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Nessa perspectiva, as técnicas constituem-se No contexto específico do trabalho em
como alternativas existentes para planejar OP, esse caráter lúdico dos jogos favorece
o trabalho e, a partir delas, dependendo das manifestações autênticas dos adolescentes
especificidades de cada grupo e/ou coorde- e leva-os a se mostrarem como são, explici-
nador, criar algo novo ou realizar adaptações tando dúvidas, incertezas e o que lhes causa
sob medida para determinadas situações. ansiedade. Além disso, os jogos assumem im-
portante papel como recurso que, atuando em
Segundo Almeida (1988), técnica é o con- um faz-de-conta, o “como se” próprio do con-
junto de procedimentos práticos que instrumenta- texto psicodramático, permite a expressão da
lizam o método, tornando-o viável na execução de imaginação, das fantasias e mesmo de crenças
seu objetivo final. Toda técnica deve ter uma teoria e valores, ou seja, de suas crenças culturais,
que a embase e explicite-a. Para esse autor, mé- dos estereótipos e modelos cristalizados, ele-
todo quer dizer caminho, e é o conjunto de pro- mentos a serem trabalhados posteriormente,
cedimentos teóricos que ordenam o pensamento, haja vista sua influência nos processos de es-
estabelecem o objetivo do trabalho a ser executado e colha profissional. As técnicas de simulação,
inspiram ânimo ao investigador. O método neces- de maneira geral, se prestam à mobilização de
sita de técnicas para atingir seus objetivos (p. 18). tais elementos.
Por outro lado, neste capítulo, estamos Em contrapartida, o critério básico de
nos referindo mais especificamente às técni- escolha das técnicas deve ser o da definição
cas psicodramáticas, consideradas por alguns dos objetivos gerais e específicos de cada uma das
autores como jogos dramáticos (Lenzi, 1996). etapas do trabalho. Estando claros os objetivos
Segundo a autora, o jogo dramático é todo a serem atingidos e não se perdendo de vista
aquele que se desenvolve em um contexto o movimento grupal, escolher a técnica cons-
dramático e que propicia aos participantes a titui atividade complementar extremamente
atividade de expressar as criações de seu mundo facilitada, sendo possível, inclusive, desen-
interno, constituído na intersubjetividade (p. 3). volver novas ferramentas a partir de neces-
Outros autores destacam igualmente carac- sidades que vão se apresentando no decorrer
terísticas próprias do jogo dramático que os do trabalho (Soares e Krawulski, 1999).
diferenciam de um jogo qualquer (Monteiro,
1994; Yozo, 1996). A principal das característi- Ao incluir essa ou aquela técnica no pla-
cas é o aspecto lúdico dos jogos, por meio do nejamento de OP, devemos nos sentir aptos a
qual ele se realiza. Lenzi (1996) ressalta que a demonstrar e a defender a validade e a real
assimilação de regras e padrões sociais con- possibilidade de sua utilização naquele mo-
duz as pessoas à perda da capacidade espon- mento específico do grupo. É importante o
tânea-criadora, tornando-as rígidas e prisio- coordenador não perder de vista o processo,
neiras de sua própria rotina, esquecendo-se ou seja, o conjunto de elementos mobilizados
de brincar, de jogar, de vivenciar prazer. Por pela técnica. Ao propor a fase de processa-
isso é importante o resgate da ordem lúdica, do mento,2 a abordagem psicodramática procura
momento que propicia ao indivíduo o reencontro considerar todo o processo gerado pela apli-
com a espontaneidade e com a criatividade. É na cação da técnica, permitindo a emergência de
brincadeira, no jogo, que o homem evidencia sua elementos e situações trazidas e sua conse-
liberdade de criação (p. 3). quente elaboração pelos membros do grupo.
2 O uso de técnicas na perspectiva psicodramática supõe quatro momentos: o aquecimento, a vivência da
técnica propriamente dita, o compartilhamento e o processamento: 1) Aquecimento: é a preparação das
condições para a ação. Pode ser inespecífico (conjunto de procedimentos destinados a centralizar a atenção
do auditório, diminuir o estado de tensão e facilitar a interação) ou específico (relacionado com o tema a
ser trabalhado no encontro); 2) Dramatização: significa ação, drama, observar “in vivo” e no “aqui e agora”
toda a estrutura material e investigar simultânea, e não sucessivamente; 3) Compartilhamento: cada par-
ticipante do grupo expõe como se sentiu, onde a vivência o tocou e como ele se coloca frente à situação; 4)
Processamento: incluída com maior ênfase em grupos de caráter didático, essa fase permite que se alcance
uma compreensão, em nível cognitivo, da experiência vivida, criando a possibilidade individual e grupal
do dar-se conta de modos de funcionamento, no grupo e no contexto mais amplo.
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Perguntas como: “para que vai me ser- processo de escolha profissional; em
vir tal procedimento?” ou “onde pretendo outros casos, conclui-se que a modali-
chegar com tal técnica?” costumam ser bons dade individual é mais indicada para
parâmetros para definir se a técnica escolhida aquela pessoa.
nos conduzirá aos aspectos essenciais a serem • Levantamento das expectativas. É im-
trabalhados a partir dos contextos social, gru- portante a verbalização para a tomada
pal e psicodramático. Muitas vezes, o encan- de consciência do jovem acerca de suas
tamento gerado no coordenador de grupos ao “reais” expectativas em relação ao tra-
ver os jovens participarem com entusiasmo balho. “O que ele espera do grupo e do
das “técnicas propostas” pode levá-lo a perder orientador?”; “O que o grupo pode ou
de vista o processo como um todo, ou seja, os não oferecer para ele?”; “Qual a sua res-
elementos mobilizados pela técnica, sentindo- ponsabilidade e o seu compromisso em
se seduzido pelos resultados alcançados. relação a si mesmo, aos demais compo-
nentes do grupo e ao processo em si para
Nossa experiência em Orientação Pro- que os resultados sejam alcançados?”:
fissional na modalidade grupal ao longo dos todas são perguntas a serem propostas.
anos tem mostrado que constitui um pré-re- • Estabelecimento do contrato psicoló-
quisito fundamental a ser observado, quan- gico. É feito a partir da explicitação de
do da escolha de técnicas para o trabalho em expectativas; constitui-se no compro-
grupos, o estabelecimento de um plano geral de misso de cada indivíduo e do grupo
trabalho, que consiste, como já foi dito, na de- com o processo de orientação profissio-
finição dos objetivos gerais e específicos para nal. Nesse momento, são feitos acordos
cada encontro (Soares-Lucchiari, 1993a) e que de trabalho em torno de tarefas, tempo
vai se modificando e se adequando às necessi- e custos, e são esclarecidas as possibili-
dades do grupo, da instituição e das possibi- dades e os limites do trabalho proposto,
lidades concretas do trabalho no decorrer dos bem como da realidade do grupo e da
encontros. instituição. A esse respeito, Osório afir-
ma que “estabelecer o setting grupal é a
Estabelecer um plano pressupõe quatro constituição de um ambiente normati-
encaminhamentos básicos: vo (continente) onde se desenvolverá o
processo grupal (conteúdo). Ele inclui
• Seleção dos participantes do grupo. É desde o espaço físico no qual as sessões
geralmente feita a partir de uma entre- transcorrerão até as combinações pré-
vista inicial individual, por meio da qual vias sobre horários, frequência e dura-
é avaliada a “orientabilidade”, isto é, se ção delas, além da própria composição
no momento presente se apresentam do grupo” (2000, p. 75).
em condições de realizar uma escolha • Avaliação final do trabalho. É a análise
e até mesmo se é essa a demanda que o do alcance dos objetivos individuais e
mobilizou a procurar a Orientação Pro- grupais. Deve-se estabelecer, desde o
fissional. Segundo Bohoslavsky (1991), plano de trabalho, o modo pelo qual
orientabilidade “é a possibilidade de se fará o processo avaliativo do grupo,
adequar-se ao quadro de trabalho que ainda que em linhas gerais.
definimos como modalidade clínica e
que tende a prevenir identificações vo- O papel coordenativo do orientador
cacionais e ocupacionais inadequadas,
ou de resolver os conflitos entre iden- profissional
tidades ocupacionais contraditórias“
(p. 111). O prognóstico elaborado pelo Do modo como foi focado até aqui,
psicólogo vai permitir que ele defina pretendemos ter deixado claro nosso enten-
que modalidade de trabalho deve ser dimento das técnicas como ferramentas ou
adotada. Em alguns casos, é necessário instrumentos nas mãos do orientador pro-
o encaminhamento para uma psicote- fissional, o qual, ao trabalhar na modalidade
rapia a ser realizada anteriormente ao
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Orientação Vocacional Ocupacional 253
grupal, assume o importante papel de coorde- conforme planejado e lido nos livros. Há difi-
nador daquele grupo. culdade em observar o que está acontecendo
com o grupo e uma tendência à fixação ao pla-
Não basta, nessa perspectiva, estabele- nejamento prévio.
cer um plano de trabalho e escolher técnicas
para desenvolvê-lo; é necessário assumir a Já o role-playing, segundo Moreno (1983),
direção do grupo a ser coordenado. A esse “é personificar outras formas de existência
respeito, Andaló (2001) ressalta que tem sido por meio do jogo” (p. 156). No caso do orien-
uma preocupação das várias abordagens que tador, já é um contato com o simbólico, pois
se debruçam sobre a temática grupal refletir representa os papéis conhecidos, integrados
sobre o papel dos coordenadores de grupo. lógica e socialmente. É o papel profissional
Entretanto, para a autora, porém, “tal papel se social objetivado, pois é a representação da
encontra atrelado à própria concepção de gru- imagem de seu desempenho do papel pro-
po dos profissionais que o exercem, ou seja, fissional de acordo com suas características
a qualquer caminho metodológico utilizado pessoais. Nesse momento, os coordenadores
na investigação dos processos grupais, subjaz já se sentem mais seguros e não tão presos ao
uma concepção de mundo e de homem nem planejamento. Já observam com mais atenção
sempre explicitada” (p.136). a dinâmica do grupo e podem propor o que
é mais adequado naquele momento. Moreno
A contribuição dessa autora nos permite destaca que “o role-playing pode ser utilizado
destacar a importância da teoria da técnica, como técnica para a exploração e para a ex-
isto é, do reconhecimento dos referenciais teó- pansão do eu num universo desconhecido. É
ricos que estão pautando o trabalho grupal do possível também tornar-se um ensaio para a
orientador, suas formulações conceituais e de vida, preparando o orientando para enfrentar
que modo as aplica à sua prática. qualquer situação inesperada ou esperada no
futuro” (p. 157).
A postura do profissional para realizar
seu trabalho, além da criteriosidade na escolha Role-creating, por sua vez, é o momento
e na utilização de técnicas, deve estar pautada, do contato com o imaginário e representa os
de modo semelhante, pela referência teórica papéis criados na fantasia, nos sonhos. Existe
utilizada, a qual deve fornecer-lhe elementos a possibilidade de se fazer projetos diferentes,
para formação e composição do grupo e para criar novas técnicas e adaptar outras conforme
uma boa coordenação, a partir de uma adequa- a necessidade do grupo. Diz-se que o orien-
da leitura do funcionamento de cada grupo. tador está pronto para enfrentar diferentes
grupos com “criatividade e espontaneidade”,
Sendo o psicodrama nosso referencial cumprindo as premissas do psicodrama para
básico, consideramos que o desenvolvimento o bom desempenho de papéis.
do papel profissional de coordenador ocorre
em três momentos distintos, conforme precei- Temos salientado também que a forma-
tua essa abordagem, a saber: role-taking, role- ção do orientador profissional, para que exer-
playing, role-creating. Em nossa atuação como ça um adequado papel de coordenador gru-
supervisoras de estágios curriculares do curso pal, deve se realizar em diferentes âmbitos,
de graduação em psicologia da Universidade correspondentes a níveis de aprendizagem
Federal de Santa Catarina, acompanhamos (Krawulski e Soares, 1999).
o desenvolvimento desse papel conforme os
momentos com muita clareza nos processos Em um primeiro âmbito, de natureza teó-
grupais de orientação profissional conduzi- rica, destacamos a formação teórica do orien-
dos pelos estagiários. tador profissional, fundamental para o ade-
quado desempenho de sua função. Além de
Role-taking é a primeira experiência com conhecer o referencial básico da psicologia, é
o real é a incorporação das experiên-cias reais importante a familiaridade com a psicologia
nas pautas representativas do sujeito. Nesse do trabalho e com questões de mercado de
momento, o futuro orientador tende a imitar trabalho, empregabilidade, globalização. In-
profissionais que teve oportunidade de ob- formações sobre diferentes profissões e ocu-
servar coordenando grupos. É um período de pações, diferentes cursos e universidades tam-
insegurança e busca de realizar as atividades
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254 Levenfus, Soares & Cols.
bém são importantes, assim como o domínio do a família como um sistema, ao mesmo tem-
das teorias da orientação profissional, teorias po em que o indivíduo é influenciado por seus
de escolha e decisão e psicologia do projeto pais, exerce influência sobre os mesmos, num
profissional. Desse modo, é interessante que sistema de variadas relações. Dessa maneira,
o orientador tenha clareza quanto ao referen- o dilema vocacional sentido pelo filho pode-
cial teórico que sustenta seu trabalho. Entre rá vir a propiciar reflexões profissionais nos
as muitas possibilidades, temos encontrado a próprios pais, já que estes reviverão, através
aplicação à OP dos seguintes referenciais: psi- do filho, seus próprios dilemas profissionais,
codrama (Soares, 1993), psicologia existencia- vivenciados na mesma etapa evolutiva na
lista (Erlich et al., 2000; Scheibe, 1997), Gestalt qual se encontram os filhos (Soares-Lucchiari,
(Canedo, 1997; 2000), psicanálise (Levenfus, 1997).
1997; Torres 2001), além da psicopedagogia3
(Hissa e Pinheiro, 1997) e da psicologia social A teoria desenvolvida por Sartre traz uma
(Lisboa, 1995; 2000).4 possível contribuição para o aprofundamento
das diretrizes propostas por Bohoslavsky so-
Conforme já ressaltamos, cada um des- bre a noção de futuro profissional por meio do
ses referenciais enfatiza, do ponto de vista Projeto de Ser como eixo fundamental na com-
teórico, determinados aspectos envolvidos na preensão do “ser” humano: o homem não é
questão da escolha profissional. outra coisa senão seu projeto de ser no mundo,
esse movimento vivo em direção a um futuro
Para o referencial psicanalítico, os con- em aberto (Erlich e Soares, 2000b). Essa noção
ceitos de identificação, sublimação e repa- de “projeto de ser” traz à tona a problemática
ração constituem explicação central para o da temporalidade no ser humano em sua rela-
processo de escolha e decisão profissional ção específica com o futuro.
(Levenfus, 1997). Torres (2001) aprofunda os
conceitos de objeto, escolha, identificação e O âmbito prático da formação do orienta-
sobrederteminação e sua aplicação no pro- dor, por sua vez, exige uma prática supervisio-
cesso de orientação profissional. Já na abor- nada na condução de processos de orientação
dagem do psicodrama de Moreno, as teorias profissional individual ou em grupo. Como
da matriz de identidade, do núcleo do eu e trabalhar com a escolha do outro coloca em
a teoria dos papéis são consideradas funda- questão, de certo modo, as próprias escolhas
mentais para subsidiar o trabalho com indi- dos orientadores, é fundamental a presença
víduos que apresentam dilemas vocacionais do supervisor para, entre outras questões, es-
(Soares, 1993). Para a Gestalt, por sua vez, os clarecer os pontos obscuros que podem envie-
conceitos de figura/fundo; parte/todo; cons- sar suas intervenções.
ciência; aqui-agora; contato e capacidade de
autorrealização do indivíduo favorecem a op- No âmbito pessoal, o orientador deve co-
ção profissional consciente do indivíduo que nhecer e compreender os motivos que o le-
escolhe uma carreira (Canedo, 1997, 2000). varam a escolher sua profissão, em especial
a escolha da orientação profissional como
Na teoria sistêmica, ressalta-se que não atividade profissional, pois só trabalhará com
somente os pais podem influenciar a decisão clareza os conflitos dos jovens se for capaz de
vocacional dos filhos, como também membros compreender e discriminar seus conflitos em
da família extensa, como tios, avós, primos, relação às próprias escolhas. Temos sustenta-
cunhados, etc. (Gabel e Soares, 2000). Pensan- do o quanto a escolha profissional está ligada
3 Ver também Capítulo 9
4 Segundo pesquisa realizada por Melo-Silva e colaboradores (2000) com uma centena de orientadores pro-
fissionais, participantes do IV Simpósio Brasileiro de Orientadores Profissionais, realizado em 1999, o re-
ferencial teórico que fundamenta as práticas desses profissionais é variado. A maioria dos respondentes
utiliza-se de mais de um referencial. Os pedagogos citaram, em primeiro lugar, os referenciais social (Lis-
boa, Carvalho e Ferretti) e psicodramático (Moreno e Soares), seguido do referencial psicodinâmico. Na
abordagem psicodinâmica, que majoritariamente subsidia as intervenções dos psicólogos, foram citados
autores argentinos, como Bohoslavsky, Müller, Knobel e Aberastury, e brasileiros como Rappaport e Le-
venfus. O referencial psicodramático para os psicólogos ocupa a segunda posição, enquanto as abordagens
social e desenvolvimentista (Super e Pelletier) ocupam o terceiro lugar na preferência desses profissionais.
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Orientação Vocacional Ocupacional 255
à dinâmica familiar, com as relações parentais mente com seu cliente. Caso outros conflitos
influenciando ou mesmo determinando as sejam trazidos no atendimento, deve ser dis-
escolhas referentes à colocação profissional, cutida qual a necessidade naquele momento:
o que necessita ser clarificado por parte do continuar a orientação profissional ou trans-
orientador. formar o atendimento em uma psicoterapia.
Quando a modalidade individual é realizada
A sustentação da aprendizagem do pa- por psicólogos e psicoterapeutas que, muitas
pel de orientador nesse tripé, em nossa con- vezes, atendem também outras demandas
cepção, não traz como prognóstico a garantia além da orientação profissional e, para tanto,
de um bom trabalho profissional, mas fornece possuem a formação teórica requerida, essa
uma boa base para a adequada condução de modificação de contrato é possível. Em outras
processos de Orientação Profissional. situações, o orientador profissional deve en-
caminhar o cliente para um psicoterapeuta.
