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Published by , 2016-03-09 15:55:19

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Ficha catalográfica

APRESENTAÇÃO

ÍNDICE



A CENSURA DRAMATÚRGICA: UM ESTUDO CRÍTICO-FILOLÓGICO DOS
REGISTROS DA CENSURA TEATRAL ATRAVÉS DOS TEXTOS DA
IMPRENSA BAIANA

Larissa Caroline Dórea Borges (PROAE / UFBA)*
Profa. Dra. Rosa Borges (UFBA - Orientadora)**

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Esta comunicação resulta do trabalho desenvolvido no âmbito do grupo de
pesquisa coordenado pela Profa. Dra. Rosa Borges na Universidade Federal da Bahia.
A pesquisa proposta para os textos de imprensa relativos ao teatro e à censura tem com
objetivo a organização de um catálogo descritivo digital, contendo as matérias de
jornais que circularam durante o Regime Militar e que fazem menção ao teatro baiano
da época. Tais documentos são tomados para a edição e o estudo do texto teatral, por
trazerem informações significativas sobre o contexto sócio-histórico no qual os textos
teatrais e espetáculos foram realizados, reproduzindo, assim, as tensões de um período
de repressão. Propõe-se, então, com este trabalho tecer comentários a respeito do
processo censório às produções dramatúrgicas da Bahia através dos textos de imprensa.
Por meio deste breve estudo investigativo, buscar-se-á analisar os elementos que
marcam os processos de construção e recepção dos textos teatrais, bem como, as
consequências da ação da Censura para a produção dramatúrgica baiana

2 OS TEXTOS DE IMPRENSA RELATIVOS AO TEATRO E À CENSURA

A Equipe Textos Teatrais Censurados (ETTC), coordenada pela Porfa. Dra.
Rosa Borges, tem reunido diversos documentos referentes à produção teatral na Bahia, e
vem organizando os documentos em dois Arquivos, o primeiro relativo aos textos
teatrais censurados, e outro, contendo os textos de imprensa que circularam na época da
ditadura na Bahia. Recorta-se, neste trabalho, a elaboração do Catálogo Descritivo

* Graduanda em Letras Vernáculas com Língua Estrangeira, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Bolsista do PROAE de Iniciação Científica do Grupo de Edição e estudo de textos teatrais censurados na
Bahia, coordenado pela Profa. Dra. Rosa Borges. Contato: [email protected] - Autora
Professora da classe Associado no Departamento de Fundamentos para o Estudo das Letras do Instituto
de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: [email protected]. – Orientadora.

Digital realizado para os textos da imprensa baiana, por se revelarem documentos

auxiliares à atividade filológica, ao reproduzirem em um contexto de repressão, os

posicionamentos adotados no que concerne às tensões causadas pelo Regime Militar na

produção dramatúrgica baiana. Esses documentos referentes à produção dos textos

teatrais baianos, ao serem tomados como documentação paratextual, são de suma

importância para a atividade editorial.
A filologia é uma “[...]ciencia que estudia el languaje, la literatura y todos los

fenómenos de cultura de un pueblo o de un grupo de pueblos por medio de textos
escritos”1 (CANO AGUILAR, 2000, p.16). A partir do conceito apresentado, inscreve-

se o filólogo, ao realizar o processo investigativo, que toma para estudo os textos de

imprensa que fazem referência ao teatro e à censura na Bahia e no Brasil, possibilitando,

desse modo, narrar à história e memória do teatro baiano e brasileiro. A pesquisa

realizada configura-se como um meio para apresentar ideias e valores circulantes em

uma dada sociedade, em um dado contexto histórico, tornando-se possível, por

intermédio desta atividade, a ampliação da compreensão do texto como indivíduo
histórico e mediador sociocultural por serem veículos informativos “que evidenciam

uma opinião pública capaz de manipular discursos e disseminar ideologias, modismos e
costumes” (SOUZA; CORÔA, 2012, p.139).

Ao se destacarem “as críticas e notas de estreias e matérias especiais [...] era

nítida a importância como porta-voz dos desmandos da repressão nas palavras daqueles
que não só escreviam aos periódicos, mas também viviam de fazer teatro” (SOUZA;

CORÔA, 2012, p.139). Desse modo, os textos de imprensa podem ser tomados, aqui,

como uma comunicação marginal em relação à edição do texto teatral, que fornece ao

filólogo subsídios no que se refere ao processo de produção, recepção e circulação da

obra, por se proporem, justamente, a esclarecerem-se fatos circunstanciais e

colaborarem para ao exercício da prática editorial. Souza e Corôa (2012, p.139)

afirmam que

[...] essas fontes – textos de imprensa, entrevistas de pessoas que vivenciaram
a ditadura e seus arquivos pessoais etc. – oferecem pistas da sociedade do

período militar e mostram-se como de grande utilidade para esclarecer as

mais diferentes situações textuais encontradas.

Evidencia-se, portanto, que os textos de imprensa se destacam por serem
“eficientes estratégias textuais integradas à estrutura literária” (SOUZA; CÔROA, 2012,

1 Tradução nossa: “ciência, que estuda a língua, a literatura e todos os fenômenos de cultura de um povo
ou grupo de pessoas através dos seus textos escritos”

p.146). Nesta pesquisa, observam-se os fatos que marcaram a sociedade daquela época,
rastreando informações que revelam a relação entre censura e teatro na imprensa,
sobretudo baiana. A utilização dessas informações oriundas dos textos de imprensa,
para a Crítica Textual, irá conduzir o editor, a um novo percurso até o texto teatral a ser
editado, sendo a prática de edição responsável pela preservação da memória de um
povo. Ao realizar a leitura filológica desses documentos, é possível através dos fatos
relatados entender os episódios que marcaram a sociedade baiana da época bem como
os novos modos de ler a cultura, a política, a história e a dramaturgia em tempo de
repressão.

3 AS REPRESENTAÇÕES DA CENSURA TEATRAL NO JORNALISMO
BAIANO

A prática do jornalismo informativo e de opinião durante os anos de Ditadura
Militar mostrou-se uma forma de resistência contra os meios de controle da informação
criados pela Censura que, ao adotar diversos métodos de repressão à imprensa, entre as
suas intervenções, convém destacar as proibições de campanhas pela revogação dos
Atos Inconstitucionais, de contestação ao regime vigente, críticas contundentes aos
governadores, publicidade a favor do comunismo e/ou qualquer tipo de inferência às
tensões entre a Igreja e o Estado, assim como, as agitações nos meios estudantis,
artísticos e sindicais.

Nos noticiários da imprensa baiana, observa-se o reflexo da postura política e
cultural de denúncia e oposição à liberdade de expressão, houve a preocupação de
veicular, discutir e debater textos ligados à emergência contracultural, assim, tais jornais
envolvidos em uma cultura de resistência buscavam refletir sobre os problemas sociais e
denunciar as medidas arbitrárias da Censura na época.

Nas palavras de Gomes (2008, p.14), entende-se censura como “investimento
sobre a palavra como meio de sustentação do poder, [...] nos termos de Michel Foucault,
um dos procedimentos de exclusão que atingem o discurso, um procedimento de origem
externa”. A proibição no discurso censório é determinada pela forma como os censores
percebem a realidade, absorvida, especificamente, através das ideias que se encontram
em torno das noções de formação discursiva e ideológica impostas pelo sistema
ditatorial vigente. A exemplo da censura nos textos teatrais nos textos teatrais, cita-se o
trabalho de Trabalho de Conclusão de Curso elaborado por Eduardo Matos (2008),

intitulado como A Moral como discurso censório: uma análise da ação da censura no
texto teatral À Flor da Pele, desenvolvido no campo da Crítica Textual, que esclarece

através dos cortes realizados pelo censor, as concepções ideológicas impostas pelo
Regime Militar que defendia a moral e os valores de conduta do homem, “o veto, de
cunho moral, caracteriza-se pela condenação de assuntos ligados à bigamia, ao
adultério, ao incesto, à sexualidade, à nudez, às palavras de baixo calão e etc” (SOUZA;

CÔROA, 2012, p.59). Assim, cada lugar ocupado pelo censor, no discurso censório,
determina o que se pode dizer, impõe-se normas de condutas, concepções ideológicas
que se refletem nos corte do texto teatral.

O conflito existente entre o teatro e a censura tornou-se suficiente para inserir a
figura do censor como “uma espécie de co-autor não autorizado do texto” (MATOS,
2008, p.(2). Sendo, nessa perspectiva, possível a confirmação de que o texto teatral ao
ser encenado torna-se resultado autoral de uma visão de mundo de quem o produziu, e
também, produto das intervenções do sujeito-censor.

No caso do período militar, as diferentes formações discursivas colocavam os
sujeitos em constantes conflitos: para o dramaturgo, por exemplo, certas
expressões, palavras, cenas poderiam ser encenadas sem nenhuma restrição –
tanto o é que eles as colocavam em seus textos –, para o censor, não. Assim,
cada fragmento de texto, réplica ou rubrica, poderia ser interpretado de forma
diferente a depender da formação ideológica e da formação discursiva a que
seu observador estivesse filiado. (MATOS, 2008, p. (2)

No período da Ditadura Militar, alguns jornais baianos, assumiram uma posição
de engajamento político e social a favor da formação cultural de seus leitores, utilizando

do espaço reservados às artes cênicas para anunciar diariamente a programação artística
e cultural da cidade, são eles: Tribuna da Bahia, Jornal da Bahia, Diário de Notícias e
A Tarde. Segundo Franco (1994, p. 64) estes jornais, “apresentavam notas, críticas,
comentários sobre a atividade cultural e praticavam o colunismo cultural, noticiando
estreias, temporadas etc”.

Fundamentando-se nos casos de Censura repercutidos pela imprensa baiana,
analisa-se, aqui, a publicação do Jornal da Bahia, em 05 de julho de 1978, que em nota,
o produtor Altair Lima expõe as dificuldades encontradas ao se montar uma peça teatral
devido à ação da censura, ao comentar: “[...] estamos impedidos, quando vamos montar
um pela estamos sabendo muito bem dessa realidade, a de que estamos com os panos
fechados [sic], nos arrancaram as cortinas [...]” (LIMA, 05 jul. 78).

