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A Igreja Missional na Biblia - Michael W. Goheen

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Published by giovane.bonotto, 2023-06-29 12:51:22

A Igreja Missional na Biblia - Michael W. Goheen

A Igreja Missional na Biblia - Michael W. Goheen

JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 101 a linguagem de cumprimento: os últimos dias prometidos pelos profetas estão presentes em Jesus. Encontramos essa linguagem também em Lucas: depois de citar, na sinagoga em Nazaré, a profecia de Isaías relativa ao Messias e sua salvação vindoura (Is 61.1,2),Jesus diz à congregação reunida: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir" (Lc 4.21). Essa é a linguagem não de promessa futura, mas de realização presente; a esperança se tornou realidade. No entanto, muito do que Jesus diz torna evidente que o reino ainda está no futuro: ele ensina seus discípulos a orar que o reino venha no futuro (Lc 11.2); ele fala de um futuro banquete do reino (Lc 13.28-30); e ele ensina sobre entrar no reino no fim dos tempos (Mt 7.21). Ambas as correntes aparecem lado a lado no ensino de Jesus: o reino já chegou no presente e ainda está por vir plenamente no futuro. E assim tornou-se comum falar da natureza "já, mas ainda não" do reino: ele já está aqui mas ainda não chegou em sua plenitude. Mas como algo pode já estar presente e ainda não estar presente, "aqui" e "não aqui"? E por que a consumação final é adiada para uma era (agora de dois mil anos) que podemos chamar de "já, mas ainda não"? Essas duas perguntas são importantes ao examinarmos a natureza da comunidade que Jesus reúne. Jesus não se detém para explicar o que ele quer dizer com "reino", sem dúvida porque essa é a esperança comum a todo o Israel. Todos os seus ouvintes teriam compreendido que o reino é a restauração do governo de Deus sobre o mundo inteiro. Porém, além desse simples ponto de concordância, muitas perguntas acerca do reino teriam surgido. A única maneira de entender a que Jesus se refere é prestar atenção nas suas palavras e ações. Jesus descreve o reino de duas maneiras ao menos: (1) como o advento do poder dinâmico da presença de Deus para derrotar os inimigos de seu governo; (2) como a chegada da salvação escatológica retratada como uma esfera em que os seus ouvintes podem entrar e também como um presente que eles podem receber. Essas duas descrições do reino estão intimamente ligadas. Nas palavras e ações de Jesus, o poder divino de libertação e cura se torna presente na história pelo Espírito Santo. Talvez a expressão mais clara disso esteja nas palavras de Jesus aos fariseus: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então o reino de Deus chegou a vós" (Mt 12.28). A poderosa ação do Espírito de Deus presente em Jesus para restaurar e livrar do poder demoníaco torna claro que o reino de Deus chegou. O reino como um "poder dinâmico em ação entre os homens" é o "centro da proclamação [de Jesus] e a chave para toda a sua missão". 3 É o que distingue o ensino de Jesus do judaísmo. Na verdade, uma comparação entre ambos é 3 George Eldon L add,]esus and the Kingdom (Waco: Word, 1964), 135.


102 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA bastante instrutiva.4 No judaísmo, o governo soberano de Deus e o reino universal constituem um fato eterno: "Seu reino dura para sempre". Seu reino "está presente" como uma realidade concreta, aguardando a submissão dos humanos ao seu domínio. O reino "vem" por meio do reconhecimento humano do governo divino. M as o seu reino também virá no futuro, como um evento do fim dos tempos. Então Deus agirá com poder e fará com que seu governo seja visto em toda a terra. No presente, o governo de Deus aguarda a decisão humana; no futuro, Deus agirá soberanamente com poder para concretizar o seu governo. Porém, de maneira contrastante, Jesus proclama que Deus está agindo com poder- agora, no presente- para restaurar o seu governo sobre toda a criação. Qyando Jesus anuncia a chegada do reino de Deus, isso significa que, no Espírito, Deus já está agindo de maneira redentora, estabelecendo ativamente o seu governo no mundo. O reino já não é mais simplesmente um fato atemporal, mas se tornou também local, imediato e imanente em seu efetivo poder salvador. O poder que age em Jesus é dirigido contra tudo que se opõe ao governo bondoso e gracioso de Deus sobre a criação. É por meio do Espírito de Deus que Jesus triunfa sobre o poder demoníaco (Mt 12.28). Mas o poder salvífico de Deus é evidente em outros aspectos além da vitória sobre Satanás. Qyando João começa a duvidar e quer saber se Jesus realmente é o Messias e se de fato o reino chegou, envia seus discípulos para perguntar a Jesus se ele é aquele que deveria vir. Jesus lhes diz para contarem a João que o poder redentor de Deus está de fato operando visivelmente: os cegos veem, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas-novas são anunciadas aos pobres (Lc 7.22). O poder de Deus está presente em Jesus para triunfar sobre todo o mal no mundo. "Tudo o que [Jesus] disse e fez estava diretamente relacionado com a vinda do reino. Ele revogou todas as consequências do mal no mundo: doença, possessão por espíritos cruéis, culpa, religião ritualista e vazia, o sistema de castas de pureza e impureza, escassez de alimentos, a natureza hostil, exploração comercial e morte". 5 A maioria das palavras e ações de Jesus diz respeito à cura da vida humana; nele, Deus está reconduzindo a vida humana a seu pretendido shalom. E. H. Scheffier estudou a palavra "salvação" em Lucas e concluiu que a salvação tem ao 4 lbid., 127-29. 5 Andrew Kirk, A New World Coming: A Fresh Look at the Gospel fo r Today (Basingstoke, UK: Marshall, Morgan e Scott, 1983), 54.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 103 menos seis dimensões: espiritual, física, econômica, política, social e psicológica.6 Em outras palavras, salvação no Novo Testamento é o poder de Deus para curar e renovar todas as dimensões da vida humana: "Salvação envolve a revogação de todas as consequências malignas do pecado, contra Deus e contra o próximo". 7 Mas as obras poderosas de Jesus também apontam para a restauração do restante da criação, além da vida humana. Colin Gunton observa que os chamados milagres naturais- por exemplo, quando Jesus acalmou a tempestade (Me 4.35-41) - são um "restabelecimento combativo do governo de D eus sobre uma criação escravizada ao mal". 8 O reino é, portanto, uma questão de poder, do poder de Deus em Jesus e por meio do Espírito para derrotar o reino do mal em todo o mundo. O ministério do reino de Jesus "desencadeia um ataque amplo contra o mal em todas as suas manifestações. O reinado de Deus chega onde quer que Jesus vença o poder do mal. Naquela época, assim como atualmente, o mal assumia diversas formas: sofrimento, doença, morte, possessão demoníaca, pecado pessoal e imoralidade, a impiedosa justiça própria daqueles que afirmam conhecer a Deus, a manutenção de privilégios especiais de classe, a destruição de relacionamentos humanos. Jesus, no entanto, está dizendo: Embora a miséria humana assuma muitas formas, o poder de Deus também é multiforme". 9 Não devemos permitir que nossa tendência individualista do século 21 nos cegue para as dimensões sociais, políticas e culturais da vinda do reino de Deus em Jesus. O pecado assume formas comunitárias e coletivas, e seu poder corrompe todas as áreas da vida humana. A noção neotestamentária de "principados e poderes" (e.g., Ef 6.12,13) sugere as dimensões sociais e estruturais do pecado. Os "poderes" são aquelas partes originariamente boas da criação que foram absolutizadas- transformadas em ídolos- na vida social humana. Na comunidade judaica, parentesco, lei, tradição e religião - todos elementos positivos da vida criada- se tornaram ídolos a ponto de desfigurarem toda a vida comunitária de Israel. Da mesma maneira, na cultura romana, os ídolos de status, clientelismo, poder político, ordem eficiente e o Estado de direito haviam distorcido a vida cultural. O poder de Deus em Jesus desafia as estruturas injustas e as ordens 6 E. H. Scheffier, "Suffering in Luke's Gospel" (PhD diss., University of Pretoria, 1988), in David Bosch, Tmnsfon ning M ission: Pamdigm Shifts in Theology of Mission (M aryknoll, NY: Orbis Books, 1991), 393 . [Edição em português: M issão Tmns[om1adora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão, trad. Geraldo Korndorfer e Luís M. Sander, São Leopoldo, Sinodal, 2002.] 7 Bosch, Tmnsfonning Mission, 107. 8 Colin Gunton, Christ and Creation (Eugene, O R: Wipf and Stock, 1992), 18. 9 Bosch, Transforming M ission, 32-33.


104 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA idólatras tanto da cultura judaica como da romana. Por exemplo, Jesus confronta a maneira exclusivista com que o nacionalismo corrompeu Israel; ele insiste na inclusão dos marginalizados e desprivilegiados no seu ministério. Sua oposição à idolatria de Israel resulta no seu "desafio consistente a atitudes, práticas e estruturas que tendiam a restringir ou excluir arbitrariamente membros em potencial da comunidade israelita". 10 A vinda do reino, portanto, significa um encontro missionário entre o poder do reino e os poderes demoníacos e idólatras que distorcem as estruturas da sociedade humana. 11 A vinda do reino de Deus significa uma batalha cósmica entre Deus e Satanás pela criação e pela vida humana como um todo. O poder de Deus foi derramado para libertar o mundo inteiro do poder do pecado, da miséria, da morte, da idolatria e do próprio Satanás. Um convite para seguir Jesus é um convite para tomar partido nessa batalha: aliar-se com Deus e experimentar o seu poder redentor. Essa salvação que Jesus anuncia é descrita metaforicamente como uma esfera na qual os seres humanos são convidados a entrar e como um presente que as pessoas são convidadas a receber. 12 As duas imagens são encontradas juntas em Marcos 10.15: "Em verdade vos digo que qualquer pessoa que não receber o reino de Deus como uma criança, jamais entrará nele". Entrar no reino ou recebê-lo significa começar a experimentar o poder de Deus para renovar, curar e libertar a vida humana do pecado e de seu poder. "O reino de Deus, seu governo real, tornou-se dinamicamente ativo na história, criando uma nova esfera de bênção na qual os homens podem entrar". 13 Aqui vemos a conexão entre o reino como já presente e o reino como ainda futuro. O reino de Deus é o poder de Deus em Jesus e por meio do Espírito para derrotar todos os inimigos de sua boa criação 10 Donald Senior; Carroll Stuhlmueller, lhe Biblical Foundations for Mission (Maryknoll, NY: O rbis Books, 1983), 154. [Edição em português: Fundamentos Bíblicos da M issão, trad. Anacleto Alvarez, Santo André, Academia Cristã, 2010.] 11 Hendrikus Berkhof, Christ and the Powen, trad. John H . Yoder (Scottdale, PA: H erald Press, 1962); Walter Wink, Naming the Powen: lhe L anguage if Powa in the New Testament, v. 1 lhe Powers (Philadelphia: Fortress Press, 1984); W ink, Unmasking the Powen: lhe Invisible Forces lhat Determine Human Existence, v. 2 lhe Powers (Philadelphia: Fortress Press, 1986); Wink, E ngaging the Powers: Discemment and R esistance in a Wodd oJ D omination, v. 3 lhe Powers (Minneapolis: Augsburg Fortress Press, 1992). Para uma discussão breve, ver Richard J. Mouw, Politics and the Biblical Drama (Grand Rapids: Eerdmans, 1976; reimpr., Grand Rapids: Baker Academic, 1983), 85-116. 12 D arrell L. Guder, ed., Missional Church: A Vision for the Sending oJ the Church in North America (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), 94-95. 13 Ladd,]esus and the Kingdom, 198.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO. .. 105 para que seu governo sobre toda a vida humana e sobre o universo inteiro possa ser restaurado. O anúncio do reino de Deus significa que o poder salvador de Deus agora está presente, já operante em Jesus por meio do Espírito. O futuro verá a conclusão dessa obra quando o poder salvador de Deus finalmente triunfar sobre o poder satânico, o pecado, o mal, a doença e, enfim, sobre a própria morte de forma derradeira. Essa promessa da vitória final do reino de Deus na era vindoura é certa. O "ainda não" dará lugar a uma vitoriosa consumação. Israel reunido e restaurado para sua missão às nações Abriu-se uma era na história redentora na qual o reino de Deus está aqui, mas aguarda a consumação final. Uma pergunta óbvia é: por que Deus o retarda? A razão, ao que parece, é que essa era "intermediária" é para reunir, primeiro, os judeus e, então, os gentios no reino. A plena revelação do reino é contida para possibilitar, primeiro, a Jesus e, depois disso, ao seu povo renovado testemunhar a chegada da obra de salvação escatológica de Deus a todos os povos. Essa é uma era de ajuntamento e de missão. Os profetas haviam deixado claro que com a vinda do reino os gentios também seriam reunidos ao povo de Deus. Todas as nações experimentariam o poder renovador e a salvação de Deus (Is 2.2,3; Zc 2.10,11). E Jesus afirma com frequência essa visão profética em todo o seu ministério: "Também vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa de Abraão, !saque e Jacó, no reino do céu" (Mt 8.11). No entanto, ao mesmo tempo que afirma essa inclusão das nações, Jesus limita sua própria missão e a de seus discípulos aos judeus: "Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15.24; ver tb. Mt 10.5,6). Como podemos explicar a aparente discrepância entre o ensino de Jesus concernente ao escopo universal do reino e seu foco pessoal em Israel? As limitações do ministério de Jesus a Israel são o cumprimento da profecia do Antigo Testamento; o padrão do plano de Deus precisa ser cumprido. Visto que Deus escolheu Israel para ser luz para as nações, e Israel foi julgado por seu fracasso, o plano de Deus para os últimos dias é, primeiro, reunir e restaurar Israel e, depois disso, atrair os gentios à sua família da aliança. "Estamos lidando com dois eventos sucessivos, primeiro o chamado a Israel, e subsequentemente a incorporação redentora dos gentios no reino do Deus". 14 Era antes de tudo "uma questão de ganhar Israel para o evangelho; e então Israel, crendo, se tornaria luz para as nações". 15 Desse modo, o "aparente particularismo" de Jesus "é uma expressão de 14 JoachimJeremias,]esus' Promise to the Nations, trad. S. H . Hooke (London: SCM Press, 1948), 71. 15 Johannes Munck, Paul and the Salvation if M ankind, trad. Frank Clarke (Atlanta: John Knox Press, 1959), 272.


