guardar o dinheiro do que adquiri-lo. Se não fazia tudo como digo,
pelo menos era custoso impedir-me de fazê-lo. De comodidades, eu
pouco ou nada tinha; por ter mais meios para fazer despesas, elas
não me pesavam menos. Pois (como dizia Bíon) tanto o cabeludo
quanto o calvo se zangam por lhes arrancarem o cabelo; e depois
que vos acostumais e plantastes vossa fantasia em certa quantidade,
esta não fica mais a vosso serviço, não ousaríeis dissipá-la. É uma
construção que, segundo vos parece, ruirá por inteiro se nela
tocardes; é preciso que a necessidade vos pegue pelo pescoço para
que a desfalqueis. Antes eu empenhava minhas tropas e vendia um
cavalo, com bem menos contenção e menos contrariedade do que
quando subtraía dessa bolsa favorita, que mantinha à parte. Mas o
perigo era que dificilmente conseguimos estabelecer contornos
definidos a esse desejo (eles são difíceis de encontrar nas coisas
que consideramos boas) e fixar um limite para nosso poupar; vamos
sempre engordando esse monte e aumentando-o de uma cifra à
outra, até vergonhosamente nos privarmos do gozo de nossos
próprios bens e estabelecermos todo ele em sua conservação, e de
nada usufruirmos. Conforme esse tipo de uso, as pessoas mais ricas
é que têm o encargo da guarda das portas e dos muros de uma boa
cidade. Todo homem rico é avarento, em minha opinião. Platão orde-
na assim os bens corporais ou humanos: a saúde, a beleza, a força,
a riqueza; e a riqueza não é cega, diz ele, mas muito clarividente
quando iluminada pela sabedoria. Dionísio, o filho, fez um belo gesto.
Avisaram-no que um dos siracusanos havia escondido um tesouro na
terra; ordenou-lhe que o trouxesse; o que ele fez, reservando-se
furtivamente uma parte, com a qual foi para outra cidade, onde,
tendo perdido esse apetite de entesourar, pôs-se a viver de forma
mais liberal. Ao saber disso, Dionísio mandou devolver-lhe o restante
de seu tesouro, dizendo que o devolvia de bom grado já que ele
aprendera a usá-lo. Estive nesse ponto alguns anos; não sei que
bom demônio me tirou dele, muito proveitosamente, como ao
siracusano, e me fez renunciar a todo esse guardar; o prazer de
certa viagem muito dispendiosa tendo triunfado sobre aquela tola
fantasia. Com isso, caí em um terceiro tipo de vida (digo como o
sinto), por certo muito mais agradável e mais regrada. Faço minha
despesa correr de acordo com minha receita; ora uma avança, ora a
outra, mas é de pouco que se afastam. Vivo cada dia, e contento-me
em ter com que satisfazer às necessidades presentes e ordinárias;
às extraordinárias, nem todas as provisões do mundo poderiam
satisfazer. E é loucura esperar que a própria fortuna algum dia nos
arme suficientemente contra si mesma. É com nossas próprias
armas que precisamos combatê-la. As fortuitas nos trairão em plena
ação. Se acumulo, é apenas na espera de alguma próxima aquisição,
e não para comprar terras, com as quais não tenho o que fazer, mas
para comprar algum prazer. Non esse cupidum, pecunia est: non
esse emacem, vectigal est.107 Não tenho medo de que me faltem
bens nem desejo de aumentá-los. Divitiarum fructus est in copia:
copiam declarat satietas.108 E fico particularmente satisfeito que
essa correção me tenha chegado em uma idade naturalmente
propensa à avareza, e que eu me veja livre dessa loucura tão comum
aos velhos, e a mais ridícula de todas as loucuras humanas.
Feraulas, que havia passado pelas duas fortunas e descoberto que o
aumento das riquezas não era aumento de apetite ao beber, comer,
dormir e beijar sua mulher, e que, por outro lado, sentia pesar sobre
seus ombros o incômodo da gestão doméstica, como acontece
comigo, decidiu contentar um jovem pobre, seu fiel amigo, que corria
atrás das riquezas, e presenteou-o com todas as suas, grande e
excessivas, e ainda com as que estava acumulando todos os dias
graças à liberalidade de Ciro, seu bom senhor, e graças à guerra;
com a condição de que ele se encarregasse de mantê-lo e alimentá-
lo lealmente, como hóspede e amigo. Eles viveram assim desde
então, muito felizes e igualmente satisfeitos com a mudança de suas
condições. Eis um exercício que eu imitaria de bom grado. E louvo
grandemente a ventura de um velho prelado, que vi ter renunciado
tão puramente a sua bolsa, seus rendimentos e seus investimentos,
ora para um serviçal escolhido, ora para outro, que passou um longo
espaço de tempo ignorando esse tipo de assuntos de seu lar, como
um estranho. A confiança na bondade de outro é um não pequeno
testemunho de sua própria bondade; portanto, Deus naturalmente a
favorece. E quanto ao prelado, não vejo ordem doméstica mais
dignamente ou mais regularmente conduzida do que a sua. Feliz
quem regulou sua necessidade de maneira tão exata que suas
riquezas possam bastar-lhe sem que se preocupe e contrarie, e sem
que seu dispêndio ou acumulação interrompa outras ocupações que
ele segue, mais convenientes, mais tranquilas e de acordo com sua
vontade. Portanto, a abastança e a indigência dependem da opinião
de cada um; e a riqueza, a glória, a saúde só têm o tanto de beleza
e prazer que lhes atribui aquele que as possui. Cada um está bem ou
mal conforme assim se achar. Contente está não quem assim
cremos, mas quem crê isso de si mesmo; e somente com isso a
crença adquire essência e verdade. O acaso não nos causa nem
bem nem mal, apenas nos oferece a matéria e a semente de ambos,
que nossa alma, mais poderosa do que ele, transforma e aplica
como lhe apraz, causa única e senhora de sua condição feliz ou
infeliz. As assimilações externas tomam sabor e cor da constituição
interna; assim como as roupas, que nos aquecem não por seu calor
próprio, mas pelo nosso, que especificamente recobrem e retêm;
quem abrigasse um corpo frio faria o mesmo serviço pela frieza;
assim se conservam a neve e o gelo. Por certo da mesma maneira
que para um preguiçoso o estudo serve de tormento, para um
bêbado a abstinência de vinho, a frugalidade é suplício para o
luxurioso, e o exercício incomoda um homem delicado e ocioso; o
mesmo acontece com o restante. As coisas não são tão dolorosas
nem difíceis em si mesmas, mas nossa fraqueza e covardia as fazem
assim. Para julgar das coisas grandes e elevadas é preciso uma
alma da mesma qualidade, caso contrário, atribuímos a elas o vício
que é o nosso. Um remo parece curvo na água. Não importa apenas
que vejamos a coisa, mas como a vemos. Ora vamos, por que, entre
tantos discursos que de diferentes maneiras convencem os homens a
desprezar a morte e suportar a dor, não encontramos algum que nos
sirva? E entre tantos tipos de imaginações que convenceram outra
pessoa, por que cada um não aplica a si a que mais convém a seu
temperamento? Se ele não pode digerir a droga forte e depurativa
para erradicar o mal, pelo menos que a tome lenitiva para aliviá-lo.
Opinio est quaedam effoeminata ac levis: nec in dolore magis,
quàm eadem in voluptate: qua, quum liquescimus fluimúsque
mollitia, apis aculeum sine clamore ferre non possumus. Totum in
eo est, ut tibi imperes.109 De resto, não fugimos da filosofia por
valorizarmos além da conta a severidade das dores e a fraqueza
humana. Pois a obrigamos a remeter-se a essas invencíveis réplicas.
Se é ruim viver na necessidade, pelo menos viver na necessidade
não é uma necessidade. Ninguém fica mal por longo tempo se não
por sua própria culpa. Quem não tem coragem de suportar nem a
morte nem a vida, quem não quer resistir nem fugir, o que faremos
por ele?
84. “Morte, que te recusas a tirar a vida dos covardes! Se pudesses te oferecer somente à
virtude!”, Lucano, IV, 580-581. (N.E.)
85. “Quantas vezes vimos não apenas nossos capitães como também exércitos inteiros
correndo para uma morte certa?”, Cícero, Tusculanes, I, XXXVII, 89. (N.E.)
86. “Se não fossem dignos de fé, a razão inteira seria enganosa também”, Lucrécio, IV, 485.
(N.E.)
87. “Ou ela passou, ou vai vir, não há presente nela”, La Boétie, “Ad Michaelem Montanum”,
Poemata, XX, 273. (N.E.)
88. “A morte é menos penosa que a espera da morte”, Ovídio, Heroidas, X, 82. (N.E.)
89. “a morte só é um mal pelo que vem depois”, Santo Agostinho, A cidade de Deus, I, XI.
(N.E.)
90. “A coragem é ávida pelo perigo”, Sêneca, De providentia, IV, 4. (N.E.)
91. “Não é, de fato, na alegria e nos prazeres, nos risos e nos jogos, companheiros da
leviandade, que somos felizes, mas, mesmo mergulhados na aflição, na firmeza e na
constância”, Cícero, De finibus, II, XX, 65. (N.E.)
92. “Há tanto mais alegria no bem quanto mais ele nos custa”, Lucano, IX, 404. (N.E.)
93. “se é violenta, ela é breve; longa, ela é leve”, Cícero, De finibus, II, XXIX, 94. (N.E.)
94. “Lembra-te de que a morte põe fim às grandes dores; que as pequenas são intermitentes
e que dominamos as médias; assim, se são toleráveis, suportemo-las; se não, abandonemos
essa vida visto que ela nos desagrada, como de um teatro”, Cícero, De finibus, I, XV, 49.
(N.E.)
95. “Eles sofreram apenas o tanto que se entregaram ao sofrimento”, Santo Agostinho, A
cidade de Deus, I, X. (N.E.)
96. “Jamais o costume venceria a natureza, pois ela é invencível; mas enfraquecemos nossa
alma com aparências, delícias, ociosidade, indolência e preguiça; nós a amolecemos e
seduzimos com opiniões e maus hábitos”, Cícero, Tusculanes, V, XXVII, 78. (N.E.)
