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A Igreja Missional na Biblia - Michael W. Goheen

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Published by giovane.bonotto, 2023-06-29 12:51:22

A Igreja Missional na Biblia - Michael W. Goheen

A Igreja Missional na Biblia - Michael W. Goheen

DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 51 A tentação constante ao longo de toda a história de Israel e também ao longo de toda a história da igreja tem sido esquecer o propósito missional da eleição e enfatizar somente o privilégio, a salvação e a posição de receptor. O relato de Jonas ilustra de maneira dramática e comovente o verdadeiro significado da eleição de Israel- e a maneira trágica de como Israel fracassou ao não compreender esse significadoY Em todo o Antigo Testamento, quando Israel esquece responsabilidade, serviço e missão, Deus se volta contra o povo: "De todas as famílias da terra, escolhi somente a vós; portanto, eu vos punirei por todas as vossas maldades" (Am 3.1). A observação final concernente à promessa a Abraão é a maneira com que essa promessa será cumprida: Abraão ordenará "a seus filhos e à sua futura descendência que guardem o caminho do SENHOR, para praticarem retidão e justiça, a fim de que o SENHOR realize na vida de Abraão o que disse a respeito dele" (Gn 18.19). Não ficamos sabendo como precisamente isso ocorrerá. No entanto, as expressões "que guardem o caminho do SENHOR" e "para praticarem retidão e justiça" nos fornecem uma pista importante: ambas são expressões usadas com frequência no Antigo Testamento que apontam para uma vida caracterizada pela conformidade à ordem e à lei de Deus na criação. O contexto dessas expressões é o "clamor" contra Sodoma e Gomorra por sua injustiça e opressão. Em contraposição a esse pecado repugnante, a bênção virá à medida que o povo de Deus encarnar a correta e justa intenção de Deus para a vida humana. Abraão e Israel devem ser a "verdadeira humanidade do Criador" ou a "verdadeira humanidade adâmica". 33 Sua vida deve exibir o plano de criação de Deus para a vida humana e o objetivo para o qual seu propósito redentor está se movendo. Assim, Abraão, sua família e a nação que se formará a partir dele são escolhidos para participar da missão de Deus: desfrutar da bênção redentora de Deus e andar nos caminhos do Senhor a fim de que as nações possam participar dessa bênção. Êxodo: a formação de um povo santo A história da missão de Deus em seu povo e por meio dele continua no livro de Êxodo. Deus ouve o gemido de Israel escravizado no Egito e se lembra da aliança com Abraão (Êx 2.23-25). A narrativa que se segue conta-nos como Deus age para resgatar o povo de Israel, estabelece uma aliança com eles e vem para viver no meio deles, tudo em cumprimento da promessa feita a Abraão. O plano dúplice de Deus (primeiro fazer de Abraão uma grande nação e então abençoar todas as nações por meio dela) é elucidado nos eventos do Êxodo: esses são os 32 Lesslie Newbigin, 7he Open Secret: An Introduction to the 7heology of Mission (Grand Rapids: Eerdmans, 1995), 32-33; Peskett; Ramachandra, Message of Mission, 124-39. 33 N. T. Wright, 7he New Testament and the People ofGod (London: SPCK, 1992), 262.


52 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA primeiros passos que Deus dá para cumprir a promessa abraâmica. Dessa forma, os principais eventos desse livro - redenção, aliança e tabernáculo - devem ser interpretados à luz do propósito missional de Deus como revelado a Abraão. John Durham observa que o livro de Êxodo "não é uma barafunda literária ou teológica. Ele não foi composto por acaso ou sem um propósito a orientá-lo, ou sem um conceito unificado para manter sua coerência". Antes, tem uma "unidade teológica" que se reflete na estrutura literária. 34 A estrutura literária de Êxodo tem implicações teológicas profundas para a compreensão da identidade e do papel do povo de Deus em seu propósito. Deus os liberta da escravidão (1-18), compromete-se com eles na aliança (19-24) e vem habitar no meio deles (25-40). Um povo redimido (Êxodo 1-18) Os primeiros dezoito capítulos de Êxodo descrevem a redenção do povo de Deus (Êx 6.6; 15.13). Para muitos, "redenção" é meramente mais uma palavra do dicionário teológico para descrever salvação. Mas quando é usada em Êxodo - e, na verdade, em toda a Bíblia - ela remete a uma imagem cultural e social conhecida ao povo do antigo Oriente Próximo que transmitia de forma clara e precisa o sentido do que Deus estava fazendo. Um redentor era um membro da família responsável por recuperar para a família pessoas ou bens que tivessem sido submetidos à servidão. 35 Por exemplo, a redenção podia envolver a libertação de um parente da escravidão e sua restauração ao relacionamento familiar original (cf. Lv 25.47-55). Esse parece ser o principal significado da obra redentora de Deus em Êxodo: como o Redentor divino, Deus age para libertar seu filho primogênito do cativeiro do faraó, restaurando-o ao seu lugar de direito na família de Deus (Êx 4.22,23). A redenção de um filho "contém a essência do significado de todo o relato do Êxodo". 36 A redenção em Êxodo tem sido interpretada como uma imagem de libertação espiritual ou (na tradição da teologia da libertação) como uma imagem de libertação política. No entanto, tanto a interpretação espiritualizada como a politizada deixam escapar a natureza profundamente religiosa do conflito implícito na imagem de Êxodo. A cosmovisão secular e dualista de nossa cultura Ocidental torna difícil vermos o mundo da mesma forma profundamente religiosa em que 34 John I. Durham, Exodus, Word Biblical Commentary (Waco: Word, 1987), xxi. 35 O. Procksch, "ÀÚTpov", in 1heo!ogica! Dicitionmy of the New Testament, ed. Gerhard Kittel, trad. Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids: Eerdmans, 1967), 4:330. 36 Jonathan Magonet, "The Rhetoric of God: Exodus 6.2-8",jouma! for the Study of the O!d Testament 27 (1983): 65.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 53 os povos antigos do Oriente Próximo o viam. Para eles, havia uma ligação estreita entre a religião e as dimensões sociais, econômicas e políticas da vida. O faraó era a imagem e o representante do deus sol egípcio Rá, 37 um deus-rei que governava como representante dos deuses para manter a justiça, a ordem e a harmonia na esfera social.38 Viver sob a autoridade do faraó não era simplesmente uma questão política; também era uma questão fundamentalmente religiosa. Como vassalos do faraó, o povo de Israel vive sob seu governo divino e desse modo está preso a um sistema idólatra; ele não pode servir e cultuar o Senhor (Êx 8.1). Moisés surge como um representante do Senhor- o Deus-Rei verdadeiro e vivo -para exigir que o seu povo seja liberto para cultuá-lo e servi-lo (Êx 4.23; 7.16 etc.). A recusa do faraó traz juízo: o Senhor faz cair pragas sobre o Egito, sobre o faraó e sobre os deuses egípcios (Êx 12.12; cf. Nm 33.4)39 para que toda a terra saiba que somente Deus é o Senhor (Êx 6.7; 7.5; etc.). A redenção do povo de Deus no Êxodo é, portanto, fundamentalmente religiosa. O povo de Israel é liberto da servidão e lealdade a outros deuses para que possa servir ao Senhor em todas as áreas de sua vida: social, econômica e política. Deus estabelece uma comunidade alternativa ao Egito idólatra.40 "No Êxodo, o poder do suserano é quebrado; o faraó, o deus-rei do Egito, foi derrotado e consequentemente perdeu seu direito de ser o senhor suserano de Israel; o Senhor venceu o faraó e por isso passou a governar como 37 Edward Mason Curtis, Man as the Image of God in Genesis in the Light of Ancient Near Eastem Pamllels (Ann Arbor, MI: University Microfi.lms International, 1985), 86-96, 226-28;]. Richard Middleton, 7he Libemting Image: 7he ! mago Dei in Genesis 1 (Grand Rapids: Brazos Press, 2005), 108-11. 38 H enri Frankfort, Kingship and the Gods: A Study of Ancient Near Eastern R eligion as the Integration ofSociety and Nature (Chicago: University ofChicago Press, 1948), 51, 157-58,278. No pensamento egípcio, maat era "a ordem correta - a estrutura inerente da criação da qual a justiça era parte integrante" (51; cf. 157-58). 39 Talvez as pragas, ou ao menos algumas delas, sejam dirigidas contra os deuses egípcios. Na primeira praga, a transformação do rio Nilo em sangue, Deus julga o deus egípcio O síris, cuja corrente sanguínea no entendimento dos egípcios era o Nilo. Na segunda praga, a das rãs, Deus julga a deusa-rã egípcia Heqt. Talvez a praga da peste sobre o gado seja o juízo sobre a deusa-mãe Hathor, que tinha a forma de vaca, ou o deus-boi Ápis; a praga do granizo, o juízo sobre a deusa do céu Nut; e a praga dos gafanhotos, sobre Seth, o protetor das colheitas. Na praga culminante, a nona, D eus julga o mais poderoso dos deuses egípcios, o deus-sol Rá, encobrindo todo o Egito com trevas. Em conexão com isso, duas ou três palavras que descrevem a ação de Deus nas dez pragas (traduzidas por "praga" em algumas versões) empregam a metáfora de ferir/aplicar um golpe (e.g., Êx 9.14; 11.1; 12.13). A respeito de deuses egípcios, ver Frankfort, Kingship and the Gods: sobre o deus Rá, 148-61; sobre os deuses do gado, 162-80; sobre O síris no Nilo, 190-95. 4 ° C f. Gerhard Lohfi.nk, Does God Need the Church'? Towm·d a 7heology of the People of God, trad. Linda M. Maloney ( Collegeville, MN: Liturgical Press, 1999), 68-73 .


54 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Rei sobre Israel (Êx 15.18). Como seu libertador, Deus reivindicou o direito de exigir de seu povo o compromisso de obediência a ele na aliança". 41 Ser redimido significa ser liberto para render lealdade total a Deus somente. Deus liberta seu povo de um modo de vida idólatra para viver como uma comunidade de contraste. Para que Israel pudesse viver sob a bênção de Deus e convidar outros a participar dela, teria de ser liberto da servidão a outros deuses que o haviam escravizado. Somente depois disso Israel poderia encarnar o plano original de Deus para a criação e seu alvo escatológico de uma humanidade restaurada. A redenção liberta Israel para cumprir seu papel e identidade abraâmicos. Povo da aliança (Êxodo 19-24) O povo de Deus não é somente uma comunidade redimida, mas também comunidade da aliança. A aliança talvez seja a imagem central das Escrituras usada para descrever o relacionamento de Deus com seu povo. Ao usar a imagem da aliança, Deus emprega uma noção predominante das culturas ao redor de Israel para descrever o relacionamento de Israel com ele. No uso bíblico, no entanto, a imagem é transformada. É importante prestar atenção nos dois aspectos da aliança bíblica: suas semelhanças com as práticas sociais do antigo Oriente Próximo e a maneira que ela foi transformada para servir aos propósitos de Deus. ANTECEDENTES DO ANTIGO ORIENTE PRóXIMO O termo "aliança" normalmente era usado nas culturas pagãs do antigo Oriente Próximo para descrever um acordo vinculante que definia uma relação entre duas partes, quer fosse de amigos (1Sm 18.3), de nações (Gn 14.13; 1Rs 5; 20.34) ou de cônjuges (Pv 2.17; Ml2.14). Era um pacto solene e vinculante no qual cada parte se comprometia a ser fiel aos termos estabelecidos dessa relação. Em meados do século 20, arqueólogos descobriram diversos documentos de alianças feitos por reis poderosos de impérios mundiais como o hitita e o egípcio. Esses documentos refletem acordos políticos internacionais em vigor durante o tempo em que Israel foi liberto do Egito. Há notáveis semelhanças entre os documentos dessas alianças e a aliança que Deus fez com Israel (particularmente em Êxodo 19-24 e Deuteronômio).42 41 Peter C. Craigie, 7be Book ifDeute1·onomy, New International Commentary on the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), 83. 42 Von Rad, Old Testament 7beology, 1:132. Cf. Craigie, Book ifDeuteronomy, 36-45.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 55 O estudo dessas alianças ajudou a esclarecer a linguagem usada por Deus para descrever seu relacionamento com o seu povo. 43 Alianças eram instrumentos mediante os quais reis de impérios mundiais administravam e organizavam seus reinos. Eles detalhavam os termos das relações entre seus reinos e outras nações. Havia alianças de paridade feitas entre parceiros equiparáveis, entre impérios igualmente poderosos. Por exemplo, em 1290 a.C. dois impérios mundiais- o hitita e o egípcio - estabeleceram um acordo de paz para encerrar a guerra que travavam na Síria. Havia também alianças de vassalagem feitas entre dois parceiros em situação de desigualdade, por exemplo, entre um grande rei e os povos dominados por seu império, nas quais o rei ditava soberanamente os termos da aliança e exigia uma resposta de lealdade. Essas alianças de vassalagem são semelhantes às alianças do Antigo Testamento. Uma aliança de vassalagem descreve uma relação de vínculo entre um rei e seu povo subjugado; a relação era permanente e irrevogável, e requeria o compromisso total de ambas as partes. Por isso, a aliança frequentemente era ratificada pelas duas partes mediante um juramento de fidelidade que faziam comprometendo-se com o acordo. Poderia haver também uma cerimônia imprecatória com derramamento de sangue, na qual cada lado afirmava que, se deixasse de cumprir sua parte na aliança, seu próprio sangue poderia ser derramado como o dos animais.44 Os dois lados tinham responsabilidades: o rei fazia promessas a seu povo e exigia em troca uma resposta fiel de confiança, obediência, total lealdade e sujeição, e até amor.45 Havia leis para orientar o comportamento do vassalo no contexto da relação. A relação continuava enquanto o vassalo fosse leal - quebra da aliança implicava em pena de morte. Uma aliança era um assunto sério. Moisés, tendo sido instruído na corte do faraó, certamente tinha conhecimento de alianças desse tipo. 46 Mas o que tornou a aliança de vassalagem uma imagem tão apropriada para definir o relacionamento de Deus com Israel? Peter C. Craigie 43 Para uma análise da relação dos tratados políticos do antigo Oriente Próximo com a noção bíblica de aliança, ver George E. Mendenhall, ''Ancient Oriental and Biblical Law", Biblical Archaeo/ogist 17, n. 2 (1954): 26-46; Mendenhall, "Covenant Forms in lsraelite Tradition'', Bib/ica/ Archaeologist 17, n. 3 (1954): 49-76; Dilbert R. Hilliers, Covenant: 1he History of a Biblical Idea (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1969); Dennis]. McCarthy, Old Testament Covenant: A Survey ofCurmzt Opinions (Oxford: Black.well, 1972). 44 O. Palmer Robertson define aliança como "um acordo de sangue soberanamente administrado" (1he Christ ofthe Covenants [Phillipsburg, NJ: P&R, 1980], 4). 45 É interessante observar quanto espaço a mais é concedido ao lado do suserano (de Deus) na aliança nas Escrituras em comparação com os tratados antigos. 46 K. A . Kitchen, "Egypt, Egyptians", in Dictionmy of the 0/d Testament: Pentateuch, ed. T. Desmond Alexander; David W. Baker (Downers Grove, IL: lnterVarsity, 2003), 213.