Sendo assim, o papel do orientador pro-
fissional caracteriza-se como o de um mediador Como dissemos anteriormente, não exis-
de escolhas, isto é, ele é o responsável por au- tem técnicas específicas para atendimento
xiliar a pensar por meio de exercícios e jogos em grupo ou individual. Muitas das técnicas
propostos, pois, segundo Andaló (2001), “por descritas nos capítulos seguintes podem ser
não estar imerso na situação, consegue ter adaptadas à situação individual, ainda que
uma visão de distância que lhe permite captar perca a riqueza da troca entre os participan-
aspectos mais amplos e profundos” (p. 148). tes do grupo que, muitas vezes, por estarem
Essa autora complementa sua ideia e diz-nos passando pelo mesmo momento, são verda-
que, “dada a função que o coordenador detém deiros “facilitadores” do processo de escolha
de mediador entre o nível do vivido e a lei- dos colegas. Em contrapartida, em outras
tura crítica da realidade, reafirma-se o caráter situações, somente a modalidade individu-
constitutivo de sua liderança no processo do al proporciona a profundidade necessária e,
grupo” (p. 150). Sua função é também “facili- assim, auxilia o jovem a elaborar os conflitos
tar” (Soares, 1987), isto é, auxiliar na tomada impeditivos de uma “boa escolha”, permi-
de consciência acerca dos fatores que interfe- tindo-lhe escolher a “melhor profissão” para
rem na escolha profissional, por meio da re- aquele momento específico de sua vida.
flexão, problematizando, muitas vezes, o que
já está se tornando natural no grupo (Andaló, Na modalidade individual também é fun-
2001) . No entanto, o orientador profissional damental a escolha teórica do orientador, que
nunca terá a resposta para a dúvida. Por mais lhe dará as referências para a utilização das
capacitado que esteja, a escolha sempre será técnicas e para o manejo do processo. A abor-
do próprio sujeito (Bohoslavsky, 1991). dagem psicodramática conta com uma série de
técnicas que, muito embora tenham se origina-
A modalidade individual de orientação e a do no contexto psicoterapêutico, são utilizadas
em Orientação Profissional, tendo como foco
utilização de técnicas a escolha profissional. Temos as três técnicas
básicas: o duplo, o espelho e a inversão de pa-
No contexto do consultório, por suas péis e, a partir delas, outras derivadas, como
especificidades, desenvolve-se predominan- a autoapresentação, a investigação do núcleo
temente a modalidade individual de atendi- social, o solilóquio, a interpolação de resistên-
mento, tendo a entrevista clínica como sua cias, a concretização, o onirodrama (Gonçalves
principal técnica. No trabalho individualiza- et al., 1988).
do, se, por um lado, não ocorre o compartilha-
mento que acontece nos grupos, por outro, é A teoria sistêmica, por sua vez, empres-
possível verticalizar a problemática da esco- tou-nos a técnica do genograma, batizada
lha, por se estar trabalhando com o processo por Soares (1997a) de genoprofissiograma,
decisório de apenas um indivíduo. Faz-se im- que traz uma grande contribuição para o en-
portante, nesse sentido, a atenção ao foco do tendimento da dinâmica familiar, sua apro-
trabalho, sendo necessário que o orientador priação por parte do orientado e consequente
tenha presente o contrato estabelecido inicial- percepção da influência da família na esco-
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256 Levenfus, Soares & Cols.
lha profissional de seus membros, jovens ou que escolhe, pois, de acordo com esse autor, a
adultos. escolha sempre se relaciona com os outros (re-
ais e imaginários). Questões como identidade
Em nossa experiência, por estarmos in- profissional e identidade ocupacional, confor-
seridas em um contexto institucional, temos me definidas por ele podem ser trabalhadas
privilegiado a modalidade grupal, de modo a com mais profundidade na modalidade indi-
atender a numerosa demanda que se apresen- vidual.
ta. No entanto, em casos de contraindicação
desse modo de trabalho, detectados por oca- Guicharde e Huteau (2000) nos apresen-
sião da entrevista inicial, disponibilizamos o tam uma contribuição acerca da entrevista em
atendimento individual. Temos percebido o Orientação Profissional sob outra perspectiva.
quanto essa última modalidade se constitui Na concepção dos autores, a interação entre o
em um espaço mais protegido, comparativa- orientador e o orientando está relacionada a
mente aos grupos, no que se refere à expressão dois pontos de vista diferentes.
da vivência pessoal do processo de escolha
profissional. Temos valorizado a modalida- O primeiro diz respeito ao modelo que
de grupal por se constituir em um primeiro visa a ajustar os atributos estáveis do sujei-
exercício, por parte dos orientandos, de expo- to e das profissões, modelo bem-adaptado à
sição de dúvidas e anseios, de necessidades e organização do mundo do trabalho no início
de incertezas, cujo resultado retornará a eles, do século passado. O objetivo da entrevista
graças ao compartilhamento e às identifica- seria reunir o máximo de informações sobre
ções que acontecem no grupo, de modo muito o orientando em relação aos temas julgados
mais rico e aberto a novas possibilidades. fundamentais pelo orientador para este poder
lhe fornecer o conselho adaptado. O questio-
É importante salientar a diferença entre a namento é diretivo, e as noções de aptidão e
psicoterapia e a orientação profissional. Esta, é dos interesses são centrais. Consideramos que
um atendimento com um foco específico, pode tal modelo corresponderia à estratégia estatís-
ser considerada uma psicoterapia breve ou fo- tica descrita por Bohoslavsky (1991).
cal. Sua característica principal é centrar-se na
questão da escolha profissional. Concordamos O segundo determina que a entrevista
com Levenfus (1997): “um ponto de concor- de orientação é ligada à emergência do modo
dância geral em atendimentos breves refere-se atual de organização do trabalho, que exige a
à necessidade de maior atividade por parte do localização de novas competências e, por ou-
terapeuta” (p. 234). Para isso acontecer, o psi- tro lado, apresenta uma situação de emprego
cólogo assume um caráter mais diretivo dos tal, que, durante a vida profissional, se modi-
encontros, inclusive sugerindo atividades para fica constantemente. O objetivo da entrevista
serem realizadas em casa a fim de serem dis- é ajudar o orientando, de um lado, a ver seus
cutidas com o orientador durante a entrevista desenvolvimentos pessoais e profissionais
clínica. Tal postura provoca um envolvimento durante toda a sua vida e, de outro, a gestão
maior do orientando e otimiza o processo. das transições às quais ele deve fazer face.
Nessa concepção considera-se que a percep-
A ENTREVISTA INDIVIDUAL ção que a pessoa faz dela própria é tão im-
portante quanto a realidade. Essa entrevista
A entrevista é o principal instrumento tem como objetivo principal não somente a
do orientador profissional, e não é possível descoberta de si mesmo, mas também é per-
realizar-se um processo de orientação profis- cebida como uma metodologia de construção
sional sem utilizar-se desse recurso em algum de si. É possível considerar que essa seria a
momento do trabalho. modalidade conhecida em nosso meio como
a entrevista de orientação e reorientação de
O instrumento clássico, nesse sentido, é a carreira.
entrevista clínica, exaustivamente referendada
na obra de Bohoslavsky (1991). É fundamen- Outra contribuição relativa ao pedido
tal que o profissional tenha sempre presente o de atendimento por parte dos jovens é trazi-
tipo de vínculo que estabelece com a pessoa da por Zarka (citado por Guichard e Huteau,
2001), que realizou um estudo com 50 entre-
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Orientação Vocacional Ocupacional 257
vistas de orientação realizadas por orientado- grupos, que deve iniciar-se durante seu perío-
res profissionais na França, atendendo jovens do de formação profissional e consistir na bus-
em busca de uma definição profissional. Para ca de uma compreensão teórica do fenômeno
realizar o estudo, ela distinguiu o motivo, a grupal e na aproximação à complexidade de
demanda e o apelo. sua dinâmica.
O motivo diz respeito às razões que levam Por outro lado, pesquisar um livro de
o jovem a procurar o orientador, por exemplo, técnicas simplesmente não o habilita a aplicá-
a necessidade de o jovem inscrever-se no ves- las nos grupos ou mesmo no contexto indi-
tibular. vidual, tendo em vista a importância da vi-
vência da técnica antes de sua aplicação, que
A demanda designa a maneira como o jo- poderá ocorrer igualmente durante o período
vem formula sua ou suas questões em função de formação dos futuros orientadores, nas
do motivo. Algumas demandas são parado- disciplinas específicas de Orientação Vocacio-
xais: estão relacionadas a um pedido ambíguo nal e Profissional dos cursos de pedagogia e
de ajuda em relação ao fracasso escolar “aju- psicologia, nos encontros de supervisão du-
da-me a passar”; outras ainda dizem “influen- rante a realização dos estágios e também nos
cia-me para que eu seja capaz de me decidir”. cursos de formação oferecidos por entidades
independentes.
Quanto ao apelo, transformando-se, mui-
tas vezes, em entrevistas intermináveis, ele Nossa experiência tem mostrado o quan-
faz referência a uma expectativa – infinita to é importante o conhecimento vivencial da
porque indefinida – não verbalizada de uma técnica para o bom aproveitamento na coor-
demanda. Sua frase poderia ser assim coloca- denação do trabalho de orientação. Na abor-
da: “ajuda-me, para eu me assegurar de mi- dagem grupal, é importante que não se perca
nha decisão”. de vista o grupo de jovens ou adultos, pres-
tando atenção ao modo como eles reagem, a
Em nosso trabalho no LIOP, observamos, maneira como compreendem e respondem
muitas vezes, que os jovens vêm em busca de às questões propostas, sendo fundamentais,
uma “autorização”, e, no fundo, mascara ou- conforme já ressaltado, o compartilhamento e
tros conflitos, muitas vezes inconscientes, em o processamento da vivência ao final de sua
relação à escolha profissional. realização. No trabalho individual, por sua
vez, é essencial o manejo da modalidade clí-
O objetivo principal da entrevista de nica de escuta, devendo o orientador prestar
orientação deve ser o de levar os orientandos atenção à verdadeira demanda do sujeito.
a se interrogarem-se sobre suas formas de
identificações e suas idealizações, bem como Moreno, em sua primeira palestra profe-
incentivá-los à busca de informações. O pro- rida na Europa sobre o psicodrama, em 1954,
blema está em determinar em qual momento ao referir-se ao desempenho profissional do
é oportuno lhes ajudar ou lhes preparar para terapeuta, ressaltava a existência de “três ti-
escolher. E será que é esta a solicitação do jo- pos de desempenho profissional: habilidade
vem, trabalhar-se a si próprio para poder es- sem amor, amor sem habilidade e habilidade
colher uma profissão com maior autonomia? com amor” (1983, p. 54). Estabelecendo uma
analogia com o desempenho do orientador
CONSIDERAÇÕES FINAIS profissional, acreditamos na possibilidade de
desenvolvimento da habilidade para inter-
Em primeiro lugar, é importante ressal- vir nessa função; porém, entendemos serem
tar a necessidade de o orientador fazer a es- componentes essenciais complementares à
colha do referencial teórico que irá sustentar habilidade o interesse, o envolvimento e o
sua prática, mas tendo sempre presente as prazer; em suma, a identificação com tão no-
referências teóricas específicas da Orientação bre tarefa.
Profissional.
Um segundo aspecto refere-se ao prepa-
ro do orientador profissional para coordenar
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258 Levenfus, Soares & Cols.
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21
Técnicas e jogos para utilização
em grupos de orientação
Dulce Helena Penna Soares
A utilização de técnicas ou jogos em gru- TÉCNICA DE APRESENTAÇÃO POR
pos de orientação e reorientação profissional MEIO DE TELAS IMPRESSIONISTAS
tem sido cada vez mais realizada por orien- OU CARTÕES PUBLICITÁRIOS
tadores profissionais nas mais diversas situa-
ções, pois auxilia a atingir os objetivos gerais Histórico da técnica
da Orientação Profissional (OP), proporcio-
nando ao orientando uma melhor compreen- Trata-se de uma técnica que desperta
são de si mesmo e do mundo do trabalho, a inúmeros sentimentos de forma projetiva,
fim de escolher um futuro profissional com pois, ao escolher a primeira figura que lhe
maior autonomia. A seguir, serão apresenta- chama a atenção, a pessoa, sem perceber, está
das algumas técnicas desenvolvidas e adap- se identificando com aquela situação. No co-
tadas pelos membros do LIOP1 nos mais dife- mentário final, observamos que uma mesma
rentes grupos de OP, planejamento de carreira figura apresenta significados diferentes para
e reorientação profissional. Os grupos têm cada pessoa. Essa técnica é interessante de ser
encontros semanais ou workshops, conforme aplicada no primeiro dia como uma forma de
apresentado no livro POPI – Programa de In- apresentação diferente da habitual, e ao mes-
formação Profissional Intensivo (Soares, Mahl mo tempo, já traz elementos da dinâmica pes-
e Oliveira, 2005). soal de cada participante do grupo. A técnica
pode ser utilizada em qualquer modalidade
As técnicas são aplicadas em diferentes de grupo.
momentos do grupo: apresentação e integra-
ção, levantamentos de interesses, informa- Material
ção profissional, escolha propriamente dita,
por meio de seus determinantes e de suas a) Conjunto de fotografias e cartões-pos-
influências. tais de telas impressionistas2 (o coor-
denador pode escolher obras de outros
1 LIOP - Laboratório de Informação e Orientação Profissional que funciona junto ao do SAPSI (Serviço de
Atendimento Psicológico do Departamento de Psicologia da UFSC www.liop.ufsc.br).
2 As telas utilizadas pela autora fazem parte de uma coleção de obras impressionistas, vendidas em cartões
plastificados, o que facilita bastante sua utilização. São telas que apresentam especialmente o movimento
impressionista, com artistas como Renoir, Monet, Cézanne, Pissaro, Seurat, Van Gogh, Manet, entre outros.
São figuras de paisagens, barcos, cidades, grupos de pessoas, situações familiares (mãe com filho), entre
outras. Como alternativa, pode-se utilizar também os cartões postais publicitários que encontrarmos em
bares, restaurantes, exposições de arte, disponibilizados gratuitamente.
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Orientação Vocacional Ocupacional 261
movimentos artísticos). Pode-se utilizar “Vejo apenas uma coisa vaga, dúvidas, não
também cartões-postais de telas e qua- sei o que eu quero. No futuro, me vejo ajudando
dros artísticos recolhidos em museus e as pessoas, fazendo alguma coisa pelo outro”.
exposições de arte.
b) Conjunto de cartões-postais publici- SOCIOMETRIA GRUPAL
tários, que apresentam figuras mais
modernas, propagandas de produtos Em grupos de orientação e reorienta-
e serviços, representando melhor o ção profissional, observamos a importância
mundo atual. de os participantes se identificarem entre si,
principalmente no início dos trabalhos, mo-
Consigna mento em que estão todos inseguros sobre o
que vai acontecer nos encontros grupais. No
O coordenador coloca no centro da sala dia a dia, as pessoas se agrupam entre si por
um conjunto de cartões e pede a cada partici- diferentes critérios. Por exemplo, podemos
pante que escolha: sair para passear com determinadas pessoas,
mas talvez não desejássemos trabalhar com
a) uma figura representando o presente, elas. No estudo da sociometria de um grupo,
como a pessoa está se sentindo em re- solicita-se que os participantes façam escolhas
lação a sua escolha profissional; a partir de critérios, como, por exemplo, quem
do grupo seria escolhido para fazer um traba-
b) outra figura representando sua expec- lho coletivo ou uma viagem de férias. Nessa
tativa em relação a seu futuro, qual o técnica, explicitam-se apenas os critérios de
seu projeto de vida; semelhança e diferença entre os membros do
grupo e permite-se que pessoas se identifi-
c) pode também solicitar a escolha de ou- quem entre si a partir de algumas situações
tra figura que explicite quais suas ex- de vida e vivências semelhantes.
pectativas em relação ao trabalho que
está sendo iniciado, seja ele OP, Reo- Objetivos
rientação, Orientação de Carreira.
• Reconhecer alguns pontos de identifi-
Comentários cação entre os membros do grupo.
No final, ao comentarem a experiên- • Tornar os membros do grupo mais pró-
cia, José escolheu duas figuras praticamente ximos a partir de gostos, interesses e si-
iguais, sendo que a única diferença entre elas tuações de vida.
era a tonalidade, a do presente era mais neu-
tra e a do futuro era levemente mais “quen- • Auxiliar os participantes a se conhece-
te”, indicando que ele não estava procurando rem e se reconhecerem de forma lúdica.
muita mudança.
Consigna
Fernando comenta que ele e Roberta
escolheram a mesma figura, mas para ele o Todos de pé, com uma música animada
significado da ponte era diferente: ele estava ao fundo, devem andar pela sala, se alongan-
tentando unir duas atividades que gostava do e mexendo o corpo. Ao sinal da coordena-
de fazer e que não queria abandonar. Ele está dora, os participantes formam um círculo e
procurando justamente a “ponte” entre os dizem seu nome. A coordenadora solicitará
dois cursos frequentados no momento. Ro- que formem subgrupos a partir de critérios
berta disse: “No presente me sinto uma pon- definidos a priori:
te entre duas cidades, isto é, em dúvida entre
o caminho que pretendo seguir. No futuro Para grupos de OP:
escolho uma figura onde me sinto melhor,
mais definida”. 1. Quem é maior de 18 anos reúne-
-se à direita do orientador e quem é
Em um de nossos grupos, tivemos a se- menor, à esquerda.
guinte manifestação:
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262 Levenfus, Soares & Cols.
2. Quem faz cursinho (à direita), quem outros, e após a técnica se conheceram me-
está no terceirão (à esquerda). Quando lhor. Em um grupo de reorientação, a técnica
há um grupo intermediário, este se co- foi aplicada nos encontros finais, quando os
loca no centro, e assim sucessivamente membros já se conheciam melhor. Ao solici-
para cada novo critério estabelecido. tar aos participantes para escolherem os crité-
rios, eles falavam mais em sentimentos como
3. Outros critérios podem ser escolhidos ciúme, amor, etc. Um deles perguntou: quem
para conhecer melhor o grupo: quem já foi traído? Quem já traiu? No encontro de
nasceu na mesma cidade, quem é ori- avaliação, alguns deles comentaram ter sido
ginário do mesmo Estado, quem vem essa a atividade que eles mais gostaram de ter
de outro Estado ou país; quem mora participado.
com os pais, mora sozinho, mora com
amigos; quem já escolheu a profissão, TÉCNICA DA “TEIA GRUPAL”
quem está em dúvida sobre duas, ASSOCIADA AO “NOME DE ÍNDIO”
quem ainda não tem nem ideia do que
seguir; quem tem namorado, quem O momento de apresentação do grupo é
não tem. uma oportunidade para se trabalhar dois te-
mas importantes: o contrato de trabalho e um
4. Em um segundo momento, o coordena- nome indicativo de sua personalidade.
dor pede aos participantes que façam as
perguntas. Muitas vezes, eles brincam, Material
perguntando pelo time de futebol, pelo
estilo de música preferido, etc. Outras Um novelo de lã ou um rolo de cordão
vezes, levam mais a sério e perguntam que permita ser jogado e se desenrole com fa-
sobre as matérias de que mais gostam, cilidade.
as profissões que conhecem, os gostos
e interesses por determinadas coisas ou Objetivos
situações, etc.
• Oportunizar um primeiro momento de
Para grupos de reorientação profissional, reflexão sobre a escolha, pensando em
as perguntas devem ser formuladas a partir de como fazemos nossas escolhas no dia
suas características, já conhecidas do coordena- a dia.
dor a partir das entrevistas iniciais realizadas.
Por exemplo: • Oportunizar o estabelecimento do con-
trato coletivo de forma lúdica e “con-
1. quem trabalha, quem já trabalhou, creta” (por meio da teia que se forma
quem nunca trabalhou; com o novelo de lã).
2. quem pensa em trocar de curso, quem Consigna
quer ficar no curso que está;
O grupo se dispõe em círculo, todos sen-
3. quem fez vestibular sempre para o tados no chão. É jogado um novelo de lã ou
mesmo curso, quem fez para dois a um rolo de cordão pela coordenadora a um
quatro cursos diferentes, quem fez dos participantes do grupo. Este deve amar-
para mais de cinco cursos; rar a corda em seu dedo, se apresentar com
seu primeiro nome e jogar o novelo para outro
4. quem mora sozinho, mora com os pais, participante, sucessivamente até todos terem
com amigos, com esposo(a), etc., de se apresentado. Ao final, solicita-se que obser-
acordo com as características do gru- vem o desenho criado (muitas vezes o dese-
po. nho formado parece uma estrela) e deem um
significado para ele, aproveitando o momento
Comentários para fazer-se o contrato do grupo.
