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Orientação vocacional

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Published by aida.psi.edu, 2020-04-07 06:08:30

Caderno O.V.

Orientação vocacional

Keywords: Orientação

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Orientação Vocacional Ocupacional 101

(readiness) em termos de tomada de turais sobre o desenvolvimento vocacional, es-
decisão; pecialmente avaliando o impacto dos valores
d) tomada de decisão: habilidade decor- de trabalho sobre a continuidade da carreira.
rente da avaliação das possibilidades, Guichard e Huteau (2001) apontam que Super
das consequências possíveis dessas de- e os teóricos que compartilham suas ideias
cisões e da probabilidade de as conse- continuaram transformando a teoria, incorpo-
quências acontecerem; rando elementos em três direções principais:
e) orientação à realidade: consiste em au- a) proporcionar um lugar maior aos fatores
toconhecimento, realismo e avaliação psicossociais e aos determinantes sociológicos
situacional. e culturais da construção de projetos de vida e
de carreira; b) redimensionar o lugar ocupado
O conjunto dessas características com- pela carreira no espectro de papéis do indiví-
põe a prontidão para a tomada de decisão ou, duo; c) diminuir a importância das avaliações
mais tecnicamente, a prontidão do indivíduo objetivas em benefício das autopercepções do
para emitir os comportamentos necessários indivíduo. O modelo integrativo das concep-
em resposta às demandas sociais de cristali- ções de Super está apresentado na Figura 7.1.
zação e de especificação de escolhas e/ou mu-
danças vocacionais (Savickas, 1994). Na perspectiva espiral de desenvolvi-
mento, em que um mesmo sujeito está exercen-
Em suas últimas formulações, Super do simultaneamente diferentes papéis os quais
(1980) concebeu a abordagem do life span, life podem ou não estar relacionados a atividades
space para descrever a forma como o indiví- ocupacionais – e em que suas relações com o
duo circula em diferentes posições ao longo trabalho podem estar configurando processos
da vida, como organiza suas relações com o de crescimento, de exploração, de estabeleci-
trabalho e como os aspectos familiares e so- mento, de manutenção ou de declínio (inde-
cioculturais interagem na carreira individual. pendentemente da fase macroevolutiva em que
O espaço vital é o conjunto de papéis que um se encontre) – diferenças individuais também
indivíduo desempenha ao longo da vida, em são impostas por características contextuais.
cenários diferentes. Entre os papéis, podemos Balbinotti (2003), em uma revisão do contexto
citar o de filho, de estudante, de trabalhador, de maturidade vocacional de Super, reúne es-
de cidadão, de cônjuge, de progenitor, de lei- tudos apontando as principais influências no
surite, de dono de casa, de aposentado, etc. desenvolvimento de carreira, sejam familiares,
Esses nove papéis principais seriam exercidos econômicas ou étnico-culturais. A família, por
em quatro cenários privilegiados – a casa, a exemplo, costuma influenciar o desenvol-
escola, a comunidade e o local de trabalho. No vimento individual das necessidades e dos
entanto, assim como na descrição do autocon- valores (gerais e profissionais), fornecendo
ceito, nem todos os papéis ou cenários têm a aos filhos maiores ou menores possibilida-
mesma relevância para todas as pessoas, além des de aquisição de informações e de desen-
de existirem outras possibilidades, dependen- volvimento da habilidades fundamentais na
do da trajetória individual. Na compreensão tomada de decisão (Bardagi e Hutz, 2006;
do desenvolvimento de carreira individual é Super, 1957). Já as leis de oferta e procura de
necessário estar atento às interações entre os emprego, o custo dos estudos, a automação,
vários papéis e às influências dessas intera- os ciclos econômicos, a tecnologia, todos são
ções na vida de trabalho. Segundo Teixeira fatores econômicos que influenciam o início
(2002), é importante salientar que cada papel é (escolha), as mudanças e as adaptações que
definido por seu próprio desempenho e pelas podem ocorrer no curso da carreira (Balbinot-
expectativas geradas sobre ele (ou seja, aquilo ti, 2003).
que o indivíduo efetivamente faz e aquilo que
se espera dele em uma dada situação). Alguns autores, como Young e Chen
(1999), descrevem a influência econômica
Em seus últimos trabalhos, Super e seus pela via da classe social ou sociocultural, in-
colaboradores (Super e Sverko, 1995) concen- dicando que ela causa um impacto na carreira
traram esforços em realizar estudos transcul- não apenas pela diferença na disponibilidade

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102 Levenfus, Soares & Cols.

de recursos, mas também pelo efeito sobre as os estágios e sobre o conceito de maturidade,
atitudes de trabalho, pelo encorajamento re- depreendem-se a mudança que o indivíduo
cebido e pelas experiências que o indivíduo precisa fazer para lidar adequadamente com
pode ter, formando um contexto sociopsicoló- as diferentes demandas sociais que recaem so-
gico particular de desenvolvimento. Fouad e bre ele em épocas sucessivas e a necessidade
Arbona (1994) enfatizam que, ao mesmo tem- do desenvolvimento de recursos cognitivos e
po em que não considera extensivamente os comportamentais para dar conta das decisões
aspectos socioculturais e raciais em suas for- de carreira que precisa enfrentar. Formula-
mulações, a abordagem desenvolvimental de ções posteriores incorporam a importância
Super é uma das mais flexíveis à incorporação do comportamento exploratório e da forma-
de variáveis culturais por outros pesquisado- ção do autoconceito para a escolha profissio-
res. Para as autoras, Super compreendia que nal, uma vez que a obtenção de informações
o desenvolvimento de carreira emerge da in- variadas e realistas sobre si mesmo e sobre o
teração dinâmica entre os fatores individuais mundo do trabalho permite uma articulação
e socioeconômicos e outros fatores, como a es- maior entre as dimensões pessoal e social da
cola, a família e o mercado de trabalho. escolha e a tradução mais apurada da identi-
dade em termos ocupacionais. Por fim, a des-
CONSIDERAÇÕES FINAIS crição do modelo life span, life space inclui as
várias transições entre papéis e contextos por
Uma vez expostos alguns dos conceitos que passa o indivíduo, configurando a traje-
principais da teoria desenvolvimental de Su- tória de carreira como um processo indivi-
per (1957, 1963c, 1980; Super e Bohn Junior, dual, mediado tanto pelas questões internas
1976; Super et al., 1996), pode-se estabelecer (idade, gênero, maturidade, características
uma progressiva complexificação das con- biopsicológicas) quanto externas (oportuni-
cepções do autor quanto ao desenvolvimen- dades educacionais, contextos familiar, eco-
to da carreira. Das formulações iniciais sobre nômico e cultural).

Figura 7.1. Modelo life span, life space, de Donald Super. Fonte: Super, D. E., Savickas, M. L. e
Super, C. M. (1996). The life span, life space approach to careers. Em D. Brown, L. Brooks et al.
(Orgs.), Career choice and development: Applying contemporary theories to practice. San Francisco,
EUA: Jossey Bass.

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Orientação Vocacional Ocupacional 103

Como pode ser observado, ao contrário compreensão da problemática vocacional.
do que muitos possam pensar, a importância Espera-se que, a partir da descrição de seus
de Super e de suas concepções de carreira per- componentes principais, tenha-se desperta-
manecem na atualidade. Seu valor não reside do o interesse pelo estudo e a utilização da
apenas na relevância histórica de ter sido um perspectiva cognitivo-evolutiva do desen-
dos teóricos que contribuiu para a afirmação volvimento vocacional nas intervenções em
da área do aconselhamento vocacional e de orientação profissional realizadas no contexto
carreira, mas em ter fornecido um dos escopos nacional.
teóricos mais completos para intervenção e

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Metodologia de ativação da aprendizagem

uma abordagem psicopedagógica
em Orientação Profissional

Maria da Glória Hissa • Marita de Almeida Pinheiro1

NOVOS PARADIGMAS E DEMANDAS As transformações na sociedade, nas or-
CONTEMPORÂNEAS ganizações e nas pessoas trazem renovação de
valores, de paradigmas, de caminhos e de re-
Na evolução da história da humanidade cursos; dessa forma, colocam os profissionais
sempre ocorreram mudanças sociais e econô- que trabalham em Orientação Profissional
micas; uma das áreas em que essas transfor- frente a constantes desafios. É preciso utilizar
mações se refletem de forma significativa é a modalidades de atendimento que possibili-
do mundo do trabalho. Os setores produtivos tem ao indivíduo o acesso a informações ne-
são continuamente atingidos, causando alte- cessárias para que possa encontrar alternati-
rações nas paisagens ocupacionais e profissio- vas de ação e modificar estruturas existentes,
nais. A feição do trabalho altera-se de forma com capacidade de encarar a mesma situação
profunda: profissões são extintas; outras, mo- sob uma pluralidade de aspectos. Torna-se
dificadas; outras, ainda, são criadas. necessário, então, buscar formas de atuação
que atendam às características e às demandas
Provavelmente, não existe época contemporâneas.
em que não tenha havido uma transição;
nem todas as épocas, porém, mudam É dentro dessa perspectiva que expo-
com a mesma intensidade e com a mes- mos, neste capítulo, a abordagem psicope-
ma velocidade. Muitas vezes, temos a dagógica aplicada à Orientação Profissional.
sensação de que, em 10 anos, se faz mais Nessa modalidade, consideramos o indiví-
história do que em um século. duo com potencialidades para aprender a
escolher sua profissão e decidir como quer
Nos últimos 10 anos, vivemos uma e como pode dar continuidade a seu projeto
evolução tecnológica mais intensa do que de vida. A aprendizagem da escolha é esta-
nas fases lentas e longas da Idade Média. belecida a partir da ativação de processos
Em determinados momentos, temos a sen- cognitivos os quais favorecem a aquisição e
sação de que se trata de uma mudança de a apropriação ativa de conhecimentos, com
época. Entretanto, não é apenas um fator uma compreensão crítica da realidade para
da História que muda, mas é todo o para- que ocorra uma inserção consciente no mun-
digma – com base no qual os homens vi- do do trabalho.
vem – que se altera. (De Masi, 2000, p. 20)
A abordagem apresentada apoia-se em
um enfoque psicodinâmico o qual enfatiza a

1Agradecemos especialmente a leitura cuidadosa e os comentários feitos pela psicóloga Heloisa Porto Xavier
Fernandes.

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Orientação Vocacional Ocupacional 107

compreensão do indivíduo como um ser ativo experiência em processo (Zaslavsky, 1979), que
frente à sua existência e em processo contínuo descreve e ilustra a experiência desenvolvida
de desenvolvimento. Considera que o homem a partir da introdução do Planejamento por
constrói o mundo e nele se constrói, em cons- Objetivos e apresenta uma nova abordagem
tante dialética, tecendo, assim, complexa rede de ação com Enfoque Psicodinâmico.
de vínculos e relações sociais.
O trabalho junto às escolas foi intensifi-
A Orientação Profissional pautada nes- cado, ampliando-se para o atendimento a jo-
sa ótica tem compromisso com a melhoria da vens universitários com vistas à reavaliação
qualidade de vida e com o favorecimento da da escolha de cursos superiores. Estendeu-se,
existência digna das atuais e das futuras gera- posteriormente, a adultos em diversos mo-
ções, com a compreensão de que o exercício mentos de tomada de decisão e, ainda, ao
da profissão e a cidadania caminham juntos. acompanhamento de carreiras, em diferentes
contextos profissionais e ocupacionais.
SITUANDO NOSSA HISTÓRIA
Em 1991, apresentamos em Brasília, no
A criação de uma metodologia com abor- III Encontro Nacional de Gestalt Terapia, o
dagem psicopedagógica teve como ponto de trabalho intitulado Aplicação dos princípios
partida o trabalho iniciado na década de 1970 e gestálticos de uma metodologia ativa: abordagem
se voltava, essencialmente, para o atendimento psicopedagógica (Hissa e Pinheiro, 1991). Essa
a adolescentes, com a finalidade de apoiá-los apresentação representou um marco em nossa
em seu processo de escolha profissional. história por ter sido a primeira exposição da
metodologia à comunidade científica.
No trabalho de Orientação Vocacional
realizado até então se utilizavam recursos psi- Desde então, estamos realizando o apro-
cométricos e técnicas inerentes às concepções fundamento e a atualização do esquema teóri-
teóricas e metodológicas vigentes no cenário co e expandindo nossa experiência profissional
da época. com a utilização da Metodologia de Ativação
da Aprendizagem® (MAP) (Hissa e Pinheiro,
A necessidade de se promover uma re- 1997).
formulação do trabalho em Orientação Vo-
cacional em bases mais dinâmicas levou à Inicialmente, serão expostos os referen-
realização de estudos e pesquisas quanto à ciais teóricos básicos da metodologia, amplia-
problemática da Orientação Vocacional. Des- dos e atualizados com autores contemporâneos.
ses estudos, resultou, em 1973, a tese de mes- Em seguida, serão focalizados os princípios
trado Percepção ocupacional e desenvolvimento fundamentais que integram e articulam o de-
vocacional do adolescente (Pinheiro, 1973). sencadeamento do processo de aprendizagem
da escolha profissional, sendo apresentada a
A busca por novas compreensões do estrutura do Planejamento por Objetivos, prin-
processo de escolha profissional conduziu um cipal eixo de nossa proposta de ação.
grupo de profissionais das áreas da psicologia
e da educação a organizar um ciclo de estu- Finalmente, passaremos do campo concei-
dos, a partir de uma estratégia clínica, coor- tual para a aplicabilidade da proposta que cons-
denado pelo psicólogo argentino Rodolfo Bo- titui nossa modalidade de atuação no campo da
hoslavsky, em 1976, no Rio de Janeiro. Esses Orientação Profissional.
estudos ampliaram-se com as contribuições
de Donald Super, Denis Pelletier e Charles BASES TEÓRICAS DA METODOLOGIA
Bujold, que estiveram no Rio de Janeiro nesse
mesmo período. A construção da Metodologia de Ativação
da Aprendizagem® (MAP) apoia-se nos refe-
Os estudos desenvolvidos convergiram renciais teóricos básicos do modelo de ativação
para um projeto de Orientação Vocacional, dos processos cognitivos proposto por Pelletier
elaborado pela equipe que atuava no Serviço e colaboradores (1977). O trabalho desenvolvi-
de Orientação Educacional do Colégio Brasi- do até os dias de hoje por essa equipe no Cana-
leiro de Almeida (RJ). Desse trabalho surgiu a dá permite manter uma atualização de nossos
publicação do livro Orientação vocacional: uma pressupostos iniciais (Pelletier et al., 2001).

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108 Levenfus, Soares & Cols.

As teorias desenvolvimentistas de Donald uma vez que é ponto de apoio e instrumento
Super (1972) e a compreensão da estrutura do para a operacionalização de ações. Reflete-se,
intelecto de J. P. Guilford (in Pelletier, 1977) em- sobretudo, na nossa forma de atuar, conduzin-
basam também a metodologia que inclui a con- do à necessidade de redimensionar o papel pro-
tribuição do construtivismo de J. Piaget (1983) fissional, pois é preciso conciliar a inovação com
e a visão educacional de Paulo Freire (1987) a o pensamento anterior e utilizar os referenciais
partir de sua inovadora proposta de ação. teóricos para aumentar os espaços de ação.

Os enfoques teóricos fundamentam- FUNDAMENTOS BÁSICOS DA
-se ainda na visão psicanalítica da escola ar- ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA
gentina com Rodolfo Bohoslavsky (1977) e E.
Pichon-Rivière (1986), integrando conceitos A estratégia de ação da abordagem psi-
oriundos da psicologia social. copedagógica fundamenta-se em:

A operacionalização da abordagem • Princípios de ativação da aprendiza-
psicopedagógica apoia-se nos princípios da gem
Gestalt-Terapia que enfatiza a integração de
experiências em totalidades significativas e • Princípios da unidade operatória
é ampliada com as contribuições da Gestal- • Princípios do processo operatório
pedagogia (Burow, 1985). • Princípios do processo decisório
• Princípios da Gestalt
A atual prática de ação vem sendo en-
riquecida com estudos que desenvolvemos PRINCÍPIOS DE ATIVAÇÃO DA
como membros do Centro de Desenvolvimen- APRENDIZAGEM
to da Intuição e Criatividade (CDIC), dirigido
pelo psicoterapeuta Edgardo Musso (2001). Apresentados por Pelletier e colaborado-
Os estudos realizados no CDIC contribuem res (1977), são três os princípios para a ativa-
para a discussão de questões a respeito de ção da aprendizagem:
nossa visão de mundo e integram diferentes
compreensões para definir estratégias, na prá- 1. As experiências devem ser vividas.
tica, a partir de um contexto mais amplo. São 2. As experiências devem ser tratadas cogni-
pensamentos, percepções e valores que se ar-
ticulam e se complementam com ideias e con- tivamente.
tribuições de G. Deleuze (2001) e F. Guattari 3. As experiências devem ser integradas lógi-
(1981); com a visão de mudança de paradigma
de F. Capra (1996); com a inteligência emocio- ca e psicologicamente.
nal de D. Goleman (1995), e com a terapia cog-
nitiva de H. Maturana (1995) e da escola chi- Esses princípios devem ser pensados de
lena com a terapia cognitiva de H. Maturana maneira integrada, articulando-se dinamica-
(1995). Ampliam-se, ainda, com os conceitos mente. Procuram mobilizar o indivíduo em
de Prigogine (1996) quanto à imprevisibilida- tudo o que ele é, o homem integral, com suas
de e com a concepção de transdisciplinarida- motivações, com seu modo de ver e perceber
de da ciência de Morin (1997). o mundo, com seu universo, com suas habi-
lidades intelectuais, suas potencialidades e
As contribuições de autores contemporâ- suas emoções.
neos viabilizam o aprofundamento em teorias
que acompanham a dinâmica do pensamento A ativação do desenvolvimento da apren-
e as transformações do homem no mundo. dizagem pode ser, então, definida como uma
O contato com novos paradigmas representa abordagem que consiste em exercitar, por meio
uma evolução no conhecimento e possibilita de situações apropriadas, habilidades e atitu-
utilizar diferentes caminhos na compreensão des. Entendemos como habilidades as opera-
da subjetividade. ções internas envolvidas no tratamento da ex-
periência e, como atitudes, os efeitos cognitivos
A convergência desses referenciais permi- e afetivos da atividade que se expressam em
te que sejam criados procedimentos e técnicas ações.
que integram nossa concepção metodológica,

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Orientação Vocacional Ocupacional 109

PRINCÍPIOS DA UNIDADE Com essa perspectiva, Bohoslavsky con-
OPERATÓRIA sidera que fazem parte do processo os mo-
mentos de seleção, de escolha e de decisão,
A unidade operatória possibilita a união assim compreendidas:
da reflexão e da ação, favorecendo o apren-
der a compreender condutas, a expansão da • Seleção: etapa em que há discrimina-
consciência e o desenvolvimento do potencial ção e hierarquização dos objetos dispo-
intuitivo-criador do indivíduo, habilitando-o a níveis;
perceber, a sentir e a pensar para dar sentido ao
ato concreto, sem desviar o pensar do ato de fa- • Escolha: etapa em que se estabelece re-
zer (Pichon-Rivière, in Hissa e Pinheiro, 1997). lação mais íntima com os objetos possí-
veis, havendo ambiguidade e ambiva-
PRINCÍPIOS DO PROCESSO lência frente a eles;
OPERATÓRIO
• Decisão: etapa em que há ação sobre a
Há uma relação entre as variáveis intelec- realidade e elaboração de projetos para
tuais e as operações implicadas na realização apoderar-se do objeto e torná-lo seu
das tarefas estimuladoras do desenvolvimen- (Bohoslavsky, 1977).
to. As tarefas integram um conjunto de ações,
permitindo estabelecer um vínculo com os Esses fundamentos integram-se confor-
objetivos operacionalizados que são os orga- me a configuração mostrada na Figura 8.1.
nizadores do processo da aprendizagem.

