virtude tão feroz e tão cara. O arqueiro que ultrapassa o alvo erra o
tiro como aquele que não o atinge. E meus olhos se turvam ao se
erguerem de repente para uma grande luz da mesma forma que ao
baixarem para a escuridão. Em Platão, Cálicles diz que o excesso de
filosofia é prejudicial, e aconselha a não afundar-se nela além dos
limites da utilidade; que tomada com moderação, ela é agradável e
proveitosa, mas que no fim ela torna o homem selvagem e vicioso,
desdenhoso das religiões e leis comuns, inimigo das trocas sociais,
inimigo das volúpias humanas, incapaz de qualquer administração
política e de socorrer alguém ou socorrer a si mesmo; bom para ser
impunemente esbofeteado. Ele diz a verdade, pois em seu excesso
ela escraviza nossa liberdade natural, e nos desvia, por uma
importuna sutileza, do belo e plano caminho que a natureza nos
traçou. A amizade que sentimos por nossas mulheres é muito
legítima; no entanto, a teologia não deixa de refreá-la e restringi-la.
Parece-me ter lido outrora em São Tomás, em uma passagem em
que ele condena os casamentos entre parentes de graus proibidos,
este motivo entre outros: há perigo que a amizade que sentimos por
tal mulher seja imoderada, pois se a afeição marital é completa e
perfeita, como deve ser, e a sobrecarregamos ainda com a que
devemos à parentela, não há dúvida de que esse acréscimo levará
tal marido para fora dos limites da razão. As ciências que regulam os
costumes dos homens, como a teologia e a filosofia, imiscuem-se em
tudo. Não há ação tão privada e secreta que escape ao seu
conhecimento e jurisdição. Muito ingênuos são os que pretendem
limitar-lhes a liberdade. As mulheres oferecem seu sexo para
penetrar; para medicar, a vergonha o proíbe. Quero, portanto, da
parte delas, que ensinem isso aos maridos, se ainda houver alguns
muito obstinados: que mesmo os prazeres que têm nas relações com
suas mulheres são reprováveis se a moderação não for observada; e
que podem pecar por licenciosidade e desregramento, como em
relações ilegítimas. Essas carícias impudicas que o primeiro ardor
nos sugere nesse jogo são não apenas indecentes como
prejudicialmente empregadas para com nossas mulheres. Que elas
aprendam a impudência ao menos com outras mãos. Elas sempre
estão suficientemente estimuladas para nossa necessidade. Utilizei-
me, nisso, apenas do conhecimento natural e simples. O casamento
é uma ligação religiosa e devota; eis por que o prazer que dele
tiramos deve ser um prazer contido, sério e mesclado de alguma
severidade, deve ser uma volúpia um tanto reservada e respeitosa. E
porque sua principal finalidade é a procriação, há quem coloque em
dúvida, quando não temos a esperança desse fruto, como quando
elas estão acima da idade, ou grávidas, se é permitido procurar seu
abraço. É um homicídio, segundo Platão. Algumas nações (entre
outras a maometana) abominam a união com mulheres grávidas.
Muitas outras, também durante as regras. Zenóbia só recebia o
marido uma vez e, feito isso, ela o deixava livre todo o tempo da
concepção, só lhe dando o direito de recomeçar depois; bom e
generoso exemplo de casamento. É de algum poeta necessitado e
sedento desse prazer que Platão tomou emprestado esse relato:
Júpiter fez uma investida tão calorosa sobre sua mulher, um dia, que,
não podendo esperar que ela chegasse à cama, derrubou-a no chão;
e pela veemência do prazer esqueceu as grandes e importantes
resoluções que acabava de tomar com os outros deuses em sua
corte celeste; gabando-se de ter achado aquele ataque tão bom
quanto da primeira vez que a deflorou às escondidas de seus pais.
Os reis da Pérsia chamavam suas mulheres para acompanhar seus
festins, mas quando o vinho os esquentava para valer e era preciso
soltar as rédeas da volúpia, eles as mandavam de volta para seus
aposentos, para que não participassem de seus apetites
imoderados, e para o lugar delas mandavam vir mulheres para as
quais não deviam essa obrigação de respeito. Nem todos os
prazeres e todas as gratificações cabem a todas as pessoas.
Epaminondas mandara prender um rapaz devasso; Pelópidas rogou-
lhe que em sua consideração o libertasse; recusou-se e entregou-o a
uma amante sua que rogara a mesma coisa, dizendo que aquele era
um favor para uma amiga, não para um capitão. Sófocles, sendo
companheiro de Péricles na pretoria, vendo fortuitamente passar um
belo rapaz, disse a Péricles: “Ó, que belo rapaz!”. “Isso estaria bem
para outro que não um pretor”, disse-lhe Péricles, “que precisa ter
não apenas as mãos mas também os olhos castos”. Élio Vero, o
imperador, respondeu à esposa, quando esta se queixou que ele se
entregava ao amor de outras mulheres, que o fazia por escrúpulo,
visto que o casamento era um signo de honra e dignidade, não de
louca e lasciva concupiscência. E nossa história eclesiástica
conservou com honra a memória daquela mulher que repudiou o
marido por não querer secundar e favorecer suas carícias insolentes
e abundantes demais. Não há volúpia tão legítima, em suma, em que
o excesso e a intemperança não nos sejam censuráveis. Mas, para
falar a verdade, não é o homem um miserável animal? Mal está em
seu poder, por sua condição natural, apreciar um único prazer inteiro
e puro, ele ainda se preocupa em diminuí-lo com seus argumentos;
ele não é miserável o suficiente se com arte e estudo não aumenta
sua miséria,
Fortunae miseras auximus arte vias.28
A sabedoria humana muito tolamente se faz de engenhosa
exercitando-se em reduzir o número e a doçura das volúpias que nos
são próprias, da mesma forma que favorável e industriosamente
emprega seus artifícios para pentear e maquiar nossos males e
aliviar sua sensação. Se eu tivesse sido mestre de uma escola
filosófica, teria tomado outro caminho, mais natural, que para dizer a
verdade é cômodo e sagrado; e talvez tivesse me tornado forte o
bastante para limitá-lo. Nossos médicos espirituais e corporais, como
por complô, não encontram outro caminho para a cura, nem remédio
para as doenças do corpo e da alma, que não através do tormento,
da dor e do sofrimento. As vigílias, os jejuns, os cilícios, os exílios
longínquos e solitários, as prisões perpétuas, as varas e outras
aflições foram introduzidas para isso; mas na condição tal de que
sejam verdadeiramente aflições, e que haja amargura pungente; e
que não aconteça como para certo Gálio, que, tendo sido enviado
para o exílio na ilha de Lesbos, em Roma ficou-se sabendo que ele
ali vivia momentos agradáveis, e que aquilo que lhe haviam imposto
como pena virara a seu favor; por isso reconsideraram e o
chamaram para junto de sua mulher, e para sua casa, e ordenaram-
lhe que ali permanecesse, para ajustar sua punição a um desgosto.
Pois a quem o jejum aguçasse a saúde e a alegria, a quem o peixe
fosse mais apetitoso do que a carne, essa não mais seria uma
prescrição salutar; não mais do que na outra medicina as drogas não
fazem efeito naquele que as toma com apetite e prazer. O amargor e
a dificuldade são circunstâncias favoráveis à sua ação. O tem-
peramento que aceitasse o ruibarbo como familiar corromperia seu
uso; é preciso que seja algo que fira nosso estômago para curá-lo; e
aqui se equivoca a regra comum de que as coisas são curadas por
seus opostos, pois o mal cura o mal. Essa opinião de certa forma se
remete àquela outra, tão antiga, de pensar que agradamos aos céus
e à natureza com nosso massacre e homicídio, que foi
universalmente abraçada por todas as religiões. Ainda no tempo de
nossos pais, Amurat imolou seiscentos jovens gregos, na tomada do
istmo, pela alma de seu pai, a fim de que aquele sangue propiciasse
a expiação dos pecados do falecido. E nessas novas terras
descobertas em nossa época, ainda puras e virgens comparadas às
nossas, esse uso é aceito por toda parte. Todos os seus ídolos se
saciam de sangue humano, não sem diversos exemplos de horrível
crueldade. As vítimas são queimadas vivas e retiradas da fogueira
semiassadas para lhes arrancarem o coração e as entranhas.
Outras, inclusive as mulheres, são esfoladas vivas, e com essas
peles assim sanguinolentas outras são vestidas e mascaradas. E não
há menos exemplos de coragem e firmeza. Pois essa pobre gente
sacrificável, velhos, mulheres, crianças, alguns dias antes vão
pedindo esmolas para a oferenda de seu sacrifício e se apresentam
para a carnificina cantando e dançando com os assistentes. Os
embaixadores do rei do México, fazendo Hernán Cortés entender a
grandeza de seu senhor, depois de terem-lhe dito que ele tinha trinta
vassalos, cada um dos quais podia reunir cem mil combatentes, e
que residia na mais bela e forte cidade que havia sob o céu,
acrescentaram que ele precisava sacrificar aos deuses cinquenta mil
homens por ano. Na verdade, diz-se que ele fomentava a guerra com
alguns grandes povos vizinhos não apenas para exercitar a juventude
do país, mas principalmente para ter como abastecer seus
sacrifícios, com prisioneiros de guerra. Em outro lugar, em certo
burgo, para as boas-vindas do dito Cortés, sacrificaram cinquenta
homens de uma só vez. Contarei ainda esse fato: tendo alguns
desses povos sido vencidos por ele, enviaram mensageiros para
conhecê-lo e buscar sua amizade. Os mensageiros lhe apresentaram
três tipos de presentes, dessa maneira: “Senhor, eis aqui cinco
escravos; se és um deus cruel, que se alimenta de carne e sangue,
come-os, e nós te traremos mais; se és um deus bom, eis aqui
incenso e plumas; se és homem, toma os pássaros e frutas que aqui
estão”.