106 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA seu universalismo- é porque sua missão diz respeito ao mundo inteiro que ele vem para Israel". 16 Para Israel ser luz para as nações, duas coisas precisam acontecer: primeiro, Israel deve ser reunido em uma comunidade, e depois seu povo deve ser restaurado para viver em obediência à Torá de Deus. Ezequiel oferece um vislumbre dos dois estágios da revelação do reino de Deus (Ez 36.24-36; 37.15-28). A tarefa de Jesus está em sintonia com a promessa profética que se inicia com o ajuntamento e a conversão dos judeus. Sua "missão é proclamar a Israel que agora Deus está agindo para cumprir suas promessas e para conduzir Israel ao seu verdadeiro destino". 17 O anúncio do reino significa que o ajuntamento escatológico do povo de Deus está se iniciando para que Israel venha a se tornar um sinal de salvação para as nações. O trabalho de ajuntamento de Jesus começa à medida que ele convida Israel a deixar o seu fracasso e abraçar o reino de Deus, assurnindo assim o seu chamado. Esse ajuntamento de Israel havia sido prometido pelos profetas do Antigo Testamento, especialmente Isaías, Jeremias e Ezequiel, como um prelúdio da abertura da aliança para todas as nações. Durante o período intertestamentário, o ajuntamento do Israel disperso foi esperado como um sinal da chegada da esperança de Israel. Correspondendo a essa esperança, Jesus começa a reunir um povo que experimentará a salvação final do reino. Mas Jesus não é o primeiro a fazê-lo. Na verdade, "[houve] toda uma série de tentativas nessa direção. Não é exagero dizer que toda a vida religiosa judaica contemporânea era fundamentalmente determinada por ela". 18 Isso é evidente, por exemplo, nos fariseus e nos essênios. Mas o que torna o ministério de Jesus único é que ele não reúne um povo simplesmente para que este receba e desfrute da salvação vindoura dos últimos dias; antes, ele reúne um povo que também canalizará essa salvação para as nações. A prática radicalmente inclusiva de Jesus e sua consistente visão universal contrastam frontalmente com a teologia exclusivista "do remanescente fiel" do seu tempo. "O contraste entre Jesus e todas as tentativas de formar um grupo 'remanescente' surge em um ponto bem definido: separação dos gentios". 19 Jesus, portanto, ajunta uma comunidade que assuma o chamado veterotestamentário de ser luz para as nações. Diversas imagens são empregadas nos Evangelhos para descrever esse ajuntamento. A primeira é a do ajuntamento das ovelhas no aprisco. O pano de fundo dessa metáfora é o tema profético do pastor escatológico que reunirá seu rebanho 16 Ibid., 271. 17 Ladd,jesus and the Kingdom, 243. 18 Joachim Jeremias, New Testament 1heology, 171. 19 Ibid., 174.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 107 disperso e o trará de volta ao aprisco no último dia (Jr 23.2,3; 31.10; Ez 34.12). Jesus assume o papel do pastor escatológico e começa a reunir as ovelhas perdidas de Israel, formando com elas um pequeno rebanho ao qual ele dará o reino (Lc 12.32). Porém, "as nações" não são negligenciadas: elas também serão reunidas um dia: "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu também as conduza. Elas ouvirão a minha voz; e haverá um rebanho e um pastor" (Jo 10.16). Uma segunda imagem é a de ajuntar pessoas ao redor da mesa do banquete. Em conformidade com a noção comum no antigo Oriente Próximo de que dádivas divinas são concedidas mediante comida e bebida, os profetas falam da salvação vindoura do reino como um banquete de comida saborosa ("comidas gordurosas", A21) e vinho envelhecido (Is 25.6-9), uma imagem que se torna cada vez mais popular ao longo do período intertestamentário. 20 A imagem é frequentemente invocada no ministério de Jesus, tanto no seu ensino como em suas ações proféticas. Um dos que estavam à mesa resume a compreensão judaica ao dizer a Jesus: "Feliz será aquele que comer no banquete do Reino de Deus" (Lc 14.15, NVI). Na parábola que se segue,Jesus fala a respeito de reunir pessoas para semelhante banquete: os primeiros a serem convidados são os líderes judeus, mas quando eles começam a dar desculpas (Lc 14.18-20) ou simplesmente se recusam a vir (Mt 22.3-5), os servos do rei são enviados para reunir todas as pessoas que puderem encontrar, incluindo os marginalizados. Essa parábola destaca o ajuntamento como a atividade que caracteriza o ínterim que antecede a chegada da plenitude do reino. O reino está preparado: nada resta a ser feito da parte de Deus no que diz respeito à preparação. No entanto, há uma demora entre o anúncio do banquete e seu pleno desfrute. Esse tempo é aproveitado com a alegre tarefa de reunir convidados para a mesa do banquete. Referindo-se a essa parábola,]. H. Bavinck comenta que "esse trabalho consiste particularmente em sair pelos caminhos e atalhos para convidar todos para o banquete nupcial do rei. Pode-se dizer, portanto, que o período intermediário está ocupado com o imperativo de missões, e é o imperativo de missões que dá significado a esse ínterim". Ele menciona ainda que "missões e o ínterim são inseparáveis", e que o ajuntamento que se inicia antes do sofrimento e da morte de Jesus é tratado de maneira muito mais franca após a ressurreição. 21 Uma vez mais, a imagem do banquete enfatiza que não apenas Israel, mas também as nações de 20 Joachim Jeremias, 7he Euchm·istic Wm·ds oJ Jesus, trad. Norman Perrin (London: SCM Press, 1966), 233 n.S. 21 J. H . Bavinck,An Introduction to the Science ofMissions, trad. David Hugh Freeman (Phillipsburg, NJ: P&R, 1979), 32, 34.


108 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA todos os cantos da terra serão reunidas para sentar-se à mesa (Mt 8.11). O ajuntamento das nações no reino de Deus é uma atividade característica do escaton, os últimos dias. Com o início do ministério de Jesus, tem início também o escaton, e os que Jesus ajunta em torno dele se unem a ele no ajuntamento de ainda outros para a salvação no reino de Deus. Esse ajuntamento, no entanto, tem um lado sombrio. A vinda do reino significa também a chegada do julgamento, e todos os que ouvem o convite para o banquete enfrentam a crise da decisão. Muitos rejeitam a mensagem, recusam-se a ser reunidos e estão sob juízo. Os profetas haviam anunciado que os últimos dias trariam o juízo de Deus, começando com Israel (Jr 25.15-29). O juízo de Deus é descrito como fogo purificador que refinaria Israel para que viesse a se tornar um povo fiel (Ml3.1-5); depois disso, as nações gentias entrariam no reino. "O povo de Deus afluirá para o reino de Deus, depois que no grande juízo tiver sido purificado de todos os indignos e dos malfeitores". 22 É assim que Simeão profetiza sobre o menino Jesus: "Este menino está posto para queda e para elevação de muitos em Israel" (Lc 2.34). De fato, muitos "caem", à medida que rejeitam a mensagem do reino por incredulidade. Os Evangelhos estão repletos de parábolas e palavras de advertência de Jesus ao povo de Israel a respeito do que lhes sobrevirá se continuarem em sua incredulidade (e.g., Mt 21.33-44). Está implícita na imagem do ajuntamento a ameaça do juízo para aqueles que se recusam a ser "ajuntados". Jesus fala de nações que virão dos quatro cantos da terra para sentar-se à mesa do banquete dos patriarcas, e então continua com estas sérias palavras: "Mas os cidadãos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes" (Mt 8.12). Sobre a capital de Israel ele diz: "Jerusalém,Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Qyantas vezes eu quis ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus filhotes debaixo das asas, e não quiseste! A vossa casa ficará abandonada" (Mt 23.37,38). Parte do processo de reforma e purificação envolve remover os que se recusam a reconhecer Jesus como Messias: ''A 'restauração' de Israel [ ... ] ocorreu na conversão de (uma parte significativa de) Israel, o que constitui o Israel purificado, restaurado e verdadeiro, do qual os que rejeitaram o evangelho são removidos. Por meio de sua resposta negativa, estes excluíram -se de Israel". 23 Entretanto, muitos em Israel de fato respondem ao convite pela fé, e esses começam a formar o verdadeiro Israel escatológico, o povo do reino, purificado pelo juízo para assumir a tarefa de ser luz para o mundo. 22 Rudolf Schnackenburg, God's R ufe and Kingdom, trad.J. Murray (New York: H erder and H erder, 1959), 220. 23 Bosch, Traniforming Mission, 96.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 109 Para os propósitos da eclesiologia é importante observar o que está ocorrendo aqui. A igreja não está substituindo Israel. Jesus não está fundando uma comunidade novinha em folha. Antes, é o próprio Israel que está sendo purificado e reconstituído. 24 N. T. Wright observa que "Jesus não pretendia fundar uma igreja porque já havia uma, a saber, o próprio povo de Israel. A intenção de Jesus, portanto, era reformar Israel, não fundar uma comunidade completamente diferente". 25 Mais tarde, depois da morte e ressurreição de Jesus, os gentios são incorporados na história e vida de Israel, e essa se torna a comunidade da nova aliança. Qyando Jesus nomeia os Doze, realiza uma ação profética simbólica do início de um Israel renovado e restaurado (Me 3.13-19): "O fato de Jesus dar a doze seguidores um lugar de proeminência, sem falar a respeito deles sentados em tronos para julgar as doze tribos, indica claramente que ele estava pensando na restauração escatológica de Israel". 26 Jesus não era o único judeu de sua época a formar um grupo escatológico de doze pessoas para representar as tribos restauradas de Israel. Um fenômeno parecido ocorre em Qymran, por exemplo, onde o número doze representa o núcleo do Israel restaurado dos últimos dias. Desse modo, o número doze encerra um significado simbólico de um Israel reunido nos últimos dias. 27 E assim, os doze simbolizam que o ajuntamento de Israel em favor das nações foi iniciado: "Os Doze são escolhidos a partir de um número muito maior de discípulos. Eles representam as doze tribos; eles são o início e o centro de desenvolvimento do Israel escatológico restaurado. Todo o discipulado, portanto, está centrado em Israel e no ajuntamento de todo o povo de Deus. Com os discípulos começa a recriação escatológica de Israel, e na recriação de Israel o reino de Deus é revelado". 28 O papel desse Israel reconstituído é descrito por Jesus por meio de imagens do Antigo Testamento que evocam a missão original de Israel.29 Especialmente significativas são as palavras de Jesus no Sermão do Monte que invocam a promessa 24 John P. Meier, "Jesus, the Twelve, and the Restoration of Israel", in R estoration: Old Testament, ]ewish, and Ch1·istian Perspectives, ed.James M. Scott (Boston: Brill, 2001), 385 n.39. Ver também no mesmo volume, R.ichard Bauckham, "The Restoration oflsrael in Luke-Acts", 435-87. 25 N. T. Wright,]esus and the Victmy ifGod(London: SPCK, 1996), 275. 26 lbid., 300. E. P. Sanders comenta: "A expectativa do reagrupamento de Israel era tão difundida, e a memória das doze tribos continuava tão vívida, que 'doze' necessariamente significaria í-estauração' "(Jesus and]udaism [Philadelphia: Fortress, 1985], 98). 27 Ver Ben Meier, "Jesus, the Twelve, and Restoration", in Scott, R estoration, 404. Ver tambémJacob J ervell, Luke and the People if God: A New Look at Luke-Acts (Minneapolis: Augsburg, 1972), 7 5-112. 28 Gerhard Lohfink, D oes God Need the Chw·ch? Toward a 7heology if the People if God, trad. Linda M. Maloney (Collegeville, MN: Liturgical Press, 1999), 131. 29 Joachim Jeremias,]esus' Promise to the Nations, 66-70.


110 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA de que as nações afluiriam a Jerusalém. "Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo de um cesto, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai, que está no céu" (Mt 5.14-16).Juntas, as imagens da luz e da cidade referem-se à "Jerusalém escatológica, a qual - assim predizem os profetas- um dia será estabelecida acima de todos os montes e iluminará as nações com a sua luz (cf Is 2.2-5)". 30 Na missão de Jesus, portanto, Israel está sendo restaurado ao seu chamado original: ser luz para as nações. Qyando o verdadeiro povo de Israel for restaurado, purificado por meio do juízo e receber um novo coração, sua vida brilhará como a luz, e a peregrinação escatológica das nações em direção à comunidade da aliança poderá começar. Israel renovado para viver como luz para as nações O ajuntamento começa quando Jesus anuncia a chegada do reino e instiga ao arrependimento, à fé e ao compromisso de seguir o seu caminho. Os que aceitam tornam-se, portanto, parte dessa comunidade de seguidores de Jesus e recebem as dádivas e as obrigações do reino. Lealdade radical a Jesus Jesus convoca seus ouvintes a "arrepender-se e crer na boa notícia". Os que assim respondem passam a fazer parte do povo de Deus do fim dos tempos. O conceito de fé em nossos dias foi moldado de maneira tão marcante pelo Iluminismo que frequentemente pensamos na fé como um mero assentimento intelectual, e nossa compreensão de arrependimento se individualizou a tal ponto que muitas vezes não significa nada mais do que nos lamentar pelos nossos pecados. Assim, para que possamos realmente entender a ordem original de Jesus, temos de considerá-la no contexto dele. O chamado ao arrependimento é determinado pelo contexto do Antigo Testamento, especialmente pela linguagem do retorno a Deus. Em Deuteronômio, o autor promete prosperidade para Israel nos últimos dias, "quando vocês e os seus filhos voltarem para o Senhor, o seu Deus, e lhe obedecerem de todo o coração e de toda a alma" (Dt 30.2, NVI). Essa promessa se segue imediatamente 30 Lohfink,]esus and Community, 65.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLOGICO ... 111 ao julgamento de Israel (Dt 29.28); a restauração é prometida somente quando o povo de Israel voltar a Deus para servir a sua missão e amá-lo de todo o coração. 31 O povo de Israel deve responder ao convite de Jesus abandonando seus caminhos idólatras, voltando ao Senhor com todo o seu coração e assumindo o compromisso de andar nos seus caminhos. Nesse contexto, parte de seu arrependimento é abandonar o zelo revolucionário e a violência que acompanhavam os ídolos do nacionalismo e voltar a Deus e ao seu chamado de ser Israel em favor das nações. 32 Mas o que é realmente extraordinário no convite de Jesus ao arrependimento é que ele pede aos que voltarem para Deus que o façam comprometendo-se com a completa lealdade e devoção ao próprio Jesus. Comprometer-se com Jesus dessa maneira exige arrependimento acompanhado da fé, crendo "que o Deus de Israel {estava} agindo de maneira a atingir o clímax na vida do próprio ]esus". 33 Consequentemente, o anúncio do reino não transmite apenas informação; ele apela a uma "decisão sem reservas, absoluta". 34 A intimação para arrepender- -se e crer exige oferecer a vida completamente a Jesus, estar disposto a abandonar o próprio lar e família e deixar de lado todas as outras responsabilidades em favor do reino (Lc 9.57-62). Deve-se estar disposto a amar Jesus mais do que qualquer outra pessoa, até a própria família (Mt 10.34-39). Todas as outras lealdades, compromissos, relacionamentos e obrigações devem dar preferência à busca pelo tesouro e pela pérola de grande valor: o reino de Deus presente em Jesus (Mt 13.44-46). Uma comparação entre a noção de discipulado nos Evangelhos e no judaísmo do primeiro século mostra o quanto é radical esse chamado de ligar-se à pessoa de Jesus. David Bosch apresenta uma comparação útil entre as duas concepções de discipulado. 35 No judaísmo, a lei, ou a Torá, está no centro do relacionamento entre rabino e discípulo. A autoridade do rabino está baseada no seu conhecimento da Torá. Jesus espera que seus discípulos renunciem a tudo por causa dele mesmo: ele assume o lugar da Torá, exigindo completa lealdade e devoção à sua pessoa e missão. No judaísmo, além disso, o discipulado é somente um meio para o fim de também tornar-se rabino. À medida que o discípulo de um rabino aprende e domina a Torá, ele se prepara para o momento em que ele mesmo se tornará mestre. O discípulo de Jesus, no entanto, jamais se "forma" para tornar-se rabino. Ele deve permanecer sempre um seguidor, um discípulo de Jesus. Além 3' E.g., Isaías 44.22; 45.22; 55.7. 32 N. T. Wright,]esus and the Victmy ofGod, 250-51. 33 Ibid., 262. 34 L add,]esus and the Kingdom, 294. 35 Bosch, Transforming M ission, 36-39.


112 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA disso, no judaísmo, os discípulos de um rabino são apenas alunos; os discípulos de Jesus são também seus servos, não apenas beneficiando-se intelectualmente do ensino e discernimento formidáveis de seu rabino, mas sujeitando-se à sua autoridade e obedecendo-lhe como a seu Senhor. É importante observar que no Evangelho de Mateus, endereçado aos judeus, embora os inimigos de Jesus se dirijam a ele como "Rabi" e "Mestre", seus discípulos nunca o fazem; eles o chamam "Senhor" (embora Judas use o termo "Rabi" quando trai a Jesus; Mt 26.25,48). Finalmente, os ensinos do judaísmo diferem dos de Jesus em relação ao propósito do discipulado. No judaísmo, o discípulo deve transmitir fielmente os ensinos do rabino, mas os discípulos de Jesus devem estar com Jesus, unir-se a ele em sua missão do reino e ser testemunhas dele- de quem Jesus é e do que realiza (Me 3.14,15). Eles não são somente uma comunidade de aprendizes, mas a vanguarda do povo messiânico de Deus do final dos tempos comprometida em se unir a Jesus na sua missão de ajuntar pessoas. A dádiva do reino Deus chama essa recém-reunida comunidade a fim de ser luz para as nações. Mas como esse Israel restaurado pode ter êxito naquilo que a comunidade do Antigo Testamento, dominada pelo pecado, havia fracassado? Ladd elucida a resposta: "O Reino de Deus nos dá o que exige; caso contrário, não poderíamos alcançá-lo. A justiça que Deus requer é a justiça do Reino de Deus que Deus concede quando vem governar no interior de nossa vida". 36 Deus concede como dádiva as bênçãos e o poder da era vindoura. Com base nessa dádiva, Deus requer uma vida que manifeste esse reino como luz para as nações. Qyais são as bênçãos do reino para o seu povo? A primeira bênção é o relacionamento restaurado com Deus em Jesus, o Cristo. Jesus diz: "E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste" (Jo 17.3). Essa é a visão que os profetas sustentaram que se concretizaria na era vindoura. Jeremias está esperançoso pelo dia em que Israel, do mais pobre ao mais rico, conhecerá o Senhor (31.34). Isaías tem uma visão dos últimos dias quando "a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar" (11.9).João mostra que os seguidores de Jesus são convidados à comunhão íntima que o Filho compartilha com o Pai (14-16). Jesus é único no contexto judaico quando se refere consistentemente a Deus como "Pai". Falar sobre a paternidade de Deus no contexto do Antigo Testamento teria trazido à lembrança noções do 36 George Eldon Ladd, The Gospel of the Kingdom: Popular Expositions on the Kingdom ofGod ( Grand Rapids: Eerdmans, 1959), 79. [Edição em português: O Evangelho do Reino: Estudos Bíblicos Sob?·e o R eino de Deus, trad. Hope Gordon Silva, São Paulo, Shedd, 2008.]