Fig.1: Imagem referente à nota publicado no Jornal da Bahia, Salvador, 05 de jul. de 1978

Em outra matéria publicada pelo Jornal da Bahia, datado de 17 de fevereiro de
1968, assinada pelo colunista Sóstrates Gentil, descreve-se a movimentação idealizada
pela classe teatral carioca que solicita uma reforma na Censura Brasileira como um
mecanismo mais funcional e estruturado.

Fig.2: Jornal da Bahia, Salvador, 17 de fev. de 1968.

O colunista, ao evidenciar a preocupação em abrir espaço para a discussão a
respeito do problema da Censura como molde cultural, acredita que a necessidade não
seria de um setor técnico, mas de uma mudança na mentalidade dos que integram o
órgão censor. De acordo com a opinião de Sóstrates Gentil, “[...] reformar o que?
Pensarão na existência de um órgão devidamente estruturado? A reforma cremos, não
seja de caráter funcional de um setor técnico não. O necessário é uma mudança de
mentalidade [...]”.

Em entrevista dada a um jornal carioca e transcrita pelo Jornal da Bahia, em 18
de fevereiro de 1968, o dramaturgo Plínio Marcos, considerado autor-revelação do
teatro brasileiro em 1967, fala a propósito da Censura. Quase todas as suas peças foram
censuradas, dentre as peças proibidas destacam-se: A Barrela, Jornada de um imbecil,
Até o entendimento e Reportagem de um tempo mau. No caso da peça Navalha da
Carne, o próprio autor relata que a liberação pela censura só foi possível devido a

movimentação da classe teatral na luta a favor da liberdade de expressão. Indagado por
enfrentar os diversos problemas com a Censura Federal em suas produções
dramatúrgicas, o autor responde:

É lamentável que em um país como o Brasil exista a censura. A censura é
própria de países onde existe ditadura, e nós estamos em um regime onde não
se permite ao artista liberdade de expressão. Nós temos lutado contra a
censura, e continuaremos lutando. Não podemos permitir que em nossa pátria
existisse [sic] uma censura que nos permita fazer criticas abertas ao sistema e
denunciar sempre tudo o que achemos que seja denunciado. (MARCOS, 18
fev. 1968).

Na mesma entrevista, Plínio Marcos afirma que só aceita a censura do público.
Do autor, o público baiano teve a oportunidade de prestigiar as peças, Quando as
máquinas param, encenada pelo teatro Arena da Bahia, no Vila Velha, e os Homens de
Papel, no Teatro Castro Alves. Da pesquisa desenvolvida, tomando-se os textos de
imprensa, também se verifica a posição da Igreja Católica. O Jornal da Bahia, em 22
de março de 1968, divulgou uma matéria assinada por D. Jerônimo de Sá Cavalcante,
em coluna intitulada Catolicismo, trazendo a opinião do Padre Guidor Logger, que
comenta sobre a questão levantada a respeito da censura ao teatro e ao cinema,
conforme se pode ler a seguir:

Padre Guido Logger, diretor da Central da Católica de Carmem, emitiu
recentemente, sua opinião sobre o problema, e nos parece alta significação
dentro da questão era levantada em todo país. [...] A Censura não é novidade,
existe em todos os países democráticos como nos estados totalitários e
policiais. Certamente, todos concordam que a Censura é a defesa contra
possíveis excessos que os autores de teatro de cinema podem cometer contra
a ordem pública e a moral.
(CALVALCANTE, 22 mar. 1968)

Vê-se a prática jornalística a serviço da Censura como um dispositivo
disciplinador e regulador social. Para Gomes (2008, p. 14),

Neste caso, há como um pano de fundo para a compreensão da censura, uma
concepção de discurso [...] os discursos assim compreendidos, são formatos
através dos conteúdos instalados ao modo de pensar que oriente indivíduos
ou grupos, ao longo de um período, em um determinado lugar.

Delineia-se, conforme se observa nos excertos acima, a posição da Censura em
relação às produções culturais, atuando em nome da preservação da ordem, das boas
maneiras e dos bons costumes, valendo-se dos jornais para atingir um público mais
vasto.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os textos de imprensa veiculam informações relevantes sobre um contexto
histórico, social e político. Neste caso, o enfoque é dado às matérias que abordam o
tema da censura ao teatro. O estudo desses textos de imprensa pela Filologia Textual
representa um desafio, dada a sua importância histórica, pois, estes se constituem
testemunhos documentais relevantes de uma época de repressão.

Algumas das colunas de teatro daquela época revelavam a atuação de uma
imprensa política e de opinião que condenava as arbitrariedades da Censura no período
da Ditadura Militar. Ao denunciar, de forma direta, as tensões políticas que envolviam o
veto à liberdade de expressão, as tensões no meio artístico que resultavam na proibição
da encenação de alguns espetáculos, a imprensa cumpria seu papel, também mediada
pela ação da Censura. Destaca-se, aqui, a entrevista do dramaturgo Plínio Marcos que
utilizou a imprensa como suporte para denunciar as arbitrariedades da censura em
relação às artes cênicas, em uma tentativa de produzir uma reflexão e conscientizar a
sociedade baiana para tal situação, ao tempo em que, através da própria arte, buscava
produzir uma reflexão em uma tentativa de conscientizar a sociedade brasileira para tal
situação.

REFERÊNCIAS

ALTAIR Lima vê o teatro como tribuna das idéias. Jornal da Bahia, Salvador, 05 jul.
1978.

GENTIL, Sóstrates. Censura criou crise. Jornal da Bahia, Salvador, 17 fev de 1968.
CALVALCANTE, Jeronimo de. Censura no teatro e no cimena. Jornal da Bahia,
Salvador, 22 mar 1968.

CANO AGUILAR, Rafael. Introduccion al análisis filológivo.[Madrid]:Castalia, 2000.

FRANCO, Aninha. O teatro na Bahia através da imprensa: século XX. Salvador: FCJA;
COFIC; FCEBA, 1994.

GOMES, Mayra Rodrigues. Palavras Proibidas. Pressupostos e subtendidos da Censura
Teatral. São José do Rio Preto: Bluecom, 2008.

MATOS, Eduardo Silva Dantas de. Por uma análise da ação da censura no texto teatral:
a moral como discurso censório. Disponível em: <
http://www.textoecensura.ufba.br/files/eduardo_02.pdf> Acesso em: 10 jul. 2014

SANTOS, Rosa Borges dos. Uma metodologia aplicada à edição de textos teatrais. In:
MAGALHÃES, José Sueli de e TRAVAGLIA, Luiz Carlos (Org). Múltiplas
Perspectivas em Lingüística. Uberlândia: Edufu, 2008. 1 CD-ROM.

SOUZA, Luís Cesar; CORÔA, Williane Silva. História e Teatro: unidos pela Filologia
para o estudo do teto teatral. In: SANTOS, Rosa Borges dos (Org.). Edição e estudo de
textos teatrais censurados na Bahia: a Filologia em diálogo com a literatura, história e o
teatro. Salvador: EDUFBA, v. 1, p. 139-133, 2012.

TEATRÓLOGO só aceita a censura do público. Jornal da Bahia, Salvador, 18 de fev.
de 1968.

A EDIÇÃO DO TEXTO MALANDRAGEM MADE IN BAHIA, DE ANTONIO
CERQUEIRA

Williane Silva Corôa2

Rosa Borges dos Santos3

1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Objeto de estudo dos mais diversos campos do conhecimento, o texto, em sua
materialidade, é o espaço de diálogo entre os mais distintos saberes. A Crítica Textual,
enquanto ciência do texto, se ocupa do processo de transmissão, circulação e recepção
de um texto, buscando examinar a documentação acessória e as materialidades que
fizeram tal texto circular. Toma-se o texto Malandragem Made in Bahia (MMB), do
dramaturgo baiano Antonio Cerqueira, para leitura crítica das marcas autorais, das
anotações e dos cortes realizados pelos censores, uma vez que o texto foi produzido e
censurado no período da Ditadura Militar. Apresenta-se a edição interpretativa, em
diferentes suportes, papel e eletrônico, como foi feita e como se apresenta.

2 PRÁTICA DE EDIÇÃO NO ÂMBITO DA CRÍTICA TEXTUAL: A EDIÇÃO
DO TEXTO DE TEATRO

Durante muito tempo, procurou-se definir a Filologia, na perspectiva da Crítica
Textual, como “o conjunto de operações que preparam um texto para a publicação ou
mesmo o aproxima da última vontade manifestada por seu autor ou autora” (MARTINS,
2005, p. 50). Esse objetivo final do editor crítico, que procurava evidenciar a última
vontade manifesta do autor, sua intenção final, seu ânimo autoral, é conflitivo com as
discussões que estão sendo propostas na atualidade, momento em que se deve repensar
o fazer editorial. Estas discussões se assentam em uma mudança do que se entende
como texto (MCKENZIE, 2005).

Segundo Lourenço (2009, p. 183), “o afastamento do crítico textual da
preocupação com a determinação da intenção autoral encontrou o seu paralelo em

2 Professora substituta na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Mestre em Letras pela
Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autora.
3 Professora Associada da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutora em Letras e Linguística pela
Universidade Federal da Bahia (UFBA).

determinadas concepções da teoria da literatura e da autoridade”, que questionaram o
pensamento metafísico ocidental, em função da episteme de nossos dias. Assim, a
prática de edição de textos, segundo Castro (1995, p. 515-516), “tarefa para que
convergem directa ou indirectamente todos os esforços do filólogo [...] não está nunca
concluída”. Refuta-se, deste modo, “a noção de filologia como uma base que precede a
interpretação literária e cultural” (CASTRO, 1995, p. 516), pois, não se prepara uma
edição científica sem ao mesmo tempo lê-la e interpretá-la. Por ser uma interpretação, a
tarefa de editar um texto, “revela um incessante jogo de ir e vir entre texto e
interpretação” (CASTRO, 1995, p. 516).

Por conta das mudanças de paradigmas, a Crítica Textual teve que adequar sua
prática, tratando de diferenciar os modos como são preparadas as edições de textos
antigos e medievais, dos textos modernos e contemporâneos. Assim, em

Cada una de las épocas [...] el campo de la crítica textual, presenta
características propias en lo que se refere no sólo a la articulación del saber y
de las tendencias socio-culturales, sino también en la de la tradición textual,
que en el primer período es exclusivamente manuscrita, en el segundo a
veces manuscrita pero cada vez más frecuentemente impressa, aunque casi
sin intersecciones entre una y otra modalidad, y en el tercero esencialmente
impressa, pero con una marcada presencia de re-escrituras y reelaboraciones
materializadas en re-ediciones y de manuscritos pre o para-textuales, y con
una siempre más frecuente conmistión entre las dos tradiciones, que muchas
veces se entrelazan, con interferencias recíprocas y en una coexistencia
solidaria y conflitiva al mismo tiempo4 (TAVANI (1988, p. 36).

