capítulo 9
Características da
população brasileira
Peter Scheier/Instituto Moreira Salles
A demografia, estudo dos vários aspectos das populações humanas, nos revela muito sobre as mudanças políticas, sociais e
econômicas pelas quais o Brasil passou no decorrer de sua história. As cidades, os estados e as regiões brasileiras podem ser
“radiografados” por meio do estudo das principais características da população que neles reside. Na imagem, Praça do Patriarca,
São Paulo, 1953. Uma das praças mais antigas do centro histórico da cidade, a Praça do Patriarca foi criada para incentivar o
crescimento urbano de São Paulo há pouco mais de um século. Em 2002, ela passou por uma grande reurbanização, na qual foi
revitalizada, proporcionando um amplo espaço para a circulação de pedestres.
Demografia no Brasil tarefa de escolher as melhores políticas públicas.
O mais completo deles é o Censo Demográfico,
O conhecimento dos dados demográficos de realizado a cada dez anos. Para que sejam feitas
um país é fundamental para que ele seja bem ad- estimativas demográficas mais exatas, no meio da
ministrado. Programas de saúde, educação, cons- década é realizada a Contagem da População. A
trução de estradas, de usinas de energia elétrica, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
produção de alimentos, etc., devem ser adequados (Pnad) é anual e levanta informações sobre habi-
ao perfil da população nacional. Um país com mui- tação, rendimento, mão de obra, educação e carac-
tos jovens, por exemplo, necessita de grandes in- terísticas demográficas.
vestimentos em educação; se o número de idosos
é muito alto, é preciso uma boa estratégia de pre- Conforme declarou o IBGE, a partir de 2013, a
vidência social. Pnad tradicional foi substituída pela Pnad contínua
e apresenta, a cada trimestre, dados completos, e
No Brasil, o IBGE realiza diferentes levantamen- mais enxutos a cada mês, relativos apenas à deso-
tos que auxiliam nossos governantes na difícil cupação (mão de obra e emprego).
Características da população brasileira C A P Í T U L O 9 99
Crescimento populacional O aumento da população é chamado crescimen-
to demográfico ou populacional. Para obter o núme-
A estimativa do IBGE para 2015 apontou que a ro relativo do crescimento demográfico, deve-se
população residente no Brasil era de 204,4 milhões somar o número de nascimentos com as migrações
de habitantes. Naquela data, esse número represen- e subtrair o número de mortes.
tava a quinta maior população do mundo, superada
apenas por China, Índia, Estados Unidos e Indonésia, A população de um lugar aumenta porque o nú-
como se pode ver na tabela a seguir. mero de pessoas que nascem é superior ao das que
morrem. A diferença entre a taxa de natalidade (quan-
País População (milhões de hab.) tidade de nascimentos) e a de mortalidade (quanti-
dade de mortes), em determinado período, chama-se
1. China 1 367,0 crescimento vegetativo ou crescimento natural.
2. Índia 1 250,0 Alguns países podem apresentar crescimento
vegetativo negativo, que ocorre quando as taxas de
3. Estados Unidos 321,3 mortalidade são maiores do que as de natalidade. É
o caso da Rússia, por exemplo. Há também casos em
4. Indonésia 255,1 que as taxas de natalidade e de mortalidade são equi-
valentes. Quando isso ocorre, diz-se que o cresci-
5. Brasil1 204,4 mento vegetativo é nulo.
Fontes: 1IBGE. Estimativas de população 2015. Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov. A população de um lugar ou de um país pode
br/Estimativas_de_Populacao/Estimativas_2015/serie_2001_2015_TCU.pdf>; diminuir ou aumentar também em razão de movi-
mentos migratórios, ou seja, devido à saída de pes-
CIA. The World Factbook. Disponível em: <www.cia.gov/library/publications/ soas de seu lugar de origem (emigração) e à chega-
the-world-factbook>. Acesso em: 23 mar. 2016. da a um lugar que as recebe (imigração).
Segundo dados do Censo 2010 (último realiza- No Brasil, as migrações internacionais têm pou-
do), a população brasileira cresceu quase vinte vezes ca influência no crescimento atual da população.
desde o primeiro recenseamento realizado no país, O recente aumento é resultado do crescimento ve-
em 1872. Passou de 9,9 milhões em 1872 para getativo positivo.
190,8 milhões de habitantes em 2010. Veja os levan-
tamentos do Censo no gráfico abaixo. Taxa de fecundidade: estimativa do número médio de filhos que
uma mulher teria até o fim de seu período reprodutivo.
Para explicar e entender o crescimento popula-
cional de um lugar, algumas variáveis são funda-
mentais: taxa de natalidade, taxa de mortalidade e
taxa de fecundidade.
População do Brasil — 1872-2010 Banco de imagens/Arquivo da editora
Censo População
ano
1872 9 930 478
14 333 915
1890 17 438 434
1900 30 635 605
1920 41 236 315
1940 51 944 370
1950 70 070 457
1960
1970 93 139 037
1980
1991 119 002 700
2000
2010 146 825 470
169 872 856
190 755 799
Adaptado de: IBGE. Séries históricas e estatísticas. Disponível em: <http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/series.
aspx?no=10&op=0&vcodigo=CD90&t=populacao-presente-residente>. Acesso em: 10 maio 2016.
100 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Natalidade, mortalidade Banco de imagens/Arquivo da editora século XXI e, por volta de 2047, atingirá seu auge
Reprodução/Arquivo particularcom 238 milhões de pessoas. A partir de 2050,
e fecundidade porém, o país começará a encolher diante de taxas
de natalidade e de fertilidade mais baixas, situação
De acordo com o IBGE, o crescimento contínuo da já observada nos países ricos. No ano de 2100,
população brasileira é devido à queda nas taxas de estima-se que o Brasil terá cerca de 200 milhões
mortalidade após os anos 1940 e também aos altos de pessoas.
níveis de fecundidade desse período até o final da
década de 1970. O crescimento contínuo da população Foto de família brasileira no final dos anos 1940.
brasileira entre os anos 1940 e o final da década de
1970 aconteceu devido à queda nas taxas de mortali- Estrutura da população
dade e à manutenção dos altos níveis de fecundidade.
Para saber como é formada uma população, es-
A partir de meados da década de 1980, quando tudaremos sua estrutura etária, sua composição por
os níveis de fecundidade começaram a apresentar sexo, por pessoal ocupado nas diversas atividades
uma queda mais acentuada, houve uma desacelera- econômicas e sua composição por cor.
ção das taxas de crescimento da população.
Uma população com elevada taxa de crescimen-
A diminuição na taxa de fecundidade ocorreu to demográfico terá maior número de jovens e crian-
devido a alguns fatores, entre os quais podemos ças. Por outro lado, países que crescem pouco, ou
destacar: maior acesso das mulheres ao mercado de têm aumento negativo da população, apresentam
trabalho, aumento da renda média e do nível educa- muitos idosos em sua composição. Todas essas di-
cional, maior difusão de métodos contraceptivos ferenças refletirão, também, na formação da popu-
(preservativos, pílulas, esterilização de homens e lação ativa, na expectativa de vida e nas necessida-
mulheres) e maior planejamento familiar. Observe des do mercado de trabalho.
no gráfico a evolução da taxa de fecundidade.
Composição etária
Brasil: taxa de fecundidade — 1965-2014
Ao analisar uma população, consideramos três
6 5,7 grupos ou faixas principais: jovens, com idade entre
5,4 0 e 19 anos; adultos, entre 20 e 59 anos; e idosos,
acima de 60 anos.
5 4,8
A análise etária de uma população é importante
4,0 por causa das implicações que a predominância de
4 uma ou outra faixa pode significar: vantagens ou preo-
cupações para o planejamento econômico de um país.
3,3
3 2,7 O gráfico que representa a estrutura etária e a
composição por gênero de uma população é a
2,3 pirâmide etária, cujo formato considera fundamen-
2 2,0 1,85 1,95 1,77 1,74 talmente as taxas de natalidade e de mortalidade.
1
0
1965 1970 1975 1980 1985 1990 1999 2004 2007 2011 2013 2014
Adaptado de: IBGE. Evolução demográfica — 1950-2010. Disponível em:
<www.ibge.gov.br>; IBGE. Síntese dos Indicadores Sociais 2015.
Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv95011.
pdf>. Acesso em: 23 mar. 2016.
Dessa forma, as taxas de crescimento populacio-
nal no Brasil passaram de 2,6% em 1980 para 1,2%
em 2010, último dado oficial disponível. Segundo
uma publicação da Organização das Nações Unidas
(ONU), intitulada Panorama da população mun
dial: a revisão de 2015, o Brasil terá, em 2100, uma
população inferior à que registra hoje. De quinto
país mais populoso do mundo, cairá para o 13º lugar.
Conforme as projeções, a população brasileira
continuará a aumentar na primeira metade do
Características da população brasileira C A P Í T U L O 9 101
Por meio da pirâmide etária, é possível verificar o Brasil: pirâmide etária — 2013 Arte Ação/Arquivo da editora
aumento ou a diminuição da taxa de natalidade e a
proporção de pessoas idosas na população. Homens 80+ Mulheres
75-79
Há alguns anos, podíamos afirmar que os países 70-74
desenvolvidos apresentavam elevada porcentagem 65-69
de adultos e que países emergentes, como o Brasil, 60-64
eram nações de jovens. Hoje, porém, o perfil demo- 55-59
gráfico do mundo mudou devido ao aumento da 50-54
expectativa de vida e à diminuição das taxas de na- 45-49
talidade. O envelhecimento da população é um fato 40-44
global, e países emergentes agora conhecem um 35-39
aumento de idosos em sua estrutura etária. 30-34
25-29
A população brasileira está em transição para 20-24
a fase adulta, ou madura, fato que coloca a pirâmi- 15-19
de etária do país em uma situação intermediária: 10-14
a base é mais estreita que o corpo, porque a taxa 5-9
de natalidade está reduzida e o número de adultos 0-4
já compõe a maior parte da população do país; o
topo é mais estreito que a base. No entanto, com a 54321001 2345
elevação da expectativa de vida, o número de ido-
sos será cada vez maior, aumentando, assim, o topo População (em %) Idade População (em %)
da pirâmide. Veja, a seguir, como evoluiu a pirâmi-
de etária brasileira desde a década de 1980. Adaptado de: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2014. Disponível em:
<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv91983.pdf>.
Acesso em: 23 mar. 2016.
Arte Ação/Arquivo da editora Brasil: pirâmide etária — 1980 Como podemos perceber ao comparar as pirâmi-
des etárias, o Brasil está envelhecendo — e rapida-
Homens 80+ Mulheres mente. As principais causas do aumento do número
75-79 de idosos no país são a diminuição das taxas de na-
70-74 talidade e de fecundidade, o avanço da Medicina e a
65-69 adoção de uma prática de vida mais saudável que
60-64 permitem que as pessoas vivam mais e melhor.
55-59
50-54 O IBGE considera o Estatuto do Idoso para de-
45-49 finir como idoso todo aquele que tem 60 anos ou
40-44 mais. Segundo a Pnad 2014, por esse critério, 13,7%
35-39 da população brasileira era composta de idosos. A
30-34 região Sul tem o maior número de pessoas nessa
25-29 faixa etária (15,2%) e o menor número está na re-
20-24 gião Norte (9,1%).
15-19
10-14 Os dois estados com mais idosos são o Rio
5-9 Grande do Sul (17,3%) e o Rio de Janeiro (17,4%).
0-4 Apresentam os menores números Amapá (6,5%) e
Roraima (7,0%). A Região Metropolitana do Rio de
54321001 2345 Janeiro apresenta a mais alta porcentagem (17,4%).
Nessa faixa etária, a maioria era de mulheres
População (em %) Idade População (em %) (55,7%), de cor branca (52,6%) e residentes em
áreas urbanas (84,5%).
Adaptado de: IBGE. Censo Demográfico 1980. Disponível em:
<http://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo. Os idosos, como as crianças e os adolescentes,
são objeto de legislação específica, o Estatuto do
html?view=detalhes&id=7310>. Acesso em: 10 maio 2016. Idoso e o Estatuto da Crian•a e do Adolescente
(ECA), respectivamente.
Arte Ação/Arquivo da editora Brasil: pirâmide etária — 2004
O Estatuto do Idoso “assegura às pessoas de
Homens 80+ Mulheres 60 anos ou mais de idade a efetivação do direito à
75-79 liberdade, à dignidade e ao respeito; à saúde; à edu-
70-74 cação, cultura, esporte e lazer; à profissionalização
65-69 e trabalho; à previdência social; à vida; à alimenta-
60-64 ção, à assistência social; à habitação; e ao transpor-
55-59 te”. Um aspecto constatado pela Pnad, decorrente
50-54 dessa legislação, é o aumento do número de muni-
45-49 cípios que apresentam conselhos para zelar pelos
40-44 direitos das pessoas idosas.
35-39
30-34
25-29
20-24
15-19
10-14
5-9
0-4
54321001 2345
População (em %) Idade População (em %)
Adaptado de: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2014. Disponível em:
<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv91983.pdf>.
Acesso em: 23 mar. 2016.
102 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Veja o gráfico a seguir. principalmente na Região Metropolitana do Rio de
Janeiro (53,6%).
Arte Ação/Arquivo da editora
Bruno Fernandes/FotoarenaBrasil: municípios com conselho
municipal de idosos, por regiões — População e trabalho
2009-2014 Segundo o IBGE “conhecer a estrutura do mer-
% cado de trabalho é um aspecto importante para a
80 análise das condições de vida da população e re-
70 67,8 dução das desigualdades sociais”. Por isso, o ins-
tituto distingue alguns segmentos na população
61,9 63,0 60,8 que trabalha. Seguindo os critérios da Organização
60 55,6 57,7 Internacional do Trabalho (OIT), considera duas
50 classificações da População em Idade Ativa (PIA),
40 38,1 40,3 38,3 37,1 que compreende pessoas entre 15 e 64 anos: a
35,5 População Economicamente Ativa (PEA) e a Popu
30 28,0 lação Não Economicamente Ativa (PNEA).
O IBGE define a PEA como aquela que “com-
20 preende o potencial de mão de obra com que pode
10 contar o setor produtivo”, ou seja, aquelas pessoas
que têm idade e condições físicas de trabalhar. Elas
0 significam a mão de obra com a qual o país pode
Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- contar. Esse contingente compreende a População
-Oeste
2009 2014 Ocupada e a População Desocupada.
A População Ocupada é aquela que está exer-
Adaptado de: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2015. p. 34. cendo um ofício que pode ou não ser remunerado,
Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/ por conta própria ou como um empregador.
liv95011.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2016.
A População Desocupada é formada por aqueles
Gênero que estão sem emprego, mas que estão aptas a tra-
balhar e em busca de trabalho.
Como podemos ver na pirâmide etária de 2013, A PNEA refere-se a crianças, idosos, mulheres e
no Brasil, há pequena predominância das mulheres homens que cuidam do lar, pessoas que não têm
sobre os homens. A população feminina é maior do idade, interesse ou condições de exercer qualquer
que a população masculina devido à maior expec- trabalho.
tativa de vida das mulheres.
De acordo com dados da Pnad
2013, 51,5% da população era
constituída de mulheres e 48,4%,
de homens. A publicação revelou
também que os homens eram
maioria até os 19 anos, mas a par-
tir dos 20 anos a relação se inver-
tia e as mulheres predominavam
entre a população adulta e idosa.
No que se refere às regiões de
predominância, nas regiões Norte
e Centro-Oeste há quase o mesmo
número de homens e mulheres,
com uma pequena supremacia
masculina. A maior desigualda-
de, com maior número de mu-
lheres, está no Sudeste (51,8%), Movimentação de pessoas na Rua 25 de Março, em São Paulo (SP). Foto de 2015.
Características da população brasileira C A P Í T U L O 9 103
Além de definir a População em Idade Ativa Com o advento da globalização, o setor terciário
(PIA), a composição etária reflete-se na estrutura da passou a ocupar lugar cada vez mais importante na
PEA e considera: PEA brasileira. Veja o gráfico a seguir.
■■ Taxa de atividade — percentual de população de Setores econômicos: composição Arte Ação/Arquivo da editora
10 anos ou mais, que participa efetivamente do da população ativa — 2014
mercado de trabalho, estando empregada ou não.
63,5% 14,2% Setor primário
■■ Razão de dependência — expressa a proporção das 22,3% Setor secundário
crianças e dos idosos, que não exercem atividade Setor terciário
remunerada, entre a População em Idade Ativa.
Cesar Diniz/Pulsar Imagens No Brasil, segundo a Pnad 2014, a População em Adaptado de: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2015. Disponível em:
<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv95011.pdf>.
Idade Ativa (ocupada ou não) somava 159,2 milhões Acesso em: 25 mar. 2016.
de pessoas. Nesse mesmo período, a População
Economicamente Ativa estava estimada em 105,8 Diferenças de gênero no trabalho
milhões de pessoas e a taxa de atividade era de 67,5%.
Apesar de as mulheres serem maioria no Brasil e
Setores de atividades econômicas também na População em Idade Ativa (PIA), elas
ainda são minoria na população ocupada (42,5%). Sua
Os setores evoluíram de acordo com as mudan- situação trabalhista não é melhor que a dos homens.
ças econômicas que transformaram um Brasil agrá- Preconceito, salários mais baixos e dupla jornada
rio em industrializado. (casa-serviço) são alguns dos desafios enfrentados
pelas brasileiras. Os homens recebem os maiores sa-
A lários, como se pode comprovar no gráfico abaixo.
Brasil: rendimento médio da PEA, Arte Ação/Arquivo da editora
segundo o gênero (em R$) — 2004-2013
Cassandra Cury/Pulsar Imagens B 2146
1 808 1 921 1 614
1 605 1 705
1 516
1 278 1 322 1233 1272
1 123 1 093
888 843 833
720
531
Marcia Minillo/Arquivo da editora C Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres
Ocupadas
A População Economicamente Ativa divide-se entre os três Trabalhos formais Trabalhos informais
setores de atividades econômicas: primário (A), secundário
(B) e terciário (C). O primário é voltado para o meio rural, 2004* 2013
enquanto o secundário e o terciário são tipicamente urbanos.
Fotos: A — Cabo Frio (RJ), 2015; B — Acari (RN), 2014; * Valores inflacionados pelo INPC de setembro de 2013.
C — São Paulo (SP), 2016. Adaptado de: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2014. p. 132. Disponível em:
<http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv91983.pdf>.
Acesso em: 25 mar. 2016.
As desigualdades de gênero no mercado de tra-
balho não estão apenas no rendimento; o acesso de
mulheres a cargos de chefia e gerência é menor se
comparado ao dos homens. Segundo a Pnad 2013,
a menor proporção estava no Nordeste e a maior, na
região Centro-Oeste.