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLOGICO ... 113 Êxodo e de como Deus libertou seu filho (Israel) da escravidão. Aqui o Pai está agindo novamente para libertar o seu povo. 37 Sua escolha do termo "Pai" também aponta para a intimidade que Jesus desfruta com Deus na comunhão e na oração. O Pai de Jesus se torna o Pai de todos os seus seguidores; eles são ensinados a chamar Deus de "Pai", como o faz Jesus. Tornam-se parte de uma nova família. A segunda bênção do reino é o perdão do pecado. O simbolismo implícito na palavra "perdão" no Novo Testamento é de libertação da escravidão ou prisão: Jesus livra seu povo da culpa e do poder do pecado, o que também havia sido prometido pelos profetas do Antigo Testamento. Jeremias, por exemplo, apresenta a promessa de Deus: "Porque perdoarei a sua maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados" (Jr 31.34; ver também Jr 33.8; Ez 36.25,33). Não é de surpreender que os opositores de Jesus perguntem: "Qyem pode perdoar pecados, a não ser Deus?" (Lc 5.21). A terceira bênção do reino é o dom do Espírito e um novo coração. Os profetas aguardavam com interesse por essa dádiva também nos últimos dias. Ezequiel anuncia ambos de uma só vez: "Também vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Também porei o meu Espírito dentro de vós e farei com que andeis nos meus estatutos; e obedecereis aos meus mandamentos e os praticareis" (Ez 36.26,27). Joel promete que o Espírito será derramado (]12.28). Com a chegada do reino, o Pai celestial está pronto a dar o Espírito Santo a todos os que lhe pedirem (L c 11.13). A chegada do reino significa corações novos e circuncidados. Jeremias e Ezequiel situam no coração o fracasso do povo de Israel do Antigo Testamento, e prometem que virá um dia em que Deus lhes dará um coração novo (Jr 31.33; 32.38-40).Jesus exige e oferece um coração novo a Israel, "o que o caracterizaria como o povo restaurado de YHWH. O chamado de Jesus é 'um discipulado caracterizado pela graça divina no qual "a dureza de seu coração" [ J . d"' 38 . . . se na cura a . Todas essas dádivas serão desfrutadas após Jesus concluir o clímax de sua obra- sua morte e ressurreição-, e ao derramar seu Espírito no Pentecostes. O poder dinâmico do reino de Deus evidente no ministério de Jesus capacitará igualmente essa comunidade para ser luz para as nações. 37 N. T. Wright, The Lord and His Pmyer (London: SPCK, 1996), 14-17. 38 N. T. Wright,]esus and the Victory ofGod, 283, citando Ben F. M eyer, The A ims off esus (London: SCM, 1979), 173.


114 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Um modo de vida distintivo Uma dádiva sempre envolve responsabilidade, e o privilégio conduz à obrigação. A dádiva do reino de Deus exige uma vida que encarne a boa notícia de que chegou o poder divino de renovação do fim dos tempos. Jesus gasta uma porção considerável do seu tempo ensinando à sua comunidade de discípulos um modo de vida diferente que servirá como contraste para a cultura ao seu redor e tornará evidente que o reino de Deus já despontou. COMO CARACTERIZAR ESSE MODO DE VIDA DISTINTIVO Estudiosos se debatem com a questão de como contextualizar o ensino ético de Jesus. Alguns o separaram completamente de sua proclamação do reino. Uma interpretação liberal mais antiga, por exemplo, considera a ética de Jesus como um padrão de conduta ideal e atemporal, válido para pessoas em todas as épocas e lugares; segundo essa visão, a estrutura escatológica "do reino" é meramente a casca que envolve um sistema universal de ética. No extremo oposto está a posição de Albert Schweitzer, que interpreta o ensino de Jesus como uma "ética interina", uma ética de emergência a ser empregada por um breve período antes da chegada do reino final. A instrução de Jesus dada a seus discípulos em relação ao correto modo de vida é mais bem entendida no contexto tríplice de escatologia, comunidade e missão. Ela é escatológica: o anúncio do reino é uma mensagem sobre a restauração da vida humana como um todo sob o governo de Deus. A vida dos seguidores de Jesus deve servir como sinal do reino, do poder curador e libertador de Deus que irrompe na história. Como restauração da vida humana, o reino se volta ao plano original que Deus tinha para a humanidade na criação. Uma vez que o reino está por vir no futuro, ele também aponta para frente como um sinal do que está vindo. E como o reino está presente hoje, ele envolve um encontro com outros modos de vida, vividos debaixo de outros senhores. O ensino de Jesus também possui uma firme ênfase comunitária, buscando formar uma comunidade visível e que pode ser reconhecida como um corpo sob o governo de Deus. Lohfink explica isso bem: ''A ética de Jesus não é dirigida a indivíduos isolados, mas ao grupo de discípulos, à nova família de Deus, ao povo de Deus que está para ser reunido. Ela tem uma dimensão eminentemente social". 39 E finalmente, o ensino ético de Jesus é missional. O povo de Deus é chamado a viver da maneira que Jesus o instrui, a fim de que seja luz para outros fora da comunidade, uma cidade sobre um monte, um farol para as nações. 39 Lohfink,jesus and Community, 62.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 11 5 Jesus ensina um modo de vida que não deixa nada intato: "Na exata proporção em que o povo de Deus se deixasse dominar pelo governo de Deus ele seria transformado - em todas as dimensões de sua existência. Ele se tornaria uma sociedade de contraste". 40 Do mesmo modo,JoachimJeremias comenta que "a basileia [reino] reivindica a vida como um todo [ .. .]. Eles próprios [os discípulos] devem ser sinais do reinado de Deus, sinais de que algo aconteceu. A vida deles como um todo deve testemunhar ao mundo que o reinado de Deus chegou. Por meio da vida deles, arraigada e fundamentada no reinado de Deus, o milagre do discipulado, a vitória da basileia, será manifestada (Mt 5.16)".41 JoachimJeremias continua com a observação de que Jesus não dá instruções que dizem respeito a todas as esferas da vida, nem oferece uma teologia moral completa ou normas de conduta. Em vez disso, as exigências de Jesus são sinais e exemplos de como a vida humana como um todo é transformada quando o reino de Deus irrompe em um mundo dominado pelo pecado e pelo mal. O escopo abrangente da instrução de Jesus convida à comparação com a Lei do Antigo Testamento. "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Pois em verdade vos digo: Antes que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará uma só letra ou um só traço da Lei, até que tudo se cumpra" (Mt 5.17,18). O significado de "cumprir" aqui poderia ser simplesmente que os ensinos de Jesus confirmam a permanência da Lei. Porém, como mostra Ladd, provavelmente vai além, significando que a mensagem de Jesus leva à plena expressão a intenção da Lei. 42 Os exemplos que se seguem ao Sermão do Monte mostram como Jesus esclarece a Lei para revelar seu propósito completo (Mt 5.21-48). Semelhantemente, quando os líderes judeus perguntam a Jesus qual é o maior mandamento, ele responde: " 'Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento'. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos" (Mt 22.37-40). A Lei esboçou um modo de vida para o antigo Israel que mostra o que significa amar a Deus e ao próximo em seu contexto. Isso fornece uma importante compreensão do que significa viver como luz para as nações. Jesus aponta para o amor como o desígnio fundamental que Deus tinha em mente para a vida humana com a criação. O amor de Deus pela humanidade é duradouro e universalmente válido, ainda que assuma diferentes formas em contextos culturais diversos. A Lei do Antigo Testamento é uma dessas formas; o 40 Ibid., 72, grifo do autor. 41 Joachim Jeremias, New Testament Theology, 230, grifo do autor. 42 Ladd,]esus and the Kingdom, 280 n.16.


116 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Sermão do Monte recontextualiza a lei do amor de Deus para um novo tempo. Porém, observe-se que nos dois casos o modo de vida que manifesta o amor de Deus é descrito em contraste com as idolatrias da época que corrompem a vida humana. Esses três aspectos do modo de vida que Jesus requer- apontando para o desígnio que Deus tinha em mente para a vida humana com a criação, assumindo forma contextual em vários cenários culturais e posicionando-se contra os ídolos da cultura (dominante)- se unem em um modelo do que significa ser uma comunidade de contraste, um povo que vive como uma cidade sobre um monte, oferecendo luz para o mundo. Podemos ver isso no Sermão do Monte (Mt 5-7), que não é um sistema ético abstrato nem um código moral alienado do contexto cultural; em vez disso, é "um desafio para Israel ser Israel", para viver uma vida de amor no contexto escatologicamente carregado de sua época. Nas Bem-Aventuranças (Mt 5.3-13), Jesus se identifica com o anseio de Israel pelo reino vindouro e por suas bênçãos de bem-estar, herança da terra, justiça e retidão. Porém, ele reinterpreta essa esperança mostrando suas condições prévias: pobreza de espírito, humildade, misericórdia, pureza de coração, atitude pacificadora e sofrimento paciente. Todas essas qualidades estão em oposição à idolatria nacionalista e militarista da época. Elas são "um apelo aos ouvintes de Jesus para descobrirem sua verdadeira vocação como o povo escatológico de YHWH, e para fazê-lo seguindo a práxis designada para eles por Jesus, em vez de seguirem a maneira de outros supostos líderes da época". 43 Jesus lembra seus seguidores da vocação para que sejam uma cidade visível sobre um monte e luz para todas as nações. Ele invoca imagens tradicionais de Israel como sal e luz e refere-se explicitamente à esperança de reunir as nações no Monte Sião (Mt 5.13-16). Tudo isso é o verdadeiro cumprimento daquilo que a Lei e os Profetas sempre haviam previsto; os líderes religiosos daquela época interpretaram mal a história do Antigo Testamento (Mt 5.17-20). O verdadeiro propósito do que Deus ordena na Lei para Israel como um povo é visto nas cinco afirmações antitéticas - "ouvistes o que foi dito [ ... ] eu, porém, vos digo" - relativas a homicídio, adultério, juramentos, vingança e inimigos (Mt 5.21-48). É evidente que os seguidores de Jesus não devem andar no caminho do ódio, da vingança e da violência que caracterizam seus contemporâneos em Israel, mas andar no caminho da misericórdia e do amor. Essas cinco afirmações "seriam percebidas, no ministério de Jesus, como um desafio para uma nova maneira de ser Israel, maneira que encarava a situação presente de tensão nacional e a enfrentava de modo surpreendente e radicalmente novo". 44 43 N. T Wright,jesus and the Victory ofGod, 288-89. 44 Ibid., 290.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO. .. 11 7 No capítulo seguinte de Mateus, Jesus continua a contrastar a vida de sua comunidade com a vida daqueles que vivem ao seu redor. Em três áreas críticas da prática religiosa judaica (dar esmolas, orar e jejuar), Jesus instrui seus discípulos a não seguir o caminho dos judeus (Mt 6.1-18). Deus é Pai (Mt 6.4,6,8,9,14,18), e esse fato deve moldar nossa ajuda aos necessitados e nossa oração e jejum. Os que de fato conhecem o verdadeiro Deus como Pai podem se dedicar àquilo que realmente importa. A vida da comunidade de Jesus deve ser caracterizada pelo amor e pelo anseio pela implantação do reino, e não deve estar comprometida com outros senhores ou preocupações (Mt 6.19-34). A vida dos seguidores de Jesus deve ser caracterizada não pelo juízo e pela condenação, como ocorre na vida dos seus contemporâneos (Mt 7.1-6 ), mas pela oração perseverante a um Pai que conhece as suas necessidades (Mt 7.7-12). Porém, todo esse modo de vida é um caminho difícil e estreito, e não são muitos os que se dispõem a andar nele (Mt 7.13,14). Além disso, muitos falsos mestres virão para desviar do caminho a comunidade recém-reunida de Jesus (Mt 7.15-23). Jesus conclui com uma séria advertência: o modo de vida que ele descreveu é a única maneira de evitar a catástrofe do juízo; somente esse caminho oferece um alicerce inabalável que resistirá à provação de Deus (Mt 7.24-28). Esse breve resumo do Sermão do Monte demonstra que a instrução de Jesus é extremamente contextual. Ele fala claramente contra os ídolos dos judeus e mostra como deve ser uma vida de amor verdadeiro a Deus e ao próximo. A comunidade de Jesus deve encarnar um amor sacrificial em contraste com o ódio e a vingança predominantes no primeiro século - esse amor deve ser estendido inclusive aos seus inimigos. "Ouvistes que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo'. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está no céu" (Mt 5.43-45). ''Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos amaldiçoam e orai pelos que vos maltratam. Ao que te bater numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tomado a capa, deixa que leve também a túnica" (Lc 6.27-29). Hans Küng resume o ensino radical de Jesus com estas palavras: Amor pelos inimigos em vez de sua destruição; perdão incondicional em vez de retaliação; prontidão para sofrer em vez de usar a força; bênção aos pacificadores em vez de hinos de ódio e vingança. 45 Somente vivendo dessa maneira Israel poderá se tornar luz para as nações. 45 Hans Küng, On Being a Christian, trad. Edward Qyinn (Garden City, NY: Doubleday, 1976), 191. [Edição em português: Ser Cristáo, Rio de Janeiro, Imago, 1976.]


11 8 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Há muito mais nos Evangelhos acerca do modo de vida para o qual Jesus chama seus discípulos. João destaca o amor e a obediência como traços essenciais das pessoas dessa comunidade (Jo 15.9-17). Eles devem amar a Jesus assim como Jesus ama o Pai, e esse amor se mostrará na obediência a ele. Eles também devem amar uns aos outros - e essa talvez seja a sua característica mais significativa. Joachim Jeremias descreve o amor como "a lei da vida sob o reinado de Deus". 46 O ato de Jesus de lavar os pés de seus discípulos (que na verdade aponta para a cruz) é uma demonstração palpável desse amor: ele se dá, é sacrificial, está pronto para morrer em favor de outros (Jo 13.1-17). Mateus descreve um novo tipo de discipulado marcado por uma resposta pessoal de obediência à autoridade de Jesus em cinco magníficas seções de ensino47 e um conjunto de "imagens de obediência".48 A vida para a qual Jesus conduz seus seguidores também é definida por reconciliação e perdão. 49 A palavra traduzida por "perdão" aqui significa muito mais do que frequentemente é compreendido. Ela deriva de uma metáfora relativa ao encarceramento; perdão é a libertação ou soltura não apenas da culpa e do poder do pecado, mas também da alienação, hostilidade, exclusão e injustiça. Experimentar o perdão de Deus e praticar o perdão uns com os outros distingue o povo de Deus como uma irmandade reconciliada (Mt 18.21-35). Jesus também personifica a paz e a alegria, e convida o seu povo a viver uma vida de paz (Jo 14.27) e alegria (Jo 15.11). O pano de fundo desses traços característicos é encontrado nos profetas do Antigo Testamento. Paz (shalom) descreve a vida humana na criação como ela deveria ser: uma vida em pleno desenvolvimento e vicejante na qual nossos relacionamentos com Deus, uns com os outros e com a criação não humana são prolíficos, vibrantes e holísticos. Um mundo de shalom é caracterizado por justiça, amor e gratidão. 5° Jesus também convida seus discípulos a encarnar sua alegria. A alegria é um aspecto importante da visão dos profetas do Antigo Testamento acerca do reino vindouro. Isaías aguarda com expectativa o banquete festivo daquele último dia, dizendo: "nós exultaremos e nos alegraremos na sua salvação" (25.9). Jesus convida seus discípulos para "a alegria da era messiânica"51 porque os dias prometidos pelos profetas chegaram. " 6 Joachim Jeremias, New Testament 7heology, 211-14. 47 Mateus 5-7; 10; 13; 18; 24-25. 48Tais como justiça, mandamentos, ser perfeito, distinguir-se, observar ou guardar, produzir fruto e assim por diante. Ver Bosch, Tmnsforming Mission, 65-68. 49 Senior; Stuhlmueller, Biblical Fozmdations for Mission, 148-49. 5 ° Cornelius Plantinga Jr., Not the liMzy Its Supposed to Be: A B1·evimy ofSin ( Grand Rapids: Eerdmans, 1995), 10; Perry B. Yoder, Shalom: 7he Bibles Word jo1· Salvation, justice, and Peace (Nappanee, IN: Evangel, 1998). 51 Joachim Jeremias,]esus' Promise to the Nations, 68.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 11 9 A comunidade de discípulos também deve ser caracterizada pela justiça, como os profetas prometeram acerca do governo do Messias: ''Aqui está o meu servo, a quem sustento; o meu escolhido, em quem me alegro; pus o meu Espírito sobre ele; ele trará justiça às nações" (Is 42.1). Os que seguem o Messias são chamados a buscar primeiro a justiça do reino (Mt 6.33). Mateus em particular destaca essa dimensão da comunidade de Jesus com o uso repetido da palavra dikaiosyne. A palavra tem sido entendida com frequência meramente em termos de "retidão", uma obediência ética do indivíduo, porém há muito mais implícito nela. Justiça envolve corrigir as coisas nas esferas econômica, política e social para que haja harmonia. Justiça tem a ver especialmente com a proteção dos direitos dos pobres, dos fracos e daqueles que estão em situação de vulnerabilidade na sociedade em face das estruturas injustas que favorecem os poderosos (Lc 4.18,19). A comunidade que se forma em torno de Jesus deve ser caracterizada por essa preocupação especial com a justiça. O retrato que Lucas faz de Jesus e da comunidade do seu reino ressalta a preocupação pelos pobres, pelos pecadores e pelos marginalizados na sociedade. 52 A comunhão à mesa radicalmente inclusiva de Jesus ilustra vividamente sua identificação com esses excluídos e quão bem ele os acolhe. Contra o pano de fundo das leis de pureza judaicas - que restringiam severamente a escolha das companhias à mesa -,Jesus escandaliza os líderes da época ao convidar os "perdidos" à sua mesa. Como o banquete é uma imagem popular do reino (Is 25.6-9; Lc 14.15-24), desse modo Jesus torna evidente que os pobres, os pecadores, os doentes, os mendigos e os excluídos pela religião são bem-vindos no reino. Na realidade, o fato de que "o evangelho é anunciado aos pobres" sinaliza que o reino chegou (Lc 7.22); exatamente essa "compaixão que transpõe barreiras"53 deve caracterizar a comunidade recém-reunida de Jesus. Essa preocupação com os pobres e marginalizados contrasta fortemente com o exclusivismo nacionalista de grupos judeus. Jesus inclui entre seus discípulos dois que estão em extremidades opostas do espectro político: zelotes (Simão, Judas) e um cobrador de impostos odiado por seu conluio com as autoridades romanas (Mateus). Jesus acolhe ao menos três grupos de pessoas que geralmente são rejeitadas: as que são marginalizadas por motivo de defeitos físicos (cegos, aleijados, leprosos), traidores e exploradores de Israel (cobradores de impostos) 52 Craig G. Bartholomew; Michael W. Goheen, 7he D 1·ama oJ Scripture: Finding Ow· Place in the Biblical Story (Grand Rapids: Baker Academic, 2004), 143-45. 53 Senior; Stuhlmueller, Biblical Foundations for Mission, 257.


