3
No mesmo ano, entravam em ascensão grandes nomes da música mundial, que cantavam
sobre juventude, paz, amor e liberdade. Lutas com música contra a guerra, e no mesmo, se
intensificaram as lutas feministas e do movimento negro.
Mundo afora em países como Polônia, Espanha, dentre outros países, principalmente da
América latina ocorriam protestos contra governos repressivos. No Brasil, em 1968, durante o
governo do presidente Costa e Silva, houve também aumentos de protestos contra o governo
militar, e neste mesmo ano da Passeata dos Cem Mil20, foi decretado, no dia 13 de dezembro o
Ato Institucional número 5 (AI-5), marcando assim, o aumento de uma rigidez já existente, com
o maior poder concebido aos militares e o fechamento do Congresso Nacional. Dentre as
determinações do AI-5, foi proibido qualquer tipo de manifestação de caráter político, junto à
imposição de jornais, revistas, musicas, livros e peças de teatro à censura prévia. Porém, antes
do AI-5 entrar em vigor, a Lei 5.53621, datada de 21 de novembro de 1968, traz de imediato em
seu Ato 2°:
Art. 2º. Não se aplica o disposto no artigo anterior, salvo quanto a seus § § 1º e 2º às
peças teatrais que, de qualquer modo, possam:
I - atentar contra a segurança nacional e o regime representativo e democrático;
II - ofender à coletividades ou às religiões ou incentivar preconceitos de raça ou luta
de classes; e
III - prejudicar a cordialidade das relações com outros povos.
Além do Ato 2°, traz noutros atos a classificação etária das peças teatrais, como
apresentado no parágrafo 1° do Ato 1° da mesma lei: “§ 1º Os espetáculos teatrais serão
classificados como livres e impróprios ou proibidos para menores de 10 (dez), 14 (quatorze), 16
(dezesseis) ou 18 (dezoito) anos”. Os textos taxados como impróprios foram vetados e assim,
não chegaram a ser encenados.
A perseguição ao teatro, em particular, deu-se à sua permissão de livre expressão e ao
seu caráter subversivo. O teatro foi a voz que urrava em meio ao silêncio instalado a força, e que
encontrou de forma sagaz estratégias para burlar a censura, de forma inteligente, tornando o
proibido mais interessante.
Ariovaldo Magalhães Matos, nascido em 24 de agosto de 1926, no bairro de Nazaré,
Salvador, Bahia, teve uma extensa carreira em múltiplas atividades. À Princípio, trabalhou no
jornal “O Momento”, de ligação com o Partido Comunista. Cursou jornalismo na Universidade
20 A Passeata dos Cem Mil, 29 de março de 1968, ocorreu no Rio de Janeiro, considerada
segunda maior manifestação contra o regime, contou com participação não só de estudantes,
intelectuais e artistas, mas também com a participação até de membros da Igreja Católica, que
anteriormente teriam apoiado o governo
21 A Lei 5.536, pode ser encontrada no site da Camara Legislativa o qual consta nas
Referências.
4
Federal da Bahia até o terceiro ano, publicou seu primeiro romance, Corta-Braço em 1955, e daí
ficou dividido entre tarefas múltiplas: militância política, jornalista, escritor, dramaturgo. A
melhor definição de Ariovaldo Matos que conheço, talvez seja a de Othon Jambeiro22, que
trabalhou por certo tempo ao lado dele:
Ariovaldo Matos era um destes seres humanos indivisíveis. Se tomado como modelo,
vinha por inteiro. Não importa se quem o admirava preferisse o político, ou o escritor,
ou o teatrólogo, porque logo concluiria que o comportamento político, os livros e
contos, as peças teatrais traziam todos a mesma compreensão de vida, da sociedade, dos
homens (MATOS, 2006).
Cada parte da vivência do autor, destas funções que ocupava, está diretamente ligada à
sua obra. Seja nas críticas expressas, quanto aos temas escolhidos, ou na formação dos
personagens.
Adaptada do conto O Desembestado, de autoria de Ariovaldo Matos, a peça A Escolha
ou O Desembestado é uma crítica à classe média e à sociedade capitalista, na qual o poder
financeiro dita as regras e corrompe os indivíduos. Poucas palavras de Orlando Senna definem
esta obra em que: “O tempo é o da angústia consentida, do medo, das pequenas autodefesas e,
em confronto, a realidade da vida aprendida em brutalidade e desespero” (MATOS, 1998). A
todo tempo a situação de conforto é questionada, os medos aparecem e entram em conflito com
uma dura realidade.
Dentre os personagens destacam-se Tancredo, clássico exemplo de um novo rico da
época, que “desembestou” e vai visitar um grande amigo dos tempos da Bahia, que mora em São
Paulo, para comemorar seu novo nascimento. Albano, amigo de Tancredo, representa o exemplo
de um homem conformado, alienado com seu trabalho e sua rotina diária, preocupado em ver
futebol na tevê. Sua esposa Zulnara, muito religiosa e ingênua, é privada por seu marido
conservador, das descobertas do mundo, e assume o papel de esposa submissa e dedicada.
O conflito se dá, quando Tancredo, já desembestado, entra em contato com as outras
duas personagens, e tenta os persuadir a desembestar. Ao decorrer da peça são levantados temas
que levam a refletir sobre valores religiosos, o papel da mulher, questões raciais, questões
trabalhistas, e o grande foco nos temas poder, dinheiro, status, a importância destes na sociedade
e o como adquiri-los.