As etapas desse processo comportam
tempos de exploração, de categorização, de
avaliação e de realização. Essa concepção leva
a considerar, respectivamente, os processos
cognitivos dos pensamentos criativo, concei-
tual, avaliativo e implicativo (Pelletier, 1977).

Trabalhar cognitivamente uma experiên-
cia, ativando as estruturas intelectuais, consis-
te em relacionar tarefas e processos do pensa-
mento, como apresenta o Quadro 8.1.

PRINCÍPIOS DO PROCESSO Figura 8.1
DECISÓRIO

A aprendizagem do processo decisório
contribui para a construção da identidade
profissional a partir de identificações perce-
bidas no decorrer do processo de desenvolvi-
mento pessoal.

Quadro 8.1. Tarefas Operatórias Pensamento
Criativo
Tarefas operatórias
Explorar - Perguntar - Formular hipóteses - Ter novas ideias Conceitual
Categorizar - Reunir - Agrupar - Estruturar - Sintetizar Avaliativo
Avaliar - Comparar - Hierarquizar - Escolher - Ordenar Implicativo
Realizar - Prever - Situar-se no tempo e no espaço

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110 Levenfus, Soares & Cols.

PRINCÍPIOS DA GESTALT der como a pessoa estrutura sua experiência
presente para ampliar a percepção de si, em
A presença ativa do indivíduo na realiza- um contato criativo com o meio, favorecendo
ção das atividades, operacionalizadas a partir as condições para o equilíbrio, para a integra-
das tarefas, abre caminhos para que ele possa ção e para o crescimento do indivíduo como
perceber, tomar consciência, estabelecer rela- um todo.
ções e descobrir significados, por meio dos
recursos da Gestalt, com os conceitos destaca- A experiência é o fundamento mais im-
dos no Quadro 8.2 (Burow, 1985). portante do aprendizado e pode ser ampliada
na criação de práticas apropriadas para atin-
A teoria da Gestalt é um pilar importan- gir os objetivos planejados.
te na construção da abordagem psicopedagógica
por ser uma base psicológica cuja integração Na operacionalização da metodologia,
dos conceitos centrais possibilita ativar a as atividades mobilizam o indivíduo como
aprendizagem e construir recursos técnicos um todo e geram o surgimento de figuras que
os quais permitam desencadear e dar signi- o indivíduo precisa em dado momento para
ficado às atividades. atender às necessidades existentes em seu
campo existencial no aqui-e-agora.
Para promover qualquer aprendizagem,
é preciso dar mais atenção aos aspectos da As condições da situação de atendimen-
compreensão do que à mera acumulação de to propiciam autossuporte para que o indiví-
informações: as unidades perceptivas apre- duo desenvolva a consciência dos fatores que
sentam-se com sentido, em marcos mais glo- geram as dificuldades presentes e estabeleça
bais do que quantitativos (Santomé, 1998). novos contatos consigo mesmo visando a agir
com autorresponsabilidade na tomada de de-
A aplicação dos Princípios da Gestalt na cisão. A unidade operatória é alcançada com a
abordagem psicopedagógica, utilizada em agilização propiciada pelos Princípios da Ges-
Orientação Profissional, permite compreen- talt, ilustrada na Figura 8.2.

Quadro 8.2 Princípios da Gestalt Experiência Consciência
Contato Autossuporte Aqui-e-agora
Percepção Figura-fundo
Campo
Autorresponsabilidade

Figura 8.2
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Orientação Vocacional Ocupacional 111

ABORDAGEM PSICOPEDAGÓGICA EM Figura 8.3
ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL
O planejamento da ação em função dos
“Neste modelo educativo, o orientador objetivos tem um caráter intencional e inclui
procura favorecer a construção de um proje- etapas e metas. A concretização da ação plane-
to tanto profissional quanto pessoal, fruto de jada para atingir os objetivos propostos é feita
ideais e compromissos próprios de cada um” por meio de tarefas para promover a apren-
(Pelletier et al., 200l). dizagem dos conteúdos a serem ativados nos
momentos de autopercepção, percepção dinâ-
A experiência desenvolvida em Orien- mica do mundo e visão prospectiva, inerentes
tação Profissional, articulada à base teórica às etapas do processo de desenvolvimento
anteriormente exposta, possibilitou-nos a am- pessoal.
pliação da compreensão do modelo de atuação
com enfoque psicodinâmico, visão que enfatiza a A utilização do Planejamento por Objeti-
estrutura dinâmica da personalidade do indi- vos é diversificada, podendo ser adaptada para
víduo na sua interação com o meio. atender diferentes situações:

A abordagem psicopedagógica, utilizada
na Metodologia de Ativação da Aprendizagem®
(MAP) em Orientação Profissional, permite ao
indivíduo colocar-se como sujeito da aprendi-
zagem, considerando seus aspectos cognitivos,
afetivos e socioculturais (Figura 8.3).

Essa abordagem visa a atender às de-
mandas do momento histórico do indivíduo
para que ele possa aprender a selecionar, a
escolher e a decidir a profissão que quer e
pode ter, de que modo e em qual contexto. Re-
presenta uma intervenção que está centrada
no Planejamento por Objetivos apresentado no
Quadro 8.3.

Quadro 8.3 Planejamento por Objetivos

Etapas do Objetivos Conteúdos
desenvolvimento
• Visão de passado, presente e A
pessoal futuro. T
I
Autopercepção • Situar-se em seu momento • Percepção de interesses, aptidões V
dinâmica histórico. e características pessoais. I
D
• Tomar consciência das A
potencialidades e possibilidades. D
E
Percepção • Explorar e organizar • Conhecimento e informações S
dinâmica do informações sobre o mundo em objetivas sobre o mundo.
mundo transformação.
• Função social do trabalho.
• Descobrir identificações e ampliar
alternativas de escolha.

Visão • Definir metas. • Construção de um projeto de vida
prospectiva • Experimentar-se em um possível a curto, médio e longo prazo.

papel ocupacional e profissional.

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112 Levenfus, Soares & Cols.

• trabalho com uma única pessoa ou com ação que permitem que as informações che-
um grupo; guem ao sujeito de forma:

• nível de maturidade do indivíduo; • original, espontânea, criativa, ampla,
• momento do desenvolvimento pessoal; diversificada;
• tempo disponível para a realização do
• clara, organizada, estruturada, classifi-
trabalho; cada, com significado;
• nível socioeconômico do indivíduo ou
• avaliada, selecionada, escolhida, possí-
grupo (Zaslavsky, 1979). vel, desejada;

Esse planejamento contempla a opera- • situada no tempo e no espaço, em um
cionalização das tarefas operatórias que se contexto histórico e geográfico, per-
expressam em um conjunto sequencial de mitindo ao indivíduo prever e propor
atividades, organizadas a partir da estra- realizações.
tégia de ação correspondente às etapas do
processo de desenvolvimento pessoal e pro- APLICABILIDADE DA ABORDAGEM
fissional. Essa estratégia norteia a condução PSICOPEDAGÓGICA
do atendimento em Orientação Profissional
(Quadro 8.4). A abordagem psicopedagógica expande
a visão de ocupação e de profissão para a to-
O Quadro 8.4 constitui um referencial de mada de decisões diversas, como definição de
apoio que permite ao profissional estabelecer cursos, de profissões, de ocupações e de ati-
atividades que promovam a aprendizagem vidades, desde a juventude até os diferentes
dos conteúdos. momentos da idade adulta.

A ativação do processo de aprendizagem Para ilustrar um processo de atuação em
apoia-se em uma estratégia e em uma tática de Orientação Profissional escolhemos, como
clientela, o adolescente em fase de conclusão

Quadro 8.4 Etapas do Processo de Desenvolvimento Pessoal e Profissional

ETAPAS ESTRATÉGIA DE AÇÃO

AUTOPERCEPÇÃO Entender a escolha como um momento do processo histórico pessoal, integrando
DINÂMICA vivências passadas, o presente e as expectativas quanto ao futuro. Desbloquear,
reconhecer e ampliar a compreensão das próprias características e do potencial para
identificar áreas de interesse, resgatar aptidões e explorar possibilidades de agir
e produzir. Pensar sobre si mesmo, em seu cotidiano, no que gosta de fazer, nas
habilidades que tem e quer desenvolver, ampliando a consciência da autonomia.

PERCEPÇÃO Aumentar a gama de informações a fim de dar à pessoa oportunidade de conhecer
DINÂMICA DO alternativas diversificadas e integradas à realidade. Fornecer informações objetivas
do mundo e criar situações para a descoberta de novas opções, possibilitando a
MUNDO consciência do papel social no aqui-e-agora, ampliando a visão de mundo a partir
dos contextos familiar e social. As informações são trabalhadas de forma integrada
VISÃO com a realidade externa e com o momento atual da pessoa, levando em conta os
PROSPECTIVA fatores que possibilitam uma situação específica de escolha.

Experimentar a vivência de um futuro papel profissional ou ocupacional, explorando
e avaliando alternativas, definindo metas desejáveis e realizáveis. Conscientizar-se
dos fatores implicados nas alternativas que tem e da responsabilidade pessoal para
elaborar um projeto, estabelecendo um plano de ação que possibilite selecionar,
escolher e decidir profissões e ocupações que tragam satisfação.

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Orientação Vocacional Ocupacional 113

do ensino médio, no momento decisório cor- dentes a cada uma das etapas do processo de
respondente à escolha de curso superior, vi- desenvolvimento pessoal e profissional são
sando ao ingresso na faculdade. descritas no Quadro 8.5.

Aestrutura básica, apresentada no Quadro As instruções das atividades são espe-
8.5, corresponde a uma modalidade de aten- cialmente elaboradas para que os conteúdos
dimento que pode ser individual ou coletiva, possam ser operacionalizados. As interven-
com uma ou duas horas de duração, respecti- ções do orientador, norteadas pelas etapas
vamente. O planejamento é elaborado de forma do processo de desenvolvimento pessoal e
intencional a partir dos objetivos; inclui um nú- profissional, propiciam a ativação das tarefas
mero preestabelecido de oito sessões semanais, operatórias de exploração, de categorização,
e a distribuição das atividades, por encontro, é de avaliação e de realização, para que o indi-
estabelecida conforme com o desenvolvimento víduo possa viver a experiência e tratá-la cog-
do atendimento. O trabalho em grupo é realiza- nitivamente, o que torna possível a integra-
do em sistema de dupla coordenação. ção lógica e psicológica da aprendizagem.

A fixação do tempo é considerada um O indivíduo, percebendo e definindo for-
fator imprescindível para a agilização do pro- mas de agir diante da diferença, encontra sua
cesso de trazer conteúdos internos à consciên- singularidade e desenvolve autonomia para
cia e fundamenta-se nos princípios de ativa- utilizar recursos novos na resolução do coti-
ção do desenvolvimento cognitivo com uma diano, em um ato concreto que permite a cons-
atuação apoiada na Gestalt (Burow, 1985). trução criativa de um estilo de vida.

Utilizamos recursos e técnicas participa- “A construção ou a elaboração de um
tivas, como exercícios, jogos, pesquisas, deba- projeto de vida faz parte do processo de ma-
tes, reflexões, exposições, situações simuladas turação afetiva e intelectual e, como tal, supõe
e dramatizações. As atividades correspon- ‘aprender a crescer’” (Casullo, 1994, p.18).

Quadro 8.5 Quadro de Referência

Etapas Atividades QUADRO DE REFERÊNCIA

Contrato Descrição

Expectativas • Caracterização da modalidade de atendimento.
• Preenchimento de ficha de inscrição com dados pessoais e
Autopercepção
dinâmica contexto familiar.
• Informações quanto à duração, ao número e à frequência das
Trajetória
sessões.
Quadrantes
• Redação das expectativas do orientando quanto à proposta,
a partir das perguntas: Por que veio fazer a OP? O que espera
do trabalho?

• Utilização de recurso gráfico de uma linha horizontal que
representa a trajetória de vida do orientando para que assinale
marcos significativos desde o nascimento até a data de
realização dessa atividade.

• Levantamento do cotidiano do orientando, tendo como
referencial quatro categorias:
- Gosto e faço
- Gosto e não faço
- Faço e não gosto
- Não gosto e não faço

Continua

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114 Levenfus, Soares & Cols.

Continuação QUADRO DE REFERÊNCIA
Etapas
Atividades Descrição
Análise de
propagandas • Identificação de produtos e produtores em propagandas
extraídas de revistas.
Áreas
produtivas • Categorização de profissionais em áreas produtivas
representativas dos setores econômicos, com preenchimento
de folha impressa que contém duas colunas: profissões sem
formação de nível superior e profissões de nível superior (Hissa
e Pinheiro, 1998).

Campos de • Conhecimento e exploração dos conteúdos e das formas de
trabalho profissões a partir dos oito campos de trabalho descritos por
Ane Roe (Pinheiro, 1973).

Percepção Listagem de • Apresentação de listagem por ordem alfabética de profissões
dinâmica do profissões de nível superior existentes no Estado brasileiro onde está
mundo sendo realizado o atendimento (Hissa e Pinheiro, 2001).

Visão • Estabelecimento de relação entre áreas produtivas, campos de
prospectiva trabalho e profissões. Técnica RP (Hissa e Pinheiro, 1998).

Consultas • Ampliação de informações objetivas sobre o mundo do trabalho,
orientadas utilização de manuais e guias de profissões, de sites da internet,
de folhetos de divulgação de cursos, de jornais, de currículos de
cursos, de informativos com localização de instituições e acesso
ao Banco de Informações Profissional do NOVO (BIP).

Entrevista • Realização de entrevista estruturada com roteiro básico
com definindo estilo, forma e conteúdo das profissões (Zaslavsky,
profissional 1979).

• Dramatização feita pelo orientando expressando-se oralmente
Dramatização “como se fosse” o profissional entrevistado descrevendo sua

profissão.

Seleção e • Escolha de profissões entre as já selecionadas.
escolha de Estabelecimento de prioridades, avaliando possibilidades
profissões profissionais desejáveis e realizáveis.

Construção • Integração dos fatores que compõem a profissão escolhida:
da profissão características, atividades desempenhadas, estilo, áreas de
estudo, preparação requerida, locais e ambientes de trabalho.

Trajetória • Continuação da trajetória de vida, iniciada na primeira sessão,
continuada para a decisão da profissão, avaliando o processo vivenciado,
refletindo sobre as perguntas: como se percebe agora em
Avaliação relação às expectativas iniciais? Como quer dar continuidade à
do processo sua história a partir da decisão profissional?

• Estabelecimento de etapas de um projeto de ação a curto,
médio e longo prazos.

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Orientação Vocacional Ocupacional 115

CONSTRUÇÃO, TRANSFORMAÇÃO E talizar o indivíduo para que ele possa
CONTINUIDADE perceber as próprias características e o
próprio potencial de desenvolvimen-
Os resultados da aplicabilidade da meto- to, tendo acesso às informações para a
dologia construída permitem-nos afirmar que compreensão de seu processo de deci-
o indivíduo pode aprender a escolher a profis- são.
são. Essa certeza resulta de nossa experiência • O trabalho de Orientação Profissional
em Orientação Profissional, com a utilização contribui para redimensionar os va-
da abordagem psicopedagógica ao longo de lores das pessoas e os do próprio tra-
quatro décadas de trabalho. balho, fortalecendo a autoestima e a
consciência do significado do serviço
As transformações sociais geram múlti- que prestam à sociedade.
plas demandas, expandem campos de trabalho • É importante atingir-se a consciência
e abrem um leque de novas possibilidades de social por meio de informações que
atendimento no que se refere à escolha de uma esclareçam o alcance da Orientação
ocupação ou profissão. Profissional e ampliem a credibilidade
nesse tipo de trabalho.
Acreditamos que a Orientação Profis-
sional envolve um conjunto de fatores, e os É fundamental, ainda, trazer uma visão
profissionais que atuam nessa área precisam ampla e sistêmica dessa temática, na qual fa-
ampliar continuamente sua visão para esta- tores sociais, políticos e econômicos estão in-
rem sempre afinados com a compreensão do terconectados e são interdependentes.
contexto social e com as formas de trabalho
contemporâneas. Podemos afirmar que a Orientação Pro-
fissional deve ter como meta ajudar as pessoas
Essa proposta metodológica possibilita a se prepararem para trabalhos que propiciem
considerar relevantes os seguintes aspectos: alegria, buscando a própria satisfação, o que
certamente trará como consequência a melho-
• As transformações no mundo do traba- ria em sua competência e produtividade.
lho exigem uma renovação na maneira
de pensar com o objetivo de identificar Nossa modalidade de atuação em Orien-
possibilidades de atuação em diferen- tação Profissional representa uma contínua
tes projetos, com uma ação empreen- construção que está sendo sempre revista e
dedora para perceber tendências e pre- enriquecida com novas experiências e com
ver mudanças. novos estudos, oferecendo uma base que leve
a reflexões sobre a questão da Orientação Pro-
• A Orientação Profissional necessita fissional sob a ótica da aprendizagem, contri-
estar sempre criando formas de atuar buindo, assim, para difundir e renovar a ima-
frente à realidade para conceber uma gem pública da Orientação Profissional.
estratégia de ação diversificada.

