantes: PROCEDIMENTOS DE INTERVENÇÃO:

• Oportunizar a análise dos mitos con- Como oferecer a proposta de OP para a
cernentes ao sucesso – ou ao fracasso – escola?
profissional de estudantes provenien-
tes de escolas públicas. Quer a iniciativa de desenvolver uma OP
seja do orientador profissional, quer surja da
• Favorecer e exercitar o processo de es- escola, é sempre conveniente estabelecer um
colha, de tomada de decisões, em uma contrato de trabalho, um “enquadramento da
comunidade que, geralmente, repre- tarefa”7, a fim de aparar algumas arestas que
senta-se a si própria como “não tendo rondam o imaginário institucional e – por que
escolha”. não – também o do próprio orientador pro-
fissional a respeito desse tipo de intervenção.
• Contribuir para o desenvolvimento de Para ambas as partes, torna-se fundamental ex-
uma postura ativa na busca de infor- plicitar os objetivos da OP, o método utilizado
mações. e o alcance possível da intervenção realizada.

• Propiciar a reflexão acerca das rela-
ções homem-trabalho-sociedade, fa-

7 Esta noção é retirada de Bleger (1984), que a define como sendo a tentativa de tornar constantes as variáveis
presentes em cada situação particular de intervenção.

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Orientação Vocacional Ocupacional 69

Naturalmente, tanto o cronograma quanto o pletamente seguros quanto à carreira
planejamento das atividades devem permitir escolhida, parece-nos mais realista e
flexibilidade em respeito à dinâmica de cada desejável que eles possam aprender
grupo. Embora a previsão quanto ao desen- a escolher, aprender sobre si e sobre
rolar do processo e aos resultados obtidos não seus limites, sobre a realidade social/
seja totalmente possível, convém, contudo, profissional e sobre sua inserção nessa
sempre oferecer uma estimativa acerca das realidade. A segurança advém dessa
expectativas que se tem e das possibilidades etapa prévia. Finalmente, cabe refletir
com que se conta para poder concretizá-las. a respeito do caráter voluntário da par-
Em outras palavras, o que se pode prometer ticipação dos orientandos nos grupos:
para a escola e para os orientandos é o com- se um dos objetivos da OP é o desen-
promisso de se fazer um trabalho bem feito, o volvimento de uma postura autônoma
qual não depende apenas da boa vontade do diante da escolha, não há sentido em
orientador, mas, principalmente, da implica- obrigar alguém a fazer aquilo que, no
ção de todos os que estão, de alguma forma, momento, não pode assumir como sen-
envolvidos com o processo. Nesse sentido, é do seu desejo. É claro que, pensando-se
importante deixar claros alguns pontos: sobretudo nas turmas de ensino fun-
damental, pode-se propor um trabalho
• A eficácia de um trabalho conjunto psi- obrigatório, voltado a todos os alunos
cólogo-escola: quanto maior a partici- de uma mesma turma (às vezes, isso
pação desta – na sensibilização dos pode ser feito em conjunto com algum
alunos, na viabilização dos recursos e professor). Várias atividades de sen-
no desenvolvimento de atividades pa- sibilização para as ocupações e para a
ralelas aos grupos de OP8 –, melhores escolha são feitas assim. Todavia, caso
serão os resultados. do presente artigo, trataremos exclusi-
vamente da condição de grupos de OP
• Os principais pressupostos da modalidade com voluntários.
clínica de OP e as expectativas que EXIS- • O número de vagas, a clientela (alunos de
TEM quanto aos resultados: sem dúvida, todas as séries), os procedimentos de divul-
é da competência do orientador profis- gação e de inscrição para os grupos, as eta-
sional definir os rumos metodológicos pas e o cronograma do processo de OP, os
de sua intervenção; contudo, parece- recursos a serem utilizados, os horários e os
nos ser bastante relevante explicar o honorários: Existe uma série de detalhes
porquê da escolha deste método e não técnicos e operacionais os quais preci-
de outro. Muitas vezes, a demanda da sam ser tratados em uma primeira con-
escola e dos próprios alunos é a de que versa, sendo bastante interessante fazer
ele aplique algum teste milagroso, a um planejamento conjunto a respeito
partir do qual se possam profetizar as deles. Nesse sentido, pode-se apre-
verdadeiras vocações. Convém, por- sentar posteriormente uma proposta
tanto, desmistificar o uso exclusivo escrita contendo esses itens. Outra al-
dos inventários de interesses e das ternativa é montar um mural na sala
baterias de aptidões, apresentando à dos professores com o cronograma da
escola as vantagens da utilização de OP e com recortes de jornais, revistas,
outros instrumentos (testes projetivos, etc., concernentes ao tema. A finalida-
de personalidade, dinâmicas de gru- de do mural é motivar o envolvimento
po, discussões, etc.). Um outro ponto dos professores, embora não se dispen-
a ser mencionado refere-se ao objeti- se uma reunião prévia de apresentação
vo da OP: mais do que esperar que os da proposta. Um ponto que costuma
orientandos finalizem o processo com- ser questionado refere-se ao número de

8 Sugestões destas atividades encontram-se adiante.

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70 Levenfus, Soares & Cols.

orientandos por grupo (em nossa expe- tucional, da psicodinâmica de seu funciona-
riência, temos observado que o número mento. O conhecimento das representações
máximo desejável de integrantes não (que os alunos têm de si, da vida e do tra-
deve passar de 12-14). Normalmente, balho) e das expectativas construídas pelos
a escola espera um número maior, o docentes quanto ao sucesso-fracasso profis-
que certamente inviabiliza a eficácia sional dos alunos pode ser valioso a fim de
de uma OP conduzida na modalidade se planejar, mais criteriosamente, uma OP.
clínica. É conveniente, então, assumir Por fim, cabe considerar que esse “enqua-
frente à escola o compromisso com a dramento da tarefa” é algo a ser confirmado
qualidade. em diversas ocasiões, e não apenas em uma
• Benefícios para os orientandos e para a pró- conversa inicial. A sua importância reside em
pria escola com a implantação de um servi- tentar se firmar, de comum acordo, algumas
ço de OP: no caso de a OP ser conduzi- bases de atuação.
da pelo psicólogo e de a escola nunca
ter tido um profissional atuando nessa Approach aos interessados: procedimentos
área, um dos principais pontos a serem
tratados, inicialmente, remete à apre- de divulgação e de sensibilização
sentação da própria Psicologia. Por
que e para que um psicólogo na escola? A apresentação da proposta de OP para
Psicólogo não faz só terapia? Esclarecer os alunos pode ser feita contando com re-
essas questões, tentando apontar os be- cursos diversos: palestras, murais, cartas
nefícios trazidos pela OP para os alu- pessoais, folders, exposição em sala de aula,
nos – sobretudo no que se refere a seu reuniões com grupos de alunos durante o
amadurecimento pessoal, ao exercício recreio, entre outros. Além disso, resulta de
de troca com o grupo, à autoestima e forma interessante o uso de procedimentos
à motivação para envolver-se com os de sensibilização para a problemática da es-
estudos – é fundamental. Para tanto, colha profissional, como filmes seguidos de
o próprio psicólogo precisa ter claro o debates, elaboração de teatros (com os pró-
que está fazendo e em que pode con- prios alunos ou com a colaboração de alunos
tribuir: daí a importância de uma for- que já tenham participado da OP), discussão
mação consistente para atuar em OP em sala de aula nas diferentes disciplinas (no
e da reflexão constante quanto às im- caso de um trabalho articulado aos professo-
plicações de tal atuação. Muitas vezes, res). O importante nesse approach é o orien-
uma supervisão com outro profissional tador profissional mostrar a cara, dizer a que
pode ajudar. veio e em que acredita ao propor tal processo
e, em se tratando do psicólogo, desvincular
A apresentação desses itens, nunca é a OP da ideia de terapia grupal, procurando
demais lembrar, pressupõe igualmente, por desmistificar o pré-conceito de que psicólogo
parte do orientador profissional, uma escu- é coisa para louco.
ta. Assim, a ocasião do contrato de trabalho
revela-se bastante rica para efeitos de um Nessa etapa, é oportuno retomar com
diagnóstico preliminar do funcionamento os alunos os principais itens componentes do
da escola, no caso de o orientador não fazer “enquadramento da tarefa” antes proposto.
parte dela. Nesse sentido, é proveitoso ouvir Naturalmente, por mais claras que sejam as
e perguntar muito: sobre a escola, sobre os informações prestadas, o imaginário de cada
professores, sobre as atividades curriculares um se encarrega de distorcê-las ao seu bel-
e extracurriculares desenvolvidas, sobre a prazer. Por isso, muitas serão as ocasiões em
clientela e sobre a comunidade mais ampla. que o orientador terá de repeti-las com outra
Havendo tempo disponível, é recomendável linguagem. O intuito dessa etapa é o de possi-
realizar um reconhecimento prévio (junto à bilitar o exercício da escolha: caberá ao aluno
comunidade escolar) acerca da cultura insti- decidir se quer ou não fazer parte do processo
proposto.

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Orientação Vocacional Ocupacional 71

As inscrições para a OP • Favorecer a aproximação entre os alu-
nos e o orientador profissional.
O processo de inscrição para a participa-
ção nos grupos pode ser enriquecido com o • Reapresentar a proposta de OP, eluci-
preenchimento (sempre por parte do interes- dando eventuais dúvidas ou fantasias
sado) de um formulário, contendo – além de (ainda que elas retornem durante a
dados pessoais – questões voltadas à investi- OP).
gação da situação frente à escolha e da mo-
tivação para a OP. Em geral, uma semana é • Analisar a demanda para a OP e para
tempo suficiente para se cumprir tal etapa, a o estágio de escolha em que o aluno se
qual pode ser operacionalizada pela secretaria encontra.
da escola. Em contrapartida, o acompanha-
mento das inscrições pelo orientador permite • Possibilitar a distribuição equilibrada
a observação de alguns aspectos interessan- de orientandos em cada grupo (não
tes, como, por exemplo, quem a faz sozinho colocando todos os tímidos juntos, por
ou acompanhado por um grupo de colegas, exemplo).
quem quer inscrever um outro aluno, quem
exige fazer parte do mesmo grupo de seu me- • Conhecer um pouco do universo parti-
lhor amigo ou namorado. Além disso, possi- cular de cada entrevistado, sobretudo
bilita o esclarecimento de dúvidas concernen- no que se refere a seus interesses e a
tes à proposta de OP e ao funcionamento dos seu posicionamento frente à situação
grupos. de escolha.

Por ocasião das inscrições são agendadas • Verificar a necessidade de encaminha-
as entrevistas individuais, comunicando-se mento para psicoterapia (complemen-
aos alunos que a falta não justificada repre- tarmente ao processo de OP ou antece-
senta desligamento do programa (tendo-se dendo-o).
isso em vista, é sempre oportuno estabelecer
uma lista de espera). • Investigar a adequação do processo
de OP proposto para cada orientando
Com relação aos custos da OP, em nossa (tanto no que concerne aos princípios
experiência com escolas públicas, temos obser- da modalidade clínica quanto no que
vado que o trabalho gratuito pode favorecer o concerne ao fato de a OP ser realizada
descompromisso dos alunos para com a pro- em grupo).
posta. Nesse sentido, como alternativa, parece-
nos interessante combinar com eles algum tipo Visando ao alcance de tais objetivos, pen-
de pagamento simbólico, o qual, não necessa- samos que o modelo de entrevista semidire-
riamente, deva ser em dinheiro (os honorários cionada mostra-se bastante eficaz, na medida
profissionais deveriam ser acertados com a em que permite flexibilidade sem, contudo,
escola), mas por meio da doação de materiais favorecer a dispersão das falas. Nesse senti-
de consumo, almofadas, etc. Evidentemente, a do, consideramos importante conversar com
questão vai variar de acordo com cada situa- o entrevistado a respeito de alguns aspectos:
ção particular; caberá ao orientador profissio-
nal, mediante a análise da cultura institucional • a razão de sua vinda e suas expectati-
em que está inserido, definir qual o melhor vas com relação à OP;
procedimento a ser adotado.
• o conhecimento ou a experiência pré-
As entrevistas e os encaminhamentos vios que ele possa ter com relação à OP
ou a qualquer outro tipo de interven-
A realização de entrevistas individuais ção psicológica, bem como as represen-
(de, no mínimo, 40 minutos) é fundamental tações construídas quanto à figura do
para a formação dos grupos e atende aos se- psicólogo;
guintes objetivos:
• os receios e as angústias relacionados
ao futuro profissional;

• suas representações acerca de trabalho,
sucesso-fracasso profissional, projeto de
vida;

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72 Levenfus, Soares & Cols.