Os participantes se divertem muito com
essa técnica. Comentam que, ao chegarem ao
grupo, sentiam-se tímidos, sem conhecer os
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Orientação Vocacional Ocupacional 263
Quando todos tiverem se apresentado, Consigna
solicita-se que pensem e escolham para si um
nome de índio (Soares Lucchiari, 1993a, p. 43), Com a música de fundo, pede-se aos
simbolizando algo de si, como algum elemen- participantes que caminhem pela sala olhan-
to da natureza com o qual ele se identifique do uns para os outros com o objetivo de se
ou que represente uma característica de sua conhecerem pelo olhar. Logo após, coloca-se
personalidade. Cada um apresenta seu nome gravuras espalhadas no chão, e solicita-se
e vai desfazendo teia sucessivamente. que os participantes escolham uma que mais
chame a sua atenção. Cada figura tem uma
Comentários outra correspondente: pede-se então que os
participantes se unam conforme o par e, par-
Ao ser questionado o que acontece se tindo da figura, conversem em duplas para
alguém soltar o cordão, o grupo geralmente se conhecerem melhor. Depois de 15 minu-
responde que a figura se desmancha e fica tos, pede-se que cada um represente a pes-
faltando algo. Aproveita-se o momento para soa com quem conversou por meio de mas-
definir o que se espera do grupo, o contrato sa de modelar, mostrando aquilo que pode
em termos de sigilo, de participação, de assi- observar como característica pessoal do co-
duidade e de cumplicidade da teia para que lega. Logo depois, solicita-se que cada um
sejam alcançados os objetivos desejados. apresente sua massinha de modelar e conte
ao grupo por que o fez assim e como é tal
Também pode ser trabalhado o que esta- colega. Após cada apresentação, a pessoa co-
ria por trás do nome que cada um recebeu de menta como se sentiu e se concorda ou não
seus pais e a questão das expectativas dos pais com o que foi comentado pelo colega.
sobre o desenvolvimento dos filhos, a partir
da história do nome escolhido. Por exemplo, Comentários
em um grupo de OP, o jovem comenta que sua
mãe escolheu o mesmo nome de um vizinho, Esta técnica permite ao grupo integrar-se
que era engenheiro e muito rico. E agora ele com rapidez e de forma lúdica. Um jovem, por
pensava em escolher Engenharia! exemplo, confeccionou um avião, comentando
o seguinte: “Maria é muito viajandona”; outro
TÉCNICA DOS INTERESSES EM fez um celular, comentando: “Débora é muito
COMUM3 comunicativa”. Ana Beatriz desenhou uma ba-
lança com dois pesos, comentando: “Mariana
Geralmente, o primeiro encontro do representa ousadia e coragem”; Maria Luiza fez
grupo é um momento difícil de ser iniciado. uma luva de boxe, comentando: “Achei o An-
É preciso criar uma situação que desiniba o tônio muito batalhador”. Natanael representou
grupo e faça todos se sentirem mais à vontade a colega como uma bola de neve, comentando:
para falarem de si e oportunizar uma primeira “Onde ela passa leva todo mundo”.
integração do grupo.
TÉCNICA GINCANA DAS PROFISSÕES
Objetivo
Esta técnica proporciona, de uma ma-
Propiciar integração entre os membros neira ativa, um maior conhecimento das
do grupo, a partir da apresentação um interes- diversas profissões existentes hoje no mer-
ses comuns identificados a partir de figuras. cado, esclarecendo dúvidas e propondo no-
vas possibilidades de atuação além das mais
Material tradicionais.
Confeccionar cartões com figuras cola-
das, mas as figuras devem ser diferentes.
3 Técnica elaborada pelas estagiárias do LIOP, Karine Krawulski e Ivana Finkler, em 2001/1.
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264 Levenfus, Soares & Cols.
Objetivo um cartão para a outra, e esta teria duas chan-
ces em um minuto para acertar qual profissão
• Levar o jovem a conhecer um maior estava sendo descrita. Caso acertasse, ganha-
número de profissões, e o que fazem os ria um ponto, caso contrário, a outra equipe é
diferentes profissionais. que o ganharia.
• Informar sobre as profissões de manei- Geralmente, é possível abordar até 50
ra dinâmica e criativa. profissões durante um encontro. Muitas ve-
zes, os participantes pedem que sejam discuti-
• Despertar o jovem para buscar mais in- dos mais profundamente alguns aspectos das
formações sobre as profissões a partir profissões de seu interesse ou daquelas que
da constatação da grande quantidade deixaram dúvidas. É importante que o coor-
de profissões existentes que ele não co- denador tenha em mãos livros e revistas de in-
nhece. formação profissional, como o “Dicionário das
Profissões” ou os “Guias do Estudante” publi-
Material cados em diferentes anos, e os livretos sobre
os cursos oferecidos pelas universidades da
São usados cartões confeccionados pe- região onde está sendo realizado o trabalho,
los orientadores, feitos a partir informações para serem resolvidas eventuais dúvidas ou
encontradas nos guias de estudantes e de curiosidades. Os vencedores desta atividade,
faculdades. Sugere-se um número de 100 isto é, a equipe com maior número de acertos
profissões para que o jovem perceba como é pode ganhar um prêmio, como uma caixa de
complexo o mundo do trabalho e se dê conta bombons, por exemplo. É interessante no en-
da diversidade de profissões existentes. Su- contro seguinte realizar uma visita a diferen-
gere-se a leitura do livro Interesses e profissões: tes cursos universitários, a locais de trabalho
suporte informativo ao orientador profissional, de de interesse do jovem ou ainda trazer profis-
Rosane Levenfus. sionais para falarem sobre sua experiência na
escolha profissional.
Consigna
STOP DAS PROFISSÕES4
Divide-se os participantes em dois gru-
pos. Cada grupo receberá uma determinada Breve histórico
quantidade de cartões e deverá ler, um de
cada vez, para o outro grupo adivinhar qual é Esta técnica foi criada durante uma aula
a profissão que está sendo descrita. O próprio de filosofia (quando a autora realizava seu
grupo estabelece as regras, como, por exem- estágio em psicologia escolar – trabalhando
plo, quantas chances cada um tem para res- com orientação e informação profissional)
ponder, o tempo estipulado para responder, para uma turma de primeiro ano do ensino
etc. Em um segundo momento, nos últimos médio. Um dos alunos sugeriu: “Vamos fazer
15 minutos da atividade, as regras podem ser o jogo stop das profissões!”, e juntos fomos
mudadas: a coordenadora lê o cartão, e a equi- pensando de que maneira ele funcionaria.
pe que responder primeiro (sem tempo pre- Nesse jogo, são formadas equipes que compe-
determinado, mas com uma só chance para tem entre si, mas pode ser jogado individual-
acertar) ganha o ponto. Tal modificação tem o mente. Devem ser preenchidas o mais rápido
intuito de tornar o jogo mais dinâmico e abor- possível as colunas determinadas pelos joga-
dar um maior número de profissões. dores com palavras que comecem com a letra
que foi sorteada previamente. Por exemplo,
Comentários sorteou-se a letra B; as colunas são formadas
pelos seguintes itens: nome de cidade, fruta,
Um dos grupos, por exemplo, estabele- novela, filme, carro, etc. Ganha aquele que
ceu a seguinte regra: uma equipe deveria ler
4 Técnica criada pela estagiária do LIOP, Raquel de Barros Pinto, em 1999/2.
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Orientação Vocacional Ocupacional 265
preencher mais rapidamente as colunas com estar em mais de uma categoria. Por exemplo,
palavras que comecem com a letra B. Aquele o curso de Psicologia pode estar vinculado à
que preenchê-las mais rápido deve falar stop! área de saúde ou de humanas, conforme a uni-
E, se estiver tudo correto, recebe um ponto. versidade. No final, ganha aquele grupo que
tiver o maior número de acertos.
Objetivos
Comentários
• Fornecer informação profissional de
maneira lúdica. No decorrer do jogo, o orientador profis-
sional deve, junto com os alunos, refletir acerca
• Colocar o jovem em contato com gran- das profissões que surgem, se todos as conhe-
de número de profissões, levando-o a cem, questionando sobre as atividades dos
se interessar em conhecê-las melhor e, profissionais, onde trabalham, se pertencem
assim, procurar mais informações. a uma só categoria, salientando que a divisão
em exatas, humanas e biológicas não é rígida,
Consigna pois uma mesma profissão pode pertencer a
diferentes áreas. Observa-se, muitas vezes, uma
Inicialmente é importante o orientador falta de informação muito grande por parte dos
fazer uma exposição sobre as diferentes áreas alunos, classificando erroneamente muitas das
do conhecimento profissional, já que o mundo profissões listadas. Outras consignas podem ser
das profissões é organizado. Como o objetivo criadas; por exemplo, listar as profissões que
principal é a informação profissional, as se- trabalham no ar, na terra e na água, ou as que
guintes categorias de profissões poderão com- trabalham em ambiente fechado ou aberto, etc.
por as colunas a serem preenchidas no jogo
“Stop das Profissões”: TÉCNICA DOS FANTOCHES DAS
PROFISSÕES6
A turma pode ser dividida em grupos de
quatro a seis alunos. Escreve-se no quadro ne- Esta técnica foi inspirada no trabalho
gro as quatro colunas. Cada grupo deve ter sua realizado pelas estagiárias de Psicologia no
folha com as colunas. O sorteio das letras dá-se Hospital Infantil Joana de Gusmão, as quais
da seguinte maneira: cada integrante do grupo utilizaram fantoches para minimizar a ansie-
diz um número, estes são somados, resultando dade causada pela proximidade da realização
na letra da rodada (por exemplo: 7 + 5 + 3 = 15 de intervenções cirúrgicas em crianças. Os
que corresponde à letra P). Os grupos devem pacientes são informados dos procedimentos
preencher as colunas com profissões que come- por meio de histórias contadas pelas estagiá-
cem com a letra P. Aquele que acabar primeiro rias.
fala “Stop!”. Após esse momento, nenhum gru-
po deve continuar a escrever. Todos os grupos Objetivos
falam como preencheram as colunas, e o orien-
tador, ao escrever no quadro, aproveita a opor- • Trabalhar, de forma lúdica, descontraí-
tunidade para corrigir o que estiver errado e da e mais próxima do real a questão dos
esclarecer sobre aquelas profissões que podem
Exatas Humanas Biológicas Não convencionais5
5 Podem dizer respeito àquelas que não exigem curso técnico ou curso superior por exemplo, sapateiro, lixei-
ro, pescador, entre outras. O orientador pode criar outras categorias, tendo sempre em vista a necessidade
do grupo que está coordenando.
6 Esta técnica foi criada pela estagiária do LIOP, Rubia Barasuol, durante seu estágio em 1999.
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266 Levenfus, Soares & Cols.
estereótipos, dos preconceitos e da insu- As dramatizações podem ser realizadas
ficiência de informações a respeito das como ponto de partida para inúmeras discus-
profissões. sões como o fato de só esse profissional po-
• Trabalhar, de forma lúdica e simbólica, der realizar essas atividades; serem essas (ou
a influência da família na escolha da somente essas) realmente as atividades reali-
profissão. zadas por esse profissional; como se sentem
dramatizando esses profissionais; quais os
Material valores e os preconceitos envolvidos. A partir
disso, é possível fornecer as informações ne-
O orientador profissional deve confec- cessárias para que se desfaçam as incorreções
cionar fantoches vestidos conforme os profis- e os estereótipos acerca das profissões por
sionais que representam. Por exemplo, entre meio de material informativo.
os fantoches que utilizamos, temos um médi-
co vestido de branco, um juiz carregando um Consigna 3
código penal, um arquiteto carregando uma
régua T, um psicólogo com um livro de Freud Algumas vezes, os pais desejam que seus
na mão, um químico com uma pipeta na mão, filhos optem pela mesma profissão deles ou
etc. Os fantoches acabam por representar es- aquela não escolhida por eles. Dessa forma, os
tereótipos de profissionais, mas o objetivo fantoches podem ser utilizados, por exemplo,
principal é tê-los, concretamente, para traba- como auxiliares na técnica do role-playing do
lhar de forma lúdica com os jovens. Quando papel dos pais (Soares-Lucchiari, 1993, p. 61).
se tem mais tempo com o grupo, é possível Fazer uma reunião de pais, em que cada fan-
confeccionar os fantoches com os participan- toche represente um dos pais escolhidos pelos
tes; nesse caso, oportuniza-se a pesquisa sobre participantes; nela, os pais irão conversar so-
as profissões. Alguns fantoches “neutros” ou bre seu desejo de que o filho siga seus planos
uma estudante feminina e um estudante mas- profissionais, envolvendo as vantagens da es-
culino devem ser confeccionados, a fim de as- colha e como os pais fariam para convencer
sumirem o papel de qualquer profissional. seus filhos.
Consignas TÉCNICA PARA TRABALHAR A
PERCEPÇÃO DA SATISFAÇÃO NO
Esta técnica pode ser usada de várias for- TRABALHO (PROFISSIONAL FELIZ
mas sob diferentes consignas, de acordo com OU INFELIZ)
o objetivo visado.
Breve Histórico
Consigna 1
Esta técnica foi utilizada pela primeira
Cada componente do grupo escolhe um vez em um trabalho de OP junto a uma tur-
fantoche e logo depois dramatiza uma situação ma de oitava série do ensino fundamental
em que deve listar quais as atividades realiza- realizado por estagiário do LIOP em uma
das por aquele profissional representado pelo escola pública de Florianópolis. A maneira, a
fantoche no seu dia-a-dia profissional. profundidade e a elaboração da apresentação
dependem do tamanho da turma e do seu ní-
Consigna 2 vel de amadurecimento. Pode ser aplicada no
primeiro encontro com uma turma de alunos,
Dividir o grupo em subgrupos. Cada a fim de sensibilizá-los para o trabalho de OP,
subgrupo deverá escolher alguns fantoches destacando a importância de escolher uma
e dramatizar uma cena em que todos estarão profissão de que se goste a fim de sentir-se
envolvidos de forma a listarem o conhecimento satisfeito e feliz no desempenho de seu traba-
que têm acerca das atividades realizadas pelos lho.
profissionais representados pelos fantoches.
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Orientação Vocacional Ocupacional 267
Material fissional. Solicita-se que o participante
represente os diferentes momentos em
Folhas de papel sulfite A4, revistas, jor- sua vida profissional em que se sen-
nais, tesoura e cola. tiu satisfeito e, do outro lado da folha,
aqueles em que não se sentiu satisfeito.
Objetivos A técnica permite uma reflexão sobre
esses momentos e uma posterior ela-
• Sensibilizar para o trabalho de OP, de boração quando da apresentação e da
maneira descontraída e lúdica. justificativa das figuras escolhidas.
• Em processo de orientação de carreira
• Facilitar e dinamizar processos de as- em empresas ou em setores profissio-
sociação e de expressão de elementos nais específicos, pode-se solicitar um
considerados importantes para o jo- cartaz que represente aquela catego-
vem no que diz respeito ao modo como ria profissional ou empresa na qual o
ele percebe a satisfação no trabalho e participante está inserido: “Represente
sua importância para a realização pes- um bancário trabalhando feliz e um
soal e profissional. bancário trabalhando infeliz”, ou “Re-
presente um professor (ou médico ou
• Auxiliar o jovem a expressar ideias arquiteto, etc.) satisfeito em seu traba-
pré-conscientes que seria incapaz de lho e outro insatisfeito”.
verbalizar sem a ajuda do material ex-
pressivo.
As diferentes consignas Comentários
Solicita-se que os participantes esco- Geralmente, são produções individuais
lham, para cada situação, uma fotografia – que permitem, por meio da escolha de ima-
ou fragmentos de diferentes fotos recortadas gens, a tomada de consciência de aspectos
– respondendo ao tema proposto ou a uma pessoais em relação às diferentes profissões,
questão específica: surgindo aspectos preconceituosos a serem
discutidos no grupo. Também observamos em
• Para alunos de ensino fundamental, uti- grupos de OP uma ênfase em profissões da
liza-se uma consigna bem simples: “Es- moda para as meninas: os profissionais felizes
colha uma figura de um profissional que são geralmente atrizes, apresentadores de TV
está feliz em seu trabalho e escreva em- e modelos, enquanto meninos colam fotos de
baixo “por que” você acha que ele está jogadores de vôlei, tênis ou futebol. Os profis-
feliz. Do outro do lado da folha, cole a sionais infelizes, muitas vezes, são trabalha-
figura de um profissional infeliz em seu dores rurais, “os sem-terra” ou pessoas que
trabalho e faça como na anterior. trabalham “no pesado”.
• Para alunos de ensino médio, pode-se No caso da reorientação, como são pes-
solicitar o seguinte: “Escolha a figura soas que já passaram pela experiência do
de um profissional satisfeito em seu tra- trabalho, sua percepção estará mais voltada
balho e, do outro lado da folha, a de para a realidade do mundo do trabalho, o
um profissional insatisfeito. Explique que não acontece com os jovens, que expres-
por que e responda: para você, o que é sam principalmente ideias estereotipadas e
importante a fim de se ter satisfação no fantasiosas quanto à possibilidade de se ser
trabalho?”. feliz no trabalho (Soares, 1987).
• Para adultos em processo de reorienta- Por exemplo, em um grupo de jovens
ção de carreira, é importante levar em de 8ª série, um deles escolheu a propaganda
consideração a trajetória profissional de um trator, com um operário “infeliz” tra-
já percorrida pelo sujeito e seus senti- balhando, enquanto outro escolheu a mesma
mentos de satisfação e insatisfação nos propaganda, só que, dessa vez, era um can-
diferentes momentos de sua vida pro- tor e compositor famoso como um profissio-
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268 Levenfus, Soares & Cols.
nal “feliz”, pois ele estava ali “só fazendo a É também importante lembrar que as
propaganda”, não precisava trabalhar como o pessoas possuem interesses amplos, às vezes
outro operário. por mais de uma área. Deve-se, então, anali-
sar as profissões que estejam relacionadas aos
Após a confecção do cartaz, o que leva principais interesses atuais e futuros.
aproximadamente 20 minutos, passa-se ao
momento de apresentação. É possível realizá- Objetivos
la de diversas maneiras:
• Levar o indivíduo a conhecer-se me-
• Divide-se a sala em pequenos grupos, lhor a partir do levantamento de seus
e cada participante apresenta sua co- interesses atuais/futuros e de aptidões
lagem e suas justificativas aos demais (competências), procurando analisar
colegas. as profissões que possam estar relacio-
nadas aos principais interesses.
• Cada participante cola seu cartaz na
parede e escuta o comentário dos cole- Consigna
gas. No final, ele explica o porquê das
figuras escolhidas. a) Escreva no papel seus principais in-
teresses atuais, um por um. O que você
• Cada participante apresenta seu pró- gosta de fazer não só com relação aos estu-
prio cartaz antes de ouvir a opinião do dos, mas também a outras atividades (la-
grupo. zer, os tipos de livros, tudo aquilo por que
você se interessa minimamente).
É importante que o coordenador faça,
no final, uma pequena exposição sobre o b) Agora, pense em você daqui há sete
significado do trabalho (Albornoz, 1986) e ou oito anos, quais seriam seus prin-
sobre a importância de ele ser realizado por cipais interesses, o que você espera ter
uma pessoa que goste, isto é, a importância ou como vai estar nessa época. O que
de escolher uma atividade prazerosa para vai mudar? Coloque esses interesses fu-
poder se sentir feliz em seu desempenho. turos no papel. Certamente muita coisa irá
mudar: não tenha medo de deixar de lado
TÉCNICA PARA ANALISAR INTERESSES certas coisas que você faz hoje e de assumir
E POTENCIALIDADES7 outras, já que isso é fundamental.
Os interesses devem ser pensados di- c) Agora, escreva na folha aquilo em que
namicamente, pois mudam com o tempo. você é competente (efetiva ou poten-
Fazendo-se um cruzamento entre os inte- cialmente). Tente pensar nas coisas que
resses atuais/futuros com as competências você faz ou pode fazer bem na vida, aquelas
desenvolvidas/a desenvolver, visualizam- coisas nas quais você é ou pode ser com-
se os pontos de congruência permanentes e petente, tem ou pode ter melhor desempe-
aqueles que terão caráter passageiro em nos- nho, mas de forma dinâmica, pensando no
sos projetos de vida profissional. desenvolvimento de seu potencial. Evite a
comparação com os outros. Tente levantar
É importante considerar o que é relati- tudo o que você lembrar. Não se intimide
vamente constante na vida da pessoa, o que nem seja modesto.
muda muito pouco e como a pessoa pode fa-
zer esses interesses e satisfações permanentes Comentários
terem espaço em sua vida profissional; como
fazer com que eles estejam presentes em seu Do levantamento de interesses, de apti-
trabalho e quais cursos podem ser mais ade- dões, de competências e de potencialidades,
quados para esses interesses que se repetem surgirão algumas áreas como destaque. Ao se
ao longo da sua vida.
