The words you are searching are inside this book. To get more targeted content, please make full-text search by clicking here.

FRONTEIRAS da globalização
livro Budai (antigo)

Discover the best professional documents and content resources in AnyFlip Document Base.
Search
Published by Sergio Gao, 2020-05-09 17:21:57

FRONTEIRAS da globalização

FRONTEIRAS da globalização
livro Budai (antigo)

diante, iniciou-se o processo brasileiro de industria- A região Sudeste é a grande produtora de laran-
lização, no qual os capitais da cultura cafeeira tive- ja no Brasil (76,9%), com plantações concentradas
ram grande participação. no estado de São Paulo (72,2%).

Embora o mercado mundial de café seja regu- Arte Ação/Arquivo da editora
lamentado pela Organização Internacional do Café Ernesto Reghran/Pulsar Imagens
(OIC), sediada em Londres, na Inglaterra, o Brasil
mantém-se como maior produtor mundial. Os prin-
cipais produtores brasileiros são Minas Gerais e
Espírito Santo.

Veja a posição das regiões brasileiras na produ-
ção de café.

Brasil: produção de café, por região — 2015

2,8%
3,3% 1,1%

8,3% Sudeste
84,4% Nordeste
Norte
Sul
Centro-Oeste

Adaptado de: IBGE. Levantamento sistemático da produção agrícola 2016. Vista aérea de plantação de laranja no município de
Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov.br/Producao_Agricola/Fasciculo_ Londrina (PR). Foto de 2015.
Indicadores_IBGE/estProdAgr_201603.pdf>. Acesso em: 7 abr. 2016.
Outras frutas
Cacau
Além da laranja, outras frutas são cultivadas vi-
Natural da região amazônica, o cacau — que pre- sando aos mercados interno e externo: a banana (PA
cisa de clima muito úmido com chuvas abundantes e SP), a uva (RS e BA), a maçã (SC e RS), o caju (CE
— encontrou no sul da Bahia (Ilhéus e Itabuna) as e RN) e o coco-da-baía (BA, CE e PA).
condições ideais para seu desenvolvimento. Culti-
vado nessa região desde o século XIX, propiciou o Importantes projetos agropecuários irrigados
surgimento de uma sociedade característica ao redor têm sido desenvolvidos ao longo do rio São Fran-
dessas cidades. cisco, entre as cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro
(BA), produzindo frutas como o melão, a manga, o
O Brasil já foi o primeiro produtor dessa matéria- mamão e a uva, que se destinam aos mercados ex-
-prima para a indústria do chocolate. A partir da dé- terno e interno (Centro-Sul). Com o desenvolvimen-
cada de 1970, a concorrência de países africanos to da cultura irrigada de uva, o município de Lagoa
(Gana e Costa do Marfim) e do Sudeste Asiático Grande (PE) vem se destacando como grande pro-
(Indonésia) e, mais tarde, nos anos 1990, a praga co- dutor de vinho no vale do São Francisco.
nhecida como vassoura-de-bruxa, que quase dizimou
os cacauais da Bahia, acabaram por deixar o Brasil A pecuária no Brasil
em quarto lugar entre os exportadores de cacau.
A pecuária no Brasil apresenta grandes diferen-
Laranja
ças quanto às técnicas e ao capital empregados: a
Nativa da Ásia, a laranja chegou à Europa na
Idade Média e mais tarde à América. O plantio des- pecuária que emprega grandes investimentos, uti-
sa fruta tem maior produtividade em regiões tro-
picais e subtropicais. A laranja é exportada sob a lizando modernas técnicas Zootecnia: ciência que
forma de fruta ou de suco concentrado. de zootecnia, com a sele- cuida da produção, da
ção de raças, os cuidados criação, do trato e da

veterinários com rotina de domesticação ou do
vacinas, os métodos de manejo de animais.

O espaço agropecuário brasileiro C A P Í T U L O 1 6 199

confinamento, o aprimora- Confinamento: sistema suínos, os caprinos e os ovinos; e os de pequeno
mento de pastagens, ob- de criação de bovinos porte reúnem os galináceos (galinhas e codornas).

tendo uma produtividade em que lotes de animais Os dois maiores rebanhos brasileiros em núme-
bastante alta; e a pecuária são encerrados em ro de cabeças são os bovinos e os suínos.
realizada sem maiores cui- piquetes ou currais com
área restrita, onde os Rebanho bovino

dados, resultando em reba- alimentos e a água De acordo com a Pesquisa Pecuária Municipal
nhos de baixa fertilidade necessários são do IBGE-2014, naquele ano, o rebanho bovino era o
por causa da desnutrição e fornecidos em cochos. maior do país, somando 212,34 milhões de cabeças.

da alta incidência de moléstias. Veja no gráfico a seguir a distribuição do rebanho
bovino pelas grandes regiões.
A pecuária que utiliza técnicas modernas faz par-

te do agronegócio e fornece um importante produto

de exportação brasileiro: o “complexo carnes”, que

reúne carne bovina, suína e de frango. Nesse caso é Brasil: rebanho bovino, por região — 2014 Arte Ação/Arquivo da editora

chamada pecu‡ria de corte, pois o gado é criado

especialmente para o abate.

A pecuária para o fornecimento de leite envolve 12,9% Centro-Oeste
13,8% Norte
principalmente o rebanho bovino e sua produção é 33,6% Sudeste
Nordeste
dirigida ao mercado interno. Sul

Além disso, essa atividade oferece outra fatia da 18,1% 21,6%

economia: os produtos de origem animal. Além do

leite, também estão nessa categoria ovos, mel e ca-

sulos do bicho-da-seda.

Em 2013, pela primeira vez, o IBGE considerou Adaptado de: IBGE. Produção pecuária municipal. Disponível em:
<www.sidra.ibge.gov.br/bda/pecua/default.asp?t=2&=t&o=24&u1=1&
em sua Pesquisa da Pecuária Municipal os produtos
u3=1&u4=1&u5=1&u6=1&u7=1&u2=1>. Acesso em: 7 abr. 2016.
da aquicultura (criação de animais aquáticos com a
O Centro-Oeste tem se firmado como a região
finalidade de produção comercial). Peixes (piscicul- com o maior número de cabeças de gado bovino.
Em grande parte de suas propriedades, o gado é
tura) e camarões (carcinicultura) são os principais criado solto no pasto, no sistema de pecuária ex-
tensiva, principalmente no Pantanal Mato-Gros-
produtos da aquicultura. sense. A maior parte dessa atividade pecuária
destina-se à produção de carne. Nos últimos anos,
Principais rebanhos criadores da região têm investido em técnicas mo-
dernas para melhorar a qualidade da carne e au-
O IBGE divide os principais rebanhos brasileiros mentar sua produtividade. Sobre esse assunto, leia
em três grandes grupos: animais de grande porte, o texto a seguir.
animais de médio porte e animais de pequeno porte.

Os animais de grande porte agrupam os bovinos,
os bubalinos e os equinos; os de médio porte, os

Contexto e aplicação Não escreva
no livro

Grupo de fazendeiros faz pecuária do Seu trabalho é engordar a bicharada para o abate.
Brasil dar um salto Merola alimenta os bois com uma ração especial à base
de silagem de milho, sorgo e farelo de soja plantados na
Em sua fazenda Santa Fé, localizada em Santa Helena própria fazenda. Pelo serviço, ele cobra diária de
de Goiás, a 203 quilômetros de Goiânia, Pedro Merola, filho 5,70 reais por cabeça. Ainda assim, tem fila de espera.
e neto de pecuaristas, cria gado com uma organização rara O motivo é simples: a Santa Fé é um fenômeno em
no Brasil. Ele é o que no setor se conhece como finalizador. engordar seus visitantes.
Três meses antes do abate, ele recebe os animais de
criadores situados em um raio de até 700 quilômetros. Presos em piquetes, os animais ganham 1,7 quilo por
dia — são 153 quilos em 90 dias. Os lucros também são

200 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

superlativos. Merola lucra 8 000 reais por hectare ao dos Estados Unidos com o mesmo número de cabeças.
ano, enquanto a média nacional é de 500 reais. Lá, criam-se oito bois por hectare. É um atraso histórico.
A pecuária brasileira cresceu ao longo do século 20 com
A Santa Fé confinará 70 000 bois e vacas neste ano a importação de gado indiano nelore, resistente a altas
[2014] e deverá faturar 60 milhões de reais. Em 2015, temperaturas e a doenças tropicais.
a meta é chegar a 100 000 cabeças e 90 milhões de
reais de receita. “Enquanto a regra no setor é fazer de [...]
tudo, eu me especializei”, diz Merola.
CALIL, François. Revista Exame, 20 out. 2014. Disponível em
Desde o ano 2000, enquanto as lavouras de milho e <http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1075/
soja colocaram o Brasil no topo do ranking global de noticias/grupo-de-fazendeiros-faz-pecuaria-do-brasil-
produtividade, a pecuária evoluiu em marcha lenta. dar-um-salto>. Acesso em: 7 abr. 2016.
O país tem o maior rebanho bovino comercial e é o
principal exportador de carne do mundo, mas sempre Depois de ler o texto, faça as atividades pro-
pecou pela baixa eficiência de suas fazendas e pela carne postas.
de qualidade questionável — pelo menos na comparação
com os bifes americanos e argentinos. 1. Explique o que é um finalizador, com base no tex-
to que você leu.
Na média, um pecuarista brasileiro cria 1,3 boi por
hectare e obtém 75% da carne produzida por um criador 2. Que comparação é feita entre a agricultura e a
pecuária brasileira?

As maiores bacias leiteiras, segundo o IBGE, são: Entre os estados, destacam-se Rio Grande do Sul,
Mesorregião Noroeste Rio-grandense, Triângulo Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais. Uberlândia
Mineiro, Oeste catarinense, Sul goiano, Sul/Sudeste (MG), Rio Verde (GO), Toledo (PR) e Concórdia
de Minas e Oeste paranaense. Em relação às regiões, (SC) são os municípios com a maior produção de
Sul (34,7%) e Sudeste (34,6%) apareciam quase em- carne suína e derivados.
patadas na participação da produção de leite.
Os ovinos (ovelhas, carneiros) somavam cerca
Outros rebanhos de 17,6 milhões de cabeças em 2014, com desta-
que para as regiões Sul e Nordeste. O Rio Grande
O rebanho suíno é o segundo em números no do Sul concentra 24% do rebanho nacional, cuja
Brasil. Segundo o IBGE, em 2014 ele somava finalidade principal é a produção de lã. No
38 milhões de cabeças. Além de fornecer a carne, Nordeste, onde a criação está voltada para a pro-
alimenta uma ativa agroindústria de produtos de- dução de carne, destacam-se Bahia (16%) e Ceará
rivados, concentrada principalmente na região Sul. (12,7%).

Gerson Gerloff/Pulsar Imagens

Rebanho de ovinos em propriedade rural no município de São Martinho da Serra (RS). Foto de 2014.

O espaço agropecuário brasileiro C A P Í T U L O 1 6 201

O rebanho de bubalinos (búfalos) concentra-se No Brasil, o agronegócio é dominado por transna- 256,04 Arte Ação/Arquivo da editora
principalmente na região Norte, que somava 66,5% cionais do ramo alimentício e de fabricantes de in-
das 1,3 milhão de cabeças do efetivo do país, em 2014. sumos para a agricultura. 242,578 242,179 225,101
A grande maioria é encontrada no Pará e Amapá, com
destaque para os municípios de Chaves e Soure (PA) No Centro-Sul do Brasil, grande parcela das la-
e Cutias e Macapá (AP). vouras está inserida no processo da industrialização
da agricultura, em que todas as etapas da produção
Em 2014, os equinos (cavalos, éguas) somavam (o que, quando e quanto produzir, o tamanho da área
cerca de 5,5 milhões de cabeças concentradas no a ser cultivada, etc.) são controladas pela indústria.
Sudeste (24,2%) e no Nordeste (22,8%). Os maiores
rebanhos de equinos encontram-se nos estados de Nos últimos anos, a participação do agronegócio
Minas Gerais (14%), Rio Grande do Sul (9,9%) e nas exportações brasileiras vem aumentando cada
Bahia (8,6%). vez mais, como se pode ver no gráfico abaixo.

O número de caprinos foi de 8,9 milhões em 2014, Brasil: exportações totais e do
concentrados principalmente na região Nordeste. agronegócio (em bilhões de dólares)
A Bahia é o estado brasileiro com o maior efetivo — 2005-2015
desta espécie (26,7%).
300
Quanto à avicultura, destacam-se os galináceos
(galinhas, galos, frangos, frangas) e as codornas, 250
concentrados principalmente nas regiões Sul e
Sudeste. 197,942 201,915

Hans Von Manteuffel/Pulsar Imagens 200 160,649 191,1
88,2
137,807 152,995

150 118,529

100 71,837 76,442 95,814 99,968 96,748
94,968
49,471 58,431 64,786
43,623
50

0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015

Total das exportações
Exportações do agronegócio

Adaptado de: MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. Estatísticas. Disponível em:
<www.agricultura.gov.br/internacional/indicadores-e-estatisticas/
balanca-comercial>. Acesso em: 11 abr. 2016.

Vaqueiro conduzindo cavalos em fazenda na ilha de Marajó O Brasil é um dos líderes mundiais na produção
(PA). Foto de 2015. e exportação de vários produtos agropecuários.
Entre os principais produtos do agronegócio expor-
O agronegócio no Brasil tados estão: complexo soja, complexo sucroalcooei-
ro, carnes, produtos florestais, café, fumo e seus
O agronegócio envolve vários setores, como a derivados, cereais, couro, suco de frutas, fibras e
agricultura de precisão e a biotecnologia, nos quais produtos têxteis e frutas em geral. Os países de des-
são empregados capitais nacionais e estrangeiros. tino de grandes quantidades desses produtos são
respectivamente China, União Europeia, Estados
Unidos, Rússia, Japão, Venezuela, Arábia Saudita,
Argentina, entre outros.

202 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Refletindo sobre o conteúdo

1. Analise os mapas a seguir. a) Comente os valores exportados entre 2003 e
Economia no século XVI 2013.

Amapá Equador Banco de imagens/Arquivo da editora b) Cite os cinco produtos mais exportados em 2013.
c) Em 2015, muitas notícias indicavam a queda dos
Roraima
0º preços das commodities em relação ao ano anterior
(2014). Relacione as commodities ao Brasil e tam-
Acre Amazonas Pará Meridiano deTordesilhas Maranhão CearáNatal bém aos gráficos anteriores.
Rondônia Piauí Filipeia
Mato Olinda 3. Geografia, História e Biologia Em dupla ou em
Grosso OCEANO grupo, faça a pesquisa abaixo.
Tocantins ATLÂNTICO
Vocês já ouviram falar no Matopiba? Sabem a que se
Bahia Salvador refere essa expressão? Observem atentamente o
mapa abaixo e busquem informações sobre a região
N São JoDrFge dos Ilhéus destacada em sites.

Goiás Santa Cruz Matopiba: proposta de delimitação territorial

OL Porto Seguro 45º O
N. Sra.MdinaasVGeitraóisria
Mato Grosso OCEANO
OCEANO do Sul Espírito Santo ATLÂNTICO
PACÍFICO São Sebastião
S
São PauSãloo do Rio de Janeiro

N. Sra. da Conceição de ItanhaémPaulo Santos Trópico de Capricórnio
São Vicente
Cananeia
N
Área de ocorrência

do pau-brasil Rio Grande

Pecuária do Sul

Cana-de-açúcar 0 960 1 920 km

Localização das usinas de álcool e açúcar no Brasil

50º O
Banco de imagens/Arquivo da editora
Amapá Equador Banco de imagens/Arquivo da editora
Roraima


Amazonas Pará
Rondônia
Maranhão Ceará

Acre Piauí

Tocantins

Mato Bahia OCEANO
Grosso ATLÂNTICO

DF Trópico de Capricórnio
Goiás

Minas Gerais

OCEANO N Mato Grosso
PACÍFICO OL do Sul

São
Paulo

N

S Rio Grande 0 960 1 920 km
do Sul
Usinas de álcool
Usinas de açúcar

Adaptado de: NÚCLEO INTERDISCIPLINAR DE PLANEJAMENTO 10º S
ESTRATÉGICO (Nipe). Disponível em: <www.oei.es/

divulgacioncientifica/reportajes_070.htm>. Acesso em: 7 abr. 2016.

• Elabore duas conclusões a partir da análise dos
mapas acima. Converse com os colegas sobre suas
conclusões.

2. Analise os gráficos abaixo e faça as atividades propostas. Limites estaduais (siglas) N
Brasil: exportações, agronégocio – produtos BA OL
MA
2003 2013 Arte Ação/Arquivo da editora PI S
1,6% (US$ 30,6 bi) (US$ 99,9 bi) TO 0 265
Matopiba: limite proposto
3,6% 16,5% 3,3% 10% 530 km
5% 7,3%
8% 52,5% 31%
9,1% 5,3%
13,7% 17,8% Adaptado de: EMBRAPA. Disponível em: <www.embrapa.br/>.
13,7% 9,6% Acesso em: 11 abr. 2016.
3% 16,8%
a) O que é a região do Matopiba? Caracterize essa
Complexo de soja Açúcar e etanol Fumo e região e cite por que ela é importante.
produtos
Produtos Couros e b) Quais estados a compõem?
florestais peleteria Cereais
c) Quais regiões geográficas participam dessa área?
Carnes Café Demais
d) Qual bioma predomina na região do Matopiba?
Adaptado de: MENTEN, José Otávio; ARAKAWA, Heitor Haselmman. As Cite duas características desse bioma.
perspectivas das commodities agrícolas no mercado globalizado. Disponível em:
e) Indique dois produtos agrícolas cultivados nessa
<http://pt.slideshare.net/AgriculturaSustentavel/as-perspectivas-das- região.
commodities-agrcolas-no-mercado-globalizado>. Acesso em: 26 ago. 2015.

O espaço agropecuário brasileiro C A P Í T U L O 1 6 203

capítulo 17

A estrutura fundiária no Brasil

Reprodução/Galeria de Gravuras, Museu de Artes de Dresden, Alemanha.
Ernesto Reghran/Pulsar Imagens
No passado, os engenhos de
cana-de-açúcar nas
capitanias hereditárias; na
atualidade, as grandes
propriedades que produzem
açúcar e álcool. Depois de
cinco séculos, essas
propriedades, que pertencem
a uma pequena parcela da
população, continuam
predominando na estrutura
fundiária brasileira. Acima,
Paisagem com engenho de
açúcar, de Zacharias
Wagener, cerca de 1634-1639.
Ao lado, usina de açúcar e
álcool em Florestópolis (PR),
em 2015.

Origem da estrutura Acesso à terra
fundiária brasileira
A primeira forma de acesso à terra no Brasil fo-
Denominamos estrutura fundiária a forma como ram as capitanias hereditárias, sistema de admi-
as propriedades rurais estão distribuídas segundo nistração territorial criado pelo rei de Portugal com
suas dimensões. o objetivo de colonizar o Brasil e evitar invasões
estrangeiras. Tinham esse nome porque podiam ser
A atual distribuição desigual de terras no Brasil transmitidas de pai para filho. A colônia foi dividida
é resultado do processo de ocupação do território e em quinze grandes lotes, que foram entregues a doze
das leis de acesso às propriedades agrárias. donatários. Veja o mapa na página ao lado.