Com a fundamental localização do texto em seu contexto, os exemplos podem ser lidos
além do cotexto, assim sendo, todo o meio influencia também nos fins.
22
. Othon Jambeiro, amigo de Ariovaldo, trabalhou ao seu lado na redação do semanário Folha da
Bahia e como secretário de redação do IC Shopping News. Othon Jambeiro é jornalista e professor de
Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
5
3 PARA A ANÁLISE DOS EXEMPLOS NA PRÁTICA
O resgate do texto tem sua devida importância, sendo que este carrega marcas do
contexto em que foi produzido e encenado, como afirma Borges (2002, p.20):
O texto teatral censurado é tomado como testemunho/ documento (prova) e monumento
(memória), materializado em determinado suporte, de uma produção cultural e literária
de uma dada sociedade, época e lugar. Como documento é a prova que se tem dos fatos
que marcaram dada sociedade, por exemplo, e, como monumento, transmite a outros a
memória.
Sendo assim trazer este texto que foi escrito como crítica visceral do seu contexto, tanto
de produção quanto de encenação é também trazer a memória do contexto, escrita no texto das
mais diversas formas, principalmente, nas suas subtrações, por escolhas ou por cortes da
censura.
Além disso, o texto aqui é interpretado como construção coletiva, dada devida
importância às mudanças que ocorreram neste durante seu processo de transmissão, pelos que
tiveram contato com este. Com oito testemunhos de conhecimento da ETTC, estes se encontram
tanto digitalizados, quanto impressos, no arquivo do próprio grupo, junto à documentação
censória que os acompanham.
Os textos escolhidos são textos dramáticos, feitos para serem futuramente encenados, e
mesmo que de certa forma completos, pela publicação/registro, “o texto é no teatro, uma obra
aberta, sempre sujeita às transformações de várias mãos, a começar pelas do dramaturgo e do
diretor” (SANTOS, R. B., 2008), opinião também compartilhada pelo próprio Ariovaldo ao
assumir que:
Uma montagem teatral, até quanto eu saiba e minha experiência ensina, nunca atende
aquilo desejado pelo autor de teatro. Em essência, porém pode-se dizer, a julgar apenas
pela estréia, que vários dos aspectos que pretendi dizer se encontram no espetáculo.
Ademais, é preciso considerar que cada diretor tem seu modo de ler uma peça e
interpretá-la. [...] (MATOS, 1979, p.1).
Tomando para comparação o primeiro testemunho (T1) com registro de 1698 e seu texto
para encenação no estado da Bahia, de 1977, visa-se aqui a busca dos “erros” que, segundo
Cambraia (2005)
No processo de transmissão dos textos é inevitável a ocorrência do erro, entendido aqui
como modificação não autoral do texto. Considerando que o objetivo fundamental da
crítica textual é o de restituir a forma genuína de um texto, ou seja, o de eliminar todos
os erros que foram paulatinamente incorporados a um dado texto, é de grande valia
compreender sua natureza.
Porém são esses “erros” que trazem parte da história do texto e são marcas da construção
de outra versão do mesmo texto. Trazer essa análise do texto, voltado aos detalhes da sua
6
materialidade, é o que se pretende aqui, para demonstrar como cada intervenção mínima teve
importância na construção de uma nova versão. Como afirma McKENZIE (2005, p.42):
Si los menores detalles de tipografia y composición, los signos materiales que
constituyen um texto, crean significado de la manera que he intentado segerir, se tiene
que deducir que toda historia del libro – sujeitos como están los libros al cambio
tipográfico y material también tiene que ser uma historia de errores de lectura.
3.1 ANÁLISE DOS EXEMPLOS
Alguns recortes do texto teatral foram selecionados para apresentar como as mudanças se
deram. Os recortes apresentados abaixo, são partes das versões de registro primário na SBAT
(T1), e primeira encenação na Bahia (T2), ambos foram retirados do arquivo da ETTC, no qual
se encontram versões digitalizadas destes, junto a versões impressas dos mesmos.
Figura 1, extraída de T1, “A Escolha ou O Desembestado”, página 32
Fonte: Arquivo ETTC
Figura 2, extraída de T2, “A Escolha ou O Desembestado”, página 32
Fonte: Arquivo ETTC
Neste caso, mudanças quanto à grafia são perceptíveis entre os textos, dado que o
segundo, datado de 1977, foi escrito após a reforma ortográfica de 1971. Quanto às questões
morfológicas e ortográficas, a diferença na grafia da palavra “remorsos”, escrita em T2 com “ç”,
quanto à acentuação, o “e” acentuado em “êsse”, apresentado em T1, difere do “o” não
acentuado em “dói” no T2.
Devido ao suporte e a dificuldade de correção existente no trabalho com máquina de
escrever, os erros datilográficos com o da palavra “vabeça”, em T2, eram uma realidade
aceitável. Apagar o escrito não era tão simples quanto no trabalho com computador, para isto era
7
necessário uso de algum tipo de corretivo líquido, que manchava o texto, daí a opção de não
utilizá-lo, porém alguns textos aparecem com inscrições manuscritas sobre a parte datilografada.
