IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAM ENTO 20 1 Essas imagens não devem ser vistas de maneira individualizada. Ridderbos observa que "não devemos nos orientar em primeiro lugar segundo os pontos de vista individuais e pessoais, mas segundo os pontos de vista histórico-redentor e coletivo". 36 Qyando Paulo fala de nossa participação na nova criação, ele não está falando de "algo que acontece com indivíduos isolados. A incorporação no evento-Cristo transfere o crente individual para uma comunidade de crentes". 37 Paulo pensa em termos cósmicos e comunitários. A salvação tem uma extensão cósmica; é uma nova criação que se iniciou na ressurreição de Jesus. A salvação é suficientemente ampla para incluir toda a vida humana em um povo, uma nova humanidade que participa em conjunto da nova criação. Nossa perspectiva individualista, às vezes, obscurece essa visão de salvação cósmica e comunitária. Um bom exemplo disso é nossa maneira de interpretar 2Coríntios 5.17, que a versão A21 apresenta como: "Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; o que é velho se foi, e veio o que é novo!"(NIV). Outras traduções reforçam o tom individualista ainda mais: "Ele é uma nova criatura". O grego original não afirma isso. Diz simplesmente: "Se alguém está em Cristo -nova criação!". Ridderbos observa que a referência à "nova criação" feita por Paulo "não se destinava apenas a um sentido individual ('uma nova criatura'), mas a nos levar a pensar acerca do novo mundo da re-criação que Deus inaugurou em Cristo e no qual todo aquele que está em Cristo é incluído". 38 É a inauguração de uma nova ordem mundial. Pertencemos a essa nova criação não como indivíduos separados, mas como membros de uma nova humanidade que está inserida na nova ordem. Esse aspecto fica particularmente claro no argumento de Paulo em Romanos 5 e 6, em que ele fala de Adão e Cristo: Adão representa o início da era antiga e Jesus, o início da nova. O pecado de Adão inaugura a era antiga, e a obra de Jesus, a era vindoura. Se estamos em Adão, fazemos parte da era antiga e estamos debaixo de seu poder, mas se estamos "em Cristo", fazemos parte da era vindoura (Rm 5.12-21). Logo após esse contraste, Paulo fala de nossa participação naquilo que Jesus realizou em sua morte e ressurreição por meio de nossa incorporação na nova comunidade mediante o batismo (Rm 6.1-14). É evidente que isso não minimiza a responsabilidade individual de cada membro dessa comunidade. Antes, enfatiza a natureza coletiva da vida humana e a estrutura cósmica e comunitária 36 Ridderbos, Paul, 91. 37 Bosch, Tmniforming Mission, 144. 38 Ridderbos, Paul, 45. A versão TNIV (em inglês) capta isso de forma acertada: "Portanto, se alguém está em Cristo, a nova criação chegou: O que é velho acabou, eis o novo!".
202 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA da escatologia de Paulo. Para Paulo, há dois mundos, o antigo e o novo, e dois povos que povoam esses mundos. Essas imagens são ricas em suas implicações missionais. A igreja, ao encarnar a vida da nova criação, é uma luz atraente para as nações. Como Bosch observa: Na compreensão de Paulo, a igreja é "o mundo em obediência a Deus", a "criação [ ... ] redimida" [ ... ]. Sua principal missão no mundo é ser essa nova criação. Sua própria existência deveria ser para a glória de Deus. É exatamente isso que produz um efeito sobre os "de fora". Por meio da conduta deles, os crentes atraem estranhos ou os repelem [ ... ].A conduta deles ou é atraente ou é ofensiva. Qyando ela é atraente, as pessoas se aproximam da igreja, mesmo que a igreja não "saia" ativamente para evangelizá-las. 39 Desse modo, Paulo lembra às igrejas jovens sua orientação para o mundo. Sua nova vida deve ocupar-se em "fazer o que é bom para todos" (Rm 12.17, BJ), deve ser "conhecida por todos" (Fp 4.5;40 cf. Cl 4.5,6), assim, "aqueles que não são cristãos os respeitarão" (1Ts 4.12, NTLH). Ele desafia os membros da igreja de Filipos a desenvolver a sua salvação para que resplandeçam como luminares em meio à cultura corrupta e perversa do Império Romano (Fp 2.12-15). Paulo fala do impacto da vida da igreja sobre os de fora quando escreve à igreja tessalonicense: "A partir de vós, não somente a Palavra do Senhor foi ouvida na Macedônia e na Acaia, mas também a vossa fé em Deus foi divulgada em todos os lugares" (1 Ts 1.8). Ele diz que a igreja de Corinto é uma carta de recomendação a favor de Paulo "conhecida e lida por todos" (2Co 3.2). Sobre a igreja de Roma, ele escreve que sua fé "é anunciada em todo o mundo" (Rm 1.8), e que sua obediência "é conhecida por todos" (Rm 16.19). A partir disso, Bosch conclui que "esses comentários provavelmente não sugerem que as igrejas de Tessalônica, Corinto e Roma estejam ativamente envolvidas no alcance missionário direto, mas são antes 'missionárias por sua própria natureza', por meio de sua unidade, amor mútuo, conduta exemplar e alegria radiante". 41 Visto que a salvação da era vindoura tem escopo cósmico, a missão do povo de Deus será igualmente tão ampla quanto a criação, transbordando na vida pública da cultura, uma vez que busca o seu bem-estar. "O escopo universal futuro do reino vindouro de Deus, portanto, explica uma concepção radical da igreja em 39 Bosch, Tmnsforming Mission, 168. 40 Ralph P. Martin afirma que Filipenses 4.5 é "um lembrete de que a presença da igreja no mundo deve convocá-la a uma vida de influência atraente sobre seus vizinhos pagãos" (Philippians: 1he New CentwyBible Commentmy [Grand Rapids: Eerdmans, 1976], 154). ' 11 Bosch, Tmnsfonning Mission, 168.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 203 favor do mundo. Os cristãos são compelidos a se tornar parceiros do plano divino de redenção cósmica". 42 Uma vez que Deus está restaurando o seu reino, "seria de esperar que a igreja, como projeto e cabeça de ponte do reino de Deus, concentre seus esforços em todas as suas atividades para preparar o mundo para o seu destino vindouro no reino de Deus. A consequência hermenêutica[ ... ] sugere vocação e missão ativas para a ordem criada e suas instituições".43 Assim, Paulo insiste na "obrigação dos cristãos de 'viver como cidadãos'[ ... ] no mundo da politeia [a vida pública do estado] de uma maneira que é digna do evangelho". 44 Uma vez que há uma confluência das eras, um encontro entre os poderes da era vindoura e os poderes do mal da era antiga, o envolvimento missional na vida pública significará tanto participação como rejeição, simultaneamente em favor do mundo e em oposição a ele. A igreja vive em favor do mundo no sentido de que afirma o contexto cultural que Deus está renovando e procura encarnar o senhorio de Cristo sobre a vida como um todo para o bem do mundo. A igrej a vive em oposição ao mundo no sentido de rejeitar os poderes idólatras da era antiga e sua dominação contínua sobre a sociedade humana. ''A igreja, então, vive em constante tensão entre ser contra o mundo e em favor do mundo. Se enfatizar demais a separação do mundo de modo dualista, ela ameaça tornar-se um movimento sectário puramente apocalíptico que trai a morte e a ressurreição de Cristo como plano de redenção divino para o mundo; mas, se enfatizar exclusivamente a participação no mundo, ela ameaça se tornar mais um fenômeno 'mundano', acomodando-se a tudo que o mundo crê e assim se tornando parte do mundo."45 A fidelidade ao evangelho no "meio dessa batalha" implicará "necessariamente em sofrimento". A igreja está envolvida na batalha cósmica. Tomar o partido do reino de Deus significará sofrimento em um embate missionário com os poderes da era antiga. Não se trata "somente de sofrer por resistir passivamente aos ataques furiosos dos poderes deste mundo, mas também de sofrer como resultado de um envolvimento ativo com o mundo, visto que a igreja tem uma missão redentora no mundo e em favor do mundo de acordo com o plano de redenção divino". 46 42 Beker, Pau!'s Apocalyptic Cospe!, 37. 43 Beker, Paul the Apostle, 326-27. 44 Bruce Winter, Seek the We!fm·e of the City: Ch1·istians as Benejacton and Citizens (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 82. 45 Beker, Paul's Apocalyptic Cospe!, 41. 4úlbid.
204 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA A imagem missional do corpo de Cristo Na imensa galeria das imagens eclesiais no Novo Testamento, "o corpo de Cristo" deve ser considerado uma das mais importantes. Nessa imagem, temos "o resultado mais maduro do pensamento neotestamentário sobre a Igreja",47 mostrando o que significa para a igreja ser o povo de Deus e oferecendo uma definição rica e precisa de sua natureza escatológica. Muitas vezes, referências a essa imagem destacam a unidade e a diversidade dos membros da igreja na sua vida em comunidade, com base na figura do corpo humano -e Paulo emprega a analogia dessa maneira. Porém, o significado de "o corpo de Cristo" é muito mais profundo que a descrição da "vida do corpo". 48 A expressão é usada principalmente para descrever o "relacionamento especial e íntimo e a comunhão que existe entre Cristo e a igreja". 49 A imagem realmente reflete a unidade e a comunhão dos membros do corpo, mas é a relação da igreja com Cristo que está em primeiro plano. 5° A intenção da metáfora é "expressar a ligação íntima do povo de Deus do Novo Testamento com Cristo, sua relação com Deus por meio de Cristo, a união de seus membros por meio de Cristo e o esforço e a jornada desse povo em direção a Cristo como seu alvo. A Igreja no Novo Testamento continua sendo o povo de Deus, porém é um povo de Deus recém-constituído em Cristo e em relação com Cristo". 5 1 Visto que essa terminologia é exclusiva de Paulo, a origem dessa imagem tem gerado muita discussãoY O termo "corpo" era comumente usado na cultura da época de Paulo para se referir ao estado (polis) como uma entidade social análoga ao corpo humano. 53 A polis era formada a partir de uma diversidade de membros em uma unidade sociopolítica. Por isso, o termo facilmente poderia ser usado por Paulo para referir-se a outra comunidade: a igreja como um corpo de crentes. 47 Schnackenburg, Church in the New Testament, 165. 48 Ver, e.g., o clássico de Ray C. Stedman Body Life: lhe Church Comes Alive (Glendale, CA: GL Regal Books, 1972). [Edição em português: A Igreja, C01po Vivo de Cl·isto: A Ig1·eja no Século Vinte Recuperando Toda a Força do Cristianismo Primitivo, trad. Walter Schlupp, São Paulo, Mundo Cristão, 1974.] 49 Ridderbos, Paul, 362. 50 Markus Barth, lhe Broken WalL· A Study of the Epistle to the Ephesians (1959; reimpr., Vancouver, BC: Regent Press, 2002), 115. 5 1 Schnackenburg, Church in the New Testament, 165-66. 52 Estudiosos buscaram a origem dessa imagem no pensamento helenístico (e.g., mitos gnósticos ou pensamento estoico), na concepção veterotestamentária de uma personalidade coletiva e no pensamento rabínico escatológico posterior. 53 Eduard Schweizer, "awpa", in lheological Dictionary of the New Testament, ed. Gerhard K.ittel; Gerhard Friedrich, trad. Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), 7:1036-41; Küng, Church, 295.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 205 Contudo temos de deixar o mundo grego para trás e voltar às raízes judaicas para entender como esse corpo está relacionado a Cristo. Há duas maneiras significativas que a imagem de "corpo de Cristo" demonstra o relacionamento da igreja com Cristo. A primeira é a de que estamos em Cristo: "nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo" (Rm 12.5). A linguagem de estar em Cristo (ou algumas vezes, de modo sinonímico, com Cristo) permeia as cartas de Paulo. No pensamento escatológico judaico do tempo de Paulo, encontramos várias noções de uma pessoa agindo como representante de muitas, de um indivíduo sendo o fundador de um novo povo escatológico e de um povo inteiro encontrando sua identidade e seu nome em um fundador. 54 Paulo emprega esses conceitos especialmente em conexão com a morte e a ressurreição de Jesus. Nesses eventos, houve uma transição decisiva do mundo antigo para o novo em que o seu povo participa. Paulo pode referir-se a Jesus como o Adão final cuja obra em favor de muitos cria uma nova comunidade (Rrn 5.12-21; 1Co 15.21-23); ele é a origem ou o inaugurador (arche) do mundo da ressurreição do qual o seu povo participa (Cl1.18); ele é o primogênito e os primeiros frutos de uma comunidade que participa da sua vida ressurreta (1Co 15.20; Cl1.18). Em todos esses papéis, Jesus não é apenas o "primeiro" cronologicamente, nem é meramente o "primeiro" em dignidade em relação a seu povo; em vez disso, "ele abre o caminho para eles, ele une o futuro deles ao seu próprio". 55 O que ele realiza, ele o faz em favor de seu povo. Um representa muitos, e muitos compartilham daquilo que um realizou. Estar "em Cristo" significa participar daquilo que ele realizou: "Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas velhas já passaram, e surgiram coisas novas"(2Co 5.17). Paulo também afirma que em Cristo nós formamos um corpo (Rm 12.5, NV1). Essa é uma afirmação eclesiológica: uma comunidade foi estabelecida por meio dos eventos do sofrimento, da morte e da ressurreição de Jesus. A expressão "em Cristo" é muitas vezes interpretada principalmente (se não exclusivamente) em termos de salvação individual. Porém, a "nova vida da pessoa 'em Cristo'[ ... ] é ao mesmo tempo vida em uma nova sociedade fundada 'em Jesus Cristo'. Uma separação dos aspectos individual e social não é possível; a união pessoal com Cristo também envolve incorporação na sociedade cristã coletiva". 56 Estar "em Cristo" não se refere primordialmente ao desfrutar dos benefícios da obra de Cristo por indivíduos isolados, mas trata-se de fazer parte de uma nova humanidade que agora compartilha da sua obra: 54 Küng, Church, 294. 55 Ridderbos, Paul, 56. 56 Schnackenburg, Church in the N ew Testament, 167.