• No processo de Orientação Profissio-
nal, o papel do orientador é instrumen-

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116 Levenfus, Soares & Cols.

REFERÊNCIAS

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CAPRA, F. A rede da vida. São Paulo: Cultrix, 1996.
CASULLO, M.M. et al. Proyecto de vida y decision vocacional. Buenos Aires: Paidós, 1994.
DELEUZE, G. Empirismo e subjetividade: ensaios sobre a natureza humana segundo Hume. São
Paulo: Ed. 34, 2001.
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9

Orientação vocacional ocupacional

abordagem clínica psicológica

Rosane Schotgues Levenfus

A adoção de uma perspectiva do orientação: psicólogos, pedagogos, economis-
sujeito psicológico, que não desintegra o tas e outros (CFP, 2001, 2003, 2005, 2006).
comportamento vocacional das restantes
facetas da experiência humana, acarreta O fato de os testes serem encaminhados
para o psicólogo, do ponto de vista das e avaliados positivamente pelo CFP, de uso
opções de intervenção, exigências incom- exclusivo do psicólogo, não significa que seu
paravelmente superiores àquelas com uso seja restrito à clínica. Na forma com que
que se poderia confrontar no quadro de me proponho a apresentar a abordagem clínica
uma prática mais estruturada, quase es- em OP, neste capítulo, essa proposta passa a ser
tandardizada, de Orientação Vocacional. dirigida somente ao profissional da psicologia,
a partir, também, da utilização de testes.
(Nascimento e Coimbra, 2005, p. 17)
Embora em alguns momentos a aborda-
INTRODUÇÃO gem psicanalítica seja mensionada como um
dos precursores da abordagem clínica, os lei-
A Orientação Vocacional Ocupacional tores perceberão que essa proposta abrange
(OVO) já foi por mim abordada com enfo- conceitos de psicologia do desenvolvimento,
que clínico psicanalítico (Levenfus, 1997b). comportamental e psicodinâmica de uma for-
Naquela época preocupei-me em enfatizar ma mais ampla.
que a abordagem psicanalítica não era de uso
exclusivo do psicólogo e, fazendo referência CONCEITO
a Knobel (1986), tampouco se restringia ao
trabalho no consultório, podendo estender-se A história da Orientação Profissional
às escolas e a outros âmbitos. Continuo com- vem unida à história do conceito de vocação
partilhando dessa opinião. (deriva de vocatio: “chamado interior”). Con-
forme Veinstein (1994):
Passados os anos nos quais houve um
grande incremento dos estudos em OP no • Se se entende que a vocação é inata; se
Brasil, contamos com muitas publicações cien- nasce com destino para alguma tarefa
tíficas, novos instrumentos e testes. Com o ad- determinada...
vento da normatização dos testes psicológicos ... então a Orientação só tem que desco-
pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), a bri-la e dizer ao indivíduo.
fim de garantir a qualidade psicométrica dos
instrumentos, o campo da OP também pôde • Se a vocação ocorre por meio de apren-
definir de forma mais clara o campo de atua- dizagens...
ção do psicólogo, já que existem muitos fa- ... então a Orientação avalia o que se
zeres comuns aos diferentes profissionais da aprendeu e o que se pode aprender.
Nesse caso, a Orientação conduz.

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118 Levenfus, Soares & Cols.

• Se a vocação é o conjunto de habilida- dizem respeito, que são percebidos, conheci-
des para certas tarefas... dos, necessários, desejados. Quando alguém
... então a Orientação mede, hierarquiza se orienta, analisa os valores ditos e os não di-
e assinala as áreas nas quais se acredita tos, tratando de harmonizá-los para guiar sua
que o sujeito renderia mais. ação.

• Se vocação é um processo de intercâm- O ocupacional é o fazer, que necessita de
bio e síntese entre disposições, tipo de objetos, ferramentas, símbolos, técnicas e es-
personalidade e resultados de aprendi- tratégias para efetivar o vocacional.
zagem...
...então a Orientação diagnostica esses O vocacional sem o ocupacional, como bem
níveis e trata de correlacioná-los. assinala Veinstein (1994) em nosso prefácio, “é
só fantasia, sonhos, esperanças”. “O ocupacio-
• Se a vocação é o conjunto de chamados nal sem o vocacional é alienação, é fazer sem
interiores os quais resultam da inter- sentido”.
nalização de chamados do ambiente e
da própria experiência, em uma ma- Dissociar vocacional de ocupacional é pro-
triz existencial, o fazer é uma manifes- vocar uma dicotomia entre ser e fazer.
tação do ser e este se encontra e se faz
em seu fazer; ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

• Se a vocação se amplia como o vocacio- Para todos os efeitos, prefiro reservar o
nal em todo o desenvolvimento histó- termo “Orientação Profissional” para o traba-
rico de uma pessoa, assumida em sua lho que se limita a informar e a orientar a res-
autonomia de escolha e de decisão... peito de profissões, mercado de trabalho, apli-
... então a Orientação é criação e re- cando técnicas de aprendizagem sem enfatizar
criação contínua dessa história pesso- as questões intrapsíquicas do orientando.
al na história compartilhada, compre-
endendo tanto a si mesmo quanto à A OP é um trabalho extremamente ne-
sua percepção alheia com o que deve cessário e deveria compor obrigatoriamente
relacionar-se em uma síntese harmô- os currículos escolares – pelo menos durante
nica, de projeto presente e projeção no todo o ensino médio – pois é notório o quanto
futuro. Nesse processo de Orientação, a falta de informações redunda em escolhas
o ocupacional é ato e proposta que equivocadas.
tanto deriva como propõe condições
ao vocacional. ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
OCUPACIONAL
Para a OVO, o vocacional tem relação
íntima com o sentido que se encontra para a Considero a OVO um processo mais
vida. É o que se sente e se pretende ser. Esse abrangente, que diz respeito não somente à
vocacional necessita sintetizar, a princípio, as informação das profissões, como também a
diferentes “novelas” que foram escritas para toda uma busca de conhecimento a respeito
cada sujeito, ainda antes de seu nascimento, de si mesmo (características de personalida-
no caminho de chegar a ser autor de seu pró- de, interesses familiares e sociais do orientan-
prio roteiro (Veinstein, 1994). do), promovendo o encontro das afinidades
do sujeito com aquilo que pode vir a realizar
Quanto ao termo orientação, prefiro em forma de trabalho.
entendê-lo como auxiliar terapeuticamente
alguém a encontrar um direcionamento para Um modelo dual
sua vida, um “que fazer”, pelo do reconheci-
mento de uma identidade profissional, a par- O jovem que busca auxílio para resolver
tir do conhecimento de seu mundo interno e uma questão vocacional nem sempre está
do mundo ocupacional. disposto a questionar mais profundamente
acerca de sua dinâmica interna e descobrir as
Orientar-se é guiar-se no espaço e encon- bases neuróticas de sua dificuldade. Mesmo
trar, entre diversos valores, aqueles que lhe

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Orientação Vocacional Ocupacional 119

assim, em grande parte dos casos, é possí- A estratégia clínica
vel solucionar a dúvida vocacional. É nesse
contexto que Bordin (1975) formula a ideia Bohoslavsky (1982) denominou Orienta-
da OVO, denominada “asesoria vocacional”, ção Vocacional - estratégia clínica, a uma moda-
como um tratamento diferente da psicaná- lidade que adota “um conjunto de operações,
lise. por meio do qual o psicólogo ascende à com-
preensão da conduta do orientando e facilita
Esse autor descreve três fases do pensa- para este último o acesso à sua própria com-
mento psicológico com relação à questão vo- preensão”. Entende que a entrevista clínica é
cacional. Em um primeiro momento se con- o instrumento principal para ajudar o jovem a
siderava a escolha como o processo de estar chegar a uma decisão autônoma.
bem-informado das posições disponíveis em
diferentes ocupações, dos requerimentos edu- Para esse autor, os movimentos que
cativos, das condições de trabalho e dos salá- “configuram uma estratégia correspondem a
rios. Esse modelo centrava-se nas motivações critérios racionais que surgem do quadro de
extrínsecas para o trabalho e para a vocação. Em referência daquele que a usa”. Na Argenti-
uma segunda fase, o conceito de escolha voca- na, as influências teóricas foram basicamente
cional foi ampliado em termos de um modelo psicanalíticas, refletindo ele esse contexto de
misto de motivações extrínsecas-intrínsecas por trabalho.
meio das relações das demandas psicológicas
da ocupação com as características pessoais As principais fontes teóricas da estra-
do adolescente. Esse modelo consistia em in- tégia clínica em OVO, como apontou Müller
terpretar os resultados de testes com a finali- (1988), provêm da psicanálise e da psicologia
dade de elucidar qual ocupação exigia reque- social.1
rimentos assim. Essa concepção de processo de
Orientação ainda prevalece em alguns estabe- Da psicanálise derivam, em espe-
lecimentos de educação secundária e prepara- cial, os conceitos de instâncias psíquicas:
tória, como já referido. (ego, id e superego) e a ideia de um in-
consciente atuante, dinâmico, que se ex-
Nos anos 1930, com a ênfase às teorias pressa não só em sonhos, atos falhos, sin-
da personalidade e sua dinâmica, as dificul- tomas, mas também em todo um sistema
dades para realizar uma escolha vocacional de percepção de mundo e de expressão
passaram a ser consideradas como sintomas pessoal, mediante a busca de objetivos
de um problema emocional ou neurótico. que colocam em jogo motivações e dese-
Naquela época, algumas vezes, estimula- jos profundos muitas vezes consciente-
va-se o cliente a resolver seus problemas mente desconhecidos.
transformando a OVO em uma ampla psi-
coterapia. Dessa forma, o processo ficava (Müller, 1988, p. 13)
tão incompleto quanto o primeiro modelo.
Assim, buscou-se um modelo dual: o mode- A constituição do ego e do superego, o
lo de escolha extrínseca-intrínseca aliado ao narcisismo, o ideal de ego, os mecanismos
modelo interno dinâmico. de identificação, de idealização, de sublima-
ção, bem como os conceitos de identidade, de
É feita referência à OVO em diferentes transferência, de contratransferência, as estru-
âmbitos. Posso considerá-la um momento na turas da personalidade, entre outros, são apor-
psicoterapia em que são tratadas questões vo- tes importantes de Freud e seus seguidores.
cacionais, bem como uma forma específica de
tratamento clínico. Da psicologia social procedem as noções
de vínculo, de grupo interno, de estrutura e de

1 Nos últimos anos, temos encontrado relatos de abordagem clínica junguiana que trata das manifestações dos
complexos e sua interferência no processo de OP, bem como relatos de contribuições da Gestalt nas quais se
articula a proposta diagnóstica de Bohoslavsky com conceitos Gestalt de autorregulação organísmica e ciclo de
contato (Moraes, 2007; Canedo, 2007). Também Rappaport (2001) apresenta sua leitura lacaniana da formação
da identidade profissional, salientando que a subjetividade tem que ser percebida e trabalhada em um con-
texto ideológico que a rejeita.

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120 Levenfus, Soares & Cols.

dinâmica dos grupos, além de outros aportes OVO clínica em moldes focados e breves, em
de Pichon Rivière, Ulloa, Kesselman e outros. sua maioria, com utilização básica do referen-
cial psicanalítico (Neiva, 2003; Rassi, Souza,
De tudo isso resulta a OVO como um Vilas Boas e Valore, 2001; Lima, 2001; Melo-
processo, uma trajetória, uma evolução me- Silva, 2003).
diante a qual os orientandos refletem sobre
sua problemática e buscam caminhos para Na forma como estou acostumada a rea-
sua elaboração. lizar o atendimento, em muitos pontos ele se
assemelha ao que se denomina Psicoterapia
Tudo o que se trabalha durante a Breve Focal. Apoio-me em Lemgruber (1984)
OVO tem por finalidade levar o orien- e Fiorini (1985) para explicitá-la.
tando a pôr em prática seu protagonis-
mo quanto a conhecer-se, conhecer a rea- É importante destacar que o atendimen-
lidade e tomar decisões reflexivas e de to “breve” não se caracteriza pelo tempo que
maior autonomia, que levem em conta ocupa, e sim por uma técnica com caracterís-
suas próprias determinações psíquicas ticas específicas. Costuma-se apoiar a concei-
assim como as circunstâncias sociais. tuação dessa modalidade psicoterápica em
(Müller, 1988, p. 14) seu caráter não regressivo.

No processo de “tomar consciência”, é É bastante indicada para quadros agu-
importante a interpretação do que se expressa dos, em especial, situações de crise ou des-
livre e transferencialmente, das sobredetermi- compensações; para situações de mudança,
nações subjetivas da identidade vocacional, por exemplo, em transição de etapas evoluti-
das relações de produção e de poder próprias vas (adolescência, casamento, graduação, me-
do sistema social, o que, por sua vez, também nopausa, aposentadoria), bem como para dis-
é questionado pela mobilização ideológica do túrbios de intensidade leve ou moderada de
adolescente ( Bohoslavsky, 1975). início recente. Por tudo isso nos parece bem
indicado à resolução da crise vocacional.
Tudo isso significa que uma prática res-
ponsável em OVO não pode ser alienada a Não é possível, sob essa técnica, produzir
ponto de perder de vista que muito do que o mudanças na estrutura essencial da personali-
indivíduo “pode chegar a ser” seja reflexo do dade, nem é esse o seu objetivo. No entanto, é
quanto a estrutura social lhe permite chegar a defendida a ideia de que essa técnica produz
ser e, por outro lado, do quanto o indivíduo modificações dinâmicas de maior alcance do
(emocionalmente são) pode apropriar-se de que a mera supressão de sintomas.
sua escolha e realizar-se ainda que esteja inse-
rido em uma estrutura social alienante. Fiorini (1985) observa que o atendimento
no modelo breve produz modificações corre-
A OVO COMO ATENDIMENTO latas na manipulação das defesas, com a subs-
CLÍNICO BREVE tituição de técnicas mais regressivas por ou-
tras mais adaptativas; maior ajustamento nas
Embora seja salientado que a OVO pode relações com o meio (comunicação, trabalho,
ser tanto um momento de um tratamento etc); incremento da autoestima, da sensação
psicoterápico quanto um recurso oferecido de bem-estar pessoal, da autoconsciência; am-
por escolas ou empresas, serão apresentadas pliação de perspectivas pessoais, esboço ini-
algumas questões que poderiam identificar cial de alguns tipos de “projeto” individual.
a OVO como um atendimento clínico breve
a ser exercido pelo psicólogo.2 Cabe apontar A técnica de atendimento clínico breve
que inúmeras clínicas de psicologia de uni- tem características distintivas baseadas em uma
versidades brasileiras prestam o serviço de tríade. Os aspectos essenciais e característicos
do método são atividade, planejamento e foco.

Atividade: Um ponto de concordân-
cia geral em atendimentos breves refere-se

2 Outros autores também têm apontado, em sua prática, a OVO como atendimento breve e focado (Müller,
2004; Mello, 2002 e Nascimento, 2007).

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Orientação Vocacional Ocupacional 121

à necessidade de maior atividade por parte o problema do paciente dinamicamente e em
do terapeuta. Essa atitude deliberadamente estabelecer um foco de trabalho e um planeja-
mais ativa, em contraposição à postura clás- mento terapêutico.
sica de neutralidade, é um aspecto central
nesse tipo de técnica que “transgride” a “re- Um planejamento terapêutico deve ser
gra de abstinência” da psicanálise. necessariamente flexível, e, mesmo que a es-
tratégia mais ampla possa manter-se inalte-
Se o terapeuta escolher atuar em um trata- rada durante o tratamento, a tática emprega-
mento breve, ele necessariamente estará optan- da será sempre passível de modificações, de
do por maior atividade e maior participação, acordo com as necessidades surgidas ao longo
sendo necessária a adoção de atitudes como: da terapia.

• Avaliar e diagnosticar as condições in- Além disso, a correta avaliação do pa-
ternas do paciente. ciente é um elemento básico no planejamento
terapêutico, devendo ser ressaltado o fato de
• Estabelecer um foco a ser trabalhado que fazer uma avaliação prévia não significa
durante o processo. rigidez na estratégia a ser seguida nem im-
possibilidade de ela ser revista ao longo da
• Combinar com o paciente um contrato terapia. Nesse sentido, a avaliação psicológica
terapêutico discutindo o foco estabele- tem também o papel de permitir que se faça,
cido (no caso, a busca de resolução da antes de tudo, uma indicação terapêutica. É
problemática vocacional). importante lembrar que nenhuma das técni-
cas terapêuticas pode, ou deve, ser indicada
• Planejar a estratégia básica a ser se- indiscriminadamente para qualquer caso, em
guida durante o processo terapêutico qualquer situação, da mesma forma, portanto,
(inclusive se a OVO será individual ou deve ser em OVO. A escolha do tipo de tra-
coletiva). tamento não é ditada pelo quadro clínico ou
pela sintomatologia, mas sim pela estrutura
• Atuar em uma linha de focalização da personalidade, pelas condições egóicas do
que implica interpretações seletivas, paciente e pela demanda.
atenção seletiva (em contraposição à
atenção flutuante) e “negligências” se- Diversos testes psicológicos psicomé-
letivas. tricos, projetivos e expressivos têm sido uti-
lizados em Orientação Vocacional tanto no
• Agilizar o processo terapêutico utili- diagnóstico de orientabilidade quanto no de-
zando recursos alternativos à interpre- senvolvimento da Orientação.
tação transferencial clássica.
Assim como Nascimento (2007), outrora
• Opor-se ao desenvolvimento de neu- trabalhamos apenas a partir de entrevistas.
rose de transferência por meio de in- No entanto, percebemos a falta de alguma
terpretações que valorizem também a informação que apenas o resultado de um
realidade atual do paciente. teste poderia fornecer em tempo breve e com
segurança. Essas informações – referentes a
• Criar um clima que possibilite ao pa- habilidades e a interesses específicos, traços
ciente vivenciar seus impulsos sem a de personalidade, grau de maturidade, entre
necessidade de lançar mão de defesas outros – que podem levar muito tempo para
como forma de proteção e da ansieda- serem investigadas por meio de entrevistas,
de por eles desencadeada, isto é, propi- às vezes são obtidas com segurança por meio
ciar que o paciente vivencie uma Expe- da testagem psicológica. Com a testagem, não
riência Emocional Corretiva (EEC). esperamos ajudar diretamente na resolução
do conflito, mas sim na sua compreensão.3
Planejamento: As condições necessárias
para o êxito de um atendimento breve são,
além de disponibilidade e de capacidade do
paciente em explorar sentimentos, a capaci-
dade do terapeuta em sentir e compreender

3 Outros estudos também apontaram a importância do uso de testes psicológicos no processo de Orientação
Profissional com vistas a aprofundar o autoconhecimento (Manfredini, Hatzenberger e Pereira, 2007; Nasci-
mento, 2007; Mello, 2002; Müller, 2004).