7 Técnica criada pela estagiária do LIOP, Márcia Conceição Bottari de Siqueira, em 1998. Se baseia em suges-
tões encontradas no livro Seu diploma, sua prancha, de Macedo (1998).
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Orientação Vocacional Ocupacional 269
imaginar, por exemplo, as profissões de médi- Soares, Ehrlich e Castro (2000), apresentam
co ou engenheiro, percebe-se que são vidas di- uma discussão sobre os determinantes da es-
ferentes; portanto, projetos diferentes que im- colha, sendo uma leitura interessante para es-
plicam também interesses e potencialidades clarecer sobre o que discutir após a aplicação
diferentes. Observa-se que, ao listarem suas desta técnica.
competências, os participantes percebem que
eles se sentem competentes em muito mais Comentários
coisas do que eles estariam imaginando antes
de iniciarem o exercício. Esta dinâmica foi desenvolvida a partir
de nossa experiência em um grupo de reo-
DETERMINANTES DA ESCOLHA8 rientação profissional em que os participantes
traziam questões referentes às dificuldades en-
Objetivos volvidas em suas escolhas, como as seguintes:
• Possibilitar às pessoas que percebam a) Os inúmeros “nãos” recebidos impli-
de que forma realizam suas escolhas, cam perda de autonomia para esco-
buscando identificar qual o nível de lher. Joana diz: ...“Eu já recebi tantos
autonomia e quais os determinantes ‘nãos’ que agora nem vou mais atrás
envolvidos nesse processo. quando já sei que a resposta é não,
nem insisto mais...”.
Consigna
b) sentir-se culpado por ter feito uma es-
Desenha-se uma linha no chão da sala, colha errada ou medo de fazer esco-
que pode ser feita com uma fita crepe ou lhas e errar novamente: “Eu prometi
com cordão. Os dois extremos da linha fixa- para mim mesmo que não posso mais
da no chão representam a possibilidade de errar”.
autonomia de escolha (autodeterminação) e, o
outro, a falta desta e a presença dos fatores Quando questionados sobre o que signi-
socioeconômicos como determinantes (he- ficava escolher, vieram as seguintes respostas:
terodeterminação). Não acreditamos em uma indecisão; tomar decisões; uma coisa difícil; estar
autonomia plena, pois estamos inseridos em entre o céu e o inferno; um leque de opções; sofrer
um sistema socioeconômico que nos cons- por não poder escolher tudo; busca da escolha cer-
titui como sujeitos, e não podemos negar ta; buscar o melhor para si; tentar ser feliz.
sua influência. Por autonomia, entendemos
o sentimento de que a escolha é aquela que A escolha também se inviabiliza quando
queremos fazer, e não a escolha dos outros questões objetivas impedem, como um pai
(pais e sociedade). que não quer pagar o curso de Oceanografia,
pois não acha que é uma boa escolha para sua
As pessoas devem expressar o nível de filha e diz: “Este é curso de surfista”.
autonomia que consideram envolvido em suas
escolhas, posicionando-se, corporalmente, em A escolha é difícil quando algo deve ser
algum ponto da linha e esclarecendo por que deixado de lado – a elaboração do luto: quan-
se encontram nessa determinada posição. do se tem que olhar entre várias opções agradáveis
Após os comentários de cada um, pergunta-se e, no momento da escolha, deixar as demais para
se gostariam de mudar de lugar e o porquê. ficar só com uma.
Por último, pergunta-se a cada um que tenha
mudado de lugar o que seria possível fazer, A escolha implica conhecimento e infor-
de forma prática, para viabilizar tal mudança. mação sobre o que será escolhido: é difícil esco-
lher também porque, muitas vezes, não se conhece
o que se está escolhendo.
Após explorar com o grupo o significa-
do de escolher para cada um deles, discute-se
8 Técnica criada pela Profa Edite Krawulski, juntamente com as estagiárias do LIOP, Márcia Siqueira e Carla
Cascaes, em 1998.
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270 Levenfus, Soares & Cols.
sobre os determinantes das escolhas (escolhas ficuldades de cada pessoa em escolher ou em
autodeterminadas versus heterodeterminadas pôr em prática seus projetos. Bohoslavsky
por questões socioeconômicas). Alguns jovens (1991) insistia no diagnóstico de “orientabili-
posicionam-se mais próximos da autodetermi- dade”, isto é, ser capaz de responder à seguin-
nação, outros mais próximo das determinações te questão: esta pessoa tem condições no atual
socioeconômicas, e a maioria em pontos inter- momento de fazer uma escolha? A seguir, o
mediários, mas dificilmente alguém se coloca orientador deve procura responder então: por
no extremo da linha. Pergunta-se se alguém que está difícil para esta pessoa escolher? O
gostaria de mudar de lugar, e acontece uma que a está impedindo de realizar-se no campo
mudança no sentido de buscarem a autodeter- profissional?
minação por sentirem-se nesse momento do
processo mais conscientes dos impedimentos Objetivos
sociais e com mais condições pessoais de en-
frentarem as dificuldades. Ou seja, estão que- • Auxiliar a pessoa a objetivar sua difi-
rendo maior liberdade para escolher, enfren- culdade em colocar em prática seu pro-
tando os familiares que estão lhes impondo jeto profissional.
escolhas.
• Auxiliar a pessoa a formular ou refor-
Maria, depois de ter trocado de posição mular seu projeto profissional.
várias vezes, “decidiu” ficar mais próxima ao
extremo da heterodeterminação, dizendo que Consigna
havia “se tocado de várias coisas”, “Puxa vida,
só agora percebi que minha escolha pelo curso Solicita-se a todos para sentarem-se em
de Letras não foi tão autônoma como eu pen- círculo, em um ambiente confortável. O coor-
sava... fui influenciada pela minha cunhada...” denador explica a atividade e oferece várias
Maria, no início da atividade, disse que suas almofadas (ou outros objetos que possam ser
escolhas sempre foram muito independentes, escolhidos pelas pessoas). Cada participante
“nunca fui atrás de ninguém”, mas depois deve escolher uma das almofadas para repre-
pôde perceber que sua própria escolha profis- sentar sua dificuldade em escolher ou em colo-
sional (diplomata) teve a influência da sua tia. car em prática seu projeto profissional, o que a
está impedindo de decidir-se em relação à sua
Quando perguntados sobre o que pode- escolha profissional (falta de tempo, vontade,
riam fazer na prática para conseguirem maior família, excesso de trabalho, etc.). Assim que
autonomia em suas escolhas, alguns coloca- todos realizarem essa primeira parte, o coor-
ram arrumar um emprego, pois teriam maior denador do grupo pede que cada um expo-
independência financeira de seus pais, e assim nha aos demais o que a almofada representa,
ficaria mais tranquilo escolher sem precisar dizendo juntamente o que deseja fazer com
entrar em conflito com os pais. ela. O que fazer? Como poderia resolver sua
dificuldade? Os colegas do grupo podem auxi-
Quando questionado o fato de que as liar com sugestões de como eles resolveriam a
mudanças geralmente são no sentido de bus- situação se estivessem no lugar do colega.
car maior autonomia de escolha, pergunta-se
ao grupo: será que podemos nos independi- Comentários
zar totalmente dos outros e fazermos nossas
escolhas apenas baseados na autodetermina- Observa-se que os grupos se mobilizam
ção? Considerando que estamos inseridos no bastante, pois se sentem colocados frente à si-
âmbito social, é nele que vamos trabalhar, nos tuação de definir para si aquilo que os impede
realizar ou não profissionalmente, seria possí- de “ser feliz” (Bohoslavs-ky, 1991). A seguir,
vel pensar se somos assim tão autônomo? há alguns relatos interessantes de um gru-
po de reorientação profissional realizado no
Impedimentos da escolha LIOP, ao responderem às questões “O que está
É importante no início do trabalho de
orientação e reorientação diagnosticar as di-
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Orientação Vocacional Ocupacional 271
impedindo minha escolha? O que fazer com este Comentários
impedimento?”.
O fato de comprar somente uma profis-
Débora: “Eu mesma. Tenho medo de mu- são mobiliza o jovem para a escolha. O orienta-
dar, o que as pessoas vão pensar de mim, te- dor deve ser sensível e confeccionar para o jo-
nho medo de escolher. E isso eu jogo longe.”. vem aquilo que ele está “precisando” receber,
podendo utilizar esse momento para dar um
Gabriela: “Peguei quatro almofadas: feedback para o jovem. Vejamos um exemplo:
uma é a separação dos meus pais, não sei o Joana cursava Contabilidade, mas, apesar de já
que fazer com ela; a segunda é falta de tempo, estar trabalhando na área, pensava em cursar
a única coisa que eu posso fazer é me treinar Direito. Na loja comprou um código civil (di-
mais, por isso fico com ela; a terceira é an- reito) e pagou com sua calculadora (contador).
siedade, sempre me preocupo com o futuro, As orientadoras representaram um código ci-
com meus pais, com o que vai acontecer, isso vil com a massinha de modelar e deram para
eu quero jogar fora; a quarta é o medo, tenho Joana levar com ela.
medo de tudo, de andar sozinha na rua, de
coisas pavorosas, de ficar sozinha em casa. No final, o grupo comenta como se sen-
Isso eu também quero jogar fora.”. tiu ao ter que dar algo importante para si em
troca da profissão nova que estava escolhen-
Gabriel: “Dificuldade. Dificuldade das coi- do. Esta é uma oportunidade de trabalhar o
sas que acontecem na vida, medo de mudar. De luto por tudo que deve ser deixado de lado
decepcionar as pessoas. Jogar longe não adian- quando se faz uma escolha.
ta, tenho que trabalhar, coloco-a a meu lado.”.
TÉCNICA DA BALANÇA
Observa-se como o fato de concretizar
a dificuldade na almofada auxilia o jovem a Esta técnica foi criada para trabalhar o
materializá-la e a ver com maior clareza o que visível conflito que costuma surgir em gru-
é possível fazer, qual a melhor maneira de re- pos de reorientação: continuar como estou ou
solver a questão, se é jogando fora, enfrentando, mudar? Muitas vezes, a escolha é difícil por-
colocando-a ao lado. que a pessoa não consegue pesar o custo e o
benefício de ficar como está ou de mudar de
LOJA DE TROCAS PROFISSIONAIS9 escolha.
Objetivos Objetivos
• Auxiliar o jovem a perceber que toda • Auxiliar a tomada de consciência dos
escolha da profissão implica deixar prós e dos contras envolvidos em cada
algo e elaborar o luto pelas profissões escolha, visualizando os custos e os be-
não escolhidas. nefícios de cada opção.
Consigna • Auxiliar a trabalhar o luto pelo que
deve ser deixado em benefício da es-
Organiza-se um local onde uma loja seja colha.
materializada através de almofadas ou mesas
da sala de aula. Os orientadores profissionais Consigna
assumem o papel de vendedores, e os jovens
são os compradores de “mercadorias-profis- Solicita-se ao grupo, como tarefa para
sões”. São oferecidas todas as oportunidades casa, desenhar uma balança pesando os custos
profissionais, e o jovem deve escolher aque- e os benefícios de sua atual ocupação e outra
la que vai comprar. Deve pagar com algo em pesando os custos e os benefícios de uma mu-
troca. Enquanto se estabelece a troca, as coor- dança, com a troca de ocupação ou simples-
denadoras do grupo confeccionam com mas-
sinha de modelar algo representando aquilo
que o jovem está comprando.
9 Esta técnica foi adaptada pelas estagiárias do LIOP, Manuela Fischer e Priscila Rosa, em 2000, e é uma adap-
tação da Técnica Loja das Profissões (Soares e Krawulski, 1999, p.83).
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272 Levenfus, Soares & Cols.
mente com a mudança na mesma ocupação. Débora: “Apesar dos custos de minha atual
De cada lado das balanças devem ser listados ocupação, contabilidade, tenho que ser generosa
os aspectos positivos e negativos de cada esco- comigo mesma. Acho que vai ter mais benefícios no
lha. Ao final, cada balança deverá tender para final, quando já for profissional no direito”(sic).
o lado que tiver o maior peso para a pessoa.
Pedir que imaginem aquelas balanças antigas, Michele: “Fiz uma balança representando
em que de um lado da bandeja era colocado o minha atual atividade e outra, representando como
peso e do outro lado o que estava sendo pesa- eu gostaria que fosse essa atividade. Nas duas situa-
do (p. ex., o quilo de arroz ou de feijão). ções, os custos são mais pesados”. (sic).
Comentários No final, discute-se sobre as atividades
realizadas que sempre têm algum custo e al-
Inicialmente, pergunta-se como foi para gum benefício envolvidos. Às vezes, os cus-
cada um confeccionar suas balanças. Em ge- tos são maiores, e outras vezes os benefícios.
ral o grupo comenta a dificuldade de imagi- É possível mudar essa relação na atividade
nar uma situação diferente da que está sendo atual ou é preciso mudar de atividade? O que
vivida agora, além da dificuldade de trocar o é preciso fazer nesses dois casos para que os
certo pelo que ainda não se conhece e do medo benefícios sejam maiores? Na continuidade do
do novo, do medo de mudar. A seguir, alguns trabalho, pode-se priorizar a discussão sobre o
exemplos: significado do trabalho (técnica do conceito do
trabalho, Soares e Krawulski, 1999, p. 81) para
cada participante do grupo.
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22
O uso de narrativas de vida
na orientação de carreira
um enfoque construtivista
Mauro de Oliveira Magalhães
UM NOVO CONCEITO DE CARREIRA temas e os conceitos que o sujeito desenvolve
e que dão sentido a seus esforços de carreira”
Orientadores profissionais propõem-se (p. 257). Desse modo, é perfeitamente possí-
a orientar indivíduos com relação a suas car- vel apresentar uma carreira externa aparente-
reiras profissionais e, muitas vezes, subesti- mente aleatória e desconexa, e, mesmo assim,
mam a necessidade de levar seus clientes a ter conceitos muito claros sobre objetivos e
reconhecerem a existência de um processo de motivações de carreira. Tal argumento levou
desenvolvimento pessoal denominado car- Schein (1990, 1993) a propor seu modelo de
reira. O termo carreira pode receber inúmeras âncoras de carreira.
interpretações. A sua definição está condicio-
nada a fatores históricos, econômicos, cultu- CARREIRA COMO UM PROCESSO
rais, etc. Nesse sentido, Schein (1990) alertou SUBJETIVO
que as transformações constantes no mundo
do trabalho e das organizações não permitem Na verdade, a distinção entre carreiras
mais especificar o que seria a carreira típica de interna e externa havia sido anteriormente
profissionais de quaisquer áreas e atribuições. apontada por Hughes (1958) sob outra termi-
A previsibilidade é mínima, e a probabilidade nologia. Em lugar de carreiras externa e in-
de transições inesperadas aumenta. A varia- terna, o autor diferenciou carreira objetiva de
bilidade de empregos e ocupações observada subjetiva. A carreira objetiva é externamente
nas trajetórias de carreira de muitos profissio- observável; já subjetivamente, uma carreira
nais lhes dá uma aparência caótica e fragmen- é a “perspectiva mutante por meio da qual o
tada. Em vista dessa realidade, Schein (1990) sujeito vê sua vida como um todo e interpreta
recomendou que a Orientação Profissional o significado de seus atributos, de ações e de
deve mudar seu foco para o que denominou acontecimentos de sua vida” (Hughes, 1958,
“carreira interna”, em vez da ênfase predo- p.63). Ora, em termos psicológicos, a carreira
minante sobre a “carreira externa”. A carreira pode ser considerada um processo contínuo
externa refere-se à sequência de ocupações e de busca, de construção e de reconstrução de
etapas de crescimento profissional que podem significado. Terkel (1974) concluiu que o tra-
ser identificados por um observador externo, balho é a busca não somente do pão de cada
ou seja, as informações que encontramos em dia, mas também do significado de cada dia.
um curriculum vitae. Por outro lado, a “carrei- A obra clássica de Super (1963) sobre a impor-
ra interna” foi definida pelo autor como “os tância do autoconceito no desenvolvimento
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Orientação Vocacional Ocupacional 275
vocacional já salientou que a autorrealiza- dimensional atentou para a heterogeneidade
ção do indivíduo ocorre na implementação do fenômeno e levou à construção de instru-
do tipo de pessoa que pensa ser por meio do mentos diagnósticos de tipos de indecisão,
trabalho. Para Super (1963), o indivíduo inter- de acordo com múltiplas dimensões. O Career
preta e organiza sua experiência, traduzindo-a Decision Profile desenvolvido por Jones (1989) é
em termos vocacionais, para então buscar a re- um exemplo desse esforço.
alização dos autoconceitos formulados. Nesse
aspecto, a visão de Super (1963) concorda com Essas definições positivistas da indeci-
um pressuposto fundamental da abordagem são contribuíram consideravelmente para sua
construtivista, qual seja, a mente é um sistema compreensão. Porém, não trouxeram avanços
ativo e construtor. Na perspectiva construti- substanciais para o tratamento do problema.
vista, são estudadas as estruturas formadoras Savickas (1995) argumentou que a abordagem
dos significados que criam a experiência indi- geralmente descontextualiza o fenômeno, ex-
vidual e que determinam como elas mudam. cluindo a experiência subjetiva do indivíduo
Nesse sentido, ao abordar o fenômeno da e centrando suas intervenções na indecisão
indecisão vocacional, o enfoque construtivis- tomada abstratamente. Em contraste às visões
ta preocupa-se com o esforço do sujeito para positivistas, o autor propôs uma abordagem
atribuir significado aos momentos de descon- construtivista que focaliza a experiência indi-
tinuidade e hesitação em sua vida. vidual e subjetiva da indecisão.
DEFINIÇÕES POSITIVISTAS DA ENFOQUE CONSTRUTIVISTA DA
INDECISÃO VOCACIONAL INDECISÃO VOCACIONAL
Para melhor caracterizar a orientação A abordagem construtivista quer levar o
construtivista diante da escolha profissional, sujeito a conceber e a experimentar consciente-
irei traçar um breve histórico das definições mente sua carreira subjetiva. E, para experien-
científicas da indecisão vocacional no século ciá-la, ele deve ser capaz de lembrar o passado
passado de acordo com Savickas (1995). e antecipar o futuro. As pessoas que, por al-
guma razão, encontram-se fixadas no presente
A indecisão vocacional como fenômeno imediato, não possuem uma carreira subjetiva.
objetivo foi tratada a partir de três perspectivas O reconhecimento da carreira subjetiva será
que historicamente sucederam-se conferindo- possível por meio do estabelecimento de cone-
lhe uma complexidade crescente: o conceito di- xões entre comportamentos passados, presen-
cotômico, o contínuo unidimensional e o con- tes e alternativas futuras (Hughes, 1958).
ceito multidimensional. A visão dicotômica da
indecisão categorizou os clientes em indecisos Orientadores construtivistas veem a in-
e decididos, e gerou numerosas pesquisas com decisão profissional como o sinal de uma
o objetivo de identificar as características que transformação em curso. Nesse sentido, é
diferenciavam os dois grupos. A definição de uma experiência normal associada às tran-
um contínuo bipolar entre indecisão e decisão sições e transformações inerentes ao desen-
superou tal dicotomia e embasou a construção volvimento humano. A indecisão revela he-
de muitos instrumentos que se propõem a ofe- sitação antes da mudança. A hesitação não
recer indicadores da posição dos sujeitos nesse significa que o sujeito sofre de alguma espé-
contínuo e identificar dificuldades específicas cie de bloqueio ou paralisia, pois isso seria
para a tomada de decisão. O Career Decision diagnosticado como depressão. Na verdade,
Scale (Osipow, Carney e Barak, 1976) e o Vo- o sujeito apresenta movimentos de oscilação
cational Rating Scale (Barret e Tinsley, 1977) são e variação nas perspectivas de significação de
exemplos de instrumentos. O conceito multi- sua experiência, explora sua história de vida
em busca de motivos e valores fundamentais
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276 Levenfus, Soares & Cols.
que irão guiar seu desenvolvimento, pois se segura e proclama que o mundo é confiável,
encontra na antessala de uma transformação. cognoscível, controlável e bom. A narrativa
Ele busca o tema fundamental que irá unificar pessimista resulta de um apego inseguro e
as partes de sua história em um todo coerente sugere que os desejos humanos não são al-
e lhe trará uma solução de continuidade para cançáveis, e que, mais cedo ou mais tarde, os
o futuro, ou melhor, lhe trará a possibilidade projetos encontram o fracasso.
de uma escolha consciente. Portanto, a indeci-
são reflete mais a busca de significado vital do Ampliando tal perspectiva, Bruhn (1995)
que a definição de uma meta (Cochran, 1992). considera que as memórias de tonalidade afe-
tiva negativa revelam questões situadas na
UMA ANÁLISE EVOLUTIVA DO fronteira do desenvolvimento do sujeito, isto
CONTAR HISTÓRIAS é, representam o “próximo passo” a ser dado.