206 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA O leitor atual das cartas de Paulo a princípio está inclinado a entender as palavras recorrentes "em Cristo" com o sentido individual. Elas são atribuídas frequentemente a um "relacionamento pessoal com Cristo"[ .. .]. Sua referência é eclesiológica: os que estão "em Cristo" vivem na esfera do Espírito de Cristo, derramado desde a Páscoa, na qual os poderes do pecado e da morte não governam mais. Portanto, "estar em Cristo" não significa um relacionamento puramente individual entre Cristo e o crente. Significa pertencer à esfera na qual Cristo governa, e essa esfera é o seu corpo, a comunidade. Essa é a base sobre a qual cada pessoa está completamente conectada a Cristo e a seus irmãos cristãos. 5 7 O nosso batismo é o ritual por meio do qual nos tornamos parte desse corpo singular escatológico e participamos do que Jesus realizou (Rm 6.1-11; 1Co 12.13; Gl 3.26-28). Paulo afirma: "Pois todos fomos batizados por um só Espírito para ser um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito" (1Co 12.13). Nosso batismo é para dentro de um corpo que participa do dom do Espírito, o qual nos possibilita usufruir dos resultados da obra de Cristo. Embora a expressão "corpo de Cristo" se refira em primeiro lugar ao nosso relacionamento coletivo com Cristo e não ao fato de sermos uma comunidade, o fato é que há muitas implicações para a comunhão cristã nessa imagem, especialmente em 1 Coríntios e Romanos. Por exemplo, visto que a igreja é um corpo em Cristo, ela precisa viver essa unidade na prática; essa unidade se encontra na diversidade; os muitos membros são mutuamente interdependentes; todos recebemos dons para servir com humildade e edificar uns aos outros em amor; devemos honrar cada membro, especialmente os mais fracos; devemos tratar os pobres com honra de modo a distinguir o corpo de Cristo; estamos solidariamente unidos de forma que, quando um sofre, todos sofrem, e quando um se alegra, todos se alegram; nossa vida deve ser moldada pelas passagens que trazem a expressão "uns aos outros" do Novo Testamento. Contudo, a maior importância está no relacionamento desse corpo com Jesus Cristo. A igreja é uma comunidade que participa da vida dos últimos dias pelo fato de estar unida a Jesus em sua morte e ressurreição. Há uma segunda maneira que nós como "o corpo" nos relacionamos com Cristo: ele é a cabeça de seu corpo. Essa maneira de falar a respeito da igreja é proeminente nos textos de Efésios e Colossenses. Embora nessas cartas a igreja esteja relacionada de forma histórico-redentora com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo (e.g., Ef2.11-16), ela está relacionada mais adiante com o Cristo vivo que é o Senhor exaltado, "a cabeça do corpo, que é a igreja" (Cl1.18). 57 Lohfink, Does God Need the Church?, 259-60.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 207 A imagem de Jesus como a cabeça da igreja significa que ele está em uma posição soberana de autoridade sobre a igreja; esta deve viver em submissão, serviço e obediência ao domínio completo de Cristo. De modo significativo, tanto em Efésios como em Colossenses, é o escopo todo-abrangente da autoridade de Cristo que estabelece o contexto para a sua primazia. "Todas as coisas" foram criadas por Cristo e para ele, todas as coisas subsistem nele, e todas as coisas serão reconciliadas com Deus por meio dele (Cl 1.15-20). É no contexto desse seu domínio supremo e universal que devemos entender que ele é a cabeça do corpo, a igreja (Cl1.18). A mesma conexão entre a autoridade completa de Cristo e seu domínio aparece também em Efésios (Ef 1.20-23). Com essa ênfase na autoridade cósmica de Cristo, Paulo está respondendo à ameaça de vários "poderes" espirituais que governam a vida econômica, cultural, social e política de Éfeso e Colossos. A tentação para os membros da igreja é viver em sujeição a esses poderes, como o fazem seus concidadãos. Na cosmovisão da época, a sociedade era dominada por esses principados e poderes (Ef2.1-3; Cl2). Paulo responde, afirmando que esses poderes são criados em Cristo e para Cristo (Cl1.16). Eles são bons poderes no âmbito da criação; no entanto, "são corrompidos, tornam-se demoníacos quando são absolutizados [e tomam] o lugar que pertence a Deus". 5 8 Consequentemente, os "poderes" bons da criação, como por exemplo, a sexualidade, o dinheiro, as relações familiares, a tradição e a autoridade política podem se tornar ídolos e dessa forma moldar as estruturas da sociedade. A mensagem do evangelho afirma que esses poderes foram vencidos na cruz (Cl2.15) e reconciliados com Cristo (Cl1.20). Eles foram despojados de suas reivindicações ilegítimas de supremacia e foram recolocados nos seus lugares apropriados na criação. Paulo cita a autoridade cósmica de Cristo: ele criou os poderes, ele derrotou a absolutização idólatra desses poderes e está reconciliando-os consigo mesmo. Por isso, as igrejas de Colossos e Éfeso não precisam mais se submeter aos poderes de suas culturas. Eles foram libertados para servir somente a Cristo. Cristo é a cabeça sobre tudo em favor da igreja. Como o corpo de Cristo, nós somos a plenitude (pleroma) daquele que "enche" todas as coisas (i. e., governa todas as coisas com sua autoridade todo-abrangente e cósmica; cf. Jr 23.24). Isto é, seu corpo participa da vitória de Cristo, que é a cabeça sobre os poderes. Dessa maneira, a igreja oferece libertação dos poderes idólatras que moldam a cultura pagã; na igreja, a autoridade universal de Deus é reconhecida e expressada. E, assim, os cristãos são uma sociedade de contraste comparados aos seus contemporâneos 58 Lesslie Newbigin, Truth to Te/1: The Cospe! as Public Truth (Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 75.
208 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA que permanecem escravizados aos poderes. A sujeição e a obediência da igreja a Cristo devem ser tão amplas como a autoridade de Cristo. Surpreendentemente, a autoridade soberana de Cristo como cabeça sobre todas as coisas e sobre a igreja é revelada no amor sacrificial de um servo (Ef 5.22-33). Como um exemplo para o marido, que é a cabeça da esposa, Paulo afirma que Cristo usou seu domínio e sua autoridade para amar a igreja sacrificialmente e entregar-se por ela. Cristo lava a igreja e a apresenta em santidade esplendorosa. Cristo alimenta e cuida dos membros de seu corpo. Esse cuidado no sustento é demonstrado claramente na maneira que o Cristo exaltado concede dons à igreja a fim de que o corpo de Cristo seja edificado e alcance a medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.7-16). Aqui temos um retrato do Cristo exaltado presente na igreja, usando sua autoridade soberana para equipar o seu povo a fim de que cresça e se torne cada vez mais parecido com ele. Ele se certifica de que a igreja esteja bem servida por líderes que mantêm o poder da Palavra de Deus como elemento essencial em suas vidas. Ele age neles e por meio deles, como também por meio de todos os outros dons que realizam a obra da igreja, para que em tudo a igreja cresça em direção à estatura de Cristo, a cabeça. À medida que a igreja é edificada, ela é libertada dos poderes idólatras de seu contexto cultural e amadurece gradativamente, movendo-se em direção à plena estatura de Cristo, demonstrando desse modo a obra redentora de Deus em relação aos "poderes" (Ef3.10). Por isso, Paulo exorta os efésios a não viver (como vivem os gentios) em sujeição aos poderes idólatras da sociedade, mas a viver sob a autoridade de Cristo somente (Ef 4.17-6.20). Lohfink escreve: A tarefa decisiva da igreja, portanto, é edificar-se como uma sociedade em contraste com o mundo, como a esfera em que o governo de Cristo com base no amor fraternal é a lei da vida. É precisamente por meio dessa realização da igreja que a sociedade pagã compreenderá o plano de Deus para o mundo [ ... ]. Efésios nos oferece algo muito parecido ao modelo da peregrinação das nações, embora o faça com uma terminologia completamente diferente e contra um horizonte de pensamento completamente diferente [ ... ].A igreja é então pura e simplesmente o sinal eficaz da presença da salvação de Deus no mundo. 59 A imagem do "corpo de Cristo" mostra que a igreja está relacionada com Jesus de duas maneiras: de maneira histórico-redentora a igreja participa dos eventos da cruz e da ressurreição; de maneira escatológica a igreja vive em conexão vital e constante com a sua cabeça, o Senhor vivo e que ascendeu ao céu. A igreja vive 59 Lohfink,]esus and Community, 145-46.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 209 mediante a contínua apropriação da nova vida em Cristo que vem por meio do reconhecimento permanente de sua incorporação na morte e na ressurreição de Jesus. Essa nova vida é concedida por meio da obra contínua do Senhor ressurreto e que ascendeu ao céu, e que age por meio do Espírito mediante a comunhão da igreja. É essa conexão vital com Jesus de modo histórico e escatológico que faz da igreja o corpo de Cristo. Referi-me antes à tendência de restringir a aplicação da imagem do "corpo de Cristo" às dinâmicas da vida comunitária interna da igreja. Essa aplicação, embora seja válida, simplesmente não tem o alcance necessário: o retrato do corpo de Cristo precisa ser entendido em termos do relacionamento vital da igreja com Jesus Cristo. E, no entanto, mesmo isso é entendido erroneamente se não for compreendido de forma missional. Para entender essa imagem em sua plenitude, temos de vê-la no contexto da história bíblica: somente assim poderemos ver plenamente suas implicações missionais para a igreja. Paulo afirma que Cristo tem "o objetivo de criar em si mesmo [ ... ] um novo homem" para se tornar"um só corpo"(Ef2.15,16). Para compreender esse objetivo, temos de retornar a Jesus e a sua missão do reino nos Evangelhos. Ali vimos que a intenção de criar um novo povo era realmente central em sua obra. A formação desse povo precisa ser entendida no contexto da história bíblica: os profetas entendiam que era obra do Messias reunir e restaurar um povo que havia fracassado em seu chamado de ser luz para as nações; a esse Israel verdadeiro e escatológico os gentios seriam acrescentados. E Jesus realizou exatamente essa tarefa. Por meio de sua obra, especialmente sua morte e ressurreição, seu propósito de criar uma nova humanidade e de reconciliar judeus e gentios em um só corpo foi atingido. Ele agora está vivo para dar a eles sua própria vida por meio do Espírito para que possam dar continuidade à missão de Jesus no mundo. Essa narrativa bíblica fornece o contexto no qual podemos compreender o verdadeiro significado do "corpo de Cristo": o propósito de criar um povo missional que encarne a vida de Jesus em favor do mundo. "Esse é, portanto, o significado básico da equiparação: 'A Igreja é o corpo de Cristo'. A Igreja é a manifestação do Cristo ressurreto sobre a terra". 60 A igreja como o templo do Espírito Santo A identidade e a natureza do povo escatológico de Deus são vistas em seu relacionamento não apenas com Cristo, mas também com o Espírito. Hendrikus Berkhof faz a audaciosa afirmação de que não podemos compreender o ensino multiforme 60 M. Barth, Broken Wall, 116.
21 0 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA e diversificado das Escrituras sobre o Espírito a não ser que compreendamos sua obra no contexto de missão.61 Nos relatos da ressurreição (Mt 28.19,20; Lc 24.49; Jo 20.21,22; At 1.8), o Espírito é prometido no contexto de missão. Visto que o poderoso ato divino de salvação foi realizado por meio de Cristo, essa notícia deve ser espalhada desse Um (Jesus) para os muitos (toda a humanidade), do centro (Jerusalém) para os confins da terra, e do centro da história (os eventos da cruz e da ressurreição) para a consumação da história (a volta de Jesus). No entanto, missão não é apenas o processo pelo qual os feitos de Deus são propagados; antes, a própria missão é um dos feitos poderosos de Deus, a atividade divina culminante por meio da qual todos os atos poderosos precedentes são revelados e pessoas são incorporadas neles. É o trabalho do Espírito fazer exatamente isso; todas as outras ações do Espírito registradas no Novo Testamento estão contidas nesse trabalho. Há dois aspectos importantes no relacionamento entre o Espírito e a igreja aqui: a igreja é tanto um instrumento da missão do Espírito como o resultado provisório dessa missão. A igreja é o local ou locus onde o Espírito desenvolve a salvação realizada por Jesus, e também o meio ou canal pelo qual essa salvação se move para outros. Ambos os aspectos desse relacionamento são essenciais. Se pensarmos na igreja apenas como o lugar em que o Espírito age, correremos o perigo do narcisismo e da introversão eclesiásticos. 62 Se dermos atenção exclusiva à igreja como um instrumento da obra do Espírito, correremos o perigo de abraçar um ativismo que está alienado do próprio evangelho.63 O principal problema em toda a história da igreja tem sido a igreja pensar em si mesma somente como o lugar em que o Espírito de Deus age para conceder a salvação como um presente em Cristo. Isso foi enfatizado de duas maneiras em diversas tradições eclesiásticas. A primeira é a ênfase na obra do Espírito na instituição. Igrejas como a Católica Romana, a Anglicana e a Ortodoxa Oriental realçaram a obra do Espírito por meio das estruturas, da ordem e do ministério da igreja para dar suporte à salvação. Nas igrejas reformadas, evangelicais e pentecostais, a obra do Espírito para desenvolver e criar comunidade - uma vida de amor, a vida do corpo de "uns aos outros" cultivada pelo exercício mútuo dos dons - tem 61 Hendrikus Berkhof, lhe D oct1·ine of the Holy Spirit (Atlanta: John Knox Press, 1964), 30-41. A seção a seguir deve-se a esse livro. 62 Bosch alerta sobre esse perigo nas eclesiologias da Reforma de Lutero e de Calvino (Transforming Mission, 248-49). 63 Esse é o perigo encontrado em Johannes Hoekendijk, The Chw·ch Inside Out, trad. Isaac C. Rottenberg (Philadelphia: Westminster, 1964); Konrad Kaiser, Ecumenism in Transition: A Paradigm Shifi in the E cumenical Nlovement (Geneva: World Council of Churches Publications, 1991). Ver Michael W Goheen, "The Future of Mission in the World Council of Churches: The Dialogue bctwecn Lesslie Newbigin and Konrad Kaiser", M ission Studies 21, n. 1 (2004): 97-111.
IMAGENS DA IGREJA M/55/0NAL NO NOVO TESTAM ENTO 211 recebido atenção especial. Essas diferentes ênfases produziram eclesiologias em tensão entre si. É certo que nas Escrituras a obra do Espírito é associada frequentemente com a instituição da igreja. O Espírito atua por meio da proclamação da Palavra (1Co 2), da Ceia do Senhor (1Co 12.13), do batismo (At 2.38), da liderança e do ministério (Ef 4.11,12), da imposição de mãos (At 8.17) e da disciplina eclesiástica (Jo 20.22,23). Por todos esses meios, o Espírito nos capacita a ter um encontro com o Deus vivo e experimentar a sua salvação. O espírito anti-institucional e o individualismo de grande parte do evangelicalismo norte-americano (incluindo algumas publicações sobre a igreja "missional") negligenciam essa importante linha de pensamento das Escrituras, considerando "o Espírito como não tendo uma conexão genuína com formas e instituições, como um poder invisível e imaterial que passa do coração de Deus para o coração do indivíduo". As Escrituras nos mostram que "o Espírito também precisa de formas e ações visíveis". 64 Além disso, a ação do Espírito também está conectada com a vida comunitária da igreja. O Espírito age produzindo amor, comunhão, paz, alegria e justiça (Rm 8; 14.17; Gl5.22). Ele atua fazendo com que as várias partes se tornem realmente membros uns dos outros (Rm 12.3-8). Ele distribui dons a cada um, para serem usados no desenvolvimento de todos (1Co 12-14). Portanto, o Espírito está em ação na igreja como um povo reunido. Entretanto (como nos faz lembrar Berkhof), para entender apropriadamente essas dimensões institucionais e comunitárias da igreja, temos de dirigir nosso olhar para trás e para frente . Precisamos primeiro olhar em retrospectiva para o ponto de início cristológico-escatológico. Isto é, o Espírito flui como um dom escatológico do Jesus crucificado e ressurreto, que capacita pessoas a participar da vida do reino. Também temos de olhar para frente para aqueles que ainda não participam dessa salvação. Isto é, a vida da igreja deve estar orientada para o mundo incrédulo, que ainda precisa conhecer a salvação realizada em Jesus Cristo. O Espírito é Aquele que se move de Cristo para todos, mas esse percurso inclui a igreja como instituição e comunidade. Berkhof sugere a imagem de uma corrente de quatro elos. 65 O primeiro elo é Jesus Cristo e a salvação do reino realizada por ele em sua morte e ressurreição. O segundo é a instituição da igreja, pela qual Jesus Cristo é proclamado nos diversos ministérios da igreja e pelos quais o povo de Deus é incorporado nessa obra e experimenta a salvação escatológica. O terceiro elo é a vida vibrante da comunidade, que dá evidências dessa salvação por meio da obra do Espírito. O quarto é o mundo incrédulo, o qual então vê e ouve as boas-novas 6-1 Berkhof, D octrine of the H oly Spit·it, 61. 65 Ibid., 63.