• seu momento particular quanto à esco- Os grupos de OP
lha profissional (o que já sabe – e como
o soube – a respeito, o que imagina pre- Terminada a etapa das entrevistas, ini-
cisar ainda saber e o porquê, os fatores ciam-se os grupos. É oportuno convocar pes-
que influenciaram nessa escolha – ou a soalmente cada entrevistado, relembrando-o
falta deles); da data de início da OP.

• sua escolha vista pelos outros (expecta- A realização de encontros semanais, de
tivas de pais, amigos, professores); duas horas cada, costuma ser bastante provei-
tosa. A duração do processo grupal pode ser
• representações construídas acerca de pensada em torno de dez semanas, sendo a di-
si: habilidades, dificuldades, interes- visão dos encontros concebida em função das
ses, etc.; seguintes temáticas e dos seguintes objetivos:

• expectativas com relação a si próprio; 1. Apresentação pessoal e integração dos
• expectativas com relação ao orientador orientandos,9 reflexão em torno das expec-
tativas grupais quanto à OP, discussão refe-
profissional. rente ao contrato de trabalho de funciona-
mento do grupo e reflexão em torno do ato
Os aspectos anteriores podem ser com- de escolher (partindo de situações simples e
plementados ou substituídos por outros, de- cotidianas até se chegar à questão da esco-
pendendo da situação. No momento da en- lha da profissão) (primeiro encontro).
trevista, importa atentar não apenas ao que é
dito, mas também a como é dito e a partir de 2. O processo de escolha e de tomada de decisões
que lugar: a investigação quanto à posição subje- (foco: as minhas escolhas e as escolhas que fize-
tiva frente à escolha e à vida de modo mais amplo é ram para mim): A discussão em torno dos as-
nossa meta prioritária. Para tanto, a escuta clíni- pectos e das implicações presentes em uma
ca, à qual nos referíamos anteriormente, se faz situação de escolha e de tomada de decisões
valer. É justamente essa escuta das repetições, constitui o foco desta etapa. No início do
das contradições, das lacunas, das ambiguida- processo, o objetivo é introduzir a temática
des e da polissemia presentes no discurso que a fim de retomá-la posteriormente, à luz de
irá nos nortear também para a necessidade de um novo olhar. Nessa discussão prelimi-
uma segunda entrevista ou de um encaminha- nar, é feito o levantamento das condições
mento para psicoterapia. Este último pode ser necessárias para a realização de uma esco-
necessário ao identificarmos no entrevistado lha pessoal, dos fatores que a influenciam,
excessiva angústia – mobilizada pela própria das expectativas familiares e, sobretudo,
situação de escolha ou por fatores pessoais ou dos sentimentos que tal situação mobiliza
familiares outros – que não poderia ser traba- – principalmente frente à exigência de se
lhada em uma situação de OP. Nesse sentido, tornar “gente grande”. Além disso, são le-
é tarefa do orientador investigar a questão vantados os principais interesses ocupacio-
prioritária a ser trabalhada, a fim de deter- nais dos orientandos, bem como o que eles
minar o melhor encaminhamento. Há casos, reconhecem como sendo suas habilidades,
por vezes mais delicados de configurar (“as correlacionando-as a possíveis perfis profis-
aparências enganam”), em que simplesmen- sionais (um encontro).
te não há demanda para um trabalho de OP:
explicitar isso para o entrevistado já é, por si 3. O olhar para dentro de si (foco: passado-pre-
só, uma forma de intervenção. Por fim, ainda sente): Neste momento, em continuidade
que o entrevistado resolva seguir uma psico- ao anterior, foca-se o autoconhecimento,
terapia com o mesmo orientador profissional principalmente no que concerne ao “quem
(no caso de este ser psicólogo), não nos parece fui” e ao “como me tornei assim”, ao “do
recomendável que isso se dê no contexto da
escola. É importante preservar o enquadra-
mento.

9A partir do terceiro encontro, convém não aceitar novos membros.

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Orientação Vocacional Ocupacional 73

que eu gostava e do que não gostava”, ao angústia, a qual é esperada e até desejada,
“o que eu sabia fazer e o que eu não sa- pois propicia ao orientando um maior con-
bia”, ao “como costumava escolher e re- tato consigo e com aquilo que desconhece,
solver meus problemas” (como me sentia mobilizando-o para a busca. Neste ponto, a
e a quem recorria), ao “quem eram meus grande pergunta é: “O que espero para meu
heróis e o porquê”, ao “quais eram os mis- futuro e o que preciso para chegar lá?” (um
térios que me intrigavam”, ao “quem eu encontro).
queria ser quando crescer” e ao “o que
meus pais esperavam de mim”, até se 5. Olhar para dentro, percebendo-se dentro de uma
chegar ao “quem sou e como sou hoje” sociedade (foco na relação eu-mundo social/pro-
e à situação presente dos demais pontos fissional): Aqui, objetiva-se proporcionar a
abordados na análise da história passada análise sobre a inserção pessoal no contexto
(gostos, habilidades, escolhas, etc.). Essa social, mediante o exercício de uma profis-
reflexão objetiva a percepção de si como são, além de promover a mobilização do
um ser continuamente em processo, sem- grupo para a busca de informações sobre
pre diferente e, ao mesmo tempo, sempre as ocupações existentes e para a discussão
igual a si mesmo. O fato de essa reflexão em torno das condições pessoais (às vezes,
se dar na presença de iguais fortalece a co- vivenciadas como “falta de condições”) re-
esão e a identificação grupal, propiciando ferente à obtenção de êxito profissional. Um
maior segurança em um momento em que aspecto importante a ser trabalhado nesse
isso se revela tão frágil – como frágil é o momento é o da problemática da escolha e
momento da adolescência – e favorecendo da ascensão social, no contexto das classes
o desenvolvimento das etapas posteriores sociais referenciadas como desfavorecidas.
da OP (em média, um encontro). Nessa perspectiva, as discussões retoma-
rão as temáticas propostas no item anterior,
4. O olhar para fora (foco no presente apontando versando sobre as questões: como eu parti-
para o futuro) voltando o olhar para dentro (foco cipo desse mundo que vejo em volta? O que
no projeto de vida): Nesse momento, as ques- eu gostaria de fazer nele? Como eu pode-
tões centrais são: em que mundo eu vivo? ria me inserir e quais são as minhas chan-
Quais são as necessidades da sociedade em ces? O que penso dos ideais pessoais em
que vivo? E do planeta? O que as pessoas minha sociedade? Em que medida eu me
em volta de mim fazem? Quais são as ocu- reconheço neles? Em que medida me des-
pações existentes? Quais eu valorizo, quais conheço? O que eu conheço sobre o mundo
não? Por quê? Quais são os ideais pessoais do trabalho? O que falta conhecer para eu
em minha sociedade? O que é o mercado de poder escolher? Por que eu tenho que fazer
trabalho? O que é preciso para se dar bem vestibular? O que vai acontecer se eu não
nele? O que é se dar bem? Na discussão re- passar? Será que, como estudante de uma
lacionada ao futuro, objetiva-se retomar es- escola pública, eu tenho condições de fazer
sas mesmas questões, inserindo-as em um uma universidade (ainda mais se ela for pú-
exercício imaginativo de construção dos ce- blica)? Como me permitir escolher quando
nários sociais futuros e de suas possíveis de- a minha necessidade maior é a de arrumar
mandas, das mudanças que poderão ocorrer um bom emprego?(um encontro).
em termos da relação homem-trabalho-so-
ciedade. Pretende-se, com isso, a abertura 6. Olhar para fora (foco nas ocupações e nas carrei-
do imaginário para o futuro (ideais, sonhos, ras existentes): Verdades e mitos referentes
receios, obstáculos, expectativas pessoais), às ocupações e às carreiras existentes, tanto
visualizando-o como uma porta a ser aber- de nível técnico quanto de nível superior,
ta, sendo a profissão uma de suas chaves. configuram a temática a ser trabalhada
Dimensionar a profissão no contexto de um nesse momento. Objetiva-se enfocar a im-
projeto de vida futura, ainda que em cará- portância da informação e da revisão de
ter de esboço preliminar, costuma provocar pré-conceitos construídos acerca das profis-

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74 Levenfus, Soares & Cols.

sões e de seus pré-requisitos. Pretende-se, tante conversar abertamente a respeito dos
igualmente, tratar das características que resultados obtidos, contrapondo-os aos es-
configuram o ensino superior, as exigências perados, relembrando aos orientandos que
feitas nesse nível, os objetivos da formação ainda não se sintam seguros quanto à esco-
universitária, as dificuldades presentes na lha, pois decorre de um processo interno de
vida acadêmica. Além disso, trabalha-se elaboração, cujo tempo é bastante particu-
com os orientandos no sentido de instru- lar. É preciso investigar, com o orientando
mentalizá-los para a busca de informações, em dúvida, seu nível de consciência quanto
discutindo-se possíveis alternativas de pes- aos possíveis caminhos a serem trilhados na
quisa sobre as profissões (dois encontros, mais busca de confirmação de sua escolha. Outro
uma visita à principal universidade pública da aspecto a ser trabalhado é o desligamento
região. Adiante, descrevemos tal atividade). do grupo, os lutos daí decorrentes (último
encontro).
7. Novo olhar para dentro (foco na escolha cons-
ciente): Chegando ao final da OP, não ne- É nesse movimento contínuo do olhar e
cessariamente chega-se ao término do do sentir, do dizer e do escutar (sobretudo a
processo de escolha de uma profissão. si próprio), de dentro para fora e de fora para
Contudo, nesse momento, é preciso um dentro, que a OP pode favorecer a construção
esforço de síntese, de articulação de todos de algumas bases para o desenvolvimento da
os aspectos abordados, quer pela via do identidade profissional. Ao fazer uso de uma
autoconhecimento, quer pela via do co- escuta clínica, o orientador profissional pode-
nhecimento das ocupações, dos cursos de rá auxiliar na problematização das questões
graduação (após a visita à universidade), apresentadas, na interpretação dos conflitos
das condições necessárias para se fazer inconscientes, na análise do sentido produzi-
uma escolha e, principalmente, da tomada do pelo discurso dos orientandos, no esclare-
de consciência de alguns fatores motiva- cimento de suas dúvidas e, sobretudo, na aco-
cionais relacionados a ela. Busca-se aqui lhida de suas angústias, transformando-as em
o resgate dos sentimentos vivenciados nas motivação para o difícil processo de crescer e
descobertas feitas na OP. As questões a se- de aprender a escolher.
rem discutidas podem ser: frente a tudo o
que descobri na OP, como estou me sen- Ao se considerar os aspectos inconscien-
tindo? O que posso aproveitar disso para tes do processo de escolha, pode parecer con-
minha escolha? O que mais preciso saber? traditório, e até mesmo impossível, elencar
O que ainda me impede de escolher? Do temáticas a serem trabalhadas, encerradas em
que tenho medo? De que forma minha fa- uma determinada etapa e ordenadas em uma
mília está encarando essas descobertas? dada sequência cronológica (não por acaso re-
Como estou visualizando meu projeto de lacionou-se entre parênteses o tempo previsto
vida? Quais ideais o norteiam? Qual pro- para cada discussão, o qual – ao todo – corres-
fissão me permitirá concretizá-lo? Afinal, ponde às 10 semanas previstas para a OP). A
quem eu quero ser quando crescer? (um divisão feita, a definição das temáticas e, sobre-
encontro). tudo, a sua distribuição no tempo foi aqui ela-
borada tendo em vista as finalidades didáticas
8. Olhando de fora para dentro de mim: Como que uma exposição, do gênero deste artigo, de-
cheguei aqui na OP e como estou saindo? manda. Todavia, que fique claro ao leitor que
Sinto-me pronto para crescer? Como foi, aqui esboçamos um planejamento ideal.
para mim, trabalhar nesse grupo e como
me sinto agora ao ter de deixá-lo? Essas Em tese, uma OP em grupo na escola
questões sintetizam os temas que pautam poderia seguir a sequência temática pro-
o momento de encerramento dos grupos. posta antes. Contudo, tanto o número de
A realização de uma autoavaliação e da encontros e seu encadeamento quanto às
avaliação do processo de OP consistem no questões trabalhadas, tudo é passível de al-
principal objetivo dessa etapa. É impor- terações, dependendo das características e
das necessidades de cada grupo. Às vezes,