204 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Brasil: capitanias hereditáriasMeridiano deTordesilhas A partir de 1822, Dom Pedro I determinou o fim
Banco de imagens/Arquivo da editora do sistema de doação e permitiu o regime de posse,
Equador 0º isto é, era dono da terra quem a ocupasse. Esse re-
gime perdurou até 1850, quando passou a vigorar a
MARANHÃO (1º- lote) Cap. da Ilha Lei de Terras, que tornava ilegal a posse e instituía
MARANHÃO (2º- lote) de São João (1504) a compra e venda de terras, concentrando novamen-
CEARÁ (Fernando de Noronha) te a estrutura fundiária no Brasil, uma vez que so-
mente podia adquirir terras quem tivesse dinheiro.
RIO GRANDE
A partir de 1850, foi regularizado o acesso à ter-
ITAMARACÁ OCEANO ra no Brasil e, mais tarde, sucederam várias tentati-
PERNAMBUCO ATLÂNTICO vas de efetuar uma reforma agrária.
BAHIA DETODOS-OS-SANTOS
Lei de Terras de 1850 e o Estatuto da Terra
ILHÉUS
Foi a Lei de Terras, promulgada em 18 de agosto
PORTO SEGURO de 1850, que praticamente instituiu a propriedade
privada da terra no Brasil. Ao determinar que as
ESPÍRITO SANTO terras públicas ou devolutas só poderiam ser adqui-
ridas por meio de compra, essa lei limitou o acesso
Trópico de Capricórnio SÃO TOMÉ à posse de terras a quem tivesse recursos para sa-
SÃO VICENTE (1º- lote) tisfazer essa condição.
SANTO AMARO
SÃO VICENTE (2º- lote) Com essa lei, imigrantes europeus recém-chega-
dos, negros libertos e pessoas sem recursos ficaram
SANTANA sem direito às terras livres, que foram compradas
por abastados proprietários rurais. Dessa forma, es-
0 415 830 km tes garantiram seus privilégios, tendo um grande
contingente de trabalhadores vindos dessas popu-
Terras pertencentes a Portugal lações menos favorecidas.

Terras pertencentes à Espanha Ao longo do tempo, essa desigual distribuição
de terras acabou gerando conflitos cada vez mais
Adaptado de: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. violentos e generalizados entre proprietários e não
São Paulo: Ática, 2007. proprietários. As décadas de 1950 e 1960 marca-
ram o surgimento de organizações que lutavam
Essas capitanias hereditárias, que inseriram o pelos direitos dos trabalhadores rurais. Entre elas,
Brasil no sistema colonial mercantilista, foram os podemos citar as Ligas Camponesas e a Confe-
primeiros latifúndios brasileiros. deração Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
(Contag).
Nas capitanias hereditárias, o donatário não era
o proprietário das terras, apenas podia usufruir dos Preocupados com o descontentamento social no
bens que dela podiam ser extraídos. Não podia campo, membros do regime militar (1964-1985) ela-
vendê-las, mas tinha o direito, concedido pela boraram um conjunto de leis para tentar controlar
Coroa, de doar grandes extensões, denominadas os trabalhadores rurais e acalmar os proprietários
sesmarias. de terras. Essa tentativa deu-se por meio de um pro-
jeto de reforma agrária para promover uma distri-
Na teoria, a doação das sesmarias deveria ser buição mais igualitária da terra, que resultou no
feita em caráter vitalício e não poderia ser transmi- Estatuto da Terra, cujos pontos principais veremos
tida a herdeiros. Na prática, porém, não foi o que a seguir.
aconteceu. Os donatários concediam as sesmarias
com direitos sucessórios, isto é, os descendentes Latifúndio: grande propriedade rural.
poderiam herdar as terras que englobavam a sesma- Devoluta: diz-se de terras não utilizadas para a agricultura, ou
ria. Isso acontecia porque a Coroa precisava de co- seja, terras ociosas.
lonos para povoar as novas terras.

Assim, até 1822, enquanto a propriedade da ter-
ra ainda era concedida pela Coroa por meio de doa-
ção de sesmarias, ficou garantido o predomínio das
grandes propriedades, introduzido com o sistema
de capitanias hereditárias.

A estrutura fundiária no Brasil C A P Í T U L O 1 7 205

Ampliando o conhecimento

Estatuto da Terra IV. Latifúndio:
Lei no 4 504, de 30 de novembro de 1964 a) Por dimensão. Propriedades com área superior

Os objetivos finais dessa lei eram a execução da a seiscentas vezes o módulo rural fixado para a região
reforma agrária e a promoção da política agrícola. onde se localiza.

Os principais pontos do Estatuto da Terra consistiam b) Por exploração. Propriedades que tenham área
em classificar os estabelecimentos rurais por sua “função menor do que o estabelecido, mas que esteja sendo
social”. mantida inexplorada ou deficientemente explorada, para
fins especulativos, não podendo ser considerada uma
1o A propriedade da terra desempenha integralmente empresa agrária.
a sua função social quando, simultaneamente:
V. Empresa rural. É o imóvel rural explorado econômica
a) favorece o bem-estar dos proprietários e dos e racionalmente por pessoa física, jurídica, pública e priva-
trabalhadores que nela labutam, assim como de suas da. Entre as atividades realizadas no estabelecimento estão
famílias; as áreas de cultura, reflorestamento, matas, pastagens e
benfeitorias, possui de 1 a 600 módulos rurais de área.
b) mantém níveis satisfatórios de produtividade;
c) assegura a conservação dos recursos naturais; VI. Módulo rural. É o modelo ou padrão que deve
d) observa as disposições legais que regulam as corresponder à propriedade familiar.
justas relações de trabalho entre os que a possuem e os
que a cultivam. A área do módulo rural vai depender das caracterís-
Foram considerados os seguintes tipos de estabele- ticas ecológicas e econômicas de onde está localizado.
cimentos rurais: É claro que as dimensões do módulo rural em áreas de
I. Imóvel rural. Área que se destina à exploração pecuária extensiva vão ser bem maiores do que em áreas
extrativa agrícola, pecuária ou agroindustrial, seja pela de policultura comercial.
iniciativa privada ou pública.
II. Propriedade familiar. O imóvel rural explorado pelo CÂMARA DOS DEPUTADOS. Disponível em: <www2.camara.
agricultor e sua família e que lhe garanta trabalho, leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4504-30-novembro-1964-
subsistência, com área máxima estabelecida por região.
III. Minifúndio. O imóvel rural de área e possibilidades 377628-norma-pl.html>. Acesso em: 7 abr. 2016.
inferiores às da propriedade familiar.
Módulo rural: unidade de medida expressa em hectares (1 ha
é igual a 10 mil m2), que busca exprimir a interdependência
entre a dimensão, a forma, a situação geográfica dos imóveis
rurais e o seu aproveitamento econômico1.

1 Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

A Constituição de 1988 e a reforma agrária Art. 185. São insuscetíveis de desapropriação
para fins de reforma agrária:
Utilizando o critério de módulo rural, a Cons-
tituição de 1988 estabeleceu novas especificações I – a pequena e média propriedade rural, assim
para a classificação e a desapropriação de terras para definida em lei, desde que seu proprietário não pos-
efeito de Reforma Agrária, ainda fundamentados na sua outra;
“função social da terra”.
II – a propriedade produtiva.
Art. 184. Compete à União desapropriar por in- Parágrafo único. A lei garantirá tratamento es-
teresse social, para fins de reforma agrária, o imó- pecial à propriedade produtiva e fixará normas
vel rural que não esteja cumprindo sua função so- para o cumprimento dos requisitos relativos a sua
cial, mediante prévia e justa indenização em títulos função social.
da dívida agrária, com cláusula de preservação do Art. 186. A função social é cumprida quando a
valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, propriedade rural atende, simultaneamente, segun-
a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja uti- do critérios e graus de exigência estabelecidos em
lização será definida em lei. lei, aos seguintes requisitos:
I – aproveitamento racional e adequado;
1º – As benfeitorias úteis e necessárias serão II – utilização adequada dos recursos naturais
indenizadas em dinheiro. disponíveis e preservação do meio ambiente;

[...]

206 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

III – observância das disposições que regulam João Ramid/Arquivo da editora Grande propriedade. O imóvel rural de área su-
as relações de trabalho; perior a quinze módulos fiscais.

IV – exploração que favoreça o bem-estar dos Mesmo com as resoluções da Constituição de
proprietários e dos trabalhadores. 1988, a reforma agrária no Brasil ocorreu em ritmo
muito vagaroso. As desapropriações eram sempre
[...] contestadas na justiça pelos proprietários de terras,
fazendo com que os processos se arrastassem por
José Sarney, presidente da República, Ulysses Guimarães, vários anos e impedindo o assentamento das famílias.
presidente da Assembleia Constituinte, e Humberto Lucena,
presidente do Senado, na promulgação da Constituição no Essa situação só foi solucionada a partir de 1996
Congresso Nacional, Brasília, em 1988. com a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Lei
do Rito Sumário de Desapropriação, uma lei que
Em 1993, durante o governo do presidente Itamar garantiu mais agilidade ao processo de desapropria-
Franco, a Lei n. 8 629 reafirmou que a terra tem de ção de terras. Com o Rito Sumário, a posse das terras
cumprir uma função social. Foram definidos novos desapropriadas passou a ser imediata.
conceitos referentes às dimensões e classificações
dos imóveis rurais. Com base no conceito de módu- Em contrapartida, uma nova lei que retardava o
lo rural foi utilizado o conceito de módulo fiscal. desenrolar da reforma agrária foi aprovada. Era a lei
que proibia a desapropriação de terras invadidas,
Segundo o Incra, vinculado ao Ministério do mesmo que elas fossem consideradas improdutivas.
Desenvolvimento Agrário, entende-se por módulo Em resumo, se os trabalhadores sem-terra invadis-
fiscal a unidade de medida expressa em hectares, sem uma propriedade, produtiva ou improdutiva,
fixada para cada região, considerando os seguintes automaticamente ela não seria mais desapropriada
fatores: pelo governo, fazendo com que permanecesse sob
controle do proprietário.
■■ tipo de exploração predominante no município;
■■ renda obtida com a exploração predominante; Também em 1996 foi estabelecida a possibilidade
■■ outras explorações existentes no município que, de viabilizar a reforma agrária por via fiscal, isto é,
aumentando o imposto territorial rural. Assim, quan-
embora não sejam predominantes, são signifi- to maior e mais improdutiva fosse a propriedade, mais
cativas em função da renda e da área utilizada; alto seria o imposto cobrado, e vice-versa.
■■ conceito de propriedade familiar.
O tamanho do módulo fiscal varia de região para Apesar de todas as medidas tomadas para viabi-
região por depender de alguns fatores, como as ca- lizar a reforma agrária no Brasil, o ritmo de desapro-
racterísticas do clima de cada área ou região. priações e de assentamentos ainda é bastante irre-
Ainda, segundo a Lei n. 8 629, definiu-se a clas- gular, apresentando altos e baixos em sua evolução.
sificação dos imóveis rurais quanto ao tamanho:
Minifúndio. O imóvel rural com área inferior a A concentração de terras
um módulo fiscal.
Pequena propriedade. O imóvel rural de área Como consequência desse longo histórico, mar-
compreendida entre um e quatro módulos fiscais. cado pelas desigualdades de acesso à terra, a estru-
Média propriedade. O imóvel rural de área su- tura fundiária brasileira é, até a atualidade, caracte-
perior a quatro e até quinze módulos fiscais. rizada pela alta concentração de terras.

O indicador que pode expressar melhor essa si-
tuação é o índice de Gini, utilizado também para
avaliar desigualdades sociais. O cálculo do índice
para concentração de terras considera as faixas de
tamanho das propriedades, com sua participação na
área total.

Segundo o Instituto de Colonização e Reforma
Agrária (Incra), o índice de Gini, que sinaliza a con-
centração de terras no Brasil é muito alto: 0,820 —
esse índice varia de 0 a 1; quanto mais próximo
de 1, maior a concentração fundiária.

A estrutura fundiária no Brasil C A P Í T U L O 1 7 207

A maior concentração de terras está na região Brasil: crescimento de grandes Arte Ação/Arquivo da editora
Nordeste e a menor, na região Sul. propriedades

O Nordeste, além da herança colonial, passou por Número de 2003 2010 2014
um processo de modernização agrícola que introdu- imóveis 112,4 mil 130,5 mil 135,7 mil
ziu a empresa rural de grandes propriedades, prin-
cipalmente de soja, com destaque para Maranhão, Milhões de 214,8 318,9 404
Piauí e oeste da Bahia. hectares

A menor desigualdade na região Sul está relacio- Área média por
nada à colonização europeia, que reproduziu o mo-
delo de pequenas propriedades de agricultura fami- imóvel (em mil
liar, principalmente na Serra Gaúcha e no oeste
catarinense.

hectares) 1,9 2,4 2,9

Gerson Gerloff/Pulsar Imagens Gráficos adaptados de: O GLOBO. Infográficos – elaborados com dados do
Sistema Nacional de Cadastro Rural, 9 jan. 2015. Disponível em:

<http://infograficos.oglobo.globo.com/brasil/a-concentracao-de-
terras-no-pais.html>. Acesso em: 11 abr. 2016.

Outro dado relevante está nas proporções dis-
crepantes das áreas ocupadas por grandes e peque-
nas propriedades: cerca de 130 mil grandes imóveis
rurais concentram 47,23% de toda a área cadastrada
no Incra, enquanto 3,75 milhões de minifúndios
(propriedades mínimas de terra) equivalem, soma-
dos, a apenas 10,2% da área total registrada.

Pequena propriedade rural no município de São Francisco de Thomaz Vita Neto/Pulsar Imagens
Paula (RS), em 2015.

Confirmando essa concentração, o mesmo Incra,
em seu Sistema Nacional de Cadastro Rural, revela
que, entre 2010 e 2014, seis milhões de hectares
passaram para as mãos dos grandes proprietários e
as grandes propriedades privadas saltaram de
238 milhões para 244 milhões de hectares.

Veja os gráficos a seguir.

Brasil: grandes propriedades de terra Arte Ação/Arquivo da editora

+ 2,5% Área média das grandes
propriedades privadas em 2014
em quatro

238 244,7 anos 1,8 mil hectares

milhões milhões Cerca de 18 mil km2
de hectares de hectares
ou

15 × Grande propriedade rural produtora de algodão no município
de Chapadão do Sul (RS), em 2014.
cidade do Rio
Como consequência da atual distribuição de ter-
2010 2014 ra, tem-se um grave quadro socioeconômico:

■■ Poucas propriedades rurais com 1 000 hectares
ou mais concentram mais de 50% da área total
do país. Geralmente, uma grande concentração

208 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

fundiária pode gerar terras ociosas e improdu- Ernesto Reghran/Pulsar Imagens
tivas, porque seus donos aguardam melhores
preços para arrendá-las ou vendê-las (concen-
tradas nas regiões Norte e Centro-Oeste).
■■ Diversas propriedades rurais são muito peque-
nas, inviabilizando, muitas vezes, o plantio de
algum produto. A despesa com sementes pode
ser maior que o montante obtido com a colheita.
■■ Êxodo rural como consequência da mecanização
em algumas grandes propriedades rurais no
Centro-Sul e entre os pequenos proprietários,
porque produzem pouco, ficando endividados e
sem capital para investir.
■■ Aumento do número de desempregados e su-
bempregados que migram para as periferias das
cidades, muitas vezes ocupando áreas de ma-
nanciais ou áreas de risco.
■■ E o fato mais grave: o aumento dos conflitos
sociais no campo.

Conflitos no campo Vista aérea de acampamento do MST no município de
Florestópolis (PR), em 2015.
Nos anos 1950, os trabalhadores rurais reinicia-
ram a organização de sindicatos, que tiveram sua enquanto os latifundiários consideram essa atitude
expressão máxima nas Ligas Camponesas. A mais um ato criminoso que fere o direito de propriedade.
famosa foi a Sociedade Agrícola de Plantadores e
Pecuaristas de Pernambuco, localizada no Engenho Esses diferentes pontos de vista têm causado
Galileia, em Vitória de Santo Antão. Essa associação violentos conflitos com baixas em ambos os lados,
resgatou o nome liga, termo utilizado na década de embora o número de trabalhadores rurais mortos
1930 e que havia caído em desuso. nesses embates seja bem maior que o de policiais
ou pistoleiros contratados por fazendeiros para de-
Nos anos 1960, a Liga Camponesa de Galileia fender suas terras.
foi duramente combatida pelo regime militar, o que
levou à extinção dessa e de todas as outras Ligas Nesse contexto de disputa pela posse de terras,
espalhadas por 13 estados brasileiros. destacam-se duas figuras frequentemente envolvi-
das nos conflitos: o posseiro e o grileiro.
Mais tarde, na década de 1970, no Rio Grande do
Sul, surgiram os primeiros movimentos dos traba- Posseiro. Indivíduo que tem a posse da terra e
lhadores rurais sem terra que acabaram por se es- nela trabalha sem, porém, possuir o título de pro-
palhar por outros estados e por reunir cada vez mais priedade.
um número maior de adeptos. Em 1984, foi criado
o movimento que tem por objetivo fazer uma refor- Grileiro. Pessoa que toma posse da terra de outros,
ma agrária rápida e justa: o Movimento dos Tra- usando para isso falsas escrituras de propriedade.
balhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Muitas vezes, grileiros que pretendem lucrar com
Como vimos, as últimas leis estabelecidas para a especulação imobiliária entram em choque com
implementar a reforma agrária são fundamentadas posseiros e famílias que ocupam a terra para produzir.
pelo conceito de “função social da terra”. Entretanto,
a interpretação do que é “função social” da terra é Mais de 50% dos conflitos no Brasil ocorrem nas
assimilada de modo diferente pelo governo, pelos regiões Nordeste e Norte. São regiões de grande
movimentos sociais camponeses e pelos proprietá- concentração de propriedades rurais e de imóveis
rios rurais. Os integrantes do MST argumentam que improdutivos, onde muitas vezes a polícia é mal
estão tomando posse de terras improdutivas, preparada e mal equipada, e os latifundiários im-
põem sua vontade às leis.

A estrutura fundiária no Brasil C A P Í T U L O 1 7 209

O desenrolar da luta pela posse de terras tem que geram o ciclo: êxodo rural–desemprego–vio-
se dado em torno de violência, assassinatos e lência.
conflitos no campo. Soma-se a esse quadro a
improdutividade de muitas propriedades rurais Veja, na tabela a seguir, os números dos conflitos
pela posse de terras ocorridos entre 2005 e 2014.

Brasil: conflitos no campo — 2005-2014

Conflitos por 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
terra

Ocorrências 777 761 615 459 528 638 805 816 763 793
de conflito

Ocupações/ 437 384 364 252 290 180 200 238 230 205
retomadas

Acampamentos 90 67 48 40 36 35 30 13 14 20

Total de 1 304 1 212 1 027 751 854 853 1 035 1 067 1 007 1 018
conflitos
11 487 072 5 051 348 8 420 063 6 568 755 15 116 590 13 312 343 14 410 626 13 181 570 6 228 667 8 134 241
Hectares
envolvidos

Fonte: PASTORAL DA TERRA. 30 anos de conflitos no campo 2014. Disponível em: <http://cptnacional.org.br/index.php/component/jdownloads/finish/43-conflitos-
no-campo-brasil-publicacao/2392-conflitos-no-campo-brasil-2014?Itemid=23>. Acesso em: 11 abr. 2016.

As relações de trabalho Hans Von Manteuffel/Opção Brasil Imagens periódicas têm aumentado o número de trabalhado-
res familiares que abandonam o campo e migram
no campo para as periferias das cidades, onde se tornam traba-
lhadores temporários. Uma exceção entre os traba-
Segundo a Pnad 2013, cerca de 19,8 milhões de lhadores familiares é encontrada nas áreas vizinhas
pessoas, o equivalente a 19,9% da população brasi- dos grandes centros urbanos (cinturões verdes). Em
leira, encontravam-se ocupadas com atividades agrí- geral, esses trabalhadores conseguem vender sua
colas, trabalhando na agricultura familiar e na produção para os centros de abastecimento, redes
agricultura patronal. As principais relações de tra- de supermercados, feiras livres e até para quem pas-
balho encontradas são: sa de carro ou caminhão pelas ruas das cidades.

Trabalho assalariado temporário. É a relação Arrendamento. Forma de utilização da terra des-
mais comum de trabalho na zona rural brasileira. O tinada ao cultivo ou à pastagem, que o proprietário
predomínio desse tipo de regime trabalhista é conse- arrenda (aluga) a quem tem capital para explorá-la.
quência do processo capitalista (capitalização da ati- É comum no interior de São Paulo um grande pro-
vidade agrícola) que, por um lado, aumenta a produ- prietário arrendar propriedades menores vizinhas
tividade rural (máquinas, irrigação, sementes selecio- para o cultivo da cana-de-açúcar.
nadas) e, por outro, dispensa o trabalhador residente
ou permanente (aumento do número de assalariados). Trabalhador assalariado temporário em colheita de cana-de-
-açúcar no município de Sirinhaem (PE), em 2014.
Houve no Brasil uma grande redução das moda-
lidades tradicionais de trabalhadores rurais (perma-
nentes, residentes, colonos e parceiros) e o aumento
de trabalhadores temporários sem vínculo empre-
gatício. Geralmente, eles recebem no fim do dia pelo
serviço prestado, trabalhando no plantio ou na co-
lheita de cana-de-açúcar, laranja ou café. Moram na
periferia das cidades onde os aluguéis são menores.
Recebem a denominação de peões na região Norte,
corumbás nas regiões Centro-Oeste e Nordeste e
boias-frias nas regiões Sul e Sudeste.