97. “Um gladiador razoável alguma vez gemeu? Alguma vez alterou seu semblante? Alguma
vez combateu, ou mesmo reconheceu a derrota, indignamente? E, vencido e condenado a
receber o golpe de misericórdia, alguma vez encolheu o pescoço?”, Cícero, Tusculanes, II,
XVII, 41. (N.E.)
98. “Sua preocupação é extirpar até a raiz os cabelos brancos e arrancar a pele para adquirir
um novo rosto”, Tibúlio, I, VIII, 45-46. (N.E.)
99. Esbelto, à moda espanhola. (N.T.)
100. Antiga moeda turca. (N.T.)
101. “Donde se compreende que a aflição não provém da natureza, mas da opinião”, Cícero,
Tusculanes, III, XXVIII, 71. (N.E.)
102. “Nação feroz que pensa não ser possível viver sem armas”, Tito Lívio, XXXIV, XVII, 6.
(N.E.)
103. “Através de tantos mares indomáveis?”, Catulo, IV, 18. (N.E.)
104. “A fortuna é de vidro; no momento em que brilha ela se quebra”, Públio Siro, Mimes, 284.
(N.E.)
105. “Cada um é o artesão de sua própria sorte”, verso de Ápio citado pelo pseudo-Salústio,
De republica ordinanda, I, I. (N.E.)
106. “Ser indigente na riqueza, eis o tipo de pobreza mais penosa”, Sêneca, Cartas a Lucílio,
LXXIV, 4. (N.E.)
107. “Não ser cúpido é ter dinheiro; não ser perdulário é ter rendimentos”, Cícero, Paradoxos,
VI, III, 51. (N.E.)
108. “O fruto das riquezas é a abundância, e a abundância é avaliada pela satisfação das
necessidades”, Cícero, Paradoxos, VI, II, 47. (N.E.)
109. “Certo preconceito efeminado e frívolo age tanto na dor quanto no prazer, pois quando
nos abandonamos e entregamos ao prazer, não podemos suportar sem gritar uma picada de
abelha. Tudo é questão de controle de si mesmo”, Cícero, Tusculanes, II, XXII, 52-53. (N.E.)
CAPÍTULO XLI
De não transmitir sua glória
De todas as tolices do mundo, a mais aceita e mais universal é a
preocupação com a reputação e a glória, que adotamos a ponto de
abandonar as riquezas, o descanso, a vida e a saúde, que são bens
reais e substanciais, para seguir essa vã imagem, essa simples
palavra, que não tem corpo nem preensão.
La fama ch’ invaghisce a un dolce suono
Gli superbi mortali, et par’ si bella,
È unecho, un sogno, anzi d’un sogno un’ ombra
Ch’ ad ogni vento si dilegua et sgombra.110
E, dos caprichos descabidos dos homens, parece que mesmo os
filósofos se desfazem mais tarde e mais a contragosto deste que de
qualquer outro; é o mais rebarbativo e obstinado. Quia etiam bene
proficientes animos tentare non cessat.111 Não há outra cuja ilusão a
razão não denuncie tão claramente; mas ela tem suas raízes tão
vivas dentro de nós que não sei se alguma vez alguém conseguiu
libertar-se inequivocamente. Depois que tudo dissestes e tudo
pensastes para renegá-la, ela produz contra vosso raciocínio um
movimento tão intestino que tendes poucos argumentos para resistir-
lhe. Pois, como diz Cícero, os mesmos que a combatem querem
ainda que os livros que escrevem levem seus nomes no topo, e
querem ser gloriosos por terem menosprezado a glória. Todas as
outras coisas são negociáveis, colocamos nossos bens e nossas
vidas à disposição de nossos amigos; mas partilhar da honra e ceder
a glória a outrem, isso pouco se vê. Lutácio Catulo, na guerra contra
os cimbros, tendo feito todos os esforços para deter seus soldados
que fugiam diante dos inimigos, pôs-se ele mesmo entre os fugitivos
e fingiu de covarde, a fim de que eles parecessem antes seguir seu
capitão do que fugir do inimigo; era renunciar à sua reputação para
acobertar a vergonha dos outros. Quando Carlos V passou pela
Provença, no ano 1537, dizem que Antoine de Lève, vendo o
imperador decidido a essa expedição, e acreditando que ela lhe seria
extremamente gloriosa, no entanto opinou o contrário e a
desaconselhou, a fim de que toda a glória e honra dessa decisão
fossem atribuídas a seu senhor, e que fosse dito que o bom
julgamento e a previdência deste tinham sido tais que, contra a
opinião de todos, ele levara a cabo tão bela iniciativa; o que era
honrá-lo às próprias custas. Os embaixadores trácios, tendo
consolado Arquileônida, mãe de Brásidas, pela morte do filho, e
tendo louvado-o muito, a ponto de dizerem que ele não deixara outro
igual, ela recusou esse elogio privado e particular para torná-lo
público, disse: “Não dizeis isso, eu sei que a cidade de Esparta tem
vários cidadãos maiores e mais valorosos do que ele era”. Na
batalha de Crécy, o príncipe de Gales, ainda bastante jovem, tinha a
vanguarda para conduzir; e foi nessa posição que ocorreu a principal
intensificação da batalha. Os senhores que o acompanhavam, vendo-
se em dificuldade, pediram ao rei Eduardo que se aproximasse para
socorrê-los; este perguntou pela situação de seu filho, e como lhe
responderam que ele estava vivo e a cavalo, disse: “Eu o prejudicaria
se fosse agora privá-lo da honra da vitória desse combate que por
tão longo tempo ele sustentou; seja qual for o risco, este será todo
seu”. E não quis ir nem enviar ninguém, sabendo que se fosse diriam
que tudo estaria perdido sem seu socorro, e atribuir-lhe a honra
daquele feito. Semper enim quod postremum adiectum est, id rem
totam videtur traxisse.112 Em Roma, muitos consideravam, e dizia-se
correntemente, que as principais façanhas de Cipião eram devidas
em parte a Lélio, que no entanto sempre promovia e secundava a
grandeza e a glória de Cipião, sem nenhuma preocupação com as
suas. E Teopompo, rei de Esparta, dizia a quem lhe dizia que a
república se mantinha de pé porque ele sabia governar bem: “É
antes porque o povo sabe obedecer bem”. Assim como as mulheres
que herdavam o pariato tinham, não obstante seu sexo, direito de
assistir e opinar nas causas que pertenciam à jurisdição dos pares,
também os pares eclesiásticos, não obstante sua função, estavam
obrigados a assistir nossos reis em suas guerras, não apenas com
seus amigos e servidores, mas com sua pessoa. Por isso o bispo de
Beauvais, estando com Filipe Augusto na batalha de Bouvines,
participava com muita coragem da ação; mas lhe parecia não dever
tocar no fruto e na glória daquela atividade sangrenta e violenta. Ele
venceu muitos inimigos com a própria mão naquele dia, e os
entregava ao primeiro fidalgo que encontrava para que degolasse ou
fizesse prisioneiros, renunciando à execução. E assim fez com
Guilherme, conde de Salisbury, para Jean de Nesle. Passava de uma
sutileza de consciência a esta outra: queria derrubar, mas não ferir, e
portanto só combatia armado de uma maça. Em meu tempo, alguém,
sendo censurado pelo rei por ter levantado a mão contra um
sacerdote, negou-o enfaticamente; disse que o havia espancado e
pisoteado.
110. “O renome, que encanta com sua doce voz os magníficos mortais, que parece tão belo,
não passa de um eco, de um sonho, ou melhor, da sombra de um sonho, que por qualquer
vento se desvanece e se dissipa”, Torquato Tasso, Jerusalém libertada, XIV, LXIII. (N.E.)
111. “Porque não cessa de tentar até mesmo as almas bem avançadas no caminho da
virtude”, Santo Agostinho, A cidade de Deus, V, XIV. (N.E.)
112. “É sempre o que acrescentamos por último que parece ter provocado a coisa toda”, Tito
Lívio, XXVII, XLV, 6. (N.E.)
CAPÍTULO XLII
Da desigualdade que existe entre nós
Plutarco diz em algum lugar que não vê tão grande distância de
animal a animal quanto vê de homem a homem. Ele está falando das
capacidades da alma e das qualidades internas. Na verdade, vejo
tanta distância de Epaminondas, como o imagino, a alguém que
conheço, capaz de senso comum, que de bom grado eu iria mais
longe do que Plutarco e diria que há mais distância de tal a tal
homem do que de tal homem a tal animal.
Hem vir viro quid praestat!113
E que há tantos graus de espíritos quanto há de braças daqui ao
céu, e igualmente inumeráveis. Mas a propósito da avaliação dos
homens, é espantoso que, salvo nós, nenhuma coisa seja avaliada a
não ser por suas próprias qualidades. Elogiamos um cavalo porque é
vigoroso e hábil,
volucrem
Sic laudamus equum, facili cui plurima palma
Fervet, et exultat rauco victoria circo114,
e não por seus arreios; um galgo por sua velocidade, não por sua
coleira; um pássaro por sua envergadura, não por suas correias e
sinetas. Por que da mesma forma não avaliamos um homem pelo
que é seu? Ele tem uma grande criadagem, um belo palácio, tanto
de crédito e tanto de renda; tudo isso está ao redor dele, não dentro
dele. Não comprais gato por lebre; se negociais um cavalo, retirais
suas armaduras, vós o olhais nu e a descoberto; ou, se estiver
coberto, como outrora eram apresentados para vender aos
príncipes, é nas partes menos necessárias, para não vos distrairdes
com a beleza de seu pelo ou a largura de suas ancas, e vos
deterdes principalmente a considerar as pernas, os olhos e as patas,
que são os membros mais úteis.
Regibus hic mos est, ubi equos mercantur, opertos
Inspiciunt, ne si facies, ut saepe, decora
Molli fulta pede est, emptorem inducat hiantem,
Quòd pulchrae clunes, breve quòd caput, ardua cervix.115
Por que, ao avaliar um homem, vós o avaliais todo coberto e
empacotado? Ele só nos exibe partes que não são suas, e nos
oculta as únicas pelas quais podemos realmente julgar de seu valor.