56 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA oferece uma resposta parcial: ''A aliança não funciona apenas para vincular o povo de Israel ao seu Deus, mas também indica a libertação do povo da subserviência a um poder mundano, isto é, o Egito[ ... ]. Assim como as outras pequenas nações que o cercavam, Israel deveria ser um estado vassalo, porém não do Egito ou dos hititas; ele devia sua lealdade somente a Deus".47 Há evidências de que no Egito a aliança de vassalagem era empregada não apenas no relacionamento com nações externas sujeitas ao Egito, mas também para grupos de trabalhadores estrangeiros no país. 48 Como um grande grupo étnico no Egito, Israel possivelmente estava vinculado ao faraó por uma aliança e sob seu senhorio. A aliança no Sinai ilustraria de forma contundente como Israel agora havia sido libertado daquele cativeiro, e que sua vida inteira de agora em diante estava sob nova direção; liberto da sujeição ao faraó, Israel estaria para sempre vinculado somente a Deus. Êxodo nos mostra uma fuga "do faraó para Yahweh, de um senhor para um novo senhor". 49 A IDENTIDADE ALIANCÍSTICA E MISSIONAL EXCLUSIVA DE ISRAEL Por qual motivo iria Deus - o Senhor de todas as nações - libertar essa única nação, Israel, e comprometer-se com ela mediante uma aliança? Talvez o próprio povo de Israel queira sabê-lo enquanto observa Deus em ação, conduzindo-os para fora do Egito, através do Mar Vermelho e para o Sinai. Deus dá a Moisés uma mensagem para Israel que responderá a essa pergunta: ''Assim falarás à casa de Jacó e anunciarás aos israelitas: Vistes o que fiz aos egípcios e como vos carreguei sobre asas de águias e vos trouxe a mim. Agora, portanto, se ouvirdes atentamente a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade exclusiva dentre todos os povos, porque toda a terra é minha; mas vós sereis para mim reino de sacerdotes e nação santa. Essas são as palavras que falarás aos israelitas" (Êx 19.3-6). Aqui encontramos a "identidade singular do povo de Deus",50 opapel especial que o povo de Deus desempenhará no restante do relato bíblico. Em Gênesis 12.2,3, Deus havia prometido que Abraão se tornaria uma grande nação para levar bênção a toda a terra; o livro de Êxodo relata a respeito dessa "grande" nação formada, chamada e redimida para levar essa bênção. Êxodo 19.3-6 nos diz especificamente como Israel cumprirá seu papel de passar adiante a bênção de Deus. Essa seção desdobra-se em três partes: um prólogo histórico acerca dos 4 7 Craigie, Book ifDeuteronomy, 28. 48 Ibid., 23, 79-83. 49 Walter Brueggemann, "The Book of Exodus", New Interpreters Bib!e (Nashville: Abingdon, 1994), 834. 50 Bailey Wells, God's Holy People, 34.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 57 feitos poderosos de Deus (v. 4), as condições da aliança (v. 5,6) e a resposta de Israel, comprometendo-se com os termos da aliança (v. 7,8). 51 O discurso de Deus a Israel inicia com um breve prólogo histórico, um padrão característico de documentos de aliança no antigo Oriente Próximo. Deus esboça seus feitos poderosos em favor de Israel: o que ele fez ao Egito, e como cuidou dos israelitas na sua peregrinação no deserto até trazê-los para perto de si no Sinai. Mas por qual motivo Deus fez isso a Israel? Deus revela as condições da aliança a Israel, a razão de tê-lo escolhido (v. 5,6). É difícil exagerar a importância dessas palavras para a compreensão do papel e da identidade de Israel. Como observa Terence Fretheim: ''A lente através da qual podemos ver todo o livro de Êxodo é o discurso feito por Deus em 19.3-6. De fato, afirma-se que, em toda a tradição de Moisés, esse é provavelmente o discurso mais programático que temos para a fé israelita". 52 A importância desses versículos fica clara quando observamos que a história inteira de Êxodo se move em direção a esse momento quando o Senhor revela seu propósito e papel para Israel: "É como se tudo o que houve antes, desde que YHWH chamou Moisés para tirar o seu povo do Egito (Êx 3), estivesse conduzindo para esse momento". 53 Aqui o propósito redentor de Deus, seu cuidado providencial e o ajuntamento de Israel para si em uma aliança são anunciados a Moisés e revelados a Israel. Mas o relato não é direcionado somente para esse momento; ele também segue para além dele. O restante do Antigo Testamento oferece um relato narrativo de quão bem Israel cumpre o seu chamado: "Esse papel especial se torna uma espécie de lente através da qual Israel é visto em todo o restante da Bíblia". 5 4 Três designações descrevem esse papel especial: Israel como sendo "propriedade exclusiva" de Deus, "reino de sacerdotes" e "nação santa". O primeiro termo, "propriedade exclusiva", refere-se ao tesouro pessoal de um rei. Embora todo o reino de algum modo pertença a ele, o rei também possui seu tesouro pessoal separado para seu uso particular. Mesmo que Deus governe sobre todas as nações, Israel pertence a ele de uma forma especial e foi escolhido para uma tarefa especial. 55 A escolha que Deus faz de Israel é posta em um contexto universal: "porque 51 Brevard Childs, Ihe Book rj'Exodus (Louisville: Westminster, 1974), 366. 52 Terence E. Fretheim, "'Because the Whole Earth Is Mine': Theme and Narrative in Exodus", Inte1pretation 50, n. 3 (Julho 1996): 229. 53 Bailey Wells, God's Holy People, 37. 54 Durham, Exodus, xiii. 55 Dumbrell observa que essa palavra contém "embutida em si conotações de eleição". Israel é escolhido e separado "como um meio para atingir um fim" ( Covenant and Creation, 86).


58 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA toda a terra é minha". 56 Deus escolhe Israel por este motivo: toda a terra pertence a Deus e ele está retomando a posse dela. Israel será o meio pelo qual Deus realiza seu objetivo: a renovação da criação e de todas as nações. Como Williamson observa: ''A eleição de Israel como 'tesouro especial' de Javé não é um fim em si mesmo, mas um meio para um fim muito maior. Com essa compreensão, o alvo da aliança do Sinai é o estabelecimento de uma nação especial por meio da qual Javé possa se fazer conhecido a todas as famílias da terra". 5 7 A maneira que Israel desempenhará esse papel é expressa em duas imagens: ele deve ser um reino de sacerdotes e uma nação santa. Considere-se primeiro o termo "reino de sacerdotes": "Israel deve cumprir um papel sacerdotal como um povo no meio dos povos; ele representa a Deus no mundo das nações. O que sacerdotes são para um povo, Israel como um povo é para o mundo". 58 Aqui é instrutivo considerar três elementos do papel do sacerdote no Antigo Testamento: ele deve ser separado em santidade, servir de mediador da presença e da bênção de Deus, e tudo isso em favor de outros. 5 9 Um sacerdote é separado e consagrado totalmente ao Senhor: essa é a verdadeira essência do que ele deve ser e fazer. Ele deve atuar como mediador e canal da presença santa de Deus para a comunidade por meio de sua própria vida e comportamento santos, um modelo de consagração e devoção a Deus. Jo Bailey Wells observa que para sacerdotes o ser santo significa que "sacerdotes vivem em um relacionamento especialmente íntimo com Deus (eram os que se aproximavam de Deus ... ); e que o caráter da santidade de Deus deve ser refletido por meio deles de maneira especial para o povo (Lv 21.8)". Portanto, "eles têm a responsabilidade de encarnar a santidade de Deus para o povo".60 Da mesma maneira, Israel é chamado por Deus para mediar sua presença para as nações ao seu redor, a fim de ser uma evidência concreta da presença de Deus em seu meio. 56 Dumbrell acertadamente observa que a frase "porque [ki] toda a terra é minha" deve ser entendida "não como uma afirmação do direito de escolha, mas como as razões ou o objetivo da escolha" ("The Prospect of the Unconditionality o f the Sinaitic Covenant", in lsmel's Apostasy and Restoration: Essays in Honor of Roland K Ha1-rison, ed. A. Gileadi [ Grand Rapids: Baker Academic, 1988], 146. C[ Fretheim, que também a traduz por "porque toda a terra é minha" e observa que ela conecta esse texto com o propósito missional de Deus pronunciado primeiramente a Abraão em Gênesis 12.3 ("Because the Whole Earth Is Mine", 237). 57Williamson, "Covenant", 150. 58 Blauw, Missionmy Nature of the Chunh, 24. 59 Ver capítulo sugestivo de Bailey Well" 'Holy to the Lord': Priesthood according to the Torah", in God's Holy People, 98-129. 60 lbid., 113-14.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 59 Todas essas coisas o sacerdote realiza em favor de outros. A vida do sacerdote não é para si mesmo: ele vive para levar bênção a Israel. Deus ordena a Arão e a seus filhos que abençoem os israelitas assim: "O SENHOR te abençoe e te guarde; o SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o SENHOR levante sobre ti o seu rosto e te dê a paz" (Nm 6.22-26). Do mesmo modo, Deus havia prometido que a nação que viria de Abraão levaria bênção a todas as outras nações; também dessa maneira Israel deve cumprir uma função sacerdotal diante de seus vizinhos. Dumbrell chega a dizer que o chamado de Êxodo 19.4,5 é "praticamente uma reafirmação de Gênesis 12.1-3".61 Consequentemente, Israel, como um reino de sacerdotes, vive em favor das nações; Israel deve ser totalmente consagrado ao serviço a Deus e a exibir, em sua vida coletiva, sua lealdade ao verdadeiro Deus e a vida de bênção que Deus tem em mente para todos. O outro título, "nação santa", expressa uma compreensão semelhante da identidade e do papel do povo. Santidade é a qualidade especial de algo que foi separado de seu uso normal e consagrado para o serviço a Deus. Como uma nação santa, Israel deve ser separado, por assim dizer, das nações. A vida do povo de Israel deve ser notadamente diferente da vida dos povos ao seu redor. Como observa Durham, eles "devem ser um povo separado, diferente de todos os outros povos, pelo que são e estão se tornando- um povo em exposição, uma vitrine para o mundo de como estar em aliança com Javé muda um povo". 62 Como uma nação santa, devem viver diante do mundo como um modelo ou paradigma daquilo que Deus tem em mente para todos, "um modelo societário para o mundo [ ... ] o paradigma do governo teocrático que deve ser o alvo bíblico para o mundo inteiro". 63 Eles devem ser santos porque pertencem a um Deus que é santo: "Sereis santos, porque eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo" (Lv 19.2). Essa exortação é seguida de exigências abrangentes relativas à vida de Israel que irá caracterizá-lo como povo distinto. Todas as esferas da vida devem ser santas para o Senhor: respeito nos relacionamentos familiares (v. 2); libertação da idolatria (v. 3); interesse pelos pobres (v. 9,10), pelos vulneráveis (v. 14), pelos idosos (v. 32) e pelos estrangeiros (v. 33); probidade nas relações econômicas (v. 13); integridade interpessoal (v. 11); justiça nos tribunais (v. 15) e nas conversas (v. 16); interesse pela segurança e bem-estar do próximo (v. 16), e mesmo amor ao próximo (v. 18); fidelidade sexual (v. 20-22); cuidado pela criação não humana (v. 23-25); distância de qualquer religião pagã (v. 26-28,31); honestidade comercial (v. 35,36) 6 1 Dumbrell, Covenant and Ci·eation, 89. 62 Durham, Exodus, 263. 63 Dumbrell, Covenant and Creation, 87.


60 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA e outras. Portanto, Israel viveria como uma nação santa no meio das nações, como uma nação cuja vida havia sido transformada. O chamado missional de Israel descrito aqui em Êxodo 19 como uma nação santa e um reino sacerdotal é centrípeto. Israel deve encarnar a intenção que Deus tinha com a criação para toda a humanidade em favor do mundo, vivendo de tal maneira que atraia as nações à aliança com Deus. Ou, usando a linguagem posterior de Isaías, Israel é chamado a ser uma "luz para as nações" (Is 42.6). Assim, o chamado de Deus para que Israel seja um povo sacerdotal e uma nação santa coloca o povo explicitamente na posição intermediária entre Deus e as nações. Por um lado, eles são separados para a glória e o propósito de Deus, orientados para ele, para tornar conhecida a sua majestade e, desse modo, desempenhar seu papel na missão dele; por outro lado, eles são separados em favor das nações, orientados para os povos ao redor, a fim de ser para eles um mediador da bênção de Deus. A aliança apresentada a Israel em Êxodo 19.3-6lhe confere esse papel e identidade missionais entre todas as nações. Moisés convoca os anciãos a responder ao chamado de Deus, e eles afirmam, em nome de todo o povo: "Faremos tudo o que o SENHOR falou" (Êx 19.8). A VIDA ATRAENrE DE UM POVO DE CONTRASTE As estipulações da aliança acompanham o chamado missional de Israel (Êx 20-23). A Torá, ou instrução, que Deus dá ao povo de Israel serve para ajudá-los a colocar em prática o seu chamado como nação santa, povo de contraste em meio às nações. O "Êxodo tirou o povo [de Israel] do Egito a fim de fazer deles uma nova sociedade, e a Torá fornece o modelo para essa nova sociedade". 64 Israel recebe, antes de tudo, dez "palavras" (Êx 20.1-17), diretrizes abrangentes da criação para moldar a vida de Israel. Segue-se a isso uma legislação social (Êx 20- 23) que desenvolve as implicações das dez palavras para a situação cultural particular de Israel. Portanto, a Torá que Israel recebe é, por um lado, univenal, pois manifesta o plano da criação de Deus e seu propósito para toda a vida humana. Mas, por outro lado, ela também é particular, por ser exemplo de uma contextualização social e cultural específica de uma ordem em um tempo determinado e em lugar e cultura específicos. A lei é o modo de vida, a maneira que Deus deseja que a vida humana seja vivida. Se quisermos entender o chamado missional de Israel e da igreja, precisamos prestar atenção no vínculo da lei com a criação. A missão de Deus desde o Éden havia sido resgatar a boa criação de sua contaminação pecaminosa: ele fez 64 Lohfink, D oes God Need the Church? 7 4-7 5.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 61 a promessa a Adão e iniciou a longa jornada de redenção para realizá-la. Israel se torna o portador dessa promessa, encarnando o compromisso de Deus de renovar a criação. Dessa forma, a vida de Israel aponta para trás, para o plano da criação, e para a intenção da vida humana. Ela também aponta para frente, para o objetivo final de Deus de uma criação restaurada. Por esse motivo, a instrução da lei para Israel cobre todo o escopo da vida humana. O povo de Israel agora serve ao Senhor de uma nova aliança, o Deus da criação. Eles devem a ele sua lealdade completa e devem consagrar suas estruturas sociais, econômicas, familiares e políticas - na verdade, toda a sua vida pessoal, social e cultural- a ele. A Torá cria uma comunidade e um povo cuja vida deve ser luz para o mundo. As muitas estipulações da Torá têm "como sua única intenção levar toda a vida para debaixo do senhorio imediato, direto e radical desse Deus. Nenhuma área da vida está isenta de seu propósito e da sua vontade". 65 Em nítido contraste com o dualismo atual, pelo qual restringimos a obediência a Deus a uma área privada e individual da vida que podemos rotular de "ética" ou "moral", na Torá Israel é lembrado de que Deus governa a vida humana como um todo: "Nenhuma área da vida humana está fora da perspectiva da lei e da aliança. No mundo moderno, fazemos com frequência uma distinção entre o religioso e o secular, ou entre o sagrado e o profano. Para Israel, essa seria uma distinção artificial, não porque não houvesse distinção nas esferas da vida nas quais a lei era vigente, mas porque a vida como um todo estava sob o domínio de Deus, o Senhor da aliança". 66 A natureza contextual da lei destaca mais uma dimensão importante da identidade missional de Israel: o povo foi posicionado para confrontar a idolatria das nações ao seu redor. Israel é chamado a viver precisamente no contexto cultural do antigo Oriente Próximo, mas ao fazê-lo precisa confrontar a idolatria daquela sociedade. As leis não são abstratas, ou seja, não são diretrizes universais separadas do contexto cultural mais amplo no qual Israel está inserido. O plano divino da criação universalmente válido para a vida humana está contextualizado no cenário cultural particular de Israel. A vida de obediência de Israel deve ser vivida como um embate missionário com o espírito religioso da cultura cananeia. E, consequentemente, há uma terceira orientação evidente na vida de Israel: ela aponta para trás, em direção ao plano da criação, e para frente, para o propósito redentor de Deus, mas também aponta para fora, opondo-se à idolatria que contamina e enfraquece a vida humana. Por essa razão, pouco antes de Israel entrar na terra, a lei é expandida em Deuteronômio para tratar dos numerosos perigos que Israel 65 De Ridder, Discipling the Nations, 39. 66 Craigie, Book ofDeuteronomy, 42.