104 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
40% da força de trabalho no Brasil e chefiam quase
30% das famílias brasileiras. Paralelamente, o núme-
ro de homens que trabalham e se ocupam dos afa-
zeres domésticos também tem aumentado nas últi-
mas décadas.
Marcia Minillo/Arquivo da editora
Luciana Whitaker/Pulsar ImagensDiretora de produção em indústria orienta sua equipe deTrabalho informal
trabalho, em São Paulo (SP), em 2016. As mulheres vêm
conquistando cargos de maior destaque no mercado de O conceito da Organização Internacional do
trabalho. Trabalho (OIT) para trabalho informal compreende
a ideia de precariedade do trabalho e a falta de aces-
Embora lentamente, a igualdade de direitos entre so às políticas de proteção social.
os gêneros no Brasil vem se consolidando, e a par-
ticipação feminina na sociedade é cada vez maior. O mercado de trabalho brasileiro registrou, se-
Segundo a Pnad 2014, as mulheres já são mais de gundo a Pnad 2014, uma taxa de 42,3% de trabalha-
dores informais. As taxas mais altas estão nas re-
giões Nordeste (60,4%) e Norte (59,8%) e as mais
baixas no Sul (31,8%) e no Sudeste (32,8%).
Apesar do crescimento do trabalho formal, em
2014, milhões de pessoas exerciam atividades infor-
mais. Esse contingente abrange principalmente
mulheres, idosos e jovens. A informalidade também
é maior entre a população preta ou parda (48,4%) do
que entre brancos (35,3%).
Trabalho escravo e infantil escola ou brincando, exercem atividades agrícola ou
informal para ajudar na complementação da renda
Embora exista no Brasil uma legislação trabalhista familiar. Há também os casos em que a mão de obra
avançada e que procura proteger o trabalhador, nosso infantil é empregada por ser mais barata que a adulta.
país lida, ainda, com situações preocupantes nesse
âmbito: o trabalho escravo e o trabalho infantil. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef), o trabalho infantil está em queda
Consideramos trabalho escravo aquele que é no Brasil, mas há ainda mais de 3 milhões de
executado sem remuneração ou aquele em que os trabalhadores na faixa etária entre 5 e 17 anos. As
trabalhadores, além de baixa remuneração, são áreas que mais empregam crianças são o trabalho
mantidos em condições sub-humanas (péssimos doméstico e a agricultura. Há também casos de
alojamentos, má qualidade da alimentação, excesso violência e exploração sexual.
de horas trabalhadas, etc.).
Menor de idade trabalhando como ambulante no Rio de
Como se trata de atividade ilegal, é difícil encontrar Janeiro (RJ), em 2014.
estatísticas sobre esse tipo de trabalho. Entretanto,
resgates de trabalhadores da condição de escravo
têm mostrado que eles se concentram na região
Norte, na silvicultura e em lavouras temporárias e, na
região Sudeste, nas plantações de cana-de-açúcar.
Nos dois casos, a maioria dos trabalhadores
escravizados é natural da região Nordeste.
Assim como o trabalho escravo, a exploração do
trabalho infantil é considerada crime. Segundo a
Constituição brasileira de 1988, menores de 16 anos
são proibidos de trabalhar, exceto como aprendizes
e somente a partir dos 14 anos.
Apesar de o trabalho de menores ser proibido
por lei, milhares de crianças, que deveriam estar na
Características da população brasileira C A P Í T U L O 9 105
Composição étnica mais intensa nessas regiões. Já a maior concentra-
ção de brancos na região Sul é explicada, entre ou-
Os indígenas (primeiros habitantes), os negros tros fatores, pela menor utilização da mão de obra
(trazidos do continente africano para trabalhar na escrava nas atividades econômicas, ainda que
condição de escravos) e os brancos (europeus, prin- Portugal também tenha tido a preocupação de ocu-
cipalmente) formam os três grupos básicos que par essa região para garantir a posse efetiva do ter-
compõem a população brasileira. ritório brasileiro. A imigração de europeus para o
Sul e Sudeste, principalmente a partir do século
A intensa miscigenação, ou mestiçagem, entre XIX, também contribuiu para o predomínio da po-
esses grupos originou mulatos (brancos com ne- pulação branca nessas regiões.
gros), cafuzos (indígenas com negros) e caboclos
ou mamelucos (indígenas com brancos). No entan-
to, o IBGE usa a nomenclatura parda para definir
todos os mestiços.
Segundo a Síntese dos indicadores sociais 2015,
publicada pelo IBGE, mais da metade da população
brasileira identificou-se como parda e preta.
Fabio Colombini/Acervo do fotógrafo
Arte Ação/Arquivo da editora
População brasileira por cor (% total)
e por região — 2014
76
72,5
68,2
53,6 53,0 59,2
45,5 46,0 39,9
27,0 23,2
22,1
0,9 0,7 0,5 1,0 0,8 0,9
Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-
-Oeste
Branca Preta ou parda Amarela ou indígena
Família indígena da etnia Barasana, na Aldeia Rouxinol, Adaptado de: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2015. Disponível em:
igarapé Tarumã-Açu, em Manaus (AM). Foto de 2014. <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv95011.pdf>.
Acesso em: 25 mar. 2016.
Nessa pesquisa não há dados separados para as
populações parda ou indígena. Entretanto, a distri- Distribuição da população
buição populacional no território, de acordo com no território
sua cor, ocorreu de forma diferenciada. A população
branca apresentou maior concentração nas regiões População absoluta é o número total de habitan-
Sul e Sudeste; as populações preta e parda, nas re- tes de um país ou de um lugar, sem considerar sua
giões Norte e Nordeste. Os diferentes processos de superfície ou área. Dividindo o número total de ha-
povoamento e ocupação das regiões explicam essa bitantes de uma nação ou lugar (população absolu-
situação: encontramos maior concentração de par- ta) por sua superfície ou área territorial (em quilô-
dos nas regiões Norte e Nordeste em razão da mes- metros quadrados), obtemos a população relativa
tiçagem entre os primeiros habitantes (indígenas), ou densidade demográfica.
o colonizador europeu branco (português) e os afri-
canos. A população negra concentrou-se no Sudeste A densidade demográfica brasileira é de aproxi-
e no Nordeste pelo fato de a escravidão ter sido madamente 23,7 hab./km2, porém a ocupação do
território é bastante desigual. Existem em nosso país
municípios com menos de 1 hab./km2, como Atalaia
do Norte, no estado do Amazonas, e outros com mais
106 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Hans Von Manteuffel/Pulsar Imagensde 12 mil hab./km2, como SãoBrasil: população — 2010
Allmaps/Arquivo da editoraJoão de Meriti, no Rio de Janeiro.
Mais da metade da população do 55° O
país vive em 304 dos 5 570 mu- Boa Macapá Equador
nicípios do Brasil. Vista
0º
Uma das características mais Manaus
marcantes da distribuição espa- Belém São Luís
Fortaleza
cial da população brasileira sem- Teresina Natal
pre foi a concentração em deter- João
minadas áreas do país. Veja o Rio Porto Palmas Pessoa
mapa ao lado. Branco Velho Recife
Maceió
Aracaju
A busca por melhores condi- Salvador
ções de vida ou o surgimento de
novas atividades econômicas Cuiabá DF
em determinadas áreas, em cer- Brasília
tos momentos, explicam o au- Goiânia OCEANO
mento populacional causado, ATLÂNTICO
principalmente, pelos movi- OCEANO Campo Belo
mentos migratórios. A região PACÍFICO Grande Horizonte
Sudeste, por exemplo, foi um
polo de atração populacional Densidade demográfica Vitória
(Habitantes por km2)
Rio de Janeiro Trópico de Capricórnio
Menos de 1 São Paulo N
1 – 10 Curitiba
10 – 50
50 – 200 Florianópolis
Mais de 200 Porto OL
Alegre
0 500 1000 km
S
durante o processo de industria- Adaptado de: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas. 34. ed. São Paulo: Ática, 2013. p. 132.
lização do país, na segunda me-
tade do século XX. Além de verificar como a população se distribui
Segundo a Pnad 2014, as regiões mais populo- pelas regiões brasileiras, a Pnad investiga também sua
sas eram Sudeste e Nordeste, abrigando, respecti- distribuição entre as zonas urbana e rural. De acordo
vamente, 42% e 27,7% da população brasileira; em com a pesquisa realizada em 2014, o Brasil tinha
seguida, vinham as regiões Sul, com 14,3%; Norte, 85, 1% de sua população vivendo nas cidades e 14,9%
com 8,5%; e Centro-Oeste, com apenas 7,5%. No no campo. A região mais urbanizada era o Sudeste e a
entanto, enquanto as três primeiras apresentavam menos urbanizada, o Nordeste. As maiores taxas eram
diminuição de sua representatividade nacional, as a dos estados do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Goiás
duas últimas vinham aumentando consistentemen- e do Distrito Federal. As menores foram encontradas
te as delas. nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Alagoas.
Vista aérea de parte do
município de Recife (PE),
em 2016.
107
Condições de vida Família e Benefício de Prestação Continuada
e desigualdade social (BPC) foram fatores que contribuíram para o cres-
cimento do rendimento médio mensal dos brasi-
Os resultados gerais do Censo 2010, comple- leiros no período.
mentados pela Pnad 2013, mostram avanços sociais
do Brasil na última década. Houve um aumento na Além do aumento de renda, houve também avan-
renda domiciliar. Entre os anos 2000 e 2010, ços nos indicadores sociais, como queda da morta-
Nordeste e Centro-Oeste foram as regiões que apre- lidade infantil e aumento da frequência escolar, es-
sentaram maior crescimento. A região Norte ficou pecialmente nas regiões Norte e Nordeste. Veja a
em terceiro lugar. tabela a seguir.
De acordo com a Pnad 2013, o rendimento médio Indicadores 2001 2014
mensal real dos trabalhadores foi de R$ 1 921,00,
representando um expressivo aumento em relação Esperança de vida (anos) 68,9 75,1
ao verificado em 2009 (R$ 1 242,00). Como conse-
quência desse aumento de rendimentos, houve uma Mortalidade infantil (% ) 28,7 14,4
ampliação da classe média, que passou a ter maior
acesso a bens duráveis, com destaque para compu- Analfabetismo (%) 12,4 8,3
tadores com acesso à internet e telefones celulares,
por exemplo. Taxa de fecundidade (%) 2,4 1,74
Shopping center no município de Teresina (PI), em 2015. Taxa de natalidade (% ) 20,9 14,4
De acordo com o Ministério do Desenvolvi- Taxa de mortalidade (% ) 6,9 6
mento Social e Combate à Fome, a valorização do
Delfim Martins/Pulsar Imagens salário mínimo, o aumento do emprego e os pro- Fonte: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2015.
gramas de transferência de renda como Bolsa Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/
liv95011.pdf>; IBGE. Brasil em síntese. Disponível em: <http://brasilemsintese.
ibge.gov.br/populacao.html>. Acesso em: 23 mar. 2016.
Apesar de as condições de vida do povo brasilei-
ro terem apresentado um avanço na primeira década
do século XXI e de o Brasil ter alcançado, em 2015,
um alto Índice de Desenvolvimento Humano (0,755),
ainda encontramos grandes desigualdades na so-
ciedade.
Um indicador relevante para o entendimento do
grau de desigualdade e concentração dos rendimen-
tos é o Índice de Gini. Este índice serve para medir
a concentração de qualquer indicador, pois é uma
medida do grau de concentração de uma distribui-
ção, cujo valor varia de 0 (zero) até 1 (um), isto é,
varia da completa igualdade (0) à completa desi-
gualdade (1).
Conforme dados da Pnad 2013, o Índice de Gini
da distribuição dos rendimentos mensais das pes-
soas com rendimento no Brasil ficou em 0,495.
Desde 2001, esse índice vem apresentando uma
trajetória descendente, mas ainda é um dos mais
altos do mundo.
Quando se trata de desigualdade social no Brasil,
ficam evidentes as diferenças de rendimentos e do
nível educacional entre grupos de cor ou raça. Essas
desigualdades remontam às antigas bases colonial
e escravocrata brasileiras, que estabeleceram dife-
rentes oportunidades para brancos e negros. Sobre
essa questão, leia o texto a seguir.
108 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Leitura e reflexão Não escreva
no livro
Oito dados que mostram o abismo 4. Joaquim Barbosa foi o primeiro presidente
social entre negros e brancos negro do STF
A população negra brasileira ainda enfrenta um abis- Antes de Joaquim Barbosa, o Supremo Tribunal Fede-
mo de desigualdade. São os negros as maiores vítimas ral teve apenas outros dois ministros negros. O último
da violência e os que sofrem mais com a pobreza. Eles deles, Hermenegildo de Barro, saiu do cargo em 1931. Ou
também têm pouca representatividade nas esferas políti- seja, a corte ficou 72 anos sem nenhum representante
cas e têm renda média muito menor que a dos brancos. afrodescendente. Em 2012, Barbosa se tornou o primeiro
presidente negro da mais alta corte do país.
A discussão sobre estas barreiras a serem superadas
volta ao centro do debate [...], quando o Brasil comemora 5. Mulheres negras são mais atingidas pelo
o Dia da Consciência Negra. A data foi escolhida por ser desemprego
o dia da morte de Zumbi dos Palmares, símbolo da luta
pela liberdade e valorização do povo afro-brasileiro. Dos [...] Entre as brancas, o desemprego é de 9,2%,
mais de 5,5 mil municípios do país, apenas 1 047 adota- enquanto entre as mulheres negras ultrapassa os 12%.
ram feriado na data.
6. Taxa de analfabetismo é duas vezes maior
Veja a seguir alguns dados que mostram esse abismo: entre os negros
1. Mulheres negras são as que se sentem mais [...] a taxa de analfabetismo entre os negros (11,5%)
inseguras é mais de duas vezes maior que entre os brancos (5,2%).
Dados do IBGE mostram que as mulheres negras, 7. Renda dos negros é 40% menor que a dos brancos
quando comparadas com outros segmentos da popula-
ção, são as que se sentem mais inseguras em todos os Rendimentos médios reais recebidos no mês
ambientes, até mesmo em suas próprias casas.
Raça/cor Renda média
[...]
Esse padrão de vulnerabilidade se repete em outros Brancos R$ 1.607,76
indicadores de violência. Segundo dados do IBGE e do
Ipea, a população negra é vítima de agressão em maior Negros R$ 921,18
proporção que a população branca — seja homem ou
mulher. Brasil R$ 1.222,90
Sexo/cor Vítimas de agressão 8. Menos de um terço dos candidatos a
Homens brancos 1,50% governador nas eleições deste ano [2014] eram
Homens negros 2,10% pardos ou negros
Mulheres brancas 1,10%
Mulheres negras 1,40% SOUZA, B. Exame.com, 20 nov. 2014. Disponível em:
<http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/8-dados-que-
mostram-o-abismo-social-entre-negros-e-brancos>.
Acesso em: 23 mar. 2016.
2. Brasil só teve um presidente negro Com base no texto e nos seus conhecimentos,
faça as atividades propostas.
Nilo Procópio Peçanha foi o primeiro — e até agora
o único — presidente do Brasil negro. Filho de pai negro 1. Procure no texto duas situações que comprovem
e mãe branca, Peçanha assumiu a presidência após a que há um abismo de desigualdade entre brancos
morte de Afonso Pena e ficou no cargo entre 1909 e 1910. e afrodescendentes. Comente-as.
3. Negros são a maioria no Bolsa Família 2. Analise a situação das mulheres negras com re-
lação ao desemprego.
A população negra é também mais vulnerável à
pobreza. Sete em cada 10 casas que recebem o benefício 3. Na sua opinião, o feriado do Dia da Consciência
do Bolsa Família são chefiadas por negros, segundo Negra pode contribuir para diminuir a discrimi-
dados do estudo Retrato das desigualdades de gênero e nação étnica e socioeconômica no Brasil? Justifi-
raça, do Ipea. que sua resposta.
O perfil dos domicílios das favelas brasileiras também 4. Elabore um pequeno texto, em seu caderno, que
aponta para o abismo social que ainda persiste entre aborde a questão racial no Brasil. Depois, troque
brancos e negros no Brasil. [...] seu texto com os colegas da sala e conversem
sobre as conclusões a que vocês chegaram.
Características da população brasileira C A P Í T U L O 9 109
Diálogos Geografia, Língua
Portuguesa e Sociologia
A cultura popular brasileira escrita Luís da CâmaraArquivo/Estadão Conteúdo/AE
por Câmara Cascudo Cascudo Raimundo Paccó/Frame/Folhapress
(1898-1986).
O Brasil é uma nação que absorveu diversas culturas Foto tirada no
originárias de outros povos. A chegada dos europeus nessas escritório do
terras, no final do século XV, revelou um grande contraste autor em Natal
cultural com os nativos que aqui viviam. Daí por diante, (RN), em 1958.
outras culturas foram introduzidas durante o processo de
colonização das terras brasileiras. no século XX. Veja o que um professor universitário escreveu
sobre Cascudo:
Africanos de diversas etnias foram trazidos por meio do
tráfico de escravos. A miscigenação entre os povos nativos, Através desses e de outros de seus estudos, foram
os europeus e os africanos figura como a mais significativa configurados dimensões de sociabilidade do homem co-
base da cultura popular brasileira. mum brasileiro, visíveis no cotidiano da alimentação,
moradia e vestuário, gestos, lembranças, comemorações
Mais recentemente, principalmente ao final do século XIX e tantas outras faces da condição humana.
e início do século XX, contribuições culturais de povos vindos
do Japão, da Alemanha, da Itália, do Líbano, etc., também SILVA, Marcos (Org.). Dicionário crítico Câmara Cascudo.
agregaram elementos à nossa cultura. São Paulo: Perspectiva, 2003. p. XIII.
Muitas pessoas contribuíram para um melhor entendi-
mento acerca da cultura local, dentre eles podemos destacar
o historiador, antropólogo, advogado e jornalista nascido
no Rio Grande do Norte, Luís da Câmara Cascudo,
considerado um dos principais estudiosos da cultura popular
Uma das festividades mais prestigiadas no Brasil, o Festival Folclórico de Parintins, com seus bois-bumbás Caprichoso e Garantido.
Parintins (AM), em 2015.
110 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Com mais de 150 livros publicados, Câmara Cascudo Marco Antônio Sá/Pulsar Imagens
deixou um importante legado histórico-cultural para o Brasil.
Seus estudos catalogaram diversas festividades, tradições,
alimentos, lendas, contos e ritmos populares. Assim, o
estudioso define a palavra folclore:
Todos os países do mundo, raças, grupos humanos,
famílias, classes profissionais, possuem um patrimônio
de tradições que se transmite oralmente e é defendido e
conservado pelo costume. Esse patrimônio é milenar e
contemporâneo. Cresce com os conhecimentos diários
desde que se integrem nos hábitos grupais, domésticos
ou nacionais. Esse patrimônio é o FOLCLORE. Folk, povo,
nação, família, parentalha. Lore, instrução, conhecimen-
to na acepção da consciência individual do saber. Saber
que sabe. Contemporaneidade, atualização imediatista
do conhecimento.