Trazendo os textos para suas condições de produção, o primeiro (T1), para registro na
SBAT, é um texto dramático, para ser trabalhado em teatro, mas o segundo (T2), já é uma
versão adaptada pelo encenador, para a sua apresentação. Por isso, consta com indicações de
movimentos que apesar de não aparecerem neste recorte, ao longo do texto não aparecem com
tanta frequencia.
Com o exemplo do trecho “Besteira, irmã, Narinha, besteira sua” que em T1, aparece de
forma suavizada, seguida de vírgula, já em T2, o mesmo trecho aparece de outra forma:
“Besteira! Eu não tenho remoços de nada.”. Por ser uma versão já para encenação, a pontuação
foi modificada de forma intencional, sendo clara a diferença entre os trechos e o sentimento
transmitido pela personagem, essas modificações afetam em encenação diretamente a
intensidade da ação por parte dos atores. Além do mais a pontuação, junto à seleção de palavras
(que neste caso não alteram o sentido) ditam o ritmo de leitura do texto dramático, facilitando
também não só para a execução dos atores, como para entendimento próximo do que queria se
transmitir com a encenação para um futuro leitor do texto.
Os cortes por parte dos censores, que cabem a este texto, são de cunho moral, em maior
parte, porém estes amenizam a intensidade do texto. Se tratando de “A Escolha ou O
Desembestado” cortes de palavrões como “porra”, aparecem ao longo do texto e a palavra
gonorréia, tão repetida, acaba sendo substituída pela palavra venérea. Porém, possivelmente por
escolha o encenador, em alguns pontos a escolha foi pela palavra original, que com o envio do
texto para análise dos censores, esta foi cortada.
Figura 3, extraída de T1, “A Escolha ou O Desembestado”, página 37
Fonte: Arquivo ETTC
Figura 4, extraída de T2, “A Escolha ou O Desembestado”, página 35
Fonte: Arquivo ETTC
8
Além das modificações já comentadas antes, os textos são versões diferentes por
conterem adições e supressões, versões diferentes desde a disposição dos nomes das
personagens, aos números de páginas, e toda essa diferença advêm de aproximadamente 10 anos
de circulação do texto, lido por vários olhos, interpretado por vários corpos e escrito por várias
mãos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por fim a pesquisa aqui desenvolvida, mostra em parte o processo de construção deste
texto, com o passar do tempo e das mãos que o modificaram. Mesmo que não abrangendo toda a
obra, ou todos os testemunhos conhecidos, que de fato seria um trabalho Homérico, a
comparação entre duas versões do texto, localizado em tempo e espaço diferentes já demonstra e
comprova a presente diferença entre ambos em diversos níveis. Desde a ortografia que mudou
com as reformas ortográficas, quanto com a adaptação ao gosto do encenador para a
apresentação do texto em teatro.
Além disto, aqui também se faz presente um breve resgate da obra, e autor, Ariovaldo
Matos e dos diferentes momentos de escrita do texto.
REFERÊNCIAS
CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. Tradução Fulvia M. L. Moretto. São Paulo:
EDUNESP, 2002.
MATOS, Ariovaldo. Anjos Caiados. Assembléia Legistlativa da Bahia. 2006
MATOS, Ariovaldo. A Ostra Azul. Organização Guido Guerra. Salvador: Artes
Gráficas, 1998.
ARIOVALDO, Matos. Há lugar para todos na luta pela liberdade. Correio da Bahia,
Salvador, p. 1, 25 maio 1979.
McKENZIE, Donald Francis. Bibliografía y sociología de los textos. Tradução Fernando
Bouza. Madrid: Akal, 2005.
SANTOS, Rosa Borges dos (Org.). Edição e Estudo de Textos Teatrais Censurados na
Bahia: A filologia em diálogo com a Literatura, a História e o Teatro. Salvador: EDUFBA,
2012.
CAMARA DOS DEPUTADOS. Lei nº 5.536, de 21 de Novembro de 1968. Disponível
em:http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-5536-21-novembro-1968-357799-
publicacaooriginal-1-pl.html> Acesso em: 18 de jul. de 2014.
9
AS FORMAS DO SUBJUNTIVO EM SALVADOR
JOANA ANGÉLICA SANTOS LIMA23
1. INTRODUÇÃO
23 Professora da Universidade do Estado da Bahia.
10
Nesse trabalho, analisa-se o tratamento das formas do presente do subjuntivo na fala de
falantes de cidade de Salvador (Bahia) à luz da Teoria da Variação (LABOV, 1972). Para tanto,
toma-se como objeto de estudo a variável linguística constituida de três variantes: formas do
presente do subjuntivo (ex: Peço para que ele observe o material.), formas do presente do
indicativo (ex: Peço para que ele observa o material.) e estruturas alternativas24 (ex: Peço para
ele observar o material.) objetivando verificar: (i) em que proporção os falantes
soteropolitanos utilizam cada uma dessas três variantes; (ii) os possíveis fatores (estruturais e
não estruturais) que atuam sobre o comportamento da variável em questão; (iii) se as estruturas
alternativas usadas por esses falantes correspondem, apenas, às previstas na literatura.
Nessa análise, utiliza-se um corpus constituido de 441 Contextos de Subjuntivo,
extraídos de 24 entrevistas gravadas com falantes da zona urbana de Salvador25. Esses dados
foram submetidos a uma análise quantitativa (com a utilização do VARBRUL), cujos resultados
orientaram a análise qualitativa do uso das variantes focalizadas; os resultados quantitativos
obtidos e as conclusões para as quais apontam se encontram, respectivamente, na seção 2 e na
seção 3.