120 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA e inimigos políticos (samaritanos, romanos). 54 Como Donald Senior e Carroll Stuhlmueller observam: Essas associações provocativas de Jesus não são acidentais no seu ministério. O fato de ele estender compaixão, lealdade e amizade ultrapassando limites de exclusão bem definidos era uma parábola em ação, uma maneira de Jesus comunicar vividamente a sua compreensão de Deus e do caráter de seu governo. O cenário que Lucas oferece para as parábolas acerca da misericórdia no capítulo 15 realça esse aspecto: Jesus defende sua amizade e comunhão à mesa com os "publicanos e pecadores" (15 .1,2) contando três parábolas sobre a escandalosa misericórdia do próprio Deus. Tanto as associações que Jesus faz quanto as suas parábolas são afirmações desafiadoras acerca da natureza de Deus que vem para governar um Israel transformado. 55 O Israel transformado de Jesus deve manifestar a mesma compaixão e misericórdia que superam os limites. Esse inclusivismo deve ser uma luz intensa brilhando nas trevas do particularismo nacionalista. Jesus se preocupa não somente com os pobres, mas também com os ricos. Jesus tem muito a dizer aos que são ricos, especialmente no Evangelho de Lucas. Olrem se arrepender verdadeiramente defenderá fervorosamente a justiça econômica, a compaixão para com os pobres e a generosidade. Aqui Zaqueu serve de modelo de como Jesus quer que seu povo viva: ele se arrepende e dá metade de seus bens aos pobres (Lc 19.1-10). Lucas o contrasta com o jovem rico que tem seu coração enredado pela sua grande riqueza (18.18-30). Jesus adverte severamente os ricos que estão mais preocupados com seus bens do que com o reino de Deus (6.24-26; 8.14; 12.13-21) e exorta seus seguidores a serem generosos com os pobres (11.41). Portanto, generosidade, justiça, compaixão e pouco apego aos bens devem caracterizar os seguidores de Jesus. Esses são alguns dos aspectos da vida para a qual Jesus chama seus discípulos, o que eles precisam ser como uma atraente comunidade de contraste. Desde o início da história bíblica, o povo de Deus havia sido chamado para andar nos caminhos do Senhor, para viver de acordo com o propósito e a ordem que Deus tinha em mente para a vida humana com a criação, de ser um sinal indicando para onde Deus está conduzindo toda a história quando o pecado for derrotado e a vida humana for restaurada no reino. Seu povo é chamado a viver a vida que Deus pretende para todos. 54 David Bosch, lhe Church as A!temative Community (Potchefstroom, South Africa: Institute for Reformational Studies, 1982), 15. 55 Senior; Stuhlmueller, Bib!ica/ Foundations for Mission, 14 7.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 121 SOFRIMENTO: O PREÇO A SER PAGO POR VNER DE MODO DISTINTO Qlando a vida humana é restaurada pela graça de Deus, ela sempre contrasta com a vida de uma sociedade moldada por outra fé - e não existe nenhuma sociedade humana cujo modo de vida não seja assim moldado. Isso certamente se aplica a Israel e a Roma, as culturas em meio às quais Jesus forma sua nova comunidade. A sociedade do reino de Jesus deve contrastar claramente com os modos de vida comunitária que não estão em conformidade com a vontade de Deus. Visto que Jesus e seu grupo de seguidores desafiam os falsos deuses das culturas romana e judaica, encontram, em troca, uma reação hostil. Já mencionamos como a comunidade formada por Jesus contrasta com os essênios, os zelotes, os fariseus e os saduceus, e com o exclusivismo nacionalista comum a todos esses grupos. Mas Jesus e seus seguidores também desafiam a cultura romana. J oel Green observa como "os valores e o comportamento aos quais Jesus convida os seus interlocutores em Lucas são incompatíveis com o Império Romano de sua época e até mesmo põem em cheque a sua existência". 5 6 Bem no meio da "sagrada" ordem social e política romana, Jesus forma uma comunidade cuja simples existência desafia tanto a legitimidade de Roma quanto também os "deuses" que sustentam o ideal cultural de Roma. Green observa adiante que a "nova comunidade que é estabelecida por Jesus é, portanto, contracultura! em seu sentido mais profundo. Suas práticas como uma comunidade, se seguissem a Jesus, tomariam um rumo radicalmente diferente da ética romana e rejeitariam sua origem divina" Y Newbigin articula com clareza essa dinâmica: ''A igreja, como um tipo de comunidade totalmente novo, precisa desafiar a antiga forma de comunidade, o que suscita uma tensão dolorosa. É parte da missão da Igreja suscitar essa tensão". A igreja não deve ser dominada pelas estruturas sociais pecaminosas de sua cultura, mas também não deve se afastar dessas estruturas: "Ela não deve evitar [a tensão], seja buscando negar e repudiar todos os laços de afinidade, seja rendendo-se a eles e permitindo que tenham o controle. Ela deve demonstrar seu caráter como algo de uma ordem completamente diferente". 5 8 O desafio à ordem prevalecente resultará em sofrimento. "Nenhuma sociedade humana se une a outra sem uma base de crenças e costumes comuns. Nenhuma sociedade pode permitir que essas crenças e práticas sejam ameaçadas além de 56Joel Green, The Theology ofthe Cospe! ofLuke, NewTestamentTheology (Cambridge: Cambridge University Press, 1995), 119. 57 Green, Theology of the Cospe! of Luke, 121. 58 Lesslie Newbigin, A South India Dimy (London: SCM, 1951), 49; ed. norte-americana: That Ali May Be One: A South India Diary - The Story oJ an Experiment in Christian Unity (New York: Association Press, 1952), 51.


122 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA certo ponto sem reagir em defesa própria[ .. .]. O Novo Testamento enfatiza que os seguidores de Cristo devem contar com o sofrimento como sinal característico normal de seu discipulado, e também como uma das formas características de seu testemunho."59 Qyando crenças fundamentais colidem, a cosmovisão dominante luta para se tornar a cosmovisão exclusiva, exercendo enorme pressão sobre comunidades dissidentes para que abandonem sua singularidade e se conformem à comunidade dominante. Dissidentes têm de optar entre acomodar-se ou viver e praticar fielmente o chamado inclusivo do evangelho e pagar o preço por sua dissidência com o sofrimento. O sofrimento, portanto, é uma característica de uma comunidade missional fiel. Jesus adverte seus seguidores que, se permanecerem fiéis a ele, podem contar com tempos difíceis: "Se o mundo vos odeia, sabei que primeiramente odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas o mundo vos odeia porque não sois do mundo; pelo contrário, eu vos escolhi do mundo. Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: O servo não é maior que o seu senhor. Se perseguiram a mim, também vos perseguirão" (Jo 15.18-20). Nicholas Wolterstorff comenta acertadamente a respeito dessa passagem: "É preciso que se diga francamente, com profundo pesar, que, como Cristo advertiu os seus discípulos, no fim dos tempos haverá separação e até hostilidade entre a igreja assim entendida e a sociedade ao seu redor. Porque essa sociedade circundante vive de acordo com outros valores; ela possui outros objetivos e adora outros deuses". 60 A VIDA DO REINO: UMA DÁDIVA DO ESPÍRITO POR MEIO DA ORAÇÃO Mas quem poderia viver dessa forma? Ninguém! E assim voltamos ao nosso ponto de partida. No reino de Deus,Jesus oferece o que exige: o reino de Deus é tanto dádiva quanto ordem. 61 O reino de Deus é antes de tudo o poder de Deus para restaurar e libertar a vida humana do poder do pecado. O Espírito veio de acordo com a promessa dos profetas e está em ação renovando corações humanos. Mas o poder do evangelho, a obra do Espírito e a renovação do coração vêm somente como resposta de Deus à oração e por causa de nossa permanência em Cristo. 59 Lesslie Newbigin, Tl·initm·ian Faith and Today's Mission (Richmond: John Knox Press, 1964), 42. 60 Nicholas Wolterstorff, Educatingfor Shalom: Essays on Christian Higher Education, ed. Clarence W. Joldersma; Gloria Goris Stronks (Grand Rapids: Eerdmans, 2004), 7. 61 Herman N. Ridderbos, 7he Coming of the Kingdom, trad. H. de Jongste, ed. Raymond O. Zorn (Philadelphia: P&R, 1962),241-59.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 123 A respeito da importância da oração, Stephen Smalley identifica um tema central no evangelho de Lucas: o reino vem à medida que o Espírito age em resposta à oração. 62 Lucas enfatiza que o próprio Jesus se devota à oração e também ensina seus discípulos a orar. Além disso, as orações de Jesus se encontram em pontos críticos do desdobramento do reino de Deus.63 Como observa Oscar Harris: "Lucas concebe a oração como um importante meio pelo qual Deus dirige o curso da história redentora [ ... ]. Essa é a sua ideia dominante e distintiva da oração". 64 Lucas também conecta a oração com a obra do Espírito. G. W H. Lampe ressalta que "um dos aspectos mais característicos do ensino de São Lucas" é sua insistência em que a oração é "o meio pelo qual a energia dinâmica do Espírito é captada".65 E é por meio do Espírito que vem o reino de Deus. Como James D. G. Dunn observa: ''A questão não é tanto onde Jesus estiver, ali estará o reino; mas onde o Espírito estiver, ali estará o reino". 66 Com essas ligações estreitas em Lucas entre oração, o Espírito e a vinda do reino, Smalley conclui que Lucas "considera a oração de petição como o meio pelo qual o poder dinâmico do Espírito de Deus passa a atuar concretamente na história para os propósitos da salvação. Além disso, a compreensão teológica de Lucas é tal que ele também vê a atividade do Espírito entre os homens e a chegada do reino de Deus como alinhados, talvez até sinônimos. Onde está o Espírito, ali está o reino".67 ~ando Jesus reúne um grupo de discípulos e os convida a viver a vida distintiva do reino de Deus, ele também lhes ensina a orar. A vinda do reino é uma questão de poder - o poder de Deus por meio do Espírito Santo - para restabelecer o governo de Deus. É um trabalho do Espírito na comunidade para moldar a vida que vivem juntos e, por meio das palavras e ações deles, fazer deles instrumentos eficazes do reino vindouro. Seres humanos não constroem o reino de Deus; é uma obra de Deus. E é assim que a oração, invocando a ação de Deus entre os discípulos, é central para a comunidade que Jesus forma. Qyando os discípulos encontram Jesus orando, pedem-lhe que lhes ensine a orar (Lc 11.1). A oração que ele lhes propõe é uma oração relacionada ao reino, já que esse é o foco de todo o ministério de Jesus: "É necessário que eu anuncie o 62 Stephen S. Smalley, "Spirit, Kingdom and Prayer in Luke-Acts", Novum Testamentum 15, n. 1 (January 1973): 59-71. 63 Peter T. O'Brien, "Prayer in Luke-Acts", Tyndale Bulletin 24 (1973): 111-27. 64 Oscar G. Harris, "Prayer in Luke-Acts: A Study in the Theology ofLuke" (PhD diss., Vanderbilt University, 1966), 2-3. 65 G. W. H . Lampe, "The Holy Spirit in the Writings of St. Luke", in Studies in the Gospels: Essays in Memmy ofR. H Lightfoot, ed. D. E. Nineham (Oxford: Oxford University Press, 1955), 169. 66James D. G. Dunn, "Spirit and Kingdom", Expository Times 82 (1970-71): 38. 67 Smalley, "Spirit, Kingdom and Prayer", 68.


