Maius, et in proprias ducat mortalia leges.151
Mas parece, pensando bem, que nossos conselhos e deliberações
dela dependem tanto quanto, e que a fortuna envolve em sua
desordem e incerteza também nossa razão. Raciocinamos de
maneira arriscada e temerária, diz Timeu em Platão, porque, como
nós, nossos raciocínios têm grande participação dos riscos do
acaso.
146. “Quantas palavras possíveis, de um lado como do outro”, Homero, Ilíada, XX, 249. (N.E.)
Montaigne propõe uma tradução logo a seguir. (N.T.)
147. “Aníbal venceu, e depois não soube usar habilmente sua vitoriosa fortuna”, Petrarca,
Canzoniere, CIII, 1-2. (N.E.)
148. “Quando a fortuna ri, quando o terror toma tudo”, Lucano, VII, 734. (N.E.)
149. “as mordidas da necessidade irritada são terríveis”, Pórcio Latro, Declamações, citado
por Justo Lípsio, Politicorum libri VI, V, XVIII. (N.E.)
150. “Vende caro sua derrota aquele que provoca o inimigo com seu pescoço descoberto”,
Lucano, IV, 275. (N.E.)
151. “Maus projetos são recompensados, a prudência engana e a fortuna não vem nem
confirmar nem acompanhar as boas causas; errante, ela assiste todos sem discriminação. É
que um princípio superior nos domina, nos rege e mantém os mortais sob suas próprias leis”,
Manílio, IV, 95-99. (N.E.)
CAPÍTULO XLVIII
Dos destriers
Eis que me tornei gramático, eu que nunca aprendi uma língua a não
ser pela prática, e que não sei nem mesmo o que é um adjetivo, um
subjuntivo, um ablativo. Parece-me ter ouvido dizer que os romanos
tinham cavalos que chamavam de funales ou dextrarios, que eram
conduzidos com a mão direita ou como cavalos de muda, para serem
utilizados descansados quando necessário; e vem daí que
chamemos destriers os cavalos de serviço. E nossos romances
geralmente dizem adestrer para acompanhar. Eles também
chamavam de desultorios equos os cavalos que eram treinados de
maneira a que, correndo com toda velocidade, acoplados um ao lado
do outro, sem rédea, sem sela, no meio da corrida, os fidalgos
romanos, mesmo completamente armados, passassem e
repassassem de um a outro. Os soldados númidas levavam pela
mão um segundo cavalo para trocar no auge da disputa: quibus,
desultorum in modum, binos trahentibus equos, inter acerrimam
saepe pugnam in recentem equum ex fesso armatis transsultare,
mos erat. Tanta velocitas ipsis, támque docile equorum genus!152
Existem muitos cavalos treinados para socorrer o dono, atirar-se
sobre quem lhes mostrar uma espada nua, lançar-se com patas e
dentes sobre aqueles que o atacam e enfrentam; mas acontece-lhes
com mais frequência prejudicar os amigos do que os inimigos. Além
disso, não os fareis abandonar o adversário à vossa vontade quando
estão lutando, e permaneceis à mercê de seu combate. As
consequências foram muito ruins para Artíbio, general do exército da
Pérsia, lutando contra Onesilo, rei de Salamina, homem contra
homem, por estar montado em cavalo treinado nessa escola, pois
ele foi a causa de sua morte; o escudeiro de Onesilo atingiu-o com
uma foice entre os ombros quando ele se empinou contra seu dono.
E isso que os italianos dizem, que na batalha de Fornovo o cavalo do
rei Carlos se livrou com coices e pinotes dos inimigos que o
acossavam, e que sem isso ele estaria perdido, foi um grande golpe
de sorte, se for verdade. Os mamelucos gabam-se de ter os mais
hábeis cavalos de soldados do mundo. Que por natureza e por
costume eles são capazes de reconhecer e distinguir o inimigo sobre
o qual devem se precipitar com dentes e patas, segundo o som ou
sinal que lhes for feito. E, da mesma forma, a juntar com a boca as
lanças e os dardos do meio da praça e oferecê-los ao dono segundo
o seu comando. Diz-se de César, e também do grande Pompeu, que
entre outras de suas excelentes qualidades eles eram muito bons
cavaleiros; e, de César, que em sua juventude, montado em pelo e
sem rédea, ele o fazia correr com as mãos nas costas. Como a
natureza quis fazer desse personagem e de Alexandre dois prodígios
na arte militar, direis que ela também se esforçou para armá-los de
maneira extraordinária; pois todos sabem que o cavalo de Alexandre,
Bucéfalo, que tinha a cabeça como a de um touro, que não se
deixava montar por ninguém além de seu dono e que só podia ser
treinado por ele, foi honrado depois de sua morte e uma cidade foi
construída em seu nome. César também tinha um outro que tinha as
patas dianteiras como um homem, o casco cortado em forma de
dedos, que só podia ser montado e treinado por César, que dedicou
sua estátua à deusa Vênus depois que ele morreu. Quando estou a
cavalo, não desmonto de bom grado, pois é o assento em que
melhor me sinto, sadio ou doente; Platão o recomenda para a saúde;
Plínio também diz que é salutar para o estômago e para as juntas.
Continuemos, então, já que estamos nisso. Lê-se em Xenofonte a lei
que proíbe de viajar a pé homem que tivesse cavalo. Trogo e Justino
dizem que os partos costumavam fazer a cavalo não apenas a
guerra mas também todos os seus negócios públicos e privados,
comerciar, parlamentar, conversar e passear; e que entre eles a
mais notável diferença entre os homens livres e os escravos é que
uns andam a cavalo, os outros a pé; instituição surgida com o rei
Ciro. Há vários exemplos na história romana (e Suetônio observa-o
mais particularmente em César) de capitães que ordenavam a seus
cavaleiros que apeassem quando se encontrassem ameaçados, para
tirar dos soldados qualquer esperança de fuga e pela vantagem que
esperavam nesse tipo de combate: Quo haud dubiè superat
Romanus, diz Tito Lívio.153 Além disso, a primeira precaução que
eles tomavam para conter a rebelião dos povos de conquista recente
era tirar-lhes armas e cavalos. Por isso vemos tão amiúde em
César: arma proferri, jumenta produci, obsides dari jubet.154 O
grande sultão hoje não permite nem a cristão nem a judeu sob seu
poder ter um cavalo próprio. Nossos ancestrais, e especialmente no
tempo da guerra com os ingleses, em combates solenes e batalhas
combinadas, na maior parte do tempo ficavam a pé, para não se
fiarem em outra coisa além de sua própria força e do vigor de sua
coragem e de seus membros, coisa tão valiosa quanto a honra e a
vida. Não importa o que diga Crisanto em Xenofonte, empenhais
vosso valor e vossa fortuna nos de vosso cavalo, seus ferimentos e
sua morte levam à vossa como consequência, seu temor ou sua fuga
vos tornam temerário ou covarde, se ele não obedece ao freio ou à
espora, é vossa honra que responderá por isso. Por causa disso não
acho estranho que aqueles combates fossem mais duros e mais
furiosos do que os que são feitos a cavalo,
cedebant pariter, paritérque ruebant
Victores victíque, neque his fuga nota, neque illis.155
Suas batalhas revelam-se muito mais disputadas; hoje não passam
de debandadas; primus clamor atque impetus rem decernit.156 Coisa
a que recorremos em tão grande risco deve estar sob nosso poder o
máximo possível; assim como eu aconselharia escolher as armas
mais curtas e aquelas pelas quais podemos melhor responder. É
muito mais razoável ter confiança na espada que temos em punho do
que na bala que sai de nossa pistola na qual há várias peças, a
pólvora, a pedra, a roda, dentre as quais a mínima que venha a
falhar vos fará falhar em vossa fortuna. Desferimos com pouca
segurança o golpe que o ar conduz,
Et quò ferre velint permittere vulnera ventis,
Ensis habet vires, et gens quaecunque virorum est,
Bella gerit gladiis.157
Mas, quanto a esta arma, falarei mais amplamente quando comparar
as armas antigas às nossas; e salvo o barulho que atinge os ouvidos,
a que todos já estão acostumados, creio que é uma arma bem pouco
eficaz, e espero que abandonemos um dia seu uso. A que os
italianos utilizavam, de arremesso e fogo, era mais apavorante. Eles
chamavam de falárica um certo tipo de lança, armada na ponta com
um ferro de três pés que podia atravessar de lado a lado um homem
com armadura; e era lançada ora com a mão, em campo aberto, ora
com máquinas, para defender os lugares sitiados; a haste, revestida
com estopa coberta de resina e óleo, inflamava-se no trajeto e,
prendendo-se ao corpo ou ao escudo, impedia totalmente o uso de
armas e membros. No entanto, parece-me que quando do corpo a
corpo ela também prejudicava o atacante, e que o campo juncado
daqueles fragmentos incandescentes constituía na contenda um
incômodo geral;
magnum stridens contorta Phalarica venit
Fulminis acta modo.158
Eles tinham outros meios, em que a prática os tornava hábeis, e que
por inexperiência nos parecem inacreditáveis, com que supriam a
falta de nossa pólvora e de nossas balas. Eles arremessavam seus
dardos com tal vigor que muitas vezes atingiam dois escudos e dois
homens com armadura, e os perfuravam. Os disparos de suas
fundas não eram menos certeiros e de longo alcance: saxis globosis
funda, mare apertum incessentes: coronas modici circuli magno ex
intervallo loci assueti trajicere: non capita modò hostium
vulnerabant, sed quem locum destinassent.159 Suas armas de
arremesso tinham o mesmo efeito e faziam o mesmo estrépito das
nossas: ad ictus moenium cum terribili sonitu editos, pavor et
trepidatio coepit.160 Os gauleses nossos primos, na Ásia, odiavam
essas armas traiçoeiras e voadoras, habituados a combater corpo a
corpo com mais coragem. Non tam patentibus plagis moventur, ubi
latior quàm altior plaga est, etiam gloriosius se pugnare putant:
iidem quum culeus sagittae aut glandis abditae introrsus tenui
vulnere in speciem urit: tum in rabiem et pudorem tam parvae
perimentis pestis versi, prosternunt corpora humi.161 Descrição bem
próxima a um tiro de arcabuz. Os dez mil gregos, em sua longa e
famosa retirada, encontraram um povo que lhes causou
assombrosos danos com arcos grandes e fortes e flechas tão longas
que ao serem recuperadas podiam ser lançadas como um dardo e
perfuravam de lado a lado um escudo e um homem com armadura.