2. O MODO SUBJUNTIVO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO
A literatura inclui muitos estudos recentes (Bianchet, 1996; Galembeck, 1998; Alves
Neta, 2000; Pimpão, 2002; Nicolau, 2003, 2009 e 2011) que têm registrado o não uso do
subjuntivo, em Contextos de Subjuntivo, por falantes do português brasileiro (PB); mais
exatamente, tratam a oscilação entre as formas do presente do subjuntivo e as formas do
presente do indicativo caracterizando-a, à luz da sociolinguística variacionista, como um caso de
variação na língua.
Bianchet (1996) estuda o uso das formas do indicativo e do subjuntivo em orações
completivas objetivas diretas no latim e no português contemporâneo de Belo Horizonte. A
autora assume essa oscilação como um fenômeno variável (atingindo tanto as orações
independentes quanto as orações subordinadas) e defende a hipótese de que o uso do indicativo
nesses contextos configura uma etapa de um processo de mudança iniciado no latim, que está
atingindo o sistema de complementação do português contemporâneo. Segundo a autora, o
24 Termo adotado para designar as estruturas, disponíveis para expressão da não asserção no português, diferentes
daquelas em que é previsto o presente do subjuntivo e que, como o abaixo citado (Nicolau : 2003), incluem casos
além dos elencados, por Cunha e Cintra (1985: 460), como "formas equivalentes":
a. ... lá tem esses elementos por escrito ... na minha época tinha... naturalmente deve ter ainda, deve ter
guardado e, por outro lado, deve ter escrito até mais enriquecido ainda... é isso que eu espero, mas vou....(AP)
a'... lá tem esses elementos por escrito ... na minha época tinha... naturalmente deve ter ainda, deve ter guardado
e, por outro lado, deve ter escrito e espero que esteja mais enriquecido ainda...
25 As entrevistas foram gravadas por LIMA (2012) , atentando-se para a coleta de narrativas de experiências
pessoais, como postulado pela Sociolinguística.
11
sistema de complementação das orações objetivas diretas do latim passou por uma reformulação
que gerou aumento dos contextos nos quais seria necessária a seleção de um morfema de
MODO e de tempo. Com essa reformulação, contextos de uso de uma única forma verbal (de
Infinitivo) passaram a admitir o indicativo e o subjuntivo, inclusive em alternância, como em:
“Non lucrum omne ESSE utile existumo” (‘Não acho que todo lucro é∕seja útil’); essa
alternância nas orações completivas, contextos reservados ao subjuntivo, está presente no
português contemporâneo, como ilustra esta sentença: “A mãe dela não quer que ela vai, quer
que ela fique comigo”.
Assumindo a hipótese de que o subjuntivo é determinado por fatores semânticos e
discursivos, Galembeck (1998) constata que a alternância entre as formas desses modos verbais
e formas alternativas na fala culta do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Salvador é condicionada,
principalmente, por fatores estruturais: a) Tipo de oração (substantiva, adjetiva, adverbial e
infinitiva); b) Modalidade do verbo (irrealidade, incerteza, hipótese e possibilidade).
Alves Neta (2000) mostra que, na comunidade de Januária (Norte de Minas Gerais), a
coocorrência entre as formas do subjuntivo e as formas do indicativo é visível, tanto na fala
quanto na escrita. No que se refere aos 351 dados de fala analisados, foram registrados 284
Contextos de Subjuntivo (nos quais se prescreve o presente do subjuntivo) e, dentre esses dados,
85 apresentaram formas do indicativo (30%) – as formas do subjuntivo com o valor de
subjuntivo mostraram-se, portanto, como altamente frequentes (70%). E, como grupos de fatores
de maior relevância para o favorecimento do uso dessas formas, os resultados apontaram:
Modalidade do verbo da oração matriz, Tipo de oração e Nível escolaridade. Os percentuais
associados aos fatores considerados nesse último grupo deixam evidente a influência da
escolarização na opção dos falantes pelo uso das formas do presente do subjuntivo: Nível
Fundamental = 46% < Nível Médio = 57% < Nível Superior = 80%. O uso do subjuntivo, no
entanto, não se mostrou associado a influência significativa do Idade dos informantes, pois os
percentuais de uso registrados na fala dos informantes mais jovens e na fala dos informantes
com mai idade são quase idênticos: Geração I (15 a 24 anos) = 48%; Geração II (25 a 45 anos)
= 26%; Geração III (acima de 45 anos) = 46%. A autora conclui, então, que a coocorrência
analisada configura uma variável estável e, assim sendo, refuta sua hipótese inicial de que
configuraria uma mudança em progresso.
O fenômeno em questão foi analisado por Pimpão (2002), que utiliza um corpus
constituído de dados da fala de Florianópolis/SC (do Projeto VARSUL – Variação Linguística
Urbana na Região Sul do Brasil). A autora observa que o “índice de aparecimento da forma do
presente do indicativo em contextos típicos do subjuntivo é relativamente alto (41% das 319
ocorrências)” e argumenta que, contrariando a previsão da gramática tradicional (GT), a base da
distinção no uso do presente do subjuntivo e do indicativo é de natureza mais temporal do que
modal. Os resultados de sua análise mostram também que os índices mais elevados de aplicação
do modo subjuntivo encontram-se “sob o traço de projeção futura”; em contrapartida, contextos
12
que representam frações de tempo incluindo o momento da fala - ora o passado, ora o presente -
tendem a inibir o subjuntivo em favor da expansão do indicativo, apontando um direcionamento
de mudança do paradigma de modo verbal.