Conforme Lourenço (2009, p. 244), “Uma vez que o significado de um texto
depende, entre outros factores, da rede de códigos linguísticos e bibliográficos, Crítica
Textual e hermenêutica são actividades inseparáveis no estudo de um texto”. Alguns
teóricos defendem que a atividade de edição de texto é sempre uma hipótese, e, para que
esta hipótese se sustente, é necessário que o editor leve em conta as especificidades do

4 Tradução Nossa: “Cada uma das épocas [...] o campo da crítica textual, apresenta suas características
próprias, no que se refere não apenas à articulação do saber das tendências sócio-culturais, mas
também na tradição textual, que no primeiro período é exclusivamente manuscrita, no segundo, às vezes
manuscrita, mas cada vez mais frequentemente impressa, ainda que quase sem interseções entre
cada modalidade, e no terceiro essencialmente impressa, mas com uma marcada presença de reescrituras
e reelaborações materializadas em re-edições e de manuscritos pre- ou para-textual, e comistão cada vez
mais frequente entre as duas tradições, que muitas vezes são interligados com interferências mútuas e em
uma coexistência solidária e conflitiva ao mesmo tempo”.

texto que vai editar. No caso do texto de teatro, objeto de estudo deste trabalho, o editor
que se propõe a estabelecer um texto deve considerar o seu caráter efêmero, pois, este é
considerado um produto em processo, um continuum.

Desde o momento que é pensado, o texto no teatro se apresenta como material
aberto e variável, passível de modificações, pois desde o autor até o diretor, passando
pelos atores, podem sugerir alterações no texto da peça. Levado ao palco, este pode
passar por novo processo de reescritura, dependo da recepção crítica do público. Logo,
o texto é escrito e pensado para a representação.

A relação entre texto e encenação é dialética; “sabe-se desde há muito tempo que
à relativa perenidade e unicidade do texto opõe-se o caráter efêmero e múltiplo das
encenações” (GRESILLÓN, 1995, p. 269). Apesar disso, o texto sofre constantes
transformações, pois se adapta constantemente às situações surgidas no ato da
encenação. A relação entre texto e cena é de interdependência.

É nítida a dupla existência do texto teatral, pois ele admite que seu círculo de
significação se exerça em torno da relação escritura/fruidor (como literatura)
e em torno da relação escritura/encenação/fruidor (enquanto espetáculo). Vê-
se, então, que da literatura, a edição crítica não se dispensa; e quando se
pensa no lado propriamente teatral da questão, ela terá ainda mais
importância. (GADELHA, 1993, p. 145)

Por seu caráter efêmero, o texto de teatro, enquanto objeto de edição científica,
ainda intriga os editores que, buscando a última vontade do autor (aqueles, e não são
poucos, que ainda o fazem, pautando-se segundo modelo intencionalista), temem nunca
alcançá-la, uma vez que este texto é fruto de uma coletividade.

La relación de la crítica textual con las realidades de la producción teatral
siempre ha sido de una impotencia desconcertante. El texto dramático no es
sólo sumamente inestable, sino que, cualquiera que sea el argumento, no es
más que un pretexto para la ocasión teatral y sólo una parte constituyente de
ésta5. (MCKENZIE, 2005, p.65).

5 Tradução nossa: “A relação da Crítica Textual com as realidades da produção teatral sempre foi de uma
impotência desconcertante. O texto dramático é não apenas sumamente instável, mas, qualquer que seja o
argumento é apenas um pretexto para a ocasião teatral e apenas uma parte constituinte desta”.

Para solucionar esta “impotência desconcertante” do editor crítico frente ao texto
de teatro é que se faz necessário desconsiderar o texto como algo transparente, cujo
sentido da fixação deste seja trazer à luz as intenções autorais. Se o editor de textos
modernos conta com inúmeros originais e inúmeros materiais pré- e/ou paratextuais não
é possível a ele comportar-se como um editor de textos antigos e medievais, como
chama a atenção Tavani (1988).

Para que o editor científico possa estabelecer criticamente um texto dramático,
deve-se considerar sua instabilidade textual, suas múltiplas versões, e acima de tudo,
deve considerar o texto como objeto aberto, variável, fruto da coletividade, escrito a
várias mãos. A edição do texto de teatro precisa valorizar a variação, os diferentes
sujeitos envolvidos na sua construção, a sua instabilidade, como características próprias
da sua materialidade.

A edição crítica do texto teatral não deve sofrer de avareza (isto fica para
personagens cômicos), ao elaborar (e efetivamente imprimir) as suas notas.
As posições adotadas pelo editor, quanto mais esclarecedoras de outras
opções possíveis em muito auxiliariam o leitor encenador na tomada de suas
próprias posições. Além das didascálias (caso existiam no texto), transitam
outros indicadores do sentido. As notas de pé-de-página e o aparato crítico
muito têm a oferecer para a exegese dos profissionais da cena: elas servem
como fachos de luz (Apolo) a aclarar o caminho da criação em seu eterno e
livre movimento (Dionysos) (GADELHA,1993, p. 148)

Na Bahia, a Secretaria de Cultura, através da Fundação Cultural do Estado
(FUNCEB), instituiu o selo Dramaturgia da Bahia, fomentando “à produção
bibliográfica na área teatral, em regime de cooperação mútua e de parceria com
organizações profissionais, como o Teatro Vila Velha e o Teatro XVIII” (SANTOS,
2008, p. 2666). Em junho de 2008, em encontro realizado pela FUNCEB, traçaram-se
metas como inclusão da literatura dramática no ensino formal das escolas da rede
pública; criação de um banco de textos dramáticos virtuais e a edição e circulação da
dramaturgia através de parcerias com editoras e universidades. Desta forma, a
realização de edições científicas faz-se primordial, para que a proposta seja executada.

Desde 2006, um grupo de pesquisadores, a Equipe Textos Teatrais Censurados
(ETTC), coordenado pela Profa. Dra. Rosa Borges dos Santos, na Universidade Federal
da Bahia, tem-se ocupado da recolha, arquivamento, edição e estudo dos textos teatrais

censurados na Bahia no período da ditatura militar. O Arquivo Textos Teatrais
Censurados traz, além dos textos dramáticos, matérias de jornais baianos que tratam do
teatro e da censura na Bahia e fazem alusão aos textos editados. Como produtos desta
pesquisa, têm-se algumas dissertações de mestrado e alguns Trabalhos de Conclusão de
Curso.

3 A EDIÇÃO INTERPRETATIVA DO TEXTO MALANDRAGEM MADE IN
BAHIA

3.1 VIDA E OBRA DE ANTONIO CERQUEIRA

Antonio Cerqueira nasceu em Santanópolis, Bahia, a 13 de junho de 1961 e fez o
antigo segundo grau (hoje ensino médio) no Colégio do SESI6, onde começou a ter
contato com o teatro. A sua trajetória como ator, diretor e dramaturgo iniciou-se no final
dos anos de 1970. Nesse contexto, realizava com seu grupo um teatro ligado à causa
política, que visava a denunciar as condições sociais em que vivia grande parte da
população brasileira.

Estreou, em 1979, como ator com a peça Pedro Mico, de Antonio Callado. Entre
os anos de 1979 e 1988, Antonio Cerqueira atuou também em peças como Via sacra, de
Herny Gion, O Vaso suspirado, Arca de Noé, ambas de Maria Clara Machado, e Cristo
em todos os tempos, de Acyr Castro, Quando as máquinas param, de Plínio Marcos e
Toda nudez será castigada, de Nelson Rodrigues, O Mendigo ou o cão morto, de
Bertolt Brecht, entre outras.

Além disso, possui textos de sua autoria como Malandragem Made in Bahia
(1982), Blecaute no Araguaia (1983) e Baioneta Sangrenta (1984), sendo os dois
últimos vetados pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), em Brasília,
sob o argumento de ofender as forças armadas, ridicularizar o presidente da república e
incitar a violência.

6 Na década de 1970, além da crescente profissionalização no âmbito de teatro, houve o aparecimento de
grupos amadores, desta vez formados por alunos oriundos do ensino médio. Nesse período, era prática
comum nas escolas, com a implementação da disciplina de Educação Artística, que professores de teatro,
dança e música, ministrassem aulas e, assim, incentivassem seus alunos a seguir carreira artística.

Malandragem Made in Bahia (MMB) foi encenado em 1982, em dezembro,
todas as segundas e terças-feiras, na Biblioteca Central do Estado da Bahia.
Assemelhando-se aos textos de Plínio Marcos, a peça possuía um estilo pornográfico e
subversivo, com uso de termos de baixo calão. O texto questiona o problema sócio-
político brasileiro através do personagem Fábio, que, abandonado pela família, comete
toda a sorte de delitos, sendo morto pela polícia.

3.2 CRITÉRIOS PARA A EDIÇÃO DE MMB

Na prática de edição executa-se a recensio que é a busca por todos os
testemunhos que compõem a tradição de um texto. Segundo Duarte (1997-), a recensio
é “estudo da tradição manuscrita ou impressa de uma dada obra. Tal estudo consiste na
análise comparativa das varia lectio quando a obra foi transmitida por vários
manuscritos”. Através do processo da recensio, identificaram-se três testemunhos
mecanografados e uma vasta documentação paratextual. Os testemunhos estão
depositados nos acervos, a saber:

1) Núcleo de Acervo do Espaço Xisto Bahia, depositado na pasta 32C, ao lado do
texto Baioneta Sangrenta;

2) Coordenação Regional do Arquivo Nacional, Brasília – Distrito Federal,
depositado sob a numeração 456;

3) Fundação Nacional de Arte, do Ministério da Cultura – Rio de Janeiro,
depositado sob a numeração 869.2B.
Esses testemunhos circularam por diferentes espaços, ganhando cada um deles

marcas que os diferenciam e os tornam únicos. Por isso, na edição interpretativa
realizada, considerou-se cada testemunho em sua individualidade, uma vez que as
diferenças existentes em cada um deles são importantes e significativas.