212 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA na igreja. Assim, a corrente conecta (1) a salvação cristológica-escatológica com (2) a igreja como instituição com (3) a igreja como comunidade com (4) o mundo incrédulo. "Na Palavra, nos sacramentos e no ministério, Cristo se torna presente para a comunidade de sua igreja. Essa comunidade por sua vez é chamada para ser o meio pelo qual Cristo se faz presente para o mundo". 5 6 Desse modo, a igreja se torna o elo entre as boas-novas de Jesus Cristo e o mundo incrédulo. Mas é a obra do Espírito na instituição e na comunidade da igreja (como lugar e instrumento) e por meio dela que traz as boas-novas ao mundo. Há alguma imagem que dê vida a essa reflexão sistemática sobre o ensino bíblico acerca do Espírito, da igreja e da missão? Ou deveríamos dar atenção à advertência de Berkhof de que não devemos "colocar a obra do Espírito na igreja debaixo de um único título" ou imagem?67 Certamente há esse perigo. Entretanto, entre as diversas imagens eclesiais no Novo Testamento que destacam a obra do Espírito, "o templo do Espírito Santo" oferece uma que conecta essas dimensões da eclesiologia missional. Qyando os autores do Novo Testamento empregam a imagem do templo para descrever a igreja, eles recorrem a uma ilustração com uma rica história. A igreja primitiva não era a única comunidade que acreditava ser o verdadeiro Israel e se referia a si mesma como o verdadeiro templo escatológico prometido pelos profetas. O templo era um símbolo que havia sido moldado pela história do Antigo Testamento, e para entender o que significava para a igreja ser o templo do Espírito Santo, precisamos examinar brevemente os destaques dessa história. O trabalho minucioso e provocador de Gregory Beale sobre o templo e a missão da igreja é bastante útil aqui. 68 O templo de Israel no Antigo Testamento aponta em retrospectiva para o jardim do Éden, nos primeiros capítulos da história bíblica (Gn 1-2), e para frente para a nova criação, nos últimos capítulos (Ap 21-22). O templo de Israel é construído para refletir a importância e o significado do jardim do Éden. O Éden é o lugar ímpar da presença de Deus onde Adão e Eva desfrutam da comunhão íntima com Deus, e Adão é retratado como o primeiro sacerdote-rei incumbido de servir e guardar o santuário de Deus. Ele recebe a incumbência de expandir os limites desse santuário da presença de Deus para as regiões mais distantes. Assim, desde o início o templo-jardim tem por objetivo a expansão para que cada vez 66 lbid., 64. 67 lbid., 51. 68 Gregory K. Beale, 7he Temple and the Church's Mission: A Biblica/7heology oJ the Dwelling Place oJ God (Downers Grave, IL: InterVarsity, 2004); Beale, "Eden, the Temple, and the Church's Mission in the N ew Creation" ,joumal of Evangelica/7heological Studies 48, n. 1 (March 2005): 5-31.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 213 mais da criação seja enchida com a presença e o conhecimento de Deus. O fracasso de Adão por não realizar sua tarefa leva à sua expulsão do jardim. Entretanto, Deus dá início à longa jornada da redenção para restaurar a criação, e nos últimos capítulos da Bíblia vemos um novo templo que literalmente abarca toda a terra. O retrato desse templo do fim dos tempos é pintado com cores tiradas dos primeiros capítulos de Gênesis. O propósito de Deus claramente é cumprir sua intenção original de encher a terra com a sua presença: "Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus" (Ap 21.3, NVI). A história entre Gênesis 1-2 (o "templo" criado) e Apocalipse 21-22 (o templo recuperado) é de missão. Deus estabelece o seu templo em meio a um povo específico e convida Israel para desfrutar uma vez mais de sua presença salvadora. De fato, é isso que precisamente os distingue como um povo (Êx 33.16). Mas a restauração da presença amorosa e poderosa de Deus juntamente com o desfrutar da bênção original da criação não devem ser guardados por Israel para si. Israel deve ser mediador dessa bênção em toda a terra. Israel deve ser a humanidade restaurada, um novo Adão corporativo, "instrumentos de Deus por meio dos quais Deus [fará com que] a luz de sua presença brilhe nos corações em trevas das pessoas para que elas também possam se tornar parte da crescente expansão do espaço sagrado do templo e do reino. Isso nada mais é do que desempenhar o papel de 'testemunha' de Deus em toda a terra". 69 O símbolo do templo falava não somente da presença de Deus no meio do povo, mas também de "um mandato divino para alargar as fronteiras do templo até estabelecer os seus limites ao redor de toda a terra". 70 Não nos surpreende ver a ira de Jesus quando o templo de sua época se torna um símbolo de privilégio etnocêntrico que exclui as nações -justamente o contrário do que ele deveria ser (Me 11.17). A missão de Israel permanece centrípeta; ao encarnar a vida da nova humanidade, as nações verão que Deus habita no meio de Israel (Dt 4.5-8). A ilustração parece ser de círculos concêntricos crescentes ao redor do templo, de Jerusalém, de Israel, até abarcar as nações, à medida que as fronteiras do conhecimento de Deus são progressivamente expandidas. Entretanto, assim como Adão, Israel fracassa por não alargar as fronteiras e "espalhar a gloriosa presença de Deus entre o restante da humanidade em trevas". 71 Assim, os profetas apontam para um dia em que isto acontecerá: o conhecimento de Deus cobrirá toda a terra como as águas cobrem o mar (Is 11.9; Hc 2.14). 69 Beale, Temple and the Church's Mission, 117, grifo do autor. 70 lbid., 123. 71 Ibid., 118.
214 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA ~ando Deus iniciar a sua restauração, ele estabelecerá um templo nos últimos dias no meio de Israel. Ele afirma a Ezequiel que colocará seu santuário e lugar de habitação entre eles, e ele será o seu Deus e eles serão o seu povo. Um filho de Davi governará sobre eles, e sua vida será moldada pela lei de Deus (Ez 37.24-27). "Assim", diz Deus, "as nações saberão que eu sou o SENHOR que santifico Israel, quando o meu santuário estiver no meio deles para sempre" (Ez 37.28). Do mesmo modo, Zacarias afirma que nos últimos dias, quando o Senhor retornar a Jerusalém, ele reconstruirá o seu templo (Zc 1.16). O povo de Israel é chamado a exultar e se alegrar, pois Deus está vindo para habitar entre eles. Uma vez mais é feita a conexão entre a presença de Deus e a vinda das nações: "Muitas nações se ajuntarão ao SENHOR e serão o meu povo; habitarei no meio de ti, e saberás que o SENHOR dos Exércitos me enviou a ti" (Zc 2.11). Mais tarde, Zacarias diz que o Senhor retornará a Sião e habitará em Jerusalém. Então muitos povos e nações poderosas virão a Jerusalém para buscar o Senhor (Zc 8.3,20-22). "Naqueles dias, dez homens de todas as línguas e nações agarrarão firmemente a barra das vestes de um judeu e dirão: 'Nós vamos com você porque ouvimos dizer que Deus está com o seu povo'" (Zc 8.23, NVI). É especialmente significativa a descrição detalhada que Ezequiel faz do templo escatológico que será edificado nos últimos dias (Ez 40-48). Portanto, Israel anseia pelos últimos dias quando a presença de Deus estará entre o seu povo de tal maneira que as nações serão atraídas a ele. Mesmo antes da vinda de Cristo, havia indícios de que esse templo do fim dos tempos poderia não ser uma estrutura arquitetônica. 72 A comunidade de essênios, que vivia no tempo de Jesus e rejeitava o templo corrupto de Israel, referia-se à sua comunidade como o templo escatológico. 73 As ações simbólicas de Jesus nos Evangelhos anunciam o juízo de Deus sobre o templo presente, e quando perguntado sobre sua autoridade para agir assim, ele responde: "Destruí este santuário, e eu o levantarei em três dias" (Jo 2.19; cf Me 14.58). Os discípulos mais tarde compreenderam que o templo ao qual ele se referia não era uma construção, mas o seu corpo. Jesus é o templo escatológico, o cumprimento da visão do profeta. Ele revela a plenitude da presença de Deus no meio de seu povo nos últimos dias. João relata que ele fez sua habitação (literalmente "tabernaculou") entre o seu 72 Beale argumenta que Ezequiel 40-48 não deve ser entendido como uma construção literal (ibid., 335-64). 73 Bertil Gartner, 1he Temple and the Community in the Qumran Sc1·o!ls and the N ew Testament: A Comparative Study in the Temple Symbolism if the Qumran Texts and the N ew Testament, Society for New Testament Studies M onograph Series 1 (Cambridge: Cambridge University Press, 1965).
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 215 povo (]o 1.14). Sua ressurreição dos mortos sinaliza a chegada dos últimos dias, e assim chegou o tempo de a presença e o conhecimento de Deus encherem a terra à medida que as nações são atraídas a um povo que experimentou a presença salvadora de Deus. Na ressurreição começa a construção do templo escatológico. A presença poderosa de Deus é manifestada no meio de seu povo. Eles - primeiro Israel e então as nações- são reunidos ao povo de Deus do fim dos tempos à medida que são incorporados na vida ressurreta de Cristo por meio do Espírito. Por isso, Tiago pode falar da reconstrução do templo prometida por Amós como a restauração de Israel e, depois disso, dos gentios (At 15.16,17; cf Am 9.11,12). 74 O novo templo da presença de Deus estabelecido em meio às nações não é um prédio; é um povo a quem foi dada a nova vida da ressurreição de Cristo ao serem enchidos com o Espírito Santo. E não devemos ignorar o significado missional da importante mudança que ocorre geograficamente após a ressurreição. Vemos aqui novamente a visão centrípeta do Antigo Testamento sendo cumprida e transformada. Não há mais um único templo manifestando a presença de Deus no meio de uma nação em uma única localidade no mundo. Agora esses templos estão sendo estabelecidos em todo o mundo, em muitas comunidades multiculturais que cumprem a intenção original divina de manifestar a sua presença por meio da vida santificada das pessoas que a elas pertencem. 75 De acordo com o propósito de expansão do sentido original do templo, os novos templos escatológicos são agora estabelecidos em cada nação a fim de que a fragrância do conhecimento de Deus possa encher toda a terra. Esse é um chamado missional e tanto. Nessa imagem, vemos a conexão entre a obra de Jesus Cristo e "as nações". Voltando à imagem de Berkhof da corrente de quatro elos, a igreja como povo conecta o que Cristo realizou com as nações, incorporando-as também na salvação de Cristo. Qyando olhamos para a imagem da igreja como templo do Espírito Santo, esse contexto bíblico deve moldar a nossa compreensão: o templo é uma imagem missional. 74 A estreita conexão entre a ressurreição de Jesus como o novo templo e o ajuntamento de seu povo como o novo templo pode ser vista na discordância sobre a referência que Tiago faz aqui. Beale, por exemplo, vê essa reconstrução da tenda caída de Davi como a ressurreição de Jesus, enquanto muitos outros (e.g., Bauckham, "James and the Gentiles [Acts 15:13-21]", in Histmy, LitemtU?·e, and Society in the Book of Acts, ed. Ben Witherington III [Cambridge: Cambridge University Press, 1996], 154- 84) a veem como a restauração de Israel e o acréscimo dos gentios. 75 A conexão entre um templo escatológico nos últimos dias e uma comunidade santa era forte nos escritos judaicos (Gartner, Temple and the Community, 1).
216 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA O templo do Espírito Santo é antes de tudo uma imagem coletiva ou comunitária. Nossa tendência lamentável de limitar essa imagem aos nosso corpo físico (outra manifestação de nosso individualismo) tem o efeito de diminuir a importância da comunidade cristã. Somente uma vez o termo "templo" se refere a (habitação de) uma pessoa individualmente (1Co 6.19); em todas as outras partes é uma imagem de comunidade. A imagem da igreja como templo do Espírito é bastante difundida no Novo Testamento (1Co 3.16,17; 2Co 6.16; Ef 2.20-22; 1Pe 2.5; 4.17; Ap 3.12; 11.1,2). Além disso, a frequente metáfora arquitetônica de "edificar" a comunidade cristã usada no Novo Testamento pressupõe que a igreja é um edifício (e.g., Rm 14.19; Jd 20). 76 É precisamente na metáfora de edificar "o templo do Espírito" que vemos o verdadeiro sentido dessa imagem no Novo Testamento. É a obra do Espírito Santo, terceira pessoa da Trindade, edificar o seu templo. A obra escatológica divina de edificar é dupla: primeiro, ele traz os de fora para dentro, acrescentando "pedras" à construção (Rm 15.20,21; 1Pe 2.5); em seguida, ele continua a edificar e fortalecer a comunidade cristã para que possa viver e encarnar gradativamente a salvação que foi realizada (Ef 4.11-16; 1Ts 5.11). Esse "edificar" é realizado sobre Cristo, cujo evangelho é o alicerce que foi lançado pelos apóstolos e pelos profetas (1Co 3.10-15; Ef2.19-22). A edificação pode ocorrer somente quando é alicerçada diretamente sobre o evangelho de Jesus Cristo: estruturas construídas sobre qualquer outro alicerce no final serão queimadas. Deus realiza essa edificação por meio dos vários membros da igreja. Ele os equipa com uma variedade de dons e habilidades para que possam servir uns aos outros (Rm 12.3-8; 1Co 12-14). É especialmente significativo que Deus conceda algumas pessoas, capacitadas com dons, para tornar a Palavra de Deus conhecida a fim de que toda a comunidade seja edificada e equipada para uma vida de serviço (Ef 4.11,12). Consequentemente, essa edificação somente pode ocorrer quando o povo de Deus se reúne e exerce os seus dons em comunidade (1Co 14.12; Hb 10.24,25). Ridderbos observa a orientação missional apropriada dessa imagem ao afirmar que essa edificação "é dirigida para a correta manifestação coletiva da igreja no mundo". 77 O templo e a imagem de edificação não devem ser usados para justificar a introversão da igreja preocupada somente em desfrutar do dom da salvação. Nossa edificação como templo do Espírito Santo é em favor do mundo. A imagem do templo significa a expansão e o aumento do conhecimento da presença de Deus em todo o mundo. Qyando investigamos os muitos textos do Novo Testamento acerca do templo do Espírito Santo que falam da vida institucional e comunitária da igreja, 76 Bauckham, "]ames and Gentiles", 166 n.33; Ridderbos, Paul, 429-32. 77 Ridderbos, Paul, 432.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 217 precisamos vê-los como elos em uma corrente que se estende de Cristo para o mundo. Talvez a igreja de nossos dias necessite que Cristo a purifique e reoriente sua visão novamente para as nações: "Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações?" (Me 11.17). Beale encerra seu artigo com esta exortação: "Nossa tarejà como Igreja é ser o templo de Deus, tão cheio de sua presença que espalhemos e enchamos a terra com aquela gloriosa presença até que Deus finalmente realize de forma plena o seu propósito no fim dos tempos! Essa é a nossa missão comum e unificada. Qye possamos nos unir em torno desse propósito". 78 A imagem missional da diáspora Qyando Paulo se dirige à igreja de Corinto com as palavras "À igreja [ekklesia] de Deus em Corinto" (1Co 1.2), está dizendo algo importante a respeito de sua identidade. A palavra ekklesia precisa ser entendida não somente como base no pano de fundo da comunidade do Antigo Testamento, mas também em termos de seu significado no Império Romano. O significado original de ekklesia era o de uma assembleia pública para a qual todos os cidadãos eram convocados pelo oficial da cidade para resolver os assuntos públicos relacionados à cidade. Paulo qualifica o significado de ekklesia de duas maneiras: refere-se a Deus e ao lugar em que ela se encontra. O sentido da primeira qualificação é que Deus (não o oficial da cidade) é quem está convocando o povo para uma assembleia pública: essa é a assembleia de Deus. Ekklesia também é qualificada pela menção ao lugar em que ela se encontra: nesse caso, Corinto. Deus convoca o seu povo para ser uma comunidade distinguível estabelecida em todas as cidades do mundo - Éfeso, Roma, Corinto, e assim por diante. Como o povo escatológico de Deus, eles são os primeiros frutos de uma nova humanidade em cada lugar e em favor de cada lugar. Duas observações importantes devem ser feitas a respeito dessa identidade. A primeira: a igreja é uma comunidade pública. Ekklesia era a designação que os primeiros cristãos escolheram para si mesmos, embora seus inimigos se referissem a eles como thiasos e heranos, estigmatizando a igreja como uma comunidade religiosa privada que oferecia salvação futura e de outro mundo para seus membros. (Esse tipo de comunidade religiosa recebia a proteção da lei romana porque não ameaçava a doutrina pública do império.) Porém, a igreja recusou-se a aceitar essa designação de fraternidade religiosa privada. Ao contrário, enxergava-se como a vanguarda de uma nova humanidade que um dia encheria toda a terra. Seu evangelho era verdade pública, por isso desafiava todas as lealdades concorrentes, incluindo a lealdade à doutrina pública do Império Romano. Portanto, "a igreja 78 Beale, "Eden, the Temple, and the Church's Mission'', 31.