É o preço da espada que buscais, não o da bainha; porventura não
daríeis um tostão por ela se a desembainhásseis. É preciso julgar o
homem por si mesmo, não por seus adereços. E como diz muito
jocosamente um antigo: “Sabeis por que o julgais grande? Estais
contando a altura de seus sapatos”. O pedestal não faz parte da
estátua. Medi-o sem seus suportes; que ele ponha de lado as
riquezas e honrarias, que se apresente de camisa; tem ele o corpo
adequado para suas funções, sadio e alegre? Que alma tem ele? Ela
é bela, capaz e bem provida de todas as suas partes? É rica do que
é seu, ou do de outrem? O acaso tem algo com nisso? Se de olhos
abertos a alma espera as espadas desembainhadas; se pouco lhe
importa por onde lhe sai a vida, pela boca ou pela goela; se ela é
ponderada, equânime e contente; é para isso que devemos olhar, e
julgar através disso as extremas diferenças que existem entre nós. É
ele
sapiens, sibique imperiosus,
Quem neque pauperies, neque mors, neque vincula terrent,
Responsare cupidinibus, contemnere honores
Fortis, et in seipso totus teres atque rotundus,
Externi ne quid valeat per laeve morari,
In quem manca ruit semper fortuna?116
Um homem assim está quinhentas braças acima dos reinos e dos
ducados; ele mesmo é seu próprio império.
Sapiens pol ipse fingit fortunam sibi.117
Que lhe resta a desejar?
nónne videmus
Nil aliud sibi naturam latrare, nisi ut quoi
Corpore sejuntus dolor absit, mente fruatur,
Jucundo sensu cura semotus metúque?118
Comparai com ele a turba de nossos contemporâneos, estúpida,
baixa, servil, instável e continuamente flutuando na tempestade das
paixões diversas que a impelem e repelem, totalmente dependente
dos outros; há mais distância entre eles do que do céu à terra; e no
entanto a cegueira de nosso uso é tal que levamos isso pouco ou
nada em conta. Quando consideramos um camponês e um rei, um
nobre e um plebeu, um magistrado e um particular, um rico e um
pobre, de repente se apresenta a nossos olhos uma extrema
disparidade entre homens que só são diferentes, por assim dizer, por
suas calças. Na Trácia, o rei era distinguido de seu povo de uma
maneira divertida e bastante excessiva. Ele tinha uma religião à
parte; um deus só seu, que não cabia a seus súditos adorar, era
Mercúrio; e ele desdenhava os deles, Marte, Baco, Diana. Esses, no
entanto, são apenas revestimentos superficiais que não causam
nenhuma diferença essencial. Pois assim como vedes os atores de
comédia no palco simulando um duque e um imperador, mas logo
depois transformados em criados e miseráveis carregadores, que é
sua condição natural e original; também o imperador, cuja pompa vos
ofusca em público,
Scilicet et grandes viridi cum luce smaragdi
Auro includuntur, teritúrque Thalassina vestis
Assiduè, et Veneris sudorem exercita potat119,
olhai-o atrás da cortina, ele não passa de um homem comum, e
porventura mais vil do que o menor de seus súditos. Ille beatus
introrsum est: istius bracteata felicitas est.120 A covardia, a
irresolução, a ambição, o despeito e a inveja agitam-no como a
qualquer outro;
Non enim gazae, neque consularis
Summovet lictor, miseros tumultus
Mentis et curas laqueata circum
Tecta voltantes121;
e a preocupação e o temor o agarram pela garganta no meio de
seus exércitos.
Re veráque metus hominum, curaeque sequaces,
Nec metuunt sonitus armorum, nec fera tela,
Audactérque inter reges, rerumque potentes
Versantur, neque fulgorem reverentur ab auro.122
A febre, a enxaqueca e a gota poupam-no mais do que a nós?
Quando a velhice lhe pesar nos ombros, os arqueiros de sua guarda
o aliviarão dela? Quando o pavor da morte o transir, a presença dos
fidalgos em seu quarto o tranquilizará? Quando sentir ciúme e tiver
um capricho, nossas mesuras o reconfortarão? Esse dossel todo
coberto de ouro e pérolas não tem a virtude de apaziguar as dores
de um nefrítico.
Nec calidae citius decedunt corpore febres,
Textilibus si in picturis ostróque rubenti
Jacteris, quàm si plebeia in veste cubandum est.123
Os aduladores do grande Alexandre faziam-no crer que ele era filho
de Júpiter; um dia, estando ferido, vendo o sangue escorrer de sua
chaga, ele disse: “Então, que dizeis disso? Não é este um sangue
vermelho e puramente humano? Ele não é da têmpera daquele que
Homero faz correr da chaga dos deuses”. Hermodoro, o poeta, havia
feito versos em honra de Antígono, em que o chamava de filho do
Sol; ele, ao contrário, disse: “Aquele que esvazia minha latrina bem
sabe que não é verdade”. Em suma, ele é um homem; e se, em si
mesmo, for um homem malnascido, o governo do universo não
poderia retificá-lo;
puellae
Hunc rapiant, quicquid calcaverit hic, rosa fiat.124
Para que isso, se for uma alma grosseira e estúpida? Mesmo a
volúpia e a felicidade não são percebidas sem vigor e sem espírito;
haec perinde sunt, ut illius animus qui ea possidet,
Qui uti scit, ei bona, illi qui non utitur recte, mala.125
Quaisquer que sejam os bens da fortuna, ainda é preciso ter a
sensibilidade própria a saboreá-los; é o desfrutar, não o possuir, que
nos torna felizes.
Non domus et fundus, non aeris aceruus et auri,
Aegroto domini deduxit corpore febres,
Non animo curas, valeat possessor oportet,
Qui comportatis rebus benè cogitat uti.
Qui cupit, aut metuit, juvat illum sic domus aut res,
Ut lippum pictae tabulae, fomenta podagram.126
Se for um tolo, seu gosto é embotado e embrutecido; ele não
desfruta de seus bens mais que um homem gripado da doçura do
vinho grego, ou que um cavalo da riqueza dos arreios com que o
ornaram. Da mesma forma, como diz Platão, que a saúde, a beleza,
a força, as riquezas e tudo o que se chama de bem são igualmente
mal para o injusto e bem para o justo, e vice-versa. Por fim, quando
o corpo e a alma estão em mau estado, de que servem essas
vantagens externas, visto que a menor picada de alfinete e
sofrimento da alma é suficiente para nos tirar o prazer de reinar
sobre o mundo? Ao primeiro ataque da gota, por mais que seja Sire
e Majestade,
Totus et argento conflatus, totus et auro127,
não perde ele a lembrança de seu palácios e de suas grandezas? Se
está encolerizado, sua condição de príncipe o impede de avermelhar-
se, de empalidecer, de ranger os dentes como um louco? Ora, se é
um homem inteligente e bom, a realeza pouco acrescenta à sua
felicidade;
Si ventri bene, si lateri est pedibúsque tuis, nil
Divitiae poterunt regales addere majus128;
ele vê que não passa de engano e ilusão. Sim, porventura ele será
da opinião do rei Seleuco, de que quem soubesse o peso de um
cetro não se incomodaria em juntá-lo se o encontrasse no chão; dizia
isso devido aos grandes e penosos encargos que cabem a um bom
rei. Por certo não é pouca coisa ter que regular outros, visto que
para regular a nós mesmos se apresentam tantas dificuldades.
Quanto ao comandar, que parece ser tão agradável, considerando a
imbecilidade do julgamento humano e a dificuldade de escolha nas
coisas novas e incertas, sou muito da opinião de que é muito mais
fácil e mais agradável seguir do que guiar, e que é uma grande
tranquilidade para o espírito ter apenas que seguir um caminho já
traçado e que responder por si mesmo.
Ut satiùs multo iam sit, parere quietum,
Quàm regere imperio res velle.129
Acresce que Ciro dizia que comandar não competia a homem que
não valha mais do que aqueles a quem comanda. Mas, em
Xenofonte, o rei Hierão diz ainda mais, que no próprio gozo das
voluptuosidades eles estão em pior condição do que os demais, visto
que a abastança e a facilidade lhes retiram o toque agridoce que
nelas encontramos.
Pinguis amor nimiúmque potens, in taedia nobis
Vertitur, et stomacho dulcis ut esca nocet.130
Pensamos que os meninos de coro têm grande prazer com a
música? A saciedade antes a torna tediosa para eles. Os festins, as
danças, as mascaradas, os torneios divertem os que não os veem
com frequência, e que desejavam vê-los; mas, para quem os têm
como hábito, o gosto se torna insípido e desagradável; tampouco as
mulheres excitam aquele que delas desfruta à saciedade. Quem não
se dá a oportunidade de ter sede não poderia ter prazer em beber.
As farsas dos saltimbancos nos divertem, mas aos atores são uma
corveia. E que seja assim, para os príncipes é um deleite, é uma
festa poder algumas vezes travestir-se e descer à maneira de viver
baixa e popular.
Plerumque gratae principibus vices,
Mundaeque paruo sub lare pauperum
Coenae sine aulaeis et ostro,
Solicitam explicuere frontem.131
Não há nada tão incômodo, tão enfastiante quanto a abundância.