124 A IGREJA MISSIONAL NA 8Í8LlA evangelho do reino de Deus também às outras cidades; pois foi para isso que fui enviado" (Lc 4.43). Como a oração do próprio Jesus está conectada ao reino vindouro, ele ensina seus discípulos a orar pelo reino vindouro, e essa oração (Mt 6.9-13; Lc 11.2-4) pode ser parafraseada desta maneira: Qye venha o teu reino para que o teu nome seja santificado em toda a terra como os profetas prometeram. Qye venha o teu reino para que a tua vontade seja realizada na terra. Qye venha o teu reino para que a terra se encha novamente de prosperidade, os famintos sejam alimentados e as necessidades das pessoas, supridas. Qye venha o teu reino para que o mundo seja liberto do pecado, e o perdão inunde a terra. Qye venha o teu reino; e quando ele deparar com poderosa resistência espiritual, guarda-nos de sucumbir à tentação e à provação, ao poder do maligno. Qye o teu reino venha plenamente um dia - e que já agora haja sinais e evidências de seu poder. Enquanto eles aprendem a orar essa oração, ao menos duas coisas acontecem com os discípulos. A primeira: o "coração deles [é] inflamado com um desejo fervoroso e ardente de buscar, amar e servir" a Cristo e seu reino. 68 Eles são capacitados a "respirar a vida e o amor de Jesus e a torná-los seus". 69 Ou, nas palavras de Barry Webb: "Qyando Jesus ensinou seus discípulos a orar para que o reino de Deus viesse, ele lhes ensinou mais do que orar: ele abriu seu coração para eles e os desafiou a serem inspirados pela mesma visão que ele tinha, e pela qual ele iria para a cruz. Porque a vida e o ministério de Jesus estavam completa e intimamente associados com o reino de Deus". 70 Mas, em segundo lugar, a oração também é o meio pelo qual o poder do reino se manifesta na vida deles. O reino vem quando o Espírito opera em resposta à oração. Em resposta ao pedido "venha o teu reino", Jesus promete "quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo aos que o pedirem" (Lc 11.2,13). Participando no ajuntamento escatológico: palavras, ações e oração Jesus desafia sua comunidade reunida a participar mais intencionalmente do ajuntamento escatológico que ele iniciou. Isso é explicitado no Evangelho de Marcos 68 John Calvin, Institutes if the Christian Religion 20.3, ed. John T. McNeill, trad. Ford Lewis Battles (Philadelphia: Westminster, 1960), 852. Calvino usa uma imagem maravilhosa, comparando a oração a uma pá que escava tesouros escondidos e enterrados apontados pelo evangelho (850-51). 69 N. T. Wright, Lord and His Praye1·, 47. 70 Barry G. Webb, The Message if Zechariah: Your Kingdom Come, The Bible Speaks Today Series (Downers Grave, IL: InterVarsity, 2003), 19.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 125 quando Jesus diz a Simão e André: "Venham comigo, que eu ensinarei vocês a pescar gente" (1.17, NTLH). O mesmo propósito também fica claro quando Marcos relata a razão de Jesus ter escolhido os Doze: para que "estivessem com ele, e os enviasse a pregar, e para que tivessem autoridade para expulsar demônios" (3.14,15). Rudolf Pesch (embora reduza a noção de missão a essa atividade intencional de palavra e ação para "pescar gente") afirma: "O chamado dos discípulos é um chamado para seguir Jesus e ser separado para atividades missionárias. Chamado, discipulado e missão são indissociáveis". 71 Jesus envia seus doze discípulos para proclamar a chegada do reino de Deus e para demonstrar sua presença poderosa por meio de ações (Mt 10; Lc 9.1-6). Mais tarde, Jesus envia setenta (e dois) com a mesma tarefa (Lc 10.1-24). Três observações nessas narrativas de "comissionamento" são importantes para a compreensão da identidade e do papel dessa comunidade do reino. Em primeiro lugar, os números dos discípulos enviados por Jesus são importantes: Jesus primeiro envia doze e depois disso setenta (e dois). 72 Esses números são simbólicos. Vimos que os doze apóstolos (os alicerces do Israel escatológico) representam as doze tribos do antigo Israel. Portanto, o envio dos Doze sugere simbolicamente que a mensagem do reino é para todo o Israel. Os Doze formam o núcleo em torno do qual o restante de Israel deve ser reunido. Semelhantemente, quando Jesus envia os setenta (e dois), isso representa simbolicamente o propósito universal que Jesus tem para a sua mensagem. De acordo com o pensamento rabínico, com base na lista das nações em Gênesis 10, setenta (e duas) nações representam o mundo inteiro. "Qrando, portanto, Jesus envia setenta mensageiros com sua palavra e no seu poder contra o pano de fundo de ideias da época, isso suscita a reivindicação simbólica para que não somente Israel, mas também toda a humanidade ouça e obedeça, embora a missão dos Doze houvesse sido restrita expressamente a Israel (cf. Mt 10.5)". 73 A mensagem é primeiro para os judeus, que devem ser reunidos e restaurados à sua vocação missional. Mas o envio dos setenta (e dois) indica que esse ajuntamento irá, no final das contas, incluir todas as nações. 71 RudolfPesch, "Berufung und Sendung, Nachfolge und Mission: Eine Studie zu Mk 1,16-20", Z eitschrift .fiir katholische 1heologie 91 (1969): 15, citado in Bosch, Transforming M ission, 36. 72 Os manuscritos gregos diferem: alguns mencionam setenta e outros, setenta e dois. Isso pode refletir a diferença entre o Antigo Testamento hebraico e a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, no número de nações em Gênesis 10. A Septuaginta cita setenta e duas nações, e o texto hebraico, setenta. De todo modo, o simbolismo permanece o mesmo. 73 Karl Heinrich Rengstorf, "Érná", in 7heological D ictionmy of the N ew Testament, ed. Gerhard Kittel, trad. Geoffrey Bromiley (Grand Rapids: Eerdmans, 1964), 2:634.


126 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA A segunda observação nas narrativas de comissionamento se refere à metáfora da colheita. Jesus diz aos setenta (e dois): ''A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos; rogai, pois, ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita" (Lc 10.2). A colheita é um símbolo bem estabelecido que indica a nova era/4 surgindo com frequência no Antigo Testamento e na literatura intertestamentária. Não é de surpreender, portanto, que a imagem de um ajuntamento escatológico como uma colheita também seja comum no Novo Testamento (e.g., Lc 3.17).Junto com outras imagens de ajuntamento- pessoas à mesa do banquete e ovelhas de um rebanho - a imagem de juntar e recolher a safra no dia da colheita retrata a vinda do povo de Deus ao seu reino que ocorrerá nos últimos dias. Jesus diz que esses dias chegaram. Lucien Legrand observa que o uso que o Antigo Testamento e o período intertestamentário fazem dessa imagem da colheita tem três características em comum: a colheita é escatológica (ou seja, futura); é um tempo de juízo e matança; e (no período intertestamentário) é confiado a anjos. Jesus toma essa imagem e a modifica: a colheita escatológica se inicia no presente; é um tempo de regozijo e graça; e é confiado a seres humanos que agem como colaboradores de Deus. 75 Os últimos dias já começaram, e os que Jesus reúne ao seu redor se unem a ele no ajuntamento de ainda outros para a salvação trazida pelo reino de Deus. A observação final sobre o envio dos discípulos de Jesus se refere aos meios que lhes são dados para recolher a colheita, que são palavras e ações. Eles devem "proclamar o reino de Deus" e "curar os doentes, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos, expulsar os demônios" (Lc 9.2; Mt 10.7,8). O reino de Deus não vem com violência ou força militar (como muitos judeus esperavam), mas em fraqueza. Os discípulos são indefesos, como cordeiros entre lobos. Sua vulnerabilidade é ilustrada no fato de que eles não devem levar consigo um bordão (que poderia servir como arma). Eles vêm com as boas-novas de paz, e seu traje simbólico deve exemplificar sua mensagem. A eles são dados somente uma mensagem e ações que confirmarão sua autenticidade. À primeira vista, esses meios realmente parecem ser muito frágeis. Mas eles trazem poder, porque o Espírito agora está presente para produzir o fruto do reino. As ações são sinais de que o poder de Deus irrompeu na história- e, portanto, os poderes do pecado e de Satanás estão sendo desafiados. A própria mensagem 74 Joachim Jeremias, lhe Parables of Jesus, 2. ed. rev. (New York: Charles Scribner's Sons, 1972), 118-19. [Edição em portugês: As Parábolas de Jesus, trad. João Rezende da Costa, São Paulo, Paulus, 2004, 9. ed.] 75 Lucien Legrand, Unity and Plurality: Mission in the Bible, trad. Robert R. Barr (Maryknoll, NY: Orbis Books, 1990), 60.


JESUS REÚNE UM POVO ESCATOLÓGICO ... 127 traz poder para levar a efeito o governo de Deus. A parábola do semeador é uma expressão nítida da maneira em que o reino vem: o semeador espalha a semente, que é a mensagem acerca do reino, e quando encontra terra boa ela produz fruto, a vida do reino (Mt 13.1-23). É por meio de palavras e ações que vem o reino. Palavras e ações - o poder de Deus para a salvação! Esses frágeis instrumentos só podem ser eficazes quando Deus age por meio deles. Portanto, não é surpreendente ver novamente a importância da oração nesse contexto. Vimos anteriormente que um tema central do Evangelho de Lucas é que o reino vem à medida que o Espírito opera em resposta à oração. Em uma história que ocorre logo após o comissionamento dos seguidores de Jesus, um homem traz seu filho possuído por um demônio aos discípulos para ser curado, mas eles são incapazes de expulsar o demônio. Então Jesus ordena ao demônio que saia do menino, e ele obedece. Mais tarde, os discípulos perguntam por que não conseguiram expulsá-lo, e Jesus responde: "Essa espécie não sai a não ser pela oração" (Me 9.29). A oração é o meio pelo qual o Espírito torna eficazes as ações e as palavras de Jesus e dos discípulos. Ela é a principal arma na batalha entre o reino de Deus e os poderes pecaminosos e demoníacos que ainda exercem controle sobre a sociedade e a vida humana. Pouco antes de ele ir para a cruz, e enquanto ainda prepara seus discípulos para a missão deles no mundo, Jesus fala a respeito da oração. Jesus lhes diz que agora os chama seus "amigos", e não "servos", como o povo de Deus no Antigo Testamento. No Antigo Testamento, somente Abraão é chamado amigo de Deus (Is 41.8; Tg 2.23), porque Deus lhe revela a "visão geral" de seu plano e o convida a participar (e.g., Gn 12.2,3). Com seus discípulos é semelhante. Jesus lhes diz: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que o seu senhor faz; mas eu vos chamo amigos, pois vos revelei tudo quanto ouvi de meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes; pelo contrário, eu vos escolhi e vos designei a ir e dar fruto, e fruto que permaneça" (Jo 15.14-16a).Jesus os escolhe para participar na sua missão e produzir fruto. Ele os torna seus "amigos", revelando-lhes o que Deus está fazendo no mundo. E nesse contexto Jesus lhes fala a respeito da oração como uma parte primordial do avanço de sua missão: "a fim de que o Pai vos conceda tudo quanto lhe pedirdes em meu nome" (Jo 15.16b, grifo do autor). Conclusão O propósito de Jesus era reunir Israel e restaurá-lo para cumprir seu papel singular na história: levar salvação às nações. O anúncio do reino significava que o verdadeiro destino de Israel estava se cumprindo. Os que respondessem à mensagem de


128 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA Jesus com arrependimento e fé assumiriam o papel do povo de Deus na história. Porém, antes que pudessem cumprir seu chamado, o reinado do mal e o poder do pecado teriam de acabar. Eles precisariam do poder da era vindoura para levar vida nova ao seu interior e capacitá-los a assumir sua vocação. E tudo isso se cumpriu na morte e ressurreição de Jesus.


5 A morte e a ressurreição de Jesus e a identidade missional da igreja Todos os domingos, em centenas de milhares de comunidades cristãs ao redor do mundo, pessoas partem o pão e bebem o vinho em um ato ritual que relembra a morte de Cristo. Essa simples observância relata uma história: as comunidades que praticam esse rito creem que a morte de um homem na história determina a sua vida em comunidade e a sua identidade. E elas fazem isso no domingo, o primeiro dia da semana, dia em que Jesus ressuscitou dos mortos, para simbolizar que esse evento marcou nada menos que o início da nova criação. Antes que o Israel recém-reunido e restaurado pudesse ser enviado a todas as nações para testemunhar do reino em sua vida, antes que o ajuntamento escatológico das nações pudesse ter início, era preciso que acontecesse a crucificação e a ressurreição de Jesus, para capacitar o povo de Deus a compartilhar do poder do reino de D eus. Esses eventos não se encontram apenas no centro da comunidade cristã, mas também no centro da história cósmica. A cruz e a igreja: três problemas O pleno significado da morte e ressurreição de Jesus para a igreja com demasiada frequência não tem sido estudado a contento nos últimos dois séculos. Para compreendermos melhor o que a morte e a ressurreição de Jesus significaram para a comunidade de discípulos que ele deixou a fim de d arem continuidade à missão dele - o que significam, na verdade, para nós como o povo de D eus -,vamos considerar aqui três problemas nas visões evangélicas tradicionais a respeito da cruz e sua importância para a igreja. São eles: (1) atenção insuficiente


130 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA aos contextos narrativos do relato da crucificação; (2) minimização da importância comunitária e universal da redenção; e (3) negligência da mensagem do poder transformador da cruz. A questão não é que a teologia evangélica tradicional tenha simplesmente compreendido mal esses elementos, mas que negligenciou importantes dimensões deles. O primeiro problema de interpretação surge quando o significado da crucificação é abordado em um contexto teológico tópico e é abstraído de seus contextos narrativos (histórico-redentor e literário). A organização de ideias por tópicos em um sermão ou livro-texto de teologia tende a destacar a salvação de pessoas individualmente. Por exemplo, uma apresentação evangelística pode ir (1) da importância de um relacionamento pessoal com Deus (2) ao pecado e à culpa do indivíduo que impedem esse relacionamento, (3) e à solução para esse pecado- que é a cruz de Cristo. Então o evangelista pode continuar falando sobre fé pessoal e arrependimento como a forma de a pessoa se apropriar da obra de Cristo. Repetindo, não há nada de incorreto nessa formulação. Porém, quando a cruz é abordada somente ou até primordialmente nesse contexto, sua importância além da vida individual do crente é obscurecida. Dizer que nossa culpa foi levada por Jesus na sua morte e que por meio da fé podemos ser perdoados e justificados certamente enuncia importantes benefícios do evangelho para a própria pessoa. O problema não está na imagem da expiação substitutiva - ela é fundamental para a compreensão bíblica da cruz -, mas na maneira que ela foi reduzida ao seu significado individual. Considerem-se cuidadosamente as palavras de João quando ele exclama: "Este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!" (]o 1.29, grifo do autor). A teologia sistemática emprega igualmente uma organização tópica e sistemática que fornece à cruz um contexto diferente do contexto narrativo bíblico original. Uma organização típica pode ser como segue: um tratado sobre Deus, a humanidade em relação a Deus, a pessoa e a obra de Cristo (em que é elaborado o tema da crucificação), a aplicação da obra de redenção (que é tratada no que diz respeito aos benefícios para o indivíduo), seguida pela doutrina da igreja e, finalmente, pela escatologia. ' 1 Ver, e.g., Louis Berkhof, Systematic 7heo!ogy, 4. ed. rev. (Grand Rapids: Eerdmans, 1939). [Edição em português: Teologia Sistemática, São Paulo, Cultura Cristã, 2013.] De modo contrastante, é instrutivo observar que quando Lesslie Newbigin escreveu uma breve teologia sistemática para treinar líderes na Índia, ele inverteu a ordem. Ele afirma que na sua tradição reformada a ordem é Cristo, apropriação individual mediante a fé e, então, a igrej a. Ele reordena os tópicos colocando a igreja antes da salvação individual (Sin and Sa!vation [London: SCM Press, 1956], 8-9). Ele explica: "Descobri que a experiência do trabalho missionário me impeliu a isso. Percebi que o tipo de protestantismo no qual eu havia sido formado pertencia a um contexto de 'cristandade'. Em uma situação missionária, a Igreja precisaria ter um lugar lógico diferente" ( Unfinished Agenda: An Updated Autobiography, ed. rev. Ampl. [Edinburgh: St. Andrews Press, 1993], 138).


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 131 Essa forma de organização possui uma certa lógica e pode ser útil ao destacar aspectos importantes do ensino das Escrituras. Porém, ela coloca a cruz firmemente no contexto da salvação individual, inferindo que a igreja é meramente uma comunidade de indivíduos que se apropriaram da obra de Cristo. Essa visão da igreja pode nos tornar vulneráveis à armadilha do consumismo que descrevemos no primeiro capítulo. Em vez disso, a igreja precisa ver a cruz assumir o seu legítimo lugar na história do ministério terreno de Jesus, na sua proclamação do reino, e- essencial para o nosso propósito- no aspecto central da missão do reino de Jesus, que é reunir um povo. Ao prestarmos a devida atenção na crucificação no contexto narrativo dos Evangelhos, constatamos que a formação da comunidade realizada por Jesus precede a crucificação. A centralidade da comunidade remonta a Abraão, e uma marca fundamental da missão do reino de Jesus é reunir e restaurar Israel para que possa realizar o papel que lhe foi dado por Deus. A crucificação, corretamente entendida, é a culminação do trabalho de ajuntamento que Cristo realiza, o evento que impele a comunidade reunida de Jesus para a missão. O segundo problema nas interpretações evangélicas tradicionais da importância da crucificação deriva do primeiro: ao enfatizar exageradamente os benefícios da cruz para o crente individual, permitimos erroneamente que sua importância comunitária seja ofuscada. Muitas vezes a mensagem da cruz consiste simplesmente em remover a culpa do indivíduo e substituí-la pelo perdão e pela justificação. Qyando ela ainda contém um componente social, este surge como reflexão posterior: a igreja é meramente um ajuntamento de indivíduos perdoados e justificados. René Padilla, líder de igreja argentino, sugere que o cristianismo ocidental "concentrou-se na salvação da alma individual, mas frequentemente desconsiderou o propósito de Deus de criar uma nova humanidade através do amor sacrificial e da justiça em favor dos pobres". Portanto, ele continua, "nas teorias clássicas sobre a expiação, a obra de Cristo não tem relação com a intenção de Deus de criar uma nova humanidade". 2 Porém, a individualização da expiação significa que a cruz é privada não apenas de sua importância comunitária, mas também de sua relevância escatológica e de seu escopo universal. A crucificação na sua plenitude revela e cumpre o fim da história universal e a restauração de todo o universo, mas é muitas vezes apresentada meramente como um meio para que pessoas obtenham a salvação eterna. Referindo-se a uma "expiação personalizada", N. T. Wright comenta que "grande parte do pensamento cristão dos séculos 19 e 20 aceitou a estrutura proposta pelo Iluminismo, na qual a fé cristã tem o papel de resgatar pessoas do mundo mau, 2 C. René Padilla, prefácio de Understanding the Atonement for the Mission of the Church, John Driver (Scottdale, PA: Herald Press, 1986), 9-10.