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Orientação Vocacional Ocupacional 75

ao trabalharmos o autoconhecimento, por assinalar alguns recursos utilizados sem, po-
exemplo, sentimos a necessidade de investir rém, descrevê-los (até porque, no âmbito do
novamente na integração grupal, ou preci- presente livro, encontram-se sugestões de téc-
samos entrar com a discussão sobre as pro- nicas extremamente interessantes e originais,
fissões para motivar o grupo, entre outras as quais poderão servir como oportuna refe-
questões. rência ao leitor). Assim, baseados nos autores
indicados e em nossa própria experiência, no
Como se pode observar, o que fazemos contexto de uma OP realizada em grupo, com
nos grupos é aprofundar e enriquecer as ques- alunos do ensino médio, e sempre tendo em
tões formuladas na entrevista individual, pe- vista as inúmeras questões levantadas para
las vias da discussão e da vivência grupal. As cada temática e etapa previstas anteriormente,
expectativas familiares, as representações so- podem ser utilizados:
bre si e a angústia do crescimento são temáti-
cas que permeiam e fundam todo o processo, • questionários individuais (sobre inte-
ainda que não explicitamente. Na verdade, resses, escolhas, representações de si
nem sempre é possível abordar tantos aspec- e do mundo do trabalho, projeto de
tos em nove encontros: há que se considerar vida), os quais serão retomados na dis-
o momento, a motivação e a maturidade dos cussão grupal;
orientandos. Convém também lembrar que o
grupo exerce um papel ativo na escolha das • vivências individuais voltadas ao pas-
questões a serem trabalhadas, questões que sado e ao futuro;
se mesclam ao longo dos encontros, retor-
nando vez ou outra. O que nos interessa é: • dramatizações de diversas situações
como retornam? E o que esse retorno quer problemáticas (“um dia no futuro”,
nos dizer? “contando aos pais sobre a decisão to-
mada”, “fazendo vestibular”, “eu em
Uma última observação diz respeito ao meu ambiente de trabalho”, etc.);
trabalho com a informação: o tempo é exíguo
para se fazer um “curso” sobre as profissões. • redação de uma carta aos pais, falando
Nem é esse o objetivo, mesmo porque é im- sobre a escolha;
possível ao orientador conhecê-las todas em
profundidade. Investe-se, então, no incentivo à • dinâmicas de integração grupal;
busca de conhecimento, instrumentalizando os • dinâmicas de despedida;
orientandos para a leitura crítica das informa- • colagens, esculturas vivas, trabalho
ções obtidas através de diferentes meios (guias,
revistas, jornais e TV, visitas a empresas, entre- com argila, cartazes, construção de his-
vistas com profissionais, etc.). tórias;
• técnicas individuais e coletivas dire-
Algumas considerações sobre as técnicas cionadas ao reconhecimento das habi-
lidades pessoais dos orientandos, cor-
Existe uma abundante e rica bibliografia relacionando-as aos diferentes perfis
concernente a técnicas específicas de interven- ocupacionais;
ção em OP,10 bem como a dinâmicas de grupo • jogos voltados às profissões e discus-
facilmente adaptáveis às finalidades específi- são de material informativo correlato;
cas de cada encontro realizado.11 Além disso, o • role-playing da atuação profissional e
trabalho com grupos costuma estimular a cria- de entrevistas com profissionais.
ção de novos instrumentos destinados precisa-
mente ao momento vivenciado por um grupo Além dos instrumentos utilizados nos
em particular. Neste Capítulo, limitamo-nos a grupos, contamos com a visita a uma universi-
dade (selecionando-se, em geral, a mais procu-
rada por ocasião do vestibular) e com a solicita-
ção de tarefas de casa.

10 Recomendamos a consulta às obras de Soares-Lucchiari (1993), de Lisboa e Soares (2000), de Levenfus
(1997) e de Carvalho (1995), entre outros autores.

11 A este propósito, indicamos a obra de Serrão e Baleeiro (1999), que apresenta várias dinâmicas voltadas ao
trabalho com adolescentes.

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76 Levenfus, Soares & Cols.

Havendo a possibilidade de se combinar liação por escrito. Em anexo, há um exemplo
com a universidade uma visita aos cursos de de formulário a ser utilizado para esse fim. No
graduação, objetivando o conhecimento das último encontro, é oportuno deixar em aberto
instalações físicas e dos currículos dos vários a realização de uma entrevista individual de
cursos, bem como a conversa sobre “a vida na fechamento para os orientandos que sentirem
universidade” e sobre “as profissões e o cam- essa necessidade.
po de trabalho”, com estudantes e professores
universitários, é bastante proveitoso fazê-lo. Outra avaliação a ser feita concerne à es-
Esse tour pela universidade demanda amplos cola. Uma reunião com a comunidade escolar
planejamento e preparo (sobretudo dos do- que tenha acompanhado a OP é fundamen-
centes que irão receber os orientandos, para tal.
que conheçam os objetivos do trabalho de OP
e, com isso, possam adequar sua exposição so- ENVOLVENDO A ESCOLA E A
bre o curso). Em geral, realiza-se ao longo de FAMÍLIA: SUGESTÕES DE ATIVIDADES
uma semana (o que é mais viável, do ponto de EXTRAGRUPO DE OP
vista da instituição), mas outras alternativas
de distribuição do tempo podem ser cogita- Paralelamente à intervenção com os alu-
das. É importante incentivar a participação nos, convém considerar a realização de um
dos orientandos em várias visitas, e não ape- trabalho de sensibilização com os pais. Isso
nas na dos cursos em que têm interesse mais pode ser feito mediante a proposta de reuni-
imediato. ões mensais ou bimestrais, nas quais, além de
se apresentarem os princípios e os objetivos
A adoção de tarefas de casa, por sua vez, da OP em grupo, irão ser trabalhadas a ques-
é produtiva, pois propicia a continuidade da tão da escolha na sociedade contemporânea, a
OP fora do grupo, estabelecendo uma ponte influência familiar e as possíveis contribuições
entre um encontro e outro. O fato de os orien- que os pais podem oferecer para a escolha dos
tandos terem ou não feito a tarefa rende boas filhos, suas expectativas e seus temores com
discussões quanto à implicação do grupo para relação ao futuro deles e suas representações
com o processo. Assim, questionários indivi- acerca do mundo do trabalho, do sucesso e do
duais, genoprofissiograma (Soares-Lucchiari, fracasso profissional e dos aspectos que com-
1997), colagens, pesquisas sobre profissões, põem um projeto de vida. Um procedimento
entrevistas com profissionais, entre outros, interessante consiste na redação de uma car-
constituem excelentes recursos a serem utili- ta, contendo os votos que os pais fazem aos
zados. filhos, a qual poderá ser lida pelos filhos no
grupo de OP.
Avaliação do processo
Além deste trabalho, julgamos ser muito
A avaliação do processo de OP é feita importante implicar os educadores no proces-
continuamente. Em muitos momentos, du- so de OP, pois, ao instrumentalizar seus alunos
rante os encontros, é preciso resgatar o con- para a compreensão e a transformação da rea-
trato de trabalho, os objetivos e os papéis de lidade e, principalmente, ao contribuir para a
cada um no grupo. Nessas ocasiões, costuma- formação de atitudes, a instituição educativa
se fazer uma avaliação do processo para po- constitui um importante agente na construção
der retomá-lo, às vezes, em outra perspectiva. da identidade profissional.
Contudo, há um momento próprio para a ava-
liação que coincide com o fechamento da OP, Assim, pensando em um processo de OP
no qual pode-se pedir aos orientandos a ela- integrado às demais ações desenvolvidas na
boração de uma carta ou de um desenho, ou a escola, tem-se como possível tarefa do orien-
realização de uma dramatização em que cada tador profissional a de redimensionar junto à
integrante possa fazer uma avaliação de si e equipe pedagógica a utilização dos recursos
do processo de OP nesse processo. Além da existentes no processo ensino-aprendizagem,
discussão em grupo, pode-se fazer uma ava- de modo a fazê-los convergir também para a
aprendizagem da escolha profissional. Esse

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Orientação Vocacional Ocupacional 77

objetivo poderia ser alcançado mediante al- profissões e sobre as relações homem-
gumas propostas: trabalho-sociedade.
• Realização de palestras e seminários
• Realização de grupos operativos com para jovens, pais e professores sobre a
os professores, cuja tarefa consistiria escolha da profissão e a elaboração de
em discernir as representações que se um projeto de vida no contexto da so-
têm do aluno, do trabalho e da socie- ciedade atual.
dade, visando a explicitar os mecanis- • Desenvolvimento de material informa-
mos de construção da identidade dos tivo sobre as profissões (de níveis supe-
alunos. rior e técnico) e sobre os cursos técnicos
e de graduação.
• Desenvolvimento de grupos de sen- • Criação de oficinas para os alunos, nas
sibilização para a problemática da es- quais, por meio das diferentes moda-
colha com os professores, nos quais lidades de expressão artística (como o
o resgate de suas próprias vivências teatro, a dança, a música, a literatura)
poderia auxiliá-los quanto à percepção sejam trabalhados os conflitos, medos
dos conflitos existentes na elaboração e mitos presentes na adolescência.
da escolha de seus alunos. • Desenvolvimento de um trabalho de
articulação entre os professores do en-
• Acompanhamento da prática peda- sino superior e os professores do ensi-
gógica, com o objetivo de auxiliar na no médio.
articulação entre os conteúdos traba-
lhados em sala de aula e os elementos OP NA ESCOLA PÚBLICA: DIREÇÕES
que compõem o perfil profissional das POSSÍVEIS, DESAFIOS NECESSÁRIOS
diversas carreiras.
Inserir um processo de OP no contexto
• Desenvolvimento, junto ao corpo do- da escola pública abre possibilidades impen-
cente, de instrumentos diagnósticos de sadas ao orientador profissional habituado
avaliação dos interesses e das poten- ao trabalho, em certa medida solitário, do
cialidades dos alunos. consultório. Embora os objetivos dessa mo-
dalidade de intervenção, independentemente
• Realização de palestras ou de grupo do contexto em que se dê, sejam semelhantes,
de estudos com os professores sobre seus possíveis encaminhamentos no âmbito
temáticas concernentes à escolha pro- da escola são muitos. Se, por um lado, ao as-
fissional, como: o desenvolvimento in- sumir os educadores também como clientes
fanto-juvenil, as etapas da construção da OP, constatamos um acréscimo considerá-
da identidade profissional, a função do vel de trabalho para o orientador; por outro,
trabalho na saúde mental, as exigên- ao considerá-los como parceiros no processo
cias do mercado de rabalho, etc. de aprendizagem da escolha dos alunos, po-
demos pensar em um compartilhamento de
Em um âmbito institucional, o orien- tarefas. A ação conjunta – orientador e esco-
tador profissional pode ocupar o lugar de la – certamente só tem a enriquecer e, como
articulador (portanto, daquele que auxilia a atuação interdisciplinar é algo ainda a ser
a pensar e a fazer acontecer, e não o daque- conquistado, eis aí – ao lado da difícil meta
le que executa sozinho) de outras possíveis de implicação da escola quanto à escolha e ao
ações voltadas à OP: projeto de vida de seus alunos – um primeiro
desafio para o orientador profissional que se
• Realização de Feiras de Profissões (in- propõe a atuar em uma instituição.
cluindo as ocupações de nível técnico)
e de outros eventos que possam inte- Em se tratando da escola pública, um ou-
grar a equipe pedagógica no processo tro desafio a ser considerado diz respeito ao
de OP. enfrentamento da diferença: caberá ao orien-

• Desenvolvimento de programas peda-
gógicos, para os alunos em geral, visan-
do à discussão sobre a escolha, sobre as

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78 Levenfus, Soares & Cols.

tador saber lidar com as possíveis diferenças de uma escolha satisfatória e as possibilidades
quanto à realidade social de seus orientandos, de superação de eventuais dificuldades.
sem escamoteá-las em nome de um discurso
falsamente democrático em que se mistifica Por fim, há que se considerar como prin-
a “igualdade de oportunidades” em uma so- cipal desafio a ser assumido o crescente aban-
ciedade marcada, o tempo todo, pela exclu- dono para com as instituições públicas em nos-
são. Em contrapartida, caberá ao orientador, so país. Não por acaso se tem, em uma outra
igualmente, conseguir se deparar com seus ponta dessa mesma realidade, um outro tipo
próprios pré-conceitos e com representações de abandono e de uma – quase – desistência:
construídas a respeito de tais diferenças que, a dos educadores que, malgrado as melhores
em geral, configuram tal comunidade como intenções, desistem de seus propósitos mais
carente, desfavorecida, desprivilegiada. Resulta nobres de educadores, frente às péssimas con-
daí que, não obstante muitas carências não dições de trabalho (e, ao fazerem-no, acabam
sejam apenas supostas, e o orientador profis- por desistir, ainda que sem o saber, também
sional terá de apontá-las em algum momento de seus alunos, vistos como “aqueles que não
(como quando se depara, por exemplo, com têm mais jeito”). Acrescente-se aí o abandono
deficiências graves no uso da língua em um dos alunos que, malgrado tantas expectativas,
orientando que pretende cursar direito ou frente aos consecutivos fracassos e à falta de
jornalismo...), não será ele, fazendo coro ao perspectivas (por vezes, apenas imaginada),
conjunto das profecias autorrealizadoras de desistem dos estudos em busca de um empre-
sucesso ou de fracasso, a definir o “melhor go que lhes garanta a sobrevivência.
caminho” para a escolha de seus orientan-
dos, tendo em vista suas condições de ordem A OP na escola pública, em um momento
cognitiva ou socioeconômica. Nem será sua a ou outro, terá de se defrontar com isso. Diante
missão de preencher as faltas com algo insti- dessa possível realidade da evasão de corpos e
tuído a partir de seu imaginário. de desejos, resta ao orientador criar a oportuni-
dade e mobilizar a coragem necessária para se
Isso posto, parece-nos inevitável man- sonhar, e – por que não – concretizar um outro
ter-se sempre aberto, tanto para poder ouvir cenário em que o ato de escolher, tão abandona-
(e suportar o que escuta) quanto para poder, do por uma grande maioria de brasileiros, não
junto aos orientandos, analisar – de modo rea- fique restrito à condição de falta de escolha, e
lista - as condições existentes para a realização em que a aposta em um projeto de vida possa
se fazer valer.

