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Ensaios_ da amizade e outros te - Michel de Montaigne

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Published by Everton Lopes, 2020-05-27 18:55:21

Ensaios_ da amizade e outros te - Michel de Montaigne

Ensaios_ da amizade e outros te - Michel de Montaigne

indisciplinatis196, fortuna, destino, acidente, ventura e desventura, e
os deuses, e outras expressões, à sua moda. Proponho minhas
ideias humanas simplesmente como ideias humanas, consideradas
individualmente, não como decretadas e reguladas por mandamento
celeste, incapaz de dúvida e controvérsia. Questão de opinião, não
questão de fé. O que penso segundo eu mesmo, não o que creio
segundo Deus, e de maneira laica, não clerical, mas sempre muito
religiosa. Como as crianças propõem seus ensaios, para ser
instruídos, não para instruir. E não se diria também com razão que
não deixaria de ter certa imagem de utilidade e justiça o decreto de
só permitir escrever bem reservadamente sobre religião a todos os
que não disso fazem sua expressa profissão, e a mim também,
talvez para calar-me? Disseram-me que aqueles mesmos que não
são dos nossos proíbem, no entanto, entre eles, o uso do nome de
Deus em suas conversas comuns; eles não querem que dele se
sirvam como interjeição ou exclamação, nem como testemunho, nem
como comparação, no que creio que têm razão. E, seja como for que
invoquemos a Deus para nossa companhia e convívio, é preciso que
seja de maneira séria e religiosa. Há em Xenofonte, parece-me, um
discurso assim, em que ele mostra que devemos mais raramente
rezar a Deus, visto que não é fácil conseguirmos com tanta
frequência colocar nossa alma nesse equilíbrio ordenado, corrigido e
devoto em que precisa estar para fazê-lo; do contrário, nossas
orações não são apenas vãs e inúteis, mas viciosas. “Perdoai-nos”,
dizemos, “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.” O
que dizemos com isso, se não que lhe oferecemos nossa alma isenta
de vingança e rancor? Todavia, invocamos Deus e sua ajuda ao

complô de nossas faltas, e o convidamos à injustiça.

Quae nisi seductis nequeas committere divis.197

O avarento reza pela conservação vã e supérflua de seus tesouros;
o ambicioso, por suas vitórias e pela condução de sua sorte; o
ladrão emprega-o para sua ajuda, para vencer o perigo e as
dificuldades que se opõem à execução de suas iniciativas maléficas,
ou agradece pela facilidade que encontrou ao degolar um passante.
Ao pé da casa que vão escalar ou explodir, eles fazem suas orações,
com a intenção e a esperança cheias de crueldade, luxúria e cupidez.

Hoc ipsum quo tu Jovis aurem impellere tentas,
Dic agedum, Staio, prob Juppiter, ô bone, clamet,
Juppiter, at sese non clamet Juppiter ipse.198

A rainha de Navarra, Margarida, conta de um jovem príncipe, e ainda
que não o nomeie sua grandeza o tornou suficientemente
reconhecível, que, indo a um encontro amoroso para dormir com a
mulher de um advogado de Paris, e cruzando seu caminho por uma
igreja, ele nunca passava por esse lugar santo, indo ou voltando de
sua atividade, sem fazer suas preces e orações. Deixo-vos julgar,
com a alma repleta desse belo pensamento, em que ele empregava
o favor divino; todavia, ela alega isso como testemunho de singular
devoção. Mas não é apenas por essa prova que poderíamos
verificar que as mulheres não são muito aptas a tratar das questões
da teologia. Uma verdadeira oração e uma reconciliação religiosa

entre nós e Deus não pode ocorrer em uma alma impura e, ao
mesmo tempo, submissa à dominação de Satã. Aquele que apela a
Deus em seu auxílio enquanto está no caminho do vício faz como o
ladrão de bolsas que chama a justiça em seu auxílio; ou como os que
invocam o nome de Deus em apoio a uma mentira;

tacito mala vota susurro,
Concipimus.199

Há poucos homens que ousariam trazer à luz os pedidos secretos
que fazem a Deus.

