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Orientação Vocacional Ocupacional 201
gosta, ele suporta mais. (Quais as coisas de que por não saber o que quer da vida, ser alguém
ele menos gosta?) Não gosta da parte de cobran- normal, e não especial, e terminar desperdi-
ça, muita enrolação, tipo burocracia, coisas, çando seus talentos em uma atividade que o
documentos que ele tem que fazer. faz sentir-se oprimido.
Título: Não sei... O insatisfeito, o infeliz. Quarto pedido: Desenhe você, em sua
profissão futura, fazendo alguma coisa.
Análise da terceira unidade de produção
Diante do pedido, comenta: “Mas eu
O comentário em relação às minhas ano- não sei!” (Tente imaginar alguma coisa, veja se
tações reflete a emergência de ansiedades pa- você consegue.). Pensa mais de meio minuto
ranoides frente ao pedido que obriga o indi- e faz a seguinte observação: “Queria fazer
víduo a entrar em contato com a crise. Para diferente do primeiro desenho, mas não con-
Paulo, a crise é conformar-se a uma profissão sigo”. Faz a figura humana central, a figura
convencional, cobranças burocráticas, uma humana de costas e cabelos compridos à di-
rotina escravizante e estressante. No desenho, reita do profissional e a terceira figura huma-
as baias são fechadas no teto, o que indica a na de perfil com o livro na mão. Finaliza com
percepção de que o ambiente é restritivo. O a lousa atrás.
traçado é mais carregado que nos dois primei-
ros desenhos; a cadeira e os sapatos do profis- Estória: “Não sei como explicar, mas
sional, indicativos do contato com a realidade, é tipo como se fosse um plano, um projeto,
aparecem muito sombreados, denotando forte mas não é uma aula, é uma explicação. (Ob-
angústia frente à situação retratada. Pela pri- serva a diferença de tamanho das figuras humanas
meira vez aparecem os traços faciais no rosto e espanta-se) Nossa! O profissional é muito
do profissional, o que revela que Paulo tem maior que as duas outras pessoas! Mas era
clareza do que não deseja para si. Seu temor pra ser como se fosse grupo, não eu o profes-
em relação à vida profissional futura é acomo- sor. (Como assim?) Um projeto, penso em um
dar-se e deixar-se levar pelos acontecimentos projeto, estudo, sei lá. E eu tô dando a minha
parte na explicação. (E o que vai acontecer?) Sei
lá, eu não sei se é bem um projeto, na verdade
Figura 15.4 Paulo: Quarto desenho.
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202 Levenfus, Soares & Cols.
era... não sei... alguma tese, querendo provar menor, o que demonstra que o desenho apre-
alguma teoria de alguma coisa de social que senta menos conteúdos angustiantes.
dá certo, mais ou menos isso. (E como termina
a estória?) A gente conseguiu provar, os três A estória e o inquérito contêm alguns
juntos, desenvolvendo uma ideia.”. elementos que definem a atividade do pro-
fissional; lembram a função de um professor
Inquérito: (Qual a idade do profissional?) universitário: o profissional busca desenvol-
25 anos, (Quais as qualidades?) estudioso, tá ver ideias (uma tese) e provar alguma teoria
fazendo o que ele quer. (Quais os defeitos?) de algum aspecto social. O profissional realiza
Defeitos... defeito é sempre mais difícil, não criticas às teorias dos outros, estuda a socie-
aceitar algumas teorias de alguns outros, ser dade, pretende fazer contribuições para essa
meio crítico assim... demais. (Quais as coisas de área do conhecimento. Pode-se verificar que
que mais gosta?) O estudo da sociedade é legal. houve um movimento elaborativo de Paulo
(Quais as coisas de que menos gosta?) O que tem ao longo dos quatro pedidos.
de errado na sociedade. (Quais os desejos e as
aspirações?) Conseguir entender a sociedade e Trabalho de Intervenção em Orientação
acrescentar alguma coisa para essa disciplina.
Profissional
Análise da quarta unidade de produção
Nas sessões posteriores, mostrei os dese-
Paulo vê a profissão de professor como nhos e reli as estórias a Paulo, explicando, de
estranha a si mesmo (egodistônica): gostaria uma maneira que ele pudesse compreender,
de ter feito diferente do primeiro desenho, os aspectos analisados em cada unidade de
porém não conseguiu. Embora seja um res- produção. Resgatei com ele o desejo por ati-
gate do tema do primeiro desenho, ligado ao vidades nas quais ele pudesse comunicar algo
desejo na profissão, Paulo reluta em reconhe- às pessoas e expressar sua afetividade; retomei
cê-lo e assumi-lo. Espanta-se ao perceber sua com ele os motivos que o levaram a escolher
posição de destaque no conjunto da equipe o curso de pedagogia. Trabalhei com Paulo o
(aparece maior e centralizado na cena) e de- seu temor a ter que se submeter a atividades
fine-se como professor negando essa ideia. O burocráticas e rotineiras que impedissem a
tempo de reação acima de 30 segundos pode expressão de sua criatividade. Ressaltei que
ser outro elemento indicativo dessa dificulda- toda função possui algum aspecto burocráti-
de. A figura do profissional é a única retratada co, por mais criativa que possa ser. Sinalizei
na cena sem rosto, o que denota novamente o desejo de reconhecimento social, em provar
a dificuldade em ver-se nessa posição. Entre- suas ideias aos outros, etc. Mostrei também a
tanto, a cena retratada é mais integrada que forte influência de uma figura feminina como
no primeiro desenho: os alunos estão pró- referência profissional em sua vida, possivel-
ximos ao professor, são colocadas de corpo mente sua mãe. Paulo explicou que o trabalho
inteiro e possuem rosto, também estão mais de sua mãe dentro da psicologia e da área aca-
participantes no trabalho do profissional. O dêmica relacionava-se à psicologia social, que
profissional perdeu os cabelos longos, e a rou- era algo que ele admirava muito. Ao aproxi-
pa parece menos informal, dando a impressão mar-se dessas questões, Paulo, ao término do
ao observador de ser uma figura mais velha, processo de OP, escolheu o curso de Psicolo-
enquanto as demais figuras humanas retrata- gia, mesmo após termos considerado juntos
das (que podem ser entendidas como aspectos carreiras como Sociologia (Ciências Sociais)
da personalidade de Paulo que aparecem dis- e Geografia. Paulo considerou também como
sociados) ainda conservam mais características uma importante possibilidade seguir uma
adolescentes. A cena como um todo está mais carreira acadêmica.
próxima do observador; além disso, o traçado
está menos carregado, houve menos reforça- Em síntese, o trabalho de OP com Pau-
mento das linhas, e a pressão sobre a folha foi lo consistiu em imprimir um rosto à sua pro-
fissão futura, aproximando aspectos de sua
personalidade que ele tinha dificuldade em
reconhecer.
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Orientação Vocacional Ocupacional 203
CONSIDERAÇÕES FINAIS Considero ainda o DP-E uma importante
contribuição para a Orientação Profissional,
Foi apresentado um novo recurso técni- em face da existência de muito amadorismo
co e instrumental para a prática de Orienta- nessa área específica de atuação. Essa técnica
ção Profissional. As análises de cada uma das apresenta estudos de validade e precisão que
unidades de produção do DP-E e do material objetivam definir critérios seguros de análise
como um todo permitem ao psicólogo orien- para seus futuros usuários, bem como unifor-
tador profissional o levantamento de infor- mizá-los por meio de parâmetros qualitativos
mações relevantes para o desenvolvimento e quantitativos.
do trabalho com seu orientando. Ao longo do
teste, o examinando pode projetar seus dese- O adequado uso do instrumento requer
jos, suas expectativas, seus medos e suas an- do usuário certa familiaridade com os pro-
siedades em relação à vida profissional, além cedimentos de aplicação e análise, necessá-
de se colocar exercendo uma atividade profis- ria não apenas nesta que apresentei, mas em
sional futura. todas as técnicas projetivas, o que qualifica o
trabalho do profissional.
Procurei demonstrar que o DP-E é uma
técnica facilitadora na comunicação com o Assim sendo, espero que os leitores que
cliente. Além disso, o DP-E, aliado a outros tenham se interessado em utilizar os Dese-
recursos, como entrevistas, observações, e à nhos de Profissionais com Estórias em seus
possibilidade de discussão dos resultados en- atendimentos venham a ter experiências tão
contrados com o próprio orientando, permite interessantes e enriquecedoras quanto as
identificar dificuldades e perspectivas para o que tenho experimentado em minha prática
trabalho que será desenvolvido. como orientadora profissional e como pes-
quisadora.
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VAN KOLCK, O.L. Técnicas projetivas gráficas no diagnóstico psicológico. São Paulo: EPU, 1984.
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16
Escala de maturidade para
a escolha profissional (EMEP)
Kathia Maria Costa Neiva
Quando um jovem procura orientação tação de um caso no qual a escala foi aplicada
profissional, algumas das perguntas que fre- no início e no final do processo de orientação
quentemente nos fazemos como orientadores profissional.
profissionais são: Onde este jovem está em seu
processo de escolha? Perdido, em dúvida, quase O CONCEITO DE MATURIDADE
decidido ou querendo confirmar uma escolha já PROFISSIONAL
feita? Será que este jovem tem maturidade sufi-
ciente para escolher uma profissão neste momento Super (1955) introduziu a expressão ma-
de sua vida? Quais as dificuldades que este jovem turidade profissional, referindo-se ao conjunto
está enfrentando para escolher sua profissão? de comportamentos e atitudes que um indiví-
Como poderemos ajudá-lo no seu processo de esco- duo deve empreender objetivando sua inser-
lha profissional ? Da mesma maneira, quando ção profissional. Para esse autor, existem está-
finalizamos um processo de orientação pro- gios de desenvolvimento vocacional, e o nível
fissional, é comum formularmos perguntas de maturidade corresponde ao lugar ocupado
do tipo: Será que a decisão tomada por este jovem pelo indivíduo no continuum desse processo
foi realmente uma decisão madura? ou Mesmo de desenvolvimento.
não tendo escolhido uma profissão, este jovem
evoluiu em seu processo de escolha profissional? Crites (1961 e 1965) interessou-se em
A falta de instrumentos que permitam não compreender melhor esse conceito e, assim,
apenas diagnosticar melhor a situação do construiu um modelo teórico baseado no pa-
jovem orientando no início do processo de drão proposto inicialmente por Super (1955).
orientação profissional, mas também avaliar, Ele considerou a maturidade para a escolha
de forma mais precisa, sua evolução ao lon- profissional como um fator geral composto
go do processo de orientação profissional, de quatro dimensões: consistência, realismo,
levou-me a estudar com mais atenção o con- competência e atitude. De tal modelo resultou
ceito de Maturidade para a Escolha Profissio- a construção do Inventário de Maturidade
nal e construir a Escala de Maturidade para a Profissional (CMI), que possui dois subtestes:
Escolha Profissional (EMEP). o Teste de Competências e a Escala de Atitu-
des (Crites, 1965, 1978a, 1979b). Embora essa
O objetivo deste capítulo é apresentar aos escala tenha sido traduzida para vários idio-
leitores a EMEP – um instrumento que tem se mas, são importantes as críticas feitas sobre as
mostrado bastante útil para nós, orientadores várias versões com relação à sua validade e à
profissionais. Inicialmente, discorrerei sobre sua fidedignidade (Westbrock et al., 1980; Alvi
os aspectos teóricos e técnicos da escala para, e Khan, 1982, 1983; Huteau e Ronzeau, 1974;
em seguida, contextualizá-los com a apresen- Japur e Jacquemin, 1989).
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Orientação Vocacional Ocupacional 205
As ideias acima nortearam o delineamen- em um pequeno grupo de estudantes do ensi-
to do modelo de maturidade para a escolha no médio do Liceu Franco-Mexicano, antes e
profissional, por mim proposto (Neiva, 1998, após a participação em um grupo de orienta-
1999), e a construção da EMEP. Para atingir a ção profissional. Alguns itens das subescalas
maturidade para a escolha profissional, é ne- foram adaptados da Escala de Atitudes do
cessário o desenvolvimento de certas atitudes CMI, elaborada por Crites (1965). Essa versão
e a aquisição de determinados conhecimen- não foi submetida a um estudo de validade e
tos. A maturidade para a escolha profissional de fidedignidade, pois a amostra na qual foi
é, portanto, composta de duas dimensões: aplicada era muito reduzida.
Atitudes e Conhecimentos. A dimensão Atitudes
compreende três subdimensões: A segunda, que surgiu em 1995, foi cons-
truída em espanhol e possuía um total de 46
1. Determinação para a escolha profissional. itens. Para essa versão, foram eliminados al-
Refere-se a quanto o indivíduo está de- guns itens da original, reformulados outros e
finido e seguro com relação à sua esco- inseridos novos. A escala foi aplicada em uma
lha profissional. amostra de 600 alunos mexicanos que cursa-
vam o ensino médio em escolas particulares;
2. Responsabilidade para a escolha profissio- avaliou-se sua validade e sua fidedignidade e,
nal. Trata de quanto o indivíduo se en- a partir disso, foram obtidas normas para as
gaja no seu processo de escolha e quan- três séries do ensino médio.
to empreende ações para efetivá-la.
A versão atual, que foi construída em por-
3. Independência na escolha profissional. tuguês em 1996, mantém a estrutura da ante-
Refere-se ao grau de independência rior. A maioria de seus itens foram traduzidos
presente na escolha profissional, sem e adaptados da versão espanhola; apenas seis
que o indivíduo seja influenciado pe- itens são novos. Essa escala foi aplicada em
las ideias de familiares, professores, uma amostra de 1176 alunos do ensino médio
amigos, meios de comunicação, etc. de escolas públicas e particulares da cidade de
São Paulo. A escala demonstrou, através de
A dimensão Conhecimentos compreende estudo, níveis de validade e de fidedignidade
duas subdimensões: satisfatórios (Neiva, 1998, 1999). Foram obtidas
normas para os alunos de escolas públicas e
1. Autoconhecimento. Refere-se a quanto particulares das três séries do ensino médio.
o indivíduo sabe sobre os diferentes
aspectos de sua pessoa que são rele- Descrição da Escala
vantes para a sua escolha profissional:
características pessoais, habilidades, A Escala de Maturidade para a Escolha
interesses, valores, etc. Profissional é um instrumento destinado a alu-
nos do ensino médio, cujo objetivo é avaliar
2. Conhecimento da realidade educativa e o nível de maturidade para a escolha profissional.
socioprofissional. Trata de quanto o in- Pode ser aplicada individualmente ou em gru-
divíduo sabe a respeito de aspectos va- po, e sua aplicação dura em média 15 minutos.
riados das realidades escolar e profis- Tanto a sua forma de aplicação quanto a for-
sional: profissões existentes, mercado ma de avaliação são simples e fáceis. A escala
de trabalho, nível salarial, níveis de en- é composta de 45 afirmativas, que indicam ati-
sino, cursos, instituições de ensino, etc. tudes em relação à escolha profissional. Exis-
tem 23 itens positivos (afirmações que indicam
A ESCALA DE MATURIDADE PARA A maturidade) e 22 itens negativos (afirmações
ESCOLHA PROFISSIONAL que indicam imaturidade). A tarefa do sujeito
é avaliar a frequência de cada atitude, classi-
Para chegar à versão atual da EMEP, ficando-a em uma das cinco modalidades de
foram construídas e testadas várias outras ao resposta : (1) nunca , (2) raramente, (3) às vezes,
longo de cinco anos. A primeira, que surgiu (4) frequentemente e (5) sempre (Neiva, 1999).
em 1994, foi construída em francês e aplicada
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206 Levenfus, Soares & Cols.
Esses itens estão agrupados nas seguin- Conhecimento da realidade educativa e so-
tes subescalas: Determinação, Responsabili- cioprofissional.
dade, Independência, Autoconhecimento e
Apresentam-se, a seguir, como exemplo, dois itens de cada subescala: um positivo e um
negativo:
Subescala Itens
Determinação (+) Penso que já decidi minha futura profissão.
(-) Me sinto confuso(a) com relação à minha escolha profissional.
Responsabilidade (+) Reflito sobre como decidir minha futura profissão.
Independência (-) Penso que ainda não devo me preocupar com a minha escolha
Autoconhecimento profissional.
(+) Acho que a opinião de meus pais pouco influencia a minha escolha
profissional.
(-) Penso que me deixo influenciar pela opinião das pessoas sobre a
profissão que devo escolher.
(+) Para mim é fácil separar minhas habilidades em mais fortes e mais
fracas.
(-) Tenho dificuldade para definir que tipo de pessoa eu sou.
Conhecimento da (+) Posso apontar facilmente as profissões que oferecem um bom
Realidade Educativa e mercado de trabalho.
Socioprofissional (-) Considero que sei muito pouco sobre o nível das universidades.
Para a avaliação de cada subescala, exis- tal o quadro de normas que corresponda ao
tem crivos específicos que facilitam o cálculo tipo de escola cursada pelo orientando (parti-
da pontuação bruta obtida pelo sujeito em cular ou pública) e à sua série escolar (1º, 2º ou
cada uma delas. São obtidas, assim, pontua- 3º ano do ensino médio). Para obter a classifi-
ções brutas para as cinco subescalas e para a cação de cada pontuação Percentil utiliza-se a
escala total. Cada pontuação bruta é conver- Tabela 16.1:
tida à pontuação Percentil, utilizando-se para
Tabela 16.1. Classificação da Pontuação Percentil – EMEP*
PERCENTIL CLASSIFICAÇÃO
1 MUITO INFERIOR (I-)
5-10 INFERIOR (I)
20-25 MÉDIO INFERIOR (MI)
30-70 MÉDIO (M)
75-80 MÉDIO SUPERIOR (MS)
90-95 SUPERIOR (S)
99 MUITO SUPERIOR (S+)
* Esta tabela foi extraída do manual da EMEP (Neiva, 1999, p. 64), com a autorização da Vetor Editora Psi-
copedagógica.
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Orientação Vocacional Ocupacional 207
Os passos detalhados sobre aplicação, não tenha havido evolução, tampouco que
avaliação e interpretação da EMEP, bem como não tenha havido amadurecimento em rela-
os quadros de normas, podem ser encontrados ção à escolha profissional. A comparação dos
no manual da escala (Neiva, 1999). A interpre- resultados pré e pós-orientação profissional
tação dos resultados é feita tomando como base permite detectar os aspectos que mais se de-
aquilo que mede cada subescala. senvolveram e os que ainda necessitam um
maior amadurecimento. Uma pesquisa rea-
Usos da Escala lizada comprovou essa utilidade do instru-
mento (Neiva, 2000).