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Orientação Vocacional Ocupacional 79

REFERÊNCIAS

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BOCK, A.M.B.; AGUIAR, W.M.J. Por uma prática promotora de saúde em orientação vocacional.
In: BOCK, A.M.B. et al. A escolha profissional em questão. 2.ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.
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BOCK, A.M.B. et al. A escolha profissional em questão. 2.ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995.

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1991.

CARVALHO, M.M.M.J. Orientação profissional em grupo: teoria e técnica. São Paulo: Psy, 1995.

FOUCAULT, M. História da sexualidade. 13.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999. v.1: A vontade de sa-
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LEVENFUS, R.S. et al. Psicodinâmica da escolha profissional. Porto Alegre: Artmed, 1997.

LISBOA, M.D.; SOARES, D.H.P. (Org.). Orientação profissional em ação: formação e prática de
orientadores. São Paulo: Summus, 2000.

MÜLLER, M. Orientação vocacional: contribuições clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed,
1988.

SERRÃO, M. et al. Aprendendo a ser e a conviver. São Paulo: FTD, 1999.

SOARES-LUCCHIARI, D.H.P. Uma abordagem genealógica a partir do genoprofissiograma e do
Teste dos Três Personagens In: LEVENFUS, R.S. et al. Psicodinâmica da escolha profissional. Porto
Alegre: Artmed, 1997. cap. 9, p. 135-160.

SOARES-LUCCHIARI, D.H.P. (Org.). Pensando e vivendo a orientação profissional. 2.ed. São Paulo:
Summus, 1993.

SUPER, D.E. The psychology of careers: an introduction to vocational development. New York:
Harper, 1957.

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80 Levenfus, Soares & Cols.

ANEXO I:

AVALIAÇÃO: PROJETO ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

I - VOCÊ, A SUA ESCOLHA E O SEU FUTURO

1. (pequena redação) Conte para nós como você se via e estava se sentindo antes de par-
ticipar do grupo de OP. E agora, como você se vê? Como está se sentindo com relação à
escolha da profissão? O que você pode aprender, através dos grupos de OP, a respeito
de você mesmo? Se quiser, pode complementar sua redação com um desenho.

2. Como você se considera atualmente quanto à escolha da profissão?
( ) já fez uma escolha e está tranquilo com ela. Qual foi sua escolha?
( ) está em dúvida entre duas profissões. Quais seriam?
( ) está em dúvida entre três profissões. Quais seriam?
( ) está em dúvida entre várias (mais do que três) profissões?
( ) continua não tendo a mínima ideia do que escolher?
( ) outra situação: qual?

3. Caso você tenha assinalado uma dentre as cinco últimas alternativas, responda: o que
lhe deixa em dúvida ainda? Como você se sente com relação a isso? O que você pode
fazer para acabar com tal(is) dúvidas(s)?

4. Quais objetivos você tem para a sua vida futura? De que modo a profissão que você irá
escolher, ou que já escolheu, está relacionada a esses objetivos?

5. Quais contribuições, como profissional, você poderia trazer para o desenvolvimento
da sociedade brasileira?

II- VOCÊ E A ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

1. O trabalho de OP atendeu às expectativas que você tinha
( ) em nada
( ) um pouco, mas deixou a desejar
( ) parcialmente (50%)
( ) bastante – (mais que 50%)
( ) totalmente
( ) foi além das expectativas

2. De que forma você contribuiu para que essas expectativas fossem atendidas?

3. Qual nota você se daria (referente à participação no processo)? Por quê?

4. Qual nota (de 0 a 10) você daria ao coordenador de seu grupo? Por quê?

5. Em que a OP ajudou você? Dê uma nota de 0 a 5 para cada alternativa:
( ) a saber mais sobre você mesmo (suas motivações para a escolha)
( ) a compartilhar experiências com outros jovens na mesma situação
( ) a saber mais sobre você (seus interesses, o que você gosta e o que não gosta)
( ) a conhecer os fatores que estão influenciando sua escolha

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Orientação Vocacional Ocupacional 81

( ) a saber mais sobre suas habilidades
( ) a compreender melhor o que seja se tornar um profissional
( ) a conhecer mais as profissões, o mercado de trabalho
( ) a clarear melhor seu projeto de vida futura
( ) a conhecer como você costuma escolher algo e as dificuldades que sente
( ) a conhecer os cursos universitários
( ) a entender melhor o que a sociedade espera de um futuro profissional;
( ) a perder o medo do vestibular
( ) a lidar melhor com as expectativas de sua família
( ) a diferenciar o que querem para você do que você quer para você
( ) a visualizar como você, como profissional, pode contribuir para a sociedade
( ) a diminuir suas angústias
( ) a sentir-se mais seguro e confiante com você mesmo
( ) a saber onde e como buscar resolver suas dúvidas
( ) a tornar-se “gente grande”
( ) outra alternativa. Qual?

6. Como foi trabalhar em grupo?

7. Do que você mais gostou na OP? Por quê?

8. Do que você menos gostou? Por quê?

9. Quais são suas críticas e sugestões para a OP?

10. Comentários Adicionais:

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6

Projeto de carreira, plano de vida

passos para um gerenciamento
de vida profissional e pessoal

Milta Costa da Silva Rocha

INTRODUÇÃO para atrair novas oportunidades; conhecimen-
to para adaptação às exigências do mercado
Sucesso e realização profissional, carreira de trabalho atual.
brilhante e satisfação individual, conciliando
desejos pessoais com a realidade do mundo do Ainda que as exigências do mercado
trabalho: esse é o objetivo de jovens estudantes, venham à frente, o real desejo das pessoas,
de adultos, de profissionais e, muitas vezes, de apresentado desde o início, nos primeiros en-
recém-aposentados ao procurarem o serviço de contros, é poder investir em uma atividade
orientação profissional e de carreira. que lhes dê prazer e traga alegria. Trata-se de
trabalhar, de alguma forma, realizando seus
Tomando como referência esses objeti- sonhos. Entretanto, esse desejo é apresentado
vos, a partir das transformações no trabalho, timidamente, quase que dificultando a fala ra-
este capítulo visa a fazer uma reflexão a res- cional do indivíduo que, em geral, insiste em
peito das escolhas que se deve fazer, das de- buscar orientação fora de si, tanto no mercado
cisões a serem tomadas, dos caminhos e da quanto no próprio orientador, como se esti-
bagagem que se deve levar ao caminhar para vesse buscando respostas prontas, vindas de
a busca de uma nova profissão. Como uma fora, para anseios que apenas têm chances de
jornada, serão descritos alguns passos para a serem atendidos com contribuições internas
elaboração de um projeto de carreira consis- vindas da própria pessoa.
tente, viável e desejável, na medida em que
se considere quem é a pessoa, o que valori- Frente a esse contexto, por opção meto-
za, o que lhe dá prazer e alegria, com quem dológica, decidiu-se investigar como vem se
ela pode contar e, principalmente, aonde ela dando a elaboração de projetos e de carreiras,
quer chegar. centrando-se no papel do orientador, ou seja,
aquele que atua no atendimento de orientação
Por outro lado, ocorre que frequentemen- profissional e de carreira.
te a demanda inicial é apresentada como um
pedido urgente de ajuda para uma tomada A escolha do tema tem como base tam-
de decisão relacionada às seguintes questões: bém o conhecimento e a ampla experiência
escolha de um curso superior ou reopção; es- profissional da autora deste Capítulo e se de-
colha de cursos de qualificação e complemen- veu, sobretudo, à sua percepção intuitiva de
tação da formação para atender às exigências ser esse estudo um exemplo paradigmático
da atividade profissional atual; adaptação ao de apoio aos profissionais que estão elabo-
perfil organizacional; visibilidade no mercado rando projetos de carreira.

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Orientação Vocacional Ocupacional 83

REVISÃO DA LITERATURA de para enfrentar as permanentes transforma-
ções em sua vida, sejam elas sociais, pessoais
Abordagens sobre sonhos, obstáculos e ou profissionais. É importante salientar que,
contos embora o planejamento profissional pareça
perfeito, deve ser revisado regularmente, pois
Quando o sonhar não é permitido ele é tão dinâmico quanto é dinâmica nossa
Sonhar parece uma tarefa fácil, mas, quan- própria vida. É preciso saber redirecionar a
do seu tema é o sucesso profissional, percebe- carreira sempre que necessário, principalmen-
se uma desvinculação de objetivos pessoais e te quando surgirem novas oportunidades.
profissionais. Em uma abordagem diferencia-
da acerca de uma compreensão subjetiva da Quando os obstáculos surgem
carreira, deve ser questionado o modo como Nesse aspecto, os objetivos de vida evo-
o indivíduo percebe sua história pessoal, suas luem naturalmente, à medida que as circuns-
habilidades, suas atitudes, suas crenças e seus tâncias mudam e em que as dificuldades se
valores. Por que não pensar no projeto de car- apresentam. Uma promoção, um novo filho,
reira como parte de um projeto de vida? Com um divórcio, um casamento, morte na família:
relação a isso, Soares (2002b, p. 24) destaca que todas são oportunidades para as pessoas re-
“a profissão tem de ser vista como uma relação pensarem seriamente o que deve ser mudado.
conectada entre trabalho e vida”. Mudanças fundamentais, algumas previstas,
No atual quadro de mudanças em cur- outras não, moldam o destino de quase todos.
so, antes de propor a elaboração do projeto O desafio é usá-las favoravelmente, usá-las
de carreira, propõe-se a reflexão a respeito de como oportunidades para a autorrenovação.
possíveis e desejáveis atividades para forma- Segundo Gardner (citado por Lorsch e Tier-
ção e experiência do indivíduo. Primeiramen- ney, 2003, p. 253), “a maioria das pessoas tem
te, sugere-se que se liste as atividades em or- potencialidades que jamais são desenvolvidas
dem de importância. A seguir, pede-se que se simplesmente porque as circunstâncias em
dê uma nota de 0 a 10 para o grau de atração suas vidas jamais as exigiram”.
pelo projeto (desejabilidade) e uma nota de 0 a
10 para a probabilidade de êxito (viabilidade). O conto dos patos
É importante ressaltar que se costuma obter Antigamente, as pessoas diziam que to-
como resultado um mapa de atividades total- dos os patos voavam. Todos os anos, antes da
mente viáveis, mas pouco desejáveis. chegada do inverno, tinham que voar 8 mil
Em minha recente pesquisa a respeito milhas em busca de temperaturas mais ame-
dessa atividade, constatou-se que 95% das nas, fugindo do frio. Certa vez, um homem,
propostas são viáveis. A análise de dados per- com pena dos patos pelo esforço que faziam
mitiu verificar também que 5% das propostas indo e vindo todos os anos, resolveu aquecer
valorizam o desejo de realizá-las. os lagos. Fez isso e os patos não tiveram que
É possível inferir que tal percentual fre- partir naquele ano. Outros patos vieram, e ali
quentemente é invertido quando se trata de se tornou um lugar com temperaturas agra-
atendimento a adolescentes que, ao realiza- dáveis, e o vôo de 8 mil milhas tornou-se des-
rem a atividade, privilegiam atividades com necessário. No ano seguinte, fizeram a mesma
grandes chances de trazer prazer na realiza- coisa, e os patos não precisaram mais voar.
ção. Com o tempo, suas penas ficaram atrofiadas,
Dessa forma, a orientação de carreira bem como suas patas e pernas. Perderam a ca-
deve propor o planejamento e a implemen- pacidade de voar...
tação de um plano que considere sonhos, va- Nesse contexto, os obstáculos colocam as
lores, potencialidades, possíveis obstáculos e pessoas frente a novas situações. O resultado
desenvolvimento de habilidades específicas. é que elas, diante das situações desfavoráveis,
Essa base proporcionará ao indivíduo facilida- acabam aplicando seus talentos a novos desa-