Os aparelhos que Dionísio inventou em Siracusa, para lançar
grandes projéteis pesados e pedras de tamanho assustador, com
tão grande alcance e ímpeto, assemelhavam-se bastante às nossas
invenções. Também é preciso não esquecer a atitude engraçada que
tinha sobre sua mula um mestre Pierre Pol, doutor em teologia, que
Monstrelet conta ter o costume de passear pela cidade de Paris
sentado de lado como as mulheres. Ele também diz, alhures, que os
gascões tinham cavalos terríveis, acostumados a dar meia-volta a
galope, com o que franceses, picardos, flamengos e brabantinos
muito se espantavam, por não estarem acostumados a ver isso,
segundo as palavras dele. César, falando dos da Suévia, diz: “Nos
combates a cavalo, eles muitas vezes saltam ao chão para combater
a pé, tendo acostumado seus cavalos a não sair do lugar enquanto
isso, aos quais recorrem prontamente se necessário; e, segundo seu
costume, não há nada mais vil e covarde do que usar selas e
armaduras nos cavalos, e eles desprezam os que as usam; de
maneira que mesmo em número bastante reduzido não temem
atacar muitos”. O que outrora me admirou, ao ver um cavalo
adestrado para ser conduzido de todas as formas com uma varinha e
a rédea baixada sobre as orelhas, era comum entre os massilianos,
que utilizavam seus cavalos sem sela e sem rédea.
Et gens quae nudo residens Massilia dorso,
Ora levi flectit, fraenorum nescia, virga.162
Et Numidae infraeni cingunt.163
Equi sine fraenis, deformis ipse cursus, rigida cervice et extento
capite currentium.164 O rei Afonso, aquele que instituiu na Espanha a
ordem dos Cavaleiros da Banda, ou da Echarpe, deu-lhes, entre
outras regras, a de não montar nem mula nem jumento, sob pena de
um marco de prata como multa, como acabo de saber pelas cartas
de Guevara, e os que as chamaram de “douradas” tinham sobre elas
um julgamento bem diferente do que faço. O Cortesão diz que antes
de seu tempo era censurável a um fidalgo cavalgá-los.165 Os
abissínios, pelo contrário, à medida que estão mais próximos do
Preste João, seu príncipe, procuram pela dignidade e pompa montar
grandes mulas. Xenofonte conta que os assírios mantinham sempre
os cavalos presos em casa, de tão irritáveis e selvagens que eram; e
que era preciso tanto tempo para soltá-los e arreá-los que, para que
essa demora não os prejudicasse se viessem a ser surpreendidos
pelos inimigos, eles nunca se instalavam em acampamento que não
tivesse fosso e muralha. Seu Ciro, tão grande mestre na arte da
cavalaria, fazia os cavalos pagarem sua parte, e fazia com que não
lhes dessem comida antes que a tivessem merecido pelo suor de
algum exercício. Os citas, quando na guerra a necessidade os
pressionava, tiravam sangue de seus cavalos e com eles matavam a
sede e se alimentavam.
Venit et epoto Sarmata pastus equo.166
Os cretenses, sitiados por Metelo, viram-se em tal penúria de
qualquer outra bebida que tiveram que beber a urina de seus
cavalos. Para provar o quanto os exércitos turcos se conduzem e
mantêm com melhor disciplina do que os nossos, diz-se que, além de
os soldados só beberem água e só comerem arroz e carne salgada
reduzida a pó (cada um facilmente carrega consigo provisão para um
mês), eles também sabem viver do sangue de seus cavalos, como
os tártaros e os moscovitas, e salgam-no. Esses novos povos das
Índias, quando os espanhóis lá chegaram, pensaram que tanto os
homens quanto os cavalos fossem deuses ou animais, de natureza
mais nobre que a deles; alguns, depois de terem sido vencidos, indo
pedir paz e perdão aos homens e levar-lhes ouro e alimentos, não
deixaram de oferecer o mesmo aos cavalos, com palavras iguais às
que dirigiam aos homens, tomando seus relinchos por linguagem de
negociação e trégua. Nas Índias de cá, antigamente a honraria mais
importante e soberana era cavalgar um elefante, a segunda era
andar em carro puxado por quatro cavalos, a terceira era montar um
camelo e a última e de mais baixo grau era ser levado ou puxado por
um único cavalo. Alguém de nossa época escreveu ter visto, naquele
país, regiões onde se cavalgam os bois, com albardas, estribos e
rédeas, e ter apreciado aquele transporte. Quinto Fábio Máximo
Rutiliano, contra os samnitas, vendo que seus cavaleiros em três ou
quatro ataques tinham falhado em rechaçar o batalhão inimigo,
tomou essa decisão: que eles tirassem o freio dos cavalos e os
esporeassem com toda a força, de forma que, não podendo pará-
los, através das armas e dos homens derrubados eles abriram
caminho para sua infantaria, que completou uma sangrenta derrota.
A mesma coisa ordenou Quinto Fúlvio Flaco contra os celtiberos: Id
cum maiore vi equorem facietis, si effraenatos in hostes equos
immittitis: quod saepe Romanos equites cum laude fecisse
memoriae proditium est. Detractisque fraenis bis ultrò citróque cum
magna straege hostium, infractis omnibus hastis, transcurrerunt.167
O duque da Moscóvia antigamente devia esse sinal de submissão
aos tártaros: quando lhe enviavam embaixadores, ia encontrá-los a
pé, e oferecia-lhes uma taça de leite de jumenta (bebida que lhes era
deliciosa), e se, ao beberem, alguma gota caísse sobre a crina de
seus cavalos, era obrigado a lambê-la com a língua. Na Rússia, o
exército que o imperador Bajazet para lá enviara foi assolado por tão
terrível tempestade de neve que, para se protegerem e salvarem do
frio, vários decidiram matar e estripar seus cavalos para dentro deles
se refugiarem e se beneficiarem daquele calor vital. Bajazet, depois
daquela amarga derrota em que foi arrasado por Tamerlão, fugia
rapidamente sobre uma égua árabe; se não tivesse sido obrigado a
deixá-la beber à saciedade ao passar por um riacho, o que a deixou
tão vacilante e esmorecida, não teria sido facilmente alcançado pelos
que o perseguiam. Dizem que os amolecemos deixando-os urinar,
mas eu teria pensado que deixá-los beber os fortaleceria. Creso,
passando ao longo da cidade de Sardes, encontrou pastos onde
havia grande quantidade de serpentes, que os cavalos de seu
exército comiam com grande apetite, o que foi um mau presságio
para seus assuntos, diz Heródoto. Chamamos de cavalo inteiro
aquele que tem crina e orelhas, os outros não são postos à venda.
Os lacedemônios, tendo derrotado os atenienses na Sicília,
retornando da vitória com pompas à cidade de Siracusa, entre outras
bravatas mandaram tosar os cavalos vencidos, e assim os
conduziram em triunfo. Alexandre combateu um povo, os dahas, que
iam dois a dois a cavalo armados para a guerra, mas no embate um
descia ao chão e eles combatiam, um após o outro, ora a pé, ora a
cavalo. Não julgo que, em competência e graça a cavalo, alguma
nação nos supere. Um bom cavaleiro, em nossa maneira de falar,
parece mais referir-se à coragem que à destreza. O mais hábil, o
mais seguro e o mais gracioso que conheci a domar um cavalo foi,
em minha opinião, o senhor de Carnavalet, que nisso servia nosso rei
Henrique II. Vi um homem colocar o cavalo a galope com os dois pés
sobre a sela, colocá-la para baixo e depois reerguê-la, reajustá-la e
voltar a sentar-se, sempre correndo à rédea solta; depois de passar
por cima de um chapéu, acertar-lhe de costas flechas de seu arco;
juntar o que quisesse, lançando-se com um pé ao chão e mantendo o
outro no estribo; e outras macaquices semelhantes, das quais vivia.
Em meu tempo, viram em Constantinopla dois homens sobre um
cavalo, os quais, em seu mais rápido galope, se lançavam
alternadamente ao chão, e depois sobre a sela; e um que, usando
apenas os dentes, arreava e selava seu cavalo. Um outro, que entre
dois cavalos, com um pé em uma sela e o outro em outra,
carregando outro homem, corria à rédea solta; esse segundo
homem, em pé sobre ele, lançava a galope flechas certeiras com seu
arco. Vários que, pernas para o ar, davam rédea solta com a cabeça
plantada nas selas, entre as pontas de cimitarras presas aos arreios.
Em minha infância, o príncipe de Sulmone, em Nápoles, manejando
um cavalo feroz em todo tipo de exercícios, mantinha moedas sob os
joelhos e sob os dedos dos pés, como se estivessem pregadas a
eles, para mostrar a firmeza de sua postura.
152. “levando consigo dois cavalos, eles tinham o hábito, à maneira dos acrobatas, em meio
aos mais árduos combates, de saltar completamente armados do cavalo cansado para o
cavalo de reserva. Quão grande era sua agilidade e quão bem treinados seus cavalos!”, Tito
Lívio, XXIII, XXIX, 5. (N.E.)