Haud cuivis promptum est, murmúrque humilésque susurros
Tollere de templis, et aperto vivere voto.200

Eis por que os pitagóricos queriam que elas fossem públicas e
ouvidas por todos, a fim de que não lhe pedissem coisa indecente e
injusta, como fez este:

clarè cùm dixit Apollo,
Labra movet metuens audiri: pulchra Laverna
Da mihi fallere, da justum sanctúmque videre.
Noctem peccatis, et fraudibus obiice nubem.201

Os deuses puniram gravemente os iníquos votos de Édipo,
concedendo-os. Ele pedira que seus filhos decidissem entre si, pelas
armas, a sucessão de seu trono, e foi infeliz de ver-se levado ao pé
da letra. Não se deve pedir que todas as coisas sigam nossa

vontade, mas que ela siga a sensatez. Parece, na verdade, que nos
servimos de nossas orações como de um jargão, e como os que
empregam as palavras santas e divinas em feitiçarias e efeitos
mágicos; e que esperamos que seu efeito dependa da junção, ou do
som, ou da sequência das palavras, ou de nossa atitude. Pois tendo
a alma cheia de concupiscência, não tocada pelo arrependimento,
nem por nenhuma nova reconciliação com Deus, vamos apresentar-
lhe essas palavras que a memória empresta à nossa língua, e disso
esperamos obter a expiação de nossas faltas. Não há nada tão fácil,
tão doce e tão favorável quanto a lei divina; ela nos chama a si, por
mais culpados e detestáveis que sejamos; ela nos estende a mão e
recebe-nos em seu colo, por mais vis, sujos e enlameados que
estejamos e que venhamos a estar no futuro. Mas também, em
contrapartida, é preciso olhá-la com bons olhos; também é preciso
receber esse perdão com ação de graças; e ao menos nesse
instante em que a ela nos dirigimos ter a alma desgostosa de suas
faltas e inimiga das paixões que nos levaram a ofendê-la; nem os
deuses nem as pessoas de bem, diz Platão, aceitam o presente de
um mau.

Immunis aram si tetigit manus,
Non sumptuosa blandior hostia
Mollivit aversos Penates,
Farre pio et saliente mica.202

191. “se para cometer teus adultérios noturnos tu escondes e envolves tuas têmporas num
capuz da Saintonge”, Juvenal, VIII, 144-145. (N.E.)

192. Os que prontamente se arrependem. (N.T.)

193. A Reforma protestante. (N.T.)

194. “Corações ao alto”, palavras que marcam o início da celebração da Eucaristia na missa
católica. (N.E.)

195. “Ó, Júpiter, porque de ti nada sei além do nome”, fragmento de Eurípides citado por
Plutarco. (N.E.)

196. “em termos inadequados”, expressão de Santo Agostinho, A cidade de Deus, X, XXIX.
(N.E.)

197. “O que só poderíamos confessar aos deuses em aparte”, Pérsio, II, 4. (N.E.)

198. “O mesmo que queres confiar ao ouvido de Júpiter diz então a Staio: ‘Por Júpiter, ó bom
Júpiter!’, invocaria ele; e Júpiter não se invocaria a si mesmo?”, Pérsio, II, 21-23. (N.E.)

199. “em voz baixa, formulamos nossos votos criminosos”, Lucano, V, 104-105. (N.E.)

200. “Não é permitido a qualquer um expulsar dos templos os murmúrios e cochichos furtivos
e fazer seus votos a descoberto”, Pérsio, II, 6-7; (N.E.)

201. “ele diz em voz alta: ‘Apolo’; depois, temendo ser ouvido, sopra baixinho: ‘Bela Laverna,
concede-me enganar, concede-me parecer justo e piedoso, faz noite sobre meus pecados e
minhas falcatruas, cobre-as com uma nuvem!”, Horácio, Epístolas, I, XVI, 59-62. (N.E.)

202. “Se uma mão pura tocou no altar, não há necessidade de uma suntuosa vítima para
adular e acalmar os penates hostis: farinha consagrada e um grão de sal crepitante são
suficientes”, Horácio, Odes, III, XXIII, 17-20. (N.E.)