CASCUDO, Luís da Câmara. Folclore do Brasil. São Paulo:
Global, 2012. p. 9.
Rubens Chaves/Folhapress
Rubens Chaves/Acervo da editora
Capa do Dicionário Desfile do boi-bumbá no município de Nazaré da Mata (PE),
do Folclore Brasileiro, em 2014.
um dos livros mais
conhecidos de Em 1954, no Rio de Janeiro, foi lançada a 1ª edição do
Câmara Cascudo.
Dicionário do folclore brasileiro, uma obra de referência e
Apresentação da Cavalhada em São Luiz do Paraitinga (SP),
em 2014. A Cavalhada é uma representação de batalhas de grande relevância para os estudos da cultura popular
travadas na Europa, durante a Idade Média.
brasileira, consagrada como uma das maiores contribuições
ao estudo sistemático de nosso folclore.
Veja a seguir alguns verbetes retirados do livro de Luís
da Câmara Cascudo. Fabio Colombini/Acervo do fotógrafo
Açaí: macerato das frutas da
palmeira açaí, saboroso e
nutritivo, e de uso genera-
lizado na região Amazônica.
Barriga verde: nome dado
aos naturais do estado de
Santa Catarina.
Deixada: abandonada pelo
esposo.
Mamaluca: filha de branco
com mulher indígena.
Mamata: rendimentos abun-
dantes sem trabalho. Açaí
Papa-goiaba: o natural do estado do Rio de Janeiro, o
fluminense.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro.
Rio de Janeiro/São Paulo: Ediouro. 1999.
Qual dos verbetes anteriores você já tinha escutado
ou lido em algum jornal, livro ou revista? Que ver-
betes típicos da sua região você conhece? Converse
sobre isso com os colegas.
Características da população brasileira C A P Í T U L O 9 111
Refletindo sobre o conteúdo
1. Indique um aspecto importante para conhecer os dados demográficos de um país.
2. O que significa afirmar que o Brasil apresenta crescimento vegetativo positivo, enquanto algumas nações europeias
têm crescimento vegetativo negativo?
3. Observe o esquema a seguir. Não escreva
no livro
ÉRAMOS SEIS, SEREMOS TRÊS Banco de imagens/Arquivo da editora
A fecundidade brasileira despencou – em total de filhos por mulher
Em 1960, a brasileira Em 1980, passou para 4 crianças Em 2000, eram 2 filhos Em 2020, a média será 1,5
tinha em média 6 filhos
1960 1980 2000 2020
Adaptado de: COHEN, David. Revista Época, 25 maio 2009. Disponível em:
<www.enemvirtual.com.br/exercicios-sobre-populacao/>. Acesso em: 23 mar. 2016.
a) Identifique o fenômeno descrito no esquema.
b) Releia o capítulo e explique duas causas para a situação descrita no esquema anterior.
4. Analise os gráficos a seguir.
Brasil: gráficos populacionais
Idade – 2013 Idade – 2040 Idade – 2060 Arte Ação/Arquivo da editora
Homens 90+ Mulheres Homens 90+ Mulheres Homens 90+ Mulheres
85-89 85-89 85-89
10 8 6 4 2 80-84 2 4 6 8 10 10 8 6 4 2 80-84 2 4 6 8 10 8642 80-84 2468
75-79 75-79 75-79
70-74 70-74 70-74
65-69 65-69 65-69
60-64 60-64 60-64
55-59 55-59 55-59
50-54 50-54 50-54
45-49 45-49 45-49
40-44 40-44 40-44
35-39 35-39 35-39
30-34 30-34 30-34
25-29 25-29 25-29
20-24 20-24 20-24
15-19 15-19 15-19
10-14 10-14 10-14
5-9 5-9 5-9
1-4 1-4 1-4
0-1 0-1 0-1
00
População (em milhões) População (em milhões) População (em milhões)
Adaptado de: IBGE. Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Sociais.
Projeção da população por sexo e idade para o Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação, 2013.
a) Que nomes esses gráficos recebem?
b) Elabore duas conclusões com base na análise dos gráficos apresentados.
112 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
capítulo 10
Brasil: movimentos
migratórios
Henri Ballot/Instituto Moreira Salles
A grande mobilidade espacial é um dos traços marcantes da população brasileira. Até o fim da década de 1970, os movimentos
populacionais no Brasil caracterizaram-se pela grande mobilidade de pessoas dentro do próprio país e pela vinda de imigrantes
europeus e asiáticos nos séculos XIX e XX. Na imagem, migrantes nordestinos indo para São Paulo, década de 1940.
Migrações internas: da economia brasileira, sempre ligados a um deter-
tradição histórica minado produto ou atividade, favoreceu essa mobi-
lidade, pois as pessoas são sempre atraídas por fa-
A mobilidade interna do povo brasileiro sempre tores como emprego, facilidade de obter terras ou
esteve ligada ao processo de povoamento de um de enriquecer rapidamente.
enorme território. A sucessão dos ciclos ou períodos
Veja na tabela a seguir as características das
migrações no território brasileiro.
Brasil: movimentos migratórios C A P Í T U L O 1 0 113
Ciclo Histórico das migrações internas no Brasil
XVI e XVII
XVIII Características
XIX Saída de nordestinos da Zona da Mata rumo ao Sertão, atraídos pela expansão da pecuária.
XIX Saída de nordestinos e paulistas rumo à região mineradora (Minas Gerais).
Saída de mineiros rumo ao interior paulista, atraídos pela expansão do café.
Saída de nordestinos rumo à Amazônia para trabalhar na extração da borracha.
XX – Década Saída de nordestinos rumo ao Centro-Oeste (Goiás) para trabalhar na construção de Brasília.
de 1950 Esse período ficou conhecido como a Marcha para o Oeste, e os migrantes, como candangos.
Décadas de Saída de nordestinos (principalmente) rumo ao Sudeste, motivada pela industrialização.
1950 e 1960 As cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro receberam o maior fluxo de migrantes.
Décadas de Saída de nordestinos que continuaram migrando para o Sudeste, o Centro-Oeste (Mato Grosso) e o Sul
1960 e 1970 (Paraná). A partir de 1967, com a criação da Zona Franca de Manaus, ocorreu intensa migração de
nordestinos rumo à Amazônia (principalmente Manaus).
Em grande parte foi uma migração orientada pelo governo federal.
Décadas de Migrações de sulistas rumo ao Centro-Oeste (agropecuária) e de nordestinos rumo à Amazônia
1970 a 1990 (agropecuária e garimpos). Em consequência, o Norte e o Centro-Oeste foram, respectivamente, as regiões
que apresentaram o maior crescimento populacional do Brasil, nas últimas décadas.
Tabela elaborada pelos autores.
Principais tipos de migração sem qualificação profissional que residem entre o Luciana Whitaker/Pulsar Imagens
Agreste e o Sertão nordestinos (os corumbás) e se
interna deslocam até a Zona da Mata (faixa litorânea) para
realizar o corte da cana. Após a safra, geralmente
As migrações internas no Brasil caracterizam-se depois de alguns meses, retornam aos seus locais
por dois tipos principais: a intrarregional e a inter- de origem.
-regional.
Migração inter-regional é o deslocamento de
Migração intrarregional é entendida como a mo- pessoas entre as regiões brasileiras.
vimentação de pessoas dentro de uma mesma re-
gião. Desde a década de 1990, essa dinâmica tem Um tipo de movimento populacional muito comum é o
sido caracterizada pela saída de pessoas das peque- deslocamento dos boias-frias, trabalhadores que vivem em
nas cidades, principalmente na região Nordeste, cidades, mas se deslocam para trabalhar no campo. Na
rumo às capitais de seus respectivos estados, onde imagem cortador de cana-de-açúcar em Campos dos
a possibilidade de novas oportunidades é maior. E Goytacazes (RJ). Foto de 2014.
também pela saída de pessoas das metrópoles na-
cionais localizadas no Sudeste, como São Paulo e
Rio de Janeiro, rumo às cidades médias do próprio
Sudeste, em busca de melhor qualidade de vida.
Neste tipo de migração, é comum trabalhadores
de áreas agrícolas partirem para outras regiões, onde
há necessidade de mão de obra para o cultivo de
algum produto (períodos de safra). São os movimen-
tos sazonais, assim chamados por se realizarem con-
forme as estações de plantio e colheita. Em geral,
nos movimentos sazonais, as pessoas retornam ao
local de origem quando as condições que motivaram
a saída temporária são resolvidas. Um exemplo des-
se tipo de migração ocorre entre os trabalhadores
114 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Esse tipo de migração continua sendo o mais centros urbanos, de uma vasta massa de excluídos
que passou a habitar as periferias das grandes cida-
típico e, quantitativamente, o mais expressivo dentre des, em bairros desprovidos de infraestrutura, de
transportes e de saneamento básico, muitas vezes
as transferências populacionais no interior do Brasil. formando as chamadas favelas. Houve também os
casos dos migrantes que ficaram em pior situação
Durante meio século de história, a região Nor- e, sem alternativa, tiveram de viver nas ruas.
deste, que não voltou a ter a mesma importância Veja na tabela a seguir como variou a taxa de
imigração líquida entre 1950 e 1980.
econômica após o declínio da eco-
nomia açucareira (nos séculos Fronteira
XVI e XVII), caracterizou-se como agrícola: faixa
região de expulsão populacional. que determina o Taxa de imigração líquida (%)
Primeiro, para a região Sudeste; avanço da
depois, para as novas fronteiras agropecuária Região 1950 1960 1970 1980
agrícolas das regiões Norte e em terras ainda
não ocupadas.
Centro-Oeste. Norte 12,12 9,72 9,9 18,16
A região Sudeste, ao contrário, viveu dois mo- Nordeste 5,47 6,31 5,93 6,49
mentos fundamentais para a economia brasileira
— a economia cafeeira e a industrialização —, além Sudeste 11,9 13,71 16,57 18,45
da descoberta do ouro no período colonial. Por esses Sul 10,94 16,83 17,5 14,06
fatores e por ter abrigado a capital federal (a cidade Centro-Oeste 20,69 29,38 32,84 35,14
do Rio de Janeiro) até o início da década de 1960, o Fonte: IBGE. Séries Estatísticas e históricas. Migrações internas.
Disponível em: <http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/lista_tema.
Sudeste tornou-se o centro econômico do país e, em
aspx?op=0&no=10>. Acesso em: 23 mar. 2016.
consequência, a região de maior atração populacio-
nal do Brasil, principalmente até a década de 1980.
De maneira geral, nos dois casos de migração, a Taxa de migração líquida: relação entre o
número de pessoas não naturais de uma região
população se movimenta de áreas rurais para áreas e o total da população residente nessa região.
urbanas, de áreas rurais para áreas rurais e de áreas Com o aumento do número de habitantes viven-
do nas periferias das grandes cidades, passaram a
urbanas para áreas urbanas. ser comuns movimentos diários de pessoas que
saem de bairros periféricos para trabalhar em áreas
A saída da população das zonas rurais para as centrais. Esses movimentos são chamados pendu-
lares, por lembrar o mecanismo do pêndulo de um
zonas urbanas, chamada êxodo rural, é o principal relógio (que vai e vem).
movimento populacional interno brasileiro, tanto
em nível inter-regional como intrarregional.
As difíceis condições dos moradores das áreas
rurais, como a concentração de terras, superexplo-
ração da mão de obra, poucas oportunidades de
trabalho para os jovens, secas prolongadas, baixos Cesar Diniz/Pulsar Imagens
salários, mecanização de algumas lavouras e, prin-
cipalmente, a industrialização que se acentuou após
a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), constituem
as principais causas do intenso êxodo rural brasilei-
ro. A ilusão de melhores condições de vida na cida-
de, como bons empregos nas indústrias e nos servi-
ços, salários mais altos, maior acesso à assistência
médica e educação, também foi um atrativo que
provocou a mudança de populações do campo para
a cidade.
O êxodo rural, a partir das décadas de 1950 e
1960, deu início ao intenso processo de urbanização,
que se caracterizou pelo grande crescimento da po-
pulação urbana e a diminuição proporcional da
população rural. Outra consequência desse movi- Passageiros embarcando em transporte coletivo no município
de Juazeiro (BA). Foto de 2016.
mento migratório foi o surgimento, nos grandes
Brasil: movimentos migratórios C A P Í T U L O 1 0 115
A partir dos anos 1960 ocorreram grandes fluxos As migrações internas no Allmaps/Arquivo da editora
migratórios rumo ao Norte e ao Centro-Oeste, pro- século XXI
vocando um expressivo crescimento populacional
nessas regiões. As migrações internas para o Norte Mais recentemente, a partir da década de 1990
e o Centro-Oeste foram influenciadas pelo governo e da primeira década do século XXI, algumas ten-
federal, sob o comando dos militares, durante a dita- dências passaram a caracterizar os movimentos
dura militar (1964-1985). Nesse período, os projetos migratórios internos no Brasil.
de migração estavam baseados no desenvolvimento
de grandes obras, como as rodovias Transamazônica Veja nos mapas abaixo para onde se dirigiam as
(região Norte) e Cuiabá-Santarém (regiões Centro- migrações internas nas décadas de 1990 e 2000.
Oeste e Norte, respectivamente), e um projeto de
colonização que fixaria os novos migrantes em uma Migrações na década de 1990
faixa de 10 km ao longo dessas rodovias.
50º O
Cesar Diniz/Pulsar Imagens RR AP Equador
0º
AM PA MA CE RN
PI PB
AC TO
RO PE
MT AL
GO
DF SE
BA
OCEANO N MS
PACÍFICO MG OCEANO
L PR SP ATLÂNTICO
O 1 260 km SC
ES
S RS RJ
0 630 Trópico de Capricórnio
Principais fluxos
migratórios
Adaptado de: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas. 34. ed. São Paulo: Ática, 2013. p. 135.
Migrações na década de 2000 Allmaps/Arquivo da editora
50º O
Caminhão de carga trafegando na rodovia Transamazônica, RR AP Equador
trecho de São Raimundo das Mangabeiras (MA), em 2014. 0º
A migração para as regiões Norte e Centro-Oeste era também
uma maneira de desviar o fluxo migratório do Sudeste, que já AM PA MA PI CE RN
apresentava sinais de saturação. RO MT TO
AC PB
Posteriormente, da década de 1980 em diante, N PE
projetos agropecuários, de mineração, tanto do go- OCEANO L AL
verno brasileiro quanto de empresas estrangeiras, PACÍFICO SE
e a possibilidade de enriquecimento por meio de S
garimpos, atraíram milhares de nordestinos e sulis- O 630 1 260 km DF BA
tas para as regiões Norte e Centro-Oeste. Os inten- GO
sos fluxos migratórios para essas áreas, que ficaram 0 OCEANO
conhecidas como novas fronteiras agrícolas, foram MG ATLÂNTICO
os responsáveis por torná-las de maior crescimento
populacional no Brasil, conforme os últimos censos MS ES
demográficos.
SP RJ Trópico de Capricórnio
PR
SC Principais fluxos
RS migratórios
Adaptado de: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas. 34. ed. São Paulo: Ática, 2013. p. 135.
116 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
João Prudente/Pulsar Imagens Nessas décadas, observam-se mudanças signifi- Migrações estrangeiras
cativas na dinâmica espacial da população brasileira: do século XIX ao XXI
■■ a diminuição da migração interna rumo ao Entre os países americanos, o Brasil foi o quarto
Sudeste, como reflexo do aumento das migra- que mais recebeu imigrantes, ficando atrás dos
ções intrarregionais; Estados Unidos, da Argentina e do Canadá. O mar-
co do início da imigração no Brasil foi o decreto
■■ grande aumento da procura pelas regiões assinado em 1808 por dom João VI, que permitia a
Centro-Oeste e Norte; posse de terras por estrangeiros. A partir daí, gran-
des contingentes de portugueses, italianos, alemães,
■■ a diminuição da migração interna rumo às duas espanhóis, eslavos e japoneses, entre outros, elege-
metrópoles nacionais: São Paulo e Rio de ram o Brasil como nova pátria.
Janeiro. Verifica-se essa tendência comparando
com outras capitais e cidades de médio porte; Foi a partir da segunda metade do século XIX
(1850) e o início do século XX (1930) que o Brasil
■■ a volta de nordestinos aos seus estados de ori- recebeu o maior número de imigrantes. Em 1850,
gem também foi significativa e, principalmente nosso país era essencialmente agrário e dependen-
a busca pelas capitais da região, como Fortaleza, te da mão de obra escrava, cuja entrada no país
Salvador e Recife, começam a mudar o perfil de estava proibida pela Inglaterra a partir desta data.
área de expulsão populacional. Após a Abolição da Escravatura, decretada em
De acordo com o Censo de 2010, a situação da 13 de maio de 1888, a cultura cafeeira já tinha feito
a riqueza do Vale do Paraíba (Rio de Janeiro e São
mobilidade populacional interna no Brasil era: Paulo), e fazendeiros que iniciavam a expansão
■■ do total da população, 78,2 milhões de pessoas dessa cultura em outras regiões no estado de São
(40,1%) não moravam na cidade onde nasceram, Paulo estimularam a vinda de imigrantes, princi-
contra 117 milhões (59,9%) naturais do municí- palmente colonos italianos, para substituir a mão
pio. O maior ponto de atração estava nas cida- de obra escrava.
des médias, que ofereciam bons serviços e me-
lhor qualidade de vida; Outros fatores, como as crises econômicas na
■■ os brasileiros, em sua maioria (84,5%), viviam Europa nessa mesma época e a possibilidade de
no estado onde nasceram; ascensão social na América, também motivaram as
■■ a região Centro-Oeste e alguns estados da região grandes correntes migratórias para o Brasil.
Norte apresentavam os maiores percentuais de
migrantes, o que é explicado como consequência Esses imigrantes eram, em sua maioria, jovens,
da expansão das fronteiras agrícolas; pobres, do sexo masculino, em idade produtiva e
■■ a região Nordeste, devido aos problemas socioe- com habilidades técnicas e manuais que desenvol-
conômicos, foi a que apresentou o menor núme- veram ao trabalhar nas lavouras de seus respectivos
ro de migrantes.
países. Alguns traziam também a
Vista da cidade de Anápolis (GO), em 2015. mentalidade empresarial, uma
vez que vinham de potências in-
dustrializadas, o que foi funda-
mental, alguns anos depois, para
as primeiras experiências realiza-
das nesse setor no Brasil.
O gráfico da página 118 per-
mite visualizar os períodos de
maior imigração para o país.
Relacioná-los com importantes
acontecimentos históricos do
Brasil e do mundo pode explicar
o maior ou o menor número de
imigrantes, em determinadas
épocas.