62 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA encontrará na terra. Ao obedecer à Lei, Israel será um povo de contraste em meio às nações: ''A santidade de Israel também depende de o povo realmente conseguir viver de acordo com a ordem social que Deus lhe deu, uma ordem social que está em contraste acentuado com as de todas as outras nações"Y Nessa ordem social de contraste, por exemplo, cada pessoa, rica ou pobre, terá a oportunidade de prosperar. Este será um lugar no qual cada pessoa está protegida e é capaz de prover para si mesma. Isso é especialmente evidente nas leis referentes à doação inalienável de terra a cada família em Israel. A terra não deve ser permanentemente vendida. Por isso, cada família recebe capital gerador de riqueza e desse modo é protegida da pobreza crônica. Caso uma família enfrente dificuldades e venda a propriedade, esta terá de ser devolvida no Ano do Jubileu. O acúmulo de terras ou a busca de quaisquer posses à custa de outro são estritamente proibidos: "Não cobiçarás" (Dt 5.21). A posse de toda a terra era de Javé, e esta era a base para essas leis: "Não se venderão terras em definitivo, porque a terra é minha" (Lv 25.23). Como Christopher Wright observa: "O Senhor se põe no papel de proprietário de terras e os israelitas como seus arrendatários dependentes". 68 Comparando-se essas leis ao que era praticado entre as nações cananeias, elas eram absolutamente revolucionárias. O s governantes cananeus possuíam toda a terra em seus pequenos reinos e permitiam que outros cultivassem a terra em troca de impostos pesados. 69 Outras leis propiciaram provisão adicional para a justiça social e econômica: leis de respigo para deixar parte da colheita para os pobres (Lv 19.9); separação dos dízimos para provisão dos levitas e dos pobres (Dt 26.12); leis regulando o pagamento justo aos trabalhadores (Dt 24.14) e até aos animais (Dt 25.4). Assim, a lei requer justiça, porém vai muito além para incluir o cuidado benevolente dos fracos e vulneráveis: "não haverá pobre algum no teu meio" (Dt 15.4). A responsabilidade de cada israelita de cuidar dos oprimidos, famintos, encarcerados, cegos, abatidos, peregrinos, órfãos e viúvas baseia-se na preocupação especial de Deus pelos vulneráveis (Sl146). A vida social mosaica de justiça e misericórdia é designada para suscitar a admiração e inveja das nações, que exclamarão: "E que grande nação há que tenha 67 Gerhard Lohfink,]esus and Commzmity: The Social D imemion of the Ch1·istian Faith, trad. J ohn P. Galvin (Philadelphia: Fortress Press, 1984), 123. 68 Christopher J. H. Wright, Old Testament Ethics jo1· the People ofGod (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2004), 94. 69 Para uma comparação entre a ética social de Israel e a das nações ao seu redor, ver M oshe Weinfeld, Social j ustice in Israel and in the Ancient Near E ast (Jerusalem: H ebrew U niversity M agnes Press, 1995). Weinfeld observa semelhanças como também diferenças, mostrando que Israel estava adaptado ao seu ambiente cultural, mas também em conflito com ele.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 63 estatutos e preceitos tão justos quanto toda esta lei que hoje ponho diante de vós?" (Dt 4.8). Injustiça e desobediência à Torá resultam no abandono da identidade missional de Israel. Deus havia tornado claro a Abraão séculos antes que a promessa que lhe foi feita somente se realizaria se ele andasse nos caminhos do Senhor, em retidão e justiça (Gn 18.19). Agora o povo de Israel também tem a incumbência de cumprir o seu chamado vivendo uma vida sujeita à vontade criacional divina para a vida humana, apontando para o propósito final de Deus de restaurar a sua criação, e dirigida contra a idolatria de nações pagãs. Assim como Abraão, Israel deve ser um povo santo, cuja vida de justiça, retidão, misericórdia e shalom deve demonstrar que o Deus Criador vive no meio deles (Dt 4.5-8). A IDENTIDADE ALIANCÍSTICA E MISSIONAL DE ISRAEL CONFIRMADA O encontro mediante uma aliança entre Deus e Israel é confirmado com duas cerimônias (Êx 24.3-8, 9-11), as quais podem ser entendidas nos termos das práticas relativas às alianças da época. Primeiro, Moisés oferece um holocausto, aspergindo o sangue do animal sobre o altar, o símbolo da presença de Deus. Ele então pede mais uma vez a resposta do povo à aliança, que então responde: "Faremos em obediência tudo o que o SENHOR falou" (Êx 24.7). Então Moisés asperge sangue sobre o povo com estas palavras: "Este é o sangue da aliança que o SENHOR fez com vocês de acordo com todas essas palavras" (Êx 24.8 NVI). É possível que a aspersão do sangue seja uma cerimônia imprecatória da aliança que invoca a maldição da morte caso a aliança seja violada: "Se esta aliança for quebrada, que meu sangue seja derramado como foi o desse animal". O fato de que ele é aspergido tanto no altar como sobre o povo revela que há duas partes nessa aliança: Deus e Israel. Ambos agora estão comprometidos com seus termos: é um acordo de sangue.l0 Porém, o sangue aspergido sobre o povo de Israel também podia indicar a consagração deles a um chamado missional como uma nação santa e um reino sacerdotaF1 Assim como um sacerdote era consagrado por meio da aspersão de sangue, do mesmo modo Israel é consagrado em seu papel sacerdotal (Êx 24.6-8; cf. Êx 29.1,21). A segunda cerimônia é uma refeição de aliança, na qual Deus come com os líderes de Israel como representantes de toda a nação. Seguindo a ratificação da 70 Robertson, Christ of the Covenants, 135. 71 E. W. Nicholson, "The Covenant Ritual in Exodus XXIV 3- 8", Vetus Testamentum 32 (1982): 80-83 .


64 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA aliança-de-sangue, essa refeição de aliança reúne as partes do acordo para desfrutar a comunhão e celebrar o novo relacionamento que foi estabelecido. 72 Israel, portanto, está comprometido com Deus em aliança, e a promessa de Deus a Moisés é cumprida: "Eu vos tomarei por meu povo e serei vosso Deus" (Êx 6. 7). Israel é chamado para tornar esse Deus conhecido às nações. Assim, a aliança define o relacionamento que Israel tem com Deus, sua identidade como povo de Deus e seu papel de mediador da bênção de Deus para as nações. O restante do Antigo Testamento relata quão fiel Israel é a esse chamado. A presença de Deus no meio de seu povo (Êxodo 25-40) A identidade do povo de Deus é definida não somente pela redenção e aliança, mas também pela presença viva e ativa de Deus em seu meio (Êx 25-40). 73 Esse é um relato, afinal, da missão de Deus. Os últimos capítulos de Êxodo salientam a libertação do Egito e a aliança no Sinai com um registro da vinda de Deus para habitar entre o seu povo. Há três seções nos últimos capítulos de Êxodo: (1) instruções de Deus para Israel sobre como construir o tabernáculo que será seu lugar de habitação (Êx 25-31); (2) o registro histórico da desobediência de Israel com o bezerro de ouro e o que se segue (Êx 32-34); e (3) um relatório de como Israel segue as instruções de Deus e constrói o tabernáculo (Êx 35-40). Todo esse relato extraordinário de três partes termina com a glória de Deus enchendo o tabernáculo (Êx 40.34-38). Deus ordena a Moisés que diga aos israelitas: "E farão um santuário para mim, e eu habitarei no meio deles. Façam tudo como eu lhe mostrar, conforme o modelo do tabernáculo e de cada utensílio" (Êx 25.8,9, NVI). As duas palavras aqui usadas para a tenda de Deus têm rico significado. A palavra traduzida por "santuário" é derivada da palavra "santo" e indica que essa tenda será um lugar santo, "para transmitir aos antigos israelitas (e ao leitor moderno) tanto a santidade de Deus como os seus cuidados e intenções para a santidade de seu povo". 74 A palavra traduzida por "tabernáculo" está relacionada com o verbo "habitar" e indica que essa tenda deve ser a habitação de Deus no meio de Israel: "eu habitarei no meio deles" (Êx 25.8). Uma terceira palavra para o tabernáculo em Êxodo 25 é a palavra comum para uma "tenda", como aquelas nas quais os próprios israelitas viviam, 72 Von Rad, Old Testament 7heology, 1:254; Childs, Book of Exodus, 507; Dumbrell, Covenant and Creation, 94. 73 Para Durham, esse é o tema teológico principal que dá unidade a todo o livro de Êxodo: "O núcleo dessa unidade é a teologia de Javé presente com seu povo Israel e no meio dele" (Exodus, xxi). " R. E. Averbeck, "Tabernacle", in Dictionmy of the Old Testament: Pentateuch, ed. T. Desmond Alexander; David W. Baker (Downers Grove, IL: lnterVarsity, 2003), 809.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 65 mas ela é qualificada como a tenda do encontro. "Virei aos israelitas ali, e a tenda será santificada pela minha glória [ ... ].Habitarei no meio dos israelitas e serei o seu Deus; e eles saberão que eu sou o SENHOR seu Deus, que os tirou da terra do Egito para habitar no meio deles. Eu sou o SENHOR seu Deus" (Êx 29.42-46). As meticulosas instruções relativas à estrutura, aos materiais e à mobília expressam em símbolos o que significa para um Deus santo viver no meio do seu povo. Cada detalhe dado nas instruções de Deus revela o que está envolvido em um relacionamento de aliança entre Deus e seu povo. Há uma semelhança surpreendente entre o desenho do tabernáculo e o da tenda de guerra do faraó egípcio Ramsés II (que pode ter sido o faraó que governava durante o tempo de Moisés). 75 Além disso, assim como o acampamento de guerra dos egípcios, o tabernáculo está no centro do acampamento. 76 Isso deve ter causado uma impressão fortíssima no povo de Israel de que o senhor de uma nova aliança veio para habitar entre eles, um novo rei a quem deveriam ser totalmente leais e completamente obedientes. Êxodo 25-31 nos traz as instruções de Deus a Moisés relativas à construção do tabernáculo; Êxodo 35-40 registra o consentimento de Israel ao construir o tabernáculo em perfeita conformidade com essas instruções. Porém, entre essas duas passagens está uma narrativa que parece estranhamente fora de lugar, uma "interrupção histórica e literária no relato da construção do tabernáculo". 77 É fácil negligenciar o profundo significado teológico de seu lugar na estrutura literária. A "interrupção" de Êxodo 32-34 oferece uma compreensão significativa de como Deus habita com o seu povo. Ela inicia com o relato de um ato de apostasia que ameaça a própria possibilidade de Deus vir habitar entre o seu povo: Israel faz e adora um bezerro de ouro. Deus ameaça destruir o povo, mas Moisés intercede com base na aliança e em como o nome de Deus ficaria conhecido entre as nações, e o Senhor cede (Êx 32.7 -14). Depois de executar o juízo, Deus diz que dará a terra a Israel, porém já não irá com eles (Êx 33.1-3) porque, como um povo pecador, eles estariam em constante perigo de morte na presença de um Deus santo. Seria como armazenar explosivos em uma oficina de solda: a própria presença de Deus poderia destruir esse povo pecador se ele fosse habitar com eles. Mas Moisés continua a 75 K. A. Kitchen, "Egyptians and Hebrews, from Ra'amses to Jericho", in 7he Origin ofEarly Israel - Current Debate: Biblica!, Historica!, andArchaeological Perspectives, ed. Shmuel Ahituv; Eliezer D. Oren (Jerusalem: Ben-Gurion University of the Negev Press, 1995), 95. 76 K. A. Kitchen, "The Tabernacle- A Bronze Age Artifact", Eretz-Israel (1993): 123. Vertambém K. A. Kitchen, "The Desert Tabernacle", Bible Review 16, n. 6 (December 2000): 14-21; M. M. Homan, "The Divine Warrior in His Tent", Bible Review 16, n. 6 (December 2000): 22-33,55. 77 Averbeck, "Tabernacle", 816.


66 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA argumentar com Deus, e Deus então cede novamente, dizendo que sua presença irá com Moisés ("com você", no singular; Êx 33.14). 78 Moisés roga a Deus que não vá apenas com o próprio Moisés, mas com todo o Israel ("conosco", plural). Moisés então faz uma pergunta realmente extraordinária, uma que elucida de modo surpreendente toda essa seção da palavra de Deus e nossa compreensão do que significa ser povo de Deus: "Como saber que achei favor aos teus olhos, eu e o teu povo? Por acaso não é por andares conosco, para que sejamos separados, eu e o teu povo, de todos os povos da face da terra?" (Êx 33.16). Por mais perigoso que possa ser, é precisamente a presença de Deus com o seu povo que o distingue de outros povos. Qyando Deus promete fazer exatamente o que Moisés pediu, Moisés suplica por uma garantia da promessa de Deus em uma nova revelação divina. Essa revelação (Êx 34.6,7) se torna a base de uma importante confissão, um credo que ecoa em toda a história de Israel (2Cr 30.9; Ne 9.17; Sl 86.5,15; 103.8; 145.8;Jl2.13;Jn 4.2): "SENHOR, SENHOR, Deus misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e cheio de bondade e de fidelidade; que usa de bondade com milhares; que perdoa a maldade, a transgressão e o pecado". A ênfase até esse ponto em Êxodo tem sido a santidade de Deus e a exigência da santidade do povo de Deus. Porém, aqui palavras de amor e graça são amontoadas para reassegurar Israel de que Deus habitará no meio de seu povo como um Deus gracioso, amoroso, compassivo, paciente, fiel e perdoador. O nome Javé é agora associado a seu amor pactuai (hesed). Esse termo é "normalmente traduzido por 'amor imutável', 'fidelidade da aliança' ou algo parecido. Ele se torna a palavra que desse ponto em diante resume o compromisso divino com o relacionamento". 79 Deus compromete-se com Israel em amor. Moisés então pede a Deus que habite no meio de seu povo e vá com eles como um Deus que perdoa a maldade, um Deus santo de amor pactuai. Agora pode ser iniciada a construção do lugar de habitação de Deus; quando está concluído, a nuvem da presença de Deus cobre a tenda do encontro e a glória de Deus enche o tabernáculo (Êx 40.34-38). Desse ponto em diante, Deus está presente com Israel por meio de uma nuvem e de uma coluna de fogo para guiar e proteger o seu povo. A importância da presença do Senhor para a identidade de Israel é no mínimo tripla. Primeiro, a vida do povo de Deus será caracterizada por um relacionamento contínuo de amor e obediência. O Senhor, o rei da aliança dos israelitas, habita no 78 Deus diz: "Minha presença irá com você". O "você" (obviamente no singular) pode se referir a Moisés, que então pede a D eus que venha "conosco" (plural) (Peter Enns, Exodus, N ew International Version Application Commentary [Grand Rapids: Zondervan, 2000], 581). Nem todos os comentaristas veem a importância do "você" no singular como referência a Moisés. 79 Dumbrell, Covenant and Creation, 106.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSIONAL 67 meio deles como o faraó, o deus-rei, habitava no meio de suas tropas, e eles devem se submeter ao seu senhorio pactuai. Porém, isso é mais do que um relacionamento político: daqui em diante na história de Israel o amor de Pai e filho se torna um elemento de destaque do relacionamento de aliança. 80 Segundo, a vida do povo de Deus será caracterizada doravante pelo culto coletivo. Fretheim observa que "não importa o sentido que se dê aos detalhes relativos ao tabernáculo, eles demonstram a importância do culto e a presença especial de Deus a ele relacionada". 81 Somente um povo que adora a Deus pode reivindicar a salvação divina. Moisés deve dar ao faraó a mensagem: "Deixa meu filho ir, para que me cultue" (Êx 4.23). Moisés simplesmente entrega essa mensagem sete vezes: "Deixa o meu povo ir, para que me cultue" (Êx 8.1,20 etc.). O propósito da redenção é criar um povo que adora: a presença contínua de Deus com o povo de Israel agora os chama à adoração contínua de seu divino rei. A adoração é central para a identidade do povo de Deus: "Missão não é o objetivo final da igreja. Adoração é. Missões existe porque falta adoração. A adoração [ ... ] é o combustível e o alvo de missões. É o alvo de missões porque em missões simplesmente almejamos trazer as nações ao ardente deleite da glória de Deus [ .. . ].Mas a adoração também é o combustível para missões [ ... ]. Não se pode recomendar o que não se aprecia [ ... ].Missões começa e termina em adoração". 82 O povo de Deus celebra a presença de Deus entre eles como uma comunidade adoradora. Terceiro, Deus estará presente no meio deles para agir neles e por meio deles para realizar a sua missão. Ser uma nação santa e um reino sacerdotal em favor das nações não será um papel simplesmente colocado sobre os ombros de Israel para ser realizado por meio de suas próprias forças. Deus estará no meio de seu povo agindo de maneira poderosa para se tornar conhecido às nações. Será YHWH, o Senhor, que virá habitar em Israel. Esse é o nome que Deus revelou a Moisés quando o chamou (Êx 3.14) e o nome pelo qual se fez conhecer a Israel no Sinai (Êx 6.2,3) e pelo qual continuará sendo conhecido em Israel (Êx 3 .15). Nas culturas do antigo Oriente Próximo, o nome de uma divindade descreve quem ela é e quem ela será para os seus adoradores. O nome YHWH deriva do verbo "ser" e pode significar "Eu Sou O QyE Sou" (Êx 3.14) ou "Eu SEREI o QyE Eu SEREI". Ao que tudo indica, o significado está em que Deus estará presente 8 ° Craigie, Book oJ D euteronomy, 41. 81 Fretheim, "Because the Whole Earth Is Mine", 230. Durham se refere ao tabernáculo e sua mobília como os "meios para o culto" (Exodus, 350). 82 Piper, Let the N ations Be Glad, 35-36.