Buscou-se editar o texto teatral MMB, pois, além de ser um texto representativo
do período, também apresenta peculiaridades quanto à linguagem. Para a edição do
texto, seguiram-se as normas adotadas pela Equipe Textos Teatrais Censurados, fazendo
os ajustes necessários, considerando a especificidade de cada situação textual.

Dada à leitura que se fez da materialidade dos suportes que fizeram circular o
texto MMB, das marcas autorais, das anotações e dos cortes realizados pelos censores,

optou-se pela edição interpretativa tomando como texto de partida para o trabalho
crítico aquele encaminhado para julgamento censório, sendo escolhido, portanto, o
testemunho arquivo no Arquivo Nacional, em Brasília.

Confrontaram-se os testemunhos e, a partir de então, apresentaram-se em
aparato, à margem e no rodapé da página, as variantes autorais e as intervenções dos
censores, respectivamente. As normas adotadas foram:

1. Respeitar o seccionamento do texto em cenas, atos e réplicas;
2. Trazer as informações da rubrica entre parênteses e em itálico;
3. Trazer o título da peça em negrito e em caixa alta;
4. Indicar os nomes das personagens na íntegra, em caixa alta e à esquerda da

folha;
5. Atualizar a ortografia, exceto para as grafias de palavras que correspondam

ao uso da língua em sua modalidade oral que, neste contexto, serão mantidas
conforme aparecem no texto;
6. Acentuar conforme as normas vigentes, salvo quando se tratar de registros da
oralidade, marcando o acento diferencial;
7. Proceder à correção do que for comprovadamente erro, deslize ou contra-
senso, conservando as marcas da oralidade existentes no texto, exceto nos
casos de oscilação da grafia de alguma palavra, quando será adotada a lição
que predomina;
8. Usar devidamente as letras maiúsculas em nomes de pessoas, lugares, e após
a pontuação, conforme regra em gramáticas normativas da língua
portuguesa;
9. Manter a pontuação original, exceto nos casos de erro, para os quais se fará a
correção;
10. Uniformizar a separação vocabular, segundo sistema atual, marcando elisões
com apóstrofo, mesóclises e ênclises com hífen. Juntar as sílabas das
palavras separadas por limite de espaço na linha que ocupa;
11. Manter os estrangeirismos da mesma forma que se registram nos textos e
corrigir somente erros;
12. Numerar as linhas de cinco em cinco;

13. Registrar as variantes autorais substanciais, em itálico, no aparato. As
intervenções do editor não serão registradas;

14. Registrar comentários do editor e as intervenções do censor, indicando a
primeira e última palavra referente ao trecho censurado, em nota de rodapé;

15. Usar operadores comumente empregados em trabalhos de Crítica Textual e
Crítica Genética para a descrição simplificada das emendas autorais
realizadas no texto:

[↑] Acréscimo na entrelinha superior
<> Supressão
< >/ \ Substituição por sobreposição
† Riscado ilegível

O testemunho do Arquivo Nacional foi tomado como texto de base, pois,
apresenta marcas da ação dos censores no texto editado. Ao lado do texto crítico,
seguiu-se um aparato onde foram registrados os movimentos de correção feitos pelo
autor. Ainda, nesse aparato, houve remissão para as notas, que esclareceram quaisquer
questões atinentes ao texto. No rodapé, além dos comentários do editor, registram-se as
intervenções dos censores, que eliminaram certas partes do texto, baseando-se nas leis
censórias, que, no caso de Malandragem Made in Bahia, foi o decreto-lei nº 20496/46.

Chamou-se texto do autor aquilo que está materializado no testemunho de base
como produção autoral. Ao lado das marcas autorais, aparecem marcas da censura
(carimbo, indicações de corte) que eliminam certas partes do texto, baseando-se nas leis
censóriais. O texto do autor aparece como texto de base, e, no aparato, também
registrou-se as marcas da censura, de modo que o leitor dessa edição pudesse notar o
que se configura como produção autoral e o que é produto social, determinado pela
ideologia e pelo regime político vigente, resultado da intervenção dos técnicos de
censura.

Quadro 1 – Edição Interpretativa do texto Malan

MALANDRAGEM MADE IN

AUTOR – ANTONIO CERQU

SA.BA;

7 Em um dos testemunhos há, em tinta azul, à mão, entre o nome do autor e a indicação do l
divulgação feita pelos jornais que indicam a apresentação para as 21 h.
De acordo com Antonio Cerqueira (2011), em depoimento aos membros da ETTC, o proces
narrativas. “Eu tava pensando essa semana (17/11/2011), aonde foi que eu achei inspiração
[os atores] tinham uma capacidade interpretativa muito grande, e aí, eu considerei assim, um
Calígula não é tão forte quanto Malandragem Made in Bahia. [...] Esse texto tem um conte
quatro vertentes de linguagem. Alguém pode achar que o texto é pornográfico, mas não. Es
governo da época para as pessoas que iam ao teatro, ou, independente disso, porque isso tam
[...] Não conheci na época algum autor que tivesse construído um texto tão louco (risos) com
diversas nuances e por fim das contas, ele é bonito, mas ele choca”.
A primeira vertente identificada no texto é o chamado teatro de conversação, “em que as tro
situações, um teatro em que nada ou quase nada é ‘agido’, em que a fala, e somente ela, é aç
semelhança com a dramaturgia de Plínio Marcos, autor do período, no qual Antonio Cerque
teatral e tive sorte de ser um dos únicos diretores teatrais que montavam suas obras, onde [
autorais, mesmo sabendo que era sucesso de bilheteria (CERQUEIRA, 2011).

ndragem Made in Bahia em suporte papel

BAHIA MALANDRAGEM MADE IN BAHIA 7

UEIRA

local: 20. hs. dia 13/12/82 Biblioteca 2ª feira. Esta informação diverge da

sso de criação de Malandragem Made in Bahia contou com quatro linhas
(risos). E caiu bem. Foi uma peça assim que chocou muito na época, porque eles
m dos textos mais diferentes que eu já criei. Até a propria adaptação que eu fiz com
exto bastante pesado para a época. Falando sob o ponto de vista literário, o texto tem
sta obra trata, desde o momento em que eu busquei, no texto, esclarecer a questão do
mbém é levado à imprensa.
mo Malandragem Made in Bahia. É verdade (risos). Ele é bastante mesclado, por

ocas e as circulações de palavras prevalecem sobre a força e o interesse das
ção” (RYNGAERT, 1998, p. 137). Nesse sentido, o texto apresenta muita
eira dialoga. Referindo-se a Plínio Marcos, diz: Me identifiquei com sua literatura
[sic] ele, Plínio Marcos, concedia a liberação da peça sem cobrar seus direitos

5 1º ATO

FÁBIO — (FÁBIO ESTÁ DEITADO FUMANDO UM
ABATIDO. ALGUÉM BATE A PORTA, FÁBIO
NÃO É NINGUÉM. VOLTA DEITA.
NOVAMENTE.)

Quem é?

8 De acordo com o depoimento aos membros da ETTC, Antonio Cerqueira (2011) diz que “

M CIGARRO. ESTÁ
O VAI ATÉ A PORTA, FÁBIO8 ATÉ A PORTA
BATEM A PORTA

<M>/B\ATEM

“os personagens (Nando, Fábio e Careca) são frutos de sua inspiração”.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Buscou-se, a partir dessa edição, conciliar abordagens e métodos que levam em
conta a Crítica Textual, a Crítica Genética e a Sociologia do Texto, na construção de
edições. O editor, a partir do texto estudado Malandragem Made in Bahia, desenvolveu
a leitura acerca do contexto de produção e circulação da obra dramatúrgica de Antonio
Cerqueira. Conhecendo bem tal produção, propôs-se uma edição interpretativa, em
suporte papel e digital, e outra fac-similar, levando-se em consideração as
particularidades de cada testemunho como indivíduo histórico (CANO AGUILAR,
2000).

6 REFERÊNCIAS

CANO AGUILAR, Rafael. Introducción al análisis filológico. [S.l.]: Castalia, 2000.

CASTRO, Ivo. O retorno à filologia. In: PEREIRA, Cilene da Cunha; PEREIRA, Paulo
Roberto Dias. Miscelânea de estudos lingüísticos, filológicos e literários in memoriam
Celso cunha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, p. 511- 520.

CERQUEIRA, Antonio. Malandragem Made in Bahia. Brasília. 1982. 32 f.
Coordenação Regional do Arquivo Nacional (COREG-AN).

CERQUEIRA, Antonio. Malandragem Made in Bahia. Rio de Janeiro. 1982. 32 f.
Fundação Nacional de Arte (FUNARTE).

CERQUEIRA, Antonio. Antonio Cerqueira: depoimento [nov. 2011]. Entrevistadores:
Liliam Lima, Adriele Benevides, Débora de Souza, Rosa Borges, Williane Corôa e
Hugo Correia. Salvador: UFBA, 2011. Entrevista concedida aos integrantes da Equipe
Textos Teatrais Censurados.

GADELHA, Carmem. Texto e espetáculo: edição crítica e movência. In: Encontro de
ecdótica e crítica genética, 3, 1993, João Pessoa. Anais... João Pessoa, Idéia, 1993. p.
145-148.

GARCIA, Silvana. In: GUINSBURG, J. et alii. Dicionário do teatro brasileiro: temas,
formas e conceitos. 2. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2009. p. 296.

GIULIANI, Luigi. Textos, performances y dilemas ecdóticos. In: JORNADA A
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2006. Disponível em: <
http://www.fl.ul.pt/centros_invst/teatro/pagina/Publicacoes/Actas/comunicacao_Giulian
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GRÉSILLON, Almuth. Nos limites da Gênese: da escritura do texto de teatro à
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Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v9n23/v9n23a18.pdf>. Acesso em: 10 out.
2009.

LOURENÇO, Isabel. The William Blake archive: da gravura iluminada à edição
electrónica. Coimbra: Faculdade de Letras, 2009. Tese de doutorado, Universidade de
Coimbra, Programa de pós-graduação em Língua e Literaturas modernas. Disponível
em: <www.dominiopublico.com.br>. Acesso: 10 out. 2011.

MARTINS, Celia Ferreira. Filologia, Filologia Românica e Crítica Textual. Scripta
Philologica. Feira de Santana: EDUEFS, n. 1, 2005. Disponível em:
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MCKENZIE, D.F. Bibliografía y sociología de los textos. Madrid: Akal ediciones,
2005.