CAPÍTULO LVII

Da idade

Não posso aceitar a maneira como estabelecemos a duração de
nossa vida. Vejo que os sábios a encurtam muito relativamente à
opinião comum. “Como”, diz o jovem Catão aos que queriam impedi-
lo de se matar, “estarei agora na idade em que possam censurar-me
por abandonar a vida cedo demais?” No entanto, tinha apenas 48
anos. Estimava essa idade bem madura e bem avançada,
considerando quão poucos homens a atingem; e os que se deleitam
com não sei que curso que chamam de natural, que promete alguns
anos a mais, bem poderiam fazê-lo se tivessem o privilégio que os
eximisse de tão grande número de infortúnios a que cada um de nós
está exposto por natural sujeição, e que podem interromper esse
curso que eles se prometem. Que ilusão é esperar morrer de um
esmorecimento de forças devido à extrema velhice e propor-se esse
fim para a duração de nossa vida, visto que é o tipo de morte mais
rara de todas, e a menos usual! É a única que chamamos de natural,
como se fosse antinatural ver um homem quebrar o pescoço em uma
queda, afogar-se em um naufrágio, deixar-se surpreender pela peste
ou por uma pleurisia, como se nossa condição normal não nos
expusesse a todos esses inconvenientes. Não nos deleitemos com
essas belas palavras; talvez antes devamos chamar de natural o que
é geral, comum e universal. Morrer de velhice é uma morte rara,
singular e extraordinária, e ainda menos natural do que as outras; é a

última e extrema maneira de morrer, quanto mais afastada está de
nós, menos é esperável; é de fato o limite além do qual não iremos e
que a lei da natureza prescreveu para não ser ultrapassado; mas é
um raro privilégio que ela nos faça durar até lá. É uma isenção que
ela concede por favor particular, a um só no espaço de dois ou três
séculos, desobrigando-o dos reveses e das dificuldades que ela
lançou ao longo desse longo caminho. Assim, minha opinião é olhar a
idade a que chegamos como uma idade a que poucas pessoas
chegam. Visto que no andamento comum os homens não chegam até
ela, é sinal de que estamos bem à frente. E visto que ultrapassamos
os limites habituais, que são a verdadeira medida de nossa vida, não
devemos esperar ir muito além; tendo escapado de tantas ocasiões
de morrer, em que vemos os homens tropeçar, devemos reconhecer
que uma sorte extraordinária como esta que nos mantém, e que está
fora do comum, não deve durar muito. É um defeito das próprias leis
apresentar esta ideia falsa: elas não querem que um homem seja
capaz de gerir seus bens antes que tenha 25 anos, quando muito ele
manterá até então a gerência de sua vida. Augusto suprimiu cinco
anos das antigas ordenações romanas, e declarou que bastava, aos
que assumiam um cargo de juiz, ter trinta anos. Sérvio Túlio
dispensou os cavaleiros que tinham passados dos 47 anos das
corveias da guerra; Augusto dispensou-os aos 45. Não me parece
haver muita razão para mandar os homens para casa antes dos 55
ou sessenta anos. Eu seria de opinião que o período de atividade e
ocupação fosse estendido tanto quanto possível, para o interesse
público; mas vejo erro do outro lado, de não começarmos a trabalhar
mais cedo. Aquele que foi juiz universal do mundo aos dezenove anos

quer que para decidir o lugar de uma calha se tenha trinta. Quanto a
mim, considero que aos vinte anos nossas almas se tornaram o que
deverão ser, e que prometem tudo o que poderão. Jamais alma que
não tenha dado nessa idade garantias bastante evidentes de sua
força deu prova disso depois. As qualidades e virtudes naturais
produzem nesse prazo, ou nunca, o que têm de vigoroso e belo.

Se l’espine nou picque quand nai,
A pene que pique jamai,203 dizem no Dauphiné.

De todas as belas ações humanas que chegaram a meu
conhecimento, de qualquer tipo que sejam, nos séculos antigos ou no
nosso, eu pensaria que teria mais a enumerar entre as que foram
produzidas antes da idade de trinta anos do que depois. Com
frequência na vida dos mesmos homens também. Não posso dizer
isso com toda a certeza das de Aníbal e Cipião, seu grande
adversário? A boa metade de suas vidas eles viveram da glória
adquirida na juventude; grandes homens desde então, em
comparação com todos os outros mas nem um pouco em
comparação a si mesmos. Quanto a mim, tenho por certo que desde
essa idade meu espírito e meu corpo mais diminuíram do que
aumentaram, e mais recuaram que avançaram. É possível que, para
os que empregam bem o tempo, o conhecimento e a experiência
cresçam com a vida, mas a vivacidade, a prontidão, a firmeza e
outras partes bem mais nossas, mais importantes e essenciais,
fenecem e elanguescem;

ubi iam validis quassatum est viribus aevi
Corpus, et obtusis ceciderunt viribus artus,
Claudicat ingenium, delirat linguàque ménsque.204