Trabalho familiar. Realizado geralmente nas pe-
quenas e médias propriedades rurais de subsistência.
A falta de capital para investir na lavoura e as secas

210 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Parceria. Forma de utilização da terra em que o Cris Faga/Fox Press/AE
proprietário dispõe de sua terra para um terceiro
(o parceiro) que a cultiva. Em troca, o parceiro en- Imigrantes bolivianos que fazem protesto contra o trabalho
trega ao proprietário parte de sua colheita. forçado no município de São Paulo (SP), em 2014.

Escravidão por dívida. Forma de trabalho na qual Trabalho infantil. Embora seja também proibido
a mão de obra é aliciada com falsas promessas. por lei, o trabalho infantil ainda é utilizado no Brasil.
Quando os trabalhadores percebem sua situação e Segundo dados divulgados pelo IBGE, na Pesquisa
tentam abandonar o trabalho, são ameaçados e aca- Nacional por Amostra de Domicílios 2015, o trabalho
bam aprisionados sob a vigilância de capangas ar- infantil no Brasil aumentou 4,5% entre 2013 e 2014.
mados a serviço do fazendeiro. Nesse último ano, existiam 3,3 milhões de crianças e
adolescentes de cinco a dezessete anos trabalhando
A Convenção nº 29 (de 1930) da Organização no Brasil. Desses, meio milhão tinha menos de treze
Internacional do Trabalho (OIT) define trabalho anos. A atividade que mais conta com trabalho infantil
forçado “todo trabalho ou serviço exigido de uma é a agricultura, que utiliza mão de obra de 62% desse
pessoa sob a ameaça de sanção e para o qual ela não contingente. A região que mais utiliza esse trabalho é
tiver se oferecido espontaneamente”. a região Norte, e a que menos usa é a região Sudeste.

Como vimos, no Brasil a legislação trabalhista
procura proteger o trabalhador. No entanto, esses
dispositivos não são suficientes para evitar o trabalho
escravo, principalmente na zona rural. A frágil fisca-
lização do Ministério do Trabalho e o tamanho de
nosso território, que dificultam essa fiscalização, são
fatores que podem explicar, em parte, essa situação.

Contexto e aplicação Geografia Não escreva
e História no livro

Construção, agricultura e pecuária têm a maior parcela foi identificada em Minas Gerais (364).
maior número de trabalhadores Outros 159 casos foram registrados em São Paulo, 141 em
resgatados Goiás, 123 no Rio de Janeiro e 117 no Piauí. O estado de
Minas recebeu 46 ações fiscais, o Pará teve 28, São Paulo
Segundo o Ministério do Trabalho, no ano passado e Maranhão, 21 cada, e Tocantins, 20. Entre os setores
1 600 pessoas foram encontradas em situação análoga de atividade, foram 60 ações na pecuária, 36 na
a de escravo. Minas Gerais teve o maior número de construção, 33 na indústria madeireira e 31 na agricultura.
casos. Incidência no setor urbano cresceu.
No corte por município, o maior número é de Macaé,
O balanço de 2014 das ações de combate ao trabalho com 118 casos na área de construção civil — a partir da
[...] mostra maior número de resgatados em estados do fiscalização em uma construtora. Em seguida, 86 traba-
Sudeste, em provável consequência do crescimento da lhadores foram resgatados na colheita de café em
fiscalização no setor urbano. De um total de 1 590 traba- Sooretama, no Espírito Santo, e 61 na coleta da palha de
lhadores em situação análoga à de escravo, 437 estavam carnaúba, em Picos, no Piauí, estado que registrou outras
no setor da construção civil, sendo 118 apenas em uma 52 ocorrências no mesmo setor na cidade de Parnaíba.
obra no município de Macaé (RJ). Outros 344 foram iden- Foram mais 55 resgates na criação de bovinos para corte
tificados na agricultura, 228 na pecuária, 201 na extração em Tarauacá (AC) e 52 na preparação e fiação de fibras
vegetal e 138 no carvão. Desde 1995, quando os grupos de algodão em Mineiro (GO).
móveis de fiscalização foram criados, o número de traba-
lhadores resgatados chega a 47 mil, em pouco mais de REDE BRASIL ATUAL, 28 jan. 2015. Disponível em:
1 700 operações feitas em quase 4 mil estabelecimentos. <www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2015/01/construcao-
agricultura-e-pecuaria-tem-maior-numero-de-trabalhadores-
[...]
Quase um quarto (24%) das ações fiscais foi reali- resgatados-183.html>. Acesso em: 7 abr. 2016.
zada em áreas urbanas. E nelas foram identificados
561 casos de trabalho escravo, 35% do total. Pesquise a situação de trabalho escravo atual-
Dos quase 1 600 trabalhadores resgatados em 2014, mente e compare com a que perdurou no Brasil
entre 1530 e 1888.

A estrutura fundiária no Brasil C A P Í T U L O 1 7 211

Diálogos Geografia,
História e Sociologia

A desigual estrutura fundiária brasileira em contexto

A descoberta da agricultura, há aproximadamente Crescente fértil Rio
12 mil anos, nas terras do Crescente Fértil foi responsável Jordão
pela fixação dos seres humanos à terra, pondo fim, gra- 35º L
dativamente, à vida nômade desses indivíduos caçado- Banco de imagens/Arquivo da editora
res-coletores. Karkemish Mar
Cáspio
O desenvolvimento de técnicas ao longo do tempo Halpa Rio Euf Nínive
permitiu a formação de comunidades, originando, pos- Assur 35º N
teriormente, os primeiros núcleos populacionais. Tais Hamat Rio Tigre
conhecimentos foram difundidos e aprimorados nos mi- rates
lênios seguintes, espalhando-se pelo continente europeu. Arad Kadesh

Contudo, o domínio dessas técnicas, inicialmente, Mar Damasco
quase gerou um colapso populacional nas terras do Sídon
“Velho Mundo”. Cientistas indicam que a população do Mediterrâneo
continente foi reduzida entre 30% e 60%. As causas
mais aceitáveis pelos pesquisadores para essa catástro- Tiro DESERTO
fe foram o desconhecimento sobre o uso do solo e as
doenças provocadas por pragas agrícolas, visto que a Jericó ARÁBICO Babilônia
agricultura consistia em técnicas ainda não totalmente Ur
compreendidas pelos seres humanos. Jerusalém
0 230 460 km Golfo
Cerca de 10 mil anos após esses acontecimentos, Mar Morto Pérsico
chegamos aos dias atuais. Com técnicas agrícolas mo-
dernas e o controle de grande parte das pragas por meio N
do avanço da ciência ao longo da história, a sociedade
rural enfrenta outros problemas e desafios; entre eles, a Crescente Fértil
disponibilidade e a distribuição de terras.
Adaptado de: VICENTINO, Cláudio. Atlas histórico: geral & Brasil. São Paulo:
Durante o domínio português na América, foi esta- Scipione, 2012. p. 70.
belecida a monocultura de exportação em latifúndios.
Após a Primeira Revolução Industrial, esse sistema tor- mãos de grandes latifundiários (totalizando 244 milhões
nou-se obsoleto; todavia, a concentração de de hectares), representando um aumento na concentra-
terras nas mãos de poucos indivíduos ainda ção de terras de, pelo menos, 2,5%.
resiste no Brasil.
Para melhor análise da atual estrutura fundiária bra-
Mesmo o Brasil sendo a quinta maior na- sileira e do reflexo dessa estrutura na população do cam-
ção em extensão territorial, com mais de po, utiliza-se, comumente, o índice de Gini das estruturas
8,5 milhões de km2, com grande potencial fundiárias, o que possibilita a medição do grau de con-
agrícola, a reforma agrária ainda é assunto de centração de atributos (renda e terra).
pauta. Isso se deve ao fato de o Brasil possuir
uma organização fundiária retrógrada, além O Nordeste é a região brasileira mais preocupante. A
de uma grande quantidade de terras impro- concentração de terras e outros problemas regionais
dutivas, alcançando 40% das propriedades potencializam as disparidades sociais no campo.
rurais, segundo o Incra.
Jarbas Oliveira/Folhapress
Ainda de acordo com o Incra, entre 2010
e 2014, 6 milhões de hectares foram parar nas

Assentamento Boa
Esperança no município de
Iracema (CE), em 2014.

212 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Brasil: evolução da concentração de terra medida pelos imóveis – 2003-2010

Classificação dos Número 2003 Percentual Número 2010 Percentual Crescimento
imóveis (imóveis) Área (ha.) do total (imóveis) Área (ha.) do total da área por

setor
2003-2010

Minifúndio 2 736 052 38 973 371 9,3% 3 318 077 46 684 657 8,2% 19,7%

Pequena 1 142 937 74 195 134 17,7% 1 338 300 88 789 805 15,5% 19,7%
propriedade

Média 297 220 88 100 414 21,1% 380 584 113 879 540 19,9% 29,3%
propriedade

Grande 112 463 214 843 865 51,3% 130 515 318 904 739 55,8% 48,4%
propriedade

a) Improdutiva 58 331 133 774 802 31,9% 69 233 228 508 510 40% 71,0%

b) Produtiva 54 132 81 069 063 19,4% 61 282 90 396 229 15,8% 11,5%

Total Brasil 4 290 482 418 456 641 100% 5 181 645 571 740 919 100% 36,6%

Fonte: MOVIMENTO HUMANOS DIREITOS. Disponível em: <www.humanosdireitos.org/noticias/denuncias/
19-Evolucao-da-Concentracao-da-Propriedade-da-Terra-no-Brasil.htm>. Acesso em: 25 maio 2016.

O Brasil demonstra uma das estruturas fundiárias
mais desiguais do mundo. Segundo os dados do último
Censo Agropecuário, em 2006, revelado pelo IBGE, o
país registra 0,854 pontos (1 representa a máxima de-
sigualdade). O Nordeste lidera a estatística negativa-
mente, estando no estado de Alagoas o maior índice de
desigualdade, com 0,871.

O domínio agrícola ao longo da história foi fundamen-
tal para a constituição da sociedade moderna. Entretanto,
o acesso à terra no Brasil é desigual. A existência de la-
tifúndios aumenta as disparidades sociais, provocando
o deslocamento humano por questões de sobrevivência,
semelhante ao vivido por nossos ancestrais antes do
domínio das técnicas agrícolas.
João Urban/Olhar Imagem Brasil: índice de Gini da área total de
Banco de imagens/Arquivo da editoraestabelecimentos agropecuários, por
município — 2006

50º O

Boa Vista OCEANO

RR AP ATLÂNTICO

0º Macapá Equador

Manaus Belém São Luís

Fortaleza

AM PA MA CE
MT Teresina
Palmas RN Natal
TO PI
AC PB João
Rio Branco Pessoa

Porto PE Recife
Velho
SE AL Maceió
RO Aracaju

BA

N Salvador

N Cuiabá DF
GO Brasília
L L MS
O Goiânia
S Campo
OCEANO Grande MG
PACÍFICO
O Belo ES
Horizonte Vitória
S

SP
RJ

êndice de GINI (%) São Paulo Rio de JaneiroTrópico de Capricórnio
Até 0,500 PR
0,501 a 0,650
Curitiba
0,0651 a 0,730
70 SC
0,731 a 0,850 Florianópolis
0,851 a 0,982
Área edificada RS
Porto Alegre

0 600 1 200 km

Adaptado de: IBGE. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/estatistica/
economia/agropecuaria/censoagro/brasil_2006/tab_brasil/cart2.pdf>.

Acesso em: 11 abr. 2016.

1. Qual é a relação entre o domínio da agricultura e a
formação de agrupamentos humanos?

2. Qual é a origem dos latifúndios no território brasileiro?

3. Por que a concentração fundiária é um tema que gera
debates sobre as disparidades sociais?

A concentração fundiária é uma das causas do êxodo rural.
Esse problema está presente no Brasil desde seu período
colonial. Foto de família que migrou do campo para a cidade
de Maringá (PR), em 1975.

A estrutura fundiária no Brasil C A P Í T U L O 1 7 213

Refletindo sobre o conteúdo

1. Relacione a Lei de Terras à atual estrutura fundiária distribuição fundiária segundo os estratos de área, o
brasileira. quadro se altera. Basta considerar que esse montante
corresponde a 70% das terras ocupadas pelos estabe-
2. Geografia e Língua Portuguesa Leia o poema a lecimentos com até 10 hectares ou, se preferirmos, pela
seguir e responda às questões propostas sobre o área de 47,9% dos 5 175 489 estabelecimentos identi-
campo brasileiro. ficados pelo Censo Agropecuário 2006.

Mulheres boia-fria Aqui se faz necessário desmistificar o que considera-
Mulheres simples do campo mos um falso debate, pois a estrangeirização das terras
com suas mãos calejadas, não pode ser tomada como um problema em si mesmo,
da voz, nasce um triste canto como se a ameaça à terra de trabalho fosse um elemen-
nas mãos, a conhecida enxada to exógeno à realidade local. Nada menos exato. O que
nos motiva a chamar a atenção para esse fato é que ele
Levanta de madrugada é portador da usurpação das terras que deveriam perten-
pisa descalça no orvalho... cer a quem nelas trabalha.
amola a sua enxada
e segue firme no trabalho. Em outras palavras, é a apropriação do bem essencial
à reprodução camponesa que está no cerne do problema,
Tem fome, já meio-dia embora não seja menos verdadeiro que a estrangeiriza-
pega a sua boia-fria ção contém um elemento a mais: o risco à soberania
somente arroz e feijão territorial dos respectivos países.

A essas guerreiras do campo PAULINO, Eliane T.; ALMEIDA, Rosimeire A. de.
que com a luz dos pirilampos, Terra e território: a questão camponesa no capitalismo.
tens a minha gratidão. São Paulo: Expressão Popular, 2010. p. 72-73. Coleção

HUGO, Antonio. Disponível em: Geografia em movimento. (Adaptado.)
<http://sitedepoesias.com/poesias/13300>.
a) Explique duas características da estrutura fun-
Acesso em: 7 abr. 2016. diária brasileira.

a) Identifique e explique o problema social ineren- b) O que as autoras quiseram salientar quando afir-
te à agricultura brasileira que foi abordado no maram “[…] das terras que deveriam pertencer a
poema. quem nelas trabalha”?

b) Elabore uma dissertação, em seu caderno, expli- c) Qual é a ideia central do texto?
cando como a histórica concentração de terras no
Brasil se reflete na atual situação dos trabalhado- 4. Leia o trecho abaixo, depois faça o que se pede.
res rurais, conhecidos como boias-frias.
A realidade atual do agronegócio brasileiro é uma
Para elaborar essa argumentação, pesquise, em grande ilusão e contradição, porque reflete a associação
livros, revistas ou na internet, informações que do grande capital agroindustrial (e financeiro) com a
o auxiliem a formar sua opinião sobre o assunto grande propriedade fundiária. A conclusão é que faltam
e, ao mesmo tempo, a basear seus argumentos. políticas concretas em relação à questão agrária.

3. Leia o texto a seguir e responda às questões. JUNIOR, João Cleps. Questão agrária, estado e
territórios em disputa: os enfoques sobre o agronegócio
[…] Segundo a Organização das Nações Unidas para
a Agricultura e Alimentação (FAO), nos últimos três anos e a natureza dos conflitos no campo brasileiro.
foram transferidos a estrangeiros cerca de 20 milhões de In: SAQUET, M. A.; SANTOS, R. A. (Org.).
hectares somente na África.
Geografia agrária, território e desenvolvimento.
Igual processo tem se verificado no México, no São Paulo: Expressão Popular, 2010. p. 51.
Paraguai, na Colômbia e no Brasil, onde, de acordo com
o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, • Você concorda com o que afirma o autor do texto?
há 5,5 milhões de terras tituladas a não brasileiros. Isso Justifique.
poderia ser pouco, se consideradas as dimensões
continentais do Brasil; contudo, quando se observa a Não escreva
no livro

214 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

capítulo 18

Recursos minerais do Brasil

1
Rogério Reis/Pulsar Imagens
Douglas Magno/OTempo/ Futura PressA exploração mineral2
pode trazer a riqueza e
o desenvolvimento
socioeconômico para as
regiões exploradas. Por
outro lado, também
pode causar graves
impactos ambientais,
prejuízos
socioeconômicos e
riscos à vida de quem
habita próximo às áreas
de exploração. Na
imagem 1, mineração
em Mariana (MG), em
2009. Na imagem 2,
destruição do distrito
de Bento Rodrigues, em
Mariana (MG), após o
rompimento da
barragem do Fundão,
em 2015.

Recursos minerais do Brasil C A P Í T U L O 1 8 215

O setor mineral no Brasil Arte Ação/Arquivo da editora Brasil: evolução da produção mineral — 2014 Arte Ação/Arquivo da editora

O setor mineral brasileiro, que envolve duas im- Valores* em US$ bilh›es 60
portantes atividades — a indústria extrativa mineral 53
e a indústria de transformação mineral — ocupa uma
posição de destaque na economia do país. 50 48
44
Veja na figura a seguir, os valores movimentados
pelos recursos minerais brasileiros (excluindo as 40 39 40 38
fontes de energia).
30 28
Influência dos bens minerais na 24
economia nacional – 2014
20 17 19
13

10

0
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015 **

Recursos minerais * Valores da indústria extrativa mineral. Não inclui petróleo e gás.
brasileiros ** Estimativa

Indústria minas, Adaptado de: INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO (IBRAM).
extrativa garimpos, Produção mineral brasileira 2014. Disponível em: <www.ibram.org.br/>.
pedreiras, etc.
Acesso em: 11 abr. 2016.
Produto da indústria
extrativa mineral Essa oscilação se reflete na participação desse
USS 80,2 bilhões setor na balança comercial, em cuja pauta as
commodities minerais ocupam alguns dos primei-
ros lugares. Veja nos gráficos a seguir essa partici-
pação e os principais produtos minerais de expor-
tação no Brasil.

Indústria de siderurgia, Comparativo de saldos do setor Arte Ação/Arquivo da editora
transformação metalurgia,
refino, etc. mineral µ Brasil

Produto da indústria de Reciclagem, 35 000 32 502
transformação mineral: recuperação 30 000
doméstica de Valores em milhões de US$ 25 000 30 065
metais, cimento, sucata: alumínio, 20 000
químicos, fertilizantes, chumbo, cobre, 15 000 26 358
zinco, estanho, etc. 10 000
etc. 19 395
USS 94,2 bilhões 5 000
0
2 286
-5 000
Produto Interno Bruto -4 036
(PIB)
2012 2013 2014
USS 2 004,5 bilhões
Saldo setor mineral Saldo Brasil
Adaptado de: DEPARTAMENTO NACIONAL DE PRODUÇÃO MINERAL.
Sumário Mineral 2015, p. 4. Disponível em: <www.dnpm.gov.br/dnpm/ Adaptado de: INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO (IBRAM).
sumarios/sumario-mineral-2015>. Acesso em: 11 abr. 2016. Produção mineral brasileira 2014. Disponível em: <www.ibram.org.br/

A produção mineral brasileira tem oscilado bas- sites/1300/1382/00005481.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2016.
tante por causa das crises econômicas mundiais, que
diminuem a demanda e reduzem os preços dos pro- Composição das exportações do Arte Ação/Arquivo da editora
dutos no mercado internacional. O setor também setor mineral — 2014
sofre outros sérios problemas, como os insuficientes
estudos e prospecção da riqueza do subsolo, a ne- Alumínio 0,9% Manganês 0,8% Pedras Naturais 0,7%
cessidade de investimentos estrangeiros, as altas Cobre 6,1% Outros 3,8%
alíquotas de tributação e as dificuldades de infraes-
trutura e de logística para o escoamento da produ- Ferro 87,7%
ção. Veja o gráfico a seguir.
Adaptado de: DEPARTAMENTO NACIONAL DE PRODUÇÃO MINERAL.
Sumário Mineral 2014, p. 10. Disponível em: <www.dnpm.gov.br/dnpm/
sumarios/sumario-mineral-2014>. Acesso em: 11 abr. 2016.