SANTOS, Rosa Borges dos. Uma metodologia aplicada à edição de textos de teatro. In:
Simpósio Nacional e Simpósio Internacional de Letras e Linguística, 11, 2006,
Uberlândia. Anais... Uberlândia, EDUFU, 2006. p. 2663-2670. Disponível em: <
http://www.filologia.org.br/ileel/artigos/artigo_254.pdf>. Acesso em: 01 maio 2010.

TAVANI, Giuseppe. Teoría y metodología de la edición critica de textos literarios
contemporáneos. In: Litterature Latinoamericaine et des Caraibes du XX Siecle: theorie
et pratique de l’édition critique. Roma: Bulzoni, 1988, p. 65-84. (Collection Archives).

A ESCRITA DE MULHERES AFRO-DESCENDENTES DA CHAPADA
DIAMANTINA

Elias de Souza Santos (UNEB)9
Pascasia Coelho da Costa Reis (UNEB/UFBA)10

1. Para começar

O conteúdo desta comunicação tem uma linha mentora fulgente: apresentar
evidências de escritas afrodescendentes de fins do século XIX, que são heranças de um
passado, onde a cultura escrita, para a época, excluía negros e afrodescendentes desse
processo. Esse é um resultado de resistência de mulheres que nos deixaram um legado
de manuscritos autógrafos que nos fazem conhecer os possíveis caminhos pelos quais
foram inseridas numa cultura letrada, restrita apenas a poucos e, em sua grande maioria,
homens.

Serão apresentados os caminhos pelos quais chegamos a esses documentos
manuscritos, quem foi o responsável por sua preservação, quando e onde foram escritos,
quem são os autores e de que trata cada um.

Admite-se que os resultados deste garimpo se intercruzam, os fatos se avolumam
e as analises se ampliam, e que queremos deixar registrada essa discussão, centrada em
questões que permeiam por terras brasileiras desde o século XIX, ou em outras datas,
acerca dos processos de letramento e escrita de afrodescendentes. Temos, todavia, plena
consciência de que a inserção na lectoescrita não alcançou a todos e que essa realidade
se faz visível aos nossos olhos.

2. Manuscritos: um ponto de chegada

Surgem como o inesperado no projeto de pesquisa intitulado Garimpando o
Português Epistolar da Chapada Diamantina: em busca de testemunhos manuscritos,

9 Graduando do Curso de Letras Licenciatura/ Habilitação em Língua Portuguesa e suas Respectivas
Literaturas na Universidade do Estado da Bahia – DCHT – Campus XXIII – Seabra – Ba.
10 Mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia – UFBA – 2003, Professora
assistente do curso de Letras da Universidade do Estado da Bahia – DCHT – Campus XXIII – Seabra –
Ba.

quando, em meio às cartas, foram encontradas 6 orações manuscritas que hoje se fazem
presentes na quarta geração de uma família como uma herança espiritual.

A esse quadro se juntaram informações necessárias e seguras para que a sócio-
história desses manuscritos fosse descrita, situando assim sua realidade linguística no
tempo e no espaço. Projetando-se, nesse passado, traçaremos a trajetória desses
documentos manuscritos até se chegar aos cuidados de quem hoje os preservam.

Após duas gerações contadas a partir da escrita desses manuscritos, próximo o
seu óbito, Judite Venância dos Santos, filha de Senhorinha Rocha presenteia seu neto,
Elias de Souza Santos, com esses achados oracionais, que somente doze anos após
resurgem como o inesperado, ganhando visibilidade e fazendo se reconhecer enquanto
patrimônio material, desvelando seus mistérios.

11

11 Rocha, Senhorinha. Oração: A Nossa Senhora dos Desterros. Prata/Seabra – Ba, final do

Como já se sabe este pequeno acervo precioso revela indícios na direção de uma
contribuição para o conhecimento da variante americana do português, além de serem
fontes materiais preciosas para descobertas linguísticas e culturais da Chapada
Diamantina, pois as práticas de escrita de um povo ou de uma comunidade manifestam
a sua identidade, revelando aspectos de uma rica diversidade cultural ainda pouco
conhecida ou desconhecida.

Eis o exemplo vivo da escrita de afro-descendentes que foram sinônimos de
mulheres libertárias que certamente não foram as únicas a se desbravarem e a se
apropriarem dos prazeres da leitura e da escrita na região da Chapada Diamantina.

3. Preservação

O ser humano, durante sua evolução, desde que passou a compreender os bens
materiais e imateriais, enquanto elementos de conquista e regaste de sua memória,
passou a guardá-los. Dessa maneira, as civilizações passaram a resgatar o segmento de
seu passado histórico, constituindo patrimônios e bens culturais de suas próprias
civilizações, independente de sua idade cronológica que por si só é multidimensional e
podem ser altamente significativos no presente, estimulando dessa forma o futuro
(Magalhães, 1985, p. 66-67).

Com o surgimento da lectoescrita, as civilizações puderam produzir e armazenar
essas produções, o que permitiu o surgimento de acervos fundamentais para o
conhecimento da progênie histórica e todas suas peripécias memoriais de conquistas,
descobrimentos, atos heroicos e outros.

Manuscritos históricos têm se tornado ferramentas valorosas no cerne dos
estudos linguísticos, históricos e de diversas áreas do conhecimento. Assinala Queiroz
(2006)

[...] o documento escrito não é só de interesse da história como também da
filologia, da paleografia, da epigrafia, da diplomática, da linguística, da
literatura, do direito, da teologia, dentre outras ciências. Sendo assim, é de
suma importância a sua preservação e conservação.

É evidência clara a importância da preservação e conservação de documentos
manuscritos. Mantendo-se nessa perspectiva, documentos autografados, por mulheres

século XIX.

afro-descendentes, requerem um tratamento filológico especial. Já é de conhecimento de
todos nós que esses manuscritos aqui apresentados se intercruzam nesses
procedimentos.

As orações já se encontram editadas para um trabalho futuro, mas é claro que
sua edição não é a única finalidade a ser alcançada com esses manuscritos, é fazer virem
à tona as práticas linguísticas e culturais da época, para se fazer conhecer um aspecto de
uma sincronia de nossa língua, em suas feições fonéticos/fonológicos e
morfossintáticos.

Para realizar estudos com esses autógrafos fizeram-se necessárias as edições fac-
símile e semidiplomática, buscando evitar riscos à saúde do pesquisador, anulando
assim o manuseio direto do material já frágil e alterado por seu recuo no tempo e no
espaço.

Tânia Lobo (1997) ressalta a importância da edição de manuscritos antigos para
sua conservação e preservação enfatizando dois modos:

Por um lado, tiram-nos do esquecimento a que se encontram normalmente
relegados, tornando-os visíveis e, assim, passiveis de porventura maiores
preocupações e cuidados. Por outro lado, caso o pior aconteça – sua destruição
-, conservam parte deles para a posteridade.

Estes registros, decididamente, corroboram para que possamos sentir de todas as
formas as sensações deles advindas, não é somente manuseá-los ou lê-los. Com isso
procedimentos de conservação foram tomados, no sentido de disponibilizar tais textos
para qualquer pessoa que queira acessá-los, contribuindo para que sua memória
sobreviva e tornem-se vivos para testemunhar nosso passado escrito.

4. Para situar o leitor

Até aqui fizemos algumas alusões, que serão retomadas neste ponto do texto, as
quais denotam elementos essenciais nas compreensões temporais e espaciais dos
autógrafos afros descendentes. Para que possamos ter uma visão conjuntural que
compreende os manuscritos, relacionaremos a seguir passagens que julgamos
importantes para se saber quando e onde foram escritos.

Enervina Almeida e Senhorinha Rocha, irmãs, filhas de homens libertos, ex-
escravos, nasceram na microrregião de Seabra (Prata) Chapada Diamantina, coração da
Bahia, situada a 600 km de Salvador, centro financeiro e geográfico da Chapada. Essas
mulheres, segundo relatos familiares colhidos entre membros da 2ª a 4ª geração,
mudaram-se de Prata juntamente com seus filhos para Campos de São João, município
de Palmeiras, também cidade da Chapada Diamantina para praticarem agricultura de
subsistência. Após se fixarem nesse espaço, casam suas filhas, e se mudam para
Lençóis.

Enervina e Senhorinha, filhas de pais religiosos mantém sua religião como
doutrina para o salvamento eterno, escrevendo de próprio punho as orações realizadas
na instituição religiosa que frequentavam. Muito bem guardadas, essas orações hoje se
fazem presentes na quarta geração da família, como herança espiritual.

Essas orações manuscritas por afro-descendentes têm seu lugar quando essas
mulheres ainda jovens em fins do século XIX são alfabetizadas na Instituição religiosa
de Santa Marta, na microrregião de Seabra, a priori sob consenso familiar e em segundo
momento para darem conta das encomendas de bordados, rendas e linhas. Tais
atividades exercidas são o resultado de sua profissionalização proporcionada pela
própria Igreja.

Mulheres muito religiosas, elas tinham suas práticas de escrita de orações
situadas pela representação gráfica daquilo que ouviam de sua mãe.

Assim, a documentação por essas afro-descendentes deixadas é importante
subsídio para conhecermos a língua de então, apesar das dificuldades impostas pela
preservação do acervo para sua transcrição, vale ressaltar que esses autógrafos
competem dados significativos na compreensão do processo histórico e das variantes
que persistiram para além do período que essas duas irmãs viveram.

Por menor que seja este acervo, modificado e corroído pelas intempéries do
tempo, ainda compreende material para estudos linguísticos, sejam estes considerados
ruins ou insuficientes para muitos, reitero Labov (1982:20) “a arte de fazer o melhor uso
dos maus dados”.

5. Afinal, de que se trata?

Nesse tópico situaremos o leitor acerca do que trata cada manuscrito e a quem
compete sua autoria.

Oração 01 de autoria de Senhorinha Rocha, oração “A Nossa Sinhora do
disterros” - Trata-se de um manuscrito já modificado pela ação do tempo e das
intempéries e agentes químicos, mede 21 cm x 32 cm , apresenta 5 corrosões centrais e
1 superior, escrita em letra cursiva humanística com pena e tinta com cor já alterada
pelo tempo, dobrada em 8 malhas quadriculadas com algumas partes soltas e outras
justapostas por fita adesiva, marcada por um crucifixo na parte superior central e
autografada na parte inferior pela autora.