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84 Levenfus, Soares & Cols.

fios. Essas novas situações e a autorrenovação os preparativos menos detalhados. É possível
ficam lado a lado, seja em um novo cargo, em até mesmo correr riscos, não fazendo reservas
uma nova empresa ou em uma carreira com- e deixando a viagem fluir.
pletamente nova. Portanto verifica-se que mu-
dar sempre parece arriscado no início, pois se Dinsmore (2002) sugere, que ao progra-
troca o conforto das experiências conhecidas mar a viagem de férias, deve-se considerar
pela incerteza. Em contrapartida, pode-se di- questões que abordam preferências, dispo-
zer que o maior risco, contudo, é permanecer nibilidade de recursos, tempo disponível e,
em situações em que há muito já não apresen- principalmente, o sonho de conhecer ou de
tam desafios. Em um novo ambiente, é pos- retornar a um lugar prazeroso. Seguindo essa
sível avançar e enfrentar novos desafios com linha, o autor apresenta no Quadro 6.1 o que
nova energia; no ambiente antigo, corre-se o se pode fazer em uma viagem dos sonhos.
risco de atrofiar.
Assim, percebe-se que há vantagens e
Assim sendo, obstáculos, dificuldades, in- desvantagens em fazer acontecer e em deixar
vernos rigorosos, tempestades que as pessoas fluir. O mais sensato parece ser adotar a forma
enfrentam na vida podem torná-las mais cria- híbrida, a qual não engessa os planos e pro-
tivas, mantendo-as atualizadas. Por fim, pode- porciona novas experiências. Novas maneiras
se inferir que nenhum projeto sem desafio fará de entender o mundo levam à revisão de sig-
com que essas pessoas e esses profissionais me- nificados e à criação de novos sonhos. Assim,
lhorem. pode-se ir vivendo, de sonho em sonho, por
toda a vida, criando e caminhando em direção
O projeto, uma jornada aos sonhos, lembrando que a estrutura básica
do projeto é fundamental para não se perder
Planejando uma viagem de vista a linha de chegada.
Um projeto de carreira pode ser compa-
rado ao planejamento para uma viagem. Pri- Um ponto de chegada
meiramente é preciso definir o destino. Se a Lorsch e Tierney (2003, p. 247) destacam
viagem é curta, a bagagem pode ser simples, a importância de se ter um ponto pessoal de
chegada.

Quadro 6.1 – Filosofia de vida: deixar fluir ou fazer acontecer?

O QUE COMO VANTAGENS DESVANTAGENS

FAZER Planejar cada passo, desde as Resultados, Requer
ACONTECER passagens, reservas de hotel, lugares a planejamento, disciplina, pouca
serem visitados, compras, restaurantes, facilidade para flexibilidade,
bem como pesquisa sobre o clima do avaliação, pouca criatividade.
lugar, bagagem apropriada, gastos viabilidade e
diários, entre outros. recursos.

DEIXAR Não planejar, deixar que a viagem seja Flexibilidade, Resultados
FLUIR uma surpresa. poucas limitações, indesejáveis,
possibilidade de situações
ADOTAR A Planejar a parte essencial para não ter mudar de rumo. inesperadas.
FORMA surpresas desagradáveis e, ao mesmo
HÍBRIDA tempo, deixar fluir, permitindo-se Mantém a Exige um certo
experimentar o que não estava previsto. estrutura básica e grau de disciplina
permite abertura para não perder o
para inovar. foco.

Fonte: Adaptado de Dinsmore (2002).

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Orientação Vocacional Ocupacional 85

Como um capitão, você também na- criança. Kanitz (2003) chama a atenção para o
vegará os mares da vida com mais suces- tema, dizendo que provavelmente ninguém
so se tiver um ponto no horizonte rumo gostaria de ficar com a parte menos glamou-
ao qual se mover. Isso significa traçar rosa da profissão, trabalhando com a limpe-
um ponto claro de chegada, ser explícito za, por exemplo. No entanto, é preciso que
acerca de onde quer chegar na vida, em alguém o faça. Verifica-se, dessa forma, que
todas as suas dimensões: carreira e famí- pensar em um projeto que considere o que se
lia, comunidade e a si próprio. Significa, gosta de fazer não significa ter prazer o tem-
ainda, reavaliar essa direção, à medida po todo. Qualquer que seja a atividade pro-
que as circunstâncias de sua vida evo- fissional escolhida, haverá sempre um preço
luem. a se pagar, algum esforço e, por que não di-
zer, algum tipo de sacrifício a se fazer. Pensar
É importante ressaltar que o ponto de em projeto ideal, então, é pensar em alguma
chegada deve ser pessoal. O sonho é pessoal, atividade possível dentro das habilidades já
projetos de vida são pessoais. Antes de se de- adquiridas, no desenvolvimento de novas
finir o ponto de chegada, é necessário respon- habilidades, no aprendizado constante, na
der às seguintes questões: Qual o significado utilidade da tarefa, nos retornos do trabalho
de riqueza para você? Quanto é o bastante? e no respeito ao perfil pessoal.
Quanto tempo você deseja permanecer em
sua carreira? Existe alguma segunda, ou mes- Segundo Quesnel (1996), a mitologia
mo uma terceira, possibilidade de atuação no também inspira as pessoas nesse tema, com
futuro? Quanto está disposto a investir nessa a história de Pigmalião, o qual conheceu a
carreira? E a vida pessoal, cônjuge, filhos? Terá mulher perfeita. As formas de seu corpo e a
tempo para eles? O que sucesso significa para suavidade de sua face se complementavam
você? Essas são perguntas difíceis, mas fun- e eram totalmente harmoniosas. Não havia
damentais. Delas dependerá o modo como se nela nenhuma curva tão pronunciada que a
sentirá daqui a 10 ou 20 anos. As respostas de tornasse exagerada nem tão sutil que a fizesse
um jovem em início de carreira provavelmen- passar despercebida. Nenhum exagero. Havia
te serão diferentes se comparadas às respostas perfeita sinergia entre majestade e sensuali-
de um profissional com mais experiência, com dade, suavidade; de beleza indescritível, sor-
amplo patrimônio líquido e filhos crescidos. riso enigmático e olhar ligeiramente perdido.
Entretanto, até ter definido explicitamente Nem um defeito sequer. Apenas um detalhe
seus objetivos e suas aspirações de vida, as afastava Pigmalião da felicidade de usufruir
pessoas não podem, de fato, saber que tipo tal companhia: aquela mulher era uma está-
de concessões elas se supõem a fazer para tua esculpida por ele mesmo e pela qual se
alcançá-los. apaixonara. Pusera nela toda a perfeição per-
mitida pela arte.
Projeto ideal versus projeto real
Elaborar um projeto de carreira com base Com base nessa história da mitologia
nos sonhos não significa tentar atingir a per- grega, reflete-se o comportamento humano
feição, bem como não significa planejar uma em busca de modelos ideais de vida e de seu
carreira que privilegie apenas as atividades sofrimento por não conseguir transformá-los
que se gosta de fazer. Naturalmente, se for em realidade. Como esclarece Mussak (2003),
perguntado a um jovem, por exemplo, o que essa busca é baseada em modelos emocionais
ele mais gosta de fazer, talvez ele responda: e estão desprovidos da lógica necessária para
tomar cerveja na praia, ver TV, curtir a noite, lhes dar sustentação. Daí decorrem as diver-
ficar de “papo para o ar”. Porém, se ele qui- gências entre o ideal e o real. Para a maioria
ser ser um pediatra, provavelmente terá que das pessoas, esse gap é absorvido por uma es-
trabalhar de madrugada, ouvindo choro de trutura de personalidade capaz de lidar com
a frustração. Para outras, é motivo de para-
lisação ou desistência. Decerto que o bom é

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86 Levenfus, Soares & Cols.

inimigo do ótimo: quem não se contenta em talmente realizados; importa que existam, pois
fazer certo, querendo sempre fazer perfeito, sua existência dá sentido à vida, e não a sua
não consegue produzir pragmaticamente. realização. A pessoa deseja ser feliz? Esse é um
grande sonho. Provavelmente, o maior sonho.
Com amor, há possibilidades É seu guia, seu direcionador.
Pigmalião não desistiu. Perdido de amor
por aquela mulher, foi à luta. Não se paralisou A resposta para a primeira pergunta do
diante do obstáculo aparentemente intrans- projeto de carreira de uma pessoa deve estar
ponível. Tentando transformar sua expectati- contida em sua missão de vida. Dela sairão as
va em realidade, procurou Afrodite, deusa da outras respostas para as visões de curto, mé-
beleza e do amor, a qual concordou em dar dio e longo prazos, para enfrentar os obstácu-
vida à escultura, transformando-a em uma los, para se determinar, a cada dia, a linha de
mulher de verdade. Enfatiza-se que quando chegada.
as pessoas fazem algo por amor tem maiores
chances de chegar mais perto da perfeição [...] felicidade não é uma estação
(Mussak, 2003). de chegada, mas uma maneira de viajar.
A história de Pigmalião inspira as pes- Não espere ser feliz algum dia, quando
soas a não serem medíocres abrindo mão de chegar a seu destino. Busque ser feliz
projetos, de sonhos e de realizações. Inspira- hoje, amanhã, sempre, durante toda a
as a aceitar seus limites e viver em um mundo jornada. Aproveite o caminho, cada pa-
realista, sem abrir mão de seus sonhos. So- rada, cada etapa. Cada etapa é um sonho
nhar é preciso! Mudar para melhor, perma- menor que o aproxima de seu ideal. Es-
nentemente, é a única forma de escapar da tes, sim, são sonhos que devem ser cum-
mediocridade, que faz as pessoas não exerce- pridos, em benefício daquilo que faz sua
rem a função de protagonistas, mas apenas de vida ter sentido. (Walter, 2005, p. 25)
espectadores da própria vida.
A vida das pessoas é parecida com essa Quanto à visão, ela é aquilo que se quer
história. Quando imaginam e agem com amor, ser em determinado período de tempo. É a vi-
dedicação, determinação, habilidade, compe- são que permite às pessoas sonhar, mas com
tência, ética e lógica, elas têm condição de tor- “os pés no chão”, na realidade. Há os que
nar sua imaginação realidade. Corroborando sonham e sonham com seus sonhos, passan-
tal visão, Mussak (2003, p.190) afirma que “a do a vida a curti-los, mas pouco fazem para
diferença entre ser alguém que apenas sonha realizá-los, pois dão-se por satisfeitos em le-
e ser alguém capaz de transformar sonhos em var a vida conforme “a Vontade de Deus”,
realidade não está em nossa expectativa, mas ao sabor do acaso e das oportunidades que
no que fazemos com ela”. eventualmente aparecem. Por outro lado, há
os que sonham e não se contentam em sonhar;
Projeto de carreira transformam seus sonhos em visões claras,
em objetivos e vão à luta. Criam recursos, de-
Missão e visão senvolvem competências e preparam-se para
Antes de começar a elaboração de um as oportunidades que vierem.
projeto de carreira, devem ser respondidas
algumas questões básicas: qual seu sonho? Se não surgem oportunidades, inven-
Aonde você quer chegar? Qual é sua missão? tam, criam. Persistem até realizá-los, ou criam
A missão é aquilo que as pessoas querem novos sonhos. Segundo Mussak (2003), há
ser na vida. É aquilo que as aproximam de seu pessoas capazes de competir, e essas são as
ideal. Não importa que seus sonhos mudem; competentes; há pessoas capazes de construir
importa que a vida tenha significado e faça novos cenários, e essas são as que estão além
sentido. Não importa que tais sonhos sejam to- da competência.