A Escala de Maturidade para a Escolha
Profissional pode ser utilizada em várias áreas Avaliar o programa de Orientação Profissio-
da Psicologia e com diferentes objetivos: nal desenvolvido. A comparação dos resultados
pré e pós orientação profissional permite tam-
Detectar alunos que necessitam de orien- bém avaliar o trabalho de orientação profissio-
tação profissional. Os alunos que apresentam nal desenvolvido pelo orientador. Instituições,
um nível de maturidade para a escolha pro- profissionais e serviços de orientação propõem
fissional abaixo da média deveriam ser enca- programas de orientação baseados em dife-
minhados para uma orientação profissional, rentes concepções teóricas e metodológicas,
visando o desenvolvimento de tal maturida- mas carecem de um instrumento que permita
de. Para as instituições de ensino que traba- avaliar a consistência e a eficácia do trabalho
lham com um grande contingente de alunos, proposto. A EMEP pode ser de grande valia na
esse instrumento pode ser muito útil, uma avaliação de programas de orientação profis-
vez que permite um diagnóstico rápido, sional (Neiva, 2000; Nogueira, 2004).
simples e fidedigno. Além disso, através dos
resultados da EMEP, é possível conscientizar Apresentação de um caso
os alunos para a sua dificuldade de escolha e
sensibilizá-los para a necessidade de buscar M. é uma moça de 19 anos que acabou a 3º
ajuda profissional. ano do ensino médio, fez um ano de cursinho
e prestou vestibular para Jornalismo, passan-
Diagnosticar e planejar o processo de Orien- do na segunda opção, Ciências Sociais, na qual
tação Profissional. A aplicação da escala no se matriculou. Buscou Orientação Profissional
início do processo de orientação profissional incentivada pelo pai, que estava preocupado
permite ao orientador diagnosticar os aspec- com a sua carreira profissional. Formulou sua
tos mais e menos desenvolvidos da maturida- dúvida entre continuar o curso de Ciências
de do aluno e, consequentemente, planejar de Sociais e depois fazer Jornalismo (ideia que o
forma mais clara o trabalho a ser desenvolvi- pai incentivava, considerando que o curso de
do. Um exemplo seria o caso de um adolescen- Ciências Sociais poderia dar-lhe uma base sóli-
te que apresenta um nível abaixo da média na da para o de Jornalismo); solicitar transferência
subescala de Responsabilidade. O orientador para Jornalismo ou fazer Publicidade.
deveria conscientizá-lo do seu pouco engaja-
mento no processo de escolha profissional e Seu interesse por Jornalismo já existia
sensibilizá-lo para a necessidade de empreen- há algum tempo. Sempre gostou muito de
der mais ações com vistas ao amadurecimento pesquisar, considerando-se muito curiosa e
dessa decisão. comunicativa. Fez um estágio em uma edito-
ra durante o qual participou de uma pesqui-
Avaliar a evolução do orientando ao longo sa para um livro e teve de entrevistar várias
do processo de Orientação Profissional. A apli- pessoas. Esse estágio reforçou seu interesse
cação da escala no início e no final do pro- por Jornalismo. Já havia pensado também em
cesso de orientação, e a comparação dos Publicidade, mas o que a desestimulou foi a
resultados iniciais e finais, permite avaliar ideia de ser obrigada a fazer um projeto para
a evolução do sujeito ao longo do processo. agradar o cliente, “fazer do jeito que ele qui-
Muitos indivíduos finalizam o processo de ser” (sic). Entretanto, a orientanda tem uma
orientação profissional sem terem escolhido amiga que cursa Publicidade e está transmi-
uma profissão, mas isso não significa que
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208 Levenfus, Soares & Cols.
tindo outra ideia de tal situação; isso a fez re- nal de M. era médio, indicando que ainda ne-
tomar seu interesse por essa profissão. Com cessitava desenvolver algumas atitudes e ad-
relação a Ciências Sociais, apesar de concor- quirir alguns conhecimentos para tomar uma
dar de certa forma com a ideia do pai, prefere decisão madura e consciente. Apesar de M.
fazer um curso que lhe ofereça a possibilidade estar responsabilizando-se bastante por sua
de uma atuação prática. Não quer ficar tanto escolha profissional e empreendendo ações
tempo estudando. Mas preocupa-se em fazer para efetivá-la (Responsabilidade = MS), ela
seu pai aceitar o seu ponto de vista. ainda estava bastante indecisa e insegura (De-
terminação = MI), deixando-se influenciar por
A reprovação no vestibular de Jornalismo algumas pessoas, certamente seu pai e amigos
foi uma vivência difícil para M. e também para (Independência = M).
sua família, visto que ela sempre foi uma boa
aluna, destacando-se em seu grupo escolar. M. mostrou ter pouco conhecimento so-
Essa situação parece ter abalado a autoconfian- bre si, sobre seus interesses, suas motivações,
ça da orientanda com relação às suas capacida- suas habilidades, seus valores (Autoconheci-
des e ao seu projeto profissional. A interferên- mento = MI); e mostrou algum conhecimen-
cia de seu pai, uma figura importante para M., to da realidade educativa e socioprofissional
parece aumentar sua insegurança e dificultar (M). Esses resultados indicavam claramente
seu processo de escolha profissional. Apre- as dificuldades de M., sua insegurança, as in-
sento, na Tabela 16.2, os resultados obtidos na fluências que estava absorvendo e seu autoco-
EMEP, aplicada na primeira sessão. nhecimento deficiente.
Os resultados iniciais mostraram que o Durante o processo de orientação pro-
nível de maturidade para a escolha profissio- fissional, que durou cerca de 10 sessões in-
Tabela 16.2 Resultados da EMEP Pré-Orientação Profissional
ESCALA PERCENTIL CLASSIFICAÇÃO
Determinação 25 Médio Inferior (MI)
Responsabilidade 80 Médio Superior (MS)
Independência 60 Médio (M)
Autoconhecimento 20 Médio Inferior (MI)
Conhecimento da realidade 50 Médio (M)
educativa e socioprofissional
Maturidade total 50 Médio (M)
Tabela 16.3 Resultados da EMEP Pós-Orientação Profissional
ESCALA PERCENTIL CLASSIFICAÇÃO
Determinação 50 Médio (M)
Responsabilidade 99 Muito Superior (S+)
Independência 75 Médio Superior (MS)
Autoconhecimento 30 Médio (M)
Conhecimento da realidade educativa 90 Superior (S)
e socioprofissional
Maturidade total 80 Médio Superior (MS)
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Orientação Vocacional Ocupacional 209
dividuais, procurei trabalhar esses aspectos, nificativamente seu nível de conhecimento a
ajudando-a a se conhecer melhor, a identificar respeito de realidade educativa e socioprofis-
suas motivações e seus interesses, suas habili- sional (S).
dades, seus valores, seus critérios de escolha e
suas expectativas em relação ao futuro; a supe- No final do processo de Orientação Pro-
rar os conflitos existentes na relação com seu fissional, M. mostrou-se mais confiante em re-
pai, a forte influência exercida por ele, suas lação à sua escolha profissional e melhor pre-
expectativas versus as expectativas de seu pai; parada para defendê-la junto a seu pai. Ainda
e a ampliar sua informação sobre a realidade assim, procurei conscientizá-la da necessidade
profissional (Neiva, 1995, 2007). Apresento na de continuar buscando um maior autoconhe-
Tabela 16.3, os resultados obtidos ao reaplicar cimento e reforçando sua autoconfiança.
a EMEP na última sessão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados mostram que M. desenvol-
veu sua maturidade para a escolha profissio- A Escala de Maturidade para a Escolha
nal (MS), assim como todos os aspectos que a Profissional tem se mostrado um instrumento
compõem. Ela engajou-se ao máximo no seu útil para Orientadores Profissionais nas áreas
processo de escolha, alcançando um alto nível clínica, escolar e de pesquisa. Como instru-
de responsabilidade com relação a tal decisão mento diagnóstico, permite uma avaliação
(S+). Passou a levar mais em conta suas pró- simples e rápida da situação do orientando
prias opiniões, influenciando-se menos pelas frente ao processo de escolha e auxilia o pla-
opiniões dos outros e principalmente pelas nejamento do trabalho a ser desenvolvido du-
do seu pai (Independência = MS). M. desen- rante a orientação profissional. Como instru-
volveu sua segurança, avançando na sua es- mento avaliativo da evolução do orientando,
colha (Determinação = M), decidindo que pe- oferece um parâmetro do alcance do trabalho
diria transferência para Jornalismo, pois essa realizado, dos aspectos desenvolvidos e da-
profissão era a que mais correspondia ao seu queles ainda a desenvolver. Como todo ins-
perfil. Além disso, aumentou, um pouco, seu trumento psicológico, ele pode ser utilizado
nível de autoconhecimento (M) e elevou sig- em diversas pesquisas.
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avaliação do processo de Orientação Profissional. Resumo do V Encontro Mineiro de Avaliação Psi-
cológica: teorização e prática e VIII Conferência Internacional Avaliação Psicológica: Formas e contextos,
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17
Berufsbilder Test (BBT)
teste de fotos de profissões em
processos de orientação profissional
André Jacquemin • Lucy Leal Melo-Silva • Sônia Regina Pasian
CONTEXTUALIZAÇÃO DO BBT tados preliminares dos trabalhos científicos
desenvolvidos com o BBT no Brasil. Trata-se,
A história de criação e de desenvolvi- na verdade, do manual do BBT para o contex-
mento de qualquer instrumento de análise das to brasileiro que deverá, necessariamente, ser
variáveis psicológicas dos indivíduos retrata, consultado pelos psicólogos interessados em
necessariamente, posicionamentos teóricos de utilizar essa técnica.
seus autores, além, é claro, de vivências pesso-
ais e motivações particulares de seu trabalho. A partir dessa base, muitos avanços fo-
Assim também acontece com o BBT, mas com ram realizados na utilização do BBT em nos-
a peculiaridade de seu criador sempre teste- sa realidade, fundamentando melhor seu uso
munhar nos contatos pessoais estabelecidos de forma válida e confiável (Jacquemin, 1997;
nos centros universitários onde divulgou sua Melo-Silva e Jacquemin, 1997; Sbardelini,
técnica, como no Centro de Pesquisas em Psi- 1997; Melo-Silva e Santos, 1998; Ribeiro, 1998;
codiagnóstico da Faculdade de Filosofia, Ciên- Melo-Silva, Bonfim e Assoni, 1999; Melo-Silva,
cias e Letras de Ribeirão Preto – Universidade Noce e Andrade, 1999; Melo-Silva e Jacque-
de São Paulo, um forte envolvimento afetivo min, 1999; Bernardes, 2000; Melo-Silva, 2000;
com suas ocupações. Transmitia plenamente Welter, 2000a, b). Com tal perspectiva, desde
sua satisfação e sua realização profissional, sua introdução como técnica de avaliação psi-
exemplificando sua concepção teórica sobre o cológica em nosso contexto (Jacquemin, 1982),
mundo do trabalho e sua importância na vida o BBT passou por amplo processo de valida-
dos indivíduos. ção, como já descreviam Jacquemin e Pasian
(1991) ao historiar o uso da técnica no Brasil:
Não há maneira de abordar o BBT como
recurso técnico em processos de Orientação As novas perspectivas que o BBT
Profissional sem relatar essa história e solicitar desperta e abre para a orientação em ge-
a atenção para este componente do instrumen- ral nos motivaram a divulgá-lo no Brasil
to. A comprovação dessas evidências pode ser (Jacquemin, 1982), assim como a iniciar
elaborada pelos capítulos da tradução brasi- diversas pesquisas sobre a validade in-
leira do livro original sobre o BBT (Achtnich, terna do material e sua adequação ao
1991). Esse material constitui a base de consulta contexto cultural brasileiro, já que as fo-
dos profissionais que utilizam tal instrumento, tos focalizam aspectos culturais próprios
pois contém elementos descritivos do método, de personagens europeus e, às vezes, ati-
sua história, sua utilização técnica (normas de vidades que podem ser pouco conheci-
aplicação, de avaliação e de interpretação), sua das no Brasil. (p. 208)
aplicabilidade e seus limites, incluindo resul-
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212 Levenfus, Soares & Cols.
Resultados desse longo processo de adap- se entende por Orientação Profissional. Reite-
tação do BBT ao contexto sociocultural brasi- ramos aqui as afirmações de Achtnich (1991):
leiro estão condensados na criação do BBT-Br,
em suas versões masculina e feminina, mate- Consideramos o aconselhamento
rial a ser utilizado pelos psicólogos brasileiros, em Orientação Profissional como um
conforme atestam as recentes publicações de processo de desenvolvimento. O acon-
Jacquemin (2000); Jacquemin, Noce e Assoni selhamento em Orientação Profissional
(2000) e Jacquemin, Noce, Assoni, Okino, Pra- tem a chance de promover no sujeito um
do e Zeotti (2000); Jacquemin, Noce, Okino, processo de maturação e de tomada de
Santos, Assoni, Bianchi e Marcos (2000a, b). consciência. (...) A tomada de decisão
Considerando esse panorama, o presente capí- pertence àquele que procura seu cami-
tulo descreve sucintamente o instrumento em nho profissional; contudo, essa toma-
si e concentra a atenção sobre as possibilidades da de decisão não lhe será possível se
informativas e o uso do BBT em processos de ele não puder clarificar suas próprias
Orientação Profissional, postulando a existên- tendências. Assim, concebemos o teste
cia de domínio teórico-metodológico sobre a como um instrumento desse processo de
técnica. clarificação. (p. 19)
OBJETIVO E PRINCÍPIOS TEÓRICOS Com base nessa concepção de uma parti-
DO BBT cipação ativa e intensa do orientando em seu
processo de Orientação Profissional, o BBT
Como retratado no próprio nome do ins- emerge como um recurso técnico bastante rico
trumento (Berufsbilder Test – BBT: Teste de Fo- e promissor. Por ser baseado em fotos de ativi-
tos de Profissões), seu objetivo é a clarificação dades profissionais, pode oferecer elementos
da inclinação profissional, podendo ser con- da dinâmica psíquica dos indivíduos direta-
siderado, por suas características constitucio- mente relacionados com a temática da escolha
nais, uma técnica projetiva de avaliação psico- ocupacional. Como disse Draime (1991) a res-
lógica. Nesse sentido, encaixa-se no grupo de peito da constituição do BBT:
instrumentos com amplas possibilidades de
aplicação e de recursos interpretativos para Além do mais, essas fotos represen-
diferentes contextos, oferecendo informações tam profissionais em atividade. Perma-
significativas sobre o perfil de interesses e mo- necemos no contexto da orientação. Co-
tivações (conscientes e inconscientes) do indi- locar a questão da orientação em termos
víduo ou do grupo de indivíduos a ele subme- de escolha profissional ou de projeto de
tidos. Como disse Achtnich (1991) no prefácio existência, no sentido como o entende
da edição francesa de seu livro: Szondi, pai espiritual do autor do teste,
é, sem dúvida, o essencial da abordagem
O BBT favorece um contato huma- de M. Achtnich. (p. 7)
no. É aí que está sua maior qualidade e
não se deve negligenciá-la. (...) Em resu- Nesse processo de busca de um “projeto
mo, o teste permite a orientação daqueles de existência” satisfatório, em termos profis-
que desejam compreender melhor sua sionais, é que as formas masculina (Achtnich,
vida, sua pessoa, seu destino. (p. 8) 1971) e feminina (Achtnich, 1973) do BBT po-
derão auxiliar na conscientização das deman-
A amplitude de aplicações do BBT pode- das internas ou, nos termos de Achtnich, na
ria suscitar a questão: como é o uso do BBT clarificação das inclinações profissionais.
no processo de Orientação Profissional? Quais
suas possíveis contribuições e seus limites téc- Sua constituição
nicos? Por que, para que e como utilizá-lo?
Composto por 96 fotos, o BBT representa
Certamente para essas perguntas devem pessoas exercendo atividades profissionais,
existir respostas de contextualização do que
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Orientação Vocacional Ocupacional 213
sendo constituído por duas versões: mascu- • Fator M: a matéria, o concreto, o terres-
lina (Achtnich, 1971) e feminina (Achtnich, tre, a possessão, o poder.
1973). Na forma feminina, possui quatro fotos
complementares. As fotos são distribuídas em • Fator O: oralidade (Or: necessidade de
função dos oito fatores de inclinação, confor- falar, discorrer, comunicar; On: neces-
me formulação teórica de Achtnich (1991): sidade de nutrir, alimentar).
• Fator W: ternura, sensibilidade, dispo- Cada foto do teste representa um parea-
nibilidade, necessidade de tocar, apal- mento fatorial de duas tendências. O fator
par, estar disponível. que possui o caráter evocador mais forte é o
primário, representado pela atividade mostrada
• Fator K: força física, dureza, agressivi- na foto e designado por uma letra maiúscula
dade, obstinação. (Exemplo: W). A segunda tendência, chamada
fator secundário, representa o objeto, o objetivo,
• Fator S: aspecto social (Sh: disponibi- o instrumento e o local da atividade profissio-
lidade para ajudar, necessidade de fa- nal, sendo designado por uma letra minúscula
zer o bem, interesse pelo outro, cuidar, (Exemplo: s).
curar; Se: energia psíquica, dinamismo,
coragem, capacidade para se impor, Esses elementos podem ser melhor visua-
luta por independência, necessidade lizados na Figura 17.1.
de movimento e deslocamento).
Os fundamentos dessa estruturação bási-
• Fator Z: necessidade de mostrar, estar ca do BBT podem ser depreendidos da seguin-
em evidência, representar; estética. te abordagem de Achtnich (1991):
• Fator V: inteligência, razão, lógica, ne- Cada foto possui um caráter de evo-
cessidade de clareza de pensamento, cação que articula os pensamentos e os
delimitação, objetividade, realidade. sentimentos de um sujeito em um senso
bem determinado. Cada foto contém um
• Fator G: espírito, intuição, imaginação
criadora.
Figura 17.1 A foto da cabeleireira (Wz) na versão feminina do BBT-Br (2000): fator primário W e
fator secundário z.1
1 Esta foto foi uma das inúmeras testadas durante o processo de adaptação do BBT ao contexto sociocultural
brasileiro. Está aqui representada para ilustrar os fatores (primário e secundário) da técnica, mas sem cor-
responder à elaboração final do teste. Optou-se por essa representação (e não pela representação real da foto
do BBT) objetivando a proteção ética ao material.