68 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA entre o povo de Israel83 ou no fato de que o caráter de Deus será revelado por meio de seus futuros feitos poderosos.84 A presença de Deus é ativa e poderosa, agindo em Israel e por meio dele. Ou, visto de outro modo, Deus será visto naquilo que ele faz. 85 Qyem ele é não pode ser apreendido em um nome; quem ele é somente pode ser conhecido por meio da observação de seus atos poderosos no futuro. O nome é como um recipiente vazio que será enchido à medida que Israel vir os feitos maravilhosos de Deus. O Deus poderoso que age veio para habitar no meio do povo de Israel, e sua atividade, ou missão, é a de agir primeiro em Israel- mas ele continuará nessa missão para agir por meio de Israel, efetuando a salvação da criação e de todas as nações. Johannes Blauw afirma que "não é a atividade humana que sobressai no Antigo Testamento, mas os atos divinos para a redenção de Israel. Esses atos não podem ser restritos a Israel, pois a existência e redenção de Israel têm consequências para as nações". 86 Martin-Achard também deixa claro que será a presença de Deus agindo de maneira poderosa em Israel e por meio dele que cumprirá a sua missão: Deus converte as nações agindo no meio de seu próprio povo. Suas intervenções, e somente essas, fazem de Israel a luz do mundo. A Igreja faz sua obra de evangelização na medida em que o seu Senhor lhe concede vida; quando ela vive baseada nele, sua própria existência é eficaz. Em contraste com o que às vezes se tem acreditado, missão nada tem em comum com qualquer tipo de empreendimento político ou comercial; ela é totalmente dependente da atividade oculta de Deus em sua Igreja, e é o fruto de uma vida verdadeiramente arraigada em Deus. A evangelização do mundo não é principalmente uma questão de palavras ou ações: é uma questão de presença - a presença do povo de Deus em meio à 83 E.g., Durham, Exodus, 39-40: O nome Javé "é definido em termos de um ser ativo ou de uma Presença". C f. J. Ale c Motyer, que acredita que o uso do verbo "ser" "tende fortemente na direção de 'presença ativa' [ .. .]. A presença desse Deus não é, portanto, um simples 'é/está', mas uma força viva, vital e pessoal" (lhe Message ifExodus: 1he Days ifOur Pi!grimage [Downers Grove, IL: InterVarsity, 2005], 69). 84 Childs, Book if Exodus, 76: "Deus diz a Moisés: 'Eu serei quem eu serei.'[ ... ] Deus anuncia que suas intenções serão reveladas em seus atos futuros, que ele agora se recusa a explicar". Cf. Dumbrell, Covenant and Creation, 84: "A natureza de Javé será conhecida por seus atos futuros, particularmente pela agora iminente libertação". 85 Charles R. Gianotti, "The Meaning o f the Divine Name YHWH", Bib!iotheca Sacra 142, n. 565 (January-March 1985): 45. Nesse artigo, Gianotti resume cinco principais interpretações do nome YHWH, optando pela visão "fenomenológica", cuja compreensão do sentido do nome é a de que "Deus irá se revelar em suas ações ao longo da história". 86 Blauw, Missionmy Natm·e if the Church, 42.


DEUS FORMA ISRAEL COMO UM POVO MISSJONAL 69 humanidade e a presença de Deus em meio ao seu povo. E certamente não é em vão que o Antigo Testamento lembra a Igreja dessa verdade. 87 O livro de Êxodo então faz o relato de Deus libertando Israel da escravidão, "o ato pelo qual Israel passa a existir como um povo". Ele os amarra a si em uma aliança e define o papel especial que desempenharão na história a seguir. A importância disso para a eclesiologia é demonstrada pela forma como o restante do relato bíblico reconta o quão fiel Israel é a esse papel. "Esse papel especial torna-se uma espécie de lente por meio da qual Israel é visto em todo o restante da Bíblia [ .. .]. É esse papel especial, na verdade, que entretece o livro de Êxodo tão perfeitamente no tecido canônico iniciado com Gênesis e concluído somente com o Apocalipse".88 Conclusão Este capítulo seguiu as pegadas do papel e da identidade do povo de Deus no relato do Antigo Testamento, que é a base para toda a compreensão fundamentada que quisermos ter da igreja no Novo Testamento. Há bastante continuidade entre os povos da antiga e da nova aliança de Deus. A nova aliança (ou testamento) é a última de uma longa linha de renovações de aliança pelas quais o povo de Deus tem sido chamado de volta à sua tarefa. Blauw nos recorda que é de "grande importância, não apenas para a 'teologia de missões', mas também para a 'teologia da Igreja', trazer à mente sempre e de novo essa tarefa universal de Israel no mundo e em favor dele". 89 Isso porque a igreja herda esse chamado. Porém, antes de avançarmos para o povo de Deus da nova aliança, devemos investigar a história de Israel no que se refere ao cumprimento do seu chamado missional entre as nações. 87 Martin-Achard, Light to the Nations, 79. 88 Durham, Exodus, xxiii. 89 Blauw, M issionary Nature of the Church, 28 (grifo do autor).


3 Israel encarna seu papel e identidade missionais entre as nações Os textos de Gênesis 12.2,3 e Êxodo 19.3-6 fornecem uma lente hermenêutica através da qual podemos ver claramente o papel e a identidade do povo de Deus no Antigo Testamento, pois nessas passagens Deus "faz do minúsculo Israel o centro da terra, o ponto central da história e o alvo da criação". ' D eus prosseguirá com seus propósitos para toda a criação por meio de Israel, primeiro fazendo de Abraão uma grande nação e então abençoando todas as nações e toda a criação por meio dessa nação. A nação proveniente de Abraão deve viver como um povo de contraste em meio à idolatria pagã, encarnando as intenções criacionais de Deus como uma indicação da direção que a história da redenção está tomando. Duane Christensen observa que " 'Israel como luz para as nações' não é um tema periférico no processo canônico. As nações são o contexto da vida de Israel, a razão de ser de sua própria existência'? De modo semelhante, Christopher Wright comenta que "a missão de Deus é o que preenche o intervalo entre a dispersão das nações em Gênesis 11 e a cura das nações em Apocalipse 22. É a missão de Deus em relação às nações, sem dúvida mais do que qualquer outro tema, que fornece a chave que desvenda a grande narrativa bíblica". 3 Deus escolhe realizar sua grandiosa missão em seu povo e 1 Hans Küng, The Church (Garden City, NY: Image Books, 1967), 160. 2 Duane L. Christensen, "Nations", in Anchor Bible D ictionmy, ed. David Noel Freedman e outros (New York: Doubleday, 1992), 4:1037. 3 Christopher ]. H. Wright, The M ission of God: Unlocking the Bible's Grand N armt ive (Downers Grave, IL: lnterVarsity, 2006), 455, grifo do autor. [Edição em português no prelo por Edições Vida Nova.]


72 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA por meio dele; a missão de Deus jamais deveria ser separada do povo que ele escolhe e emprega para seus propósitos de redenção. O chamado missional de Israel em diferentes contextos Os primeiros capítulos da história de Israel mostraram como Deus formou o seu povo e lhe deu identidade e papel missionais no seu propósito redentor. O restante da história do Antigo Testamento relata até que ponto Israel cumpriu essa missão. Para os propósitos de uma eclesiologia missional, precisamos investigar a maneira como Israel encarnou o seu chamado nas sucessivas épocas da história redentora, em diferentes contextos e situações. Em cada contexto, era diferente a relação e o testemunho de Israel para com os povos ao seu redor. Todos são importantes para a nossa compreensão das raízes da igreja no Antigo Testamento, pois cada contexto trouxe à tona dimensões diferentes da identidade missional de Israel, e cada um é rico em instruções para o nosso chamado missional nos dias de hoje. Lohfink observa a importância que a investigação das várias formas da vida comunitária de Israel tem para a eclesiologia. Na sua opinião, a história de Israel descreve um povo em busca da forma social apropriada "que deixasse claro para todos como Deus queria que fosse o mundo". Mas que forma específica de sociedade é adequada para oferecer um testemunho fiel da intenção de Deus com a criação? Lohfink acredita que o Antigo Testamento "descreve o longo caminho que o povo de Deus trilhou na sua busca pela forma correta, até mesmo na miséria do Exílio e na Diáspora". 4 Isso sugere que muitas formas foram testadas até que Israel finalmente encontrasse a "correta". Porém, a perspectiva de Walter Brueggemann dos textos bíblicos parece mais plausível. Assim como Lohfink, Brueggemann atenta para as várias formas sociais adotadas pelo povo de Deus. Mas para Brueggemann, a sua busca não era tanto por uma forma "ideal" como por uma que se adequasse a cada contexto cultural em que passaram durante toda a sua longa jornada. Em cada situação, eles deveriam ser o povo de Deus em favor das nações, fosse como uma livre confederação de tribos, ou como uma monarquia unida e forte, ou como um povo disperso entre as nações. Para Brueggemann, não existe uma forma ideal ou correta para Israel, mas cada contexto e ordem social pelos quais Israel passou fornece uma compreensão particular do chamado missional do povo de Deus. Brueggemann observa ainda que é a imagem de Israel como uma monarquia (c. 1000-587 a.C.) que domina a história do Antigo Testamento e é 4 Gerhard Lohfink, D oes God Need the Church? Towm·d a 1heology if the People if God, trad. Linda M . Maloney (Collegeville, MN: Liturgical Press, 1999), 106-7.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 73 frequentemente considerada o paradigma da vida de IsraeP De fato, na maioria das análises do Antigo Testamento, a comunidade "templo-régio-profética", de Davi e Salomão até o Exílio, é central. No entanto, essa não é a única ordem social que observamos na história do Antigo Testamento. Muitos dos modelos de igreja no Novo Testamento, por exemplo, são extraídos do período do Exílio de Israel. Novamente somos lembrados de que podemos entender de fato a natureza da igreja somente se prestarmos atenção ao povo de Deus do Antigo Testamento e à sua relação com as nações. Um tratamento detalhado das relações da comunidade da antiga aliança com as nações levará em conta os diversos contextos e formas ao longo da história de Israel. Neste capítulo, examinaremos brevemente três deles: Israel como confederação tribal, Israel como monarquia e Israel como povo disperso no Exílio. Confederação tribal: Um povo santo "no centro das nações" A promessa de Deus a Abraão envolve povo e terra. O livro de J osué descreve a conquista de Canaã: a dádiva divina da terra a seu povo, cumprindo a promessa feita a Abraão (Js 21.43-45; ver Gn 13.14-17; 15.7-21). Temos de lembrar, no entanto, que as promessas de Deus a Abraão (povo, terra e bênção) são apenas meios intermediários para realizar o propósito final de Deus de levar bênção a todas as nações. Esse objetivo universal define a identidade e o papel de Israel. Israel é estabelecido na terra, no meio de nações pagãs, para brilhar como luz na escuridão. Como Ezequiel o expressaria séculos mais tarde: ''Assim diz o SENHOR Deus: Esta é Jerusalém; eu a coloquei no meio dos povos, com nações em torno dela" (Ez 5.5). Israel é colocado na encruzilhada das nações e no umbigo do universo,6 um povo em exposição, visível para as nações. 7 "Israel sabia que vivia sob constante observação do mundo à sua volta." Israel deveria viver sua história "como algo encenado diante dos olhos dos povos ao seu redor, sempre ciente de que o que estava em jogo era a glória de Deus". 8 A mensagem da vida coletiva de Israel deveria ser: "É nesta direção que a história está indo - venha e junte-se a nós". 5 Walter Brueggemann, Cadences of Home: Preaching among Exiles (Louisville: Westminster John Knox, 1997), 100. 6 Diversos textos judaicos e rabínicos situam Israel no centro do mundo, como o umbigo do universo. Por exemplo, Midrash Tanhuma (comentário rabínico da Torá), Parashat Kedoshim (porção semanal de leitura da Torá centrada em Lv 19.1-20.27), afirma: "Assim como o umbigo está no centro do corpo do homem, do mesmo modo a terra de Israel é o umbigo do mundo". A expressão "umbigo da terra" vem de Ezequiel38.12 (A21: "meio da terra [heb. 'umbigo']). 7 Richard R. De Ridder, Discipling the Nations (Grand Rapids: Baker Academic, 1971), 43-44. 8 J. H. Bavinck, An Introduction to the Science ofMissions, trad. David Hugh Freeman (Phillipsburg, NJ: P&R, 1979), 14.


74 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Portanto, a "visibilidade de Israel era parte de sua identidade teológica e seu papel como sacerdotes de YHWH entre as nações". 9 O livro de Deuteronômio registra os três "sermões" de Moisés para o chamado missional quando o povo de Israel está prestes a entrar na terra. Talvez seja proveitoso concentrar-se no capítulo 4 de Deuteronômio, já que ele é um "microcosmo de Deuteronômio como um todo". 10 O que esse capítulo diz sobre a identidade e o papel de Israel entre as nações é altamente instrutivo: Eu vos ensinei estatutos e preceitos, conforme o SENHOR, meu Deus, me ordenou, para que lhes obedeçais na terra em que estais entrando para tomar posse. Guardai-os e obedecei a eles. Assim, a vossa sabedoria e o vosso entendimento serão vistos pelos povos, que ouvirão todos estes estatutos e dirão: Esta grande nação é realmente um povo sábio e inteligente. Pois que grande nação tem deuses tão próximos quanto o SENHOR está de nós, todas as vezes que o invocamos? E que grande nação há que tenha estatutos e preceitos tão justos quanto toda esta lei que hoje ponho diante de vós? Deuteronômio 4.5-8 A vida de Israel deve ser diferente à medida que encarna os decretos e leis de Deus- a Torá dada pelo coração amoroso de um Pai não para restringir a vida de seu povo, mas para conduzi-lo à vida abundante que Deus tinha em mente para toda a humanidade na criação -, a vida que ele restaurará na nova criação. A lei deve governar toda a vida comunitária de Israel. Isso levará ao confronto com os ídolos das nações vizinhas, um perigo constante para Israel. A idolatria drenará a plenitude e a abundância de vida, destruindo o que Deus tinha em mente. Por isso, Moisés exorta Israel: "Apenas ficai atentos. Ficai muito atentos" (Dt 4. 9) e "tenham muito cuidado, para que não se corrompam fazendo para si um ídolo" (Dt 4.15,16, NVI). Na verdade, a última parte de Deuteronômio 4 é uma advertência contínua: "Cuidado para não esquecerdes da aliança que o SENHOR, vosso Deus, fez convosco, e não façais nenhuma imagem esculpida, semelhante a alguma coisa que o SENHOR, vosso Deus, vos proibiu. Porque o SENHOR, vosso Deus, é fogo consumidor, um Deus zeloso" (Dt 4.23,24). O Senhor é o único Deus verdadeiro; a vida de Israel em obediência à sua lei deve demonstrar essa realidade fundamental para as nações. Seus ídolos precisam ser confrontados; não se devem fazer concessões ao paganismo. O povo de Israel é advertido de que se falhar nessa questão será disperso entre as nações, porque terá esquecido sua identidade, 9 C.]. H. Wright, M ission ofGod, 379, grifo do autor. 10 lbid., 377.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 75 abandonado seu papel na missão de Deus e, portanto, perdido e confiscado o seu chamado: ''As estipulações específicas (da lei em Deuteronômio) estabeleceram a totalidade do modo de vida que seria adequado para um povo que afirmava ter um relacionamento com o Senhor da aliança. E ao longo das estipulações específicas há advertências relativas aos perigos das práticas religiosas de outros povos; as advertências ilustram as maneiras em que a lealdade a Deus poderia ser interrompida e o verdadeiro relacionamento da aliança com Deus poderia ser ameaçado". 11 A batalha de Israel contra a idolatria é uma linha temática importante na história da vida de Israel na terra, e esta também deve ser entendida em um contexto missional. Novamente, missão é o povo de Deus vivendo à maneira de Deus publicamente, diante dos olhos das nações. Mas essas nações não são observadoras neutras e passivas: em sua própria vida social e cultural elas não servem ao Senhor, mas a ídolos. Por isso, o chamado de Israel é para um "encontro missionário" 12 com as culturas pagãs das nações ao seu redor, no qual deve confrontar a idolatria com as reivindicações do Deus vivo. A vida de Israel moldada pela Torá divina deve servir de contraste para as nações, uma luz brilhando em meio às trevas pagãs. Infelizmente, a história de Israel muitas vezes revela seu fracasso por não ser a luz de Deus: ao sucumbir diante de outros espíritos religiosos, torna-se parte da escuridão que deveria dissipar. Outro importante tema relativo ao chamado missional de Israel é expressado em Deuteronômio 4: Israel deve levar a sério a tarefa de instruir a geração seguinte. Não é apenas a idolatria que ameaça a fidelidade do povo de Israel, mas também o perigo de esquecer os feitos poderosos de Deus e a maneira de viver que o agrada (Dt 4.9), e assim deixar de ensinar os feitos poderosos de Deus e a Torá aos seus filhos, e aos filhos de seus filhos (Dt 4. 9,10). Nenhuma comunidade missional fiel sobreviverá se não levar a sério a tarefa de treinar a geração seguinte a andar nos caminhos do Senhor e a confrontar outras maneiras de viver. Sem essa instrução, essa geração seguinte estará extremamente vulnerável aos caminhos idólatras das nações ao seu redor. A narrativa dos livros históricos concentra-se precisamente no conflito de Israel com a idolatria entre as nações e na ação de Deus no meio dos israelitas para constituí-los como um povo fiel. Porém, não podemos nos esquecer do quadro mais amplo em que esse drama está inserido: o da missão de Deus em Israel e por meio desse povo em favor das nações. 11 Peter C.Craigie, 1he Book of D euteronomy , New lnternational Commentary on The Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), 43. 12 Essa é a linguagem de Lesslie Newbigin, e.g., Foolishness to the Greeks: 1he Cospe! and Westem Culture (Grand Rapids: Eerdmans, 1986), 1.