153. “Onde sem dúvida alguma o romano prevalece”, Tito Lívio, IX, XXII, 10. (N.E.)
154. “ele ordena que entreguem as armas, que tragam os cavalos, que libertem os reféns”,
César, De bello gallico, VII, 11. (N.E.)
155. “vencedores e vencidos recuavam igualmente, iam igualmente ao assalto, e a fuga não
era conhecida nem de uns nem de outros”, Virgílio, Eneida, X, 756-757. (N.E.)
156. “o primeiro clamor, o primeiro embate decidem o combate”, Tito Lívio, XXV, XLI, 6. (N.E.)
157. “E deixam os ventos levarem o golpe para onde quiserem; a espada tem sua força em
si, e toda nação guerreira faz a guerra com o gládio”, Lucano, VIII, 384-386. (N.E.)
158. “a falárica é lançada, ela chega com um ruído estridente e cai como um raio”, Virgílio,
Eneida, IX, 705-706. (N.E.)
159. “treinado a lançar seixos ao alto mar com a funda, habituados a enviá-los a longas
distâncias e fazê-los passar por pequenas auréolas, eles atingiam os inimigos não apenas na
cabeça como, além disso, em um ponto preciso”, Tito Lívio, XXXVIII, XXIX, 4. (N.E.)
160. “ao terrível estrondo dos golpes feitos contra a muralha, eles foram tomados de terror e
pavor”, Tito Lívio, XXXVIII, V, 3-4. (N.E.)
161. “Eles não são afetados pelo tamanho das chagas, pois quando a chaga é mais extensa
que profunda eles julgam que o combate foi mais glorioso; mas quando os queima por um
pequeno ferimento na superfície a ponta de uma flecha ou a bala de uma funda neles
penetrada, então, tomados e raiva de vergonha por serem abatidos por coisa tão pequena,
eles rolam no chão”, Tito Lívio, XXXVIII, XXI, 10-11. (N.E.)
162. “E o povo que habita a Massília, montando em pelo e desconhecendo o freio, os conduz
com uma pequena varinha”, Lucano, IV, 682-683. (N.E.)
163. “E os númidas montam sem freio”, Virgílio, Eneida, IV, 41. (N.E.)
164. “A marcha de um cavalo sem freio não tem elegância, com o pescoço rígido e a cabeça
esticada no galope”, Tito Lívio, XXXV, XI, 1. (N.E.)
165. Trata-se de O livro do cortesão, de B. Castiglione. (N.T.)
166. “Veio também o sármata que mata a sede com o sangue do cavalo”, Marcial, De
spectaculis, III, 4. (N.E.)
167. “Tereis mais força lançando contra o inimigo vossos cavalos sem os freios; louvam-se
nos anais os cavaleiros romanos por terem-no feito com sucesso muitas vezes. E tendo
soltado o freio, fizeram uma carnificina, passando e repassando por entre o inimigo cujas
lanças quebraram”, Tito Lívio, XL, XL. (N.E.)
CAPÍTULO XLIX
Dos costumes antigos
Eu de bom grado desculparia nosso povo por não ter outro modelo e
regra de perfeição que seus próprios costumes e hábitos; pois é uma
tendência comum, não apenas do vulgo mas de quase todos os
homens, terem suas aspirações e limites na maneira de viver do
lugar em que nasceram. Fico satisfeito que, ao olhar para Fabrício
ou Lélio, considere-lhes a aparência e a atitude bárbaras, visto não
estarem vestidos nem conformados à nossa moda. Mas lamento sua
falta de discernimento em tanto se deixar enganar e cegar pela
autoridade do uso atual, que ele seja capaz de mudar de opinião e
de ideia todos os meses se ao costume assim aprouver, e que julgue
tão diversamente de si mesmo. Quando usava as barbatanas de seu
gibão entre os mamilos, sustentava por vivos argumentos que
estavam em seu devido lugar; alguns anos depois, ei-las que descem
até as coxas e ele zomba de seu outro uso, acha-o absurdo e
insuportável. A maneira atual de vestir-se faz com que condene
imediatamente a antiga, com uma firmeza tão grande e uma
aceitação tão geral que diríeis que é uma espécie de mania que
assim lhe transtorna o entendimento. Como nisso nossa mudança é
tão súbita e tão pronta que a imaginação de todos os alfaiates do
mundo não poderia fornecer novidades suficientes, é forçoso que
com muita frequência as formas menosprezadas voltem a crédito, e
que essas mesmas caiam em descrédito logo em seguida; e que um
mesmo julgamento, no espaço de quinze ou vinte anos, assuma duas
ou três opiniões, não apenas diferentes mas contrárias, com incrível
inconstância e leviandade. Não há ninguém tão arguto entre nós que
não se deixe levar por essas contradições e imperceptivelmente
ofuscar tanto os olhos internos quantos os externos. Quero aqui
reunir alguns costumes antigos que tenho na memória, alguns
semelhantes aos nossos, outros diferentes, a fim de que, tendo em
mente essa contínua variação das coisas humanas, tenhamos o
julgamento mais esclarecido e mais firme sobre elas. O que
chamamos de combate com capa e espada já era usado entre os
romanos, segundo César: sinistris sagos involvunt, gladiósque
distringunt.168 E desde então observa em nosso país esse vício que
ainda existe de parar os passantes que encontramos no caminho e
forçá-los a dizer quem são e considerar como injúria e motivo de
briga se se recusarem a nos responder. Nos banhos que os antigos
tomavam todos os dias antes da refeição, e os tomavam tão
correntemente quanto nós usamos água para lavar as mãos, no
início eles só se lavavam os braços e as pernas, mas depois, e por
um costume que durou vários séculos e na maioria dos países do
mundo, eles se lavavam totalmente nus, com água morna e
perfumada, de maneira que consideravam prova de grande
simplicidade lavar-se com água pura. Os mais refinados e delicados
perfumavam o corpo inteiro três ou quatro vezes por dia. Muitas
vezes faziam-se arrancar com pinça todos os pelos, como as
mulheres francesas adquiriram o hábito de fazer em seu rosto, há
algum tempo,
quod pectus, quod crura tibi, quod brachia vellis,169
embora tivessem unguentos próprios para isso.
Psilotro nitet, aut arida latet abdita creta.170
Eles gostavam de deitar no macio, e alegam como prova de
resistência deitar em colchão. Comiam deitados em leitos, mais ou
menos na mesma posição que os turcos de nosso tempo.
Inde thoro pater Aeneas sic orsus ab alto.171
E diz-se do jovem Catão que, depois da batalha de Farsala, tendo
ficado de luto pelo mau estado dos assuntos públicos, comia sempre
sentado, adotando um modo de vida austero. Beijavam as mãos dos
grandes para homenageá-los e adulá-los. E entre amigos beijavam-
se ao se cumprimentarem, como fazem os venezianos.
Gratúsque darem cum dulcibus oscula verbis.172
E para solicitar e saudar um grande, tocavam-no ao joelho. Pasicles,
o filósofo, irmão de Crates, em vez de levar a mão ao joelho, levou-a
aos genitais. Tendo-o rudemente repelido aquele a quem se dirigia,
disse-lhe: “Como, esta parte não é tão vossa quanto a outra?”. Eles
comiam, como nós, a fruta ao saírem da mesa. Limpavam o cu (é
preciso deixar às mulheres os vãos escrúpulos com as palavras) com
uma esponja, eis por que spongia é uma palavra obscena em latim; e
essa esponja era presa na ponta de um bastão, como atesta a
história daquele a quem conduziam para ser entregue às feras diante
do povo, que pediu licença para fazer suas necessidades, e sem
outro meio de matar-se enfiou esse bastão e a esponja na garganta
e sufocou-se com eles. Enxugavam o pênis com lã perfumada,
depois de usá-lo,
At tibi nil faciam, sed lota mentula lana.173
Havia, nos cruzamentos em Roma, recipientes e meias tinas para os
passantes mijarem,
Pusi saepe lacum propter, se ac dolia curta
Somno devincti credunt extollere vestem.174
Eles faziam colações entre as refeições. E no verão havia
vendedores de neve para refrescar o vinho; e havia os que utilizavam
neve no inverno, não achando o vinho ainda suficientemente frio. Os
grandes tinham seus escanções e trinchadores, e seus bobos para
diverti-los. No inverno, serviam-lhes a comida sobre braseiros que se
levavam à mesa; e tinham cozinhas portáteis, como as vi, nas quais
carregavam atrás de si todo o necessário a seu serviço.
Has vobis epulas habete lauti,
Nos offendimur ambulante coena.175
E no verão frequentemente faziam correr, em suas salas baixas,
água fresca e clara em canais abaixo deles, onde havia muitos
peixes vivos, que os presentes escolhiam e pegavam com a mão
para mandar preparar cada um à sua maneira. O peixe sempre teve
o privilégio, como ainda tem, de os grandes se meterem a saber
prepará-lo; seu gosto também é muito mais delicado do que o da
carne, ao menos para mim. Mas, em todo tipo de magnificência, de
excesso e de invenções voluptuosas, de languidez e de
suntuosidade, na verdade fazemos o que podemos para igualar os
antigos; pois nossa vontade é tão corrompida quanto a deles, mas
nosso talento não pode alcançá-los; nossas forças não são mais
capazes de igualá-los nessas coisas viciosas do que nas virtuosas,
pois uma e outras partem de um vigor de espírito que era
incomparavelmente maior neles do que em nós; e as almas, à
medida que são menos fortes, têm ainda menos meios para fazer
muito bem ou muito mal. O lugar de honra, entre eles, era o meio. O
primeiro e o último não tinham, ao escrever e falar, nenhum
significado de importância, como se vê indiscutivelmente em seus
escritos; dirão “Ópio e César” tão naturalmente quanto “César e
Ópio”; e dirão “eu e tu” indiferentemente de “tu e eu”. Eis por que
outrora observei, na Vida de Flamínio de Plutarco em francês, uma
passagem em que parece que o autor, falando da inveja da glória
que existia entre os etólios e os romanos pela vitória de uma batalha
que eles tinham obtido em comum, conceda alguma importância ao
fato de que nas canções gregas os etólios fossem citados antes dos
romanos, a menos que haja ambiguidade na tradução francesa. As
mulheres estando nos banhos, ali recebiam os homens a seu gosto,
e lá mesmo serviam-se dos criados para esfregá-las e untá-las.