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214 Levenfus, Soares & Cols.
fator primário e um fator secundário, isto um falseamento de racionalizações. Per-
é, ela representa uma acoplagem fatorial, mitir, assim, uma elaboração da estru-
na qual o fator primário possui um ca- tura de uma inclinação profissional pré-
ráter de evocação mais forte que o fator -conceitual, passível de maior proximi-
secundário. (...) Geralmente a atividade dade com o mundo interno e de suas
representada na foto será a expressão do implicações nas escolhas cotidianas, in-
fator primário, enquanto o objeto profis- clusive ocupacional.
sional, o meio, etc., representam o fator
secundário. (p. 39) Para reforçar as possibilidades do pro-
cesso de clarificação da escolha profissional
Essa constituição técnica do BBT está mi- por meio do BBT, destacamos o argumento
nuciosamente descrita e abordada no manual utilizado por Draime (1991):
do instrumento (Achtnich, 1991), o qual indi-
camos aos interessados na aprendizagem do Se o teste de Achtnich tem seu lu-
método. gar na consulta de orientação, devemos
acrescentar que ele se inscreve também
Do ponto de vista técnico, o BBT está em um estilo de consulta centrada na
constituído de forma a ter como vantagens escuta, visando à clarificação da escolha
enquanto instrumento de avaliação psicoló- pela palavra. A maior parte dos testes
gica, como aparecem como instrumentos a ‘serviço
do olhar’ do psicólogo que deve com-
• ser composto por fotos, naturalmente preender, ter uma visão clara para dar
suscitadoras de interesse de conta- um conselho. É o esquema da pesquisa
to pelo material, ao menos na grande linear da verdade objetiva que coloca o
maioria dos indivíduos a elas expostos. orientando em uma posição de objeto de
Utilizar-se, dessa forma, da linguagem observação. A passividade que é induzi-
das imagens, em um contato visual, na da nele pela atitude de observação impe-
qual as possibilidades projetivas po- de a iniciativa de um trabalho pessoal de
dem ocorrer de forma espontânea; clarificação que, em nosso ponto de vista,
deve ser feito pelo próprio orientando, se
• atingir uma esfera afetiva do indiví- quisermos chegar a uma escolha profis-
duo, não lhe exigindo uma abstração sional motivada. (p. 7)
conceitual direta sobre o mundo ocu-
pacional, embora exista subliminar- Esse estilo de consulta apontado por
mente por meio da atividade proposta Draime (1991) corresponde à modalidade
(escolher fotos de atividades que agra- clínica de Bohoslavsky (1971/1991), que tem
dam, desagradam ou são indiferentes fortemente influenciado a Orientação Profis-
a ele); sional no Brasil, em oposição à modalidade
estatística utilizada na primeira metade do sé-
• solicitar que o indivíduo seja ativo no culo passado. Na modalidade clínica, o orien-
processo de contato com o material, tando é ativo e capaz de escolher.
exercitando decisões, escolhas, posi-
cionamentos pessoais (classificação Dessa forma, enfatiza-se no BBT a rele-
das fotos, como antes referido). Em vância da atividade do orientando e de seus
outras palavras, o indivíduo que passa processos de decisão sobre as fotos dos profis-
pelo BBT experimenta e sinaliza direta- sionais como uma amostra de seu modo de ser
mente no contato com o psicólogo seu e de agir em seu cotidiano, componente signi-
processo de tomada de decisão, essen- ficativo da Orientação Profissional. Analisar os
cial em Orientação Profissional; indicadores técnicos do BBT a partir da pro-
posta de seu autor corresponde a uma atitude
• oferecer um processo de sistematização de valorizar o processo projetivo e a emergên-
de informações sobre interesses e moti- cia dos determinantes inconscientes da esco-
vações do indivíduo ou de um grupo de
indivíduos de modo a compor uma re-
presentação de elementos internos sem
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Orientação Vocacional Ocupacional 215
lha profissional, recorrendo-se, para tanto, ao potencial específico de gratificação e de satis-
processo de escolha de fotos e de elaboração fação. Nesse sentido, toda profissão exigirá
de associações pessoais sobre elas. Parece-nos do indivíduo algumas características como
adequado novamente citar um trecho do pre- aptidão, disponibilidade afetiva (inclinação
fácio de Draime (1991) para a edição francesa pessoal), interesse, motivação (a partir de suas
do livro de Achtnich, reforçando sua ênfase na necessidades) e treinamento (teórico e práti-
relevância das associações desenvolvidas pelo co) para determinadas ações. Nesse complexo
indivíduo sobre as fotos do BBT como material processo é que o indivíduo desenvolverá sua
significativo para a compreensão de seu mun- identificação profissional, ou seja, o reconhe-
do interno. Em suas palavras: cimento do que de fato existe na atividade
ocupacional que poderá ser exercido como
É esta última etapa que o teste de fonte de gratificação de suas necessidades,
Achtnich privilegia, no sentido de que assumindo um papel e uma identidade pro-
ele é um campo aberto à palavra. Verba- fissional.
lizar escolhas e rejeições de fotos, comen-
tar os agrupamentos efetuados e sobre- Portanto, torna-se claro que nos proces-
tudo explicitar – pelas associações – as sos de Orientação Profissional será necessário
origens da escolha de cada foto (fase cen- também o conhecimento das características
tral da prova) são as etapas que levam o técnicas das profissões, a fim de permitir o re-
orientando a clarificar sua escolha. É, em conhecimento de suas exigências e de suas pos-
outros termos, reconhecer, denominan- sibilidades de satisfação pessoal. Essa noção
do, as motivações profundas da escolha da estrutura fatorial das profissões é elemento
profissional, e permitir que elas se arti- teórico fundamental nos processos de Orien-
culem pela palavra e ganhem finalmente tação Profissional que integram o uso do BBT.
sentido na coerência da decisão que será Esse cuidado técnico decorre diretamente do
tomada. (Draime, 1991, p. 7) fato de que, no instrumento proposto por
Achtnich (1991), há um embasamento teórico
Essas palavras localizam com proprie- associado à concepção da Análise do Destino,
dade os princípios norteadores básicos da de Szondi (1944/1972), em que a atividade
utilização do BBT no processo de Orientação profissional corresponderia a um processo de
Profissional, fundamentando a busca por essa socialização dos impulsos e de necessidades
técnica no contexto referido. vitais. Pelo processo do desenvolvimento hu-
mano, as necessidades pessoais se transforma-
O BBT E AS PROFISSÕES riam em interesses profissionais, em direta de-
pendência das oportunidades e das demandas
As possibilidades informativas do BBT socioculturais do ambiente em que se vive. O
estão associadas, como anteriormente refe- conhecimento e a tomada de consciência das
rido, à clarificação de inclinações motivacio- demandas internas, associados ao reconheci-
nais, e não às capacidades pessoais. No en- mento da estrutura fatorial das profissões, se-
tanto a opção por uma atividade ocupacional riam condições necessárias para a promoção
implica, necessariamente, acomodações do de opções ocupacionais satisfatórias.
indivíduo à realidade objetiva em que vive.
Na verificação das oportunidades do mundo A partir de tais noções, pode-se depre-
real para a satisfação das motivações internas, ender a relevância da análise da concordân-
inclui-se a necessidade do conhecimento e do cia entre a estrutura de uma profissão e a
reconhecimento das efetivas potencialidades inclinação pessoal de um indivíduo, como
individuais, das características das atividades sempre enfatizado por Achtnich (1991). Nos
profissionais e das transformações sociais, po- casos em que houver correspondência entre
líticas e econômicas do mundo do trabalho. ambas, haverá, com maior probabilidade, su-
cesso profissional e, nessa concepção teórica,
Toda profissão é constituída por uma de- bem-estar, felicidade, ou seja, saúde mental.
terminada estrutura de exigências e por um A discordância entre a inclinação pessoal e a
estrutura profissional, por sua vez, seria fator
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estimulador de frustrações, fracasso profis- Por essa postulação, o BBT acabou sendo
sional e seus correspondentes: insatisfação, estruturado de forma a retratar essa realidade
adoecimento, sofrimento no exercício do tra- do mundo ocupacional em cada uma de suas
balho. Esses elementos podem ser facilmente fotos componentes, oferecendo uma represen-
depreendidos na seguinte passagem: tação simbólica das opções existentes em nos-
so ambiente. Cada foto do BBT, portanto, ofe-
O rendimento profissional depende recerá um contato direto com uma atmosfera
diretamente da satisfação e do interes- profissional, com suas funções relevantes, com
se que se dedica ao trabalho e, assim, a seus instrumentos e meios profissionais, com
clarificação das inclinações toma uma seu objeto de ação e com seu local de trabalho.
significação prognóstica. Quando a pro- Decorre dessa construção teórico-técnica a ati-
fissão escolhida não corresponde às incli- vidade de posicionamentos pessoais proposta
nações, falamos de escolha profissional ao indivíduo no instrumento projetivo, como
discordante, a qual ocasiona uma insatis- formula Achtnich (1991):
fação e, por conseguinte, uma queda do
rendimento. No melhor dos casos, uma As fotos do teste mostram os profis-
mudança de emprego pode ocorrer; no sionais no trabalho. O sujeito que deve
pior, a escolha discordante pode provo- escolher entre tais imagens identifica-se
car a doença e as reações psíquicas mór- por um breve instante com o trabalhador
bidas. (Achtnich, 1991, p. 11) representado e se vê confrontado com a
pergunta: “Eu poderia, assim como este
Assim, torna-se evidente a relevância em trabalhador, efetuar tal trabalho com os
se conhecer as características da estrutura fa- mesmos instrumentos e estes materiais,
torial das profissões, bem como as inclinações neste meio profissional?”. A estrutura
motivacionais individuais. de inclinação do sujeito é solicitada atra-
vés da identificação com o trabalhador.
O universo profissional é constituído por A partir da interpelação afetiva, o sujei-
uma estrutura fatorial composta por diferen- to opera espontaneamente uma escolha.
tes elementos (que estão representados nas (p. 17)
fotos do BBT), conforme claramente expõe
Achtnich (1991): Com base nesses pressupostos, sustenta-
-se a utilização do BBT como técnica de ava-
Toda descrição da profissão comporta os liação projetiva, tendo por meta a clarificação
seis seguintes aspectos: da inclinação profissional do indivíduo ou de
um grupo de indivíduos.
• a designação precisa da profissão;
• as atividades exercidas nesta profis- AS POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO
DO BBT
são;
• o objeto profissional, material, aquilo a Considerando a riqueza de elemen-
tos suscitados pelo BBT, tanto em termos
que as atividades se referem; estruturais e quantitativos quanto em seus
• os instrumentos e meios utilizados aspectos qualitativos, ele poderá servir
como instrumento auxiliar nos processos de
para este fim; Orientação Profissional de jovens, em reo-
• o local onde as atividades profissionais rientações (reopções) de estudos, em pro-
cessos de análise de fracassos/insatisfações
são exercidas; profissionais ou da progressão nas carreiras
• o objetivo visado. (em adultos). Ou seja, tenderá a ser útil tan-
to no momento da formação da identidade
Sem qualquer dúvida, entre estes profissional quanto em situações de conflito
seis aspectos, o papel determinante está
associado às atividades: principalmente
o que é feito é que constitui a profissão.
(p. 145)
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Orientação Vocacional Ocupacional 217
com papéis ocupacionais assumidos no de- O BBT NA ORIENTAÇÃO
correr da vida, sobretudo na atual realidade PROFISSIONAL
de vulnerabilidade e de instabilidade das
condições ambientais do exercício profissio- Da interação de fatores anteriormente
nal, que podem impelir um indivíduo a um apresentada e do reconhecimento do papel
processo de mudança de profissão. Apesar relevante do mundo interno nas escolhas ocu-
da complexa rede de fatores associados às pacionais é que advém a utilidade do BBT em
trocas ocupacionais, se poderia considerar, Orientação Profissional.
ao menos teoricamente, que “um indivíduo
aspira a uma mudança de profissão quan- Dentro de suas amplas perspectivas de
do sua própria estrutura de inclinação não aplicação no presente capítulo, pretende-se,
corresponde àquela da profissão” (Achtnich, por meio do estudo de caso de uma adoles-
1991, p. 193). cente, ilustrar as possibilidades e os cuidados
necessários para uma válida e confiável recor-
Considerando a relatividade dessa afir- rência ao BBT como uma técnica adequada
mação em nosso contexto sociocultural con- em processos de Orientação Profissional em
temporâneo, vislumbram-se amplas possi- nosso contexto sociocultural. Pretende-se,
bilidades de uma profícua utilização do BBT dessa forma, oferecer elementos ilustrativos
também nesses campos de aplicação, ou seja, e técnicos que permitam aos psicólogos o re-
no mundo adulto, além de sua já referida sig- conhecimento e a reflexão sobre as possibili-
nificativa contribuição na Orientação Profis- dades informativas do BBT no esclarecimento
sional de jovens em processo de formação de dos conflitos vocacionais, na perspectiva do
identidade pessoal e ocupacional. orientador profissional, mas, principalmente,
aos orientandos, facilitando-lhes a tomada de
Em síntese, reafirmamos outra passagem consciência de suas inclinações e o desenvolvi-
do criador do BBT para atestar a riqueza da mento de seus projetos de vida profissional.
possibilidade de acesso à estrutura de inclina-
ção pessoal do indivíduo: Esse estudo de caso foi desenvolvido
a partir de uma intervenção realizada com
Os pareamentos e as combinações adolescentes do sexo feminino, cursando a
múltiplas produzem a imagem da estru- segunda série do ensino médio de uma esco-
tura de inclinação pessoal, a qual não é la da rede pública estadual de Ribeirão Preto.
um esquema inerte mas, ao contrário, A adolescente selecionada, para ilustrar esse
um arranjo de escolha, ativo e dinâmico. processo será denominada Karen (nome fic-
(...) Um princípio interno influencia nos- tício) – tinha 18 anos por ocasião da coleta
sos comportamentos de escolha e dá as de dados. Ela foi participante voluntária de
diretivas afirmativas e negativas na com- um processo de Intervenção em Orientação
petição das motivações. Essa estrutura Profissional em grupo, proposto por uma
hereditária está sujeita às influências múl- das autoras, como parte das atividades técni-
tiplas e variadas da educação e do meio, cas de sua tese de Doutorado em Psicologia
às sublimações e às formações reacionais. (Melo-Silva, 2000), sob orientação do Prof.
(Achtnich, 1991, p. 11) Dr. André Jacquemin.
Cabe destacar que os instrumentos de A forma feminina do Teste de fotos de pro-
avaliação em Orientação Profissional podem fissões (BBT): Método projetivo para a clarificação
ser utilizados como recurso auxiliar, visando da inclinação profissional, de Achtnich (1973),
a corroborar, retificar ou ampliar os dados publicado e comercializado no Brasil pelo
obtidos pelo orientador nas entrevistas diag- Centro Editor de Testes e Pesquisas Psicológi-
nósticas (Müller, 1988), não substituindo, em cas, foi aplicada na íntegra nesse caso, seguin-
contrapartida, a entrevista clínica. É nesse do-se sua padronização técnica (Achtnich,
sentido que o BBT é utilizado em processos de 1973 e 1991). Tal aplicação do BBT ocorreu no
Orientação Profissional. início e após um ano do término do proces-
so de Orientação Profissional, incluindo-se
as fotos adicionais. A história das cinco fotos
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preferidas foi elaborada em três situações. Na queria fazer em termos profissionais. No iní-
primeira e na segunda história, ambas feitas cio do processo, citou pensar em atividades
durante o processo de Orientação Profissional como: comércio, secretariado, serviço social
(respectivamente no início e no final do pro- e decoração. Durante a orientação profis-
cesso), as fotos-estímulo foram as mesmas da sional dirigiu seu interesse para ocupações
primeira aplicação do BBT. A terceira história como fisioterapeuta, cabeleireira, secretária e
foi constituída a partir da segunda aplicação comerciante (abrir uma loja). Ao término da
do BBT, realizada um ano após a intervenção intervenção, seu interesse afunilou-se e pôde
em Orientação Profissional. Nessa situação, especificar opções pelas carreiras de fisiotera-
as cinco fotos escolhidas não seriam (e não fo- peuta e de cabeleireira, definindo-se, um ano
ram) necessariamente as mesmas da primeira depois, por terapia ocupacional.
aplicação do BBT, embora mantivessem ele-
mentos simbólicos em comum, validando os A análise qualitativa dos protocolos do
resultados obtidos. BBT de Karen evidenciou com clareza mudan-
ças em seu posicionamento pessoal diante do
A ANÁLISE DOS RESULTADOS DE mundo profissional, direcionando-a à tomada
KAREN de consciência acerca de seus interesses e de
suas demandas internas a serem concretiza-
Por tratar-se de um estudo de caso, os dos na opção por uma carreira ocupacional.
resultados serão aqui analisados qualitati-
vamente, objetivando exemplificar as con- Os resultados nas duas aplicações do
tribuições do BBT na prática do Orientador BBT mostraram seu interesse predominan-
Profissional, por meio da análise da situação temente voltado para atividades do fator W
de conflito profissional inicial e sua resolução (disponibilidade, ternura), como mostram os
posterior nessa estudante do ensino médio. Quadros 17.1 e 17.2, tanto na estrutura de in-
clinação primária quanto na secundária, em
Durante a intervenção, Karen disse vá- ambas as aplicações. Em seguida, seu interes-
rias vezes que não tinha a menor ideia do que se sinalizou-se dirigido para atividades dos
Quadro 17.1 Estrutura de inclinação profissional primária ponderada e secundária para as es-
colhas positivas e negativas de Karen na primeira aplicação da forma feminina do
BBT (Achtnich, 1973)
Escolhas Positivas Escolhas Negativas
Estrutura Primária: W5 O3 S2,5 Z1 G1 V0,5 K0 M0 Primária: k8 m7 v5,5 z5 g5 s3,5 o3 w2
de Secundária: w4 s4 v3 z2 m2 o2 k1 g0 Secundária: g11 k9 v9 o9 m7 s5 z5 w3
inclinação
Quadro 17.2 Estrutura de inclinação profissional primária ponderada e secundária para as es-
colhas positivas e negativas de Karen na segunda aplicação da forma feminina do
BBT (Achtnich, 1973)
Escolhas Positivas Escolhas Negativas
Estrutura Primária: W5 O3 S2 Z1,5 G1,5 V0,5 K0 M0 Primária: k8 V6 m6 g5 Z5 s2,5 w2 O2
de Secundária: s5 w4 o3 k2 z2 v2 m1 g0 Secundária: g10 o8 z7 v7 m7 k6 w5 s4
inclinação
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Orientação Vocacional Ocupacional 219
fatores O (oralidade, necessidade de comuni- 104 (Z) – intitulado Salão de beleza, apresentou
cação) e S (ajuda). como aspecto comum o cabelo, e as atividades
ou as funções verbalizadas no grupo foram
Em complemento a essa análise da es- cortar (K1) e arrumar cabelos (W3).
trutura de inclinação motivacional de Karen,
deve-se examinar suas escolhas relativas às No segundo grupo, sobre recuperação
cinco fotos preferidas nas duas aplicações do de pessoas, foram agrupadas as fotos 101(W),
BBT, conforme demonstra o Quadro 17.3. Na 09 (Wk), 01 (Ww), 51 (Sm), 69 (S’k), intitulan-
primeira aplicação, a atividade W foi a mais do-o como Trabalho de recuperação. As funções
escolhida. Já na segunda aplicação do BBT, verbalizadas no grupo foram ajudar (Sh2) e
Karen escolheu, com maior frequência, a ati- massagear (W1) .
vidade O. Nas três histórias das cinco fotos
preferidas (Quadros 17.4, 17.5 e 17.6), o fator Trabalho em escritório foi o aspecto co-
W predomina. mum do seu terceiro grupo, intitulado Secre-
tárias. As fotos desse grupo foram 108 (O), 40
Na primeira aplicação do BBT, Karen (Ov), 105 (V), 97 (VV). Houve predomínio de
organizou as fotos preferidas em dez grupos. funções como ajudar (Sh2), anotar/atender
O primeiro deles, com duas fotos – 25 (Wz) e telefone (Or2) e descrever, tomar nota (V3).