216 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Embora apresente muitos problemas no setor, o itens essenciais para a economia. Observe essa si-
Brasil é um dos maiores produtores de minérios do tuação no quadro a seguir.
mundo e importante player mundial.
Player: palavra inglesa que significa ‘jogador’ e designa os
No seu papel de player no setor mineral, o país países participantes em qualquer setor da economia mundial.
exerce também a função de importador de alguns

Produção de minerais: posição do Brasil — 2015

Exportador Exportador Autossuficiente Importador/ Dependência
(Global Player) Produtor externa

Nióbio (1º) Estanho Calcário Cobre Carvão metalúrgico
Minério de ferro (3º)
Níquel Diamante industrial Enxofre Potássio
Vermiculita (3º)
Magnesita Titânio Terras Raras
Grafite (3º)
Bauxita (3º) Manganês
Caulim (5º)
Cromo Tungstênio Fostato
Ouro Talco Diatomito
Rochas ornamentais
Zinco

Minerais estratégicos
para a balança

comercial brasileira

Fonte: INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO (IBRAM). Informações e análises da economia mineral brasileira 2015.
Disponível em: <www.ibram.org.br/sites/1300/1382/00005836.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2016.

Investimentos e empresas contemplam um grande número de minérios, sen-
mineradoras do 63% desse montante aplicado na exploração e
na logística do minério de ferro. Veja no mapa a
O setor da mineração é um dos que mais rece- seguir como esses investimentos são distribuídos
bem investimentos privados. Esses investimentos pelo país.

Banco de Imagens/Arquivo da editora Brasil: principais investimentos do setor mineral, por estado — 2012 a 2016
(US$ 75 bilhões)*

AM - US$ 2.666.401,65 (3,56%) 55º O PA - US$ 18.129.592,04 (24,17%)
Potássio Alumínio, Bauxita, Manganês, Cobre, Ferro, Níquel e Ouro

Equador MA - US$ 1.713.284,26 (2,28%) 0º
Logística e Ouro

CE - US$ 2.464.294,12 (3,29%)
Fosfato e Urânio

RN - US$ 387. 840,24 (0,52%)
Ferro

OCEANO
ATLÂNTICO

AL - US$ 121.200,08 (0,16%)
Cobre

SE - US$ 5.763.736,91 (7,68%)
Potássio

TO - US$ 96.960,06 (0,13%)
Fosfato e Ouro

OCEANO MT - US$ 621.513,99 (0,83%) BA - US$ 6.535.216,11 (8,71%) Adaptado de: INSTITUTO
PACÍFICO Calcário, Zinco e Ouro Ferro, Ouro, Vanádio, Níquel e Cromo BRASILEIRO DE
MINERAÇÃO (IBRAM).
Trópico de Capricórnio MS - US$ 1.939.201,20 (2,59%) MG - US$ 26.160.139,73 (34,88%) Produção mineral brasileira
Ferro e Logística Bauxita, Alumina, Ferro, Fosfato, Ouro e Logística 2014. Disponível em:
<www.ibram.org.br/>.
ES - US$ 2.776.936,12 (3,70%) Acesso em: 11 abr. 2016.
Ferro e Logística
* O montante dos
RJ - US$ 1.939.201,20 (2,59%) investimentos é estimado
Logística em um período de cinco
anos.
GO - US$ 242.400,15 (0,32%) SC - US$ 145.440,09 (0,19%) N
Cobre e Níquel Carvão OL

0 475 950 km S

Recursos minerais do Brasil C A P Í T U L O 1 8 217

Banco de Imagens/Arquivo da editoraA maior companhia mineradora que atua no Expedição de minério de ferro em mina no município de São
Nereu Jr/FotoarenaBrasil é a Vale (antiga Companhia Vale do Rio DoceGonçalo do Rio Abaixo (MG), em 2015.
— CVRD), estatal fundada em 1942 e privatizada em
1997. Além de capitais públicos e privados nacionais, Outras empresas importantes no setor mineral são
a Vale conta com a participação de várias empresas a Votorantim Metais (grupo Votorantim), empresa
estrangeiras e possui empreendimentos em explo- brasileira com presença nos setores minerais de alu-
ração de minérios de ferro e de manganês, alumínio, mínio e níquel, e na siderurgia; a Companhia Brasileira
ouro, cobre, potássio e caulim. A Vale também está de Metalurgia e Mineração (CBMM), com foco na
presente nos setores de energia, siderurgia e trans- exploração de nióbio; a AUX Canadá Acquisition, que
portes (ferrovias e portos), além de atuar em outros atua na extração de ouro; o Grupo Telequartz de
países. Entretanto, desde 2002, a Vale tem concen- Companhias de Minério, líder mundial na exportação
trado seus negócios na mineração. A empresa produz de cristais de rocha e quartzo; a Alumina do Norte do
minério de ferro e pelotas, minério de manganês e Brasil S. A. (Alunorte), que atua na extração da bauxi-
ferroligas, níquel, cobre, carvão térmico e metalúrgi- ta e na fabricação do alumínio, entre outras.
co, fosfatos, potássio, cobalto e metais do grupo da
platina (PGMs), estando presente em 27 países.

A empresa destaca-se também na pelotização e
na comercialização do minério de ferro. Nessas ati-
vidades, suas subsidiárias têm papel importante e
há uma grande porcentagem de participação de
capital japonês, italiano e espanhol.

Caulim: mineral argiloso branco, utilizado na indústria de papel, Recursos minerais
cerâmica, cimento, etc.
Pelotização: processo realizado através de tratamento térmico No conjunto, o Brasil possui uma grande varieda-
para aglomeração de partículas ultrafinas de minério de ferro, de e quantidade de minerais, como podemos consta-
resultando em “pelotas” utilizadas na fabricação do aço. tar no mapa abaixo e no gráfico da próxima página.
Subsidiária: empresa controlada por outra, a qual detém o total
ou a maioria de suas ações.

Brasil: principais regiões com depósitos minerais — 2014

Presidente Figueiredo (AM) 55º O
Estanho

Equador Paragominas (PA) 0º
Alumínio
Rondônia (RO)
Estanho Carajás (PA)
Ferro, Ouro, Cobre, Níquel e Manganês

OCEANO
ATLÂNTICO

Principais minerais Itaituba (PA) Alagoas (AL) N Adaptado de: INSTITUTO
Ouro Cobre BRASILEIRO DE
Cobre Urucum (MS) MINERAÇÃO (IBRAM).
Ouro Manganês e Ferro Sergipe (SE) Produção mineral brasileira
Alumínio Sais de Potássio 2014. Disponível em:
Estanho Goiás (GO) <www.ibram.org.br/>.
Ferro-Manganês Cobre, Níquel e Ouro Bahia (BA) Acesso em: 11 abr. 2016.
Grafita Trópico de Capricórnio Bauxita, Ferro, Vanádio,
Caulim Agregados, Níquel e Cromo
Níquel Araxá (MG)
Carvão Nióbio Pedra Azul/Salto da Divisa (MG)
Agregados Grafita
Castro (PR) Governador Valadares (MG)
Talco Gemas

Rio Grande do Sul (RS) Espírito Santo (ES)
Ametista e Agregados Rochas Ornamentais

Quadrilátero Ferrífero (MG)
Ferro, Ouro, Manganês e Bauxita

Rio de Janeiro (RJ)
Agregados
São Paulo (SP)
Agregados

OL

Criciúma (SC) 0 490 980 km
Carvão
S

218 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Agora observe o gráfico. los setores agrícola, industrial, de transportes e de
bens de consumo. Os principais minerais metálicos
Brasil: participação e posição no ranking Arte Ação/Arquivo da editora encontrados no Brasil são o minério de ferro, a bau-
mundial de reservas minerais — 2014 xita, o manganês, a cassiterita, o ouro, o nióbio, a
prata e o cobre. Esse tipo de mineral está associado
Reservas mundiais 17,4 50,0 98,2 às estruturas geológicas antigas ou aos escudos
14,7 33,8 100 cristalinos.
1o Nióbio
18,5 40 60 80 O Brasil possui 36% de sua superfície constituída
Grafita natural 18,3 Participação mundial (%) por escudos cristalinos, mas os minerais metálicos
Tântalo 10,1 estão presentes somente em cerca de 4% desses ter-
9,2 renos, que se formaram no Éon Proterozoico, onde
2o Terras raras 9,2 predominam rochas ígneas e metamórficas.
14,0
Níquel 13,8 Minério de ferro
Barita 11,9
Manganês 20 O Brasil possui a segunda maior reserva mun-
dial de minério de ferro, que tem grande demanda
3o Vermiculita no mercado internacional porque é a matéria-
-prima básica do aço (liga) utilizado nas estrutu-
Estanho ras de indústrias, edifícios, hotéis, estádios, aero-
Alumínio portos, pontes, shopping centers, além de inúme-
Magnesita ros outros usos.

4o Talco e Pirofilita O ferro é, portanto, nosso mineral com maior
volume de produção e principal produto de expor-
Ferro tação nesse setor.
0
As maiores e principais reservas de minério de
Adaptado de: DEPARTAMENTO NACIONAL DE PRODUÇÃO MINERAL. ferro do país estão localizadas nos estados de Minas
Sumário Mineral 2015, p. 3. Disponível em: <www.dnpm.gov.br/dnpm/ Gerais (Quadrilátero Ferrífero) e Pará (serra dos
sumarios/sumario-mineral-2015>. Acesso em: 11 abr. 2016. Carajás). Outra área que se destaca é o maciço do
Urucum, em Mato Grosso do Sul. No entanto, é pou-
Dentro da grande riqueza mineral do Brasil, os co viável para a exploração porque se encontra dis-
minerais metálicos e não metálicos são considera- tante dos centros consumidores.
dos os mais importantes.

Minerais metálicos

São recursos naturais não renováveis utilizados
na produção de metais que serão aproveitados pe-

Ricardo Azoury/Pulsar Imagens
Ricardo Azoury/Pulsar Imagens

Acima, ferro fundido na caldeira.
À direita, resfriamento de lingote
de aço. Fotos da Companhia
Siderúrgica Nacional, em Volta
Redonda (RJ), em 2013.

Recursos minerais do Brasil C A P Í T U L O 1 8 219

Minas Gerais – Quadrilátero Ferrífero ou Quadrilátero Ferrífero Allmaps/Arquivo da editora
Quadrilátero Central
45º O BA
Localizado entre os municípios de Belo Horizonte,
Mariana, Santa Bárbara e Congonhas do Campo, o DF
Quadrilátero Ferrífero é responsável por aproxima- Brasília
damente 70% da produção nacional; de 60% a 70%
do minério de ferro produzido nessa área é destina- GO Ri
do à exportação.
MG
A parte do minério de ferro não exportada é o das Velhas
utilizada nos complexos siderúrgicos da região Belo
Sudeste — na Companhia Siderúrgica Nacional Horizonte Santa Bárbara OCEANO
(CSN), em Volta Redonda (RJ); na antiga Com- Mariana ES ATLÂNTICO
panhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), em Cubatão Rio
(SP); na Usiminas, em Minas Gerais, e na Compa-
nhia Siderúrgica Tubarão (CST), no Espírito Santo. Paraopeba

A Vale é a maior responsável pela exploração e Vitória 0 170 km
logística de transporte e exportação no Quadrilátero
Ferrífero. O minério de ferro exportado é transpor- Congonhas RJ Ferrovia Vitória-Minas
tado pela estrada de ferro Vitória-Minas, pertencen- SP do Campo Rio de Janeiro Ferrovia Centro-Atlântica
te à Vale, que liga o Quadrilátero ao porto de Tubarão, Quadrilátero Ferrífero
no Espírito Santo, onde está o terminal de Praia Trópico de Capricórnio
Mole, e aos terminais de Vila Velha e Cais do Paul,
no porto de Vitória. Adaptado de: LOBATO et alii. Projeto Geologia do
Quadrilátero Ferrífero – Integração e Cartografia em SIG, 2005.
A estrada de ferro Centro-Atlântica liga o Qua- Disponível em: <www.codemig.com.br/site/content/parcerias/
drilátero ao porto de Sepetiba, no Rio de Janeiro,
onde estão os terminais da Minerações Brasileiras mapa_geologico.pdf>. Acesso em: 26 fev. 2013.
Reunidas (MBR), e ao terminal da Sepetiba Tecon,
pertencente à Vale, situada em Itaguaí. O Terminal da Ilha Guaíba l, que começou a
operar em 1973 no estado do Rio de Janeiro, está
conectado à ferrovia MRS e recebe minério do sul
do estado de Minas Gerais. Conectado à ferrovia
MRS, com participação da Vale, esse terminal é
uma das principais áreas privativas para a movi-
mentação do minério de ferro proveniente do sul
de Minas Gerais.

Trem transportando minério
de ferro em Rio Piracicaba
(MG). Foto de 2014.

Renata Mello/Pulsar Imagens João Prudente/Pulsar Imagens

220 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil Navio para transporte de
minério de ferro no
Terminal da ilha Guaíba,
no município de Itaguaí
(RJ). Foto de 2014.

Pará – Serra dos Carajás a área de exploração até o litoral e um terminal ma-
rítimo para a exportação do minério.
Localizada no sudoeste do estado, possui a maior
reserva mundial de minério de ferro e é a segunda Inaugurada em 1984, a usina de Tucuruí localiza-
maior área produtora do país. -se no rio Tocantins e fornece energia para a área de
mineração na serra dos Carajás.
Além do ferro, a região possui reservas de man-
ganês, zinco, níquel, cobre, ouro, prata, bauxita, cro- A produção é transportada pela estrada de ferro
mo, estanho, tungstênio e urânio. Essa rica área Carajás, pertencente à Vale, que é também a princi-
mineral tem cerca de 900 000 km2, abrangendo pal empresa mineradora que atua na área. Inau-
terras do sudoeste do Pará, norte do Tocantins e gurada em 1985, essa ferrovia tem 890 km de ex-
oeste do Maranhão. Veja o mapa abaixo. tensão e liga a serra dos Carajás ao porto de Itaqui,
na Ponta da Madeira, em São Luís, Maranhão. Além
Toda essa região encontra-se na área do Projeto de transportar minério, representa uma opção de
Grande Carajás, desenvolvido pelo governo militar transporte de passageiros entre os estados do Pará
entre o final da década de 1970 e início da década e do Maranhão.
de 1980, com a finalidade de produzir minério de
ferro para exportação. Atualmente, há alguns projetos importantes em
curso na região, como o Projeto Rio Doce-Manganês,
Para dar suporte ao projeto, foram construídas Projeto Igarapé-Bahia (ouro e cobre), Projeto Salobo
uma usina hidrelétrica, uma estrada de ferro que liga
(cobre), Projeto Serra
Allmaps/Arquivo da editora Área do Projeto Grande Carajás Sul (ferro) e Projeto Serra
do Sossego (cobre).
Equador AMAPÁ
Macapá 0º

Belém OCEANO
ATLÂNTICO

Santarém Altamira São Luís Área do Projeto Grande Carajás
Transamazônica (BR-230) Área das jazidas minerais e mineração
Represa MARANHÃO Rodovias
de Tucuruí Imperatriz Capitais de estados
Cidades
Rodovia Cuiabá-SantarémPARÁ Marabá Ferrovia Carajás-Itaqui

Xambioá Tocantinópolis (BR-230) PIAUÍ Adaptado de: Ci•ncia Hoje,
Transamazônica n. 239, jul. 2007, p. 32.
iaRio Aragua
Rio Tocantin s
Conceição do
Araguaia 0 80 160 km

50º O

Salviano Machado/Arquivo Ag. Vale

Vista de parte do
complexo minerador de
Carajás em Curionópolis
(PA). Foto de 2014.

221

A indústria siderúrgica Bruno Magalhães/Nitro Imagens

Em usinas denominadas integra-
das, o processo de fabricação do aço
envolve a transformação do minério
de ferro em produtos siderúrgicos
acabados e semiacabados.

As principais siderúrgicas brasi-
leiras são a Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN), a Companhia Side-
rúrgica do Atlântico e a Votorantim
Siderurgia, no estado do Rio de Ja-
neiro; a antiga Companhia Siderúr-
gica Paulista (Cosipa), no estado de
São Paulo; a Usiminas, a Acesita e a
Belgo-Mineira, no estado de Minas
Gerais; e a ArcelorMittal Tubarão, no
estado do Espírito Santo.

Trabalhador em fábrica de
aços planos no município de
Ipatinga (MG). Foto de 2013.

Leitura e reflexão Não escreva
no livro

Liberação de arsênio de mineradora de Por ano, são retiradas e processadas cerca de 60
Paracatu, MG, é tema de audiência milhões de toneladas da mineradora. O geólogo Márcio
José dos Santos, que mora em Paracatu há 26 anos,
Moradores reclamam de contaminação causada por contou que o problema está no arsênio, que é liberado
exploração do ouro [...] durante este processo. Para se chegar a 1 grama de ouro,
são liberados até 7 quilos de arsênio, que é altamente
Moradores de Paracatu, no noroeste de Minas, estão tóxico.
preocupados com uma possível contaminação por causa
da exploração do ouro na cidade. Segundo eles, muita [...]
gente tem adoecido por causa do arsênio, um metal
pesado liberado no processo de mineração. VIEIRA, Fernanda. G1­Triângulo mineiro, 24 abr. 2015.
Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/
[...]
Há 20 anos uma mesma empresa explora a mine­ triangulo-mineiro/noticia/2015/04/liberacao-de-
ração e a economia acaba girando nas rochas da cidade arsenio-de-mineradora-de-paracatu-mg-e-tema-
do ouro, como é conhecida, por contar com a maior mina
do mundo a céu aberto. Em 2007, a empresa iniciou um de-audiencia.html>. Acesso em: 11 abr. 2016.
projeto para elevar a capacidade de produção da mina.
Com a possibilidade de expansão, a mineradora criou Agora responda às questões propostas.
mais espaço para a exploração de ouro. O problema é
que, o que ficava a quilômetros de distância praticamente 1. Qual é a preocupação dos moradores de Paracatu,
chegou aos quintais das casas de um bairro na periferia em Minas Gerais?
da cidade. Todos os dias, segundo os moradores, por
volta das 15h há a detonação de minério. Além do 2. A exploração do ouro tem importância para a
barulho, segundo eles, o vento leva poeira e algumas economia do lugar, mas está trazendo muitos
casas não estariam resistindo à trepidação do solo. problemas para os moradores. Comente o que
[...] está acontecendo.

3. Cite alguns impactos ambientais provocados pela
exploração do ouro que afetam os habitantes de
Paracatu.

222 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Minério de manganês Evelson de Freitas/Estadão Conteúdo/AE

Assim como o minério de ferro, o manganês é

um dos elementos básicos para a produção do aço,

ou seja, é de fundamental importância para a indús-

tria siderúrgica.

Segundo o Ibram, “é o quarto metal mais utili-

zado do mundo, depois do ferro, do alumínio e do

cobre e está presente em nosso dia a dia, como no

aço utilizado em carros e na construção civil. Por

isso, cerca de 90% de todo manganês consumido

anualmente vai para siderúrgicas como elemento

de liga”. O manganês é muito utilizado também na

fabricação de pilhas e até de remédios, na composi-

ção de vitaminas, por exemplo.

As reservas brasileiras de manganês ocupam o

terceiro lugar entre os maiores detentores mun- Vista de usina de secagem de bauxita em Oriximiná (PA). Foto

diais. O estado de Minas Gerais é o maior produtor de 2013.

brasileiro. A Companhia de Mineração Rio do Norte

Bauxita (minério de alumínio) (CMRN) é a principal empresa exploradora mineral
da bauxita e também a maior produtora mundial

O Brasil detém a terceira maior reserva mundial particular desse minério. Sua maior acionista é a

desse mineral. Vale, além de outras empresas transnacionais.