Brasil: movimentos migratórios C A P Í T U L O 1 0 117
Brasil: total de imigrantes — 1820-1975 1850 – Lei que proibiu o tráfico de escravos Banco de imagens/Arquivo da editora
1888 – Abolição da escravatura
226 001,00 1914 – Primeira Guerra Mundial
180 800,80 1929 – Crise econômica Mundial
135 600,60 1939 – Segunda Guerra Mundial
90 400,40 1950 – Processo de industrialização
1964 – Regime Militar
45 200,20
0,00
1820
1826
1829
1838
1841
1847
1850
1853
1856
1859
1862
1865
1868
1871
1874
1877
1880
1883
1886
1889
1892
1895
1898
1901
1904
1907
1910
1913
1916
1919
1922
1925
1928
1931
1934
1937
1940
1943
1946
1949
1952
1955
1958
1961
1967
1975
Adaptado de: IBGE. Séries estatísticas e históricas. Migrações externas. Disponível em: <http://seriesestatisticas.ibge.gov.br/
series.aspx?vcodigo=POP2&sv=36&t=migracoes-externas-total-imigrantes-brasil>. Acesso em: 23 mar. 2016.
Como você pode observar no gráfico, a partir da Brasil passou a receber novamente imigrantes e,
década de 1930, a vinda de imigrantes para o Brasil agora, também refugiados, como veremos mais
começou a diminuir consideravelmente, em razão adiante.
de um conjunto de fatores.
A imigração estrangeira no Sul
■■ O não cumprimento das promessas feitas pelos e no Sudeste
agenciadores desses imigrantes, que não encon-
travam aqui o que lhes era prometido, como ter- As regiões Sul e Sudeste foram as que mais re-
ra própria para cultivar. ceberam imigrantes estrangeiros. Veja no gráfico a
seguir os principais grupos de imigrantes que vie-
■■ A queda da Bolsa de Valores de Nova York em ram para o Brasil.
1929, que causou instabilidade econômica mun-
dial e a queda do preço do café, principal fonte Brasil: principais grupos de imigrantes Banco de imagens/Arquivo da editora
de divisas para o Brasil. por nacionalidade — 1851-1960
■■ A instabilidade política motivada pela Revolução 5,5% 5,3% Portugueses
de 1930, quando o presidente Getúlio Vargas Italianos
tomou o poder. 15,3% 38,2% Espanhóis
Alemães
■■ A Lei de Cotas da Imigração, instituída em 1934 35,7% Japoneses
no governo Vargas. Ficou estabelecido pela
Constituição de 1934 e reiterado na Constituição Adaptado de: RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do
de 1937 um limite de 2% do total de novos imi- Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 242. (Edição de bolso.)
grantes que poderiam vir para o Brasil a cada
ano, segundo a nacionalidade. Esses 2% eram Enquanto a colonização estrangeira no Sul fun-
calculados sobre o total de imigrantes que ha- damentou-se na pequena e média propriedade, na
viam entrado nos últimos cinquenta anos. Os policultura e na agricultura familiar, na região
portugueses eram a única exceção a essa lei. Sudeste ela foi impulsionada pelo desenvolvimento
das grandes lavouras cafeeiras.
■■ Outras restrições juntaram-se à Lei de Cotas,
como obrigar que 80% dos novos imigrantes fos- A região Sul recebeu italianos, alemães e eslavos.
sem agricultores. Os italianos se estabeleceram nas regiões de
Garibaldi, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, no Rio
Depois desse período, apenas houve um aumen- Grande do Sul, onde se dedicaram ao cultivo da uva
to de entrada de imigrantes nas décadas de 1950 e
1970, em razão do processo de industrialização e do
crescimento econômico dessas décadas.
A partir da última década do século XX e, nota-
damente, na primeira década do século XXI, o
118 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
e à fabricação do vinho. Também se estabeleceram no Vale do Paraíba; cultivo de chá e banana, no Vale
em Santa Catarina, nas cidades de Orleans, Nova do Rio Ribeira do Iguape; criação do bicho-da-seda
Veneza, Urussanga e Criciúma. e avicultura, em Alta Paulista e Alta Sorocabana, e
atividades hortifrutigranjeiras, em Cinturões verdes
O Paraná recebeu, principalmente, povos eslavos na Grande São Paulo e arredores. No Paraná, os ja-
(russos, ucranianos e poloneses), que se fixaram em poneses dedicaram-se à agricultura (café, soja) e à
Rio Negro, Ivaí e nos arredores de Curitiba. criação do bicho-da-seda. Em Mato Grosso, também
exerceram atividades agrícolas. No Pará, introduzi-
Entre 1850 e 1851, os alemães fundaram impor- ram o cultivo de pimenta-do-reino e da juta.
tantes colônias no estado de Santa Catarina, como
a que deu origem a Blumenau, hoje importante cen- Outras correntes migratórias, como de espanhóis
tro industrial e comercial catarinense. e sírio-libaneses, espalharam-se pelo território bra-
sileiro e se instalaram nos estados do Amazonas, do
A região Sudeste recebeu principalmente italia- Rio de Janeiro e de São Paulo.
nos e japoneses, que se dirigiram para os cafezais.
Das correntes migratórias que se dirigiram para
Os italianos, nos primeiros anos, dedicaram-se o Brasil, a mais significativa foi a de portugueses.
às lavouras cafeeiras do estado de São Paulo, que Entre 1890 e 1930, eles formaram o grupo mais nu-
recebeu o maior número deles. Cidades como Tietê, meroso de imigrantes que chegaram ao Brasil, pois
Orlândia, Ribeirão Preto e Araraquara têm ainda não sofriam as restrições impostas aos demais gru-
descendentes de imigrantes italianos. No Espírito pos. Os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro
Santo, fixaram-se na região da cidade de Colatina. receberam o maior número deles, que também se
encontram espalhados por todo o Brasil. As cidades
Os japoneses vieram para o Brasil a partir de de Salvador (BA), Recife (PE), Belém (PA),
1908. Quase todos se dirigiam para as lavouras de Florianópolis (SC), entre outras, têm importantes
café do interior paulista e do norte do Paraná. Outros comunidades portuguesas.
se fixaram nos estados do Mato Grosso e Pará.
Em São Paulo, dedicaram-se a variadas atividades
agrícolas e em diferentes regiões: cultivo de arroz,
Zig Koch/Pulsar Imagens Os alemães estabeleceram-se nos
Cris Faga/Fox Press Photo/Folhapressestados do Sul. Na imagem
construção em Blumenau (SC) em
estilo enxaimel, típico da arquitetura
alemã. Foto de 2014.
O bairro da Liberdade, na cidade
de São Paulo (SP), concentra
uma grande colônia japonesa.
Nos últimos anos, esse bairro
também tem recebido grande
número de imigrantes chineses.
Na foto, comemoração do Ano-
-Novo chinês, em 2016.
Brasil: movimentos migratórios C A P Í T U L O 1 0 119
Geografia Regional Geografia
e História
Influência alemã e italiana na paisagem da A primeira metade do século XIX ficou marcada pela
região Sul chegada de imigrantes de diversas nacionalidades ao
Brasil. Após a Independência, o governo passou a incen-
A ocupação e a transformação das paisagens brasi- tivar a ocupação do sul do país por meio da criação de
leiras, desde a chegada dos primeiros colonizadores, “colônias” nos atuais estados do Paraná, de Santa
ocorreram de maneiras diferentes para cada região. No Catarina e do Rio Grande do Sul. A possibilidade de ter
território que atualmente corresponde à região Sul, esses as próprias terras e desenvolver as próprias atividades
movimentos apresentam particularidades em relação às econômicas atraiu muitos imigrantes.
demais regiões do país.
A região Sul apresenta grande diversidade cultural e
Inicialmente, o território brasileiro foi ocupado na rica arquitetura herdada dos primeiros imigrantes. Nos
faixa litorânea e tropical, com a exploração do pau-brasil municípios onde esses aspectos estão mais preservados,
e, posteriormente, com o cultivo da cana-de-açúcar, du- o turismo tornou-se essencial para a economia local.
rante o período colonial.
Alemães Italianos OsBanco de imagens/Arquivo da editora italianos também
têm destaque na forma-
Os primeiros imigrantes do
sul do Brasil foram os ale-
mães. Estima-se que um ção cultural e arquitetô-
grupo de 39 indivíduos foi nica da região Sul. O esta-
assentado, no ano de 1824, do do Rio Grande do Sul re-
nas proximidades do rio dos cebeu o maior contingente
Sinos, no atual município de São desses imigrantes, que inicial-
Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Outros grupos mente ocupou terras agrícolas,
se estabeleceram em diversas localidades da re- dedicou-se ao cultivo da uva e à
gião. Por muito tempo, esses imigrantes foram a industrialização do vinho. Muitos
população majoritária nas terras do Sul e mantiveram PR núcleos de ocupação italiana tor-
suas raízes culturais.
RS SC Pomerode naram-se municípios, como Bento
Muitas colônias fundadas por esses imigrantes Gonçalves e Garibaldi (RS) e Nova
evoluíram, constituindo alguns dos atuais municípios,
conservando traços arquitetônicos, festas populares e Antônio Veneza e Nova Trento (SC).
Prado Um município que simboliza essa
até mesmo sua língua de origem. Entre os muni- imigração é Antônio Prado, no Rio Grande
cípios com herança colonial alemã, destacamos: Adaptado de: IBGE. Atlas do Sul, conhecido por constituir o maior
geográfico escolar. 6. ed. Rio de
São Leopoldo e Novo Hamburgo (RS); Pomerode Janeiro, 2012. p. 176-177. acervo arquitetônico em área urbana refe-
e Blumenau (SC); Londrina e Rio Negro (PR). rente à imigração italiana no Brasil, com um
conjunto de 48 edificações tombadas pelo Instituto do
Arquivo Histórico José Ferreira da Silva/Fundação Blumenau, SC.
Gerson Gerloff/Pulsar Imagens
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Colonos alemães em Blumenau (SC), na segunda metade do Casas com arquitetura típica das colônias italianas no
século XIX. município de Antônio Prado (RS), em 2015.
120 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
A emigração de brasileiros fronteira era mais baixo, muitos desses trabalha-
dores deixaram o Brasil. Ao longo da fronteira com
No início da década de 1980, o baixo crescimen- o Brasil têm-se desenvolvido várias cidades
to econômico fez o Brasil conhecer um novo proces- constituídas majoritariamente por brasileiros, cha-
so em sua dinâmica populacional: a emigração de mados “brasiguaios”. A emigração de brasileiros
brasileiros, principalmente para os Estados Unidos, chegou a ser incentivada na década de 1970 pelo
o Japão, o Canadá, a Austrália e países da Europa e governo de Alfredo Stroessner (presidente do
da América Latina. Paraguai entre 1954-1989).
Antes disso, o país tinha conhecido as migrações Banco de imagens/Arquivo da editora Emigrantes internacionais, segundo Adaptado de: IBGE. Censo demográfico 2010. Disponível em: <www.ibge.gov.br>.
forçadas, por motivos políticos, sobretudo nas dita- o país de residência — 2010 (%) Acesso em: 23 mar. 2016.
duras de Getúlio Vargas (1930) e do regime militar
(1964-1985). Estados Unidos 13,4 23,8
Portugal 25 30 %
Nos anos 1980, as altas taxas de inflação, de Espanha 9,4
desemprego e a busca de melhores perspectivas de Japão 7,4
vida foram os principais motivos que levaram a uma Itália 7,0
evasão de brasileiros para outras partes do mundo. Inglaterra 6,2
França
Depois de alguns anos de estabilidade do Plano 3,6
Real, essas saídas diminuíram um pouco, mas foram Alemanha 3,4
retomadas após a desvalorização da moeda em 1999. Suíça 2,5
Plano Real: denominação dada a um programa de estabilização Austrália 2,2
econômica, lançado em 1994, pelo governo do então presidente Canadá 2,1
Itamar Franco, e que tinha como principal objetivo o controle da 1,8
inflação. Com ele, foi lançada uma nova moeda, o Real. Argentina
Bolívia 1,6
Algumas vezes, esses movimentos migratórios Irlanda
envolvem aspectos negativos, como tráfico de imi- Bélgica 1,3
grantes, tráfico de mulheres, que, seduzidas com 1,1
promessas de altos salários, acabam envolvidas em Holanda 1,1
redes de prostituição. Paraguai
Guiana Francesa 1,0
As estatísticas sobre brasileiros no exterior são 0,8
imprecisas por causa da existência de imigrantes Angola
que trabalham e vivem de maneira clandestina em Suriname 0,8
outros países. Demais países 0,7
Segundo o censo 2010, o número de brasileiros 8,9
residentes no exterior chegou a 491 645, distribuídos
em 193 países. Desse contingente, 53,8% eram mu- 0 5 10 15 20
lheres e 60% tinham entre 20 e 34 anos de idade.
A origem de 49% desses emigrantes é a região Sudeste,
Veja no gráfico ao lado os principais países de principalmente São Paulo (21,6%) e Minas Gerais (16,8%).
destino dos emigrantes brasileiros e seu percentual.
mikecphoto/Shutterstock
Apesar das rígidas leis elaboradas para impedir
a entrada de estrangeiros, o número de brasileiros Tradicional festa em Nova York, conhecida como Brazilian Day,
nos Estados Unidos é grande. Eles se concentram reuniu milhares de emigrantes brasileiros em 2014. Realizada
principalmente em algumas cidades e regiões, como sempre no início de setembro, hoje, além de fazer parte do
Nova York, Flórida e Califórnia. Grande parte desses calendário oficial da cidade estadunidense, essa festa também
emigrantes brasileiros entrou clandestinamente nos acontece em outras cidades do mundo.
Estados Unidos pela fronteira do México.
Muitos brasileiros emigraram também para paí-
ses vizinhos, como o Paraguai, motivados pela ex-
pulsão de trabalhadores do campo, principalmente
em virtude da construção de barragens para hidre-
létricas. Como o custo de vida no outro lado da
Brasil: movimentos migratórios C A P Í T U L O 1 0 121
Os brasileiros têm emigrado também para aNiklas Halle'n/Agência France-Presse As novas migrações
União Europeia e o Japão. Algumas vezes, vê-se nos Nacho Doce/Reuters/Latinstockinternacionais
noticiários casos de brasileiros que sofrem precon-
ceito e passam por situações humilhantes em aero- Entre os movimentos migratórios no Brasil, no
portos, principalmente na Espanha e no Reino Unido. século XXI, podemos reconhecer a emigração de
brasileiros, as migrações de retorno e a imigração
No caso do Japão, têm emigrado para lá os des- estrangeira. Há também um tipo especial de imigran-
cendentes dos japoneses que vieram para o Brasil tes: os refugiados, dos quais trataremos mais adiante.
no início do século XX, os chamados dekasseguis.
Como já estudamos, emigração internacional
Marlith Aguila (peruana) e Roberta Siao (brasileira) são duas trata de um deslocamento humano de um país para
chefs sul-americanas que trabalham em restaurante em outro, geralmente em busca de melhores oportuni-
Londres (Inglaterra). Nesse restaurante as chefs preparam dades de vida. Já as migrações de retorno envolvem
apenas pratos típicos de seus países. Foto de 2015. indivíduos que estão voltando às suas respectivas
pátrias depois de uma temporada no exterior.
Com a crise econômica mundial de 2008-2011 e
a estabilidade da economia brasileira no mesmo pe- A imigração estrangeira no Brasil é o movimen-
ríodo, a emigração diminuiu no Brasil, que, segundo to de pessoas de outras nacionalidades que vêm
demógrafos, voltou a ser um país de imigração, rece- viver nestas terras. No Brasil, a maioria desses imi-
bendo pessoas de várias partes do mundo. Com esse grantes é de sul-americanos: bolivianos, peruanos,
movimento de retorno ao Brasil, houve uma diminui- paraguaios, equatorianos e outros. Entre os asiáticos,
ção significativa na entrada das remessas de dinhei- destacam-se os coreanos, com sua grande colônia
ro no país. na cidade de São Paulo. Também tem crescido o
número de imigrantes haitianos, beneficiados por
Historicamente, em razão do grande número de razões humanitárias. Africanos e originários do
brasileiros que residiam no exterior, era também mui- Oriente Médio são, na maioria, considerados refu-
to expressivo o valor que eles mandavam para cá. giados, como estudaremos a seguir.
Em 2015, o Brasil enfrentou uma de suas maiores Acontecem também muitas migra•›es ilegais,
crises econômicas, agravada pelo aumento da infla- que é a entrada e a permanência de estrangeiros
ção e do desemprego. Isso resultou na emigração no país em situação de ilegalidade, cujos dados
de milhares de brasileiros rumo, principalmente, aos oficiais são poucos, em vista dessa situação. As
Estados Unidos, onde buscam maior estabilidade migrações ilegais, muitas vezes agravam um pro-
financeira e profissional. No entanto, os que saem blema que é considerado uma “chaga” em qualquer
são portadores de diplomas universitários e em- sociedade civilizada: o trabalho escravo. Também
preendedores, e isso significa a perda de valioso engrossam a grande quantidade de mão de obra
capital humano para o Brasil. Ainda assim, o país de baixa remuneração.
continua recebendo grande número de imigrantes
sul-americanos, como veremos a seguir. Imigrantes sul-americanos vendem roupas nas ruas do Brás,
bairro da cidade de São Paulo (SP), em 2013.
122 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Refugiados 8 400 refugiados no país, sendo eles de 81 nacio-
nalidades diferentes, dos quais 29,3% eram do gê-
Segundo a Convenção das Nações Unidas sobre nero feminino. Veja a tabela a seguir.
o Estatuto dos Refugiados, de 1951, “refugiado é toda
pessoa que, por causa de fundados temores de per- Principais grupos de refugiados no Brasil:
seguição devido a sua raça, religião, nacionalidade, distribuição por nacionalidade — 2015
associação a determinado grupo social ou opinião
política, se encontra fora de seu país de origem e, Nacionalidade Refugiados Porcentagem (%)
por causa dos ditos temores, não pode ou não quer
regressar ao mesmo”. Síria 2 077 24,73
No ano de 1960, o Brasil foi o primeiro país do Angola 1 480 17,62
Cone Sul a ratificar a Convenção de 1951 sobre o
Estatuto dos Refugiados. No ano de 1997, passou a Colômbia 1 093 13,01
ser o primeiro país do Cone Sul a sancionar uma lei
nacional de refúgio. República Democrática 844 10,05
do Congo
O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare)
é o organismo público responsável por receber as Líbano 389 4,63
solicitações de refúgio e determinar se os solicitan-
tes reúnem as condições necessárias para ser reco- Fonte: MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Comitê Nacional para os Refugiados
nhecidos como refugiados. Trata-se de uma comis- (Conare). Disponível em: <http://portal.mj.gov.br>. Acesso em: 24 mar. 2016.
são interministerial no âmbito do Ministério da
Justiça, a qual possibilita às pessoas reconhecidas Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refu-
como refugiadas documentação que lhes permite giados (Acnur), dos refugiados aceitos pelo Brasil,
residir legalmente no país, trabalhar e ter acesso aos além daqueles oriundos das nações listadas na tabe-
serviços públicos, como saúde, educação, etc. la anterior, outras populações relevantes também se
estabeleceram no território, sendo originários da
Libéria, da Palestina, do Iraque e de Serra Leoa.