Que apetite não se desencorajaria ao ver trezentas mulheres à sua
mercê, como as tem o grande senhor em seu serralho? E que desejo
e que concepção de caça de seus ancestrais se reservava aquele
que nunca ia aos campos com ao menos sete mil falcoeiros? E além
disso, creio que esse brilho de grandeza traz não poucos incômodos
ao gozo dos prazeres mais doces; os príncipes são iluminados e
expostos demais. E não sei como ainda requerem deles que
escondam e encubram suas faltas; pois o que em nós é falta de
discernimento, neles o povo julga que seja tirania, menosprezo e
desdém pelas leis; e além da inclinação ao vício, parecem
acrescentar-lhe ainda o prazer de ofender e pisotear as regras
públicas. Na verdade Platão, em seu Górgias, define tirano aquele
que tem licença para fazer em uma cidade tudo o que lhe aprouver. E
muitas vezes, por causa disso, a exibição e divulgação de seu vício
ferem mais do que o próprio vício. Todo mundo teme ser espionado
e controlado; eles o são até em suas posturas e pensamentos, o
povo inteiro julgando ter direito e interesse de fazê-lo. Além disso, as
manchas aumentam dependendo da eminência e clareza do lugar em
que estão, e uma marca de nascença e uma verruga na testa
aparecem mais do que uma cicatriz em outro lugar. Eis por que os
poetas imaginam os amores de Júpiter conduzidos sob outro rosto
que não o seu; e das tantas práticas amorosas que eles lhe
atribuem, em uma única, parece-me, ele aparece em sua grandeza e
majestade. Mas voltemos a Hierão; ele também narra quantos
incômodos sente em seu reinar, por não poder partir e viajar em
liberdade, estando como um prisioneiro dentro dos limites de seu
país, e que em todas as ações se vê cercado por uma importuna
multidão. Na verdade, ao ver os nossos sozinhos à mesa,
assediados por tantos desconhecidos falando e o observando,
muitas vezes senti mais piedade do que inveja deles. O rei Alfonso
dizia que nisso os burros estavam em melhor situação do que os
reis: seus donos deixam-nos pastar à vontade, enquanto os reis não
podem ter isso de seus servidores. E nunca imaginei que fosse
alguma notável comodidade para a vida de um homem inteligente ter
vinte inspetores para sua latrina, nem que os serviços de um homem
que tem dez mil libras de renda, ou que tomou Casal, ou defendeu
Siena, lhe sejam mais cômodos e aceitáveis que o de um bom e bem
experimentado criado. As vantagens principescas são quase
vantagens imaginárias, a cada grau de fortuna se faz certa imagem
da condição de príncipe. César chama de reizetes todos os senhores
que ministravam a justiça na França de seu tempo. De fato, salvo o
nome de sire, compartilhamos muitas coisas com nossos reis. Vede
nas províncias distantes da corte, citemos a Bretanha, por exemplo,
o séquito, os súditos, os oficiais, as ocupações, o serviço e
cerimonial de um senhor retirado e caseiro, que cresceu entre seus
criados; e vede também o voo de sua imaginação, não há nada mais
régio; ele ouve falar de seu senhor uma vez por ano, como do rei da
Pérsia, e só o identifica por algum antigo parentesco cujo registro
seu secretário mantém. Na verdade, nossas leis são bastante leves;
e o peso da soberania quando muito toca a um fidalgo francês duas
vezes em sua vida. A sujeição essencial e efetiva só concerne
àqueles dentre nós que a reconhecem, e que amam honrar-se e
enriquecer-se com tal serviço; pois quem quer esconder-se em seu
lar, e sabe conduzir sua casa sem querelas nem processos, é tão
livre quanto o duque de Veneza. Paucos servitus, plures servitutem
tenent.132 Mas Hierão dá grande importância ao fato de ver-se
privado de toda amizade e companhia mútua, em que consiste o
mais perfeito e doce fruto da vida humana. Pois que testemunho de
afeição e boa vontade posso obter daquele que me deve, queira ou
não, tudo o que pode? Posso levar em conta seu humilde falar e sua
cortês reverência, visto que não está em seu poder recusá-los a
mim? As honras que recebemos dos que nos temem não são honras;
esses respeitos são dedicados à minha realeza, não a mim;
maximum hoc regni bonum est,
Quòd facta domini cogitur populus sui
Quàm ferre, tam laudare.133
Não vejo que o mau e o bom rei, o que odiamos e o que amamos,
um e outro têm o mesmo? Do mesmo aparato, do mesmo cerimonial
era servido meu predecessor, e o será meu sucessor. Se meus
súditos não me ofendem, isso não é prova de boa afeição; por que o
consideraria assim, visto que não poderiam fazê-lo caso quisessem?
Ninguém me segue pela amizade que existe entre mim e ele, pois
não se poderia tecer amizade onde há tão pouca relação e afinidade.
Minha alta posição colocou-me fora do convívio dos homens; há
disparidade e desproporção demais. Eles me seguem por
compostura e por costume, ou, antes que a mim, seguem minha
fortuna, para aumentarem a sua; tudo o que me dizem e fazem não
passa de maquiagem, sua liberdade sendo refreada de todos os
lados pelo grande poder que tenho sobre eles; nada vejo a meu
redor que não seja dissimulado e mascarado. Seus cortesãos
louvavam um dia o imperador Juliano por fazer boa justiça. “De bom
grado me orgulharia desses elogios”, disse ele, “se viessem de
pessoas que ousassem acusar e censurar minhas ações contrárias,
quando elas o fossem.” Todas as verdadeiras vantagens que os
príncipes têm lhes são comuns com os homens de média fortuna;
cabe aos deuses montar cavalos alados e alimentar-se de ambrosia.
Os príncipes não têm um sono e um apetite diferentes dos nossos;
seu aço não é de melhor têmpera do que aquele com que nos
armamos; sua coroa não os cobre nem do sol, nem da chuva.
Diocleciano, que conduzia uma tão reverenciada e tão afortunada,
abdicou dela para se retirar ao prazer de uma vida privada; e algum
tempo depois, como a necessidade dos negócios públicos exigisse
que ele voltasse a assumir sua responsabilidade, ele respondeu aos
que lho suplicavam: “Não tentaríeis me convencer disso se tivésseis
visto a bela disposição das árvores que eu mesmo plantei em minha
casa, e os belos melões que lá semeei”. Na opinião de Anacarse, o
estado mais feliz de uma sociedade seria aquele onde, todas as
outras coisas sendo iguais, a preeminência seria medida pela virtude,
e a escória pelo vício. Quando o rei Pirro planejava entrar na Itália,
Cíneas, seu sábio conselheiro, querendo fazê-lo sentir a vacuidade
de sua ambição, perguntou-lhe: “Pois bem, sire, com que fim
preparais esse grande empreendimento?”. “Para fazer-me senhor da
Itália”, ele respondeu imediatamente. “E”, prosseguiu Cíneas, “feito
isso?” “Entrarei”, disse o outro, “na Gália e na Espanha.” “E depois?”
“Irei subjugar a África e, por fim, quando tiver colocado o mundo sob
minha submissão, descansarei e viverei contente e a meu gosto.”
“Por Deus, sire”, recomeçou então Cíneas, “dizei-me a que se deve
não estardes desde o presente, se quiserdes, nesse estado? Por
que não vos instalais desde agora no lugar a que dizeis aspirar, e vos
poupais tanto trabalho e risco que colocais entre vós dois?”
Nimirum quia non bene norat quae esset habendi
Finis, et omnino quoad crescat vera voluptas.134
Vou encerrar essa passagem difícil com um verso antigo, que acho
singularmente belo a esse respeito:
Mores cuique sui fingunt fortunam.135
113. “Ah! De um homem a outro, quanta distância!”, Terêncio, Phormion, 790. (N.E.)
114. “assim elogiamos um cavalo leve que obtém inúmeras palmas e vitórias no circo febril e
rouquenho de aclamações”, Juvenal, VIII, 57-59. (N.E.)
115. “É costume entre os reis que compram cavalos examiná-los cobertos para evitar que
uma bela aparência, coisa frequente, repousando em patas fracas seduza o comprador
embevecido diante da beleza de uma anca, a pequenez de uma cabeça e um porte altivo”,
Horácio, Sátiras, I, II, 86-89. (N.E.)
116. “sábio, e senhor de si, homem que não teme nem a pobreza, nem a morte, nem os
ferros, capaz de enfrentar os desejos, de desprezar as honras, que, inteiro, redondo e polido,
nada de externo pode frear, e sobre quem os golpes da fortuna não têm preensão?”, Horácio,
Sátiras, II, VII, 83-88. (N.E.)
117. “O sábio fabrica sua própria fortuna”, Plauto, Trinummus, 363. (N.E.)
118. “não o vemos? A natureza não exige para si nada além da ausência de dor para o corpo,
e, para o espírito, um bem-estar sem preocupação e sem temor”, Lucrécio, II, 16-19. (N.E.)
119. “É claro, ele usa enormes esmeraldas de uma bela água encrustadas em ouro, e só
tecidos púrpura que bebem o suor de seus jogos amorosos”, Lucrécio, IV, 1126-1128. (N.E.)
120. “Um é feliz em seu foro íntimo, a felicidade do outro é apenas folheada a ouro”,
montagem a partir de Sêneca, Cartas a Lucílio, CXIX, II e CXV, 9. (N.E.)
121. “Pois nem tesouros, nem guarda-real afastam as pobres agitações da alma e as
preocupações que voam sob os tetos apainelados”, Horácio, Odes, II, XVI, 9-12. (N.E.)
122. “Na verdade, os medos e preocupações que obcecam os homens não temem nem o
estrondo das armas, nem os dardos mortais; eles se convidam sem vergonha à casa dos
reis e dos poderosos e não respeitam o brilho do ouro”, Lucrécio, II, 48-51. (N.E.)
123. “E as febres ardentes não abandonam mais rapidamente teu corpo se te revirares em
tecidos bordados e na púrpura escarlate do que se estiveres deitado em pano grosseiro”,
Lucrécio, II, 34-36. (N.E.)
124. “que as jovens o disputem, que as rosas nasçam sob seus passos”, Pérsio, II, 37-38.
(N.E.)
125. “as coisas seguem o coração de quem as possui. Para quem usa bem, é um bem, para
quem usa mal, um mal”, Terêncio, Heautontimoroumenos, 195-196. (N.E.)
126. “Não são uma casa nem uma terra, nem um monte de bronze e de ouro que expulsam a
febre do corpo doente de seu proprietário ou as preocupações de seu espírito. É preciso que
o possuidor esteja com boa saúde se pretende desfrutar dos bens adquiridos. Aquele que
deseja, ou que teme, desfruta de sua casa e de seus bens como um cego desfruta de um
quadro ou um gotoso de um curativo”, Horácio, Epístolas, I, II, 47-53. (N.E.)