27. “O sábio merece o nome de insensato, o justo de injusto, se eles não tiverem
comedimento em sua busca da virtude”, Horácio, Epístolas, I, VI, 15-16. (N.E.)
28. “Empenhamo-nos para multiplicar os caminhos da desgraça”, Propércio, III, VII, 32. (N.E.)
CAPÍTULO XXX
Dos canibais
Quando passou pela Itália, o rei Pirro, depois de ter constatado a
organização do exército que os romanos enviavam contra ele, disse:
“Não sei que bárbaros são estes (pois os gregos chamavam assim
todas as nações estrangeiras), mas a disposição desse exército que
vejo nada tem de bárbara”. O mesmo disseram os gregos sobre o
exército que Flamínio fez passar por seu país, e Filipe, ao ver de
uma colina a ordem e distribuição do acampamento romano em seu
reino, sob Públio Sulpício Galba. Eis como é preciso evitar aferrar-se
às opiniões correntes, e como é preciso julgar por meio da razão,
não da voz comum. Por longo tempo tive comigo um homem que
vivera dez ou doze anos nesse outro mundo que foi descoberto em
nosso século, no local onde Villegagnon desceu à terra, que chamou
de França Antártica.29 Essa descoberta de um país infinito parece de
grande importância. Não sei se posso garantir que no futuro não se
faça alguma outra, pois tantos personagens maiores que nós se
enganaram nesta aqui. Tenho medo de que tenhamos os olhos
maiores do que a barriga, e mais curiosidade do que temos de
capacidade; tudo abarcamos, mas só vento estreitamos. Platão
apresenta Sólon contando ter aprendido dos sacerdotes da cidade
de Saís, no Egito, que antigamente e antes do dilúvio havia uma
grande ilha chamada Atlântida, bem na entrada do estreito de
Gibraltar, que tinha mais terras do que a África e a Ásia juntas; e que
os reis dessas paragens, que não possuíam apenas essa ilha mas
tinham avançado tão longe por terra firme que reinavam sobre a
largura da África até o Egito, e sobre o comprimento da Europa até
a Toscana, se dispuseram a chegar até a Ásia e subjugar todas as
nações que costeiam o mar Mediterrâneo até o golfo do mar Negro;
e para isso atravessaram a Espanha, a Gália, a Itália, até a Grécia,
onde os atenienses os interromperam; mas que algum tempo depois
tanto os atenienses quanto eles e sua ilha foram engolidos pelo
dilúvio. É bem provável que essa extrema invasão das águas tenha
causado mudanças estranhas nas áreas habitadas da terra, assim
como se diz que o mar separou a Sicília da Itália;
Haec loca vi quondam, et vasta convulsa ruina
Dissiluisse ferunt, cùm protinus utraque tellus
Una foret;30
Chipre da Síria, a ilha de Negroponto da terra firme da Beócia; e em
outros lugares terras que estavam divididas se juntaram, enchendo
de lodo e areia os fossos entre elas:
sterilisque diu palus aptáque remis
Vicinas urbes alit, et grave sentit aratrum.31
Mas não há grande evidência de que essa ilha seja esse novo mundo
que acabamos de descobrir, pois ela quase tocava a Espanha e
seria um efeito inacreditável da inundação tê-la recuado, como ela
está, mais de 1,2 mil léguas; além disso, as navegações dos
modernos já quase descobriram que não se trata de uma ilha, mas
de terra firme e contígua à Índia Oriental de um lado, e com as
terras que estão sob os dois polos de outro; ou que, se está
separada, é por um intervalo e um estreito tão pequeno que não
merece ser chamada de ilha. Parece que nesses grandes corpos há
movimentos como nos nossos, uns naturais, outros febris. Quando
considero a erosão que meu rio Dordogne causou, em meu tempo,
na margem direita de seu curso; e que em vinte anos ela cresceu
tanto e condenou os alicerces de várias construções, bem vejo que
este é um movimento extraordinário; pois se tivesse seguido sempre
nesse ritmo, ou se devesse segui-lo no futuro, a aparência do mundo
estaria às avessas. Mas os rios sofrem mudanças; ora se espraiam
de um lado, ora de outro, ora se contêm. Não falo das inundações
súbitas cujas causas compreendemos. No Médoc, ao longo do mar,
meu irmão, o senhor de Arsac, viu uma de suas terras soterrada sob
as areias que o mar vomita diante dela; a cumeeira de alguma
construção ainda aparece; mas seus rendimentos e domínios se
transformaram em pastagens bem magras. Os habitantes dizem que
há algum tempo o mar avança tão fortemente na direção deles que
perderam quatro léguas de terra; essas areias são seu prenunciador.
E vemos grandes dunas de areia movente, que avançam meia légua
à frente do mar e ganham terreno. O outro testemunho da
Antiguidade ao qual se quer relacionar essa descoberta está em
Aristóteles, pelo menos se esse pequeno livro de Maravilhas
inauditas for dele. Ele aí conta que certos cartagineses, tendo se
lançado na travessia do mar Atlântico, para além do estreito de
Gibraltar, e navegado muito tempo, tinham por fim descoberto uma
grande ilha fértil, toda coberta de bosques e regada por grandes e
profundos rios, muito afastada de todas as terras firmes; e que eles,
e depois outros, atraídos pela beleza e fertilidade do terreno, para lá
partiram com suas mulheres e filhos, e começaram a habitá-la. Os
senhores de Cartago, vendo que seu país pouco a pouco se
despovoava, proibiram terminantemente, sob pena de morte, que
mais alguém fosse para lá, e expulsaram de lá os novos habitantes,
temendo, pelo que se diz, que com o passar do tempo eles viessem
a se multiplicar tanto que os suplantassem e arruinassem seu
Estado. Essa narração de Aristóteles tampouco corresponde a
nossas terras novas. Esse homem que eu tinha era homem simples e
grosseiro, condição propícia a prestar testemunho verdadeiro; pois
as pessoas finas observam com muito mais atenção, e mais coisas,
mas glosam-nas; e para fazerem valer sua interpretação, e
convencerem, não conseguem deixar de alterar um pouco a história;
nunca vos descrevem as coisas puras; curvam-nas e mascaram-nas
segundo a face que delas viram; e, para darem crédito a seu
julgamento e atrair-vos, acrescentam de bom grado ao assunto,
alongando-o ou ampliando-o. É preciso um homem muito fiável, ou
tão simples que não tenha com que construir e dar verossimilhança a
falsas invenções; e que nada esteja defendendo. O meu era assim;
e, além disso, várias vezes me mostrou diversos marinheiros e
mercadores que conhecera naquela viagem. Assim, contento-me
com essa informação, sem procurar saber o que os cosmógrafos
dizem. Precisaríamos de topógrafos que nos fizessem um relato
preciso dos lugares onde estiveram. Mas, por terem a vantagem
sobre nós de ter visto a Palestina, os cosmógrafos querem gozar do
privilégio de nos dar notícias de todo o resto do mundo. Eu gostaria
que cada um escrevesse o que sabe, e tanto quanto sabe; não só
sobre esse assunto como sobre todos os outros. Pois alguém pode
ter um conhecimento ou uma experiência particular da natureza de
um rio, ou de uma fonte, e saber do resto só o que cada um sabe.
No entanto, para divulgar essa pequena parcela, pretenderá
descrever toda a física. Desse vício surgem vários e grandes
inconvenientes. Ora, para voltar a meu assunto, acho que não há
nada de bárbaro e selvagem nessa nação, pelo que dela me
contaram, a não ser que cada um chama de barbárie o que não é de
seu costume. Pois de fato não temos outro critério de verdade e de
razão além do exemplo e noção das opiniões e usos do país em que
estamos. Nele sempre está a religião perfeita, o governo perfeito e o
uso perfeito e acabado de todas as coisas. Eles são selvagens
assim como chamamos selvagens os frutos que a natureza produziu
por si mesma e por seu avanço habitual; quando na verdade aqueles
que alteramos por nossas técnicas e desviamos da ordem comum é
que antes deveríamos chamar de selvagens. Naqueles são vivas e
vigorosas, e mais úteis e naturais, as verdadeiras virtudes e
propriedades; as quais abastardamos nestes, acomodando-as ao
prazer de nosso gosto corrompido. E, por conseguinte, se o próprio
sabor e a delicadeza de diversos frutos dessas paragens não
cultivadas, em relação aos nossos, são excelentes até para nosso
gosto, não há razão para que o artifício ganhe o lugar de honra
sobre nossa grande e poderosa mãe natureza. Tanto
sobrecarregamos a beleza e a riqueza de suas obras com nossas
invenções que a sufocamos totalmente. Em todo caso, onde quer
que sua pureza reluza ela causa extraordinária vergonha a nossas
vãs e frívolas iniciativas.
Et veniunt bederae sponte sua melius,
Surgit et in solis formosior arbutus antris,
Et volucres nulla dulcius arte canunt.32
Todos os nossos esforços não conseguem sequer reproduzir o ninho
do menor passarinho, sua contextura, sua beleza e sua utilidade;
tampouco a teia de uma reles aranha. Todas as coisas, diz Platão,
são produzidas ou pela natureza ou pela fortuna ou pela arte. As
maiores e mais belas, por uma ou outra das duas primeiras; as
menores e imperfeitas, pela última. Essas nações me parecem
assim bárbaras, portanto, por terem sido bem pouco moldadas pelo
espírito humano e ainda estarem muito próximas de sua simplicidade
original. As leis naturais ainda as governam, muito pouco
abastardadas pelas nossas; mas com tal pureza que por vezes
lamento que não tenham sido conhecidas mais cedo, no tempo em
que havia homens que teriam sabido julgar melhor do que nós.