Provavelmente as principais barreiras que os re-
fugiados enfrentam em um novo país são o idioma e
as diferenças culturais. Para que eles se integrem na
nova sociedade que os acolheu, essas barreiras pre-
cisam ser vencidas, algo que pode ser mais difícil
quanto maior a distância cultural existente.
No Brasil, há grupos de apoio e acolhimento aos
refugiados, que além de lhes dar aulas de língua
portuguesa também fazem uma “ponte cultural”
com objetivo de inseri-los na cultura do país.
Joel Silva/Folhapress
Cassandra Cury/Pulsar Imagens
Refugiados haitianos retiram carteira de trabalho no município Refugiado haitiano recebe aulas de língua portuguesa em
de São Paulo (SP). Foto de 2014. Campo Grande (MS). Foto de 2015.
Em 1999, o Brasil firmou com a ONU um acor-
do para receber refugiados de vários países. Desde
então, o número de pessoas nessa situação tem
aumentado consideravelmente. Apenas entre os
anos de 2011 e 2015, esse total saltou de 4 218 para
Brasil: movimentos migratórios C A P Í T U L O 1 0 123
Ao se estabelecerem em seus novos países, os re- Esse tema é de grande preocupação para as au-
fugiados iniciam outra difícil jornada: a busca por um toridades e as organizações de apoio aos refugiados.
trabalho. Essas pessoas apresentam diferentes perfis, Palestras e cursos sobre o mercado de trabalho, as
podem não ter formação profissional ou tê-la (o que formas de inserção nele e sobre empreendedorismo
nem sempre significa que encontrarão trabalho na são algumas maneiras de auxiliar essa população a
área de formação) e podem ainda encontrar oportu- se estabelecerem profissionalmente para que, dessa
nidades em empregos formais ou informais. forma, obtenham também a estabilidade econômica.
Vanderlei Almeida/Agência France-Presse Nelson Almeida/Agência France-Presse
Refugiado sírio trabalhando informalmente como comerciante Refugiado sírio (em pé) trabalhando em escritório de
nas ruas do Rio de Janeiro (RJ). Foto de 2015. engenharia no município de São Paulo (SP). Foto de 2015.
Os refugiados nos Jogos Olímpicos Yasuyoshi Chiba/Agência France-Presse
Rio-2016
Popole Misenga (à direita) é um judoca congolês
A população refugiada tem crescido em todo o refugiado no Brasil desde 2013. Apesar das dificuldades, o
mundo. Em uma tentativa de chamar a atenção para atleta continua treinando no Rio de Janeiro, onde mora
o problema e buscar formas de inserção dessas atualmente. Foto de 2016.
pessoas em atividades esportivas (uma importante
maneira de sociabilizar e integrar pessoas), o Comitê
Olímpico Internacional (COI), responsável pela
organização dos Jogos Olímpicos, convidou atletas
refugiados para participar da competição no Rio de
Janeiro, em 2016 — dando voz e espaço a uma
população que é negligenciada e calada pela
comunidade internacional.
Mehmet Kaman/Anadolu Agency/Getty Images Ayhan Mehmet/Anadolu Agency/Getty Images
Yusra Mardini, nadadora síria refugiada na Alemanha, ao Em seu percurso, a tocha olímpica passou por um dos
lado do seu treinador (à direita), em evento da campos de refugiados na Grécia. Foto de 2016.
Confederação Alemã de Esportes Olímpicos, em Berlim.
Foto de 2016.
124 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Leitura e reflexão
Nova onda de imigração atrai ajudar a comunidade boliviana. Hoje, preside a Associação
para São Paulo latino-americanos dos Empreendedores Bolivianos da Rua Coimbra.
e africanos
Ele critica o estigma que se criou em cima do boli
O sotaque estrangeiro no centro de São Paulo acom viano como “trabalhador escravo”. Vásquez diz que, por
panhou a ascensão da cidade, desde a popular Rua 25 pior que sejam as condições de trabalho nas oficinas de
de Março, cuja vocação comercial foi despertada pelos costura, elas ainda são melhores — e mais rentáveis
árabes, à sede da Prefeitura, antigo prédio dos italianos — do que a situação na Bolívia.
Matarazzo. Se hoje os novos imigrantes vêm de locais
tão distintos quanto Bolívia e Senegal, o destino continua “Para o imigrante, é bom morar na oficina. Ele não
sendo o centro de São Paulo. paga aluguel, não gasta com transporte e pode trabalhar
mais tempo, já que ganha por peça fabricada”, diz.
A prefeitura estima em 600 mil a população imigrante Segundo ele, o que é negativo nesta situação é o isola
na cidade, a maioria morando ou trabalhando na região. mento em que se vive.
Durante o segundo semestre de 2014, foram criados Ele não espera que os novos imigrantes integremse
o Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes de modo semelhante ao que aconteceu com europeus.
(CRAI), pela prefeitura, e a Casa de Passagem Terra Nova,
do governo estadual. Situados na Bela Vista, os abrigos “Tomara que não aconteça com a gente o que acon
acolhem principalmente refugiados. teceu com vocês. Os filhos esqueceram que os pais foram
imigrantes, e às vezes nos tratam como bichos de outro
O.H., 38, veio de Burkina Fasso. Músico, ele diz que planeta”, diz.
se viu obrigado a deixar seu país após ser perseguido pelo
governo em razão das letras que escrevia. Veio para São Atrativos
Paulo porque disseram que era um lugar bom para o
“show business”. Há sete meses no Brasil, o único traba De acordo com Dulce Baptista, professora da PUCSP
lho que encontrou foi como pintor na construção civil. [...], os imigrantes buscam o centro da cidade tanto por
uma questão histórica quanto prática.
Desempregado, ele não desistiu da cidade, nem da
carreira. “Eu nunca escrevi letras de amor, mas aqui é só “O centro da cidade era um espaço privilegiado, de
o que me vem à cabeça. É verdade que é uma cidade de residência da classe alta. Conforme outros bairros se
muito trabalho, mas o que eu vejo no cotidiano das pessoas valorizaram, a região ficou esvaziada. Por isso, existe nela
é que elas enganam o tempo para encontrar amor”, diz. toda uma edificação que permite a estruturação de casas
de cômodo, cortiços e moradias sublocadas”, explica.
Já para a peruana Rosa Delgado, 46, São Paulo
significa trabalho. “Vivemos na correria, se não — como A vantagem dessa estrutura, segundo ela, é o preço.
se diz? — o bicho pega”, afirma. [...] [...]
Propaganda Outro fator [...] é o deslocamento. Como a principal
atividade dos imigrantes é o comércio popular, caracte
“Os haitianos vêm para São Paulo por causa da rístico do centro, eles preferem morar na região para
propaganda da cidade: é a mais rica e avançada, e nós economizar em transporte.
estamos correndo atrás do dinheiro”, afirma Bacoult.
Mas a professora faz um alerta. “O centro vem
Mas, com os preços em alta, poupar é mais difícil. passando por um processo de requalificação urbana e a
Por isso, apoiam os protestos nas ruas — mas de longe. tendência com isso é a expulsão da população atual.
“Eu não posso fazer igual aos brasileiros, eu sou imigran [...]”, diz.
te. Eu participaria se tivesse certeza que seria pacífico”,
diz a haitiana Marie Meanty, 23. PERRIN, Fernanda. Folha de S.Paulo, 23 jan. 2015. Disponível em:
<www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1579103nova-
Os haitianos são considerados privilegiados pelo
senegalês Massar Sarr, 42, representante dos imigrantes onda-de-imigracao-atrai-para-sao-paulo-latino-americanos-e-
no conselho participativo da subprefeitura da Sé. Ele africanos.shtml>. Acesso em: 24 mar. 2016.
aponta como vantagem dos haitianos a facilitação do
processo de regularização, promovida pelo governo fede Agora, faça as atividades propostas.
ral em resposta ao aumento do fluxo após o terremoto
que atingiu o Haiti em 2010. 1. Cite cinco nacionalidades de pessoas que esco-
lheram a cidade de São Paulo como seu novo lar.
[...]
Já o boliviano Luis Vásquez, 43, veio para São Paulo 2. Por que São Paulo é o local escolhido por muitos
há 13 anos para fazer uma pósgraduação, mas ficou para desses novos imigrantes?
3. Identifique dois fatores que dificultam a integra-
ção entre esses novos imigrantes e os brasileiros.
Brasil: movimentos migratórios C A P Í T U L O 1 0 125
Refletindo sobre o conteúdo
1. Leia a reportagem a seguir. 3. Leia o trecho a seguir e responda à questão proposta.
O haitiano Gregory Deralus, de 34 anos, relatou em Um país pleno de oportunidades, receptivo a todos
depoimento à polícia nesta segundafeira [10/8/2015] que vinham “fazer a América”, era a imagem que a maio
o ataque que sofreu em 1º de agosto na região do Glicério, ria dos imigrantes tinha do Brasil.
no Centro de São Paulo. Outros cinco haitianos foram
atingidos por balas de chumbinho na mesma data. “Esta SOUZA, Ismara Izeque. Espanhóis: História e engajamento.
va saindo da igreja, senti uma coisa na perna e pensei São Paulo: Nacional, 2006. p. 5. (Adaptado.)
que era uma pedrada”, afirmou ao deixar o 1º Distrito
Policial, que concentra as investigações. • O que você compreende por “fazer a América”?
[...] 4. Geografia e Língua Portuguesa Leia a notícia pu-
blicada em junho de 2015.
PIZA, Paulo Toledo. G1 São Paulo, 10 ago. 2015.
Disponível em: <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/ Crise econômica provoca êxodo de brasileiros para
o exterior
2015/08/pensei-que-era-uma-pedrada-diz-haitiano-
atacado-no-glicerio.html>. Acesso em: 23 mar. 2016. [...] a cada dia, mais brasileiros estão tentando fixar
residência ou abrir negócios nos Estados Unidos, em
• Relacione essa notícia ao texto da página 125 sobre especial em Miami (Flórida), ou em Portugal, na Europa.
os imigrantes em São Paulo. De acordo com dados do Ministério das Relações
Exteriores, quase 3 milhões de brasileiros vivem no exte
2. Geografia e História Observe a tabela e leia o rior. Desses, um terço moram nos Estados Unidos.
texto a seguir. Depois, responda às questões.
O certo é que os brasileiros já representam 13% dos
Contingentes imigratórios por nacionalidade compradores internacionais do estado da Flórida. O
(entre 1850 e 1930) êxodo se dá principalmente pelo medo de instabilidade
política e econômica no Brasil e pela segurança, quali
Italianos 1,490 milhão dade de vida e educação que o país norteamericano
oferece.
Portugueses 1,85 milhão
Opções não faltam. Diferentemente dos anos 1980 e
Espanhóis 580 mil 1990, quando os brazucas iam para fora atrás de subem
pregos, atualmente os imigrantes são altamente instruí
Alemães 202 mil dos e com poder aquisitivo para alavancar negócios de
importação, exportação, restaurantes e até bancos, como
Japoneses 99 mil Itaú, BTG Pactual e XP Investimentos, estão seguindo sua
clientela em Miami.
Fonte: RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo:
Companhia das Letras, 2006. p. 242. (Edição de bolso.) “É preocupante. Estamos perdendo mão de obra qua
lificada e transferindo divisas para o exterior. É um cená
No Brasil, uma grande parte dos imigrantes dirigiuse rio negativo da relação trabalhista atual”, avalia Heitor
para as grandes fazendas de café. Um número menor de Soares Jr., da Fusibras e conselheiro do Ciesp Leste. “Não
imigrantes se estabeleceu como pequeno proprietário nos deixa de ser uma saída para o empresário brasileiro: for
núcleos coloniais nos estados do Rio Grande do Sul, Santa mar uma joint-venture e buscar estabilidade, mas o
Catarina, Paraná e Espírito Santo [...] governo precisa se preocupar com as empresas nacionais
para que o capital continue no Brasil.”
FAUSTO, Boris. História geral da civilização
brasileira. Tomo III: O Brasil republicano. Sociedade e CENTRO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO
(Ciesp), 1º jul. 2015. Disponível em: <www.ciespleste.com.br/
Instituições (1889-1930). 6. ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2006. p. 105. v. 9. (Adaptado.) noticias/crise-economica-provoca-exodo-de-brasileiros-
para-o-exterior/>. Acesso em: 23 mar. 2016.
a) A que conclusão podemos chegar ao relacionar o
texto e a tabela? a) Quem são os brazucas?
b) Escolha uma das nacionalidades da tabela e b) Por que essa notícia indica outro contexto daque-
pesquise em livros de História e na internet os le demonstrado pela chegada de novos imigrantes
motivos da migração, principais destinos, ocupações a São Paulo?
e interferências na cultura brasileira.
126 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
capítulo 11
O processo de urbanização
no Brasil
LucVi/Shutterstock
Um país é considerado urbanizado quando tem mais habitantes nas cidades do que nas zonas rurais. Na foto de 2015, São Paulo
(SP), a maior cidade brasileira.
Urbanização acelerada Esse processo de urbanização foi consequência
da consolidação da industrialização nacional, nas
O processo de urbanização do Brasil consolidou- décadas de 1950 e 1960. O grande fluxo de habitan-
-se na década de 1970 e desenvolveu-se de forma tes para as cidades foi decorrente do intenso êxodo
acelerada até a primeira década do século XXI, como rural que ocorreu, principalmente, depois da década
podemos observar no gráfico da página seguinte. de 1970.
O processo de urbanização no Brasil C A P Í T U L O 1 1 127
Brasil: evolução da taxa de Arte Ação/Arquivo da editora Brasil: taxa de urbanização, por região
urbanização — 1940-2014
Regiões Taxa de urbanização (em %)
Milhões de habitantes
240 Norte 75,9
200
160 Nordeste 73,7
120
80 Sudeste 93,2
40
0 Sul 85,7
1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010 2013 2014
Centro-Oeste 90,3
Taxa de urbanização
Fonte: IBGE. Síntese dos indicadores sociais 2015. Disponível em: <www.ibge.
gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/
sinteseindicsociais2015/default.shtm>. Acesso em: 9 abr. 2016.
31% 36% 45% 56% 68% O que é cidade no Brasil
1940 1950 1960 1970 1980
A Organização das Nações Unidas (ONU) con-
76% 81,2% 84,4% 84,8% 85,1% sidera cidade todo aglomerado com mais de 20 mil
habitantes. Porém, em alguns países, esse número
1991 2000 2010 2013 2014 é menor, como na França (2 mil hab.) e na Espanha
(10 mil hab.).
Adaptado de: IBGE. Censos Demográficos de 1940 a 2014. Síntese dos
indicadores sociais 2015. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/estatistica/ No Brasil, toda sede de município é classificada
como cidade, independentemente da população e
populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/sinteseindicsociais2015/ dos serviços ou recursos que oferece a seus habitan-
default.shtm>. Acesso em: 9 abr. 2016. tes. Esse critério permite que sejam consideradas
cidades as sedes de municípios com menos de mil
As maiores mudanças aconteceram na região habitantes e que não contam com hospital ou banco,
Sudeste, onde o processo de industrialização foi por exemplo.
mais intenso. Posteriormente, com a dispersão das
indústrias pelo território nacional, a população ur- Em Geografia, definimos cidade como um aglo-
bana também aumentou nas demais regiões. merado com certo número de habitantes que exer-
cem atividades não rurais, isto é, atividades ligadas
Na tabela a seguir, pode-se comparar a taxa de à indústria, ao comércio e aos serviços.
urbanização entre as regiões brasileiras.
Thomaz Vita Neto/Pulsar Imagens
Borá, localizada no estado de São Paulo, é o menor município do estado e o segundo menor do Brasil, com 836 habitantes em 2015,
segundo o IBGE. Foto de 2012.
128 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Rede e hierarquia urbana Em escala local ou regional, a área polarizada por
uma cidade é sua área de influência, que pode ser
A rede urbana de uma região envolve as relações maior ou menor conforme seu poder de atração.
entre o campo e a cidade, e também as relações en- De modo geral, uma cidade exerce influência sobre
tre os diferentes tipos de cidade. A existência de uma outras cidades menores e suas áreas rurais. Em 2007,
rede de transportes e de comunicação é fundamen- o IBGE definiu uma nova dinâmica da rede urbana
tal para a integração e o desenvolvimento de uma brasileira. Nela, encontramos doze grandes redes
rede urbana. que abrangem municípios de estados diferentes. A
classificação foi feita levando em consideração a
Na rede urbana brasileira existem diferentes ti- presença de órgãos do executivo, do judiciário, de
pos de cidade, considerando o número de habitan- grandes empresas e a oferta de ensino superior, ser-
tes, a quantidade e a qualidade de serviços ofereci- viços de saúde e domínios de internet.
dos à população local e à população das áreas vizi-
nhas. Isso torna umas mais importantes do que Veja, no mapa abaixo, como está organizada a
outras, formando uma hierarquia urbana. hierarquia dos centros urbanos brasileiros.
Brasil: redes urbanas 50º O Allmaps/Arquivo da editora
Boa Vista
0º Macapá São Luís Equador
Manaus Belém
Fortaleza
Teresina
Natal
Rio Porto Palmas João
Branco Velho Pessoa
Recife
Maceió
Aracaju
Salvador
Cuiabá Brasília
Goiânia Belo OCEANO
Horizonte ATLÂNTICO
Campo
OCEANO Grande Vitória
PACÍFICO
Hierarquia dos centros urbanos Trópico de Capricórnio
Grande Metrópole Centro sub-regional A Rio de Janeiro
Nacional Centro sub-regional B São Paulo
Centro de zona A
Metrópole Centro de zona B Curitiba N
Nacional Florianópolis OL
Metrópole
Capital regional A
Porto Alegre S
0 290 580 km
Capital regional B
Capital regional C
Adaptado de: IBGE. Regiões de influência das cidades 2007. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/geociencias/
geografia/regic.shtm>. Acesso em: 7 abr. 2016.