76 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA A primeira estrutura social que Israel adota na terra durante o período dos juízes é a da livre confederação de tribos. Lohfink sugere que esse modo de vida era "simplesmente revolucionário", porque todas as nações ao redor de Israel eram monarquias cujos reis atuavam como o ponto central da religião pagã. Israel deveria ser diferente, "um contramodelo intencional em oposição às cidades-estados cananeias organizadas em monarquias". Uma das expressões mais antigas do "povo de YHWH" é encontrada em Juízes (5.11,13) para descrever um povo que "se agrega livremente em uma solidariedade comum e destemidamente se coloca a serviço de YHWH". 13 Como uma comunidade de contraste, essa liga tribal manifesta igualdade e liberdade entre as tribos que a compõem. Na ausência de uma autoridade central rígida, o povo de Israel precisa viver por meio de consenso, e não por coerção, em conformidade com o seu chamado como o povo de Deus. 14 Eles devem ser "comunidades unidas por um compromisso comum com a história central [de Israel] e sua paixão social distintiva [ ... ].Na ausência de elementos de sustentação visíveis, a comunidade dependia de contar e ouvir regularmente a sua história". 15 Israel deve ser um povo moldado por sua história do Êxodo. O livro de Juízes, no entanto, relata o trágico fracasso recorrente de Israel por não viver na prática essa sua história. Como um camaleão, ele adota a cor de seu contexto pagão. Em Siquém, Israel promete guardar a aliança com Deus e não fazer concessões à idolatria incrédula (Js 23-24), mas os primeiros capítulos de Juízes relatam como Israel deixou de purificar a terra da idolatria (Jz 1.27-36) e transmitir a fé à geração seguinte (Jz 2.10). Por isso, Deus os encontra em um tribunal da aliança e profere o juízo: as nações e seus deuses permanecerão na terra como uma armadilha para eles (Jz 2.1-5). Ao se adaptarem e acomodarem à sua nova vida na terra, era inevitável que os israelitas aprendessem os costumes dos habitantes cananeus, cujo modo de vida agrário era permeado pelos deuses pagãos da fertilidade. A triste história de Israel revela que o povo se acomodou às trevas da religião e das práticas sociais pagãs. O livro de Juízes (3-16) registra os repetidos ciclos de idolatria de Israel, o juízo de Deus, o clamor de Israel ao Senhor e o livramento de Deus por meio de seus líderes (Jz 2.11-17). O livro culmina com duas histórias para ilustrar a degradação completa de Israel à medida que chafurda na imundície da idolatria 13 Lohfink, Does God Need the Church? 107-8. 14 Rainer Albertz, A History of Israelite Religion in the Old Testament Period, trad. John Boden (Louisville: Westminster John Knox, 1994), 1:75. 15 Brueggemann, Cadences oJ Home, 103.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 77 e da imoralidade pagãs (Jz 17-21). Em vez de ser luz, Israel foi vencido pelas trevas. Em vez de ser uma comunidade de contraste, Israel tornou-se igual às outras nações. Porém, o livro de Juízes também revela a determinação bondosa de Deus de conservar o povo de Israel para o seu propósito. Ele lhes envia um líder militar Quiz) após outro, para trazê-los de volta ao seu chamado. Isso os impede de serem completamente absorvidos pelo paganismo cananeu. O refrão que encerra o livro também sugere o que Deus fará no futuro para capacitá-los a serem um povo fiel: "Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo" (Jz 21.25). A forma tribal fracassara em virtude da rebelião profundamente arraigada de Israel. Era necessária uma forma mais estável de liderança para livrar Israel de sua idolatria a fim de que pudesse cumprir seu chamado missional. Monarquia: um reino sacerdotal "no centro das nações" A estrutura social que Israel assume durante o período seguinte (1000-586 a.C.) é a da "comunidade templo-régio-profética". 16 Essa descrição tríplice fornece a compreensão das três características centrais da vida comunitária de Israel para os quatro ou cinco séculos seguintes. O templo, o rei e os profetas são dádivas de Deus para sustentar Israel no seu chamado de povo sacerdotal diante das nações pagãs ao seu redor. Essas três instituições sociais atuam ao estimularem a vida de fidelidade e manterem o horizonte universal das nações diante de Israel. O livro de Juízes termina com o clamor por um rei (Jz 21.25). No período tribal, "ameaças tanto internas quanto externas constituíam importantes obstáculos para a história bíblica por impedirem Israel de cumprir a missão para a qual Deus o havia escolhido. A pergunta que o livro de Juízes nos deixa é se a monarquia poderia pôr fim a essas ameaças". 17 Um rei poderia capacitar Israel a cumprir sua vocação missional? Embora o clamor do povo por um rei seja atendido na história de Samuel, inicialmente há pouca esperança de que um rei suprirá o que Israel necessita para se tornar de fato bênção para as nações, uma vez que Israel deseja ter um rei como o têm as outras nações (1Sm 8.5). A razão dada pelos israelitas denuncia sua apostasia, um abandono de seu chamado missional: "O!teremos um rei sobre nós, para que sejamos como todas as demais nações, e para que o nosso rei nos julgue, nos lidere e lute em nossas batalhas" (1Sm 8.19,20, grifo do autor). Eles queriam ser "como todas as demais nações"- exatamente o que Deus havia chamado Israel a não ser. 16 Ibid., 106. 17 J. Richard Middleton; Brian J. Walsh, Truth Is Stranger than It Used to Be: Biblical Faith in a PostmodernAge (Downers Grove, IL: InterVarsity, 1995), 131.


78 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA No entanto, Deus enfim lhes concede Davi, o tipo de rei que ele sabe que necessitam para serem um povo fiel à aliança. Deus é o verdadeiro rei de Israel no meio deles; um rei terreno precisa mediar o governo de Deus. Davi fornece o modelo do que um rei deveria ser para Israel a fim de que fosse uma nação santa: ele derrota os inimigos de Israel (removendo a ameaça da idolatria), promove a vida do templo de Israel (assegurando que o culto e o sacrifício sustentem a vida dos israelitas) e administra e faz vigorar a Torá (para que a vida do seu povo reflita a vontade de Deus para a vida humana) (2Sm 5-8). Desse modo, Davi é chamado a mediar o governo de Deus como um mediador da aliança e a manter a identidade e o chamado missionais de Israel a fim de que possa ser uma nação fiel diante dos povos. A nova instituição da monarquia permitiria a Israel a independência e o espaço necessários para que ele mesmo se moldasse em um povo que refletisse a estrutura social desejada por Deus, que vivesse como uma nação unida na qual todas as áreas da vida estivessem submissas à Torá de Deus. Com um rei comprometido com a aliança e de posse de uma lei abrangente como a base de sua vida de aliança, Israel agora tinha a oportunidade de fazer com que a vontade de Deus tivesse efeito sobre todas as áreas da vida: social, política, econômica, legal e religiosa. 18 O rei não somente estimula a resposta fiel de Israel à aliança de Deus, mas também restabelece o horizonte universal de seu chamado: um rei na linhagem de Davi se torna o objeto de esperança futura. Deus faz uma aliança com Davi, prometendo que um dia um dos seus descendentes governará sobre um reino universal e eterno (2Sm 7.11-17). Isso é mais do que uma promessa de sucesso político: é um prenúncio do propósito da obra redentora de Deus por meio de Israel - a incorporação das nações no povo da aliança de Deus. Os salmistas, portanto, celebram a promessa do governo universal de Deus por meio do rei de Israel ( e.g., Sl 2. 7 -9; 72.11-17). Especialmente interessante é a linguagem da aliança abraâmica encontrada em Salmos 72.17: "Qye seu nome permaneça eternamente, e sua fama continue enquanto o sol durar; nele sejam abençoados os homens; todas as nações o chamem bem-aventurado". Essa linguagem abraâmica nos leva de volta ao propósito original para o qual Israel havia sido escolhido e o motivo pelo qual agora lhe havia sido dado um rei: por meio do governo de um rei na linhagem de Davi, Israel cumprirá o seu chamado missional de abençoar as nações. Os profetas também anteveem um tempo em que Deus governará o mundo por meio de um dos filhos de Davi (e.g., Is 11; 55.3-5; Jr 33.14-22). Depois 18 Essa oportunidade também foi oferecida durante o período tão nefasto da cristandade, o que levou alguns comentaristas do Antigo Testamento a uma avaliação mais negativa da monarquia. Ver, e.g., Brueggemann, Cadences of Home, 100-101.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 79 disso, as nações serão incorporadas a Israel e juntos experimentarão a bênção e a salvação da aliança (Is 55.3-5). Assim, de duas maneiras o rei desempenha uma parte decisiva na promoção do papel e da identidade missionais de Israel: primeira, em sua tarefa régia de derrotar nações idólatras que ameaçam Israel, encorajando a conformidade à lei segundo a justiça e fomentando a vida ligada ao templo; e, segunda, como um símbolo do generoso governo universal futuro de Deus sobre todas as nações, o horizonte derradeiro da missão de Israel. O templo representa um papel semelhante na história de Israel. O templo é o símbolo da presença de Deus no meio de Israel. Gregory Beale argumenta de forma persuasiva que o templo foi concebido para fomentar Israel em sua identidade e papel missionais para espalhar a presença gloriosa de Deus em todo o universo. 19 Ele devia "servir como uma motivação para que Israel fosse testemunha fiel ao mundo da presença gloriosa de Deus e de sua verdade, que deveriam ser expandidas para além do seu templo". O templo funciona como "um símbolo da tarefa de Israel de expandir a presença de Deus a todas as nações". 20 Salomão ecoa esse tema quando, após a dedicação do templo, pede que Deus ouça não apenas quando ele e Israel estiverem orando (lRs 8.27-30), mas que Deus também ouça os estrangeiros que forem atraídos para esse lugar, a fim de conhecerem e temerem a Deus (lRs 8.41-43). Isaías prevê um tempo em que isso se cumprirá e a casa de Deus "será chamada casa de oração para todos os povos" (Is 56. 7). Por isso, podemos ver como era trágico que no tempo de Jesus o templo havia se tornado um lugar de privilégio etnocêntrico, de violência e de separação. Beale comenta: Êxodo 19.6 diz que Israel deveria ser coletivamente para Deus 'um reino de sacerdotes e uma nação santa', que fosse às nações e fosse mediador entre Deus e as nações levando a luz da revelação de Deus. Em vez de ver o templo como um símbolo de sua tarefa de expansão da presença de Deus a todas as nações, Israel erradamente considerou o templo o símbolo da sua eleição como o único povo verdadeiro de Deus e que a presença de Deus devia ser restrita a eles como nação étnica somente. 21 19 Gregory K. Beale, The Temp!e and The Church's Mission (Downers Grave, IL: lnterVarsity, 2004); Beale, "Eden, the Temple, and the Church's Mission in the New Creatiorl',]ourna! ifEvangelical Theologica! Studies 48, n. 1 (março 2005): 5-31. 20 Beale, "Eden, Temple, and the Church's Mission', 19. 2 1 lbid.


80 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Tanto 1Reis 8 como Isaías 56 destacam outra característica importante do templo: é um lugar de adoração e sacrifício. Ambos são essenciais para a identidade e o chamado missionais de Israel. O sistema sacrificial foi planejado para reparar a aliança quando ela é violada. Em Levítico 9, vemos o sistema sacrificial em funcionamento. Arão apresenta a oferta pelo pecado, o holocausto e a oferta pacífica (L v 9 .15-17,22). A oferta pelo pecado é um sacrifício que assegura perdão quando o pecado é transferido ao animal colocando-se as mãos sobre ele, e então o animal é morto no lugar do ser humano pecador. O holocausto, que é completamente consumido, é um retrato da total consagração e dedicação que se segue ao perdãoY Finalmente, a oferta pacífica é um sacrifício que celebra e retrata a comunhão restaurada entre Deus e o pecador. 23 Para Israel cumprir seu chamado para as nações, o perdão, o compromisso renovado e a comunhão com Deus são essenciais, e o sacrifício garante essas coisas. O templo também é um lugar de adoração. Podemos ter um vislumbre da excelência da adoração de Israel quando lemos o hinário do templo de Israel- os salmos, que impelem o povo à gratidão, à sabedoria, ao compromisso, ao arrependimento, à alegria e à obediência. Os salmos estimulam a fidelidade em todas as suas dimensões, de forma que Israel possa ser um povo atraente que se coloca em exposição. O culto e a liturgia de Israel também criam uma cosmovisão alternativa à dos seus vizinhos pagãos, possibilitando uma maneira muito diferente de se ver e viver no mundo, uma visão desanuviada do mundo em que o único Deus verdadeiro, o Deus de Israel, é o criador de todas as coisas, soberano sobre a natureza e a história e salvador misericordioso. Rodney Clapp capta essa perspectiva da adoração no título de seu capítulo sobre o culto da igreja: "Bem-vindo ao mundo real". 24 No meio da terra, diante das nações, o culto de Israel celebra o único Deus verdadeiro e seus feitos poderosos na história. O que Paul Jones diz sobre a igreja certamente é verdadeiro primeiramente em relação a Israel: "Visto que a igreja está ancorada nos atos da graça de Deus, o culto coletivo sustenta e transmite a formação da identidade cristã". 25 E desse modo a identidade e a autocompreensão de Israel, 22 Esse é provavelmente o sacrifício ao qual Paulo se refere em Romanos 12.1,2 quando ele chama os cristãos em Roma a oferecerem seus corpos completamente como sacrifícios vivos. 23 Anson F. Rainey, "The Order of Sacrifices in the Old Testament Ritual Texts", Biblica 51, n. 4 (1970): 485-98. 24 Rodney Clapp, "The Church as Worshiping Community: Welcome to the (Real) World", in A Pecztliar People: 1he Church as CultU1·e in a Post-Christian Society (Downers Grave, I L: InterVarsity, 1996), 94-113. 25 Paul H. Jones, "We Are H ow We Worship: Corporate Worship as a Matrix for Christian Identity Formation", Wo n hip 69, n. 4 (July 1995): 347.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇOES 81 seu papel e seu chamado em meio às nações, são constantemente celebrados e fortalecidos por sua liturgia. 26 No entanto, além disso, a adoração dos salmos lembra Israel da perspectiva universal de seu chamado- em favor de todas as nações. É desse ângulo universal que W. Creighton Marlowe fala dos salmos como a "música de missões"27 e M ark Boda fala deles como uma "coleção missional". 28 George Peters enumera mais de 17 5 referências universais às nações do mundo. 29 Talvez a mais clara dessas referências seja o salmo 67: Qye Deus se compadeça de nós e nos abençoe; e faça resplandecer seu rosto sobre nós - para que se conheçam seu caminho na terra e sua salvação entre todas as nações. Louvem-te os povos, ó Deus, louvem-te todos os povos. Salmos 67.1-3 Craig Broyles comenta sobre a importância missional desse salmo: "O salmo 67 nos revela que a eleição não significa que Deus tem seus favoritos, mas simplesmente que ele escolheu um canal de bênção para todos. Eleição [ ... ] tem a ver com seus meios de estender essa bênção a todos". 30 O salmo 6 7 está longe de ser um exemplo isolado. O saltério está repleto de imagens que guiam Israel em direção às nações: há exortações para cantar sobre os feitos poderosos de Deus entre as nações (Sl 9.11; 18.49; 96.2,3; 105.1); os salmistas levam Israel a responder às exortações com um compromisso pessoal de cantar entre as nações (Sl18.49; 57.9; 108.3); há muitas convocações às nações para louvar a Deus (Sl 47.1; 66.8; 67.3; 96.7,10; 100.1; 117.1); e há promessas 26 Michael Goheen, "Nourishing Our Missional Identity: Worship and the Mission of God's People", in In Praise of Worship: An Explomtion ofText and Practice, ed. David J. Cohen; Michael Parsons (Eugene, O R: Pickwick, 2010), 32-53. 27W. Creighton Marlowe, "Music ofMissions:Themes ofCross-Cultural Outreach in the Psalms", Missiology 26 (1998): 445-56. 28 Mark Boda, "'Declare His Glory Among the Nations': The Psalter as Missional Collection", in Ch1·istian Mission: 0/d Testament Foundations and New Testament Developments, ed. Stanley E. Porter; Cynthia Long Westfall (Eugene, OR: Pickwick, Wipf and Stock, 2010), 13-41. 29 George W. Peters,A Biblica/7heology ofMissions (Chicago: Moody Press, 1972), 116. [Edição em português: Teologia Bíblica de Missões, Rio de Janeiro, CPAD, 2001.] 3 ° Craig Broyles, Psalms, New International Biblical Commentary (Peabody, MA: Hendrikson, 2005),280.