Lamento que Licurgo e Platão não as tenham conhecido; pois me
parece que o que vemos por experiência naquelas nações ultrapassa
não apenas todas as pinturas com que a poesia embelezou a Idade
de Ouro, e todas as suas invenções para imaginar uma feliz condição
humana, como também a concepção e o próprio desejo de filosofia.
Eles não conseguiram imaginar uma ingenuidade tão pura e simples
como a que vemos por experiência; tampouco conseguiram acreditar
que nossa sociedade pudesse se manter com tão pouco artifício e
solda humana. É uma nação, eu diria a Platão, em que não há
nenhuma espécie de comércio, nenhum conhecimento das letras,
nenhuma ciência dos números, nenhum nome para magistrado nem
para superioridade política, nenhum tipo de servidão, de riqueza ou
de pobreza, nem contratos, nem sucessões, nem partilhas, nem
ocupações além da ociosidade, nenhum respeito ao parentesco além
do respeito mútuo, nenhuma vestimenta, nenhuma agricultura, nem
metal, nem o uso de vinho ou de trigo. As próprias palavras que
significam mentira, traição, dissimulação, avareza, inveja, difamação,
perdão são desconhecidas. Quão distante dessa perfeição ele
consideraria a república que imaginou?
Hos natura modos primùm dedit.33
De resto, eles vivem numa região muito agradável e bem temperada;
de modo que pelo que me disseram minhas testemunhas é raro ver
ali um homem doente; e garantiram-me não ter visto nenhum trêmulo,
remelento, desdentado ou curvado de velhice. Estão instalados ao
longo do mar e cercados do lado da terra por grandes e altas
montanhas, tendo entre os dois cerca de cem léguas de largura.
Têm grande abundância de peixe e carnes que não possuem
nenhuma semelhança com os nossos; e os comem sem outro
artifício que o de cozinhá-los. O primeiro que para lá levou um
cavalo, embora já os tivesse encontrado em várias outras viagens,
causou-lhes tanto horror naquela posição que o mataram a flechadas
antes de poderem reconhecê-lo. Suas construções são muito
compridas e com capacidade para duzentas ou trezentas almas,
recobertas de casca de grandes árvores, presas ao chão por uma
ponta e sustentando-se e apoiando-se uma na outra pela cumeeira, à
maneira de algumas de nossas granjas, cuja cobertura pende até o
chão e serve de muro. Têm madeiras tão duras que as usam para
cortar e delas fazem suas espadas e espetos para cozinhar seus
alimentos. Seus leitos são de um tecido de algodão, suspensos no
teto, como os de nossos navios, cada um com o seu, pois as
mulheres dormem separadas dos maridos. Levantam-se com o sol e
comem logo depois de se levantarem, para o dia todo, pois não
fazem outra refeição além dessa. Não bebem nesse momento, como
Suídas diz de alguns outros povos do Oriente, que bebem fora da
refeição; bebem várias vezes por dia, à vontade. Sua bebida é feita
de certa raiz, e é da cor de nossos vinhos claretes. Só a bebem
morna; essa beberagem só se conserva por dois ou três dias; tem o
gosto um pouco picante, não é nada inebriante, é salutar ao
estômago e laxativa para os que não estão acostumados; é uma
bebida muito agradável para quem está habituado. No lugar do pão
utilizam certa matéria branca, parecida com coriandro confeito.
Provei-a, o gosto é doce e um pouco insípido. O dia inteiro é
passado a dançar. Os mais jovens vão à caça dos bichos, com
arcos. Uma parte das mulheres, enquanto isso, ocupa-se em
aquecer a beberagem, o que é sua principal função. Há um dos
velhos que, pela manhã antes que comecem a comer, prega ao
mesmo tempo para toda a granjaria, caminhando de uma ponta à
outra, repetindo uma mesma frase várias vezes até que tenha
completado a volta (pois são construções que têm bem cem passos
de comprimento), e só lhes recomenda duas coisas, a valentia contra
os inimigos e a amizade com suas mulheres. E jamais deixam de
ressaltar essa obrigação, como um refrão, de que são elas que lhes
mantêm a bebida morna e temperada. Vê-se em vários lugares, e
entre outros em minha casa, a forma de seus leitos, de seus
cordões, de suas espadas e pulseiras de madeira com que cobrem
os punhos nos combates, e grandes caniços abertos numa ponta,
cujo som marca a cadência de sua dança. São inteiramente
raspados e barbeiam-se muito mais rente do que nós, sem outra
navalha que não de madeira ou de pedra. Creem que as almas são
eternas, e aquelas que bem mereceram dos deuses estão alojadas
no lugar do céu onde o sol se levanta; as malditas, do lado do
ocidente. Têm não sei que sacerdotes e profetas, que muito
raramente aparecem ao povo, tendo sua morada nas montanhas. Ao
chegarem, faz-se uma grande festa e assembleia solene de várias
aldeias (cada granja, como descrevi, constitui uma aldeia, e ficam a
cerca de uma légua francesa uma da outra). Esse profeta fala a eles
em público, exortando-os à virtude e ao dever; mas toda a ciência
ética deles contém apenas dois artigos, coragem na guerra e afeição
por suas mulheres. Prognostica-lhes as coisas por vir e o resultado
que devem esperar de seus empreendimentos; encaminha-os ou os
dissuade da guerra, mas com a condição de que, caso se engane
em suas predições e acontecer-lhes diferentemente do que lhes
predisse, ele é picado em mil pedaços, se o agarrarem, e
condenado como falso profeta. Por isso, aquele que se enganou uma
vez não é mais visto. A adivinhação é dom de Deus; eis por que
abusar dela deveria ser uma impostura punível. Entre os citas,
quando acontecia de os adivinhos se enganarem, eram deitados com
ferros nos pés e nas mãos em carroças cheias de urze, puxadas por
bois, onde eram queimados. Aqueles que manipulam as coisas
sujeitas à conduta da competência humana são desculpáveis por
fazerem o que podem. Mas esses outros, que vêm nos enganar com
garantias de uma faculdade extraordinária, que está fora de nosso
conhecimento, não devem ser punidos por não manterem suas
promessas e pela temeridade de sua impostura? Eles têm suas
guerras contras as nações que ficam além das montanhas, mais
adiante na terra firme, para as quais vão completamente nus, não
tendo outras armas além de arcos ou espadas de madeira, afiadas
numa ponta, à maneira das ponteiras de nossas lanças. É coisa
admirável a firmeza de seus combates, que sempre terminam em
morte e efusão de sangue; pois não sabem o que é fuga e pavor.
Cada um carrega como troféu a cabeça do inimigo que matou, e a
pendura à entrada de sua casa. Depois de bem tratar os prisioneiros
por muito tempo, e com todas as comodidades que podem imaginar,
aquele que for o senhor reúne uma grande assembleia de seus
conhecidos. Prende uma corda a um dos braços do prisioneiro, por
cuja ponta o segura, afastado alguns passos, temendo ser ferido por
ele, e dá ao mais caro de seus amigos o outro braço para que o
segure da mesma forma; e os dois, em presença de toda a
assembleia, matam-no a golpes de espada. Feito isso, assam-no e o
comem juntos, e enviam pedaços aos amigos que estiverem
ausentes. Não é, como se pensa, para se alimentarem, como faziam
antigamente os citas, mas para demonstrar uma extrema vingança.
E, como prova, tendo visto que os portugueses, que tinham se aliado
a seus adversários, usavam de outro tipo de morte contra eles,
quando os capturavam, que consistia em enterrá-los até a cintura e
no restante do corpo darem muitas flechadas e depois enforcá-los,
pensaram que essas pessoas do outro mundo (que tinham semeado
o conhecimento de muitos vícios pela vizinhança, e que eram mestres
muito maiores do que eles em todo tipo de maldade) não
empregavam sem razão esse tipo de vingança, que devia ser mais
amarga do que a deles, tanto que começaram a abandonar sua
maneira antiga para seguirem essa outra. Não sinto pesar por
assinalarmos o horror barbaresco que há em tal ato, mas sim por,
julgando corretamente os erros deles, sermos tão cegos para os
nossos. Penso que há mais barbárie em comer um homem vivo do
que em comê-lo morto, em dilacerar com tormentos e torturas um
corpo ainda cheio de sensações, fazê-lo assar aos poucos, fazê-lo
morder e matar pelos cães e pelos porcos (como não apenas lemos
mas vimos de fresca memória, não entre inimigos antigos, mas entre
vizinhos e concidadãos, e, o que é pior, a pretexto de piedade e
religião) do que em assá-lo e comê-lo depois que está morto. Crísipo
e Zenão, chefes da escola estoica, pensaram que não havia nenhum
mal em utilizar nosso cadáver para qualquer fim, por necessidade, e
dele tirar alimento; assim como nossos ancestrais, estando sitiados
por César na cidade de Alésia, decidiram suportar a fome desse
cerco com os corpos dos velhos, das mulheres, das crianças e de
outras pessoas inúteis ao combate.