Quadro 17.3 As cinco fotos preferidas de Karen nas duas aplicações da forma feminina do BBT
(Achtnich, 1973)
PRIMEIRA E SEGUNDA HISTÓRIAS TERCEIRA HISTÓRIA
(a partir da primeira aplicação do BBT) (a partir da segunda aplicação do BBT)
25 – Cabeleireira (Wz) 25 - Cabeleireira (Wz)
104 – Cabeleireira (Z) 60 - Vendedora de confecções (Zo)
101 – Fisioterapeuta (W) 40 - Secretária de consultório médico (Ov)
09 – Massagista/Fisioterapeuta (Wk) 03 - Professora maternal (Sw)
40 – Secretária de consultório médico (Ov) 64 – Balconista de bar (Ov)
Predomínio de fatores: Predomínio de fatores:
Na estrutura de inclinação: W / S / O Na estrutura de inclinação: W/ O / S
Na cinco fotos preferidas: W Nas cinco fotos preferidas: O
Quadro 17.4 A primeira história de Karen (elaborada a partir de cinco fotos preferidas na primei-
ra aplicação da forma feminina do BBT – Achtnich, 1973)
Trabalho como fisioterapeuta. Tenho uma clínica onde trabalho todas as manhãs. Recebo
crianças, adultos, acidentados, gestantes. Gosto de confirmar consultas por telefone quando
me sobra tempo; senão, deixo para minha secretária agendar tudo. O trabalho que faço é muito
gratificante, pois vejo muitos pacientes progredindo com minha ajuda. Considero-me uma boa
profissional; apoio e incentivo a família dos pacientes.
À tarde, trabalho em um salão de beleza que montei com uma amiga, pois também gosto
muito de mexer em cabelos. Essa paixão começou com 12 anos, porque comecei a gostar de
mudar o visual, a cor e o corte dos cabelos.
Considero-me uma pessoa realizada e feliz, podendo ajudar e embelezar as pessoas.
TÍTULO: Minha vida profissional
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220 Levenfus, Soares & Cols.
Cuidar do outro, embelezar, recuperar, vindas às sessões de Orientação Profissional.
estabelecer contato, dar atenção: essas foram Para essa jovem, realizar escolhas de fotos re-
necessidades evidenciadas nas escolhas, nas presentativas de atividades no BBT foi uma re-
associações e na história das cinco fotos prefe- velação, e ela expressou alegria pela descoberta
ridas de Karen na primeira aplicação do BBT, de suas inclinações profissionais, como descrito
realizada ao início do processo de Orientação em suas estruturas de inclinação profissional.
Profissional. Contudo, ao mesmo tempo, começou a poder
se conscientizar de um contexto ambiental
Ao término do processo de Orientação amedrontador e ansiógeno, passando a referir
Profissional, as mesmas cinco fotos (seleciona- medo do vestibular nas sessões em grupo e a
das como suas preferidas) foram reapresenta- expressar medo do futuro e do mundo adulto,
das a Karen, solicitando-se que contasse uma expressos na sintética segunda história.
nova história visualizando-se em seu futuro
(daqui a 10 anos). O resultado da solicitação Apesar da maior manifestação de angús-
foi a história elaborada no Quadro 17.5, apre- tia, pode-se depreender uma atitude de contato
sentado a seguir. mais realístico com seu momento de vida (de
busca de definição ocupacional e, naturalmen-
Diante da proposição da segunda história, te, angustiante), antes pouco considerado.
Karen operacionalizou a tarefa de construção
de uma história compondo-a, de fato, por uma Na terceira história (realizada após o tér-
frase. O tamanho da história, em si, evidencia mino da Orientação Profissional), elaborada
a dificuldade na assunção do papel adulto no a partir da segunda aplicação do BBT, como
desenvolvimento da identidade profissional. mostra o Quadro 17.6, Karen conseguiu pro-
Karen iniciou o processo de Orientação Profis- jetar-se livremente e experimentar o fato de
sional sem muitas ideias sobre si mesma e so- assumir de uma identidade profissional, des-
bre suas necessidades ocupacionais. sa vez como terapeuta ocupacional. Nesse mo-
mento, evidenciou também sua necessidade
Seus resultados no BBT mostraram e orga- de contato, expressa pelo fator O.
nizaram motivações, desejos e possibilidades,
como pôde ser acompanhado durante suas
Quadro 17.5 A segunda história de Karen (ao término do processo de Orientação Profissional) a
partir das cinco fotos preferidas na primeira aplicação do BBT (Achtnich, 1973)
Eu vou ter um salão (ai, difícil!) e a clínica de fisioterapia, separados.
Ai, meu Deus!
Quadro 17.6 A terceira história de Karen (após um ano e um mês do encerramento da Orientação
Profissional) elaborada a partir das cinco fotos preferidas na segunda aplicação da
forma feminina do BBT (Achtnich, 1973)
Eu sempre gostei muito de cabelos, até que no começo do ano resolvi fazer um curso de
cabeleireira. Descobri que tenho muita habilidade nessa área. Na semana passada, conclui meu
curso. Não sei se é isso que eu quero ser na vida, pretendo ainda estudar em uma boa faculdade.
Enquanto isso vou cuidando dos cabelos, por puro prazer e passatempo.
Gosto de vestir bem. Procuro comprar roupas que estão na moda.
O telefone para mim é essencial, sem ele eu não sou nada. Gostaria também de trabalhar
como telefonista.
O cuidado com crianças é o que minha carreira também precisa. Pretendo estudar terapia
ocupacional.
Gostaria também de fazer um trabalho com alcoólatras, aidéticos e dependentes. Eu tenho
essa necessidade de ajudar essas pessoas, que no fundo são muito carentes.
TÍTULO: Minhas opções de vida
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Orientação Vocacional Ocupacional 221
Nessa segunda aplicação do BBT, Karen das, quando fez uma opção pela profissão de
escolheu como primeiro grupo novamente as terapeuta ocupacional.
fotos que abordam o cuidado com o cabelo,
incluindo o corpo, o vestuário e a beleza como Cumpre ressaltar o grande destaque que
um todo. As fotos escolhidas foram 25 (Wz), a foto 25 (Wz) - da cabeleireira – recebeu nas
104 (Z), 60 (Zo), 74 (Z’s). As funções verbali- duas aplicações do BBT, como evidenciam os
zadas como associadas a essas atividades pro- seguintes indicadores: a) a foto foi escolhida
fissionais foram cuidar (Sh10), cortar cabelos como a primeira preferência do primeiro gru-
(K1), embelezar (Z6), comprar roupas (Or4), po; b) está entre as cinco preferidas em ambas
dançar (Z2). O grupo preferido em primeiro as aplicações. Associe-se a essas evidências o
lugar foi intitulado Cuidar da beleza, do corpo, fato de que a adolescente começou a fazer um
do cabelo e do vestuário. curso de cabeleireira, como informou na en-
trevista de acompanhamento da intervenção,
Em seu segundo grupo preferido, as realizada um ano após o término da Orienta-
fotos escolhidas foram 08 (Ow), 17 (Ws), 68 ção Profissional.
(S’k), 73 (S’s), 98 ((Sh V), 69 (S’k), 03( Sw), 49
(Wm). Aqui suas associações verbais giraram A foto 40 (Ov) da Secretária de consultó-
em torno do cuidado de crianças. As funções rio médico também foi escolhida entre as cinco
mencionadas nas associações foram cuidar de fotos preferidas nas duas aplicações do BBT,
criança (W6), conversar/cuidar (SH1), ajudar mas não faz parte do primeiro grupo de op-
(Sh2), ensinar/educar (Sh4). Esse grupo rece- ções profissionais. As carreiras de cabeleireira
beu o título Aprendendo com as crianças. e secretária de consultório médico, são desva-
lorizadas no contexto sociocultural brasileiro,
O terceiro grupo de fotos preferidas não constituindo em aspiração para quem
apresentou como aspecto comum a atividade pensa em cursar a universidade.
da medicina. As fotos agrupadas na terceira
opção ocupacional foram: 101 (W), 09 (Wk), A fim de ingressar na universidade, a es-
109 (S’), 01 (Ww), 76 (G’s), 93 (S’o) e suas as- colha de Karen pareceu ser direcionada para
sociações verbais abordaram as funções cuidar a carreira de fisioterapia na primeira aplicação
(Sh1), massagear (W1) e ouvir (W6). O título do BBT. Já em sua segunda aplicação, cami-
atribuído a esse grupo foi A medicina em minha nhou em uma linha de opção pela carreira de
vida. Seu quarto grupo preferido de fotos foi terapia ocupacional. O prognóstico de Karen,
intitulado Trabalhando com o telefone; o quinto considerando o conjunto de variáveis e indi-
grupo, A arte das fotos; o sexto, Conversando com cadores técnicos, é favorável para as carreiras
os amigos. de cabeleireira, de fisioterapeuta e de tera-
peuta ocupacional, segundo os resultados do
As associações de Karen, na segunda BBT. Entretanto, a carreira de terapeuta ocu-
aplicação do BBT, confirmaram sua forte pacional pareceu ser, naquele momento, mais
inclinação motivacional para as funções de adequada, sinalizando integração das neces-
cuidado com o outro, de embelezamento por sidades de cuidado, de ajuda, de contato com
meio do corte e do cuidado com os cabelos, o outro e de educação.
ampliando-o para o cuidado também com
o corpo, com o vestuário e com a beleza em A possibilidade de integração das suas
geral. A necessidade de ajudar, do exercício necessidades pessoais (inclinação profissio-
do cuidado de crianças e de pessoas neces- nal) à realidade ocupacional das carreiras se-
sitadas continuou emergindo como outro lecionadas pôde expressar o desenvolvimen-
componente relevante em sua dinâmica psí- to da maturidade no processo de Orientação
quica. Profissional de Karen, conseguindo elaborar
uma escolha profissional adequada e com
Os dados obtidos a partir da segunda possibilidade de sucesso. O currículo do curso
aplicação do BBT evidenciaram elementos no- de terapia ocupacional, além de oferecer funda-
vos em seu perfil de inclinações, na medida mentos da sociologia, favorece conhecimentos
em que retrataram sua motivação relativa a sobre estrutura e funcionamento do corpo. Os
atividades como educar e ensinar, traduzidas profissionais prestam serviços especiais de te-
fortemente na história das cinco fotos preferi- rapêutica médica, satisfazendo os interesses
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222 Levenfus, Soares & Cols.
verbalizados por Karen nas associações sobre CONSIDERAÇÕES FINAIS
as atividades médicas. Além disso, boa parte
da profissão de terapeuta ocupacional é voltada O processo de Orientação Profissional de
para a realização de atividades lúdicas, nas Karen foi tecnicamente avaliado como repre-
quais a jovem encontrará satisfação de suas sentativo de uma situação de resolutividade
necessidades de atuar com crianças, como se alcançada. Isto é, houve ativação do desenvol-
observou nos registros sobre suas associações vimento vocacional (Pelletier, Noiseux e Bu-
durante as sessões da Orientação Profissional e jold, 1977). De uma situação pré-dilemática,
em suas histórias das fotos preferidas no BBT. ela passou para uma situação problemática e
encaminhou-se para a resolução (Bohoslavs-
Karen pôde relatar durante as entrevistas ky, 1971/1991).
que, através da atividade proposta pelo teste
a ela aplicado (BBT), descobriu tudo de que A análise do processo de Orientação
gostava. Na entrevista realizada um ano após Profissional de Karen, como subsidiado pelo
o encerramento da Orientação Profissional, BBT, pode evidenciar claramente a riqueza e
ela informou ter feito um curso de cabeleireira a utilidade de sua utilização na clarificação do
no SENAC, referindo satisfação: “Levei jeito!”. conflito vocacional e na identificação de suas
Fez um teste para trabalhar em um salão de possibilidades de resolução em um encami-
beleza em um shopping center e estava aguar- nhamento de projeto de carreira profissional
dando o resultado. Nos últimos meses, expe- dessa adolescente. As evidências técnicas do
rimentou situações reais nas quais exerceu ati- BBT (perfis de inclinação profissional, suas
vidades de arrumação de cabelos (“cachinhos e associações verbais, seus agrupamentos das
maquiagem”) de meninas de um corpo de ballet fotos escolhidas positivamente, suas histórias
da cidade, testemunhando felicidade: “Gos- sobre as cinco fotos preferidas), testemunham
tei”. A necessidade de ser cabeleireira estava a coerência final de Karen em elaborar um
sendo satisfeita, o que lhe permitia a busca da projeto profissional. Ela conseguiu coorde-
satisfação de outras necessidades profissio- nar suas demandas psíquicas por atividades
nais contidas em sua estrutura interna. de cuidado, de proteção, de atenção ao outro,
especialmente os fragilizados ou vulneráveis,
Recentemente Karen havia prestado ves- com uma realidade ocupacional disponível
tibular para fisioterapia em uma universidade em seu ambiente e, dentro do possível de ser
particular, mas não quis fazer o curso, mes- considerado, objetivamente viável em sua
mo tendo sido aprovada no processo seletivo. realidade socioeconômica e em seu ambiente
Estava se preparando para prestar vestibular de vida. Pode-se considerar que a adolescente
para a carreira de terapia ocupacional em uma iniciou a construção de um projeto de vida e
universidade pública. encontra-se preparada para enfrentar as difi-
culdades para a assunção de sua identidade
Na sua avaliação após a intervenção re- vocacional e profissional.
cebida, Karen destacou que tinha objetivos
pessoais: Trabalhar e, depois de estar formada e A correspondência entre esses comple-
com uma boa renda, quero me casar. xos fatores nos permitiria ponderar, como o
fazia Achtnich (1991), para uma grande pos-
Karen autoavaliou seu grau de maturi- sibilidade de sucesso profissional em Karen,
dade para tomar decisões profissionais e para bem como para um prognóstico de preserva-
assumir a responsabilidade em relação à sua ção de saúde mental através do exercício de
escolha e, em uma escala de 0 a 10, atribuiu a suas atividades ocupacionais. Obviamente
si uma nota 8. existirão outras variáveis intervenientes no
processo, porém aqui se enfatizou a consi-
Sobre o quanto o processo de Orienta- deração dos elementos associados ao pro-
ção Profissional contribuiu para suas decisões cesso de desenvolvimento necessário para
sobre a carreira, avaliou-o com a nota 10, en- um adolescente (e todo indivíduo) conseguir
fatizando o despertar motivacional propor- elaborar sua identidade como pessoa e como
cionado pelo contato lúdico e criativo pro- profissional, equivalentes simbólicos de um
porcionado a partir das vivências com o BBT,
testemunhando os elementos teóricos aqui
considerados.
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Orientação Vocacional Ocupacional 223
processo de maturação psíquica em nossa re- Na perspectiva de melhor compreensão
alidade sociocultural. de nossos recursos e das potencialidades do
mundo profissional como fonte de preserva-
Para finalizar, transcrevemos a passagem ção da saúde mental humana, conforme em-
de Achtnich (1991), em que oferece, em síntese, basamento teórico do BBT, gostaríamos de
a grande contribuição do BBT em nossa prática estimular o estudo atento das proposições
profissional em processos de Orientação Pro- profícuas de Achtnich (1991) no campo da
fissional: Em resumo, o teste permite a orien- Orientação Profissional no Brasil.
tação daqueles que desejam compreender me-
lhor sua vida, sua pessoa, seu destino (p. 8).
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p.180-184.
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18
Teste de frases incompletas para
orientação profissional
uma proposta de análise
Kathia Maria Costa Neiva
INTRODUÇÃO 2000). Rotter e Willerman (1947) desenvolve-
ram um método quantitativo para avaliar as
Os testes de completar sentenças têm respostas ao RISB que permite estabelecer um
sido amplamente empregados na pesquisa e escore de ajustamento. As respostas do sujeito
na prática clínica (Anastasi e Urbina, 2000). são comparadas a respostas-exemplos e pon-
Segundo Anderson e Anderson (1967), o estu- tuadas em uma escala de sete pontos de acor-
do direto das características de personalidade do com o grau de ajustamento ou desajusta-
por meio desse método iniciou-se provavel- mento do indivíduo. A soma das pontuações
mente com Payne, que desenvolveu, no início gera um escore de ajustamento do indivíduo.
do século passado (1928), um teste usado em O teste foi submetido a estudos de validade e
orientação vocacional. Desde então, vários de fidedignidade, sendo comprovado seu va-
testes assim foram construídos para avaliar lor métrico. Várias adaptações do teste foram
diversas populações-alvo, com diferentes fi- construídas para sua utilização em diferentes
nalidades. Os testes de completar sentenças populações-alvo, como militares e estudantes.
são compostos de inícios de frases, frequen- A versão para alunos já foi utilizada para ava-
temente formulados de modo a eliciar conteú- liar o progresso de indivíduos em psicoterapia,
dos vinculados à situação em investigação. e outras versões foram construídas para ava-
liar atitudes específicas como, por exemplo,
O teste de sentenças incompletas de San- a atitude em relação aos negros (Anderson e
ford, assim como o teste proposto por Rohde, Anderson, 1967).
destinam-se à análise da pressão das necessi-
dades segundo o esquema proposto por Mur- O Teste de Frases Incompletas para
ray junto a estudantes. Os testes propostos Orientação Profissional, apresentado por Bo-
por Hutt, Holzberg e Shor foram utilizados hoslavsky (1977/1998), é considerado como
em hospitais militares principalmente duran- um instrumento útil para os profissionais que
te a guerra, com um objetivo essencialmente atuam na área. O teste, que pode ser classifi-
clínico (Anderson e Anderson, 1967). cado como um teste projetivo, facilita o diag-
nóstico e a compreensão da dinâmica do pro-
O Rotter Incomplete Sentence Blank (RISB), cesso de escolha profissional do orientando e
composto por 40 sentenças incompletas, avalia a exploração da identidade vocacional. Ele é
o grau de ajustamento, sendo utilizado princi- composto de 25 frases incompletas, e a tarefa
palmente para fins diagnósticos. Embora o tes- do orientando é completá-las.
te tenha sido elaborado em 1950, seu manual
foi recentemente revisado, incluindo normas Soares-Lucchiari (1993) adaptou as fra-
atualizadas e uma série de pesquisas realiza- ses desse instrumento à realidade brasileira e
das com o instrumento (Anastasi e Urbina,
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INDEX BOOKS GROUPS
226 Levenfus, Soares & Cols.
acrescentou mais cinco frases. Ela propõe que de orientação profissional e tem se mostrado
o instrumento seja utilizado como uma técni- muito útil para uma melhor compreensão da
ca que pode ser aplicada a grupos de orien- dinâmica de escolha do orientando. Entretan-
tação profissional e trabalhada de diferentes to, esse modelo não foi submetido a uma vali-
maneiras: solicitando que discutam as frases dação estatística, tendo sido utilizado apenas
em duplas, que escolham as frases mais difí- em caráter experimental.
ceis ou as mais fáceis para a discussão, entre
outras. A seguir, o teste será apresentado, assim
como sua forma de aplicação e o modelo de
Entretanto, nenhum desses dois autores análise desenvolvido. Em seguida, para ilus-
propôs um modelo para a análise dos conteú- trar a utilização de tal procedimento, será apre-
dos eliciados pelas várias frases incluídas no sentado um caso, o que permitirá acompanhar
instrumento. melhor as várias etapas da análise do teste.