Da bauxita é extraído o alumínio, metal impor- A usina hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins,

tante para a fabricação de carros, aviões, portas, no Pará, fornece energia elétrica para a transformação

janelas, panelas, etc. Além disso, é um grande do minério da bauxita em alumínio. A grande quan-

condutor de eletricidade e anticorrosivo. tidade de bauxita, aliada ao fornecimento de energia

A principal e maior jazida nacional encontra-se elétrica por Tucuruí, gerou o Projeto Albras-Alunorte

no vale do rio Trombetas, afluente do rio Amazonas, (veja o mapa abaixo). Controlado por grupos privados

em Oriximiná, no Pará. A maioria da bauxita extraí- nacionais e internacionais, esse projeto de produção

da no Brasil é exportada para o Canadá e a menor do alumínio, desenvolvido em Barcarena (PA), visa

parcela é destinada ao mercado interno. abastecer o mercado externo.

O grupo norte-americano Alcoa é ma-

Projeto Albras-AlunorteAllmaps/Arquivo da editora joritário na composição acionária do
Projeto Alumar, no Maranhão, que apre-
Rio Tocantins
N 0 220 440 km 50º O senta características semelhantes ao

OL Projeto Albras-Alunorte.

OCEANO

S ATLÂNTICO Cassiterita
AP
RR Do minério da cassiterita é extraído o
estanho, utilizado pelos segmentos: in-
Equador Barcarena 0º dústria siderúrgica para fabricação de
folhas de flandres; indústria de embala-
AM Porto Trombetas Ilha de Belém gens de alimentos e bebidas; indústria de
Marajó soldas; e indústria química.
CMRN Oriximiná
Alenquer
Monte Alegre
Alunorte
Santarém
Albras

PA

Hidrelétrica MA

de Tucuruí

Adaptado de: ALUNORTE. Disponível em: <www.hydro.com/pt/ Folha de flandres: material laminado, composto
aluminio/a-hydro-no-brasil/>.Acesso em: 19 fev. 2013. de ferro e aço de baixo teor de carbono, revestido
Mapa sem data na fonte original. com estanho e com alta resistência à corrosão.

Recursos minerais do Brasil C A P Í T U L O 1 8 223

O Brasil é a segunda maior reserva mundial de produzida em Minas Gerais, próximo dos municí-
cassiterita. As reservas brasileiras concentram-se na pios de Araxá e Tapira (75%). Outros estados produ-
região amazônica: Província Mineral do Mapuera tores são Amazonas (21%) e Goiás (3%).
(mina do Pitinga), no Amazonas e na Província
Estanífera de Rondônia (Bom Futuro, Santa Bárbara, O país também fornece o principal produto indus-
Massangana e Cachoeirinha). trializado ligado a esse mineral: o ferro-nióbio, utili-
zado em superligas na indústria aeroespacial, em
O estado do Amazonas se destaca como o prin- reatores nucleares e em condutores de eletricidade.
cipal produtor nacional (60%), seguido do estado de
Rondônia (40%). Grande parte das empresas mine- Thomaz Vita Neto/Pulsar Imagens
radoras de cassiterita está sediada na cidade de
Ariquemes (RO), onde já se desenvolvem fundidoras
de lingote de estanho tanto para o mercado interno
como para o externo.

Os maiores consumidores no mercado interno e
externo de estanho são, respectivamente, São Paulo
e Estados Unidos.

Outros minerais

Outros minerais são explorados em nosso terri-
tório. Entre eles, podemos citar:

Ouro Extração de nióbio em mineradora no município de
Araxá (MG). Foto de 2014.
O Brasil tem a sexta reserva mundial de ouro e
os principais produtores são os estados de Minas A parte que não é utilizada internamente é ex-
Gerais, Goiás, Bahia e Pará. portada para Holanda, China, Estados Unidos,
Japão, Coreia do Sul e Cingapura. O Brasil produz
No mercado interno, o ouro é utilizado no mer- ainda, em escala comercial, níquel, cobre, chumbo,
cado de ativos financeiros, na indústria metalúrgica, tungstênio, entre outros minerais metálicos.
nas joalherias, em tratamento dentário, entre outras
aplicações. Rodolfo Oliveira/Ag. Par‡

Depois do minério de ferro, o ouro é o segundo
mais importante mineral brasileiro de exportação.
Os países que importam ouro do Brasil são: Reino
Unido, Suíça, Emirados Árabes, Estados Unidos e
Canadá.

Ni—bio Cabos de cobre produzidos em fábrica no município de
Barcarena (PA). Foto de 2016.
É um metal utilizado na composição de ligas
metálicas, empregadas na fabricação de fios super-
condutores e turbinas de aviões. É usado também
em tomógrafos de ressonância magnética, na in-
dústria aeroespacial, bélica e nuclear, além de ou-
tras inúmeras aplicações como lentes ópticas, lâm-
padas de alta intensidade, bens eletrônicos e até
piercings.

O Brasil é detentor das maiores reservas (98%) e
responsável por grande parte da produção mundial
desse mineral. A maior parte do nióbio brasileiro é

224 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Minerais não metálicos Outro mineral encontrado em grandes quantida-
des no país é o fosfato, cuja produção nacional esta-
Assim são chamados os minerais cujo principal va em sexto lugar entre os maiores produtores. O
componente não é um metal. Têm diversas utilizações fosfato é explorado em Minas Gerais, Goiás e São
e aplicações, por exemplo, material de construção Paulo. Esse mineral, utilizado principalmente na in-
(calcário), na indústria química (potássio e fosfato) e dústria de fertilizantes, tem suas maiores reservas
na indústria alimentícia (sal de cozinha e água). mundiais no Marrocos.

Nossos principais recursos minerais não metáli- O Brasil ocupava o oitavo lugar entre os maiores
cos são caulim, calcário, fosfato, potássio, sal de co- produtores mundiais de sal de cozinha e os estados
zinha e alguns minerais radioativos. do Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Rio de
Janeiro são os maiores produtores nacionais. O por-
Canindé Soares/Futura Press to de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, é o
principal terminal exportador de sal do Brasil.

O potássio, também utilizado em fertilizantes, é
explorado em Sergipe, na região Taquari/Vassouras.

Entre os minerais radioativos, o Brasil explora,
entre outros, urânio e tório, ambos usados na pro-
dução de energia nuclear. O Brasil, 12º maior pro-
dutor de urânio, explora esse mineral na Bahia e no
Ceará. Há também reservas no Amazonas e no Pará.
O tório, também escasso, é encontrado principal-
mente no Espírito Santo e no Rio de Janeiro.

Alf Ribeiro/Pulsar Imagens

Exploração de sal marinho em Areia Branca (RN). Cloreto de potássio depositado em fábrica de fertilizantes em
Foto de 2014. Sumaré (SP). Foto de 2014.

Conforme estatísticas do Ibram 2010, estes eram Recursos minerais do Brasil C A P Í T U L O 1 8 225
os números disponíveis sobre esses minerais: o
Brasil era o sexto produtor mundial de caulim, uti-
lizado nas indústrias de porcelana, cerâmica, papel,
borracha, fertilizantes, plásticos e pesticidas. As
maiores reservas se encontravam nos estados do
Pará, Amazonas e Amapá.

O calcário é uma rocha sedimentar constituída
principalmente de carbonato de cálcio. É usado na
fabricação de cimento, cal, vidro e também como
mármore (processo de metamorfismo). No Brasil, o
calcário é encontrado em abundância e os maiores
produtores são os estados de Mato Grosso do Sul,
Minas Gerais e Bahia (bacia do rio São Francisco).

Refletindo sobre o conteúdo

1. Leia o trecho abaixo, depois faça o que se pede. 3. Minas Gerais sempre desempenhou um importante
papel na história econômica brasileira: o ouro e o mi-
Os estoques de manganês no subsolo parecem ter nério de ferro, explorados em diferentes fases, teste-
sido exauridos. Mas o município pode ter outras jazidas munham essa grande importância.
ainda não exploradas, de ouro e ferro, por exemplo. Esses a) Relacione o minério de ferro mineiro à instalação
minérios já são extraídos em Pedra Branca do Amapari, da indústria de base no Brasil.
cidade vizinha. b) Qual é a principal área de extração do minério
de ferro?
NATIONAL Geographic. c) Caracterize o peso que esse minério tem nas ex-
São Paulo: Abril, fev. 2011. p. 25. (Adaptado.) portações brasileiras.

a) Indique um produto que utiliza o manganês em 4. Observe a imagem a seguir.
sua composição.
Apollo 15 vista de módulo lunar, 1971.
b) Identifique dois estados brasileiros onde esse mi-
nério é extraído e suas respectivas regiões geo- • Relacione o nióbio ao Brasil e à imagem anterior.
gráficas.

2. Leia a estrofe abaixo, depois faça o que se pede.
IV / ITABIRA

Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.
Na cidade toda de ferro
As ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Parte IV do poema Lanterna mágica. In: ANDRADE,
Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro:

Nova Aguilar, 2003. p. 68.

• Elabore um texto dissertativo sobre o impacto so-
cioambiental causado pela mineração, tendo como
inspiração o trecho do poema de Carlos Drummond
de Andrade.
Banco de imagens/Arquivo da editora
JSC PAO WebTeam/NASA
5. Geografia, Hist—ria e Qu’mica Observe atentamente o mapa, depois faça o que se pede. Não escreva
Brasil: recursos minerais no livro

55º O a) Identifique três estados brasilei-
ros e suas respectivas regiões
Equador
0º geográficas que apresentem re-
OCEANO servas de ouro em seu território.
ATLÂNTICO
b) Cite dois objetos que contenham
ouro em sua composição.

MINERAIS MINERAIS c) Identifique três estados e suas
METÁLICOS NÃO METÁLICOS
respectivas regiões geográficas
AMIANTO — amt
ALUMÍNIO — Al CALCÁRIO — ca que apresentem minério de ferro
(BAUXITA)

CHUMBO — Pb

OCEANO COBRE — Cu DIAMANTE — di em seu território.
PACÍFICO FOSFATO — P d) Cite dois objetos que contenham
Trópico de Capricórnio ESTANHO — Sn QUARTZO — qz
(CASSITERITA) SAL MARINHO
N
FERRO — Fe
OL
MANGANÊS — Mn MINERAIS minério de ferro em sua compo-
S NIÓBIO — Nb ENERGÉTICOS sição.
NÍQUEL — Ni
CARVÃO — cv

OURO — Au PETRÓLEO E GÁS — PG

TITÂNIO —Ti TÓRIO —Th

TUNGSTÊNIO — W URÂNIO — U

0 645 1290 km ZINCO — Zn XISTO BETUMINOSO Adaptado de: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas.
TERRAS RARAS —TR

34. ed. São Paulo: Ática, 2013. p. 117.

226 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

capítulo 19

Oferta interna de energia:
combustíveis fósseis

Renata Mello/Pulsar Imagens

A fonte de energia mais utilizada no Brasil ainda é o petróleo, mas o país vem investindo na busca de energias alternativas que
provoquem menos impactos ao meio ambiente. Na imagem, navio-plataforma flutuante de produção ancorado em Angra dos Reis
(RJ). Foto de 2014.

Oferta interna de energia nucleares e termelétricas. Nesses centros são pro-
no Brasil
duzidas as fontes de energia secundária: nafta,
De uma maneira simples podemos entender a
Oferta Interna de Energia (OIE) como toda a energia óleo diesel, gasolina, coque de Nafta: matéria-
necessária para movimentar a economia do país. carvão mineral, eletricidade e -prima básica

Essa oferta reúne fontes de energia primária, se- outras. As fontes secundárias para toda a
cundária, renovável e não renovável. também podem passar por cen- cadeia de
tros de transformação e ser con- produção das
Denominamos fontes de energia primária aque- resinas plásticas.
las obtidas diretamente da natureza, como petró-
leo, carvão mineral, gás natural, lenha e energia vertidas em outras formas de É um subproduto
hidráulica. Essas fontes são utilizadas principal- energia secundária, como a naf- do petróleo.
mente nos chamados centros de transformação, ta, obtida do petróleo e conver- Coque:
como refinarias de petróleo, usinas hidrelétricas, combustível

tida em gás canalizado. obtido da queima
A oferta de energia primária do carvão em
recipiente

no Brasil conta com fontes reno- hermeticamente
váveis e não renováveis. fechado.

Oferta interna de energia: combustíveis fósseis C A P Í T U L O 1 9 227

As fontes renováveis são aquelas que podem ser A participação marcante da energia hidráulica e
de biomassa na matriz energética brasileira propor-
aproveitadas indefinidamente, como a biomassa de ciona indicadores de emissões de CO2 bem menores
do que a média mundial e dos países desenvolvidos.
cana-de-açúcar, a hidráulica, a eletricidade, a lenha e Veja o gráfico a seguir.

o carvão vegetal, a energia solar, a energia eólica, etc.

As fontes de energia não renováveis são as cons-

tituídas pelos recursos que existem em quantidade Arte Ação/Arquivo da editora
Arte Ação/Arquivo da editora
limitada no planeta e que vão um dia esgotar-se. É Brasil: emissões de CO2 por fonte — 2014

o caso do petróleo e seus derivados, do gás natural,

do carvão mineral, do urânio e do xisto betuminoso. (em %)
80
Conforme a Resenha energética brasileira, em
70 68,7
2014, da oferta de energia interna no país 39,4% 67,6 Emiss‹o total
(em milhões tCO2)
eram obtidos das fontes renová- 60
2013: 460,7
veis. Essa proporção é uma das Matriz 50
2014: 485,8
mais elevadas do mundo, fazen- energética: termo
do a matriz energŽtica brasilei- empregado para 40
ra muito superior à média glo- indicar as
principais fontes 30

bal, que era de 14% no mesmo de energia de um 20 16,8 17,7 14,5 14,7
ano. Observe o gráfico abaixo. determinado lugar.

10

Matriz energética por fonte — 2014 0 Gás Carvão
Óleo 2013 2014

Mundo 14% 86%

OCDE 10% 90% Adaptado de: MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Resenha energética
brasileira 2015. Disponível em: <www.mme.gov.br/documents/
Brasil 39,4% 60,6%
1138787/1732840/Resenha+Energ%C3%A9tica+-+Brasil+2015.pdf/
4e6b9a34-6b2e-48fa -9ef8-dc7008470bf2>. Acesso em: 18 abr. 2016.

0% 20% 40% 60% 80% 100%

Renováveis Não renováveis Consumo final de energia
120,5 Mtep 185,1 Mtep
no Brasil
Solar 0,0% Urânio 2,2%
Eólica 0,9% Outras 7,4% Denominamos consumo final a energia utilizada
Gás industrial 0,9% pelas pessoas, pelas empresas e pelos diversos se-
Óleos vegetais tores da economia.
2,2% Carvão 9,5%
Conforme divulgado no Balanço energético na-
Lenha e Etanol e Gás natural Petróleo cional, em 2014 o consumo final energético de todas
carvão bagaço 22,4% 65,0% as fontes de energia representou 94% do consumo
vegetal 39,9% final total. Esse valor era referente ao consumo da
20,5% energia que faz as indústrias e as casas funcionarem,
Hidrelétrica por exemplo. Os outros 6% das fontes de energia
29,1% foram consumidos em outras atividades que não o
fornecimento de energia para os diversos setores da
OCDE: sigla de identificação dos países que compõem a sociedade. É o caso de fontes de energia utilizadas
Organização de Cooperação e Desenvolvimento como matéria-prima, por exemplo derivados de pe-
Econômico. tróleo que são usados para produzir asfalto, plástico,
Mtep: unidade de medida de energia que significa ‘Milhões borracha sintética, etc.
de toneladas equivalentes de petróleo’.
Em 2014, o setor industrial foi o que mais utilizou
Adaptado de: MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Empresa de Pesquisa energia (32,9%), seguido pelo de transportes (32%).
Energética. Balanço energético nacional 2015. Disponível em: <https://ben.epe. E a fonte energética mais consumida, no mesmo ano,
foram as derivadas do petróleo, como podemos ver
gov.br/downloads/S%C3%ADntese%20do%20Relat%C3%B3rio%20 no gráfico da próxima página.
Final_2015_Web.pdf>; MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA.

Resenha energética brasileira 2015. Disponível em: <www.mme.gov.br.
documents/1138787/1732840/Resenha+Energ%C3%A9tica+-+Brasil+2015.

pdf/4e6b9a34-6b2e-48fa -9ef8-dc7008470bf2>. Acesso em: 18 abr. 2016.

228 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Brasil: consumo final de energia Arte Ação/Arquivo da editora Combustíveis fósseis
por fonte — 2014
Neste capítulo, estudaremos os três principais
Outras fontes combustíveis fósseis utilizados no Brasil: petróleo,
17,1% gás natural e carvão mineral.

Lix’via 2% Derivados Petróleo
do petróleo
Etanol 5,1% O petróleo forma-se em estruturas sedimentares.
Lenha 6,3% 34,4%
Apesar de 64% da superfície brasileira ser formada
Gás natural 7,1% Eletricidade 17,2%
por terrenos sedimentares, o Brasil não possui re-
Bagaço de cana 10,8%
servas de grandes jazidas de petróleo em sua parte

Lixívia: resíduo industrial. continental. A maioria das reservas nacionais loca-

liza-se na plataforma continental.

Adaptado de: MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Empresa de Pesquisa Segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP),
Energética. Balanço energético nacional 2015. Disponível em: <https://ben.epe.
em 2014 as reservas totais brasileiras de petróleo
gov.br/downloads/S%C3%ADntese%20do%20Relat%C3%B3rio%20
Final_2015_Web.pdf>. Acesso em: 18 abr. 2016. alcançaram 31,1 bilhões de barris e ocuparam a

15a posição mundial. As três maiores reservas en-

O Brasil não é autossuficiente e precisa importar contravam-se na Venezuela, na Arábia Saudita e no
fontes de energia para atender às suas necessida-
des. Entretanto, com o aumento da produção inter- Canadá, respectivamente.
na, principalmente do petróleo, o montante dessas
importações tem diminuído. Entre os maiores produtores mundiais de petró-

Essa diferença entre a demanda interna de ener- leo, o Brasil ocupou a 13a posição, ultrapassando a
gia (inclusive perdas de transformação, distribuição
e armazenagem) e a produção interna é denomina- marca de 2 346 milhões de bar-
da dependência externa.
ris diários em 2014. Nesse ano, Plataforma
Segundo o Ministério de Minas e Energia, de os três maiores produtores continental:
2013 para 2014, o Brasil reduziu a sua dependência mundiais de petróleo foram, porção do relevo
externa de energia. Esse resultado foi decorrente, respectivamente, Estados Uni- submarino que se
sobretudo, do forte aumento da produção de petró- dos, Arábia Saudita e Rússia. inicia na linha da
leo. Assim, a dependência externa de energia cor- costa como uma
respondeu a 12,7% da demanda total de energia do No Brasil, o estado do Rio continuação do
país. litoral, com até

de Janeiro sozinho concentra- 200 metros de
va quase 82,4% das reservas profundidade.
provadas offshore e 81,9% das Reserva offshore:
reservas provadas totais na- reserva localizada
cionais. no oceano; fora do
continente.

Classificação das reservas de petróleo, e de engenharia, se estima recuperar comercialmente,
segundo a Agência Nacional de com condições econômicas, métodos operacionais e
Petróleo (ANP) regulamentação governamental definidos.

Reservas Desenvolvidas: quantidade de petróleo Reservas Prováveis: são reservas de petróleo e gás
ou gás natural que se espera produzir a partir dos poços natural cuja recuperação é menos provável que a das
já perfurados e com os equipamentos necessários em reservas provadas, mas de maior certeza em relação à
funcionamento. das reservas possíveis.

Reservas Possíveis: são reservas de petróleo e gás Reserva Total: é a soma das reservas provadas,
natural cuja análise dos dados geológicos e de engenharia prováveis e possíveis.
indica uma maior incerteza na sua recuperação quando
comparada com a estimativa de reservas prováveis. MINISTÉRIO DE MINAS E
ENERGIA (MMA). Anuário estatístico brasileiro
Reservas Provadas: são reservas de petróleo e gás do petróleo, gás natural e biocombustíveis 2015.
natural que, com base na análise de dados geológicos Disponível em: <www.anp.gov.br/?dw=78135>.

Acesso em: 12 abr. 2016. (Adaptado.)