Vascones (fama est) alimentis talibus usi
Produxere animas.34
E os médicos não temem servir-se dele para todo tipo de uso, para
nossa saúde; seja para aplicá-lo por dentro ou por fora. Mas nunca
se encontrou uma opinião tão desregrada que desculpasse a traição,
a deslealdade, a tirania, a crueldade, que são nossos erros
habituais. Podemos muito bem, portanto, chamá-los de bárbaros,
considerando as regras da razão, mas não considerando a nós, que
os ultrapassamos em toda espécie de barbárie. A guerra deles é
totalmente nobre e generosa, e tem tanta desculpa e beleza quanto
pode receber essa doença humana; não tem outro fundamento para
eles além da busca da virtude. Não estão em luta pela conquista de
novas terras, pois ainda desfrutam dessa fecundidade natural que os
abastece sem trabalho e sem pena de todas as coisas necessárias,
em tal abundância que não têm necessidade alguma de ampliar seus
limites. Ainda estão nesse ponto feliz de só desejarem o quanto suas
necessidades naturais lhes ordenam; tudo o que vai além é supérfluo
para eles. Geralmente, os de mesma idade se chamam uns aos
outros de “irmãos”; de “filhos” os que são mais jovens; e os velhos
são “pais” para todos os outros. Estes deixam para seus herdeiros
em comum a plena posse dos bens, indivisa, sem outro título além
daquele muito puro que a natureza dá a suas criaturas ao colocá-las
no mundo. Se seus vizinhos cruzam as montanhas para ir atacá-los e
obtêm vitória sobre eles, o ganho do vitorioso é a glória e o privilégio
de ter sido mestre em valor e virtude; pois não precisam dos bens
dos vencidos e voltam para sua terra, onde não lhes falta nenhuma
coisa necessária, tampouco essa grande qualidade de saber
desfrutar com felicidade de sua condição e de se contentar com ela.
Os outros fazem o mesmo, por sua vez. Não exigem dos prisioneiros
outro resgate além da confissão e do reconhecimento de estarem
vencidos; mas não se encontra um, em todo um século, que não
prefira a morte a afrouxar, por atitude ou por palavra, um único ponto
dessa grandeza de coragem invencível. Não se vê nenhum que não
prefira ser morto e comido a ter que rogar para não sê-lo. Eles os
tratam em total liberdade, a fim de que a vida lhes seja ainda mais
cara, e habitualmente os entretêm com ameaças da morte futura,
dos tormentos que terão de sofrer, dos preparativos feitos para esse
fim, do decepamento de seus membros e do banquete que farão à
sua custa. Tudo isso é feito com o único fim de arrancar de sua boca
alguma palavra covarde ou vil, ou dar-lhes vontade de fugir, para
ganhar a vantagem de tê-los apavorado e de ter vencido sua firmeza.
Pois, bem considerado, é nesse único ponto que consiste a
verdadeira vitória:
victoria nulla est
Quàm quae confessos animo quoque subjugat hostes.35
Os húngaros, combatentes muito belicosos, outrora se contentavam
em forçar o inimigo a pedir misericórdia. Pois, tendo arrancado essa
confissão, deixavam-nos ir sem maus-tratos, sem resgate; salvo, no
máximo, para obter-lhes a palavra de, dali em diante, não mais se
armarem contra eles. Muitas das vantagens que obtemos sobre
nossos inimigos são vantagens emprestadas, não nossas; é
qualidade de um carregador ter braços e pernas mais rijos, não da
virtude; a boa constituição física é uma qualidade inerte e corporal;
fazer nosso inimigo tropeçar e ofuscar-lhe os olhos com luz do sol é
um golpe de sorte; ser hábil na esgrima é um exercício de arte e
saber, que pode calhar a uma pessoa covarde e insignificante. O
valor e o preço de um homem residem no coração e na vontade; é aí
que está sua verdadeira honra; a valentia é a firmeza, não das
pernas e dos braços, mas do coração e da alma; ela não consiste no
valor de nosso cavalo, nem de nossas armas, mas no nosso. Aquele
que cai obstinado em sua coragem, si succiderit, de genu pugnat.36
Quem, por algum perigo de morte próxima, não fraqueja em sua
confiança, quem ao entregar a alma ainda olha para o inimigo com
olhos firmes e desdenhosos é derrotado não por nós, mas pela
fortuna; é morto, mas não vencido; os mais valentes são por vezes
os mais desafortunados. Também há derrotas triunfantes, tal como
vitórias. Nem essas quatro vitórias irmãs, as mais belas que o sol já
viu com seus olhos, as de Salamina, Plateia, Micala e Sicília, jamais
ousaram opor todas as suas glórias reunidas à glória da derrocada
do rei Leônidas e dos seus no desfiladeiro das Termópilas. Quem
jamais correu com mais gloriosa e mais ambiciosa vontade de ganhar
no combate do que o capitão Íscolas o fez para perdê-lo? Quem
mais engenhosa e cuidadosamente se assegurou de sua salvação
quanto ele de sua ruína? Ele estava encarregado de defender certa
passagem do Peloponeso contra os arcadianos; vendo-se totalmente
incapaz de fazê-lo, dadas a natureza do lugar e a desigualdade de
forças, e concluindo que todo soldado confrontado aos inimigos ali
pereceria; e por outro lado estimando indigno de sua própria valentia
e magnanimidade, e do nome lacedemônio, falhar em seu encargo,
escolheu, entre esses dois extremos, uma decisão intermediária, de
tal sorte: conservou os mais jovens e dispostos de sua tropa para a
proteção e serviço de seu país e mandou-os de volta, e com aqueles
cuja perda pesava menos decidiu defender o desfiladeiro, e pela
morte deles cobrar dos inimigos a entrada mais cara que lhe fosse
possível, conforme aconteceu. Pois logo estando cercado de todos
os lados pelos arcadianos, depois de ter feito deles uma grande
carnificina, ele e os seus foram todos passados ao fio da espada.
Existe algum troféu destinado aos vencedores que não seja mais
devido a esses vencidos? A verdadeira vitória reside no combate,
não na salvação; e a honra da virtude consiste em combater, não em
vencer. Para voltar à nossa história, falta tanto para que aqueles
prisioneiros se rendam, apesar de tudo o que lhes fazem, que, ao
contrário, durante esses dois ou três meses que ali são mantidos
mostram um semblante alegre, pressionam seus mestres para que
se apressem a submetê-los àquela provação, desafiam-nos,
insultam-nos, criticam-lhes a covardia e o número de batalhas
perdidas contra os seus. Tenho uma canção feita por um prisioneiro
em que há essa ironia: “que eles venham todos sem exceção,
corajosamente, e se reúnam para jantá-lo, pois comerão ao mesmo
tempo seus pais e seus ancestrais, que serviram de alimento e
sustento a seu corpo; esses músculos”, diz ele, “essa carne e essas
veias são os vossos, pobres loucos que sois; não reconheceis que a
substância dos membros de vossos ancestrais ainda está neles;
saboreai-os bem, encontrareis o gosto de vossa própria carne”. Ideia
que de modo algum cheira a barbárie. Aqueles que os pintam
morrendo e que representam essa ação quando são atingidos pintam
o prisioneiro cuspindo no rosto dos que o matam e fazendo-lhes
caretas. De fato, até o último suspiro não cessam de enfrentá-los e
desafiá-los pela palavra e pela atitude. Sem mentir, comparando
conosco eis homens bem selvagens; pois ou é preciso que o sejam
verdadeiramente, ou que nós o sejamos; há uma incrível distância
entre as maneiras deles e as nossas. Os homens têm várias
mulheres, em número tanto maior quanto melhor sua reputação de
valentia. É uma singularidade notável que, em seus casamentos, o
mesmo ciúme que nossas mulheres têm para impedir-nos a afeição e
a benevolência de outras mulheres, as deles o têm semelhante para
obtê-las para eles. Tendo mais cuidados com a honra de seus
maridos do que com qualquer outra coisa, buscam e empregam sua
solicitude para obter o maior número de companheiras que puderem,
visto que essa é uma prova da virtude do marido. Os nossos
proclamarão que é milagre; não é. É uma virtude propriamente
matrimonial, do mais alto nível. E na Bíblia, Lea, Raquel, Sara e as
mulheres de Jacó entregaram suas belas servas aos maridos, e Lívia
favoreceu os apetites de Augusto em detrimento próprio; e a mulher
do rei Dejótaro, Estratonice, não só emprestou para uso do marido
uma jovem camareira muito bonita que a servia como criou
cuidadosamente os filhos deles, e ajudou-os para sucederem ao pai
deles em sua posição. E a fim de que não se pense que tudo isso se
faz por uma simples e servil sujeição a seus hábitos, e pela pressão
da autoridade de antigos costumes, sem reflexão e sem julgamento,
e por terem a alma tão estúpida que não podem tomar outro partido,
é preciso mostrar alguns traços de sua capacidade. Além do que
acabo de relatar sobre uma de suas canções guerreiras, tenho outra,
de amor, que começa assim: “Cobra, para, para, cobra, a fim de que
minha irmã tire do padrão de tua pintura a forma e o feitio de um rico
cordão que possa dar à minha amada; assim, sejam para sempre
tua beleza e teu desenho preferidos aos de todas as outras
serpentes”. Essa primeira estrofe é o refrão da canção. Ora, tenho
bastante trato com a poesia para julgar que não apenas não há nada
de barbárie nessa imaginação como ela é totalmente anacreôntica. A
linguagem deles, de resto, é uma linguagem doce e que tem o som
agradável, parecendo as terminações gregas. Três dentre eles, na
época em que o finado rei Carlos IX lá estava, foram a Rouen,
ignorando o quanto custará um dia ao seu repouso, e à sua
felicidade, o conhecimento das corrupções daqui, e que desse
comércio nascerá sua ruína, como pressuponho que já esteja
avançada (bem miseráveis por terem se deixado levar pelo desejo da
novidade, e terem deixado a suavidade de seu céu para virem ver o
nosso). O rei falou com eles por muito tempo, fizeram-nos ver
nossos modos, nossa pompa, a forma de uma bela cidade; depois
disso, alguém perguntou a opinião deles, e quis saber o que tinham
achado de mais admirável. Responderam três coisas, das quais
esqueci a terceira e estou bem aborrecido por isso; mas ainda tenho
duas na memória. Disseram que em primeiro lugar achavam muito
estranho que tantos homens grandes usando barba, fortes e
armados, que estavam em torno do rei (é provável que falassem dos
suíços de sua guarda), se sujeitassem a obedecer a uma criança, e
que não escolhessem, de preferência, alguém entre eles para
comandar. Em segundo lugar (eles têm uma maneira na sua
linguagem de chamar os homens de metade uns dos outros), que
tinham percebido haver entre nós homens cheios e abarrotados de
comodidades, e que suas metades mendigavam em suas portas,
descarnados de fome e pobreza; e achavam estranho como essas
metades aqui necessitadas podiam suportar tal injustiça, que não
pegassem os outros pela garganta ou ateassem fogo em suas
casas. Falei com um deles por muito tempo, mas eu tinha um
intérprete que me seguia tão mal, e que estava tão impossibilitado
por sua estupidez de entender minhas ideias, que não pude tirar
disso nada que valha. Quando lhe perguntei que proveito tirava da
superioridade que gozava entre os seus (pois era um capitão, e
nossos marinheiros o chamavam de rei), disse-me que era marchar
na frente à guerra; quando perguntei por quantos homens era
seguido, mostrou-me um certo espaço para significar que eram
tantos quantos ali poderiam caber, podiam ser quatro ou cinco mil
homens; quando perguntei se fora da guerra toda sua autoridade
expirava, ele disse que lhe restava o fato de que, quando visitava as
aldeias que dependiam dele, abriam-lhe veredas por entre os
arbustos de seus bosques, por onde pudesse passar bem
comodamente. Tudo isso não é tão mal; mas ora!, eles não usam
calças.