Casullo e colaboradores (1996) propuse- APLICAÇÃO
ram um Teste de Complementação de Frases
para Orientação Vocacional (TCF-OV), com- O Teste de Frases Incompletas para Orien-
posto de 43 frases-estímulos, construídas para tação Profissional, apresentado por Bohosla-
eliciar conteúdos relacionados à problemática vsky (1977/1998), é de simples aplicação, pois
da decisão ocupacional. Esses autores propuse- a tarefa do indivíduo é completar as frases já
ram uma forma de organização dos conteúdos, iniciadas. Não existe um limite de tempo para
agrupando os itens em oito categorias: a) ex- sua aplicação; em geral os indivíduos demo-
pectativas de vida e expectativas vocacionais; ram entre 15 e 30 minutos para finalizá-lo. Seu
b) atitudes com relação ao estudo; c) atitudes objetivo é explorar a identidade vocacional do
em relação ao trabalho; d) expectativas alheias; indivíduo por meio de um conjunto de frases
e) tomada de decisões; f) barreiras e necessida- incompletas que eliciam conteúdos relaciona-
des para a escolha; g) causas de medos e ansie- dos à problemática da escolha profissional. Os
dade; h) imagem geral de si mesmo. indivíduos são orientados a responder da for-
ma mais espontânea possível, com a primeira
Este capítulo apresentará um modelo ideia que vier à mente.
de análise para o Teste de Frases Incompletas
para Orientação Profissional, proposto por Bo- Após a finalização da tarefa de completar
hoslavsky (1977/1998), que permite agrupar as frases, sugiro que seja feito um inquérito de
os conteúdos eliciados pelas frases em catego- cada frase, cujo objetivo é explorar melhor os
rias, facilitando, assim, a avaliação detalhada conteúdos das respostas emitidas pelo orien-
de aspectos importantes a serem analisados no tando, permitindo, assim, uma maior compre-
processo de escolha profissional do orientan- ensão de sua problemática vocacional.
do. O modelo vem sendo utilizado por mim
e por meus alunos-estagiários em processos
TESTE DE FRASES INCOMPLETAS PARA ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL1
01) Sempre gostei de ...........................................................................................................................
02) Acho que, quando for maior, poderei ........................................................................................
03) Não consigo me ver fazendo .......................................................................................................
04) Meus pais gostariam que eu........................................................................................................
05) Se estudasse ...................................................................................................................................
06) Escolher sempre me fez................................................................................................................
07) Quando era criança queria ..........................................................................................................
08) Os rapazes da minha idade preferem ........................................................................................
1 Este teste foi extraído de Bohoslavsky (1977/1998). Continua
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Orientação Vocacional Ocupacional 227
Continuação
09) O mais importante na vida é .......................................................................................................
10) Comecei a pensar no futuro.........................................................................................................
11) Nesta sociedade vale mais a pena ..........................................do que .......................................
12) Os professores acham que eu ......................................................................................................
13) No ensino fundamental sempre..................................................................................................
14) Quanto às profissões, a diferença entre moças e rapazes é.....................................................
15) Minha capacidade.........................................................................................................................
16) As garotas da minha idade preferem .........................................................................................
17) Quando fico em dúvida entre duas coisas ................................................................................
18) A maior mudança na minha vida foi..........................................................................................
19) Quando penso na universidade..................................................................................................
20) Sempre quis......................................, mas nunca poderei fazê-lo.............................................
21) Se eu fosse ........................................poderia................................................................................
22) Minha família ................................................................................................................................
23) Meus colegas pensam que eu......................................................................................................
24) Estou certo de que.........................................................................................................................
25) Eu.....................................................................................................................................................
ANÁLISE Interesses
Cada frase incompleta proposta no teste Esta categoria engloba todos os con-
elicia a manifestação de conteúdos relacio- teúdos relacionados a objetos de interes-
nados a diferentes aspectos da problemática se ou de rejeição do orientando. Os ob-
vocacional. A partir da análise dos inícios jetos podem relacionar-se ou não à vida
das frases contidas no teste e das respostas profissional. Os enunciados das frases 1,
proporcionadas por muitos dos adolescentes 3 e 7, com frequência, eliciam conteúdos
que participaram de processos de orientação vinculados aos interesses.
profissional, constatei que as respostas for-
necidas poderiam ser classificadas de acordo Habilidades
com o conteúdo. Além disso, como descrevo
em Neiva (1995, 1997, p. 49-69), uma escolha Esta categoria agrupa os conteúdos
profissional madura e consciente requer ad- referentes às habilidades e às inabilida-
quirir, analisar e integrar conhecimentos de des do indivíduo, seja no âmbito escolar
aspectos internos e externos ao indivíduo. ou profissional, seja esportivo, artístico
Entre os conhecimentos internos é importan- ou outro. As frases 2, 5, 12, 13, 15, 20 e
te explorar aspectos como características pes- 21 geralmente eliciam conteúdos vincu-
soais; motivações e interesses; habilidades e lados às habilidades.
potencialidades; valores e aspirações; confli-
tos e ansiedades; medos, fantasias e expecta- Valores
tivas relacionadas ao futuro.
Esta categoria reúne os conteúdos
Os conteúdos das frases podem, assim, que fazem referência aos valores do in-
ser classificados nas seis categorias que se- divíduo, ou seja, ao que ele valoriza, mas
guem:
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228 Levenfus, Soares & Cols.
também ao que não valoriza, não só no completada com conteúdos de outras catego-
âmbito profissional, como também na rias. É importante observar também que as fra-
vida em geral. Com certa frequência, as ses 18 e 25 não foram incluídas nas categorias
frases construídas nos itens 8, 9, 11, 14 e 16 anteriores; a classificação das frases depende-
relacionam-se aos valores do indivíduo. rá do conteúdo manifestado pelo orientando.
Além disso, uma frase pode eliciar conteúdos
Influências que não se relacionem às categorias antes des-
critas e, nesse caso, os conteúdos da frase de-
Nesta categoria são agrupados os vem ser analisados à parte.
conteúdos que se referem à existência ou
não de influências externas sobre o in- Para facilitar a visualização da classifica-
divíduo (diretas ou indiretas), tanto por ção dos conteúdos, sugiro que seja construído
parte de familiares, amigos, professores, um quadro, conforme exemplo a seguir.
profissionais quanto de outras pessoas.
Os enunciados das frases 4, 22 e 23, em Após a classificação dos conteúdos, de-
geral, eliciam conteúdos relacionados a ve-se construir uma análise de cada uma das
esta categoria. categorias mencionadas, procurando integrar
os conteúdos manifestos. Por fim, elabora-se
Ansiedade com relação à escolha uma conclusão relacionando as análises dos
diferentes aspectos, procurando esclarecer a
Nesta categoria são reunidos os dinâmica da problemática de escolha profis-
conteúdos que se referem aos mecanis- sional do indivíduo.
mos de decisão do indivíduo, indicando
ou não a existência de ansiedade com re- UM ESTUDO DE CASO
lação à tomada de decisões. Geralmente,
as frases 6, 17 e 24 eliciam conteúdos que C. é um rapaz de 16 anos que está cur-
se relacionam ao processo de decisão. sando o segundo ano do ensino médio. Ele
busca Orientação Profissional porque está
Ansiedade e expectativas com relação ao com muitas dúvidas em relação à escolha pro-
futuro fissional. Desde criança corre de kart, o que
é um forte interesse em sua vida. Entretanto,
Esta categoria agrupa os conteúdos tem consciência de que esta é uma carreira
que fazem referência à vida futura (pes- difícil e, desse modo, gostaria de encontrar
soal, familiar, profissional, escolar) e que outras opções profissionais. Traz como opções
se relacionam à existência ou não de an- veterinária, pois gosta de animais e tem inte-
siedade com relação ao futuro. Agrupa resse pela Medicina.
ainda os conteúdos que fazem referên-
cia a expectativas com relação ao futuro. APLICAÇÃO DO TESTE:
Com certa frequência, as frases 10 e 19 se COMPLEMENTAÇÃO DAS FRASES E
referem a esses aspectos. INQUÉRITO
A análise do conteúdo da frase será deci- Apresento a seguir as frases construídas
siva para sua classificação. Uma mesma frase por C., acompanhadas do inquérito realizado
pode conter conteúdos relacionados a mais de após a aplicação. As partes em destaque cor-
uma categoria, e, nesse caso, seus conteúdos respondem aos inícios de frase do teste. As fra-
devem ser desmembrados, e cada um deles ses que seguem as partículas Or (Orientador) e
deve ser devidamente classificado. Às vezes, a Od (Orientando) fazem parte do inquérito.
frase construída pelo orientando gera uma clas-
sificação diferente da prevista. Por exemplo, a 1. Sempre gostei de praticar esportes.
frase 5, a qual supostamente elicia conteúdos Or : Por quê?
relacionados às habilidades, com frequência, é Od: Porque relaxa.
2. Acho que quando for maior poderei
ter um bom trabalho.
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Or: Explique melhor. Orientação Vocacional Ocupacional 229
Od: Um trabalho que eu goste de fazer.
Ao mesmo tempo que seja bom fazer, 6. Escolher sempre me fez pensar mui-
que eu não enjoe. O importante é que eu to!
goste de fazer um bom trabalho para o
futuro. Od: Sempre fico em dúvida entre esco-
lher coisas. Eu não sei se escolho uma
3. Não consigo me ver fazendo mal a ou outra. No caso do esporte, sempre
qualquer animal. demoro a escolher qual vou praticar.
Or: Fazer mal é fazer o quê? 7. Quando era criança queria ser pilo-
Od: É judiar, o que eu vejo algumas pes- to.
soas fazendo. Eu não gosto disso.
Or: Você também coloca como possível Od: Eu sempre gostei de corrida, sem-
opção veterinária. pre quis ser piloto.
Od: Sempre gostei de cuidar de animal. Or: Além de piloto, você já pensou em
Gosto de cachorro. Em casa eu não te- fazer outra coisa?
nho porque eu moro em um apartamen- Od: Não lembro, espera aí. Eu olhava as
to e meu pai não gosta. Brinco com os outras pessoas fazendo alguma coisa e
cachorros dos meus amigos e com os pensava que eu podia fazer. Médico é
animais da fazenda do meu avô. mais para agora. Veterinária já faz tem-
po.
4. Meus pais gostariam que eu tivesse
uma boa profissão. 8. Os rapazes de minha idade preferem
ficar em casa a ir ao clube.
Or: Como é isso?
Od: Do jeito que eu falei. Uma profissão Or: Por quê?
que eu goste e em que eu me dê bem. Od: A maioria não gosta de ir ao clube
Querem que eu tenha uma boa forma- praticar esportes. Preferem ficar em casa
ção. Eles sempre dizem que querem ou ir para outro lugar. Eu já gosto de
uma profissão que eu goste. praticar esportes no clube. Eu vou quase
todos os dias.
5. Se estudasse mais, provavelmente fi-
caria nervoso. 9. O mais importante na vida é a famí-
lia.
Od: Eu fico de cabeça cheia, fico nervo-
so com os outros, sem querer fico com Or: Por quê?
a cabeça cheia, não sei. Eu acho que es- Od: Acho importante por causa da com-
tudo pouco em comparação com outras panhia. Eles te dão suporte. Eles sempre
pessoas. têm um conselho pra te dar.
Or: Você acha que o estado nervoso é de Or: Um conselho, como assim?
estudar? Od: Para formar uma pessoa, a família é
Od: É. Nervoso é com o estudo. Só com o mais importante. A pessoa é o reflexo
isso fico nervoso. Minha irmã estuda do que a família te ensinou.
muito, fica o dia inteiro. Eu estudo o
suficiente, nunca fiquei de recuperação. 10. Comecei a pensar no futuro quando
Eu fico só umas duas horas. Não consi- me perguntaram pela primeira vez
go ficar mais. Depois disso não consigo sobre o que eu ia ser quando cres-
estudar direito. cer.
Or: Existem outras coisas que te deixam
nervoso? 11. Nesta sociedade vale mais a pena
Od: Não, acho que só o estudo. Só se ter um bom trabalho fixo do que ter
acontece alguma coisa... mas acho que um trabalho instável.
é só o estudo.
Or: Explique-me melhor.
Od: Um trabalho fixo é melhor porque
você fica muito tempo. É melhor do que
um trabalho instável que você não sabe
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230 Levenfus, Soares & Cols. 17. Quando fico em dúvida entre duas
coisas demoro algum tempo até pen-
quanto vai durar. Trabalho fixo, por sar e decidir.
exemplo, você fez vestibular e trabalha
na área, é mais seguro. Tem comercian- Or: O que você faz para decidir ?
te que não sabe quanto tempo vai ficar. Od: Eu reflito para decidir entre uma
Pode ter que fechar. E em um trabalho coisa e outra. Acho que por isso eu de-
fixo eu posso ficar muito tempo. moro. Aí eu penso o que pode acontecer
se eu escolher uma outra coisa. Penso
12. Os professores acham que eu sou no futuro.
bom aluno.
18. A maior mudança na minha vida
Or: Por quê? foi a mudança para meu atual colé-
Od: Vou bem. Gosto de fazer bagunça, gio.
mas na aula eu fico prestando atenção.
Acho que é por isso que eu quase não Or: Fale um pouco sobre isso.
estudo. Od: Sempre mudei de colégio. Na quar-
ta série mudei para esse colégio. É um
13. No ensino fundamental dei menos colégio pequeno. Lá eu conheço todo
importância ao estudo. mundo. Nós conversamos bastante com
os professores, qualquer dúvida falo
Or: Por quê? com eles, peço ajuda.
Od: Acho que porque era mais fácil. Eu
não pensava que iria usar isso no futu- 19. Quando penso na universidade pen-
ro. Não me preocupava. Agora, eu pres- so nas profissões que seriam boas
to mais atenção porque sei que vou usar para meu futuro.
isso no futuro.
Or: Por que você pensa assim?
14. Quanto às profissões, a diferença Od: Ah, penso na universidade. Penso
entre moças e rapazes é nenhuma. em uma profissão em que possa ficar
bastante tempo, se der, ficar até aposen-
Od: Moças e rapazes estão no mesmo tar-me. Você vai se graduando na pro-
trabalho e não há diferença. Depende fissão.
da dedicação de cada um. Or: Você acha que depois não dá para
mudar ?
15. Minha capacidade é boa para qual- Od: É difícil de mudar. Se você muda
quer profissão que eu possa esco- demora para conseguir. Meu avô ficou
lher. trabalhando de auditor, ficou uns 40
anos e foi se graduando. Meu pai era
Or: Explique melhor. engenheiro e agora é fiscal. Então vai
Od: Acho que qualquer profissão que eu demorar para ele se graduar.
escolha, se eu estudar um pouco, pouco
não, bastante, vou poder escolher bem 20. Sempre quis fazer inúmeros cursos,
e não terei dificuldade em escolher essa mas nunca poderei fazê-lo por falta
profissão. de tempo.
16. As garotas da minha idade prefe- Or: Como é isso para você ?
rem guardar segredos com suas ami- Od: Eu queria fazer muita coisa. Tem dia
gas em vez de amigos. que eu passo o dia inteiro fora de casa.
E então não tenho tempo. Por exemplo,
Or: Por que você acha isso? aula de violão, queria fazer aula de can-
Od: Porque elas guardam segredos mais to também e praticar mais esportes e
com as amigas delas. Elas nunca vêm não dá.
falar para mim, por exemplo. Sempre
falam para as amigas.
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Orientação Vocacional Ocupacional 231
21. Se eu fosse mais interessado em Or: Por quê? Você não vive bem na fa-
pesquisar sobre minha profissão mília?
poderia ter uma opinião concreta. Od: Vivo. Falo em ter a minha família,
filhos. Viver bem com eles, seria o prin-
Or: Explique melhor. cipal. Ter uma família, um bom trabalho
Od: Eu não pesquiso muito. Não sei para viver o dia-a-dia bem.
muito sobre as profissões.
CLASSIFICAÇÃO DOS CONTEÚDOS
22. Minha família sempre me acompa-
nhou nos bons e maus momentos. Os conteúdos das respostas foram clas-
sificados segundo as seis categorias pro-
Od: Ah, minha família sempre foi muito postas. O quadro apresentado no final do
unida, a gente sempre compartilha tudo. capítulo mostra a classificação realizada e
Todo mundo fala com todo mundo. os conteúdos pertencentes a cada categoria.
Or: Como é que a família procura estar Algumas frases tiveram seus conteúdos des-
lhe acompanhando? membrados e classificados em mais de uma
Od: Procuram ver alguma coisa que não categoria.
está bem comigo para me ajudar. Eles
dão conselhos para me ajudar. Se eu ANÁLISE DAS CATEGORIAS
vou mal em alguma matéria escolar, ele
procuram saber, me ajudar. Falam para Interesses
eu falar com os professores.
C. mostra um forte interesse pela prática
23. Meus colegas pensam que eu faço de esportes, o que o faz relaxar. Pratica espor-
muitas coisas e tenho pouco tempo tes no clube quase todos os dias e diz que se
para a escola. tivesse mais tempo praticaria ainda mais (fra-
ses 1, 8 e 20). Seu esporte preferido é o kart;
Or: Por que você acha que eles pensam desde criança sempre gostou de corrida e pen-
isso? sou em ser piloto (frase 7).
Od: É que eu faço muita coisa à tarde.
Or: Eles acham que você faz muita coi- Apresenta uma variedade de interes-
sa? ses, não só na área esportiva, mas também
Od: Para mim está tudo bem. Não tem musical (violão, canto) e queixa-se de não
problema. ter mais tempo para fazer outras atividades
Or: Você acha que acompanha bem a (frase 20).
escola?