Inguina succintus nigra tibi servus aluta
Stat, quoties calidis nuda fovêris aquis.176
Elas se polvilhavam com um pó para impedir o suor. Os antigos
gauleses, diz Sidoine Apollinaire, usavam os cabelos longos na frente
e tosados atrás da cabeça, que é essa maneira que acaba de ser
retomada pela moda efeminada e frouxa desse século. Os romanos
pagavam o que deviam pela travessia aos barqueiros já ao entrarem
no barco, o que fazemos depois de termos chegado ao porto,
dum as exigitur, dum mula ligatur,
Tota abit hora.177
As mulheres deitavam na cama no lado do vão com a parede; eis por
que chamavam César de spondam Regis Nicomedis.178 Eles
tomavam fôlego ao beber, batizavam o vinho,
quis puer ocius
Restinguet ardentis falerni
Pocula praetereunte lympha?179
E esses comportamentos grosseiros de nossos lacaios também
existiam naquele tempo.
O Jane, à tergo quem nulla ciconia pinsit,
Nec manus auriculas imitata est mobilis albas,
Nec linguae quantum sitiet canis Apula tantum.180
As senhoras de Argos e de Roma portavam no luto o branco,
como as nossas costumavam e deveriam continuar a fazer, se
julgassem por mim. Mas há livros inteiros sobre o argumento deste
capítulo.
168. “eles enrolam o casaco no braço esquerdo e desembainham o gládio”, César, De bello
civili, I, 75. (N.E.)
169. “depilas o peito, as coxas, os braços”, Marcial, II, LXII, 1. (N.E.)
170. “Ela unta com creme depilatório ou se esconde sob giz dessecante”, Marcial, VI, XCIII, 9.
(N.E.)
171. “Então, em cima de seu leito, o nobre Eneis começou com essas palavras”, Virgílio,
Eneida, II, 2. (N.E.)
172. “Depois de felicitar-te, beijar-te-ei dizendo palavras doces”, Ovídio, Pônticas, IV, IX, 13.
(N.E.)
173. “Ora, não te farei nada, mas meu pênis lavado com a lã”, Marcial, XI, LVIII, 11. (N.E.)
174. “Com frequência os rapazinhos, profundamente adormecidos, se imaginam levantando a
túnica diante das bacias ou meias tinas”, Lucrécio, IV, 1026-1027. (N.E.)
175. “Guardai essas iguarias para vós, adeptos do luxo, a cozinha ambulante nos desagrada”,
Marcial, VII, XLVIII, 4-5. (N.E.)
176. “Com o púbis envolto em couro negro, um escravo te auxilia cada vez que, nua, tomas
teu banho quente”, Marcial, VII, XXXV, 1-2. (N.E.)
177. “perguntamos o preço da passagem, atrelamos a mula; uma hora inteira passou”,
Horácio, Sátiras, I, V, 13-14. (N.E.)
178. “o vão da parede do rei Nicomedes”, Suetônio, Vida de César, XLIX. (N.E.)
179. “qual pequeno escravo se apressará para apagar o fogo do Falerno com esta água que
aqui corre?”, Horácio, Odes, II, XI, 18-20. (N.E.)
180. “Ó, Janus, tu a quem não zombam pelas costas, a quem nenhuma mão hábil imita
orelhas de burro, e a quem não colocam a língua como a de uma cadela sedenta da Apúlia”,
Pérsio, I, 58-60”. (N.E.)
CAPÍTULO L
De Demócrito e Heráclito
O julgamento é um instrumento para todos os assuntos, e intervém
em tudo. Por isso, nos Ensaios que aqui faço, utilizo todo tipo de
circunstância. Se é um assunto de que não entendo nada, por isso
mesmo o experimento, sondando o vau de bem longe, e se o
achando fundo demais para minha estatura, mantendo-me na
margem. E esse reconhecimento de não poder seguir adiante é uma
característica de seu efeito, justamente das que ele mais se
envaidece. Ora experimento o julgamento em assunto vão e vazio,
para ver se encontrará com que lhe dar corpo, com que o apoiar e
escorar. Ora passeio-o por assunto nobre e repisado, no qual nada
tenha a descobrir por si, estando o caminho tão traçado que só pode
seguir os rastros de outro. Nisso ele se diverte escolhendo a estrada
que lhe parece melhor; e de mil trilhas ele diz que esta, ou aquela, foi
a melhor escolhida. Escolho ao acaso o primeiro assunto, todos me
são igualmente bons, e nunca me proponho a tratá-los por inteiro.
Pois não vejo o todo de nada; e tampouco os que prometem fazer-
nos vê-lo. De cem membros e rostos que cada coisa tem, escolho
um, ora para somente roçá-lo, ora para arranhá-lo, e às vezes para
fisgá-lo até o osso. Dou uma estocada, não o mais amplamente, mas
o mais profundamente que posso. E quase sempre gosto de
apreender de alguma maneira inusitada. Eu me arriscaria a tratar a
fundo alguma matéria se me conhecesse menos e me enganasse
sobre minha incapacidade. Semeando aqui uma palavra, aqui outra,
amostras retiradas de seu contexto, isoladas, sem intenção e sem
compromisso, não estou obrigado a garantir a coerência nem a
limitar a mim mesmo, sem variar quando me aprouver, e posso
render-me à dúvida e à incerteza, e à minha condição principal, que é
a ignorância. Todo movimento nos revela. Essa mesma alma de
César, que se deixa ver ao organizar e conduzir a batalha de
Farsala, também se deixa ver ao realizar divertimentos ociosos e
amorosos. Julgamos um cavalo não apenas ao vê-lo manobrar na
arena, mas também ao vê-lo ir a passo, inclusive ao vê-lo em
repouso no estábulo. Entre as funções da alma, há algumas baixas;
quem não a vê também por esse lado não a conhece
completamente. E talvez a observemos melhor quando avança com
seu passo simples. Os ventos das paixões a atingem mais em suas
elevações, e acresce que ela se estende inteira sobre cada matéria
e nela se manifesta por inteiro, e nunca aborda mais do que uma de
cada vez, e a aborda não em si mas segundo ela própria. As coisas
em si mesmas talvez tenham seus pesos e medidas, e condições;
mas internamente, em nós mesmos, ela as talha como bem entende.
A morte é pavorosa para Cícero, desejável para Catão, indiferente
para Sócrates. A saúde, a consciência, a autoridade, a ciência, a
riqueza, a beleza e seus contrários despem-se na entrada e recebem
da alma nova vestimenta, e da cor que lhe agrada, marrom, clara,
verde, escura, amarga, doce, profunda, superficial, e que agrada a
cada uma das almas. Pois elas não examinaram em conjunto seus
usos, regras e formas; cada uma é soberana em seu reino. Por isso,
não utilizemos mais como desculpa as qualidades externas das
coisas; cabe-nos prestar contas de nós mesmos. Nosso bem e
nosso mal só dependem de nós. Ofereçamos a nós mesmos nossas
oferendas e nossos votos, não à fortuna, ela nada pode sobre
nossos costumes; ao contrário, estes arrastam-na atrás de si e
moldam-na à sua forma. Por que não julgarei Alexandre à mesa,
conversando e bebendo o máximo possível? Ou, se jogava xadrez,
qual corda de seu espírito não era tocada e utilizada por esse jogo
estúpido e pueril? Detesto-o e fujo dele porque não é bem um jogo, e
porque nos diverte com seriedade demais, tendo vergonha de dar-lhe
a atenção que seria suficiente para alguma coisa de bom. Alexandre
não esteve mais ocupado ao organizar sua gloriosa invasão das
Índias; nem esse outro ao elucidar uma passagem da qual depende
a salvação do gênero humano. Vede o quanto nossa alma estraga
esse divertimento ridículo se todos os seus nervos não se tensionam.
Quão amplamente ela permite a cada um, nesse jogo, conhecer-se e
julgar corretamente a si mesmo. Não me vejo e examino mais
totalmente em nenhuma outra situação. Que paixão não nos submete
então? A cólera, o despeito, o ódio, a impaciência e uma veemente
ambição de vencer, em coisa na qual seria mais desculpável ter a
ambição de ser vencido. Pois a superioridade rara e acima do
comum em coisa frívola não convém a um homem de honra. O que
digo neste exemplo pode ser dito em todos os outros. Cada parcela,
cada ocupação do homem revela-o e mostra-o tanto quanto qualquer
outra. Demócrito e Heráclito foram dois filósofos, dois quais o
primeiro, achando vã e ridícula a condição humana, só saía em
público com rosto zombeteiro e risonho; Heráclito, tendo piedade e
compaixão dessa mesma condição nossa, tinha o rosto
continuamente triste, e os olhos cheios de lágrimas,
alter
Ridebat quoties à limine moverat unum
Protulerátque pedem, flebat contrarius alter.181
Prefiro o primeiro humor, não porque seja mais agradável rir do que
chorar, mas porque ele é mais desdenhoso e nos condena mais do
que o outro; e parece-me que nunca seremos menosprezados tanto
quanto o merecemos. O lamento e a comiseração estão misturados
a uma estima pela coisa que lamentamos; as coisas de que
zombamos, consideramo-las sem valor. Não penso que haja tanta
infelicidade em nós quanto há de frivolidade, nem tanta malícia
quanto há de tolice; não estamos tão cheios de mal quanto de
inanidade, não somos tão infelizes quanto vis. Assim, Diógenes, que
se divertia consigo mesmo, rolando seu tonel e desdenhando do
grande Alexandre, considerando-nos moscas ou bexigas cheias de
vento, era um juiz mais severo e mordaz, e consequentemente mais
justo, a meu ver, do que Tímon, aquele que foi chamado “o que odeia
os homens”. Pois tomamos a peito aquilo que odiamos. Este queria
nosso mal, estava apaixonado pelo desejo de nossa ruína, fugia de
nossa convivência como perigosa, de pessoas más e de natureza
depravada; o outro nos estimava tão pouco que não poderíamos
nem perturbá-lo, nem alterá-lo com nosso contágio, evitava nossa
companhia não por temê-la mas pelo desdém de nosso convívio, não
nos considerava capazes nem de fazer o bem, nem o mal. Do
mesmo gênero foi a resposta de Estatílio, com quem Bruto falou
para que a ele se unisse na conspiração contra César; ele achou a
iniciativa justa, mas não achou dignos os homens pelos quais se dava
aquele trabalho, conforme a lição de Hegésias, que dizia que o sábio
nada deve fazer que não para si mesmo, visto que somente ele é
digno de que se faça por ele. E a de Teodoro, para quem é injusto
que o sábio se arrisque pelo bem de seu país e por loucos coloque
em perigo a sabedoria. A condição que nos é própria é tão ridícula
quanto propensa a rir.