Nicolau (2003), ao buscar focalizar a concorrência das formas do subjuntivo e do
indicativo na fala de Belo Vale, observa que os contextos tradicionalmente reservados a formas
do presente do subjuntivo, nas raras vezes em que ocorrem, não continuam sendo ocupados por
tais formas; os falantes belovalenses, em determinados contextos, optam por estruturas
diferentes daquelas em que se prevê o uso do presente do subjuntivo, as quais são concebidas
por Cunha e Cintra (1985:460) como “formas equivalentes”.
Partindo desses estudos, a análise aqui apresentada toma, então, como objeto o uso de
formas do presente do subjuntivo em alternância com formas do presente do indicativo no
Contexto de Subjuntivo e, também, com estruturas alternativas que veiculam valores semânticos
aos quais a GT associa a exigência do emprego do presente do subjuntivo; ou seja, a análise
assume como premissa que, no PB, o não uso do subjuntivo configura a existência de duas
variantes linguísticas. Essa análise, motivada pela observação assistemática do emprego do
subjuntivo na fala de Salvador e realizada à luz da Teoria da Variação, orienta-se pelas seguintes
hipóteses: (i) os falantes de Salvador usam, predominantemente, as formas do subjuntivo; (ii) a
alternância entre as três variantes consideradas exibe característica de uma variável estável, cujo
comportamento é condicionado por fatores estruturais (Tipo de oração, Modalidade, Tipo de
conjunção no caso das orações adverbiais) e fatores não estruturais (Gênero, Faixa etária e Nível
de escolaridade).
2.1 AS FORMAS REGISTRADAS EM CONTEXTO DE SUBJUNTIVO EM SALVADOR
Os 441 casos nos quais se prevê o uso de formas do presente do subjuntivo em
Contexto de Subjuntivo registrados na fala de Salvador são tratados com a finalidade de se
avaliar a influência dos principais fatores que condicionam o emprego, ou não, dessas formas
em tal Contexto26. A distribuição desses casos entre as três variantes consideradas está expressa
na Tabela 1, abaixo:
Tabela 1: Ocorrências das três variantes em Contexto de Subjuntivo
TOTAL FORMAS DO FORMAS DO ESTRUTURAS
SUBJUNTIVO INDICATIVO
% Nº ALTERNATIVAS
Nº
70 17 % Nº %
441 307 4 117 26
Fonte: Lima (2012)
26 Considera-se, nessa análise, o PR = .33 como ponto neutro. Assim, nas Tabelas contendo PRs, os fatores com
valores acima de .33 favorecem as formas em análise, e os fatores com valores abaixo de .33 as desfavorecem.
13
Os números contidos na Tabela 1 revelam, nitidamente, a liderança do emprego das
formas do presente do subjuntivo (variante conservadora) sobre as demais variantes
consideradas, bem como o emprego preferencial de estruturas alternativas em detrimento das
formas do presente do indicativo. Ao comparar os percentuais associados às formas do
subjuntivo e os percentuais associados às formas do indicativo nesse Contexto, observa-se que a
opção pelas formas do indicativo é inexpressiva, evidenciando, portanto, que tais formas se
configuram como a variante pouquíssima utilizada, o que talvez se explique por ser de baixo
prestígio na comunidade pesquisada.
Esses resultados mostram também que, além da ocorrência de formas do indicativo
(uma variante inovadora em Contexto de Subjuntivo do PB), o corpus analisado inclui
ocorrências de estruturas alternativas em número que se destaca: 117 casos do total dos 441
dados analisados (ao lado de, apenas, 17 casos de formas do indicativo). Esse fato permite
afirmar que os falantes de Salvador, quando não expressam determinados valores semânticos
produzindo construções em que se prescreve o emprego de formas do presente do subjuntivo,
optam, preferencialmente, por expressar tais valores utilizando estruturas alternativas. Os
resultados relativos ao uso de formas do presente do subjuntivo em Contexto de Subjuntivo,
tendo-se em vista os grupos de fatores apontados como relevantes para a explicação do
comportamento da variável em estudo, são apresentados nas subseções, a seguir.
2.1.1 Influência dos fatores estruturais no emprego do presente do subjuntivo
Nessa análise, os grupos de fatores estruturais selecionados como condicionadores do
uso do presente do subjuntivo foram os seguintes: Tipo de oração, Modalidade do verbo, Tipo
de conjunção.