O processo de urbanização no Brasil C A P Í T U L O 1 1 129
Hierarquia urbana brasileira
Níveis Subníveis Características
Metrópole Grande Metrópole Nacional São Paulo (com 21,1 milhões de habitantes, em 2015)
(os 12 principais
centros urbanos do Metrópole Nacional Rio de Janeiro (12,3 milhões de habitantes, em 2015) e
país) Brasília (4,2 milhões de habitantes, em 2015)
Capital regional Metrópole Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador, Recife, Curitiba,
(70 centros) Manaus, Goiânia e Belém. Nessas metrópoles, em 2015, a população
variava de 5,8 milhões (Belo Horizonte) a 2,4 milhões (Belém)
Centro sub-regional
(169 centros) Capital regional A 11 cidades com média de 995 mil habitantes
Centro de zona Capital regional B 20 cidades com 435 mil habitantes
(556 cidades)
Centro local Capital regional C 39 cidades com 250 mil habitantes
(4 473 cidades)
Centro sub-regional A 85 cidades com 95 mil habitantes
Centro sub-regional B 79 cidades com 71 mil habitantes
Centro de zona A 192 cidades com 45 mil habitantes
Centro de zona B 364 cidades com 21 mil habitantes
— Cidades com menos de 10 mil habitantes
Fonte: IBGE. Regiões de influência das cidades 2007. Disponível em:
<www.ibge.gov.br/home/geociencias/geografia/regic.shtm>. Acesso em: 7 abr. 2016.
Os centros urbanos brasileiros foram classifi- Minas, estendendo-se para Mato Grosso do Sul,
cados em cinco níveis, que por sua vez foram sub- Mato Grosso, Rondônia e Acre.
divididos em dois ou três subníveis, como exposto
na tabela acima. Sítio urbano, origem e função
das cidades
No topo da hierarquia urbana, doze metrópoles
comandam as redes urbanas. São Paulo, Grande O local onde uma cidade é construída é deno-
Metrópole Nacional, tem projeção em todo o país, minado sítio urbano, que pode ser uma planície,
e sua rede de influência abrange o estado de São
Paulo, parte do Triângulo Mineiro e do sul de um planalto, um vale, uma
área litorânea, entre outros.
Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens As cidades, assim como os
seres vivos, nascem, cres-
cem, envelhecem, entram
em decadência após um pe-
ríodo de prosperidade, e po-
dem, por fim, morrer, se fo-
rem arrasadas por uma
guerra, por fenômenos na-
turais, como terremotos,
erupções vulcânicas, inun-
dações, etc.
Vista aérea da avenida Paulista,
em São Paulo (SP). Foto de 2014.
130 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Se o aglomerado urbano surgir naturalmente de ■■ cidades industriais — Volta Redonda (RJ), São
pequenos núcleos de povoamento, vai dar origem a Bernardo do Campo (SP) e Manaus (AM).
uma cidade espontânea. É o caso da maioria das
cidades do Brasil e do mundo, como São Paulo, Rio ■■ cidades administrativas — Brasília (DF).
de Janeiro, Nova York e Paris. O núcleo que dá ori- ■■ cidades militares — Resende (RJ).
gem à cidade é denominado embrião da cidade. ■■ cidades históricas — Alcântara (MA), São Miguel
Diversas cidades brasileiras tiveram como embriões
aldeamentos indígenas, missões católicas, pousos das Missões (RS) e São João del-Rei (MG).
de tropeiros ou de viajantes, fortes, fortalezas, anti- ■■ cidades turísticas — Porto Seguro (BA), Rio de
gas fazendas e estações ferroviárias.
Janeiro e Paraty (RJ), Bonito (MS), Florianópolis
Algumas vezes, porém, as cidades são plane- (SC) e Foz do Iguaçu (PR), e outras cidades praia-
jadas, isto é, são construídas deliberadamente, nas, as estâncias de montanha, de águas mine-
seguindo projetos previamente concebidos. No rais, etc.
Brasil, o exemplo mais conhecido é Brasília, em-
bora Belo Horizonte (MG), Goiânia (GO), Teresina Existem também as cidades tecnológicas ou tec-
(PI), Aracaju (SE) e Palmas (TO) também sejam nopolos, que são características da era da informa-
cidades planejadas. ção e do conhecimento. O conceito surgiu no Japão,
quando o governo instalou vinte cidades científicas.
Atualmente, nas cidades costumam se desen- O primeiro tecnopolo ligado a uma universidade
volver várias atividades (comércio, bancos, esco- privada foi o Vale do Silício, na Califórnia, Estados
las, mercado financeiro, etc.), mas algumas são Unidos.
conhecidas por uma característica principal: a
função urbana. Os tecnopolos estão relacionados à Terceira
Revolução Industrial, à pesquisa e à tecnologia de
No Brasil, encontramos, por exemplo: ponta. Reúnem em um só lugar centros de desen-
volvimento e de pesquisa, empresas e universidades.
■■ cidades religiosas — Aparecida (SP), Trindade No Brasil, a pioneira é a Universidade Estadual de
(GO) e Juazeiro do Norte (CE). Campinas (Unicamp), em torno da qual se desen-
volveu o tecnopolo de Campinas.
Delfim Martins/Pulsar Imagens
Palmas, capital do estado do Tocantins, é a mais recente cidade planejada brasileira. Na imagem, vista aérea da cidade de Palmas,
em construção, em 1996. O planejamento urbano é um processo que visa melhorar importantes aspectos nas cidades, como a
qualidade de vida. Para seu desenvolvimento são analisadas questões como localidade, investimento, crescimento demográfico e
industrial, etc.
O processo de urbanização no Brasil C A P Í T U L O 1 1 131
Destacam-se, ainda, São José dos Campos Regiões Metropolitanas
(Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e São Carlos
(Universidade Federal de São Carlos), todos no esta- No Brasil, o conceito de Região Metropolitana
do de São Paulo. Nessas cidades, o principal destaque foi estabelecido pela Lei n. 14, de 1973, e foi defi-
é o capital intelectual, ou seja, o conhecimento. nida como: um “conjunto de municípios contíguos
e integrados socioeconomicamente a uma cidade
João Prudente/Pulsar Imagens central, com serviços públicos de infraestrutura
comum”.
Com base na Constituição de 1988, a criação de
Regiões Metropolitanas é atribuição dos estados.
Surgiu também o conceito de Região Integrada de
Desenvolvimento (Ride), que reúne municípios de
diferentes estados, como a do Distrito Federal, que
possui cidades de Minas Gerais e Goiás.
Segundo o IBGE, há no Brasil 65 Regiões
Metropolitanas e três Ride. Veja na tabela as maiores.
Brasil: maiores Regiões Metropolitanas – 2015
Região Metropolitana População
1. São Paulo 21 090 792
2. Rio de Janeiro 12 280 702
3. Belo Horizonte 5 829 923
4. Porto alegre 4 258 926
5. Ride DF e entorno 4 201 737
Vista aérea do campus da Universidade de Campinas 6. Fortaleza 3 985 297
(Unicamp), em Campinas (SP). Foto de 2014.
7. Salvador 3 953 290
Processo de conurbação 8. Recife 3 914 317
O crescimento das cidades 9. Curitiba 3 502 804
brasileiras deu origem a um pro-
cesso de conurba•‹o, que con- Conurbação: 10. Campinas 3 094 189
fenômeno urbano
que ocorre
siste na unificação de áreas de quando duas ou 11. Manaus 2 523 899
municípios limítrofes. mais cidades, ao
se desenvolverem, 12. Vale do Paraíba e Litoral 2 453 387
A formação dessas conurba- acabam unindo Norte de São Paulo
ções tornaram necessárias medi- suas malhas 13. Goiânia 2 421 833
das legais que facilitassem a sua urbanas.
administração. A Constituição de 1988 prevê a cria- 14. Belém 2 402 428
ção de regiões metropolitanas, aglomerações urba- 15. Grande Vitória 1 910 104
nas e microrregiões para fins administrativos.
Definidas por lei, as aglomerações urbanas são 16. Sorocaba 1 888 073
conurbações menores do que as regiões metropoli- 17. Baixada Santista 1 797 131
tanas. Como exemplos podemos citar as aglomera-
ções urbanas de Jundiaí e Piracicaba, no estado de 18. São Luís 1 538 131
São Paulo, e a do Sul, no estado do Rio Grande do Sul. 19. Natal 1 504 819
As microrregiões reúnem municípios vizinhos
limítrofes e são utilizadas para a administração e Fonte: IBGE. Estimativa de população 2015. Disponível em:
<http://saladeimprensa.ibge.gov.br/noticias?view=noticia&id=
para fins estatísticos.
1&busca=1&idnoticia=2972>. Acesso em: 8 abr. 2016.
132 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
O Complexo Metropolitano Brasileiro Paulo e do Rio de Janeiro, ligadas pela mais movi-
mentada rodovia do país: a rodovia Presidente
Segundo o IBGE, o Brasil é um exemplo de país Dutra (trecho da BR-116). Além disso, em seu eixo
emergente a apresentar uma aglomeração urbana — o Vale do Paraíba — está localizado um dos prin-
que é resultado de conurbação das duas maiores cipais tecnopolos brasileiros: a cidade de São José
metrópoles, isto é, o Complexo Metropolitano do dos Campos, no estado de São Paulo.
Sudeste, conhecido como eixo Rio de Janeiro-
-São Paulo. A abrangência do Complexo Metropolitano do
Sudeste ultrapassa os limites do Vale do Paraíba.
Esse complexo apresenta características que Incorpora também a área metropolitana da Baixada
indicam tratar-se da primeira megalópole brasilei- Santista, onde está o porto de Santos, o mais mo-
ra. Abriga mais de 40 milhões de habitantes (apro- vimentado do país, ligado à capital pelas rodovias
ximadamente 20% da população brasileira) con- Anchieta e Imigrantes.
centrados entre as áreas metropolitanas de São
© Landsat/2016, Engesat
Área que abrange o Complexo Metropolitano do Sudeste vista em imagens obtidas por satélite, em 2016.
Complexo Metropolitano do Sudeste Allmaps/Arquivo da editora
44º O
MINAS GERAIS RIO DE JANEIRO
Cruzeiro – BR 116 Volta Redonda
Nova Iguaçu
Lorena nte Dutra Duque de
Caxias
Paulínia side
Campinas Guaratinguetá Pre
Jundiaí Pindamonhangaba Rodovia Rio de Janeiro
Niterói
23º S São José Taubaté Angra
dos Campos dos Reis
Guarulhos SÃO PAULO OCEANO ATLÂNTICO
São Paulo
Jacareí Mogi das
Cruzes
Mancha urbana Siderúrgica
Santo André São Sebastião
Usina nuclear Indústria naval
N São Cubatão Petroquímica
Bernardo Santos Portos importantes Indústria
do Indústria aeronáutica automobilística
e de armamentos
O L Campo Indústrias variadas Rodovias
S 0 30 60 km Limite hipotético
da megalópole
Limite estadual
Adaptado de: IBGE. Atlas geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro, 2012. p. 143, 146.
O processo de urbanização no Brasil C A P Í T U L O 1 1 133
Ampliando o conhecimento
Marcos Michelin/EM/D.A Press Em um ano, população brasileira cresce Brasília (2 914 830). Belo Horizonte está na quinta co
1,7 milhão locação, com 2 591 191 moradores. Se excluir as capitais,
segundo o IBGE, os três municípios mais populosos são
IBGE aponta 204,4 milhões de moradores no país. São Guarulhos (SP), com 1,3 milhão, Campinas (SP), com
Paulo é a maior cidade brasileira, e Serra da Saudade, 1,1 milhão, e São Gonçalo (RJ), com pouco mais de
em Minas Gerais, a menor. 1 milhão. As cidades menos populosas têm menos de mil
habitantes: Serra da Saudade (MG), com 818, Borá (SP),
Localizada no Centro-Oeste mineiro, Serra da Saudade 836, e Araguainha (MT), com 976, segundo dados do
perdeu quatro habitantes entre 2014 e 2015, quando instituto.
foram estimados 818 habitantes. É considerado o menor
município do Brasil. Foto de 2011. Crescimento negativo — Os 41 municípios com mais
de 500 mil habitantes concentram 29,9% da população
O Brasil atingiu em 1º de julho deste ano [2015] uma do Brasil (61,2 milhões de habitantes) e mais da metade
população de 204 450 649 pessoas. O número foi divul da população brasileira (56,0% ou 114,6 milhões de
gado [...] no Diário Oficial da União e faz parte de pessoas) vive em apenas 5,5% dos municípios (304),
estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística que são aqueles com mais de 100 mil habitantes. Por
(IBGE). Segundo o órgão, houve um crescimento popu outro lado, apenas 6,3% da população (1,4 milhão)
lacional de 0,83% ou 1,7 milhão de moradores no país, reside em 2 451 municípios brasileiros (44%) com até
em relação aos dados divulgados no ano passado [2014], 10 000 habitantes.
quando a estimativa era de 202 768 562 habitantes.
A cidade mais populosa continua a ser São Paulo Entre os 5 570 municípios, 24,5% (1 364) apresen
(11 967 829), e está em Minas Gerais o menor município taram taxas de crescimento negativas, ou seja, redução
brasileiro: Serra da Saudade, no Campo das Vertentes, do número de moradores nos últimos 12 meses. A maior
com 818 moradores, quatro a menos em relação à esti parte deles referese a municípios com até 20 mil ha
mativa de 2014. bitantes. Mais da metade das cidades (52,6% ou
2 930) apresentou crescimento que variou entre 0,0% e
Em relação aos estados, os mais populosos estão na 0,9% e 271 municípios (4,9%) apresentaram cresci
região Sudeste e os menos na Norte. São Paulo se mento igual ou superior a 2%. Apenas 65 cidades
mantém na liderança com 44,4 milhões de habitantes apresentaram crescimento superior a 3,0%. As estima
— 21,7% da população total no Brasil. Minas Gerais é o tivas populacionais são fundamentais para o cálculo de
segundo, com 20,8 milhões, seguido pelo Rio de Janeiro, indicadores econômicos e sociodemográficos nos perío
com 16,5 milhões. Roraima é o estado menos populoso, dos intercensitários e são, também, um dos parâmetros
com 505,7 mil habitantes — 0,2% da população total utilizados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) na
—, seguido do Amapá, com 766,7 mil habitantes (0,4%) distribuição do Fundo de Participação de Estados (FPE)
e do Acre, com 803,5 mil habitantes (0,4%). e do Fundo de Participação de Municípios (FPM).
O estudo foi feito com dados das 5 570 cidades brasileiras,
Segundo o ranking do IBGE, 17 municípios brasi com referência em 1º de julho.
leiros têm mais de um milhão de habitantes, com 44,9
milhões de pessoas ou 22% da população total do Cidades mais populosas Cidades menos populosas
Brasil. Além de São Paulo, também encabeçam a lista — habitantes — habitantes
o Rio de Janeiro (6 476 631), Salvador (2 921 090) e
São Paulo (SP) Serra da Saudade (MG)
11 967 829 818
Rio de Janeiro (RJ) Borá (SP)
6 476 631 836
Salvador (BA) Araguainha (MT)
2 921 090 976
Brasília (DF) Oliveira de Fátima (TO)
2 914 830 1098
Belo Horizonte (MG) Anhanguera (GO)
2 591 191 1 104
ESTADO de Minas. Disponível em:
<www.em.com.br/app/noticia/nacional/2015/08/29/interna_
nacional,683083/em-um-ano-populacao-brasileira-cresce-1-7-
milhao.shtml>. Acesso em: 8 abr. 2016.
134 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Problemas das cidades desmatamento de encostas põe em risco a vida
das pessoas;
brasileiras ■■ a falta de infraestrutura acompanha o crescimen-
to das comunidades carentes. A rede de esgotos,
A intensa e acelerada urbanização brasileira re- de coleta de lixo, de água encanada, de luz, de
sultou em sérios problemas sociais urbanos, entre telefone é insuficiente ou clandestina. Além de
os quais podemos destacar: os objetos serem jogados em rios ou em áreas
de mananciais, soma-se o risco de contaminação
■■ aumento do número de comunidades carentes por roedores e insetos;
(favelas e cortiços) que ocupam, muitas vezes, ■■ diversas formas de violência e problemas sociais
áreas de mananciais ou áreas florestais conside- estão presentes nos centros urbanos: homicídios,
radas regiões de risco. Isso significa que os ma- sequestros, assaltos, filas para atendimento mé-
nanciais, isto é, as fontes de abastecimento de dico, acidentes de trânsito, desemprego, etc.
água, podem ser poluídos. Nas áreas florestais, o
Frankie Marcone/Futura Press Superlotação em hospital
Diego Herculano/Fotoarenano município de Natal (RN).
Foto de 2016.
Favela do Bueiro,
comunidade ribeirinha do
rio Capibaribe, em Recife
(PE). Foto de 2015.
O processo de urbanização no Brasil C A P Í T U L O 1 1 135
Geografia Regional
A Macrometrópole Paulista Delfim Martins/Pulsar Imagens
Parte da área mais urbanizada do país, o estado de São Aeroporto Internacional de São Paulo Governador André
Paulo apresenta uma macrometrópole, da qual fazem parte Franco Montoro, no município de Guarulhos (SP), em 2014.
quatro áreas metropolitanas e dois aglomeramentos urbanos.
O conceito de macrometrópole envolve uma integração
de redes de cidades que têm áreas de influência que se
complementam. É um fenômeno urbano que tem escala
metropolitana.
Essa área concentra 72% da população e 82% do
Produto Interno Bruto (PIB) do estado. Possui 96% de seus
habitantes vivendo em área urbana e requer uma enorme
demanda de infraestrutura para que eles tenham a
mobilidade facilitada. Tudo isso somado ao fato de que a
área já conta com três grandes aeroportos (Cumbica,
Congonhas e Viracopos), o Porto de Santos — principal da
América Latina —, e as principais rodovias e ferrovias do
país. Destacase entre as macrometrópoles do mundo como
a única que tem ativos ambientais, como as serras do Mar,
da Cantareira e da Mantiqueira.
Paulo Fridman/Pulsar Imagens
Porto de Santos, no município de
Santos (SP), em 2015.
© Landsat/2016, Engesat
Imagem de satélite da
Macrometrópole, em
2016.
136 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Veja no mapa a seguir as principais divisões da Macrometrópole Paulista. Banco de imagens/Arquivo da editora
Divisão política da Macrometrópole Paulista
MS MG 45º O
PR RJ
MG
OCEANO ATLÂNTICO
RJ
Trópico de Capricórnio
OCEANO
ATLÂNTICO
N Região Metropolitana de Sorocaba
Aglomeração Urbana de Piracicaba
OL Região Metropolitana de Campinas
Aglomeração Urbana de Jundiaí
0 25 50 km Região Metropolitana de São Paulo
Região Metropolitana da Baixada Santista
S
Região Metropolitana do Vale do Paraíba
e Litoral Norte
Adaptado de: SUBSECRETARIA DE ASSUNTOS METROPOLITANOS. Disponível em:
<www.sdmetropolitano.sp.gov.br/portalsdm/unidades-regionais.jsp>. Acesso em: 8 abr. 2016.