181. “um ria a cada vez que colocava o pé para fora; de humor contrário, o outro chorava”,
Juvenal, X, 28-30. (N.E.)
CAPÍTULO LI
Da vanidade das palavras
Um retórico dos tempos passados dizia que seu ofício era fazer as
coisas pequenas parecerem e serem consideradas grandes. É um
sapateiro que sabe fazer sapatos grandes para um pé pequeno.
Teria sido açoitado em Esparta, por professar uma arte enganadora
e mentirosa; e creio que Arquidamo, que era o rei, não ouviu sem
espanto a resposta de Tucídides, a quem perguntava quem era mais
forte na luta, Péricles ou ele: “Isso”, disse ele, “seria difícil de
verificar, pois quando o derrubo lutando, ele convence a todos que o
viram de que não caiu, e ganha”. Os que mascaram e maquiam as
mulheres fazem menos mal, pois pouco se perde ao não vê-las ao
natural, enquanto aqueles pretendem enganar não nossos olhos mas
nosso julgamento, e aviltar e corromper a essência das coisas. As
repúblicas que se mantiveram em um estado regrado e bem
governado, como a cretense ou a lacedemônia, não deram grande
importância aos oradores. Aríston define sabiamente a retórica como
a ciência para persuadir o povo; Sócrates e Platão, a arte de
enganar e adular. E os que negam isso na descrição geral provam-no
por toda parte em seus preceitos. Os maometanos proíbem que seja
ensinada às crianças, por sua inutilidade. E os atenienses,
percebendo como seu uso, que gozava de todo crédito em sua
cidade, era pernicioso, ordenaram que sua parte principal, que é
excitar os afetos, fosse eliminada, junto com os exórdios e
perorações. É uma ferramenta inventada para manipular e agitar
uma multidão e uma assembleia desordenadas; e é uma ferramenta
que só se emprega nos Estados doentes, como a medicina; na-
queles em que o povo, em que os ignorantes, em que todos puderam
tudo, como o de Atenas, de Rodes e de Roma, e em que as coisas
estiveram em perpétua tempestade, para lá afluíram os oradores. E
na verdade se veem poucas pessoas nesses Estados que tenham
adquirido grande crédito sem o auxílio da eloquência; Pompeu,
César, Crasso, Lúculo, Lêntulo, Metelo tiraram disso seu grande
apoio para se alçarem a essa grande autoridade a que por fim
chegaram, e dela se valeram mais do que das armas, ao contrário
da opinião em tempos melhores. Pois L. Volúmnio disse, falando em
público a favor da eleição para o consulado de Q. Fábio e P. Décio:
“São pessoas nascidas para a guerra, grandes na ação; no combate
da tagarelice, não instruídos; espíritos verdadeiramente consulares.
Os sutis, eloquentes e eruditos são bons para a cidade, pretores
para fazer justiça”. A eloquência mais floresceu em Roma, quando os
negócios estiveram em pior estado e a tormenta das guerras civis os
agitava, assim como um campo em pousio e não cultivado contém as
ervas mais vigorosas. Parece, com isso, que os Estados que
dependem de um monarca têm menos necessidade dela do que os
outros; pois a tolice e a passividade que são encontradas no povo e
que o tornam sujeito a ser manipulado e modelado pelos ouvidos ao
doce som dessa harmonia, sem vir a pesar e conhecer a verdade
das coisas pela força da razão, essa predisposição, eu digo, não é
tão facilmente encontrada em uma única pessoa, e é mais fácil
protegê-lo da influência desse veneno com uma boa educação e
bons princípios. Não se viu sair da Macedônia nem da Pérsia nenhum
orador de renome. Eu disse essas palavras a respeito de um italiano,
com quem acabo de conversar, que serviu o falecido cardeal Caraffa
como mordomo até a morte deste. Eu o fazia falar sobre seu cargo.
Ele me fez um discurso sobre a ciência do comer com uma gravidade
e uma compostura magistrais, como se me estivesse falando de
algum grande tópico da teologia. Explicou-me a diferença de
apetites, aquele que sentimos em jejum, que sentimos depois do
segundo e terceiro pratos; os meios ora para simplesmente
satisfazê-los, ora para despertá-los e atiçá-los; a administração dos
molhos, primeiro em geral, depois particularizando as qualidades dos
ingredientes e seus efeitos; as diferenças das saladas segundo a
estação, as que devem ser aquecidas, as que devem ser servidas
frias, a maneira de orná-las e embelezá-las para torná-las mais
agradáveis à vista. Depois disso, entrou na organização do serviço,
cheio de belas e importantes considerações;
nec minimo sanè discrimine reffert
Quo gestu lepores, et quo gallina secetur.182
E tudo isso avolumado por ricas e magníficas palavras, as mesmas
que empregamos para tratar do governo de um império. Isso
lembrou-me de meu homem:
Hoc salsum est, hoc adustum est, hoc lautum es parum,
Illud rectè, iterum sic memento, sedulò
Moneo quae possum pro mea sapientia.
Postremo tanquam in speculum, in patinas, Demea,
Inspicere jubeo, et moneo quid facto usus sit.183
Em todo caso, mesmo os gregos louvaram grandemente a ordem e
a disposição que Paulo Emílio observou no banquete que lhes
preparou ao retornarem da Macedônia; mas não falo aqui de ações,
falo de palavras. Não sei se aos outros acontece como a mim; mas
não consigo evitar, quando ouço nossos arquitetos se inflarem com
essas grandes palavras como pilastras, arquitraves, cornijas, ordens
coríntia e dórica, e outras de seu jargão, que minha imaginação não
seja tomada imediatamente pelo palácio de Apolidônio, e na
realidade descubro que aquelas são as medíocres peças da porta
de minha cozinha. Quando ouvis falar em metonímia, metáfora,
alegoria e outros tais nomes da gramática, não parece que estão
designando alguma forma de linguagem rara e estrangeira? São
designações para a tagarelice de vossa camareira. É logro
semelhante a este chamar os cargos de nosso Estado pelos
soberbos títulos dos romanos, ainda que não tenham nenhuma
semelhança de cargo, e ainda menos autoridade e poder. E também
este, que um dia servirá (em minha opinião) de crítica a nosso
século: empregar indevidamente, a quem bem nos pareça, os
apelidos mais gloriosos com que a Antiguidade honrou um ou dois
personagens em vários séculos. Platão recebeu o apelido de “divino”
por um consenso universal que ninguém tentou contestar-lhe; e os
italianos, que se vangloriam, e com razão, de terem geralmente o
espírito mais vivo e o discurso mais saudável do que as outras
nações de seu tempo, acabam de atribuí-lo a Aretino, no qual, salvo
uma maneira de falar empolada e fervilhante de insinuações
maliciosas, por certo engenhosas, mas muito rebuscadas e
fantasiosas, e além da eloquência, por fim, qualquer que seja, não
vejo nada acima dos autores comuns de seu século, muito faltando
para que se aproxime dessa divindade antiga. E o apelido de
“grande”, nós o atribuímos a príncipes que nada têm acima da
grandeza popular.
182. “e, com a mesma atenção, é preciso distinguir o corte da lebre do da galinha”, Juvenal,
V, 123-124. (N.E.)
183. “Esse prato está salgado demais, este está queimado; aquele está mal preparado; este
está bom; lembra-te para a próxima vez. Dou-lhes todos os conselhos que me permite minha
ciência. Por fim, Demeia, exijo que possamos ver-nos na louça limpa como em um espelho,
e ensino-lhes o que é preciso fazer”, Terêncio, Adelfos, III, III, 425-429. (N.E.)