132 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA garantindo-lhes o perdão no presente e o céu no futuro" . 3 Padilla nos instiga a ver a cruz como tendo relevância universal e escatológica "não apenas como a fonte para a salvação individual, mas como o lugar onde se inicia a restauração da criação - os novos céus e a nova terra que Deus prometeu e que a comunidade messiânica prefigura. 4 Um terceiro problema de interpretação é que a expiação com frequência perdeu a ênfase do Novo Testamento no seu poder transformador. Uma compreensão evangélica da obra de Cristo na cruz muitas vezes coloca a ênfase na remoção da culpa: Jesus morreu por mim, e eu estou perdoado e justificado. Nessa perspectiva, o resultado da crucificação de Jesus é um indivíduo justificado em vez de uma comunidade traniformada, e a cruz é reduzida em sua importância para ser meramente uma "transação salvífica que permite que pessoas pecaminosas e violentas e estruturas caídas continuem essencialmente inaltcradas". 5 De acordo com essa interpretação errada, a culpa do pecado está solucionada - mas não o seu poder. 6 Nossa compreensão da cruz está condicionada pelas perguntas que fazemos. Se perguntarmos: "Como posso, como indivíduo, ser perdoado e obter a vida eterna, mesmo sendo pecador e merecedor do castigo?", a resposta será: "Porque Jesus morreu em meu lugar". Mas se perguntarmos: "Como Deus pode restaurar a totalidade da criação e recuperar a vida humana como um todo da corrupção do pecado humano?", a resposta será: "Porque na cruz Jesus tomou sobre si o poder e a culpa do pecado e ao fazê-lo derrotou o poder do pecado e do mal que ameaçava a destruição da criação". Ainda, se perguntarmos: "Como Deus pode criar uma nova comunidade que já prefigura e encarna a vida do reino vindouro de Deus?", a resposta será: "Porque na morte de Jesus Deus agiu para vencer o mal que tanto tem corrompido a vida da humanidade desde a época de Adão". É necessário esclarecer que "essas e outras possív eis perguntas e respostas não são mutuamente excludentes". 7 Afirmar a vitória de Deus sobre o poder do pecado não significa que devemos negligenciar o perdão da culpa do pecado. A afirmação de que Deus realizou a restauração do universo não precisa estar em tensão com 3 N. T. Wright, E vil and the j ustice ifGod (London: SPCK, 2006 ), 46. [Edição em português: O mal e a justiça de Deus, trad. Cláudia Ziller Faria, Viçosa, Ultimato, 2009.] 4 Padilla, prefácio, 10. 5 Driver, Understanding the A tonement, 30. 6 D e forma contrastante, o hino do século 18 de Augustus Toplady "Rocha Eterna" enfatiza os dois: "Sê do pecado a dupla cura; purifica-me de sua culpa e poder". 7 N. T. Wright, Su1prised by H ope: R ethinking H eaven, the R esun-ection, and the Mission if the Chu1·ch (New York: H arper One, 2008), 199. [Edição em português: Swp1·eendido pela esperança, trad.Jorge Camargo, Viçosa, Ultimato, 2009.]


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 133 o ensino da salvação de um indivíduo que participa dessa restauração. Confessar que na cruz Cristo é vitorioso sobre o pecado não significa que temos de rejeitar a perspectiva da expiação como substitutiva. Afirmar que a cruz derrotou os poderes pecaminosos estruturais não nega que a cruz também lidou com o pecado do indivíduo. Assim, para evitar uma visão reducionista da expiação, devemos ratificar todas as imagens bíblicas da cruz8 e precisamos reconhecer a totalidade da multiplicidade de seus significados - individual, comunitário e cósmico. A importância cósmica e comunitária da cruz Para captar a importância cósmica e comunitária da cruz, temos de voltar ao contexto da narrativa original encontrado nas Escrituras no qual a crucificação é articulada pela primeira vez. Os Evangelhos relatam a história da chegada do reino de Deus, e a morte de Jesus é o ápice dessa história. No entanto, mesmo essa história de Jesus e do reino não é a história toda; ela mesma é parte de uma história muito maior, a história da Bíblia, a história universal que se inicia com a criação do mundo e termina com a renovação de toda a criação, incluindo povos de todas as nações. Na abrangente história bíblica, dois temas principais- a obra divina de salvação cósmica e o papel de Israel- são combinados e conduzidos ao seu auge nos Evangelhos. É o contexto narrativo encontrado na história redentora do relato bíblico e a estrutura literária dos Evangelhos que fornecem o contexto original para a crucificação. Ambos são significativos para a compreensão da conexão entre a cruz e a igreja. 9 O primeiro tema é a salvação cósmica: o relato dos Evangelhos narra o momento culminante da batalha de Deus contra o mal para restaurar toda a sua criação e resgatar toda a vida humana do pecado. O relato dos Evangelhos é parte dessa história maior do que Deus está fazendo para libertar seu mundo do poder do mal. Os Evangelhos relatam uma batalha entre o poder do reino de Deus em Jesus e por meio do Espírito, de um lado, e os poderes do mal e das trevas de outro. Esse choque é evidenciado quando Jesus ataca o sofrimento, a doença, a culpa, o pecado pessoal e os modos de vida imorais, a idolatria da riqueza, os relacionamentos quebrados, a morte, a presunção, a natureza hostil, as estruturas e práticas religiosas distorcidas, as estruturas sociais injustas que excluem e marginalizam, as estruturas econômicas injustas que exploram os pobres e as estruturas políticas injustas que abusam do poder. Jesus confronta esse mal, tanto pessoal como estrutural, com suas palavras, seus grandes feitos poderosos e suas inúmeras 8 O livro de Driver, Understanding the Atonement, explora dez conjuntos de imagens que interpretam a importância da cruz com respeito à missão da igreja. 9 N . T. Wright, Ev i/ and the ] ustice ofGod, 47-54.


134 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA ações proféticas e práticas sociais. Ele situa a fonte desse mal no coração humano (Me 7.14-23) e nos poderes demoníacos e satânicos que estão por trás das estruturas sociais, econômicas e políticas (Lc 22.53; Jo 12.31). A cruz é o evento culminante dessa batalha. Todas as estruturas de poder- políticas, religiosas, sociais- se unem para levar Jesus à morte (1Co 2.8): os cruéis soldados, a multidão oscilante, os tímidos discípulos, o Judas vira-casaca, os invejosos líderes religiosos e o corrompido sistema judicial judaico-romano. Conforme o relato da história nos Evangelhos, a cruz "é o preço pago por um desafio vitorioso sobre os poderes do mal". 10 Na cruz, o reino de Deus vence o mal, não por meio de uma força superior, mas porque Jesus toma sobre si mesmo todo o impacto do pecado e esvazia o seu poder. "Seu chamado é para o caminho de sofrimento, rejeição e morte - para o caminho da cruz. Ele testemunha da presença do reinado de Deus não mediante a subjugação das forças do mal, mas tomando todo o seu peso sobre si. No entanto, é nessa aparente derrota que a vitória é alcançada." 11 O que domina e derrota o mal e o pecado que corrompem o mundo é a força do amor sacrificial pelo qual o Cordeiro de Deus leva sobre si mesmo o pecado do mundo, inclusive sua culpa e seu poder de destruição. Nisso vemos o ápice do relato bíblico: a morte ele Jesus alcança para o reino ele Deus a vitória decisiva sobre o mal e o pecado, pondo fim à era antiga e alcançando o objetivo da história da redenção. A cruz tem importância cósmica. A igreja partilha e participa dessa salvação cósmica. O segundo tema envolve Israel: os Evangelhos falam a respeito elo momento culminante ela obra ele Deus em seu povo e por meio dele em favor do mundo. No seu plano de resgatar sua criação, Deus escolhe Abraão (e o povo que descenderia dele) para entregar a cura para o pecado. Em um capítulo anterior, citamos o comentário rabínico segundo o qual Deus afirma: "Farei Adão primeiro e, caso ele venha a se perder, enviarei Abraão para resolver o problema". 12 O dilema na época de Jesus era que Abraão e Israel não haviam conseguido "resolver o problema"; eles, na verdade, haviam se tornado parte do problema. O malogro de Israel em ser luz para as nações leva ao juízo de Deus: ele os envia ao Exílio, dispersando-os entre as nações a fim de puni-los por seus pecados. Enquanto o juízo de Deus continua, Israel anseia pelo ajuntamento e pela restauração 10 Lesslie Newbigin, Mission in Christ's Way: Bible Studies (Geneva: WCC, 1987), 25. 11 Lesslie Newbigin, 1he Open Secret: An Introduction to the 1heology if Mission, ed. rev. (Grand Rapids: Eerdmans, 1995), 35. 12 Rabá de Gênesis 14:6, in Midrash Rabbah: Genesis, trad. H. Freedman; Maurice Simon, 2 v. (London: Soncino Press, 1939).


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 135 prometidos pelos profetas. No entanto, a punição persiste sob a cruel ocupação de Roma, causada pelo pecado de Israel. Portanto, antes que possa começar o ajuntamento e a restauração, o próprio pecado de Israel deve ser tratado. Nos anos que antecederam o ministério de Jesus, desenvolveu-se entre os judeus a crença de que o "sofrimento e a punição" da própria nação "iriam [ ... ] apressar o momento em que a tribulação de Israel seria completada, quando estaria finalmente purificado de seu pecado para que então seu exílio pudesse ser revogado". Desse modo, o sofrimento de Israel seria "não apenas um estado do qual seria [ ... ] redimido", mas "parte do meio pelo qual essa redenção seria efetuada". 13 A noção do sofrimento como pagamento pelo pecado coletivo de Israel é encontrada nos profetas, com mais clareza em Isaías, e estava muito viva em Israel no primeiro século: Consolai o meu povo, consolai, diz o vosso Deus. Confortai o coração de Jerusalém, e proclamai-lhe que já se cumpriu o tempo da sua luta, que o seu pecado foi perdoado e já recebeu em dobro da mão do SENHOR, por todos os seus pecados. Isaías 40.1,2 O julgamento daria lugar à redenção; o Exílio, à restauração; a punição, à salvação; a morte, à ressurreição. Essas "aflições messiânicas" seriam como as dores de parto em que o sofrimento e a dor crescentes trariam à luz um novo povo e uma nova criação. Seria um tempo de grande escuridão, mas terminaria enfim com o alvorecer da salvação. Uma crença associada por alguns a essa noção era de que uma pessoa representaria Israel e se tornaria um sacrifício que levaria sobre si o impacto da ira de Deus e assim libertaria Israel. 14 Ao reunir o povo de Israel, Jesus os adverte da desgraça e do juízo que está por vir sobre eles por causa do próprio pecado deles, que era o seu fracasso por não serem Israel como Deus os havia chamado a ser. O ódio e a violência que os caracteriza (e que substituiu o amor pelas nações) iriam levá-los inevitavelmente a terríveis represálias por parte das autoridades romanas. Jesus anseia reunir Israel e restaurá-lo à sua vocação original tomando sobre si mesmo a punição que Israel merece justamente. 13 N. T. Wright, Jesus and the Vict01y ofGod (London: SPCK, 1996), 591. 14 N . T. Wright, 7he N ew Testament and the People ofGod(London: SPCK, 1996), 275-78.


136 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA A própria imagem usada por Jesus de uma galinha e seus pintinhos é a melhor ilustração para o sacrifício que ele contempla em favor de Israel: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! ~antas vezes eu quis ajuntar teus filhos, como a galinha ajunta seus filhotes debaixo das asas, e não quiseste! A vossa casa ficará abandonada" (Mt 23.37,38). Assim como uma galinha anseia ajuntar seus pintinhos debaixo de suas asas para protegê-los do perigo, Jesus anseia tomar sobre si todo o impacto do juízo de Deus e desse modo proteger Israel, mas muitos rejeitam essa proteção. A ilustração que Jesus usa aqui "é a de um fogo que varre o pátio de uma fazenda; a galinha ajunta seus pintinhos sob suas asas, e, quando o fogo tiver terminado o seu curso, será achada uma galinha morta, totalmente queimada e escurecida, mas com pintinhos vivos debaixo de suas asas. Jesus parecia estar indicando essa esperança de que ele tomaria sobre si mesmo o juízo pendente sobre a nação e a cidade". 15 Assim,Jesus suporta em sua morte o fogo completo da ira de Deus, e os que se refugiaram debaixo de suas asas experimentam restauração, salvação e vida. Aqui vemos a cruz como o clímax da história de Israel: quando Jesus toma sobre si a punição que cabe a Israel, a nação é restaurada para assumir novamente o seu chamado. Israel é liberto tanto da culpa quanto do poder do pecado. A morte de Jesus cria uma comunidade restaurada, reempossada na sua vocação como um canal de salvação para as nações. A cruz é um evento que cria um povo redimido e transformado; ela tem um significado comunitário. Imagens da expiação A cruz é o mais poderoso ato de Deus; é aqui que ele realiza a salvação do mundo, que será completamente revelada no final da história universal. Nenhuma imagem pode comunicar tudo o que Deus realizou na crucificação de Jesus. A Bíblia emprega muitas ilustrações, e ao longo da história da igreja muitas outras imagens têm sido usadas, mas nenhuma é adequada para expressar plenamente o que Deus realizou na morte de Jesus. 16 Newbigin o expressa bem, quando diz: Estamos falando sobre um acontecimento, um evento que jamais poderá ser plenamente compreendido pela nossa capacidade intelectual e traduzido em uma teoria ou doutrina. Estamos na presença de uma realidade cheia de mistério, que desafia 15 N. T. Wright, lhe Challenge offews (London: SPCK, 2000), 62. 16 C f. a "visão caleidoscópica" da expiação de J oel Green. Ele acredita que "nenhum modelo ou metáfora será adequada para a tarefa de articular e proclamar" a expiação hoje (Green, "Kaleidoscopic View" in lhe Natm·e of the Atonement: Four Views, ed. ] ames Beilby; Paul R. Eddy [Downers Grave, IL: InterVarsity, 2006], 157).


A MORTE E A RESS URREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 137 mas excede o nosso entendimento [ .. .].Ao longo dos séculos, desde a primeira testemunha até hoje, a igreja buscou e usou inúmeros símbolos para expressar o mistério inexprimível do evento que é o centro, o momento decisivo de toda a história cósmica, o ponto crítico para o qual convergem todos os acontecimentos. Cristo, o sacrifício oferecido pelo nosso pecado; Cristo, o substituto que se coloca em nosso lugar; Cristo, o resgate pago para a nossa redenção; Cristo, o vencedor expulsando o príncipe do mundo- esses e outros símbolos têm sido usados para indicar o âmago do mistério. Nenhum deles pode expressá-lo plenamente. É o acontecimento no qual o reinado de Deus está presente. 17 A imagem de "conflito- vitória -libertação", 18 ou Christus Victor, possibilita-nos ver que a cruz é a vitória de Deus sobre o mal, por meio de conflito e sofrimento, e que seu resultado é uma criação liberta, bem como pessoas libertas. Essa imagem dá atenção ao escopo cósmico da importância da cruz: a vitória conquistada por Deus na cruz é uma vitória sobre o pecado e o mal que corromperam toda a criação. A imagem do sacrifício é uma rica ilustração do Antigo Testamento que fala da maneira substitutiva com que Jesus toma sobre si mesmo o pecado do mundo e a justa ira de Deus: "Esse é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29). Esses dois modelos dominaram recentemente a discussão sobre a expiação e infelizmente foram colocados um contra o outro. No entanto, ambos são importantes para a plena compreensão da cruz para a igreja missional. No entanto, talvez para os propósitos da eclesiologia, outra imagem bíblica sugestiva precise ser explorada. As imagens "arquetípicas", segundo a nomenclatura de Driver, ilustram graficamente o sentido cósmico e comunitário da morte de Jesus. 19 A imagem do arquétipo que Paulo emprega tem por trás dela a noção hebraica da personalidade coletiva de Israel, na qual uma pessoa se torna um representante de todos e toma sobre si o destino de uma nação inteira. Paulo fala de Jesus como esse representante (e.g., Rm 5.12-21; 2Co 5.14,15)- porém, Jesus toma sobre si o destino não apenas de Israel, mas também da humanidade e da criação como um todo. Jesus age como o representante do mundo e de todos os seus povos e leva em seu próprio ser o destino deles. Na sua morte, ele põe fim à era antiga dominada pelo pecado, pelo mal, pelo poder satânico e pela morte. Na sua ressurreição, ele inaugura a era vindoura. Esses eventos criam uma nova humanidade, que participa na derrota do pecado (realizada na sua morte) e no início 17 Newbigin, Open Secret, 49-50. 18 Driver, Understanding the Atonement, 71-86. 19 lbid., 101-14. Essa também é uma imagem favorita de Lesslie Newbigin; ver Michael W. Goheen, 'Yls 7he Father Has Sent Me, IAm Sending You":j E. Lesslie Newbigin's Missionary Ecclesiology (Zoetermeer, Netherlands: 2000), 150-52.