127. “Todo em prata, todo em ouro maciço”, Tibulo, I, II, 69. (N.E.)
128. “Se teu estômago, teus pulmões, teus pés vão bem, os tesouros de um rei nada
poderão acrescentar à tua felicidade”, Horácio, Epístolas, I, XII, 5-6. (N.E.)
129. “Assim, vale muito mais obedecer tranquilamente do que desejar reger a conduta do
Estado”, Lucrécio, V, 1129-1130. (N.E.)
130. “Um amor pleno e sem entraves provoca repulsa, como um alimento açucarado avaria o
estômago”, Ovídio, Amores, II, XIX, 25-26. (N.E.)
131. “Com frequência a mudança agrada aos príncipes, e uma refeição frugal na choupana
do pobre, sem tapete nem púrpura, desanuviou sua fronte apreensiva”, Horácio, Odes, III,
XXIX, 13-16. (N.E.)
132. “Poucos homens são reduzidos à escravidão, muitos mais se reduzem a ela”, Sêneca,
Cartas a Lucílio, XXII, II. (N.E.)
133. “o apogeu da realeza é obrigar o povo não apenas a suportar mas a louvar as ações de
seu senhor”, Sêneca, Thyeste, 205-207. (N.E.)
134. “Sem dúvida porque o homem não conhecia os justos limites da posse nem até onde se
estende o verdadeiro prazer”, Lucrécio, V, 1432-1433. (N.E.)
135. “É nosso estilo de vida que forja nosso destino”, Cornélio Nepos, Vida dos grandes
capitães, “Vida de Ático”, XI, 6. (N.E.)
CAPÍTULO XLIII
Das leis suntuárias
A maneira com que nossas leis tentam moderar as loucas e vãs
despesas de mesa e vestuário parece contrária à sua finalidade. O
verdadeiro meio seria suscitar nos homens o desprezo do ouro e da
seda, como das coisas vãs e inúteis; nós lhes aumentamos a virtude
e o valor, o que é uma maneira bastante inepta de afastar-lhes os
homens. Pois dizer que os príncipes serão os únicos que comem
linguado, que podem usar veludo e tranças de ouro, e proibir isso ao
povo é o mesmo que dar crédito a essas coisas e aumentar em cada
um o desejo de dispor delas? Que os reis ousadamente abandonem
essas marcas de grandeza, eles têm muitas outras; tais excessos
são mais desculpáveis em qualquer outro do que em um príncipe.
Através do exemplo de várias nações podemos aprender muitas
maneiras melhores de nos distinguirmos por nosso exterior e nossa
posição (o que na verdade considero ser muito necessário em uma
profissão), sem para isso alimentar essa corrupção e essa
inconveniência tão evidentes. É espantoso como o costume, nessas
coisas indiferentes, fácil e rapidamente finca o pé de sua autoridade.
Recém ficamos um ano trajando luto na corte, pelo rei Henrique II, e
é certo que já na opinião de todos as sedas eram tidas como tão vis
que, se vísseis alguém vestindo-as, imediatamente fazíeis dele um
burguês. Elas acabaram cabendo aos médicos e cirurgiões; e apesar
de cada um se vestir mais ou menos da mesma forma, havia, no
entanto, muitas distinções evidentes na qualidade dos homens. Quão
repentinamente são apreciados em nossos exércitos os gibões
imundos de camurça e tecido; e o luxo e a riqueza das roupas,
criticados e desdenhados? Se os reis começarem a renunciar a
essas despesas, em um mês acontecerá que, sem édito e sem
regulamentação, todos nós os seguiremos. A lei deveria dizer, ao
contrário, que o carmesim e a ourivesaria estão proibidos a todo tipo
de gente, exceto aos saltimbancos e às cortesãs. Com o mesmo
expediente Zaleuco corrigiu os costumes corrompidos dos locrenses,
suas ordenações eram estas: que a mulher de condição livre não
possa ser acompanhada por mais de uma camareira, salvo quando
estiver embriagada; nem possa sair da cidade à noite, nem usar joias
de ouro, nem vestido ornado com bordados se não for mulher pública
e prostituída; que, salvo aos rufiões, a homem não seja permitido
usar no dedo anel de ouro, nem veste delicada, como as de tecidos
tramados na cidade de Mileto. E assim, por essas exceções
vergonhosas, ele engenhosamente desviava seus cidadãos das
superfluidades e prazeres perniciosos. Era uma forma muito
proveitosa de pela honra e pela ambição atrair os homens para seu
dever e para a obediência. Nossos reis tudo podem em tais
modificações exteriores; seu gosto nelas serve de lei. Quicquid
principes faciunt, praecipere videntur.136 O restante da França toma
como regra a regra da corte. Que eles manifestem seu desgosto por
essa infame calça137, que mostra tão a descoberto nossos membros
ocultos; por esse pesado exagero de gibões, que nos faz muito
diferentes do que somos, tão incômodos para armar-se; por essas
longas tranças de cabelo afeminadas; por esse hábito de beijar o
que apresentamos a nossos companheiros, e nossas mãos ao
saudá-los, cerimônia outrora reservada somente aos príncipes; e o
de um fidalgo se encontrar em local de cerimônia sem espada a seu
lado, todo desalinhado e desabotoado, como se viesse da latrina; e
o de contra a forma de nossos pais, e a particular liberdade da
nobreza desse reino, nos mantermos descobertos quando muito
atrás deles, onde quer que estejam, e assim como com eles, com
cem outros, tantos são os terços e quartos de reis que temos; e
assim com outras invenções, novas e viciosas, elas se verão
imediatamente extintas e desacreditadas. Esses são erros
superficiais, mas de prognóstico ruim; somos informados que a
construção perde sua solidez quando vemos fender-se o reboco e o
revestimento de nossas paredes. Platão, em suas leis, considera que
não há no mundo peste mais prejudicial para sua cidade do que
deixar a juventude tomar a liberdade de mudar de uma forma para
outra em vestimentas, em gestos, em danças, em exercícios e em
canções; mudando seu julgamento ora para essa posição, ora para
aquela; correndo atrás das novidades, reverenciando seus
inventores; assim os costumes são corrompidos, e os antigos
ensinamentos vêm a ser desdenhados e menosprezados. Em todas
as coisas, salvo nas más, a mudança deve ser temida; a mudança
das estações, dos ventos, dos alimentos, dos humores. E as únicas
leis que têm verdadeira autoridade são as leis a que Deus deu uma
existência antiga, de forma que ninguém lhes saiba a origem, nem
que jamais tenham sido diferentes.
136. “Tudo o que os príncipes fazem parece que o prescrevem”, Quintiliano, Declamationes,
III, 15. (N.E.)
137. Montaigne está falando da braguilha. (N.T.)
CAPÍTULO XLIV
Do dormir
A razão nos ordena que sigamos sempre no mesmo caminho, mas
não na mesma velocidade; e embora o sábio não deva permitir que
as paixões humanas se desviem do caminho reto, ele bem pode,
sem prejuízo para seu dever, conceder-lhes que apressem ou
retardem seu passo, e não se postar como um colosso imóvel e
impassível. Se a própria virtude encarnasse, creio que seu pulso
bateria mais forte partindo ao ataque do que indo jantar; inclusive, é
necessário que ela se inflame e se agite. A esse respeito, observei
como coisa espantosa que às vezes os grandes personagens, nos
mais altos empreendimentos e importantes assuntos, se mantêm tão
inteiros em seu equilíbrio que nem sequer reduzem seu sono.
Alexandre, o Grande, no dia marcado para aquela violenta batalha
contra Dario, dormiu tão profundamente e até manhã tão alta que
Parmênion foi obrigado a entrar em seu quarto e, aproximando-se de
sua cama, a chamá-lo duas ou três vezes por seu nome, para
despertá-lo, urgindo-o o momento de ir para o combate. O
imperador Oto, tendo decidido matar-se nessa mesma noite, depois
de pôr em ordem seus assuntos domésticos, partilhar seu dinheiro
entre seus servidores e afiar o gume de uma espada com que
decidira apunhalar-se, só esperando para saber se cada um de seus
amigos tinha partido em segurança, pôs-se a dormir tão
profundamente que seus criados de quarto o ouviam roncar. A morte
desse imperador tem muitas coisas semelhantes à do grande Catão,
e inclusive isso; pois estando Catão prestes a matar-se, enquanto
esperava que lhe trouxessem notícias sobre se os senadores que
mandava recolher-se tinham se afastado do porto de Útica, pôs-se a
dormir tão profundamente que o ouviam respirar do quarto vizinho; e
aquele que enviara até o porto tendo-o acordado para dizer-lhe que
a tempestade impedia os senadores de navegar facilmente, enviou
para lá mais alguém e, enfiando-se na cama, pôs-se de novo a
dormir até que esse último o assegurasse da partida deles. Também
podemos compará-lo ao feito de Alexandre, naquela grande e
perigosa tormenta que o ameaçava devido à sedição do tribuno
Metelo, que queria publicar o decreto da chamada de Pompeu à
cidade com seu exército, quando da conspiração de Catilina; decreto
a que somente Catão se opunha e sobre o qual Metelo e ele
trocaram pesadas palavras e grandes ameaças no Senado, mas cuja
execução era para o dia seguinte, na praça. Metelo, além do favor
do povo e de César, que conspirava então a favor de Pompeu, devia
comparecer acompanhado de quantidade de escravos estrangeiros e
gladiadores, e Catão, fortalecido apenas por sua firmeza; de forma
que seus parentes, seus íntimos e muitas pessoas de bem estavam
com grande preocupação por ele; e houve alguns que passaram a
noite juntos, sem querer descansar, nem beber, nem comer, pelo
perigo que viam preparado para ele; em sua casa, mesmo sua
mulher e suas irmãs não faziam mais que chorar e atormentar-se;
enquanto ele, ao contrário, reconfortava todo mundo; e depois de
cear como de costume, foi deitar e dormir um sono muito profundo
até a manhã, quando um de seus companheiros de tribunato veio
despertá-lo para ir à escaramuça. O conhecimento que temos da
grandeza da coragem desse homem, pelo resto de sua vida, pode
fazer-nos concluir com toda a segurança que isso lhe vinha de uma
alma elevada tão acima de tais incidentes que com eles não se
dignava preocupar-se, não mais do que com acontecimentos
corriqueiros. Na batalha naval que Augusto venceu contra Sexto
Pompeu na Sicília, no momento de ir para o combate, viu-se levado a
um sono tão profundo que os amigos precisaram despertá-lo para
que desse o sinal da batalha. Isso deu a Marco Antônio ocasião para
depois criticá-lo por não ter tido coragem sequer de encarar de olhos
abertos a organização de seu exército, e por não ter ousado
apresentar-se aos soldados até que Agripa lhe tivesse anunciado a
notícia da vitória que obtivera sobre seus inimigos. Mas quanto ao
jovem Mário, que fez ainda pior (pois no dia de sua última jornada
contra Sila, depois de ter organizado seu exército e dado voz e sinal
de batalha, deitou-se embaixo de uma árvore, na sombra, para
descansar, e dormiu tão profundamente que quase não conseguiu
despertar à derrota e fuga de sua gente, nada tendo visto do
combate), diz-se que foi por estar tão extremamente prostrado de
fadiga e falta de sono que sua natureza não aguentava mais. E a
esse respeito os médicos informarão se o dormir é tão necessário
que nossa vida dele dependa, pois bem sabemos que levaram à
morte o rei Perseu da Macedônia, prisioneiro em Roma, impedindo-
lhe o sono, mas Plínio cita homens que viveram muito tempo sem
dormir. Em Heródoto, há nações em que os homens dormem e velam
por metade do ano. E os que escrevem a vida do sábio Epimênides
dizem que ele dormiu 57 anos seguidos.
CAPÍTULO XLV
Da batalha de Dreux
Houve grande quantidade de incidentes raros em nossa batalha de
Dreux; mas os que não são muito a favor da reputação do senhor de
Guise normalmente alegam que ele não pode ser desculpado por ter
apeado e contemporizado com as forças que comandava, enquanto
o senhor condestável, chefe do exército, era derrotado pela
artilharia; e que mais valia arriscar-se surpreendendo o inimigo pelo
flanco do que, esperando a vantagem de atacá-lo pela retaguarda,
sofrer uma tão pesada perda. Mas, para além do que o resultado
atestou, quem discutir sobre isso sem paixão facilmente
reconhecerá, em minha opinião, que o objetivo e a intenção, não
apenas de um capitão mas de cada soldado, devem visar a vitória
completa; e que nenhum acontecimento específico, seja qual for o
interesse que tenha nele, deve desviá-lo disso. Filopêmen, em um
combate contra Macânidas, tendo enviado na frente, para iniciar o
confronto, bom número de arqueiros e lanceiros, e o inimigo, depois
de derrubá-los, estando ocupado em persegui-los a todo galope, e
passando, para obter sua vitória, ao lado das tropas de Filopêmen
em ordem de batalha, este, apesar de seus soldados se agitarem,
não pensou em sair de seu lugar nem em apresentar-se ao inimigo
para socorrer sua gente; mas, tendo-os deixado perseguir e
destroçar diante de seus olhos, começou o ataque contra os inimigos
pelo batalhão de infantaria, depois que os viu totalmente
abandonados por sua cavalaria; e embora fossem lacedemônios,
como os atacou no momento em que, porque pensavam ter tudo
ganho, começavam a se desorganizar, ele facilmente triunfou, e feito
isso começou a perseguir Macânidas. Esse caso é próximo ao do
senhor de Guise. Na árdua batalha de Agesilau contra os beócios,
que Xenofonte, que estava presente, disse ser a mais difícil que ele
jamais viu, Agesilau recusou a vantagem que o acaso lhe oferecia, de
deixar passar o batalhão dos beócios e atacá-los por trás, por mais
certa a vitória prevista, considerando que nisso havia mais artifício
que valor; e para mostrar seu heroísmo com espantoso ardor de
coragem, escolheu antes atacá-los de frente; mas por isso foi
vencido e ferido, e obrigado, por fim, a se retirar e tomar o partido
que recusara inicialmente, fazendo suas fileiras abrirem-se para dar
passagem à torrente de beócios; depois, quando eles passaram,
reparando que marchavam em desordem, como quem imagina estar
fora de qualquer perigo, mandou que os seguissem e atacassem
pelos flancos; mas por isso não pôde colocá-los em debandada;
antes recuaram passo a passo, sempre mostrando os dentes, até
que estivessem em segurança.
CAPÍTULO XLVI
Dos nomes
Por maior que seja a diversidade de ervas, tudo é abrangido pelo
nome de salada. Da mesma forma, na consideração dos nomes vou
fazer aqui um amontoado de diversos objetos. Cada nação tem
alguns nomes que, não sei como, são tomados no mau sentido; entre
nós, João, Guilherme, Benedito. Também me parece haver, na
genealogia dos príncipes, alguns nomes fatalmente marcados pelo
destino, como os Ptolomeus no Egito, os Henriques na Inglaterra,
Carlos na França, Balduíno em Flandres, e em nossa antiga
Aquitânia os Guilhermes, de onde dizem que o nome Guiena veio;
por falsa analogia, como há outras igualmente cruas no próprio
Platão. Também é coisa pequena, porém digna de memória por sua
estranheza, e escrita por testemunha ocular, que Henrique, duque da
Normandia, filho de Henrique II, rei da Inglaterra, ao fazer um festim
na França, a assistência da nobreza foi tão grande que, por
passatempo, ela foi dividida em grupos pela semelhança dos nomes;
no primeiro bando, que foi o dos Guilhermes, encontraram-se 110
cavaleiros com esse nome sentados à mesa, sem considerar os
simples fidalgos e servidores. É tão divertido distribuir as mesas pelo
nome dos convidados quanto era para o imperador Geta mandar
distribuir suas iguarias levando em consideração as primeiras letras
do nome dos pratos; serviam-se os que começavam com “m”:
mouton, marcassin, merlus, marsouin, e assim por diante.138
Também diz-se que faz bem ter um bom nome, isto é, confiabilidade
e reputação; mas ainda, na verdade, é conveniente ter um nome que
facilmente se possa pronunciar e memorizar, pois os reis e os
grandes nos reconhecem mais facilmente e esquecem menos
naturalmente; e mesmo entre os que nos servem, comandamos mais
frequentemente e empregamos aqueles cujos nomes se revelam
mais facilmente à língua. Vi o rei Henrique II jamais conseguir chamar
corretamente um fidalgo desta região da Gasconha; e para uma
dama da rainha, ele mesmo foi da opinião de dar-lhe o nome geral
da família, porque o do ramo paterno pareceu-lhe estranho demais.
E Sócrates considera digno da atenção paterna dar um belo nome
aos filhos. Também diz-se que a fundação de Notre Dame La
Grande, em Poitiers, teve origem no fato de que um jovem devasso,
morador daquele lugar, tendo abordado uma prostituta e logo
perguntado seu nome, que era Maria, sentiu-se tão vivamente
tomado de religião e de respeito por esse nome sacrossanto da
Virgem, mãe de nosso Salvador, que não apenas mandou-a
imediatamente embora como corrigiu todo o restante de sua vida; e,
em consideração a esse milagre, construiu-se no local onde ficava a
casa desse jovem uma capela com o nome de Notre Dame e,
depois, a igreja que ali vemos. Essa correção oral e auricular, pia,
tocou diretamente a alma; essa próxima, do mesmo gênero,
insinuou-se pelos sentidos corporais. Estando Pitágoras na
companhia de jovens homens, os quais, exaltados pela festa,
percebeu tramarem violar uma serviçal pudica, ordenou ao menestrel
que mudasse o tom; e com uma música densa, severa e espondaica
gradualmente enfeitiçou o ardor deles, e acalmou-o. Também, não
dirá a posteridade que nossa Reforma de hoje foi complexa e
rigorosa, pois não apenas combateu os erros e os vícios, e encheu o
mundo de devoção, de humildade, de obediência, de paz e de toda
espécie de virtude, como chegou a combater antigos nomes de
batismo, Carlos, Luís, Francisco, para povoar o mundo de
Matusalém, Ezequiel, Malaquias, muito mais reveladores da fé? Um
fidalgo meu vizinho, considerando as comodidades do tempo antigo
em relação ao nosso, não se esquecia de levar em conta a altivez e
magnificência dos nomes da nobreza daquele tempo, Dom
Grumedan, Quadragant, Agesilan, e que somente de ouvi-los chamar
sentia-se que tinham sido gente muito diferente de Pedro, Guilherme,
Michel. Também sou grato a Jacques Amyot por ter deixado, ao
longo de um discurso em francês, os nomes latinos na íntegra, sem
disfarçá-los e modificá-los para dar-lhes uma terminação francesa.
No início parecia um pouco áspero, mas desde então o hábito, pelo
valor de seu Plutarco, eliminou-nos toda a sua estranheza.
Frequentemente desejei que os que escrevem as histórias em latim
nos deixassem nossos nomes como eles são; pois de Vaudemont
fazendo Vallemontanus, e metamorfoseando-os para embelezá-los à
grega ou à romana, não sabemos mais onde estamos e deixamos de
reconhecê-los. Para encerrar nosso relato: é um mau hábito e de
péssimas consequências, em nossa França, chamar cada um pelo
nome de sua terra e senhoria, e é a coisa no mundo que mais faz
confundir e ignorar as linhagens. Um filho mais novo de uma boa
família, tendo recebido como apanágio uma terra sob o nome da
qual foi conhecido e honrado, não pode razoavelmente abandoná-lo;
dez anos após sua morte a terra vai para um estrangeiro, que faz o
mesmo; adivinhai como ficamos em relação à diferenciação desses
homens. Não é preciso buscar outros exemplo que os de nossa casa
real, com tantas partilhas quantos sobrenomes; entrementes, o
original da cepa nos escapou. Há tanta liberdade nessas mutações
que em meu tempo não vi ninguém elevado pela fortuna a alguma
grandeza extraordinária a quem não tenham imediatamente
associado títulos genealógicos novos e ignorados por seu pai, e a
quem não tenham enxertado em alguma cepa ilustre; e por feliz
acaso as famílias mais obscuras são mais próprias à falsificação.
