APRESENTAÇÃO
Tudo de contingente, tudo de humano
Luís Augusto Fischer*
De Montaigne e sua obra – um daqueles casos em que criador e
criação são tomados em estreitíssima relação – se podem dizer
coisas fortes, bombásticas e verdadeiras. O que ele é para a França
e o pensamento francês, Sócrates foi para a Grécia e o pensamento
grego. Foi também o primeiro escritor de textos não ficcionais, talvez
o primeiro filósofo, no mundo cristão, a escrever sem dispor de outra
força que não sua própria individualidade: não era clérigo, nem
militar, nem professor, não representava uma corrente estabelecida
de pensamento. Inaugurou um gênero de texto, o ensaio, abrindo
caminho para toda uma vertente do pensamento leigo no Ocidente.
Foi o primeiro a dizer como escritor o que pensava como homem.
Qualquer uma dessas afirmativas pode render muita reflexão e
conversa, inclusive no meio acadêmico. Mas não é por isso que ele
sobrevive e proporciona prazer intelectual até hoje. Como o leitor
verá, a marca mais interessante do pensamento e do texto dos
Ensaios é justamente sua independência, sua inventividade, sua
liberdade, inclusive para ser contraditório, tomando temas os mais
variados, elevados ou mundanos, e pensando sobre eles a partir de
um ângulo estritamente pessoal, muitas vezes confessional.
Tão diferente, tão libertário, tão singular é, que o leitor encontra,
na carta a ele destinada pelo autor, logo no pórtico da publicação, a
desconcertante frase: “Assim, Leitor, sou eu mesmo a matéria de
meu livro: não é razão para que empregues teu lazer em tema tão
frívolo e vão”.
Com todo o direito o leitor se perguntará o que isso significa. O
autor o está expulsando da leitura? Não quer a presença do leitor,
figura sem a qual não há sentido para o escrever?
Depois de passar o susto de ver-se quase destratado, o leitor
respira e percebe que a frase tem dois movimentos, como aliás
ocorre em geral no modo montaigniano de argumentar. Primeiro,
assinala a estreita ligação entre o livro e o autor, registrando que o
assunto do livro é o próprio autor, ligação nada corriqueira em livros
de aspiração filosófica; segundo, afirma que, exatamente por isso, o
livro não merece muita consideração, e o leitor pode ir em busca de
atividade mais relevante. Um movimento de afirmação e de
valorização da abordagem pessoal, contraposto a outro de negação,
de desvalorização da pessoa que escreve.
Mas nem um, nem outro são propriamente verdadeiros. Não é a
exata verdade dizer que o assunto é apenas a vida do autor, porque
nos textos que publicou Montaigne examina muitos temas de
interesse público, ainda que sempre a partir de sua vida pessoal;
nem é total verdade que o autor desconsidere seus escritos, a ponto
de julgá-los irrelevantes, senão nem os publicaria, nem os teria
revisado e ampliado.
Montaigne e seus ensaios configuram, portanto, uma excelente
contradição – que começa lá no remoto século XVI e alcança nossa
época, para projetar-se, provavelmente, por todo o tempo em que
houver gente pensando e vivendo, como nós.
Michel Eyquem de Montaigne viveu entre 1533 e 1592. Nasceu e
morreu no castelo de Montaigne, perto de Bordeaux, no sudoeste da
França. Eyquem era o sobrenome de seu bisavô paterno, Ramon,
comerciante de peixes secos, corantes e vinhos, que enriqueceu e
comprou uma propriedade rural, pequena mas suficiente para adotar
o título “de Montaigne” – o nome da propriedade adquirida. O avô do
escritor, Grimon, avançou no processo de ascensão social: o grupo
familiar já tinha passado de burguês endinheirado a aristocrata da
terra e com Grimon ganhava o requinte de ter um membro
magistrado, que veio a ter filhos também bem-sucedidos. Um deles,
Pierre, o primogênito, tornou-se militar destacado e depois
desempenhou cargos administrativos de relevo na cidade de
Bordeaux.
Pierre, pai de nosso ensaísta, foi o primeiro da família a nascer no
castelo; adulto, casou-se com Antoinette de Louppes de Villeneuve,
de Toulouse (descendente de espanhóis, talvez judeus convertidos),
gente com história semelhante – burgueses enriquecidos, no caminho
para aristocratizar-se. Michel não foi o primeiro filho a nascer – teve
dois irmãos mais velhos, mortos com poucos anos de vida –, mas foi
o primeiro a vencer a barreira da infância. Com os anos, veio a ter
sete irmãos.
Michel foi o primeiro de sua linhagem a não mais ser relacionado
com a origem burguesa. Seu pai, por melhor guerreiro e
administrador público que tenha sido, era visto por aristocratas
tradicionais como um parvenu, um novo-rico. Um desses
conservadores referiu-se ao pai do escritor como “filho de
vendedores de arenque”. Michel, porém, já nasceu noutra condição –
não apenas era rico, como também era visto como um verdadeiro
aristocrata. Mas ele nunca mostrará postura arrogante em seus
ensaios e nunca renegará sua história familiar; pelo contrário,
encontram-se em sua obra lições de tolerância e de visão aberta a
mudanças, inclusive sociais.
Se tomarmos os Ensaios como o depoimento de vida que também
são, não restam dúvidas sobre como foi a relação do escritor com
os genitores: para o pai, ele tem só elogios e reconhecimento,
enquanto a mãe quase não é citada. Sabe-se que a relação com
esta foi tensa, marcada por confrontos e silêncios.
Do pai, lamentou não ter herdado a grande vitalidade física e a
disposição guerreira; mas aprendeu e desenvolveu o gosto por andar
a cavalo, atividade que lhe dava grande prazer, mesmo quando os
cálculos renais começaram a aborrecê-lo. Tanto gostava de
deslocar-se a cavalo que era sobre o lombo de um equino que mais
confortavelmente refletia.
Pierre criou o filho de modo moderno. Proporcionou a Michel o
aprendizado precoce do Latim, graças a um professor privado. O
menino foi assim levado ao grande mundo da literatura antiga, que
assimilou em profundidade – nos Ensaios, são citados profusamente
autores dessa tradição, nunca de modo pernóstico, sempre como
companheiros de pensamento, convocados para ajudar a refletir
sobre os temas que colhia no mundo. Além disso, o pai lhe
possibilitou ampla liberdade de comportamento e o aprendizado de
artes aplicadas, tudo banhado em relacionamento marcado por
carinho.
Michel pode não ter aprendido nada sobre o mundo da produção
agrícola, nem ter desenvolvido qualquer gosto pela vida militar; em
compensação, era feliz e inteligente. Também por causa das ideias
do pai, conviveu com todos os extratos sociais, dos mais pobres e
iletrados aos mais ricos e aos sofisticados intelectuais. Não é por
nada que, nos Ensaios, defende um ensino diferente daquele a que
eram submetidos os meninos e jovens da época, vítimas de disciplina
rígida e professores brutos.
A família era católica, mas tanto Pierre quanto Michel nutriam
simpatia por certas posições reformistas. Ou seja, além de ter sido
criado para a liberdade de pensamento, o escritor teve no pai um
exemplo de homem tolerante (que teria aprovado a conversão de
dois filhos ao calvinismo), numa época e num contexto marcados
pelas guerras de religião. No tempo de vida de Montaigne ocorreram
as grandes mudanças no âmbito do cristianismo ocidental, incluindo a
Reforma protestante, o Concílio de Trento e o começo da Contra-
Reforma, que deram vida a várias modalidades de religiões ditas
reformadas (luteranos, metodistas, anglicanos, quacres) e a uma
série de iniciativas pelo lado católico (a Inquisição e o Tribunal do
Santo Ofício, o bloqueio a interpretações dos textos sagrados, a
expansão do catolicismo para a América do Sul).
O ponto extremo desses conflitos ocorreu em 1572, na chamada
Noite de São Bartolomeu, um massacre de dezenas de líderes
protestantes em Paris e alguns milhares de vítimas em várias
cidades francesas, sob ordem dos reis franceses, católicos. Eram
tempos de intolerância religiosa; mas foi também o tempo de nosso
ensaísta, um temperamento conciliador que exercitou a tolerância e a
compaixão.
Michel amava Paris. Chegou a escrever que se sentia francês por
causa de Paris. Vale lembrar que ele nasceu e viveu numa província,
falando cotidianamente o gascão, uma língua bem diferente do
francês parisiense; numa de suas primeiras viagens a língua da
capital lhe pareceu por assim dizer sem sal. Mas é para lá que viaja
aos 17 anos, pensando em cursar a universidade. Mas não chegou a
cursar Direito em Paris, onde mesmo assim teria seguido alguns
cursos; talvez tenha estudado Leis em Toulouse, onde viviam seus
avós maternos e onde ele esteve várias vezes entre os 15 e os 27
anos. Mas o silêncio dos Ensaios a este respeito indica que não foi
linear nem clara sua formação superior formal.