218 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLI A primitiva não se enxergava como uma sociedade religiosa privada que competia com outras para oferecer salvação pessoal a seus membros; ela se considerava um movimento lançado na vida pública do mundo, desafiando o cultus publicus do Império, reivindicando a lealdade de todos sem exceção". 79 Como comunidade, esses cristãos rejeitaram as pretensões idólatras de sua cultura e viveram sua vida integralmente- incluindo sua vida pública- debaixo da autoridade de outro Senhor. A propósito, é importante destacar a melancólica observação de Newbigin de que a igreja ocidental de hoje muitas vezes se tornou o que a igreja primitiva se recusava a ser: um thiasos ou um heranos. A fé cristã foi "banida da esfera pública" e "relegada à esfera privada". Assim, o evangelho "se tornou uma opção particular. A Igreja já não era a ecclesia tou 7heou, mas uma fraternidade religiosa para aqueles que desejassem fazer uso de seus serviços".80 A segunda observação: a igreja agora está instituída no contexto de um ambiente estranho e às vezes hostil, no qual as pessoas assumem outros compromissos incompatíveis com o evangelho. Por exemplo, a ekklesia dos coríntios está estabelecida na cidade grega de Corinto. Isso está em contraste com o povo de Deus do Antigo Testamento, que havia sido uma unidade sociopolítica. Toda a vida deles - pessoal, familiar, política, econômica, judicial, social etc. - havia sido moldada pela revelação divina. Para o povo de Deus do Antigo Testamento, o perigo da idolatria veio sobretudo de fora, das nações ao seu redor. Agora o povo de Deus do Novo Testamento está plantado exatamente no meio dessas nações e precisa viver sua vida nesse contexto cultural como uma comunidade minoritária apátrida e multiétnica. Essa nova localização missional suscita na igreja a pergunta de como deve se relacionar com seus vizinhos nesse novo contexto cultural. Para a igreja, o que está incluído nesse encontro missionário com a cultura? A maneira que os autores do Novo Testamento descrevem a sociedade humana e sua cultura à parte de Cristo destaca claramente a dificuldade de se viver no mundo. No Novo Testamento, as duas palavras gregas traduzidas por "mundo" (cosmos no sentido espacial e aeon no sentido temporal) são frequentemente usadas para se referir à cultura humana, à "totalidade da vida não redimida dominada pelo pecado e fora de Cristo". 81 A era presente é descrita como "má" (Gl1.4), e o "caminho deste mundo" é governado pelos poderes das trevas (Ef 2.2). Paulo contrasta esse "domínio das trevas" com o reino do Filho de Deus (Cl 1.13). Satanás e seus poderes diabólicos exercem tamanha influência sobre a vida humana que Satanás pode ser chamado de "o deus deste século" (2Co 4.4) e "o príncipe 79 Lesslie Newbigin, Sign of the Kingdom (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), 46. 80 Lesslie Newbigin, "The Basis and Forms of Unity", M id-Sf1·eam 23 (1984): 8. 81 Ridderbos, Paul, 91.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 219 deste mundo"(Jo 12.31); "o mundo todo está sob o poder do Maligno"(1Jo 5.19, NVI). O Novo Testamento vê o mundo como "uma esfera já afetada pelas trevas e ocupada pelos poderes do mal, e que exerce sua influência destrutiva sobre o homem". 82 Os crentes devem ser resgatados desse domínio de trevas (Cl1.13) e da presente era perversa (Gl1.4, NVI). Depois de serem resgatados, eles não devem amar o mundo ou qualquer coisa que há no mundo (1Jo 2.15), nem devem se amoldar ao padrão deste mundo (Rm 12.2). Qyando Paulo exorta a igreja a não se amoldar ao padrão do mundo, está se referindo à cultura, "que não significa apenas arte, literatura e música, mas toda a maneira que o nosso mundo é organizado. Ou seja, nossa língua, nossos padrões de pensamento, nossos costumes, nossas tradições, nossos sistemas públicos de ordem política, econômica, judicial e administrativa - toda a quantidade de coisas que simplesmente tomamos como óbvias e nunca questionamos [ ... ] um mundo organizado em torno de outro centro que não o criad01J'. 83 A questão de como viver no "mundo" é urgente: se o mundo está organizado em torno de outro centro - um ídolo ou ídolos - e está, portanto, sob o domínio do Maligno, como pode o povo de Deus viver nele? Não podemos nos isolar da língua, dos padrões de pensamento, dos costumes, das tradições e dos sistemas econômicos e políticos de nossa cultura anfitriã. No entanto, somos chamados a ser um povo de contraste no mundo, um templo santo em meio à idolatria e luz nas trevas de uma geração corrupta e perversa (2Co 6.14-18; Fp 2.15). Essa é a nova situação do povo de Deus do Novo Testamento. Há alguma imagem da igreja que nos possibilite entender nossa identidade missional nesse contexto social tão perigoso? Pedro se baseia nas imagens do Exílio e da dispersão do Antigo Testamento, de forasteiros e peregrinos em territórios estrangeiros, para capacitar a igreja a compreender sua identidade em seu novo contexto. O tema principal da Epístola de Pedro é como a igreja cristã pode viver fielmente em um ambiente não cristão.84 A experiência do povo de Deus do Antigo Testamento, vivendo como estrangeiros no Exílio, fornece uma imagem do que poderia significar para o povo de Deus do Novo Testamento viver em um ambiente social estranho e frequentemente hostil. Talvez a imagem de 82 Schnackenburg, Church in the New Testament, 177. 83 Lesslie Newbigin, "Renewal in Mind", GEAR 29 (1983): 4, grifo do autor. 84 Leonhard Goppelt, 7heology ofthe New Testament, v. 2: lhe Variety and Unity oftheApostolic Witness to Ch1·ist, trad. John Alsup (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), 164 ). [Edição em português: Teologia do Novo Testamento, 3. ed., trad. Martin Dreher; Ilson Kayser, São Paulo, Teológica, 2002]; Miroslav Volf, "Soft Difference: Theological Reflections on the Relation between Church and Culture in 1 Peter", Ex Auditu lO (1994): 16; Johannes Nissen, New Testament and Mission: Hist01·ical and Henneneutical Perspectives, 3. ed. (New York: Peter Lang, 2004), 144.
220 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA estrangeiros e exilados seja a "metáfora fundamental"85 ou a "metáfora chave"86 na epístola. De todo modo, é uma ilustração importante que ajuda a igreja a compreender sua responsabilidade missional na sociedade. Os judeus se consideravam um povo unificado e uma comunidade distinta não apenas etnicamente, mas também porque estavam interligados por meio da eleição, da aliança e do relacionamento com Deus. Entretanto, como um povo no exílio, "uma minoria expatriada no contexto de um império monumental",87 experimentaram a vida como estrangeiros e peregrinos. Durante o tempo em que a cultura anfitriã era seu novo lar, ela lhes apresentava uma tentação perigosa de abandonar sua identidade singular e acomodar sua vida aos costumes estrangeiros de seus conquistadores. Sua dificuldade era como estar naquela cultura sem ser parte dela - precisamente o mesmo problema que o povo escatológico de Deus enfrenta. A igreja cristã primitiva também era um povo unificado com uma base religiosa comum, e eles também foram dispersos por todo o mundo conhecido da época. Assim as imagens de dispersão, exílio, estrangeiros e peregrinos forneceram aos primeiros cristãos um modelo para viver no Império Romano. Pedro se dirige à igreja como "peregrinos dispersos" nas províncias [do Império Romano] (1Pe 1.1, NVI), ou como o traduz Leonhard Goppelt: "os exilados eleitos da dispersão". 88 Mais adiante, Pedro se refere à igreja como peregrinos e estrangeiros (1Pe 1.17; 2.11). Essas imagens destacam a distância que o povo de Deus devia manter da cosmovisão e do modo de vida de seus contemporâneos. Pedro descreve o modo de vida dos "pagãos" em termos não muito lisonjeiros e admoesta a igreja a viver "para a vontade de Deus" (1Pe 4.1-3). O modo de vida de forasteiros e estrangeiros deve ser diferente, uma maneira de viver alternativa em contraste com os que ainda vivem na "era presente". A distância cultural entre a igreja e seus vizinhos é o resultado inevitável de a igreja estar "em Cristo" (1Pe 3.16; 5.10,14) e ter sido gerada para uma viva esperança por meio da ressurreição de Jesus (1Pe 1.3). A alienação e a separação da igreja em relação à cultura ao seu redor ocorrem devido ao novo nascimento dos cristãos no novo mundo 85Troy W. Martin, Metaphor and Composition in 1 Peter (Atlanta: Scholars Press, 1990). Joel Green acredita que a afirmação de Martin é "exagerada" ("Living as Exiles: The Church in Diaspora in 1 Peter", in Holiness and Ecclesiology in the N ew Testament, ed. Kent E. Brower; Andy Johnson [Grand Rapids: Eerdmans, 2007], 314). 86 Reinhard Feldmeier, "Die Christen als Fremde", em seu D ie Ch1·isten ais Fremde: D ie Metapher der Fremde in derAntiken Welt, in U1·ch1·istentum zmd im 1. Petrusbriif(Tübingen: Mohr, 1992), citado in Volf, "Soft Difference", 16. 87 D aniel L. Smith-Christopher, A Biblical Theology of Exile (Minneapolis: Fortress Press, 2002), 144. 88 Goppelt, 7heology ofthe New Testament, 2:165 .
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 22 1 escatológico inaugurado pela cruz e pela ressurreição (1Pe 1.3,18,19). Eles vivem uma fé diferente e estão baseados numa série de compromissos diferentes: "As comunidades dos que são nascidos de novo e seguem a Cristo vivem um modo de vida alternativo dentro das instituições políticas, étnicas, religiosas e culturais da sociedade em geral". 89 Essa distância é uma distância eclesiástica. O novo nascimento não é um processo individual, antes assinala a incorporação em uma comunidade. Isso é evidente em 1Pedro nas numerosas designações coletivas do povo de Deus, bem como na maneira que o novo nascimento está conectado em 1Pedro com o batismo. "O batismo é uma incorporação no corpo de Cristo, uma entrada para a comunidade cristã. O batismo não fará o distanciamento para o batizado, mas lhe dirá que a distância cristã genuína tem uma forma eclesiástica. Ela é vivida em uma comunidade que existe como 'estranhos' em um contexto social maior [ .. .].A distância do contexto social em 1Pedro não é somente escatológica; ela é essencialmente eclesiológica". 90 Embora a igreja esteja em desacordo com seu contexto cultural, ela também é chamada a estar em casa ali, a se envolver nas instituições culturais de sua sociedade. 91 Há sempre dois lados no engajamento cultural: negativamente, a igreja deve se opor à cultura, e positivamente, deve ser solidária como parte de sua cultura. Como forasteiros, os cristãos não devem se isolar da sociedade em um gueto; em vez disso, como estrangeiros que se distanciaram de seu modo de vida antigo, eles são "obrigados a se envolver nas instituições existentes". Pedro afirma: "Engajem-se nessas respectivas instituições" (1Pe 2.13, tradução de Goppelt), e segue ensinando- -lhes como viver no matrimônio, na família, no trabalho e na ordem política.92 Eles são capazes de assumir essa postura positiva porque essas instituições são parte da boa ordem criada. Albert Wolters comenta: "As palavras do apóstolo Pedro ecoam o ensino de Paulo de forma ainda mais clara: 'Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens' (1Pe 2.13 [NVI]); as palavras em itálico traduzem a palavra grega ktisis, a palavra bíblica comum para 'criação' ou 'criatura'. Parece evidente, portanto, que a autoridade civil pertence 89 Volf, "Soft Difference", 20. 90 lbid., 19. 91 Para uma discussão perceptiva desses textos em 1Pedro tendo em vista a situação contemporânea, ver Lesslie Newbigin, "Bible Studies: Four Talks on 1 Peter by Bishop Newbigin", in /fé lfére Brought Together, ed. D avid M. Taylor (Sydney: Australian Council for World Council of Churches, 1960), 93-123. 92 Goppelt, 1heology ofthe N ew Testament, 2:168.
222 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA à ordem criada; o estado é instituído com base em uma ordenança de Deus".93 Desse modo, a igreja deve estar envolvida na cultura humana porque a cultura reflete a própria ordem da criação. Porém, a igreja deve também manter uma distância crítica da cultura humana, porque toda instituição humana foi distorcida pelo pecado. Essa perspectiva do envolvimento cristão e da participação cristã na vida pública da cultura contraria a ideia generalizada de que a igreja primitiva era uma comunidade discreta e até se mantinha distante da vida pública de um mundo hostil, que a marginalidade social e a alienação caracterizavam seu relacionamento com a vida pública. 94 Porém, como lembra Bruce Winter, o paradigma para o papel dos cristãos na vida pública da cultura precisa ser encontrado em Jeremias 29.7, que insiste com a comunidade no Exílio: "Trabalhem para o bem da cidade" (NTLH).95 ''A ética social é definida em lPedro como 'praticar as boas obras' em todas as esferas da vida, e esse era o chamado de todo cristão e um tema central (2.11ss.)."96 Portanto, temos a obrigação de buscar o bem-estar de nosso contexto cultural, ao nos envolvermos nas diversas instituições culturais e sociais de nossa localidade, à medida que participamos de nosso dever cultural. Isso significa que o testemunho da igreja não se restringirá à reunião da comunidade. Como argumenta Newbigin, a igreja deve testemunhar do senhorio de Cristo estando seus membros espalhados ou reunidos: ''A verdade, é claro, é que a Igreja existe primordialmente de segunda a sábado, em todos os seus membros, espalhados pelos campos e lares, escritórios e fábricas, levando o sacerdócio real de Cristo a cada canto deste mundo. No dia do Senhor ela se recolhe em si mesma para renovar sua existência no próprio Senhor". 97 Contudo, o envolvimento e a participação da igreja do Novo Testamento em sua cultura não significavam a acomodação e a conformidade com as instituições sociais idólatras do império. Os cristãos deveriam viver como participantes críticos. É verdade que "a vida cristã terá de ser vivida dentro da cultura", mas pelo fato de o novo mundo de Deus em Cristo ter irrompido na história, a vida cristã "concentra seus esforços na reforma e na transformação de suas estruturas, jamais 93 Albert M. Wolters, Creation Regained· Bib!ica! Basics for a Reformationa! Worldview, 2. ed., com um pós-escrito de coautoria com Michael W. Goheen (Grand Rapids: Eerdmans, 2005), 25-26. 94 Winter, Seek the We!fare of the City, 13-14. 95 Ibid., 15-17. 96 Ibid., 13. 97 Newbigin, "FourTalks on 1 Peter", 96-97.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 223 na aceitação acrítica delas". 98 Visto que as instituições sociais têm sua origem essencialmente na criação, Pedro pode instigar a igreja a se envolver; porém, como as instituições sociais também estão debaixo do poder do Maligno, a comunidade cristã é "também obrigada [ ... ] a ter uma conduta responsável e crítica dentro delas [ ... ].'Boa conduta' significa para 1Pedro não apenas envolver-se nas instituições existentes, mas também conduzir-se dentro delas de modo responsável e crítico". 99 A forma como Pedro e Paulo usam as listas de condutas domésticas que eram comuns no mundo romano daquela época fornece um modelo útil da maneira que a igreja é chamada a viver inserida nas instituições de um modo crítico e transformador. 100 Uma comparação das listas de condutas domésticas no Império Romano com as do Novo Testamento revela que elas têm muito em comum com relação aos padrões de conduta social. Entretanto, nas mãos de Paulo e de Pedro essas listas são alteradas e transformadas pelo evangelho. 101 Dean Flemming fala de um "engajamento de transformação": "Os cristãos deveriam viver de acordo com o seu chamado dentro das estruturas existentes da sociedade greco-romana ao mesmo tempo que manifestavam visível diferença interna". 102 Essa vida dentro das instituições da sociedade em favor do bem-estar da cidade tem uma orientação missional clara em 1Pedro. Isso se evidencia especialmente na maneira como a primeira parte da epístola é desenvolvida até a declaração em 1Pedro 2.9,10, e na maneira que a segunda parte se desenvolve a partir desta. 103 Vimos antes, neste capítulo, a natureza decisiva das palavras de Pedro: ele evoca a declaração fundamental da identidade missional de Israel em Êxodo 19.3-6 e transfere aqueles títulos para a igreja. Eles também são um povo escolhido, um sacerdócio real e uma nação santa. Logo em seguida, Pedro articula 98 Philip H. Towner, "Romans 13:1-7 and Paul's Missiological Perspective: A Call to Política! Qyíetism o r Transformation?" in R omans and the People of God: Essays in Hono1· of G01·don D. Fee on the Occasion of H is 65th Birthday, ed. S. K. Soderlund; N. T. Wright (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), 159. 99 Goppelt, 7heology of the New Testament, 2:171. 100 Dean Flemming, Contextualization in the New Testament: Pattems for 7heology and Mission (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2005), 146-50. Ver também Wolters; Goheen, Creation R egained, 137-39. 101 Richard Hays afirma que "as estruturas de autoridade convencionais da vida doméstica antiga são [ ... ] subvertidas mesmo quando são deixadas em seu lugar" (7he Moral Vision of the New Testament: Commzmity, C1·o.rs, N ew Creation: A Contempormy Introduction to New Testament Ethics [San Francisco: HarperCollins, 1996], 64). 102 Flemming, Contextualization in the New Testament, 148-49. 103 Bailey Wells, God's Holy People, 211-13.