29. Trata-se da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. (N.E.)
30. “Essas duas regiões, outrora uma única e mesma terra, um dia, dizem, se separaram
violentamente nas convulsões de um vasto desmoronamento”, Virgílio, Eneida, 414 e 416-
417. (N.E.)
31. “uma laguna, por longo tempo estéril e percorrida a remo, alimenta as cidades ao redor e
suporta o peso do arado”, Horácio, Arte poética, 65-66. (N.E.)
32. “A hera dá melhor por si só nas grutas solitárias; o medronheiro cresce mais belo e os
pássaros têm um canto mais melodioso sem trabalho”, Propércio I, II, 10-11 e 14. (N.E.)
33. Eis as primeiras leis que a natureza ofereceu”, Virgílio, Geórgicas, II, 20. (N.E.)
34. “Os gascões, dizem, prolongaram suas vidas com tais alimentos”, Juvenal, XV, 93-94.
(N.E.)
35. “só há vitória quando se obriga o inimigo a confessar-se vencido também em sua alma e
consciência”, Claudiano, De sexto consulatu honorii, 248-249. (N.E.)
36. “se vier a cair, combate de joelhos”, Sêneca, De providentia, II, VI. (N.E.)
CAPÍTULO XXXI
Que é preciso sobriedade para se meter a julgar os
decretos divinos
O verdadeiro campo e sujeito da impostura são as coisas
desconhecidas, visto que em primeiro lugar a própria estranheza lhes
dá crédito, e, além disso, não estando sujeitas a nossos raciocínios
habituais elas nos tiram o meio de combatê-las. Por causa disso, diz
Platão, é bem mais fácil satisfazer ao falar da natureza dos deuses
do que da natureza dos homens, pois a ignorância dos ouvintes
permite uma bela e longa carreira, e toda liberdade, no manejo de
uma matéria secreta. Daí resulta que não há nada em que se
acredite tão firmemente como naquilo que se sabe menos, nem
pessoas tão seguras quanto as que nos contam fábulas, como
alquimistas, prognosticadores, astrólogos, quiromantes, médicos, id
genus omne.37 A eles eu acrescentaria de bom grado, se me
atrevesse, uma pilha de gente, intérpretes e controladores habituais
dos desígnios de Deus, que dizem descobrir as causas de cada
acontecimento e ver nos segredos da vontade divina os motivos
incompreensíveis de suas obras. E ainda que a variedade e a
discordância contínuas dos acontecimentos os rechace de um canto
a outro, e do Ocidente ao Oriente, eles não deixam de persistir em
seus argumentos, no entanto, e de com o mesmo lápis pintar o
branco e o preto. Em uma nação indígena há a louvável observância
de que, quando são malsucedidos em algum confronto ou batalha,
eles pedem publicamente perdão ao sol, que é seu Deus, como por
uma ação injusta, atribuindo sua ventura ou desventura à razão divina
e submetendo-lhe seu julgamento e raciocínio. A um cristão basta
crer que todas as coisas vêm de Deus, recebê-las com o
reconhecimento de sua divina e inescrutável sapiência; por
conseguinte, aceitá-las sob qualquer forma que lhe sejam enviadas.
Mas acho condenável o que vejo em uso, de procurar firmar e apoiar
nossa religião na prosperidade de nossos empreendimentos. Nossa
fé tem muitos outros fundamentos, que não a justificam pelos
acontecimentos; pois estando o povo acostumado a esses
argumentos plausíveis e propriamente a seu gosto, há perigo de que,
quando os acontecimentos, por sua vez, resultem contrários e
desvantajosos, isto abale sua fé. Assim como nas guerras de religião
em que estamos os que levaram vantagem na batalha de
Rochelabeille, fazendo grande festa desse acontecimento e servindo-
se dessa boa fortuna para uma aprovação irrefutável de seu partido,
depois vieram a desculpar os infortúnios de Montcontour e de Jarnac
como sendo varas e castigos paternos; se não tiverem um povo
totalmente à sua mercê, facilmente demonstram-lhe como levar dupla
vantagem em uma só coisa, e com a mesma boca soprar o quente e
o frio. Melhor seria falar-lhe sobre os verdadeiros fundamentos da
verdade. Foi uma bela batalha naval a que foi ganha esse mês
passado contra os turcos, sob o comando de dom João da Áustria;
mas Deus também quis, em outras vezes, ver outras tantas à nossa
custa. Em suma, é difícil trazer as coisas divinas para a nossa
balança sem que sofram diminuição. E quem quisesse justificar o fato
de que Ário e seu papa Leão, chefes principais dessa heresia,
morreram em momentos diferentes de mortes tão parecidas e tão
estranhas (pois, saídos de um debate com dor de barriga para ir à
privada, ambos ali entregaram subitamente a alma), e exagerar essa
vingança divina pela circunstância do lugar, bem poderia ainda
acrescentar a morte de Heliogábalo, que também foi morto numa
latrina. Mas ora! Irineu conheceu o mesmo infortúnio. Deus,
querendo ensinar-nos que os bons têm outra coisa a esperar e os
maus outra coisa a temer além das fortunas ou dos infortúnios desse
mundo, maneja-os e aplica-os segundo suas intenções ocultas, e
retira-nos o meio de tolamente tirarmos proveito deles. E enganam-
se os que querem prevalecer-se disso com a razão humana. Jamais
dão uma estocada sem que recebam duas. Santo Agostinho dá uma
bela prova disso contra seus adversários. É um conflito que se
decide pelas armas da memória, mais do que pelas da razão.
Devemos nos contentar com a luz que ao sol apraz comunicar-nos
por seus raios, e quem erguer os olhos para receber uma luz maior
no próprio corpo, que não ache estranho se, como castigo de sua
presunção, perder a visão. Quis hominum potest scire consilium
Dei? aut quis poterit cogitare, quid velit Dominus?38
37. “toda essa corja”, Horácio, Sátiras, I, II, 2. (N.E.)
38. “Que homem pode conhecer o desígnio de Deus? Ou quem poderá conceber o que
deseja o Senhor?”, citação bíblica (Livro da sabedoria, 9, 13). (N.E.)
CAPÍTULO XXXII
De fugir das volúpias ao preço da vida
Eu havia visto a maior parte das opiniões antigas concordarem a
respeito disso: que é hora de morrer quando há mais mal que bem
em viver, e que conservar nossa vida para nosso tormento e
incômodo é ir contra as próprias leis da natureza, como dizem estas
velhas leis:
39
Mas levar o desdém pela morte ao ponto de empregá-la para se
afastar das honras, riquezas, grandezas e de outros favores e bens
que chamamos fortuna, como se a razão não tivesse trabalho
suficiente para nos persuadir a abandoná-los sem acrescentar esse
novo peso, isso eu nunca havia visto ordenar nem praticar; até que
me caiu nas mãos essa passagem de Sêneca, em que aconselha a
Lucílio, personagem poderoso e de grande autoridade junto ao
imperador, a mudar aquela vida voluptuosa e pomposa e abandonar
aquela ambição do mundo por uma vida solitária, tranquila e
filosófica; ao que Lucílio alegava algumas dificuldades. “Sou da
opinião”, diz Sêneca, “que deixes essa vida, ou a vida de todo;
aconselho-te a seguir o caminho mais suave e a antes desatares do
que romperes aquilo que ataste mal, contanto que, se não for
possível desatá-lo, tu o cortes. Não há homem tão covarde que não
prefira cair uma vez a continuar sempre em desequilíbrio.” Eu teria
achado esse conselho apropriado à rudeza estoica; mas é mais
estranho que ele seja tomado de Epicuro, que escreve sobre esse
assunto coisas muito parecidas para Idomeneu. Em todo caso,
penso ter observado algum traço semelhante em nossa gente, mas
com a moderação cristã. Santo Hilário, bispo de Poitiers, esse
famoso inimigo da heresia ariana, estando na Síria foi avisado de
que Abra, sua única filha, que ele havia deixado do lado de cá com
sua mãe, era pedida em casamento pelos mais eminentes senhores
do país, por ser filha muito bem-educada, bela, rica e na flor da
idade. Ele lhe escreveu (como vemos) que retirasse sua afeição de
todos esses prazeres e vantagens que lhe ofereciam; que em sua
viagem encontrara-lhe um partido muito maior e mais digno, um
marido de bem outro poder e magnificência, que a presentearia com
roupas e joias de valor inestimável. Sua intenção era fazê-la perder o
desejo e o hábito dos prazeres mundanos para uni-la inteiramente a
Deus; mas para isso, parecendo-lhe o mais curto e mais certo meio
a morte da filha, não cessou de pedir a Deus, com promessas,
súplicas e orações, que a tirasse desse mundo e a chamasse para
si, como aconteceu, pois logo depois de seu retorno ela morreu, pelo
que ele demonstrou uma singular alegria. Este parece exceder os
outros, pois de pronto apela a esse meio que eles só adotam
subsidiariamente, e também porque se tratava de sua única filha.