Od: Acompanho. Eu presto atenção na Como interesses profissionais, C. traz,
aula, por isso não estudo muito. além de piloto, as profissões de médico e ve-
terinário (frase 7). Com relação à veterinária,
24. Estou certo de que posso ter um comenta que pensa sobre isso já há algum
bom futuro. tempo, pois sempre gostou de cuidar de ani-
mais (frases 3, 7). A ideia de medicina surgiu
Or: Por quê? atualmente (frase 7).
Od: Acho que tenho bastante condição
de ter uma boa profissão. Falo inglês, es- C. mostra-se pouco interessado em
tudo, acho que isso ajuda bastante. pesquisar sobre as profissões, apesar de ter
consciência de que, se pesquisasse, poderia
25. Eu acho que um bom futuro seria ter uma opinião mais concreta sobre elas (fra-
aquele em que fosse feliz. se 21).
Or: Como assim? Me explica melhor. Habilidades
Od: Queria ter uma família, uma profis-
são de que eu gostasse, que não ficasse Com relação aos estudos, C. acha que es-
com preguiça de fazer. Um futuro com tuda pouco ao comparar-se com outras pes-
uma boa família, bom trabalho e viver
na família bem.
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232 Levenfus, Soares & Cols.
soas, em especial sua irmã, mas o suficiente, que elas têm uma atitude preconceituosa com
pois nunca ficou em recuperação (frase 5). relação aos rapazes (frase 16).
Parece não conseguir concentrar-se no estu-
do por um tempo prolongado e, se estuda de- Influências
mais, fica nervoso (frase 5). Além disso, pare-
ce associar sua indecisão ao fato de estudar C. parece sofrer influências importantes
pouco, afirmando que, se estudar bastante, de sua família, principalmente dos valores fa-
vai poder escolher bem (frase 15). Entretanto, miliares. Refere-se com frequência aos conse-
parece superestimar sua capacidade, consi- lhos e ao suporte da família e repete o mesmo
derando-a boa para “qualquer” profissão e discurso familiar com relação a seus ideais de
confiando bastante na possibilidade de vir a futuro: ter uma boa profissão, de que goste, se
ter uma “boa profissão” (frase 15, 24), argu- dê bem e tenha uma boa formação (frases 4,
mentando que fala inglês e estuda. 9, 22). Entretanto, não parece dar-se conta de
estar reproduzindo tão fortemente os desejos
Segundo ele, seus professores o consi- expressos por seus pais.
deram um bom aluno, pois, apesar de gostar
de “fazer bagunça”, presta atenção às aulas. Parece estar sendo influenciado pela his-
Ele acha que não estuda muito e não se pre- tória profissional do avô e do pai, sugerindo
judica na escola, apesar de ter várias ativida- preferir a estabilidade e progresso da carreira
des, pois presta atenção às aulas (frases 12, do avô à instabilidade da carreira do pai (fra-
23). Parece adaptar-se melhor a um colégio se 19). A influência do avô também aparece
pequeno, onde conhece mais facilmente as sutilmente, relacionada à sua preferência pela
pessoas e tem acesso mais fácil aos profes- veterinária, quando menciona seu interesse
sores para tirar suas dúvidas e pedir ajuda pelos animais, despertado especialmente pelo
(frase 18). contato com os animais da fazenda de seu avô
(frase 3).
Valores
Essa suscetibilidade à influência da his-
Valoriza muito sua família, sua união, tória profissional de outras pessoas é também
seus conselhos, seu suporte, considerando a constatada quando ele menciona que “olhava
família o mais importante na sua vida (fra- para as pessoas fazendo alguma coisa e pen-
ses 9, 22). Pretende, assim, no futuro ter sua sava que podia fazer” (frase 7). Entretanto, C.
própria família e viver harmonicamente com parece não se deixar influenciar por opiniões
ela (frase 25). Valoriza também ter um bom de seus amigos com relação ao fato de con-
trabalho, uma profissão que goste de exer- siderarem que suas várias atividades o estão
cer, que lhe proporcione um trabalho fixo, prejudicando na escola, argumentando que
estável, duradouro e que permita progredir isso não é verdadeiro, pois presta atenção às
(frases 2, 11, 19, 25). Valoriza ainda a prática aulas (frase 23).
de esportes e o cuidado dos animais, ambos
valores relacionados a profissões que cogita Ansiedade com relação à escolha
(frases 3, 8).
C. afirma ficar ansioso frente às escolhas,
Com relação aos estudos, passou a valo- ficando em dúvida, refletindo muito, avalian-
rizá-lo no ensino médio e a perceber sua im- do as consequências e demorando em tomar
portância para o futuro (frase 13). uma decisão (frases 6, 17). Entretanto, com
relação à escolha profissional não demons-
Profissionalmente, não vê diferenças en- tra uma ansiedade grande, e sim demasiada
tre moças e rapazes, considerando que tudo confiança de que possa decidir-se, caso estude
depende da dedicação de cada um (frase 14), bastante (frase 15) e tenha mais informações
demonstrando uma atitude não-preconceitu- sobre as profissões pois, neste último caso, te-
osa com relação a esse aspecto. Entretanto, ria uma opinião mais concreta (frase 21). En-
considera que as moças preferem contar seus tretanto, não parece motivado a buscar mais
segredos a amigas do mesmo sexo, sugerindo informação e ajudar na resolução do proble-
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Orientação Vocacional Ocupacional 233
ma, indicando assim uma baixa ansiedade Os valores e as histórias profissionais
com relação à escolha profissional. familiares parecem influenciar consideravel-
mente o processo de escolha de C. Ele deixa
Ansiedade com relação ao futuro claro valorizar a trajetória profissional do avô,
que teve uma carreira estável na qual foi pro-
C. começou a pensar no futuro quando gredindo, em detrimento da trajetória profis-
foi estimulado por outras pessoas que lhe per- sional do pai, que abandonou sua profissão,
guntaram o que ele gostaria de ser quando mudou de ocupação, o que o impediu de pro-
crescesse (frase 10). Mostra-se bastante con- gredir devidamente no âmbito profissional.
fiante com relação a seu futuro e certo de que Além disso, seus ideais de futuro reproduzem
tem condições para ter um bom futuro e uma os ideais que seus pais vislumbram para ele:
boa profissão (frase 24). No entanto, só agora ter uma boa profissão, de que goste, se dê bem
passou a perceber a importância do estudo e tenha uma boa formação. Entretanto, ele pa-
para seu futuro, dando-se conta de que vai rece não perceber que está reproduzindo tão
necessitar dele (frase 13). fortemente os desejos expressos por seus pais.
Como a família tem uma importância funda-
Mostra certa preocupação em ter não mental na sua vida, C. pode estar muito preo-
só um “bom” trabalho, mas também um tra- cupado em responder aos ideais e valores fa-
balho de que goste (que não enjoe) (frase 2), miliares, assim como em evitar a instabilidade
que seja estável e duradouro, permitindo que da carreira do pai. O fato de perceber que a
se aposente e se “gradue” na profissão (frase profissão de piloto é, de certa forma, uma pro-
19). Para seu futuro, almeja ainda ter uma boa fissão instável, na qual é difícil progredir e se
família e viver bem com ela. Um bom futuro “dar bem”, provavelmente está levando C. a
para ele seria aquele que lhe permitisse ser buscar outras profissões que garantam mais o
feliz: ter um bom trabalho e uma boa família seu futuro e respondam melhor aos seus ide-
(frase 26). ais e aos de sua família. Medicina e Veteriná-
ria são opções que podem estar respondendo
ANÁLISE CONCLUSIVA a essas expectativas. Entretanto, C. não parece
ter consciência dos motivos que o estão levan-
C. mostra interesse pelas várias ativida- do a tais opções.
des que realiza (esportes, incluindo pilotar
kart, inglês) que parecem preencher bastante C. não parece ter claro os conflitos que
seu tempo, deixando pouco tempo livre para o estão impedindo de progredir em seu pro-
os estudos. Seus comentários contraditórios cesso de escolha profissional, pois se refere
parecem indicar que ele não tem clara a sua com frequência a soluções “mágicas” para a
relação com os estudos, ou seja, quanto quer efetivação da decisão. Acha que, se estudar
estudar, quanto deve estudar e quanto conse- mais, poderá escolher bem e não terá dificul-
gue estudar. Ele parece estar redimensionan- dades para decidir-se, ou que, se tivesse mais
do a importância e o espaço dos estudos em informações sobre as profissões, se decidiria.
sua vida e seu futuro. Parece confiar demasia- C. expressa uma confiança excessiva em suas
do em suas capacidades e pensa que elas lhe possibilidades de tomar uma decisão e ter
garantirão ter um “bom” futuro, algo muito um bom futuro, parecendo não querer entrar
valorizado por C. e por sua família. Uma de em contato com os conflitos, com as ansieda-
suas opções profissionais, ser piloto de kart, des e com os medos relacionados à escolha
opção sobre a qual pensa desde criança, dis- profissional.
pensa estudos formais. Entretanto, as duas
outras opções – veterinária e medicina – exi- CONSIDERAÇÕES FINAIS
gem muito estudo e muita dedicação e certa-
mente lhe deixarão pouco tempo para realizar Tenho observado que a proposta de
tantas atividades. C. não parece ter consciên- análise do teste de Frases Incompletas para
cia disso. Orientação Profissional tem facilitado bastan-
te o uso do instrumento, principalmente por
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234 Levenfus, Soares & Cols.
parte de estudantes de psicologia ou dos pro- ses diagnósticas, dando-lhe um espaço para a
fissionais que iniciam seu trabalho na área de compreensão dos conteúdos e permitindo que
Orientação Profissional. Como professora, te- os conteúdos sejam trabalhados ao longo do
nho constado que tal método facilita a apren- processo de Orientação Profissional. Portanto,
dizagem e a compreensão do material, assim é recomendável que a aplicação do instrumen-
como sua utilização. to seja feita entre a segunda e a quarta sessões
do processo de orientação, considerando que o
Entretanto, é importante ressaltar que esse processo dure de 10 a 12 sessões.
instrumento deve ser utilizado em um processo
de Orientação Profissional e que a devolutiva Além disso, o modelo de análise descrito
da análise deve ser feita de forma dinâmica, necessita de maior estudo para a comprova-
associando as conclusões aos conteúdos tra- ção de sua validade. Convido meus colegas
zidos pelo orientando nas entrevistas clínicas, pesquisadores a me ajudarem nessa tarefa.
discutindo com ele tais conclusões e hipóte-
REFERÊNCIAS
ANASTASI, A.; URBINA, S. Testagem psicológica. 7.ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
ANDERSON, H.H.; ANDERSON, G.L. Técnicas projetivas do diagnóstico psicológico. São Paulo:
Mestre Jou, 1967.
BOHOSLAVSKY, R. Orientação vocacional: a estratégia clínica. 11.ed. São Paulo: Martins Fontes,
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NEIVA, K.M.C. Entendendo a orientação profissional. São Paulo: Paulus, 1995.
_____. Processos de escolha e orientação profissional. São Paulo: Vetor, 2007.
ROTTER, J.B.; WILLERMAN, B. The incomplete sentences test as a method of studying persona-
lity. Journal of Consulting Psychology, Lancaster, v.13, p.12-21, 1947.
ROTTER, J.B.; RAFFERTY, J.E.; SCHACHTITZ, E. Validation of the Rotter incomplete sentences
blanks for college screening. Journal of Consulting Psychology, Lancaster, v.13, p.348-356, 1949.
SOARES-LUCCHIARI, D.H.P. Pensando e vivendo a orientação profissional. 2.ed. São Paulo: Sum-
mus, 1993.
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18.1 Classificação dos conteúdos das frases em categorias
Interesses Habilidades Valores Influências Ansiedade de Escolha Ansiedade de Futuro
6, 15, 17, 21 2, 10, 13, 19, 24, 25
1,3, 7, 8, 20, 21 5, 12, 15, 23, 24 2, 3, 8, 9, 11, 13, 14, 3, 4, 7, 9, 19, 22, 23
16, 19, 22 25.
1) Esportes: sempre gostou 5) Acha que estuda pouco 2) Valoriza o “gostar do 3) Avô: influência relaciona- 6) Fica na dúvida, demora 2) Quer ter bom trabalho,
de praticar porque relaxa. em comparação a outras trabalho”, “que seja bom da à opção de veterinária, para escolher, pensa muito. que não enjoe.
pessoas, em especial a sua fazer”, “que não enjoe”. Va- quando menciona seu
irmã. Mas acha o suficiente, loriza ter um bom trabalho interesse pelos animais,
pois nunca ficou em recupe- no futuro. despertado especialmente
ração. Fica nervoso se estuda pelo contato com os animais
demais; não consegue estu- da fazenda de seu avô.
dar por muito tempo.
3) Veterinária: sempre gos- 12) Professores acham que é 3) Valoriza o cuidado aos 4) Pais: querem que ele 15) Acredita que se estudar 10) Começou a pensar no
tou de cuidar de animais. bom aluno; apesar de fazer animais e preocupa-se com tenha uma boa profissão, de bastante vai poder escolher futuro quando os outros
“bagunça”, presta atenção os maus-tratos impostos que goste e se dê bem e que bem e não terá dificuldades perguntaram o que ia ser
às aulas e acha que é por a eles. tenha uma boa formação. para decidir-se. quando crescesse.
isso que quase não estuda.
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7) Piloto: desde criança 15) Considera sua capaci- 8) Valoriza os esportes, 7) Pessoas em geral : “Eu 17) Quando fica em dúvida, 13) Agora passou a perceber
sempre gostou de corrida, Orientação Vocacional Ocupacional 235dade boa para qualquersegundo ele, mais do que osolhava para as pessoasdemora para pensar ea importância do estudo
sempre quis ser piloto. profissão. rapazes da sua idade. fazendo alguma coisa e pen- decidir. Pensa no que pode para o futuro, pois sabe que
Médico: pensa agora.INDEX BOOKS GROUPSAcha que, se estudar bastan- sava que podia fazer”. acontecer se escolher outra vai usá-lo.
Veterinária: já faz tempo que te, vai poder escolher bem. coisa.
pensa.
8) Esportes: aprecia e pratica 18) Parece adaptar-se melhor 9) Valoriza a família, que 9) Família: Acha importante 21) Acha que se tivesse mais 19) Quando o tema é univer-
quase todos os dias. a um colégio pequeno, pois considera como o mais im- o suporte e os conselhos da informação se decidiria (teria sidade pensa nas profissões
conhece mais facilmente as portante na vida. Dá suporte, família. opinião mais concreta). que seriam boas para o futu-
pessoas e tem mais acesso conselhos. ro, que permitam ficar muito
aos professores para tirar tempo, até se aposentar (ir
suas dúvidas. se graduando - ascender).
20) Muitos interesses (e 23) Amigos acham que se 11) Valoriza o trabalho fixo 19) Parece estar sendo 24) Certeza de que pode
variados): sempre quis fazer prejudica na escola porque e estável. No trabalho fixo as influenciado pela história ter um bom futuro e boa
muitas coisas, como violão, faz muitas coisas (ele não pessoas ficam mais tempo, é profissional do avô e do profissão.
canto, mais esportes. concorda). mais seguro. pai, sugerindo preferir a
Presta atenção na aula e, por estabilidade e o progresso da
isso, não estuda muito. carreira do avô à instabilida-
de da carreira do pai.
18.1 Classificação dos conteúdos das frases em categorias (continuação) 236 Levenfus, Soares & Cols.
Interesses Habilidades Valores Influências Ansiedade de Escolha Ansiedade de Futuro
6, 15, 17, 21 2, 10, 13, 19, 24, 25
1,3, 7, 8, 20, 21 5, 12, 15, 23, 24 2, 3, 8, 9, 11, 13, 14, 3, 4, 7, 9, 19, 22, 23
16, 19, 22 25.
21) Se fosse mais 24) Certeza de suas 13) No ensino fundamental 22) Família: dá conselhos, 25) Bom futuro é aquele em
interessado em pesquisar capacidades, de ter não valorizava o estudo, procura ver o que não está que seria feliz. Quer ter uma
sobre profissões poderia ter condições de ter uma agora passou a valorizá-lo bem com ele. boa família, bom trabalho e
uma opinião concreta. boa profissão (fala inglês, porque percebeu que é viver bem na família.
estuda...). importante para o futuro.
INDEX BOOKS GROUPS 14) Não vê diferença entre 23) Não parece se deixar INDEX BOOKS GROUPS
moças e rapazes quanto influenciar pela opinião dos
às profissões. Depende da amigos com relação a seu
dedicação de cada um. comportamento (suas várias
atividades).
16) Considera que as
garotas da sua idade
preferem guardar segredos
entre si a compartilhá-los
com os rapazes.
19) Valoriza uma profissão
em que fique até se
aposentar e em que se
“gradue” (possa progredir).
22) Valoriza a união da
família.
25) Valoriza ser feliz: ter
boa família, filhos, bom
trabalho e uma profissão de
que goste.
INDEX BOOKS GROUPS
19
Jogo
critérios para a escolha profissional
Kathia Maria Costa Neiva
Na prática dos orientadores profissio- FUNDAMENTOS TEÓRICOS
nais, um dos grandes desafios é identificar
instrumentos que possam ser utilizados no As ideias iniciais do jogo são provenien-
processo de Orientação Profissional e que tes de uma atividade descrita no programa de
permitam auxiliar o orientando na constru- Orientação Profissional proposto por Nuoffer
ção de seu projeto profissional. Indepen- (1987), denominada “Seleção de Critérios de
dentemente da abordagem teórica utilizada, Satisfação Profissional”. Tal atividade tem
a atuação do orientador pode ser facilitada como objetivo levar o orientando a selecionar
pela “utilização de instrumentos ou ferra- alguns critérios de satisfação profissional a
mentas que, muitas vezes, servem de media- partir de uma lista de interesses, habilidades e
dores entre o profissional e a clientela, facili- valores. A ideia de identificar os critérios para
tando e dinamizando seu trabalho” (Penna a escolha profissional foi posteriormente de-
Soares e Krawulski, 2002, p. 291). Entretan- senvolvida por mim e apresentada em 1995
to, muitos dos instrumentos utilizados pelos no livro Entendendo a escolha profissional, que
orientadores são provenientes de outras áreas foi atualizado e reeditado em 2007 sob o título
da psicologia e adaptados para a orientação Processos de escolha e orientação profissional.
profissional. Sendo assim, é necessária a cons-
trução de ferramentas específicas que permi- É durante a adolescência que, em geral,
tam reflexões acerca da dinâmica de escolha se toma a primeira decisão no âmbito profis-
profissional do orientando e dos aspectos en- sional. Nessa etapa da vida, ocorrem mudan-
volvidos no processo. ças importantes que exigem do adolescente o
reconhecimento de um novo corpo, de novas
É com esse propósito que surgiu a ideia ideias e de novas relações, culminando na re-
de construir o presente instrumento, cujo for- estruturação da identidade pessoal (Erikson,
mato original foi por mim testado durante 1987; Moujan, 1986). O processo de identida-
mais de 10 anos em vários processos de Orien- de vocacional-ocupacional é parte do proces-
tação Profissional, sendo em seguida trans- so de identidade pessoal. A identidade voca-
formado em jogo e publicado originalmente cional é a resposta ao porquê e ao para que da
em 2003. Em 2008, foi publicada sua segunda escolha; já a identidade ocupacional se refere
edição. a com que, como, onde e quando e à maneira de
quem (Bohoslavsky, 1998).