Dessa forma, é preciso ser competente,
ou melhor, metacompetente, não apenas para

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Orientação Vocacional Ocupacional 87

atender especificamente às exigências do mer- 8. Amplie suas perspectivas: já que está se
cado de trabalho, mas também para elaborar falando do futuro, não se esqueça de que
seu projeto de vida, baseado em suas visões, há muitas formas de trabalho além da
sem nunca perder de vista sua missão. Sen- vida corporativa. Uma pessoa pode ser
do que a missão, o sonho maior, não é apenas consultor, professor, empreendedor, entre
uma meta, é uma maneira de enxergar a vida. outros.
É ela a responsável pelo verdadeiro signifi-
cado dos detalhes do percurso, da alegria da 9. Jogue conversa fora: compartilhe seus pla-
chegada. nos pessoais com o marido ou com a espo-
sa, com um parente ou amigo. Troque ideias
Modelos de plano de carreira: sobre o futuro da carreira com pessoas que
o modelo Vicky Bloch conheçam sua área de atuação e tenham
Vicky Bloch (citado por Oliveira, 2005) mais experiência. Cultive e amplie sua rede
sugere o Plano de Carreira em 10 lições, con- de relacionamentos.
forme descrito a seguir.
10. Revisite seus planos anualmente - faça uma
1. Faça duas perguntas essenciais: Quais são revisão anual e transfira o que for preciso
meus talentos? O que me dá prazer? Segun- para sua agenda. Um exemplo: se uma das
do a autora, quanto mais você aproximar decisões é ter uma vida mais saudável, ano-
uma coisa da outra, maiores serão as chan- te em todas as segundas-feiras o lembrete
ces de realização. “fazer exercícios três vezes nesta semana”.

2. Siga sua vontade e não a dos outros: pense Construindo um projeto de carreira
no que você gostaria realmente de ser, e não Quanto ao que considerar na construção
no que os outros gostariam que você fosse. de um projeto de carreira, uma pessoa precisa
Planeje um futuro que combine com suas ter o seu projeto. Se ela não tem um projeto,
aspirações e com seus talentos. certamente está trabalhando para o projeto de
alguém. Segundo a autora deste trabalho, um
3. Seja realista: não liste um número exagera- projeto deve considerar:
do de objetivos, impossíveis de serem reali-
zados no tempo estipulado. a. O sonho: o que quer ser na vida? Aon-
de quer chegar?
4. Estabeleça prioridades: em vez de planejar o
aprendizado de dois idiomas nos próximos b. O perfil e o jeito de ser: escolher uma
cinco anos e fracassar em ambos (afinal, a profissão significa escolher um estilo
vida das pessoas não se limitará a estudar de vida.
línguas), concentre-se naquele que é mais
importante para seus objetivos. c. A saúde: sem energia ficará difícil en-
frentar os obstáculos do caminho e
5. Aposte na autocrítica: somente quem conhece usufruir de cada conquista.
bem as próprias necessidades de aprendiza-
do e desenvolvimento consegue ir direto ao d. Ambição: quanto a pessoa quer a ga-
ponto para se aprimorar. nhar? Muito para sobrar, o suficiente
para o básico?
6. Lembre-se de que o futuro começa agora:
o planejamento não pode ser dissociado e. O desenvolvimento: de que maneira
de sua situação atual. Informe-se sobre os a atividade vai torná-lo uma pessoa
planos da empresa em que você trabalha e melhor?
analise os rumos de sua área de atuação.
f. Os stakeholders: pessoas importantes pa-
7. Seja flexível: esteja sempre pronto para ra você, pois elas impactam e são im-
reavaliar seus planos a partir de um acon- pactadas por suas decisões.
tecimento significativo que não estava no
script. g. As habilidades: atividades realizadas
com maior facilidade.

h. A motivação: disposição para enfren-
tar dificuldades, obstáculos e persistir.

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88 Levenfus, Soares & Cols.

Além disso, Dinsmore (2002) cita oito pas- No que concerne ao quarto passo (crie
sos para a elaboração de um projeto de carreira, uma visão para sua vida), agora que a pessoa
conforme demonstrado no Quadro 6.2. já sabe quem é, qual é sua missão e quem pode
lhe ajudar a cumpri-la, é hora de estabelecer
No que concerne ao item “descubra quem que metas você pretende atingir em determina-
é você” o primeiro passo no projeto de vida da do período de tempo. Inicie com a visão de cur-
pessoa o (recurso humano) vital é ela mesma. to prazo, fazendo projeções para daqui a três
Por isso, saber quem você é marca o ponto anos. A visão para médio prazo ou dos próxi-
de partida. Essa não é uma tarefa fácil, mas mos 10 anos assegura a continuidade e ajuda
as perguntas a seguir ajudam nessa reflexão: a visualizar o caminho a ser percorrido mais
Quais são meus valores básicos? Quais são adiante. A perspectiva de longo prazo, que vai
meus pontos fortes? No que preciso melhorar? até a aposentadoria, fornece a visão global de
Quais as oportunidades que poderei aprovei- realizações a serem alcançadas. Por fim, pense
tar? O que ameaça meus planos? Quanto do nos anos dourados. Afinal, uma pessoa tam-
meu tempo eu vivo no passado, remoendo ou bém precisa viver bem essa etapa de sua vida.
analisando fatos que já ocorreram? Da mesma
maneira, quanto do meu tempo vivo no futu- O quinto passo diz respeito ao gerencia-
ro, imaginando, sonhando, esperando e pla- mento do tempo. Uma boa maneira de geren-
nejando? E quanto ao presente? ciar bem o tempo é diferenciar os assuntos
importantes dos urgentes. Importantes são
O segundo passo – coloque sua missão no as atividades relacionadas aos projetos que
papel – mostra que, se a visão do sonho pesso- têm influência direta sobre os resultados que
al é cristalina, otimista e motivadora, ela facil- se deseja alcançar. Urgentes, mas não impor-
mente se traduzirá em uma missão pessoal que tantes, são assuntos que devem ser delegados,
o lançará em direção às suas metas. reorganizados ou deixados para depois.

Fazer parcerias é o terceiro passo. Sozi- “Administre suas finanças” é o sexto
nho, não é possível construir uma missão pes- passo citado por Dinsmore (2002). Esse tra-
soal. O sucesso profissional depende da qua- balho inclui planejamento, estimativa, orça-
lidade das interações que se estabelece com mento e controle. Determine quais recursos
seus stakeholders, ou seja, com as pessoas que (monetário, humano, material e intelectual)
apoiam, influenciam e são influenciadas pelas serão necessários para cada tipo de atividade
suas ações: pais, chefes, parceiros, amigos, pa- relacionada a seu projeto. Estime custos, faça
rentes, entre outros.

Quadro 6.2 Passos para elaboração de um projeto

PASSOS DISCRIMINAÇÃO

PRIMEIRO Descubra quem é você

SEGUNDO Coloque sua missão no papel

TERCEIRO Faça parcerias

QUARTO Crie uma visão para sua vida

QUINTO Gerencie seu tempo

SEXTO Administre suas finanças

SÉTIMO Conte com os riscos

OITAVO Junte todas as peças

Fonte: Adaptado de Dinsmore (2002).

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Orientação Vocacional Ocupacional 89

orçamentos, controle e busque, se necessário, Estudos realizados pela Korn Ferry Inter-
uma renda adicional. national, em parceria com a revista Você S/A
em 2003, apontam seis novas competências
No que diz respeito ao sétimo passo – emocionais para seu sucesso profissional:
conte com os riscos –, é importante enfatizar
que a pessoa deve procurar identificar riscos, 1. Tolerância à ambiguidade: habilidade para
tentando prever de onde podem vir. Adquirir lidar com o incerto e com o inesperado.
um bom plano de saúde e apólices de seguro
podem ajudar a lidar com algumas ameaças. 2. Compostura: capacidade de absorver frus-
trações.
Finalmente, o último passo – junte to-
das as peças é aquele em que é preciso fazer 3. Autoconfiança: confiar em seu potencial.
com que todos os passos sejam gerenciados 4. Empatia: capacidade para se colocar no lu-
ao mesmo tempo. Já que mudanças de planos
são inevitáveis, faça planos flexíveis, capazes gar do outro.
de adaptação, sem perder qualidade. “Por 5. Energia: capacidade de manter a energia, o
fim, não se esqueça de que nenhum projeto de
vida vale a pena se não tiver qualidade”. Em foco e o compromisso.
outras palavras: “Uma pessoa tem obrigação 6. Humildade: capacidade de adaptação.
de ser feliz”. (Dinsmore, 2002).
A Faith Popcorn, em parceira com a Re-
Não há projeto viável sem parcerias vista Executiva, descreve um modelo para
que uma pessoa possa desenvolver seu pro-
Minarelli (2001) enfatiza a importância de jeto: o “Click”.
se cultivar uma boa rede de relacionamentos,
pois ela é a “conta corrente”, o “capital social” Abrace a ideia de que o
do profissional atual. Segundo o autor, quando C CORAGEM mundo muda e escolha
uma pessoa tem uma boa rede de relaciona-
mentos, não precisa, nem deve, pedir trabalho. seu lugar nele
As oportunidades chegam até ela. Ele sugere
que seja utilizada a técnica da “Coisa” para L LIBERDADE Deixe para trás todos os
uma pessoa fazer uma aproximação e para seus medos
atrair as boas oportunidades de trabalho.
I INSIGHT Olhe o mundo com
C Conselhos olhos diferentes

O Orientações Mantenha-se

I Informações C COMPROMISSO firmemente
comprometido com
S Sugestões
seu projeto
A Aproximação
Estude, prepare-se: não
Conforme o autor, uma pessoa deve pedir K KNOW HOW se conforme com
conselhos, orientações, informações, sugestões
e aproximação. A aproximação vem por últi- a mediocridade
mo, como consequência da postura, mostrada
pelas atitudes anteriores de busca de conheci- CONSIDERAÇÕES FINAIS
mento e de investimento na área de interesse.
Tendo em vista o levantamento biblio-
gráfico, a reflexão e a análise dos conteúdos
tratados, pode-se dizer que a sociedade con-
temporânea está passando por períodos de
crescimento e de mudanças que levam as pes-
soas a buscarem por novas oportunidades de
crescimento e prosperidade.

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90 Levenfus, Soares & Cols.

O delineamento da discussão de pro- tornaram cada vez mais complexos e demo-
jeto de carreira como plano de vida, longe rados.
de se resumir a um mero debate retórico so-
bre passos para um gerenciamento de vida Deve-se destacar que os resultados des-
profissional e pessoal, encontra suporte nas se estudo permitiram verificar que, na busca
crescentes preocupações dos consultores, re- pela realização profissional e nas conquistas
lacionadas à busca de uma melhor posição realizadas pelas pessoas, normalmente elas
para essas pessoas no cenário competitivo não estão felizes com o que são, que conquis-
contemporâneo. taram e, muito menos, com o que têm. En-
tretanto, destaca-se que alguns profissionais
Considerando a jornada de quem busca conseguem prestígio, reconhecimento, rique-
sucesso profissional, verificou-se que esta é zas, mas se sentem sozinhos, tristes, insegu-
realizada com base na inserção ou reinserção ros e infelizes, refletindo e impactando o ver-
no mercado de trabalho, sendo marcada cada dadeiro sentido de satisfação e sucesso, que
vez mais por um tempo de espera maior, exi- é sempre pessoal. Esses profissionais vão,
gindo planejamento, estratégia, esforço e foco ao longo do tempo, em direção a objetivos
nos objetivos. De forma específica, o tempo desvinculados dos propósitos pessoais que
de espera para profissionais em processos guiam sua existência. Assim, esquecem qual
de transição no mercado é em torno de seis é a missão de sua vida, seu sonho maior.
meses com acompanhamento de um servi-
ço especializado. Esse tempo tende a dobrar Sendo assim, a preocupação dos orien-
quando não há um suporte especializado. tadores passa a ser ajudar o profissional em
sua jornada, ressaltando-se a elaboração de
Os diversos estudos realizados desta- um projeto de carreira estruturado. Enfatiza-
cam também que a busca por emprego não se que as pessoas têm perfis diferentes e,
tem sido uma das tarefas mais fáceis. Uma portanto, objetivos diferentes: não há projeto
das explicações possíveis pode ser, que para de carreira igual. A definição do objetivo de
obter maiores chances no mercado, o profis- carreira apenas pode ser feita se colocados de
sional precisa descobrir os setores que ofe- lado os estereótipos de mercado e se privile-
recem maior demanda, bem como conhecer giado o autoconhecimento. Mais do que pla-
e entender como acontecem os processos de nos de carreira, são projetos de vida.
recrutamento e seleção que, por sua vez, se

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Orientação Vocacional Ocupacional 91

REFERÊNCIAS

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III

DIFERENTES ABORDAGENS
EM ORIENTAÇÃO

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7

A abordagem cognitivo-evolutiva
do desenvolvimento vocacional

Marucia Patta Bardagi

O primeiro escopo teórico na área da psi- As teorias desenvolvimentais, entre as quais
cologia vocacional foi formulado por Frank se destaca a perpectiva cognitivo-evolutiva de
Parsons (1909), com a publicação do livro Super, afirmam que as decisões vocacionais
Choosing a vocation, no qual o autor estabelece começam na infância, perdurando até a idade
as três etapas da escolha profissional: a análise adulta, com ênfase no aspecto sequencial do
das características individuais, a análise das comportamento vocacional, e surgiram a par-
características das ocupações e o cruzamento tir da segunda metade do século XX, gerando
das informações em uma direção profissional. grande volume de pesquisas e intervenções.
Desde as formulações de Parsons, conside- Além de Donald Super (1957, 1963, 1980), teó-
rado o primeiro teórico do desenvolvimento ricos como Ginzberg e colaboradores (1951)
vocacional, vários modelos e várias teorias são exemplos de pensadores da corrente de-
foram concebidos para explicar o desenvolvi- senvolvimental.
mento vocacional do indivíduo e a tomada de
decisão de carreira. O propósito deste capítulo González (1995) indica que a diferença
é apresentar alguns dos principais pontos da entre os enfoques está nas respostas que cada
abordagem cognitivo-evolutiva do desenvol- um oferece aos aspectos filosóficos e na maior
vimento vocacional, sistematizada pelo psicó- ou menor congruência entre os aspectos teó-
logo americano Donald Super. Tal abordagem ricos e a proposta de intervenção. Cada uma
configura-se internacionalmente como uma das teorias implica uma concepção filosófica
das mais influentes e duradouras no âmbito da realidade, do mundo do trabalho, da esco-
da psicologia vocacional e de carreira; no en- lha, da pessoa e dos valores, assim como dos
tanto, permanece pouco conhecida entre os componentes da intervenção. Em um estudo
orientadores brasileiros, sobretudo em função seminal, Osipow (1990) procurou identificar
do escasso material publicado no país. as principais convergências e divergências
entre as teorias vocacionais mais influentes.
Na divisão realizada por Pimenta (1981), Em seu entender, as teorias que parecem do-
o qual adota a classificação clássica feita por minar os estudos internacionais sobre carrei-
Crites (1974), é possível dividir as teorias ra são: teorias tipológicas (especialmente a de
psicológicas do desenvolvimento vocacional Holland), teoria da aprendizagem social, teo-
– cujo foco é o indivíduo e cuja escolha é de- ria desenvolvimental e teoria do ajustamento
terminada, mais do que tudo, pela dinâmica ao trabalho (work adjustment). Para o autor,
de suas características e só indiretamente pelo essas abordagens são predominantes por suas
meio – em quatro grupos principais: teorias bases empíricas e sua utilidade operacional,
do traço e fator, teorias psicodinâmicas, teo- além do apelo universal de suas ideias. Todas
rias desenvolvimentais e teorias da decisão. essas grandes teorias possuem alguns aspec-

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96 Levenfus, Soares & Cols.

tos afins: a influência dos fatores biológicos, a A ABORDAGEM EVOLUTIVA DO
influência familiar (parental), a influência da DESENVOLVIMENTO VOCACIONAL
personalidade, os tipos de resultados obtidos,
os métodos utilizados e a relevância do está- O principal expoente da corrente de-
gio de vida. Os fatores biológicos costumam senvolvimental é o americano Donald Super
ser destacados por todas as abordagens e ge- (1957, 1963c, 1975, 1980; Super e Bohn Junior,
ralmente são descritos como um background 1976; Super, Savickas e Super, 1996). Entre as
importante, mas incontrolável. A família e, inúmeras classificações acerca das teorias so-
em especial, os pais são também citados por bre escolha profissional (Brown, Brooks e Ass.,
todas as teorias, que destacam em maior ou 1996; Crites, 1974; Pelletier et al., 1985; Pimen-
menor grau seu papel como modelos, fon- ta, 1981), há uma congruência em estabelecer
tes de reforço e fornecedores das condições a importância das concepções evolutivas de
contextuais de desenvolvimento dos filhos. Super como uma das mais influentes abor-
Quanto aos resultados, o autor estabelece dagens na área. O autor construiu sua teoria
uma diferença entre as proposições mais enfatizando a relação entre o autoconceito e a
voltadas para a escolha propriamente dita escolha da carreira, mostrando como o indiví-
(Holland e Ajustamento ao Trabalho) e para duo tende a escolher carreiras que confirmem
o processo de escolha (Desenvolvimental e a percepção que ele tem da própria identidade
Aprendizagem Social). pessoal (conjunto de interesses, habilidades e
características de personalidade). Para Balbi-
Nesse sentido, ao tentar analisar a quali- notti (2003), pode-se descrever o desenvolvi-
dade das escolhas feitas, principalmente nos mento de carreira de Super como um processo
diferentes momentos do desenvolvimento, psicossocial.
seria mais produtivo optar por uma das duas
últimas abordagens. A personalidade seria O desenvolvimento da carreira, con-
um aspecto principal em todas as teorias, forme definiu Crites (1974), seria o processo
mas cada uma busca salientar alguns traços inferido a partir das mudanças sistemáticas
em detrimento de outros. Quanto às etapas observadas no comportamento vocacional ao
de vida, Osipow (1990) aponta que apenas a longo do tempo. Durante muito tempo, não
teoria desenvolvimental contempla tal aspec- houve ênfase, por parte de pesquisadores e
to de forma adequada, pois sua descrição dos orientadores, a esse desenvolvimento, e sim
momentos em que as decisões vocacionais são às escolhas de carreira e ao ajustamento ao
tomadas relaciona-os aos estágios de vida e trabalho. Super foi um dos principais teóricos
suas consequentes transições. Além disso, im- a se preocupar com a trajetória do compor-
plica, necessariamente, alterações no desen- tamento vocacional. Savickas (1994) afirma
volvimento de carreira a partir do contexto de que uma das mais importantes contribuições
vida. O modelo cognitivo-evolutivo, que vê o do modelo desenvolvimental de Super foi a
desenvolvimento vocacional como um aspec- criação de um vocabulário sistemático, com
to do desenvolvimento global do indivíduo, definições operacionais apropriadas, para ex-
contempla duas premissas importantes para o plicar o comportamento vocacional do indiví-
trabalho do orientador profissional, destaca- duo ao longo do ciclo vital. Nesse modelo, a
dos por Bock e Aguiar (1995): há uma discus- escolha profissional (e a própria formação da
são central sobre as condições da pessoa que identidade profissional) não é um comporta-
escolhe e uma compreensão dos determinan- mento focal, mas o resultado de um processo
tes da escolha como múltiplos, mesmo que a de desenvolvimento vocacional que ocorre ao
decisão seja individual. Importante também é longo da vida (Savickas, 1995; Super, 1963c).
o caráter pragmático da abordagem desenvol- Decisões, mudanças e dúvidas vocacionais
vimental. Para Guichard e Huteau (2001), Su- não aparecem somente na adolescência, e é
per não tinha um objetivo fundamentalmente cada vez maior o número de pessoas localiza-
explicativo, mas sim de definir os princípios das em vários pontos do desenvolvimento vo-
para intervenções de orientação e aconselha- cacional que buscam auxílio ou simplesmente
mento de carreira eficazes. desafiam os técnicos da Orientação Profissio-

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Orientação Vocacional Ocupacional 97

nal a elaborarem novos modelos explicativos da adultez jovem, os indivíduos encontram-
e métodos de ação. se no estágio de Exploração, em que as prefe-
rências vocacionais são organizadas em torno
A teoria de Super é resultado direto de da experimentação, do teste de hipóteses e do
suas observações empíricas, especificamente desempenho de papéis, delineando um pro-
de um estudo longitudinal iniciado em 1951 cesso de tradução do autoconceito em termos
que acompanhou indivíduos desde o 9o ano vocacionais. É um período de transição, em
da escolarização americana (14-15 anos) por 25 que a autoanálise das próprias características
anos em sua trajetória de carreira. A princípio, e habilidades é constante e o autoconceito não
as concepções de Super (1957) centravam-se é tão estável. As tarefas de desenvolvimento
na passagem gradual e sistemática que os in- são a realização de uma ampla exploração das
divíduos faziam por estágios razoavelmente ocupações, a tradução do autoconceito em
estáveis do desenvolvimento vocacional, de- escolhas ocupacionais-educacionais, a troca
nominados Crescimento, Exploração, Estabe- progressiva de uma escolha generalizada por
lecimento, Manutenção e Desengajamento. uma escolha mais específica e a conversão
Nesses estágios, seria necessário desenvolver dessa preferência (verbal, indicando inclina-
habilidades específicas e efetivar o cumpri- ção, adesão) em uma realidade concreta, por
mento de tarefas evolutivas que, de forma meio da educação especializada e do ingresso
complementar, forjariam a continuidade da no mundo ocupacional (Magalhães, 2005).
carreira e construiriam uma trajetória de
aprendizado que capacitaria o indivíduo a re- No decorrer da adultez jovem, inicia-
alizar escolhas profissionais; essas tarefas po- -se o estágio de Estabelecimento, no qual se
dem ser típicas de determinados períodos etá- faz uma implementação da escolha, isto é,
rios ou não ter qualquer relação com a idade a conversão das preferências especificadas
ou com as sequências de desenvolvimento. A em uma realidade ocupacional, por meio
própria complexificação dos contextos sociais do comprometimento com o mundo do tra-
e interacionais vivenciados pelo indivíduo balho. Há uma estabilidade do autoconceito
contribui para a aquisição das habilidades e em termos vocacionais e uma concentração
estabelece exigências diferenciadas ao longo de esforços para permanecer e progredir na
do tempo. área escolhida (Pimenta, 1981). Para Gui-
chard e Huteau (2001), o sujeito nesse estágio
O desenvolvimento de carreira é defini- deve poder assimilar uma cultura profissio-
do como o processo de crescimento e apren- nal e organizacional, desempenhar suas ta-
dizagem que resulta em um aperfeiçoamento refas adequadamente, encontrar um lugar
e na modificação gradual no repertório de satisfatório, consolidar a posição atingida e
comportamento vocacional dos indivíduos. ampliar os ganhos alcançados, estabelecendo
O estágio de Crescimento, segundo Super um padrão de carreira. Seguem-se, ainda, os
(1957), coincide com o período da infância e da Estágios de Manutenção e Desengajamento.
pré-adolescência, em que as escolhas não são O estágio de Manutenção, representaria a rea-
sistemáticas, mas fantasiosas e buscam o des- lização de tarefas da maturidade, com suas
pertar de interesses e habilidades. O indivíduo características de continuidade dos planos es-
descobre as primeiras capacidades e constrói tabelecidos, em que há comportamentos de
o autoconceito por meio da identificação com conservação do que foi alcançado e, mais re-
figuras significativas da família (pais, avós, ir- centemente, a capacidade de se manter atua-
mãos) e da escola (professores, colegas). Nes- lizado e capaz de inovar, estabelecendo para si
se estágio as tarefas de desenvolvimento são novos desafios (Guichard e Huteau, 2001; Ma-
começar a se preocupar com o futuro; aumen- galhães, 2005). Na etapa de Desengajamento,
tar progressivamente o nível de autonomia relacionada à senescência, o indivíduo plane-
comportamental; convencer a si mesmo da ja sua retirada do mundo do trabalho, com o
importância das realizações escolares e pro- gradual enfraquecimento e posterior afasta-
fissionais, e adquirir as primeiras habilidades mento das atividades profissionais, criando
e atitudes de trabalho (Guichard e Huteau, um novo modo de vida fora do trabalho.
2001). Ao longo da adolescência e no início

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98 Levenfus, Soares & Cols.