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122 Levenfus, Soares & Cols.

Nessa perspectiva, não se propõe mo- A ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
mentos diferentes para entrevista, para testa- CLÍNICA NA PRÁTICA
gem e para devolução.
Consideramos o diagnóstico e a avalia-
Tais aspectos serão discutidos ao ção do paciente essenciais para o planejamen-
longo das entrevistas e não são resulta- to terapêutico e para o estabelecimento da tá-
dos finais para o orientando levar consi- tica na condução do caso.
go. Os resultados dos testes, trabalhados
no decorrer do processo e integrados A fim de realizar o trabalho de orientar
a seu autoconceito, devem auxiliar o o jovem profissionalmente, é preciso pensar
orientando a compreender em que po- em
dem contribuir para sua escolha pro-
fissional. Portanto, tão logo realizado o • quem é o sujeito da escolha;
teste, seus resultados devem ser comuni- • realizar um diagnóstico quanto à sua
cados, mesmo que no meio do processo,
visando a ampliar o conhecimento que o orientabilidade;
orientando pode ter de si mesmo. Tam- • qual será o melhor manejo para o jo-
bém o conteúdo da comunicação deve
ser associado aos demais conhecimentos vem, conforme seu diagnóstico;
que já foram elaborados no processo, ou • como, quando e em que situação os
seja, a informação dos resultados deve
ser integrada aos demais aspectos con- pais participarão, ou não, do processo;
siderados para a escolha da profissão. • o quanto o terapeuta “está em dia” com
(Nascimento, 2007)
suas questões vocacionais;
Foco: Define-se como foco o material • dispor de informações sem as quais
consciente e inconsciente do paciente, delimi-
tado como área a ser trabalhada no processo qualquer trabalho dessa ordem perde
terapêutico por meio de avaliação e de plane- o valor.
jamento prévios.
O SUJEITO DA ESCOLHA
Focalizar significa que o terapeuta levará
o paciente a trabalhar emocionalmente, sobre- Entre os sujeitos que manifestamente
tudo, uma área antes determinada – no caso, buscam auxílio para escolher uma profissão
a escolha da profissão. Para atingir esse objeti- (pedem por OVO, e não por psicoterapia), na
vo, o terapeuta lançará mão, principalmente, maior parte dos casos, deparo-me com um jo-
de três recursos técnicos: vem, segundo minha experiência, em vias de
concluir o ensino médio ou tendo-o concluído
• interpretação seletiva: procura-se in- recentemente.
terpretar sempre o material do pacien-
te em relação ao conflito focal; É muito importante que em momento
algum se perca de vista todo o contexto de
• atenção seletiva: buscam-se, por meio mudanças no qual se insere um adolescente.
dela, todas as possíveis relações do Submetido a uma das maiores crises do de-
material que o paciente traz com a pro- senvolvimento humano, não surpreenderia
blemática focal; que esse sujeito encontrasse problemas para se
definir profissionalmente em meio a um turbi-
• “negligência” seletiva: levará o tera- lhão de definições ideológicas, religiosas, éticas
peuta a evitar qualquer material que, e sexuais.
mesmo sendo interessante, possa des-
viá-lo demais da meta a ser atingida. Percebe-se que a consolidação da iden-
tidade profissional é uma das últimas tarefas
da adolescência, mas a clientela que busca
OVO nem sempre está em fase adiantada de
conclusão do processo adolescente (Leven-
fus, 1997a). Vêm empurrados por uma cultura
que dita, em nosso país, que a escolha por
uma profissão deve ocorrer ao término do
ensino médio, momento que nem sempre

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Orientação Vocacional Ocupacional 123

coincide com a maturidade necessária a tal DIAGNÓSTICO DE ORIENTABILIDADE
tarefa. A identidade ocupacional não é uma
aquisição independente da formulação da Ao considerar a formação e a consoli-
identidade pessoal e submete-se às mesmas dação da identidade profissional como mais
leis e dificuldades que conduzem a essa con- uma das que compõem o todo de um sujei-
quista. to, percebe-se que nem todos os que buscam
um processo de OVO necessariamente serão
A grande questão a ser formulada (no beneficiados. A formação e a consolidação da
que estou de acordo com Bohoslavsky) não identidade profissional são parte de um pro-
deveria ser “por que este adolescente não cesso. Orientar em termos vocacionais um
consegue escolher?”, mas “por que este ado- jovem que ainda não adquiriu determinadas
lescente, em um momento tal como aquele em condições prévias e necessárias torna-se uma
que se encontra, pode, não obstante, tomar tarefa contraproducente.
uma decisão?”.
Baseamo-nos em Bohoslavsky (1982) e
Considerando que os adolescentes que em nossa experiência para enunciar alguns
atendo procuram a OVO por motivação pró- pontos os quais, acreditamos, devam ser ob-
pria, grande parte de meus estudos baseiam- servados para fins de diagnóstico:
se naqueles que por algum motivo não estão
conseguindo escolher. É notório que a maioria a) o motivo da procura por OVO. Exa-
deles encontra-se com uma surpreendente minar o motivo pelo qual o jovem nos
falta de informações acerca das profissões, procura. Observando “o que o traz
além de grandes distorções a respeito das que aqui”, podemos perceber alguns da-
mencionam. dos importantes acerca, por exemplo,
dos mecanismos de defesa utilizados
Digo “surpreendente” porque estamos frente ao momento. Alguns não têm
na Era da informação, e basta acessar a inter- ansiedade motivadora para o proces-
net para navegar em sites de universidades, so e procuram-nos “porque os amigos
guias de profissões, entre outros. Se compa- o fizeram”. Alguns não manifestam
radas com o nível e com a quantidade de in- ansiedade, que pode estar totalmente
formações que possuem acerca de assuntos projetada, por exemplo, no desejo dos
como música, carros, computadores, bares e pais. Outros se relacionam de forma
roupas da moda, percebe-se que no terreno mágica, esperando resoluções rápidas,
profissional as informações que têm são míni- fáceis e instantâneas a partir de algum
mas e superficiais. teste. Nascimento e Coimbra (2005)
alertam que nem sempre os motivos
É difícil para o adolescente entrar em são apresentados de forma evidente.
contato com as informações do mundo Às vezes, mesmo quando a procura é
profissional especialmente porque fazê- voluntária, eles podem ser difusos e
-lo representa contatar com o novo, com o inespecíficos por diversos fatores: por
desconhecido, com o mundo adulto. O ado- não identificarem suas necessidades
lescente recua diante desse momento, resiste predominantes, por não se sentirem
em obter informações, nega conhecimentos seguros para expor sua demanda, por
que já possui, prefere não saber, uma vez que, não conseguirem exprimir diretamen-
permanecendo ignorante, não escolhe, não te suas preocupações.
cresce, não deixa a vida passar.
b) fantasias de resolução. Muitas vezes,
Desse modo, é necessário abordar a já na primeira verbalização, o orien-
questão, aliviar a ansiedade, elaborar lutos, tando expõe fantasias de enfermidade
preparar o adolescente para poder buscar e e cura. Ou seja, expõe suas expecta-
aproveitar verdadeiramente (conhecer) as tivas conscientes, ou inconscientes,
informações a que ele tem acesso. Sem isso,
pode-se ministrar-lhe aulas, fornecer-lhe toda
a espécie de material informativo sem que o
conteúdo seja apreendido.

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124 Levenfus, Soares & Cols.

frente ao processo de OVO, incluindo de escolher bem se deixar de lado “as boba-
componentes transferenciais. gens” de sua adolescência e se converter, da
noite para o dia, em um “adulto sério”. Pode
Bohoslavsky ressalta que esse processo ser percebida na relação transferencial na for-
estrutura-se basicamente em torno de duas ma de comportar-se como um cliente sério,
ancoragens: uma de busca e outra de repulsa. deixando de lado suas rebeldias e sua vontade
de “fazer o que quiser”.
Busca: Para escolher e decidir, o orientan-
do pode buscar uma ou mais das seguintes c) momentos pelos quais o adolescente
situações: passa: Bohoslavsky situa três momen-
tos: seleção, escolha e decisão:
• Liberdade: Necessita libertar-se – em
seu mundo interno, em sua fantasia Seleção: O momento de seleção coloca
– dos vínculos de dependência que em jogo a função (do ego) de discriminação.
caracterizam o momento evolutivo Para obter êxito na escolha vocacional, é ne-
que vive. Um dos principais vínculos cessária a capacidade de discriminação tan-
a ser solucionado é o simbiótico. Para to de objetos internos quanto externos. Um
fim diagnóstico, é importante pesqui- fracasso nessa função conduz a projeções e
sar como o adolescente acredita que introjeções maciças os quais comprometem
alcançará sua emancipação, assume a percepção (“poder ver” e “poder se ver”).
diversas formas, como competência, Adolescentes com dificuldades de individu-
rebeldia, submissão às figuras de auto- ação manifestam, geralmente, indiferença (as
ridade que são percebidas também na carreiras, as profissões lhe parecem equiva-
forma como são transferidas ao orien- lentes e intercambiáveis) e grande confusão
tador vocacional. quanto às classificações afetivas que fazem
das carreiras e profissões. As alterações desse
• Apoio: O adolescente pode estar em momento caracterizam-se, basicamente, por
busca de apoio direto ou indireto. Na bloqueios afetivos ou, pelo contrário, por “na-
busca de apoio direto, em geral mani- moros” maníacos com uma ou outra porção
festa desejo de que o orientador diga da realidade ocupacional. Nestas situações,
qual a carreira que deve seguir. Na nas quais o adolescente ainda não conseguiu
busca de apoio indireto, pede por con- estabelecer vínculos diferenciais com os obje-
firmações: “A Sra. acha que tenho apti- tos, e nas quais se acha comprometida a função
dão para tal carreira?”, “Será a Medici- do ego capaz de estabelecer relações satisfató-
na realmente minha vocação?”. rias e estáveis com os objetos, consideraria o
adolescente como não orientável no momento,
• Permissão: “No caso de procura por priorizando a psicoterapia como forma de ad-
permissão, os adolescentes aceitarão quirir suporte para se submeter futuramente à
melhor um contrato cooperativo com o orientação vocacional.
psicólogo, pois o que esperam é uma
situação socialmente determinada, Escolha: O momento da escolha pressupõe
na qual possam reatualizar, em uma o estabelecimento de vínculos diferenciais com
síntese, as escolhas efetuadas em sua os objetos. Esse momento evoca funções do
fantasia”(Bohoslavsky, 1982). É como ego relacionadas à capacidade de estabelecer
um prolongamento de sua “moratória relações satisfatórias e relativamente estáveis
psicossocial”, conforme Erikson (1976 com os objetos. Um fracasso nesse momento
e 1987), na qual solicitam a participa- revela rupturas mais ou menos permanentes
ção de um sócio de papel permissivo nas relações objetais do sujeito e reflete-se na
- no caso, o orientador. escolha profissional, comumente, por blo-
queios afetivos ou, ao contrário, por “relações”
Repulsa: Nas fantasias de resolução basea- maníacas com uma ou outra porção da realida-
das em repulsa, o jovem sente que só pode es- de ocupacional. Estando fixado nesse momen-
colher bem se deixar de lado aspectos infantis. to, o adolescente apresentará constante ambi-
Por exemplo, pode fantasiar a possibilidade

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Orientação Vocacional Ocupacional 125

valência frente aos objetos. Para Bohoslavsky profissionais fantasiadas, luto pela adoles-
(1982) o que difere fundamentalmente uma cência, pelas identificações profissionais que
escolha ajustada de uma desajustada é o grau abandona, entre outros. Bohoslavsky (1982)
de conflito experimentado na situação. Segun- prefere utilizar o termo “resolução” no lugar
do ele, na escolha desajustada, os conflitos não de “tomada de decisão”; no tom conotativo
são elaborados e resolvidos, mas controlados de “tornar a solucionar” (resolução), que é
e negados. Nessa situação, o jovem apresenta- como, do ponto de vista dinâmico, o sujeito
se sem conflitos frente à escolha. Não toma realmente atua nessa situação. Na situação de
consciência das implicações envolvidas no decisão, o adolescente vê reativados antigos
processo. Um dado que também nos confere mecanismos postos a serviço da elaboração
importantes impressões para o tratamento da de situações de perda. É capaz de reconhecer
conflitiva vocacional está na forma como o jo- seu medo e sua tristeza e, inclusive, as altera-
vem agrupa as carreiras por meio de critérios ções de ambos os tipos de afeto. Esse reconhe-
que busca escolher, como êxito ou fracasso fácil cimento é mais próprio dos momentos finais
ou difícil, prestígio ou desprezo, entre outros, da orientação vocacional ou do adolescente
e eles também aparecem mais relacionados às que vem elaborando bem toda a problemática
fantasias do que à realidade das carreiras. As interna que compreende escolher uma pro-
características das escolhas levaram Ginzberg fissão. Ainda no momento de decisão podem
e colaboradores (1951 citado por Jersild, 1969) ocorrer oscilações, nas quais o jovem regride
a identificar três períodos distintos no processo às ansiedades ligadas ao fracasso no estudo,
de realização de escolhas: ao desejo de seguir todas as carreiras, à ne-
gação de sua capacidade de decisão. Caso
• Escolhas fantasiosas: esse período coinci- exista, nesse momento, um bom processo de
de, em geral, com o período de latência elaboração, essas defesas apresentarão ape-
do desenvolvimento (mais ou menos nas caráter momentâneo, diferenciando-se,
dos 6 aos 11 anos). em qualidade, daquelas vivenciadas inicial-
mente. No entanto, uma variedade de fato-
• Escolhas tateantes: inicia por volta dos res pode influir claramente na tomada de
11 ou 12 anos. O jovem costuma basear decisão. Para ponderá-los de forma sadia, o
as escolhas em seus interesses, começa adolescente deverá lidar com a realidade e
a prestar mais atenção às suas capaci- aprender a tolerar frustrações. Pfromm Net-
dades e a demonstrar consciência de to (1976) apresenta uma série de fatores (aqui
aspectos como os diferentes treinamen- reunidos) elaborados por Katzenstein (1955)
tos exigidos pelas diversas profissões. que conduzem o jovem a uma decisão profis-
Um pouco mais tarde, o jovem procura sional desajustada:
sintetizar muitos fatores e avaliá-los
em termos de seus valores e objetivos • quando a decisão é determinada por
que, aliás, também estão em processo um único fator (o econômico, o tradi-
de formulação. cional), desprezando-se os demais;

• Escolhas realistas: por volta dos 17 anos, • quando a decisão ocorre por mero aca-
o adolescente passa para um período de so ou dada determinada circunstância
transição: as considerações mais subjeti- da vida;
vas a que ele dava importância no pas-
sado vão sendo substituídas pelas con- • quando a decisão é prematura, ocorren-
siderações mais realistas a que ele irá do em etapas iniciais da adolescência,
atribuir maior importância no futuro. nas quais ainda não está consolidada a
identidade profissional;
Decisão: Esse momento implica a possibi-
lidade de suportar a ambivalência, de resolver • quando a escolha é feita sem conheci-
conflitos, de postergar ou graduar impulsos, de mento da profissão e de si mesmo.
tolerar frustrações, etc. Pressupõe a elaboração
de lutos, como luto pela perda das escolhas d) ansiedades predominantes: A fim de
elaborar o diagnóstico vocacional, se-

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126 Levenfus, Soares & Cols.

gundo Bohoslavsky – talvez mais do do à entrevista sem saber para que veio, por
que o tipo de ansiedade, o interesse, o que e que interesse tem nisso. A ansiedade é
objeto ao qual se liga, a persistência ou confusional, baixa, e a conduta manifesta é de
a mobilidade e o tipo de mecanismos extrema dependência.
defensivos que desencadeia – deve-se
observar esses aspectos dentro da clas- Dilemática: Um pouco mais evoluída que
sificação dos tipos de ansiedade (con- a anterior, a situação dilemática revela um jo-
fusional, persecutória e depressiva): vem que percebe que existe algo importante
que acontece a seu redor. Ele também percebe
Uma intensa ansiedade do tipo confusio- que enfrenta uma dúvida. Pode demonstrar
nal atrapalha na capacidade discriminatória, es- sentimentos de urgência – com ansiedade ca-
sencial para a escolha profissional. Uma intensa racterística – expressos, por exemplo, no medo
ansiedade persecutória pode abalar os limites de que “nunca deixará de ser adolescente se
do ego, irrompendo uma ansiedade confusio- não escolher alguma coisa”. Apresenta fanta-
nal que se manifesta nas entrevistas de OVO sias claustrofóbicas e agorafóbicas, temendo
como um modo peculiar de defesa. Ansiedades ficar preso entre os polos “ou-ou” do dilema.
depressivas fora de modulação podem atrapa-
lhar significativamente a elaboração de lutos Na situação dilemática, há dificuldade
pertinentes ao momento de uma escolha. de discriminação entre carreira-matéria-cur-
sos-profissão, o que torna muito difícil que o
Lebovich de Duarte, citado por Bohosla- adolescente consiga efetuar uma boa seleção,
vsky, baseando-se no objeto implicado nos vín- necessária para uma decisão adequada.
culos persecutório, depressivo ou confusional,
propõe a seguinte classificação de “fantasias e O adolescente apresenta como defesas
temores”, segundo suas manifestações clínicas principais a dissociação, a identificação proje-
referentes: tiva maciça e a negação; tem tendências a re-
cair em situação predilemática especialmente
• à autoimagem (impotência, dependên- quando nega a situação dilemática: “Não tenho
cia, onipotência, etc.); problema nenhum, os outros que se virem”.
Bohoslavsky sustenta a hipótese, do ponto de
• ao futuro (medo do fracasso, da rivali- vista dinâmico, de que os processos de disso-
dade, da inveja, da negligência profis- ciação são intensos e de que a confusão aparen-
sional, etc.); te é uma defesa a mais para manter dissociado
o objeto ambivalente original.
• à vida universitária (sentir-se supere-
xigido, medo do trote, ansiedades de Problemática: Nesse nível, o jovem de-
reparação); monstra uma real preocupação. As ansiedades
se apresentam moderadas, do tipo persecu-
• ao ensino médio (desvalorização, di- tória ou depressiva (ou oscilando entre elas).
ficuldades para discriminar matéria- Os conflitos são bivalentes, ou seja, há mais
faculdade, matéria-professor, matéria- discriminação, embora não apresente, ainda,
profissão). integração. Apresenta posições dicotômicas:
“Quero isso para me realizar, aquilo para ga-
e) situações que o adolescente vivencia: nhar dinheiro”; “Tenho habilidade para tal coi-
Na resolução do conflito vocacional, sa, mas isso não me interessa”; “Sei do que eu
os adolescentes passam por quatro gosto, mas não sei o que vou fazer”.
situações: predilemática, dilemática,
problemática e resolução. É importan- As defesas principais são a projeção, a
te para o diagnóstico vocacional iden- negação e, às vezes, o isolamento, quando um
tificar em que situação, predominante- dos termos do conflito é o afeto: “As coisas
mente, o adolescente se encontra. de que eu gosto são as que me preocupam”.
Então, os sentimentos são isolados, e o ado-
Predilemática: Nessa situação, o jovem lescente já não se sente tão preocupado: “Vou
não percebe que deve realizar uma escolha. escolher com a razão, sem me preocupar, por-
Apresenta muita imaturidade, sendo trazi- que no mundo de hoje não dá para ficar esco-
lhendo aquilo de que se gosta”.

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Orientação Vocacional Ocupacional 127

Esse nível de defesa já é diferente da ne- ao silêncio do terapeuta, submetendo o terapeuta
gação apresentada na situação predilamática, a seu silêncio (sic). Lembra-se também de ter
na qual não se sabe do que se gosta ou não se ouvido de uma tia que “deve ser chato ser psi-
gosta, tampouco do que pode ou não fazer. cólogo porque esse profissional deve ficar se
relacionando com todos como se estivesse cli-
Na situação problemática, o grau de nicando”. Esse comentário atraiu ainda mais a
conflito já determina uma dinâmica tal, que o atenção do rapaz, que confirmou sua hipótese
torna possivelmente capaz de superá-lo, inte- de que o psicólogo pode realmente proteger-se do
grando seus termos em uma síntese superior. contato íntimo. Ao tomar consciência de seus
Revela-se como um indivíduo egoicamente propósitos quanto a essa escolha e ao obter
“disponível” para ver, pensar e agir no que a informação de que não é esse o objetivo do
diz respeito a seu mundo futuro. profissional da psicologia, pois também se
analisa a fim de conhecer e solucionar proble-
Resolução: Nessa situação, o objeto já está mas pessoais, mostrou-se bastante surpreso
mais integrado. Busca-se encontrar uma solu- e imediatamente afirmou que, dessa forma,
ção para o problema, tendo já experenciado perdia seu interesse por essa profissão.
solucionar problemas anteriores. Esses pro-
blemas implicavam escolhas e, assim, a ela- ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
boração de lutos. Dessa forma, objetos podem OCUPACIONAL VERSUS PSICOTERAPIA
ser abandonados e separados de projetos em
um nível de conflito suportável. O jovem rea- O adolescente que busca orientação
tiva antigos mecanismos postos a serviço da nem sempre está disposto a descobrir as ba-
elaboração de situações de perda. Reconhece ses neuróticas de sua escolha submetendo-
seu medo e suas tristezas. se à psicoterapia, mesmo porque o processo
psicoterápico tradicional talvez não auxilie
f) carreiras como objeto: Esse item suficientemente esse adolescente se conside-
diagnóstico diz respeito à relação que o jovem rarmos os instrumentos que utiliza e a meta a
estabelece entre a escolha e o objeto. Consiste que se propõe.
em analisar as carreiras como objetos do com-
portamento do adolescente. Eles podem ca- A OVO permite o uso de técnicas am-
racterizar-se como objetos que acompanham, plamente informativas, uma atividade mais
protegem, perseguem, destroem, reparam, interna por parte do terapeuta, maior concen-
retêm, etc., independentemente do que a car- tração da tarefa no foco da questão vocacio-
reira ou a profissão seja “na realidade”. nal. Além disso, às vezes ocorre em um curto
espaço de tempo, mas apresenta também suas
O orientador deve observar como o ado- limitações. Ela esbarra justamente na situação
lescente associa as carreiras às situações de em que o adolescente apresenta impedimento
êxito ou fracasso, facilidade ou dificuldade, emocional para realizar uma escolha, necessi-
prestígio ou desprestígio, etc. tando, muitas vezes, submeter-se à psicotera-
pia, que permite resolver a questão desde que
Carreira como objeto que protege, por o adolescente (e isso me parece sumamente
exemplo, foi citado por Sérgio, 16 anos, ao importante frisar) esteja bem diagnosticado
cogitar o curso de Psicologia. Tendo sofrido quanto à sua orientabilidade.
abuso sexual na infância e sendo muito teme-
roso de seus desejos homossexuais latentes, O desenvolvimento vocacional é, como
referia a profissão de psicólogo como algo que diz Jersild (1969), um processo complexo afe-
pudesse colocá-lo em uma posição defensiva. tado por muitos fatores, alguns internos ao
Recorda, com raiva, de um psicoterapeuta que indivíduo e outros ambientais. Há fatores que
o atendeu durante um ano e meio, referindo- podem ser antecipados, outros não. O jovem
se a ele como “veado e incompetente”, porque pode ter plena consciência de alguns desses
não falava nada, deixando-o desesperar-se fatores, ter um conhecimento um pouco vago
com seu silêncio. Sérgio diz ter permanecido de outros e desconhecer totalmente muitos
em tratamento, pois sentia-se obrigado pelo deles. Estará em condições de tomar decisões
pai (nova referência a abuso e à submissão),
mas passou a permanecer em silêncio do iní-
cio ao término das sessões para não submeter-se

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128 Levenfus, Soares & Cols.

vocacionais mais adequadas aquele adoles- guidamente funciona como “uma porta de
cente que tiver um amplo conhecimento de si entrada para a psicoterapia”. Esses artigos
mesmo e do ambiente. A finalidade da orien- também relatam que questões psicológicas
tação que se presta ao jovem é justamente outras têm sido levadas pelo orientando na
ajudá-lo a obter esses conhecimentos. OVO, assim como temas vocacionais surgem
em psicoterapias em geral (Nascimento e
Em minha prática, é muito comum re- Coimbra, 2005a, 2005b; Mello, 2002; Oliveira
ceber telefonemas de pais interessados em et al., 2007; Campos, 2007; Santos et al., 2007;
marcar horário para que seu filho passe pelo Grando Filho et al., 2007).
processo de OVO. Em seguida, me comuni-
cam que há muito tempo desejavam que o Para todos os efeitos, agrupei as situa-
filho consultasse com psicólogo em vista de ções mais típicas da seguinte forma:
outros problemas e que foi a partir da ideia
de realizar uma OVO que conseguiram con- 1. O jovem busca auxílio para escolher uma
vencê-lo. Comunicam-me, assim, que gosta- profissão, nessa busca:
riam, se possível, que eu “tentasse atrair seu a) resolve sua problemática vocacional e
filho para uma psicoterapia”.4 Por outro lado, finaliza o processo;
muitos dos jovens que atendo comparecem à b) resolve sua problemática vocacional e
OVO com uma nítida demanda para psicote- faz outras problemáticas;
rapia. “Aproveitam” a oportunidade de estar c) não consegue resolver sua problemá-
frente a um psicoterapeuta para pedir ajuda tica vocacional, e a questão é redimen-
na resolução de outros problemas que lhes sionada.
parecem mais emergentes naquele momento;
confessam dificuldade de pedir aos pais para 2. O jovem busca OVO muito motivado (cons-
frequentar uma psicoterapia ou, tendo feito ciente ou inconscientemente) a tratar espe-
essa solicitação, tiveram o pedido negado. cialmente de outros problemas de ordem
Com isso, devemos estar atentos a um pedi- emocional.
do de se submeter a uma OVO, pois “fazer
um teste vocacional” tornou-se uma comu- 3. Os pais procuram o terapeuta para fazer
nicação, de certa forma, aceita entre pais e OVO com seu filho, tendo a expectativa de
filhos adolescentes. Ainda sob outro ângulo, que ele siga em psicoterapia.
percebo, muitas vezes, o quanto um paciente
em psicoterapia acaba por apontar questões 4. O jovem busca uma psicoterapia para tratar
vocacionais que nem sempre estão ao alcan- de diversos aspectos, sendo a problemática
ce de serem resolvidas pelo terapeuta.5 Essa vocacional um deles.
questão que abordei em 1997 tem aparecido
em diversos artigos científicos que apontam Em relação às situações anteriores, é pos-
claramente que a Orientação Vocacional se- sível inferir o seguinte:

1a. É perfeitamente possível resolver uma
problemática vocacional durante um pro-

4 Nascimento e Coimbra (2005b) afirmam que em situações nas quais o cliente foi convencido por familiares
a buscar orientação vocacional, tendo como segunda intenção sua permanência em psicoterapia, o cliente
poderá não pretender mais do que atestar sua disposição a colaborar com os aspectos significativos ou sim-
plesmente agradar os familiares. Objetivamente, pode mesmo não haver nenhum motivo que justifique a
intervenção junto a esse indivíduo, sendo que o pedido pode provavelmente sinalizar mais problemas sistê-
micos ou mesmo inseguranças pessoais das figuras significativas do que indicar propriamente problemas e
dificuldades reais do cliente.

5 Faço esta referência dirigida a algumas questões específicas que resumo aqui basicamente quanto à questão
da informação. Seguidamente o paciente refere distorções nas informações que possui, e muitas vezes não
interessa a essa técnica averiguar essas informações, e sim o significado que essa referência tem em outro
contexto que está sendo tratado. Além disso, caso interessasse tratar desse conteúdo de forma manifesta,
encontraríamos outras barreiras como o fato de que nem sempre o terapeuta percebe a distorção por falta de
informações ocupacionais, não estando também instrumentado a informar. Nascimento e Coimbra (2005a)
também apontam que o reduzido interesse que os profissionais da psicologia revelam pelo comportamento
vocacional dos indivíduos pode levá-los a negligenciar a avaliação e a intervenção em problemas vocacionais
nos casos em que estes surgem concomitantemente a problemas pessoais.

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Orientação Vocacional Ocupacional 129

cesso de OVO e encerrar oportunamente algum conflito emocional está interferindo
esse atendimento. na escolha profissional. Tranquilizo-os que,
1b. É provável que surjam outras problemáti- se houver necessidade de tratamento psico-
cas a serem solucionadas. Ampliar o foco terápico comunicarei ao adolescente (como
implica um novo contrato. sempre faço). Nessa situação, trabalho junto
1c. Mesmo estando muito motivado a resolver ao adolescente o significado que tem para
a problemática vocacional, nem sempre o ele mesmo e para sua relação com os pais o
sujeito estará preparado para tal. Conclui- processo psicoterápico. É evidente que isso
se isso através do diagnóstico de orienta- tudo não garante que um jovem com pro-
bilidade, dimensionando o prognóstico e blemas ingresse em um tratamento, e isso
dando o encaminhamento necessário. deve ser esclarecido junto aos pais.

Creio ser oportuno salientar o quanto 4. Por fim, irei me referir ao jovem que, em
percebo o trabalho em OVO como um espaço meio a um processo psicoterápico, solici-
profissional privilegiado em termos de profi- ta ser orientado profissionalmente. Essa é
laxia em saúde mental, algo que me encanta uma questão delicada. Esse pedido pode
e que considero pessoalmente realizador. Te- estar a serviço de uma resistência, mas pode
mos acesso a uma população em crise, poden- ser algo de que ele realmente necessita – ou
do estar disponíveis a atender muita gente em ambas as possibilidades. Cabe ao terapeu-
vista do caráter breve e coletivo em que pode ta distinguir uma situação de outra, bem
se realizar a OVO. É possível diagnosticar e como a prioridade a ser abordada.
encaminhar o jovem e seus familiares a re-
solver situações em tempo hábil. Prevenimos Existe uma grande demanda em análise
também um futuro desacerto vocacional. e em psicoterapias acerca da insatisfação no
trabalho, das desadaptações e de questiona-
2. Quando o jovem busca OVO muito motiva- mentos vocacionais. Aquele que trabalha com
do a tratar especialmente de outros proble- adolescentes finais, adultos jovens, em espe-
mas de ordem emocional, trabalho no senti- cial, estará seguidamente frente a problemas
do de tornar consciente esse desejo. Ajudo o de ordem vocacional.
jovem a fazer o contato que necessita esta-
belecer com a família para que tenha apoio Percebo, como afirma Lidz (1983), que
moral e acesso a esse atendimento. Às vezes, estamos bem mais informados sobre questões
intervenho junto aos pais a pedido do ado- sexuais e escolha de parceiro conjugal do que
lescente. Quando percebo alguma gravida- sobre questões vocacionais e escolha profissio-
de no caso, solicito, eu mesma, o compareci- nal, apesar de esse tema estar fortemente inse-
mento dos pais. É comum também que pais rido no cotidiano do ser humano e participar
me solicitem a esclarecê-los a respeito do enormemente de suas questões conflitivas.
encaminhamento que dou aos filhos. Essas
situações são combinadas previamente com Quando, por exemplo, uma adolescente
o adolescente que, seguidamente, participa em psicoterapia diz que iniciou o uso de con-
da entrevista junto com os pais. traceptivos e o terapeuta percebe que o faz
de forma inadequada, certamente não ficará
3. Quando o pedido por OVO é feito pelos restrito a interpretar as motivações incons-
pais, “em acordo com o filho”, com a inten- cientes que a levam a fazer uso inadequado
ção de fazer com que ele ingresse em psico- do contraceptivo. Trata-se de adolescentes,
terapia, invariavelmente converso com es- e isso nos diz muito. Além de interpretar as
ses pais, ouço suas preocupações e trabalho motivações inconscientes, o terapeuta talvez
a forma como tentaram ou não comunicá- verifique a procedência da informação que
las ao filho. Esclareço os objetivos da OVO a adolescente obteve e venha a corrigi-la ou
e falo a respeito de uma avaliação psico- encaminhá-la para tal. Trata-se de prevenir
diagnóstica, pois necessitamos entender se situações que comprometam o ego da pa-
ciente, tal como uma gravidez indesejada na
adolescência.

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130 Levenfus, Soares & Cols.

Com relação à questão vocacional deve- rece intervenções amplamente informativas,
ria acontecer o mesmo: o adolescente comenta colocando em risco a relação transferencial,
que vai fazer “Arquitetura, pois sempre gos- o terapeuta pode encaminhar o adolescente
tou de desenhar”, ou que vai cursar “Ciências para que, em paralelo à psicoterapia, resolva
da Computação porque sempre gostou de ma- as questões vocacionais. Assim como psicote-
nusear pequenos programas”, ou que preten- rapeuta ou psicanalista podem encaminhar,
de cursar “Odontologia, já que tem um bom circunstancialmente, a tratamentos auxiliares
mercado de trabalho”. Pode ser que ele esteja (reeducadores especiais, fisioterapeutas, fo-
muito enganado quanto à sua percepção ou noaudiólogos e outros que se fizerem necessá-
quanto às informações que recebeu. Muitos rios face ao objetivo de alcançar a adaptação
terapeutas não intervêm nessa situação com do adolescente à vida), com maiores possibi-
a mesma expressão que o fariam na situação lidades de crescimento para a idade adulta,
sexual de risco. Por quê? Não é uma situação podem recorrer à OVO como atendimento
de risco? Fico pensando sobre o alto índice de que siga paralelo à análise. Da mesma forma,
evasão das universidades brasileiras (por vol- aconselhamos aos orientadores educacionais
ta de 40% no primeiro ano de curso, conforme que encaminhem seus alunos para psicotera-
dados continuamente apresentados desde o II pia quando identificarem que eles apresentam
Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional limites para a resolução de alguns casos ape-
e Ocupacional, 1995). nas com a Orientação Profissional.

Acredito que frequentemente o psico- Por isso, temos tentado esclarecer um
terapeuta deixa de intervir nessas situações, pouco acerca da OVO, para que os profis-
mais por falta de informação do que por limi- sionais que atendem adolescentes saibam da
tações da técnica. Quando a técnica não favo- existência desse recurso.