224 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA sua estratégia para que esse povo missional coloque em prática o seu chamado. Eles devem viver como peregrinos e estrangeiros. Eles devem viver uma vida tão correta em seu contexto pagão que seus contemporâneos incrédulos vejam as suas boas obras e glorifiquem a Deus. Pedro continua essa exposição com uma série de exortações sobre como viver esse chamado nas diversas alternativas da vida. A orientação missional permanece vital a todas elas. Pedro sempre se preocupa com o impacto que o comportamento cristão na vida pública pode causar sobre o mundo incrédulo. Goppelt o expressa bem, quando diz: "Os cristãos deveriam testemunhar do evangelho nas instituições da sociedade buscando salvar todas as pessoas por meio de uma conduta cristã [ .. .]. Os cristãos deveriam permanecer entre as pessoas, como o seu Senhor havia feito, e também por meio de sua conduta na política, na economia e no casamento mostrar que Deus desejava conduzir todos a uma existência humana plena. A responsabilidade ética e social motivada pelo amor de Deus fazia parte da comissão missionária". 104 Assim, quando Pedro exorta a igreja a ser fiel nas diversas áreas da vida, ele mantém a missão - tanto na "estratégia moral como no impacto potencial"- claramente em foco. 105 Se a igreja for fiel em sua obediência ao chamado de Pedro, ela vai sofrer (1Pe 2.19-25; 3.14-18). Esse tema permeia a carta. "Surgiam conflitos porque os cristãos nas instituições sempre se comportavam impelidos por outros motivos e norteados por outros critérios, e consequentemente sempre de maneira diferente da esperada por seus parceiros não cristãos."106 Na cultura helenística, viver juntos em paz e harmonia era um valor supremo. Era possível acomodar os judeus, porque suas diferenças provinham de sua identidade étnica. No entanto, os cristãos não eram membros de um povo estrangeiro, mas concidadãos, vizinhos e parentes. 107 Por esse motivo, Pedro afirma: "Eles acham estranho que não vos juntais a eles na mesma carreira desenfreada de licenciosidade e vos difamam" (lPe 4.4). O sofrimento vem, portanto, quando a igreja se recusa a viver em conformidade com a fé pública dominante de sua cultura. 108 Como Newbigin observa em seu estudo acerca de 1Pedro: "Se levarmos a sério o nosso dever como servos de Deus dentro das instituições da sociedade humana, encontraremos muitas oportunidades para 104 Goppelt, 7heo!ogy oJ the N ew Testament, 2:16 7. 105 Scot McKnight, "Alliens and Exiles: Social Location and Christian Vocation'', Wo1·d & Wor!d 24, n . 4 (Fall2004): 384. 106 Goppelt, 7heo!ogy ofthe New Testament, 2:174. 107 Ibid., 2:163. 108 Ver Michael W. Goheen; Craig G. Bartholomew, Living at the Crossroads: A n Int1·oduction to Ch1·istian Wor!dview (Grand Rapids: Baker Academic, 2008), 130-32, 142-43.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 225 aprender o que significa sofrer por causa da justiça, e aprenderemos que sofrer por causa da justiça é algo realmente abençoador". 109 Goppelt chama atenção para dois modelos de sofrimento no Antigo Testamento:Jó e Daniel. Ele diz que "a teologia do sofrimento de !Pedro tinha em mente exatamente o sofrimento cujo exemplo no Antigo Testamento era Daniel e não Jó". 110 Na literatura judaica daquela época, o sofrimento do povo de Deus nas mãos dos pagãos é um tema comum. Ele está arraigado no famoso capítulo 7 de Daniel, no qual está escrito que o quarto reino, o grande animal (associado com Roma), "falará palavras contra o Altíssimo e oprimirá os santos do Altíssimo" (Dn 7.25). Enquanto a história de Jó fala com eloquência a respeito da dor que resulta de se viver em um mundo caído, o sofrimento de Daniel é de outro tipo: é o sofrimento de alguém que vive em uma cultura hostil e pagã, participando de suas instituições, embora se recusando a servir aos seus deuses. É o sofrimento em favor da justiça do povo de Deus na diáspora. Vários estudiosos do Novo Testamento chamaram a atenção para a maneira que o livro de Apocalipse se refere à responsabilidade da igreja na vida pública da cultura de modo muito diferente que Pedro, devido a um contexto muito diferente. 11 1 O contexto cultural e político presumido em Apocalipse é muito mais hostil à fé cristã, e, portanto, a postura em relação à cultura dominante é mais contracultura!. Pouco ou nada se diz a respeito do envolvimento e da participação nas estruturas da sociedade. Isso ressalta a importância de se reconhecer que contextos sociais diferentes exigem respostas diferentes. Flemming comenta que tanto as igrejas em lPedro como as igrejas em Apocalipse "engajam-se na esfera pública com um objetivo missional, porém o fazem a partir de ângulos distintos". 112 Um enfatiza mais o lado positivo do envolvimento cultural; o outro, o valor da crítica contracultura!. Entretanto, em ambos está claro que a igreja não se retrai para a esfera privada e se torna um thiasos ou um heranos. Cristo é Senhor sobre toda a vida, tanto nos aspectos relacionados à criação quanto nos aspectos culturais, e, portanto, nossa missão continua abrangente em seu escopo, exigindo o 109Newbigin, "FourTalks on 1 Peter", 112. 110 Goppelt, 7heology ofthe N ew Testament, 2:174. 111 Ver, e.g., ibid., 2:196-97; Flemming, Contextualization in the New Testament, 288-91; Nissen, N ew Testament and M ission, 143-56. 112 Flemming, Contextualization in the N ew Testament, 290.
226 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA envolvimento na vida pública da cultura circundante. Mas a maneira como a igreja se relaciona com a cultura varia conforme a situação. 113 Devemos ao menos mencionar no final desta seção uma nova apreciação dessa imagem da igreja na cultura ocidental. 114 A noção de estrangeiros residentes é a imagem mais comum para a igreja nos primeiros três séculos de sua existência, mas ela compreensivelmente desaparece quando o cristianismo se torna a religião do Império Romano. Hoje muitos reconhecem um paralelo entre a igreja primitiva à margem da cultura e o que ocorre atualmente, à medida que a igreja perde espaço na sociedade atual. Segundo Bauckham, "pode ser que essa imagem [do povo da diáspora] volte a ser considerada à medida que a igreja no ocidente pós-moderno reformula o conceito de sua relação missionária com uma sociedade pós-cristã". 115 Essa imagem sem dúvida é importante em qualquer período na história da igreja, e a igreja está empobrecida por abandoná-la. Porém, temos de ser cautelosos a respeito de uma apropriação simplista dessa imagem hoje. Há meio século, em seus estudos perspicazes sobre lPedro, Newbigin chamava a atenção para três "enormes diferenças" entre a época de Pedro e a nossa que tornam complexa a aplicação das palavras de Pedro à nossa situação: (1) a igreja naquela época era uma pequena minoria sem responsabilidade alguma pela ordem política, ao passo que hoje a igreja detém poder e influência na vida pública; (2) entre aquela época e a nossa, toda a história da ascensão e do declínio da cristandade alterou drasticamente a situação; e (3) a cultura atual permite um elemento de escolha nessas instituições, por exemplo, com quem casar, para quem trabalhar e a quem eleger para posições de autoridade política. 11 6 As palavras de Newbigin ainda hoje continuam sendo relevantes. Richard Mouw adverte ainda 113 Em um artigo sobre a missão da igreja na antiga União Soviética, argumento que a igreja europeia oriental teve de realizar sua missão em ao menos três tipos diferentes de ambientes culturais: (1) onde a cultura é hostil à fé cristã; (2) onde a cultura é favorável à fé cristã; e (3) onde a cultura encaixa a fé cristã na esfera privada ("Building for the Future: Worldview Foundations ofSand and Rock'', R eligion in Bastem Europe 20, n. 5 [October 2000]: 30-41). 114 Além de parte da literatura das notas de rodapé desta seção, ver Stanley Hauerwas; William H. Willimon, R esident Aliens: Life in a Ch1·istian Colony (Nashville: Abingdon Press, 1989); Walter Brueggemann, Cadences of Home: Preaching among Exiles (Louisville: Westminster John Knox, 1997); Erskine Clarke, ed., Exilic Preaching: Testimonyfor Christian Exiles in an lnC7·easingly Hostile Culture (Harrisburg, PA: Trinity International Press, 1998); Martin B. Copenhover; Anthony B. Robinson; William H . Willimon, Good News in Exile: Th1·ee Paston Offà a Hopeful Vision jo1· the Chm·ch (Grand Rapids: Eerdmans, 1999); Michael Frost, Exiles: Living Missionally in a Post-Christian Cultm·e (Peabody, MA: Hendrickson, 2006). 115 Richard Bauckham, Bible and M ission: Christian Witness in a Postmodem World (Grand Rapids: Baker Academic, 2003), 81. " 6 Newbigin, "FourTalks on 1 Peter", 101-4.
IMAGENS DA IGREJA MISSIONAL NO NOVO TESTAMENTO 227 que não devemos nos apropriar dessa imagem da diáspora como uma justificativa teológica conveniente para evitar a dificuldade do envolvimento missional na vida pública da cultura. 117 Sem dúvida, deveríamos aceitar de bom grado o retorno dessa imagem e a luz que ela pode lançar sobre o nosso chamado na cultura. Mas pode ser prematuro falar da igreja do Ocidente como uma entidade que vive à margem da cultura como ocorreu com a igreja primitiva. A igreja hoje é uma minoria e tem perdido poder cultural nas décadas recentes. A cultura ocidental é mais hostil à fé cristã hoje do que o foi no passado. Todavia, a igreja ainda detém uma medida de poder financeiro, político e cultural, e deve aprender a usar essa influência precisamente como participante crítica na cultura. Conclusão Ao esboçar a identidade missional da igreja, é importante termos sempre claramente em vista tanto a sua continuidade como sua descontinuidade em relação ao Israel do Antigo Testamento. De um lado, a igrej a assume o chamado missional de Israel, e assim muitas imagens no Novo Testamento conferem à igreja títulos que fazem parte da história do povo de Deus do Antigo Testamento. Por outro lado, a igreja é uma nova comunidade escatológica, e, portanto, muitas imagens da igreja chamam a nossa atenção para a sua participação em uma nova criação, sua vida centrada em Cristo Jesus, seu enchimento com o Espírito e sua nova localização no mundo. A verdade a respeito de todas essas imagens é que nenhuma delas pode ser entendida adequadamente se estiver divorciada da identidade missional da igreja. 117 Richard M ouw, "This World Is Not M y H ome: What Some M ainline Protestants Are Rediscovering about Living as Exiles in a Foreign Culture", Christianity Today (April24, 2000): 86-90.
8 A igreja missional na história bíblica Um resumo Este capítulo apresenta um resumo das conclusões a que chegamos a respeito da igreja missional em nossa jornada pela história bíblica. Descrever a igreja como "missional" hoje significa: (1) que ela participa na missão de Deus; (2) que ela dá continuidade à missão de Israel no Antigo Testamento; (3) que ela dá continuidade à missão do reino de Jesus; e (4) que ela dá continuidade ao testemunho da igreja primitiva. Participando na missão de Deus A Bíblia afirma relatar a verdadeira história do mundo. Tendo como pano de fundo a boa criação que foi corrompida pelo pecado, D eus inicia uma longa jornada para restaurar toda a criação e a vida humana como um todo da devastação causada pelo pecado. A missão de Deus é o seu antigo plano de criar céus e terra renovados e restaurados. Por isso, a Bíblia oferece uma grandiosa história que engloba todas as nações e todos os povos de toda a história da terra. A identidade missional da igreja está fundamentada no papel que Deus designou ao seu povo nessa história. Esse papel pode ser descrito com respeito à sua orientação dúplice, para Deus e para o mundo. O "povo de Deus" é escolhido por ele em favor do mundo. Deus, por meio de seu chamado, dá sentido e direção às pessoas: ele as incumbe de viver para a sua glória e de participar na sua obra redentora. Ele lhes dá uma tarefa como seus parceiros na aliança: mediar sua bênção para as nações. Consequentemente, a vida do povo de Deus é, desde o início, dirigida para fora em favor do mundo. Deus
230 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA age em seu povo e por meio dele a fim de restaurar as bênçãos de sua boa criação para pessoas de todas as nações e, finalmente, para toda a criação. A igreja é o lugar da obra de renovação divina, e seu povo é o primeiro a experimentar a salvação divina - mas não exclusivamente para si mesmo. A igreja é chamada a ser agente ou instrumento de redenção no mundo e em favor do mundo, escolhida a fim de convidar outros para a bênção da aliança que ela experimenta. Os cristãos são um povo "venha e junte-se a nós" cuja própria vida aponta para a culminação da história. Dando continuidade à missão comunitária de Israel Infelizmente, poucos livros a respeito da igreja missional se ocupam o suficiente com o Antigo Testamento. No entanto, há uma notável continuidade entre o povo de Deus no Antigo e no Novo Testamentos. O relacionamento fundamental estabelecido na história do Antigo Testamento entre o povo de Deus e as nações continua operante para a igreja após a vinda de Jesus; nós também fomos escolhidos em favor do mundo. Os autores do Novo Testamento retratam a igreja não como algum tipo de comunidade religiosa "novinha em folha" estabelecida no Pentecostes, mas como o Israel restaurado e depurado no qual os gentios estão sendo incorporados. A narrativa de Atos e as imagens da igreja nas Cartas do Novo Testamento tomam por certo uma longa história de atos de Deus que moldaram o papel e a identidade do povo de Deus, e o restante do Novo Testamento dá continuidade a essa história, seguindo-a até o seu clímax. Em certo sentido, podemos até afirmar que não há uma "quebra" na história da salvação. Essa continuidade significa que o papel e a identidade missionais do povo de Deus no Antigo Testamento precisam ser entendidos como o fundamento correto para qualquer discussão acerca da natureza da igreja. A relação de Israel com os outros povos no Antigo Testamento estabelece para todos os tempos o papel do povo de Deus em favor das nações. A igreja missional dá prosseguimento à missão de Israel para com as nações. Dois textos são especialmente significativos na definição da relação de Israel com as nações: Gênesis 12.1-3 e Êxodo 19.3-6. Deus faz uma promessa dupla a Abraão: primeiro, Deus fará de Abraão uma grande nação e restaurará para essa nação a bênção da boa criação de Deus; segundo, por meio dessa nação abençoada, Deus abençoará todas as nações da terra. A perspectiva de Deus é universal: ele está interessado em todas as pessoas e em toda a criação. Seu método, porém, é peculiar. Ele escolhe um povo para ser o canal de sua misericórdia para toda a criação, desejando que as bênçãos da redenção que ele derramou sobre Israel fluam deles para todas as nações. A formação do povo de Deus para cumprir esse chamado se inicia quando Deus os redime da escravidão e da idolatria do Egito. Ele os liga a si mesmo por
A IGREJA MISSIONAL NA HISTORIA BÍBLICA - UM RESUMO 23 1 meio de uma aliança e no Sinai lhes confere o seu papel na história da redenção; aqui descobrimos como Deus abençoará todas as nações. Israel deve ser uma comunidade cuja vida coletiva esteja na vitrine diante das nações, demonstrando a todos o que significa viver conforme o plano de Deus para a humanidade. Porém, essa continua sendo a missão de D eus; ele não passa simplesmente o bastão adiante e então se afasta para aguardar a maneira que sua comissão será finalmente executada. Em vez disso, ele vem viver no meio de Israel, onde continua agindo em graça e juízo. A entrega da Lei, que se segue à convocação divina de Israel, indica que a vida de Israel como um todo deve ser vivida debaixo da autoridade de Deus. A vida do povo de Israel se volta para trás, em retrospectiva, para a criação; os israelitas encarnam o plano original da criação de Deus para a totalidade da vida humana. Sua vida se volta também para frente, para a consumação; eles são um sinal do propósito para o qual Deus está conduzindo a história da redenção: a restauração de toda a vida humana à sua bênção original no contexto de uma criação restaurada. Sua vida deve se voltar também para fora, para as nações; eles devem ser uma comunidade de contraste, vivendo uma vida diferente da que vivem os povos ao seu redor. Israel deve desafiar a idolatria cultural das nações ao seu redor e ao mesmo tempo aceitar alegremente as dádivas culturais que lhe foram dadas por Deus. Se o povo de Israel viver dessa maneira, brilhará como luz para as nações e cumprirá o seu papel missional. Podemos ver, portanto, o que significa ser povo de Deus. Israel é um povo escolhido; de todos os povos da terra, Deus escolhe Abraão e Israel para serem sua propriedade exclusiva. O povo de Israel é um povo 1·edimido, libertado da servidão ao faraó e aos deuses do Egito para servir ao Deus vivo com toda a sua vida. Eles são o povo da aliança, ligados por Deus a ele mesmo por meio de um relacionamento de aliança; ele promete ser o seu Deus enquanto eles se comprometem a ser o seu povo. Israel deve ser uma nação santa, andar no caminho divino da justiça e da retidão, moldando sua vida pela Torá de acordo com os propósitos de Deus com a criação. Grande parte da história de Israel está ligada com a ação de Deus entre eles, na luta de Israel contra a idolatria. Israel é um povo que conhece a presença de Deus, que desfruta de um relacionamento continuado com ele. Esse relacionamento exige do povo sua fiel resposta em obediência, amor, fé e adoração ao seu Senhor da aliança. É importante reconhecer claramente a estrutura missional na qual cada um desses temas é tecido. Na verdade, tirar qualquer um deles de seu contexto missional na história bíblica significaria alterar seu sentido. Israel é escolhido a fim de mediar a bênção salvífica de Deus para as nações. O povo de Israel é redimido dos
232 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA ídolos para servir somente ao Senhor a fim de que sua vida santa mostre diante das nações como é uma nação quando Deus habita nela. A presença de Deus e a sabedoria da Torá devem distinguir Israel e fazer dele um modelo atraente diante dos olhos atentos das nações. A aliança que Deus estabelece com Abraão e com Israel tem como propósito a salvação das nações. Assim, o papel e a identidade de Israel são essencialmente missionais desde o início. Claramente incluída no papel missional de Israel está a sua visibilidade diante das nações. A intenção de Deus era que a vida de seu povo fosse observada por aqueles que não faziam parte de Israel. Somente dessa maneira eles poderiam oferecer uma vida atraente e convidativa, e assim ser luz para as nações. Essa visibilidade missional, no entanto, é manifestada em diferentes contextos, sendo Israel primeiramente uma livre confederação de tribos, mais tarde, um reino unido e, finalmente, o povo da diáspora, disperso entre outros povos. Todavia, em todos esses contextos, Israel deve encontrar novas maneiras de exibir a promessa de restauração de Deus em favor das nações. Cada uma dessas formas históricas do povo de Deus contém ricas instruções e advertências para o povo missional de Deus hoje, nós que também somos chamados para ser um povo de contraste e uma comunidade alternativa. O período tribal nos oferece instruções, visto que vivemos com certo grau de liberdade em um contexto religioso bastante perigoso. Os israelitas, como imigrantes, "tomam emprestado" de seus vizinhos cananeus enquanto se estabelecem na terra, esquecendo-se de que, como um povo de contraste comprometido com um chamado comum, eles devem, em vez disso, encontrar meios de colocar a sua história de redenção no centro de sua vida de comunidade. Infelizmente, eles são seduzidos pelo engodo da idolatria. O período da monarquia é instrutivo para nós no que concerne àquelas ocasiões na história em que a igreja tem acesso aos meios dopoder cultural (como ainda é o caso até certo ponto no Ocidente hoje). Na época da monarquia, Israel desfruta de oportunidades únicas para moldar todas as facetas da vida - econômica, social, política, legal, de culto ou religiosa, internacional - por meio da Lei de Deus. Infelizmente, no entanto, Israel imita os reinos ao seu redor, permitindo que forças religiosas pagãs moldem sua vida como nação. O período do Exílio de Israel fornece um insight para um povo fraco e minoritário com pouca influência na esfera pública, que luta para manter sua identidade em um império hostil- e é o que está acontecendo gradativamente no caso da igreja no Ocidente. Esse povo precisa encontrar novas formas de encarnar e desenvolver sua identidade no novo cenário cultural, não se permitindo privatizar a sua fé, retrair-se e alienar-se de seu contexto cultural.