Mas não quero omitir o fim dessa história, ainda que saia de meu
tema. A mulher de Santo Hilário, tendo ouvido dele como a morte da
filha ocorrera por seu intento e vontade, e quanto era mais feliz por
ser retirada desse mundo do que nele ficando, sentiu um desejo tão
vívido da beatitude eterna que solicitou ao marido com extrema
insistência que fizesse o mesmo por ela. E Deus tendo-a chamado
para si logo depois, ante suas preces em comum, foi essa uma
morte acolhida com singular contentamento comum.
39. “Ou viver sem desgosto, ou morrer feliz. Morrer é bom para quem suporta uma vida
penosa: melhor não viver que viver em sofrimento”, J. Crespin, Gnômica, III. (N.E.)
CAPÍTULO XXXIII
A fortuna muitas vezes vai ao encontro da razão
A inconstância do movimento contraditório da fortuna faz com que ela
nos apresente toda espécie de aparência. Haverá ação de justiça
mais expressa do que esta? O duque de Valentinois, tendo resolvido
envenenar Adriano, cardeal de Cornete, em cuja casa ele e seu pai,
o papa Alexandre VI, iam jantar, no Vaticano, enviou
antecipadamente uma garrafa de vinho envenenado e ordenou ao
despenseiro que a guardasse com muito cuidado. Tendo o papa
chegado antes do filho e tendo pedido de beber, o despenseiro, que
pensava que o vinho só lhe fora recomendado porque era bom,
serviu-o ao papa, e o próprio duque, chegando no momento da
refeição, confiando que não teriam tocado em sua garrafa, bebeu
por sua vez; de maneira que o pai morreu de repente e o filho,
depois de ser longamente atormentado por doença, foi reservado a
uma outra fortuna pior. Algumas vezes a fortuna parece brincar
conosco na hora certa. No caso do senhor de Estrée, então porta-
estandarte do senhor de Vandôme, e do senhor de Liques, tenente
da companhia do duque de Ascot, ambos pretendentes da irmã do
senhor de Foungueselles, embora de partidos opostos (como
acontece com vizinhos da fronteira), saiu vencedor o senhor de
Liques; mas no próprio dia das núpcias e, o que é pior, antes do
deitar, tendo o recém-casado vontade de bater-se em favor da nova
esposa, saiu para escaramuça perto de Saint-Omer, onde o senhor
de Estrée, sendo o mais forte, o fez seu prisioneiro; e para fazer
valer seu privilégio ainda foi preciso que a donzela,
Conjugis ante coacta novi dimittere collum,
Quàm veniens una atque altera rursus hyems
Noctibus in longis avidum saturasset amorem40,
solicitasse ela mesma que por cortesia lhe devolvesse o prisioneiro;
o que ele fez, pois a nobreza francesa nada recusa às damas. Não
parece ser esse um acaso artista? Constantino, filho de Helena,
fundou o império de Constantinopla; e, muitos séculos depois,
Constantino, filho de Helena, o encerrou. Algumas vezes agrada-lhe
rivalizar com nossos milagres; sabemos que o rei Clóvis, sitiando
Angoulême, as muralhas desabaram sozinhas, por favor divino; e
Bouchet repete de algum autor que o rei Roberto, sitiando uma
cidade e tendo-se afastado do cerco para ir a Orléans celebrar a
festa de Santo Aignan, ao estar em devoção, em certo ponto da
missa, as muralhas da cidade sitiada ruíram sem esforço algum. A
fortuna fez tudo a contrapelo em nossas guerras de Milão; pois o
capitão Rense, sitiando para nós a cidade de Eronne e tendo
mandado colocar a mina sob um grande lanço de muro, e o muro
sendo bruscamente levantado acima do chão, caiu no entanto tão
verticalmente sobre as fundações que os sitiados não foram em nada
enfraquecidos. Algumas vezes ela faz medicina. Jasão de Feras,
desenganado pelos médicos, por um abscesso que tinha no peito,
tendo vontade de livrar-se dele, mesmo que pela morte, lançou-se
em uma batalha às cegas na multidão dos inimigos, onde foi
transpassado tão certeiramente que o abscesso rompeu-se e sarou.
Não superou ela o pintor Protógenes no conhecimento de sua arte?
Este, tendo terminado a imagem de um cão cansado e exaurido,
satisfeito com todas as outras partes mas sem conseguir
representar a seu gosto a espuma e a baba, desapontado com a
obra pegou a esponja e, como ela estava encharcada de tintas
variadas, atirou-a contra o quadro para apagar tudo; a fortuna muito
oportunamente dirigiu o golpe ao lugar da boca do cão, e
aperfeiçoou aquilo que a arte não conseguira alcançar. Não orienta
ela algumas vezes nossas decisões e corrige-as? Isabel, rainha da
Inglaterra, tendo de voltar da Zelândia para seu reino, com um
exército, em favor do filho contra o marido, estaria perdida se tivesse
chegado ao porto que planejara, sendo ali esperada por inimigos;
mas a fortuna enviou-a alhures, contra sua vontade, onde
desembarcou em toda segurança. E aquele antigo que, atirando uma
pedra em um cão, acertou e matou a madrasta, não teve razão em
pronunciar este verso:
41;
A fortuna tem mais juízo que nós? Hicetas havia contratado dois
soldados para matar Timoleonte, que estava em Adrano, na Sicília.
Eles fixaram a hora para o momento em que ele fizesse certo
sacrifício. E misturando-se à multidão, quando faziam sinal um ao
outro que a ocasião era propícia para sua tarefa, eis que um
terceiro, com um grande golpe de espada, acertou um deles na
cabeça, derrubou-o morto no chão e fugiu. O companheiro, julgando-
se descoberto e perdido, dirigiu-se ao altar pedindo proteção com a
promessa de dizer toda a verdade. Enquanto contava sobre a
conjuração, surgiu o terceiro, que havia sido apanhado e que o povo
empurrava e maltratava como assassino através da multidão na
direção de Timoleonte e os mais eminentes da assembleia. Lá ele
pediu misericórdia, e disse ter justificadamente matado o assassino
de seu pai, provando imediatamente, com testemunhas que sua boa
sorte lhe fornecera, muito oportunamente, que na cidade dos
leontinos seu pai de fato fora morto por aquele de quem se vingara.
Deram-lhe dez minas áticas por ter tido a felicidade de, reparando a
morte do pai, afastar da morte o pai comum dos sicilianos. Essa
fortuna ultrapassa em boa ordenação as regras da sabedoria
humana. Por fim, não se descobre no fato que segue uma bem
expressa aplicação de seu favor, bondade e piedade singular? Os
Inácios, pai e filho, proscritos pelos triúnviros de Roma, se decidiram
pelo generoso dever de entregar suas vidas nas mãos um do outro e
frustrar com isso a crueldade dos tiranos; atiraram-se um ao outro,
espada em punho; a fortuna guiou as pontas, e com elas fez dois
golpes igualmente mortais; e em honra de tão bela amizade permitiu
que tivessem a força exata de ainda afastarem das chagas seus
braços ensanguentados e armados para naquele estado se
estreitarem em abraço tão forte que os carrascos cortaram juntas
suas cabeças, deixando os corpos ainda presos naquele nobre nó, e
as chagas unidas aspirando com amor o sangue e os restos de vida
um do outro.
40. “Forçada a se soltar do pescoço de seu novo esposo, antes que um inverno sucedendo a
outro inverno saciasse em longas noites seu desejo amoroso”, Catulo, LXVIII, 81-83. (N.E.)
41. [O verso é traduzido a seguir], Menandro, retirado da coletânea de J. Crespin, Gnômica,
III. (N.E.)
CAPÍTULO XXXIV
De um defeito de nossa administração
Meu falecido pai, homem de julgamento muito claro, apesar de só
contar com o auxílio da experiência e de sua natureza, disse-me
antigamente que tinha desejado arranjar maneira de que nas cidades
houvesse um lugar indicado ao qual os que precisassem de alguma
coisa pudessem comparecer e fazer seu assunto ser registrado por
um funcionário designado para esse fim; por exemplo: procuro
vender pérolas, procuro pérolas para vender, este quer companhia
para ir a Paris, aquele busca um empregado de tal tipo, outro um
senhor, alguém procura um artesão, alguém isso, alguém aquilo,
cada um segundo sua necessidade. E parece que essa maneira de
nos informarmos uns aos outros traria uma melhora considerável à
sociedade; pois a todo momento há profissões que se procuram
mutuamente e, por não se ouvirem, deixam os homens em extrema
necessidade. Inteiro-me, com grande vergonha de nosso século, que
ante nossos olhos dois personagens muito superiores em saber
morreram em situação de não terem nada para comer: Lilio Gregorio
Giraldi, na Itália, e Sebastião Castellion, na Alemanha; e creio que há
mil homens que os teriam chamado com condições muito vantajosas,
ou socorrido onde estavam, se tivessem sabido disso. O mundo não
está tão generalizadamente corrompido que eu não saiba de um
homem que desejaria com bem grande afeição que os meios que os
seus colocaram-lhe em mãos possam ser empregados, enquanto
aprouver à fortuna que ele os desfrute, para colocar ao abrigo da
necessidade os personagens raros e notáveis em alguma espécie de
valor, que por vezes o infortúnio ataca ao extremo, e que ao menos
os deixaria em tal situação que só por falta de discernimento eles
não ficariam contentes. Na gestão de seus bens, meu pai tinha esse
método, que sei elogiar mas não seguir. É que além do registro dos
negócios domésticos, em que se colocam as pequenas contas,
pagamentos, transações, que não requerem a mão do notário e cujo
registro está a cargo de um tesoureiro, ele ordenava àquele de seus
empregados que o servia escrevendo a manutenção de um diário
para inserir todos os acontecimentos de alguma importância, e dia a
dia as memórias da história de sua casa; muito agradáveis de ler
quando o tempo começa a apagar sua lembrança, e bastante
apropriadas para muitas vezes nos tirar de dificuldade: quando
começou tal coisa, quando foi encerrada; que comitivas passaram
por aqui, quantas pararam; nossas viagens, nossas ausências,
casamentos, mortes; o recebimento de notícias boas ou
desagradáveis; mudança dos principais servidores; assuntos do tipo.