82 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA de um futuro em que as nações se unirão a Israel no louvor do Senhor (Sl22.27; 66.4; 86.9). O templo nutre a identidade e o papel missionais de Israel mantendo diante de Israel o propósito da redenção de Deus: encher toda a terra com sua gloriosa presença. O templo apresenta o sistema sacrificial como uma maneira de reparar as falhas do povo e colocá-lo novamente no caminho certo; ele fornece o culto como meio para fomentar a fidelidade, celebra uma cosmovisão alternativa à do paganismo, apresenta-se como uma testemunha do Deus verdadeiro e do mundo real, e exorta Israel a adotar a visão universal. Deixar de perceber a importância missional do templo significa interpretar de maneira profundamente errada o papel do templo na vida de Israel. O presente final de Deus a Israel para fomentar seu papel e sua identidade missionais é a dádiva dos profetas, "os que fazem cumprir a aliança". 31 Sua tarefa inicial é desafiar Israel quando o povo quebra a aliança e esquece a sua identidade. Qtando Israel deixa de ser uma nação santa, ouvimos a voz dos profetas implorando ao povo que retorne ao propósito de sua existência: "A preocupação central dos profetas era comunicar a Israel o que significava ser Israel"Y Portanto, os profetas se pronunciam contra a infidelidade de Israel conforme ela se revela nas diversas dimensões de sua vida, no culto hipócrita, no desrespeito à observância do sábado, no culto insensato a ídolos, na afluência em meio à extrema pobreza, na injustiça e opressão para com os pobres e nos maus tratos infligidos aos fracos. Hans Walter Wolff sugere que os profetas se referiam primordialmente a três áreas do pecado de Israel: exploração em todas as esferas da vida comercial, alianças políticas e militares com outras nações em troca de proteção e práticas cultuais corruptas. Esse comportamento de quebra da aliança está arraigado na maneira que Israel esqueceu ou rejeitou o seu Deus33 e adotou estilos de vida em contraste explícito com o seu chamado missional de ser luz para as nações. Assim, os profetas exortam o povo de Israel a voltar ao seu chamado: "que pratiques a justiça, ames a misericórdia" (Mq 6.8); e: "corra porém a justiça como as águas, e a retidão, como o ribeiro perene" (Am 5.24). O tema de que a fidelidade de Israel um dia levará à salvação de toda a criação e de todos os povos de todas as nações é vez por outra apresentado de forma 31 Michael D. Williams, As Far as the C une Is Found: The Covenant St01y of Redemption (Phillipsburg, NJ: P&R, 2005), 191-93. 32 Walter Brueggemann, Tradition for Crisis: A Study in Hosea (Richmond: John Knox Press, 1968), 25. 33 Hans Walter Wolff, "Prophecy from the Eighth through the Fifth Century", Inte1pretation 32, n. 1 (January 1978): 26-28.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 83 explícita nos profetas. Jeremias diz que se o povo de Israel voltar para Deus, afastar-se da idolatria e viver de maneira honesta, justa e correta, o Senhor trará bênção às nações: Se voltares, ó Israel, diz o SENHOR, volta para mim. Se tirares os teus ídolos abomináveis de diante de mim, e não andares mais vagueando, e se em verdade, em justiça e em retidão jurares: Tão certo como vive o SENHOR, então nele as nações serão abençoadas e nele exultarão. Jeremias 4.1,2 Aqui "a lógica de toda a frase é notável. A missão de Deus para com as nações está sendo impedida por causa do constante fracasso espiritual e ético de Israel. Qye Israel retorne à sua missão (de ser o povo de YHWH, adorando-o exclusivamente e vivendo de acordo com as suas exigências morais), e Deus poderá voltar à missão dele - abençoar as nações". 34 O propósito universal de Deus fica claro, não somente nas convocações dos profetas à fidelidade no presente, mas também nas promessas dos profetas relativas ao futuro, ao interpretarem a identidade e o papel de Israel com respeito à sua missão às nações. Talvez a visão do futuro seja o mais proeminente e característico atributo dos profetas do Antigo Testamento. 35 Mesmo que Israel fracasse na tarefa que lhe foi dada por Deus, Deus não falhará na sua missão de levar salvação às nações (Is 19.23-25). Ele inaugurará um reino mundial por meio do Messias na linhagem de Davi e por meio do Espírito, como prometeu. Naquele tempo ele ajuntará o povo de Israel e o recolocará no seu papel apropriado; então o usará para atrair as nações a si mesmo (Ez 36.24-27) para fazerem parte do reino mundial de Deus (Is 2). Exílio, subjugação e diáspora: Um povo santo disperso entre as nações Os profetas são incapazes de deter a correnteza da rebelião de Israel, que por fim leva ao juízo de Deus. Em 722 a.C., as dez tribos do norte (chamadas de "Israel" ao longo de todo o texto dos dois livros de Reis) são dispersas pelos assírios por todas as regiões do seu império. Em 586 a.C., as duas tribos restantes (chamadas 34 C. J. H. Wright, Mission of God, 241. 35Wolff, "Prophecy", 23.


84 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA de "Judá" no texto de Reis) são exiladas para a Babilônia. Parece que nesse ponto da história de Israel o propósito de Deus de levar bênção às nações por meio de seu povo caiu por terra. Mas, mesmo nessa situação Deus não desiste de Israel: a identidade e o papel missionais do povo assumem uma nova forma uma vez que Israel foi despojado de sua soberania nacional e precisa agora aprender a viver como uma pequena minoria em meio às culturas pagãs. Um novo contexto para o seu chamado missional começa no Exílio sob os babilônios e continua na sua subjugação ao Império Persa, 36 aos gregos e aos romanos. Não devemos subestimar a crise de identidade causada pelo Exílio de Israel e os dois graves perigos aos quais o Exílio expôs a identidade missional de Israel: retraimento ou assimilação. David Burnett comenta a respeito dessas duas tentações constantes para Israel: "A primeira era de se isolar das nações ao seu redor para proteger suas próprias crenças e práticas, mas, agindo assim, deixariam de ser a bênção para as nações que Deus tinha em mente. A segunda era de se identificar com as nações vizinhas de tal forma que nada os distinguiria"Y Por um lado, o recolhimento a uma sociedade fechada poderia ajudar a manter a pureza da fé, mas tornaria a mensagem irrelevante; por outro lado, identificar-se com as nações pagãs e participar na sua vida poderia remover a peculiaridade do povo de Deus. A literatura do Exílio fala contra ambas as ameaças. A ameaça mais evidente para Israel é que seriam assimilados pelo império pagão. A religião babilônica e sua cosmovisão em particular representam uma tentação constante para Israel. Richard Middleton e Brian Walsh descrevem a influente história cultural da Babilônia refletida na ordem social e política e seu perigo para Israel: Tendo perdido recentemente seu mundo literal e simbólico de terra, cidade e templo, com sua narrativa de eleição em fi:angalhos e até mesmo o poder e a fidelidade de seu Deus postos em cheque, os israelitas exilados provavelmente estavam mergulhados em uma crise de identidade sem precedentes. O novo mundo ideológico em que se encontravam oferecia uma visão alternativa e constante do que significa ser humano que teria exercido grande atração sobre eles. 38 36 Embora tenha retornado à terra, o povo de Israel confessa: "hoje somos escravos, escravos na terra que deste aos nossos antepassados" (Ne 9.36 NV1; cf Ed 9.7-9). O retorno à terra não alterou essencialmente sua posição entre as nações. 37 David G. Burnett, 7he Healing of the Nations: 7he Biblical Basis oJ the Mission ofGod ( Carlisle, UK: Paternoster Press, 1986), 75. 38 Middleton; Walsh, Truth Is Stranger, 117, grifo do autor.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 85 Essa identidade fundamental desafia a autocompreensão de Israel como o povo do Deus verdadeiro que deve encarnar os propósitos dele em favor de todas as nações. Israel é obrigado a aprender a cultivar seu papel e sua identidade missionais únicos nesse novo contexto, a manter uma identidade alternativa, uma visão alternativa do mundo e uma vocação alternativa em um contexto social no qual as principais forças da cultura tentam negar, desacreditar ou negligenciar essa estranha identidade. O grande problema para os exilados é a assimilação cultural. A principal ameaça para aqueles judeus antigos era que os membros da comunidade poderiam concluir que o judaísmo era exigente demais, ou perigoso demais, ou custoso demais e simplesmente aceitar as definições babilônicas e suas maneiras de enxergar a realidade. 39 Para que Israel mantenha seu papel como uma nação santa e um reino sacerdotal no meio das nações, a formação de sua própria identidade e a resistência à assimilação são essenciais.40 O povo de Israel precisa aprender mais uma vez a formular quem eles realmente são, evocando os ricos recursos de sua história e suas tradições para reafirmar e redefinir sua identidade missional em novas circunstâncias.41 Eles também precisam resistir vigorosamente às pressões religiosas, políticas e sociais de seus dominadores que ameaçam minar sua identidade e seu papel na missão de Deus. Daniel Smith argumenta que Israel resistiu à assimilação durante o período do Exílio desenvolvendo estratégias e mecanismos - estruturas, lideranças, instituições, relatos, exemplos históricos, literatura e rituais - para fomentar o senso de sua identidade e seu papel singulares no meio de poderosos impérios estrangeiros.42 Podemos observar resumidamente dois exemplos disso: o papel dos anciãos no Exílio e o papel da literatura do Exílio. Os dois profetas exílicos dirigem-se aos "anciãos" de Israel durante o Exílio (e.g., Jr 29.1; Ez 20.1-3). Qyando Jeremias tem uma mensagem do Senhor, é significativo que ele a entrega a uma assembleia de anciãos para que estes a transmitam aos exilados. Smith constata "como a autonomia local e a autogestão são importantes para a sobrevivência da identidade e da consciência de grupo entre povos desalojados ou dominados".43 A assembleia de anciãos era uma forma comum 39 Brueggemann, Cadences ofHome, 41. 40 Daniel L. Smith, The R eligion of the L andless: The Social Context of the Babylonian E xile (Bloomington, IN: Meyer-Stone Books, 1989), 49. 4 1 Ibid.; Brueggemann, Cadences of Home, 15. 42 Smith, R eligion of the Landless, 69-126. Ver também o último capítulo de "Jewish Identity in the Diaspora: A Sketch", in]ews in the M editen anean D iaspom: From Alexander to Tmjan (323 BCE117 CE), de John M. G. Barclay (Edinburgh: T&T Clark, 1996), 399-444. 43 Smith, R eligion of the Landless, 96-97.


86 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA de liderança antes da monarquia, mas, a partir dela, o ofício do ancião foi sendo progressivamente esvaziado pela concentração do poder no rei. 44 O ressurgimento dos anciãos no Exílio possibilita aos judeus adaptarem-se ao seu novo ambiente e lhes proporciona a autogestão de que necessitam para preservar sua identidade singular. 45 O fato de Jeremias escrever uma carta aos anciãos para ser lida ao povo indica que os judeus se reuniam para decisões importantes e também para ouvir a Palavra do Senhor por meio dos profetas. Isso mostra a importância da liderança e das estruturas sociais para conservar a identidade singular do povo da aliança em meio a uma nação pagã. A manutenção desse ofício "dos anciãos" e essas reuniões do povo de Deus demonstram que, "dispersos entre as nações, os judeus organizaram sua vida social e religiosa de tal modo que lhes permitisse preservar sua existência como um povo distinto". 46 Isso não ocorre apenas para sua preservação étnica, mas também para a proteção de sua própria identidade e papel na história de Deus. Outro "mecanismo" importante pelo qual o povo de Israel mantém vivo o seu senso de identidade e propósito é a vasta literatura que surge durante o Exílio. Para preservar a identidade de Israel, "o trabalho teológico novo e criativo" é necessário, pois irá "recuperar antigas tradições teológicas e reformulá-las em termos apropriados para a nova circunstância de fé em uma cultura estrangeira". 47 É necessária a contextualização em um novo ambiente. Um objetivo essencial dessa literatura é construir uma visão alternativa do mundo por meio da narrativa de um enredo contrário ao enredo do império dominante, algo que é feito tanto pelos escritores de história como pelos profetas. Um exemplo é a releitura que Crônicas faz da história de Israel. 48 Ela inicia com uma genealogia que começa em Adão, passa por Moisés e termina com a geração do Exílio. Esse levantamento genealógico "pode ser visto como uma tentativa de afirmar a importância do princípio da continuidade do povo de Deus ao longo de um período de perturbação nacional" e de narrar "um senso de movimento 44 ]. L. McKenzie, "The Elders in the Old Testament",Analecta Biblica 10 (1959): 405. 45 Smith, Religion ofthe Landless, 96-97. 46 Burnett, Healing of the Nations, 111. 47 Brueggemann, Cadences of Home, 116. 48 Sobre como Esdras-Neemias funcionou para preservar a identidade fundamental de Israel, ver Philip F. Esler, "Ezra-Nehemiah as a Narrative of (Re-invented) Israelite Identity", in Biblical Interp1·etation 11, n. 3/4 (2003): 413-26. Ver também Daniel L. Smith-Christopher,A Biblical7heology o[ Exile (Minneapolis: Fortress Press, 2002), 35-45; e H. G. M . Williamson, Ezra, Nehemiah, Word Biblical Commentary 16 (Waco: Word, 1985), 1-lii.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇOES 87 na história em direção a um propósito divino". 49 Desse modo, Crônicas coloca a geração pós-exílica no meio de uma história que retoma ao início, ao "Deus de Israel como aquele que preserva e guia seu povo ao destino que lhe reserva". 5° Deus está movendo a história universal em direção ao seu propósito culminante, e a comunidade que vive em sujeição a um império estrangeiro é parte dessa história. Os profetas cumprem um papel parecido. Jeremias e Ezequiel desafiam seus contemporâneos a ver Deus como o soberano da história. John Bright também mostra como os últimos capítulos de Isaías oferecem uma esperança tríplice: Deus é um Deus que governa a história e controla os eventos para o seu justo propósito; esse Deus agiu no passado em favor de Israel e fez de Israel o povo de sua aliança em prol de seu propósito redentor; e a história está se dirigindo ao alvo do estabelecimento final do governo de Deus sobre todos os povos da terra e sobre toda a terra, e Deus usará Israel nesse seu propósito para esse fim. Isaías sabe bem "que a eleição é para um destino e requer uma obrigação. Foi assim que, à luz dessa teologia triunfante que encheu a história de significado, [Isaías] intimou Israel mais uma vez para o seu destino como o povo de Deus". 51 O livro de Daniel oferece encorajamento e visão a um povo que vive como uma comunidade minoritária no meio de um império ímpio e sob a ameaça de assimilação. As histórias de Daniel, Sadraque, Mesaque e Abednego fornecem excelentes exemplos de resistência bem-sucedida à poderosa cosmovisão pagã de um poder mundial que a tudo engloba. Daniel e seus amigos se recusam a ser contaminados pelo alimento pagão (Dn 1). Daniel continua a orar somente ao Deus verdadeiro enfrentando grande perigo pessoal (Dn 6). Especialmente pungente é a recusa dos amigos de Daniel de adorar a estátua de ouro de Nabucodonosor: "Não cultuaremos teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste" (Dn 3.18). Qyando nos damos conta de que o rei da Babilônia era escolhido como representante dos deuses para sua tarefa real, e que essas imagens, como a estátua de ouro de Nabucodonosor, tinham por finalidade "mediar a presença e a bênção da divindade, tornando os deuses presentes de maneira visível e palpável aos seus adoradores", 5 2 vemos a importância da insubordinação dos jovens israelitas. Eles estão se opondo à cosmovisão pagã como um todo. Os sonhos e as visões na segun49 M . D. Johnson, 7he Pu1pose of Biblical Genealogies (New York: Cambridge University Press, 1969), 80. Williamson observa um propósito semelhante nas ligações genealógicas em Esdras 1-6 (Ezra, Nehemiah, li). 50 Roddy Braun, 1 Chronicles, Word Biblical Commentary 14 (Waco: Word, 1986), 5. 51 John Bright, "Faith and Destiny: The Meaning of History in Deutero-Isaiah", Inte1p7·etations 5, n. 1 Qaneiro 1951): 22. 52 Middleton; Walsh, Truth is Stmnger, 114.