A IGREJA MISSIONAL NA HISTÓRIA B[BL/CA - UM RESU MO 233 Dando continuidade à missão de Jesus O fracasso de Israel por não cumprir o seu chamado impele os profetas a ansiar pela formação de um Israel escatológico, um povo de Deus do fim dos tempos que cumprirá fielmente a incumbência missional de Deus. <2.1rando Jesus vem, anuncia que o reino chegou: chegou o dia para o ajuntamento de seu povo. O rebanho que Jesus reúne é o núcleo da igreja, ou a igreja embrionária. Nos primeiros dias após a ressurreição, Jesus reúne essa pequena comunidade e lhes dá a sua comissão: ''Assim como o Pai me enviou, eu vos envio para dar continuidade à minha missão". A igreja missional dá prosseguimento à missão de Jesus. Ela o faz, antes de mais nada, como uma comunidade do reino. Os cristãos não são eles próprios o reino de Deus, pois o reino é muito mais amplo, tanto no espaço como no tempo; é o governo de Deus sobre toda a criação, tanto no presente quanto na era vindoura. É a mensagem desse reino que cria a igreja. As boas-novas são o poder de Deus para levar a salvação aos que respondem em arrependimento e fé. Portanto, a comunidade de discípulos consiste no povo que agora experimenta uma parte da salvação de Deus, mas que também aguarda pela salvação final a ser revelada nos últimos dias. Eles também são o povo que se posicionou na batalha cósmica entre Deus e os poderes alinhados contra o seu governo. Eles são incorporados na missão de Deus para propagar o reino de Deus. Eles são instruídos para uma forma de vida em comunidade que é um retrato de como será a vida futura no reino. Eles são envolvidos como instrumentos na obra do reino de Deus, e suas palavras e ações são usados por Deus para produzir o fruto de seu reino vindouro. Esses dão continuidade à missão de Jesus como uma comunidade de contraste. O reino de Deus é o poder de Deus para restaurar a vida humana àquilo que Deus pretendia que ela fosse. Assim, a vida do povo de Deus encarna a intenção original que Deus tinha para a humanidade com a criação. Isso também significa que sua vida torna visível agora a restauração que haverá na era vindoura. Entretanto, essa vida não é uma vida isolada, de alienação das culturas ao seu redor; o pequeno rebanho que Jesus reúne é formado no meio das sociedades judaica e romana, em que seus membros encontram ídolos sociais poderosos que se opõem ao reino vindouro de Deus. Sua vida deve se posicionar em solidariedade com os reinos deste mundo, mas em contraste com eles, como um desafio a eles e em juízo sobre esses reinos - reinos que um dia se tornarão o reino de Cristo. E isso significa sofrimento, uma vez que o amor sacrificial confronta outros modos de vida que não reconhecem Jesus como Senhor. A comunidade de Jesus dá continuidade à missão dele como a comunidade do ajuntamento. O ajuntamento é mais do que apenas uma de suas tarefas; o
234 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA ajuntamento dá sentido ao "tempo entre os tempos". Somente nesse período intermediário - entre a chegada do reino e a sua consumação final - é que pode ocorrer o ajuntamento. Três imagens que aparecem regularmente nos Evangelhos evidenciam a centralidade do ajuntamento nessa era histórico- -redentora: o ajuntamento das ovelhas em um rebanho, o ajuntamento/a reunião do povo à mesa do banquete e o ajuntamento/recolhimento da colheita no celeiro. Jesus é o que ajunta, mas ele emprega uma comunidade de colaboradores para participar dessa tarefa. Por meio da luz da vida deles, de palavras e ações permeadas pela oração e pelo poder do Espírito Santo, por meio de um encontro de amor sacrificial com o mundo, esses cooperadores de Cristo convidam outros a se tornarem parte do povo de Deus e serem ajuntados a uma comunidade que um dia herdará o reino. Dando continuidade ao testemunho da igreja primitiva A missão de Deus é levada adiante por meio de Israel, por meio de Jesus e por meio da igreja primitiva. O Novo Testamento é formado no primeiro século depois de Jesus, e nele vemos, por meio de imagens narrativas e teológicas, uma comunidade que começa como um povo escatológico para assumir a missão de Deus. A igreja missional de hoje é uma comunidade de pessoas que dão prosseguimento a esse testemunho da igreja primitiva. Continuidade e descontinuidade Há tanto continuidade como descontinuidade entre a igreja do Novo Testamento e o Israel do Antigo Testamento. Israel deve ser luz para o mundo ao encarnar os propósitos que Deus tinha para a humanidade com a criação, ao viver como um sinal do propósito derradeiro do plano de redenção divino e ao enfrentar os costumes idólatras de outros povos. Deve viver como uma sociedade de contraste, uma manifestação radiante e atraente do propósito amoroso de Deus, que por meio de seu exemplo atrairá outros para Deus. Com a vinda de Jesus e do Espírito, a comunidade escatológica de Deus é transformada, de maneira que, se ela permanecer arraigada no evangelho, poderá agora viver o papel missional que Deus sempre teve em mente para ela. A missão permanece constante, porém os meios para realizá-la mudaram para sempre com a morte e a ressurreição de Jesus e a vinda de seu Espírito no Pentecostes. Também há uma descontinuidade significativa entre o povo de Deus do Antigo Testamento e do Novo. Em Jesus e no Espírito, o reino do fim dos tempos- a era vindoura, a nova criação, a vida ressurreta - chegou. Isso quer dizer que cada característica do povo de Deus do Antigo Testamento foi transformada na igreja. Assim como
A IGREJA MISSJONAL NA HISTORIA BfBLJCA- UM RESUMO 235 Israel, a igreja é um povo eleito, escolhido a fim de ser canal de salvação para o mundo. Agora essa comunidade é escolhida em Cristo (Ef 1.4); ela participa de sua obra de redenção e de sua missão. Ela também é um povo redimido- agora redimido não por meio do ato poderoso do Êxodo, mas por meio do ato muito mais poderoso da cruz (1Pe 1.18,19). A igreja é liberta da escravidão da idolatria para dar testemunho da salvação de Deus. A redenção e a libertação são mais ricas na obra de Cristo e do Espírito do que o próprio Moisés poderia ter imaginado. O povo de Deus sempre havia sido chamado a ser um povo santo para poder assim mostrar diante das nações como é uma comunidade na qual Deus habita; agora o Espírito vive e age no meio de seu povo e em cada membro, capacitando todos e cada um individualmente a viver em obediência à Torá de Deus (Rm 8.3,4). Os escolhidos de Deus constituem o povo da aliança ligado a Deus. O propósito missional da aliança desde o início era que, por meio dos descendentes de Abraão, Deus abençoaria todas as nações. A incapacidade do antigo Israel de cumprir seu chamado da aliança levou Deus a fazer uma nova aliança (Jr 31.31-34); agora a intenção redentora de Deus para todas as pessoas é realizada por meio da nova aliança no sangue de Cristo (Lc 22.20; Hb 8). O povo de Deus é aquele que conhece a presença de Deus. A presença de Deus se torna cada vez mais íntima à medida que Cristo "tabernacula" entre o seu povo (Jo 1.14) e o Espírito Santo vem habitar no seu templo escatológico (Jo 16.7; 1Co 3.16). O poder e o amor da presença de Deus no Espírito agem na igreja e por meio dela para atrair as nações. Cada característica do povo de Deus é cumprida em Cristo e, ainda assim- e isso é crucial- as implicações missionais de cada característica permanecem com a igreja hoje. Um povo escatológico O que é novo na história da redenção é a chegada dos últimos dias, e essa nova era escatológica para o povo de Deus é caracterizada por cinco elementos. Primeiro, o povo de Deus é um povo messiânico. É a fé em Jesus que de fato distingue essa comunidade de qualquer outra. O povo de Deus é caracterizado por sua lealdade a Jesus, exemplificada na disposição de seguir, amar e obedecer a ele. Seus membros participam da salvação dos últimos tempos à medida que são incorporados na morte e na ressurreição de Jesus, com o que termina a era antiga e se inicia a nova. Eles dão continuidade à missão que Jesus iniciou. Segundo, eles são um povo cheio do E spírito. O Espírito é a dádiva dos últimos dias que traz um antegosto do poder do reino de Deus para que possam ser povo de Deus fiel a ele. Missão é a presença do povo de Deus no mundo e a presença poderosa do Espírito de Deus no seu povo em favor do mundo. Terceiro, a obra de Cristo e a vinda do Espírito
236 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA trazem consigo o significado de que a igreja é um povo que experimenta a salvação do reino do fim dos tempos. Visto que a morte de Jesus deu fim à era antiga, que a ressurreição de Jesus inaugurou a era vindoura, e que o Espírito foi concedido, o povo de Deus recebeu um antegosto e uma garantia da renovação da vida humana e da criação que está por vir no final da história. Sempre foi a vocação do povo de Deus mostrar a obra redentora de Deus na sua vida em comunidade. Agora esse propósito foi revelado e concretizado em Cristo e entregue como dádiva à igreja. A igreja, por sua vez, vive como prenúncio e sinal da vinda do reino de Deus. A quarta implicação escatológica está relacionada com o nosso lugar na história. O tempo presente é um tempo de ajuntamento - primeiro o ajuntamento de Israel e depois o das nações- até os confins da terra. O ajuntamento de uma comunidade para compartilhar a salvação do reino é um evento escatológico: "E este evangelho do reino será pregado pelo mundo inteiro, para testemunho a todas as nações, e então virá o fim'' (Mt 24.14). A era "já, mas ainda não" do reino é caracterizada pela missão, especificamente pelo ajuntamento de todas as nações na comunidade do reino. O movimento centrípeto que caracterizava a missão do antigo Israel permanece, visto que a igreja também deve ser uma comunidade fascinante que atrai as nações para Deus por meio do exemplo exuberante de sua própria vida. Porém, há nesse ajuntamento um novo elemento centrífugo: o povo de Deus agora é enviado para viver entre as nações. Qyinto, a forma do povo de Deus da nova aliança é nova. O povo de Deus não é mais definido por critérios geográficos ou étnicos, mas chamado de todas as nações para viver como luz entre todas as nações. Isso significa, no entanto, que os membros da igreja precisam viver também como membros das culturas ao seu redor e participantes delas. Um encontro missionário no qual o povo de Deus vive de maneiras alternativas, contrárias aos costumes idólatras de seus vizinhos, gera um panorama difícil e complexo. A igreja agora vive em constante tensão por encarnar a vida do reino no meio de nações em que reina a idolatria. Cada uma dessas características amplia e intensifica a natureza missional do povo de Deus. A conclusão e o propósito do plano de Deus foram revelados e realizados por Jesus; assim, a igreja, no poder do Espírito, está equipada para propagá-los com meios que o Israel do Antigo Testamento não podia. Uma comunidade perceptível com um chamado no mundo O livro de Atos oferece um álbum de fotografias dessa comunidade escatológica missional nos primeiros dias de sua ação, e as imagens eclesiais das Cartas levam o registro adiante. Essas crônicas da igreja primitiva retratam ao menos quatro coisas de grande importância e dignas de serem seguidas.
A IGREJA M/55 /0 NAL NA HISTORIA BÍBLICA- UM RESUMO 237 Em primeiro lugar, a vida institucional do povo de Deus é essencial para a igreja missional. À medida que a igreja se dedica resolutamente à Palavra de Deus, à comunhão, à Ceia do Senhor e à oração, ela é edificada na vida escatológica do Espírito. Conforme os membros da igreja vivem juntos em comunidade, exercendo os dons do corpo, essa nova vida é nutrida. À medida que a liderança e as estruturas da igreja se voltam para o desenvolvimento da nova vida de Cristo, a igreja pode ser um corpo missional no mundo. A igreja deve ter uma "orientação para dois polos", com uma face voltada para dentro e outra, para fora. A vida interior fortalece a vida do reino e assim se conecta vitalmente à sua manifestação exterior. Qyalquer eclesiologia que minimiza a importância da natureza institucional da igreja corre o perigo de cortar a si mesma da própria raiz que sustém a sua vida. Em segundo lugar, a vida em comunidade na igreja manifesta a vinda do reino. A própria igreja deve ser um corpo transformado, um retrato da ordem social que Deus pretende para a vida humana. Missão é antes de mais nada a vida de um povo de contraste, a demonstração vívida do plano de criação divino para a vida humana e o objetivo do propósito redentor de Deus, à medida que o seu povo se posiciona contra a idolatria cultural. A igreja é uma comunidade alternativa, uma sociedade de contraste entre as nações. As imagens do livro de Atos retratam a igreja encarnando essa nova vida. As Cartas de Paulo nos mostram um pastor missionário encorajando a igreja a colocar em prática uma vida radical de devoção "uns aos outros" no Senhor. Em terceiro lugar, essa comunidade tem uma tarefa no mundo. De sua vida em comunidade fluem palavras e ações que apontam para Cristo, a fonte dessa nova vida. A igreja missional é uma igreja evangelizadora que proclama as boas-novas apontando para Cristo. Ela também demonstra as boas-novas com ações de misericórdia e justiça. Em tudo isso, a comunidade messiânica segue Jesus, que tornou conhecidas as boas-novas do reino com suas próprias palavras e ações. Mas ela também o segue em seu sofrimento no encontro missionário com a cultura ao redor. As boas-novas suscitarão oposição assim que a igreja desafiar as convicções mais profundas das culturas que a cercam. Isso ocorrerá especialmente quando o povo de Deus se envolver profundamente nas instituições de sua cultura. A igreja está encarregada de uma missão na vida pública de sua cultura. As pessoas da igreja participam, estão envolvidas, na contínua tarefa cultural do mundo, tudo para o bem-estar de seus vizinhos. Finalmente, a missão dessa comunidade escatológica vai "até os confins da terra". A missão de Deus é proclamar as boas-novas a todos os povos, e as congregações locais precisam assumir sua própria responsabilidade nessa tarefa.