Este capítulo discorrerá sobre as ideias
teóricas as quais norteiam esse instrumento. Existem várias formas de facilitar o pro-
Serão apresentados o jogo e suas formas de cesso de escolha profissional para o adolescen-
utilização e, por fim, uma discussão de caso. te, entre elas, a modalidade clínica de Orien-
INDEX BOOKS GROUPS
INDEX BOOKS GROUPS
238 Levenfus, Soares & Cols.
tação Profissional (Bohoslavsky, 1998; Penna zar uma série de escolhas, desenvolvendo,
Soares, 2000; Neiva, 2002; Neiva, 2007), que assim, as sua capacidade de decisão. O esta-
tem como objetivos principais desenvolver a belecimento desses critérios facilitará a cons-
identidade vocacional-ocupacional e a capaci- trução do projeto profissional, considerando
dade de decisão autônoma. Nessa modalida- que escolher uma profissão é muito mais do
de, o orientador assume um papel de facili- que escolher um mero título; escolher uma ocu-
tador e o orientando, um papel ativo frente à pação é escolher um estilo de vida, um modo de vi-
construção de seu projeto profissional. ver (Neiva, 2007, p. 37).
O presente instrumento foi construído OBJETIVOS DO JOGO
buscando facilitar tal tarefa, permitindo ao
orientando refletir sobre suas expectativas em O objetivo principal do jogo é facilitar a
relação ao futuro profissional e estabelecer escolha profissional de jovens ou adultos, per-
seus critérios de escolha com relação aos se- mitindo (Neiva, 2008):
guintes aspectos (Neiva, 2008):
• ampliar o conhecimento de interesses
1. Ambiente de trabalho e valores;
• Onde trabalhar? Ambiente interno ou
• refletir sobre as expectativas com rela-
externo, na cidade ou no campo, em ção ao futuro profissional;
escolas, hospitais, fábricas, escritórios
(local de trabalho). • definir os critérios para a escolha pro-
• Em que tipo de ambiente de trabalho? Co- fissional;
operativo, competitivo, formal, infor-
mal. • estabelecer relações entre interesses,
valores e a vida profissional;
2. Objetos/conteúdos de trabalho
• Com o que trabalhar? Pessoas, animais, • facilitar a elaboração da identidade
vocacional-ocupacional;
vegetais, instrumentos, máquinas, ma-
temática, química, física, história, psi- • identificar profissões ou ocupações
cologia... relacionadas aos critérios de escolha
profissional;
3. Atividades de trabalho
• Fazendo o que e como? Fazer contatos, • estimular a pesquisa sobre a realidade
profissional.
comercializar, escrever, criar, pesquisar,
desenhar... com autonomia, com risco... FORMA DE APLICAÇÃO
dirigindo, obedecendo a ordens...
Este jogo pode ser aplicado a qualquer
4. Rotina de trabalho pessoa que necessite refletir sobre a escolha
• Quando e quanto trabalhar? Ritmo de profissional: adolescentes em fase de escolha
de uma ocupação ou de um curso de nível
trabalho (moderado, intenso, etc), ho- técnico ou superior; universitários que bus-
rários (flexível, fixo, regular, irregular), cam reorientação profissional ou querem re-
deslocamentos, viagens. fletir sobre o curso escolhido; formandos em
fase de escolha da área ou atividade específica
5. Retornos do trabalho de trabalho; adultos que reestruturam seus
• O que se deseja obter com o trabalho? Rea- projetos profissionais, mudam de carreira ou
emprego; indivíduos em fase de aposentado-
lização profissional, cultura, prestígio, ria que pretendem desenvolver uma nova ati-
poder, estabilidade financeira, promo- vidade profissional, etc. O jogo pode ainda ser
ção. utilizado visando a sensibilizar os jovens para
assumir com responsabilidade a construção
Para estabelecer esses critérios, o orien- do projeto profissional, fazendo-os perceber
tando necessita hierarquizar e priorizar inte- que essa tarefa não é tão simples e que exigirá
resses, definir seus principais valores, tomar deles muita reflexão.
consciência da realidade profissional e reali-
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Orientação Vocacional Ocupacional 239
O jogo é de fácil aplicação, podendo ser • folha de registro: “Meus critérios para
proposto individualmente, em pequenos gru- a escolha profissional”;
pos e até mesmo em grupos grandes. A apli-
cação individual dura 50 ou 60 minutos, e a • folha de registro: “Realidade Profissio-
aplicação em grupo pode estender-se por um nal”.
tempo maior em função do número de parti-
cipantes e da discussão posterior. Além disso, o jogo conta com um manual
explicativo (Neiva, 2008).
A aplicação do jogo pode ser realizada
durante um processo de orientação profissio- Para facilitar a aplicação em grupos gran-
nal completo, e, nesse caso, recomenda-se que des, utiliza-se, em lugar dos cartões, cinco car-
seja aplicado no meio do processo, no final da tazes com os seguintes títulos: 1) Ambiente de
fase de autoconhecimento, pois o jogo per- Trabalho; 2) Objetos/Conteúdos de Trabalho; 3)
mite extrair conclusões importantes sobre as Atividades de Trabalho; 4) Rotina de Trabalho;
expectativas do orientando em relação ao seu 5) Retornos do Trabalho. Cada um dos carta-
futuro profissional e mobilizá-lo para a busca zes contém inscrições relacionadas ao aspecto
de informações sobre a realidade profissional. apresentado. Por exemplo, o cartaz “Ambiente
Entretanto, ele pode também ser aplicado em de Trabalho” apresenta vários tipos de ambien-
uma ação pontual de sensibilização para a te; em “Objeto/Conteúdos de Trabalho”, estão
importância da escolha profissional. Eviden- relacionados diferentes objetos e conteúdos de
temente as discussões e a profundidade da trabalho, e assim por diante.
análise que serão extraídas do material apre-
sentado serão diferentes em um caso ou outro, INSTRUÇÕES DE APLICAÇÃO
mas o jogo tem se mostrado útil para ambos
os objetivos. As instruções de aplicação vêm detalha-
das no manual do jogo (Neiva, 2008). A seguir
A utilização deste jogo não se limita aos descreverei de forma resumida as instruções
orientadores profissionais ou educacionais, básicas para a aplicação.
podendo também ser estendida aos professo-
res que se interessem em estimular uma refle- Em qualquer uma das formas de aplica-
xão sobre a escolha profissional. ção (individual, pequenos grupos ou grupos
grandes) deve-se iniciar explicando o objetivo
MATERIAL do jogo, que é ajudar o orientando a estabe-
lecer seus critérios de escolha profissional.
Para a aplicação individual ou em pe- Explica-se que, ao longo do jogo, ele fará pe-
quenos grupos, utiliza-se: quenas escolhas, refletindo sobre o que quer
para seu futuro profissional – onde trabalhar,
• um conjunto de cartões coloridos com o que trabalhar, fazendo o que, de que
(amarelo, verde, azul e vermelho) com maneira, o que quer receber como retorno do
inscrições referentes a interesses; seu trabalho, entre outros –, e que essas esco-
lhas o ajudarão a construir seu projeto profis-
• um conjunto de cartões brancos com sional e a amadurecer sua decisão.
inscrições referentes a valores/retor-
nos do trabalho; Aplicação individual
• cinco fichas-mestre coloridas, com Para a aplicação individual, embaralha-se
os seguintes títulos: 1) Ambiente de o conjunto de cartões coloridos e entrega-os ao
Trabalho; 2) Objetos/Conteúdos de orientando, explicando que nos cartões ele en-
Trabalho; 3) Atividades de Trabalho; contrará locais de trabalho, objetos de trabalho,
4) Rotina de Trabalho; 5) Retornos do atividades e situações de trabalho que podem
Trabalho; ser de seu interesse. A tarefa será identificar
tudo aquilo que ele gostaria que fizesse par-
• cartões para complementação, colo- te da sua vida profissional. Solicita-se que
ridos e brancos, sem inscrições, que ele separe os cartões que representam o que
podem ser utilizados para acrescentar
interesses ou valores não contempla-
dos no jogo;
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240 Levenfus, Soares & Cols.
gostaria de encontrar em seu futuro profis- Trabalho; 4) Rotina de Trabalho; 5) Retornos
sional. do Trabalho.
Em seguida, entrega-se o conjunto de car- A tarefa de informação deve ser realiza-
tões brancos solicitando que pense no que gos- da entre dois encontros, e o orientador poderá
taria de obter a partir de sua futura atividade sugerir fontes de informações, como guias de
profissional. Solicita-se que separe os cartões profissões à venda no mercado, sites disponi-
que representam os retornos que ele gostaria bilizados na internet, entrevistas com profis-
que sua futura atividade profissional lhe pro- sionais, etc.
porcionasse.
Caberá ao orientador discutir o resulta-
Após selecionar os cartões dispõe-se as do da pesquisa com o orientando, ajudando-
cinco fichas-mestre sobre a mesa: 1) Ambiente -o a comparar seus critérios de escolha com
de Trabalho; 2) Objetos/Conteúdos de Traba- a realidade de cada profissão pesquisada.
lho; 3) Atividades de Trabalho; 4) Rotina de Essas informações permitirão uma análise
Trabalho; 5) Retornos do Trabalho. Pede-se de vantagens e desvantagens de cada profis-
que coloque os cartões selecionados abaixo de são/ocupação de seu interesse, assim como
cada ficha-mestre em função da cor. uma comparação entre as profissões cogita-
das.
Em seguida, discute-se com o orientan-
do os critérios selecionados referentes a cada Aplicação em pequenos grupos
um dos aspectos (ambiente, atividades, etc.),
explicando o que engloba cada um deles e Para aplicar em pequenos grupos, usa-se
ajudando-o a refletir sobre suas prioridades. um kit do jogo para cada cinco participantes.
Com o aspecto Retornos do Trabalho, solicita-se Nesse caso, distribui-se para cada participan-
a hierarquização dos retornos desejados, dos te uma ficha-mestre e seus respectivos cartões
mais aos menos importantes (o orientando (que são acondicionados em bolsas plásticas)
pode hierarquizar de dois em dois, ou de três e uma folha de registro Meus critérios para a
em três, formando pequenas famílias). Duran- escolha profissional. Explica-se que cada con-
te a discussão, o orientador ajuda o orientan- junto de cartões, em função de sua cor, refere-
do “a compreender suas escolhas, apontan- -se a um aspecto – 1) Ambiente de Trabalho; 2)
do incoerências, contradições; relacionando Objetos/Conteúdos de Trabalho; 3) Ativida-
seus critérios com profissões/ocupações já des de Trabalho; 4) Rotina de Trabalho; 5) Re-
mencionadas pelo orientando, etc. A tarefa de tornos do Trabalho – e que eles deverão sele-
discussão é fundamental para que este jogo não se cionar, do conjunto de cartões que receberam,
limite apenas a desenvolver o mecanismo de esco- tudo o que gostariam que fizesse parte da sua
lha, mas que também permita ajudar o orientando vida profissional, registrando, em seguida,
a compreender o “porquê” e o “para quê” de suas suas conclusões na folha de registro. Ao tér-
escolhas (Neiva, 2008, p. 11). Após a discussão, mino de manusear um conjunto de cartões,
solicita-se que o orientando registre suas es- deverão trocá-lo com um colega do grupo, até
colhas na folha de registro Meus critérios para que tenham examinado os cinco conjuntos de
a escolha profissional, examine os critérios esco- cartões. Explica-se também a necessidade de
lhidos e identifique quais profissões/ocupa- hierarquizar os retornos do trabalho, definin-
ções atendem a esses critérios, registrando-as do prioridades.
também na folha.
Depois que todos tenham terminado a
O passo seguinte é orientá-lo para a tarefa, solicita-se, então, que examinem todos
pesquisa de informações sobre as profis- os critérios selecionados e identifiquem quais
sões/ocupações identificadas. Entrega-se profissões/ocupações atendem a seus crité-
ao orientando algumas folhas de registro da rios, registrando-as também no respectivo es-
“Realidade Profissional” para que busque paço da folha de registro.
informações sobre as profissões identifica-
das, tomando como base os mesmos aspec- Passa-se então para a discussão das con-
tos: 1) Ambiente de Trabalho; 2) Objetos/ clusões no grupo. Cada participante pode
Conteúdos de Trabalho; 3) Atividades de apresentar suas conclusões – critérios estabe-
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INDEX BOOKS GROUPS
Orientação Vocacional Ocupacional 241
lecidos e profissões/ocupações relacionadas sala, mostrando-se disponível para esclare-
– e tanto o orientador quanto os demais parti- cer dúvidas. Caso o grupo seja muito grande,
cipantes do grupo podem solicitar explicações é recomendável a presença de mais de um
ou exemplos que o ajudem a compreender orientador, para que se possa atender melhor
suas escolhas; apontar incoerências, contra- aos participantes.
dições; ajudar a estabelecer relações entre os
critérios estabelecidos e profissões/ocupações Após o término da tarefa, solicita-se que
mencionadas inicialmente; identificar outras examinem todos os critérios selecionados e
profissões/ocupações não mencionadas que identifiquem quais profissões/ocupações aten-
têm relação com os critérios de escolha sele- dem a seus critérios, registrando-as também no
cionados, etc. A fase de discussão é extrema- respectivo espaço da folha de registro.
mente importante para compreensão do “por
quê” e do “para quê” das escolhas. Vale ressal- Passa-se então à discussão. Caso sejam
tar que no trabalho de Orientação Profissional muitos orientadores, o grupo pode ser subdi-
em grupo considera-se que a conduta de cada vidido para essa etapa. Procede-se a discus-
um dos membros é influenciada e influencia são conforme já explicado anteriormente. Em
os demais (Carvalho, 1995). seguida, sensibiliza-se para a busca de infor-
mação, conforme descrito, discutindo o mate-
Em seguida, passa-se à fase de sensibiliza- rial pesquisado em encontro posterior.
ção para a busca de informação sobre a realida-
de profissional, conforme descrito na aplicação APRESENTAÇÃO DE UM CASO
individual, e no encontro seguinte discute-se
em grupo as informações obtidas e as conclu- R. é uma moça de 18 anos que cursa o
sões processadas por seus participantes. terceiro ano do ensino médio em uma esco-
la particular e que buscou orientação pro-
Aplicação em grupos grandes fissional por estar em dúvida entre turismo,
administração, hotelaria e nutrição. Consi-
Para a aplicação em grupos grandes, é dera-se uma aluna média, nunca foi repro-
necessário utilizar os cartazes. Pode-se, assim, vada, mas também nunca foi brilhante. Suas
aplicar em todos os alunos de uma mesma disciplinas preferidas são biologia, geografia
turma ou série escolar, em um grupo rotati- e história, nas quais também tem facilidade.
vo que venha participar de algum evento (p. Entretanto, não gosta de matemática, disci-
ex., feira de profissões, feira de universidades, plina que desde o ensino fundamental tem
eventos de responsabilidade social, etc.). certa dificuldade em compreender. Descreve-
-se como comunicativa, alegre e de “bem com
Nessa situação de aplicação, os cartazes a vida”(sic). Seu pai é administrador de em-
são afixados na parede, espalhados pela sala presas e trabalha em uma empresa multina-
de forma a permitirem a devida circulação cional. Sua mãe é enfermeira, mas não exerce
dos membros do grupo. Entrega-se aos parti- a profissão. R. é filha única e reclama que sua
cipantes uma folha de registro Meus critérios mãe preocupa-se muito com ela e quer contro-
para a escolha profissional e solicita-se que exa- lar sua vida. Como atividades extracurricula-
minem cada um dos cartazes e selecionem, res, R. estuda inglês e vai à academia, pois tem
de cada um deles, tudo aquilo que gostariam que “manter a forma”(sic). Tem um círculo de
que fizesse parte da sua vida profissional, amigos da escola com os quais sai frequente-
registrando as conclusões na folha de regis- mente; não tem namorado. Gosta muito de
tro no espaço devido. Explica-se também a viajar e viaja com frequência com seus pais.
necessidade de hierarquizar os retornos do Gostaria de viajar mais com seus amigos e até
trabalho, definindo prioridades. Os cartazes morar fora do país. Seus pais não opinam di-
podem ser examinados em qualquer ordem, retamente sobre sua escolha profissional, mas
o que permite assim agilizar a atividade. O apontam a importância de fazer algo que te-
importante é que examinem todos e façam nha futuro (sic).
o devido registro das conclusões. Durante
a atividade, o orientador deve circular pela O jogo foi aplicado na quinta sessão de
orientação profissional, após a aplicação de
INDEX BOOKS GROUPS
INDEX BOOKS GROUPS
242 Levenfus, Soares & Cols.
algumas técnicas que permitiram a ampliação PROFISSÕES RELACIONADAS
do conhecimento de si mesma e a discussão
de suas características pessoais e de seus inte- AOS CRITÉRIOS PARA A ESCOLHA
resses. As conclusões da orientanda com rela-
ção a seus critérios para a escolha profissional PROFISSIONAL
estão apresentadas a seguir.
Administração, Ciências Biológicas, Nu-
AMBIENTE DE TRABALHO: (Onde trição, Educação Física, Ciências Biomédicas,
trabalhar? Com quem trabalhar? Em que Fisioterapia, Moda.
ambiente?)
Análise e discussão
Trabalhar na cidade; trabalhar em am-
biente pequeno, externo e/ou interno, tran- O orientador solicitou que R. explicas-
quilo e/ou agitado, descontraído, coope- se os critérios estabelecidos e, ao longo da
rativo; trabalhar em hospitais ou clínicas, discussão, foi analisando os critérios selecio-
escritórios, lojas. nados, relacionando-os às profissões inicial-
mente cogitadas e àquelas identificadas após
OBJETOS / CONTEÚDOS DE a construção dos critérios. Apontou incoerên-
TRABALHO: (Com o que trabalhar?) cias e contradições, como o fato de R. cogitar
como opções profissionais turismo e hote-
Administração, biologia, vestuário, cos- laria, mas não selecionar como ambiente de
méticos, alimentos, adultos e adolescentes. trabalho “hotéis”, nem como rotina de traba-
lho “viagens”. Na rotina, R. também mostrou
ATIVIDADES DE TRABALHO: (Fazendo preferência por um horário regular, em perío-
o que e como?) do parcial, rotina bem diferente da realidade
dessas profissões, cujo horário de trabalho é
Atividades variadas, dinâmicas, manuais essencialmente irregular, pois se trabalha em
e/ou intelectuais, calmas, contatos de cura cor- finais de semana e geralmente por turnos. Aos
poral, serviço social, contatos individuais ou poucos, R. foi se dando conta de que seu gran-
em pequenos grupos, relações públicas, rela- de interesse por viajar, morar fora do país,
ções de ajuda, criar, pesquisar, analisar, organi- estava sendo depositado nessas profissões e
zar, ter liberdade de ação. acabou descartando-as.