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IV

ORIENTAÇÃO EM SITUAÇÕES ESPECÍFICAS

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10

O temor da escolha errada
em filhos de pais separados

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

É na adolescência, fase em que as relações como positiva ou negativa – frente à questão
com a família podem estar mais conturbadas, da escolha profissional.
que ocorre a decisão por uma carreira profis-
sional. Esse evento, embora não determinante Para tanto, foram reunidos em um grupo
isolado do sucesso ou insucesso profissional, de Orientação Vocacional apenas jovens filhos
é, sem dúvida, um importante fator nesse sen- de pais separados.1 É importante ressaltar que
tido e na estruturação do próprio indivíduo todos eles se inscreveram para participar da
(Andrade, 1997). Orientação Vocacional por demandas próprias
e não sabiam, no início das tarefas, que esta-
Soares-Lucchiari (1997b) observa que a vam em um grupo homogêneo (filhos de pais
dificuldade de escolher uma profissão está, se- separados). A primeira reunião coletiva foi
guidamente, relacionada a situações conflituo- gravada e posteriormente transcrita e estuda-
sas latentes ou manifestas nas relações familia- da na forma de Análise de Conteúdo (Bardin,
res. Andrade (1997) supõe que uma existência 1991). Dessa forma, salientamos que não esta-
rica, com a incorporação de valores familiares mos falando em qualquer jovem filho de pais
associados à realização e à autoconfiança, pa- separados frente ao momento da escolha pro-
rece indicar segurança e otimismo no projeto fissional, e sim especificamente daqueles que
de carreira. buscaram ajuda por não estarem conseguindo
solucionar suas demandas vocacionais.
Diversas pesquisas têm se ocupado em
estudar a repercussão da separação dos pais O conteúdo da conversação exposta por
sobre o psiquismo dos filhos. Esse tema tem esse grupo se assemelha e, ao mesmo tempo,
suscitado muita polêmica, inclusive na área difere-se em vários aspectos do conteúdo das
científica, como veremos a seguir. questões discutidas em outros grupos pesqui-
sados.2
No entanto, será que a separação dos
pais repercute de alguma forma sobre o ado- Em primeiro lugar, serão abordados
lescente no momento da escolha profissional? alguns tópicos relativos à questão geral da
Buscamos, com essa pergunta, simplesmente repercussão da separação dos pais sobre o
pesquisar se a questão familiar confere aos jo- psiquismo dos filhos, para mais adiante ser
vens alguma forma característica ou alguma focalizada essa questão em torno do momento
demanda específica – sem querer avaliá-la da escolha profissional.

1 Parte da pesquisa de mestrado de Levenfus (2001).

2 Foram pesquisados, além do grupo com filhos de pais separados, outros três grupos: jovens que perderam
(por morte) um dos pais; jovens com difícil desencadeamento do segundo processo de separação-indivi-
duação (Mahler, 1982; 1993); jovens que não apresentam nenhuma das nuances levantadas nos grupos
anteriores.

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136 Levenfus, Soares & Cols.

A separação para os filhos é uma ça que acaba de tomar conhecimento de que
passagem de vida da maior importân- o pai ou a mãe está com câncer, ou de que o
cia. Muita coisa muda, a rearrumação avô ou a avó acaba de falecer. A mesma rea-
é extensa: há a perda do convívio com ção pode sobrevir caso ela ouça dizer que a
pai e mãe na mesma casa, a possibilida- situação do pai piorou e que talvez ele fique
de de perda do convívio cotidiano com desempregado. A autora conclui que não se
irmãos, a modificação de hábitos e roti- trata de um comportamento característico da
nas, a modificação do padrão de vida. situação de separação dos pais: é um compor-
(Maldonado, 1991, p.134) tamento que testemunha sempre um abalo
profundo. Dessa forma, entende-se ser trau-
A SEPARAÇÃO DOS PAIS mática a situação da separação.

As crianças percebem com clareza o cli- A ADAPTAÇÃO
ma pesado de tensão das etapas finais de um
casamento, mesmo que os pais não briguem Estudo realizado com adolescentes, fi-
na frente dos filhos. lhos de pais divorciados, demonstrou que,
transcorridos cinco anos após o divórcio, es-
Mesmo quando as crises conjugais sérias ses adolescentes pareciam estar adaptados em
não são abertamente discutidas, as crianças termos escolares, no melhor relacionamento e
mais sensíveis apresentam sintomas e altera- no humor (Buchanam et al., 1996). Já Carter
ções de conduta, funcionando como caixa de e McGoldrick (1995) apoiam a ideia de que
ressonância dos conflitos do casal. um mínimo de dois anos e um grande esforço
após o divórcio são necessários para que uma
Algumas crianças se isolam, passam horas família se reajuste à sua nova estrutura.
no quarto, quase não falam; outras aumentam
a solicitação de atenção ou adoecem. É impor- Embora os autores antes mencionados
tante que a criança tenha uma noção de conti- apontem para uma diminuição dos sintomas
nuidade de vínculos afetivos e possa dispor de desencadeados pela separação com o passar
pessoas que a apoiem com sensação de estabili- do tempo, Wallerstein (2000) é enfática em
dade e segurança em um momento da vida tão afirmar, com base em sua mais recente pes-
cheio de perdas e impactos (Maldonado, 1991; quisa com 131 filhos de casais divorciados,
Riera, 1998; Wallerstein e Kelly, 1998). ao longo de 25 anos, que relatos de muito
sofrimento são comuns a todos os casos.
Há crianças e adolescentes que precisam Muitos se consideravam sobreviventes de
de mais tempo do que outros para assimilar a um cataclismo de proporções cósmicas. A
separação, o que implica, muitas vezes, mo- criança, em sua vida pós-divórcio, se sente
dificações de conduta, especialmente na baixa abandonada e marginalizada. A pesquisado-
do rendimento escolar. “Não é raro o aumento ra considera que a separação dos pais é uma
de sintomas como dor de cabeça, febre, diar- marca, um estigma, que as crianças carrega-
reia, vômitos, perda ou excesso de apetite” rão para toda a vida. A maioria dos filhos do
(Maldonado, 1991, p.135). Para a autora, esses divórcio atribui à separação dos pais parte
sintomas, por vezes, podem ser reveladores de seus insucessos nos relacionamentos. A
das reações de angústia no período inicial imagem negativa do casamento leva muitos
da adaptação após a separação. As modifica- a fazer más escolhas de parceiros ou a fugir
ções de conduta comuns nesse período são: de compromissos. Observa também que se
grudar-se na mãe com medo de que ela vá trata de um mito imaginar que a separação é
embora; dormir muito mais do que o habitual uma crise temporária, cujos efeitos são mais
a fim de negar os problemas; apresentar difi- danosos na hora da separação. Trata-se de
culdades de adaptação na escola. Os sintomas uma crise de longo prazo e, em alguns casos,
tendem a atenuar-se ou a desaparecer quando interminável.
um novo equilíbrio é alcançado na nova situ-
ação de vida. Diferentemente do que pensa Wallerstein
(2000), Maldonado (1991) acredita que
Dolto (1988) observa que esses mesmos
sintomas podem ser apresentados pela crian-

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Orientação Vocacional Ocupacional 137

Ter pais separados não significa Magagnin e colaboradores (1997), pes-
ficar emocionalmente perturbado pelo quisando a possibilidade de alterações no
resto da vida. A maioria dos problemas autoconceito do adolescente de ambos os se-
dos filhos não tem início com a separa- xos frente ao sistema familiar intacto e não in-
ção, mas são fruto das dificuldades do tacto, à adaptação escolar, ao relacionamento
vínculo pais-filhos, em parte devido à com iguais e ao comportamento destrutivo em
própria história da pessoa com seus pais áreas urbanas de alto risco de desastres perce-
e devido aos reflexos da vida conjugal in- beram que existe uma satisfação familiar que
satisfatória. (p.142) corrobora uma boa relação com os pais, sendo
que a segurança pessoal tende a ser reforçada
Essa autora observa que a adaptação à quando os pais vivem juntos.
separação é mais prolongada quando os filhos
têm uma relação boa e agradável com ambos Em famílias cujos pais vivem juntos, se-
os pais. Nesses casos, a perda da convivência gundo esses autores, o adolescente apresenta:
diária com eles é mais difícil de aceitar.
• alto índice de autocontrole;
Quando o relacionamento é cheio de atri- • alto índice de segurança pessoal;
tos, conflitos e tensões, e o filho é excessivamen- • uma tendência de alto índice de self-
te cobrado, exigido, perseguido ou relegado a
segundo plano, a perda da convivência diária moral;
pode vir a ser um grande alívio. “Isso, eviden- • índice de self-somático baixo e médio-
temente, não quer dizer que não haja dor nem
perda: ninguém se separa sem dor, e é impos- -baixo;
sível que os filhos passem por esse período a • índice de autoconceito elevado.
salvo, inteiramente resguardados dos aconteci-
mentos” (Maldonado, 1991, p.138). Em famílias cujos pais vivem separados,
o adolescente apresenta:
Como em outras fases do ciclo de vida,
em que as questões emocionais não resolvidas • prejuízo da segurança pessoal;
permanecerão obstaculizando relacionamen- • baixo autocontrole;
tos futuros, as tarefas emocionais devem ser • baixo rendimento escolar;
completadas pelos membros da família que se • mais frequência no uso de drogas;
separa. Isso inclui elaborar luto pelo que foi • médio índice de self-moral;
perdido e manejar sentimentos como mágoa, • índice de autoconceito baixo ou médio-
raiva, culpa, vergonha. As famílias que não
conseguirem resolver adequadamente essas -baixo.
questões podem permanecer emocionalmente
paralisadas por anos ou por gerações (Carter Sendo a adolescência um período crí-
e McGoldrick, 1995). tico, com características próprias, sujeito
a crises de identidade relacionadas com as
AUTOCONCEITO influências socioculturais, quanto melhor
sucedidas forem as experiências e as vivên-
Nem todas as pesquisas são unânimes cias do adolescente, mais positivo parece
em afirmar que os adolescentes de famílias ser o conjunto de percepções a respeito de si
intactas possuem um autoconceito mais mesmo. “O autoconceito do adolescente se
elevado do que os das famílias cujos pais torna significativo para o desenvolvimento
estão separados. Porém, a pesquisa de Ma- adequado ao longo das etapas que ele per-
gagnin e colaboradores (1997) verificou que corre no ciclo vital familiar” (Magagnin et
os adolescentes com autoconceito elevado al., 1997, p.15).
são filhos de pais que vivem juntos. Nessas
mesmas variáveis, os filhos de pais separa- Na adolescência, as áreas do desenvolvi-
dos apresentam um autoconceito baixo ou mento, como aspirações profissionais, valores
médio-baixo. do papel sexual, autoconceito, sentimentos de
competência e realização, podem ser influen-
ciadas pela ruptura familiar (Barber e Eccles,
1992, citados por Magagnin et al., 1997). Esses

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138 Levenfus, Soares & Cols.

mesmos autores destacam que famílias sem o para fins de análise de conteúdo), esses orien-
pai são consideradas incompletas e contribuem tandos fizeram diversas referências concretas
para autoestima baixa, delinquência, abandono. dirigidas a informar sobre o recasamento dos
pais, os irmãos oriundos de outro casamento e
Em sua pesquisa, Andrade (1997) obser- a observação de outros casos de separação na
vou que uma família bem-estruturada, na qual família. Enfocam sua relação com os pais, osci-
o indivíduo recebeu uma carga adequada de lando entre afirmar bom relacionamento com
energia grupal e pôde desenvolver-se harmo- eles e afirmar que desconhecem o pai por sua
niosamente dentro de uma dinâmica grupal total ausência.
saudável, na qual o indivíduo pôde amadu-
recer sendo respeitado como tal e respeitan- Apontam as mágoas vividas em função
do os demais, na qual os limites de cada um da separação e o sentimento de que antes era
foram observados e os potenciais individuais melhor. Essa tônica confere ao tema da esco-
adequadamente otimizados e promovidos, lha profissional algumas singularidades des-
gerará, certamente, indivíduos mais seguros critas a partir de agora.
e altivos, capazes de estabelecer com a vida
profissional uma relação construtiva e praze- Negação e idealização
rosa. Por outro lado, uma família na qual o in-
divíduo se desenvolveu de forma deficitária No grupo formado somente por filhos
ou destrutiva gerará sujeitos inseguros e limi- de pais separados, se comparado aos demais
tados em seus potenciais ocupacionais. grupos pesquisados, é o que mais nomeia as
profissões de que gosta e o que menos aponta
Vários estudos concluem que a desejos ocupacionais da infância, apresentan-
separação dos pais denota um impac- do um alto engajamento na tarefa da escolha
to negativo no autoconceito dos filhos, futura sem muito resgate de lembranças das
uma vez que a percepção dos conflitos escolhas infantis.
familiares e/ou a infelicidade do ca-
sal aumenta as dificuldades ao ajusta- Isso remete à questão da elaboração dos
mento social e pessoal do adolescente. lutos pelas escolhas infantis. Escolher impli-
(Magagnin et al., 1997, p. 15) ca a perda dos outros objetos que serão dei-
xados. À medida que a decisão profissional
Andolfi e Angelo (1989) e Magagnin e vai se integrando à história do adolescente,
colaboradores (1997) enfatizam que a família a elaboração do luto fica facilitada. É comum
intacta cria um autoconceito mais positivo, que o adolescente expresse sentimentos como
principalmente nos aspectos que dizem respei- tristeza, solidão, ambivalência e culpa no pro-
to ao relacionamento afetivo, às aquisições es- cesso de elaboração. Observa-se também com
colares, às amizades e à autonomia. Portanto, o frequência, que nesse processo o adolescente
grupo familiar assegura uma coesão interna e recorda e recupera acontecimentos antigos,
uma proteção externa, propiciando um sistema projetos abandonados, lembranças passadas,
de atividades que possui um valor normativo integrando-os e vinculando-os a decisões
para a organização dos instintos e das emoções atuais (Bohoslavsky, 1982; Neiva, 1995; Le-
dos indivíduos, ajudando o adolescente a dis- venfus, 1997a). O fato de quase nada disso
criminar o real do imaginário. ocorrer no grupo formado somente por filhos
de pais separados faz pensar que esses jo-
ASPECTOS REFERIDOS POR FILHOS vens, oriundos de casamentos desfeitos, po-
DE PAIS SEPARADOS QUE BUSCARAM dem apresentar dificuldades na elaboração
ORIENTAÇÃO PARA ESCOLHA DA de lutos, preferindo negar o passado.
PROFISSÃO
A dificuldade em lidar com a perda en-
Durante o primeiro encontro de Orien- contra respaldo também no fato de que, além
tação Vocacional (que foi gravado e transcrito de esse grupo não ter feito formulações nega-
tivas acerca das profissões, esses jovens ten-
dem a se manifestar apenas de forma extre-
mamente positiva (negando), idealizando as

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Orientação Vocacional Ocupacional 139

profissões, percebendo apenas suas boas qua- servá-lo, pois se deparar com todos os seus
lidades e desprezando a percepção das partes aspectos pode levá-lo à desvalorização com-
que desvalorizam. Tal fato, acrescido da forma pleta, ao abandono e ao sentimento de que
como os filhos revelam que os pais lidam com nada resta, como ocorreu na categoria em que
o trauma da separação, dando regalias, parece referiram o pai.3 É como se estivessem se de-
reforçar a tendência a negar a perda e a lidar fendendo do trabalho de luto que ocorre no
de forma maníaca com ela: processo de desidealização frente às carreiras
(Levenfus, 1997a; 1997b).
Depois da separação os pais ficam dando
algumas regalias para que aqueles problemas COMPORTAMENTO EVITATIVO
fiquem escondidos; para que você esqueça que FRENTE À TOMADA DE DECISÃO
aquilo foi traumático.
Uma das maiores ansiedades que acome-
De fato, em recente entrevista dada à re- te os filhos de pais separados pesquisados no
vista de divulgação, Wallerstein (2000) afirma momento da escolha profissional diz respeito
estar provado que filhos de casais separados à tomada de decisão. Apresentam um compor-
sofrem mais de depressão e apresentam mais tamento evitativo referindo não estarem pre-
dificuldade de aprendizado do que os prove- parados ainda, sendo cedo para fazê-lo. Isso se
nientes de famílias intactas, embora alguns contradiz com seus constantes apontamentos
pesquisadores (Wagner, Falcke e Meza, 1997) a respeito das profissões que lhes interessam.
apontem que as consequências nos filhos di- Foi o grupo que mais nomeou as profissões de
minuem à medida que o divórcio se torna mais seu interesse atual com alto engajamento na
comum e aceitável. Wallerstein (2000) assere tarefa da escolha futura e o que mais refere an-
que é uma bobagem imaginar que só porque siedade relacionada ao temor de escolher erra-
há vários colegas do filho de pais separados do. Tal fato leva a lembrar Bohoslavsky (1982),
passando pelo mesmo sofrimento isso reduza a respeito de um comportamento tipicamente
o dele. Segundo ela, esse fato não o faz sentir- fóbico que, nessa situação, leva o sujeito a re-
se melhor; a experiência do divórcio é doloro- correr a velhos e conhecidos padrões, mesmo
sa e irreparável para qualquer um. quando manifestam conscientemente o desejo
de resolução. É claro que devemos manter em
A forma com que os jovens pesquisados pauta as questões reais e já estudadas a res-
perceberam apenas positivamente o mundo peito do quanto é cedo para resolver a proble-
ocupacional aponta para uma tendência a se mática vocacional no momento do término do
relacionar de forma dissociada com o objeto. ensino médio, mas esse tipo de conteúdo foi
Não estando preparados para defrontar-se referido apenas no grupo de jovens com pais
com ansiedades depressivas, alguns jovens separados. É possível que esse grupo possa es-
tendem a mantê-lo idealizado a fim de con-

3 O tema Pai foi categorizado apenas pelo grupo formado por filhos de pais separados.
cheio de problemas: “O pai é cheio de problemas, sabe, ele tem coisas de depressão; às vezes ele começa a gritar;
entrar em crise.”.
bebe: “Ele bebe muito; agora ele bebe fundo.”.
sempre desempregado: “Meu pai está sempre desempregado.”.
não ganha muito: “Ele não ganha muito, quando arruma um emprego ele mal se sustenta.”.
nunca deu nada: “Meu pai nunca pagou nada.”.
joga: “O dinheiro na mão do meu pai não para; o dia em que ela (mãe) saía do serviço com dinheiro ele gas-
tava tudo antes de chegar em casa.”.
se atira nas cordas: “Meu pai se atira um pouco nas cordas; ele disse que se a minha mãe não tivesse emprego
fixo aí ele ia se preocupar mesmo.”.
mentiroso: “Ele disse que não ia deixar faltar nada.”.
não assumiu a gravidez; não dá notícias; tem pouca escolaridade.
contribui com alguma coisa: “Contribui com alguma coisa, muito pouco, mas contribui.”.
adora o que faz; se mata trabalhando; pensa nos filhos.