Em relação ao primeiro grupo, Tipo de oração, os resultados ilustrados na Tabela 2
mostram que, em termos percentuais, a preferência dos falantes de Salvador é pelo uso das
formas do presente do subjuntivo nos quatro tipos de oração considerados; essas formas são
registradas em números muito superiores aos de ocorrências das formas do presente do
indicativo nos mesmos tipos de oração, que se mostram timidamente presentes: em 10% dos
casos de oração adjetiva (como em 1), em 4% de adverbial (como em 2), em, apenas, 2% de
substantiva (como em 3) e 1% de “não subordinadas” (como em 4):
(1) ... mais precisa de tê uma resposta assim qui vai valê a pena pras pessoas qui... menos
favorecida. (Inf. 10)
(2) Na verdade, embora esse carnaval gera muito emprego, mais eu acharia... (Inf. 10)
(3) De manhã cedo qué qui eu faço as coisa da casa... (Inf. 18)
(4) Em parte sim, desde quando a gente não tá ali, né? (Inf. 15)
14
Tabela 2: Ocorrências das três variantes em Contexto de Subjuntivo, segundo o Tipo de
oração
TIPO DE TOTAL FORMAS DO FORMAS DO ESTRUTURAS
ORAÇÃO SUBJUNTIVO INDICATIVO ALTERNATIVAS
Nº % PR Nº % PR Nº % PR
Adjetiva 49 42 86 .29 5 10 .51 2 4 .18
Adverbial 180 102 57 .45 8 4 .29 70 39 .24
Substantiva 167 134 80 .37 3 2 .23 30 18 .39
Não 45 29 65 .19 1 2 .27 15 33 .53
Subordinada 441 307 17 117
TOTAL
Fonte: Lima (2012)
Como se pode observar, a oração adverbial (180 casos) e a oração substantiva (167
casos) são as mais utilizadas como Contexto de Subjuntivo na fala de Salvador, tendo sido
registradas em números bem superiores aos de oração adjetiva (49 casos) e de oração não
subordinada (45 casos). Essa é também a relação encontrada, em termos de PR, nos resultados
relativos aos referidos fatores quando associados às formas do presente do subjuntivo: a oração
adverbial (PR = .45) favorece altamente o uso dessas formas, que são bastante favorecidas pela
oração substantiva (PR = .37) e desfavorecidas pela oração adjetiva (PR = .29)27, como a de (5),
e as orações não subordinadas (PR = .19), como as de (6-8):
(5) ... o prefeito só tá investino em coisas que só dê lucro lucro pra... para ele, né? (Inf. 01)
(6) Que ele possa cuidar do que prometeu pra nossa cidade... pra nós também (Inf. 02)
(7) Que agente faça a coisa direita, certinha para que agente consiga melhor nossa situação.
(Inf. 13)
(8) Talvez ele até ganhe essa eleição... (Inf. 03)
Quanto ao uso de estruturas alternativas, considerando o Tipo de oração, os dados da
Tabela 2 apontam como fatores favorecedores desse uso apenas orações não subordinadas (PR
= .53) e oração substantiva (PR = .39). Mas esses dados atestam um fato que merece ser
destacado: as estruturas alternativas são usadas em todos os contextos dos diversos tipos de
oração considerados, tendo sido registradas em 18%, dos casos de oração substantiva (como em
(9)), em 4% das ocorrências de oração adjetiva, em 39% dos casos de oração adverbial, e em
33% das orações não subordinadas.
Esses resultados coadunam-se com os de Galembeck (1998), segundo o qual, as
construções alternativas em Contexto de Subjuntivo, no português contemporâneo, que
27 As adjetivas (PR = .51) são apontadas como favorecedoras das formas do indicativo; esse resultado, entretanto,
não se mostra coerente com o percentual lhes atribuído (10%), o que pode se dever ao número: apenas 5 casos.
15
costumam ser categoricamente construídas com a utilização de formas infinitivas, são muito
mais visíveis em orações adverbiais e substantivas do que nas adjetivas.
Em relação á Modalidade do verbo, os fatores considerados expressam: existência
possível, volição, possibilidade e incerteza.
Tabela 3: Ocorrências das três variantes em Contexto de Subjuntivo, segundo
a Modalidade do verbo
MODALIDADE TOTAL FORMAS DO FORMAS DO ESTRUTURAS
SUBJUNTIVO INDICATIVO ALTERNATIVAS
Nº % PR Nº % PR Nº % PR
5 10 .56 2 4 .12
Existência 49 42 86 .31
Possível 2 2 .34 15 16 .29
5 4 .35 29 21 .30
Volição 94 77 82 .36 5 3 .10 71 44 .70
Incerteza 136 102 75 .34 17 117
Possibilidade 162 86 53 .18
TOTAL 441 307
Fonte: Lima (2012)
Os valores da Tabela 3 atestam que, na fala de Salvador: as estruturas alternativas são
altamente favorecidas pela modalidade possibilidade (PR = .70), a única que não favorece as
formas do presente do indicativo; as formas do presente do subjuntivo são ligeiramente
favorecidas apenas pelas modalidades volição (PR = .36) e incerteza (PR = .34). Cabe,
entretanto, observar que, apesar de associadas a PRs que devem ser traduzidos como o
favorecimento de três fatores do Grupo em pauta, as formas do presente do indicativo, cuja
ocorrência é ilustrada pelos exemplos (09-12), mostram-se como não sendo a opção preferida; a
ocorrência dessas formas é baixíssima, em números absolutos e em percentuais, nas quatro
Modalidades.
A - Existência possível:
(09) Mais precisa de ter uma proposta... assim qui vai valê a pena pras pessoas. (Inf. 10)
B - Volição:
(10) Ele não qué que fazemos o mal a alguém (Inf. 20)
C - Incerteza:
(11) Eu acho qui é necessário pra criar um filho como eu já disse, diálogo, né...? (Inf. 10)
D - Possibilidade:
(12) Se nóis não pudemos ajudar, então não atrapalhamos... (Inf. 18)
16
Através dos resultados expostos na Tabela 3 verifica-se que os registros de ocorrência
das formas do indicativo são exatamente opostos aos de ocorrência das formas do presente do
subjuntivo: assim como em números absolutos, em percentuais, as formas do presente do
subjuntivo são as que predominam em todos os fatores considerados no Grupo. Essas formas
foram encontradas em: 86% das ocorrências da modalidade existência possível, ao lado de 82%
da modalidade volição, de 75% da modalidade incerteza e de 53% da modalidade possibilidade.