CAPÍTULO LII
Da parcimônia dos antigos
Atílio Régulo, general do exército romano na África, em meio à glória
e às vitórias contra os cartagineses, escreveu aos representantes da
república que um criado de lavoura que ele deixara sozinho no
comando de seus bens, que consistiam ao todo em sete arpentos de
terra, havia fugido tendo furtado seus instrumentos agrícolas, e pedia
licença para retornar e tomar providências, com medo de que a
mulher e os filhos viessem a sofrer com isso. O Senado providenciou
para nomear um outro para o comando de seus bens, e mandou
restituir o que lhe havia sido furtado, e ordenou que sua mulher e
seus filhos fossem alimentados às custas do Estado. O velho Catão,
voltando cônsul da Espanha, vendeu seu cavalo de guerra para
poupar o dinheiro que teria custado para trazê-lo por mar à Itália; e
estando no governo da Sardenha, fazia suas inspeções a pé, não
tendo outro séquito além de um oficial da república que carregava
sua toga e um recipiente para os sacrifícios; e na maioria das vezes
ele mesmo carregava sua mala. Ele se vangloriava de nunca ter tido
toga que custasse mais de dez escudos, nem ter gasto no mercado
mais de dez soldos em um dia; e de suas casas no campo, que não
havia uma que fosse rebocada ou revestida por fora. Cipião Emiliano,
após dois triunfos e dois consulados, partiu em uma legação com
apenas sete servidores. Acredita-se que Homero teve apenas um,
Platão, três; Zenão, o chefe da escola estoica, nenhum. Só se
concederam cinco soldos e meio por dia a Tibério Graco quando
partiu em missão para a república, sendo então o mais importante
dos romanos.
CAPÍTULO LIII
De uma frase de César
Se às vezes nos ocupássemos examinando a nós mesmos, e
empregássemos o tempo que gastamos para controlar os outros e
para conhecer as coisas que estão fora de nós sondando a nós
mesmos, sentiríamos facilmente como toda essa nossa constituição
é feita de peças frágeis e defeituosas. Não será singular prova de
imperfeição não podermos assentar nosso contentamento em coisa
alguma, e que mesmo por desejo e imaginação esteja sempre fora
de nosso alcance escolher o que nos é necessário? Disso dá bom
testemunho essa grande discussão que sempre houve entre os
filósofos para descobrir o soberano bem do homem, e que ainda
dura e durará eternamente, sem solução e sem acordo;
dum abest quod avemus, id exuperare videtur
Caetera, post aliud cùm contigit illud avemus,
Et sitis aequa tenet.184
O que quer que seja que venha a nosso conhecimento e usufruto,
sentimos que não nos satisfaz, e perseguimos boquiabertos as
coisas por vir e desconhecidas, visto que as presentes não nos
saciam. Não que, em minha opinião, elas não tenham o suficiente
para nos saciar, mas é que delas nos apoderamos com mão doente
e desmesurada.
Nam cùm vidit hic ad usum quae flagitat usus,
Omnia iam fermè mortalibus esse parata,
Divitiis homines et honore et laude potentes
Affluere, atque bona natorum excellere fama,
Nec minus esse domi, cuiquam tamen anxia corda,
Atque animum infestis cogi servire querelis:
Intellexit ibi vitium vas facere ipsum,
Omniáque illius vitio corrumpier intus
Quae collata foris et commoda quaeque venirent.185
Nosso apetite é irresoluto e incerto; ele nada consegue conservar,
nem usufruir de nada de maneira adequada. O homem, julgando que
isso seja um defeito das coisas que possui, enche-se e alimenta-se
de outras coisas que não conhece e não compreende, nas quais
coloca seus desejos e suas esperanças, honrando-as e
reverenciando-as; como diz César, Communi fit vitio naturae, ut
invisis, latitantibus atque incognitis rebus mágis confidamus,
vehementiúsque exterreamur.186
184. “enquanto nos escapa o objeto de nosso desejo, ele prevalece sobre tudo; quando o
obtemos, uma sede igual de outro nos invade”, Lucrécio, III, 1082-1084. (N.E.)
185. “Pois ele viu que os mortais desfrutavam de praticamente tudo de que necessitam; ele
viu muitos homens transbordando de riquezas, de honra e de glória, orgulhosos do renome
de seus filhos e, no entanto, cada um deles conhecia em seu coração a angústia e se
deixava cair em queixas furiosas: ele entendeu então que esse defeito provinha do próprio
recipiente e que tudo o que nele colocavam, mesmo de qualidade, se via, uma vez lá dentro,
corrompido por esse defeito”, Lucrécio, VI, 9-10 e 12-19. (N.E.)
186. “É um defeito comum de nossa natureza que o invisível, o escondido, o desconhecido
inspirem-nos mais confiança, ou mais temor”, César, De bello civili, II, 4. (N.E.)
CAPÍTULO LIV
Das vãs sutilezas
Há sutilezas frívolas e vãs, por meio das quais os homens às vezes
buscam deferência; como os poetas, que escrevem obras inteiras
com versos começando por uma mesma letra; vemos ovos, bolas,
asas e machados desenhados antigamente pelos gregos com a
medida de seus versos, alongando-os ou encurtando-os de maneira
a que representem tal ou tal figura. Assim era a ciência daquele que
se ocupou em contar de quantas maneiras se podiam ordenar as
letras do alfabeto, e encontrou aquele número incrível que se lê em
Plutarco. Considero boa a opinião daquele a quem apresentaram um
homem ensinado a jogar com a mão um grão de painço com tal
habilidade que, sem falhar, sempre o passava pelo buraco de uma
agulha, e a quem depois pediram algum presente em recompensa
por tão rara competência, ante o que ele ordenou de maneira muito
agradável e justa, em minha opinião, que dessem àquele trabalhador
duas ou três medidas de painço, a fim de que tão bela arte não
ficasse sem exercício. É uma prova assombrosa da fraqueza de
nosso julgamento que ele valorize as coisas por sua raridade ou
novidade, ou ainda por sua dificuldade, se a qualidade e a utilidade
não estão associadas a elas. Acabamos nesse momento de nos
divertir em minha casa vendo quem poderia encontrar mais coisas
que se ligam pelos dois extremos; como sire, que é um título
atribuído à pessoa mais elevada de nosso Estado, que é o rei, e que
também é atribuído ao vulgo, como aos mercadores, e não concerne
aqueles entre os dois. As mulheres de qualidade chamamos de
dames, as médias de demoiselles, e dames de novo as de mais
baixo nível. As toalhas estendidas sobre as mesas só são permitidas
nas casas dos príncipes e nas tabernas. Demócrito dizia que os
deuses e os animais tinham os sentidos mais aguçados que os
homens, que estão no nível mediano. Os romanos usavam as
mesmas roupas nos dias de luto e nos dias de festa. É certo que um
medo extremo e um extremo ardor de coragem perturbam
igualmente o ventre e o afrouxam. A alcunha de “trêmulo”, com que o
décimo segundo rei de Navarra, Sancho, foi chamado, ensina que
tanto a audácia quanto o medo levam ao tremor dos membros. Os
que o armavam, a ele ou qualquer outro de igual natureza, cuja pele
estremecia, tentaram tranquilizá-lo, diminuindo o perigo ao qual ele
se lançaria; “Conheceis-me mal”, disse ele. “Se minha carne
soubesse até onde minha coragem a levará em breve, ficaria
completamente transida.” A fraqueza que nos vem de frieza e
desgosto nos exercícios amorosos também nos vem de um apetite
veemente demais, e de um ardor desmedido. O frio extremo e o
calor extremo queimam e cozinham. Aristóteles diz que as barras de
chumbo se fundem e escorrem com o frio e com o rigor do inverno,
bem como com um calor veemente. O desejo e a saciedade enchem
de dor os estados que seguem e precedem o prazer. A tolice e a
sabedoria se mostram igualmente capazes de suportar e ultrapassar
as provações humanas; os sábios dominam e comandam o mal, e os
outros o ignoram; estes estão, por assim dizer, aquém dos
infortúnios, os outros, além; os quais, depois de bem pesar e
considerar suas qualidades, de medir e julgar tais como são,
erguem-se acima deles pela força de uma vigorosa coragem; eles os
desdenham e esmagam com os pés, tendo uma alma forte e sólida,
contra a qual, as flechas da fortuna vindo a chocar-se, é forçoso que
ricocheteiem e embotem ao encontrarem um corpo sobre o qual não
podem deixar marca; a comum e mediana condição dos homens se
situa entre esses dois extremos; aqueles percebem os males,
sentem-nos e não podem suportá-los. A infância e a decrepitude
coincidem na debilidade do cérebro. A avareza e a prodigalidade, no
igual desejo de atrair e adquirir. Pode-se plausivelmente dizer que há
uma ignorância analfabeta, que precede o conhecimento; e outra
doutoral, que sucede o conhecimento; ignorância que o conhecimento
faz e engendra, assim como ele desfaz e destrói a primeira. Dos
espíritos simples, menos curiosos e menos instruídos, fazem-se bons
cristãos, que por reverência e obediência creem naturalmente e se
submetem às leis. No vigor mediano dos espíritos, e na mediana
capacidade, nasce o erro nas opiniões; eles seguem a aparência do
primeiro sentido, e dela tiram algum pretexto para considerar como
marca de simplicidade e tolice estarmos aferrados ao caminho
antigo, considerando que não fomos instruídos nele por estudo. Os
grandes espíritos, mais ponderados e lúcidos, fazem outro gênero
de crentes, os quais, por longa e religiosa investigação, penetram em
uma mais profunda e abstrusa luz das escrituras, e sentem o
misterioso e divino segredo de nossa religião. No entanto, vemos
alguns terem chegado a esse último nível passando pelo segundo,
com admiráveis proveito e certeza, como se ao extremo limite da
inteligência cristã, e desfrutar de sua vitória com satisfação, ação de
graças, regeneração de costumes e grande modéstia. E nessa
categoria não pretendo colocar esses outros que, para se purgarem
da suspeita de seus erros passados e para nos tranquilizarem
quanto a eles, se tornam extremos, imprudentes e injustos na
condução de nossa causa, e a maculam com infinitos atos
censuráveis de violência. Os simples camponeses são pessoas
honradas, e honrados são os filósofos, ou, como os chamam em
nossa época, são naturezas fortes e brilhantes, enriquecidas por
amplo conhecimento das ciências úteis. Os que estão no meio-
termo, que rejeitaram o primeiro estágio da ignorância das letras e
não conseguiram alcançar o outro (com o traseiro em duas selas,
dos quais faço parte, e tantos outros), são perigosos, ineptos,
importunos; estes perturbam o mundo. Por isso, de minha parte
recolho-me o tanto que posso ao primeiro e natural estágio, de onde
em vão tentei sair. A poesia popular e puramente natural tem
singelezas e graças pelas quais se compara à beleza essencial da
poesia perfeita segundo as regras da arte; como se vê nos
vilancetes da Gasconha e nas canções que nos trazem dos países
que não têm conhecimento de nenhuma ciência, nem mesmo da
escrita. A poesia mediana, que permanece entre as duas, é
desprezada, sem glória e sem valor. Mas visto que depois que a
passagem foi aberta ao espírito, descobri, como costuma acontecer,
que tínhamos tomado por exercício difícil e de tema raro algo que
não o é em absoluto; e visto que depois que nossa imaginação foi
aquecida ela descobre um número infinito de exemplos semelhantes,
acrescentarei apenas este: que se estes Ensaios fossem dignos de
ser julgados, poderia acontecer, em minha opinião, de não
agradarem aos espíritos comuns e vulgares, nem aos singulares e
excelentes; aqueles não entenderiam o suficiente, estes entenderiam
demais; eles poderiam vegetar na região mediana.