Região Metropolitana de Campinas Região Metropolitana de Sorocaba
A Região Metropolitana de Campinas, além de possuir
A Região Metropolitana de Sorocaba possui 11 municípios
uma economia forte e diversificada, destacase pela presença localizados em um dos principais eixos do estado de São
de centros inovadores no campo das pesquisas científicas e Paulo, entre as rodovias Castelo Branco e Raposo Tavares.
tecnológicas.
Aglomeração Urbana de Piracicaba
Região Metropolitana de São Paulo
Com seus mais de 20 milhões de habitantes, 39 muni A região de Piracicaba, uma das mais desenvolvidas do
estado, congrega 22 municípios, possui parque industrial
cípios, 5 subregiões, 127 distritos, pouco mais de 3% do diversificado, setor de agronegócios altamente desenvolvido
território paulista e com um PIB superior a 55% do estado, e grande potencial turístico.
a Região Metropolitana de São Paulo se destaca pela
grandiosidade e importância de suas atividades. Aglomeração Urbana de Jundiaí
Região Metropolitana da Baixada Santista A Aglomeração Urbana de Jundiaí nasceu com o intuito
Com seus 9 municípios, situada no Litoral Sul do Estado, de permitir o desenvolvimento sustentável e garantir o bem
estar dos cerca de 700 mil habitantes dos 7 municípios que
a Região Metropolitana da Baixada Santista possui o parque a integram.
Industrial de Cubatão, o Complexo Portuário de Santos e
desempenha funções de destaque no estado. Texto elaborado com base em: SUBSECRETARIA DE
ASSUNTOS METROPOLITANOS. Disponível em:
Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte <www.sdmetropolitano.sp.gov.br/portalsdm/
O Vale do Paraíba é uma região socioeconômica que
unidades-regionais.jsp>; DOMINGOS, Roney. G1. Disponível em:
abrange parte do leste do estado de São Paulo e sul do estado <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/08/estudo-aponta-
do Rio de Janeiro.
macrometropole-em-sp-com-29-milhoes-de-habitantes.html>.
Acesso em: 9 abr. 2016.
O processo de urbanização no Brasil C A P Í T U L O 1 1 137
Refletindo sobre o conteúdo
1. O professor Mílton Santos (1926-2001), importante Um total de 11 455 homicídios, 3 028 vítimas fatais
professor e pesquisador brasileiro, perguntou: em acidentes de trânsito, 719 suicídios, 6 817 crianças
mortas antes de completar um ano de idade e 4 066
Mas, que vem a ser uma “cidade grande”, uma “ci nascidos mortos. É este o custo, em vidas humanas, que
dade média”, uma “capital regional” ou mesmo uma a existência da cidade de São Paulo, com 17 878 703
“metrópole”? habitantes, cobra dos seus habitantes. São 26 085 vidas
por ano, ou 70 + 1 ao dia, consumidas sem a menor
SANTOS, Mílton. O trabalho do geógrafo no Terceiro Mundo. cerimônia — incluídas nesse quadro as mortes infantis
São Paulo: Edusp, 2009. p. 81. precoces por serem, quase em sua totalidade, conse
quências da desigualdade social e da falta de acesso a
• Diferencie os termos salientados pelo autor e dê recursos básicos.
exemplos de acordo com a realidade brasileira.
BUCCI, Angelo. São Paulo, razões de arquitetura: da dissolução
2. Faça as atividades propostas. dos edifícios e de como atravessar paredes. São Paulo:
Romano Guerra, 2010. p. 17-18.
a) Relacione os tecnopolos à Terceira Revolução
Industrial. a) Indique dois recursos básicos que justifiquem os
números apresentados no texto.
b) Identifique dois tecnopolos brasileiros.
b) Elabore um título para o texto que você acabou
3. O processo de conurbação existente entre as cidades de ler. Justifique sua escolha.
do Rio de Janeiro e de São Paulo configura a chama-
da megalópole. Explique essa afirmação e comente 6. Geografia, Língua Portuguesa e Biologia Leia o poe-
duas de suas características. ma a seguir e responda.
4. Leia o texto e depois faça o que se pede. O monstrengo
A construção da rede urbana brasileira obedeceu
Carro,
durante quatro séculos ao ritmo lento da exploração de fumaça,
território vasto, sempre em condições de baixa densida febre,
de. Ao final do século XIX, com o fim da escravatura e o barulho,
ingresso de fortes contingentes de imigrantes, muda o lixo,
ritmo da urbanização. A rapidez de sua transformação e enchente,
consolidação foi espantosa: São Paulo, a mais importan mato,
te metrópole do país, passou em dez anos (18901900) medo,
de 65 mil para 265 mil habitantes, em grande parte ita caos,
lianos. E, em apenas cem anos, durante o século XX, confusão...
passou de 265 mil habitantes para mais de 10 milhões: É a cidade que avança cega,
sua região metropolitana, hoje inteiramente conurbada
e cobrindo cerca de 80 quilômetros quadrados, passou desgovernada,
de menos de 300 mil para 17 milhões. [...] na contramão.
WILHEIM, J. Metrópoles e faroeste no século XXI. ARAUJO, Aloisio Ferreira de.
In: SACHS, I.; WILHEIM, J.; PINHEIRO, P. S. (Org.). Professor de Língua Portuguesa do Ensino Médio
Brasil: um século de transformações. na rede privada de São Paulo.
São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 476.
• Diversas cidades brasileiras vivenciam situações
a) Explique duas características da rede urbana bra- iguais às descritas no poema. Em sua opinião, quais
sileira. problemas afetam cidades que se formam e cres-
cem sem planejamento urbano?
b) Identifique três problemas comuns existentes nas
grandes cidades brasileiras. 7. Qual é o critério utilizado para definir uma cidade no
Brasil?
5. Geografia e Língua Portuguesa Leia um pequeno
trecho extraído de uma tese de doutorado sobre a 8. O local onde você mora pode ser considerado uma
cidade de São Paulo, defendida por um arquiteto e cidade? Justifique.
professor universitário.
Não escreva
no livro
138 U N I D A D E 3 Ocupação do território brasileiro: população e urbanização
Concluindo a Unidade 3
Leia o texto, reflita e depois responda às questões Metropolitanas — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte,
propostas. Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e
Brasília e chegou aos seguintes resultados:
Moradores de favelas movimentam
RS 68,6 bilhões por ano 1) Para 32% dos que se disseram vítimas de preconceito,
o motivo foi a cor da pele e para 30%, morar em uma favela.
Os moradores de favelas movimentam RS 68,6 bilhões Para 20%, o preconceito decorreu da falta de dinheiro e, para
por ano, segundo pesquisa do Data Favela, feita com o apoio 8%, das roupas que vestiam.
do Data Popular e da Central Única das Favelas (Cufa).
2) 37% dos moradores de favela já foram revistados por
A pesquisa mostra ainda que o aumento da renda média, policiais, proporção que chega a 65% quando se trata de
proporcionado principalmente pelo crescimento real do jovens de 18 a 29 anos. Entre os que já foram revistados, a
salário mínimo e do emprego formal, tem permitido que os média chega a 5,8 abordagens ao longo da vida.
12,3 milhões de pessoas que vivem nessas comunidades
participem do mercado de consumo. 3) 75% dos moradores de favela são totalmente ou
parcialmente favoráveis à pacificação.
Os dados preliminares do estudo indicam que, em 2015,
75% das casas têm máquina de lavar roupas. No levantamento 4) 73% dos moradores acham as favelas violentas, sendo
de 2013, o índice era de 69%. que 18% as consideram muito violentas.
Em relação à posse de TV de plasma, LED ou LCD, os 5) Para 60%, no entanto, a comunidade melhorou nos
aparelhos estão presentes em 67% das residências, contra últimos anos, e 76% acreditam que vai melhorar nos próximos
46% em 2013. O estudo revela ainda que subiu de 20% (em anos. Sair da favela não é o desejo de 66% dos entrevistados,
2013) para 24% o percentual de moradores que têm carro. e 94% se consideram felizes, um ponto percentual a menos
do que a média nacional, segundo o Data Favela.
Quando se trata de acesso ao Ensino Superior e níveis de
renda mais elevados, os lares situados em áreas de invasões Texto elaborado com dados de: AGÊNCIA BRASIL. Disponível em:
públicas ou particulares — pobres em serviços públicos — <http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2015-03/
ainda vivem uma realidade distante da realidade de outras
áreas do Brasil. moradores-de-favela-movimentam-r-686-bilhoes-por-ano-indica-
estudo>; DATA Favela. Disponível em: <http://datafavela.com.br/
Também cresceu, no entanto, o número de moradores de quase-30-dos-moradores-de-favelas-ja-se-sentiram-discriminados-
favelas endividados. Em 2013, 27% deles tinham dívidas, em
2015 são 35%. A faixa etária entre 35 e 49 anos tem o maior diz-pesquisa>. Acesso em: 9 abr. 2016.
percentual de endividados, 45%.
1 Alguns questionam o uso do termo favela e utilizam
A inadimplência permanece no mesmo nível, 22% têm a expressão comunidade para se referir a esses lo-
contas atrasadas há mais de 30 dias, 53% dizem que está cais. Já para a Biologia, comunidade é o conjunto
difícil manter as contas em dia e 80% têm medo da inflação. dos seres vivos. Em sua opinião, chamar os “aglo-
merados subnormais” de favelas ou comunidades
Quase 30% dos moradores de favelas já se sentiram muda algo ao se tratar dessa característica urbana
discriminados, diz pesquisa brasileira?
O Data Favela realizou uma pesquisa com base em 2 mil 2 Com base na reportagem anterior, aponte duas si-
entrevistas, com moradores de 63 favelas, em dez Regiões tuações em que os habitantes dos “aglomerados
subnormais” sentiram-se discriminados.
Delfim Martins/Pulsar Imagens Não escreva
no livro
Vista aérea da
comunidade Morro
do Papagaio, em Belo
Horizonte (MG).
Foto de 2015.
139
Testes e quest›es Não escreva no livro
Enem 3 A urbanização brasileira, no início da segunda meta
de do século XX, promoveu uma radical alteração nas
1 No século XIX, o preço mais alto dos terrenos situados cidades. Ruas foram alargadas, túneis e viadutos
no centro das cidades é causa da especialização dos bair foram construídos. O bonde foi a primeira vítima fa
ros e de sua diferenciação social. Muitas pessoas, que tal. O destino do sistema ferroviário não foi muito
não têm meios de pagar os altos aluguéis dos bairros diferente. O transporte coletivo saiu definitivamente
elegantes, são progressivamente rejeitadas para a peri dos trilhos.
feria, como os subúrbios e os bairros mais afastados.
JANOT, L. F. A caminho de Guaratiba. Disponível em:
RÉMOND, R. O século XIX. <www.iab.org.br>.
São Paulo: Cultrix, 1989 (adaptado).
Acesso em: 9 jan. 2014 (adaptado).
Uma consequência geográfica do processo socioes-
pacial descrito no texto é a A relação entre transportes e urbanização é explica-
a) criação de condomínios fechados de moradia. da, no texto, pela
b) decadência das áreas centrais de comércio popular.
c) aceleração do processo conhecido como cerca- a) retirada dos investimentos estatais aplicados em
transporte de massa.
mento.
d) ampliação do tempo de deslocamento diário da b) demanda por transporte individual ocasionada
pela expansão da mancha urbana.
população.
e) contenção da ocupação de espaços sem infraes- c) presença hegemônica do transporte alternativo
localizado nas periferias das cidades.
trutura satisfatória.
d) aglomeração do espaço urbano metropolitano im-
2 pedindo a construção do transporte metroviário.
Região Metropolitana de Belo Horizonte e) predominância do transporte rodoviário associa-
do à penetração das multinacionais automobi-
Confins Banco de imagens/Arquivo da Editora lísticas.
Ribeirão Vespasiano 4 Tratase de um gigantesco movimento de construção
das Santa Luzia de cidades, necessário para o assentamento residen
cial dessa população, bem como de suas necessidades
Neves de trabalho, abastecimento, transportes, saúde, ener
gia, água etc. Ainda que o rumo tomado pelo cresci
Contagem mento urbano não tenha respondido satisfatoriamen
te a todas essas necessidades, o território foi ocupa
Belo Sabará do e foram construídas as condições para viver nesse
Horizonte espaço.
Betim
MARICATO, E. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana.
Ibirité Petrópolis: Vozes, 2001.
Nova Lima A dinâmica de transformação das cidades tende a
apresentar como consequência a expansão das
Saldo do Fluxo de pessoas Itabirito áreas periféricas pelo
deslocamento
15 000 a 31 400 a) crescimento da população urbana e aumento da
–75 275 a –31 400 31 401 a 58 300 especulação imobiliária.
–31 399 a 0 58 301 a 103 200
0 a 19 168 limite de município b) direcionamento maior do fluxo de pessoas, devi-
19 169 a 293 119 do à existência de um grande número de serviços.
Nota: O saldo considera apenas as pessoas que se deslocavam c) delimitação de áreas para uma ocupação orga-
para o trabalho e retornavam aos seus municípios diariamente. nizada do espaço físico, melhorando a qualidade
de vida.
BRASIL. IBGE. Atlas do Censo Demográfico 2010
(adaptado). d) implantação de políticas públicas que promovem
a moradia e o direito à cidade aos seus moradores.
O fluxo migratório representado está associado ao
processo de e) reurbanização de moradias nas áreas centrais,
a) fuga de áreas degradadas. mantendo o trabalhador próximo ao seu emprego,
b) inversão da hierarquia urbana. diminuindo os deslocamentos para a periferia.
c) busca por amenidades ambientais.
d) conurbação entre municípios contíguos.
e) desconcentração dos investimentos produtivos.
140 CONCLUINDO A UNIDADE 3
5 Os dados da tabela a seguir mostram uma tendên- Com base na tabela anterior, a respeito da população
cia de diminuição, no Brasil, do número de filhos brasileira, assinale a alternativa correta.
por mulher.
a) A população brasileira, a despeito dos avanços
Evolução das taxas de fecundidade sociais dos últimos anos, apresenta ainda um pa-
drão de “explosão demográfica”, com elevado
Época Número de filhos por mulher número de filhos por mulher. A taxa de fecundi-
dade elevada se justifica pelos baixos índices de
Século XIX 7 escolaridade, principalmente a feminina.
1960 6,2 b) Desde o censo de 1991, nota-se uma tendência
de queda da taxa de fecundidade no Brasil.
1980 4,01 Entretanto, nas regiões em que há maiores índi-
ces de pobreza e menores índices de escolarida-
1991 2,9 de, isso não ocorreu.
1996 2,32 c) O Brasil tem contrariado o padrão demográfico
de países que vivenciaram o processo de urbani-
Fonte: IBGE. Contagem da População de 1996. zação, como os EUA, Canadá e os da Europa
Ocidental. Esse fato pode ser confirmado pela
Entre as alternativas, a que melhor explica essa ten- taxa elevada de fecundidade em todo o país.
dência é:
d) A queda das taxas de fecundidade tem se mos-
a) Eficiência da política demográfica oficial por meio trado como uma tendência nacional. De um modo
de campanhas publicitárias. geral, a queda acompanha as transformações so-
cioeconômicas das últimas décadas.
b) Introdução de legislações específicas que deses-
timulam casamentos precoces. e) Os programas sociais de transferência de renda,
como o “Bolsa Família”, têm sido um forte estí-
c) Mudança na legislação que normatiza as relações mulo para o aumento da taxa de natalidade, prin-
de trabalho, suspendendo incentivos para traba- cipalmente nas áreas em que há maiores índices
lhadoras com mais de dois filhos. de população rural, como nas regiões norte e
nordeste.
d) Aumento significativo de esterilidade decorrente
de fatores ambientais. 2 (Fatec-SP) O trabalho análogo à escravidão não se
restringe apenas à situação em que o trabalhador
e) Maior esclarecimento da população e maior par- não tenha se candidatado espontaneamente ao em-
ticipação feminina no mercado de trabalho. prego, mas também quando ele é ludibriado com
falsas promessas de ganho e quando é coagido a
Testes de vestibular Não escreva trabalhar.
no livro
1 (Mack-SP) No Brasil, nos últimos anos, podemos afirmar corre-
tamente que esse tipo de trabalho incide, em maior
Tabela 1 – Grandes Regiões – escala, na exploração de
Taxa de Fecundidade Total – 2000-2010
a) idosos, em atividades domésticas, no estado de
Grandes Taxa de Fecundidade Diferença Goiás.
Regiões Total Relativa
2000/2010 b) mulheres, em carvoarias, no estado de São Paulo.
2000 2010(1)
(%) c) adolescentes, em indústrias siderúrgicas, no es-
tado de Sergipe.
Brasil 2,38 1,86 –21,9
d) crianças, no setor da construção civil, no estado
Norte 3,16 2,42 –23,5 de Santa Catarina.
Nordeste 2,69 2,01 –25,2 e) homens, nas atividades pecuárias e de desmata-
mento, no estado do Pará.
Sudeste 2,10 1,66 –21,0
3 (PUC-RS) As atuais regiões metropolitanas brasilei-
Sul 2,24 1,75 –21,7 ras foram instituídas por lei aprovada no Congresso
Nacional, pois a Constituição Brasileira possibilita a
Centro-Oeste 2,25 1,88 –16,3 estadualização do reconhecimento dessas regiões
pelos Estados. Resulta daí, por exemplo, a criação de
Fonte: Censos Demográficos 2000/2010 regiões metropolitanas como as
(1) Resultados Preliminares
CONCLUINDO A UNIDADE 3 141
1. de Campinas. d) megacidades dispersas pelo país, graças ao retorno
2. de Londrina. de imigrantes, como Manaus, Goiânia e Curitiba.
3. do Vale do Itajaí.
4. do Vale do Aço. e) metrópoles regionais, que constituem a primei-
Estão corretos os itens ra megalópole do país, como Fortaleza, Recife e
a) 1 e 2, apenas. Salvador.
b) 2 e 3, apenas.
c) 3 e 4, apenas. 6 (UFRGS-RS) Considere, a partir dos gráficos abaixo,
d) 1, 2 e 3, apenas. as afirmações seguintes sobre a população brasilei-
e) 1, 2, 3 e 4. ra de pretos e pardos ao longo dos anos.
4 (UFRGS-RS) Observe a imagem abaixo. Proporção de pretos e pardosReprodução/UFRGS 2015 51% 51% 51%
no total da população Arte Ação/Arquivo da editora50% 50% 50%
48% 38%
34% 35%
47%
45% 45% 45% 46% 46%
45% 45% 45%
44%
Proporção de pretos e pardos 30% 30% 32%
no Ensino Superior
28%
25%
23%
22%
19%
18% 18% 18% 18% 18%
19%
1992 1993 1995 1996 1997 1998 1999 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2011
Da janela de um avião descendo no aeroporto de A divisão da
Guarulhos percebe-se que a extensão da malha ur-
bana dificulta a definição dos limites entre os muni- população Pretos (8,2%)
cípios vizinhos ao de São Paulo. O conceito que me- 47,8% 51,3% e pardos (43,1%)
lhor expressa a unificação da extensão territorial de (em 2011) Brancos
vários municípios é
Indígenas/
a) conurbação. amarelos
1%
b) aglomeração.