Oferta interna de energia: combustíveis fósseis C A P Í T U L O 1 9 229

Veja no gráfico a seguir a localização das princi- O pré-sal KazuhikoYoshikawa/Arquivo da editora
pais reservas de petróleo brasileiras.
Banco de Imagens/Arquivo da editora
Distribuição das reservas provadas de
petróleo por estados — 31 dez. 2014

Volume de reservas provadas:
16,184 bilhões de barris

Rio de Janeiro leito do oceano cerca de 2 km
81,9%

Outros 6,2% Espírito Santo 8,2% camada pós-sal
São Paulo 3,7%
Outros1 0,1%
Ceará 0,3% Rio Grande
Amazonas 0,5% do Norte 2,1%

Sergipe 1,6%

Bahia 1,6% de 7 km a 8 km

1 Inclui Alagoas e Maranhão. camada
pré-sal sal
Adaptado de: AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E
BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Anuário estatístico brasileiro do petróleo,
gás natural e biocombustíveis 2015. Disponível em: <www.anp.gov.
br/?pg=76798>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Em 2014, cerca de 96,2% da produção brasileira gás
de petróleo era offshore; ou seja, a extração era feita
em alto-mar, no oceano Atlântico. petróleo

O pré-sal Adaptado de: FOLHA DE S.PAULO. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/
folha/dinheiro/ult91u440468.shtml>. Acesso em: 1o mar. 2013.
As últimas prospecções e descobertas no mar
territorial brasileiro abrem perspectivas para o fu- Esse reservatório de petróleo e gás natural esten-
turo da produção brasileira de petróleo. Trata-se de-se pelo litoral brasileiro, numa extensão de
da camada de sal que pode dobrar as atuais reser- 800 km, do Espírito Santo até Santa Catarina.
vas do Brasil. É chamada de pré-sal porque está
localizada entre 5 mil e 7 mil metros abaixo do ní- A primeira extração de petróleo do pré-sal foi
vel do mar, sob uma camada de 2 mil metros de sal. realizada em 2 de setembro de 2008, no campo
Jubarte, na bacia de Campos.
A origem desse depósito está ligada à deriva
dos continentes e à formação do Atlântico sul, na
separação entre América do Sul e África. Observe
o esquema da página 231 e entenda como se for-
mou o pré-sal.

230 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

O grande desafio, porém, são o capital e a Localização do pré-sal Allmaps/Arquivo da editora
tecnologia necessários para a exploração em
grande escala. Outro problema crucial é ultra- 45º O
passar a camada de sal para chegar até o depó-
sito de petróleo. Essa camada se movimenta N Vitória
continuamente e pode fechar o poço recém-
-aberto e, assim, prender a coluna de perfuração. OL ES
Além disso, há a intensa pressão da água sobre Jubarte
os equipamentos. S RJ Rio de
Janeiro Roncador
Marlim
Enchova
IA DE CAMPOS
Trópico de Capricórnio São Paulo

SP

Adaptado de: FOLHA DE S.PAULO. Disponível PR Tupi BAC 260 km
em: <www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ Curitiba BACIA DE SANT0OS
ult91u440468.shtml>; PETROBRAS. 130
Disponível em: <www.petrobras.com.br/pt>. SC
Acesso em: 1o mar. 2013. Campos de exploração Reservatório de pré-sal
Blocos de pré-sal

Como se formou o pré-sal Alex Argozino/Arquivo da editora

Há 130 milhões de anos, África e América do Sul
estavam unidas e começaram a se afastar, formando
lagoas de água doce.

África
América

Lagoa 130 milhões de anos atrás
Ao longo de milhões de anos, essas lagoas acumularam
matéria orgânica da decomposição de organismos vivos.

Mar 97 milhões de anos atrás
Sedimentos Os continentes se afastaram, e as
orgânicos águas salgadas do oceano
invadiram as lagoas, depositando
Oceano sal sobre a matéria orgânica.

Hoje
Sal O sal depositado ao longo de muito

tempo formou uma espessa camada,
sob a qual está o petróleo, formado
a partir dos sedimentos orgânicos.

Petróleo

Adaptado de: FOLHA DE S.PAULO. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/utl91u440468.shtml>;
PETROBRAS. Disponível em: <www.petrobras.com.br/pt>. Acesso em: 1o mar. 2013

Oferta interna de energia: combustíveis fósseis C A P Í T U L O 1 9 231

Outra visão Não escreva
no livro

O pré-sal e os vilões do clima do Canadá, no Ártico, no Iraque, no Golfo do México e no
Casaquistão. Além disso, também consta na lista a pro­
Quem são os vilões mundiais do clima? Aqueles dução de gás natural na África e no Mar Cáspio.
projetos que, apesar do alerta da comunidade científica
global, pretendem levar adiante a exploração de combus­ De acordo com o estudo, esses novos projetos vão
tíveis fósseis como petróleo, carvão e gás — maiores acrescentar um total de 300 bilhões de toneladas de
responsáveis pelas emissões de gases do efeito estufa? novas emissões de CO2 para a atmosfera até 2050, a
partir da extração, produção e queima de 49 bilhões de
Relatório lançado hoje pelo Greenpeace Internacional toneladas de carvão, 29 trilhões de metros cúbicos de
dá nome aos suspeitos. Chamado “Caminho sem volta” gás natural e 260 bilhões de barris de petróleo.
(tradução livre do inglês “Point of no Return”), o
documento identifica os 14 maiores projetos de energias No Brasil, o setor de transportes é o maior emissor de
sujas planejados para as próximas décadas. CO2 fóssil. Mesmo assim, o país ainda não possui padrões
de eficiência energética, ao contrário de Estados Unidos,
O Brasil aparece na nona colocação com a exploração China e União Europeia. “Se os regulamentos sobre a
do pré­sal, óleo descoberto nas camadas profundas do eficiência de combustível fossem melhorados e fontes
oceano e que vai contribuir com a emissão de 330 mi­ alternativas de energia limpa fossem desenvolvidas no
lhões de toneladas de CO2 por ano até 2020. Brasil e no mundo, a demanda por petróleo poderia ser
drasticamente reduzida, eliminando a necessidade de
“Com um potencial abundante de geração renovável, embarcar no caminho perigoso da exploração do pré­sal”,
como eólica, solar e de biomassa, o Brasil perde a chance afirma Baitelo. [...]
de inovar e se posicionar como uma das economias mais
sustentáveis e limpas do planeta”, disse Ricardo Baitelo, GREENPEACE. Disponível em: <www.greenpeace.org/
da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil. brasil/pt/Noticias/O-pre- sal-e-os-viloes-do-clima/>.
“Infelizmente, o governo investe uma enormidade de
recursos em uma exploração arriscada do ponto de vista Acesso em: 12 abr. 2016. (Adaptado.)
técnico e altamente danosa para o clima.”
Agora faça as atividades propostas.
Entre os maiores projetos de energias sujas listados
no relatório estão a enorme expansão da exploração de 1. Por que a exploração da camada do pré-sal é con-
carvão na China, a grande expansão das exportações de siderada um vilão do clima?
carvão da Austrália, Estados Unidos e Indonésia, e a explo­
ração não convencional de petróleo nas areias betuminosas 2. Identifique dois projetos considerados geradores
de energias sujas — um em uma nação populosa
e outro em um local desabitado.

Refino e transporte de Petróleo (GLP). Entre os derivados não energéti-
cos estão a nafta, o coque, o asfalto e os solventes.
A maior parte do refino do petróleo no Brasil é
feita nas refinarias da Petrobras. Segundo o Anuário As unidades industriais da Petrobras se comple-
estatístico 2014, dessas refinarias, treze pertenciam tam com duas fábricas de fertilizantes nitrogenados
à Petrobras e responderam por 98,2% da capacidade (Fafen), localizadas em Laranjeiras, Sergipe, e em
total, com destaque para a Refinaria de Paulínia — Camaçari, Bahia.
Replan (SP) e para a Refinaria Landulpho Alves, no
município de São Francisco do Conde (BA), que re- Quanto à capacidade de refino, em 2014, o Brasil
presentaram 34,5% da capacidade de refino do país. alcançou o 8o lugar no ranking mundial, com 2,2 mi-
lhões de barris de petróleo.
Em 2014, o país possuía dezessete unidades de
capacidade de refino, das quais treze pertenciam à Para realizar o transporte do petróleo e do gás
Petrobras e quatro, à iniciativa privada. Veja no mapa natural, por meio de navios, oleodutos e gasodutos,
da página 233 a localização de cada uma delas. a Petrobras conta com a Transpetro, sua subsidiária
integral. Os 54 terminais aquaviários, 33 terrestres
O fracionamento do petróleo nas refinarias dá e 9 centros coletores de etanol funcionam como en-
origem a diversos produtos, com variadas utilidades: treposto para os modais de transporte (local com
os derivados do petróleo. Podemos considerar os combinação de vários tipos de transporte).
derivados energéticos e os derivados não energéti-
cos. Entre os primeiros destacam-se a gasolina, o Em 2014, segundo a ANP, o Brasil contava com
óleo diesel, o óleo combustível e o Gás Liquefeito 601 dutos destinados à movimentação de petróleo,
derivados, gás natural e outros produtos, perfazendo
19,7 mil km de extensão.

232 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Brasil: unidades de refino e processamento — 2014 Banco de imagens/Arquivo da editora

50º O

OCEANO
ATLÂNTICO

Equador RR AP 0º
PA
AC AM Reman Lubnor RPCC
(Manaus) MT (Fortaleza) (Guamaré)
OCEANO
PACÍFICO RO MA
CE
Trópico de Capricórnio RN

N PI PB
OL PE RNEST
(Ipojuca)
S TO AL
0 400 800 km
BA SE

Dax Oil
DF (Camaçari)

Replan GO MG RLAM
(Paulínia) Regap (São Francisco do Conde)

(Betim)

Univen MS SP ES
(Itupeva) Reduc

(Duque de Caxias)

Repar RJ Adaptado de:
(Araucária) MINISTÉRIO DE
PR Manguinhos (Rio de Janeiro) MINAS E ENERGIA.
Riograndense SC Anuário estatístico
(Rio Grande) Recap RBPC Revap brasileiro do petróleo,
(Mauá) (Cubatão) gás natural e
biocombustíveis 2015.
(São José dos Campos) Disponível em:
<www.anp.gov.
RS Refap br/?pg=76798>.
Acesso em:
(Canoas) 18 abr. 2016.

Refinarias brasileiras

Dependência externa Brasil: evolução do volume importado Arte Ação/Arquivo da editora
e da despesa com a importação de
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Milhões de barris petróleo — 2005-2014 Milhões de dólares
Indústria e Comércio Exterior, a chamada Conta
Petróleo registrou um forte deficit em 2014: as im- 200 18 000
portações brasileiras de petróleo e derivados supe-
raram em US$ 16,6 bilhões as nossas exportações, 15 000
o que contribui para o resultado ruim da balança 150
comercial. Entretanto, houve melhora em relação a
2013, quando o deficit foi de 20,3 bilhões de dólares. 12 000
Essa melhora foi reflexo do aumento da produção
brasileira de petróleo em 2014, com a exploração 100 9 000
do pré-sal. Contudo, a importação de petróleo ainda
representa um peso na balança comercial do país. 6 000
Veja o gráfico ao lado. 50

3 000

Adaptado de: AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, 00
GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Anuário 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014

estatístico brasileiro do petróleo, gás natural e Volume importado de petróleo
biocombustíveis 2015. Disponível em: <www.anp.gov. Despesa com a importação de petróleo

br/?pg=76798>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Oferta interna de energia: combustíveis fósseis C A P Í T U L O 1 9 233

Entre os derivados energéticos Brasil: evolução da dependência externa 100% Arte Ação/Arquivo da editora
do petróleo importados pelo Brasil, de petróleo e derivados — 2005-2014 80%
em 2014, destacam-se o óleo die- Mil m3/dia 60% Dependência externa
sel, o GLP e a gasolina. Já entre os 500 40%
não energéticos, o principal produ- 20%
to de importação é a nafta. 400

Veja no gráfico ao lado a evo- 300
lução da dependência externa bra-
sileira desses derivados. 200

Produção de petróleo 100 0%

Importação líquida de petróleo

Importação líquida de derivados 0 –20%

2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014

Dependência externa

Adaptado de: AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP).
Anuário estatístico brasileiro do petróleo, gás natural e biocombustíveis 2015.
Disponível em: <www.anp.gov.br/?pg=76798>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Gás natural O transporte do gás natural

O gás natural, mistura de hidrocarbonetos na O transporte do gás natural é feito através de ga-
qual o metano tem grande participação, também é sodutos operados pela Transpetro. Em 2014, com
encontrado em estruturas sedimentares e pode ou extensão de 11,6 mil km, 110 dutos destinavam-se à
não estar associado ao petróleo. Pela Lei do Petróleo movimentação de gás natural. O principal gasoduto
(Lei n. 9 478/97), o gás natural “ é a porção do petró- é o Brasil-Bolívia, uma vez que quase a totalidade do
leo que existe na fase gasosa ou em solução no óleo, gás natural consumido no país vem desse país vizinho.
nas condições originais de reservatório, e que per-
manece no estado gasoso em condições normais de O gasoduto Brasil-Bolívia possui 3 150 km de ex-
temperatura e pressão”. tensão, sendo 557 km na Bolívia e 2 593 km no Brasil.
Com capacidade para fornecer 200 mil barris/dia, o
É mais barato do que o petróleo e bem menos gasoduto percorre, no Brasil, 135 municípios de cin-
poluente, utilizado em fogões industriais e residen- co estados (Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná,
ciais, altos-fornos, automóveis (gás veicular), entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Abastece o
outros. As reservas provadas nacionais, localizadas território brasileiro com gás natural, produto que é
principalmente no mar territorial, ocupavam a 31a 12% mais barato do que o óleo combustível. Veja, no
colocação mundial em 2014. Dentro do país, o Rio mapa da página 235, a infraestrutura de produção e
de Janeiro era o estado onde se localizavam as maio- movimentação do gás natural.
res reservas provadas de gás natural, seguido do
Espírito Santo e de São Paulo. Em 2014, as importações brasileiras de gás na-
tural totalizaram 17,3 bilhões de m3, com 68,8% pro-
Quanto à produção de gás natural, o Brasil re- venientes da Bolívia.
gistrou aumento e, em 2014, produziu 31,8 bilhões
de m3 de gás. Grande parte dessa produção foi Em 2006, o presidente da Bolívia, Evo Morales,
offshore (no mar) e os principais produtores, Rio decretou a nacionalização da exploração de gás e
de Janeiro e Espírito Santo, ambos com produção petróleo no país, o que deu origem à ocupação mi-
onshore e offshore, e Amazonas e Maranhão, com litar das refinarias, incluindo as refinarias da Petro-
produção onshore. bras. Depois de uma longa crise, a Bolívia recuou
sobre o confisco da renda das empresas estrangeiras
e o Brasil aceitou pagar mais pelo gás boliviano.

234 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Brasil: infraestrutura de produção e movimentação do gás natural – 2014 Banco de Imagens/Arquivo da editora

50º O

Equador RR
AP



Manaus Fortaleza OCEANO

PA MA Lubnor ATLÂNTICO

Urucu I, II e III AM Guamaré I, II e III
CE RN Natal

PI PB João Pessoa
PE Recife
AC AL Pilar Cacimbas UAPO
RO
TO BA SE Maceió Cacimbas I, II e III UPGN
BOLÍVIA DF Atalaia Cacimbas I, II e III UPCGN
Aracaju Lagoa Parda UPGN
N MT Candeias Catu
Cuiabá
Salvador Lagoa Parda UAPO

OCEANO Campo GO MG Sul Capixaba UAPO Adaptado de: AGÊNCIA
PACÍFICO Grande SP ES Sul Capixaba UPCGN NACIONAL DO PETRÓLEO,
GÁS NATURAL E
Trópico de Capricórnio MS Vitória Cabiúnas I, II e III URL BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP).
Cabiúnas URGN Anuário estatístico brasileiro
São Paulo RJ Cabiúnas I, II e III UPCGN do petróleo, gás natural e
Rio de Janeiro Cabiúnas UPGN biocombustíveis 2015.
PR Disponível em: <www.anp.
Curitiba RPBC gov.br/?pg=76798>. Acesso
em: 18 abr. 2016.
Unidades de Processamento SC Reduc - U - 2 500
de Gás Natural (UPGNs) Reduc - U - 2 600

Operação OL RS Florianópolis Reduc I e II UFL
S
Porto 645 1290 km
Alegre Caraguatatuba I, II e III UAPO 0

Caraguatatuba - UPCGN

Xisto betuminoso maior reserva mundial do xisto está nos Estados
Unidos, seguido pelo Brasil, cujo principal depósito
O xisto é uma rocha sedimentar rica em matéria fica no Paraná, na formação Irati.
orgânica (querogênio). Quando submetido a tempe-
raturas elevadas, decompõe-se em óleo, água, gás e A Petrobras, única empresa a utilizar o xisto
um resíduo sólido contendo carbono. Assim, com a para fins energéticos no Brasil, concentra suas
sua transformação, é possível obter uma série de operações na jazida localizada em São Mateus do
subprodutos que podem ser aproveitados pelos mais Sul, no estado do Paraná, onde está instalada sua
diversos segmentos industriais. Entre esses subpro- Unidade de Negócio da Industrialização do Xisto
dutos, podemos citar: (SIX). Da transformação do xisto realizado na SIX
são obtidos gás de xisto, GLP e óleo combustível.
Xisto retortado — utilizado na indústria de cerâ-
mica vermelha e de cimento. Ademais, na SIX são produzidos nafta e outros
derivados não energéticos do xisto. A nafta é enviada
Calxisto — utilizado na indústria de fertilizantes à Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), onde
como corretor da acidez dos solos. é incorporada à produção de derivados. O óleo de
xisto refinado é idêntico ao petróleo de poço e é um
Pretrosix — aproveitado na reciclagem de borra- combustível muito valorizado.
cha, partindo de uma mistura de xisto com pneus
usados picados. A estimativa da ANP é de que as reservas
brasileiras sejam de 14,6 trilhões de m3.
As atividades de transformação e exploração do
xisto estão relacionadas à indústria de petróleo. A

Carvão mineral Dentro do território nacional, as jazidas de carvão
são encontradas nos estados de Santa Catarina, Rio
Assim como o petróleo e o gás natural, o carvão Grande do Sul e Paraná. As maiores reservas estão no
mineral origina-se em bacias sedimentares e faz Rio Grande do Sul (Gravataí, Bagé, Rio Pardo, Triunfo,
parte das fontes energéticas não renováveis. Cachoeira do Sul, Hulha Negra, São Jerônimo, Can-
diota), mas a maior produção é a do estado de Santa
No Brasil, as reservas carboníferas são modestas, Catarina (Criciúma, Lauro Müller, Içara, Siderópolis,
sendo necessário importar carvão dos Estados Uni- Urussanga, Orleans). O estado de São Paulo tem reser-
dos, da Ucrânia, da África do Sul, da Austrália, da vas modestas (Itapetininga, Buri, Itapeva), que não são
China e da Polônia, uma vez que as usinas termelé- economicamente exploráveis em razão da dificuldade
tricas brasileiras, as indústrias e os altos-fornos si- de extração e da má qualidade do carvão.
derúrgicos consomem carvão mineral.