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140 Levenfus, Soares & Cols.

tar fazendo manobras de adiamento, manten- tante lembrar que essa temática foi discutida
do a crise adolescente em aberto, como refere somente pelos membros do grupo formado
Blos (1996), em vista da crise mal resolvida da por filhos de pais separados. Por isso, é pos-
separação dos pais. sível observar que, além dos temores naturais
ocasionados pela necessidade de decidir, es-
Queixam-se de que é difícil escolher, ses jovens apresentam exacerbado o medo de
novamente fazendo referências a sentirem-se errar na escolha, com base nos acontecimen-
pressionados a tomar decisões prematuras, tos familiares.
fato exemplificado com situações em que a es-
colha pelo curso deu-se tão somente na hora É notória e direta a relação que o grupo
da inscrição para o vestibular. faz entre o medo de ter que mudar sua esco-
lha profissional e a vivência do casamento fa-
O medo de escolher errado lido que, segundo eles, constituiu-se em uma
má escolha conjugal por parte dos pais. De
Verbalizações apontando um grande fato, diversos autores pesquisados por Wag-
medo de escolher errado aparecem com ênfa- ner e colaboradores (1997) apontam que, além
se bem maior nesse grupo pesquisado (filhos dos problemas que filhos de pais separados
de pais separados) do que nos demais. Como podem apresentar com respeito às suas rela-
formularam várias verbalizações com conteú- ções interpessoais, eles também podem apre-
dos específicos a esse tema, foi possível divi- sentar casamento precoce ou medo quanto a
di-las em três itens: seu futuro casamento. Na questão em estudo,
diríamos: medo quanto às suas escolhas futu-
• Ter que mudar: “Tenho medo de abra- ras, gerando impulsividade ou adiamento da
çar uma profissão e depois ver que foi decisão profissional.
errado; se deixar para mudar tarde
pode ter sérias consequências; para Relação casamento-profissão
mudar depende se tem condições de
mudar.”. É o único grupo pesquisado que faz re-
lações entre escolha conjugal e escolha profis-
• Relaciona com casamento falido: “Pra sional; entre casamento e profissão.
que que a gente vai atropelar os passos
se a gente já viu?; em casa foi uma es- Pensam que, assim como no casamento,
colha que não deu certo; a escolha de na profissão é preciso que a pessoa aprenda
uma profissão não deixa de ser como a se relacionar bem com os demais sob o ris-
um casamento.”. co de não conseguir estabilizar-se. Acreditam
que o casamento, assim como a profissão, de-
• É bom pensar muito: “É bom que você veria ser uma escolha para a vida toda e que
sente a cabeça e pense muito bem an- uma escolha profissional malfeita afetará o
tes; eu posso olhar de todos os ângulos, resto da vida do sujeito.
de repente, não precisa errar.”.
Por um lado, são verbalizações diretas
Sabemos que a consolidação da identida- no sentido dessa relação; de outro, são encon-
de profissional é uma das últimas tarefas da tradas preocupações quanto a garantir o fu-
adolescência, e a clientela que busca Orien- turo de forma independente de uma relação
tação Vocacional nem sempre está em fase conjugal:
adiantada de conclusão do processo adoles-
cente (Osório, 1986; Outeiral, 1994; Levenfus • relação direta: “O casamento é uma tro-
1997c). Veem-se empurrados por uma cultura ca e a escolha da profissão também, você
que dita que a escolha por uma profissão deve vai escolher uma profissão, vai ter que
ocorrer ao término do ensino médio, momen- lidar com pessoas; o casamento é pra ser
to que nem sempre coincide com a maturida- pra vida toda; a escolha (da profissão)
de necessária a essa tarefa. vai afetar o resto da minha vida.”.

Apesar de pensar que o tema seja justi- • quero poder sustentar meus filhos:
ficado pelas circunstâncias citadas, é impor- “Quero que dê para pagar os estudos

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Orientação Vocacional Ocupacional 141

dos meus filhos; que dê meio termo pra De fato, a pesquisa de Lassance, Grocks
ter a minha casa própria.”. e Francisco (1993) apontou que os jovens que
procuram decidir a profissão centrados na
A questão da escolha conjugal, que reme- facilidade e na amplitude de possibilidades
te a temas como o amor, deve estar presente e de inserção no mercado de trabalho não pa-
teve seu representante na questão da escolha recem ocupar-se com as práticas profissionais
profissional com as abordagens de que é im- específicas, demonstrando imenso desconhe-
prescindível gostar do que se faz. Esse conteú- cimento acerca de cada uma das profissões
do foi explicitado de forma imperativa para a envolvidas em suas escolhas.
ideia de que, para realizar determinada esco-
lha, é preciso gostar do objeto. Definem a es- Utilizando-me da máxima nem só de
colha profissional com termos que relacionam pão vive o homem, citamos Odorizzi e Rosiski
paixão pela profissão à felicidade e má escolha (1997), que entendem que, quando se aborda
a estados de infelicidade. a questão do trabalho, pensa-se nele como
fonte de renda e subsistência, ou seja, uma das
De fato, o adolescente sofre imensamente maiores preocupações do ser humano. Entre-
quando apenas durante o curso percebe que a tanto, o trabalho deve ter muitos outros signi-
decisão estava incorreta. Brooks (1959) já su- ficados para o indivíduo, seja como realizador
geria que o fracasso na escolha exerce influên- de potencialidades individuais, seja como ele-
cias negativas na personalidade do jovem, mento que possibilita a realização dos tempos
como tendência a desenvolver atitudes de culturais, dos tempos ideológicos e dos tem-
inferioridade e inibição de seus esforços para pos de lazer, assegurando plena satisfação e
outros direcionamentos, sendo conveniente equilíbrio do homem como cidadão.
orientar o jovem no sentido de prevenir esse
tipo de fracasso. Tendo vivenciado a separação dos pais,
esses orientandos discutem a questão da pre-
Especialmente os orientandos filhos de sença ou da ausência de amor pelos objetos
pais separados concentraram a maior parte como fundamental na ideia de continuidade
das falas sobre mercado de trabalho em um da vinculação. Esse grupo teme ter que trocar
espectro negativista quanto a ele. No entanto, de escolha por não gostar do curso e teme ser
sua marca principal é uma angústia relacio- difícil manter esse casamento só por amor. São
nada à ideia de que não adianta fazer o que enfáticos ao apontar que casamento não é um
se gosta se não tem mercado, assim como não conto de casal, amor em baixo da ponte, indicando
adianta escolher pelo mercado quando não se que outras várias questões implicam a manu-
gosta da profissão. Existe o grande desejo de tenção do casamento. Dessa forma, referem,
poder conciliar o gosto com o mercado, mas a por exemplo: se não é o que você quer não vai ser
angústia é a de que essa conciliação seja im- feliz; trabalhar o resto da vida com uma coisa que
possível. não gosta vai ser infeliz.

• Não adianta fazer o que gosta se não Autoconceito superpositivo
tem mercado: “Pra fazer minha esco-
lha, eu penso que não adianta uma coi- É interessante observar a contradição
sa que eu adoraria fazer mas que não apresentada por esses jovens. Assim como
tivesse muita retribuição depois; de os orientandos dos demais grupos pesquisa-
que adianta fazer cinco anos de uma dos, colocam a maior parte do locus de con-
coisa que você gosta e na hora não ter trole como externo na questão do mercado de
onde trabalhar? Eu queria unir o útil trabalho, ou seja, pensam que o ingresso no
ao agradável, fazer uma profissão que mercado de trabalho depende muito mais da
goste e que tenha bom mercado.”. conjuntura externa do que das capacidades e
potencialidades do indivíduo.
• Não é bom escolher só pelo mercado:
“Tanta coisa que não levam adiante; ou Em contrapartida, foi o único grupo a
você continua sem gostar.”. fazer exclusivamente referências positivas a
seu autoconceito, inclusive relacionando-as

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142 Levenfus, Soares & Cols.

com êxito às tarefas esperadas pela profissão. essa observação. A partir do resgate feito das
Demonstram pensar que sua situação lhes diversas construções conceituais da noção de
coloca em vantagem. Acham que os filhos de competência, Manfredi (1998) identificou um
pais separados têm mais iniciativa, responsa- conjunto de conotações historica e socialmen-
bilidade, determinação, têm pais mais empe- te construídas referentes a essa noção, que po-
nhados, são mais alegres que os demais. Ver- deria ser assim resumido:
balizam que o filho de pais separados adota
atitudes, como • desempenho individual racional e efi-
ciente visando à adequação entre fins e
• tomar a dianteira/ter mais iniciati- meios, objetivos e resultados;
va nos trabalhos em grupo: “a gente
sempre puxava o resto; a gente sempre • perfil comportamental de pessoas que
acabava levando todo mundo nas cos- agregam capacidades cognitivas, so-
tas; sempre os mesmos que tomavam a cioafetivas e emocionais, destrezas psi-
dianteira”; comotoras e habilidades operacionais,
adquiridas por meio de percursos e
• ser mais responsáveis; trajetórias individuais (percursos esco-
• estar pronto para lutar mais; lares, profissionais e outros);
• ser mais determinado;
• ser mais positivo; • atuações profissionais resultantes, prio-
• ter pais mais empenhados; ritariamente, de estratégias formativas
• enfrentar as dificuldades: “você vai lá agenciadas e planificadas visando à
funcionalidade e à rentabilidade de um
na frente e vai tremer, não que eu não determinado organismo ou subsistema
tenha medo, não trema; todo mundo social.
sente medo por um trabalho que apre-
senta”; Diante desse panorama, o mercado que
• ter um discurso legal: “eu sentia que rege as relações sociais de produção exige
eu tinha um discurso legal para fazer profissionais que saibam aprender e estejam
direito”; abertos ao novo, sejam capazes de pensar seu
• gostar de aparecer, de estar lá na fren- próprio fazer e que o façam de forma coletiva.
te;
• ser sociável; Uma das contradições do grupo pesqui-
• ser prestativo. sado está na dificuldade do fazer coletivo. Os
jovens expressaram conteúdos relativos à sua
Wallerstein (2000) diz que a adolescên- falta de confiança nas pessoas e à sua tendência
cia começa mais cedo para filhos de famílias a preferir trabalhar isoladamente. Pela ótica do
que sofreram um processo de separação. Boa grupo é melhor não depender dos outros, com os
parte das crianças passa a ocupar-se dos pro- outros não se pode contar. O grupo é enfático ao
blemas da mãe e, algumas vezes, dos conflitos afirmar que não dá para confiar nos outros, que
do pai. Não raro elas têm de desenvolver por acabam faltando com sua parte nas obrigações;
conta própria seus conceitos de moralidade. ora refere-se aos colegas de escola em trabalho
Os mais velhos tendem a cuidar dos irmãos de grupo, ora refere-se aos pais.
mais novos, como se fossem adultos. E isso é
vantajoso? Na opinião do grupo, sim. Concluímos, então, que os orientandos
pesquisados, filhos de pais separados, mani-
Porém, será que essas atribuições favore- festaram sentimentos perfeitamente cabíveis
ceriam a entrada do sujeito no mercado de tra- nos tempos atuais. No entanto, ao imaginarem-
balho, segundo a orientação da nova ordem se com melhores qualidades que os demais jo-
mundial? vens, seria de se esperar que se sentissem mais
fortalecidos quanto ao ingresso no mercado
Se pensarmos essa questão sob o pris- de trabalho, o que não ocorreu. Deixamos em
ma do movimento atual de substituir a no- aberto a questão sobre esses jovens se darem
ção de qualificação pelo chamado modelo da conta de uma sobreadaptação, de sua pseu-
competência, talvez pudéssemos considerar doindependência, por forças das circunstân-

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Orientação Vocacional Ocupacional 143

cias (separação dos pais) ou simplesmente pela melhor não depender dos outros, com os outros não
realidade do mercado de trabalho. se pode contar:

PAI DESVALORIZADO VERSUS MÃE • Não dá para depender dos outros: “Se
COMPETENTE eu fosse depender do meu pai eu estava
frita; por isso eu acho que a gente é assim
O pai é tema de discussão somente nesse (desconfiado dos outros); já aconteceu
grupo. É muito significativa a representação também de eu depender e acabar fazen-
desvalorizada que o grupo tem da figura pa- do o trabalho sozinho; nunca me esque-
terna. A grande maioria das falas descreve o ço de uma vez que tive que fazer um tra-
pai como sendo cheio de problemas psiquiátricos, balho em grupo e ninguém se mexeu; eu
alcoolista, jogador compulsivo, desempregado, não gosto de depender de ninguém.”.
sem capacidade de se sustentar e de ajudar os
filhos, ausente, despreocupado com os filhos • As pessoas dependem das outras para
e mentiroso. Em uma quantidade bem menor trabalhar: “Se a pessoa for trabalhar
são feitas referências ao pai contribui com algu- em algum lugar ela vai ser contratada
ma coisa (pensão), é trabalhador, gosta do que de alguém; de certo modo ela depende
faz e pensa nos filhos. dos outros; precisa ter alguém que pre-
cise daquele serviço.”.
A ausência de um modelo paterno, se-
gundo algumas pesquisas, contribui para o O grupo é enfático ao afirmar que não dá
aparecimento de dificuldades na consecução para confiar nos outros, que as pessoas aca-
de tarefas desenvolvimentais no âmbito voca- bam faltando com sua parte nas obrigações.
cional (Young, Friesen e Persons, 1988). Ora refere-se aos colegas de escola em traba-
lho de grupo, ora refere-se ao pai.
Bastante diversa da imagem do pai está
a imagem da mãe. Esta é tida como uma mu- Mulher e trabalho
lher batalhadora, trabalhadora, concursada,
independente, que ganha bem e gosta do que O grupo composto por filhos de pais
faz: minha mãe pagou a faculdade dela; passou no separados foi o único que debateu acerca da
concurso do magistério em primeiro lugar; ela ga- mulher como trabalhadora. É o único grupo
nha bem lá. no qual todas as mães são trabalhadoras.

Lassance e colaboradores (1993) consta- O conteúdo é bastante entendido pela
taram a expressiva presença da influência pa- ótica da separação, e percebe-se uma grande
terna nas escolhas vocacionais de sujeitos de preocupação quanto ao futuro. Fazem proje-
ambos os sexos. O pai é comumente referido tos no sentido de que sua profissão seja capaz
como um modelo, enquanto a mãe frequente- de lhes garantir o sustento pessoal e o de seus
mente aparece como conselheira. Segundo a filhos como se estivessem prevendo um futu-
fala do grupo, os filhos de pais separados pa- ro de separação. É como se estivessem que-
recem apresentar uma inversão nesses valores rendo se prevenir da situação financeira que
identificatórios. suas mães vivenciaram com a separação.

Medo de depender dos outros A tendência principal é a de achar que a
mulher não pode contar com o homem para
A questão da separação, com todas as prover seu sustento e o dos filhos. Exemplifi-
queixas referentes à falta de participação ade- cam o quanto suas mães tiveram perda no po-
quada do pai, parece desencadear nesse grupo der aquisitivo depois da separação em decor-
a temática da dependência. Embora este tema rência da ausência do pai como provedor e da
– dependência – esteja presente em todos os dificuldade deles em manter a pensão em dia.
grupos estudados, é no grupo de filhos de
pais separados que predomina uma generali- • Não pode contar com o homem: “Mi-
zada falta de confiança. Pela ótica do grupo é nha mãe se dependesse do meu pai,
estava frita; como é que a mulher vai

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144 Levenfus, Soares & Cols.

ficar se o marido não tem condição de querem ir para o mercado de trabalho para
dar uma pensão fixa?; não dá para ficar sustentar melhor a família do que o parceiro
esperando demais pelos outros; todas seria capaz.
as mulheres separadas com as quais
eu convivi tinham emprego e batalha- • Quer ser melhor que o marido depois
vam.”. da separação: “Se os filhos ficarem com
ela, ela vai se preocupar em ser melhor
Em quantidade bem menor, surge a ideia que o marido dela, vai se empenhar
de que as mulheres precisam trabalhar para para sustentar a família inteira.”.
auxiliar no orçamento doméstico em vista da
economia do país. CONSIDERAÇÕES FINAIS

• Precisa ajudar no orçamento: “As mu- A família de hoje está mudando e o efeito
lheres estão trabalhando cada vez mais desta mudança social no momento da escolha
porque há a necessidade; porque os ma- profissional é importante de ser compreendi-
ridos, se elas são casadas, não estavam do. As entradas e saídas de novos membros
conseguindo dar conta do recado com repercutem nos processos identificatórios
seu emprego.”. que, para Bohoslavsky (1982), estão na base
das escolhas profissionais. A influência fa-
Algumas referências foram feitas no sen- miliar no momento da escolha profissional é
tido de apontar que, em decorrência da sepa- inquestionável e deve ser analisada à luz das
ração, a mulher se torna competitiva com o mudanças, do efeito que tem nos processos
ex-marido. Segundo a fala do grupo, as mu- identificatórios e na construção da subjetivi-
lheres separadas, com raiva do ex-marido, dade daquele que escolhe (Oliveira, 1999).