238 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA A missão da igreja local é, evidentemente, essencial, mas uma igreja saudável também precisa focar sua visão para a missão além do contexto local. Essa visão mais abrangente oferece a perspectiva suprema da missão local da igreja, mantendo-a revigorada e livre de provincialismo, bem como fiel ao chamado daquele que os céus e a terra não podem conter, cuja missão não tem limites.
9 Como seria uma igreja missional hoje? Uma transposição do texto bíblico antigo para a nossa situação contemporânea que seja ao mesmo tempo fiel ao contexto original e relevante para a situação presente é uma atividade hermenêutica complexa. É aqui que, às vezes, pastores e estudiosos bíblicos se impacientam uns com os outros. O problema, é claro, surge devido ao condicionamento histórico do texto bíblico. As Escrituras tratam de questões e assuntos que muitas vezes são muito diferentes dos de hoje. Estudiosos da Bíblia, buscando manter-se fiéis ao contexto histórico original, sublinham a distância entre o texto e o nosso tempo presente e, às vezes, receiam destacar sua relevância para os dias de hoje. Os pastores, ao contrário, com seu coração pastoral e missionário, buscam a relevância contemporânea e, às vezes, ignoram a distância cultural entre texto e contexto. Na condição de estudioso e de pastor, sinto e conheço a pressão de ambos os lados. Ao examinar a igreja missional na história bíblica, procurei manter-me fiel à história que a Bíblia está narrando, não me afastando do contexto original histórico e cultural com seus problemas e questionamentos. Por isso, pode ser que pastores e líderes de igreja tenham ficado impacientes- uma doença comum em nosso mundo de gratificação imediata - e perguntado: "Como seria uma igreja missional nos dias atuais?". Isso aconteceu comigo há mais de uma década quando estava lecionando uma disciplina de mestrado para alunos de Teologia intitulada ''A Igreja Missional no Ocidente". Investigamos a igreja missional ao longo da história bíblica e refletimos teologicamente sobre a vida interior da igreja, a sua vocação no mundo e o relacionamento da igreja com o seu contexto cultural. Alguns alunos me abordaram cerca de seis horas antes do término do curso e me perguntaram que cara isso
240 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA teria hoje. Eles queriam saber: Como seria na prática essa eclesiologia missional? Mais especificamente, o que eu faria de outra maneira se voltasse a pastorear? Aceitei o desafio e, ao estilo de David Letterman, gastei as últimas seis horas da disciplina com minha lista das "10 mais": "Dez coisas que eu faria diferente se voltasse a pastorear". A lista aos poucos cresceu para treze e se tornou o ponto de partida para nosso trabalho em Hamilton, Ontário. Mais recentemente, começamos a refletir novamente a respeito dessas coisas ao continuar esse trabalho em Burnaby, British Columbia. Mais do que refletir sobre novas descobertas para reinventar as estruturas de igreja, esse processo significa observar o tipo de coisas que temos feito em nossas igrejas, e que deveríamos continuar fazendo, mas a partir de um ângulo especificamente missional. Não se trata de treze passos fáceis e infalíveis para garantir o crescimento da igreja; não são soluções mágicas ou soluções milagrosas que podem dar um jeito na complexidade, nas dificuldades, no tempo necessário e eliminar o trabalho árduo. Na verdade, eles vão exatamente realçar essas coisas! Mas tenho tido muitas oportunidades de compartilhar essa lista com pastores e líderes, e a resposta tem sido encorajadora. Neste último capítulo compartilho essa lista. É importante mencionar logo de início que essas reflexões são breves, sugestivas e evocativas. Algumas vezes são teológicas e outras, práticas. Elas se baseiam na minha própria experiência pastoral quando eu, juntamente com outros colegas pastores e líderes, procurei implementar em igrejas tradicionais o que relatei neste livro. Evidentemente, quando abordo grandes temas em uma sequência rápida, não posso ser exaustivo ou sistemático. Em vez disso, meu principal objetivo é estimular a imaginação para a reflexão sobre como a igreja pode viver como uma comunidade missional fiel nos dias de hoje. Qye cara isso teria hoje na igreja local no Ocidente? Uma igreja com um culto que fomente nossa identidade missional Concordo com Newbigin quando ele diz que "a reunião semanal para o culto é de longe a coisa mais importante que fazemos".' A adoração é a vocação mais importante da igreja em parte porque dá ao povo de Deus o seu foco e a sua direção em todos os aspectos da vida; da adoração flui toda a vida da igreja, e na adoração toda a vida da igreja encontra a sua verdadeira finalidade. A adoração adequada, portanto, deve ser prioritária. 1 Lesslie Newbigin, The Good Shepherd· M editations on Christian M inistry in Today's Wodd (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), 37.
COMO SERIA UMA IGREJA MISSIONAL HOJE? 241 Paul Jorres argumenta com razão que um grande passo para fomentar nossa identidade eclesiástica será o nosso culto: "Nós somos como cultuamos". 2 Como a nossa identidade missional pode ser fomentada na adoração pública? Como resposta parcial a essa pergunta, dois breves comentários que exploram o que foi mencionado anteriormente sobre os salmos devem ser suficientes. Primeiro, o culto atual deve contar a verdadeira história do mundo, como ela é revelada nos atos poderosos de Deus, culminando em Cristo. Jorres contribui dizendo: "A Igreja é uma 'comunidade formada pela história' que está arraigada na crucificação e ressurreição de Jesus, o Cristo [ ... ]. Para que a comunidade de fé persevere ao longo do tempo e resista às ameaças de aculturação, a história daquilo que Deus realizou para o povo hebreu e para a comunidade cristã deve ser constantemente recontada no culto público". 3 De fato, a Bíblia precisa descrever o mundo para a comunidade cristã, e o culto público é o local principal onde isso acontece. A maneira como o culto é estruturado, a seleção dos cânticos, a forma que os vários elementos são introduzidos e relacionados uns com os outros, o modo como o evangelho é pregado, tudo isso pode centralizar nossa atenção na história dos atos poderosos de Deus- passados, presentes e futuros-, na qual encontramos nosso lugar. O livro de Apocalipse nos oferece um exemplo canônico de como o culto pode desempenhar um importante papel para chamar o povo de Deus a viver na história bíblica e não nas histórias concorrentes.4 A visão de João, que constitui o livro de Apocalipse, ocorre no Dia do Senhor, o dia de culto (Ap 1.10). A igreja na Ásia Menor está ameaçada pelo poder invencível de Roma e corre perigo de ser domesticada pela visão de mundo pagã. Porém, o livro de Apocalipse corajosamente desafia a ordem e o poder estabelecidos de Roma. João proclama que a verdadeira história do mundo é revelada em um homem crucificado pelo Império Romano, mas que agora reina sobre tudo e está conduzindo a história universal para o seu propósito final. João oferece essa visão como um "mundo alternativo"5 e, desse modo, "constrói uma narrativa contrastante que contesta a narrativa imperial, 2 Paul H.Jones, "We Are How We Worship: Corporate Worship as a Matrix for Christian Identity Formation", Wonhip 69, n. 4 (July 1995): 346-60. 3 Ibid., 353. 4 Rodney Clapp, "The Church as Worshiping Community: Welcome to the (Real) World", in A Peculiar People: 7he Church as Culture in a Post-Christian Society (Downers Grove, IL: InterVarsity, 1996), 95-96. 5 Johannes Nissen, New Testament and Mission: Historical and Henneneutical Perspectives, 3. ed. (Frankfurt am Main: Peter Lang, 2004), 147.
242 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA introduzindo uma maneira diferente de ver o mundo". 6 Essa é a história que é celebrada na liturgia, nos cânticos e nas orações do povo de Deus em Apocalipse. Um segundo elemento que aprendemos dos salmos é que precisamos ser constantemente reorientados e redirecionados para o mundo incrédulo como a perspectiva suprema de nossa vocação. Os mesmos elementos da liturgia podem dirigir a atenção ou para dentro, para nós mesmos, ou para fora, para as nações. Por exemplo, a Ceia do Senhor e o batismo precisam ser resgatados de uma propensão introvertida que enfatiza apenas os benefícios aos próprios crentes e, em vez disso, ser utilizados para direcionar a igreja para a sua vocação no mundo. Os dois sacramentos devem ser escatológicos e missionais e a nossa celebração litúrgica de ambos deve promover essa visão. Nossa confissão de pecado, talvez um dos elementos mais importantes do culto, capacita-nos a viver o evangelho e encontrar nele a fonte da vida. Assim como no caso dos sacramentos, no entanto, isso pode simplesmente visar a nossa satisfação individual no perdão e na renovação ou então ser um ato que nos capacite novamente à apropriação do evangelho, possibilitando-nos viver uma vida piedosa em favor do mundo. Nosso apelo final à congregação e a bênção apostólica podem nos despedir com a bênção de Deus para o nosso próprio conforto ou então nos capacitar para encarnar as boas-novas em um mundo que precisa vê-las. A reorientação e o redirecionamento constantes à nossa vocação - ao mundo que Deus ama-, por meio da repetição e do redirecionamento que envolvam todas as áreas comuns do culto domingo após domingo, gradativamente desenvolverão um povo missional. Uma igreja capacitada por meio da pregação do evangelho A pregação é um elemento do culto que merece atenção especial. Em Atos, os apóstolos nomeiam sete homens para atender as viúvas que estavam sendo negligenciadas para que eles possam se concentrar na Palavra de Deus e na oração (At 6.4; cf. At 2.42). Paulo destaca os dons do ministério da Palavra que capacitarão o povo de Deus a crescer até atingir a medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4.1-16). A pregação é um meio poderoso pelo qual o povo de Deus pode ser alimentado e capacitado para o chamado missional. Porém, grande parte da pregação tem se tornado refém de diversas correntes idólatras da cultura ocidental e, infelizmente, esse canal da poderosa graça de Deus muitas vezes é entupido. 6 Richard Bauckham, Bib!e and Mission: Christian W itness in a Postmodem Wodd (Grand Rapids: Baker Academic, 2003), 104.
COMO SERIA UMA IGREJA MISSIONAL HOJE? 243 A pregação que sustenta a identidade missional precisa ser narrativa, centrada em Cristo e missional - as três coisas em todos os sermões. A pregação que é narrativa reconhece que a Bíblia relata uma história em desenvolvimento que é a verdadeira história do mundo e reforça que o povo de Deus precisa viver cada vez mais segundo essa história. Newbigin acertadamente afirma: "Não creio que podemos falar efetivamente a respeito do evangelho como palavra dirigida à nossa cultura a não ser que recuperemos a compreensão das Escrituras como uma unidade canônica, como a história que oferece o verdadeiro contexto para o nosso entendimento do sentido de nossa vida- tanto a pessoal como a pública". 7 Por isso, ele afirma a respeito da pregação: "Pregar é anunciar uma notícia; é contar uma narrativa. Em uma sociedade que possui uma história diferente para contar sobre si mesma, a pregação deve estar fundamentada firme e assumidamente na história real". 8 A pregação que não convida o povo de Deus a encarnar uma história diferente do mundo, diferente da história oferecida pela cultura dominante, o deixará vulnerável à história idólatra da cultura. Nossa pregação também deve estar centrada em Jesus Cristo e ser missional. N. T. Wright oferece um modelo útil de autoridade bíblica que enfatiza ambos. 9 Wright sugere de modo provocativo que a autoridade bíblica é uma "sub- -ramificação [ ... ] da missão da igreja". Para entender a autoridade bíblica, a pergunta que deve ser feita é "Qyal é o papel que as Escrituras desempenham no cumprimento divino desse propósito [de renovar a criação ]?" 10 Para essa pergunta, Wright desenvolve uma resposta de quatro camadas. Em primeiro lugar, as Escrituras do Antigo Testamento foram escritas para "equipar" o povo de Deus para o seu chamado missional de ser um povo distinto. Equipar é um termo que resume as múltiplas tarefas que os vários gêneros das Escrituras realizam para dar forma a um povo missional. Em segundo lugar, Jesus cumpre o propósito de formar um povo missional que as Escrituras do Antigo Testamento tinham, mas que foram incapazes de cumprir, porque o povo estava enfraquecido pelo poder do pecado (Rm 8.3,4). Wright afirma que "Jesus, portanto, faz de maneira culminante e decisiva o que 7 Lesslie Newbigin, "Response to 'Word of God?' John Coventry, SJ", Cospe! and Our Czt!tzn·e N ewslette1·10, n. 3 (1991). 8 Lesslie Newbigin, "Missions", in Concise E ncyc!opedia ofP7·eaching, ed. William Willimon; Richard Lischer (Louisville: Westminster John Knox, 1995), 336. 9 N. T. Wright, The Last Word: Beyond the Bib!e ~m to a N ew Understanding of the A uthority of Scriptw·e (San Francisco: H arperCollins, 2005), 35-59. 10 lbid., 30.
244 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA as Escrituras [Antigo Testamento] de certa maneira haviam tentado fazer: levar a nova ordem do Reino de Deus ao povo de Deus e deste para o mundo". 11 Em terceiro lugar, a proclamação apostólica das boas-novas de que Jesus cumpriu a história de Israel agora torna Cristo e seu poder de salvação presentes para os seus ouvintes. A mensagem apostólica "é a história de Jesus (particularmente sua morte e ressurreição), contada como o clímax da história de Deus e de Israel e apresentando-se, portanto, como a verdadeira história do mundo, como o fundamento e a força energizante para a missão da igreja". 12 À medida que é proclamado e ensinado, o evangelho apostólico é a palavra poderosa de Deus que chama à existência uma comunidade missional, que molda essa comunidade a fim de ser um povo fiel e opera por meio dele para atrair outros à fé. Em quarto lugar, essa proclamação e ensino verbais dos apóstolos assumem uma forma literária no cânon do Novo Testamento. Como tal, a palavra de Deus escrita continua a operar da mesma forma que havia operado a palavra viva dos apóstolos. Os autores do Novo Testamento se consideravam mestres autorizados e capacitados pelo poder do Espírito, que revelava o evangelho a igrejas específicas com o objetivo de sustentar, animar, moldar, julgar e renovar essas igrejas para o seu chamado missional. Consequentemente, esses livros estavam imbuídos do mesmo poder de equipar e da mesma autoridade que haviam marcado a pregação verbal da palavra. Esse breve resumo destaca o que significa pregar a Cristo. Três implicações merecem ser destacadas. A primeira: em qualquer parte do cânon que estivermos, nossa pregação será orientada para Cristo e a partir dele. O objetivo da pregação é tornar Jesus Cristo presente. A segunda: o próprio Cristo vem vestido do evangelho, e assim a mensagem é mais do que palavras; ela é o poder de Deus para a salvação. Isso não é simplesmente uma nova doutrina religiosa a ser ratificada e entendida. É um anúncio a respeito do que Deus está fazendo em Jesus através do Espírito. A própria mensagem se torna, portanto, o poder de Deus para transformar vidas (Rm 1.16; 1Co 1.18,24; 2.4). Uma terceira implicação de pregar a Cristo é o reconhecimento do escopo abrangente do evangelho. "O propósito do sermão é conduzir os ouvintes a um encontro face a face com Jesus Cristo para conhecê-lo como ele realmente é". 13 Alguns sermões estão centrados em Cristo, mas não o retratam "como ele realmente é". Jesus não é apenas um salvador pessoal. Ele é o Criador, o Senhor da história, o Redentor de todas as coisas e o Juiz supremo. No seu ministério terreno, Jesus 11 Ibid., 43, grifo do autor. 12 Ibid.,48. 13 Newbigin, Good Shepherd, 24, grifo do autor.