138 A IG REJA MISSIONAL NA BÍBLIA da nova criação (realizada na sua ressurreição). Por isso, Paulo pode escrever que quando somos batizados em Cristo, começamos a participar solidariamente com Jesus do destino da história universal, que foi irreversivelmente cumprido na sua morte e ressurreição (Rm 6.1-14). Nessa imagem, podemos ver três dimensões da redenção frequentemente negligenciadas. A expiação é escatológica: ela realiza o fim da era antiga. A expiação é comunitária e cósmica: Jesus toma sobre si o destino de seu povo e de toda a criação na sua morte, que encerra a era antiga. E a expiação é transformadora: os poderes da era vindoura fluem para o presente por meio da morte de Jesus. A cruz e a igreja missional A importância da cruz para a eclesiologia pode ser resumida em três afirmações. Em primeiro lugar, a cruz é cósmica e escatológica: a restauração de toda a criação como o objetivo da história é estabelecida. Na morte de Jesus, Deus atinge o alvo da história, a restauração de toda a criação. Nos seus escritos, Newbigin destacou a importância do significado cósmico da cruz para a história bíblica e para a igreja. Ele se refere à cruz como "um evento irrepetível que - assim cremos- dá ao movimento irreversível da história seu significado e direção". 20 É um "ato de obediência pelo qual todo o curso cósmico das coisas recebe a sua direção"/ 1 "o evento que é o centro, o momento decisivo da história cósmica", 22 "o ponto central em torno do qual giram todos os acontecimentos", 23 e "o momento decisivo na história''. 24 Em resumo, como ele menciona em outra parte, a cruz é "o evento decisivo pelo qual todas as coisas foram mudadas". 25 Em segundo lugar, a cruz cria uma comunidade que participa na vitória de toda a criação sobre a culpa e o poder do pecado. O povo de Deus participa na morte de Cristo, e assim é morta a nossa antiga humanidade (dominada pelo pecado). As palavras dos profetas para restaurar o povo de Deus (Ez 36; 37) se cumpriram na morte de Jesus. Embora o Israel do Antigo Testamento tenha fracassado no seu chamado por causa de seu pecado - uma vez que a Torá não pôde fazer de Israel uma comunidade missionária fiel-, a morte de Jesus 20 Lesslie Newbigin, "The Bible Study Lectures", in D igest of the Proceedings of the Ninth Meeting of the Consultation on Church Union, ed. Paul A. Crow (Princeton, NJ: COCU, 1970), 198. 21 Ibid., 201. 22 Newbigin, Open Secret, 50. 23 Lesslie Newbigin, "Bible Studies on John 17: The Hinge of History", Lutheran Standm·d: USA (April 4 196 7): 11. 24 Lesslie Newbigin, "This Is the Turning Point ofHistory", Refimn (April1990): 4. 25 Newbigin, Open Secret, 50, grifo do autor.


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 139 indica o fim do poder do pecado; como Paulo escreve: "Pois o que para a lei era impossível, visto que se achava fraca por causa da carne, Deus o fez na carne, condenando o pecado e enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado e como sacrifício pelo pecado, para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rm 8.3,4). Agora o povo de Deus recém-reunido está capacitado a cumprir o seu chamado. A cruz libera o poder necessário para transformá-lo em um povo que pode viver como luz para o mundo. Finalmente, só por meio de arrependimento e fé, membros individuais do povo de Deus podem participar dessa nova criação e da comunidade que agora tem parte naquilo que Cristo realizou. Embora o desfrute individual dos benefícios da cruz tenha estado frequentemente no primeiro plano da teologia da expiação, esses benefícios precisam ser entendidos em contextos mais amplos. É correto afirmar: "Jesus morreu por mim"- como parte da comunidade que participa da vitória cósmica de Jesus na cruz. As dimensões comunitárias e cósmicas da cruz não precisam estar em tensão com o seu significado para os indivíduos; na verdade, somente em razão de a salvação desfrutada pelo povo de Deus abranger toda a criação é que qualquer pessoa pode vir a fazer parte desse povo e partilhar dessa salvação. Jesus primeiramente anunciou a vinda do reino- o governo de Deus sobre toda a criação - e então, a ouvintes individuais, disse: ''Arrependei-vos e crede no evangelho" (Me 1.15). A cruz como preparação para o ajuntamento das nações De acordo com os Evangelhos, duas condições prévias devem ser cumpridas antes que a salvação possa ser levada a todas as nações. 26 Primeiro a promessa da salvação deve ser oferecida ao povo de Israel. Eles devem primeiro ser restaurados ao seu papel na história de Deus, e depois disso os gentios podem juntar-se a eles. Essa restauração é precisamente o que Jesus havia realizado no seu ministério terreno. A segunda precondição necessária é a cruz. O sangue da nova aliança teria de ser primeiro derramado "em favor de muitos" (Me 14.24) e teria de ser pago o resgate "por muitos" (Me 10.45, NVI). A expressão "de muitos/por muitos" deve ser interpretada como "em favor dos povos do mundo"Y Somente depois de Jesus ter tirado os pecados não apenas de seu povo mas também de todo o mundo é que a boa notícia da salvação pode ser levada a todas as nações. A morte de Jesus precisa ocorrer antes de a mesa do banquete ser preparada e de o ajuntamento 26 Joachim Jeremias,]esus' Promise to the N ations, trad. S. H. Hooke (London: SCM, 1958), 71-73. 27 Joachim Jeremias, The E ucharistic Wm-ds of]esus (London: SCM Press; Philadelphia: Trinity Press lnternational, 1966), 229; cf. 179-82.


140 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA poder começar (Lc 14.16-24). Em relação a essa parábola, Karl Barth observa que o povo de Deus não poderia incluir todas as nações antes de Jesus ter morrido: "Sua vida ainda não havia sido consumida como resgate por muitos. Nem tudo estava preparado ainda. A mesa ainda não havia sido posta. Os convidados ainda não podiam ser chamados. Israel ainda não estava completamente preparado para cumprir sua missão escatológica". 28 Com a vida de Jesus tendo sido entregue como resgate, os convidados podem agora ser chamados e a comunidade escatológica pode assumir sua forma multiétnica. A ressurreição de Jesus e o povo de Deus Paulo transmite à igreja de Corinto o cerne do evangelho pelo qual estamos sendo salvos - "Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e foi sepultado; e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas, e depois aos Doze" (1Co 15.3-5). A morte e a ressurreição de Cristo são de "importância crucial": a igreja de Corinto posicionou-se com relação a esses dois eventos e, portanto, foi salva por meio deles. Esses dois eventos históricos estão conectados da forma mais estreita possível no centro da história cósmica. Eles realizaram a salvação que é o alvo da história. No entanto, às vezes, evangélicos têm se contentado simplesmente em defender a historicidade da ressurreição e afirmar seu valor apologético, deixando intocada sua tremenda importância histórico-redentora. 29 A ressurreição certamente é um evento histórico, e isso precisa ser defendido (lCo 15.14), no entanto, o significado da ressurreição para a história mundial é a questão mais importante em jogo. Qyal é o significado central da ressurreição de Jesus na história bíblica? Qyal é a sua importância para a eclesiologia? Ressurreição: o início da era vindoura A ressurreição deve ser analisada no contexto do judaísmo do segundo templo da época de Jesus. Durante esse período, como observa N. T. Wright, a ressurreição "era associada com a restauração de Israel, por um lado, e com a vida recém-encarnada de todo o povo de YHWH, por outro, com estreitas conexões entre as duas; e era considerado o grande evento que YHWH realizaria no final da 'era presente', o evento que constituiria a 'era vindoura' ". 30 A ressurreição para os judeus do 28 Karl Barth, "An Exegetical Study ofMatthew 28:16-20", in The Theology ofthe Christian Mission, ed. Gerald H. Anderson (London: SCM Press, 1961), 65. 29 E.g., Gary R. H abermas, "Resurrection ofChrist", in Evangelical Dictionary ofTheology, ed. Walter A. Elwell (Grand Rapids: Baker Academic, 1984), 938-41. [Edição em português: Enciclopédia H istórico- Teológica da lg1·eja Cristã, trad. Gordon Chown, São Paulo, Vida Nova, reimp. 2009.] 30 N. T. Wright, The Resurrection of the Son ofGod (Minneapolis: Fortress Press, 2003), 205.


A MORTE E A RESS URREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 141 primeiro século é, portanto, o sinal incontestável da vinda do reino de Deus em plenitude. Significa mais do que ser ressuscitado em um novo corpo (embora signifique isso): significa nada menos do que a completa restauração da vida humana (encarnada) como um todo na nova terra. Não é de surpreender então que, quando Jesus fala aos seus discípulos arespeito do Filho do homem ressuscitando dos mortos (Me 9.9), eles não saibam do que ele está falando. Ao descerem do monte onde viram Jesus transfigurado em glória, eles discutem entre si o que "ressuscitar dos mortos" poderia significar, considerando a maneira que Jesus havia falado a respeito disso. Eles estão acostumados a pensar na ressurreição como um evento coletivo e cósmico, não como um homem ressuscitando da morte; a ressurreição para eles deve ocorrer no fim dos tempos, não no meio da história. Um Messias crucificado não faz sentido na cosmovisão judaica; nem o faz um Messias ressurreto. Portanto, quando Jesus é crucificado e então ressuscita corporalmente dos mortos, todos os que creem que ele é verdadeiramente o Messias precisam tentar entender o significado desses eventos. O ponto de partida para entender a ressurreição é ver o que ela significa no contexto da história bíblica: a ressurreição marca a restauração do povo de Deus para uma nova vida como parte da nova criação. Para a igreja primitiva, a ressurreição de Jesus é o início dessa nova criação. O Novo Testamento esclarece essa compreensão com três imagens: que Cristo é o primogênito, as primícias e o pioneiro ou início (arche). Jesus é o "primogênito" dentre os mortos (Rm 8.29; Cl 1.18), a primeira pessoa a nascer no novo mundo vindouro. Porém, o termo "primogênito" carrega mais do que simplesmente a ideia de ser cronologicamente o primeiro. Como o "primogênito", Cristo ocupa um lugar especial, aquele que "abre o caminho" para seus seguidores e "une o futuro deles ao seu próprio". Jesus também é as "primícias" da colheita escatológica (1Co 15.20, NVI), o início, a primeira parte da colheita, que também representa o restante da colheita. Nas primícias, toda a colheita é visível. Finalmente, Jesus é o "início" (arche) da ressurreição (Cl 1.18). Herman Ridderbos diz que a palavra "início" [beginning] não capta o significado do que Paulo tinha em mente. "Pois a intenção não é apenas que Cristo foi o Primeiro ou iniciou em termos de ordem cronológica; ele foi antes o Pioneiro, o Inaugurador, que abriu o caminho. Com ele a grande Ressurreição se tornou realidade."31 Essas três imagens destacam duas verdades importantes. Em primeiro lugar, todas apontam para como se iniciou, na ressurreição de Jesus, a era vindoura- o 31 Herman Ridderbos, Paul:An Outline ofHis 7heology, trad.John Richard De Witt (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), 56. [Edição em português: A teologia do Apóstolo Paulo, trad. Susana K.lassen, São Paulo, Cultura Cristã, 2004.]


142 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA reino de Deus, a vida ressurreta. Esse evento, como a crucificação, deve ser entendido primeiramente com referência a sua importância cósmica. Não foi apenas um evento isolado, como um milagre destacado dos demais para provar a verdade da fé cristã. Antes, a ressurreição está juntamente com a cruz no centro da história mundial, conferindo à história seu sentido e direção. Na volta de Jesus do túmulo, iniciou-se algo novo que um dia encherá a terra. Newbigin ressalta que "nós cremos que esse evento histórico é decisivo para toda a história [ ... ]. No centro da história, que é tanto a história do homem como também a história da natureza, está o evento fundamental, crucial, único da morte e ressurreição de Jesus. Por meio desse evento, a condição humana é mudada de forma irreversível"Y Isso tem implicações importantes para a eclesiologia. Jesus não é apenas o início cronológico. Com sua ressurreição, ele torna o reino uma realidade, trazendo consigo um povo que participa dessa realização. Paulo fala de "muitos irmãos e irmãs" que estão unidos com Jesus e participam da sua obra (Rm 8.29). A participação deles na ressurreição é evidenciada nas palavras de Paulo: "Se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas velhas já passaram, e surgiram coisas novas" (2Co 5.17). Ridderbos o traduz corretamente desta forma: "Se algum homem está em Cristo, ele pertence à nova criação". 33 Embora o povo de Deus ainda viva em um mundo no qual permanecem o pecado e a morte, eles participam da vida da ressurreição de Jesus e "se tornam parte da nova criação de Deus (2Co 5.17; Gl 6.15)". 34 Markus Barth afirma-o claramente: "A Igreja é uma demonstração viva do poder da ressurreição e da fé nela, ou ela não é a Igreja de Deus". 35 As palavras de Paulo a respeito do batismo como um rito pelo qual pessoas são incorporadas na comunidade do povo de Deus tornam clara a importância eclesiológica da morte e ressurreição de Jesus (Rm 6.1-14). A morte de Jesus significa o fim do antigo. Na cruz,Jesus pôs fim ao pecado. Os poderes do pecado, do mal, de Satanás e da morte na era antiga são notícia de ontem, inimigos derrotados que não têm mais domínio sobre a pessoa que faz parte da era vindoura. A ressurreição de Jesus significa o início do novo. Na ressurreição, Jesus inaugura a era vindoura. Os poderes dessa nova era agora agem na comunidade dos que creem. Ao sermos batizados na comunidade escatológica de Deus, somos unidos 32 Lesslie Newbigin, "Bible Studies Given at the National Christian Council Triennial Assembly, Shillong", National Christian Cozmcil R eview 88 (1968): 9-10. 33 Ridderbos, Paul, 206. 34 David Bosch, Transforming Mission: Pamdigm Shifts in the 7heology of Mission (Maryknoll, NY: Orbis Books, 1991), 143. [Edição em português: M issão Transformadora: Mudanças de Paradigma na teologia da missão, trad. Geraldo Korndõrfer e Luís M. Sander, São Leopoldo, Sinodal, 2002.] 35 Markus Barth, 7he B1·oken Wa/1: A Study oJ the Epistle to the Ephesians (1959; reimpr., Vancouver, BC: Regent Press, 2002), 120.


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 143 com Cristo na sua morte e ressurreição: "Porque, se fomos unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição. Pois sabemos isto: a nossa velha natureza foi crucificada com ele, para que o corpo sujeito ao pecado fosse destruído, a fim de não servirmos mais ao pecado. Pois quem está morto foi justificado do pecado" (Rm 6.5-7). Portanto, a comunidade dos que creem vive na era vindoura e deve estar morta para o pecado, mas viva para Deus. O mesmo relacionamento entre o cósmico, o comunitário e o individual opera na ressurreição assim como opera na crucificação. A ressurreição é um evento escatológico e cósmico pelo qual o reino de Deus é inaugurado. Ela cria uma comunidade que participa da ressurreição de Cristo e participa dos poderes da era vindoura. As pessoas que pertencem à comunidade escatológica participam dela por meio da fé e do arrependimento. O comissionamento pelo Senhor ressurreto: definindo a identidade eclesial Com a consumação da crucificação e da ressurreição, o trabalho do Messias de ajuntar e purificar um povo para cumprir o seu chamado de ser luz para as nações está quase concluído. Tudo o que resta fazer é dar ao seu povo sua nova identidade em uma comissão final e equipá-lo com o prometido poder do Espírito Santo. Então o ajuntamento escatológico pode começar. Todos os Evangelhos terminam com o Jesus ressurreto comissionando sua comunidade de discípulos a levar as boas-novas a todas as nações (Mt 28.16-20; Me 16.9-20; Lc 24.44-49; cf.Jo 20.19-23; At 1.8). Infelizmente, esses mandatos foram frequentemente desconectados tanto da história bíblica mais ampla como das estruturas literárias dos vários livros nos quais elas são encontradas. Embora Jesus estivesse, na realidade, enviando uma comunidade ao mundo, suas palavras na Grande Comissão têm sido frequentemente usadas como o motivo principal pelo qual igrejas enviam indivíduos a ambientes transculturais. Embora missões transculturais façam parte do mandato da igreja, esse não é o foco da comissão final de Jesus para o seu povonão é disso que tratam esses textos. 36 Na verdade, essas comissões que concluem os Evangelhos estabelecem a verdadeira identidade e o papel da comunidade da nova 36 David Bosch, "The Structure of Mission: An Exposition of Matthew 28:16-20", in Exploring Church Growth, ed. Wilbert R. Shenk (Grand Rapids: Eerdmans, 1983),218-48; Bosch, Tmnsforming Mission, 65-79.