As referidas ocorrências são ilustradas, a seguir:
A - Existência possível:
(13) Tem uns computadores na iscola, mais não tem uma pessoa adequada que ensine as
crianças a usá-las... usá os computadores... (Inf. 01)
B - Volição:
(14) Deus qué qui todo mundo seja fiel... os esposo e as esposa seja fiel... a mulhé seja fiel ao
marido e o marido seja fiel a mulhé. (Inf. 19)
C- Incerteza:
(15) Eu imagino qui seja um home muito bunito... assim muito poderoso, né? (Inf. 03)
D - Possibilidade:
(16) Pode sê que recupere, pode sê qui não recupere (Inf. 06)
No que se refere às estruturas alternativas, os dados da Tabela 3 apontam que o maior
índice de frequência dessas estruturas foi apresentado na modalidade possibilidade (44%),
revelada como a sua única favorecedora (PR= .70). Nas demais modalidades, ou seja, incerteza
(21%), volição (16%) e existência possível (apenas 4%), essas estruturas apresentaram-se em um
índice bem inferior. Todos os PRs atribuídos a esses fatores situam-se abaixo do ponto neutro
(PR= .33), mostrando-se, portanto, como fatores desfavoráveis à opção pelas estruturas
alternativas: existência possível (PR= .12); volição (PR= .29); incerteza (PR= .30). Alguns
exemplos dessas estruturas podem ser vistos, a seguir:
A - Existência possível:
(17) (...) porque não tem ninguém pra ensiná esse pessoal (Inf. 01)
B - Volição:
(18) Eu espero é... investi... com certeza investi. (Inf.14)
17
C - Incerteza:
(19) Pode havê uma melhora, mais tem qui um conjunto: pai, mãe e escola. (Inf. 16)
D - Possibilidade:
(20) Tem podê... tem... pra fazê o qui ele qué ... pra transformá o mundo... (Inf. 03)
Enfim, à primeira vista, os resultados apresentados através da Tabela 3, relativos à
atuação do Grupo Modalidade sobre o uso das variantes linguísticas em análise, parecem
revelar: as formas do presente do subjuntivo como ligeiramente favorecidas apenas pelas
modalidades volição (PR=. 36) e incerteza (PR=. 34), enquanto as formas do presente do
indicativo são bastante favorecidas pela modalidade existência possível (PR = .56) e, também,
levemente favorecidas pelas modalidades incerteza (PR =. 35) e volição (PR = .34). Mas um
exame acurado dos outros valores relativos à ocorrência das três variantes em foco, também
contidos na Tabela 3, permite afirmar que esses resultados corroboram não apenas o fato de que
as modalidades em questão são típicas do modo subjuntivo – tal como assumido em Alves Neta
(2000), Meira (2006), etc. – mas, também, a hipótese que orientou o presente estudo: a fala de
Salvador preserva as formas do presente do subjuntivo nos contextos em que são
tradicionalmente prescritas .
Os resultados quantitativos associados ao grupo de fatores Tipo de conjunção – que,
por ser estabelecido em função da oração adverbial, inclui apenas os fatores condicional e
concessiva) – são apresentados na Tabela 4, a seguir:
Tabela 4: Ocorrências das três variantes em Contexto de Subjuntivo, segundo o Tipo
de conjunção adverbial
TIPO DE TOTAL FORMAS DO FORMAS DO ESTRUTURAS
CONJUNÇÃO SUBJUNTIVO INDICATIVO ALTERNATIVAS
Nº % PR Nº % PR Nº % PR
Concessiva 152 79 52 .15 6 6 .28 67 44 .56
Condicional 28 23 82 .33 2 7 .56 3 11 .10
TOTAL 180 102 8 70
Fonte: Lima (2012)
No corpus estudado, foram computados 180 casos de oração subordinada adverbial,
dentre as quais, 152 iniciadas por conjunções concessivas, exemplificadas em (21), e, apenas, 28
iniciadas por conjunções condicionais, como em (22):
(21) (...) por mais qui ele seja coisa... ele é um sê humano... (Inf. 04)
(22) Porque não há uma folha que caia sem que Deus permita. (Inf. 11)
18
Essas conjunções ocorreram, respectivamente, em 52% e 82% das construções com
formas do presente do subjuntivo. Embora com percentuais superiores aos associados às demais
variantes, o emprego dessas formas revela que o Grupo de fatores não tem grande relevância
para a presença de tais conjunções: as referidas formas verbais são levemente favorecidas pelas
conjunções condicionais (PR = .33) e desfavorecidas pelas conjunções concessivas (PR = .15).