As memórias carregadas de afeto positivo
McAdams (1996) descreveu três aspectos revelam como as necessidades do indivíduo
fundamentais de uma história: a tonalidade podem ser melhor satisfeitas. Em outros ter-
afetiva, o nível temático e o nível ideológico. mos, a primeira categoria expressa medos,
Esses três níveis de análise foram situados incertezas ou tensão a respeito de questões
evolutivamente pelo autor, de acordo com a em elaboração; e a segunda expressa desejos,
capacidade do indivíduo para compreender, orienta quanto a tipos de situações gratifi-
construir e utilizar narrativas em seu desen- cantes e pode ajudar o sujeito a regular o hu-
volvimento pessoal. mor em momentos de frustração. De acordo
com o autor, há maior probabilidade de se
A TONALIDADE AFETIVA resgatar lembranças relacionadas a questões
inacabadas do desenvolvimento do que rela-
A tonalidade afetiva está relacionada às cionadas a problemas já resolvidos; portan-
primeiras experiências infantis, isto é, às ex- to, elas já não representam qualquer desafio
periências pré-verbais. Bebês não são conta- para o indivíduo. As memórias resgatadas
dores de histórias, mas a experiência da pri- com nitidez e muito carregadas de afeto ne-
meira relação humana, concretizada no apego gativo são especialmente importantes. Elas
infantil a seus cuidadores, traz, além de um representam uma categoria de experiências
senso básico do eu, as primeiras lições sobre similares que não foram devidamente pro-
o contar histórias. Os dois primeiros anos de cessadas e assimiladas na personalidade. Ou
vida deixam um conjunto de atitudes incons- seja, são representações esquemáticas das
cientes e não verbais sobre o eu, o outro e o principais questões não resolvidas (Bruhn,
mundo, e como se relacionam entre si. Antes 1995).
de compreender o que é uma história, a crian-
ça já observou como as pessoas interagem e Considerando aspectos não verbais das
como tentam realizar seus desejos. Ela tam- narrativas, Polster (1987) salientou que a aten-
bém experienciou suas próprias intenções, ção do profissional deve focalizar não apenas
tentou realizar algo no mundo e percebeu o conteúdo do relato, mas também a maneira
o resultado de seus esforços. Desse modo, a como este é emitido. O nível e a qualidade
criança adquire uma crença básica e incons- do interesse do cliente sobre sua narrativa
ciente sobre a extensão em que seus desejos revelam o grau de integração de sua experi-
e suas intenções são viáveis no mundo. Sob ência de si mesmo. Quanto mais prejudicada
essa perspectiva, podemos observar narra- a integração, observa-se uma narrativa cada
tivas otimistas ou pessimistas. A narrativa vez mais desprovida de energia, pois o sujei-
otimista resulta de uma vivência de apego to parte da premissa de que ele não tem nada
de importante a dizer ou, ainda, que não há
ninguém interessado em ouvir.
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Orientação Vocacional Ocupacional 277
O NÍVEL TEMÁTICO e suas atitudes. Assim, expressa-se a voraci-
dade adolescente por um sistema de crenças
A análise temática observa o padrão re- lógico, coerente e único. As histórias infantis
corrente das intenções humanas. Este é o ní- recuam para dar lugar a reflexões filosóficas
vel do relato que caracteriza os interesses de que, por fim, levarão o adolescente, na maio-
cada personagem e como pretendem realizá- ria dos casos, a uma definição confiável de
los ao longo do tempo. No plano evolutivo, a critérios sobre o certo e o errado. Após a con-
capacidade de gerar o significado temático de solidação desse referencial ideológico, o in-
uma história é alcançado nos anos do ensino divíduo estará pronto para retornar à função
fundamental. A capacidade de interpretar as narrativa, mas agora como contador de histó-
intenções de personagens torna-se relevante rias. Torna-se o adulto encarregado de narrar
para a criança pré-escolar, pois desenvolve- e assinar sua própria história. A formação e a
se paralelamente à sua própria personalida- reformulação da identidade permanece como
de, na medida em que começa a discriminar tarefa central no decorrer do desenvolvimen-
e a organizar suas motivações que até então to adulto (McAdams, 1996).
eram apenas desejos esparsos e imediatistas.
Essa organização motivacional é frágil aos O SIGNIFICADO DAS PRIMEIRAS
4 anos, mas já apresenta uma estabilidade RECORDAÇÕES
considerável aos 10 anos (McAdams e Loso-
ff, 1984). A criança com mais idade começa a A memória autobiográfica tem a fun-
agir de acordo com preferências consistentes ção de prover identidade ao self (McAdams,
em relação a determinadas qualidades da ex- 1996). Esta é uma definição funcional, pois
periência humana. Esses focos de interesse enfatiza o uso que os indivíduos fazem do
constituem as linhas temáticas que estarão passado (Neisser, 1982). A modalidade mais
presentes na criação de identidades e mitos estudada desse fenômeno são as primeiras
pessoais (McAdams, 1996). recordações (Early Recollections). Em sua ver-
são mais simples, a técnica das primeiras re-
O NÍVEL IDEOLÓGICO cordações (PR) solicita ao sujeito que relate
sua lembrança dos episódios mais remotos
Por fim, o nível ideológico é constituí- de sua vida, ou seja, episódios da infância.
do por valores e crenças. Evolutivamente, a Mayman (1968) considerava as PR “não
ideologia adquire máxima importância na como verdades autobiográficas ou mesmo
adolescência. O adolescente formula um set- como memórias no senso estrito do termo,
ting ideológico que provê um referencial de mas, em um sentido amplo, como invenções
crenças e valores no qual se apoiará e se de- retrospectivas desenvolvidas para expressar
senrolará a trama central de sua história de verdades psicológicas em vez de verdades
vida (McAdams, 1996). objetivas sobre a vida de uma pessoa (...).
PR são fantasias importantes em torno das
Na adolescência, o indivíduo percebe quais a estrutura do caráter é organizada”
que desempenha múltiplos papéis, associa- (p. 304). Outros têm considerado as PR como
dos a diferentes cenários de sua vida (família, indicativas das “questões não resolvidas bá-
escola, amigos, etc.). Essa constatação é pro- sicas ou de tarefas inacabadas principais na
blemática, pois sugere que não se está sen- agenda pessoal de um indivíduo” (Bruhn,
do “verdadeiro” em muitas situações. Nesse 1985, p. 596), ou “algo como uma criação
momento, instala-se a busca pela identida- mitológica pessoal que implicitamente prefi-
de, isto é, um esforço constante para satisfa- gura e simboliza o estilo geral da história de
zer a emergente necessidade de integração vida subsequente” (McAdams, 1990, p. 411).
e de coerência entre seus comportamentos
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278 Levenfus, Soares & Cols.
Pillemer (2003) sugeriu três tipos de funções As primeiras recordações fornecem ele-
para as memórias autobiográficas: sustenta- mentos para esclarecer o sistema de crenças
ção do sentido de self ou identidade, função do indivíduo, as metas traçadas para sua vida
social ou comunicativa e a função diretiva. e as estratégias que implementa para alcançá-
Esta última refere-se aos papéis instrutivos, las, ou seja, sua personalidade, denominada
motivadores, orientadores e inspiradores por Adler (1954/1912) de estilo de vida. Portan-
que as lembranças podem exercer. De Muth to, as ideias adlerianas revelam uma aborda-
e Bruhn (1997) afirmaram que “nossa recons- gem construtivista do psiquismo humano. Sa-
trução das experiências da primeira infância vickas (2006) utilizou as ideias e os métodos de
não é somente consistente com nossas cren- Super (1963) e Adler (1954/1912, 1957/1932)
ças presentes, mas a maneira pela qual res- para desenvolver sua abordagem de orienta-
gatamos tais eventos reforça aquilo em que ção de carreiras, denominada “Construção de
acreditamos hoje” (p.25). Carreira” (Career Construction), que tem sido
elencada entre as principais teorias da psico-
O uso das primeiras recordações na prá- logia vocacional (Brown e Lent, 2006). Entre
tica clínica foi iniciado por Adler (1954/1912). os métodos adlerianos usados por Savickas
Na visão adleriana, o comportamento humano (2006) está a técnica das Primeiras Recorda-
é regido por metas. A partir das primeiras ex- ções, um recurso central em sua abordagem
periências infantis, o sujeito constrói um siste- clínica das questões vocacionais.
ma de crenças sobre si mesmo, sobre os outros
e sobre o mundo. A formação de metas de vida O CONTAR HISTÓRIAS E A
tem essas crenças como base e está, em algum FORMAÇÃO DA IDENTIDADE
grau, relacionada à compensação de sentimen-
tos infantis de inferioridade, insegurança e de- Savickas (1995) sugeriu que o processo
samparo em um mundo adulto. As primeiras de formação da identidade pode ser com-
recordações são selecionadas, codificadas e preendido como a aquisição da capacidade
interpretadas de um modo particular pelo in- de articular narrativas a partir de um tema
divíduo, que desenvolve um esquema próprio de vida. A indecisão profissional vivida por
de percepção da realidade e de relacionamen- adolescentes e adultos jovens pode ocorrer,
to com a vida. O autor argumentava que não em parte, porque ainda não reconheceram
existem lembranças aleatórias. Isto é, a partir seus temas de vida. O trabalho com histó-
do incalculável número de impressões que rias de vida estimulará uma reflexão na
chegam ao indivíduo, ele escolhe se lembrar busca da configuração do tema central que
somente daquelas relacionadas com a situação articula os esforços de crescimento e ajusta-
atual. Nas palavras do autor: mento psicossocial do sujeito, ou seja, sua
carreira subjetiva. A indecisão torna-se uma
Não existem “memórias por acaso”: oportunidade para o cliente construir signi-
do incalculável número de impressões ficados de vida na medida em que o orienta-
que chegam ao indivíduo, ele escolhe dor focaliza seu trabalho em perceber como
lembrar-se somente daquelas que sente, a indecisão profissional está associada à es-
embora nebulosamente, terem implica- trutura de significação global que cria essa
ções em sua condição presente. As memó- experiência particular na perspectiva de
rias representam sua “história da minha cada sujeito. O orientador situa a indecisão
vida”; uma história que ele repete para presente dentro do fluxo de uma narrativa
si mesmo para mantê-lo concentrado em que busca clarificar o padrão recorrente de
suas metas, para prepará-lo, por meio das posicionamentos vitais do cliente ao longo
experiências passadas, para encontrar o de sua história.
futuro com um estilo de ação previamen-
te testado. (Adler, 1954/1912, p. 73)
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Orientação Vocacional Ocupacional 279
APRESENTAÇÃO DA TÉCNICA tema que organiza e significa a experiência de
vida do cliente.
A técnica a seguir foi baseada nos tra-
balhos de Savickas (1988, 1995) e McAdams Após ter coletado histórias familiares, que
(1988, 1996), autores fortemente influenciados Savickas (1995) também denominou “histó-
pela obra de Adler (1954/1912, 1957/1932). O rias sobre preocupações”, o orientador irá co-
procedimento será descrito em quatro etapas: letar histórias sobre projetos de vida, ou seja,
(1) coleta de histórias de vida; (2) análise e edi- o que o cliente projeta fazer com relação às
ção do tema de vida; (3) relação entre tema de suas preocupações. Esses projetos são consi-
vida e indecisão; e (4) definição de alternativas derados tentativas de integrar subjetivamente
futuras. suas preocupações e orientá-las em direção a
uma meta ou a uma solução final. Assim, fo-
COLETANDO HISTÓRIAS ram denominadas histórias de identidade, ou
seja, como o cliente busca articular suas expe-
Primeiramente, o orientador coleta histó- riências em um todo coerente e consistente-
rias que narram experiências infantis do clien- mente orientado. Essas histórias dão sentido
te no âmbito familiar. Esse procedimento foi às preocupações, pois retratam intenções de
primeiramente sugerido e estudado por Adler ajustamento a padrões culturais.
(1957). A maioria das pessoas sente-se à von-
tade para contar pelo menos três eventos de As narrativas que tem se mostram mais
sua infância. Essa é uma solicitação geralmen- úteis no reconhecimento do projeto de vida
te bem recebida pelos clientes, que podem se são aquelas sobre os heróis do cliente, pois
sentir um pouco intrigados, mas aceitam o de- esses modelos caracterizam scripts culturais
safio e apreciam a tarefa. As instruções devem adotados para a solução de problemas. Esses
ser claras e simples, embora aceitem as varia- heróis podem ser os personagens preferidos
ções do estilo de cada orientador, como, por de histórias infantis ou também os ídolos da
exemplo: “Eu gostaria que você dirigisse seu adolescência. As narrativas de identidade in-
pensamento para muito tempo atrás, quando formam metas de vida e abordam a maneira
você era criança. Tente resgatar uma das suas como o cliente busca lidar com as experiências
primeiras lembranças, uma das situações de relatadas em suas histórias familiares, e traçar
sua infância que você consegue visualizar.” o caminho para sua autoafirmação. Nos ter-
Esses episódios devem ser específicos e pon- mos de Adler (1954), é o modo como ele busca
tuais, ter acontecido antes dos 8 anos e serem mover-se de uma vivência de déficit para uma
lembrados independentemente do relato de percepção de crescimento.
outras pessoas. O indivíduo geralmente é
capaz de visualizar o evento. A fidedignida- ANÁLISE E EDIÇÃO DE TEMAS DE
de histórica do relato não é relevante. O mais VIDA
importante é que o indivíduo assuma a auto-
ria de seu depoimento e vivencie o episódio O procedimento de interpretação das
como real (Last, 1997). primeiras recordações, introduzido na litera-
tura psicológica por meio da obra de Alfred
Nessas histórias familiares, o orientador Adler, apresenta variações de acordo com a
deve estar atento às idiossincrasias acentu- orientação teórica do profissional, embora
adas no relato, isto é, aos problemas, às ten- haja algumas tentativas de definir um siste-
dências ou aos desvios apresentados, em um ma padronizado e abrangente (Bruhn, 1985).
esforço para ouvir a preocupação central do O sistema de análise e pontuação das primei-
protagonista e seu posicionamento diante da ras recordações mais conhecido e aplicado é
situação apresentada. Essa preocupação é o o MPERSM (Manaster and Perryman Early Me-
mories Scoring Manual). Esse sistema é cons-
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280 Levenfus, Soares & Cols.
tituído de uma lista de 42 variáveis situadas 1. Reconhecendo um estresse existencial.
em sete categorias: personagens, temas, pre- 2. Encontrando o problema.
ocupação com detalhes, contexto, atividade- 3. Estabelecendo o problema de maneira
passividade, controle interno-externo e afeto
(Manaster, Berra e Mays, 2001). As variáveis a permitir uma solução.
psicológicas encontradas nas primeiras re- 4. Aplicando um método para solucionar
cordações são úteis para gerar hipóteses
sobre a personalidade do cliente. Essas vari- o problema existencial principal.
áveis são identificadas a partir de questões
sobre o funcionamento da pessoa na situação Ao conectar as preocupações reveladas
descrita por ela, como, por exemplo: nas histórias familiares com os projetos reve-
lados nas histórias de identidade, orientado-
• Encontra-se em uma atitude passiva res geralmente reconhecem tanto o tema de
ou ativa? vida quanto a identidade do protagonista.
Esse é o momento de narrar o tema de vida
• É participante ou observador? para o cliente e solicitar a colaboração dele
• Está sozinho ou com outros? em sua edição. O orientador convida o clien-
• Está em uma posição superior ou infe- te a participar do esclarecimento do seu tema
de vida, fazendo perguntas e conferindo per-
rior com relação aos demais? cepções.
• Quais pessoas significativas estão pre-
De um modo geral, em se tratando de
sentes ou ausentes? aconselhamento evolutivo de carreira, Super,
• Qual é a tonalidade afetiva do aconte- Savickas e Super (1996) sugeriram que os da-
dos coletados em procedimentos de avaliação
cimento? devem ser integrados e apresentados para o
• Que interesses, conflitos ou preocupa- cliente sob a forma de uma narrativa. Os au-
tores afirmam preferir “uma interpretação
ções estão em jogo? integradora, que narra a história de vida do
• Como a situação é ou não encerrada? cliente. A narrativa usa formas dramáticas e
linguagem metafórica para descrever a preo-
Quais resultados apresenta para o su- cupação de carreira do cliente e situá-la no
jeito? contexto de seu espaço de vida” (p.157-158).
Esse procedimento gera hipóteses im- ESCLARECENDO O IMPASSE
portantes sobre o funcionamento do cliente e VOCACIONAL
traz direções importantes a serem exploradas
pelo orientador, baseadas na singularidade e Após o tema ter sido clarificado, deve ser
nas qualidades idiossincráticas das primeiras utilizado no entendimento da indecisão atual-
recordações. Adler (1957) considera esses re- mente vivida pelo cliente. Algumas questões
latos como uma avenida de acesso ao estilo foram sugeridas por Savickas (1995) a fim
de vida do indivíduo, à sua forma particular de auxiliar o cliente a perceber sua indecisão
de compor a narrativa de sua existência e, como uma pausa proposital em sua trajetória
desse modo, de construí-la diariamente. de desenvolvimento e de prepará-lo para ex-
plorar seus desejos em relação ao futuro.
Também em uma abordagem adleriana,
os estudos de Csikszemihalyi e Beattie (1979) • Em quais circunstâncias você percebeu
definiram tema de vida como o problema ou que estava indeciso?
o conjunto de problemas que a pessoa deseja
resolver acima de qualquer coisa e os meios • Como é para você se sentir indeciso?
que ela encontra para realizar soluções. Os • O que esse sentimento lhe faz lem-
resultados de sua pesquisa sugeriram que os
temas de vida desenvolvem-se em quatro pas- brar?
sos distintos:
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Orientação Vocacional Ocupacional 281
• Conte-me um incidente no qual você todo descrito. O cliente que chamarei de Mar-
teve esse mesmo sentimento? cos buscou atendimento a fim de resolver sua
dúvida em relação à escolha de curso univer-
• Qual parte de sua história de vida é sitário. Marcos estava com 18 anos e cursava o
mais importante em relação à sua in- terceiro semestre do curso de Direito. Afirma-
decisão atual? va estar insatisfeito com o conteúdo do curso
e com as características do ambiente interpes-
Ao explorar seu impasse, o cliente pode- soal que encontrou no grupo de colegas. Nas
rá verificar, com o auxílio do orientador, que a suas palavras: “É um pessoal pouco espontâ-
narrativa que origina sua hesitação atual é mais neo, não sei... não me sinto bem conversando
um exemplo do seu tema de vida. O impasse com os caras... eu me sinto um estranho no
é articulado ao tema de vida, e o orientador ninho”. É o filho, entre um irmão mais velho
deve oferecer o encorajamento de que o cliente e uma irmã caçula. Seu pai tem um escritório
precisa para assumir a autoria de sua própria de contabilidade e sua mãe é médica. Durante
história, para dar voz à ambição que ele hesita os anos do ensino médio, Marcos trabalhou
em declarar e para abrir-se ao crescimento e à dois anos no escritório de advocacia de um tio
transformação pessoal (Savickas, 1995). que descreveu como muito apegado a ele. O
pai de Marcos incentivou-o a seguir a carreira
VISUALIZANDO O FUTURO do tio. Porém, nas suas palavras: “não brotou
de mim, meu tio advogado me convidou para
Após ter clarificado sua indecisão, o cliente trabalhar com ele, me entusiasmei com a ideia
está preparado para estender linhas imaginárias de trabalhar... ele não teve filhos, acho que
em direção ao futuro. O orientador poderá ex- ficou apegado a mim. E meu pai dizia ‘por
plicar que os interesses vocacionais expressam que você não faz Direito?!’. É por isso tudo
soluções para problemas de crescimento pes- que quando eu comecei a faculdade eu ficava
soal. A análise dos interesses mostrará como os constrangido de dizer que não estava gostan-
clientes usam as ocupações para fechar gestalts do”. Quando fala sobre seus desejos em rela-
incompletas, isto é, para encaminhar situações ção a uma ocupação, Marcos diz: “Algo em
inacabadas de seu desenvolvimento (Savickas, que possa aflorar a minha criatividade, tenho
1995; Super, Savickas e Super, 1996). vontade de descobrir coisas novas, não gosto
de ficar restrito. No Direito, você só aplica o
A especulação sobre os futuros possíveis que está escrito, ou nem isso! Eu já pensei em
deve considerar pelo menos três cenários al- Comunicação, Psicologia, Jornalismo ou Pu-
ternativos. No primeiro, o cliente permanece blicidade... onde eu possa me expressar mais,
como está, não faz ajustes ou decisões. No eu também gosto de arte, toco guitarra... mas
segundo, o cliente segue seu tema de vida e é difícil”.
repete o padrão de seus ajustamentos ante-
riores. E o terceiro cenário retrata o cliente Na aplicação do BBT (Achtnich, 1991), as
ativo e concentrado em seu desenvolvimen- escolhas e associações de Marcos com relação
to, renovando suas crenças, aplicando-se em às imagens do teste mostraram inclinações
novas atitudes e em novos comportamentos, predominantemente ligadas aos fatores Z e
adquirindo as competências necessárias para G. Isto é, manifestou atração por atividades
a mudança (Super, Savickas e Super, 1996). relacionadas ao senso estético e à produção
e exibição de formas artísticas ou de si mes-
ESTUDO DE CASO mo (fator Z), além de imagens associadas às
funções criativas, de intuição, inovação, con-
Um exemplo poderá ilustrar como o cepção e descoberta (fator G). As associações
orientador busca promover o desenvolvimen- de Marcos sobre a foto Mz (pintor) revelam
to vocacional do seu cliente por meio do mé-
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282 Levenfus, Soares & Cols.
essas inclinações: “É difícil encontrar a cor coisas escondido. Um dia peguei umas fitas
perfeita, e um bom pintor pode encontrar. É cassete e puxei tudo, fiquei todo enrolado. O
isso que faz falta no mundo, nas pessoas, não pai e o tio me acharam. Meu pai ficou muito
encontram uma diversificação como pessoas. bravo comigo, meu tio não se importou.
É como as pessoas estão na sociedade. Elas
têm que buscar a cor perfeita, se misturando Menino atrevido não sabe se comportar
com o meio, assim como as tintas. As pessoas
precisam ir e vir, e não rotular tudo, têm de Eu tinha 6 anos e estava no interior, meu
ver os vários lados”. avô era político e estava dando uma festa.
Toda a família estava preocupada em manter
A técnica de análise de histórias de vida a pose, e eu, desbocado. Meu avô disse que
seguiu as etapas básicas sugeridas por Sa- ia me servir. Era um banquete. Eu nunca gos-
vickas (1995). Desse modo, os fragmentos a tei de salada de batatas, ele perguntou “Quer
seguir ilustrarão como o orientador usou his- mais?” e eu disse “Não quero nada seu velho
tórias que revelam preocupações e projetos, a porco”. Ele ficou bravo comigo e com meu pai,
fim de clarificar temas de vida e contextuali- disse que o pai ensinou palavrão para mim. E
zar a indecisão vocacional em uma perspec- eu fiquei rindo. Meu pai me repreendeu, eu fi-
tiva evolutiva. quei envergonhado, me sentei e fiquei quieto.
Meu tio ficou rindo.
HISTÓRIAS FAMILIARES
Não posso decepcionar: o meu irmão é o
Terror no refeitório modelo
Eu tinha uns 6 anos. No primeiro dia Quando meu irmão passou no vestibular,
de aula, o primeiro convívio, e a gurizada todos sabiam que ele ia passar. Mesmo assim
resolveu fazer uma brincadeira. O famoso foi a maior festa. Ele passou na Federal para
esconderijo... havia mil salas para se escon- Medicina, e chegou em casa como herói. Ele
der. Cada um foi para um canto. Eu e um é muito inteligente e muito disciplinado. Na
colega fomos para o refeitório e tinha uma hora eu fiquei feliz, mas também na maior dor
senhora que trabalhava ali que era muito es- de cotovelo. Nunca fui um aluno exemplar.
tranha, todos tinham medo dela, ela se acha- Ele é uma espécie de modelo na família.
va dona do lugar. Acho que ela não gostava
de crianças. Nós entramos no banheiro, ela HISTÓRIAS DE IDENTIDADE
viu e começou a abrir a porta, começamos a
suar frio. Abre-se a porta, e aquela mulher Homem-Aranha
com a vassoura na mão, não entendíamos o
que ela falava. Saímos correndo apavorados. Entre os super-heróis, era dele que eu
Nós contamos para o pessoal. É claro que gostava. A roupa dele era diferente, uma mis-
enfeitamos um pouco. A gurizada se apavo- tura, a touca era uma teia, vivia no topo dos
rou com a estória, mas aquela mulher metia prédios. Do super-homem, eu não achava
medo mesmo. graça.
O mexe-mexe Cascão
Quando criança, eu tinha fama de mexer Do Gibi, porque era o incompreendido,
em tudo. Eu estava no quarto do meu tio e era o cara que não tomava banho. É o mais
tinha um armário grande, eu entrava no es- ingênuo e despreocupado com as coisas.
paço embaixo do armário. Ficava fuçando nas
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Orientação Vocacional Ocupacional 283
Chico Bento tizante do mundo infantil, e a sisudez adulta
parece agredir esse mundo que, mesmo as-
A vida simples, vivia como uma criança. sim, não hesita em assimilá-la em sua própria
fantasia.
Salvador Dalí
A interdição das regras adultas nas ini-
Uma maneira crítica, psicodélica, uma ciativas infantis retorna nas duas histórias
nova forma de expressão das coisas, era pes- familiares seguintes por meio do comporta-
simista, mas conseguiu dar uma contribuição. mento do pai, porém amenizada na atitude
Ele tinha um círculo de amizades da pesada tolerante e mesmo reforçadora do tio (“meu
também. tio ficou rindo”). Na primeira, o protagonista
é repreendido em sua curiosidade, na história
A ANÁLISE DAS HISTÓRIAS E A seguinte, tenta afirmar sua liberdade indivi-
EDIÇÃO DO TEMA DE VIDA dual em uma situação em que a família devia
“manter a pose”. E por fim, na última história
As histórias familiares são intituladas familiar, essa autoafirmação parece sucumbir
por orientador e cliente em colaboração. diante do imperativo social retratado na figura
As mensagens implícitas em cada história do irmão como o modelo de comportamento e
são investigadas e analisadas. Dessa análise de realização dos valores cultuados nesse con-
resulta um conjunto de afirmativas que, ar- texto. Observa-se nelas o conflito entre uma
ranjadas em sequência, explicitam a dinâmi- tendência autoafirmativa do protagonista e a
ca mais essencial da produção narrativa do tendência integrativa e socializadora de seu
cliente, ou seja, de sua biografia autocons- ambiente familiar. O protagonista manifesta
truída. seu desconforto diante de regras e valores vi-
gentes, e age com o objetivo de dar vazão à
• A brincadeira e a fantasia são ativida- sua singularidade.
des prazerosas. A seriedade pode ser
incompreensível e até mesmo assusta- As histórias de identidade mostram
dora. o modo pelo qual o cliente busca e ideali-
za resolver sua preocupação. Seus heróis
• Eu gosto de conhecer e inventar coisas sugerem que ele poderia adotar um esti-
diferentes, mas isso incomoda as pes- lo de vida alternativo aos valores predo-
soas. Elas acham que as coisas devem minantes em seu meio social. O homem-
ficar em ordem e que não é adequado -aranha não é um super-homem, como foi ad-
tirá-las do lugar. jetivado seu irmão (“muito inteligente e mui-
to disciplinado”): é um herói “diferente”. O
• A rebeldia é divertida, mas tem seu Cascão e o Chico Bento representam opções
preço e pode ser castigada. não convencionais de vida para Marcos, pois
são personagens despreocupados com ordem,
• A sociedade impõe modelos aos quais limpeza, bons modos e com ambições de sta-
eu devo me adaptar se quiser ser ama- tus, características de uma família que “quer
do e admirado. manter a pose” em reuniões políticas. A ad-
miração por Salvador Dalí revela seus valores
A primeira história não é exatamente de criatividade; nesse personagem encontra
familiar, pois se passa no ambiente da escola a possibilidade de uma nova versão para sua
fundamental. Não obstante, revela a interdi- rebeldia, que, nesse caso, é valorizada e admi-
ção de uma figura adulta nas brincadeiras in- rada por todos.
fantis. Esse adulto é descrito como autoritário
e incompreensível no seu comportamento. Na
visão do protagonista, ele não era um simpa-
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284 Levenfus, Soares & Cols.
RELACIONANDO O TEMA DE VIDA e considera o que uma carreira mais artística
COM A INDECISÃO PROFISSIONAL poderia lhe oferecer.
• Em quais circunstâncias você percebeu A técnica possibilitou ao orientador nar-
que estava indeciso? rar o tema de vida para o cliente, relacionar
Quando eu conversava com meus co- esse tema com a indecisão atual e extrapolar
legas do Direito, me dei conta de que a linha temática em direção ao futuro. A espe-
eu não tinha nada a ver com aquilo, me culação sobre os futuros possíveis considerou
sentia um peixe fora d’água, e aí fiquei três cenários alternativos, de acordo com a su-
perdido. E é claro que eu achava as ma- gestão de Super, Savickas e Super (1996). No
térias muito chatas. caso, as alternativas seriam: (a) permanecer
no curso de direito e aceitar os padrões fami-
• Como é para você sentir-se indeciso? liares; (b) reagir ao modelo familiar tal como
É como se eu não tivesse um lugar pró- “um menino atrevido que não sabe se compor-
prio. Estou boiando. tar” e (c) revisar suas crenças e concentrar-se
ativamente em busca de opções construtivas
• O que este sentimento lhe faz lembrar? para seu desenvolvimento, em vez de fazer
Conte-me um incidente em que ele uma escolha apenas reativa ou oposicionista.
aparece?
Quando eu fico tímido para conversar Considerando a última alternativa, a
com as pessoas. Tenho medo de come- compreensão de seu tema de vida levou Mar-
ter uma gafe. Medo de falhar. Uma es- cos a uma exploração consciente de interesses
pécie de vergonha. e ocupações, e confirmou sua inclinação para
atividades ligadas à expressão da criativida-
Ao conectar a preocupação com o proje- de e ao desejo de apresentar e divulgar pro-
to, orientador e cliente percebem que a inde- duções artísticas. O curso universitário esco-
cisão atual de Marcos é mais um exemplo da lhido foi comunicação social, com ênfase em
luta entre “um menino atrevido que não sabe publicidade e propaganda. Em uma sessão de
se comportar” contra o mandato “não posso follow up, dois anos após, Marcos se declarou
decepcionar: meu irmão é o modelo”, pois satisfeito com a escolha. Porém, fez algumas
esse menino quer “conhecer e inventar coisas ressalvas. Em suas palavras:
diferentes”, mas, por enquanto, sente “uma
espécie de vergonha”. Marcos constrói sua Eu aprendi que a profissão é uma
carreira subjetiva em torno do tema da dissi- parte da vida, não é tudo. A publicidade
dência e da busca de sua singularidade, tendo não me preenche totalmente, porque é só
como valor central a oportunidade de ser cria- vender e vender, não tem uma visão de
tivo e usar seus talentos particulares. Porém, contribuição social. É mais artística, mas
sofre a pressão de conformidade aos valores joga com a sensação... é uma descarga de
de seu grupo familiar, voltados para a aquisi- valores que se acaba em poucas sema-
ção de status social e prestígio, representados nas. (...) Compromisso é uma coisa que
no “bom comportamento” do irmão. Ele sente poucos conhecem ali dentro, e eu acho
que não tem chances de afirmar sua indivi- perigoso não se preocupar com isso. No
dualidade, de sobressair nessa situação, vis- direito eu era rebelde, o diferente; e na
to estar instituída a soberania do irmão como publicidade eu também acabei sendo o
modelo. A temática se repete no contexto da diferente porque sou mais “certinho”,
universidade, onde sente-se pouco integra- por que eu não posso seguir certas regras
do socialmente. Marcos busca alternativas se elas são boas para o todo?! Esta é uma
de autoafirmação em um contexto que ofe- das poucas coisas com que eu me iden-
reça mais liberdade para sua autoexpressão tificava no direito. Mas é isso aí! Nada é
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Orientação Vocacional Ocupacional 285
perfeito. E o que falta eu tenho que bus- Nesse sentido, a intervenção do orientador
car por mim mesmo. tem por objetivo explorar e articular o tema
central de vida do cliente. As narrativas sobre
Sua narrativa revelou a continuidade de preocupações e projetos de vida são eliciadas,
temáticas anteriores em uma nova perspecti- analisadas e integradas a fim de se configu-
va, pois Marcos agora demonstra assumir a rar o padrão recorrente dos esforços de cres-
tarefa de narrar e assinar sua própria história, cimento e de ajustamento psicossocial do su-
formando e reformando a sua identidade. jeito. A indecisão é situada no contexto desse
tema de vida. O processo clarifica as escolhas
CONSIDERAÇÕES FINAIS como esforços para fechar a gestalt que guiará
uma história de vida que se encontra em um
A indecisão de carreira na perspectiva ponto de transformação. Assim, o cliente per-
construtivista é entendida como a busca de ceberá a unicidade de sua escolha, reforçando
significados integradores das experiências sua capacidade de decidir e assumindo a au-
passada, presente e futura do indivíduo. toria de sua identidade.
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23
A avaliação dos valores
na orientação de carreiras
Mauro de Oliveira Magalhães
O ser humano postula uma variedade VALORES E DESENVOLVIMENTO
de conceitos em torno dos quais orienta sua HUMANO
conduta na vida. Essas orientações básicas
podem estar mais ou menos explícitas no A construção de conceitos orientadores
comportamento, mas pode-se dizer que a e motivadores do comportamento, que de-
maioria das pessoas adere a algumas diretri- nominamos valores, está associada à possi-
zes fundamentais na condução de suas vidas. bilidade de o sujeito ter encontrado, no de-
Essas âncoras do comportamento individual, correr de seu desenvolvimento psicossocial,
que tipicamente incluem crenças religiosas, pessoas que, uma vez amadas e admiradas,
padrões de relacionamento social, ambições permaneceram como referências fundado-
materiais e status, tem sido objeto da preo- ras de um projeto de vida. Nesse sentido,
cupação de muitos psicólogos. Allport (1962) algumas pesquisas revelaram que os estilos
as chamou de esquemas de valor, definidos ou as práticas parentais podem ser impor-
em poucas palavras como esquemas ativos tantes para o desenvolvimento dos valores
de conduta que se desenvolvem e exercem humanos. Flouri (2004) observou uma rela-
uma influência dinâmica na variedade de ção negativa entre o envolvimento materno
escolhas mais ou menos importantes que os e o desenvolvimento de valores materialistas
indivíduos realizam. De acordo com o autor, em adolescentes. Knafo (2003) relatou que jo-
que realizou estudos pioneiros sobre o tema vens educados por pais autoritários atribuí-
(Allport e Vernon, 1931), “o adulto sadio se ram maior importância ao valor poder e me-
desenvolve sob a influência de esquemas de nor importância ao valor universalismo do
valor, cuja realização é por ele considerada que os educados por pais não autoritários.
como desejável, embora talvez nunca possam O apego infantil aos pais e a cultura familiar
ser inteiramente atingidos” (Allport, 1962, são a base da capacidade de comprometer-
p.99). Sendo assim, o fato de um valor ser se com valores, sendo que estes devem ser
muitas vezes objetivamente inatingível (tal apresentados de modo claro e coerente no
como muitos ideais religiosos) não diminui contexto da socialização primária. Mais tar-
sua influência na conduta diária e no curso de, quando adolescente e/ou adulto jovem,
do desenvolvimento humano, pois sua fun- o sujeito utilizará essas atitudes e esses re-
ção principal é sustentar uma linha coerente cursos primários na formação de sua identi-
de procedimento a partir de um compromis- dade. Entende-se identidade como a capaci-
so com metas ideais. dade de perceber a consistência dos próprios
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288 Levenfus, Soares & Cols.
comportamentos por meio da variabilidade e a realização econômica em primeiro lugar.
das experiências vividas e das que se planeja Dificuldades na escolha profissional tem sido
viver. Nesse sentido, a identidade se estabe- associadas à falta de clareza quanto a valores
lece pela capacidade madura para ser fiel a de trabalho, e a qualidade desse processo de
um conjunto de ideais e pela percepção da tomada de decisão parece depender da capaci-
necessidade do planejamento da própria dade do sujeito para explorar e definir as ocu-
vida, e implementa-se por meio da habilida- pações que lhe permitem a realização de seus
de para definir metas concretas de realização valores mais importantes.
em consonância com os próprios valores e da
discriminação e do uso dos recursos pessoais Por outro lado, embora haja a relevância
e ambientais para alcançá-las. dos valores na determinação do comporta-
mento do sujeito, a interação entre diferenças
Em contraste, Allport (1962) e outros auto- individuais e estágios de vida, associada a
res contemporâneos (por exemplo, Merini-Ga- fatores sociais, culturais e econômicos contin-
miño, 1990) destacaram que muitos indivíduos gentes, faz com que a influência dos valores
parecem não ter compromisso com objetivos seja um processo dinâmico e que, principal-
ideais, pois demonstram e afirmam não sentir mente na adolescência, sejam presenciadas
entusiasmo por qualquer tipo de vida. Para mudanças frequentes nesse aspecto (Super,
eles, o futuro é apenas a expectativa de prazer 1983; Jepsen, 1990). Assim, a pesquisa de
imediato. Porém, essas expressões de apatia Schulenberg, Vondracek e Kim (1993) indicou
podem ser o reflexo de disposições transitórias alterações nos valores de trabalho de adoles-
tipicamente encontradas em indivíduos que centes em um intervalo de seis meses. Por
estão vivendo crises e mudanças importantes outro lado, os resultados desse mesmo estudo
em suas vidas e, consequentemente, em seus sugeriram que, durante a adolescência, a cer-
esquemas de valor. Assim, a fase adolescente é teza de escolha profissional reflete um maior
especialmente propícia para esse tipo de sinto- engajamento na busca de identidade vocacio-
ma, pois sabemos que os adolescentes estão em nal por meio de uma consideração mais ativa
processo de construção de suas identidades. O de valores de trabalho.
embate entre os valores formados na socializa-
ção primária familiar, até então irrefletidos em CONTEXTO GERACIONAL E VALORES
sua aceitação tácita, e a variedade de outros DE CARREIRA
modelos oferecidos em nossa cultura, torna os
anos da juventude um momento de questiona- Mannheim (1972) destacou que o termo
mento profundo de valores. A diferenciação e a “geração” deve ser entendido em termos da
integração desses valores no todo da persona- importância relativa dos diferentes estágios
lidade é uma tarefa crucial do desenvolvimen- de vida. Ele considerou o período entre 17 e
to. É a partir do esclarecimento de seus valores 25 anos como especialmente relevante para
que um indivíduo poderá fazer opções genui- definir e entender as características de uma
namente conscientes para sua vida. geração. Nesse período crucial da vida adul-
ta, os jovens questionam-se intensamente a
VALORES E ESCOLHAS DE CARREIRA fim de estruturar seus comportamentos e suas
atitudes em torno de uma identidade pessoal
Sendo assim, muitos psicólogos consi- e social. De acordo com o autor, é nesse pro-
deram razoável supor que os valores pessoais cesso que determinada coorte conforma suas
subjazem às escolhas ocupacionais. De acordo feições geracionais. As pesquisas de Duncan e
com Zunker (1994), os valores influenciam a Agronick (1995) mostram que “acontecimen-
determinação de estilos de vida e metas pesso- tos sociais e históricos coincidentes com o fi-
ais, além da motivação, do comportamento e nal da adolescência e com o início da idade
da satisfação no trabalho. Por exemplo, parece adulta – quando as preocupações com a iden-
evidente que o indivíduo que cultua valores tidade são proeminentes – são mais salientes
de espiritualidade escolherá carreiras dife- para o indivíduo do que eventos ocorridos em
rentes daquele que coloca o conforto material outros estágios de vida” (p. 559).