88 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA da metade do livro de Daniel fornecem um retrato de quem realmente governa a história. Todos os reinos serão um dia varridos do mapa ou servirão ao Deus verdadeiro. Em resumo, as visões e histórias de Daniel fortaleceram um povo na dispersão com três vibrantes afirmações da fé: há uma evidente oposição entre o reino de Deus e os blasfemos e arrogantes impérios do mundo sob os quais vive o povo de Deus; o resultado final desse confronto é inevitável- Deus será vitorioso contra toda oposição; e finalmente, "o imperativo da fé é viver a vida agora com confiança e obediência que reflitam a vitória final de Deus - nas palavras de Abraham Heschel, 'viver o futuro de Deus no tempo presente"'.53 A religião da comunidade minoritária no Exílio, portanto, não está restrita à esfera privada. Ao deparar com a aparente supremacia dos deuses da Babilônia e do poder da religião pagã, teria sido fácil para Israel deixar de insistir nas pretensões universais do Senhor. Esse é sempre o perigo para uma comunidade religiosa minoritária, especialmente se estiver cercada pela crença henoteísta de que o deus mais poderoso é o vitorioso na guerra. Certamente, a tentação seria dizer que a derrota de Israel para a Babilônia havia demonstrado a supremacia dos deuses babilônicos. Brueggemann observa que uma das coisas mais notáveis sobre o Exílio e sua literatura é que os judeus não se "recolhem para a religião privatizada". 54 A literatura do Exílio fortalece Israel em seu chamado missional reafirmando a história do Antigo Testamento como a verdadeira história do mundo e afirmando que o Deus de Israel é o único Deus. Os deuses dos pagãos são ridicularizados na literatura exílica e, em contraste, Deus é descrito como o Criador e Soberano da história. O povo de Israel está no Exílio não pelo fato de deuses estrangeiros os terem vencido, mas porque o único Deus verdadeiro está punindo-os, e quando tiver completado a punição, ele os ajuntará para continuar sua obra de redenção para a restauração de seu reino universal. Enquanto isso, Israel é chamado a ser fiel à sua identidade como o povo do Deus único e verdadeiro. Juntamente com a ameaça de assimilação, há o perigo de o povo de Israel simplesmente 1nolher-se da cultura dominante para uma existência semelhante a um gueto, escapando da assimilação por meio do isolamento. Israel conhece bem o poder formativo da religião pagã babilônica sobre toda a vida pública do império. Certamente, a participação cultural aumenta a tentação da assimilação e é, portanto, perigosa para a identidade de Israel. Porém, nesse contexto Jeremias convoca Israel à plena participação na vida cultural do império babilônico. Ele envia uma carta aos anciãos, sacerdotes, profetas e ao povo no Exílio: 53 ]ames A. Wharton, "Daniel3.16-18", in Interpretation 39, n. 2 (Aprill985): 171. 54 Brueggemann, Cadences o/ H o me, 3.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 89 Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os que estão no exílio, aos quais deportei de Jerusalém para a Babilônia: Edificai casas e habitai nelas; plantai pomares e comei do seu fruto. Casai-vos com mulheres e gerai filhos e filhas; também tornai esposas para vossos filhos e dai vossas filhas em casamento para que tenham filhos e filhas. Multiplicai-vos ali e não venhais a diminuir. Empenhai-vos pela prosperidade da cidade, para onde vos exilei, e orai ao SENHOR em favor dela; porque a prosperidade dela será a vossa prosperidade. Jeremias 2 9.4-7 A exortação de Jeremias é clara: Buscar a prosperidade e o shalom da Babilônia. Orar para que se desenvolva e prospere. O chamado abraâmico de abençoar persiste; traduzido para um contexto diferente, assume uma forma diferente para a comunidade do Exílio. O livro de Daniel mais uma vez oferece um exemplo de como essa forma poderia parecer na prática. Daniel e seus amigos são forçados para o serviço civil do Império Babilônico. Eles conseguem desempenhar suas tarefas na vida pública precisamente porque permanecem arraigados em uma história diferente. Consequentemente, estão cientes de sua identidade, conservam na memória e sabem a qual comunidade pertencem e a qual Deus servem. Daniel e seus companheiros são " 'bilíngues', conhecem a língua do império e estão dispostos a usá-la, mas jamais se esquecem dos ritmos da [sua] 'língua materna"'. 5 5 Enquanto lutam para se manter fiéis nas intersecções entre a história bíblica e a história de grande poder do império, comprometidos com o Senhor e, no entanto, servindo ao shalom de um arrogante reino do mundo, sua vida consiste em uma "infindável negociação" de quando fazer concessões e quando resistir. Como se manter fiel em meio a um mundo pagão? Um tema semelhante surge de duas formas no livro de Esdras-Neemias. Em primeiro lugar, há uma tensão entre separação e serviço. Por um lado, vemos em trechos como Esdras 9-10 que "a comunidade judaica é instada a observar um programa rigoroso de separação a fim de manter sua identidade", 56 mas por outro lado também é ordenada a viver pacificamente segundo o status quo, a serviço de sua cultura anfitriã. Em segundo lugar, há uma tensão entre aceitar o presente e torcer por mudanças no futuro. Vemos os dois aspectos nos debates de estudiosos sobre Esdras-Neemias no que diz respeito à orientação "teocrática" ou "escatológica" revelada nesse livro. 5 7 Uma leitura de orientação teocrática do livro revela a 55 lbid., 11. 56Williamson, Ezra, N ehemiah, 1. 57 lbid.,li.


90 A IGREJA MISSIONAL NA BfBLIA insistência do autor em que Israel aceite sua condição no presente e seja fiel a Deus no serviço a seus dominadores. Uma leitura de orientação escatológica observa a insatisfação dos profetas com a situação presente e seu anseio pela libertação do domínio estrangeiro e pelo restabelecimento de um reino independente. Williamson observa que essas duas perspectivas não são completamente exclusivas: "É possível aceitar, até mesmo abraçar, a presente situação e, ao mesmo tempo, manter em vista que ela não é perfeita e torcer por mudanças no longo prazo. Esse[ ... ] parece ser o ponto de vista adotado por Esdras e Neemias". 58 Portanto, o livro de Esdras-Neemias, assim como Jeremias e Daniel, estimula o povo de Israel a manter sua identidade fielmente no presente e a contar com o cumprimento dos propósitos de Deus. Nesse ínterim, não devem se recolher a um gueto, mas participar plenamente da vida do império. O chamado missional de Israel de ser bênção para as nações não é silenciado quando o povo é levado cativo para a Babilônia, nem quando vive em meio aos poderosos impérios mundiais da Pérsia, da Grécia ou de Roma, nem mesmo quando vive na diáspora no Egito ou em outro lugar. Sua vida social assume formas diferentes nesses novos contextos, e sua identidade missional precisa ser nutrida de novas maneiras. Porém, eles continuam sendo um povo "a-fim-de- -que", abençoados a fim de que possam por sua vez abençoar. Continuam sendo um povo "venha e junte-se a nós", convidando o mundo a participar do propósito e da missão de Deus. A promessa de Israel reunido e restaurado: O povo escatológico de Deus A identidade e o papel missionais de Israel no Exílio também são mantidos vivos por meio de uma esperança resoluta inspirada pelos profetas. Uma das mensagens claras dos profetas e dos autores dos livros históricos é a de que Israel havia sido disperso no Exílio devido à sua rebelião. Os profetas apontam para um tempo em que Israel será novamente reunido, e todas as nações serão incorporadas na aliança para servir ao Deus verdadeiro. Lohfink se queixa de que a teologia do Antigo Testamento tem prestado pouca atenção ao tema do "ajuntamento", sendo que "o 'ajuntamento do povo de Deus disperso' tem sido [ ... ] uma das afirmações fundamentais da teologia de Israel". Ouvimos sobre a promessa do ajuntamento já em Deuteronômio 30.1-6, depois de Deus dispersar Israel por meio do juízo (Dt 29.28). O mesmo padrão de ajuntar um Israel disperso aparece em muitos trechos em Isaías, Jeremias e Ezequiel, "sempre com grande importância teológica". 58 Ibid.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇOES 91 O ajuntamento se torna um terminus technicus para salvação, evidente pelo fato de "reunir/ajuntar" ser citado em paralelo com termos como "resgatar", "libertar", "curar" e "redimir". 59 Como o pastor escatológico, Deus irá reunir suas ovelhas que foram espalhadas (Jr 31.10; Ez 34.11-13). Nos livros proféticos, vemos um movimento do presente para o futuro: o que Deus havia feito por Israel no Êxodo, ele fará novamente, redimindo o povo da escravidão e estabelecendo com ele uma nova aliança (Jr 31.31-34).60 Os profetas deslocam nosso olhar para um futuro em que veremos o povo de Deus reunido como uma nação. Assim, "Israel, o povo de Deus, se torna um conceito escatológico: Javé será novamente o Deus de Israel, Israel será novamente o povo de Javé". 61 Essa imagem do futuro escatológico promete tanto o ajuntamento como a restauração. Ezequiel oferece um vislumbre de ambos em seu relato sobre o futuro de Deus para Israel. Embora Israel tenha fracassado em sua missão e profanado o nome do Senhor entre as nações (Ez 37.16-21), Deus afirma que agirá para que as nações saibam que ele é o Senhor, quando ele for "santificado por meio [de Israel] diante delas" (Ez 36.22,23): Pois vos tirarei dentre as nações e vos reunirei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra. Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; eu vos purificarei de todas as vossas impurezas e de todos os vossos ídolos. Também vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Também porei o meu Espírito dentro de vós e farei com que andeis nos meus estatutos; e obedecereis aos meus mandamentos e os praticareis. Ezequiel36.24-27 Esse ajuntamento e reconstituição do povo de Deus acontecerão nos últimos dias, quando Israel for restaurado ao seu chamado original. Então as nações conhecerão o Senhor. Então o Israel restaurado, reunido e purificado cumprirá sua vocação de ser luz para as nações. Haverá uma "peregrinação das nações" a Jerusalém (Is 2.3; 19.23; Zc 8.20-23). Israel desempenhará um papel crucial em tudo isso: 59 Lohfink, Does God Need the Church?, 51-52. 60 Para uma exposição excelente desse texto com alguns comentários perspicazes sobre a igreja como um corpo missional, ver John Bright, "An Exercise in Hermeneutics: Jeremiah 31:31-34", Interpretation 20, n. 2 (abril1966): 188-210. 61 Küng, Church, 161.


92 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Um elemento decisivo da concepção profética da peregrinação das nações a Sião é que os gentios, fascinados pela salvação visível em Israel, são impelidos ao povo de Deus por vontade própria. Eles não se tornam crentes como resultado de atividade missionária; antes, é a fascinação irradiada pelo povo de Deus que os atrai. Nesse sentido, os textos proféticos falam principalmente da luz radiante que brilha a partir deJerusalém. 62 Pois as trevas cobrirão a terra, e a escuridão cobrirá os povos; mas o SENHOR resplandecerá sobre ti; e sobre ti se verá a sua glória. Nações caminharão para a tua luz, e reis, para o resplendor da tua aurora. Isaías 60.2-3 Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Naquele dia sucederá que dez homens, de nações de todas as línguas, pegarão na barra das roupas de um judeu, dizendo: Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco. Zacarias 8.23 O s profetas anteveem que nos últimos dias o propósito missional de D eus em Israel e por meio de seu povo será cumprido. A incorporação das nações em um Israel reunido e restaurado será um evento escatológico que ocorrerá quando o Messias e o Espírito estabelecerem o reino. O período intertestamentário: O eclipse de uma visão missional A história do Antigo Testamento termina com fracasso e também com esperança. Israel fracassou em seu chamado, pois não foi luz para as nações; foi vencido pelas trevas das nações ao seu redor. Deus havia julgado e enviado o povo de Israel ao Exílio. Apesar disso, os profetas acenderam no coração do povo que havia sido disperso uma pequena chama de esperança. Nos últimos dias, Deus agirá novamente com poder por meio do Messias e pelo seu Espírito para restaurar seu governo sobre todas as nações, sobre toda a criação. Deus reunirá e purificará Israel, o templo 62 Gerhard Lohfink,]esus and Community: lhe Social Dimension of tbe Cbristian Faith, trad. John P. Galvin (Philadelphia: Fortress Press, 1982), 19.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 93 será reconstruído, a terra será purificada e a Torá será obedecida. Deus será Rei novamente - sobre toda a terra. A esperança de Israel se concentra na imagem de um futuro no qual Deus governará um reino universal e global, e essa esperança arde em meio ao Exílio e à constante ocupação estrangeira. Os medo-persas, os gregos e os romanos, por sua vez, maltratam e oprimem Israel na sua própria terra. Israel não tem esperança de resistir ao poder político e militar de Roma - tampouco de se opor ao poder cultural do helenismo, que sobreviveu ao próprio Império Grego e continua sendo uma força poderosa de sedução ao paganismo. Essa subjugação contínua por forças estrangeiras está em óbvia contradição com a própria história de Israel e suas crenças mais estimadas. O povo de Israel crê que há somente um Deus, Criador e Soberano de todo o mundo. Ele os escolheu para serem sua propriedade exclusiva, e com a Torá lhes forneceu uma forma holística de vida. A terra em si (embora ocupada por pagãos) é essencialmente santa: o próprio Deus lhes deu essa terra, com seu ponto central no templo no qual o próprio Deus habita. Como então pode Deus permitir tamanha humilhação ao seu povo? Por qual motivo Deus permitiria que sua terra e templo santos fossem profanados pela imundície pagã? Como ele pode tolerar um governo gentio que põe em risco os preceitos de vida prescritos pela Torá e submete a identidade distinta de Israel e seu modo de vida à ameaça constante de assimilação? Na promessa que Deus faz de reunir e restaurar Israel e estabelecer um reino mundial, um Israel exaurido mantém viva a esperança. Israel anseia que Deus envie seu Messias e seu Espírito para libertá-lo do cativeiro. Fazendo a contagem regressiva das setenta semanas de Daniel (Dn 9.24-27), na época da ocupação romana o povo de Israel acreditava que a vinda de um governante mundial estava próxima.63 No período intertestamentário, Israel é um "caldeirão efervescente"64 de esperança escatológica, ansiando pela vinda do reino, dividido em facções e partidos conforme suas diferentes visões do reino vindouro. Essas facções divergem sobre como e quando Deus agirá e como devem viver até que ele o faça. Os zelotes são ativistas que defendem o uso da violência contra seus opressores em uma guerra santa; eles creem que Deus trará o reino por meio de seus heroicos esforços militares. De forma contrastante, os essênios são "quietistas" que defendem o afastamento da contaminação do paganismo e a oração para que venha o reino de Deus. Os fariseus são sectários que procuram estabelecer limites à ameaça pagã por meio de práticas culturais rigorosas como a circuncisão, a observância 63 N. T. Wright, The New Testament and the People ofGod (London: SPCK, 1992), 313. 64 J. Massyngbaerde Ford, My E nemy Is My Guest:] esus and Violence in Luke (Maryknoll, NY: Orbis Books, 1984), 1.


94 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA do sábado e as leis de purificação que protegerão a identidade da aliança de Israel da profanação. Eles sem dúvida creem que Deus agirá para libertar Israel de seu inimigo se eles se mantiverem afastados da contaminação pagã. Os saduceus seguem a trilha da cumplicidade oportunista, fazendo concessões aos poderes de ocupação; para eles, manter o status quo e agir conforme a conveniência estão na ordem do dia para que a nação inteira não seja destruída (cf.Jo 11.48-50). Embora haja tremenda diversidade na maneira que as diversas facções em Israel compreendem a vinda do reino e seu próprio chamado na expectativa da sua chegada, há uma base comum sobre a qual todos os partidos podem construir uma vida em conjunto. (Na verdade, o fato de Jesus desafiar e balançar essa base é que possibilita que essas facções díspares se unam para se opor a ele.) O que as facções judaicas compartilham, ironicamente é uma profunda compreensão equivocada de sua eleição: um exclusivismo etnocêntrico que assevera o privilégio de Israel em detrimento de todas as outras nações. Em suas experiências de ocupação opressiva, eles cultivaram atitudes de separatismo, ódio e vingança para com os gentios: "Atitudes antigentias [ ... ] inspiraram muitos grupos diferentes, permeando toda a população judaica e variando apenas na sua intensidade". 65 Joachim Jeremias observa que a "expectativa popular dominante aguardava ansiosamente o dia da vingança divina, especialmente contra Roma, e a destruição final dos gentios. 'Nenhum gentio terá parte no mundo vindouro', era o ensino daquele defensor consistente da tradição antiga, R. Eliezer ben Hircano (cerca de 90 d.C.). O inferno é o destino dos gentios. 'Não há redenção para os gentios"'. 66 Divididas em todos os outros aspectos, as facções dentro de Israel encontram unidade no ódio, e a fonte da repugnância de Israel pelos gentios não é difícil de achar. Durante centenas de anos Israel foi uma nação que ora estava no Exílio, ora sob uma ocupação opressiva atrás da outra na sua terra. Tropas estrangeiras não somente devastaram a terra santa de Israel, mas também cometeram atrocidades e injustiças, incluindo estupro, destruição e roubo de propriedade, trabalhos forçados, acantonamento de soldados e extorsão de dinheiro. Martin Hengel observa que "para a população judaica simples, era quase que inteiramente uma história de exploração opressiva [ ... ], brutalidade indescritível e esperanças frustradas". 67 ~alquer povo experimentaria uma opressão dessas como um 65 Martin Goodman, 7he Ruling Class if judaea: 7he Origins if the Jewish Revolt against Rome A. C. 66-70 (Cambridge: Cambridge University Press, 1987), 108. 66JoachimJeremias,]esus' Promise to the Nations, trad. S. H . Hooke, Studies in Biblical1heology 24 (London: SCM Press, 1958), 41. 67 Martin Hengel, Victo1y over Violen ce, trad. David E. Green (Philadelphia: Fortress Press, 1973), 45.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 95 fardo. Porém, a autocompreensão de Israel torna-a especialmente encolerizante: o povo de Israel possui um status especial, um Deus singularmente poderoso e uma terra santa. No período intertestamentário, sua esperança postergada havia muito tempo se deteriorou e se transformou em ódio e em ânsia amarga por vingança contra seus opressores. Na esperança de Israel, o destino final das nações está vinculado com o que Deus fará quando seu reino aparecer nos últimos dias. Nos profetas do Antigo Testamento há uma mensagem dúplice. Por um lado, há as promessas de bênção e salvação para as nações por meio de Israel: Também te porei para luz das nações, para seres a minha salvação até a extremidade da terra. Isaías 49.6 Naquele dia, Israel será o terceiro, junto com os egípcios e os assmos, uma bênção no meio da terra; porque o SENHOR dos Exércitos os tem abençoado, dizendo: Feliz seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança. Isaías 19.24,25 Por outro lado, os profetas falam sobre julgamento, subjugação e destruição como o destino das nações: Eu pisei no lagar sozinho, e ninguém dentre os povos esteve comigo; eu os pisei na minha ira, e os esmaguei no meu furor, e o seu sangue respingou nas minhas vestes, e manchei toda a minha roupa. Porque o dia da vingança estava no meu coração! Chegou o ano da minha redenção [ ... ] Pisei os povos na minha ira, e os embriaguei no meu furor; e derramei sobre a terra o seu sangue. Isaías 63.3-6 Os profetas do Antigo Testamento não propõem a reconciliação desses dois cursos aparentemente incompatíveis: juízo e salvação. Talvez J. H . Bavinck esteja certo ao escrever que a salvação se segue ao julgamento: "Os profetas do Antigo


96 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Testamento previram a salvação das nações como um evento que ocorrerá nos últimos dias, após serem derrotados na guerra pelo Messias. Naquele tempo, as nações virão humildemente ao espiritualmente novo e renascido Israel, e então adorarão sobre o monte do Senhor". 68 Em todo caso, está claro que, na época de Jesus, Israel está aguardando ansiosamente pela vinda de um messias que irá "pisar" os gentios, "despedaçá-los como se fossem um vaso de barro com uma barra de ferro", e não para a salvação das nações gentias. Um documento do primeiro século, a Assunção de Moisés, comenta que o Altíssimo se levantará "para punir os gentios" (lO. 7-9). George Ladd explica sobre a literatura judaica daquele período que "em alguns lugares [ ... ] a salvação é estendida aos gentios que se arrependem; mas isso é raro. É mais característica a expressão: 'Eu me alegrarei sobre os poucos [israelitas] que serão salvos [ ... ] e não prantearei a multidão daqueles [gentios] que perecerão' (4Esdras 7.61s.)".69 Muitas das orações de Israel exibem esse anseio para que Deus julgue os gentios. Na décima segunda bênção da oração central da liturgia de Israel, pede-se que Deus venha depressa extirpar, desarraigar, esmagar, subjugar e humilhar os inimigos gentios de Israel.7° No primeiro século, o autor de Salmos de Salomão ora para que Deus levante um rei e o capacite com "a força para destruir governantes injustos, para purificar Jerusalém dos gentios que a pisoteiam para a destruição; para expulsar com sabedoria e justiça os pecadores da herança recebida [a terra]; para esmagar a arrogância dos pecadores como um vaso de barro; para despedaçar toda a sua substância com uma barra de ferro; para destruir as nações contrárias à lei com a palavra de sua boca". 71 Não apenas ódio e vingança, mas atitudes de separação e segregação também moldam as relações de Israel com as nações. A identidade distinta de Israel e sua maneira de viver prescrita pela Torá são ameaçadas pelo extraordinário poder da cultura helenística, que se alojara em Roma. A transigência de alguns judeus com a cultura pagã desencadeia uma acusação reacionária e uma severa recriminação das facções de Israel. Esse é o contexto em que precisamos entender os debates relativos ao sábado, à circuncisão e às leis alimentares e de purificação que ocupam tanto espaço e tempo nos escritos judaicos e que aparecem proeminentemente 68 Bavinck, Science ifMissiom, 23. 69 George Eldon Ladd,]esus and the Kingdom (Waco: Word, 1964), 105. As duas obras citadas por Ladd, the Assumption ifMoses e 4Ezra {Assunção de Moisés e 4Esdras}, são livros apocalípticos judaicos datados aproximadamente do primeiro século. 70 Emil Schürer, 1he Hist01y ifthe]ewish People in t/;eAge iffesus Christ (175 BC-AD 135), rev. e ed. Geza Vermes, Fergus Millar, Matthew Black (Edinburgh: T&T Clark, 1979), 2:457. 71 Salmos de Salomão 17:24, citado in N . T. Wright, New Testament and the People ifGod, 267.


ISRAEL ENCARNA SEU PAPEL E IDENTIDADE MISSIONAIS ENTRE AS NAÇÕES 97 nos Evangelhos. Talvez a mentalidade judaica de separação e segregação em relação aos gentios seja vista com mais clareza nos dezoito decretos aprovados no primeiro século para evitar a profanação e contaminação por parte dos pagãos. 72 As rigorosas leis alimentares e de purificação judaicas são altos muros culturais erigidos para mantê-los separados dos gentios. Todas as casas e pertences dos gentios são considerados impuros. Os judeus devem evitar a comunhão à mesa com gentios e proibir seus filhos e filhas de se casar com eles. Gentios são proibidos de aventurar-se a entrar no templo além do pátio dos gentios. Na verdade, o templo se tornou um antro de revolucionários violentos exigindo a rigorosa segregação dos odiados gentios, em vez de uma casa de oração para a qual todas as nações são convidadas a cultuar o Deus de Israel (Me 11.17). Os profetas do Antigo Testamento falaram dos últimos dias quando Israel será reunido e purificado. A conexão profética entre o reino e o ajuntamento de Israel permanece como um elemento muito importante da esperança de Israel durante o período intertestamentário. 73 Emil Schürer afirma que o ajuntamento do Israel disperso para participar no reino messiânico era para os judeus daquela época "em si tão evidente que essa esperança teria sido alimentada mesmo sem as profecias do Antigo Testamento". 74 Ou Deus ou o Messias 75 reunirá o Israel disperso para participar no reino messiânico. A décima bênção da "oração das orações" de Israel afirma: "Ergue um estandarte para reunir os nossos exilados e recolhe-nos dos quatro cantos do mundo para a nossa terra. Bendito sejas tu, Senh01~ que reúnes os dispersos do teu povo Israel ". 76 Jesus Ben Sirá ora: "Reúne todas as tribos de Jacó e dá-lhes a herança, como no princípio" (Eclesiástico 36.10, BCNBB). 77 De acordo com os profetas do Antigo Testamento, a salvação de Israel deve ocorrer nos últimos dias em favor das nações. No entanto, Israel perdeu essa relação e, em vez disso, confia em um futuro apocalíptico de salvação e bênção para o Israel reunido somente - e de vingança e ira para os gentios. Israel se esqueceu de sua identidade e papel missionais na história da salvação: ser canal de bênção para as nações. 72 Hyam Maccoby, Ritual and Morality: 7he Ritual Purity System and Its Place in]udaism (Cambridge: Cambridge University Press, 1999), 10-12, 153-56. 73 Joachim Jeremias,]esus' Promise to the Nations, 63-65. 74 Schürer, Histmy of the jewish People, 2:530. 75 Salmos de Salomão 17:28. 76 Schürer, Histmy of the Jewish People, 2:457. 77 Citado in ibid., 2:530.


98 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Conclusão A identidade e o papel de Israel foram estabelecidos desde o início de sua história. Deus escolheu Abraão e Israel para experimentarem a plenitude de sua bênção e serem um canal dessa bênção para os outros. O restante da história relata até que ponto eles foram fiéis a essa tarefa. Eles haviam sido colocados no meio da terra para brilhar como luz para as nações, primeiro como uma livre confederação de tribos, depois como uma monarquia e, finalmente, como uma minoria sem pátria dispersa entre as nações. Ao longo de toda essa história, Deus proveu os meios pelos quais eles pudessem cumprir o seu chamado - líderes, instituições, escritos entre outros. Continuamente, porém, deixaram de ser um povo santo. Middleton e Walsh refletem a respeito disso: Qyando o propósito original de Deus de levar bênção a todas as criaturas por meio da humanidade (criada como i mago Dei) foi impedido pela impetuosa busca por autonomia e controle registrada em Gênesis 3-11, Deus escolheu Abraão e seus descendentes para levar bênção às nações a fim de restaurar a humanidade à sua vocação original. Porém, como eleito de Deus, Israel foi um melancólico fracasso. Seja por impedimentos externos e militares ou internos e éticos, Israel jamais cumpriu o propósito para o qual foi escolhido. Deus repetidamente enviou seus agentes designados como representantes para solucionar a questão, iniciando com Moisés, continuando por meio de juízes e de reis davídicos até a longa lista de profetas. Todos esses compartilhavam um chamado em comum: restaurar o povo de Israel ao seu chamado de levar bênção às nações, desse modo restaurando todos os seres humanos ao chamado deles de mediar a bênção de Deus à terra e a todas as suas criaturas. 78 O problema, como o viam os profetas, estava no coração de Israel, que era desesperadamente perverso (J r 17.9). Ele precisava de um novo coração, um novo espírito; precisava da lei de Deus escrita em seu próprio ser. Somente depois disso o povo de Israel poderia cumprir o chamado que Deus lhes tinha dado, de ser uma ilustração palpável e viva de seu propósito para a vida humana. A história do Antigo Testamento aponta para um tempo futuro em que somente um povo assim será reunido e restaurado - e por meio dele, os propósitos de Deus se cumprirão. 78 Middleton; Walsh, Tmth Is Strange1·, 135.


4 Jesus reúne um povo escatológico para que este assuma seu chamado missional Joachim Jeremias afirma corajosamente que "o único sentido de toda a atividade de Jesus é reunir o povo escatológico de Deus". 1 Essa afirmação radical destaca exatamente como é importante o papel de um povo para o plano de redenção divino. O propósito de Deus desde o início da história bíblica tem sido restaurar toda a criação - incluindo a vida humana como um todo e os povos de todas as nações- dos efeitos corrosivos do pecado. Seu método é primeiro escolher um único povo dentre todas as nações da terra, moldando-o em um sinal da salvação digno de crédito, um antegosto do rumo que ele está dando à história, e depois disso atrair todas as pessoas a esse convívio. Mas o povo de Deus, Israel, fracassou em sua tarefa: em vez de ser um povo de contraste, tornou-se como as outras nações, contaminado pela idolatria. Como castigo, então, é disperso por Deus. Embora até o final do período intertestamentário somente alguns poucos tenham retornado à terra, para estes está claro que todas as gloriosas promessas dos profetas do Antigo Testamento ainda seriam concretizadas. Eles ainda são um povo sob os efeitos do juízo, sua terra santa está ocupada pelos governantes romanos. Assim, no período entre os testamentos, Israel aguarda o reino vindouro, tempo em que Deus reunirá Israel novamente, para finalmente cumprir o seu chamado missional. E Deus age: ele 1 Joachim Jeremias, New Testament Theology, trad. John Bowden (New York: Scribner, 1971), 170. [Edição em português: Teologia do Novo Testamento, ed. rev. at., São Paulo, Hagnos, 2008.]


100 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA leva o reino a Israel na pessoa de Jesus. Com a vinda de Jesus, inicia o prometido ajuntamento do povo escatológico de Deus. "O fato de Deus ter escolhido e santificado o seu povo para fazer dele uma sociedade de contraste no meio de outras nações era para Jesus o contexto óbvio de todas as suas ações", escreve Gerhard Lohfink. Em Jesus, vemos a "ação escatológica" de Deus para "restaurar ou mesmo restabelecer o seu povo, a fim de realizar de forma definitiva e irrevogável o seu plano de ter um povo santo no meio das nações". 2 Neste capítulo, vamos examinar os relatos dos Evangelhos de como se inicia a obra escatológica de Deus, à medida que Jesus reúne e restaura Israel ao seu chamado. Nessa obra de Deus, encontramos o embrião ou núcleo da igreja do Novo Testamento. A forma e a identidade que Jesus dá a essa comunidade recém- -formada são bastante significativas para todos que buscam compreender o papel e a identidade da igreja atual. Para entender esse aspecto da missão de Jesus, temos de voltar ao contexto histórico em que ela ocorreu. O ajuntamento e a formação da comunidade ocorrem no período em que a esperança pelo reino é a característica determinante de Israel. Vários grupos se formaram em torno de diferentes compreensões do reino - sua vida comunitária era moldada por essa esperança. Mas as próprias definições de "reino" e "comunidade" que Jesus dá diferem de todas as demaisnão apenas como mais uma facção entre muitas, mas radicalmente diferente de todas, abalando até os alicerces aquilo que todas as outras tinham em comum. Na essência, Israel havia perdido de vista seu papel e sua identidade na missão de Deus: abençoar as nações. Jesus, em contrapartida, quando anuncia o reino vindouro, enquadra-se diretamente na esperança do Antigo Testamento, firmemente contrário à distorção então corrente: ele procura reunir e purificar Israel em favor das nações, restaurar Israel para que assuma seu chamado missional. A própria missão de Jesus é restaurar uma comunidade escatológica que assuma novamente esse papel e essa identidade missionais. A chegada do reino Qyando João Batista inicia seu trabalho, anuncia que o reino há tanto esperado está às portas (Mt 3.11). Então vem Jesus, proclamando as boas-novas de que o reino chegou: "Completou-se o tempo, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho" (Me 1.15). A linguagem de Marcos é 2 Gerhard Lohfink,]esus and Community: The Social Dimension if the Christian Faith, trad. John P. Galvin (Philadelphia: Fortress Press, 1982), 123.


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