Oferta interna de energia: combustíveis fósseis C A P Í T U L O 1 9 235

Refletindo sobre o conteúdo

1. Analise o gráfico seguinte. Arte Ação/Arquivo da editora 4. Analise o mapa seguinte. Banco de imagens/Arquivo da editora
Preço do barril de petróleo Brasil: concentrações minerais em formação
sedimentar
(em dólares por dia)
120 55º O

100 Equador


80

60 56,42 N

40 52,69 OL OCEANO
2 jan. 2014 2 jan. 2015 ATLÂNTICO
WTI (Nova York) S
Brent (Londres) Trópico de Capricórnio
Predomínio de rochas 0 700 1 400 km
Petróleo Brent representa o petróleo extraído no mar do Norte e sedimentares
comercializado na Bolsa de Londres. O petróleo WTI é o petróleo Principais ocorrências
extraído no litoral do Texas e comercializado na Bolsa de Nova York. de petróleo e de gás
Adaptado de: MING, Celso. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 3 jan. 2015. Áreas carboníferas
Disponível em: <http://economia.estadao.com.br/blogs/celso-ming/ Principais ocorrências
de alumínio (bauxita)
mais-um-missil-no-petroleo>. Acesso em: 18 abr. 2016.
Adaptado de: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas.
a) Descreva o que aconteceu com o preço do barril 34. ed. São Paulo: Ática, 2013. p. 117.
do petróleo no mercado internacional, no período
analisado. a) Identifique a fonte energética destacada no mapa
e a região geográfica onde ela predomina.
b) Explique o que a análise desse gráfico representa
para os países exportadores e para as nações im- b) O que representam as áreas em verde no mapa?
portadoras de petróleo. Se necessário recorra a um atlas geográfico ou ao
capítulo.
c) A situação demonstrada pelo gráfico (agravada
no mês de agosto de 2015, quando o preço do 5. Observe a imagem a seguir.
barril atingiu os 40 dólares, o menor valor em
6 anos) pode afetar a exploração da camada do Brasil: produção de petróleo por estado
pré-sal brasileiro? Justifique sua resposta. (1 000 barris por dia)

2. Cite alguns exemplos de como o carvão mineral pode 50º O OCEANO Banco de imagens/Arquivo da editora
ser aproveitado pelos mais diversos segmentos in- ATLÂNTICO
dustriais. MARANHÃO
0º 0,1 CEARÁ Equador
3. Geografia e Língua Portuguesa Leia o trecho a se- AMAZONAS 8
guir; depois faça o que se pede. 28 RIO GRANDE
DO NORTE
[…] Esse produto é o sangue da terra, é a alma da 57
indústria moderna, é a eficiência do poder militar. Tê­lo
é ter o sésamo abridor de todas as portas. Não tê­lo é ser BAHIA ALAGOAS
escravo. Daí a fúria moderna na luta pelo petróleo […]. 43 5

LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e georgismo SERGIPE
e comunismo. São Paulo: Globo, 2011. p. 22. (Adaptado.) 42

a) Com base no trecho, descreva a atual situação RIO DE JANEIRO Trópico de Capricórnio
brasileira em relação ao petróleo. 1 522
ESPÍRITO N
b) Em sua opinião, o que o autor pretendia demons- OCEANO SANTO
trar ao declarar “Não tê-lo é ser escravo”? PACÍFICO
363
c) Elabore uma redação cujo tema seja o texto acima.
SÃO PAULO

177 0 730 1460 km

Adaptado de: EXAME. Anuário Exame Infraestrutura.
São Paulo: Abril, 2015. p. 69.

• Indique os três maiores produtores de petróleo no
Brasil e suas respectivas regiões geográficas.

236 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

capítulo 20

Oferta interna de energia:
energia elétrica e outras fontes

Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens

As usinas hidrelétricas predominam na produção de energia elétrica no país, mas o Brasil vem investindo em projetos alternativos de
energia, como o aproveitamento de energia solar e eólica (do vento). Apesar de ser uma fonte não poluente, a construção de uma
usina hidrelétrica pode causar muitos impactos ambientais e sociais. Na imagem, Usina Hidrelétrica de Lajeado, no rio Tocantins
(TO). A construção do reservatório dessa usina afetou cerca de 4 mil famílias que habitavam a região, entre elas comunidades
indígenas Xerente que ocupavam as margens do rio. Foto de 2015.

Energia elétrica A produção e a transmissão de energia elétrica
no Brasil são controladas pelo Sistema Integrado
As usinas hidrelétricas, como a da foto que abre Nacional (SIN), composto de termelétricas e hidre-
este capítulo, predominam na produção de energia létricas, com predominância destas últimas, coorde-
elétrica no Brasil. Mas desde 1975, as hidrelétricas nado pelo Operador Nacional do Sistema (ONS),
são seguidas pelas centrais termelétricas e termo- que agrega centros de operação das cinco regiões
nucleares. brasileiras. O SIN possui interligações entre os sub-
sistemas e as diversas bacias hidrográficas. Essas
A matriz energética brasileira é bem diferente da interligações permitem que se utilize o excedente
mundial. Enquanto no mundo, para geração de ener- hidrológico de uma bacia em outra, quando neces-
gia elétrica, predominam o uso de petróleo, carvão sário. Veja no gráfico da página a seguir como se
mineral, gás natural, combustíveis renováveis, nu- configura a distribuição da oferta interna de energia
clear e água, no Brasil, destaca-se uma maior utili- elétrica, e veja, no mapa, como se integram os sub-
zação de recursos hídricos. Essa situação pode mu- sistemas de distribuição de energia elétrica com as
dar caso o país continue a sofrer com secas prolon- bacias hidrográficas.
gadas atingindo suas bacias hidrográficas.

Oferta interna de energia: energia elétrica e outras fontes C A P Í T U L O 2 0 237

Brasil: oferta interna de energia Arte Ação/Arquivo da editora Energia hidrelétrica
elétrica — 2014
O Brasil é o país com o maior potencial hidrelé-
Geração total2 em 2014: 624,3 TWh trico do mundo, e a maior parte de sua matriz ener-
gética é produzida pelas usinas hidrelétricas.
Nuclear 2,5% Carvão e derivados1
Derivados de 3,1% Atualmente, muitas das vantagens desse tipo de
petróleo 6,8% energia têm sido questionadas. Sem dúvida é uma
Hidrelétrica2 forma de energia limpa, sem poluentes, que gera
Gás natural 13,0% 65,2% muitos empregos — tanto na construção das usinas
como no funcionamento delas — e proporciona de-
Eólica 2,0% senvolvimento econômico para várias regiões onde
Biomassa3 7,4% as usinas hidrelétricas são construídas. Em um país
como o Brasil, com disponibilidade de recursos hí-
1 Inclui gás de coqueria dricos e com predomínio de rios de planalto, condi-
2 Inclui importação de eletricidade ções essenciais para o funcionamento de uma usina
3 Inclui lenha, bagaço de cana, lixívia e outras recuperações hidrelétrica, é natural que seja a principal escolha
para a geração de energia. Sobre esse assunto, leia
Adaptado de: MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Balanço energético nacional o texto no boxe da página 239.
2015. p. 35. Disponível em: <https://ben.epe.gov.br/

downloads/S%C3%ADntese%20do%20Relat%C3%B3rio%20Final_2015_
Web.pdf>. Acesso em: 11 abr.2016.

Brasil: integração entre os subsistemas e as bacias hidrográficas — 2014 Banco de Imagens/Arquivo da editora

VENEZUELA GUIANA Guiana 50º O
Boa Vista
SURINAME Francesa
(FRA)
COLÔMBIA

0º Macapá Equador

Manaus Rio a1 Belém São ba
a Luís
Madeir
RioTap 2 cantins Rio Parnaí Fortaleza
6 jós Rio
To OCEANO
Porto Rio Xingu ATLÂNTICO
Velho Teresina Natal
5 João
3 Pessoa
Recife
rancisco
Maceió
4
Rio Branco Palmas Rio Aracaju
São
F

PERU

BOLÍVIA 7 Cuiabá Salvador
Rio Paraguai
Brasília Bacias hidrográficas

Linhas de transmissão 9. Grande
10/11. Paraná/Tietê
230 kV alternada, existente Campo Goiânia 1. Xingu 12. Paranapanema
345 kV alternada, futura Grande 2. Tocantins 13. Iguaçu
8 3. Parnaíba 14. Uruguai
alternada, existente PARAGUAI anRái1o11P0aran1aRp2iRoaionT9iParaRniaoíbGaran1dP6aeraíbHaodBRroieizSooluondl teeJanVeitióroria 4. São Francisco 15. Jacuí
alternada, futura 5. Tapajós 16. Paraíba do Sul
Usina São Paulo 6. Madeira
440 kV alternada, existente Itaipu etê ema 7. Paraguai Trópico de Capricórnio
14 000 MW 13 Rio Iguaç Curitiba 8. Paranaíba
aCltHerILnEada, existente Rio u
500 kV alternada, futura Par Rio

750 kV alternada, existente
alternada, futura

+- 600 kV cc* ARGENTINA io Uruguai 14 Florianópolis N
+- 800 kV cc* OL

Subestação R 15 Rio Jacuí Porto Alegre S

7 Bacia hidrográfica Usina URUGUAI 0 350 700 km
Garabi
Usina hidráulica 2 178 MW

*Corrente contínua

Adaptado de: OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA (ONS). Disponível em: <www.ons.org.br/conheca_sistema/pop/pop_integracao-eletroenergetica.aspx>.
Acesso em: 11 abr. 2016.

238 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Ampliando o conhecimento

O caminho da água na produção de Os sistemas de captação e adução são formados por
eletricidade túneis, canais ou condutos metálicos que têm a função
de levar a água até a casa de força. É nessa instalação
Para produzir a energia hidrelétrica é necessário que estão as turbinas, formadas por uma série de pás
integrar a vazão do rio, a quantidade de água disponível ligadas a um eixo conectado ao gerador. Durante o seu
em determinado período de tempo e os desníveis do movimento giratório, as turbinas convertem a energia
relevo, sejam eles naturais, como as quedas-d’água, ou cinética (do movimento da água) em energia elétrica por
criados artificialmente. meio dos geradores que produzirão a eletricidade. Depois
de passar pela turbina, a água é restituída ao leito natural
Já a estrutura da usina é composta, basicamente, de do rio pelo canal de fuga. [...]
barragem, sistema de captação e adução de água, casa de
força e vertedouro, que funcionam de maneira integrada. Por último, há o vertedouro. Sua função é permitir a
saída da água sempre que os níveis do reservatório
A barragem tem por objetivo interromper o curso ultrapassam os limites recomendados, [...] evitando
normal do rio e permitir a formação do reservatório. enchentes na região de entorno da usina. [...]
Além de “estocar” a água, esses reservatórios têm outras
funções: permitem a formação do desnível necessário ANEEL. O caminho da água na produção de eletricidade.
para a configuração da energia hidráulica, a captação Atlas de energia elétrica do Brasil. Disponível em:
da água em volume adequado e a regularização da vazão
dos rios em períodos de chuva ou estiagem. [...] <www.aneel.gov.br/arquivos/PDF/atlas_par2_cap3.pdf>.
Acesso em: 14 abr. 2016.

reservatório casa fluxo de linhas de Alex Argozino/Arquivo da editora
canal de força água transmissão
de energia
gerador
duto rio

turbina

Adaptado de: ANEEL. Disponível em: <www.aneel.gov.br/arquivos/PDF/atlas_par2_cap3.pdf>. Acesso em: 14 abr. 2016.

As usinas hidrelétricas podem causar impactos ração de comunidades e famílias, a destruição de
ambientais e sociais de grandes proporções, mesmo construções históricas, hospitais e igrejas e inunda-
que sejam planejadas com muito cuidado. Seus la- ção de locais sagrados para comunidades indígenas
gos e barragens feitos para a geração de energia e tradicionais do lugar, etc.
mudam o curso natural dos rios, interferindo na
migração dos peixes e causando outras alterações Longos períodos de estiagem, que diminuem a
na fauna do rio. Pode acontecer também o alaga- vazão dos rios, são outro problema que as usinas
mento de importantes áreas florestais — onde mui- hidrelétricas podem apresentar, pois o volume de
tas vezes se concentram espécies vegetais ameaça- água é essencial para movimentar as turbinas que
das de extinção — e o consequente desaparecimen- produzem esse tipo de eletricidade.
to do habitat dos animais.
A primeira hidrelétrica de maior porte no Brasil
Os impactos sociais acontecem quando habitan- começou a ser construída no Nordeste (Paulo
tes de uma região têm suas propriedades, suas terras Afonso I), em 1949, pela Companhia Hidrelétrica do
produtivas e até mesmo suas cidades atingidas pelas São Francisco (Chesf).
inundações para a construção de lagos e barragens.
Os efeitos dessas perdas são muitos, como a sepa- As demais hidrelétricas, construídas ao longo
dos 60 anos seguintes, concentraram-se nas re-
giões Sul, Sudeste e Nordeste. No Norte foram

Oferta interna de energia: energia elétrica e outras fontes C A P Í T U L O 2 0 239

construídas Tucuruí, no Brasil: maiores hidrelétricas, segundo potência — 2014 Banco de Imagens/Arquivo da editora
Pará, e Balbina, no Ama-

zonas. Nos anos 1990, as 50º O

regiões Norte e Centro-

-Oeste começaram a ser ex-

ploradas com mais intensi- RR AP
dade, com a construção da Equador


usina Serra da Mesa, Goiás, Belo Monte*
no rio Tocantins. Nas últi-
N 11,2 MW

mas décadas estão sendo AM São Luiz PA Tucuruí I e II MA CE RN
realizados importantes pro- do Tapajós* 8,3 MW PI PB
jetos na região Norte, que PE
enfrentam protestos de am- 8,3 MW AL
bientalistas e embargos na SE Xingó
justiça. Entre esses projetos, NE
propõem-se as construções 3,2 MW
das usinas de Jirau e Santo AC RO TO Paulo
Antônio, no rio Madeira; a MT Afonso IV OCEANO
de Belo Monte, no rio OCEANO ATLÂNTICO
Xingu; e as usinas de São PACÍFICO CO 2,5 MW

Trópico de Capricórnio BA
DF

GO Itumbiara
2,1 MW MG

Ilha Solteira São Simão SE ES
3,4 MW 1,8 MW
SP
MS

Porto Primavera Jupiá RJ
(Eng. Sérgio Motta)
(Eng. Souza Dias)
1,5 MW
PR 1,6 MW

Luiz do Tapajós e Jatobá, no Itaipu SC Governador Bento N
rio Tapajós. (parte brasileira) Munhoz da Rocha Neto
S
6,3 MW (Foz do Areia)

1,7 MW

RS

100 369,99 MW OL

Potencial hidrelétrico por regiões 0 450 900 km

S

41 469,68 MW 38 965,28 MW 43 775,75 MW

22 105,08 MW

Região Sul Região Região Sudeste Região Nordeste Região Norte * Estimativas.
Adaptado de: SIPOT. Eletrobras 2014. Disponível em: <www.eletrobras.com/
Centro-Oeste
elb/data/Pages/LUMIS21D128D3PTBRIE.htm>; ANEEL. Disponível em:
<www.aneel.gov.br/arquivos/PDF/atlas3ed.pdf>. Acesso em: 14 abr. 2016.

Energia termelétrica Esquema de uma usina termelétrica Alex Argozino/Arquivo da editora

As usinas termelétricas geram eletricidade por caldeira vapor torre de
meio da energia em forma de calor resultante da transmissão
queima de combustíveis renováveis ou não renová-
veis. Uma usina termelétrica é constituída por duas gerador
partes: uma térmica, onde é produzido o vapor; e turbina elétrico
outra elétrica, onde é gerada a eletricidade. O vapor
movimenta as pás de uma turbina e cada turbina é combustível água condensador
conectada a um gerador de eletricidade. Essa energia (óleo ou carvão) bombas bomba
é transportada por linhas de alta tensão aos centros
de consumo. Veja, ao lado, o esquema da geração da água de
energia termelétrica. refrigeração

No Brasil, há usinas termelétricas que utilizam água
óleo, gás natural, carvão e biomassa (bagaço de cana,
cavaco de madeira e casca de arroz).

Adaptado de: BIOLOGÍASUR. Disponível em:
<www.biologiasur.org.br/Ciencias/index.php/geosfera/recursos-

de-la-geosfera-y-sus-reservas>. Acesso em: 14 abr. 2016.

240 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Termelétricas movidas a gás natural áreas de extração do combustível, como Charqueada
e carvão
e Figueiras (PR), Complexo Jorge Lacerda (SC),
O número de usinas que utilizam o gás natural
como combustível tem aumentado bastante, princi- Presidente Médici e São Jerônimo (RS). A maior
palmente por ser uma fonte menos poluente do que
o carvão. desvantagem de se utilizar Combustível fóssil:
combust’veis f—sseis nas denominação dada ao
No Brasil, as termelétricas que utilizam carvão usinas é a emissão de gás carvão e ao petróleo,
mineral concentram-se na região Sul, próximo às
carbônico que agrava o efei- oriundos de
to estufa e, consequentemen- decomposição animal
te, o aquecimento global. e vegetal.

Brasil: principais usinas termelétricas a gás natural — 2014 Banco de Imagens/Arquivo da editora

50º O

RORAIMA

AMAPÁ

Equador 0º

Termo Fortaleza
Termo Ceará

AMAZONAS PARÁ MARANHÃO CEARÁ RIO GRANDE
MATO GROSSO PIAUÍ DO NORTE
RONDÔNIA
Coteminas
Mário Covas
PARAÍBA Jesus S. Pereira

ACRE PERNAMBUCO Termo Pernambuco

TOCANTINS BAHIA ALAGOAS OCEANO
ATLÂNTICO
DISTRITO SERGIPE
FEDERAL
Rômulo Almeida
Celso Furtado
Camaçari

GOIÁS Aureliano Chaves

Juiz de Fora

MATO GROSSO MINAS ESPÍRITO Santa Cruz
DO SUL GERAIS SANTO Norte Fluminense

OCEANO Modular de Campo Grande SÃO PAULO Leonel Brizola
PACÍFICO Luiz Carlos Prestes

Trópico de Capricórnio RIO DE JANEIRO Mário Lago
Barbosa Lima Sobrinho
N
OL Araucária PARANÁ Campos – Roberto Silveira

S SANTA Fernando Gasparian
CATARINA Euzébio Rocha
DSG Paulínia
RIO GRANDE DSG Mogi-Mirim Em operação
DO SUL Em construção/
410 820 km Fase de decisão/Estudo
Sepé Tiaraju 0
AES Uruguaiana Paralisada por falta de gás

Adaptado de: GASNET. Disponível em: <www.gasnet.com.br/termeletricas/mapa.asp>. Acesso em: 16 abr. 2016.

Termelétricas movidas a bagaço de Pedra (70 MW), em Serrana; usina Buriti (50 MW),
cana-de-açúcar em Buritizal, e usina do Ipê (25 MW), em Nova
Independência. A CPFL também possui uma usina
A agroindústria canavieira, também utilizada na similar no Rio Grande do Norte: a usina Baía
geração de energia elétrica, constitui-se em impor- Formosa (40 MW). A usina pioneira e mais impor-
tante fonte de energia alternativa, seja pela produção tante do país nesse ramo é a Vale do Rosário, em
do álcool (etanol), que vamos abordar mais adiante, Morro Agudo, no estado de São Paulo, inaugurada
seja pelo aproveitamento do bagaço da cana-de- com 30 MW. Em 2007, essa usina se uniu à Cia.
-açúcar em usinas termelétricas. Energética Santa Elisa, de Sertãozinho, formando a
Santa Elisa Vale S. A., e, atualmente, opera com cer-
No estado de São Paulo, algumas usinas que uti- ca de 93 MW de potência.
lizam esse tipo de combustível alimentam a rede
da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL): usi- Veja no esquema a seguir como funciona uma
na Baldin (45 MW), em Pirassununga; usina da usina alimentada pelo bagaço da cana-de-açúcar.

Oferta interna de energia: energia elétrica e outras fontes C A P Í T U L O 2 0 241

Esquema de usina movida a bagaço de cana-de-açúcar Alex Argozino/Arquivo da editora

Produção 4 Parte da energia é utilizada pela
de etanol
própria usina, e o excedente pode
ser vendido.

Energia

Gerador

Produção
de açúcar

Cana-de-açúcar

Caldo 3 O vapor de água

Turbina produzido na
Vapor caldeira gira a
turbina, e um
gerador acoplado
converte energia
mecânica em
elétrica.

Bagaço Caldeira

1 A cana-de-açúcar colhida segue para 2 O que sobra da cana é o bagaço, resíduo

moendas, que extraem o caldo para industrial transportado até caldeiras que
produção de açúcar e etanol. realizam sua queima.

Adaptado de: REVISTA Galileu. Disponível em: <http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI326727-18537,00-PARTICIPACAO+DE+USINAS+DE+CA
NA+NA+GERACAO+DE+ENERGIA+DO+PAIS+PODERIA+SER+SE.html>. Acesso em: 14 abr. 2016.