Quantos fidalgos temos na França que são de linhagem real segundo
suas próprias contas? Mais do que de outras linhagens, creio. Isso
não foi contado de boa vontade por um de meus amigos? Estavam
muitos reunidos a respeito da disputa de um senhor contra um outro,
o qual tinha na verdade alguma prerrogativa de títulos e alianças,
mais elevados que os da nobreza comum. A propósito dessa
prerrogativa, cada qual, procurando igualar-se a ele, alegava qual
uma origem, qual outra, qual a semelhança do nome, qual das armas
do brasão, qual velhos papéis de família; e o inferior deles se
considerava bisneto de algum rei de além-mar. Quando do jantar,
meu amigo, em vez de ocupar seu lugar, recuou com profundas
reverências, suplicando aos presentes que o desculpassem porque,
por temeridade, até então convivera com eles como um
companheiro, mas que, tendo sido novamente informado da
antiguidade de suas qualidades, começava a honrá-los segundo suas
posições, e que não lhe cabia sentar-se entre tantos príncipes.
Depois dessa farsa, disse-lhes mil injúrias: Contentai-vos, por Deus,
com o que nossos pais se contentaram, e com o que somos; o que
somos é suficiente se soubermos preservá-lo; não reneguemos a
fortuna e a condição de nossos antepassados, e abandonemos
essas tolas invenções, que não podem faltar a quem tiver a
impudência de alegá-las. Os brasões não têm mais garantias que os
sobrenomes. O meu é “blau semeado de trevos de ouro, com uma
pata de leão igual, munida de goles, colocada de frente”. Que
privilégio tem essa figura para pertencer especificamente à minha
casa? Um genro a transportará para outra família; algum modesto
comprador fará dela suas primeiras armas; não há coisa em que se
encontre mais mutação e confusão. Mas essa consideração
forçosamente me leva a um outro campo. Sondemos um pouco de
perto e, por Deus, examinemos a que fundamento associamos essa
glória e reputação pela qual o mundo se convulsiona; em que
estabelecemos esse renome que vamos buscando com tanto
esforço? Em suma, é Pedro ou Guilherme que o portam, que o
defendem e que o tocam. Ó, corajosa faculdade é a esperança, que
em indivíduo mortal, e em um instante, vai usurpando a infinidade, a
imensidão, e preenchendo a indigência de seu senhor com a posse
de todas as coisas que ele pode imaginar e desejar, o quanto ela
quiser! A natureza deu-nos com isso um brinquedo prazeroso. E esse
Pedro ou Guilherme, o que é além de uma palavra com diferentes
usos? Ou três ou quatro riscos de pena, em primeiro lugar tão fáceis
de variar que eu naturalmente perguntaria a quem cabe a honra de
tantas vitórias, a Guesquin, a Glesquin ou a Gueaquin? Haveria muito
mais coerência aqui do que, em Luciano, ver Σ processar Τ139, pois
non levia aut ludicra petuntur
Praemia.140
Está em jogo algo sério; é questão de saber qual daquelas letras
deve ser recompensada por tantos cercos, batalhas, ferimentos,
prisões e serviços prestados à coroa da França por esse famoso
condestável. Nicolas Denisot ocupou-se somente das letras de seu
nome, e mudou toda a maneira de reuni-las para formar Conde
d’Alsinois, que utilizou na glória de sua poesia e pintura. E o
historiador Suetônio gostou apenas do sentido do seu, e tendo
renunciado ao de Lenis, que era o sobrenome de seu pai, fez de
Tranquillus o sucessor da reputação de seus escritos. Quem
acreditaria que o capitão Bayard só teve as honras que tomou
emprestadas dos feitos de Pierre Terrail? E que Antoine Escalin
deixou-se roubar, diante de seus olhos, tantas expedições navais e
missões marítimas e terrestres em proveito do capitão Poulin e do
barão de La Garde? Em segundo lugar, são riscos de pena comuns
a mil homens. Quantas pessoas há, em todas as linhagens, com o
mesmo nome e sobrenome? E em diferentes linhagens, séculos e
países, quantas? A história conheceu três Sócrates, cinco Platões,
oito Aristóteles, sete Xenofontes, vinte Demétrios, vinte Teodoros; e
pensai quantos ela não conheceu. O que impede meu palafreneiro de
chamar-se Pompeu, o grande? Mas, no fim das contas, que meios,
que recursos existem que associem meu falecido palafreneiro ou
aquele outro homem, que teve a cabeça cortada no Egito, e que os
reúnam a esse nome celebrado e a esses riscos de pena assim
reverenciados, para que dele se vangloriem?
Id cinerem et manes credis curare sepultos?141
Que sentimento têm os dois companheiros de principal valor entre os
homens? Epaminondas, neste glorioso verso, que corre tantos
séculos por ele em nossas bocas,
Consiliis nostris laus est attrita Laconum142;
e Africano143, neste outro,
A sole exoriente, supra Maeotis paludes
Nemo est, qui factis me aequiparare queat.144
Os sobreviventes se orgulham da doçura dessas palavras; e, por
elas incitados com inveja e desejo, transmitem irrefletidamente aos
falecidos, por fantasia, esse seu sentimento próprio, e com
enganosa esperança acreditam ser capazes disso por sua vez. Deus
é que sabe. No entanto,
ad haec se
Romanus Graiúsque et Barbarus Induperator
Erexit, causas discriminis atque laboris
Inde habuit, tanto major famae sitis est, quàm
Virtutis.145
138. Carneiro, javali, merluza, marsuíno. (N.T.)
139. Alusão ao Julgamento das vogais, LXXXVII, de Luciano de Samósata. (N.E.)
140. “não se ambiciona uma recompensa irrisória ou fútil”, Virgílio, Eneida, XII, 764. (N.E.)
141. “Crês que nos túmulos as cinzas e os manes se preocupam com isso?”, Virgílio,
Eneida, IV, 34. (N.E.)
142. “As medidas que tomei aniquilaram a glória dos lacedemônios”, Cícero, Tusculanes, V,
XVII, 49. (N.E.)
143. Cipião Africano. (N.T.)
144. “Do levante, para além do pântano meótida, não há ninguém que possa igualar-me em
seus feitos”, verso de Ênio, citado por Cícero, Tusculanes, V, XVII, 49. (N.E.)
145. “foi para esse objetivo que se ergueu um chefe romano, grego ou bárbaro, disso tirando
o motor de seus combates e trabalhos, tanto a sede de glória sobrepuja a sede de virtude”,
Juvenal, X, 137-141. (N.E.)
CAPÍTULO XLVII
Da incerteza de nosso julgamento
É bem o que diz este verso:
146,
há muitas possibilidades de falar em tudo, a favor e contra. Por
exemplo:
Vince Hannibal, et non seppe usar’ poi
Ben la vittoriosa sua ventura.147
Quem quiser tomar partido e valorizar, como nossa gente, o erro de
recentemente não termos mantido nosso avanço em Moncontour, ou
quem quiser acusar o rei da Espanha de não ter sabido fazer uso da
vantagem que teve contra nós em Saint Quentin, poderá dizer que
esse erro partiu de uma alma inebriada com sua boa fortuna, e de
um coração que, pleno e repleto desse começo de boa sorte, perde
o gosto de querer aumentá-lo, já bastante ocupado em digerir o que
tem; seus braços estão carregados, ele não pode segurar mais,
indigno que a fortuna lhe tenha posto um tal bem entre as mãos; pois
que proveito obtém ele se no entanto dá a seu inimigo meios de se
recuperar? Que esperança se pode ter de que ouse outra vez atacá-
los uma vez reunidos e restabelecidos, e de novo armados de
despeito e vingança, quem não ousou ou não soube persegui-los
totalmente destroçados e assustados?
Dum fortuna calet, dum conficit omnia terror.148
Mas, no fim, que pode ele esperar de melhor do que o que acaba de
perder? Não é como na esgrima, em que o número de toques dá a
vitória; enquanto o inimigo está em pé, deve-se recomeçar com mais
gana ainda; não é vitória, se não põe um fim à guerra. Naquela
escaramuça em que César ficou em desvantagem, perto da cidade
de Órico, ele criticou os soldados de Pompeu porque estaria perdido
se o capitão deles tivesse sabido vencer; e perseguiu-o com muito
mais obstinação quando foi sua vez. Mas por que não se dirá
também o contrário? Que é efeito de um espírito precipitado e
insaciável não saber pôr um fim à sua cobiça, que é abusar dos
favores de Deus querer fazê-los sair da medida que ele lhes
prescreveu, e que lançar-se de novo ao perigo depois da vitória é
recolocá-la mais uma vez à mercê do acaso, que uma das maiores
sabedorias na arte militar é não levar seu inimigo ao desespero. Sila
e Mário, tendo derrotado os mársios na Guerra Social, ao verem
restar mais uma tropa, que por desespero voltava a lançar-se sobre
eles como animais furiosos, acharam que não deviam esperar por
eles. Se o ardor do senhor de Foix não o tivesse impelido a perseguir
com avidez demasiada os remanescentes da vitória de Ravena, não
a teria manchado com sua morte. No entanto, a memória recente de
seu exemplo ainda serviu para preservar o senhor de Enghien de
igual infortúnio, em Cerisoles. É perigoso atacar um homem a quem
retirastes qualquer outro meio de escapar que não pelas armas, pois
a necessidade é uma violenta mestra, gravissimi sunt morsus
irritatae necessitatis.149
Vincitur haud gratis jugulo qui provocat hostem.150
Eis por que Fárax impediu o rei da Lacedemônia, que acabava de
ganhar a batalha contra os mantineanos, de ir enfrentar mil argianos
que tinham escapado ilesos da derrota; mas os deixasse fugir em
liberdade, para não chegar a pôr à prova sua virtude aguilhoada e
despeitada pelo infortúnio. Clodomiro, rei da Aquitânia, após sua
vitória perseguindo Gondemar, rei da Borgonha, vencido e fugitivo,
forçou-o a fazer-lhe frente, mas sua obstinação retirou-lhe o fruto de
sua vitória, pois ele morreu. Da mesma forma, quem tivesse que
escolher entre manter seus soldados rica e suntuosamente armados,
ou armados somente para a necessidade, se colocaria a favor do
primeiro partido, do qual eram Sertório, Filopêmen, Bruto, César e
outros, porque para o soldado sempre é um estímulo de honra e
glória ver-se paramentado, e um motivo para se tornar mais
obstinado no combate, tendo que salvar suas armas como sendo
seus bens e legados. Razão pela qual, diz Xenofonte, os asiáticos
levavam em suas guerras mulheres e concubinas, com suas joias e
riquezas mais caras. Mas também se diria, por outro lado, que antes
se deve retirar do soldado a preocupação de preservar-se do que
aumentá-la, que dessa forma ele temerá duplamente correr riscos,
além de se aumentar no inimigo a vontade da vitória, por esses ricos
despojos; e observou-se que em outras vezes isso encorajou
espantosamente os romanos contra os samnitas. Antíoco, mostrando
a Aníbal o exército que preparava contra eles, pomposo e magnífico
em todo tipo de equipamento e perguntando-lhe, “Os romanos se
contentarão com esse exército?”, Aníbal respondeu: “Se eles se
contentarão? Certamente sim, por mais avaros que sejam”. Licurgo
proibia aos seus não apenas a suntuosidade no equipamento, mas
ainda que despojassem os inimigos vencidos, querendo, dizia, que a
pobreza e a frugalidade reluzissem com o restante da batalha.