Oração 02 de autoria de Enervina Almeida, “O Sonho de Nosso Senhora” -
Mede 33 cm de altura por 22 de largura, dividida em 8 malhas quadriculares e
justapostas por uma fita adesiva central, em toda sua extensão apresenta furos e
corrosão de traças, papel amarelado e letras com as cores modificadas, apresenta-se em
recto e distribuída em 19 linhas.

Oração 03 (Enervina Almeida) “Oração de Santa Marta” manuscrito em verso,
apresenta-se em 6 linhas, autografada e com observação em 3 linhas. Mede 33 cm de
altura por 22 de largura, dividida em 8 malhas quadriculares e justapostas por uma fita
adesiva central, em toda sua extensão apresenta furos e corrosão de traças, papel
amarelado e letras com as cores modificadas, apresenta-se em verso.

Oração 04 de autoria de Enervina Almeida, “Oração de Nossa Senhora”
autografo em verso, 11 linhas, apresenta dois crucifixos antes e após o título. Divide-se
em 8 malhas quadriculadas e justaposta por fira adesiva, apresenta furos de traças, cor e
letras do papel estão alterados pelo tempo.

Oração 05 de autoria de Senhorinha Rocha, “Oração” 32x22, 8 malhas
quadriculadas e soltas, manuscrito em recto, papel amarelado com algumas corrosões de
traças, apresenta dois crucifixos na parte superior, disposta em 20 linhas com
observação de três linhas na parte inferior.

Oração 06 de autoria de Senhorinha Rocha, oração sem título, manuscrita em
verso, 33 linhas, apresenta crucifixo na parte inferior esquerda, possui 8 malhas, papel e
letras alterados, possui algumas corrosões de traças e pequenos rasgos pelo manuseio.

Após breve descrição dos manuscritos, podemos constatar do que eles tratam,
nesse sentido, facilitando a leitura dos mesmos em toda sua extensão.

6. Para retomarmos...

Chegamos ao ponto final das discussões, ou melhor, um ponto de retorno, pois
este trabalho não se esgota por aqui, é um dos que fazem parte da prolongada jornada
que queremos percorrer. Pode ser fonte para diversas áreas do conhecimento humano
como a literatura, a história, a antropologia e outros.

Muito além das teorias e métodos, se faz necessário a um pesquisador estar
informado da importância do estudo de manuscritos, assim como autógrafos de
mulheres afro-descendentes para revelar aspectos da sociedade em que a língua era
utilizada como instrumento de comunicação.

Este estudo nos faz conhecer o passado desse período para balizar estudos
presentes, bem como conhecer o processo de transferência da língua em uso, que era
falada, para matéria escrita, cuja documentação se torna base empírica para observar o
que seria a língua em uso.

Conhecer manuscritos afrodescendentes é se colocar frente a um legado, ou seja,
conhecê-los enquanto percalços da história do tempo até os dias presentes.

Alguns foram os objetivos a serem alcançados com este estudo, saber como se
chegou a esses documentos, quem foi o responsável por sua preservação, quando e onde
foram escritos, quem são os autores e de que trata cada um, estes foram aqui traçados e
reforçados com o auxilio dos manuscritos e de memórias familiares das mulheres que
constituíram esse pequeno acervo.

Vale ressaltar a importância da Igreja no processo de aquisição da leitura e
escrita dessas mulheres afro-descendentes, pois ofereceu às mesmas a possibilidade de
se encontrarem num “estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas
cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita” Soares (2010).

Admite-se que não apenas Senhorinha Rocha e Enervina Almeida, mulheres
afrodescendentes, no século XIX, dominavam as práticas de leitura e escrita, muitas
outras certamente se apropriaram desses prazeres, e dessa maneira a discussão não se
encerra aqui, pretendemos continuar garimpando para que novas autoras e novos

legados sejam lapidados para demonstrar o brilho dessas pedras que um dia se
encontraram brutas e adormecidas.

REFERÊNCIAS

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Cadernos de Língua Portuguesa, n. 6. Rio: UERJ, 2000.

CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes,
2005.

COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de gramática histórica. Rio de Janeiro: Ao livro
técnico, 2004.

LOBO, Tânia; OLIVEIRA, Klebson. Escrita liberta: letramento de negros forros na
Bahia do século XIX. In: CASTILHO, Ataliba de; MORAIS, Maria Aparecida T.;
LOPES, Ruth E. Vasconcelos; CYRINO, Sônia Maria Lazzarini. (Orgs.). Descrição,
história e aquisição do português brasileiro. Campinas: Pontes/ FAPESP, 2007, p. 437-
460.

OLIVEIRA, Klebson. Textos escritos por africanos e afrodescendentes na Bahia do
século XIX: fontes do nosso ‘latim vulgar’? 2003. – Dissertação (mestrado).
Universidade Federal da Bahia, Salvador.

MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2001.

PINTO, R. P. A educação do negro – uma revisão bibliográfica. Cadernos de
Pesquisa, Fundação Carlos Chagas, São Paulo, n. 62, ago.1987, p. 3-34.

SILVA, Rosa Virginia Mattos e. Caminhos da Linguística histórica – “ouvir o
inaudível”. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

ROMÃO, J; CARVALHO, A. A. De M. C. de. Negros e educação em Santa
Catarina: retratos de exclusão, invisibilidade e resistência. In: DLLA BRIDA, N.

(Org.). Mosaico de escolas: modos de produção em Santa Catarina na Primeira
Republica. Florianópolis: Cidade Futura, 2003.

TELLES, Célia Marques. Os documentos da coleção Arthur de Salles. Participação
na mesa redonda “Acervo Literários e Recuperação de textos inéditos ou raros”. II
ENCONTRO NACIONAL DE ACERVOS BRASILEIROS, Porto Alegre, 20-21 de
junho de l995.

A LITERATURA DE INFORMAÇÃO E SUA ESTRUTURA SINTÁTICA E
SEMÂNTICA, ENCONTRADAS EM MANUSCRITOS DO SÉCULO XIX.

Verônica Alves dos Reis12

Ednaldo Lino Vital13

INTRODUÇÃO

Imbuído do espírito investigativo o pesquisador encontra em seu objeto de
estudo a motivação necessária para empreender horas do seu tempo em análises e
descobertas relevantes para a sociedade.

O presente estudo não se retrai a esse conceito. Ao observar a necessidade de
uma pesquisa de natureza linguística e histórica em seu meio, o pesquisador apropria-se
temporariamente de recursos centenários, como o manuscrito, para apresentar a
sociedade cipoense um estudo histórico e linguístico.

Sabe-se que informação, no seu sentido comum, significa um ajuntamento de
informações referentes a fatos, pessoas, locais, etc. De acordo Francis Vanoye (2003),
com base na teoria da informação, a quantidade da informação é função de sua
probabilidade, isto é, quanto mais imprevisível for à mensagem, maior será a
informação.

Compreendendo a complexidade do signo linguístico e seus significantes, o
estudo semântico e sintático absorve a compreensão arbitrária do signo como

12 Autora - Graduada no Curso de Letras com Habilitação em Português e Inglês pela
Faculdade Dom Luiz Orleans de Bragança. Pós-graduação em Atendimento Educacional Especializado,
pela Unicesumar (em andamento). Tem trabalhos publicados em cinco coletâneas. Zumbi em Poesia e
Prosa (1995); Salvador Novos Poetas (1996); Salvador 450 anos de poesia (1999); Revista CEPA Poesia
Especial (2001); Revista Ómnira (2002). Em 2001 publicou o livro de poesia intitulado Auto-Retrato. Em
2006 entrou para o 1º Dicionário de Autores Baianos, (SECULTBA). Em 2013 publicou o livro: Cipó a
Pérola Barroca do sertão Baiano.

13 Orientador - Professor orientador pela Faculdade Dom Luiz de Orleans de Bragança. (Graduado em
Letras Vernáculas, Especialista em Gestão Pública da Educação Básica, Professor e Coordenador
Pedagógico do Curso de Pedagogia e Letras da Faculdade Dom Luiz de Orleans e Bragança, Coordenador
Pedagógico da Consultoria Vital Educar, graduando em Filosofia)

instrumento de análise na ocorrência em documentos históricos. Além disso,
acreditando na imprevisão da mensagem, é importante identificar o papel sintático e
semântico dentro do texto informativo, bem como, possíveis rupturas estruturais, com o
intuito de decifrar a mensagem e absorver a informação.

Ao observar a necessidade de elementos consistentes e de natureza cientifica
na construção histórica e linguística do município de Cipó, Bahia, fez-se necessário a
elaboração de um estudo que contribuísse para a equação de questionamentos
centenários sobre a sociedade, a cultura e estruturas linguísticas adjacentes com base em
análises sintáticas e semânticas, bem como, perceber de que maneira essas análises em
manuscritos do século XIX favorecem a construção histórica e linguística do município.
Para isso, foi importante a utilização de alguns aspectos metodológicos tais como;
pesquisas bibliográficas e pesquisas documentais.

Estão sendo analisados quatro manuscritos do século XIX. Primeiro
documento: Um recibo de pagamento datado de 1º de abril de 1825; Segundo
documento: Fragmento de um manuscrito referente à posse de um terreno, datado em
1892. Terceiro texto analisado; fragmentos de um manuscrito que comprovam a
movimentação das boiadas por essa região, bem como, a cultura do vaqueiro. Data
indeterminada. Quarto documento: Fragmento de uma espécie de senso, 15 de abril de
1845.

Esse trabalho tem como objetivo pontuar o valor informativo em alguns
manuscritos do século XIX, através de observações sintáticas e semânticas. Tais
documentos assumem a responsabilidade de emergir valores lingüísticos e também
enriquecem os munícipes com registros históricos, até então, recônditos a sociedade
cipoense.

2 IDENTIFICAÇÃO DA RELEVÂNCIA DA SINTÁXE E DA SEMÂNTICA
DENTRO DO TEXTO INFORMATIVO

É fascinante e surpreendente o pesquisador se permitir ser absorvido pelo texto.
Quanto mais se abre sulcos, mais se embrenha texto adentro mais se envolve com sua
alma histórica e mais se aprofunda. Muitas vezes com idas e vindas exaustivas se
surpreende e ora até se frustra, numa busca incansável de intermináveis indagações.

Analisar um texto é como cavar tesouros escondidos. Não se sabe a
profundidade, não se conhece a natureza física do material, tão pouco é possível
precisar o seu real valor. Contudo, o pesquisador sabe que o bem precioso está lá,
entalhado em rochas esperando quem o descubra.

Pode-se dizer que a filologia está presente nesse artigo na medida em que
possibilita a regressão a épocas remotas, difíceis, contraditórias, e simultaneamente
surpreendentes. Seguindo pistas tais como tinteiro, pena e papeis amarelados,
empoeirados e muitas vezes abandonados às traças, a umidade e a destruição continua
do tempo, é possível mergulhar na escrita intricada, rebuscada e fascinante dos
manuscritos históricos.

A pesquisadora Arlete Silva Santos (UFBA, FACIC e FIB), em seu artigo,
Revelações de um documento do século XVIII, compara o texto a “uma pérola presa
numa ostra à espera que alguém a liberte para produzir lindas jóias”, (S / D):

O labor com o manuscrito assemelha-se ao que faz o paleontólogo. Um
simples indício, leva-o cuidadosamente a fazer escavações para descobrir o
que está sob a terra, e com paciência e muito cuidado traz à tona, parte da
história da humanidade. Muitas vezes, leva anos, muitos anos para
reconstruir um fóssil. É assim o trabalho com o manuscrito. Iniciado agora,
outras "escavações" se farão para, quem sabe, daqui a alguns anos totalmente
revelados, entreguemo-lo, aos estudiosos. (...) Esse trabalho é algo
apaixonante, porque há um fascínio nas revelações paulatinas. O manuscrito
não se mostra de uma vez. Ele deixa o investigador curioso, ansioso por saber
quem ele é, do que ele trata. Pressa! Não existe essa palavra, quando o
assunto é manuscrito. Revelar-se é um processo lento, porém agradável.
Saber de tudo de uma vez tira o brilho, o prazer da investigação. Trabalhar
com o manuscrito exige cumplicidade. É preciso estabelecer uma relação de
forma tal que à medida que você dele se aproxima, ele vai respondendo às
suas inquietações. (S / D).

Assim o trabalho investigativo em documentos centenários traz à mostra não só
o que se quer, mas principalmente o que se apresenta reconditamente, e é isto que
fascina o pesquisador tornando seu trabalho prazeroso e recompensador.

A Língua Portuguesa é complexa em todas as suas facetas e com a sintaxe não se
faz diferente. Analisar sintaticamente frases gramaticais num contexto puramente
didático é relevante, mas o que este artigo apresenta é a análise sintática de fragmentos
textuais dentro de um contexto linguístico e informativo. Para Villaça Koch, o
conhecimento linguístico compreende o conhecimento gramatical e o lexical, sendo

responsável pela articulação som-sentido (2005 p.48). Pode-se dizer que, tal
conhecimento é a nossa mala de comunicação, como corrobora a citação abaixo.

É ele o responsável, por exemplo, pela organização do material linguístico na
superfície textual, pelo uso dos meios coesivos que a língua nos põe à
disposição para efetuar a remissão ou a sequenciação textual, pela seleção
lexical adequada ao tema e/ou aos modelos cognitivos ativados. O
conhecimento enciclopédico ou conhecimento de mundo é aquele que se
encontra armazenado na memória de longo termo, também denominada
semântica ou social (ibid p.48).

Como se ver, o sentido de um texto não se apresenta somente por sua estrutura
textual em si mesma, o que se lê rapidamente sem muita intencionalidade, talvez
esconda fatores históricos, culturais e, sobretudo, linguísticos.

Outro elemento importante para a concepção de sentido é o contexto, o qual se
manifesta tanto como campo fértil da analise, quanto como peça chave para essa
análise. No sentido de campo, apresenta o tempo e o espaço como ferramentas de
integração entre o texto e seus sentidos. Já como peça chave da análise, auxilia o
pesquisador no encaixe das peças que formam a mensagem e suas complexidades.

Sobre contexto, Franchi apud Koch, discorre:

Reservemos o termo ‘contexto’ para os fatores e relações que determinam um
discurso ou segmento de discurso nesse plano exclusivamente linguístico. O
contexto é intermediário entre a situação e o sistema linguístico. Situação e
contexto funcionam em uma espécie de compensação recíproca: ou situação é
imediatamente percebida e determinada, e o contexto se simplifica (até à
interjeição, ou à palavra-objeto que se cola a uma caixa de mercadoria; ou as
relações na situação não se percebem e se definem suficientemente, e o
contexto torna-se complexo). (2005, p. 28)

A autora salienta também que o contexto samaritano, isto é, aquele onde pode
ser encontrado tudo que for procurado, faz oposição ao conceito de contexto como
quadro ou moldura, o contexto não restringe a mensagem, ao contrario, a torna mais
abrangente e desafiadora, passível de investigação. (Koch, 2005).

Dissecar sintaticamente uma frase, uma oração ou mesmo um parágrafo, não se
resume em desmembrar sintagmas e apontar os termos essenciais e integrantes da
oração, este é um modo simplório de análise. A construção sintática implica não só na

montagem dos sintagmas nominais e verbais, portanto uma montagem visual, mas
também numa montagem de sentidos, sendo assim uma representação mental da
abordagem sintática.

No texto informativo, outras ferramentas de trabalho tornam esta ação mais
complexa, tais como, verificar se há coesão e coerência textual nos termos empregados,
informações semânticas e sintáticas, elementos lingüísticos, ter conhecimento do que se
trata a informação contida ali, isto é, o seu contexto, enfim, o texto no seu anverso e
verso de sentidos.

Para Lapa, (1970):

As palavras não levam vida isolada, dependem mais ou menos umas das
outras. E assim como nas nações os indivíduos perdem um tanto da sua
personalidade em prol do bem comum, também na linguagem os vocábulos
perdem a sua fisionomia, quando aparecem integrados numa locução. (1970.
p 62)

Além disso, os vocábulos assumem funções diferentes, pode-se considerar que
uns sejam mais honrosos que outros dentro de uma determinada situação, embora todos
sejam importantes para a formação da estrutura gramatical e do sentido linguístico,
Lapa (ibid) ainda afirma isso ao dizer que:

Se observarmos o papel que as diferentes palavras desempenham no discurso,
logo verificaremos que umas são mais importantes do que outras, são as
principais portadoras da idéia e do sentido, traduzem a realidade com mais
viveza, despertam enfim, imagens mais fortes. (IBDEM, p 7).

Percebe-se que, embora cada peça, ou palavra seja importante para a tessitura
do texto. Algumas assumem papel de destaque na medida em que se manifestam como
colunas de sustentação do texto e na amarração do sentido. Também, é digno de nota
que as palavras assumem escala de valores de acordo a posição e a condição em que se
encontram no texto, conforme citado abaixo:

As palavras se encontram subordinadas a uma escala de valores expressivos.
Que há palavras reais, fundamentais, que levam a si toda a responsabilidade
do sentido frase, e que há instrumentos gramaticais, encarregados de
estabelecer a ligação entre as ideias. As palavras reais (também chamadas
semantemas) são o substantivo, o adjetivo, o verbo e, por vezes o advérbio, o
numeral e o pronome, conforme o que desempenham no discurso. Os
instrumentos gramaticais (também chamados morfemas) são constituídos por
todos os outros elementos de relação e precisão: artigos, preposições,
conjunções e, por vezes, advérbios, numerais, e pronomes. Com absoluto
rigor, poder-se-ia dizer, como vimos, semantemas são apenas os substantivos
e os verbos: o substantivo designando o agente da ação, o verbo exprimindo a
própria ação. Com efeito, a ligação do agente da ação com o ato realizado ou
a realizar constitui a forma mais simples, mais primitiva do pensamento.
Exemplo: Rei ordena, Deus punirá, etc. (1970. p 8)

Tendo em mente o que foi supracitado, considera-se que para atingir resultados
satisfatórios a pesquisa empírica e em loco se atem ao processo investigativo de forma
expressiva na capitação dos sinais semânticos, sintáticos e liguísticos, tanto na extração
do sentido quanto na análise do código escrito dos manuscritos que o estudo revela.

3 AS POSSÍVEIS RUPTURAS SINTÁTICAS NOS DOCUMENTOS
ANALISADOS

A pesquisadora Arlete Silva Santos, citada anteriormente nesse estudo, salienta
a contribuição da edição diplomática auxiliando nas mais diversas áreas do
conhecimento e com a linguística não se faz diferente. Assim, estão sendo apresentados
quatro fragmentos de manuscritos do século XIX com suas transcrições e respectivas
análises.

Manuscrito 1

Recibo de pagamento da compra de um cavalo de porte. Data 1825

“Recebi do Senhor Luis Antonio dos Reis dos Reis, por mão do Senhor Gaspar Antonio dos
Reis, des mil réis (...) de volta de hum cavalo de porte recebido para o (...) e para mim feito, e
digno do (...). 1º de abril de 1825”.

Gaspar Carvalho da Cunha.

O texto apresenta coerência e sequência lógica na mensagem. Informa sobre o
pagamento de um cavalo de porte, feito em 1º de abril de 1825. Foi assinado por Gaspar
Carvalho da Cunha, Major e primeiro suplente de juiz, sendo mais tarde, elevado ao
posto de Juiz Municipal de Órfãos da Vila do Itapicuru.

Embora o vocábulo dez esteja de acordo com a pronúncia “des”, nota-se um
grau maior de escolaridade em relação aos documentos que se seguem. Há sinais de
pontuação e muitas abreviaturas para um texto pequeno, denotando o que era
costumeiro linguísticamente. O verbo aparece em primeira pessoa, no presente do
indicativo.

Manuscrito 2

Fragmento de um manuscrito referente à posse de um terreno, datado em 1892:

“Sendo a dita posse na beira do rio Itapicuru seguirá de um pé de brauna rumo pello
vaquejador velho em linha reta a uma crus que se acha edificada na estrada rial.”

Para início de análise é notada a ausência de pontuação, fato que embora
prejudique a estrutura e a estética do texto, o mesmo não se considera prejudicado na
emissão da mensagem informativa, o leitor facilmente entende que se trata dos limites
de uma determinada posse. Neste momento é encontrado um prejuízo semântico e
sintático. Posse do que? O sujeito está implícito.

São identificados três verbos: O verbo “ser” no gerúndio, o verbo “seguir” que
é um verbo de ação e se apresenta assim como indica o futuro do presente e o verbo
“achar” que tem o sentido de encontrar, mas, no contexto se apresenta como o verbo
estar, sentido passivo. Podem ser encontrados também alguns adjuntos adverbiais de
lugar. Já a análise dos sintagmas nominais e verbais fica prejudicada pela ausência de
pontuação. A ortografia se assemelha com a oralidade. crus (cruz); rial (real). Percebe-
se a aproximação da Língua Portuguesa com o castelhano em Pello (pelo). A descrição
é definida, pois não deixa dúvidas quanto ao caminho a ser seguido. A linguagem não é
metafórica, os elementos descritos existem até os nossos dias.
Manuscritos 3

Fragmentos de um manuscrito que comprova a movimentação das boiadas por
essa região, bem como, a cultura do vaqueiro. Data indeterminada.

“Chegando de Subauma em miados de 7brº, recebi huma carta tua, d. 26 de agosto,
com a qual tive aquela satisfação com que costumo lisongear-me quando tenho noticia
daqueles que conto sincero amor. Agora mesmo recebo outra carta de 23 d. 9brº” . ...
“eu ainda não recebi -------- vem um papio, uma perneira, um gibão, um guarda-peito,
o qual tudo ti agradeço”.

O manuscrito três é uma carta com muitos detalhes e relações amigáveis. Logo
no inicio nota-se afeto entre as partes envolvidas. O remetente é homem, mostrando que
não eram vergonhosas as expressões de afeto entre amigos, talvez compadres.

Nessa observação encontram-se sinais de pontuação em todo o texto. As
indicações históricas são claras. Já que é uma carta, o sujeito está subentendido no

emissor, deixando a responsabilidade da informação no sintagma verbal. Novamente a
oralidade se apresenta no texto, em “miados”. O verbo está no gerúndio, “Chegando de
Subauma”, denota ao chegar de, causando uma imprecisão no tempo, a comprovação
disso é a expressão que se segue; “em miados de setembro”.

Percebe-se que as correspondências enfrentavam muitas dificuldades para
chegar ao seu destino. Isso é observado quando se lê que o emissor responde por duas
cartas que ele tem em mãos, uma datada de 26 de agosto e outra de 23 de novembro,
porém, o emissor está em meados de setembro, não é uma contradição. Isso indica que o
tempo que marca o emissor é o ano seguinte ao que pelo menos uma das cartas fora

escrita. Notam-se também muitas abreviaturas, porém não serão consideradas nesse
momento.

No segundo fragmento, encontra-se a descrição de uma roupa de vaqueiro
encomendada e aguardada pelo emissor. O verbo “recebi” está em primeira pessoa, no
presente do indicativo, mostrando que até aquele momento não havia recebido a
encomenda, isto é, a roupa de vaqueiro.
Manuscrito 4
Fragmento de uma espécie de senso, 15 de abril de 1845.

“VILLA DO SOURE”
Na villa do Soure existe a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Nova Soure,
que fora convento dos jesuítas, edificada em terras dos índios desta villa.
Desta mesma villa em distª de Três legoas, está se construindo a custa do mesmo cofre
provincial na mãi d’Água do Sipó uma casa para abrigo dos doentes que procuram ali
as águas thermais, cuja direção se acha encarregada ao Dr. Ignácio Moreira do Passo
em terras que me consta ser do casal do finado Manoel de Vasconcellos ... baiano”.

Joaquim Borges de Barros
Juiz municipal e delegado
Nessa última análise, percebe-se que a mensagem se estabelece com mais
coesão e coerência na medida em que é favorecida com uma linguagem mais rebuscada
que os fragmentos anteriores. Na segunda linha do primeiro parágrafo, encontra-se a

presença de aposto e o verbo ‘ser’ no pretérito-mais-que-perfeito, não usado somente
conforme o costume da época, mas para enfatizar as funções anteriores da dita
Freguesia.

No segundo parágrafo, o verbo aparece na terceira pessoa do singular no
presente do indicativo acompanhado da partícula apassivadora ‘se’ e o segundo verbo
no gerúndio. Já na expressão ‘se acha encarregada’, a partícula apassivadora
acompanha o verbo achar no sentido de estar e o verbo encarregar no particípio, que
hoje pode ser considerado como um verbo adjetivado. O autor faz referência ao que
havia citado, em outro fragmento, sobre a origem do dinheiro que foi usado para
construir a casa de banhos na ‘mãi d’Água do Sipó’. “Dessa mesma villa a hum quarto
de legoa, existe uma casa feita nos banhos das águas thermais denominadas fervente
feita a custa do cofre provincial e já se acha toda deteriorada.” Foi identificado
também, advérbio e locuções adverbiais.

A priori, pode-se concluir que o autor não está de acordo com os
acontecimentos ao seu redor. É percebida a sua insatisfação, além disso, os recursos, as
dificuldades naturais da época e até o poder lhe conferido, não lhes permitem fazer
mudanças.

4 CONCLUSÃO

A mensagem de todos os manuscritos analisadas foi entendida, assim, foi
percebido que nesse contexto a literatura de informação cumpriu seu papel. Nota-se
uma informação concisa e direta, dando conta da sua responsabilidade maior, a saber,
informar e registrar. Além de trazer à tona a importância de um bom meio de transporte
para superar as adversidades da caatinga, nesse caso, um bom cavalo.

Percebe-se também, que a linguagem é simples e que o contexto particular não
interfere na emissão tão pouco prejudica a recepção da mensagem. A informação
novamente é entendida, apesar de alguns textos apresentarem problemas na construção
sintática. O contexto de situação se alia a essa análise como ponto forte para a
compreensão semântica; contudo, a falta deste não é fator relevante que justifique a
incompreensão do teor informativo.

Revela-se uma importante informação histórica, isto é, a caminhada das
boiadas para a feira de bois em Subauma. A criação extensiva de bois já se estendia
desde o século XVI, levando em conta, as “facilidades” de manejo e os recursos
extraídos do animal, já que deste tudo era aproveitado. A cultura do vaqueiro na região
fica evidente e pode-se ter noção também da atividade econômica, dos valores e das
dificuldades que permeavam a região.

A análise também revela preocupações e desenvolvimento. Percebe-se o
aumento na povoação permanente bem como o fluxo de pessoas em trânsito. É
observado também, que em alguns casos um emissor tem maior grau educacional que o
outro, se nota parágrafos bem definidos e a presença de conectivos textuais.

Na medida em que o estudo revela pormenores históricos, culturais e
linguísticos sobre a sociedade cipoense do século XIX, percebe-se a importante
contribuição da análise sintática e semântica para que a pesquisa pudesse cumprir seu
papel histórico e social. Sabe-se que a pesquisa nunca se encerra e o pesquisador
raramente se cansa assim, o texto que recebe um ponto final aqui, não é finito. Novas
buscas serão feitas e outros tesouros linguísticos, culturais e históricos serão revelados.

REFERÊNCIAS

GARCIA, Othon M. 2003. Comunicação em prosa moderna: aprenda a escrever,
aprendendo a pensar. ed. 23. Rio de Janeiro: FGV.

KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. 2005. Desvendando os Segredos do Texto. ed. 4.
São Paulo: Cortez.

LAPA, M. Rodrigues. 1970. Estilística da Língua Portuguesa. ed. 6. Rio de Janeiro:
Livraria Acadêmica.

SANTOS, Arlete Silva. (UFBA, FACIC e FIB). Revelações de um documento do séc._
XVIII. Bahia. s.d. disponível em: < http://www.folologia.org.br.>. Acesso em: 04 de
abril, 2008. as 11:44 min.

VANOYE FRANCIS. 2003. Uso da Linguagem: Problemas e Técnicas na produção
oral e escrita. ed.12. São Paulo: Martins Fontes.

A MOTIVAÇÃO TOPONÍMICA NO PROCESSO DE NOMEAÇÃO: O CASO
DE BAHIA DE TODOS OS SANTOS

Analídia dos Santos Brandão 14
Celina Márcia de Souza Abbade15

Resumo: O estudo, aqui apresentado, busca compreender os elementos identitários
presentes na obra intitulada Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios ([1945]
2002), de Jorge Amado, com o intuito de descobrir os aspectos dos modus vivendi
presentes na comunidade linguística retratada, a partir do estudo do léxico, mais
especificamente, os topônimos. O livro estudado foi escrito em 1944 e publicado um
ano mais tarde. A obra em análise trata de um guia endereçado a uma moça que no
começo e no final do livro, o autor se dirige a essa leitora imaginária, convidando-a para
conhecer a cidade da Bahia, tanto em seus atrativos turísticos quanto em seus dramas.
Jorge Amado faz a apresentação da Bahia nos anos de 1940 e se intitula como “guia”
das belezas e das necessidades da cidade. Estudar os aspectos de um povo sob a ótica
dos aspectos linguísticos é poder compreender que língua, cultura e história fazem parte
do universo social do povo retratado. Os topônimos, como parte do léxico e patrimônio
cultural desse povo, constituem, pois, marcas de identidade que merecem ser
preservadas. Para a análise toponímica, tem-se como base teórico–metodológica o
modelo toponímico de Dauzat (1926), as categorias taxionômicas de Dick (1990, 1992);
entre outros.

Palavras-chave: Léxico. Topônimos. Jorge Amado. Bahia de Todos os Santos. Cultura.

1 INTRODUÇÃO

As obras de Jorge Amado constituem uma herança escrita que permite que
conheçamos as particularidades da Bahia, pois o escritor apresenta em suas obras, além
de aspectos que envolvem a cultura, sobretudo, um “tesouro” lexical do povo que está
sendo retratado, permitindo uma visita aos hábitos, aos costumes de modo geral. O
escritor mapeia e redesenha a Bahia em suas obras, marcando e demarcando os espaços
sociais, históricos e culturais com o intuito de retirar o “véu” da beleza e do turismo
belo que encobre a realidade da Bahia da primeira metade do século XX.

Toda essa dinâmica social perpassa a linguagem, mais especificamente o
vocabulário, pois “[...] o léxico de uma língua conserva uma estreita relação com a

14 Mestra em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia - (UNEB). E-mail:
[email protected]

15 Doutora em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professora Titular da Universidade do Estado da
Bahia (UNEB). E-mail: [email protected].


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