Energia termonuclear O programa nuclear brasileiro é um dos assun-

O urânio é a principal fonte de energia das usinas tos mais polêmicos da história recente do país, pois,
termonucleares, que são também um tipo de usina
termelétrica. Nelas, além do urânio, são utilizados além de envolver os riscos desse tipo de energia,
outros combustíveis, como o plutônio e o tório. Veja
a seguir o esquema de funcionamento de uma usina houve uma série de pontos discutíveis na implan-
termonuclear.
tação desse programa. Um desses pontos é a pró-

pria localização das usinas, em uma região de solo

sedimentar instável e no centro da região mais po-

Alex Argozino/Arquivo da editora voada do país. Outro ponto foi o alto custo empre-

Esquema de uma central térmica nuclear gado na construção das usinas em relação à pro-

torre de dução de energia elétrica. De acordo com o Balanço
transmissão
pressurizador Energético Nacional, em 2015, a produção de ele-
turbina
barras de vapor gerador tricidade nuclear no Brasil não chegava a 3% do
controle elétrico
vaso de total nacional.
pressão
A primeira usina nuclear brasileira, Angra I,

começou a ser construída em 1972, com tecnolo-

condensador gia dos Estados Unidos, que foi adquirida no
bomba
gerador sistema turn key, e começou a
de vapor
operar comercialmente em 1985. Turn key
água Em 1975, para a construção de (chave na
Angra 2 e Angra 3, o Brasil assi- mão): sistema
elemento bomba bomba nou com a então República pelo qual a
combustível Federal da Alemanha (Ale- empresa
tanque de manha Ocidental) o Acordo de entrega a obra
água de Cooperação para o Uso Pacífico finalizada, mas
não transfere
alimentação sua tecnologia.

Adaptado de: INSTITUTO DE FÍSICA — UFRGS. Disponível em: da Energia Nuclear.
<www.if.ufrgs.br/tex/fis01043/20021/Elizandra/nuclear.html>.

Acesso em: 14 abr. 2016.

242 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens As termonucleares brasileiras fazem parte do Como possui a sexta reserva mundial de urânio,
Andre Dib/Pulsar ImagensCentro Nuclear Almirante Álvaro Alberto — Angra 1 o país conta com dois fatores importantes para a
(1985), Angra 2 (2000) e Angra 3 (ainda não fina- instalação de usinas nucleares: o combustível e a
lizada, com previsão para entrar em operação co- tecnologia para seu enriquecimento.
mercial em dezembro de 2018) —, localizado na
praia de Itaorna, no município de Angra dos Reis, As termonucleares representavam uma escolha
no Rio de Janeiro. importante no Plano Decenal de Expansão de
Energia Elétrica (2005–2015) no Brasil.
Depois dos graves acidentes envolvendo usinas
nucleares pelo mundo, como Three Miles Island Energia eólica
(Estados Unidos — 1979), Chernobyl (Ucrânia —
1986) e Fukushima (Japão — 2011), as discussões A energia eólica é bastante utilizada em outros
pró e contra a energia nuclear aumentaram no países, principalmente europeus, e pode ser uma
Brasil, influenciando a construção e a instalação solução para amenizar o problema energético.
da usina Angra 3.
O Conselho Global de Energia Eólica (GWEC,
Vista das usinas nucleares de Angra 1 (à esquerda) e Angra 2 na sigla em inglês) aponta o Brasil, ao lado de China,
(à direita), em Angra dos Reis (RJ). Foto de 2015. Alemanha e Estados Unidos, na lista dos países com
maior incremento na capacidade instalada de ener-
gia eólica no mundo, em 2014.

O Brasil dispõe de condições naturais e de tec-
nologia para a instalação de pás e turbinas para a
geração de energia, os cata-ventos de três pás, cha-
mados aerogeradores.

Quase todo o território nacional apresenta boas
condições de vento para a instalação de aerogera-
dores, mas as áreas mais favorecidas estão no litoral
nordestino, especialmente no Ceará e no Rio Grande
do Norte. Estudos mostram que o potencial brasi-
leiro de energia eólica é maior que o das usinas hi-
drelétricas instaladas.

Os defensores desse tipo de Usina eólica em Camocim (CE). Foto de 2015.
energia fundamentam que ela é se-
gura, tem preço acessível, não é Oferta interna de energia: energia elétrica e outras fontes C A P Í T U L O 2 0 243
poluente e que os recursos hídricos
do Brasil podem se esgotar.

Ambientalistas, ecologistas e
outros cientistas pensam que em
um país com tantos recursos natu-
rais (água, vento, sol) não se deve
investir em um tipo de energia que
pode contaminar drasticamente o
meio ambiente.

A primeira unidade de enrique-
cimento de urânio em centrífugas,
no Brasil, entrou em funcionamen-
to em maio de 2006, e está instala-
da nas Indústrias Nucleares do
Brasil (INB), em Resende, estado do
Rio de Janeiro.

A usina eólio-elétrica de Taíba, em São Gonçalo do Luca Atalla/Pulsar Imagens Energia solar
Amarante, no Ceará, é a primeira do mundo construí-
da sobre dunas de areia. A sua capacidade instalada é O Brasil possui bom potencial energético solar,
de 5 MW e a produção é de 17,5 milhões de kWh, sufi- mas as condições para a instalação de unidades ge-
cientes para atender a 50 mil pessoas durante um ano. radoras de energias viáveis são prejudicadas pela
falta de informações solarimétricas confiáveis sobre
Segundo a Câmara de Comercialização de alguns locais do território, além do alto custo desse
Energia Elétrica (CCEE), a capacidade instalada das tipo de energia.
usinas eólicas no Brasil teve um aumento de 113%
entre 2014 e 2015. Esse aumento foi concentrado No Brasil, essa fonte de energia é utilizada prin-
principalmente na região Nordeste, que alcançou cipalmente nos aquecedores solares para residên-
75% da capacidade total das usinas eólicas do país. cias, hospitais ou hotéis. Nesse caso, a placa ou as
placas utilizadas são escuras para absorver a energia
O Rio Grande do Norte, onde se localiza o Parque do Sol e transformá-la em calor, aquecendo a água.
Eólico Rio do Fogo, foi o estado que mais gerou ener- Há também a energia solar fotovoltaica, que consis-
gia eólica, em 2014, seguido pela Bahia e pelo Rio te na conversão da energia solar em energia elétrica.
Grande do Sul. Quanto à capacidade instalada, o Rio A unidade fundamental desse processo é a célula
Grande do Norte é o primeiro colocado, seguido do fotovoltaica, e o material mais empregado na cons-
Ceará, Rio Grande do Sul (Parque Eólico de Osório), trução dessas células é o silício. Atualmente, esse
Bahia e Santa Catarina. tipo de energia tem sido utilizado em lugares muito
afastados dos centros servidos pela rede de forneci-
Outras fontes de energia mento de energia elétrica, para projetos de cunho
social, agropastoris ou de comunicações.
Embora não existam usinas solares, e as terme-
létricas que queimam cavaco de madeira sejam pou- Alguns exemplos de sua utilização compreendem:
cas, a energia solar, a lenha e o carvão são fontes de ■■ sistema de bombeamento fotovoltaico para
energia utilizadas no Brasil.
irrigação;
Lenha e carvão ■■ eletrificação residencial rural;
■■ postos com serviços de áudio e vídeo e telefonia
A lenha e o carvão vegetal, também classificados
como biomassa, são bastante utilizados no Brasil. pública.
São empregados como combustível em pequenas A partir de 2015, a Aneel começou a realizar lei-
metalúrgicas e para gerar calor em restaurantes, lões para construção de usinas de energia solar.
hospitais, indústrias e residências, por exemplo.
Solarimétrico: referente à medição da radiação solar direta.
No Brasil, a biomassa foi o primeiro combustível Célula fotovoltaica: também chamada célula solar, é um
utilizado, quando foi consumida, em forma de lenha, dispositivo elétrico capaz de converter a luz diretamente em
grande parte das florestas que recobriam a porção les- energia elétrica.
te do território do país. Seus principais usos eram o
doméstico, nos engenhos de cana-de-açúcar, nos trans- Placas de energia solar para a geração de energia elétrica, em
portes ferroviário e marítimo e na indústria siderúrgica. Arraial do Cabo (RJ). Foto de 2015.

Por esse motivo, questiona-se se a lenha e o car-
vão vegetal são realmente uma fonte de energia
renovável, uma vez que o replantio de florestas de-
manda grande período de tempo para sua utilização.

O uso da lenha e do carvão vegetal no Brasil é
ainda expressivo e representou 6,3% do consumo
final de fontes de energia, em 2014. A lenha é utili-
zada, principalmente, nas carvoarias para produzir
carvão vegetal e em residências para cozinhar e para
o aquecimento.

244 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Biocombustíveis Entre os fatores que podem diminuir a produ-
ção do etanol estão problemas climáticos, que
Segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP), interferem na safra da cana-de-açúcar e levam ao
biocombustível “é a substância derivada de bio- aumento da produção do açúcar, cujo preço se
massa renovável, como biodiesel, etanol e outras torna mais vantajoso no mercado internacional
substâncias estabelecidas em regulamento da ANP, em comparação ao etanol. Por outro lado, a pro-
que pode ser empregada diretamente ou mediante dução também pode se elevar em razão do aumen-
alterações em motores a combustão interna ou para to da fabricação de carros bicombustíveis (flex) e
outro tipo de geração de energia, podendo substi- dos preços da gasolina em relação ao álcool com-
tuir parcial ou totalmente os combustíveis de bustível.
origem fóssil”.
O Centro-Sul concentra 85% do cultivo da cana-
O álcool, por exemplo, pode ser produzido de -de-açúcar e mais de 80% da produção de álcool. Os
várias plantas, como a cana-de-açúcar, a beterraba, principais estados produtores dos dois tipos de ál-
a mandioca, o girassol e o eucalipto. O seu uso mais cool são Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e
difundido como fonte de energia é para movimentar Mato Grosso.
motores de veículos (álcool etílico da cana-de-açúcar
e o metanol, obtido do eucalipto). O Proálcool

No Brasil, utiliza-se em diversos setores o álcool O Proálcool (Programa Nacional do Álcool),
etílico, ou etanol (anidro e hidratado), extraído da cana- criado em 1975 como tentativa de encontrar
-de-açúcar. A produção do etanol no Brasil oscilou uma fonte de energia alternativa ao petróleo
bastante entre 2005 e 2014. Veja o gráfico a seguir. — cujos preços haviam disparado no mercado
internacional —, apresentou aspectos positivos
Brasil: evolução da produção de etanol Arte Ação/Arquivo da editora e negativos.
anidro e hidratado — 2005-2014
Aspectos positivos. O Brasil desenvolveu tec-
30 nologia própria e o álcool combustível é bem
menos poluente que a gasolina.
Milhões m3 25
Aspectos negativos. O álcool de cana (etílico)
20 deveria ser substituído pelo álcool de eucalipto
(metílico) porque este é menos poluente e, além
15 disso, é menor o desgaste dos solos causado pe-
las plantações de eucalipto.
10
Grandes áreas rurais são usadas apenas para
5 o cultivo da cana-de-açúcar com a finalidade de
transformá-la em álcool etílico, caracterizando
0 novamente a monocultura dessa planta.
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014

Etanol anidro Etanol hidratado

Paulo Fridman/Pulsar Imagens Adaptado de: ANP. Anuário estatístico brasileiro de petróleo, gás e
biocombustíveis 2015. Disponível em: <www.anp.gov.br/?pg=76798#Se__o4>.

Acesso em: 14 abr. 2016.

Local de queima de bagaço de cana-de-açúcar
para a geração de energia elétrica em usina no
município de Cerqueira César (SP), em 2015.

245

Contexto e aplicação

Expansão da produção de energia O prefeito de Parnaíba, Florentino Neto (PT), partici-
eólica gera protestos no litoral do Piauí pou de uma reunião entre empresa e moradores e se
disse favorável à expansão — desde que a usina traga
A expansão da produção de energia eólica em Parnaí- benefícios socioambientais aos nativos. “Se a empresa
ba, cidade localizada 320 quilômetros ao Norte da e todos os organismos chegarem a um convencimento,
capital Teresina, tem causado protestos por parte dos tudo é compatível. Os moradores estão lá e não vão sair
moradores da região da Pedra do Sal. A situação ainda de lá. Mas é preciso que se respeite as atividades
não tem data para ser resolvida. econômicas da Pedra do Sal”.

Desde a implantação dos parques eólicos na região No escritório da empresa que pretende expandir seu
da Pedra do Sal, alguns transtornos foram causados aos parque eólico, o diretor informou sobre projetos socioedu-
moradores, alterando o cotidiano da comunidade. Áreas cativos e culturais realizados ao longo dos anos em Ilha
antes livres hoje estão cercadas e mantidas sob forte Grande e também na Pedra do Sal. Gustavo Matos
segurança. Nestes locais, atividades de extrativismo, garantiu livre acesso à população para a realização de
como a colheita de caju, a extração da palha de carnaúba atividades rotineiras.
e o acesso a várias lagoas para a prática da pesca foram
impossibilitadas. “Uma das obrigações que a gente tem é a manu-
tenção das atividades locais. Tem uma questão impor-
A Associação dos Moradores da Pedra do Sal entrou tante: na área que a gente construiu as usinas, é utilizada
com o pedido solução junto à Prefeitura de Parnaíba. “A apenas 4% do terreno para construção do empreendi-
comunidade hoje está certa que quer isso: que não haja mento; os outros 96% são áreas nas quais a gente
mais aumento na energia eólica nesta faixa da Tractebel mantém flora e fauna. Somos grandes preservadores
até o Pontal de Luís Correia”, assinalou Carlos Fernando, daquela região”, argumentou.
presidente da entidade.
MEIRELES, Flávio. Cidade verde. 13 mar. 2015. Disponível em:
Uma parte da região da praia será alugada por uma <http://cidadeverde.com/noticias/187823/expansao-da-
das usinas, que fará a expansão do seu parque eólico. producao-de-energia-eolica-gera-protestos-no-litoral-do-
Uma das discussões da comunidade da Pedra do Sal é piaui>. Acesso em: 14 abr. 2016.
sobre a proibição do tráfego e da visitação nas regiões
de praia assim que a segunda etapa começar a Agora, faça as atividades propostas.
funcionar.
1. Aponte dois aspectos positivos acerca do uso da
Pesquisa realizada com 250 moradores apontou que energia eólica.
70% dos entrevistados é contra a ampliação do parque
eólico, que contará, a partir de 2016, com 70 aerogira- 2. Independentemente da forma como a energia é
dores, gerando energia para uma população de 600 mil gerada, sempre ocorrerá algum impacto ambien-
habitantes, ou seja, 20% de todo o Piauí. tal. Você concorda com essa afirmação? Justifique
sua resposta.

Cândido Neto/Opção Brasil Imagens

Parque eólico da Pedra do Sal, em Ilha Grande de Santa Isabel, no município de Parnaíba (PI). Foto de 2014.

246 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil

Geografia Regional

O avanço da energia hidrelétrica Veja nas tabelas abaixo algumas das usinas brasilei-
na região Norte ras e as suas capacidades energéticas.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Potencial energético das usinas em processo de
consumo médio de energia elétrica no Brasil aumentará licitação ou em obras na Amazônia
entre 2014 e 2023. Assim, ao longo dessa década, o con-
sumo nacional passará de 514 TWh (terawatts-hora) Usina Potência prevista
para 782 TWh.
Belo Monte que terá potência instalada
Essa projeção de crescimento energético gerou um de 11 233 megawatts
prolongado debate sobre a ampliação da matriz elétrica
brasileira, a fim de acompanhar o aumento do consumo São Luiz do Tapajós 8 381 MW
dos próximos anos. A principal fonte de geração de ener-
gia elétrica no Brasil são as hidrelétricas, e o Governo Jirau 3 750 MW
visa a construção de novas usinas no território nacional,
principalmente na região Norte, onde há grande potencial Santo Antônio 3 150 MW
a ser explorado.
Fonte: PORTAL Brasil. Disponível em: <www.brasil.gov.br/
Cerca de 40% do potencial hidrelétrico brasileiro infraestrutura/2011/12/potencial-hidreletrico-brasileiro-esta-entre-os-cinco-
situa-se na região Norte, principalmente nos rios que
estão à margem direita do rio Amazonas. Mas apenas maiores-do-mundo>. Acesso em: 2 abr. 2016.
5% desse potencial de fornecimento de energia hidrelé-
trica da região Norte foi explorado até o momento. Usinas hidrelétricas exclusivamente brasileiras com
maior potencial energético
Está prevista a construção de 29 usinas hidrelétricas
nos próximos anos, das quais sete estarão localizadas Usina Potência prevista
em meio à floresta contínua, ou seja, em áreas de flores-
ta intocadas, como é o caso das bacias do Jamanxim e Tucuruí 8 730 MW
do Tapajós. Ao todo serão gerados 38 292 MW, quase
metade de toda a energia produzida atualmente pelas Ilha Solteira 3 444 MW
201 usinas hidrelétricas em atividade no país.
Xingó 3 162 MW

Paulo Afonso IV 2 462 MW

Fonte: PORTAL Brasil. Disponível em: <www.brasil.gov.br/
infraestrutura/2011/12/potencial-hidreletrico-brasileiro-esta-entre-os-cinco-

maiores-do-mundo>. Acesso em: 2 abr. 2016.

Lalo de Almeida/Folhapress

Vista aérea da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Porto Velho (RO), em construção. Foto de 2014.

Oferta interna de energia: energia elétrica e outras fontes C A P Í T U L O 2 0 247

Refletindo sobre o conteúdo

1. Analise o quadro a seguir. 2. Leia o texto a seguir e responda às questões.

Os prós e os contras de cada fonte de energia Num único dia, o Amazonas despeja no Oceano
Nos próximos anos, o Brasil precisará aumentar a geração Atlântico mais água do que toda a vazão do Rio Tâmisa,
em Londres, durante um ano inteiro. Só a Bacia do Rio
de eletricidade para atender à crescente demanda. Negro, um dos afluentes do Amazonas, tem mais água
Veja vantagens e desvantagens das principais opções do que toda a Europa. Sessenta por cento da Bacia ama-
zônica se encontra em território brasileiro.
disponíveis.
BARTOLI, Estevan. O Amazonas e a Amazônia:
Tipo Vantagem Desvantagem geografia, sociedade e meio ambiente.

Hidrelétrica Custo baixo, energia Alto impacto Rio de Janeiro: MemVavMem, 2010. p. 46.
com
reservatório limpa, quantidade ambiental na a) Por que a água é considerada um recurso renová-
vel? Justifique.
previsível implantação
b) Com base na leitura do Capítulo e do texto ante-
Hidrelétrica a Custo baixo, energia Maior rior, a que conclusão se chega quanto aos recursos
fio-d’água limpa, baixo impacto dependência de hídricos brasileiros?
ambiental na chuvas
implantação c) O texto anterior justifica que o povo brasileiro
desperdice água?
Pequenas Custo baixo, energia Baixa capacidade
centrais limpa, baixo impacto de geração 3. O Programa Nuclear Brasileiro é um dos assuntos
hidrelétricas ambiental na mais polêmicos da história recente do Brasil. Você
implantação concorda? Justifique sua resposta.

Térmica a gás Quantidade Custo alto, 4. Caracterize o contexto histórico em que surgiu o
Proálcool.
ou a carvão previsível de energia energia poluente
5. Analise as informações a seguir.
Biomassa Energia limpa, custo Dependência da Frota brasileira de autoveículos leves — 2013
baixo safra agrícola
para obter a Etanol Elétrico
matéria-prima 978 439 608

Eólica Energia limpa, custo Baixa 2,9% 0,1% Arte Ação/Arquivo da editora
em declínio previsibilidade,
dependência do
clima

Nuclear Quantidade Produção de Gasolina Flex
previsível de energia resíduos, alto 11 761 194 20 772 995
impacto
ambiental em 35% 62%
caso de acidente

Solar Energia limpa Custo alto, baixa
previsibilidade,
dependência do Adaptado de: ANUÁRIO Exame Infraestrutura 2014-2015.
clima São Paulo: Abril, 2015. p. 73.

Adaptado do: ANUÁRIO Exame Infraestrutura a) Elabore uma conclusão ao analisar a frota brasilei-
2014-2015. São Paulo: Abril. 2015. p. 73. ra de automóveis leves. Depois, discuta com seus
colegas sobre a conclusão a que cada um de vocês
a) Compare as desvantagens de cada uma das fon- chegou.
tes em relação às outras:
• térmicas a gás ou a carvão; b) Cite uma característica positiva e outra negativa
• eólica; sobre o uso do etanol como combustível.
• nuclear.
Não escreva
b) Na sua opinião, qual é a fonte de energia mais no livro
vantajosa? Justifique sua resposta.

248 U N I D A D E 5 Atividades primárias no Brasil


Click to View FlipBook Version