Costume antigo, que considero bom reavivar, cada um em seu lar; e
me considero um tolo por ter falhado nisso.
CAPÍTULO XXXV
Do hábito de vestir-se
Onde quer que eu queira ir, preciso forçar alguma barreira do
costume, tanto ele cuidadosamente fechou todos os nossos acessos.
Eu me perguntava, nessa estação frígida, se a maneira de andar
totalmente nu daquelas nações recentemente encontradas é uma
maneira imposta pela temperatura quente do ar, como dizemos dos
índios e dos mouros, ou se é a original dos homens. As pessoas
instruídas, visto que tudo que está sob o céu está sujeito às mesmas
leis, como diz a Sagrada Escritura, têm o costume, em
considerações semelhantes a esta, em que é preciso distinguir as
leis naturais das inventadas, de recorrer à organização geral do
mundo, onde não pode haver nada contrafeito. Ora, tudo ao redor
estando absolutamente provido de fio e agulha para manter sua
existência, é pouco crível que sejamos os únicos produzidos em
estado defeituoso e indigente, e em estado que não se possa manter
sem ajuda externa. Assim, afirmo que como as plantas, as árvores,
os animais e tudo o que vive se encontra naturalmente equipado de
proteção suficiente para se defender das injúrias do tempo,
Proptereáque ferè res omnes, aut corio sunt,
Aut seta, aut conchis, aut callo, aut cortice tectae42,
assim também estávamos nós equipados; mas como os que com luz
artificial apagam a do dia, apagamos nossos próprios recursos com
recursos emprestados. E é fácil ver que é o costume que nos torna
impossível o que não o é; pois entre essas nações que não têm
nenhum conhecimento do vestuário algumas vivem mais ou menos
sob o mesmo clima que o nosso e sob clima bem mais rude do que o
nosso. E, depois, a parte mais delicada de nós mesmos é a que está
sempre a descoberto: os olhos, a boca, o nariz, as orelhas; para
nossos camponeses, como para nossos antepassados, a parte
peitoral e o ventre. Se tivéssemos nascido com a obrigação de usar
saiotes e calções à grega, não há dúvida de que a natureza teria
armado com uma pele mais espessa aquilo que teria abandonado ao
assalto das estações, como fez na ponta dos dedos e na planta dos
pés. Por que isso parece difícil de acreditar? Entre minha maneira de
vestir e a do camponês de minha região encontro mais distância do
que entre sua maneira e a de um homem que só veste a própria
pele. Quantos homens, e sobretudo na Turquia, andam nus por
devoção! Não sei quem perguntava a um de nossos mendigos, que
via só de camisa em pleno inverno, tão animado como quem se
mantém envolto em peles até as orelhas, como podia suportar o frio.
“E vós, senhor”, respondeu ele, “bem tendes o rosto descoberto;
ora, eu sou todo rosto.” Os italianos contam do bobo do duque de
Florença, parece-me, que tendo-lhe perguntado seu senhor como
assim malvestido podia suportar o frio com que ele mesmo se
incomodava bastante, disse: “Segui minha receita de carregar no
corpo todas as vossas vestimentas, como faço com as minhas, não
sofrereis mais frio do que eu”. O rei Massinissa até a extrema velhice
não pôde ser convencido a andar de cabeça coberta, por frio,
tormenta ou chuva que fizesse, o que se diz também do imperador
Severo. Nas batalhas ocorridas entre os egípcios e os persas,
Heródoto diz ter observado, e outros também, que entre os que
jaziam mortos o crânio era incomparavelmente mais duro nos
egípcios do que nos persas, porque estes sempre têm a cabeça
coberta com toucas e depois turbantes, e aqueles, raspadas desde
a infância e descobertas. E o rei Agesilau observou até sua
decrepitude a regra de usar a mesma roupa tanto no inverno como
no verão. César, diz Suetônio, marchava sempre à frente da tropa, e
quase sempre a pé, a cabeça descoberta, fizesse sol ou chovesse, e
o mesmo se diz de Aníbal,
tum vertice nudo
Excipere insanos imbres, caelique ruinam.43
Um veneziano, que lá ficou muito tempo e que acabou de voltar,
escreve que, no reino de Pegu, vestidas as outras partes do corpo,
os homens e as mulheres sempre andam com os pés nus, mesmo a
cavalo. E Platão espantosamente aconselha, para a saúde de todo o
corpo, não dar aos pés e à cabeça outra cobertura além da que a
natureza neles colocou. Aquele que os poloneses escolheram para
seu rei, depois do nosso, que na verdade é um dos maiores
príncipes do nosso século, nunca usa luvas, nem troca no inverno, ou
no tempo que faça, o mesmo boné que usa em lugares cobertos.
Assim como não posso suportar andar desabotoado e desapertado,
os lavradores de minha vizinhança se sentiriam entravados de assim
não estarem. Varrão afirma que, quando se ordenou que
mantivéssemos a cabeça descoberta em presença dos deuses ou do
magistrado, o fizeram mais por nossa saúde, e para nos fortalecer
contra as injúrias do tempo, do que por conta de reverência. E já que
estamos no frio, e somos franceses acostumados a usar cores vivas
(mas não eu, pois quase só me visto de preto ou branco, à maneira
de meu pai), acrescentemos, com outro exemplo, que o capitão
Martin du Bellay relata ter visto, na expedição de Luxemburgo, frios
tão rudes que o vinho das provisões era cortado a golpes de
machadinha e machado, distribuído aos soldados por peso e
carregado por eles em cestos. E Ovídio,
Nudáque consistunt formam servantia testae
Vina, nec hausta meri, sed data frusta bibunt.44
Os frios são tão intensos na abertura da lagoa Meótida que, no
mesmo lugar em que o tenente de Mitrídates travara batalha contra
os inimigos sem molhar os pés e os derrotara, chegado o verão ali
vencera ainda uma batalha naval. Os romanos sofreram grande
desvantagem no combate que travaram contra os cartagineses perto
de Plaisance, pois partiram ao ataque com o sangue congelado e os
membros contraídos de frio; enquanto Aníbal havia mandado
distribuir fogo por todo seu exército, para aquecer os soldados, e
distribuir óleo pelas companhias, a fim de que, untando-se, eles
deixassem os nervos mais flexíveis e desentorpecidos, e
protegessem os poros dos golpes do ar e do vento gelado que então
soprava. A retirada dos gregos da Babilônia para seu país é famosa
pelas dificuldades e sofrimentos que eles precisaram superar. Um
desses foi que, recebidos nas montanhas da Armênia por uma
horrível tempestade de neve, eles perderam o conhecimento da
região e dos caminhos, e, sendo de repente cercados, ficaram um
dia e uma noite sem beber e sem comer, morrendo a maior parte de
seus animais; dentre eles, muitos mortos, muitos cegados pelo
granizo e pelo brilho da neve, muitos estropiados nas extremidades,
muitos rígidos, transidos e imobilizados de frio, estando ainda
plenamente conscientes. Alexandre viu uma nação em que no inverno
enterram as árvores frutíferas para protegê-las do frio; e nós
também podemos ver o mesmo. Sobre o tema do vestir, o rei do
México trocava de roupa quatro vezes por dia, nunca as repetia,
utilizando as que retirava para suas contínuas liberalidades e
recompensas; tampouco potes, pratos, utensílios de sua cozinha e
de sua mesa lhe eram servidos duas vezes.
42. “E é por essa razão que quase todas as coisas estão cobertas de couro, ou cerdas, ou
escamas, ou chifres, ou casca”, Lucrécio, IV, 935-936. (N.E.)
43. “ele então recebia, cabeça nua, as chuvas torrenciais e os dilúvios do céu”, Sílio Itálico, I,
250. (N.E.)
44. “E os vinhos guardam a forma do recipiente de que são extraídos, e os homens não os
bebem puros, mas os recebem em pedaços”, Ovídio, Tristia, III, X, 23-24. (N.E.)