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Orientação Vocacional Ocupacional 289
Portanto, uma reflexão sobre os aconte- tos dos direitos civis, pela revolução sexual e
cimentos históricos relevantes no desenvolvi- pelos ideais da contracultura, mostrando uma
mento da sociedade nas últimas décadas pode ética hippie de matizes existencialistas, sendo
ser útil no entendimento dos valores e estilos essa coorte denominada de existencialista. Por-
de vida preferidos em distintas gerações. Tal tanto, estão mais preocupados com a quali-
reflexão pode esclarecer expectativas e atitudes dade de suas vidas do que com o acúmulo de
das diversas gerações de trabalhadores em re- bens materiais, procuram ser leais a seus pro-
lação a suas carreiras, dadas as condições his- jetos individuais, valorizando a liberdade e a
tóricas que formaram seus valores geracionais. igualdade. A geração que entrou para a força
Os valores vocacionais e as atitudes dos jovens de trabalho em meados da década de 1970 até
na década de 1980 diferiram em muitos aspec- o final da década de 1980 refletiu o retorno da
tos daqueles adotados pelos jovens no final da sociedade aos valores tradicionais, mas com
década de 1960 e início de 1970 (Mussen, Con- uma ênfase especial na realização pessoal e no
ger, Kagan e Huston, 1995). As diferenças ge- sucesso material. O autor a descreveu como
racionais seriam também manifestadas no mo- pragmática, apresentando uma relação calcu-
mento em que o indivíduo encontra-se diante lativa ou instrumental com as organizações em
de escolhas importantes relativas ao estilo de que trabalham, ou seja, percebendo-as como
vida que deseja construir e, consequentemen- meros veículos para suas carreiras pessoais.
te, relativas à sua vida profissional. Os que iniciaram a vida profissional nos anos
de 1990 foram denominados de geração X. Es-
Robbins (2002) revisou a literatura sobre ses indivíduos tiveram suas vidas moldadas
valores de trabalho e definiu quatro estágios pela globalização, pela queda do muro de Ber-
recentes da história dos valores de trabalho lim e pelo avanço da microinformática. Eles
de acordo com características específicas do valorizam a flexibilidade, um estilo de vida
contexto social e econômico que os indiví- equilibrado e a obtenção de satisfação com o
duos participaram na época de início de suas trabalho. A família e os amigos são igualmente
carreiras. Considerando que o ingresso acon- importantes. Os ganhos financeiros são valo-
tece entre 18 e 23 anos, a proposta do autor é rizados como critério de reconhecimento pro-
consoante com as ideias expostas em relação fissional, mas esses sujeitos são capazes de ab-
ao período crítico para a formação de valores dicar de aumentos de salário em prol de uma
e estilos de vida que constituem uma identi- vida mais diversificada fora do âmbito profis-
dade geracional. Cabe salientar que os dados sional. Assim, estão menos dispostos a fazer
referem-se às experiências de trabalhadores sacrifícios por seus empregadores do que as
nos Estados Unidos e que, por isso, não é ge- gerações anteriores. Portanto, a partir dessas
neralizável a outras culturas. Embora se deva ideias, a consideração do contexto geracional
reconhecer que no Brasil e em grande parte dos clientes em orientação de carreira pode ser
do mundo ocidental as tendências de com- útil na avaliação de seus valores em relação
portamentos e valores têm acompanhado, ao trabalho. Por exemplo, parece ser provável
com atrasos cada vez mais curtos, os padrões que trabalhadores com idades em torno de 45
da cultura norte-americana. No final dos anos anos (geração pragmática), e aqueles com mais
de 1990, pesquisas observaram a crescente ho- de 60 (ética protestante), por exemplo, tendem
mogeneidade de valores e comportamentos a ser mais conservadores e dóceis com relação
geracionais entre jovens de dezenas de países, a autoridade, se comparados às coortes “exis-
sugerindo que vivemos em uma cultura glo- tencialista” e a “geração X”.
balizada (ver, por exemplo, DMB e B, 1995).
RELAÇÃO ENTRE VALORES E
De acordo com Robbins (2002), trabalha- INTERESSES OCUPACIONAIS
dores que iniciaram suas carreiras influencia-
dos pela cultura do pós-guerra apresentam va- É importante esclarecer a diferença en-
lores de trabalho típicos da ética protestante. tre valores e interesses ocupacionais. Super
Aqueles que ingressaram na força de trabalho (1995) encontrou fundamentos empíricos para
durante os anos de 1960 até meados dos anos
de 1970 foram influenciados pelos movimen-
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290 Levenfus, Soares & Cols.
um modelo da relação entre os constructos central, que serve como um princípio orienta-
teóricos denominados necessidades, valores dor na vida do sujeito. Eles são poder (status
e interesses. De acordo com sua formulação, social, dominância, etc.), realização (sucesso
as necessidades estão relacionadas a condições pessoal de acordo com padrões sociais), he-
fisiológicas e à sobrevivência, e são experien- donismo (prazer ou gratificação sensual), es-
ciadas como um sentimento de falta de algo timulação (excitação e novidade), autodireção
e como o desejo de preencher essa falta. Os (independência de pensamento e ação), uni-
valores são o resultado da socialização, que es- versalismo (compreensão, tolerância e prote-
tabelece os tipos de objetivos que as pessoas ção do bem-estar das pessoas e da natureza),
perseguem a fim de satisfazer suas necessida- benevolência (preservação e melhoramento
des. Portanto, a percepção de uma falta leva a do bem-estar das pessoas próximas), tradição
valorizar algo que parece supri-la. Esse “algo” (respeito e comprometimento com costumes
é ainda definido abstratamente pelos rótulos culturais ou religiosos), conformidade (res-
aplicados a valores, como, por exemplo, “al- trição de ações e impulsos que possam pre-
truísmo”, “poder” e “beleza”. Por fim, os inte- judicar outros e violar expectativas sociais)
resses são as atividades nas quais o indivíduo e segurança (estabilidade da sociedade, dos
espera concretizar seus valores. Desse modo, relacionamentos e do self).
é mais provável que pessoas que valorizam o
poder busquem posições de autoridade em Enfim, no estudo de Sagiv (2002), os inte-
atividades tipicamente empresariais e polí- resses convencionais correlacionaram-se posi-
ticas, e aquelas que valorizam a beleza dedi- tivamente com os valores de conformidade, de
quem-se a atividades de produção e exposi- segurança e de tradição, e negativamente com
ção de formas estéticas (p. ex., decoradores e os valores de autodireção, de estimulação e de
desenhistas de moda). universalismo. Os interesses empreendedores
correlacionaram-se positivamente com valo-
Os estudos de Soh e Leong (2001) e de res de poder e de realização, e negativamente
Sagiv (2002) investigaram a relação entre com valores de universalismo. Interesses so-
interesses vocacionais e valores. Os autores ciais correlacionaram-se positivamente com
empregaram a tipologia de prioridades axio- valores de benevolência e de universalismo.
lógicas desenvolvida por Schwartz (1992) e Interesses artísticos e investigativos revela-
a tipologia de interesses de Holland (1997). ram associações positivas com autodireção
O modelo de Schwartz (1992) foi testado e universalismo, e negativamente com con-
transculturalmente em mais de 200 amos- formidade, segurança e tradição. Interesses
tras de mais de 60 países, e a estrutura mul- realistas não se correlacionaram significativa-
tidimensional proposta foi reiteradamente mente com valores.
verificada. De acordo com Hartung (2002),
Schwartz (1992) oferece uma estrutura de No estudo de Soh e Leong (2001), os inte-
valores complementar à estrutura de interes- resses convencionais correlacionaram-se posi-
ses vocacionais de Holland. E, segundo Soh tivamente com os valores de conformidade e
e Leong (2001), o modelo é conceitualmente de poder, e negativamente com os valores de
similar às metas e aos valores utilizados por autodireção e de universalismo. Os interesses
Holland (1997) para caracterizar seus tipos empreendedores obtiveram correlações po-
vocacionais. O modelo de Schwartz (1992) é sitivas com valores de poder e de realização,
composto de 10 tipos motivacionais de valo- e negativas com valores de universalismo.
res, organizados em um padrão de conflito e Interesses sociais correlacionaram-se posi-
compatibilidade entre prioridades. De acor- tivamente com valores de benevolência, de
do com o modelo, comportamentos volta- tradição, de conformidade e de universalis-
dos para a realização de um valor carregam mo, e correlacionaram-se negativamente com
consequências sociais, psicológicas e práticas poder. Interesses investigativos mostraram
que podem estar em conflito ou serem com- associação negativa com valores de poder, de
patíveis com a realização de outros valores. realização e de hedonismo, e positiva com es-
Cada valor é definido em termos de sua meta timulação e autodireção. Interesses artísticos
revelaram associação negativa com poder. In-
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Orientação Vocacional Ocupacional 291
teresses realistas não se correlacionaram sig- estudo transcultural coordenado por Super e
nificativamente com valores. Sverko (1995). A análise dos dados coletados
em 10 países encontrou 18 tipos de orientações
TIPOS DE VALORES OCUPACIONAIS de valor com relação a trabalho, desenvolvi-
mento pessoal, utilização de habilidades, re-
A extensa pesquisa longitudinal de Ro- lacionamento social, realização, estilo de vida,
senberg (1957) sobre valores ocupacionais autonomia, estética, altruísmo, criatividade,
perguntou a milhares de estudantes universi- economia, condições de trabalho, interação
tários sobre as razões fundamentais de suas social, ascensão, atividade física, variedade,
escolhas educacionais. O autor encontrou prestígio, risco e autoridade.
quatro conjuntos de valores básicos: trabalhar
com pessoas em uma relação de ajuda, ter al- Mesmo com o registro de diferenças em
tos ganhos financeiros, adquirir status social e hierarquias de valor entre culturas, um resul-
prestígio, ter a oportunidade de ser criativo e tado obviamente esperado, Super e Sverko
usar talentos especiais. Os resultados mostra- (1995) observaram que os valores de desen-
ram variações sistemáticas de valores entre os volvimento pessoal, utilização de habilidades
campos ocupacionais. Por exemplo, estudan- e realização estão no topo das preferências em
tes de Artes, Arquitetura, Jornalismo e Teatro todos os países. No outro extremo, o desejo de
valorizam a autoexpressão mais do que os enfrentar riscos, autoridade e prestígio foram
demais grupos enquanto estudantes das áreas os menos valorizados. Portanto, verifica-se a
de finanças, vendas, negócios imobiliários e prevalência dos valores de autorrealização,
hoteleiros deram menor importância para esse resultado que apoia a assertiva de psicólogos
aspecto. Estudantes das áreas de serviços so- humanistas (Maslow, 1980) sobre o tipo de
ciais, saúde e educação deram máximo valor motivação predominante nos seres humanos.
ao desejo de ajudar e trabalhar com pessoas,
enquanto os alunos de engenharia e ciências DIFERENÇAS DE GÊNERO NA
naturais deram mínimo valor a essa possibili- PERCEPÇÃO DE VALORES
dade. Por outro lado, ao avaliar a estabilidade
desses achados ao longo do tempo, Rosenberg Por outro lado, é importante salientar a
(1957) observou mudanças em valores e esco- diferença entre homens e mulheres na percep-
lhas ocupacionais. Mas essas mudanças geral- ção de valores, resultado da socialização dife-
mente vinham a reduzir a disparidade entre rencial dos sexos em nossa cultura. As pesqui-
escolhas e valores. sas sobre as relações entre sexo e valores de
trabalho tem mostrado que as mulheres, em
As diferenças de valores associadas a di- comparação aos homens, dão mais importân-
ferenças entre interesses profissionais já foram cia às gratificações pessoais, à busca por de-
repetidamente evidenciadas nas pesquisas senvolvimento pessoal (Schulenberg, Vondra-
(Rosenberg, 1957; Perron, 1987). Os resultados cek e Kim, 1993) e à possibilidade de ajudar os
da pesquisa de Perron (1987) salientam duas outros (Bridges, 1989; Strey, González, Martí-
concepções de trabalho em função de áreas de nez e Carrasco, 1995); e são menos preocupa-
interesse. A primeira caracteriza estudantes das com o valor “prestígio” na opção da car-
de Artes, Letras e Ciências Humanas, e acen- reira a seguir (Bridges, 1989). Hennigen (1994)
tua os valores de realização, de liberdade e de observou que objetivos de vida descritos por
risco. A segunda caracteriza os estudantes de adolescentes homens enfatizavam aspectos
Administração, Saúde e Ciências naturais, e materiais, enquanto as adolescentes enfatiza-
acentua valores de status e clima interpessoal. vam valores pró-sociais. Embora estudos lon-
O autor concluiu que a educação pré-univer- gitudinais indiquem que as mulheres estão
sitária contribui para a polarização entre uma cada vez mais preocupadas com prestígio e
cultura científico-matemática e uma cultura altos salários (Fiorentine, 1988), pesquisas re-
humanista entre os estudantes. centes indicam a permanência das diferenças
antes descritas (Rocha, Menegotto, Teixeira e
O esforço de Rosenberg (1957) encontrou Gomes, 1998). Por outro lado, as diferenças
paralelo na literatura mais recente no grande
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292 Levenfus, Soares & Cols.
nos valores de trabalho entre homens e mu- pede-se que identifique os cinco valores mais
lheres encontradas na população geral não se importantes. A exploração e o ordenamento dos
mantêm quando avaliadas dentro da mesma valores rejeitados pode trazer esclarecimentos
área profissional (Perron, 1987). importantes nesta e nas demais estratégias de
Checklists.
Portanto, questões socioculturais que
recaem sobre homens e mulheres têm impli- Knowdell (1997) sugeriu a utilização
cações em seus valores de trabalho, isto é, de um conjunto de 42 cartões de valores de
podem influir na qualidade e na quantidade carreira (Career Values Card Sort), como, por
das opções profissionais disponíveis para os exemplo, estabilidade, tomada de decisões,
sujeitos. A compreensão dos fatores que in- trabalho sob pressão, comunidade, conhe-
fluenciam o leque de opções consideradas cimento, excitação, entre outros. O cliente é
pelos indivíduos na escolha da carreira é im- orientado a distribuir os cartões entre alterna-
portante para os orientadores preocupados tivas descritivas da intensidade da importân-
em expandir a percepção de possibilidades cia de cada valor para sua vida profissional:
vocacionais de seus clientes. Historicamente, sempre valorizado, frequentemente, às vezes,
as mulheres mostraram tendências a fazer raramente e nunca. Esse é um procedimento
escolhas nos limites de um campo estreito de ágil e eficiente para a definição dos valores
alternativas ocupacionais tipicamente femini- prioritários do sujeito.
nas, e esforços têm sido feitos para entender
esse processo (Rainey e Borders, 1997). Por Uma alternativa aos procedimentos de
outro lado, o estudo dessas mesmas dificulda- hierarquização é dar ao cliente uma quantia
des em homens tem recebido pouca atenção imaginária de R$ 10.000,00 e solicitar que ele
(Lassance e Magalhães, 1997). compre os diversos cartões de acordo com o
valor estimado para cada um. Se a metade da
OS VALORES NA ORIENTAÇÃO DE quantia é destinada ao valor “status intelectual”,
CARREIRA por exemplo, este será considerado um valor
importante para o sujeito.
O exame dos valores na orientação de
carreira profissional pode atender a uma série EXPERIÊNCIAS CULMINANTES
de objetivos: a promoção do autoconhecimen-
to do cliente; a clarificação dos determinantes Abraham Maslow (1980) propôs esse ter-
de interesses ocupacionais; o melhor entendi- mo para designar os momentos mais gratifi-
mento e a superação de impasses relaciona- cantes, maravilhosos e realizadores da vida de
dos a conflitos de valores; esclarecimento da um indivíduo. O autor baseou-se na experiên-
vivência de falta de motivação para a realiza- cia clínica, na pesquisa ideográfica, na literatu-
ção, em busca do resgate da autoconfiança e ra e na filosofia, e descreveu essas experiências
das aspirações do cliente; oferta de uma base como episódios em que o sujeito percebe-se
de critérios de comparação entre alternativas como um todo integrado e totalmente conec-
ocupacionais. tado ao momento presente, experimentando
uma sensação de inteireza, verdade e plenitu-
A CONSCIENTIZAÇÃO DOS VALORES de. Maslow (1980) considerou que essas situa-
ções geram uma nova modalidade de cognição,
Checklists denominada de cognição do ser. Em contraste
com as cognições normais que estão preocupa-
Uma maneira simples e muito utilizada das em orientar o organismo para o suprimen-
para explicitar os valores de um sujeito consti- to de deficiências, as cognições do ser são ex-
tui-se na apresentação de uma lista dos princi- periências de valor em si mesmas, e não meios
pais valores compilados em pesquisas, solicitan- para atingir objetivos extrínsecos. Portanto,
do-se ao cliente que marque com um sinal “+” são experiências de valores intrínsecos. Nes-
os valores importantes, e com um sinal “-” os ses episódios, a pessoa torna-se, pelo menos
valores desprezados ou não importantes. Após, temporariamente, mais verdadeiramente ela
própria, consciente de suas potencialidades e,
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Orientação Vocacional Ocupacional 293
assim, com a possibilidade de responsabilizar- cas importantes para o acesso a seus valores.