COMO SERIA UMA IGREJA MISSIONAL HOJE? 245 proclamou o evangelho do reino. O evangelho não é uma mensagem que pode ser encaixada em um pequeno setor religioso, ético ou teológico da vida privada. Não trata de salvação futura de outro mundo. Pregar um evangelho que diminua a pessoa de Jesus Cristo ou as reivindicações todo-abrangentes do evangelho do reino significará cortar a raiz que sustenta o confronto entre estas reivindicações do evangelho e a história cultural dominante. Desse modo, o propósito da pregação é conduzir os ouvintes a um encontro face a face com Jesus Cristo e com todo o seu poder de salvação a fim de sermos equipados para a nossa missão abrangente no mundo. Assim, os próprios pastores devem ser pessoas dominadas por essa mensagem. C. John Miller enfatiza vigorosamente essa questão. No romance de John Updike, Rabbit, Run ["Coelho, Foge"], um pastor luterano repreende, irado, um sacerdote episcopal intrometido que havia se esquecido de seu chamado pastoral." 'Qyando na manhã de domingo, então, aparecemos diante deles, precisamos subir ao púlpito não desgastados de tristeza, mas cheios de Cristo, aqueddos'- cerrando os punhos peludos - 'com Cristo, em chamas: e queimá-los com a força da nossa fé. É para isso que eles vêm. Por que outro motivo nos pagariam?'". Miller comenta adiante que "nada deve entrar no pastor exceto o que possa edificar a sua fé em Cristo. Qyando ele é um homem 'que queima por Cristo', então está preparado para pregar pela fé. Nada menos será o suficiente" . 14 O modelo de N. T. Wright também indica que nossa pregação deve ser missional. Os diversos livros da Bíblia foram escritos para formar um povo missional. Negligenciar esse propósito original das Escrituras significa ignorar o objetivo do texto. Antes de mais nada, as Escrituras não tratam da concessão de benefícios salvíficos às pessoas individualmente (por mais importante que isso seja), mas dizem respeito à formação de um povo que encarna as boas-novas do reino em favor do mundo. Consequentemente, a pregação deve sempre nos orientar para fora. A pregação fiel sempre se moverá de Cristo para a missão porque "não há participação em Cristo sem a participação na sua missão". 15 Felizmente, há um movimento crescente para desenvolver uma hermenêutica missional que enxerga a centralidade da missão na história bíblica. 16 14 C. John Miller, Outgrowing the Ingrown Church (Grand Rapids: Zondervan, 1986), 127. 15 Norman Goodall, ed., Missions under the Cross: Addresses Delivered at the Enlarged Meeting of the Committee of the Intemational Missionary Council at Willingen, in Germany, 19 52; with Statements Issued by the Meeting (London: Edinburgh House Press, 1953), 190. 16 George Hunsberger, "Proposals for a Missional Hermeneutic: Mapping the Conversation", disponível em: <h ttp:/ /www.gocn.org/ resources/ articles/ proposals-missional-hermeneu tic-mapping-conversation>. Acesso em: 04/11/2009); Michael W. Goheen, "Continuing Steps toward a Missional Hermeneutic", Fideles 3 (2008): 49-99.
246 A IGREJA MISSION AL NA BÍBLIA Uma igreja dedicada à oração em comunidade A igreja que não aprende a orar com fervor e de maneira comunitária simplesmente não se tornará jamais uma igreja verdadeiramente missional. Assim como Miller, estou convencido da "suprema importância da oração em comunidade para que a comunhão voltada doentiamente para dentro recupere a condição normal do Novo Testamento". 17 Podemos desenvolver uma grande multidão de cristãos entusiasmados com engenhosas técnicas de marketing e programações atraentes, mas essa não será necessariamente uma comunidade que encarna o poder do evangelho. Não há nada glamouroso ou novo nisso; a oração é essencial para a missão da igreja porque esta é a missão de Deus. Sabemos disso, mas nossa tendência humanista é depender de nossos próprios recursos e priorizar o planejamento à oração. De alguma maneira temos de quebrar o poder dessa idolatria e realmente crer que esta é a missão de Deus. Três imagens me ajudaram a compreender a importância da oração para a missão da igreja. A primeira é a imagem que João Calvino tinha da oração: uma pá que escava os tesouros escondidos e enterrados indicados pelo evangelho. 18 Todas as facetas e os benefícios da salvação de Cristo nos são concedidos - individualmente e comunitariamente - por meio da obra do Espírito à medida que os desenterramos por meio da oração. Seguindo Calvino, o Catecismo de Heidelberg afirma que "a oração é a parte mais importante da gratidão que Deus requer de nós" e, então, faz a afirmação surpreendente de que "Deus concede sua graça e o Espírito Santo apenas para aqueles que incessantemente oram e gemem no seu interior, clamando a Deus por esses dons e lhe agradecendo por eles". 19 A segunda é a imagem militar de uma posição estratégica descrita por Andrew Murray. 20 Uma posição estratégica é um lugar no campo de batalha que precisa ser tomado e mantido a todo custo para vencer a batalha. Por exemplo, Wellington reconheceu que Napoleão era um adversário formidável que teria de enfrentar e entendeu que tomar e conservar em seu poder a casa de determinada fazenda localizada estrategicamente no campo de batalha seria a chave para a vitória. Ele orientou suas tropas para esse fim, tomou a casa e a manteve sob seu domínio, e como resultado triunfou. A posição estratégica da oração precisa ser tomada e 17 C.}. Miller, Outgrowing the Ingrown Church, 100. 18 John Calvin, Institutes o/ the Christian Religion 20.3, ed. John T. McNeill, trad. Ford Lewis Battles (Philadelphia: Westminster), 850-51. [Edição em português: As Institutas, trad. Waldyr Carvalho Luz, São Paulo, Cultura Cristã, 1985.] 19Heidelberg Catechism, Lord's Day 45, Q!XA 116. 20 Andrew Murray, 7he Prayer L ife: 7he Inner Chamber and the Deepest Secret o/ Pentecost (Grand Rapids: Zondervan, s.d.), 27.
COMO SERIA UMA IGREJA MISSIONAL HOJE? 247 mantida em nossa batalha espiritual (Ef 6.18-20) para que não sejamos aprisionados pelos espíritos de nossa cultura. Finalmente, Miller fala da oração de linha de frente em oposição à oração de manutenção. A oração de manutenção destina-se simplesmente a manter a vida existente da igreja. Uma reunião de oração de linha de frente anseia para que Deus aja de modo a transformar vidas, crê que ele pode fazê-lo e por isso espera confiantemente pela mudança, orando fervorosamente por essa ação poderosa. Esses tipos de períodos de oração precisam ser preparados e conduzidos com muita paciência e humildade, mas também de forma claramente intencional. O ingrediente mais importante serão líderes que aprendem eles próprios a orar e liderar pelo exemplo. Muitas orações são voltadas para dentro, para as nossas próprias necessidades, carecendo também de qualquer expectativa de que D eus fará alguma coisa. Por isso, a oração se torna mecânica e rotineira. Muitas vezes falta-lhe o lugar de destaque e o tempo em nossos cultos, reuniões de pequenos grupos ou reuniões de liderança. Líderes que querem imprimir esse ritmo, podem fazê-lo priorizando a oração, separando períodos generosos de tempo para isso e sendo modelos da oração que denota expectativa e que é voltada para fora nos cultos públicos e nas reuniões de pequenos grupos. Seria fácil presumir que nossa falta de oração se deve simplesmente a uma fraqueza. Murray ressalta esse perigo quando afirma que a falta de oração é "considerada meramente como uma fraqueza. Fala-se tanto a respeito de falta de tempo e todos os tipos de distrações que a profunda culpa dessa situação não é reconhecida". 21 Uma vida de oração saudável na igreja começa com confissão, chamando nossa falta de oração daquilo que ela é- pecado - e encontrando perdão e renovação. Uma igreja empenhada em viver como uma comunidade de contraste De uma vida comunitária arraigada no evangelho que descobre o poder salvífico de Deus na adoração, na pregação e na oração resultará uma comunidade que encarna a nova vida do reino de Deus em meio à sua própria cultura. Somos integrantes de nossa cultura e, no entanto, como uma comunidade de contraste, desafiamos os espíritos religiosos que são incompatíveis com o reino de D eus. ~e rosto teria uma comunidade de contraste no século 21? A lista a seguir traduz o que creio serem algumas das tendências espirituais mais relevantes de nossa cultura que a igreja precisa desafiar e tratar de forma 21 Ibid., 17.
248 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA satisfatória em sua própria vida. Em outras palavras, essa lista é altamente contextual: assim deve ser uma igreja fiel ao evangelho nesse contexto em particular, como uma comunidade alternativa atraente em contraste com as tendências religiosas da cultura ocidental e empenhada em suprir as necessidades geradas por essas tendências. A quais tendências espirituais na nossa cultura temos de nos opor? O que essas tendências espirituais revelam sobre a fome espiritual de nossos contemporâneos para os quais nossa vida pode ser boas-novas? Como ilustração, cito brevemente sete características. Uma comunidade de contraste deve ser uma comunidade de justiça em um mundo de injustiça econômica e ecológica. As estatísticas da injustiça global econômica e ecológica são alarmantes. O povo de Deus, vivendo no novo mundo de Deus, mundo de justiça e de shalom, não pode ser um povo indiferente a esses problemas, mas deve buscar formas de encarnar e buscar a justiça de acordo com o evangelho. Uma comunidade de contraste deve ser uma comunidade de generosidade e simplicidade ("isso é szificiente'') em um mundo consumista. Steven Miles afirma que "o consumismo [ ... ] é possivelmente a religião do final do século 20" _22 Nesse contexto global, os membros da comunidade cristã precisam desenvolver um éthos de generosidade extravagante com seus recursos financeiros e também com o seu tempo e sua hospitalidade. Uma vida de simplicidade, de ter o suficiente, estará na contramão dos estilos de vida da cultura ocidental cada vez mais dominados pelo consumismo. Será que os cristãos podem oferecer as boas-novas de um Deus generoso se a vida que vivem é basicamente igual à dos seus contemporâneos? Uma sociedade de contraste deve ser uma comunidade de pessoas que contribuem financeiramente de modo generoso em um mundo egoísta que busca os seus próprios direitos mais do que os dos outros. A cultura ocidental é uma cultura que gira ao redor do próprio eu. A política é estabelecida em torno de direitos individuais e a vida econômica é moldada por interesses econômicos particulares. Hoje testemunhamos o fruto podre dessa prioridade de nossa cultura: o egoísmo que é apático à necessidade humana, o narcisismo absorto em si mesmo, um profundo sentimento de achar-se no direito sempre, uma vitimização que se recusa a aceitar responsabilidade pessoal e a obsessão pelos próprios direitos, pela autoestima e pela realização pessoal. Uma sociedade de consumo nos educa a pensar primeiro e primordialmente nas nossas próprias necessidades. Numa cultura que está voltada para si mesma, a comunidade cristã precisa seguir Jesus, que ofereceu a própria vida no serviço abnegado pelos outros. Uma vida de entrega sacrificial que se consome em favor das necessidades dos outros serviria como poderoso testemunho para o mundo. 22 Steven Milles, Consumerism as a liVtzy of Life (Thousand Oaks, CA: Sage, 1998), 1.
COMO SERIA UMA IGREJA MISSIONAL HOJE7 249 Uma comunidade de contraste deve ser uma comunidade que testemunha humilde e ousadamente da verdade em um mundo de incertezas. O mundo confiável e previsível do Iluminismo ruiu. A incerteza, o relativismo, o pluralismo e a desconfiança caracterizam o astral cultural dominante. Nesse contexto, como a comunidade cristã pode ser luz? O ponto de início precisa ser um testemunho corajoso da verdade das boas-novas de Jesus Cristo. É necessária a convicção profunda de que essa é a verdadeira história do mundo para todos e de que essa história é uma história libertadora. Em um éthos de desconfiança, em que todas as afirmações da verdade são tidas como inerentemente opressivas e interesseiras, é importante que a igreja seja profundamente humilde no seu entendimento da verdade. Não há espaço algum para incertezas a respeito da verdade que está em Jesus; porém, há espaço de sobra para a humildade a respeito de nossa compreensão dessa verdade. Será essencial em nosso mundo manter-se firme tanto na humildade como na ousadia. Além disso, não devemos voltar para a noção grega da verdade como ideia imutável, nem ao evangelho como uma dessas proposições teológicas que estão acima da história. Em vez disso, o evangelho é um anúncio daquilo que Deus fez em uma pessoa, bem como nos eventos da história que dão forma à compreensão da história cósmica. Esse tipo de abordagem narrativa oferece uma maneira eficaz de diálogo com adeptos de outras religiões sem comprometer a validade universal do evangelho. Uma comunidade de contraste deve ser uma comunidade de esperança em um mundo desiludido e saturado pelo consumo. A cultura ocidental está se tornando uma cultura cada vez mais desesperançada. Tememos o futuro diante de perigos militares, ecológicos e econômicos que ameaçam a nossa existência. Suspeitamos de quaisquer histórias que aleguem conhecer a direção que a história universal está tomando. Nossa cultura de riqueza e consumismo nos ofereceu uma variedade de bens e de experiências para abafar nosso desencantamento. E assim submetemos nossa vida ao presente. Recolhemo-nos no entretenimento ou buscamos distração em novas experiências ou em inovações tecnológicas para aliviar nossa vida cada vez mais vazia. Perdemos o sentido da história e do futuro, e isso nos leva a ter um senso diminuto de esperança. A esperança produz um senso de propósito pelo qual vale a pena viver e morrer, e justamente por isso a esperança é tão importante no Novo Testamento. Uma comunidade de esperança e com propósito é luz em um mundo que afirma de diversas maneiras: "Não há futuro pelo qual valha a pena viver". Uma comunidade de contraste deve ser uma comunidade de alegria e gratidão em um mundo hedonista que busca freneticamente o praze1: A confissão de fé contemporânea Our World Belongs to God ["Nosso mundo pertence a Deus"]
250 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA capta algo importante ao descrever o resultado do hedonismo em nossa cultura atual: "Ao buscarmos o prazer, perdemos o dom da alegria". 23 Somos incapazes de viver com gratidão pelos inúmeros presentes que recebemos diariamente da mão de Deus. Construímos uma cultura na qual a demanda crescente pelo consumo de experiências é igual, se não maior, do que a demanda por bens. É uma cultura hedonista que busca freneticamente o prazer em viagens, novas formas de tecnologia, férias, aposentadoria, entretenimento etc. No entanto, encontrar verdadeira alegria e satisfação nessa busca frenética é tão ilusório quanto tentar segurar fumaça. A verdadeira alegria é alcançada quando vivemos da maneira como nosso Criador nos fez para viver. Finalmente, uma comunidade de contraste deve ser uma comunidade que experimenta a presença de Deus em um mundo secular. É possível que o termo "secular" seja o melhor adjetivo para descrever a cosmovisão humanista que está no cerne da cultura ocidental. Além de qualquer outra coisa que esse termo possa indicar, ele descreve uma cultura destituída da presença de Deus. A cultura ocidental desenvolveu sua cosmovisão com base em um mundo tido como um conjunto fechado de relações de causa e efeito que pode ser conhecido por meio da razão científica e explorado pela tecnologia. Se Deus existe, ele existe fora dessa caixa fechada e, infelizmente, a comunidade cristã muitas vezes amoldou sua teologia a esse modelo deísta. Paulo afirma que, se vivemos na história bíblica, é em Deus que nós vivemos, nos movemos e existimos (At 17.28). Os salmistas viam a mão de Deus em cada aspecto da natureza e da história. O cardeal Newman diz acertadamente que Deus "envolveu-se tanto com [a criação], que a carregou em seu próprio coração, por meio de sua presença nela, de sua providência para com ela, de suas impressões sobre ela e de suas influências por meio dela, de modo que não podemos contemplá-la plena e verdadeiramente sem que, em alguns aspectos, estejamos contemplando a ele". 24 Uma igreja que pode ser treinada para ver a obra de Deus na criação, seu cuidado providencial sobre ela e seu governo sobre a história, e ainda sua obra de renovação no Espírito poderá oferecer o tipo de mundo "sagrado" tão desejado pela espiritualidade pós-moderna que acabou se desiludindo com o desencantamento científico do mundo secular e que ainda não tem como saciar esse anseio. Para que os nossos contemporâneos creiam no evangelho, precisamos manifestar, como igreja, a salvação do reino de maneira mais atraente. Friedrich 23 Our Wodd Belongs to God (2008), par. 14; (1987), par. 15. As duas versões, de 1987 e de 2008, podem ser encontradas em: <http://www.biblicaltheology.ca/living-at-the-crossroads/articles>. 2 ''John Henry Newman, 7he Idea ofa Univenity (London: Longmans, Green, 1923), 50-51.