CAPÍTULO XXXVI
Do jovem Catão
Não cometo o erro comum de julgar o outro pelo que sou. Dele
facilmente aceito coisas diferentes de mim. Por me sentir
comprometido a uma maneira de viver, não obrigo todo mundo a ela,
como todos fazem, e aceito e concebo mil modos de vida opostos; e,
ao contrário da opinião comum, admito em nós mais facilmente a
diferença do que a semelhança. Tanto quanto possível desobrigo o
outro de minhas qualidades e princípios, e considero-o simplesmente
em si mesmo, sem comparação; confiro-lhe importância segundo seu
próprio modelo. Por não ser casto, não deixo de sinceramente
reconhecer a continência dos feuillants e dos capuchinhos, e de
apreciar seu modo de vida. Pela imaginação, coloco-me
perfeitamente em seu lugar; e amo-os e honro-os ainda mais por
serem diferentes de mim. Desejo particularmente que sejamos
julgados cada um por si só; e que não me julguem em função de
exemplos comuns. Minha fraqueza não altera em nada as boas
opiniões que devo ter sobre a força e o vigor daqueles que o
merecem. Sunt qui nihil suadent, quàm quod se imitari posse
confidunt.45 Rastejando no lodo da terra, não deixo de reparar, até
as nuvens, na altura inimitável de algumas almas heroicas. É
bastante, para mim, ter o julgamento moderado, se os atos não
podem sê-lo, e pelo menos manter essa parte essencial isenta de
corrupção; é alguma coisa ter a vontade em bom estado, quando as
pernas me falham. Este século em que vivemos, pelo menos em
nossa região, é tão cinzento que não digo o exercício mas que a
própria imaginação da virtude está em falta; e parece não passar de
um jargão de colégio:
virtutem verba putant, ut
Lucum ligna46;
quam vereri deberent, etiam si percipere non possent.47 É um
enfeite a ser colocado em exposição, ou na ponta da língua, e na
ponta da orelha, como paramento. Já não se reconhece ação
virtuosa; as que têm sua aparência não têm, entretanto, sua
essência; pois o lucro, a glória, o temor, o hábito e outras causas
estranhas a ela nos levam a produzi-las. A justiça, a valentia e a
benevolência que exercemos podem ser assim chamadas,
considerando os outros e a aparência que exibem em público; mas
naquele que age nada têm de virtude. Há outro fim proposto, outra
causa motriz. Ora, a virtude só reconhece como seu o que se faz
através dela, e por ela. Na grande batalha de Potideia, que os
gregos comandados por Pausânias venceram contra Mardônio e os
persas, os vitoriosos, seguindo seu costume, vindo a repartir entre si
a glória da façanha, atribuíram à nação esparciata a superioridade
em matéria de valentia nesse combate. Os esparciatas, excelentes
juízes da virtude, quando foram decidir a que indivíduo de sua nação
deveria caber a honra de ter feito o melhor naquela jornada, acharam
que Aristodemo fora o que se arriscara mais corajosamente; no
entanto, não lhe deram nenhum prêmio, porque sua virtude fora
incitada pelo desejo de se purgar da censura que recebera na
batalha das Termópilas, e por um desejo de morrer corajosamente
para se defender da vergonha passada. Nossos julgamentos estão
doentes e seguem a depravação de nossos costumes; vejo a maior
parte dos espíritos de meu tempo procurando com engenho
obscurecer a glória das belas e generosas ações antigas, dando-
lhes alguma interpretação vil e inventando-lhes circunstâncias e
causas vãs. Grande sutileza. Que me deem a ação mais excelente e
pura, vou fornecer-lhe, com verossimilhança, cinquenta intenções
viciosas. Para quem quiser desenvolvê-las, Deus sabe de que
diversidade de imagens sofre nossa vontade íntima. Os engenhosos,
com toda sua maledicência, não agem tanto por malícia quanto por
ignorância e grosseria. O mesmo trabalho que se tem para criticar
esses grandes nomes, e a mesma licenciosidade, eu de bom grado
utilizaria para ajudar a elevá-los. A essas figuras raras, selecionadas
como exemplo ao mundo pelo consentimento dos sábios, eu não
fingiria acrescentar honras, tanto quanto minha invenção pudesse,
em interpretação e circunstâncias favoráveis. E é preciso acreditar
que os esforços de nossa invenção estão muito abaixo de seu
mérito. É função das pessoas de bem pintar a virtude da maneira
mais bela possível. E não seria inconveniente que a paixão nos
arrebatasse em favor de tão santas formas. O que estes fazem de
contrário, fazem-no por malícia ou pelo vício de reduzir a opinião
deles à sua capacidade, como acabo de falar; ou, como penso mais,
por não terem a visão forte o suficiente e clara o suficiente, nem
elevada, para conceber o esplendor da virtude em sua pureza
original. Como diz Plutarco, em seu tempo alguns atribuíam a causa
da morte do jovem Catão ao temor que ele sentira de César; isso o
irrita, com razão; e por aí pode-se julgar o quanto ficou ainda mais
ofendido com os que a atribuíram à ambição. Gente tola. Ele teria
feito uma bela ação, generosa e justa, antes com ignomínia do que
pela glória. Esse personagem foi um verdadeiro modelo que a
natureza escolheu para mostrar até onde a virtude e a firmeza
humana podiam chegar. Mas não sou capaz de aqui tratar desse rico
assunto; quero apenas rivalizar as belas passagens de cinco poetas
latinos sobre o elogio a Catão, no interesse de Catão e,
incidentalmente, também no deles. Ora, a criança bem instruída
deverá achar, em comparação com os outros, os dois primeiros
pouco vigorosos. O terceiro, mais enérgico; mas que se abateu pela
extravagância de sua força. Ela estimará que ali ainda haveria lugar
para um ou dois graus de inventividade para chegar ao quarto, diante
do qual unirá as mãos em admiração. Perante o último, à frente dos
outros com muita distância, mas distância que ele jurará não poder
ser preenchida por nenhum espírito humano, ele ficará estupefato,
ficará transido. Eis coisa espantosa. Temos muito mais poetas do
que juízes e intérpretes de poesia. É mais fácil fazê-la do que
conhecê-la. Em nível mais baixo, pode-se julgá-la pelos preceitos e
por arte. Mas a boa, a suprema, a divina, está acima das regras e
da razão. Quem discerne sua beleza com visão firme e ponderada
não a vê; não mais do que o esplendor de um raio. Ela não se
acomoda a nosso julgamento, ela o arrebata e devasta. O furor que
aguilhoa aquele que sabe penetrá-la atinge ainda um terceiro que a
ouve ser abordada e recitada. Assim como o ímã atrai não apenas
uma agulha mas ainda infunde nesta sua faculdade de atrair outras; e
nos teatros vê-se mais claramente que a inspiração sagrada das
musas, tendo primeiramente levado o poeta à cólera, à dor, ao ódio
e para fora de si, onde elas quiserem, ainda atinge pelo poeta o ator,
e pelo ator, consecutivamente, todo um público. É o encadeamento
de nossas agulhas, suspensas uma pela outra. Desde minha primeira
infância a poesia fez isso de me transpassar e transportar. Mas essa
emoção bem viva, que está naturalmente em mim, foi diversamente
suscitada pela diversidade de formas, não tanto mais elevadas e
mais baixas (pois eram sempre as mais elevadas de cada espécie)
quanto diferentes no colorido. Primeiro, uma fluidez alegre e
engenhosa; depois uma sutileza aguda e elevada. Por fim, uma força
madura e constante. O exemplo falará melhor. Ovídio, Lucano,
Virgílio. Mas eis nossos homens em ação.
Sit Cato dum vivit sanè vel Caesere major48,
diz um.
Et invictum devicta morte Catonem49,
diz o outro. E o outro, falando das guerras civis entre César e
Pompeu,
Victrix causa diss placuit, sed victa Catoni.50
E o quarto, sobre os louvores de César,
Et cuncta terratum subacta,
Praeter atrocem animum Catonis.51
E o mestre do coro, depois de expor os nomes dos maiores romanos
em seu quadro, conclui desta maneira:
his dantem jura Catonem.52
45. “Há quem só louve aquilo que acredite poder imitar”, Cícero, Tusculanes, II, I, 3. (N.E.)
46. “eles acreditam que a virtude é uma palavra, e um bosque sagrado, apenas madeira”,
Horácio, Epístolas, I, VI, 31-32. (N.E.)
47. “e eles deveriam venerá-la, mesmo sendo incapazes de compreendê-la”, Cícero,
Tusculanes, V, II, 6. (N.E.)
48. “Que Catão, em vida, seja maior que o próprio César”, Marcial, VI, XXXII. (N.E.)
49. “E Catão invicto, tendo vencido a morte”, Manílio, IV, 87. (N.E.)
50. “O partido vitorioso teve o favor dos deuses, mas o vencido teve o de Catão”, Lucano, I,
128. (N.E.)
51. “A terra inteira a ele se submeteu, com exceção da alma altiva de Catão”, Horácio, Odes,
II, I, 23-24. (N.E.)
52. “Catão ditando-lhes as leis”, Virgílio, Eneida, VIII, 670. (N.E.)
CAPÍTULO XXXVII
Como choramos e rimos de uma mesma coisa
Quando lemos nas histórias que Antígono ficou muito descontente
com o filho por este ter-lhe apresentado a cabeça do rei Pirro, seu
inimigo, que naquele instante acabava de ser morto combatendo
contra ele, e que ao vê-la pôs-se a chorar fortemente; e que o duque
René de Lorena também deplorou a morte do duque Carlos de
Borgonha, que acabara de derrotar, e vestiu-se de luto em seu
enterro; e que na batalha de Auray (que o conde de Montfort ganhou
contra Carlos de Blois, seu adversário para o ducado da Bretanha),
o vitorioso, encontrando o corpo do inimigo morto, ficou muito triste,
não devemos exclamar de repente,
Et cosi aven che l’animo ciascuna
Sua passion sotto el contrario manto
Ricopre, con la vista ho’ chiara, hor bruna.53
Quando apresentaram a César a cabeça de Pompeu, os
historiadores dizem que ele desviou os olhos como de um espetáculo
feio e desagradável. Houvera entre eles tão longo entendimento e
associação no manejo dos assuntos públicos, tanta comunhão de
fortunas, tantos serviços recíprocos e alianças, que não se deve crer
que essa atitude foi falsa e fingida, como julga este outro:
tutúmque putavit
Jam bonus esse socer, lacrymas non sponte cadentes