No entanto, a partir das reformulações autoconceito, e essa relevância pode variar
feitas pelo autor (Super, 1980), as dimensões de indivíduo para indivíduo; por exemplo,
contextuais e as características individuais enquanto para algumas pessoas o papel de
fazem com que esse percurso não seja linear trabalhador pode ser o mais importante na
(acompanhando a idade cronológica) ou ocor- estruturação da identidade, para outras o pa-
ra com todos os indivíduos da mesma forma. pel parental vem a ser o mais importante. O
O momento em que ocorrem o as transições autoconceito vocacional, de modo específico,
de um estágio a outro do desenvolvimento seria aquela parte do autoconceito relativa à
vocacional podem variar muito de pessoa percepção de características vocacionalmente
para pessoa. Magalhães (2005) aponta que a relevantes a qual permite ao sujeito expressar
revisão dos modelos de estágios de carreira sua identidade por meio da escolha profissio-
está associada à revisão dos modelos do de- nal, por exemplo. A estrutura do autoconceito
senvolvimento humano como um todo, se- não é rígida: pode transformar-se ao longo
guindo as tendências contemporâneas que do tempo e se organiza, principalmente, pelo
apontam para uma visão mais transicional da comportamento exploratório do sujeito.
trajetória de vida. Dessa forma, a carreira pas-
sou a ser vista como uma sequência alternada O comportamento exploratório é outro
de mudanças e períodos de estabilidade. componente destacado do desenvolvimen-
to vocacional. Nas concepções evolutivas, o
Mesmo sabendo que o desenvolvimento comportamento exploratório desempenha
vocacional é eminentemente dinâmico, torna- um papel fundamental – permite a reunião de
se necessário conhecer as características nor- informações essenciais à formação do auto-
mativas de cada período, as demandas sociais, conceito (geral e vocacional) e organiza a ex-
os comportamentos a serem adquiridos e as ca- periência, forjando uma maior maturidade de
racterísticas de cada indivíduo em particular a carreira. O conceito de comportamento explo-
fim de estabelecer um curso de ação no sentido ratório vocacional foi sistematizado por Jor-
de promover o desenvolvimento de carreira. daan (1963). Desde a origem experimental, a
Como aponta Pimenta (1981), embora Super exploração aparece como um comportamento
não tenha incorporado a dimensão socioeco- fornecedor de informações e importante para
nômica à teoria, depreende-se sua interferência a aquisição de aprendizagens. É essencial-
no processo de escolha, uma vez que a estrati- mente um comportamento de solução de pro-
ficação social não permite a mobilidade social blemas, proposital e voluntário. Para Jordaan
absoluta e as oportunidades não são iguais (1963), o objetivo da exploração é suprir de-
para todos. Mais tarde, no decorrer de seus es- terminadas informações sobre o próprio su-
tudos, o autor passou a descrever a ocorrência jeito ou sobre o meio e verificar ou encontrar
de miniciclos de desenvolvimento dentro de subsídios para hipóteses que auxiliem o indi-
cada um dos estágios, apontando para o cará- víduo a escolher, preparar, assumir, ajustar-se
ter dinâmico e em constante transformação do ou progredir em uma ocupação. Essa busca
desenvolvimento de carreira, em um modelo de informações envolve experimentação,
espiral de evolução. investigação, tentativa e teste de hipóteses,
entre outros comportamentos. Contudo, o
Ao longo do desenvolvimento de car- comportamento exploratório varia muito de
reira, alguns aspectos fundamentais são a pessoa para pessoa em termos de intenciona-
construção e a transformação do autoconceito lidade, de fonte, de métodos, de quantidade e
vocacional (Super, 1963c). Autoconceito é um de clareza de objetivo (Jordaan, 1963).
constructo próximo ao de identidade, o qual
reúne as percepções que o sujeito possui sobre Super (1963) incorporou o conceito de
si mesmo e o qual organiza suas experiências exploração à abordagem evolutiva do desen-
ao longo da vida. O autoconceito é formado volvimento vocacional, inclusive nomeando
no desempenho dos diferentes papéis sociais uma etapa do desenvolvimento como etapa
e ocupacionais que cada um assume ao lon- exploratória. O autor defendia que a explora-
go da vida. Nessa trajetória, alguns papéis ção é um comportamento que acompanha to-
têm maior relevância para a estruturação do das as etapas do desenvolvimento vocacional,

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Orientação Vocacional Ocupacional 99

mas que é mais característico da fase da ado- para se engajar e manter atividades explora-
lescência, tendo em vista a natureza das tare- tórias (Flum e Blustein, 2000). Nesse sentido,
fas evolutivas as quais o indivíduo está sujei- a exploração não só é um comportamento sis-
to. A atividade exploratória teria por objetivo temático e intencional, como também a infor-
desenvolver preferências antes da efetivação mação resultante de eventos inesperados ou
de uma escolha profissional e da entrada no não planejados, que, além disso, contribuem
mundo do trabalho, sendo voltada tanto para para o desenvolvimento de carreira. Uma re-
o interior (self exploration) quanto para o ex- visão não extensiva de pesquisas empíricas
terior (environmental exploration) do indivíduo relativas à exploração vocacional corrobora a
(Super, 1963c). Mais tarde, Pelletier e colabo- importância dada a esse constructo pelos teó-
radores (1985), em sua abordagem operatória ricos do desenvolvimento vocacional. Os es-
do desenvolvimento vocacional, incluíram a tudos têm relacionado a exploração à decisão
exploração como uma das tarefas desenvol- (Blustein et al., 1994; Magalhães, 1995; Sparta,
vimentais da escolha, e não mais como um 2003; Sparta, Bardagi e Andrade, 2005), à sa-
estágio. Para a realização da atividade explo- tisfação profissional (Frischenbruder, 1999), à
ratória seriam necessárias habilidades e atitu- autoeficácia vocacional (Bartley e Robitschek,
des cognitivas como “busca de novidades e de 2000; Frischenbruder, 1999; Ryan et al., 1996) e
mudança, observação, curiosidade, iniciativa ao desenvolvimento de expectativas realistas
por ensaio e erro, identificações sucessivas e e comportamento de busca de oportunidades
múltiplas, produção de hipóteses, gosto pelo (Phillips e Blustein, 1994; Werbel, 2000).
risco e desejo de autonomia” (p. 50). Nesse
caminho de busca de informações, são produ- Entre os estudos nacionais, Magalhães
zidas reações afetivas as quais desencadeiam (1995), em uma pesquisa qualitativa com ado-
determinadas crenças sobre o valor e sobre a lescentes indecisos, observou que os partici-
importância de futuros comportamentos ex- pantes mais indecisos apresentavam muitas
ploratórios (Frischenbruder, 1999). dificuldades tanto para explorar características
pessoais quanto para elaborar seu autoconceito
Super (1963c) afirma que a exploração e sua tradução em termos de atributos pessoais
é um processo que sustenta a formação do vocacionalmente relevantes, mostrando, por
autoconceito, configurando um comporta- conseguinte, pouca motivação e pouca inicia-
mento constante ao longo da vida, mas que tiva para explorar alternativas ocupacionais,
se intensifica nos momentos que antecedem tomando decisões mais impulsivas, com base
e seguem períodos de mudança vocacional na estratégia de tentativa e erro. Sparta (2003),
ou pessoal (Blustein, 1997; Jordaan, 1963). em um estudo quantitativo com alunos do 3o
Ao analisarmos as dimensões interna e exter- ano do ensino médio, também encontrou fortes
na do comportamento exploratório, observa- correlações negativas entre a indecisão voca-
se uma correlação positiva entre elas (Sparta, cional e as diferentes dimensões da exploração
2003; Werbel, 2000), uma vez que, por um lado, avaliadas. Em outro estudo com adolescentes,
a exploração do ambiente ocupacional leva à Frischenbruder (1999) concluiu que a maioria
necessidade de análise dos próprios valores e dos participantes explora o mundo profissio-
interesses e, por outro, a autoanálise das habi- nal (e pessoal) de forma pouco sistemática e
lidades, das necessidades e dos valores leva a não intencional, sugerindo que a busca de in-
uma busca por experiências e oportunidades formações vocacionais ocorre de forma casual,
que venham ao encontro dessas características. sem seguir um planejamento estruturado. Os
Hoje a exploração deve ser vista não como adolescentes, ao ingressarem no ensino su-
um estágio ou como uma tarefa, mas como perior, têm mais chances de se decepcionar e
um processo com função adaptativa para o in- construir uma trajetória de desengajamento
divíduo não somente no âmbito vocacional. com o curso e com a instituição.
O processo engloba comportamentos especí-
ficos de busca de informações sobre si mes- É interessante salientar que, no estudo
mo e sobre o mundo circundante, além de um de Frischenbruder (1999), os participantes re-
componente atitudinal, referente à motivação lataram que a informação é importante para a
escolha, mas não se engajaram, efetivamente,

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100 Levenfus, Soares & Cols.

em comportamentos de busca dessa informa- e dos recursos cognitivos e emocionais para
ção, demonstrando excessiva passividade. É lidar com as tarefas evolutivas do desenvol-
provável que tal tipo de comportamento seja vimento de carreira de forma consistente, sem
frequente também entre universitários ou desorganização do autoconceito, tomando de-
mesmo entre adultos. Sparta (2003) identificou cisões vocacionais com qualidade, diz-se que
entre seus participantes pontuações altas na ele possui maturidade vocacional (Balbinot-
dimensão Foco da exploração, expressando o ti, 2003; Fouad e Arbona, 1994; Super, 1983).
grau de certeza sobre as próprias preferências O conceito de maturidade é fundamental
profissionais, certeza que estaria intimamente na abordagem desenvolvimental e permeia
relacionada à tarefa evolutiva de cristalização grande parte dos estudos na área, sendo de-
(delimitação de preferências profissionais) finido como a capacidade de adotar, por um
(Pelletier et al., 1985; Super, 1957; Super et lado, comportamentos compatíveis com as
al., 1963). Esse resultado indica, segundo a tarefas de desenvolvimento com as quais se
autora, que os adolescentes parecem estar se depara e, por outro, estar em relativa sintonia
comprometendo com escolhas profissionais com as demandas sociais em relação aos ou-
sem realizar um processo exploratório amplo, tros indivíduos no mesmo contexto evolutivo
talvez movidos pela pressão social exercida (Super, 1980; Super et al., 1996). O autor criou
sobre eles para que especifiquem uma esco- o termo maturidade em um período inicial de
lha. De qualquer forma, os estudo brasileiros suas formulações teóricas, visando a avaliar
sobre o tema são unânimes em apontar as de- o estágio de desenvolvimento de carreira al-
ficiências dos adolescentes na área. Frischen- cançado por estudantes de diferentes idades
bruder (1999) observou, ainda, em relação às e níveis de instrução e sua respectiva pronti-
diferenças de gênero, que as meninas apre- dão para a tomada de decisões (Super, 1955).
sentam maior nível de comportamento ex- Com o passar do tempo, segundo Magalhães
ploratório do que os meninos, com diferenças (2005), ao descrever a carreira na vida adulta
significativas nas dimensões de busca interna, e perceber que habilidades, competências e
de busca externa e de intencionalidade, suge- atitudes de enfrentamento podem não variar
rindo que elas tendem a se engajar de forma com a idade, Super passou a utilizar o termo
mais sistemática e deliberada em atividades adaptabilidade de carreira, indicando um equi-
exploratórias. No entanto, a literatura não é líbrio entre o mundo do trabalho e o espaço
consistente em relação à diferença de gênero pessoal, além de habilidades para buscar e
na exploração; enquanto alguns estudos con- aceitar mudanças nos papéis de carreira ao
firmam a maior exploração feminina (Sparta, longo do tempo.
2003), outros indicam o contrário (Blustein
et al., 1994) ou, ainda, não apontam diferen- As dimensões da maturidade propostas
ças (Ketterson e Blustein, 1997; Sparta et al., por Super (1983) seriam:
2005). Os estudos que indicam maior explora-
ção masculina tendem a justificá-la pela maior a) Capacidade de planejamento: depen-
percepção de oportunidades de trabalho e de da autonomia do indivíduo, da
menor percepção de barreiras por parte dos adoção de uma perspectiva temporal e
homens. Ao considerar a idade, também os da autoavaliação das condições favo-
resultados não são conclusivos, mas há indí- ráveis ou desfavoráveis em relação à
cios de que a exploração aumenta à medida carreira, estando relacionada também
que o tempo passa (Frischenbruder, 1999; Ket- à autoestima.
terson e Blustein, 1997; Sparta, 2003; Sparta et
al., 2005). Isso pode se dever ao fato de que os b) Capacidade de exploração: a presença
próprios contextos de vida vão se complexifi- ou não do comportamento explorató-
cando e exigindo maior exposição e busca de rio vocacional permite diferenciar en-
informações por parte do indivíduo. tre escolhas racionais e refletidas da-
quelas impulsivas ou dependentes.
De volta à teoria cognitivo-evolutiva,
quando o indivíduo dispõe das habilidades c) Informação: informações sobre o mun-
do do trabalho e as opções oferecidas
é um pré-requisito para a prontidão

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