Em cercos e outra ocasiões, quando nos aproximamos do inimigo,
normalmente damos aos soldados licença para desafiá-lo,
menosprezá-lo e injuriá-lo com todo tipo de ofensas, e não sem
razão. Pois não é pouco retirar-lhes toda esperança de misericórdia
e negociação mostrando-lhes que não há mais como esperá-las de
quem tanto ultrajaram, e que não resta outro remédio além da vitória.
Mas isso custou muito a Vitélio; pois deparando-se com Oto, mais
fraco pelo valor de seus soldados, de longa data desacostumados a
guerrear e amolecidos pelas delícias da cidade, ele tanto os irritou
com suas palavras cortantes, criticando sua pusilanimidade e
saudade das mulheres e das festas que acabavam de deixar em
Roma, que dessa forma devolveu-lhes a coragem, o que nenhuma
exortação soubera fazer; e ele mesmo atraiu-os para si, coisa a que
não se conseguia lançá-los. E de fato, quando são injúrias que tocam
fundo, elas podem facilmente fazer com que aquele que ia sem
convicção ao trabalho pela causa de seu rei vá com outra emoção
pela sua própria.
Ao considerar quão importante é a preservação de um chefe em
um exército, e que a mira do inimigo visa principalmente essa
cabeça, à qual todas as outras estão ligadas e da qual dependem,
parece que não é possível colocar em dúvida esse partido que
vemos ser tomado por vários grandes chefes, de se travestir e
disfarçar no momento da contenda. Todavia, o inconveniente em que
se incorre por esse meio não é menor do que aquele que se pensa
evitar; pois vindo o capitão a ficar irreconhecível aos seus, a
coragem que tiram de seu exemplo e de sua presença vem ao
mesmo tempo a lhes faltar, e, perdendo de vista suas marcas e
insígnias familiares, eles o julgam morto ou tendo fugido
desesperançado da batalha. E quanto à experiência, vemo-la
favorecendo ora um, ora o outro partido. A história de Pirro na
batalha que travou contra o cônsul Levino na Itália serve para ilustrar
um e outro lado; pois, por ter tentado esconder-se sob as armas de
Demógacles e ter-lhe dado as suas ele sem dúvida salvou sua vida,
mas também esteve a ponto de incorrer no outro inconveniente de
perder a batalha. Alexandre, César e Lúculo gostavam de no
combate se destacarem por ornamentos e armas ricas, de cor
reluzente e particular; Ágis, Agesilau e aquele grande Gilipo, ao
contrário, iam para a guerra modestamente vestidos e sem insígnias
de comando.
Na batalha de Farsala, entre outras críticas que são feitas a
Pompeu está a de ter mantido seu exército imóvel esperando o
inimigo; porque isso (roubarei aqui as palavras exatas de Plutarco,
que valem mais do que as minhas) enfraquece a violência que o
correr dá aos primeiros golpes, e ao mesmo tempo elimina o impulso
dos combatentes uns contra os outros, que mais do que qualquer
coisa costuma enchê-los de impetuosidade e furor quando chegam a
se entrechocar com firmeza, aumentando-lhes a coragem pelo grito e
pela corrida; e isso torna o ardor dos soldados, por assim dizer, frio
e estático. Eis o que Plutarco diz sobre esse caso. Mas se César
tivesse perdido, quem também não poderia dizer que, ao contrário, a
posição mais forte e firme é aquela em que nos mantemos plantados
sem mexer, e que quem é detido em sua marcha, guardando e
poupando para a necessidade sua força em si mesmo, tem grande
vantagem contra quem se pôs em movimento e que já consumiu na
corrida metade de seu fôlego? Além de que, sendo o exército um
corpo de tantas partes diferentes, é impossível que se mova nessa
fúria com um movimento tão preciso que não altere ou rompa sua
ordem, e que o mais ágil não esteja combatendo antes que seu
companheiro o socorra. Naquela vil batalha dos dois irmãos persas,
o lacedemônio Clearco, que comandava os gregos do partido de
Ciro, levou-os tranquilamente ao ataque, sem se apressar; mas a
cinquenta passos de distância colocou-os a correr, esperando, pela
brevidade do espaço, preservar sua ordem e seu fôlego, dando-lhes
entrementes a vantagem da impetuosidade para suas pessoas e
para suas armas de arremesso. Outros resolveram essa dúvida em
seus exércitos dessa maneira: se os inimigos precipitam-se sobre
vós, esperai-os com pé firme; se vos esperam com pé firme,
precipitai-vos sobre eles.
Na passagem do imperador Carlos V pela Provence, o rei
Francisco teve que escolher entre ir a seu encontro na Itália ou
esperá-lo em suas terras; e embora considerasse quão vantajoso é
conservar sua casa isenta e livre dos distúrbios da guerra, a fim de
que, inteira em suas forças, ela possa continuamente fornecer
dinheiro e socorro se preciso; porque a necessidade das guerras a
todo momento leva a devastar o país, o que não pode ser feito
francamente em nossos bens pessoais, ainda que o camponês não
suporte tão facilmente essa devastação por aqueles de seu partido
quanto pelo inimigo, de maneira que disso podem facilmente resultar
sedições e distúrbios entre nós; porque a licença para roubar e
pilhar, que não pode ser permitida em seu próprio país, é um grande
auxílio nos tormentos da guerra, e quem não tem outra esperança de
ganho além de seu soldo é difícil que se mantenha no dever, estando
a dois passos de sua mulher e de seu lar; porque quem põe a mesa
sempre paga as despesas; porque há mais vigor em atacar do que
em defender; e porque o abalo da perda de uma batalha em nossas
entranhas é tão violento que é difícil que não abata o corpo todo,
visto que não há paixão contagiosa como o medo, nem que seja tão
facilmente contraída e que se espalhe mais bruscamente; e porque
as cidades que tiverem ouvido o estrondo dessa tempestade em
suas portas, que tiverem recolhido seus capitães e soldados ainda
trêmulos e sem fôlego correm o risco de que, no calor da ação, seus
habitantes se entreguem a algum mau partido; o rei francês escolheu
trazer de volta as forças que tinha além dos montes e ver o inimigo
chegar. Pois ele soube antecipar, pelo contrário, que estando em sua
terra e entre seus amigos não podia deixar de ter quantidade de
todas as facilidades; os rios e as passagens a seu dispor trariam
víveres e dinheiro em toda segurança e sem necessidade de escolta;
que teria seus súditos tanto mais devotados quanto mais perto
tivessem o perigo; que tendo tantas cidades e barreiras para sua
segurança caberia a ele tomar a iniciativa do combate, segundo
conveniência e vantagem; e que se lhe aprouvesse contemporizar, ao
abrigo e à sua vontade, poderia ver o inimigo cansar-se de esperar e
desorganizar-se devido às dificuldades que o atacariam preso em
terra inimiga onde não teria nem à frente, nem atrás, nem ao lado,
nada que não lhe fizesse guerra, nenhum meio de renovar ou reforçar
seu exército se surgissem doenças, nem de colocar a salvo os
feridos, nenhum dinheiro, nenhum alimento que não na ponta da
lança; nenhuma possibilidade para descansar e tomar fôlego;
nenhum conhecimento dos locais nem da região que o pudesse
proteger de emboscadas e surpresas; e, se viesse a perder uma
batalha, nenhum meio de salvar os sobreviventes. E não lhe faltavam
exemplos a favor de um e outro partido. Cipião achou bem melhor ir
atacar as terras do inimigo na África do que defender as suas e
combatê-lo na Itália, onde estava; onde se saiu bem. Mas, ao
contrário, Aníbal, nessa mesma guerra, arruinou-se por ter
abandonado a conquista de um país estrangeiro para ir defender o
seu. Os atenienses, tendo deixado o inimigo em suas terras para
invadir a Sicília, tiveram destino adverso; mas Agátocles, rei de
Siracusa, teve-o favorável ao invadir a África e deixar a guerra em
seu país. Assim, costumamos dizer com razão que os
acontecimentos e resultados em sua maioria dependem,
especialmente na guerra, da fortuna, que não quer se alinhar e
sujeitar à nossa razão e precaução, como dizem estes versos:
Et malè consultis pretium est: prudentia fallax,
Nec fortuna probat causas sequitúrque merentes:
Sed vaga per cunctos nullo discrimine fertur.
Scilicet est aliud quod nos cogátque regátque