CAPÍTULO LV
Dos cheiros
Diz-se de alguns, como de Alexandre, o Grande, que seu suor
exalava um odor suave, por alguma rara e extraordinária compleição,
de que Plutarco e outros investigaram a causa. Mas o comum
comportamento dos corpos é o contrário, e a melhor condição que
podem ter é serem isentos de cheiro. Mesmo a suavidade dos
hálitos mais puros nada tem de mais perfeito do que não ter nenhum
odor que nos ofenda, como são os das crianças saudáveis. Eis por
que, diz Plauto,
Mulier tum benè olet, ubi nihil olet.187
O mais perfeito cheiro de uma mulher é não cheirar a nada. E os
bons cheiros externos ao corpo, há razão de tê-los sob suspeita
naqueles que deles se servem, e julgar que sejam utilizados para
encobrir algum defeito natural dessa parte. Daí nascem aqueles
jogos de palavras dos poetas antigos, como “cheirar bem é feder”.
Rides nos Coracine nil olentes.
Malo quàm benè olere, nil olere.188 E alhures,
Posthume non benè olet, qui benè sempre olet.189
No entanto, gosto muito de estar cercado de bons odores e odeio
excessivamente os ruins, que sinto mais de longe do que qualquer
outro;
Namque sagacius unus odoror,
Polypus, an gravis hirsutis cubet hircus in alis,
Quàm canis acer ubi lateat sus.190
Os odores mais simples e naturais me parecem mais agradáveis.
Essa preocupação concerne principalmente às mulheres. Na mais
profunda barbárie, as mulheres citas, depois de se lavarem,
polvilham-se e recobrem todo o corpo e o rosto com certa droga que
nasce em suas terras, odorífera. Ao aproximarem-se dos homens,
tendo retirado essa maquiagem, elas estão lisas e perfumadas. Seja
qual for o odor, é espantoso como adere em mim, e como tenho a
pele própria a impregnar-se dele. Aquele que se queixa da natureza
porque esta deixou o homem sem instrumento para levar os cheiros
ao nariz está errado, pois eles levam a si mesmos. Mas a mim
particularmente nisso me servem os bigodes, que tenho cheios; se
deles aproximo minhas luvas, ou meu lenço, o odor ali ficará um dia
inteiro; eles acusam o lugar de onde venho; os estreitos beijos da
juventude, saborosos, gulosos e grudentos, outrora neles se
colavam, e neles se mantinham por várias horas. E no entanto me
vejo pouco sujeito às epidemias, que se transmitem pelo convívio e
que nascem do contágio do ar; e escapei das de meu tempo, das
quais houve vários tipos em nossas cidades e em nossos exércitos.
Lê-se sobre Sócrates que, nunca tendo saído de Atenas, durante
várias reincidências da peste, que a atormentaram tantas vezes,
apenas ele nunca se viu doente. Os médicos poderiam (creio eu)
tirar dos odores mais proveito do que o fazem, pois muitas vezes
percebi que eles me modificam, e atuam sobre meus humores
segundo o que são; o que me faz concordar com o que se diz, que a
invenção dos incensos e perfumes nas igrejas, tão antiga e difundida
em todos os países e religiões, está voltada para nos alegrar,
despertar e purificar os sentidos para nos tornar mais aptos à
contemplação. Eu gostaria muito, para julgar sobre isso, de ter
tomado parte do trabalho desses cozinheiros que sabem acomodar
os odores dos temperos ao sabor dos alimentos. Como se observou
particularmente no serviço do rei de Túnis, que em nossa época
desembarcou em Nápoles para encontrar-se com o imperador
Carlos. Recheavam suas carnes com ingredientes odoríferos com tal
suntuosidade que um pavão e dois faisões se revelaram custar cem
ducados para serem preparados segundo seu costume. E quando
eram trinchadas, não apenas a sala mas todos os cômodos de seu
palácio, e as ruas dos arredores, eram invadidas por um vapor muito
suave que não se dissipava tão cedo. O principal cuidado que tenho
ao me hospedar é fugir do ar fétido e pesado. Essas belas cidades,
Veneza e Paris, estragam o favor em que as tenho por causa do
cheiro acre, uma de sua laguna, a outra de sua lama.
187. Plauto, Mostellaria, 273. A tradução é apresentada por Montaigne na sequência. (N.E.)
188. “Ris de nós, Coracino, porque não cheiramos a nada. Em vez de cheirar bem, prefiro
não cheirar a nada”, Marcial, VI, LV, 4-5. (N.E.)
189. “Póstumo, aquele que sempre cheira bem não cheira bem”, Marcial, II, XII, 4. (N.E.)
190. “Pois para sentir o cheiro de um pólipo, ou um bode fedendo sob uma axila hirsuta, tenho
um faro mais sutil que o de um cão que caça um javali”, Horácio, Épodes, XII, 4-6. (N.E.)
CAPÍTULO LVI
Das orações
Proponho ideias disformes e incertas, como fazem os que publicam
questões duvidosas, a serem debatidas nas escolas; não para
estabelecer a verdade, mas para buscá-la. E submeto-as ao
julgamento daqueles a quem cabe julgar não somente minhas ações
e meus escritos mas também meus pensamentos. Igualmente
aceitável e útil para mim será sua condenação como sua aprovação,
considerando absurdo e ímpio se for encontrada nessa rapsódia algo
escrito, por ignorância ou inadvertência, que seja contrário às santas
resoluções e prescrições da Igreja Católica Apostólica Romana, na
qual morro e na qual nasci. E no entanto, entregando-me sempre à
autoridade de sua censura, que tudo pode sobre mim, intrometo-me
assim, temerariamente, em todo tipo de tema, como faço aqui. Não
sei se me engano, mas visto que por particular favor da bondade
divina certo tipo de oração nos foi prescrita e ditada palavra por
palavra pela boca de Deus, sempre me pareceu que devíamos dela
fazer um uso mais corrente do que fazemos; e se julgassem por
mim, antes e depois de comer, ao levantar e ao deitar, e em todas
as ações particulares a que nos acostumamos combinar orações, eu
gostaria que fosse o padre-nosso que os cristãos empregassem, se
não exclusivamente, ao menos constantemente. A Igreja pode
estender e diversificar as orações segundo a necessidade de nossa
instrução, pois bem sei que é sempre a mesma substância e a
mesma coisa. Mas àquela deveria ser dado o privilégio de que o
povo a tivesse continuamente nos lábios, pois é certo que diz tudo o
que é preciso, e que é muito adequada a todas as ocasiões. É a
única oração de que me utilizo para tudo, e repito-a em vez de trocá-
la. Disso resulta que só tenho esta tão bem na memória. Estava
recentemente pensando de onde nos vinha esse erro de recorrer a
Deus em todos os nossos projetos e empreendimentos, e de chamá-
lo em todo tipo de necessidade, e em qualquer lugar em que nossa
fraqueza precisa de ajuda, sem considerar se a ocasião é justa ou
injusta; e de invocar seu nome e seu poder em qualquer situação e
ação em que estejamos, por mais viciosa que seja. Ele bem é nosso
uno e único protetor, e tudo pode para nos ajudar, mas, ainda que se
digne a honrar-nos com essa doce aliança paterna, ele é, porém, tão
justo quanto bom e poderoso: mas usa bem mais seguidamente sua
justiça do que seu poder, e nos favorece segundo a razão desta e
não segundo nossos pedidos. Platão, em suas Leis, distingue três
tipos de crenças injuriosas a respeito dos deuses: que eles não
existem, que eles não se metem em nossos assuntos, que eles nada
recusam a nossos votos, oferendas e sacrifícios. O primeiro erro,
em sua opinião, jamais se manteve imutável em um homem, da
infância à velhice. Os dois seguintes podem ser constantes. A justiça
e o poder de Deus são inseparáveis, em vão imploramos sua força
em uma má causa; é preciso ter a alma limpa, ao menos naquele
momento em que rezamos a Ele, e livre de paixões viciosas, do
contrário, nós mesmos lhe apresentamos as varas com que nos
castigar. Em vez de reparar nossa falta, nós a redobramos,
apresentando àquele a quem devemos pedir perdão um sentimento
cheio de irreverência e ódio. Eis por que não me agrada elogiar
aqueles que vejo rezar a Deus de maneira frequente e corriqueira se
as ações vizinhas à oração não me atestam alguma emenda ou
reforma,
si nocturnus adulter
Tempora sanctonico velas adoperta cucullo.191
E a condição de um homem que combina a devoção com uma vida
execrável parece ser bem mais condenável do que a de um homem
condigno consigo mesmo e dissoluto em todo o resto. Por isso,
nossa Igreja recusa todos os dias o favor de admissão e convívio
aos comportamentos obstinados em alguma insigne maldade.