Por que não permaneceu em Paris, se a amava e lá se
preparavam os filhos das elites francesas? Parece que o jovem
Michel teve uma vida de excessos por lá, e teria sido chamado de
volta pelos pais. (Na parte III dos Ensaios, ele lembraria a intensa
vida sexual que teve, à qual não faltaram nem mesmo doenças
venéreas.) De todo modo, aquele jovem aprendeu muito na grande
capital, especialmente os conhecimentos sutis das relações sociais,
da vida intelectualmente sofisticada, das tramas e dos jogos do
poder: ninguém com a inteligência de Michel frequentaria salões e
palácios em vão.
Também no que diz respeito aos sentimentos o escritor viveu num
tempo distinto do nosso. Estávamos ainda longe do mundo
romântico, que dois séculos depois inventou o amor como o
conhecemos. Mesmo assim cabe a pergunta: terá ele amado as
mulheres, aquelas com que se relacionou e outras, como sua
esposa, Françoise? Há indicações em contrário, e os comentadores
convergem na ideia de que ele conheceu apenas o amor por um
amigo, Étienne de La Boétie. Parece improvável que tenha tido
relações carnais com ele; é certíssimo que com ele viveu anos de
profunda identificação espiritual. Conheceram-se em data imprecisa,
entre 1557 e 1559, e despediram-se em 1563, quando da morte de
La Boétie. Ao amigo – que muito jovem escrevera o notável Discurso
da servidão voluntária, um libelo contra a tirania precursor da tese
da desobediência civil –, Montaigne dedicou um de seus mais belos
ensaios, “Da amizade”.
Chegou a dizer que, se a morte do amigo não tivesse acontecido
tão prematuramente, teria sido muito feliz em simplesmente
conversar com ele sobre os temas que abordou nos textos. Durante
essa amizade, Michel de Montaigne foi magistrado (espécie de juiz)
em Bordeaux, de 1555 a 1571. Sobre essa experiência, deixou
depoimentos interessantes: considerava o sistema de leis francesas
uma confusão terrível e sempre buscava conciliação entre as partes.
Foi neste período que casou-se (1565), herdou a propriedade do pai
após a morte deste (1568), sofreu uma seriíssima queda do cavalo
(1569), teve sua primeira filha (Antoinette, falecida aos dois meses
de vida, em 1570, ano em que faz imprimir parte da obra de seu
falecido amigo). A morte, de resto, é motivo de muitas reflexões
contidas nos Ensaios, como no célebre “Que filosofar é aprender a
morrer”.
Retirado para a propriedade de Montaigne (que com o tempo
aumentará por compra de terras adjacentes) no mesmo ano de 1571
em que nasce sua filha Léonor – a única de seis filhas a sobreviver à
infância–, começa a redigir sua obra, isolado na torre de sua
propriedade. Com isso, naquele momento se livrava “da escravidão
dos cargos públicos”. Mesmo assim, entre 1569 e 1572 recebe
quatro honrarias e títulos nobilitantes que o elevam aos mais altos
circuitos da nobreza francesa. A partir de 1578, começa a sofrer as
mencionadas cólicas renais, que o levarão a viajar para estações de
banho e cura.
Mas é em 1580 que de fato Michel de Montaigne nasce
literariamente, com a publicação da primeira edição dos Ensaios,
contendo os livros I e II. Impresso em Bordeaux, o volume será
levado a Paris pelo autor. As repercussões são de certo porte: sabe-
se que entre a nobreza culta foi significativa a leitura, e mesmo fora
da França seu texto é logo reconhecido – em 1581, durante a viagem
que fez à Itália em busca de minorar suas dores, dialoga com um
padre ligado à Inquisição, que faz ressalvas ao livro, sugerindo
algumas mudanças, que não serão levadas em conta. Os diários
dessa viagem são como que um esboço do livro III dos Ensaios,
editado pela primeira vez em 1588.
O texto dos Ensaios nasceu e foi polido ao largo de duas
décadas, entre 1572 e o fim da vida do autor, em 1592; o conjunto
foi reeditado algumas vezes até sua morte, vindo a receber uma
edição nova, aumentada e anotada, em 1595, já postumamente,
contendo as correções e os acréscimos que Montaigne acumulara
nas páginas de um exemplar. Foi redigido praticamente todo na
biblioteca da torre, famosa e há tempos visitada por seus leitores,
que não se cansam de admirar as frases inscritas nas traves de
sustentação do teto daquela sala, em latim ou em grego, extraídas
de leituras de sua predileção.
São marcas de um cético humanista, que ali não era totalmente fiel
aos textos citados, porque os modificava, em favor de maior clareza
ou para melhor expressarem o que ele pensava. Diante de seus
olhos estavam sempre disponíveis frases como a de Terêncio,
comediógrafo latino do século II a.C., este citado corretamente: “Sou
homem, e nada do que é humano me é estranho”. Ou como uma
passagem do Eclesiastes, o livro bíblico, citada com bastante
liberdade: “A sede de aprender, Deus deu ao homem para
atormentá-lo”.
O livro dos ensaios traz em si muita sabedoria, mas não está
isento de contradições – aliás, é daí que tira sua energia. Para dar
um exemplo, veja-se que há em suas páginas muito elogio à guerra e
aos guerreiros, mas o autor admite que preferia a companhia dos
livros.
A obra conhecerá muito prestígio após a morte do autor. Serão
incessantes edições novas, muitas traduções, estudos, referências,
intensa e extensa leitura por todo o mundo intelectual ocidental. Vale
a pena registrar, porém, que o livro sofreu nas mãos da Inquisição,
que o incluiu na famosa Lista dos Livros Proibidos em 1676, quase
um século depois de editado.
Depois da primeira edição do livro, e em parte por causa da boa
repercussão, Montaigne é designado prefeito de Bordeaux. Essa
indicação aconteceu durante sua longa viagem à Itália, e não se
pode dizer que ele tenha ficado desgostoso, por mais que fizesse
questão de permanecer isolado em seu castelo, sempre que podia.
Permaneceu quatro anos à testa da prefeitura da cidade, então de
grande importância econômica e política.
Foi um militante da paz na região, mas não deixou de tomar
posição, inclusive contra a Igreja Católica. Era contra a centralização
fiscal de Paris, numa época em que a capital se afirmava como
cabeça hipertrofiada de um vasto país. Em suma, Montaigne fez
interesses coletivos se sobreporem a interesses individuais, numa
visão descentralizante e humanista.
Saído da prefeitura, ele retornou a seu castelo, de onde saiu
poucas vezes mais. Assistiu ao casamento da única filha a
permanecer viva, Léonor, em 1590. Vem a morrer em 1592, aos 59
anos.
O texto que agora se pode ler dos Ensaios tem como base a edição
de 1595, já com os aumentos e reparos do autor. São três livros,
três conjuntos de textos, conforme aconteceram de ser escritos e
editados em vida de Montaigne. No presente volume se publica a
segunda metade do livro I, em nova tradução, mais fiel ao original do
que famosa tradução brasileira de Sérgio Milliet, que abriu muitos
parágrafos e atenuou a aspereza original na boa intenção de facilitar
a leitura, mas ao preço de afastar-se muito do ritmo original, que
aqui é respeitado. É preciso considerar que se trata de texto antigo:
entre aquele momento histórico e hoje medeiam quatro séculos, nos
quais se estabilizou e mudou a ortografia, assim como o sistema de
pontuação das línguas ocidentais – e, é claro, muitas palavras
tiveram seu significado alterado.
Mesmo assim, o texto permanece vivo e capaz de despertar
leitores e debates. Por quê? Uma parte da resposta tem a ver com a
natureza do texto e da filosofia por ele expressa. O autor não era um
filósofo sistemático, interessado em formular conceitos e redes de
noções com a intenção de capturar determinado objeto. Mesmo
assim, muitas vezes é mencionado e estudado em histórias e
coleções de filosofia. Se quisermos definir algo dos contornos do
pensamento de Montaigne, podemos dizer com segurança que foi um
sujeito e um pensador contra as convenções e o pedantismo, a favor
da naturalidade e da vida feliz, o que incluía claramente o prazer do
corpo, do sexo, assim como da amizade. Não tinha medo de
contradizer-se e demostrar-se perplexo, pois não tinha receio de
examinar suas reações ao que sucedia no mundo, com grande
coragem.
Quem são as figuras de referência para Montaigne? Num
levantamento feito no índice onomástico da edição mais rigorosa dos
Ensaios, da Bibliothèque de la Pléiade, vê-se que Jesus Cristo
aparece meras seis vezes e São Paulo outras seis (Santo Agostinho
merece mais citações), enquanto Aristóteles, Catulo, Cícero,
Demócrito, Epicuro, Juvenal, Lucano, Marcial, Ovídio, Platão,
Plutarco e Sócrates são evocados dezenas de vezes; e Horácio,
Lucrécio, Sêneca e Virgílio figuram como verdadeiros campeões de
presença. É um verdadeiro cânone latino e grego, dando corpo a
uma visada humanista quase totalmente pagã, ou ao menos não-
religiosa, e apenas culturalmente cristã, marcada de ceticismo e
ironia, sem qualquer menção a crença na vida eterna ou reverência
para com convenções e hierarquias formais.
Os pensadores estoicos são parte essencial desse grupo, com
sua visão materialista, desiludida, cética acerca das crenças
redentoras e profundamente disposta a pensar sobre o que fazer
para viver bem dentro das condições objetivas em que se vive. Em
certo sentido, o estoicismo (sobretudo de Sêneca) combina uma
visão não-idealizada da vida com o elogio da modéstia e da
autocrítica. Sêneca, aliás, retomou ideias de Demócrito, figura muito
apreciada por Montaigne, que lhe dedica o ensaio “De Demócrito e
Heráclito”. Tanto este pensador grego quanto Montaigne nada têm a
ver com o modo acadêmico de ser – não reuniram discípulos, não
procuraram reconhecimento social para seus escritos, não
escreveram para fazer boa figura. Eram ambos amantes da solidão,
radicalmente livres.
Num belíssimo comentário, Virginia Woolf observou que o ensaio,
como gênero, pode falar de qualquer coisa, ter qualquer tamanho,
transitar do abstrato ao concreto e vice-versa, pode enfim dispor da
maior liberdade concebível, desde que seja bem escrito. E disse
sobre os textos de Montaigne, definindo como que a essência do
gênero por ele inventado: “Estes ensaios são uma tentativa de
comunicar uma alma. A esse respeito ele é explícito. Não é fama o
que ele quer; nem está interessado em vir a ser citado no futuro; ele
não está erguendo estátua na praça pública; ele só quer comunicar
uma alma”.
Outro grande crítico literário, Erich Auerbach, comentou:
“Comparados a ele, os grandes espíritos do século XVI – os
promotores do Renascimento, do Humanismo, da Reforma e da
ciência que criaram a Europa moderna – são todos, sem exceção,
especialistas. (...) Alguns se especializaram em várias áreas;
Montaigne, em nenhuma”. Um generalista, interessado no conjunto
da vida, cheia de coisas estranhas, mas sempre humanas; um
homem que despreza o racismo e abomina os castigos físicos,
temas atuais ainda hoje.
Ensaio – este é o termo utilizado pelo autor para designar seus
textos. A palavra “ensaio” já existia, para designar exercícios físicos
(de dança, de espada) ou artísticos (como de instrumentos
musicais). Também se chamava “ensaio” a missão de experimentar a
comida dos reis e figuras poderosas, para ver se não estava
envenenada ou estragada, e o ato de conferir a pureza dos metais e
pedras preciosas.
Mas ninguém até então havia chamado seus textos com esse
termo. De saída, somos postos em uma peculiar situação, como
leitores: pois quem nomeia como ensaio o seu texto chama a
atenção para o aspecto de tentativa, quer dizer, para algo marcado
pelo provisório, pelo falível, assim como pela hipótese de revisar, de
refazer o raciocínio, de reescrever o texto e a reflexão. Nada de
definitivo, nada de eterno – tudo de contingente, tudo de humano.
Podemos dizer que o autor não quer nem mesmo ter razão: o que
ele quer, o que precisa fazer a cada texto, é expressar seu ponto de
vista, que ele sabe ser um entre outros, neste mundo de relações
infinitas e mudança constante.
Com que se parece esse texto? Que parentesco tem com outras
modalidades de escrita? Há nele algo de memorialístico, assim como
de cronístico, tanto no sentido de registro da história quanto no de
texto breve publicado em jornal, como no Brasil viemos a ter a partir
do século XIX e de que temos excelentes exemplos. Há nele algo
dos moralistas, que comentavam a vida para definir e pregar
padrões de conduta. Há muito de confessional, como ocorria em
textos já então famosos, como de Santo Agostinho. Mas também há
algo de filosófico mesmo, no sentido de que ali o pensador examina
obsessivamente um assunto, iluminando-o de variados modos, para
compreendê-lo da forma mais completa que consegue – mas com o
detalhe de que o assunto é sempre abordado a partir das
percepções estritamente pessoais do autor, em combinação com
ampla erudição clássica. O resultado é peculiar, e bom como poucas
outras obras escritas.
Se Montaigne tinha intimidade com os latinos e gregos, e se tinha
sido de algum modo influenciado por pensadores como Maquiavel e
Erasmo, não é menos verdade que sua obra se projeta no futuro
como uma poderosa influência sobre uma extensa família de
pensadores. Na França, sem Montaigne não teríamos um pensador
como Descartes, e muito menos Pascal e Voltaire. Em língua inglesa,
o termo francês essai transformou-se em essay e assim designou
obras de importância central no pensamento, como os originais
ensaístas do século XVIII (William Hazlitt, Matthew Arnold) e do
século XIX (Emerson). Nietzsche deve a Montaigne parte de seu
modo de pensar e escrever.
Alguns ensaios são sensacionais e merecem destaque. “Que
filosofar é aprender a morrer”, com seu título carregando toda uma
tese sobre o sentido da vida, é um deles; “Da amizade” é uma
celebração deste nobre sentimento; “Do pedantismo” ataca aqueles
que arrotam erudição para fazer boa figura – e diz muito acerca de
certo traço pernóstico brasileiro, do doutor que faz questão de ser
tratado diferentemente da massa. (Nossos melhores cronistas, aliás,
foram escritores que, como Montaigne, tiraram a gravata da
linguagem escrita para falar da vida diária: Machado de Assis,
Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, e mais ainda Nelson
Rodrigues, Paulo Francis, Ivan Lessa e Luis Fernando Verissimo
formam fila na tribo de seus herdeiros.)
Em “Dos canibais”, Montaigne dá um exemplo extremo de
capacidade crítica, ao relativizar o eurocentrismo, tão entranhado
quanto invisível para os europeus, sobretudo daquele tempo. Depois
de ver ao vivo alguns índios sul-americanos, aliás brasileiros, em
Rouen, o ensaísta faz uma autocrítica e sublinha valores positivos
naqueles “selvagens”. Montaigne sabia sair de seu conforto, de sua
visão de mundo, para observar o espetáculo da vida humana a partir
do ponto de vista do outro, neste caso um outro radical, o nativo do
chamado Novo Mundo, canibal e iletrado, mas dotado de uma
vitalidade e de um estilo de vida de dar inveja.
Nas palavras de um de seus biógrafos, Jean Lacouture, Montaigne
foi o “inventor de uma filosofia do real em movimento”, do real como
coisa nunca estática, como uma experiência fluente, que nos
transforma e nos faz ser o que somos. Montaigne é um dos nossos.
Bibliografia
De Montaigne
Les Essais. Édition établie par Jean Balsamo, Michel Magnien et
Catherine Magnien-Simoni. Paris: Gallimard, 2007. Bibliothèque de
La Pléiade.
Journal de voyage, Lettres Éphémerides et Sentences de la
Bibliothèque. Mis en français moderne et présentés par Claude
Pinganaud. Paris: Arléa, 2006.
Sobre Montaigne e o Ensaio
AUERBACH, Erich. “O escritor Montaigne”, em Ensaios de literatura
ocidental. Trad. Samuel Titan Jr. e José Marcos Mariani de
Macedo. São Paulo: Livraria Duas Cidades/Editora 34, 2007.
BURKE, Peter. Montaigne. Trad. Jaimir Conte. São Paulo: Loyola,
2006.
FISCHER, Luís Augusto. Inteligência com dor – Nelson Rodrigues
ensaísta. Porto Alegre: Arquipélago, 2009.
GINZBURG, Carlo. “Montaigne, os canibais e as grutas” em O fio e
os rastros. Trad. Rosa Freire d’Aguiar e Eduardo Brandão. São
Paulo: Cia. das Letras, 2007.
LACOUTURE, Jean. Montaigne a cavalo. Trad. F. Rangel. Rio de
Janeiro: Record, 1998.
STAROBINSKI, Jena. Montaigne em movimento. Trad. Maria Lúcia
Machado. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.
WOOLF, Virginia. “Montaigne” em A woman’s essays. Londres:
Penguin Books, 1992.
ENSAIOS
de Michel Seigneur de Montaigne
EDIÇÃO NOVA,
encontrada depois da morte do autor,
revista e aumentada por ele em um terço
em relação às impressões anteriores
EM PARIS,
ABEL L’ANGELIER, no primeiro pilar
da grande sala do Palácio
MDXCV
COM PRIVILÉGIO
AO LEITOR
Eis aqui um livro de boa-fé, Leitor. Ele te adverte, desde o início, que
nele não me propus outro fim que o doméstico e privado. Nele não
tive consideração alguma por tua serventia nem por minha glória;
minhas forças não são capazes de tal propósito. Dediquei-o ao uso
particular de meus parentes e amigos, a fim de que, tendo-me
perdido (o que em breve terão que fazer), possam nele encontrar
alguns traços de minhas qualidades e humores, e com isso
conservem mais completo e vivo o conhecimento que tiveram de
mim. Se fosse para buscar os favores do mundo, eu me teria
enfeitado com belezas emprestadas. Quero que aqui me vejam em
minha maneira simples, natural e comum, sem estudo e artifício; pois
é a mim que pinto. Meus defeitos, minhas imperfeições e minha
compleição inata serão lidos a cru, tanto quanto a decência pública
me permitiu. Pois, se eu estivesse entre aquelas nações que, diz-se,
ainda vivem sob a doce liberdade das primeiras leis da natureza,
garanto-te que me teria de bom grado pintado por inteiro, e a nu.
Assim, Leitor, sou eu mesmo a matéria de meu livro: não é razão
para que empregues teu lazer em tema tão frívolo e vão. A Deus,
portanto. De Montaigne1, nesse 1o de março de 1580.
1. Trata-se do castelo e da terra recebidos de herança por Montaigne à morte de seu pai,
nome que foi o primeiro a adotar. (N.E.)
LIVRO PRIMEIRO
(CONTINUAÇÃO)
CAPÍTULO XXVI
É loucura associar o verdadeiro e o falso à nossa
competência
Não é talvez sem razão que atribuímos à ingenuidade e à ignorância
a facilidade de crer e de se deixar persuadir. Pois me parece ter
aprendido outrora que a crença era como uma impressão produzida
em nossa alma; e à medida que esta se revelava mais mole e com
menor resistência, mais fácil era imprimir-lhe alguma coisa. Ut
necesse est lancem in libra ponderibus impositis deprimi: sic
animum perspicuis cedere.2 Quanto mais a alma está vazia e sem
contrapeso, mais facilmente se curva sob o peso da primeira
persuasão. Eis por que as crianças, o vulgo, as mulheres e os
doentes estão mais sujeitos a ser conduzidos pelo cabresto. Mas
também, por outro lado, é uma tola presunção ir desdenhando e
condenando como falso aquilo que não nos parece verossímil; este é
um vício habitual dos que pensam ter alguma competência além da
comum. Eu fazia isso antigamente, e se ouvia falar de espíritos que
retornam ou do prognóstico das coisas futuras, de encantamentos,
de feitiçarias, ou contar alguma outra história em que não pudesse
acreditar,
Somnia, terrores magicos, miracula, sagas,
Nocturnos lemures, portentáque Thessala3,
vinha-me compaixão pelo pobre povo enganado por essas loucuras.
E agora acho que no mínimo eu mesmo era igualmente digno de
pena. Não que a experiência tenha, desde então, me feito ver acima
de minhas primeiras crenças; e isso, no entanto, não por falta de
curiosidade; mas a razão me ensinou que condenar assim
resolutamente uma coisa como falsa e impossível é pretender ter na
cabeça as fronteiras e os limites da vontade de Deus e do poder de
nossa mãe natureza; e que não há loucura mais notável no mundo do
que reduzi-los à medida de nossa capacidade e competência. Se
chamamos de monstros ou milagres aquilo a que nossa razão não
pode chegar, quantos se apresentam continuamente a nossos olhos?
Consideremos como, por entre nuvens e às cegas, somos levados
ao conhecimento da maioria das coisas que temos em mãos:
certamente descobriremos que é mais o hábito do que a ciência que
nos retira a estranheza delas,
iam nemo fessus saturúsque videndi,
Suspicere in caeli dignatur lucida templa4,
e que essas coisas, se nos fossem apresentadas pela primeira vez,
acharíamos que são tanto ou mais inacreditáveis do que quaisquer
outras,
si nunc primùm mortalibus adsint
Ex improviso, ceu sint objecta repente,
Nil magis his rebus poterat mirabile dici,
Aut minus antè quod auderent fore credere gentes.5
Aquele que nunca havia visto um rio o primeiro que encontrou pensou
que fosse o oceano; e as coisas que para nosso conhecimento são
as maiores, julgamos que são os extremos do que a natureza faz
nesse gênero.
Scilicet et fluvius qui non est maximus, ei est
Qui non antè aliquem maiorem vidit, et ingens
Arbor homóque videtur, et omnia de genere omni
Maxima quae vidit quisque, haec ingentia fingit.6
Consuetudine oculorum assuescunt animi, neque admirantur, neque
requirunt rationes earum rerum, quas sempre vident.7 A novidade
das coisas nos incita, mais que sua grandiosidade, a procurar-lhes
as causas. É preciso julgar com mais reverência esse infinito poder
da natureza, e com mais reconhecimento de nossa ignorância e
fraqueza. Quantas coisas pouco verossímeis existem,
testemunhadas por pessoas dignas de fé; se delas não podemos ser
persuadidos, ao menos é preciso deixá-las em suspenso; pois
condená-las como impossíveis é pretender-se capaz, por uma
temerária presunção, de saber até onde vai a possibilidade. Se
compreendêssemos bem a diferença que existe entre o impossível e
o inusitado, e entre o que vai contra a ordem do curso da natureza e
contra a opinião comum dos homens, não acreditando
temerariamente e tampouco descrendo facilmente, observaríamos a
regra do “nada em excesso” prescrita por Quílon. Quando
descobrimos em Froissart que o conde de Foix soube no Béarn da
derrota do rei João de Castela em Aljubarrota no dia seguinte ao
acontecido, e os meios que alega para sabê-lo, podemos rir8; e da
mesma forma quando nossos anais dizem que o papa Honório, no
mesmo dia em que o rei Filipe Augusto morreu em Mantes, mandou
fazer suas exéquias públicas e ordenou-as em toda a Itália. Pois a
autoridade desses testemunhos talvez não tenha estatuto suficiente
para impor-se a nós. Mas ora! Se Plutarco, além dos vários
exemplos que cita da Antiguidade, diz saber de ciência certa que, no
tempo de Domiciano, a notícia da batalha perdida por Antônio na
Alemanha, a vários dias de lá, foi publicada em Roma e disseminada
pelo mundo todo no mesmo dia em que foi perdida; e se César
afirma que muitas vezes ocorreu de a notícia preceder o fato,
diremos que essas pessoas ingênuas se deixaram enganar como o
vulgo por não serem clarividentes como nós? Existe algo mais
delicado, mais claro e mais vivo do que o julgamento de Plínio,
quando lhe apraz empregá-lo? Algo mais afastado da inutilidade?
Deixo à parte a excelência de seu saber, que levo menos em conta;
em qual dessas duas o superamos? Todavia, não há estudante tão
pequeno que não prove sua mentira, e que não queira ensinar-lhe
sobre a marcha das obras da natureza. Quando lemos em Bouchet
os milagres das relíquias de Santo Hilário, ainda passa, seu crédito
não é grande o suficiente para nos retirar a liberdade de contradizê-
lo; mas condenar de uma só vez todas as histórias semelhantes me
parece singular impudência. O grande Santo Agostinho testemunha
ter visto sobre as relíquias de São Gervásio e São Protásio, em
Milão, uma criança cega recuperar a visão; uma mulher em Cartago
ser curada de um câncer pelo sinal da cruz que uma mulher recém-
batizada lhe fez; Hespério, um íntimo seu, expulsar os espíritos que
infestavam sua casa com um pouco de terra do Sepulcro de nosso
Senhor; e essa terra, depois transportada à Igreja, ter subitamente
curado um paralítico; uma mulher em uma procissão, tendo tocado o
relicário de Santo Estêvão com um ramalhete, e com esse ramalhete
tendo esfregado os olhos, ter recuperado a visão há muito perdida; e
vários outros milagres a que ele diz ter assistido pessoalmente. De
que o acusaremos, e a dois santos bispos, Aurélio e Maximino, que
ele cita como testemunhas? De ignorância, ingenuidade,
condescendência, ou de malícia e impostura? Existe homem em
nosso século tão impudente que pense ser-lhes comparável, seja em
virtude e piedade, seja em saber, julgamento e competência? Qui ut
rationem nullam afferent, ipsa autoritate me frangerent.9 É uma
ousadia perigosa e grave, além da absurda temeridade que esta
carrega consigo, desprezar o que não podemos conceber. Pois
quando segundo vosso belo entendimento tiverdes estabelecido os
limites da verdade e da mentira, e acontecer de terdes
necessariamente que acreditar em coisas em que há ainda mais
estranheza do que naquelas que negais, sois desde já obrigados a
abandoná-los. Ora, o que me parece trazer tanta desordem a
nossas consciências, nesses distúrbios de religião em que vivemos,
é esse abandono que os católicos fazem de sua fé. Entendem agir
como moderados e hábeis quando cedem aos adversários alguns
dos artigos que estão em debate. Mas além de não verem a
vantagem que cabe àquele que ataca começar a ceder-lhe e recuar,
e o quanto isso o anima a prosseguir seu assalto, esses artigos que
escolhem como os mais leves são às vezes muito importantes. É
preciso submeter-se totalmente à autoridade de nossa lei
eclesiástica, ou dispensá-la totalmente; não cabe a nós estabelecer
a parcela de obediência que lhe devemos. E ademais, posso dizê-lo
por ter experimentado, tendo outrora usado essa liberdade de
escolha e de seleção pessoais para negligenciar certos pontos da
observância de nossa Igreja, que parecem ter um caráter mais vão
ou mais estranho, vindo a discuti-los com homens sábios, descobri
que essas coisas têm um fundamento maciço e muito sólido, e que
apenas a besteira e a ignorância nos fazem reconhecê-las com
menos reverência do que o resto. Por que não lembramos quanta
contradição sentimos em nosso próprio julgamento? Quantas coisas
ontem nos serviam de artigos de fé, e hoje nos são fábulas? A
presunção e a indiscrição são os flagelos de nossa alma. Esta nos
leva a pôr o nariz em tudo, e aquela nos impede de deixar algo sem
explicação e resposta.
2. “Assim como o prato da balança pende necessariamente ao ser carregado, o espírito cede
às coisas evidentes”, Cícero, Acadêmicas, II, XII, 38. (N.E.)
3. “Sonhos, terrores mágicos, milagres, feiticeiras, espectros noturnos, prodígios da
Tessália”, Horácio, Epístolas, II, II, 208-209. (N.E.)
4. “e ninguém agora, cansado e farto de ver, se digna a erguer os olhos para os domínios
luminosos do céu”, Lucrécio, II, 1038-1039. (N.E.)
5. “se esses objetos se apresentassem agora pela primeira vez aos mortais, ou se
aparecessem repentinamente, nada se poderia dizer de mais admirável, ou que os homens
acreditassem menos que pudesse existir antes”, Lucrécio, II, 1033-1036. (N.E.)
6. “Da mesma forma, um rio que não é muito grande o é para quem não viu maior antes, e
uma árvore ou um homem parecem imensos, e todas as coisas muito grandes que vemos,
de todo gênero, pensamos que são imensas”, Lucrécio, VI, 674-677. (N.E.)
7. “É por hábito dos olhos que os espíritos se habituam e não se espantam com as coisas
que veem sempre, nem procuram suas razões”, Cícero, De natura deorum, II, XXXVIII, 96.
(N.E.)
8. Froissart conta que o conde de Foix foi informado sobre a derrota por um espírito chamado
Orthon. (N.T.)
9. “Os quais, mesmo que não fornecessem nenhuma explicação racional, quebrariam meus
argumentos somente com sua autoridade”, Cícero, Tusculanes, I, XXI, 49. (N.E.)
CAPÍTULO XXVII
Da amizade
Ao considerar a conduta de um pintor no trabalho para mim, deu-me
vontade de imitá-lo. Ele escolhe o mais belo lugar e o centro de cada
parede para ali instalar um quadro elaborado com todo seu talento; e
o vazio em volta ele o preenche com grutescos, que são pinturas
extravagantes que só têm graça por sua variedade e estranheza. O
que são também estes ensaios, na verdade, senão grutescos e
corpos monstruosos, remendados com diversos membros, sem
forma nítida, não tendo ordem, sequência nem proporção que não
fortuitas?
Desinit in piscem mulier formosa supernè.10
Sigo bem meu pintor até esse segundo ponto; mas me interrompo na
outra e melhor parte; pois minha capacidade não vai tão longe que
ouse realizar um quadro rico, polido e composto segundo a arte.
Permiti-me tomar emprestado de um Étienne de la Boétie, que
honrará todo o resto deste trabalho. É um discurso ao qual deu o
nome de A servidão voluntária; mas os que não o conheciam depois
o rebatizaram, com muita propriedade, de Contra-um. Escreveu-o
como um ensaio, em sua primeira juventude, em honra da liberdade
contra os tiranos. Há muito tempo este corre pelas mãos das
pessoas inteligentes, não sem muito grande e merecida
recomendação; pois é tão nobre e completo quanto possível. No
entanto, está longe de ser o melhor que ele pôde fazer; e se na
idade mais avançada em que o conheci ele tivesse tido um propósito
como o meu, de colocar por escrito suas fantasias, veríamos várias
coisas raras e que nos fariam chegar bem perto da honra da
Antiguidade; pois em especial nesta parte dos dons da natureza não
conheço outro que lhe seja comparável. Mas dele restou apenas
esse discurso, aliás por acaso, e creio que nunca o reviu depois que
o emitiu; e algumas memórias sobre esse edito de janeiro, famoso
durante nossas guerras civis, que talvez ainda encontrem alhures seu
lugar. Isso é tudo o que pude recuperar de suas relíquias (eu a quem
fez com tão amorosa recomendação, a morte entre os dentes, por
seu testamento, herdeiro de sua biblioteca e de seus papéis), além
do pequeno livro de suas obras que mandei publicar. E estou
particularmente ligado ao Contra-um, visto que serviu de
intermediário para nosso primeiro laço. Pois este me foi mostrado
muito antes que eu o tivesse conhecido, e deu-me a primeira notícia
de seu nome, encaminhando assim essa amizade que alimentamos
enquanto Deus quis, tão inteira e tão perfeita que certamente não se
lê muitas iguais; e entre nossos contemporâneos não se vê nenhum
sinal de seu uso. São necessárias tantas circunstâncias para
construí-la que é muito se a fortuna o conseguir uma vez em três
séculos. Não há nada a que a natureza pareça nos ter encaminhado
mais do que à vida em sociedade. E diz Aristóteles que os bons
legisladores tiveram mais preocupação com a amizade do que com a
justiça. Ora, o ponto máximo da perfeição da vida em sociedade é a
amizade. Pois em geral todas as relações forjadas e alimentadas por
volúpia ou proveito, por necessidade pública ou privada, são tão
menos belas e generosas, e tão menos amizade, porque misturam à
amizade outra causa, outro objetivo e outro fruto que não ela mesma.
Nem essas quatro espécies antigas – natural, social, hospitaleira,
amorosa – lhe correspondem, individual ou conjuntamente. Dos filhos
com os pais, trata-se antes de respeito; a amizade se alimenta de
comunicação, que não pode se estabelecer entre eles pela grande
disparidade e porventura feriria os deveres naturais; pois nem todos
os pensamentos secretos dos pais podem ser comunicados aos
filhos, para não gerar inconvenientes liberdades; nem as
advertências e repreensões, que são um dos primeiros deveres da
amizade, poderiam ser exercidas pelos filhos com seus pais. Houve
nações onde, pelo costume, os filhos matavam os pais, e outras
onde os pais matavam os filhos, para evitar os contratempos que
algumas vezes eles podem causar um ao outro; e onde naturalmente
um depende da ruína do outro. Houve filósofos que desdenharam
dessa ligação natural, como Aristipo, que quando o pressionaram a
reconhecer a afeição que devia aos filhos, por terem saído dele,
pôs-se a cuspir, dizendo que aquilo também saíra dele; que também
engendraríamos piolhos e vermes. E a Plutarco, que queria induzi-lo
a entender-se com o irmão, este outro disse: “Não dou mais
importância a ele por ter saído do mesmo buraco”. Na verdade, o
nome de irmão é um nome belo, e cheio de dileção, e por isso o
fizemos, ele e eu, nossa aliança; mas essa mistura de bens, essas
partilhas, e que a riqueza de um seja a pobreza do outro, isso
destempera extraordinariamente e afrouxa essa união fraternal; os
irmãos tendo que conduzir o avanço de sua marcha, no mesmo
caminho e no mesmo ritmo, é forçoso que se enfrentem e se
choquem com frequência. Ademais, por que a correspondência e a
ligação que engendram essas verdadeiras e perfeitas amizades se
encontraria neles? O pai e o filho podem ser de compleições
completamente diferentes, e os irmãos também. É meu filho, é meu
pai; mas é um homem cruel, um medíocre ou um tolo. E depois, na
medida em que a lei e o dever natural nos ordenam essas amizades,
há nelas ainda menos de nossa escolha e livre-arbítrio; e nosso livre-
arbítrio não tem produto que seja mais propriamente seu do que a
afeição e a amizade. Não que eu não tenha experimentado, desse
lado, tudo o que é possível, tendo tido o melhor pai que outrora
existiu, e o mais indulgente, até sua extrema velhice; e sendo de uma
família renomada de pai para filho, e exemplar nessa parte da
concórdia fraternal,
et ipse
Notus in fratres animi paterni.11
Não se pode comparar a ela a afeição pelas mulheres, apesar de
esta nascer de nossa escolha; tampouco colocá-la nessa categoria.
Seu fogo, confesso-o,
(neque enim est dea nescia nostri
Quae dulcem curis miscet amaritiem)12
é mais ativo, mais ardente e mais violento. Mas é um fogo temerário
e volúvel, ondulante e variado, fogo de febre, sujeito a acessos e
arrefecimentos, e que nos prende a apenas uma coisa. Na amizade,
há um calor geral e universal, de resto temperado e igual, um calor
constante e sereno, todo doçura e delicado, que nada tem de áspero
e pungente. Além disso, no amor é apenas um desejo desvairado por
aquilo que nos foge,
Come segue la lepre il cacciatore
Al freddo, al caldo, alla montagna, al lito,
Ne piè l’estima poi, che presa vede,
Et sol dietro a chi fugge affreta il pieda.13
Assim que entra nos limites da amizade, isto é, em afinidade de
vontades, o amor se desvanece e se enfraquece; a fruição o aniquila,
pois tem um fim corporal e está sujeita à saciedade. A amizade, ao
contrário, é desfrutada à medida que é desejada, só se desenvolve,
nutre e engrandece na fruição, por ser espiritual e a alma se
aprimorar com seu uso. Sob essa perfeita amizade, aquelas afeições
volúveis outrora encontraram lugar em mim, para que não fale dele,
que já confessa demais em seus versos. Assim, essas duas paixões
dentro de mim tomaram conhecimento uma da outra, mas nunca
entraram em comparação; a primeira seguindo seu caminho num voo
alto e glorioso, e olhando desdenhosamente a outra despontar bem
longe abaixo dela. Quanto ao casamento, além de ser um acordo em
que apenas a entrada é livre, sendo sua duração imposta e forçada,
dependendo de outras coisas que não nossa vontade; e acordo que
geralmente é feito com outros fins; nele surgem mil complicações
externas a serem desenredadas, suficientes para romper o fio e
perturbar o curso de uma viva afeição; enquanto na amizade só há
negócio e comércio dela mesma. Acresce que, para dizer a verdade,
a capacidade habitual das mulheres não serve para responder à
troca e à comunicação que alimenta essa sagrada ligação; nem sua
alma parece firme o bastante para suportar o enlace de um nó tão
apertado e tão duradouro. E certamente, se não fosse assim, caso
se pudesse estabelecer tal relação livre e voluntária, em que não
apenas as almas se beneficiassem dessa fruição total mas também
os corpos tomassem parte na aliança, em que o homem estivesse
envolvido por inteiro, é certo que a amizade seria mais plena e mais
completa; mas aquele sexo ainda não conseguiu chegar a isso com
qualquer exemplo, e pelas escolas antigas foi afastado. E aquela
outra licenciosidade grega é com razão abominada por nossos
costumes. Ela, no entanto, por comportar uma tão necessária
disparidade de idades e diferença de funções entre os amantes,
segundo seu uso, tampouco correspondia suficientemente à perfeita
união e concordância que aqui recomendamos. Qui est enim iste
amor amicitiae? cur neque deformem adolescentem quisquam
amat, neque formosum senem?14 Pois a própria pintura que faz a
Academia não me desmentirá, quando penso dizer isso de sua parte:
que esse primeiro furor, inspirado pelo filho de Vênus no coração do
amante, tendo por objeto a flor de uma tenra juventude, ao qual
permitem todos os insolentes e apaixonados esforços que um ardor
imoderado pode fazer, estava unicamente fundamentado em uma
beleza externa, falsa imagem da geração corporal. Pois não podia
estar fundamentado no espírito, cuja verdadeira natureza ainda
estava oculta, que estava recém nascendo e antes da idade de
germinar. Se esse furor se apoderava de um coração vulgar, os
meios de sua busca eram riquezas, presentes, favores para o
acesso às honrarias e outras mercadorias baixas, que reprovam. Se
esbarrava num coração mais nobre, as intervenções eram igualmente
nobres: aprendizados filosóficos, ensinamentos para reverenciar a
religião, obedecer às leis, morrer pelo bem de seu país, exemplos de
coragem, prudência, justiça. O amante se esforçava para tornar-se
aceitável pela boa graça e beleza de sua alma, a de seu corpo
estando há muito fanada, e esperava com essa ligação mental
estabelecer um arranjo mais firme e durável. Quando essa busca
chegava ao fim, no momento certo (pois o que não exigem no
amante, que empregue tempo e discernimento em sua ação, exigem-
no rigorosamente no amado, visto que precisava julgar uma beleza
interna, de compreensão difícil e descoberta abstrusa), então nascia
no amado o desejo de uma concepção espiritual, por intermédio de
uma beleza espiritual. Esta era a principal; a corporal, acidental e
secundária; totalmente o contrário do amante. Por causa disso
preferem o amado, e provam que os deuses também o preferem, e
repreendem fortemente o poeta Ésquilo por ter dado, no amor de
Aquiles e Pátroclo, a parte do amante a Aquiles, que estava no
primeiro e imberbe verdor da adolescência e era o mais belo dos
gregos. Dessa comunhão total, a parte essencial e mais digna desta
exercendo suas funções e predominando, dizem que advinham frutos
muito úteis, no privado e no público. Que era a força dos países que
admitiam seu uso e a principal defesa da equidade e da liberdade.
Atestam-no os salutares amores de Harmódio e Aristogíton. Por isso
dizem-na sagrada e divina, e em sua opinião apenas a violência dos
tiranos e a covardia dos povos lhe são adversários; por fim, tudo o
que se pode dizer a favor da Academia é que se tratava de um amor
que terminava em amizade; coisa que remete bastante à definição
estoica do amor: Amorem conatum esse amicitiae faciendae ex
pulcritudinis specie.15 Volto à minha descrição, de maneira mais
equitativa e mais equânime. Omnino amicitiae, corroboratis jam,
confirmatísque ingeniis et aetatibus, judicandae sunt.16 De resto, o
que comumente chamamos amigos e amizades são apenas
conhecidos e íntimos granjeados por alguma ocasião ou
conveniência, por meio da qual nossas almas se mantêm unidas. Na
amizade de que falo, elas se mesclam e confundem uma na outra,
numa mistura tão total que apagam e não mais encontram a costura
que as uniu. Se me pressionam a dizer por que o amava, sinto que
isso só pode ser expresso respondendo: porque era ele, porque era
eu. Há, para além de todo meu discurso, e do que posso dizer
especificamente, não sei que força inexplicável e inevitável,
mediadora dessa união. Procurávamo-nos antes de termo-nos
conhecido, e por relatos que ouvíamos um sobre o outro, que
causavam em nossa afeição mais efeito do que o implicado no
conteúdo desses relatos, creio que por alguma ordem do céu. Por
nossos nomes, já nos abraçávamos. E em nosso primeiro encontro,
que por acaso foi em uma grande festa e reunião citadina, vimo-nos
tão tomados, tão conhecidos, tão comprometidos entre nós, que
desde então nada nos foi tão próximo como um do outro. Ele
escreveu uma excelente sátira em latim, que está publicada, na qual
justifica e explica a precipitação de nossa cumplicidade, tão
prontamente alçada à perfeição. Tendo tão pouco para durar, e
tendo começado tão tarde (pois éramos ambos homens feitos, e ele
de alguns anos mais), ela não tinha tempo a perder. E não podia se
regular pelo padrão das amizades fracas e comuns, às quais são
necessárias tantas precauções de longa e prévia frequentação. Esta
não tem outro ideal que ela mesma, e só pode referir-se a si. Não é
uma deferência especial, nem duas, nem três, nem quatro, nem mil;
é não sei que quintessência de toda essa combinação que, tendo se
apoderado de toda minha vontade, levou-a a mergulhar e perder-se
na sua, que, tendo se apoderado de toda sua vontade, levou-o a
mergulhar e perder-se na minha, com apetite e convergência iguais.
Digo perder de verdade, sem nos reservarmos nada que nos fosse
exclusivo, nada que fosse dele ou meu. Quando Lélio, em presença
dos cônsules romanos, os quais depois da condenação de Tibério
Graco perseguiam todos aqueles que tinham sido seus cúmplices,
veio a perguntar a Caio Blósio (que era o maior amigo de Graco)
quanto teria feito por ele, este respondeu: “Tudo”. “Como assim
tudo?”, continuou Lélio. “E se ele te tivesse ordenado colocar fogo
em nossos templos?” “Ele nunca me ordenou isso”, replicou Blósio.
“Mas e se o tivesse feito?”, acrescentou Lélio. “Eu teria obedecido”,
respondeu Blósio. Se ele fosse tão perfeitamente amigo de Graco,
como contam as histórias, ele não deveria ter ofendido os cônsules
com esta última e ousada confissão, e não deveria abandonar a
certeza que tinha da vontade de Graco. Mas aqueles que acusam de
sediciosa essa resposta não compreendem bem tal mistério e não
pressupõem, como de fato acontecia, que ele tinha a vontade de
Graco à sua disposição, por autoridade e por conhecimento. Eles
eram mais amigos do que cidadãos, mais amigos do que amigos ou
inimigos de seu país, do que amigos da ambição e de desordem.
Estando perfeitamente comprometidos um com o outro, seguravam
perfeitamente as rédeas da inclinação um do outro; fazei essa
parelha ser guiada pela virtude e pelo comando da razão (pois
também é impossível atrelá-la sem isso): a resposta de Blósio é tal
como devia ser. Se suas ações se desencontrassem, eles não
seriam nem amigos um do outro, segundo minha medida, nem
amigos de si mesmos. De resto, essa resposta não atordoa mais do
que a minha, se eu assentisse a quem me inquirisse dessa maneira,
“Se vossa vontade o ordenasse de matar vossa filha, matá-la-íeis?”.
Pois isso não fornece provas de consentimento a fazê-lo, porque não
tenho qualquer dúvida de minha vontade, e tampouco da de um tal
amigo. Não está na capacidade de todos os argumentos do mundo
afastar-me da certeza que tenho das intenções e julgamentos de
meu amigo; nenhuma de suas ações poderia ser-me apresentada,
qualquer que fosse seu caráter, sem que eu descobrisse
imediatamente sua causa. Nossas almas caminharam tão
uniformemente juntas, examinaram-se com tão ardente afeição, e
com a mesma afeição descobriram-se até as profundezas das
entranhas uma da outra, que não apenas eu conhecia a sua da
mesma maneira que a minha, como certamente me teria confiado a
ele de melhor grado do que a mim. Que não coloquem no mesmo
plano essas outras amizades comuns; tenho tanta experiência nelas
quanto qualquer outro, e das mais perfeitas do gênero. Mas não
aconselho que confundam suas regras, seria um erro. É preciso
avançar, nessas outras amizades, com prudência e precaução,
rédeas na mão; a ligação não está estabelecida de maneira a não se
ter nada a desconfiar. Amai-o (dizia Quílon), como tendo algum dia
que odiá-lo; odiai-o, como tendo que amá-lo. Esse preceito, que é
tão abominável nessa soberana e essencial amizade, é salutar no
uso das amizades comuns e habituais, a respeito das quais é preciso
empregar as palavras com as quais Aristóteles tinha muita
familiaridade: “Ó, meus amigos, não existe amigo”. Nesse nobre
comércio, os serviços e benefícios que alimentam as outras
amizades nem sequer merecem ser levados em conta; por causa da
fusão tão completa de nossas vontades. Pois, assim como a
amizade que tenho por mim não aumenta com a ajuda que me dou
quando necessário, apesar do que dizem os estoicos, e assim como
não me agradeço pelo serviço que me presto, também a união de
tais amigos, sendo realmente perfeita, os faz perder o sentimento de
tais obrigações, e odiar e expulsar de entre eles essas palavras de
divisão e diferença: benefício, obrigação, reconhecimento, pedido,
agradecimento e suas semelhantes. Tudo sendo de fato comum
entre eles, vontade, pensamentos, julgamentos, bens, mulheres,
filhos, honra e vida, e sua união sendo a de uma alma em dois
corpos, segundo a muito adequada definição de Aristóteles, eles
nada podem emprestar-se nem dar-se. Eis por que os legisladores,
para honrar o casamento com alguma imaginária semelhança com
essa divina ligação, proíbem as doações entre o marido e a mulher.
Com isso querem inferir que tudo deve ser de cada um, e que eles
nada têm a dividir e repartir. Se na amizade de que falo um pudesse
dar ao outro, aquele que recebesse o benefício é que empenharia
seu companheiro. Pois um e outro procurando, mais que qualquer
outra coisa, fazer-se mutuamente o bem, aquele que fornece a
matéria e a ocasião para isso é aquele que se mostra generoso,
dando a seu amigo a satisfação de realizar por ele o que mais
deseja. Quando o filósofo Diógenes ficava sem dinheiro, dizia que o
reavia dos amigos, não que o pedia. E para mostrar como isso se
pratica de fato, contarei um antigo e singular exemplo. Eudâmidas,
de Corinto, tinha dois amigos, Carixeno, de Sicione, e Areteu, de
Corinto. Vindo a morrer pobre, e seus dois amigos sendo ricos,
assim fez seu testamento: “Lego a Areteu alimentar minha mãe e
mantê-la em sua velhice; a Carixeno casar minha filha e dar-lhe o
maior dote que puder; e, no caso de um deles vir a faltar, substituo
em seu lugar aquele que sobreviver”. Os primeiros a ver esse
testamento zombaram dele; mas seus herdeiros, tendo sido
avisados, o aceitaram com singular satisfação. E um deles, Carixeno,
tendo morrido cinco dias depois, e a substituição ficando aberta em
favor de Areteu, este cuidadosamente alimentou aquela mãe, e, dos
cinco talentos que tinha em seus bens, deu dois e meio ao
casamento da filha única, e dois e meio para o casamento da filha de
Eudâmidas, e realizou as duas núpcias no mesmo dia. Esse exemplo
é bastante completo; salvo por uma coisa, que é a grande
quantidade de amigos. Pois essa perfeita amizade de que falo é
indivisível; cada um se doa tão inteiro a seu amigo que nada lhe resta
para repartir alhures; pelo contrário, fica pesaroso de não ser duplo,
triplo ou quádruplo e de não ter várias almas e várias vontades para
dedicá-las todas ao amigo. As amizades comuns podem ser
repartidas, pode-se amar nesse a beleza, naquele a simplicidade de
costumes, no outro a liberalidade, neste aqui o sentimento paterno,
naquele outro a fraternidade, e assim por diante; mas esta amizade,
que se apodera da alma e a governa com total soberania, é
impossível que seja dupla. Se dois amigos precisassem ser
socorridos ao mesmo tempo, qual acudiríeis? Se exigissem de vós
serviços opostos, em que ordem os cumpriríeis? Se um confiasse a
vosso silêncio algo que ao outro fosse útil saber, como vos
desenredaríeis? A amizade única e essencial desata todas as outras
obrigações. O segredo que jurei não revelar a nenhum outro posso
sem perjúrio comunicar àquele que não é outro, é eu mesmo. É um
milagre muito grande duplicar-se; e não conhecem sua grandeza os
que falam em triplicar-se. Nada é extremo para quem tem seu igual.
E quem pressupuser que dos dois eu amo tanto um quanto o outro, e
que eles se amam entre si e amam a mim tanto quanto eu os amo,
multiplica em confraria a coisa mais una e unida, da qual uma única
ainda é a mais rara de se encontrar no mundo. O restante dessa
história convém muito bem ao que eu dizia: pois Eudâmidas concede
como graça e favor aos amigos utilizá-los para sua necessidade; ele
os faz herdeiros dessa sua generosidade, que consiste em
proporcionar-lhes os meios para fazer-lhe o bem. E sem dúvida a
força da amizade se mostra muito mais magnificente em seu caso do
que no de Areteu. Enfim, são coisas inimagináveis para quem não as
experimentou, e que me fazem prezar à perfeição a resposta desse
jovem soldado a Ciro, que lhe perguntava por quanto ele cederia um
cavalo com que acabara de ganhar uma corrida, e se o trocaria por
um reino: “Por certo que não, senhor, mas eu o daria de bom grado
para obter um amigo, se encontrasse homem digno de tal aliança”.
Ele não errava ao dizer “se encontrasse”. Pois facilmente
encontramos homens capazes de uma relação superficial; mas nesta
de que falo, na qual negociamos a partir das profundezas do
coração, que nada deixa para trás, é preciso que todas as
motivações sejam perfeitamente nítidas e seguras. Nas associações
que se prendem apenas por uma ponta, só temos que prover às
imperfeições que interessem particularmente a essa ponta. Não
importa de que religião sejam meu médico e meu advogado; essa
consideração nada tem em comum com os serviços que eles me
devem por amizade. E na ligação doméstica que estabelecem
comigo aqueles que me servem, faço o mesmo; pouco averiguo
sobre um lacaio se é casto, quero saber se é diligente; e não temo
tanto um tropeiro jogador quanto um imbecil, nem um cozinheiro
praguejador quanto um ignorante. (Não me meto a dizer ao mundo o
que é preciso fazer, outros o fazem suficientemente, mas o que eu
faço,
Mihi sic usus est: Tibi, ut opus est facto, face.17)
Às relações familiares da mesa associo o agradável, não o prudente;
à cama, a beleza antes da bondade; e à conversação, a
competência, mesmo sem probidade; e da mesma forma alhures.
Assim como aquele que foi encontrado cavalgando um bastão,
brincando com seus filhos, rogou ao homem que o surpreendeu que
nada dissesse sobre aquilo até ser pai por sua vez, estimando que a
paixão que então lhe nasceria na alma o tornaria um juiz imparcial
daquela ação, eu também desejaria falar a pessoas que tivessem
experimentado o que digo; mas sabendo o quanto tal amizade é
coisa distante do uso comum, e o quanto é rara, não conto
encontrar-lhe nenhum bom juiz. Pois os próprios tratados que a
Antiguidade nos deixou sobre esse assunto me parecem fracos em
relação ao sentimento que tenho. E nesse ponto os feitos
ultrapassam os próprios preceitos da filosofia.
Nil ego contulerim jucundo sanus amico.18
O antigo Menandro considerava feliz aquele que pudera encontrar ao
menos a sombra de um amigo. Ele por certo tinha razão de dizê-lo,
mesmo que o tenha experimentado. Pois, na verdade, se comparo
todo o resto de minha vida, embora com a graça de Deus ela tenha
sido suave, confortável e, salvo a perda de tal amigo, isenta de
aflição grave, cheia de tranquilidade de espírito, contentando-me
com minhas qualidades naturais e originais, sem buscar outras, se a
comparo, digo, toda ela, aos quatro anos que me foram dados
desfrutar da doce companhia e convivência dessa pessoa, ela não
passa de fumaça, não passa de uma noite escura e tediosa. Desde
o dia em que o perdi,
quem semper acerbum,
Semper honoratum (sic Dii voluistis) habebo,19
não faço mais que me arrastar abatido; e mesmo os prazeres que se
oferecem a mim, em vez de me consolarem, redobram o desgosto
de sua perda. Dividíamos tudo, parece-me roubar sua parte,
Nec fas esse ulla me voluptate hic frui
Decrevi, tantisper dum ille abest meus particeps.20
Já estava tão afeito e acostumado a ser o segundo em tudo que me
parece não ser mais que meio.
Illam meae si partem animae tulit
Maturior vis, quid moror altera,
Nec charus aequè nec superstes
Integer? Ille dies utramque
Duxit ruinam.21
Não há ação ou pensamento em que não sinta sua falta, como ele
teria sentido a minha; pois assim como ele me superava por uma
distância infinita em qualquer outra capacidade e virtude, também o
fazia no dever da amizade.
Quis desiderio sit pudor aut modus
Tam chari capitis?22
O misero frater adempte mihi!
Omnia tecum unà perietunt gaudia nostra,
Quae tuus invita dulcis alebat amor.
Tu mea, tu moriens fregisti commoda frater,
Tecum una tota est nostra sepulta anima,
Cujus ego interitu tota de mente fugavi
Haec studia, atque omnes delicias animi.
Alloquar? audiero nunquam tua verba loquentem?
Nunquam ego te vita frater amabilior,
Aspiciam posthac? at certe semper amabo.23
Mas ouçamos um pouco esse menino de dezesseis anos24. Porque
descobri que desde então essa obra foi publicada, e com maus fins,
por aqueles que procuram perturbar e mudar o estado de nosso
governo, sem se preocuparem se o melhorarão, e que a misturaram
a outros escritos da farinha deles, renunciei a colocá-la aqui. E a fim
de que a memória do autor não seja lesada aos olhos daqueles que
não puderam conhecer de perto suas opiniões e suas ações, aviso-
os que esse assunto foi tratado por ele na infância, apenas como um
exercício, como assunto comum e retomado mil vezes nos livros. Não
tenho qualquer dúvida de que ele acreditava no que escrevia, pois
era bastante consciencioso para não mentir, nem mesmo por
brincadeira; e sei também que se tivesse que escolher, teria
preferido nascer em Veneza do que em Sarlac, e com razão. Mas
ele tinha outra máxima soberanamente gravada na alma: obedecer e
submeter-se muito escrupulosamente às leis sob as quais nascera.
Jamais houve melhor cidadão, nem mais interessado na tranquilidade
de seu país, nem mais inimigo das agitações e novidades de seu
tempo; ele teria empregado suas capacidades muito mais para
extingui-las do que para fornecer com que agitá-las ainda mais; ele
tinha o espírito moldado ao padrão de outros séculos que não este.
Ora, em troca substituirei essa obra séria por uma outra, mais alegre
e mais jovial, produzida na mesma época de sua vida.
10. “Ela termina em rabo de peixe, a mulher de belo busto”, Horácio, Arte poética, 4. (N.E.)
11. “sendo eu mesmo conhecido pela afeição paternal que tenho por meus irmãos”, Horácio,
Odes, II, II, 6. (N.E.)
12. “(e de fato, não sou um desconhecido da deusa que mistura aos amores a doçura da
amargura)”, Catulo, LXVIII, 17-18. (N.E.)
13. “Como o caçador persegue a lebre no frio, no calor, na montanha, no vale, não se
preocupa mais quando a vê capturada, e só corre atrás do que lhe foge”, Ariosto, Orlando
furioso, X, VII, 4-8. (N.E.)
14. “O que é de fato esse amor de amizade? Por que ninguém ama um adolescente feio ou
um ancião belo?”, Cícero, Tusculanes, IV, XXXIII, 70. (N.E.)
15. “O amor tende a construir a amizade pela visão da beleza”, Cícero, Tusculanes, IV, XXXIV,
72. (N.E.)
16. “Só podemos julgar de fato as amizades quando reforçadas pela passagem do tempo e
confirmadas pela maturação dos caracteres”, Cícero, De amicitia, XX, 74. (N.E.)
17. “Assim é para mim; para ti, faz segundo tuas necessidades”, Terêncio,
Heautontimoroumenos, 80. (N.E.)
18. “Lúcido, eu nada compararia a um terno amigo”, Horácio, Sátiras, I, V, 44. (N.E.)
19. “dia para sempre cruel, para sempre memorável (assim, Deus, o quisestes)”, Virgílio,
Eneida, V, 49-50. (N.E.)
20. “Decidi proibir-me aqui qualquer prazer enquanto meu companheiro está longe”, Terêncio,
Heautontimoroumenos, 149-150. (N.E.)
21. “Ah, se um golpe prematuro me arrebatou uma parte de minha alma, para que me
demorar, eu a outra parte, sem ser amado do mesmo modo, sem sobreviver por inteiro?”,
Horácio, Odes, II, XVII, 5-9. (N.E.)
22. “Podemos ter vergonha ou moderação ao chorar um ser tão querido?”, Horácio, Odes,
XXIV, 1-2. (N.E.)
23. “Ó, pobre de mim, ó, meu irmão desaparecido! Contigo desapareceram todas as nossas
alegrias, que tua doce amizade alimentava quando vivias. Tua morte despedaçou, irmão,
todos os meus prazeres; contigo minha alma inteira foi sepultada, tua morte baniu de meu
espírito meus estudos e todas as minhas delícias. Falarei contigo? Nunca mais ouvirei
palavras de tua boca? Nunca mais te verei, irmão mais caro que minha vida? Pelo menos
sempre te amarei”, Catulo, LXVIII, 20-26 e LXV, 9-11. (N.E.)
24. Idade provável com que La Boétie escreveu o citado ensaio Contra-um. (N.E.)
CAPÍTULO XXVIII
Vinte e nove sonetos de Étienne de la Boétie
à senhora de Grammont, condessa de Guissen
Senhora, nada vos ofereço de meu, ou porque já é vosso ou porque
nada encontro digno de vós. Mas quis que esses versos, em
qualquer lugar que fossem vistos, levassem vosso nome na epígrafe,
pela honra que lhes será ter como guia a grande Corisande
d’Andoins.25 Esse presente me pareceu vos ser adequado, pois há
poucas damas na França que julguem melhor e que se sirvam mais a
propósito da poesia do que a senhora, e porque não há quem a
possa tornar viva e animada como fazeis com esses belos e ricos
acordes com que, dentre um milhão de outras belezas, a natureza
vos presenteou. Senhora, esses versos merecem que os estimeis;
pois sereis de minha opinião: não há outros, saídos da Gasconha,
que tenham mais originalidade e nobreza, e que demonstrem ter
saído de mão mais rica. E não fiqueis com ciúme por terdes apenas
o restante dos que há pouco mandei imprimir com o nome do senhor
de Foix, vosso bom parente; pois sem dúvida estes aqui têm
qualquer coisa de mais vivo e mais ardente, pois ele os fez em sua
tenra juventude, aquecido por um belo e nobre ardor que um dia,
senhora, vos contarei ao ouvido. Os outros foram feitos depois,
quando estava pensando em casar, em honra de sua mulher, e já
exalam não sei que frieza marital. E eu sou daqueles que afirmam
que a poesia não é tão agradável alhures quanto o é em um tema
brincalhão e desregrado.
Os 29 sonetos de Étienne de la Boétie que aqui haviam sido
inseridos foram depois impressos junto com suas obras.26
25. Senhora da ilha de Bravisande, heroína do Amadis de Gaula, romance cavalheiresco
então na moda. (N.E.)
26. Comentário de Mademoiselle de Gournay, que prefaciou e editou a edição de 1595 dos
Ensaios. (N.E.)
CAPÍTULO XXIX
Da moderação
Como se tivéssemos o toque infecto, corrompemos com nossa
manipulação as coisas que por si mesmas são belas e boas.
Podemos apreender a virtude de forma a torná-la viciosa se a
abraçarmos com um desejo ávido e violento demais. Os que dizem
nunca haver excesso na virtude, visto que não é mais virtude se
excesso houver, estão jogando com as palavras.
Insani sapiens nome ferat, aequus iniqui,
Ultra quàm satis est, virtutem si petat ipsam.27
Essa é uma sutil consideração da filosofia. Pode-se amar demais a
virtude, e cometer excessos em uma ação justa. No mesmo sentido
se coloca a voz divina: “Não sejais mais sábios do que é preciso,
sede moderadamente sábios”. Vi um dos grandes prejudicar a
reputação de sua religião por se mostrar religioso além de qualquer
medida para homens de sua espécie. Aprecio naturezas moderadas
e medianas. A imoderação, mesmo para o bem, quando não me
choca, me espanta, e me é difícil celebrá-la. Nem a mãe de
Pausânias, que deu a primeira ordem e colocou a primeira pedra
para a morte do filho, nem o ditador Postúmio, que fez morrer o seu,
cujo ardor da juventude havia com sucesso lançado sobre os
inimigos, um pouco à frente de seu escalão, me parecem mais justos
que estranhos. E não gosto nem de aconselhar, nem de seguir uma