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11

Jovens com perda parental

lidando com o luto e com a escolha profissional

Rosane Schotgues Levenfus • Maria Lucia Tiellet Nunes

É comum que, em uma idade próxima Muito pouco encontramos na literatura a
aos 18 anos, os jovens já tenham perdido, por respeito de associações entre escolha ou car-
morte, um membro da família nuclear? Pouco reira profissional e a morte de um dos pais.
comum, diríamos. Nessa fase da vida é mais Em seu estudo O demônio como substituto pa-
comum que percam gum dos avós. terno, Freud (1923/1974) refere que é comum
que um homem adquira depressão melancóli-
No entanto, de forma surpreendente, ca e inibição em seu trabalho em decorrência
deparamo-nos tão seguidamente, em Orienta- da morte de seu pai. Pesquisa realizada por
ção Vocacional, com jovens órfãos de pai ou Magalhães, Lassance e Gomes (1998) apon-
mãe – ou de ambos – que esse dado levou a tou que “as estruturas familiares de sujeitos
uma pesquisa de levantamento sobre a inci- indecisos ocasionam perturbações afetivas
dência e sobre as características desse fenôme- que dificultam um envolvimento produtivo
no (Levenfus, 1997d). De fato, conforme des- na tarefa de decisão vocacional” (p. 47). Em
crevemos no Capítulo 4 deste livro, podemos dois sujeitos pesquisados, o falecimento do
esperar que, em média, 10% dos jovens que pai na primeira infância representa um acon-
se apresentam para Orientação Vocacional tecimento traumático que parece associado à
(voluntariamente, por reconhecerem dificul- indecisão vocacional.
dades em escolher a profissão) perderam, por
morte, um dos pais. Partimos, então, a pesquisar se a perda
de um dos pais repercute de alguma forma so-
Esse fenômeno foi percebido não somente bre o adolescente no momento da escolha pro-
no levantamento realizado com 1.059 sujeitos fissional.3 Buscamos, como em outros grupos
(ver Capítulo 4), como também surgiu entre pesquisados, apenas averiguar se essa questão
casos apresentados por profissionais-alunos confere a esses jovens alguma forma caracte-
do curso “Estudos Avançados em Orienta- rística ou alguma demanda específica – sem
ção Vocacional Ocupacional”.1 Além disso, ao querer avaliá-la como positiva ou negativa –
convocar jovens interessados em inscrever-se frente à questão da escolha profissional.
gratuitamente em um processo de Orienta-
ção Vocacional para fins de pesquisa,2 dos 72 Para tanto, foram reunidos em um grupo
jovens inscritos, 11 apresentavam perda por de Orientação Vocacional apenas jovens com
morte de um dos pais, configurando nessa pe- perda parental por morte.4 É importante res-
quena amostra pouco mais de 15%. saltar que nessa pesquisa todos os orientan-

1 Curso ministrado a psicólogos e orientadores educacionais sob coordenação de Levenfus, na cidade de
Porto Alegre-RS

2 Pesquisa de Mestrado em Psicologia Clínica (Levenfus, 2001).
3 Levenfus, 2001.
4 Parte da pesquisa de mestrado de Levenfus (2001).

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Orientação Vocacional Ocupacional 147

dos se inscreveram por demandas próprias e separada, então, de acordo com Wolfenstein,
não sabiam no início das tarefas que estavam citado por Worden (1998), as crianças muito
em um grupo homogêneo (órfãos). A primeira pequenas não fazem luto devido à sua limi-
reunião grupal foi gravada e posteriormente tação em termos de teste da realidade, cons-
transcrita e estudada na forma de Análise de tância de objeto e devido ao fato de elas uti-
Conteúdo (Bardin, 1991). O conteúdo da con- lizarem mecanismos regressivos para lidar
versação exposta por esse grupo se asseme- com a perda e rapidamente encontrar objetos
lha, e também difere, em vários aspectos do substitutos.
conteúdo das questões discutidas em outros
grupos pesquisados.5 Worden (1998) acredita que as crianças
fazem o luto, e que é necessário encontrar um
Primeiramente, abordaremos alguns tó- modelo de luto que se adapte a elas, e não lhes
picos relativos à questão geral da repercussão impor um modelo adulto. Embora as crianças
da morte de um dos pais sobre o psiquismo pequenas apresentem comportamentos seme-
infantil ou juvenil dos filhos, para mais adian- lhantes ao luto quando as ligações são rom-
te focalizarmos essa experiência em torno do pidas, o principal problema está centrado em
momento da escolha profissional. torno do desenvolvimento cognitivo da crian-
ça. As pessoas necessitam de um certo nível
SOBRE A PERDA PARENTAL NA de desenvolvimento cognitivo para compre-
INFÂNCIA ender a morte por não conseguirem integrar
o que não compreendem. Cita que alguns
Quando a perda do pai ocorre na infân- dos conceitos cognitivos necessários para que
cia, a criança pode não ter um luto adequa- seja totalmente compreendida a morte são:
do e, mais tarde, com frequência, apresentará (1) tempo, incluindo a ideia de eternidade,
sintomas de depressão ou de inabilidade para (2) transformação, (3) irreversibilidade, (4)
ter relacionamentos próximos na vida adulta casualidade e (5) operação concreta. Em seus
(Worden, 1998). estudos, Worden (1998) cita Piaget e Inhelder
(1969), que afirmam serem as crianças capa-
Houve muitas controvérsias ao longo dos zes de desenvolver as operações concretas so-
anos, em especial nas escolas psicanalíticas, mente a partir dos 7 ou 8 anos.
sobre o fato de as crianças serem ou não ca-
pazes de fazer um luto. Worden (1988) aponta SOBRE A PERDA PARENTAL NA
a posição de diversos autores a respeito dessa ADOLESCÊNCIA
questão. De um lado, situa pessoas como Wol-
fenstein (1966), que afirma serem as crianças Com relação aos adolescentes, conforme
incapazes de fazer o luto antes de terem uma Riera (1998), estes são especialmente vulnerá-
total formação de identidade, a qual ocorre no veis à morte de alguém querido, por causa de
final da adolescência, quando a pessoa deve todos os horizontes conflitantes da adolescên-
estar totalmente diferenciada. Por outro lado, cia e da interdependência entre os membros
há autores como Furman (1974), que assumem da família. Especialmente no caso da morte de
a posição oposta: as crianças podem fazer seu um dos pais, o adolescente é afetado não ape-
luto a partir dos 3 anos, quando a constân- nas pela perda emocional significativa, como
cia de objeto é alcançada. Em seu artigo Pesar também pela mudança na responsabilidade
e luto na primeira e segunda infâncias, Bowlby familiar e na vida cotidiana.
(1960b) antecipa essa idade para os 6 meses.
Em vista da natureza mutável do adoles-
Parte da controvérsia tem como foco a cente, os estágios de luto, como negação, raiva,
própria definição de luto. Se o luto envolve negociação, depressão e aceitação são vividos
a tarefa de se desligar do objeto de ligação e linearmente. As pessoas oscilam entre esses es-
reconhecer a si próprio como uma entidade

5 Foram pesquisados, além deste, outros três grupos: jovens filhos de pais separados; jovens com difícil
desencadeamento do segundo processo de separação-individuação (Mahler, 1982) ; e jovens que não apre-
sentam nenhuma das características encontradas nos grupos anteriores.

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148 Levenfus, Soares & Cols.

tágios, em diversos ritmos, às vezes fixando-se Freud (1923/1974) descreve que o luto
em um deles ou passando por cima de outro. é a reação normal à perda de um ente queri-
do, à perda de alguma abstração que ocupou
É frequente que os adolescentes o lugar de um ente querido, como o país, a
reajam ao luto diminuindo seu mundo, ou liberdade ou o ideal de alguém, e assim por
seja, voltam sua atenção e concentram-se em diante.
uma ou duas coisas que, repentinamente,
emergem de sua amplitude usual de ativida- Embora o luto envolva graves afasta-
des. Esse encolhimento de seu mundo lhes mentos do que constitui a atitude normal para
dá maior senso de controle frente a um acon- com a vida, Freud (1923/1974) acreditou que
tecimento incontrolável e essa é, frequente- este é superado após certo espaço de tempo e
mente, uma resposta saudável e útil. julgou inútil ou mesmo prejudicial qualquer
interferência em relação a ele.
O modo como um adolescente reage à
morte depende de diversos fatores: seu re- O luto profundo (a reação à perda de
lacionamento com a pessoa que morreu, sua alguém que se ama) encerra o mesmo estado
experiência anterior com a morte, o tipo de de espírito penoso, a mesma perda de interes-
morte (súbita ou prolongada), as reações das se pelo mundo externo – na medida em que
pessoas à sua volta e sua personalidade bási- este não evoca esse alguém – a mesma perda
ca. da capacidade de adotar um novo objeto de
amor (o que significaria substitui-lo) e o mes-
Qualquer que seja o modo como ele lide mo afastamento de toda e qualquer atividade
com o luto, é um processo a longo prazo (e é que não esteja relacionada a pensamentos so-
mais longo quanto mais próxima a pessoa que bre ele (Freud, 1917/1974). Segundo Fenichel
faleceu). Não é algo pelo qual ele passe e con- (1981), em seguida a experiências decepcio-
siga superar em algumas semanas ou em al- nantes, a libido é retirada da realidade tam-
guns meses. Isso se torna uma parte sedimen- bém nas pessoas neuróticas e normais.
tada de seu passado; quando outra pessoa
querida morrer, a morte anterior é relembrada Já na melancolia, os traços mentais dis-
tanto como uma experiência quanto como um tintivos são um desânimo profundamente
processo de luto (Bowlby, 1998; Bromberg, penoso, a cessação de interesse pelo mundo
1998; Riera, 1998). externo, a perda da capacidade de amar, a
inibição de toda e qualquer atividade e uma
Luto e melancolia diminuição dos sentimentos de autoestima a
ponto de encontrar expressão em autorrecri-
Bromberg (1998) observou que a análise minação e em autoenvilecimento, culminan-
comparativa que Freud (1923/1974) fez entre do em uma expectativa delirante de punição
luto e melancolia demonstra que o luto pode (Freud, 1923/1974).
ser um modelo de depressão clínica: ambos
são reação a uma perda e caracterizam-se por Isso sugeriria que a melancolia está de
um espírito deprimido, pela perda de interes- alguma forma relacionada a uma perda obje-
se e pela inibição de atividades. A diferença é tal retirada da consciência, em contraposição
a ausência, no luto, de culpa, de autoacusa- ao luto, no qual nada existe de inconsciente a
ções e de rebaixamento da autoestima. respeito da perda. A analogia com o luto leva
a concluir que a pessoa sofrera uma perda re-
Para todos os efeitos, existem pareceres lativa a um objeto; aquilo que o paciente me-
bastante controversos a respeito do luto como lancólico diz aponta para uma perda relativa a
patologia. Bowlby (1989) é bastante enfático seu ego.
com relação à ideia de que a psicanálise clas-
sifique como patológicos processos que não O melancólico exibe ainda uma outra
parecem ótimos, apesar de, conforme sua opi- faceta que está ausente no luto – uma dimi-
nião, serem absolutamente normais. nuição extraordinária de sua autoestima, um
empobrecimento de seu ego em grande esca-
Apresentamos o conceito freudiano de la. No luto, é o mundo que se torna pobre e
luto e melancolia, seguido de contribuições vazio; na melancolia, é o próprio ego. O su-
de outros autores. jeito representa seu ego como sendo despro-

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Orientação Vocacional Ocupacional 149

vido de valor, incapaz de qualquer realização função das manifestações contrárias a esse
e moralmente desprezível; ele se repreende e referidas pelo pai antes da morte. Essas ma-
se envilece, esperando ser expulso e punido. nifestações do pai haviam provocado temor e
Degrada-se perante todos e sente comiseração ódio ao pai.
por seus próprios parentes por estarem rela-
cionados a uma pessoa tão desprezível. Não Supõe que é possível que seu pai fosse
acha que uma mudança se tenha processado contra seu desejo de se tornar pintor. Se assim
nele, mas estende sua autocrítica até o pas- fosse, sua incapacidade de exercer sua arte após
sado, declarando que nunca foi melhor. Esse a morte do pai seria, a expressão do conhecido
quadro de um delírio de inferioridade (prin- fenômeno de obediência adiada e, tornando-se
cipalmente moral) é completado pela insônia incapaz de ganhar a vida, seria compelido a
e pela recusa a se alimentar, e – o que é psico- aumentar seu anseio pelo pai como protetor
logicamente notável – por uma superação do contra os cuidados da vida. Em seu aspecto
instinto que compele todo ser vivo a se apegar de obediência adiada, seria também expressão
à vida. de remorso e uma autopunição bem-sucedida
frente ao ódio sentido pelo pai.
A melancolia é, por um lado, como o
luto, uma reação à perda real de um objeto De acordo com Freud (1923/1974), a
amado; mas, acima de tudo isso, é assinalada característica mais notável da melancolia, e
por uma determinante que se acha ausente no aquela que mais precisa de explicação, é sua
luto normal ou que, se estiver presente, trans- tendência a se transformar em mania – es-
forma esse em luto patológico. Na melanco- tado que é o oposto dela em seus sintomas.
lia, a relação com o objeto não é simples; ela é Como sabemos, isso não acontece com toda
complicada pelo conflito devido a uma ambi- melancolia. Alguns casos seguem seu curso
valência (Freud, 1923/1974; Mark, 1997). em recaídas periódicas, entre cujos intervalos,
sinais de mania talvez estejam inteiramente
A MARCA DA AMBIVALÊNCIA ausentes ou sejam apenas muito leves. Outros
revelam a alteração regular de fases melancó-
A perda de um objeto amoroso constitui licas e maníacas, o que leva à hipótese de uma
excelente oportunidade para que a ambivalên- insanidade circular.
cia nas relações amorosas se faça efetiva e ma-
nifesta. As ocasiões que dão margem à doença A qualidade do vínculo
vão, em sua maioria, além do caso nítido de
uma perda por morte, incluindo as situações Para Bromberg (1998), a qualidade do
de desconsideração, de desprezo ou de desa- vínculo estabelecido inicialmente determina-
pontamento, as quais podem trazer para a re- rá os vínculos futuros e os recursos disponí-
lação sentimentos opostos de amor e ódio ou veis para enfrentamento e para elaboração de
reforçar uma ambivalência já existente (Freud, rompimentos e de perdas. Um vínculo seguro
1923/1974). permite o desenvolvimento da autoconfiança
e da autoestima. Em um estudo, os resulta-
Provavelmente, no caso estudado por dos mostram que a medida de autoestima é
Freud (1923/1974), O demônio como substituto negativamente correlacionada com tendência
paterno, em que um homem adquire depressão à depressão, ao se sentir isolado e solitário e
melancólica e inibição em seu trabalho em de- suscetível a somatizações.
corrência da morte de seu pai, o homem fora
ligado ao pai por um intenso vínculo amoro- A autora observa que esses são os sin-
so. Por outro lado, seu luto pela perda do pai tomas mais frequentemente encontrados na
tem grandes probabilidades de se transformar reação de luto, incluindo também o rebaixa-
em melancolia quanto mais sua atitude para mento da autoestima. Explica, assim, o luto
com ele portar a marca da ambivalência. patológico. Considera que aqueles que desen-
volveram vínculos básicos frágeis não desen-
Nesse mesmo trabalho, Freud aponta o volveram de forma positiva a autoconfiança e
fenômeno da obediência adiada, na qual o per- a autoestima. Nesses casos, com o rompimen-
sonagem sentia-se inibido para o trabalho em to de um vínculo por morte, a reação de luto

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150 Levenfus, Soares & Cols.

apresentará as marcas desse déficit, e a difi- emocionais, mobilizam uma certa quantidade
culdade de superação será intensificada pela de energia que resulta em empobrecimento ao
dificuldade em encontrar novas possibilida- nível de outras atividades.
des de vinculação, seja com uma pessoa, com
uma ideia, seja com uma atividade. Pensamos também que um dos fatores
que contribui para a dispersão da tarefa rela-
CARACTERÍSTICAS APRESENTADAS ciona-se à prevalência de lembranças negati-
EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL POR vas do morto (apresentadas por esse grupo),
JOVENS COM PERDA PARENTAL contrárias à boa elaboração de luto na qual
seria mais comum encontrar a sua idealização
Dispersão de energia psíquica (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom-
berg, 1998). Nesse sentido, alguns sujeitos da
O grupo de Orientação Vocacional for- pesquisa verbalizaram o seguinte:
mado por jovens que perderam por morte
um dos pais, apresenta uma significativa dis- • “Ele dava mais atenção para meu ir-
persão de energia psíquica6 que poderia estar mão.”
investida na tarefa da escolha. A energia psí-
quica fica, nesse caso, retida na resolução do • “Ele não era de colocar muito dinheiro
luto. Isso é perceptível pelo fato de ter sido o em casa.”
grupo que menos se concentrou na tarefa da
escolha,7 apresentando, na maioria das falas, • “Meu pai saía poucas vezes comigo e
conteúdos ao redor da temática da perda do com meu irmão.”
ente querido. Diversas são as alusões à morte
de um dos pais. Em menor escala referem per- Isso pode, como assinalamos anterior-
das de pessoas próximas e perdas morais ou mente, predispor-se ao luto patológico ou à
de relacionamento. melancolia.

Em um relato muitas vezes pleno de A marca do inconformismo
emoção, de lágrimas e de ansiedade, in-
cluindo a participação de um sujeito obeso O grupo relatou quando e como ocorreu
e de outro seriamente envolvido com uso de a morte, deixando visivelmente a marca do
drogas, o tema da perda e do sentimento de inesperado, do sofrimento, da vivência como
solidão foi se manifestando desde o primeiro traumática:
encontro de OP desse grupo. A manifestação
de lágrimas –, ou olhos marejados –, a ex- • “Foi enfarto repentino.”
pressão geral de tristeza, os cantos da boca • “Ela tinha câncer de mama, depois vol-
caídos, o olhar triste e os distúrbios alimen-
tares são sinais de que o luto está presente tou e tomou conta do cérebro.”
(Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom-
berg, 1998). Expressões de emoção e inconformismo
estão muito manifestas nesse grupo, como:
Preocupação com as lembranças do fale-
cido – tanto as boas quanto as más – e a ne- • “Eu não consigo me conformar.”
cessidade de falar incessantemente sobre isso • “Eu não consigo superar.”
parecem ocupar os interesses sobre outros • “Eu nunca consegui falar sobre meu
tópicos. A perda de interesse e a inibição são
fenômenos plenamente explicados pelo traba- pai sem chorar.”
lho de luto no qual o ego é absorvido (Freud • “Eu choro muito de noite.”
1923/1974). Segundo Laplanche e Pontalis
(1986), um sintoma, ou alguns transtornos Anseio pelo falecido, ondas de saudade
e dor intensa são expressões de luto manifes-
to (Stroebe e Stroebe, 1987, citados por Brom-
berg, 1998).

6 Conforme conceito freudiano de economia psíquica.
7 Emitiu menos verbalizações diretamente ligadas à problemática da escolha profissional.

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