Rezamos por hábito e por costume, ou, melhor dizendo, lemos ou
pronunciamos nossas preces; não passa, enfim, de mímica. E
desagrada-me ver fazerem três sinais da cruz no benedicite, outros
tantos nas graças (e mais me desagrada porque é um sinal que
reverencio e utilizo continuamente, mesmo quando bocejo) e, no
entanto, todas as outras horas do dia, vê-los entregues ao ódio, à
avareza, à injustiça. Aos vícios sua hora, a Deus sua hora, como por
compensação e arranjo. É um milagre ver sucederem-se ações tão
diferentes, de tão semelhante teor, sem que se sinta interrupção e
alteração nem mesmo em seus limites e na passagem de uma para
outra. Que prodigiosa consciência pode encontrar descanso
alimentando no mesmo lugar, em convívio tão harmonioso e pacífico,
o crime e o juiz? Um homem cuja libertinagem governa
incessantemente sua cabeça, e que a julga muito odiosa aos olhos
divinos, que diz ele a Deus quando lhe fala sobre isso? Ele se
recompõe, mas subitamente reincide. Se o objeto da justiça divina e
sua presença o golpeassem como ele diz, e castigassem sua alma,
por curta que fosse sua penitência, o próprio temor tão
seguidamente levaria seu pensamento para ela que imediatamente
ele se veria senhor desses vícios que lhe são habituais e lhe estão
incrustados. Mas qual! E os que inscrevem uma vida inteira sobre o
fruto e o proveito do pecado que sabem ser mortal? Quantos ofícios
e profissões reconhecidas temos cuja essência é viciosa? E aquele
que, confiando-se a mim, contava-me ter toda a sua vida professado
e praticado o ritual de uma religião condenável segundo ele, e
contraditória com a que tinha em seu coração, para não perder seu
crédito e a honra de seus cargos, como conciliava esses
pensamentos em seu coração? Com que linguagem falam sobre
esse assunto com a justiça divina? Como seu arrependimento
consiste em visível e tangível reparação, perdem o meio de recorrer
a ele, tanto perante Deus quanto perante nós. São tão ousados para
pedir perdão sem reparação e sem arrependimento? Creio que com
aqueles primeiros192 acontece o mesmo que com estes, mas sua
obstinação no pecado não é tão fácil de demonstrar. Essa
incoerência e inconstância de opinião que fingem para nós, tão
súbita, tão violenta, a mim cheiram a milagre. Eles nos revelam o
estado de um conflito invencível. Como me parecia fantasioso o
pensamento daqueles que, nesses últimos anos, tinham o costume
de criticar qualquer um em quem reluzisse certa clareza de espírito e
professasse a religião católica, porque seria fingimento; e inclusive
afirmavam que, para honrá-lo, não importava o que dissesse
externamente, não podia deixar de ter, internamente, sua fé
reformada à imagem deles. Deplorável doença, a de se crer tão
forte a ponto de persuadir-se que não é possível crer no contrário; e
mais deplorável ainda a de persuadir-se, a propósito de tal espírito,
que ele prefira não sei qual melhora de sua sorte atual às
esperanças e ameaças da vida eterna! Eles podem crer em mim: se
algo devesse ter-me tentado na juventude, boa parte disso se
deveria ao gosto pelo risco e às dificuldades que acompanhavam
esse recente empreendimento.193 Não é sem grande razão, parece-
me, que a Igreja proíbe o uso indiscriminado, sem reflexão e sem
discernimento dos salmos sagrados e divinos que o Espírito Santo
ditou a Davi. Só devemos implicar Deus em nossas ações com
reverência e atenção cheia de dignidade e respeito. Essa palavra é
divina demais para ser usada apenas para exercitar os pulmões e
agradar nossos ouvidos. É na consciência que deve ser produzida, e
não na língua. Não é bom permitir que um caixeiro de loja, entre seus
vãos e frívolos pensamentos, com ela se entretenha e brinque. Por
certo também não é bom ver rolar por uma sala e por uma cozinha o
Santo Livro dos sagrados mistérios de nossa fé. Outrora eram
mistérios, agora são divertimentos e brincadeiras. Não é de
passagem, e tumultuosamente, que se deve dirigir um estudo tão
sério e venerável. Deve ser uma ação premeditada e séria, à qual
sempre se deve acrescentar este prefácio do nosso ofício, sursum
corda194, e adotar no próprio corpo atitude que ateste uma particular
atenção e reverência. Não é estudo para todo mundo; é estudo para
pessoas que a isso se dedicaram, para o qual Deus chama; os
maus, os ignorantes tornam-se piores com ele. Não é uma história
para contar; é uma história para reverenciar, temer e adorar.
Engraçados os que pensam tê-la tornado manejável pelo povo, por
tê-la posto em linguagem popular. Depende apenas das palavras que
não entendam tudo o que encontram por escrito? Direi mais? Para
aproximá-la esse pouco, afastam-na. A ignorância pura, que se
entrega inteiramente a outrem, era bem mais salutar e mais sábia do
que o é esse conhecimento verbal e vão, que alimenta com
presunção e temeridade. Creio também que a liberdade de cada um
de difundir uma palavra tão religiosa e importante em tantos tipos de
idiomas apresenta muito mais perigo do que utilidade. Os judeus, os
maometanos e quase todos os outros esposaram e reverenciam a
língua em que originalmente seus mistérios foram concebidos, e são
proibidas sua alteração e mudança; não sem razão. Sabemos de
fato se no País Basco e na Bretanha há juízes suficientes para
estabelecer uma tradução feita em suas línguas? A Igreja universal
não tem julgamento mais difícil a fazer, e mais solene; ao pregar e
falar, a interpretação é vaga, livre, mutável e parcelar; por escrito
não é a mesma coisa. Um de nossos historiadores gregos acusa
justamente seu século porque os segredos da religião cristã estavam
espalhados na praça, nas mãos dos artesãos menores; porque cada
um podia debatê-la e falar segundo sua interpretação. E que deveria
nos causar grande vergonha, nós que pela graça de Deus
desfrutamos dos puros mistérios da piedade, deixá-los ser
profanados na boca de pessoas ignorantes e populares, visto que os
gentios proibiam Sócrates, Platão e os mais sábios de inquirir e falar
das coisas confiadas aos sacerdotes de Delfos. Diz também que as
facções dos príncipes a respeito da teologia são abastecidas não de
zelo mas de cólera. Que o zelo decorre da divina razão e justiça,
conduzido ordenada e moderadamente; mas que se torna ódio e
inveja, e produz, em vez trigo e uva, joio e urtigas, quando conduzido
por uma paixão humana. E justamente também dizia esse outro,
conselheiro do imperador Teodósio, que as disputas não acalmam
tanto os cismas da Igreja quanto os despertam e animam as
heresias. Que por isso era preciso fugir de todas as controvérsias e
argumentações dialéticas, e reportar-se francamente às prescrições
e fórmulas da fé, estabelecidas pelos antigos. E o imperador
Andônico, tendo encontrado em seu palácio homens importantes em
discussão verbal com Lopádio, sobre um de nossos pontos de maior
importância, censurou-os a ponto de ameaçar jogá-los no rio se
continuassem. As crianças e as mulheres, em nossos dias, ensinam
aos homens mais velhos e experientes as leis eclesiásticas; enquanto
a primeira das leis de Platão as proíbe de simplesmente inquirir a
razão das leis civis, que devem servir como ordenações divinas. E
permitindo aos velhos discutirem entre si, e com o magistrado,
acrescenta: “contanto que não seja em presença dos jovens e das
pessoas profanas”. Um bispo deixou por escrito que no outro lado do
mundo há uma ilha que os antigos chamavam Dioscórida, rica em
fertilidade de todos os tipos de árvores e frutos, e em salubridade do
ar; seu povo é cristão, tendo igrejas e altares que só são
paramentados com cruzes, sem outras imagens; grande observador
de jejuns e de festas, perfeito pagador dos dízimos aos sacerdotes,
e tão casto que nenhum deles pode conhecer mais de uma mulher
em sua vida. De resto, é tão contente de sua fortuna que, no meio do
mar, ignora o uso de navios; e é tão simples que da religião que
observa com tanto cuidado não entende uma única palavra. Coisa
inacreditável a quem não soubesse que os pagãos, tão devotos
idólatras, só conhecem de seus deuses o nome e a estátua. O antigo
começo de Melanipe, tragédia de Eurípides, era assim:
O Juppiter, car de toy rien sinon
Je ne cognois seulement que le nom.195
Também vi em minha época reclamarem de alguns escritos por
serem puramente humanos e filosóficos, sem mistura de teologia.
Quem dissesse o contrário não estaria, no entanto, sem alguma
razão; que a doutrina divina tem melhor posição à parte, como rainha
e dominadora, que ela deve ser a principal em tudo, e subordinada e
subsidiária; e que talvez a gramática, a retórica e a lógica tirassem
exemplos mais adequadamente de outro lugar que de uma tão santa
matéria; assim como os argumentos dos teatros, jogos e
espetáculos públicos. Que as razões divinas são consideradas com
mais veneração e reverência sozinhas e em seu estilo do que
emparelhadas aos discursos humanos. Que com mais frequência se
vê essa falta de os teólogos escreverem humanamente demais do
que essa outra, de os humanistas escreverem teologicamente
demais; a filosofia, diz São Crisóstomo, está há muito tempo banida
da escola santa como serva inútil, e considerada indigna de ver,
ainda que de passagem e da entrada, o sacrário dos tesouros
santos da doutrina celeste. Que a linguagem humana tem suas
formas mais baixas e não deve servir-se da dignidade, majestade e
supremacia da palavra divina. Quanto a mim, deixo-a dizer, verbis