Disponível em: <http://oglobo.globo.com/infograficos/
c) região metropolitana. desigualdade-racial-avancos/>. Acesso em: 15 set. 2014.
d) regiões distritais. I. Os pretos e pardos atualmente representam a
maior parte da população brasileira.
e) desmunicipalização.
II. Os dois gráficos apresentam um aumento mais
5 (Unifesp-SP) No Brasil, em decorrência do processo expressivo dessa população, do que sua inserção
de urbanização, verificou-se uma intensa metropo- no ensino superior.
lização, da qual resultaram:
III. O aumento expressivo dessa população ocorre a
a) cidades médias, que se industrializaram após a partir de 2005, assim como a estagnação do in-
abertura econômica da década de 1990, como gresso no ensino superior.
Campinas e Ouro Preto.
Quais estão corretas?
b) metrópoles nacionais, sedes do poder econômico a) Apenas I.
e político do país, como São Paulo, Brasília e Rio b) Apenas II.
de Janeiro. c) Apenas III.
d) Apenas I e III.
c) cidades mundiais, que receberam vultosos inves- e) I, II e III.
timentos externos no início do século XXI, como
Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
142 CONCLUINDO A UNIDADE 3
7 (Unopar-PR) Dos imigrantes que vieram para o Brasil, e) Envelhecimento da população, melhoria dos
a maior contribuição populacional foi dada pelos: serviços de saúde e elevação da mortalidade
geral.
a) italianos e alemães.
b) japoneses e espanhóis. 9 (IFPE) É correto afirmar sobre as características
c) portugueses e japoneses. atuais da estrutura da população brasileira:
d) alemães e espanhóis.
e) portugueses e italianos. a) No Brasil, o crescimento vegetativo ou natural
continua apresentando índices muito baixos, típi-
8 (UFMS) Os gráficos a seguir, embora se refiram à cos de países desenvolvidos.
população brasileira, se comparados, evidenciam um
fenômeno demográfico atual e mundialmente preo- b) De 1992 para 2001, a participação dos menores
cupante. Assinale a alternativa que contém o fenô- de 10 anos na população total vem aumentando
meno demográfico evidenciado pelos gráficos, uma de 18,7% para 22,1%.
de suas causas e uma de suas consequências, neces-
sariamente nessa ordem. c) A atual estrutura da população brasileira apresen-
ta aumento das taxas de natalidade e de mortali-
dade e redução da expectativa de vida.
d) No processo de transição demográfica, vem au-
mentando a participação da população de jovens
e reduzindo-se a de idosos no conjunto total da
população.
e) No processo de transição demográfica, vem se
reduzindo a participação da população jovem e
aumentando a de idosos no conjunto total da
população.
Pirâmide etária – Banco de imagens/Arquivo da editora
população brasileira em 1980 Banco de imagens/Arquivo da editora
Homens 75 Mulheres
70
65 10 (Unisc-RS) A população do Brasil é
60
55 a) regularmente distribuída, predominando os bran-
50 cos e, etariamente, o jovem.
45
40 b) irregularmente distribuída, predominando, etni-
35 camente, o branco e, etariamente, o adulto.
30
25 c) de elevado crescimento vegetativo, elevado nível
20 cultural e com predominância étnica do negro.
15
10 d) de grande crescimento vegetativo, etariamente
jovem e com a predominância do branco.
5
e) de alto crescimento vegetativo, com predominân-
2 000 000 1 000 000 0 1 000 000 2 000 000 cia dos mestiços e elevado consumo de energia.
População
Pirâmide etária –
população brasileira em 2030
Homens 75 Mulheres
2 000 000 70
65
60
55
50
45
40
35
30 11 (UFG-GO) Observe o gráfico a seguir.
25
20
15 Brasil — taxas de natalidade, mortalidade e
10
5 crescimento vegetativo, 1872/2000
1 000 000 0 1 000 000 2 000 000 5,00
População
4,50
4,00
Fonte: IBGE. 3,50 A
a) Crescimento demográfico, migrações internas e 3,00
favelização.
2,50
b) Queda da fecundidade, redução da taxa de nata-
lidade e redução do crescimento vegetativo. 2,00 B
c) Envelhecimento da população, queda da fecundi- 1,50
dade e crise da previdência social.
1,00
d) Elevação da expectativa de vida, diminuição da
mortalidade infantil e elevação do IDH (Índice de 0,50
Desenvolvimento Humano).
0,00
1872-90 1891-00 1901-20 1921-40 1941-50 1951-60 1961-70 1971-80 1981-91 1991-00
Natalidade Mortalidade Crescimento vegetativo
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.
Anuário Estatístico do Brasil, 1982. Censo demográfico 2000.
CONCLUINDO A UNIDADE 3 143
A diferença entre as taxas de natalidade e de mor- e) O decréscimo da população rural brasileira, en-
talidade indica aumento, redução ou estabilização tre 1970 e 2000, a níveis muito inferiores aos
na taxa de crescimento vegetativo. A leitura e inter- observados para 1940, relacionou-se à amplia-
pretação do gráfico demonstra que o crescimento ção da atividade industrial e à extinção de direi-
vegetativo tos trabalhistas para o homem do campo.
a) aumenta quando as taxas de natalidade e morta- Questões de vestibular Não escreva
lidade são elevadas. no livro
b) estabiliza-se quando a taxa de natalidade é maior 1 (Fuvest-SP) Segundo o IBGE, aglomerado subnormal
que a de mortalidade. “é um conjunto constituído de, no mínimo, 51 uni-
dades habitacionais (barracos, casas, etc.) caren-
c) é maior quando a diferença entre as taxas de na- tes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais.
talidade e mortalidade é elevada. O conceito de aglomerado subnormal foi utilizado
pela primeira vez no Censo Demográfico 1991. Possui
d) é baixo quando a taxa de mortalidade é menor certo grau de generalização, de forma a abarcar a
que a de natalidade. diversidade de assentamentos existentes no País,
conhecidos como: favela, invasão, grota, baixada,
e) aumenta quando as taxas de natalidade e morta- comunidade, vila, ressaca, mocambo, palafita, entre
lidade são baixas. outros”.
12 (PUC-RJ) Aglomerados subnormais. IBGE, 2011.
Adaptado.
Brasil — evolução da população, 1940-2000 Banco de imagens/Arquivo da editora
Banco de imagens/Arquivo da editora
1.000 habitantes Região Sudeste: domicílios particulares ocupados
160 000 em aglomerados subnormais
140 000
120 000 20º S MG
100 000 ES
80 000
60 000 SP RJ
40 000 MG Oceano Atl‰ntico
20 000
Domicílios em Aglomerados Subnormais
0
1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 > 250.000 45.000 a 250.000 0 190 km
urbana rural 20.000 a 45.000 4.500 a 20.000
Fonte: Censo demográfico 2000. IBGE. 0 a 4.500
Assinale a alternativa correta, tendo como referência Censo Demográfico 2010. Aglomerados subnormais. IBGE, 2011.
o gráfico acima.
Com base no texto e no mapa,
a) A maior concentração demográfica da população
brasileira em áreas rurais, no período de 1940 a a) identifique duas características dos aglomerados
1980, foi resultado da predominância das ativi- subnormais, sendo uma relativa à questão fundiá-
dades agroexportadoras na geração da riqueza ria e outra ao padrão de urbanização;
nacional.
b) explique a concentração espacial dos aglomera-
b) O expressivo crescimento populacional entre 1970 dos subnormais na região Sudeste e o processo
e 2000 foi consequência direta dos programas de que levou a essa concentração.
incentivo à natalidade, promovidos pelos gover-
nos militares e direcionados, especialmente, para
as populações urbanas de baixa renda.
c) Entre 1940 e 2000, a inexistência de variação da
população rural decorreu das migrações internas
e, principalmente, da decadência e estagnação
das lavouras de cana-de-açúcar, café e soja.
d) A crescente concentração da população brasilei-
ra em áreas urbanas, a partir de 1970, esteve as-
sociada, entre outros aspectos, à ampliação dos
setores industriais e de serviços e à atração exer-
cida pelas cidades.
144 CONCLUINDO A UNIDADE 3
2 (Uerj) Observe, nas pirâmides etárias ao Homens Idade Mulheres Homens Idade Mulheres Arte Ação/Arquivo da editora
lado, a distribuição da população por sexo 1980 1990
e por faixas de idades, apontando trans- 70 ou + 70 ou +
formações na estrutura populacional do 10 8 6 4 2 65 a 69 10 8 6 4 2 65 a 69
Brasil. 60 a 64 60 a 64
55 a 59 55 a 59
• Considerando o período de 1980 a 2020, 50 a 54 50 a 54
explique a mudança principal em relação 45 a 49 45 a 49
à proporção de jovens e a mudança prin- 40 a 44 40 a 44
cipal em relação à proporção de idosos 35 a 39 35 a 39
na população brasileira. 30 a 34 30 a 34
25 a 29 25 a 29
20 a 24 20 a 24
15 a 19 15 a 19
10 a 14 10 a 14
5a9 5a9
0a4 0a4
0 0 2 4 6 8 10 0 0 2 4 6 8 10
milhões de habitantes milhões de habitantes
Homens Idade Mulheres Homens Idade Mulheres
2000
Idosos 70 ou + 2020 70 ou +
Adultos 65 a 69 (estimativa) 65 a 69
Jovens 60 a 64 60 a 64
Não escreva 55 a 59 55 a 59
no livro 50 a 54 50 a 54
45 a 49 45 a 49
Adaptado de: BOLIGIAN, L.; BOLIGIAN, 40 a 44 40 a 44
A. T. A. Geografia, espa•o e viv•ncia. São 35 a 39 35 a 39
30 a 34 30 a 34
Paulo: Atual, 2011. 25 a 29 25 a 29
20 a 24 20 a 24
15 a 19 15 a 19
10 a 14 10 a 14
5a9 5a9
0a4 0a4
10 8 6 4 2 0 0 2 4 6 8 10 10 8 6 4 2 0 0 2 4 6 8 10
milhões de habitantes milhões de habitantes
Outras fontes de reflexão e pesquisa O filme retrata a trajetória de Buscapé, jovem
negro que vive na Cidade de Deus, favela que
Filmes surgiu nos anos 1960, e se tornou um dos lugares
mais violentos do Rio de Janeiro no começo dos
Sempre que você for assistir a um filme na sala de anos 1980.
aula ou em casa, por recomendação do professor,
lembre-se de alguns passos importantes: Cultura negra: resistência e identidade
Direção: Ricardo Malta. Brasil, 2009, 25 minutos.
• Leia o texto do capítulo ou suas anotações so- Documentário produzido pela Comissão de Com-
bre o assunto antes de assistir ao filme. bate à Intolerância Religiosa (CCIR) e pelo Centro
de Articulação de Populações Marginalizadas
• Concentre-se e preste muita atenção. Se pos- (Ceap), organizações sociais que combatem a
sível, anote os principais acontecimentos. intolerância religiosa e buscam maior visibilidade
da cultura negra. Aqui é discutido o feriado dedi-
• Caso o professor tenha sugerido um roteiro para cado à Consciência Negra.
você acompanhar a projeção do filme, procure
segui-lo e identificar os pontos principais. O caminho das nuvens
Direção: Vicente Amorim. Brasil, 2003, 86 mi-
• Anote os trechos que você não entendeu para nutos.
esclarecer com o professor. Narra a história de um casal e seus cinco filhos,
com idades entre 6 meses e 14 anos, que percor-
• Tire suas próprias conclusões e forme sua opi- rem mais de 3 mil quilômetros de bicicleta em
nião sobre o que assistiu. busca de uma vida melhor.
Apresentamos a seguir algumas sugestões de filmes Vista a minha pele
que abordam o conteúdo tratado nesta Unidade. Direção: Joel Zito Araújo e Dandara. Brasil, 2004,
30 minutos.
Central do Brasil Esse documentário sob a forma de paródia abor-
Direção: Walter Salles. Brasil, 1998, 115 minutos. da o racismo e o preconceito que ainda são en-
Dora escreve cartas para analfabetos na estação contrados nas salas de aula do Brasil.
Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Lá conhece o
menino Josué, que fica sozinho após sua mãe ser
atropelada. Dora acaba se envolvendo com o ga-
roto e o ajuda a tentar encontrar o pai que nunca
conheceu, no interior do Nordeste.
Cidade de Deus
Direção: Fernando Meirelles. Brasil, 2002,
135 minutos.
CONCLUINDO A UNIDADE 3 145
Livros O povo brasileiro
Darcy Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras,
Estes livros poderão elucidar e ampliar o assunto es- 2006. (Companhia de Bolso).
tudado. Por que o Brasil ainda não deu certo? Quando
chegou ao exílio no Uruguai, em abril de 1964,
A urbanização brasileira Darcy Ribeiro queria responder a essa pergunta
Mílton Santos. São Paulo: Edusp, 2005. na forma de um livro-painel sobre a formação do
Neste livro, Mílton Santos analisa o processo de povo brasileiro e sobre as configurações que ele
urbanização no Brasil a partir de seus aspectos foi tomando ao longo dos séculos. A resposta veio
sociais, econômicos e territoriais. O livro aborda, com este que é o seu livro mais ambicioso, fruto
com a ajuda de dados e tabelas comparativas de trinta anos de estudo.
entre as épocas, os mais diversos tipos de urba-
nização e metropolização; a população rural; a O sortilégio da cor: identidade, raça e gênero do
divisão social e territorial do trabalho; a concen- Brasil
tração econômica; o êxodo rural; os problemas Elisa L. Nascimento. São Paulo: Selo Negro, 2003.
de estrutura nas cidades, entre outros assuntos Obra que se insere na nova corrente de reflexões
pertinentes a uma análise completa — e aponta sobre o negro brasileiro e coloca o problema da
tendências para o futuro. identidade no centro de sua profunda análise.
Casa-grande & senzala em quadrinhos Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil
Gilberto Freyre. São Paulo: Global, 2005. Sueli Carneiro. São Paulo: Selo Negro Edições,
Orientado pelo próprio Gilberto Freyre, o histo- 2011. (Consciência em debate.)
riador Estêvão Pinto resumiu CasaGrande & A autora preocupou-se em escrever uma obra em
Senzala, e Ivan Wasth Rodrigues pesquisou as que demonstra como o racismo e o sexismo se
imagens que integram a obra. Esta edição traz estruturaram na sociedade brasileira.
um apanhado de fatos e costumes dos povos que
formaram a nação brasileira, desde os primórdios Sites
da colonização pelos portugueses, em 1532, até
a época da escravidão dos negros, passando pela Os sites indicados a seguir constituem uma boa
formação da sociedade. fonte de pesquisa.
Cineastas Indígenas: um outro olhar. Guia para <www.memorialdoimigrante.sp.gov.br>
professores e alunos O Memorial do Imigrante concentra grande quan-
Programa Petrobras Cultural. Brasil, 2010. tidade de registros históricos sobre a imigração para
Acompanhado de DVDs, oferece uma visão parti- o Brasil na passagem do século XIX para o XX.
cular da realidade indígena brasileira porque a abor- Abriga também o Museu do Imigrante, e se locali-
da a partir da visão dos próprios indígenas. Vem za na sede da antiga Hospedaria dos Imigrantes, no
também suprir uma crescente demanda por mate- bairro da Mooca, na cidade de São Paulo.
riais didáticos específicos desde a obrigatoriedade
do estudo da história e da cultura indígenas. <www.ibge.gov.br>
Site do IBGE, em que é possível encontrar vários
Meio Ambiente e saúde: o desafio das metrópoles tipos de estatísticas: censos demográficos, con-
Paulo Saldiva. São Paulo: Ex-Libris, 2010. tagem da população, pesquisas por amostra de
O autor, médico especialista em poluição atmos- domicílios e outras.
férica, discute a degradação ambiental das cida-
des e o impacto que ela causa sobre a saúde <www.ibge.gov.br/ibgeteen>
mental e física dessa população. A região metro- Site do IBGE para estudantes em geral, com ma-
politana de São Paulo, uma das mais populosas pas, gráficos e estatísticas sobre a população
do mundo, é aqui analisada. brasileira.
Nordeste do Brasil: terra, mar e gente <www.ipea.gov.br/portal>
Melquíades Pinto Paiva. São Paulo: Bei, 2011. Site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
O autor, engenheiro agrônomo de formação, ex- (Ipea), com informações e estatísticas sobre eco-
plora aspectos da região Nordeste e destaca a sua nomia e população brasileira.
população, fauna, flora e recursos hídricos.
146 CONCLUINDO A UNIDADE 3
unidade Organização do
espaço econômico
Acervo Iconographia/Reminisc•ncias
4 e industrialização
Construção da Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN), em Volta Redonda,
estado do Rio de Janeiro, em 1941,
considerada um marco no processo de
industrialização do Brasil.
O processo de industrialização, muito importante na organização econômica do espaço brasi-
leiro a partir da segunda metade do século XX, foi diferente do processo ocorrido nos países
desenvolvidos. Como a industrialização brasileira aconteceu quase um século depois da Primeira
Revolução Industrial, é chamada de industrialização recente ou tardia. Nesta Unidade, estudaremos
como se organiza e como se distribui espacialmente a indústria brasileira.
147
capítulo 12
A organização do espaço
econômico brasileiro
Museu Paulista da Universidade de São Paulo - SP
A ocupação do território brasileiro sempre esteve ligada às atividades econômicas desenvolvidas desde o período colonial e resultou
no aspecto e na organização econômica que o Brasil apresenta atualmente. A atividade cafeeira criou as principais condições para a
industrialização, que deu início à integração do território nacional, ligando pela primeira vez as diversas áreas de produção do país.
Na imagem, mulheres em plantação de café na virada do século XX, Fazenda Araraquara, São Paulo.
Herança colonial: Uma das consequências de se buscar riquezas fora
arquipélago econômico do espaço europeu foi a exploração e a colonização
de territórios até então desconhecidos, como o con-
O Brasil começou a ser explorado no século XVI, tinente americano, onde se localiza o Brasil.
em um período no qual países europeus buscavam
especiarias (cravo-da-índia, noz-moscada, pimenta- Como a maior parte das riquezas obtidas em ter-
-do-reino, canela, gengibre, açafrão, entre outras) e ras brasileiras tinha como destino a metrópole e o
metais preciosos , como ouro e prata. Esse período mercado externo, nosso primeiro modelo de organi-
ficou conhecido como Expansão Marítimo-Comer- zação econômica foi formado por “ilhas” desconexas
cial (séculos XV e XVI), ou Grandes Navegações. entre si e voltadas para o exterior, compondo o que
chamamos de “arquipélago econômico”.
148 U N I D A D E 4 Organização do espaço econômico e industrialização