Ora é o corpo que primeiro se rende à velhice, ora também é a alma;
vi muitos que tiveram o cérebro enfraquecido antes do estômago e
das pernas; e visto que é um mal pouco sensível para quem dele
sofre, e difícil de ver, mais perigoso é. Dessa vez, queixo-me das leis
não porque nos mantêm até muito tarde no trabalho, mas porque
nele nos colocam muito tarde. Parece-me que, considerando a
fraqueza de nossa vida e a quantos perigos correntes e naturais está
exposta, não se deveria dedicar tanto tempo ao crescimento, às
brincadeiras e ao aprendizado.

203. “Se o espinho não espeta ao nascer, dificilmente espetará um dia.” (N.T)

204. “uma vez que as rudes forças do tempo abalaram nosso corpo, que nossos membros
se alquebraram, suas forças esmoreceram, nosso espírito claudica, nossa língua e nossa
razão descarrilham”, Lucrécio, III, 451-453. (N.E.)

* Escritor, ensaísta e professor de literatura brasileira da UFRGS. É autor, entre outros, de
Inteligência com dor: Nelson Rodrigues ensaísta (Arquipélago, 2009).

Texto de acordo com a nova ortografia.
Título original: Les Essais
Primeira edição na Coleção L&PM Pocket: agosto de 2017
Tradução: Julia da Rosa Simões
Apresentação: Luís Augusto Fischer
Capa: Ivan Pinheiro Machado. Ilustração: pintura de
Montaigne por autor anônimo
Preparação: Patrícia Rocha
Revisão: Patrícia Yurgel

CIP-Brasil. Catalogação na publicação
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

M762e
Montaigne, Michel de, 1533-1592
Ensaios: Da amizade e outros textos / Michel de Montaigne;
tradução Julia da Rosa Simões. – Porto Alegre, RS: L&PM,
2017.
(Coleção L&PM Pocket; 1214)
Tradução de: Les Essais

ISBN 978-85-254-3710-5
1. Filosofia francesa. 2. Ensaios. I. Título.
16-32256 CDD: 194
CDU: 1(44)

© da tradução e notas, L&PM Editores, 2016
Todos os direitos desta edição reservados a L&PM Editores
Rua Comendador Coruja, 314, loja 9 – Floresta – 90220-
180
Porto Alegre – RS – Brasil / Fone: 51.3225.5777 – Fax:
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Pedidos & Depto. Comercial: [email protected]
Fale conosco: [email protected]
www.lpm.com.br

Table of Contents

Apresentação - Tudo de contingente, tudo de humano
ENSAIOS

Ao leitor
LIVRO PRIMEIRO (continuação)
XXVI - É loucura associar o verdadeiro e o falso à nossa
competência
XXVII - Da amizade
XXVIII - Vinte e nove sonetos de Étienne de la Boétie
XXIX - Da moderação
XXX - Dos canibais
XXXI - Que é preciso sobriedade para se meter a julgar os
decretos divinos
XXXII - De fugir das volúpias ao preço da vida
XXXIII - A fortuna muitas vezes vai ao encontro da razão
XXXIV - De um defeito de nossa administração
XXXV - Do hábito de vestir-se
XXXVI - Do jovem Catão
XXXVII - Como choramos e rimos de uma mesma coisa
XXXVIII - Da solidão
XXXIX - Consideração sobre Cícero
XL - Que o gosto dos bens e dos males depende em boa
medida da opinião que temos deles
XLI - De não transmitir sua glória
XLII - Da desigualdade que existe entre nós
XLIII - Das leis suntuárias
XLIV - Do dormir
XLV - Da batalha de Dreux
XLVI - Dos nomes

XLVII - Da incerteza de nosso julgamento
XLVIII - Dos destriers
XLIX - Dos costumes antigos
L - De Demócrito e Heráclito
LI -Da vanidade das palavras
LII -Da parcimônia dos antigos
LIII -De uma frase de César
LIV -Das vãs sutilezas
LV -Dos cheiros
LVI -Das orações
LVII -Da idade


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