A Tabela 4 mostra que a variante formas do presente do indicativo em Contexto de Subjuntivo
ocorre em: 6% das orações iniciadas por conjunções concessivas (como em (23) e 7% das
orações iniciadas por conjunções condicionais (como em 24):
(23) Na verdade, embora esse carnaval gera muito imprego mais eu não acharia ... (Inf. 10)
(24) Se nóis num pudemos ajudá, então não atrapalhamos. (Inf. 18)
Curiosamente, embora tenham sido registradas em apenas 7% das ocorrências, as
conjunções condicionais mostram-se, também, favorecedoras das formas do presente do
indicativo (PR = .57) e as conjunções concessivas, como levemente desfavorecedoras dessas
formas (PR = .29). Quanto às estruturas alternativas, como mostra a Tabela 4, essa variante
apresenta-se em 44% dos casos com conjunções concessivas, como em (25) e em, apenas, 11%
com conjunções condicionais, como em (26-27):
(25) sê um rapaiz direito né?... com responsabilidade sem fazê crime... (Inf.3)
(36) Agora se você não pode, não adianta temá, você num vai consegui. (Inf.18)
(27) (...) mermo se eles prometê, ninguém faiz nada (Inf.05)
Contrariando os resultados relativos às demais variantes analisadas, as estruturas
alternativas são altamente favorecidas pelas conjunções concessivas (PR = .56) e desfavorecidas
pelas conjunções condicionais (PR = .10).
2.1.2. Contexto de Subjuntivo: a influência dos fatores não estruturais
Em relação aos grupos de fatores não estruturais considerados (gênero, faixa etária e
escolaridade) os resultados revelam que foram consideradas significativos no condicionamento
das variantes. Na avaliação do grupo Gênero, atestou-se que, das 441 ocorrências analisadas,
257 são realizadas pelos informantes femininos e 184 pelos informantes masculinos, o que pode
ser conferido na Tabela 5:
Tabela 5: Ocorrências das três variantes em Contexto de Subjuntivo, segundo o Gênero
GÊNERO TOTAL FORMAS DO FORMAS DO ESTRUTURAS
SUBJUNTIVO INDICATIVO ALTERNATIVAS
Nº % PR Nº % PR Nº % PR
19
Feminino 257 180 70 .34 12 5 .36 65 25 .28
69 .31 5 3 .30 52 28 .38
Masculino 184 127 17
117
TOTAL 441 307
Fonte: Lima (2012)
Os resultados quantitativos da Tabela 5 revelam que, no grupo Gênero, o emprego das
formas do subjuntivo mantém a liderança sobre o emprego das outras duas variantes. Dentre as
257 construções produzidas pelos informantes femininos, 70% contêm formas do presente do
subjuntivo, também contidas em 69% das 184 construções produzidas pelos informantes
masculinos. Observa-se um grande decréscimo, em termos percentuais, de ocorrência das outras
variantes no Contexto de Subjuntivo: as estruturas alternativas foram registradas em 25% dos
Contextos produzidos pelos informantes femininos e 28% dos Contextos produzidos pelos
informantes masculinos; as formas do indicativo foram registradas em, apenas, 5% dos dados da
fala dos informantes femininos e 3% dados da fala dos informantes masculinos. Esses resultados
mostram, ainda, que o fator feminino, apesar de favorecer mais as formas do indicativo (PR =
.36), também favorece, ligeiramente, as formas do subjuntivo (PR = .34); o fator masculino
desfavorece essas duas variantes, apresentando, respectivamente: PR = .31 e PR = .30; as
estruturas alternativas são as favorecidas pelo fator masculino (PR = .38) e as desfavorecidas
pelo fator feminino (PR = .28).
Como pode ser observado na Tabela 6, a seguir, os números são bastante salientes nas
construções com formas do subjuntivo, se comparadas às demais variantes analisadas, nas três
faixas etárias, sendo ainda maiores nas construções produzidas pelos falantes das faixas etárias
idoso e jovem.
Tabela 6: Ocorrências das três variantes em Contexto de Subjuntivo, segundo a Faixa etária
FAIXA TOTAL FORMAS DO FORMAS DO ESTRUTURAS
ETÁRIA SUBJUNTIVO INDICATIVO ALTERNATIVAS
Nº % PR Nº % PR Nº % PR
Jovem 138 101 73 .46 1 1 .11 36 26 .42
Adulto 140 84 60 .18 9 6 .52 47 34 .29
Idoso 163 122 75 .33 7 4 .44 34 21 .21
TOTAL 441 307 17 117
Fonte: Lima (2012)
Oberva-se que as formas do subjuntivo foram usadas em: 73% das 138 construções
produzidas pelo jovem; 60% das 140 produzidas pelo adulto; 75% das 163 produzidas pelo
idoso. Com percentuais muito mais baixos do que os relativos às outras variantes, as formas do
20
indicativo foram registradas em somente 1% na fala do jovem, em 6% na fala do adulto e em 4%
na fala do idoso. As estruturas alternativas aparecem em 26% das construções contidas na fala
jovem, em 34% das produzidas pelo adulto e em 21% das produzidas pelo idoso. Ainda que com
pouca diferença percentual, os idosos fazem maior uso das formas do subjuntivo do que os
jovens. Considerando os PRs apontados em cada fator, percebe-se que: o jovem favorece
sensivelmente as formas do subjuntivo (PR = .46) e, razoavelmente, as estruturas alternativas
(PR = .42); o adulto revela sensível favorecimento apenas pelas formas do indicativo (PR =
.52); o idoso favorece razoavelmente as formas do indicativo (PR = .44) e mostra-se neutro em
relação às formas do subjuntivo (PR =. 33). