Effudit, gemitúsque expressit pectore laeto.54
Pois, na verdade, embora a maioria de nossas ações não passem de
máscara e maquiagem, e às vezes possa ser verdade que
Heredis fletus sub persona risus est55,
o certo é que no julgamento desses fatos é preciso considerar como
nossas almas muitas vezes se encontram agitadas por paixões
opostas. E assim como em nossos corpos dizem que há uma reunião
de diferentes humores, cujo mestre é aquele que mais habitualmente
comanda em nós, segundo nosso temperamento, também em nossa
alma, apesar de haver diversos movimentos que a agitam, é preciso
que haja um que prevaleça. Mas não com vitória tão completa que,
pela instabilidade e maleabilidade de nossa alma, os mais fracos
ocasionalmente não retornem e não façam um breve ataque por sua
vez. Por isso vemos não somente as crianças, que espontaneamente
seguem a natureza, muitas vezes chorarem e rirem da mesma coisa;
mas nenhum de nós pode, por mais que viaje por seu desejo, ao se
despedir da família e dos amigos gabar-se de não sentir o coração
estremecer; e se as lágrimas não lhe escapam de fato, pelo menos
coloca o pé no estribo com um rosto sombrio e contristado. E
mesmo que uma bela chama aqueça o coração das jovens bem-
nascidas, ainda é preciso tirá-las à força do pescoço das mães para
entregá-las aos esposos, não importa o que diga este bom
companheiro:
Est ne novis nuptis odio venus, ánne parentum
Frustrantur falsis gaudia lacrymulis,
Ubertim thalami quas intra limina fundunt?
Non, ita me divi, vera gemunt, juverint.56
Assim, não é estranho lamentarmos, quando morto, aquele que não
queríamos vivo. Quando repreendo meu criado, repreendo com toda
a energia que tenho; com verdadeiras, e não fingidas, imprecações;
mas, passada essa emoção, se ele precisar de mim, de bom grado
o ajudarei; viro imediatamente a página. Quando o chamo de bobo,
de parvo, não pretendo atribuir-lhe esses títulos para sempre;
tampouco penso contradizer-me quando logo depois o chamo de
homem honesto. Nenhuma qualidade nos abarca completa e
totalmente. Se falar sozinho não fosse atitude de um louco, não
haveria dia, e quase nem hora, em que não me ouvissem ralhar
comigo mesmo, contra mim mesmo: “Tolo de merda”. E, no entanto,
não entendo que essa seja minha definição. Quem, por me ver olhar
ora com frieza ora com amor para minha mulher, julgar que um ou
outro desses olhares é fingido, é um tolo. Nero, ao despedir-se da
mãe, que mandara afogar, sentiu no entanto a emoção desse adeus
materno, e sentiu horror e piedade. Dizem que a luz do sol não é
contínua, mas que ele nos envia sem cessar novos raios tão cer-
radamente uns sobre os outros que não podemos perceber o espaço
entre eles.
Largus enim liquidi fons luminis aetherius sol
Inrigat assiduè caelum candore recenti,
Suppeditatque novo confestim lumine lumen57;
assim nossa alma lança suas feições diversa e imperceptivelmente.
Artabano surpreendeu Xerxes, seu sobrinho, e o repreendeu pela
mudança súbita de sua atitude. Este estava considerando a
grandeza desmesurada de suas forças, na passagem do Helesponto,
para a conquista da Grécia. Ele primeiro sentiu um estremecimento
de satisfação ao ver tantos milhares de homens a seu serviço, e
demonstrou-o pela alegria e pelo regozijo em seu rosto; de repente,
no mesmo instante, seu pensamento lhe sugerindo que aquelas vidas
desapareceriam o mais tardar em um século, franziu o cenho e
entristeceu-se até as lágrimas. Perseguimos com resoluta vontade a
vingança de uma injúria, e sentimos um singular contentamento pela
vitória; no entanto, choramos; não é disso que choramos; nada
mudou; mas nossa alma olha a coisa com outros olhos, e
representa-a com outro rosto; pois cada coisa tem vários aspectos e
várias saliências. O parentesco, as antigas relações e amizades
arrebatam nossa imaginação e, segundo seu caráter, cativam-na por
um momento; mas a mudança é tão brusca que nos escapa.
Nil adeo fieri celeri ratione videtur,
Quàm si mens fieri proponit et inchoat ipsa.
Ocius ergo animus quàm res se perciet ulla,
Ante oculos quarum in promptu natura videtur.58
É por isso que, querendo de todos esses elementos fazer um
conjunto, nos enganamos. Quando Timoleonte chora o assassinato
que cometera com tão madura e nobre deliberação, ele não chora a
liberdade devolvida à pátria, não chora o tirano, mas chora seu
irmão. Uma parte de seu dever foi cumprida, deixemos que cumpra a
outra.
53. “E assim acontece que cada um esconde em sua alma sua emoção contraditória,
mostrando um rosto ora alegre ora sombrio”, Petrarca, Canzionere, LXXXII, 9-11. (N.E.)
54. “ele pensava poder, em segurança, mostrar-se um sogro bondoso, derramou lágrimas
forçadas e extraiu gemidos de seu coração feliz”, Lucano, IX, 1037-1039. (N.E.)
55. “As lágrimas, sob a máscara de um herdeiro, são um riso”, Públio Siro, citado por Aulo
Gélio, XVII, XIV, 4. (N.E.)
56. “Vênus é objeto de ódio para as recém-casadas, ou estas não enganam seus pais com
lágrimas simuladas, que vertem em abundância na soleira do quarto nupcial? Pelos deuses,
esses gemidos não são sinceros”, Catulo, LXVI, 15-18. (N.E.)
57. “Fonte abundante de luz líquida, o sol no éter inunda sem cessar o céu de um brilho
renovado, e alimenta continuamente a luz com uma nova luz”, Lucrécio, V, 281-283. (N.E.)
58. “Nada parece se realizar tão rapidamente quanto pelo pensamento, quando o espírito
propõe e empreende ao mesmo tempo. O espírito, portanto, se move com mais velocidade
que todas as coisas que a natureza colocou diante de nossos olhos”, Lucrécio, III, 182-185.
(N.E.)
CAPÍTULO XXXVIII
Da solidão
Deixemos de lado a longa comparação da vida solitária com a ativa;
e quanto à bela frase sob a qual se dissimula a ambição e a cobiça,
de que não nascemos para nosso interesse particular mas para o
público, recorramos ousadamente aos que estão na dança; e que
eles examinem sua consciência se, ao contrário, as situações, os
encargos e esses aborrecimentos do mundo não são procurados
sobretudo para tirar proveito particular do que é público. Os maus
meios pelos quais avançamos em nosso século bem mostram que os
fins pouco valem. Respondamos à ambição que é ela mesma que
nos dá o gosto da solidão. Pois do que ela foge tanto quanto da
sociedade? O que procura tanto quanto liberdade de ação? Em tudo
há como agir bem e mal; no entanto, se as palavras de Bias são
verdadeiras, de que a pior parte é a maior, ou o que diz o
Eclesiastes, de que entre mil não há um bom,
Rari quippe boni numero vix sunt totidem, quot
Thebarum portae vel divitis ostia Nili59,
o contágio é muito perigoso na multidão. É preciso ou imitar os
viciosos, ou odiá-los; as duas coisas são arriscadas: parecer com
eles porque são muitos, e odiar muitos porque são dessemelhantes.
E os mercadores que vão para o mar têm razão de velar para que os
que entram no mesmo navio não sejam dissolutos, blasfemadores,
maldosos; consideram infortunada tal companhia. Por isso Bias dizia,
gracejando, aos que passavam com ele pelo perigo de uma grande
tempestade, e chamavam o socorro dos deuses: “Calai-vos, para
que eles não percebam que estais aqui comigo”. E, num exemplo
mais premente, Albuquerque, vice-rei na Índia do rei Manuel, de
Portugal, em perigo extremo no mar, colocou sobre os ombros um
jovem rapaz, com o único objetivo de que, na comunhão do risco de
ambos, sua inocência lhe servisse de garantia e recomendação junto
ao favor divino, colocando-o a salvo. Não que o sábio não possa
viver contente em toda parte, inclusive sozinho na multidão de um
palácio; mas, se puder escolher, ele fugirá, diz Bias, até mesmo da
visão dela; suportará aquilo, se for preciso, mas se couber a ele,
escolherá isto. Não lhe parece ter-se suficientemente desfeito dos
vícios se ainda for preciso que lute com os dos outros. Carondas
punia como maus os que comprovadamente frequentavam más
companhias. Não há nada tão insociável e sociável como o homem;
um por seu vício, outro por sua natureza. Antístenes não me parece
ter respondido satisfatoriamente àquele que censurava seu convívio
com os maus, ao dizer que os médicos vivem bem entre os doentes.
Pois se servem à saúde dos doentes, deterioram a sua, pelo
contágio, a visão contínua e frequente das doenças. Ora, o objetivo
da solidão, assim creio, é um só, viver mais à vontade e satisfeito.
Mas nem sempre procuramos bem seu caminho; muitas vezes
pensamos ter abandonado os negócios, mas apenas os trocamos.
Não há muito menos tormento na governança de uma família do que
na de um estado inteiro; onde quer que a alma esteja ocupada, está
por inteiro; e por menos importantes que sejam as ocupações
domésticas, elas não são menos importunas. Ademais, por nos
termos livrado da corte e do mercado, não nos livramos dos
principais tormentos de nossa vida,
ratio et prudentia curas,
Non locus effusi latè maris arbiter aufert.60
A ambição, a cobiça, a indecisão, o medo e as concupiscências não
nos abandonam por mudarmos de paisagem;
Et post equitem sedet atra cura.61
Eles nos seguem, muitas vezes, até os claustros e as escolas de
filosofia. Nem os desertos nem os rochedos escarpados, nem o
cilício nem os jejuns nos livram deles;
haeret lateri lethalis arundo.62
Disseram a Sócrates que alguém não melhorara nem um pouco ao
viajar; “Bem o creio”, disse ele, “levou a si mesmo junto”.
Quid terras alio calentes
Sole mutamus? patria quis exul
Se quoque fugit?63
Se em primeiro lugar não nos livramos, e à nossa alma, do fardo que
a oprime, o movimento a oprimirá ainda mais; como em um navio, as
cargas atravancam menos quando bem assentadas; causais mais
mal do que bem ao doente ao fazê-lo mudar de lugar. Fazeis o mal
penetrar ao remexê-lo; assim como as estacas penetram mais fundo
e firmam-se ao serem balançadas e sacudidas. Por isso não basta
afastar-se do povo; não basta mudar de lugar, é preciso afastar-se
das qualidades populares, que estão em nós; é preciso sequestrar-
se e devolver-se a si mesmo.
rupi jam vincula, dicas,
Nam luctata canis nodum arripit, attamen illa
Cùm fugit, à collo trahitur pars longa catenae.64
Carregamos nossos grilhões conosco; não é uma liberdade
completa, ainda voltamos os olhos para as coisas que deixamos;
temos a imaginação cheia delas;
nisi purgatum est pectus, quae praelia nobis
Atque pericula tunc ingratis insinuandum?
Quantae conscindunt hominem cuppedinis acres
Sollicitum curae, quantique perinde timores?
Quidue superbia, spurcitia, ac petulantia, quantas
Efficiunt clades, quid luxus desidiésque?65
Nosso mal está em nossa alma; ora, ela não pode escapar de si
mesma,
In culpa est animus, qui se non effugit unquam.66
Assim, é preciso devolvê-la e voltá-la para si mesma; essa é a
verdadeira solidão, que pode ser desfrutada no meio das cidades e
das cortes dos reis; mas é mais comodamente desfrutada à parte.
Ora, já que pretendemos viver sozinhos e dispensar companhia,
façamos com que nosso contentamento dependa de nós; livremo-nos
de todos os laços que nos prendem a outrem; esforcemo-nos para
deliberadamente vivermos sozinhos, e assim vivermos a nosso gosto.
Tendo Estílpon escapado do incêndio de sua cidade, em que perdera
mulher, filhos e bens, Demétrio Poliorcetes, ao não vê-lo com ar
aterrorizado em tão grande ruína de sua pátria, perguntou-lhe se não
sofrera prejuízo; ele respondeu que não, e que graças a Deus nada
perdera de seu. É o que o filósofo Antístenes dizia jocosamente que
o homem devia se abastecer de provisões que flutuassem na água e
pudessem a nado escapar com ele do naufrágio. Por certo o homem
de bom julgamento nada perdeu se tiver a si mesmo. Quando a
cidade de Nola foi destruída pelos bárbaros, Paulino, que era seu
bispo, tendo perdido tudo e sendo feito prisioneiro, assim rogou a
Deus: “Senhor, guarda-me de sentir essa perda, pois sabes que
ainda não tocaram em nada do que é meu”. As riquezas que o
tornavam rico e os bens que o tornavam bom ainda estavam intactos.
Assim que se escolhem bem os tesouros que possam livrar do dano
e que são escondidos em lugar aonde ninguém vá e que só possa
ser revelado por nós mesmos. É preciso ter mulheres, filhos, bens, e
sobretudo saúde, se possível, mas não se apegar a eles de maneira
que nossa felicidade dependa disso. Precisamos reservar-nos um
recanto absolutamente nosso e independente, no qual
estabelecemos nossa verdadeira liberdade e nosso principal retiro e
solidão. Nele devemos ter nossa conversa habitual, de nós para nós
mesmos, e tão privada que nenhum convívio ou comunicação com
coisa externa encontre espaço; discorrer e rir, como se sem mulher,
sem filhos e sem bens, sem séquito e sem criados; a fim de que,
quando chegar o momento de sua perda, não nos seja novidade viver
sem eles. Temos uma alma capaz de recolher-se em si mesma; ela
pode se fazer companhia, ela tem com que atacar e com que
defender, com que receber e com que dar; não temamos, nessa
solidão, estagnar em enfadonha ociosidade,
In solis sis tibi turba locis.67
A virtude contenta-se consigo mesma; sem regras, sem palavras,
sem ações. Em nossas ações habituais, não há uma em mil que nos
diga respeito. Esse que vês escalando no alto das ruínas daquele
muro, furioso e fora de si, exposto a tantos arcabuzes; e esse outro,
cheio de cicatrizes, transido e pálido de fome, decidido a morrer
antes de abrir-lhe a porta; pensas que aí estão por si mesmos? Por
um outro, porventura, que jamais viram e que não tem qualquer
preocupação com o que fazem, mergulhado, enquanto isso, na
ociosidade e nas delícias. Este aqui, todo pituitoso, remelento e
imundo, que vês sair depois da meia-noite de um gabinete de
trabalho, pensas que procura nos livros como se tornar um homem
de bem, mais feliz e mais sábio? Nem um pouco. Ali morrerá, ou
ensinará à posteridade a medida dos versos de Plauto e a
verdadeira ortografia de uma palavra latina. Quem não troca de bom
grado a saúde, o repouso e a vida pela reputação e pela glória? A
mais inútil, vã e falsa moeda em uso entre nós. Nossa morte não nos
amedrontasse suficiente, carreguemos ainda a de nossas mulheres,
de nossos filhos e de nossos criados. Nossos negócios não nos
davam trabalho suficiente, assumamos ainda, para nos
atormentarmos e quebrarmos a cabeça, os dos nossos vizinhos e
amigos.
Vah quemquámne hominem in animum instituere, aut
Parare, quod sit charius, quàm ipse est sibi?68
A solidão parece-me ter mais verossimilhança e razão para os que
dedicaram ao mundo sua idade mais ativa e florescente, a exemplo
de Tales. Vivemos o suficiente para o outro, vivamos para nós ao
menos esse fim de vida; voltemos para nós e para nosso bem-estar
nossos pensamentos e nossas intenções. Retirar-se com segurança
não é uma parte fácil; ela nos pesa o suficiente sem lhe misturarmos
outros empreendimentos. Visto que Deus nos permite dispor de
nossa partida, preparemo-nos para ela; façamos as malas, façamos
as despedidas da companhia em boa hora; desvencilhemo-nos
dessas influências violentas que nos arrastam alhures e nos afastam
de nós. É preciso desatar essas obrigações tão fortes; e doravante
amar isto ou aquilo, mas só desposar a si mesmo; isto é, que o
restante seja nosso, mas não unido e colado de maneira que não
possamos soltá-lo sem nos esfolarmos e arrancarmos junto um
pedaço de nós mesmos. A maior coisa do mundo é saber ser de si
mesmo. É tempo de desprendermo-nos da sociedade, visto que
nada podemos lhe oferecer. E quem não pode emprestar, que se
prive de pedir emprestado. Nossas forças nos faltam; separemo-las
e estreitemo-las em nós. Quem puder inverter os papéis e reunir em
si as obrigações de tantas amizades e da companhia, que o faça.
Nesse declínio, que torna o homem inútil, pesado e importuno aos
outros, que ele evite ser importuno, pesado e inútil a si mesmo. Que
ele se louve e afague, e sobretudo se governe, respeitando e
temendo sua razão e sua consciência; de tal modo que não possa
dar um mau passo em presença delas sem se envergonhar. Rarum
est enim, ut satis se quisque vereatur.69 Sócrates diz que os jovens
devem instruir-se; os homens, exercitar-se para fazer o bem; os
velhos, retirar-se de toda ocupação civil e militar, vivendo como
quiserem, sem terem obrigações específicas. Há índoles mais
próprias para esses preceitos do retiro do que outras. As que têm a
compreensão frouxa e fraca, e uma sensibilidade e uma vontade
delicadas, e que não se sujeitam e não se devotam facilmente, entre
as quais me incluo, por inclinação natural e por reflexão, cederão
melhor a esse conselho do que as almas ativas e ocupadas, que
tudo abarcam e se empenham por toda parte, que se apaixonam por
todas as coisas, que se oferecem, se apresentam e se dão em
todas as ocasiões. Precisamos servir-nos dessas vantagens
acidentais e externas a nós, na medida em que são agradáveis; mas
sem fazer delas nosso principal fundamento, não o são; nem a razão
nem a natureza o querem; por que, contrariando suas leis,
subjugaremos nosso contentamento ao poder de outrem? Também é
atitude de uma virtude excessiva antecipar os acidentes da fortuna,
privar-se das comodidades a nosso alcance, como vários fizeram por
devoção e alguns filósofos por convicção, servir a si mesmo, dormir
no chão, furar os próprios olhos, atirar suas riquezas no meio do rio,
procurar a dor (aqueles, para adquirir a beatitude na outra vida, pelo
tormento desta; estes, para colocar-se ao abrigo de nova queda
colocando-se no degrau mais baixo). Que as naturezas mais firmes e
mais fortes tornem até mesmo seu refúgio glorioso e exemplar;
tuta et parvula laudo,
Cum res deficiunt, satis inter vilia fortis:
Verum ubi quid melius contingit et unctius, idem
Hos sapere, et solos aio benè vivere, quorum
Conspicitur nitidis fundata pecunia villis.70
Há, para mim, muito a fazer sem ir tão longe. Basta-me, sob os
favores da fortuna, preparar-me para seu desfavor; e, estando a
meu gosto, conceber o mal por vir, tanto quanto a imaginação puder
alcançá-lo; assim como nos acostumamos às justas e aos torneios, e
simulamos a guerra em plena paz. Não considero Arcesilau, o
filósofo, menos austero por saber que usou utensílios de ouro e
prata, segundo a condição de sua fortuna lhe permitia; e estimo-o
mais do que se tivesse renunciado a eles, pois os utilizava moderada
e generosamente. Vejo até onde vão os limites da necessidade
natural; e considerando o pobre mendigo à minha porta, muitas vezes
mais alegre e mais sadio do que eu, coloco-me em seu lugar; tento
ajustar minha alma a seu ponto de vista. E assim percorrendo outros
exemplos, embora eu pense que a morte, a pobreza, o desprezo e a
doença estão nos meus calcanhares, decido-me facilmente a não me
aterrorizar com aquilo que um inferior a mim aceita com tanta
paciência; e não quero crer que um entendimento inferior possa mais
que um vigoroso, ou que os efeitos do raciocínio não possam atingir
os efeitos do hábito. E sabendo o quanto essas comodidades
acessórias são precárias, não deixo, em pleno desfrute delas, de
suplicar a Deus meu pedido mais importante, que ele me faça
contente comigo mesmo e com os bens que nascem de mim. Vejo
jovens saudáveis que, não obstante, carregam em seus baús um
monte de pílulas para serem usadas quando o resfriado os atacar, o
qual temem tanto menos por pensarem ter o remédio à mão. Assim
é preciso fazer; e se nos sentirmos sujeitos a alguma doença mais
grave, ainda nos provermos desses medicamentos que acalmam e
adormecem a parte doente. A ocupação que é preciso escolher para
essa vida não deve ser uma ocupação penosa nem aborrecida; de
outro modo, teríamos ido em busca de repouso por nada. Depende
do gosto particular de cada um; o meu não se acomoda de maneira
alguma à gerência doméstica. Os que a apreciam devem dedicar-se
com moderação,
Conentur sibi res, non se submittere rebus.71
De outro modo, a gerência doméstica é um ofício servil, como a
denomina Salústio. Tem partes mais suportáveis, como o trabalho de
jardinagem que Xenofonte atribui a Ciro; e pode-se encontrar um
meio, entre esse trabalho inferior e vil, tenso e cheio de solicitude,
que se vê nos homens que nele mergulham por inteiro, e essa
profunda e extrema negligência que deixa tudo no abandono, que se
vê em outros;
Democriti pecus edit agellos
Cultáque, dum peregrè est animus sine corpore velox.72
Mas escutemos o conselho que o jovem Plínio dá a Cornélio Rufo,
seu amigo, sobre esse tema da solidão: “Aconselho-te, nesse pleno
e abundante retiro em que estás, a deixar a teus criados esse baixo
e abjeto cuidado doméstico, e a dedicar-te ao estudo das letras,
para disso tirar alguma coisa que seja toda tua”. Refere-se à
reputação, com disposição igual à de Cícero, que diz querer
empregar sua solidão e afastamento dos negócios públicos na
conquista, por seus escritos, de uma vida imortal;
usque adeó ne
Scire tuum nihil est, nisi te scire hoc sciat alter?73
Parece razoável, já que falamos em retirar-se do mundo, que
olhemos para fora dele. Estes só o fazem pela metade. Preparam
bem seu papel para quando não estiverem mais aqui; mas ainda
pretendem obter o fruto de seu propósito quando ausentes do
mundo, por uma ridícula contradição. A ideia dos que, por devoção,
procuram a solidão, enchendo seu coração com a certeza das
promessas divinas na outra vida, é bem mais sensatamente
abastecida. Eles têm Deus como propósito, objeto infinito em
bondade e poder. Nele a alma tem com que saciar seus desejos, em
total liberdade. As aflições, as dores, lhes são proveitosas,
empregadas para adquirir uma saúde e um regozijo eternos. A
morte, passagem a um estado tão perfeito, é desejada. O rigor de
suas regras é incontinente aplainado pelo hábito; e os apetites
carnais, reprimidos e adormecidos pela recusa; pois nada os
alimenta mais do que o uso e a prática. Somente essa finalidade, de
uma outra vida feliz na imortalidade, merece lealmente que
abandonemos as comodidades e doçuras dessa nossa vida. E quem
pode inflamar sua alma com o ardor dessa viva fé e esperança, de
maneira real e constante, constrói em sua solidão uma vida
prazerosa e deliciosa, acima de qualquer outro tipo de vida.
Portanto, nem o fim nem o meio desse conselho de Plínio me
contentam; da febre recaímos em um mal mais agudo. Essa
ocupação com os livros é tão penosa quanto qualquer outra; e
igualmente inimiga da saúde, que deve ser considerada
primeiramente. E não devemos nos deixar adormecer no prazer que
dela tiramos; é esse mesmo prazer que perde aquele que cuida
excessivamente de sua casa, o avarento, o voluptuoso e o
ambicioso. Os sábios nos ensinam bastante a evitar a traição de
nossos apetites, e a discernir os prazeres verdadeiros e inteiros dos
prazeres acrescidos e misturados de mais pesares. Pois a maioria
dos prazeres, dizem, nos titilam e abraçam para nos estrangular,
como faziam os ladrões que os egípcios chamavam de filistas; e se a
dor de cabeça nos viesse antes da embriaguez, evitaríamos beber
demais; mas a volúpia, para nos enganar, vai na frente, e esconde-
nos sua consequência. Os livros são agradáveis, mas se por
frequentá-los no fim perdemos a alegria e a saúde, nossas melhores
qualidades, abandonemo-los; sou dos que pensam que seu proveito
não compensa essa perda. Assim como os homens que se sentem
há muito tempo enfraquecidos por alguma indisposição e por fim se
colocam à mercê da medicina, e se fazem prescrever certas regras
de vida, para não mais transgredi-las, também quem se retira da
vida pública entediado e desgostoso deve conformar a sua com as
regras da razão, ordená-la e arrumá-la com premeditação e reflexão.
Deve ter se despedido de toda espécie de trabalho, qualquer que
seja sua aparência; e fugir em geral das paixões que impedem a
tranquilidade do corpo e da alma; e escolher o caminho mais de
acordo com seu humor;
Unusquisque sua noverit ire via.74
Na gerência doméstica, no estudo, na caça e em qualquer outro
exercício, é preciso entregar-se até os últimos limites do prazer e
evitar aventurar-se mais adiante, quando a dor começa a imiscuir-se
a ele. É preciso conservar, em matéria de atividade e ocupação,
apenas tanto quanto for necessário para nos manter em boa forma e
para nos preservar os incômodos que arrasta consigo o outro
extremo de uma ociosidade frouxa e entorpecida. Há ciências
estéreis e espinhosas, e a maioria forjadas para a multidão; é
preciso deixá-las para os que estão a serviço da sociedade. Para
mim, só gosto dos livros agradáveis ou fáceis, que me estimulam, ou
dos que me consolam e aconselham a regrar minha vida e minha
morte;
tacitum sylvas inter reptare salubres,
Curantem quidquid dignum sapiente bonóque est.75
As pessoas mais sábias, tendo a alma forte e vigorosa, podem
imaginar um repouso todo espiritual; eu, que a tenho comum, preciso
ajudá-la a me sustentar pelos confortos corporais; e tendo a idade
agora me recusado os que mais estavam a meu gosto, educo e
aguço meu apetite por aqueles que continuam mais adequados a
essa outra estação. É preciso manter com unhas e dentes o uso dos
prazeres da vida, que nossos anos nos arrancam das mãos, uns
depois dos outros;
carpamus dulcia, nostrum est
Quod vivis, cinis et manes et fabula fies.76
Ora, quanto ao objetivo que Plínio e Cícero nos propõem, o da
glória, está bem longe de minha conta; o humor mais contrário ao
retiro é a ambição; a glória e o repouso são coisas que não podem
morar sob o mesmo teto; pelo que vejo, esses só têm os braços e
as pernas fora da multidão; suas almas, suas intenções seguem
comprometidas mais do que nunca.
Tun’ vetule auriculis alienis colligis escas?77
Eles somente recuaram para melhor saltar e para, com um
movimento mais forte, fazer um ataque mais vivo à tropa. Quereis
ver como erram o alvo por um triz? Confrontemos a opinião de dois
filósofos, e de duas escolas muito diferentes, escrevendo um a
Idomeneu, o outro a Lucílio, seus amigos, para que do manejo dos
negócios e das grandezas se retirassem para a solidão. Vivestes
(dizem eles) até agora nadando e flutuando, vinde morrer no porto.
Destes a outra parte de vossa vida à luz, dai esta à sombra. É
impossível abandonar vossas ocupações se não abandonardes seus
frutos; por isso desfazei-vos de toda preocupação com nome e
glória. Há o perigo de que o clarão de vossas ações passadas os
ilumine demais e vos siga até vossa toca. Abandonai junto com as
outras volúpias a que vem da aprovação de outrem. E quanto a
vossa ciência e competência, não vos preocupeis, elas não perderão
seu efeito se valerdes mais do que vós mesmos. Lembrai-vos
daquele a quem perguntavam por que se cansava tanto em uma arte
que não podia chegar ao conhecimento de muita gente: “Bastam-me
poucos”, respondeu ele, “basta-me um, basta-me nenhum”. Falava a
verdade; vós e um companheiro sois espetáculo suficiente um para o
outro, ou vós para vós mesmos. Que o público vos seja um, e um
vos seja todo o público. É uma baixa ambição querer obter glória por
sua ociosidade e por seu refúgio. É preciso fazer como os animais,
que apagam seu rastro na porta da toca. O que deveis procurar não
é mais do que o mundo fale de vós, mas como deveis falar a vós
mesmos. Retirai-vos em vós, mas primeiro preparai-vos para vos
receber; seria loucura fiar-vos em vós mesmos se não sabeis
governar-vos. Há maneira de falhar na solidão, como em sociedade;
até que tenhais vos tornado alguém diante de quem não ousaríeis
tropeçar, e até que tenhais vergonha e respeito por vós mesmos,
observentur species honestae animo78, tende sempre na imaginação
Catão, Fócio e Aristides, em cuja presença até mesmo os loucos
esconderiam seus erros, e fazei deles os controladores de todas as
vossas intenções; se elas se avariarem, o respeito por eles vos
recolocará no rumo; eles manter-vos-ão nessa via de vos
contentardes com vós mesmos, de só tomar emprestado de vós, e
reter e reforçar vossa alma em pensamentos precisos e limitados,
em que ela possa se contentar; e tendo ouvido os verdadeiros bens
de que gozamos à medida que os compreendemos, contentar-vos
com eles, sem desejo de prolongamento de vida nem de nome. Eis o
conselho da verdadeira e pura filosofia, não de uma filosofia
ostentatória e palavrosa, como é a dos dois primeiros.
59. “Raros são os homens bons, seu número é apenas igual ao das portas de Tebas ou das
embocaduras do Nilo”, Juvenal, XIII, 26-27. (N.E.)
60. “a razão e a prudência é que eliminam as preocupações, não um lugar aberto sobre a
vasta extensão do mar”, Horácio, Epístolas, I, XI, 25-26. (N.E.)
61. “E o negro desgosto está na sela atrás do cavaleiro”, Horácio, Odes, III, I, 40. (N.E.)
62. “a flecha mortal cravada no flanco”, Virgílio, Eneida, IV, 73. (N.E.)
63. “Por que mudamos para terras aquecidas por um outro sol? Aquele que abandona sua
pátria também foge de si mesmo?”, Horácio, Odes, II, XVI, 18-20. (N.E.)
64. “rompi minhas amarras, dirás, como o cão após longo esforço arrancou o nó que o
prende, mas que em sua fuga arrasta no pescoço um longo pedaço de corrente”, Pérsio, V,
158-160. (N.E.)
65. “se nosso coração não for purificado, que combates e que perigos não precisaremos
enfrentar sem proveito? Quantas amargas preocupações dilaceram o homem agitado pelas
paixões, quantos temores? E o orgulho, o excesso, a impudência, quantos desastres eles
não provocam, e o luxo e a preguiça?”, Lucrécio, V, 43-48. (N.E.)
66. [Verso traduzido por Montaigne na frase anterior.] Horácio, Epístolas, I, XIV, 13. (N.E.)
67. “Nesses locais solitários, sê para ti mesmo a multidão”, Tibulo, IV, XIII, 12. (N.E.)
68. “Ora essa! Um homem poria no espírito ou acolheria alguma coisa que lhe fosse mais
estimada do que si mesmo?”, Terêncio, Adelfos, I, I, 13-14. (N.E.)
69. “É raro de fato quem respeita a si mesmo o suficiente”, Quintiliano, Instituição oratória, X,
VII, 24. (N.E.)
70. “louvo a segurança de beneficiar dos bens modestos quando a fortuna me falta, bastante
corajoso para me contentar com pouco: mas, quando a situação é melhor e mais próspera,
proclamo que só são sábios e felizes aqueles que vemos com uma riqueza fundada sobre
opulentas propriedades”, Horácio, Epístolas, I, XV, 42-46. (N.E.)
71. “Que eles se esforcem para submeter as coisas, não a elas se submeterem”, Horácio,
Epístolas, I, I, 19. (N.E.)
72. “O gado pasta o pequeno campo e as culturas de Demócrito, enquanto o espírito deste,
liberto do corpo, vagueia no espaço”, Horácio, Epístolas, I, XII, 12-13. (N.E.)
73. “estás nesse ponto que teu saber não é nada, se um outro não sabe que sabes?”, Pérsio,
I, 26-27. (N.E.)
74. “Que cada um siga pela via que escolheu para si”, Propércio, II, XXV, 38. (N.E.)
75. “flanar em silêncio no ar bom das florestas, ocupado com tudo o que é digno de um sábio
e de um homem de bem”, Horácio, Epístolas, I, IV, 4-5. (N.E.)
76. “colhamos os prazeres, pois só nos pertence o que vivemos, antes de nos tornarmos
cinza, espírito, palavra vã”, Pérsio, V, 151-152. (N.E.)
77. “Então, velho, juntas para regalar os ouvidos dos outros?”, Pérsio, I, 22. (N.E.)
78. “que se apresentem a vosso espíritos nobres imagens”, Cícero, Tusculanes, II, XXII, 52.
(N.E.)
CAPÍTULO XXXIX
Consideração sobre Cícero
Mais um elemento para a comparação desses pares.79 Nos escritos
de Cícero e desse Plínio, que em minha opinião pouco tem do
espírito de seu tio, encontram-se infinitos testemunhos de uma
natureza excessivamente ambiciosa; entre outros, eles solicitam, à
vista de todo mundo, aos historiadores de seu tempo que não os
esqueçam em seus registros; e a fortuna, como por despeito, fez
chegar até nós a vaidade desses pedidos, mas há muito tempo fez
aquelas histórias se perderem. Mas ultrapassa toda baixeza de
coração, em pessoas de tal posição, isso de terem desejado tirar
alguma glória maior da tagarelice e do falatório, a ponto de utilizarem
para isso as cartas privadas escritas a seus amigos; de maneira
que, tendo algumas passado do momento de serem enviadas, eles
mesmo assim as fazem publicar com a digna desculpa de que não
quiseram perder seu trabalho e suas vigílias. Ficará bem a dois
cônsules romanos, magistrados soberanos da república imperatriz do
mundo, consagrar seu tempo a organizar e arranjar elegantemente
uma bela missiva para obter a reputação de bem compreender sua
língua materna? O que poderia fazer de pior um simples mestre-
escola que assim ganhasse a vida? Se os altos feitos de Xenofonte e
de César não tivessem ultrapassado em muito sua eloquência, não
creio que jamais os tivessem escrito. Eles procuraram recomendar
não seus ditos, mas seus feitos. E se a perfeição do bem falar
pudesse trazer alguma glória conveniente a um grande personagem,
certamente Cipião e Lélio não teriam renunciado à honra de suas
comédias, e todas as graças e delícias da língua latina, em favor de
um escravo africano; pois que a obra seja deles, sua beleza e sua
excelência o confirmam suficientemente, e o próprio Terêncio o
confessa; e me causariam um desagrado se me desalojassem dessa
crença. É uma espécie de zombaria e de injúria querer valorizar um
homem por qualidades indignas de sua posição, por mais que sejam
louváveis alhures, e por qualidades que também não devem ser as
suas principais; como quem louvasse um rei por ser bom pintor, ou
bom arquiteto, ou ainda bom arcabuzeiro, ou bom corredor no jogo
do anel; esses elogios não honram, se não são apresentados em
grande número e na sequência das que lhe são próprias; a saber, da
justiça e da ciência de conduzir seu povo na paz e na guerra. Dessa
maneira é que a agricultura honra a Ciro, e a eloquência e o
conhecimento das belas letras a Carlos Magno. Vi em meu tempo,
para usar termos mais enérgicos, personagens que tiravam da
escrita seus títulos e sua profissão renegarem seu aprendizado,
corromperem sua pena e afetarem a ignorância de qualidades tão
comuns e que nosso povo diz não serem encontradas em mãos
sábias, e procurarem se distinguir por qualidades melhores. Os
companheiros de Demóstenes, na embaixada junto a Filipe,
elogiavam esse príncipe por ser belo, eloquente e bom bebedor;
Demóstenes dizia que esses eram elogios que cabiam melhor a uma
mulher, a um advogado e a uma esponja do que a um rei.
Imperet bellante prior, iacentem
Lenis in hostem.80
Não é sua profissão saber caçar bem ou dançar bem,
Orabunt causas alii, caelíque meatus
Describent radio, et fulgentia sidera dicent,
Hic regere imperio populos sciat.81
Plutarco diz mais, que parecer tão excelente nessas partes menos
necessárias é produzir contra si a prova de ter mal distribuído seu
tempo e o estudo que devia ser empregado em coisas mais
necessárias e úteis. De modo que Filipe, rei da Macedônia, ao ouvir
o grande Alexandre, seu filho, cantar em um festim, rivalizando com
os melhores músicos, disse-lhe: “Não tens vergonha de cantar tão
bem?”. E a esse mesmo Filipe disse um músico com quem ele
debatia sua arte: “Deus não queira, sire, que um dia te advenha tanto
mal que entendas dessas coisas melhor do que eu”. Ao orador que o
pressiona em sua invectiva dessa maneira: “Pois bem, quem és para
tanto te fazeres de bravo? És homem de armas, és arqueiro, és
lanceiro?”, um rei deve poder responder como Ifícrates: “Não sou
nada disso, mas sou o que sabe comandar todos esses”. E
Antístenes tomou como prova do pouco valor de Ismênias o fato de
o elogiarem por ser excelente tocador de flautas. Bem sei, quando
ouço alguém que se detém na linguagem dos Ensaios, que eu
preferiria que se calasse. Isso não é tanto elevar as palavras quanto
rebaixar o sentido, de maneira tanto mais cortante quanto mais
oblíqua. Talvez eu esteja enganado, mas poucos outros têm mais a
oferecer na matéria, seja como for, mal ou bem, mas nenhum
escritor a semeou mais substancial ou ao menos mais densa em seu
papel. Para nele colocar mais, empilho apenas os cabeçalhos. Se
acrescentasse suas sequências, multiplicaria várias vezes esse
volume. E nele disseminei quantas histórias, que não foram
comentadas, e que quem quiser esmiuçar um pouco mais
atentamente produzirá infinitos Ensaios? Nem sempre elas, nem
minhas citações, servem simplesmente de exemplo, de autoridade ou
de ornamento. Não as considero apenas pelo uso que delas faço.
Elas muitas vezes carregam, para além de meu assunto, a semente
de uma matéria mais rica e mais ousada, e muitas vezes,
enviesadamente, um som mais delicado, para mim que não quero
expressar mais, e para os que vão ao meu encontro. Voltando à
virtude do falar, não vejo grande diferença entre só saber falar mal e
saber apenas falar bem. Non est ornamentum virile concinnitas.82
Os sábios dizem que, do ponto de vista do saber, só a filosofia e, do
ponto de vista da ação, só a virtude são próprias de maneira geral a
todos os graus e posições. Há algo parecido nesses dois outros
filósofos83, pois eles também prometem eternidade às cartas que
escrevem a seus amigos. Mas é de outra maneira, e adaptando-se,
por um bom fim, à vaidade de outrem; pois lhes dizem que se a
preocupação com se fazerem conhecidos pelos séculos vindouros e
com o renome ainda os detém no manejo dos negócios e os faz
temer a solidão e o refúgio a que querem chamá-los, que não se
esforcem mais; pois eles mesmos têm crédito suficiente com a
posteridade para responder-lhes que, mesmo que apenas pelas
cartas que lhes escrevem, tornarão seus nomes tão conhecidos e
famosos quanto poderiam fazê-lo suas ações públicas. Para além
dessa diferença, no entanto não são cartas vazias e descarnadas,
que se sustentam apenas por uma delicada escolha de palavras,
amontoadas e ordenadas em cadência adequada, mas recheadas e
repletas de belas palavras de sapiência, pelas quais nos tornamos
não mais eloquentes mas mais sábios, e que nos ensinam não a falar
bem, mas a fazer bem. Fora a eloquência que nos dá vontade de si
mesma, não das coisas; a não ser que se diga que a de Cícero,
tendo tão extrema perfeição, dá corpo a si mesma. Acrescentarei
ainda uma história que lemos sobre ele a esse respeito, para nos
fazer ver claramente seu caráter. Ele tinha que advogar em público,
e estava com pouco tempo para se preparar a seu gosto. Eros, um
de seus escravos, veio avisá-lo que a audiência fora adiada para o
dia seguinte; ele ficou tão satisfeito que por essa boa notícia lhe deu
a liberdade. Sobre esse assunto de cartas, quero dizer o seguinte:
que é um tipo de escrita em que, meus amigos dizem, eu poderia
alguma coisa; e teria escolhido com mais boa vontade essa forma de
expressar minha verve se tivesse com quem falar. Eu precisaria,
como tive outrora, de uma certa relação que me atraísse, que me
sustentasse e elevasse. Pois conversar ao vento, como outros, eu
não saberia, só em sonho; nem criar nomes vazios para alimentar
com coisas sérias, pois sou inimigo jurado de toda espécie de
falsificação. Eu teria sido mais atento, e mais seguro, tendo um
destinatário específico e amigo do que me dirigindo às diversas
faces de uma multidão; e fico desapontado por não ter me saído
melhor. Tenho por natureza um estilo familiar e privado; mas com
uma forma minha, inapta às tratativas públicas, como de qualquer
maneira é minha linguagem, densa demais, desordenada,
entrecortada, particular; e não sou hábil em cartas cerimoniosas que
não têm outra substâncias além de uma bela sequência de palavras
corteses; não tenho nem a capacidade nem o gosto dessas longas
ofertas de afeição e serviço; não acredito muito nelas, e me
desagrada dizer mais do que acredito. Isso está bem distante do uso
atual, pois nunca houve tão abjeta e servil prostituição de fórmulas de
cortesia; vida, alma, devoção, adoração, servo, escravo, todas
essas palavras afluem tão correntemente que, quando querem que
se perceba uma vontade mais explícita e mais respeitosa, não têm
mais maneira de expressá-la. Odeio de morte parecer adulador, o
que faz com que eu me entregue naturalmente a um falar seco,
franco e cru, que, para quem não me conhece de outra parte, puxa
um pouco para o desdenhoso. Honro mais os que menos honro; e
onde minha alma caminha com grande alegria, esqueço o modelo da
conveniência; e me ofereço parca e dignamente àqueles de quem
dependo, e me mostro menos àqueles que mais me dei. Parece-me
que eles podem ler em meu coração, e que a expressão de minhas
palavras prejudica minha concepção. Para dar boas-vindas, para
despedir-se, para agradecer, para saudar, para oferecer meus
préstimos e outros cumprimentos verbais das leis cerimoniosas de
nossa civilidade, não conheço ninguém tão tolamente estéril de
linguagem quanto eu. E nunca apliquei-me a escrever cartas de favor
e recomendação sem que aquele a quem eram destinadas não as
tenha achado secas e frouxas. Os italianos são grandes impressores
de cartas; tenho, creio eu, cem volumes diferentes. As de Annibale
Caro me parecem as melhores. Se todo o papel que outrora
rabisquei para as mulheres ainda existisse, de quando minha mão
era realmente guiada por minha paixão, talvez se encontrasse
alguma página digna de ser comunicada à juventude ociosa, presa
desse furor. Sempre escrevo minhas cartas com pressa, e tão pre-
cipitadamente que embora forme minhas letras insuportavelmente
mal, prefiro escrever de mão própria a empregar outra pessoa nisso,
pois não encontro ninguém que possa seguir meu ritmo; e nunca as
copio. Acostumei os grandes personagens que me conhecem a
tolerar letras e palavras riscadas, e um papel sem dobra e sem
margem. As que mais me custam são as que menos valem; se me
demoro nelas, é sinal de que ali não estou. Começo normalmente
sem projeto; a primeira palavra leva à segunda. As cartas de agora
são mais feitas de margens e prefácios do que de matéria; como
prefiro compor duas cartas a fechar e dobrar uma, sempre deixo
essa tarefa para algum outro; da mesma forma, quando o assunto
está encerrado, eu de bom grado passaria a alguém o encargo de
acrescentar essas longas arengas, oferecimentos e votos que
colocamos no fim, e gostaria que algum novo costume nos
dispensasse disso; como também de colocar nelas uma lista de
qualidades e títulos, que muitas vezes, para não errar, desisti de
escrever, principalmente para pessoas da Justiça e das finanças,
tantas são as inovações nos cargos, e tão difícil a distribuição e
ordenação dos diversos títulos honoríficos, os quais, sendo
comprados por preço tão caro, não podem ser trocados ou
esquecidos sem ofensa. Da mesma forma, considero de mau gosto
sobrecarregar com eles a página de rosto e o título dos livros que
mandamos imprimir.
79. Os pares de autores antigos (Epicuro e Sêneca; Cícero e Plínio, o Jovem) do ensaio
anterior. (N.T.)
80. “Que ele comande, superior no combate, clemente para com o inimigo derrubado”,
Horácio, Canto secular, 51-52. (N.E.)
81. “Outros advogarão, traçarão com o compasso os movimentos celestes e descreverão os
astros resplandecentes; quanto a ele, que saiba impor aos povos seu poder”, Virgílio, Eneida,
VI, 849-851. (N.E.)
82. “A elegância não é um elemento viril”, Sêneca, Cartas a Lucílio, CXV, 2. (N.E.)
83. Epicuro e Sêneca. (N.T.)
CAPÍTULO XL
Que o gosto dos bens e dos males depende em boa
medida da opinião que temos deles
Os homens (diz uma antiga máxima grega) são atormentados pelas
opiniões que têm das coisas, não pelas coisas em si. Haveria um
grande ponto ganho para o alívio de nossa miserável condição
humana se fosse possível estabelecer esse postulado como
verdadeiro em tudo. Pois se os males só entraram em nós por nosso
julgamento, parece estar em nosso poder desprezá-los ou
transformá-los em bem. Se as coisas estão à nossa mercê, por que
não dispomos delas ou não as acomodamos para nosso proveito?
Se isso que chamamos mal e tormento não é nem mal nem tormento
em si, mas somente se nossa imaginação lhe atribuir essa qualidade,
está em nosso poder mudá-la. E tendo essa escolha, se nada nos
força somos extraordinariamente loucos de nos voltarmos para o
partido que nos é mais penoso, e darmos às doenças, à indigência e
ao desdém um gosto acre e ruim quando podemos dar-lhes um bom;
assim, a fortuna simplesmente fornecendo a matéria, cabe a nós
dar-lhe a forma. Ora, vejamos se é possível sustentar que isso que
chamamos de mal não o seja em si, ou ao menos tal como é, e que
dependa de nós dar-lhe outro sabor e outro rosto (pois dá na
mesma). Se a essência original dessas coisas que tememos tivesse
crédito para se instalar em nós por sua autoridade, ela se instalaria
de maneira igual e semelhante em todos, pois os homens são todos
de uma mesma espécie, e, salvo por algo a mais ou a menos,
acham-se providos de iguais ferramentas e instrumentos para
compreender e julgar. Mas a diversidade das opiniões que temos
sobre essas coisas mostra claramente que elas só entram em nós
com acomodação; aquele porventura as instala em si com sua
verdadeira essência, mas mil outros lhe dão uma essência nova e
contrária dentro de si. Consideramos a morte, a pobreza e a dor
nossas principais adversárias. Ora, essa morte que uns chamam de
a coisa mais horrível das coisas horríveis, quem não sabe que outros
a denominam o único porto para as tormentas dessa vida, o
soberano bem da vida, o único suporte de nossa liberdade, e a
receita comum e imediata para todos os males? E assim como uns a
aguardam, trêmulos e assustados, outros a suportam mais
facilmente do que a vida. Este se queixa de sua facilidade:
Mors utinam pavidos vita subducere nolles,
Sed virtus te sola daret!84
Ora, deixemos essas gloriosas coragens. Teodoro respondeu a
Lisímaco, que ameaçava matá-lo: “Farás um grande golpe
alcançando a força de uma cantárida”. A maioria dos filósofos é vista
tendo antecipado de propósito, ou apressado e auxiliado sua morte.
Quantas pessoas do povo vemos, conduzidas à morte, e não a uma
morte simples, mas mesclada de vergonha e por vezes de penosos
tormentos, nela demonstrarem uma tal segurança, seja por
obstinação, seja por ingenuidade natural, que não percebemos
nenhuma alteração de seu estado habitual ao decidirem seus
assuntos domésticos, ao se recomendarem aos amigos, ao
cantarem, discursarem e entreterem o povo, algumas vezes até
mesmo interpolando ditos engraçados, e ao beberem à saúde de
seus conhecidos, como Sócrates? Um que era levado à forca dizia
que não fossem por tal rua, pois havia o risco de que um vendedor
mandasse agarrá-lo pelo colarinho por causa de uma dívida antiga.
Outro dizia ao carrasco para que não o tocasse na garganta, por
medo de que o fizesse tremer de rir, de tanto que sentia cócegas;
outro respondeu a seu confessor, que lhe prometia que naquele dia
ele cearia com Nosso Senhor: “Ide vós, pois de minha parte estou
jejuando”. Um outro, tendo pedido para beber, e tendo o carrasco
bebido primeiro, disse não querer beber depois dele, por medo de
pegar sífilis. Todos ouviram falar da história do picardo a quem,
subindo as escadas da forca, apresentaram uma jovem e disseram
que, se ele quisesse desposá-la (como nossa Justiça às vezes
permite), salvariam sua vida; ele, tendo-a contemplado um pouco e
percebendo que ela coxeava um pouco, disse: “Amarre, amarre, ela
manca”. E também contam que na Dinamarca um homem condenado
a ter a cabeça cortada, estando no cadafalso, ao lhe apresentarem
a mesma condição, recusou-a porque a moça que lhe ofereceram
tinha o rosto caído e o nariz pontudo demais. Em Toulouse, um
criado acusado de heresia pela simples razão de que sua crença se
remetia à de seu senhor, jovem estudante preso com ele, preferiu
morrer a deixar-se convencer de que seu senhor pudesse errar.
Lemos sobre o povo da cidade de Arras, quando o rei Luís XI a
tomou, que houve um bom número que preferiu se deixar enforcar a
ter que dizer “Viva o rei”. E entre as almas vis dos bufões, viram-se
umas que não quiseram abandonar suas zombarias nem mesmo na
morte. Aquele que o carrasco empurrava no vazio exclamou “Toque o
barco”, que era seu bordão habitual. E outro, que prestes a perder a
vida haviam deitado sobre uma enxerga ao lado do fogo, e a quem o
médico perguntou onde o mal o afligia, respondeu: “Entre o banco e
o fogo”. E como o padre, para lhe dar a extrema-unção, procurava
seus pés, que ele estreitara e contraíra pela doença, disse: “Vós os
encontrareis no fim de minhas pernas”. Ao homem que o exortava a
recomendar-se a Deus, perguntou: “Quem está partindo?”. Tendo o
outro respondido, “Logo sereis vós mesmos, se Ele assim quiser”,
replicou: “Eu bem que partiria amanhã à noite”. “Recomendai-vos
agora a Ele”, prosseguiu o outro, “em breve estareis lá.” “Então é
melhor”, acrescentou ele, “que eu mesmo leve a Ele minhas
recomendações.” No reino de Narsinque, ainda hoje as mulheres dos
sacerdotes são enterradas vivas com o corpo de seus maridos.
Todas as outras mulheres são queimadas vivas nos funerais de seus
maridos, não apenas com firmeza mas com alegria. À morte do rei,
suas mulheres e concubinas, seus favoritos e todos os seus
auxiliares e serviçais, que formam uma multidão, se oferecem tão
alegremente ao fogo em que seu corpo é queimado que demonstram
considerar uma grande honra acompanhar na morte seu senhor.
Durante nossas últimas guerras em Milão, e depois de tantas
tomadas e retomadas, o povo, inconformado com mudanças de
fortuna tão diversas, decidiu-se de tal forma pela morte que ouvi meu
pai dizer que viu fazerem a conta de pelo menos 25 senhores que
tinham tirado a própria vida em uma semana; incidente parecido com
o dos habitantes de Xanto, que, sitiados por Bruto, se entregaram
indistintamente, homens, mulheres e crianças, a um tão furioso
desejo de morrer que nada fazemos para fugir da morte que eles
não fizessem para fugir da vida; de maneira que Bruto só conseguiu
salvar um número bem pequeno deles. Qualquer opinião tem força
suficiente para fazer-se adotar a preço da vida. O primeiro artigo do
corajoso juramento que a Grécia fez, e manteve, na guerra médica,
foi que cada um antes trocaria a vida pela morte do que suas leis
pelas dos persas. Quantos não vimos, na guerra entre turcos e
gregos, preferirem uma morte muito cruel a terem que renunciar à
circuncisão para se batizarem? Exemplo de que nenhum tipo de
religião é incapaz. Tendo os reis de Castela banido de suas terras os
judeus, o rei João de Portugal vendeu-lhes, a oito escudos por
cabeça, asilo nas suas por certo tempo, com a condição de que,
tendo este passado, eles teriam que deixá-las, e prometia fornecer
navios para transportá-los à África. Chegado o dia, depois do qual
estava dito que aqueles que não tivessem obedecido ficariam como
escravos, os navios lhes foram fornecidos em pequeno número, e
aqueles que embarcaram foram tratados de maneira rude e vil pelos
marinheiros, que, além de muitas outras indignidades, extraviaram-
nos no mar, ora para frente, ora para trás, até que tivessem
consumido seus víveres e fossem obrigados a comprá-los deles tão
caro e por tanto tempo que só os desembarcaram quando
totalmente despojados. Sendo a notícia dessa desumanidade
relatada aos que estavam em terra, a maioria se decidiu pela
servidão; alguns fizeram menção de mudar de religião. Manuel,
sucessor de João, herdando a coroa, primeiro colocou-os em
liberdade, e depois, mudando de ideia, ordenou que saíssem de
suas terras, designando três portos para sua viagem. Ele esperava,
diz o bispo Osório, importante historiador latino de nossos tempos,
que, tendo o favor que lhes fizera ao devolver-lhes a liberdade
falhado para convertê-los ao cristianismo, as dificuldades de se
arriscarem ao banditismo dos marinheiros, de abandonar um país a
que estavam habituados, com grandes riquezas, para se instalarem
em região desconhecida e estrangeira, os traria de volta. Mas
vendo-se privado de sua esperança, e todos eles decididos a viajar,
suprimiu dois dos portos que lhes prometera, a fim de que a
extensão e o incômodo do trajeto dissuadissem alguns, ou para
amontoá-los todos num mesmo lugar para maior comodidade na
execução daquilo que havia planejado. Que foi ter ordenado que
arrancassem das mãos dos pais e das mães todas as crianças
abaixo de catorze anos, para transportá-las, fora de suas vistas e
convivência, a lugar onde fossem instruídas em nossa religião.
Osório diz que esse ato produziu um espetáculo horrível: a natural
afeição entre pais e filhos, e mais o zelo por sua antiga crença,
opondo-se a essa ordem brutal. Foi comum ver pais e mães tirando
suas próprias vidas; e, em exemplo ainda mais rude, jogando, por
amor e compaixão, seus jovens filhos em poços, para fugir da lei. De
resto, tendo expirado o prazo que lhes fixara, por falta de meios eles
voltaram à servidão. Alguns se fizeram cristãos, mas ainda hoje, cem
anos depois, poucos portugueses têm certeza de sua fé, ou da fé de
seus descendentes; embora o costume e a passagem do tempo
sejam conselheiros bem mais fortes em tais conversões do que
qualquer outra imposição. Na cidade de Castelnaudary, cinquenta
albigenses heréticos suportaram ao mesmo tempo, com resoluta
coragem, ser queimados vivos em uma fogueira em vez de
renegarem suas opiniões. Quoties non modò ductores nostri, diz
Cícero, sed universi etiam exercitus, ad non dubiam, mortem
concurrerunt?85 Vi um de meus amigos íntimos correr tão
ardentemente para a morte, com paixão verdadeira e enraizada em
seu coração por diversos tipos de raciocínio, que não consegui
demovê-lo; e à primeira ocasião que se ofereceu a ele, ornada por
um brilho de honra, precipitou-se a ela sem qualquer chance, com
uma fome ávida e ardente. Temos vários exemplos, em nosso tempo,
daqueles que, até mesmo crianças, por temerem algum leve
inconveniente se entregaram à morte. E, a propósito disso, diz um
antigo: “O que não temeremos, se tememos aquilo que a própria
covardia escolheu como refúgio?”. Redigir aqui uma longa lista
daqueles, de todos os sexos e condições, e de todas as escolas, em
séculos mais felizes, que ou esperaram a morte com firmeza, ou a
procuraram voluntariamente, e a procuraram não apenas para fugir
dos males desta vida mas alguns simplesmente para fugir da
saciedade de viver, e outros pela esperança de uma melhor condição
alhures, isto eu jamais faria. Seu número é tão infinito que na
verdade eu ganharia mais enumerando os que a temeram. Somente
um: Pírron, o filósofo, encontrando-se em um barco em dia de
grande tormenta, mostrava aos que via mais aterrorizados ao seu
redor, e os encorajava, o exemplo de um porquinho que lá estava,
nem um pouco preocupado com aquela tempestade. Ousaremos
dizer, então, que a vantagem da razão, de que fazemos grande caso,
e em nome da qual nos consideramos senhores e imperadores do
resto das criaturas, tenha sido colocada em nós para nosso
tormento? De que serve o conhecimento das coisas, se nos
tornamos mais covardes? Se perdemos o repouso e a tranquilidade
que teríamos sem ele? E se ele torna condição pior que a do
porquinho de Pírron? A inteligência que nos foi dada para nosso
maior bem, empregá-la-emos para nossa ruína, combatendo os
desígnios da natureza e a ordem universal das coisas, que quer que
cada um use seus instrumentos e meios para sua comodidade? Bem,
dir-me-ão, vossa regra serve para a morte, mas que direis da
indigência? Que direis ainda da dor, que Aristipo, Jerônimo e a
maioria dos sábios consideraram o mal extremo, e os que o
negavam por palavras admitiam-no por atitudes? Estando Posidônio
extremamente atormentado por uma doença aguda e dolorosa,
Pompeu foi vê-lo e desculpou-se por ter escolhido hora tão importuna
para ouvi-lo falar de filosofia. “Jamais queira Deus”, disse-lhe
Posidônio, “que a dor se apodere tanto de mim que me impeça de
discorrer sobre isso”, e lançou-se a esse mesmo assunto do
desprezo da dor. Mas, enquanto isso, ela desempenhava seu papel e
o acossava sem cessar; ao que ele exclamou: “Por mais que faças,
dor, não direi que és um mal”. Essa história, que tanto enfatizam, o
que apresenta para o desprezo da dor? Ela só discute a palavra. E
no entanto, se essas pontadas não o abalam, por que interrompe
sua fala? Por que pensa fazer muito ao não chamá-la de mal? Aqui,
nem tudo consiste em imaginação. Temos opiniões sobre o resto;
aqui, é o conhecimento exato que desempenha seu papel, nossos
próprios sentidos são os juízes.
Qui nisi sunt veri, ratio quoque falsa sit omnis.86
Faremos nossa pele acreditar que as chicotadas lhe fazem cócegas?
E a nosso paladar que o aloés seja vinho de Graves? O porquinho de
Pírron está, aqui, do nosso lado. De fato não tem medo da morte;
mas, se batem nele, grita e se agita. Modificaremos a lei geral da
natureza, que se vê em tudo que está vivo sob o céu, de tremer sob
a dor? As próprias árvores parecer sofrer quando feridas. A morte
só é sentida pela razão, visto ser o movimento de um instante.
Aut fuit, aut veniet, nihil est praesentis in illa87,
Mórsque minus poenae, quàm mora mortis habet.88
Mil feras, mil homens são mortos antes que ameaçados. Na verdade,
o que dizemos temer especialmente na morte é a dor, sua habitual
precursora. No entanto, a crer em um santo padre, malam mortem
non facit, nisi quod sequitur mortem.89 E eu diria ainda mais
verossimilmente que nem o que vem antes, nem o que vem depois
são propriedades da morte. Alegamos falsas razões. E vejo, por
experiência, que é antes a incapacidade de imaginar a morte que nos
torna incapazes de tolerar a dor, e que a sentimos duplamente
severa porque nos pressagiam a morte. Mas porque a razão acusa
nossa covardia de temer coisa tão súbita, tão inevitável, tão
insensível, adotamos esse outro pretexto, mais desculpável. Todos
os males que não têm outro risco além da dor, nós os dizemos sem
risco. A dor de dente, ou da gota, por maior que seja, desde que não
seja mortal, quem a considera uma doença? Pois bem,
pressuponhamos que, na morte, vemos principalmente a dor. Assim
como nada se tem a temer da pobreza além do fato de ela nos
mergulhar em seus braços pela sede, pela fome, pelo frio, pelo calor,
pelas vigílias que nos faz padecer. Assim, só precisamos lidar com a
dor. Reconheço de bom grado que é o pior incidente de nossa
existência. Pois sou do mundo o homem que lhe quer tanto mal, e
que tanto foge dela, sem até o presente ter tido, graças a Deus,
grande relação com ela. Mas está em nós, se não dissipá-la, pelo
menos enfraquecê-la pela paciência; e mesmo quando o corpo for
atingido, ainda mantermos a alma e a razão em bom estado. E se
assim não fosse, quem teria dado valor à virtude, à valentia, à força,
à magnanimidade e à firmeza? Onde desempenhariam elas seu
papel, se não houvesse mais dor a enfrentar? Avida est periculi
virtus.90 Se não for preciso deitar no chão duro, suportar armado dos
pés à cabeça o calor do meio-dia, alimentar-se de um cavalo e de
um burro, ver-se cortado em pedaços e extirpado de uma bala entre
os ossos, suportar ser costurado, cauterizado e sondado, como
adquirir-se a vantagem que queremos ter sobre o vulgo? Isso que os
sábios dizem, que das ações igualmente boas a mais desejável de
se fazer é a mais penosa, está bem longe de evitar o mal e a dor.
Non enim hilaritate nex lascivia, ne risu aut joco comite levitatis, sed
saepe etiam tristes firmitate et constantia sunt beati.91 E por causa
disso foi impossível persuadir nossos pais de que as conquistas
feitas à viva força, ao acaso da guerra, não são mais vantajosas do
que as feitas em total segurança por estratagemas e maquinações.
Laetius est, quoties magno sibi constat honestum.92
Além do mais, devemos nos consolar porque, naturalmente, se a dor
é violenta, ela é breve; se ela é longa, é leve; si gravis, brevis; si
longus, levis.93 Não a sentirás por muito tempo, se a sentes demais;
ela dará fim a si mesma, ou a ti; um e outro se equivalem. Se não a
suportas, ela te transportará. Memineris maximos morte finiri;
parvos multa habere intervalla requietis; mediocrium nos esse
dominos; ut si tolerabiles sint, feramus: sin minus, è vita, quum ea
non placeat, tanquàm è theatro exeamus.94 O que nos faz padecer a
dor com tanta impaciência é não estarmos acostumados a tirar
nosso principal contentamento da alma, não confiarmos
suficientemente nela, que é a única e soberana senhora de nossa
condição. O corpo, salvo algo a menos e a mais, só tem um
movimento e uma postura. A alma é mutável em todo tipo de formas,
e traz para si e para seu estado, qualquer que seja, as sensações do
corpo e todos os outros fenômenos. Contudo, é preciso estudá-la e
inquiri-la; e despertar-lhe seus recursos todo-poderosos. Não há
razão, nem prescrição, nem força que possam ir contra sua
inclinação e sua escolha. Dos tantos milhares de aspectos que ela
tem à sua disposição, escolhamos um, próprio a nosso repouso e
conservação; estaremos não somente protegidos de qualquer dano
mas até mesmo recompensados e favorecidos, se bem lhe parecer,
das ofensas e dos males. Ela tira proveito de tudo indiferentemente.
O erro, os sonhos, servem-lhe utilmente, como matéria legítima para
nos dar segurança e contentamento. É fácil ver que o que aguça em
nós a dor e a volúpia é a acuidade de nosso espírito. Os animais,
que o mantêm preso, deixam aos corpos suas sensações, livres e
naturais; e, por conseguinte, mais ou menos iguais em todas as
espécies, como demonstram pela semelhança de seus movimentos.
Se não perturbássemos em nossos membros a jurisdição que lhes
cabe nisso, é de crer que estaríamos melhor, e que a natureza lhes
teria dado um justo e moderado temperamento em relação ao prazer
e à dor. E não pode deixar de ser justo, sendo igual e comum. Mas
já que nos emancipamos de suas regras, para nos entregarmos à
errante liberdade de nossas fantasias, ao menos ajudemos a
posicioná-las do lado mais agradável. Platão teme nosso ávido
envolvimento com a dor e a volúpia, visto que ele sujeita e prende
demasiadamente a alma ao corpo; para mim, seria antes o contrário,
visto que a desprende e arranca dele. Assim como o inimigo se torna
mais implacável diante de nossa fuga, a dor se enche de orgulho ao
ver-nos tremer diante dela. Ela se tornará muito mais suportável para
aquele que a enfrentar; é preciso opor-se e resistir-lhe. Ao nos
acuarmos e recuarmos, chamamos a nós e atraímos a ruína que nos
ameaça. Assim como o corpo é mais resistente ao ataque
enrijecendo-se, também a alma. Mas vamos aos exemplos, que são
propriamente o alimento das pessoas fracas como eu, nos quais
veremos que com a dor acontece o mesmo que com as pedras que
tomam uma cor mais viva, ou mais desbotada, de acordo com a
folha em que forem colocadas; e que ela só ocupa em nós o tanto de
espaço que lhe damos. Tantum doluerunt, quantum doloribus se
inseruerunt.95 Sentimos mais um golpe de navalha do cirurgião do
que dez golpes de espada no calor do combate. As dores do parto,
consideradas grandes pelos médicos e mesmo por Deus, e que
enfrentamos com tanta cerimônia, não são levadas em conta por
nações inteiras. Deixo à parte as mulheres lacedemônias; mas nas
suíças, de nossos soldados de infantaria, que mudança encontrais?
Se não trotando atrás de seus maridos, vede-as hoje levando no colo
a criança que ontem tinham no ventre; e essas ciganas que vivem
entre nós vão elas mesmas lavar seus filhos que acabam de nascer,
e tomam banho no rio mais próximo. Além de tantas meretrizes que
todos os dias dissimulam seus filhos, tanto ao gerá-los quanto ao
concebê-los, a bela e nobre mulher de Sabino, patrício romano, por
interesse de outrem suportou sozinha e sem ajuda, e sem gritos e
gemidos, o parto de dois gêmeos. Um simples rapaz da
Lacedemônia, tendo roubado uma raposa (pois eles temiam mais a
vergonha de sua tolice no furto do que tememos o castigo de nossa
maldade), e tendo-a colocado sob sua capa, preferiu aguentar que
ela lhe roesse o ventre a revelar-se. E um outro, oferecendo incenso
em um sacrifício, deixou-se queimar até o osso, por um carvão caído
em sua manga, para não perturbar a cerimônia. E viu-se um grande
número, por simples prova de coragem, seguindo a educação
recebida, aos sete anos de idade se deixarem fustigar até a morte,
sem alterar seus semblantes. E Cícero viu lutarem aglomerados,
com punhos, pés e dentes, até desmaiarem, em vez de
reconhecerem a derrota. Nunquam naturam mos vinceret; est enim
ea semper invicta; sed nos umbris, delitiis, otio, languore, desidia,
animum infecimus; opinionibus malóque more delinitum
mollivimus.96 Todos conhecem a história de Scevola, que, tendo se
infiltrado no campo inimigo para matar seu chefe, e tendo falhado em
consegui-lo, para retratar-se com mais estranha invenção e libertar
sua pátria, confessou a Porsena, o rei que queria matar, não apenas
sua intenção, como acrescentou que havia em seu campo um grande
número de romanos como ele, cúmplices de sua iniciativa. E para
mostrar quem ele era, fazendo com que lhe trouxessem um braseiro,
viu e suportou grelharem e assarem seu braço, até que o próprio
inimigo, horrorizado, mandasse retirar o braseiro. O que dizer
daquele que não se dignou a interromper a leitura de seu livro
enquanto lhe faziam uma incisão? E aquele que se obstinou em
zombar e rir em afronta aos males que lhe faziam, de forma que a
crueldade exacerbada dos carrascos que o prendiam, e todas as
invenções de tormentos redobrados, uns sobre os outros, lhe deram
a vitória? Mas era um filósofo. Ora! Um gladiador de César suportou
sempre rindo que lhe sondassem e cortassem as feridas. Quis
mediocris gladiator ingemuit? quis vultum mutavit unquam? Quis
non modò stetit, verùm etiam decubuit turpiter? Quis cùm
decubuisset, ferrum recipere jussus, collum contraxit?97
Acrescentemos as mulheres. Quem não ouviu falar, em Paris,
daquela que se fez esfolar apenas para adquirir a tez mais fresca de
uma nova pele? Há as que se fizeram arrancar dentes vivos e sadios
para produzir uma voz mais macia e mais cheia, ou para dispor os
outros dentes em melhor ordem. Quantos exemplos do desprezo
pela dor encontramos nesse gênero? O que elas não podem fazer?
O que temem elas, por menor a melhora a esperar em sua beleza?
Vellere queis cura est albos à stirpe capillos,
Et faciem dempta pelle referre novam.98
Vi engolirem areia, cinzas, e se esforçarem propositalmente a
arruinar o estômago para adquirirem a cor pálida. Para formarem um
corpo bem espanholado99, que incômodos não sofrem elas,
empertigadas e enfaixadas, com grossas lâminas nos flancos, até a
carne viva? Algumas vezes chegando a morrer. É corrente em muitas
nações de nosso tempo o ferir-se deliberadamente para dar
credibilidade à palavra dada; e nosso rei relata notáveis exemplos do
que viu na Polônia, e para com ele mesmo. Mas além do que sei ter
sido imitado na França por alguns, quando voltei daqueles famosos
Estados de Blois, um pouco antes eu tinha visto uma menina na
Picardia, para atestar o ardor de suas promessas, e também sua
constância, com o grampo que usava nos cabelos dar-se no braço
quatro ou cinco bons golpes que faziam estalar sua pele, e a
sangravam gravemente. Os turcos fazem em si mesmos grandes
escaras por suas damas, e, a fim de que a marca permaneça,
aplicam imediatamente fogo sobre a chaga e ali o mantêm por um
tempo inacreditável, para interromper o sangramento e formar a
cicatriz. Pessoas viram, escreveram e me juraram isso. Mas por dez
aspers100 todos os dias encontra-se entre eles quem faça em si um
corte bem profundo no braço ou nas coxas. Estou muito satisfeito de
que os testemunhos nos estejam mais à mão quando mais
precisamos deles. Pois a cristandade nos fornece quantidade
suficiente. E depois do exemplo de nosso santo guia, houve muitos
que por devoção quiseram carregar a cruz. Sabemos, por
testemunho muito digno de fé, que o rei São Luís usou o cilício até
que, em sua velhice, seu confessor o dispensasse, e que todas as
sextas-feiras ele fazia o sacerdote lhe espancar os ombros com
cinco correntes de ferro, que para esse fim sempre estavam entre
seus objetos noturnos. Guilherme, nosso último duque de Guyenne,
pai daquela Leonor que transmitiu esse ducado às casas de França
e Inglaterra, usou nos últimos dez ou doze anos de sua vida,
continuamente, uma couraça sob um hábito de religioso, por
penitência. Foulques, conde de Anjou, foi até Jerusalém para lá
fazer-se açoitar por dois de seus criados, com uma corda no
pescoço, diante do sepulcro de Nosso Senhor. Mas não vemos ainda
em todos os dias de Sexta-Feira Santa, em diversos lugares, um
grande número de homens e mulheres espancarem a si mesmos até
se rasgarem a carne e perfurarem até os ossos? Isso eu vi muitas
vezes, e sem encantamento. E dizia-se (pois eles vão mascarados)
que havia alguns que por dinheiro faziam isso para atestar a religião
de outrem, por um menosprezo da dor tanto maior quanto mais
podem os aguilhões da devoção sobre os da avareza. Q. Máximo
enterrou o filho cônsul; M. Catão o seu, designado pretor; e L. Paulo
os seus dois em poucos dias, com rosto sereno e sem demonstrar
nenhum sinal de luto. Eu dizia certa vez de alguém, gracejando, que
ele enganara a justiça divina. Pois a morte violenta de três filhos
adultos lhe tendo sido enviada em um único dia, por uma cruel
chibatada, como é de crer, pouco faltou para que ele a considerasse
como favor e dádiva singular do céu. Não sigo esses temperamentos
monstruosos; mas perdi dois ou três em idade de aleitamento, se
não sem pesar, ao menos sem desolação. No entanto, não há
incidente que atinja mais profundamente os homens. Vejo várias
outras ocasiões comuns de aflição que eu mal sentiria se me
ocorressem. E tendo menosprezado quando me ocorreram essas a
que o mundo atribui tão atroz feição, não ousaria me vangloriar ao
povo sem enrubescer. Ex quo intelligitur, non in natura, sed in
opinione esse aegritudinem.101 A opinião é um elemento poderoso,
ousado e sem medida. Quem jamais procurou com tanta fome a
segurança e o repouso quanto Alexandre e César a agitação e as
dificuldades? Teres, o pai de Sitalces, costumava dizer que quando
não estava guerreando parecia-lhe que não havia diferença entre ele
e seu palafreneiro. O cônsul Catão, para se assegurar de algumas
cidades na Espanha, simplesmente proibiu aos habitantes destas que
portassem armas; grande número se matou: Ferox gens, nullam
vitam rati sine armis esse.102 Quantos sabemos que fugiram da
doçura de uma vida tranquila, em suas casas, entre seus conhecidos,
para perseguir o horror dos desertos inabitáveis, e que se lançaram
à abjeção, à vileza e ao desprezo do mundo, e se sentiram bem a
ponto de preferirem isso? O cardeal Borromeu, que morreu
recentemente em Milão, em meio ao excesso a que o convidavam
sua nobreza e suas grandes riquezas, o ar da Itália e sua juventude,
manteve-se em uma maneira de viver tão austera que o mesmo
manto que era usado no verão era usado no inverno, para se deitar
só tinha a palha, e as horas que lhe sobravam das ocupações de seu
cargo ele as passava estudando constantemente, plantado de
joelhos, tendo um pouco de água e de pão ao lado de seu livro; o
que era toda a provisão de suas refeições, e todo o tempo que nelas
empregava. Sei de uns que deliberadamente tiraram proveito e
vantagem da infidelidade conjugal, cujo simples nome aterroriza tanta
gente. Se a visão não é o mais necessário de nossos sentidos, é
pelo menos o mais agradável; mas os mais agradáveis e úteis de
nossos membros parecem ser os que servem para nos gerar; no
entanto, muitas pessoas tomaram ódio mortal deles, apenas porque
eram agradáveis demais, e os rejeitaram por causa de seu valor. O
mesmo pensou dos olhos aquele que vazou os seus. A parte mais
comum e mais saudável dos homens considera como grande ventura
a abundância de filhos; eu e alguns outros, igual ventura a falta deles.
E quando perguntam a Tales por que não se casa, ele responde que
não quer deixar uma linhagem sua. Que nossa opinião dá valor às
coisas, vê-se pelo grande número daquelas que consideramos para
apreciar não a elas, mas a nós. E não consideramos nem suas
qualidades, nem suas utilidades, mas apenas nosso custo para obtê-
las, como se isso fosse parte de sua substância; e chamamos de
valor não o que trazem, mas o que colocamos nelas. Nisso, percebo
que somos grandes administradores de nossa aposta. Ela vale
quanto pesa, justamente porque pesa. Nossa opinião jamais a deixa
correr inutilmente. A compra dá valor ao diamante, e a dificuldade à
virtude, e a dor à devoção, e o amargor ao medicamento. Houve um
que para chegar à pobreza atirou seus escudos nesse mesmo mar
que tantos outros esquadrinham de todos os lados para pescar
riquezas. Epicuro diz que ser rico não é um alívio, mas uma troca de
problemas. Na verdade, não é a escassez, é antes a abundância que
produz a avareza. Quero contar minha experiência a respeito desse
assunto. Vivi em três tipos de condição, depois de ter saído da
infância. O primeiro momento, que durou cerca de vinte anos, passei-
o sem ter outros meios que fortuitos, e dependendo da determinação
e do socorro de outrem, sem contas fixas ou receitas. Minha
despesa fazia-se tão mais alegremente e com menos preocupação
porque dependia totalmente da temeridade da fortuna. Jamais estive
melhor. Nunca me aconteceu de encontrar fechada a bolsa de meus
amigos, tendo-me imposto para além de qualquer outra necessidade
a de não falhar ao prazo que eu assumira para saldar uma dívida,
prazo que mil vezes me prolongaram ao ver o esforço que eu fazia
para cumpri-lo, de maneira que eu prestava uma lealdade econômica
e um pouco enganosa. Sinto naturalmente certa volúpia em pagar,
como se livrasse meus ombros de um peso incômodo e dessa
imagem de servidão. Assim como há certa satisfação que me
estimula ao praticar uma ação justa e contentar outrem. Excetuo os
pagamentos em que é preciso vir a regatear e contar, pois se não
encontro a quem confiar o encargo, retardo-os de maneira
vergonhosa e injusta o máximo que posso, por medo dessa
altercação, com a qual meu temperamento e minha maneira de falar
são totalmente incompatíveis. Não há nada que eu odeie tanto
quanto regatear; é um puro negócio de trapaça e impudência. Após
uma hora de discussão e barganha, um e outro abandonam sua
palavra e suas promessas por cinco moedas de reparação. E assim,
eu pedia emprestado com desvantagem. Pois não tendo ânimo para
requerer pessoalmente, remetia o risco disso a uma carta, que não
demanda esforço e é muito conveniente para uma recusa. Eu
confiava mais alegremente aos astros o comando de minhas
necessidades, e mais livremente, do que confiei depois em minha
previdência e em meu julgamento. A maioria dos bons
administradores domésticos considera horrível viver nessa incerteza;
e não percebe, em primeiro lugar, que a maior parte do mundo vive
assim. Quantos homens honestos não abandonaram todas as suas
certezas, e quantos não o fazem todos os dias, para buscar o vento
do favor dos reis e da fortuna? César contraiu uma dívida de um
milhão em ouro além do que possuía para se tornar César. E
quantos mercadores começam seus negócios com a venda de sua
fazenda, que enviam para as Índias,
Tot per impotentia freta?103
Em tempos de tão grande ausência de devoção, temos mil e mil
congregações religiosas que passam a vida comodamente,
esperando todos os dias da liberalidade do céu o que precisam para
seu jantar. Em segundo lugar, eles não percebem que essa certeza
na qual se baseiam não é menos incerta e arriscada do que o próprio
risco. Vejo a miséria tão de perto, com mais de dois mil escudos de
renda, quanto se ela estivesse junto a mim. Pois além de a sorte ter
como abrir cem brechas para a pobreza por entre nossas riquezas,
muitas vezes não há meio-termo algum entre a suprema e a ínfima
fortuna.
Fortuna vitrea est: tum, quum splendet, frangitur.104
E ela pode virar de pernas para o ar nossas defesas e diques; acho
que por diversas causas a indigência é vista mais comumente
habitando a casa dos que têm bens do que a dos que não os têm, e
que talvez ela seja de certo modo menos incômoda quando está
sozinha do que quando está acompanhada de riquezas; estas
provêm mais da ordem do que da receita: Faber est suae quisque
fortunae.105 E parece-me mais miserável um rico penurioso,
necessitado, atribulado, do que alguém que é simplesmente pobre. In
divitiis inopes, quod genus egestatis gravissimum est.106 Os maiores
e mais ricos príncipes são comumente levados, por pobreza e
escassez, à extrema necessidade. Pois há extremo maior do que se
tornarem tiranos e injustos usurpadores dos bens de seus súditos?
Minha segunda situação foi a de ter dinheiro. Ao qual tendo me
apegado, logo fiz notáveis reservas segundo minha condição,
considerando que só dispomos daquilo que exceda nossas despesas
correntes, e que não podemos contar com o bem que ainda está em
esperança de receita, por mais evidente que esta seja. Pois como
seria, dizia a mim mesmo, se eu fosse surpreendido por este ou
aquele incidente? E em resposta a essas vãs e viciosas
imaginações, ia me fazendo engenhoso para prevenir todos os
inconvenientes com essa reserva supérflua; e sabia ainda responder
àquele que me alegava ser infinito o número de inconvenientes que,
se não prevenia todos, prevenia alguns e muitos. Isso não acontecia
sem penosa inquietação. Fazia disso um segredo; e eu, que tanto
ouso dizer sobre mim, não falava de meu dinheiro a não ser por
mentiras, como fazem os outros, que ricos se empobrecem e pobres
se enriquecem, e dispensam sua consciência de algum dia ter que
sinceramente atestar o que têm. Ridícula e vergonhosa prudência.
Partia eu em viagem? Nunca me parecia estar suficientemente
provido; e quanto mais me enchia de moedas, mais também me
enchia de temores; ora da segurança dos caminhos, ora da
fidelidade dos que conduziam minha bagagem, da qual, como outros
que conheço, nunca me assegurava o suficiente se não a tinha diante
dos olhos. Deixava eu meu cofre em casa? Quantas suspeitas e
pensamentos espinhosos, e, o que é pior, incomunicáveis! Meu
espírito estava sempre nisso. Bem vistas as coisas, é mais difícil