ROTINA DE TRABALHO: (Quando e Durante a discussão, R. reforçou seu inte-
quanto trabalhar?) resse pela área de ciências biológicas e saúde,
descobrindo outras possibilidades profissio-
Trabalhar em período parcial, horário nais, como: educação física, fisioterapia e ciên-
fixo e regular, movimentar-se fisicamente, tra- cias biomédicas. Percebeu que seu interesse
balhar moderadamente. por Administração estava influenciado pela
trajetória de seu pai. Apareceu o interesse pela
RETORNOS DO TRABALHO: (O que moda, que foi logo descartado como opção
desejo obter com o meu trabalho?) profissional. R. se mobilizou para realizar a
pesquisa sobre a realidade profissional e quis
• Autossatisfação, hedonismo e liberda- informar-se mais sobre as seguintes áreas: ci-
de ências biológicas, ciências biomédicas, nutri-
ção, fisioterapia e educação física.
• Estabilidade financeira, responsabili-
dade social, ajudar as pessoas Após a pesquisa sobre as profissões, R.
percebeu que as opções de Nutrição e Fisiote-
• Honestidade, prestígio, sucesso rapia eram as que mais correspondiam a seus
critérios de escolha profissional, permitindo
trabalhar na área de saúde, relacionando a aju-
da às pessoas com a cura corporal, em locais
como clínicas, consultórios e hospitais, em uma
rotina de trabalho que lhe agradava. Após en-
INDEX BOOKS GROUPS
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Orientação Vocacional Ocupacional 243
trevistas com profissionais e análise dos currí- bilita estender a reflexão sobre a escolha pro-
culos desses cursos, R. optou por fisioterapia. fissional a uma quantidade maior de pessoas,
ainda que o alcance da discussão seja mais
CONSIDERAÇÕES FINAIS limitado. É necessário pensar que o serviço de
orientação profissional em nosso país ainda é
O jogo – Critérios para a Escolha Profissio- elitizado e que não existe uma política pública
nal – tem se mostrado um instrumento bastan- que permita atingir a maioria dos adolescen-
te útil para facilitar o processo de construção tes em fase de escolha. Logo, é necessário pen-
do projeto profissional. Vários orientandos sar em recursos que possibilitem levar essa
comentam que se trata de uma atividade in- reflexão para a sala de aula, estimulando um
teressante, que os motiva e que organiza suas papel ativo nos adolescentes que necessitam
ideias, pois os faz refletir sobre situações con- sensibilizar-se para a importância dessa deci-
cretas da realidade de trabalho. são e desenvolver sua capacidade de decisão
autônoma.
É um instrumento de fácil aplicação,
e que pode ser aplicado a grupos grandes, Por fim, esse instrumento também tem
como parte ou não de um processo completo sido utilizado em pesquisas, visando a com-
de Orientação Profissional. O fato de poder preender o processo de escolha junto a indi-
ser utilizado não só por orientadores profis- víduos e até mesmo grupos profissionais (Iva-
sionais, mas também por professores, possi- tiuk, 2004; Neiva, 2008; Mei, et al., 2007).
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VI
TÉCNICAS PARA INTERVENÇÃO
EM ORIENTAÇÃO
INDEX BOOKS GROUPS
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20
Modalidades de trabalho e utilização
de técnicas em orientação profissional
Dulce Helena Penna Soares • Edite Krawulski
A intervenção em Orientação Profissio- lias, seja mesmo por escolas preocupadas em
nal, independentemente da abordagem sub- assistir seus alunos no processo de escolha
jacente ou da finalidade do trabalho, requer profissional. Podemos considerar que a in-
sempre uma aproximação aos sujeitos com tensificação de demanda seja reflexo de uma
quem trabalhamos, a fim de obter informações grande ampliação das possibilidades de es-
a respeito de sua dinâmica interna ou mesmo colhas, característica do atual momento, bem
de facilitar a mobilização e a explicitação de como das profundas e rápidas transformações
sentimentos, de dificuldades ou de dúvidas, na realidade ocupacional, ainda que esses fa-
encaminhando assim o trabalho. tores não constituam explicações exaustivas
do fenômeno.
Essa atuação pode ser enriquecida por
meio da adoção de uma modalidade de traba- Em contrapartida, é verdade que o au-
lho adequada às contingências, e da utilização mento de demanda tem conferido visibili-
de instrumentais ou ferramentas que, muitas dade e identidade aos trabalhos na área da
vezes, servem de mediadoras entre o profis- Orientação Profissional, não mais restritos à
sional e a clientela, facilitando e dinamizando questão específica da ajuda no processo de
seu trabalho. A utilização dessas ferramentas, escolha profissional, mas desdobrados para
bem como dos processos coletivos, tem proli- atividades de Reorientação Profissional,
ferado nas últimas décadas, principalmente a Orientação de Carreira, Apoio e/ou Orienta-
partir dos referenciais da dinâmica de grupo e ção ao Vestibulando, Atendimento a pais de
do psicodrama. Neste capítulo, abordamos as Orientandos ou Vestibulandos, entre outras
modalidades individual e grupal de trabalho iniciativas.
em Orientação Profissional, procurando ressal-
tar características, vantagens e desvantagens. Essa ampliação e essa diversificação de
Discutimos também aspectos teóricos, técnicos trabalhos reforça a necessidade de clarificar,
e éticos envolvidos na utilização das técnicas para a clientela que os procura e para os pro-
como recurso nesse trabalho, analisando sua fissionais que os desenvolvem, a modalidade
aplicação em cada uma das formas de inter- de atendimento oferecido. Especificamente no
venção. que se refere à Orientação Profissional, duas
modalidades de intervenção têm se destacado:
MODALIDADES DE INTERVENÇÃO EM a grupal e a individual, cada qual com suas
ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL características, possibilidades, limitações, com
seus recursos técnicos e, principalmente, com
Nos últimos anos, tem crescido substan- sua adequação a determinadas necessidades
cialmente a procura por Orientação Profissio- e a dados que se apresentam. A seguir, serão
nal, seja por adolescentes ou por suas famí- discutidas mais detidamente cada uma delas,
procurando focar também a questão da utili-
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248 Levenfus, Soares & Cols.
zação das técnicas em cada uma das formas de torado (1979). Somente em 1995 seu trabalho
trabalho. foi divulgado ao grande público, tendo sido
transformado em livro.
A ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL EM
GRUPO E O USO DE TÉCNICAS Zaslavsky e colaboradores (1979) apresen-
tam uma experiência de planejamento por obje-
O trabalho com grupos tem comprova- tivos em orientação vocacional com um enfoque
do sua eficácia não só em nossa área de in- psicodinâmico para utilização na modalidade
teresse, mas também em diferentes situações individual e grupal. Na apresentação de seu tra-
e conflitos vividos pelo homem na socieda- balho, afirmam:
de atual. Zimerman, Osório e colaboradores
(1997) apresentam diferentes aplicações de Como conclusão de um ciclo de es-
trabalhos grupais, entre elas a Orientação tudos coordenado pelo psicólogo Rodol-
Profissional. Wainberg, uma das colaborado- fo Bohoslavsky, sistematizamos o aten-
ras, afirma que dimento vocacional a adolescentes na
forma de um planejamento de trabalho
a atividade em grupo é facilitadora em grupo destinado a alunos do terceiro
do processo de identidade individual e ano do ensino médio do Colégio Brasilei-
grupal, oferecendo melhores condições ro de Almeida, que serviu como campo
na elaboração dos sentimentos referentes experimental ao aperfeiçoamento teórico
à atividade. A troca de experiências, o re- em Orientação Vocacional. (p. 14)
lato de vivências, assim como a tendência
natural do adolescente para se agrupar, Soares (1985) afirma que o trabalho de
tornam o enfoque grupal indispensável Orientação Profissional deve ser feito em gru-
para a realização do processo (p. 374). po e justifica:
A abordagem em grupo da Orientação Acredito na possibilidade de os gru-
Profissional, em linhas gerais, inclui procedi- pos fazerem uma mais profunda mudan-
mentos teóricos e técnicos de um trabalho de ça individual e social. É a melhor forma de
dinâmica de grupo. Segundo Zimerman (1997), realizar-se tal procedimento por diversas
a importância do conhecimento e a utilização da razões, entre elas, a possibilidade de iden-
psicologia grupal decorre justamente do fato de que tificações recíprocas entre os membros do
todo indivíduo passa a maior parte do tempo de sua grupo a partir de uma problemática (ne-
vida convivendo e interagindo com distintos gru- cessidade de escolher); o enriquecimento
pos (p. 27). pessoal a partir da troca de ideias; o relato
de experiências pessoais compartilhadas;
Melo-Silva e Jacquemin (2001), por sua a possibilidade de feedback entre os pró-
vez, salientam o caráter de aprendizagem im- prios membros do grupo. (p. 83)
plícito em toda abordagem grupal: segundo es-
ses autores, no contexto grupal, é preciso observar Em nosso país, essas contribuições repre-
como se configuram os vínculos entre os próprios sentam as primeiras iniciativas de se desen-
integrantes, entre eles e a coordenação, e, ainda, com volver atividades de Orientação Profissional
a tarefa. Enfim, como a aprendizagem ocorre no gru- na modalidade grupal, que ganhou ênfase na
po (p. 82). última década.
Carvalho (1979, 1995) foi quem deu iní- Orientar jovens e adultos na escolha de
cio à utilização da modalidade grupal em sua profissão supõe o domínio de um referen-
Orientação Profissional no Brasil. Seu traba- cial teórico e técnico por parte do orientador
lho junto ao Centro de Orientação Profissional responsável pelo grupo. Podemos dizer que
do Instituto de Psicologia da USP, já no final a orientação profissional tem seu referencial
da década de 1970, fundamentou-se nas teo- teórico específico, a psicologia vocacional, dis-
rias de grupo de Lewin, Rogers, Perls e Bion, cutindo questões referentes ao processo de to-
culminando com a defesa de sua tese de dou- mada de decisão, como as influências na esco-
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Orientação Vocacional Ocupacional 249
lha, as dificuldades de se fazer uma escolha, a mão do instrumental técnico para viabilizar
psicologia dos projetos pessoal e profissional, a seu trabalho.
participação da família no processo de escolha.
O referencial da psicologia do trabalho também Como um recurso nas mãos do profis-
é de grande importância, na medida em que sional, visando a mediar seu trabalho com a
esclarece questões relativas à significação do clientela, conforme inicialmente enfocamos,
trabalho, as transformações na realidade ocu- qualquer atividade proposta pode ser consi-
pacional, além de outras concernentes à infor- derada uma técnica, com o papel de levantar
mação profissional. dados, fazer emergir sentimentos, permitir
elaborações, dar-se conta de algo; enfim, fa-
No entanto, o trabalho de Orientação cilitar a escolha. A própria entrevista pode
Profissional através de grupos pressupõe ser assim entendida, seja a de triagem, a en-
também uma formação específica em psicologia trevista clínica, seja a de meio de processo,1
dos grupos, ou seja, o profissional deve estar além dos testes eventualmente aplicados ou
preparado para o manejo do grupo nas mais dife- das outras atividades comumente incluídas
rentes situações. A formação teórica é que lhe nos trabalhos de Orientação Profissional, tais
vai indicar os tipos de intervenções a serem como visitas a universidades, entrevistas com
feitas, as técnicas às quais vai recorrer, bem profissionais e pesquisas por meio de mate-
como a maneira pela qual vai expressar sua riais informativos.
compreensão acerca do funcionamento do
grupo. Ao procurar por Orientação Profissio-
nal, nossa clientela ainda espera a realização
A modalidade grupal de atendimento em de uma bateria de testes que possam definir,
Orientação Profissional costuma ser adotada ao final, qual a melhor profissão a ser seguida
com mais frequência em escolas, cursos prepa- com a segurança de um diagnóstico científico
ratórios para o vestibular e serviços de atendi- e estatístico. Seguindo a explicação proposta
mento, haja vista a concentração de demanda. por Bohoslasvsky (1991), é possível pensar
Nessa forma de trabalho, a demanda do grupo que a utilização dos testes pelo psicólogo
como um todo é que baliza o processo de tra- pode ser comparada à solicitação de exames
balho, o que requer uma constante leitura das médicos: em uma consulta, o médico solicita
necessidades trazidas pelos componentes que um exame de sangue se percebe que estamos
se referenciam uns aos outros, em um trabalho com algum problema de anemia ou um raio-X
horizontalizado das escolhas. se tivermos torcido o pé e o procuramos com
muita dor. Ou seja, os exames são solicitados a
As diferentes técnicas embasadas na partir de uma hipótese diagnóstica que neces-
abordagem teórica utilizada poderão ser sita de confirmação ou refutação. Porém, não
adaptadas às questões emergentes no pro- é seu resultado que trará a cura do paciente,
cesso de Orientação Profissional. É preciso e sim o tratamento prescrito a partir dos da-
esclarecer, preliminarmente, que não consi- dos encontrados. O teste, assim como o exame
deramos a existência de técnicas grupais e médico, não irá resolver o problema da inde-
técnicas individuais por excelência. Em nossa cisão. Ele apresentará algumas informações
compreensão, o que existe é todo um conjunto que necessitarão encaminhamento posterior,
de técnicas, as quais se adaptam mais a uma o qual é viabilizado pela participação em um
ou a outra forma de trabalho. Em outras pa- processo grupal de Orientação Profissional.
lavras, é possível dizer que qualquer técnica
utilizada nos grupos pode ser adaptada para Em nossa prática, temos encontrado vá-
utilização individual ou coletiva, cabendo ao rios referenciais teóricos sendo utilizados para
profissional avaliar essa adequação ao lançar subsidiar a escolha de técnicas. Observa-se
1 Em nossa experiência junto ao LIOP, em algumas situações, o coordenador sente a necessidade de dispo-
nibilizar ao grupo uma entrevista no meio do processo, pois constata que algumas pessoas teriam algo
mais para contar e não sentem o espaço grupal como o mais apropriado para tal. Muitos jovens, durante a
entrevista, relatam acontecimentos significativos em sua vida (morte de um dos pais, separação, mau rela-
cionamento com os padastros e até caso de estupros), que de alguma forma estão interferindo no processo
de escolha. Nessa oportunidade, o orientador toma contato, esclarece junto com o jovem tal dificuldade e
sua interferência no processo de escolha e, se necessário, o encaminha para psicoterapia.
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250 Levenfus, Soares & Cols.
em alguns profissionais da área, geralmente grupo. Com frequência, as técnicas previstas
iniciantes ou mesmo estagiários, uma postura no plano de trabalho se mostram inadequa-
de ter como base técnicas sequenciadas logi- das para o grupo quando nos deparamos com
camente. Com esse procedimento, acreditam ele no dia do encontro, exigindo flexibilidade
ter elaborado um bom plano das atividades para modificar o “planejamento” para nos
para seu grupo. No entanto, um adequado adequarmos à dinâmica do grupo. Por exem-
planejamento de trabalho grupal em Orienta- plo, previmos a aplicação de uma determina-
ção Profissional não permite o uso da “técnica da técnica, pois percebemos que um determi-
pela técnica”. nado assunto mobilizou vários membros do
grupo no encontro anterior. Ao iniciarmos o
Nos últimos anos, proliferaram publi- encontro seguinte, justamente aqueles mem-
cações sobre técnicas aplicadas a trabalhos bros não estão presentes ou um outro assunto
com grupos, prontas para serem utilizadas e é abordado pelo grupo com maior ênfase. A
adaptadas a qualquer situação. Esse fato, na clareza do orientador em relação ao objetivo
compreensão de Andaló (2001), pode ser asso- para o qual a técnica foi prevista, bem como
ciado a um crescimento da demanda de traba- sua habilidade em realizar uma adequada
lhos com grupos nos mais diversos contextos, leitura do movimento do grupo lhe indicarão
gerando a necessidade de modificar sua estratégia de
condução grupal e de “correr atrás do grupo”,
um processo de banalização preo- para não perder sua dinâmica.
cupante em uma perspectiva claramente
tecnicista, dando a falsa impressão de Muitas vezes uma técnica é utilizada
que coordenar grupos é uma atividade num grupo com um resultado ótimo. Os coor-
simples e de que não requer maiores co- denadores chegam então à conclusão de que
nhecimentos teóricos além do domínio “esta técnica é boa” e passam a utilizar-se dela
de “jogos”, “técnicas” e “dinâmicas” su- em todas as ocasiões até se depararem com um
perficiais aplicadas geralmente à revelia grupo no qual “não funciona”. É importante,
do movimento grupal (p.136). então reafirmar: não existe técnica boa nem ruim.
Sua escolha e utilização devem ser respalda-
É preciso considerar ainda que essa pro- das por alguns fatores, entre os quais:
liferação de publicações resulta de toda uma
demanda por parte dos profissionais ou mes- 1. a boa “leitura” que o coordenador faz
mo de estudantes que, até mesmo por inexpe- do grupo – para avaliar se e em que
riência, acreditam que o domínio de técnicas é medida a técnica é a mais adequada ao
facilmente associado à possibilidade de resol- movimento e ao momento grupal;
ver os problemas na coordenação dos grupos
com agilidade e eficiência, esperando, muitas 2. a “habilidade” do orientador na apli-
vezes, que as técnicas ofereçam soluções má- cação e no processamento da técnica,
gicas para seu trabalho. isto é, a consequência de sua forma-
ção teórica e técnica para tal. Se não
Alinhando-nos com a posição de Anda- houver o aquecimento adequado, por
ló, entendemos que a escolha de técnicas não exemplo, a técnica “tão boa” pode ser
constitui, por si só, a questão fundamental ao um fracasso.
se planejar as atividades a serem desenvolvi-
das com os grupos. É fundamental, sempre, Em síntese, considera-se como técnica,
antes de iniciar um atendimento em orientação no âmbito da OP, qualquer recurso do qual o
profissional, discutirmos a relatividade das orientador lança mão para viabilizar sua inter-
técnicas, reconhecendo que são secundárias venção profissional, permitindo-lhe levar os
em relação à leitura do movimento grupal e orientandos a entrar em contato com a ques-
de sua demanda a cada momento. Referencia- tão da sua escolha profissional, reconhecendo
do por sua formação teórica e prática, o orien- suas demandas internas, as pressões externas
tador deve avaliar qual a melhor estratégia e o modo como lidam com tal questão, inse-
de trabalho para determinado momento do rida em seu contexto vivencial mais amplo.
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