-se por sua autorrealização. Assim, foram con- Nesse sentido, pede-se ao cliente que crie sua
sideradas pelo autor como experiências agu- própria lista de pessoas que admira, ou pode-
das de identidade. Já para Maslow (1980), “em mos lhe oferecer uma lista de personalidades
última instância, a procura de identidade é, famosas, isto é, representantes bem-sucedi-
essencialmente, uma busca dos valores intrín- dos dos diversos âmbitos da cultura: arte,
secos e autênticos da própria pessoa” (p. 212). ciência, religião, política, negócios, esportes,
etc. A seguir, orientamos que escolha as três
Desse modo, solicitar ao cliente em Orien- personalidades que gostaria de “ser como”
tação Profissional que identifique as experiên- ou emular e que escreva um pequeno pará-
cias culminantes de sua vida e, a seguir, ex- grafo sobre cada uma, explicando o porquê
plique as características desses momentos que de sua escolha.
trouxeram essas sensações de plenitude pode
ser uma estratégia produtiva na identificação Na verdade, os nomes escolhidos são
de valores e processos de desenvolvimento menos relevantes do que as percepções infor-
da identidade. Uma dificuldade nesse tipo de madas nos parágrafos. O porquê da escolha
abordagem é evidente, qual seja, a experiência de determinada personalidade irá revelar os
clínica nos mostra que alguns clientes nunca valores em foco, pois as justificativas variam
tiveram experiências que pudessem descrever radicalmente entre sujeitos.
assim: sentimentos de inteireza, excitação e re-
alização plena. Nessas situações, uma alterna- Essa estratégia tem se revelado eficaz
tiva é perguntar sobre os pequenos aspectos na abordagem de clientes que mostram ca-
de suas vidas que, de algum modo, os fazem racterísticas de apatia ou desmotivação em
sentir felizes de estar vivos. Essas “pequenas” relação às suas escolhas e às tarefas de vida.
experiências podem trazer informações muito Meinberg (1990) relatou uma intervenção ba-
úteis sobre seus valores. seada na percepção do cliente sobre as pes-
soas que admira com o objetivo de fortalecer
Thorne (1963) introduziu o conceito de a motivação de realização em seus pacientes
experiências nadir (lugar oposto ao zênite), com dificuldades de motivação para o trata-
isto é, o ponto mais baixo, oposto ao ponto mento na clínica fonoaudiológica. A autora
culminante. Elas seriam as “piores experiên- baseou-se nas pesquisas de Biaggio (1984)
cias que o indivíduo teve na vida”, os pontos sobre a eficácia de programas de treinamento
baixos de sua história. Não obstante, a inves- para aumento da motivação para realização
tigação de Ebersde (1970) verificou que, para e rendimento escolar em alunos do ensino
44% da sua amostra de estudantes universi- médio. O programa de treinamento propos-
tários, as piores experiências resultaram em to por Biaggio (1984) usou procedimentos
efeitos positivos em suas vidas a longo prazo; variados a fim de promover a construção de
e 39% dos sujeitos disseram que as experiên- conceitos e comportamentos de realização
cias nadir foram mais importantes para seu em seus sujeitos: reflexão sobre histórias,
desenvolvimento do que suas experiências biografias e filmes relacionados ao tema; en-
culminantes correspondentes. Portanto, a in- trevistas com profissionais de sucesso; jogos
vestigação desse tipo de vivência pode ser útil grupais de competição; discussão de planos
para a identificação tanto de valores negativos vocacionais para o futuro. De acordo com a
quanto de processos formadores de valores autora, as teorias sobre processos de identifi-
positivos e da identidade. Isso pode ser feito cação no desenvolvimento humano indicam
adotando procedimentos análogos aos descri- claramente que o jovem assimila compor-
tos anteriormente. tamentos de modelos que encontra em seu
ambiente e que a identificação com modelos
Pessoas admiradas de sucesso está relacionada a alta motivação
para a realização.
Conhecer os ídolos de nossos clientes,
as pessoas as quais gostariam de “ser como” Meinberg (1990) exemplificou o uso de
ou seguir como exemplo, pode oferecer di- seu procedimento no caso de um jovem de 20
anos que apresentava comportamento passi-
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294 Levenfus, Soares & Cols.
vo, influenciável e de fraca autodeterminação. uma lista de 30 nomes elaborada pelo orien-
De acordo com a autora, seu tador.
trabalho orientou-se para o aumen- Einstein
to da percepção de si mesmo, de seu am-
biente, de suas dificuldades e de que re- Um gênio, não tem quem se compare em
cursos precisaria para fazer frente a elas, inteligência, perspicácia. Ajudou o mundo a
(...) promover uma valorização maior de crescer intelectualmente. E seu estilo de vida...
seu ego e criar parâmetros de ideais de de acreditar em suas teorias. Foi persistente
motivação para a realização. (p.153-154) diante da dúvida dos outros e revolucionou a
física e o próprio pensamento. Ele teve o su-
Após o cliente identificar e descrever cesso com vida, foi reconhecido, muitos não
as características admiradas nas pessoas de tiveram tal sorte. Envolveu-se com questões
sua escolha, a autora mostrou a reiteração de políticas durante e depois da guerra, preocu-
determinados traços em suas descrições e es- pou-se com as consequências sociais das suas
clareceu que “essas características repetidas descobertas.
são seus valores internos, e você só pode ad-
mirá-los nos outros porque os possui poten- Gandhi
cialmente” (Meinberg, 1990, p. 155). A seguir,
conduziu o cliente a perceber o quanto os as- Foi o maior pacifista do mundo, trazia
pectos admirados estavam presentes aberta uma resposta inteligente para assuntos po-
ou potencialmente no seu próprio comporta- lêmicos, conseguia refletir e tomar a atitude
mento, traçando estratégias para a realização mais certa, uma solução pacífica em situações
desses valores. agressivas e difíceis. Ele via as coisas de uma
maneira bonita, sem pessimismo... mas não
ESTUDO DE CASO sei se fazia isso só para passar uma mensagem
de paz, acalmar os outros. Era sereno e claro
Apresentarei o caso de Laura, uma jovem no que dizia.
de 18 anos que buscou Orientação Profissional
a fim de fazer sua escolha de curso universi- Napoleão
tário. Mostrava-se comunicativa, desenvolta
verbalmente e com ótima cultura geral. Po- Mesmo jovem, ele alcançou um grande
rém, dizia estar constantemente desmotivada posto na França. E começou de baixo. Era um
e descrente de suas capacidades para realizar grande estrategista, tomou conta da Europa,
seus projetos. Laura afirmou ter muitos inte- África. Não era questão de experiência, ele se
resses diferentes e sentir-se muito confusa. impôs jovem. Era de origem nobre mas não
Entre seus interesses, citou Medicina, Psico- era rico. Começou de baixo.
logia, Engenharia Genética, Direito, Publici-
dade, Arquitetura e Decoração de Interiores. Os parágrafos informam valores de pio-
Na aplicação do BBT (Achtnich, 1991), Laura neirismo, conhecimento, liderança, habilida-
obteve um número elevado de escolhas posi- des de relacionamento interpessoal, associa-
tivas (62 fotos). Sua indecisão parecia resultar dos ao desejo de autoafirmação da juventude
da autopercepção de múltiplas possibilidades em contraponto ao suposto valor da experiên-
e interesses. A clarificação de valores é uma cia das pessoas ditas maduras (“não era ques-
estratégia produtiva nesses casos, a fim de tão de experiência, ele se impôs jovem”).
estabelecer metas de longo prazo, obter uma
base para comparações entre opções e fazer as Em vista das dificuldades apresentadas
primeiras escolhas. por Laura nos aspectos de autoconfiança e
motivação, foi aplicado o exercício de motiva-
A técnica das pessoas admiradas gerou ção para a realização sugerido por Meinberg
os seguintes parágrafos, relativos às três per- (1990). Laura foi novamente convidada a falar
sonalidades prioritariamente escolhidas em sobre pessoas a quem admira, mas agora li-
vremente, isto é, sem nomes definidos a priori,
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Orientação Vocacional Ocupacional 295
incluindo seus relacionamentos particulares. Laura: Hmm... não tinha pensado.... acho
Segue transcrição do diálogo. que tem a ver.
Orientador: Cite três pessoas que você Orientador: Essas características que se
admira muito. Agora você pode escolher livre- repetem e que você admira são seus valores,
mente e incluir as pessoas que você conhece eles fazem parte de uma vivência interna sua
pessoalmente, sejam familiares, amigos etc. e não são somente algo que você observa nos
outros. Você é capaz de admirá-los nas outras
Laura: Hmm... Eu admiro muito meu pessoas porque os possui potencialmente. Eu
pai... minha mãe também... meu amigo G. vou listar essas características e você vai me
dizendo o quanto você percebe delas em você
Orientador: OK. Agora vamos falar um mesma.
pouco de cada um deles. Quais as caracterís-
ticas que essas pessoas possuem que fazem 1. Inteligência e conhecimento (Laura):
com que você as admire? Não como eu gostaria, mas me consi-
dero inteligente sim.
Laura: Meu pai nasceu em uma família hu-
milde e, como era o mais velho dos irmãos, saiu 2. Resistência (Laura): Sim, me sinto re-
de casa para trabalhar. Ele fez vários negócios, sistente.
pagou o colégio dos irmãos e nunca deixou de
estudar. Hoje ele tem duas faculdades. Ele é ba- 3. Equilíbrio, ponderação (Laura): Acho
talhador; além disso, ajuda os outros, está sem- que sou ponderada, eu sou uma boa
pre preocupado com o bem-estar da família. mediadora de conflitos, mas não tenho
serenidade pessoal.
Orientador: E sua mãe...
Laura: A minha mãe passou uns maus 4. Um jovem com visão (Laura): Sim, eu
bocados. Perdeu os pais quando era criança e sei que tenho observação e compreen-
foi criada pela avó. Trabalhou muito, também são, mas eu me desmereço, não estou
tem duas faculdades. Apesar das dificuldades investindo nisso e vejo outros que não
ela conseguiu manter um equilíbrio. tem tantas condições se saindo me-
Orientador: Como você poderia definir o lhor; eu acho que tenho mais visão do
que você mais admira em sua mãe? que muitas pessoas que se acham ex-
Laura: Acho que ela é forte... é resisten- perientes.
te, apesar dos problemas não se deixa abater;
apesar de ela estar um pouco desanimada ul- 5. Determinação, ser batalhador (Laura):
timamente, eu acho que isso é normal. Não.
Orientador: E o seu amigo G.
Laura: Na idade em que ele está, a visão Orientador: “O que lhe faz pensar que
de mundo e os valores que ele tem são extra- não é uma pessoa batalhadora?”
ordinários. Ele é um jovem com visão. O tra-
balho dele é muito legal. Ele viaja o mundo Laura: “Qualquer dificuldade me faz de-
inteiro, trabalha em uma ONG que tem uma sistir.”
filosofia de integração entre os povos.
Orientador: Eu percebi que você trouxe Orientador: “Então me fale sobre essa
algumas características que já estavam pre- qualidade de ser batalhador que você observa
sentes na outra vez que nós conversamos so- em seu pai.”
bre pessoas que você admira. Por exemplo, o
conhecimento e a inteligência foi destacado Laura: “Pois é, eu acho que meu pai é ba-
em Einstein e agora em seus pais; da mesma talhador, é determinado, mas é um não desis-
forma, a coragem, a determinação e o pionei- tir sofrendo, de continuar mesmo na pior.”
rismo foram salientados em seus pais e antes
também apareceram em Napoleão, Gandhi e Orientador: “Seu pai parece ter lhe ensi-
Einstein. O equilíbrio e a resistência de Gan- nado o valor do sacrifício associado ao com-
dhi e de sua mãe tem algo em comum. E você portamento de batalhador.”
se referiu ao talento de pessoas jovens quando
falou de Napoleão e agora de seu amigo G. Laura: “É isso aí, tudo parece carregado
de sofrimento, ele venceu na vida, mas...”
Orientador: “Parece que ele pagou um
preço muito caro e que você talvez não ache
que valha a pena.”
Laura: “É... Acho que é isso.”
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296 Levenfus, Soares & Cols.
Este exercício e os esclarecimentos de- Os valores de conhecimento, habilidade
correntes possibilitaram a Laura tomar cons- política (mediação de conflitos), ajuda à socie-
ciência de seus valores; e perceber como o dade, realização moral e independência reve-
conflito entre os ideais de autorrealização e laram-se os mais importantes nos resultados
o modelo de sacrifício e abnegação que per- das técnicas aplicadas. Esses valores foram
cebia em seus pais estava prejudicando o utilizados como critérios de comparação en-
desenvolvimento da motivação para a reali- tre os interesses profissionais de Laura, consi-
zação de seus potenciais. O exercício possi- derando-se que os interesses representam as
bilitou o reforço da sua autoconfiança. Uma atividades nas quais o cliente espera realizar
autoconfiança fortalecida permite uma auto- seus valores. Nesse sentido, as alternativas de
avaliação mais realista e o estabelecimento de carreira consideradas por Laura foram com-
metas de desenvolvimento pessoal. paradas em termos de seus potenciais para
a realização. Nesse processo, constatou-se a
Laura classificou os cartões de valores de necessidade de ampliação e aprofundamen-
carreira de Knowdell (1997) entre as catego- to do seu conhecimento sobre as ocupações,
rias propostas pelo autor: sempre valorizado, e a carreira diplomática emergiu como uma
frequentemente, as vezes, raramente e nunca. das alternativas mais promissoras para con-
Os valores incluídos na categoria “sempre va- cretizar os valores prioritários identificados.
lorizados” foram ordenados em uma hierar- Os cursos universitários de Direito e Ciências
quia de importância. Os valores prioritários Sociais com ênfase em Ciência Política foram
para Laura foram os seguintes: as opções escolhidas por Laura para o vesti-
bular.
1. Realização moral
2. Conhecimento
3. Independência
4. Preocupação com a sociedade
5. Criatividade geral
6. Excitação
7. Lucro/Ganho financeiro
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24
O uso da autobiografia escrita
na orientação vocacional
Rosane Schotgues Levenfus
Desde que comecei a trabalhar com diferentes técnicas, recorre à concepção do eu
Orientação Vocacional, venho utilizando a como narrador, obtendo, assim, informações
autobiografia escrita como mais um instru- sobre as construções subjetivas que o sujeito
mento no processo de Orientação Vocacio- elabora sobre sua autoimagem (Alvarez, Mi-
nal Grupal1. Recentemente, realizei a leitu- chel e Diuk, 1996).
ra de algumas autobiografias aplicadas em
orientandos com a finalidade de observar os Entre os primeiros instrumentos
fenômenos emergentes e verificar se o mate- baseados em relatos, encontramos a en-
rial serviria como fonte de coleta de dados trevista livre, na qual o sujeito fala sobre
importantes para o processo de Orientação si mesmo, estruturando um relato oral,
Vocacional e para pesquisa2. Concluí desde através do qual são obtidas informações
então que as autobiografias não são utilizadas sobre as representações subjetivas acerca
somente como ricas fontes de coleta de dados de si ( p. 234).
(Portuondo, 1979; Dollinger e Dollinger, 1997;
Harre, 1997), como também apontam impor- Mais tarde, a forma de relato escrito
tantes categorias para a compreensão do pro- (apresentada neste capítulo) passou a ser tam-
cesso de escolha profissional.3 bém utilizada como técnica de avaliação psi-
cológica.
Diversas ciências têm se utilizado do mé-
todo biográfico ou autobiográfico, bem como O método biográfico atribui à subjetivi-
histórias de vida para a coleta de informações dade um valor de conhecimento (Ferraroti,
sobre o sujeito. De uma perspectiva social, por 1979) que nos permite elucidar uma série de
exemplo, é possível coletar informações sobre fatos que necessitam ser compreendidos em
a vida social de uma pessoa, seu crescimento e um processo de orientação profissional. Enu-
seu desenvolvimento em relação a um contex- meramos a seguir as diversas possibilidades e
to cultural. Também a psicologia, através de vantagens desse instrumento.
1 No processo individual, a entrevista clínica elimina a necessidade de uso desse instrumento.
2 Para minimizar o efeito da subjetividade na análise foi providenciado um teste de fidedignidade a partir da
solicitação a dois Professores Doutores (juízes), com experiência em orientação com o método da Análise
de Conteúdo, para que fizessem a leitura de algumas autobiografias a fim apontarem que categorias para
análise de conteúdo emergem de cada autobiografia.
3 Para fins de pesquisa, o conteúdo da autobiografia foi confrontado com conteúdo do Teste de Frases Incom-
pletas (Bohoslavsky, 1982) e com uma escala de comportamento.
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300 Levenfus, Soares & Cols.
POSSIBILIDADES E VANTAGENS DA da de consciência acerca de seus pro-
AUTOBIOGRAFIA cessos pessoais (Ferraroti, 1979; Nóvoa
e Finger, 1988). Entendemos que esse
• A autobiografia é uma técnica que pode resgate de experiências passadas auxi-
ser utilizada com êxito na avaliação lia nas decisões futuras.
dos principais tipos de personalidade, • O sentimento de ser e a consciência de
assim como na compreensão das zonas si mesmo permite definir a identidade
mais conflitivas do sujeito (Portuon- em uma dimensão temporal. O sujei-
do, 1979; Harre, 1997; Dollinger et al., to frequentemente inclui aspectos do
1997). passado com o intuito de esclarecer o
presente. Ao relatar quem foi e quem
• A forma particular com que se apresen- é, pode mais facilmente projetar-se ao
ta cada narrativa possibilita enfocar o futuro, pensando em quem deseja ser,
processo de Orientação Vocacional sob fazendo projetos de vida (Alvarez, Mi-
uma perspectiva personalizada (Alva- chel e Diuk, 1996).
rez, Michel e Diuk, 1996)
SOBRE O CONCEITO DE “SI MESMO”
• Oferecem-nos oportunidade para ex-
plorar a forma como as pessoas enten- Diferentes teorias da personalidade for-
dem e descrevem emoções (Bjorklund, mularam conceitos sobre o “si mesmo”. Pensa-
1997). Na autobiografia, percebe-se mos ser oportuno apresentá-las de forma resu-
como as emoções podem ser reguladas mida para depois falarmos da importância do
pelo uso de expressões simbólicas ou autoconceito no momento da escolha profis-
expressões do repertório cultural (Ruth sional. Elaboramos o seguinte quadro resumi-
e Vilkko, 1997). do com base na dissertação de Ribeiro (1978),
podemos perceber pelos resumos enunciados
• Situações patológicas também podem que muitos são os conceitos sobre o “si mes-
ser diagnosticadas por expressões de mo”. Encontramos autores com pensamentos
uso incomum na narrativa ou no uso ancorados mais em bases sociais, outros em
de gramática estranha. Leva em conta relacionamentos vinculares ou em ambos,
o amoldar da mente na aprendizagem com possibilidades ou não de mudanças no
de habilidades linguísticas e práticas decorrer da vida. Em comum, percebemos
em simbiose com outra pessoa, e em que, se a constituição do “si mesmo” ocorrer
uma perspicácia de como sentimos e de forma adequada, em consonância com um
como nossos pensamentos são organi- ambiente facilitador, a tendência é a de que o
zados (Harre, 1997). sujeito se estruture de forma sadia.
• Tem se mostrado como uma fonte Esse aspecto tem sido apontado como
rica de material de pesquisa de ciên- importante fator no momento da escolha pro-
cia psicológica e social, permitindo fissional, já que, conforme Super e colaborado-
pesquisas naturalistas e mantendo res (1963), ao assumir determinada ocupação,
rigor empírico (Rubin,1996; Birren e o sujeito tenta implementar seu conceito de si
Birren,1996; De-Vries e Lehman, 1996; mesmo e, ao estabelecer-se ocupacionalmente,
Dollinger, 1996). alcança a realização de seu autoconceito. Para
eles, a construção da identidade profissional
• O método (auto) biográfico possibilita ocorre em três processos: formação do auto-
ir mais longe na investigação e na com- conceito, sua tradução em termos vocacionais
preensão dos processos de formação e sua implementação.
do sujeito (Nóvoa e Finger, 1988).
De acordo com a pesquisa de Frischen-
• Além de fornecer ao orientador um bruder (1999), o aspecto mais relevante do
conjunto amplo de elementos forma- autoconceito dos adolescentes em vias de es-
dores, normalmente negligenciados colher uma profissão é a percepção de que são
pelos métodos quantitativos, permite
que cada pessoa identifique em sua
própria história de vida o que foi real-
mente formador, estimulando a toma-
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