144 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA aliança. Como escreve Günther Bornkamm: "O texto de Mateus 28.18ss. trata principalmente da vida da igreja propriamente dita, e não da prática de missão". 37 Cada Evangelho expressa isso de maneira diferente com seu vocabulário e seus temas teológicos singulares. Não detalharei a seguir cada um dos mandatos e suas diferenças. 38 Em vez disso, esboçarei alguns temas comuns e o lugar deles na história redentora com a respectiva importância desses temas para a eclesiologia. Em primeiro lugar, essa comunidade é enviada para fazer discípulos e proclamar o perdão a todas as nações. Legrand observa que nada na história bíblica até esse ponto, nem no Antigo Testamento e nem na prática e nas palavras de Jesus, evidencia que essa comunidade recém-reunida deveria ser enviada aos povos do mundo. 39 Os profetas do Antigo Testamento haviam descrito a vinda das nações para Jerusalém à medida que Deus as ajuntasse, e talvez a igreja em Jerusalém nos primeiros capítulos de Atos ainda cresse nisso. Charles Scobie resume a mensagem profética desta forma: Em primeiro lugar, o ajuntamento das nações é um evento escatológico [ ... ].Em segundo lugar, o ajuntamento das nações não é a tarefa de Israel. Frequentemente, serão as próprias nações que tomarão a iniciativa. Em várias passagens significativas é Deus que reúne as nações [ ... ]. Em terceiro lugar, todas essas passagens proféticas anteveem as nações vindo para Israel, não Israel indo às nações. O verbo que se repete é "vir": "virão a ti" (Mq 7.12); "As nações virão" (Is 60.3, NVI) etc. Esse movimento da periferia para o centro tem sido apropriadamente chamado de "centrípeto".40 Mas parece agora que não se trata de uma peregrinação das nações para o centro, porém um envio de "Israel" à periferia (Jo 20.21). Essa é uma grande 37 Günther Bornkamm, "Der Auferstandene und der Irdische", in Zeit zmd Geschichte: Festschrift Bultmann zum 80. Geburtstag, ed. E. Dinkler (Tübingen: Mohr, 1964), 185, in Lucien Legrand, Unity and Plurality: Mission in the Bible, trad. Robert R. Barr (Maryknoll, NY: Orbis Books, 1990), 82. Ver também P. T. O'Brien, "The Great Commission of Matthew 28:18-20: A Missionary Manda te or Not?", Reformed 7heological Review 35 (1976): 66-78. 38 Para um tratamento mais extensivo de cada um dos mandatos, ver Donald Senior; Carroll Stuhlmueller, 7he Biblical Foundations for Mission (Maryknoll, NY: Orbis, 1983). [Edição em português: Fundamentos Bíblicos da Missão, trad. Anacleto Alvarez, Santo André: Academia Cristã, 2010]; Mortimer Arias; Alan Johnson, 7he Great Commission: Biblical Models for Evangelism (Nashville: Abingdon, 1992). 39 Legrand, Un ity and Plumlity, 70. 4 °Charles Scobie, "Israel and the Nations: An Essay in Biblica!Theology", Tyndale Bulletin 43, n. 2 (1992): 291-92; ver também H . H. Rowley, 7he Missionary M essage ofthe 0/d Testament (London: Carey Press, 1944), 36,39-41.


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 145 reviravolta na história da redenção: "Nesse 'ide a todas as nações' está, portanto, o evidente ponto de inflexão, a grande mudança de direção do evangelho, indicada e preparada por declarações anteriores de Jesus (e.g., Mt 13.38, 22.1-14,24.14 etc.), mas agora sendo levada a efeito".41 A mudança de um movimento centrípeto para um movimento centrífugo- na verdade, a transformação da própria forma do povo de Deus- somente pode ser explicada com base nessas palavras de Jesus. Ele reúne seu pequeno rebanho e o envia às nações, incumbindo-o de continuar o processo de ajuntamento que ele iniciou. O povo de Deus agora é enviado a todas as nações (Mt 28.19; Lc 24.47). A incorporação das nações no povo de Deus era uma promessa escatológica em toda a história da Bíblia. Jesus restringiu sua missão ao povo de Israel, reunindo e restaurando-os com vistas a esse alvo. Agora chegou o tempo de a salvação de Deus ir às nações. Em segundo lugar, Jesus envia uma comunidade em uma missão para as nações. Todo o ministério de Jesus se concentrou em reunir e formar um povo que viesse a encarnar os propósitos de Deus em favor do mundo. Jesus não envia aqui onze discretos indivíduos (seu número diminuiu temporariamente por causa da perda de Judas), cada um com sua própria responsabilidade de testemunhar do evangelho; essa maneira de ler o mandato de missão à luz da iniciativa missionária ocidental nos desviou da rota. Essa não é uma tarefa atribuída a indivíduos isoladamente; é uma identidade conferida a uma comunidade. Shenk observa que a "Grande Comissão é uma declaração eclesiológica fundamental, pois ela é dirigida à comunidade de discípulos, não a pessoas autônomas". 42 Jesus fala a uma comunidade reunida, o núcleo e embrião da igreja do Novo Testamento, para dar a ela uma identidade e um papel na missão contínua de Deus. Newbigin observa que a comissão de Jesus à sua comunidade "é o evento que dá início à igreja. É um movimento em que a igreja é lançada para a vida pública do mundo. Não contém vida, exceto nesse envio [ ... ].A igreja [ ... ] [é] um corpo enviado ao mundo para atrair todas as pessoas a Cristo. A existência da igreja está nesse envio". 43 Em terceiro lugar, essa comunidade é o Israel escatológico. ~ando Jesus se reúne com os Onze, ele fala ao Israel reagrupado. Karl Barth menciona que os Onze na Galileia "encarnam e representam o Israel do tempo final. Esses 'onze' (de acordo com a aritmética bíblica!) equivalem a 'doze', uma vez que mesmo na 4 1 J ohannes Blauw, The Missionary Nature of the Church: A Survey of the Biblical Theology of Mission (New York: McGraw-Hill, 1962), 85. 42 Wilbert R. Shenk, Write the Vision: The Church Renewed (Valley Forge, PA: Trinity Press International, 1995), 89. 43 Newbigin, Mission in Christ's Way, 22-23, grifo do autor.


146 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA sua incompletude eles respondem pela totalidade de Israel". 44 Aqui está o núcleo do "Israel" do fim dos tempos, uma nação destinada a incluir todas as nações, incorporando-as todas na vida e na história de Israel, agora reunido e purificado nos últimos dias. Barth diz: Por meio dessa missão a comunidade de Jesus se torna manifesta na sua ressurreição como a comunidade universal. É o Israel escatológico, o Israel que recebe na sua vida e história os escolhidos dentre os gentios. Na verdade, nunca foi diferente. Mesmo durante sua vida antes da morte, Jesus nunca lhe deu outro fundamento do que aquele que agora se tornou evidente: não como uma comunidade especial dentro de Israel e, consequentemente, não como uma nova forma do Israel anterior na história, mas como o Israel do fim dos tempos, cumprindo o destino do Israel histórico, como "uma aliança para o povo, luz para as nações" [Is 42.6; 49.8).45 Assim, como o início do Israel escatológico reunido, esse grupo retoma a missão de Israel e cumpre o que Deus tinha em mente para o seu povo desde a sua eleição inicial. Eles devem cumprir o destino de Israel de ser luz para as nações. Em quarto lugar, à medida que o Israel escatológico é enviado para viver entre as nações, e os povos do mundo começam a tomar o seu lugar na vida e na história de Israel, o povo de Deus assume uma nova forma. Com seu novo lar entre as nações e culturas do mundo, esse povo da diáspora não mais será definido pela geografia ou herança étnica ou unidade sociopolítica. Com base na ressurreição e nessa nova comissão que lhe confere sua identidade, o povo de Deus é "o povo do Israel restaurado, agora transformado por meio de Jesus e do Espírito em um povo multiétnico, sem base geográfica estabelecida, encarregado de uma missão para o mundo todo". 46 Em quinto lugar, os propósitos universais de Deus são realizados com base na ressurreição de Jesus e no dom do Espírito. "De todos os relatos, está claro que a ressurreição como a coroação da obra de Cristo, é a primeira e principal pressuposição e a condição para a proclamação do evangelho entre as nações. A segunda é o dom do Espírito Santo". 47 Nos quatro Evangelhos, é a ressurreição que gera a missão. Jesus é o Senhor ressurreto que possui poder e autoridade cósmicos. Considerando o contexto de Daniel7.14, Mateus retrata Jesus como o Senhor ressurreto que tem 44 K. Barth, "Exegetical Study ofMatthew 28", 58. 45 Ibid., 64, grifo do autor. 46 N. T. Wright, lhe Las! Word· Beyond Bible liVárs to a N ew Undentanding oJ the A uthm·ity of Scripture (New York: Harper Collins, 2005), 54. ' 17 Blauw, M issionmy N ature oJ the Church, 89.


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JES US E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA 147 toda autoridade no céu e na terra e que, com base nesse domínio global, incumbe seus discípulos de convidar toda a humanidade a se submeter ao seu senhorio: "Missão é o convite ao Senhorio de Cristo".48 Nos Evangelhos de João e de Lucas, o Senhor ressurreto concede o Espírito Santo aos seus discípulos. O Espírito é a dádiva do final dos tempos prometida pelos profetas para a salvação de toda a humanidade (Jl 2). A ampliação do rol de membros do "povo de Deus" para incluir todas as nações se baseia na autoridade cósmica do Jesus ressurreto e na obra universal do Espírito. A missão do povo de Deus é "a concretização do poder universal concedido ao Ressurreto (Mateus) [e] a implementação da energia do Espírito que emana da Ressurreição (Lucas e João)". 49 Finalmente, essas comissões direcionam a comunidade de discípulos a dar continuidade à missão de Jesus; sua "missão contém todas as dimensões e a abrangência do próprio ministério de ]esus". 5 ° Cada um dos Evangelhos destaca esse aspecto mantendo sua orientação teológica particular. A ordem em Mateus de "fazer discípulos" nos leva a retornar à narrativa de Mateus para ver como Jesus faz discípulos: o discípulo responde à mensagem do reino com fé e arrependimento; o discípulo centraliza sua vida em Jesus, aprendendo a viver em comunhão amorosa com ele e moldando sua vida em conformidade com a de Jesus; o discípulo aprende a custosa obediência a cada palavra de Jesus e participa na missão de Jesus tornando o reino conhecido por meio de palavras e ações; o discípulo aprende o amor sacrificial. Karl Barth comenta a respeito da ordem de Jesus de "fazer discípulos": "Façam deles o que vocês mesmos são! Tragam- -nos a aprender aqui, comigo, onde vocês mesmos aprenderam! Chamem-nos para fazer parte dos Doze do Israel escatológico! Façam com que partilhem seu lugar e sua tarefa no mundo!". 51 Ou, como observa Christopher Wright, Jesus "comissiona seus próprios discípulos a ir e reproduzir a si mesmos criando comunidades de obediência entre as nações". 52 No Evangelho de João, Jesus diz muito explicitamente: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio" (Jo 20.21). O "assim'' nesse texto nos diz que a missão de Jesus a Israel deve servir como um paradigma para a missão de seus seguidores às nações. Newbigin comenta: "Isso deve determinar a maneira como pensamos sobre a missão e a realizamos; ela deve ser fundamentada sobre a missão 48 Ibid., 84. 49 Legrand, Unity and Plurality, 70. 50 Ibid., 7 4. 5 1 K. Barth, "Exegetical Study on Matthew 28", 63. 52 Christopher J. H . Wright, 1he M ission oJGod: Unlocking the Bible's Grand Nan-ative (Downers Grave: InterVarsity, 2006), 391. [Edição em português: A missão de D eus, São Paulo, Vida Nova, 2014. No prelo.]


148 A IGREJA MISSIONAL NA BÍBLIA dele e moldada conforme a missão dele. Não temos autorização para cumpri-la de nenhuma outra maneira". 5 3 Legrand faz o importante comentário de que entender o papel da igreja como a retomada da própria causa de Jesus demonstra o "significado dos relatos dos Evangelhos na {sua} função de {nos ensinar sobre} missão". 54 Às vezes, os evangélicos não sabem exatamente o que fazer com os relatos da vida e do ministério de Jesus nos Evangelhos além de contemplá-los como um exemplo de santidade pessoal. No entanto, os Evangelhos oferecem o padrão que deve marcar e definir a vida da igreja. Ao relermos no capítulo anterior o resumo da missão de Jesus, vemos aí um chamado muito desafiador. Jesus formou uma comunidade para que esta participasse da sua própria missão do reino e a encarnasse. Ele anunciou as boas-novas e convidou pessoas a entrar nessa comunidade por meio de arrependimento e fé e a receber as bênçãos e as exigências do reino. Ele demonstrou o poder e o caráter do reino com atos de poder e compaixão. Sua vida ilustrou vividamente a vida no reino: um "relacionamento Aba" com o Pai; uma vida dotada de poder pelo Espírito; uma rica e profunda vida de oração com um clamor pelo reino em seu cerne; uma obediência completa ao Pai; um clamor exigente por justiça, retidão, alegria, amor e perdão; uma identificação com os pobres e marginalizados; e uma prontidão para desafiar com amor sacrificial os ídolos e poderes da cultura. Isso fornece um retrato amplo e profundo da vida missional para a qual a igreja é chamada. Entretanto, isso não quer dizer que a igreja deve se satisfazer em realizar uma imitação barata da missão de Jesus. Hugo Echegaray observa que "Jesus não deixou para seus discípulos um programa de ação detalhado, ou um tratado para servir-lhes de guia mais tarde em cada circunstância, ou regras precisas para sua organização futura. Ele os deixou livres para darem forma responsável à sua missão quando, após a Páscoa, eles enfrentassem circunstâncias, necessidades e problemas novos". 5 5 Na sua vida, por meio do que disse e fez, Jesus ofereceu uma alternativa à injusta ordem política e social existente. Ele não estabeleceu exigências éticas abstratas ou um sistema completamente desenvolvido de organização comunitária, mas deu sinais e exemplos de uma prática alternativa que deveria moldar a vida em comunidade com postura crítica aos ídolos culturais. "Jesus não estabeleceu um modelo rígido de ação; antes, inspirou seus discípulos a prolongar a lógica de sua própria ação de uma maneira criativa em meio a circunstâncias his53 N ewbigin, Mission in Ch1·ist's Uily, 1. 54 Legrand, Unity and Plurality, 73. 55 Hugo Echegaray, The Practice of] esus, trad. M atthew]. O'Connell (Maryknoll, NY: Orbis Books, 1984), 93.


A MORTE E A RESSURREIÇÃO DE JESUS E A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGR EJA 149 tóricas novas e diferentes, nas quais a comunidade teria de proclamar o evangelho do reino em palavra e ação". 56 Conclusão A história bíblica é uma narrativa da jornada de Deus pela restauração da criação e da vida humana para que estejam novamente debaixo do seu governo benevolente. Ele escolhe um povo para acompanhá-lo nessa jornada, para encarnar na sua vida comunitária a promessa da restauração divina. Os eventos da morte e ressurreição de Jesus constituem o momento central e culminante nessa história. Na cruz, a era antiga dominada pelo pecado, pelo poder satânico e pelo mal é vencida decisivamente. Na ressurreição, tem início a era vindoura - caracterizada pelo shalom, pela justiça e pela salvação e destinada a encher toda a terra. O povo de Deus começa a fazer parte desses eventos em fovor do mundo. Sua vida transformada pelos poderes da era vindoura apontam para esses eventos definitivos como o ponto de inflexão na história mundial. Concluída essa obra fundamental, o povo escatológico que Jesus reuniu pode agora ser enviado às nações. O Novo Testamento registra a reflexão histórica e teológica desse povo enviado às nações para dar seguimento à lógica da missão de Jesus de maneiras criativas em seus variados contextos culturais. É a isso que voltamos nossa atenção no próximo capítulo. 56 lbid., 94.


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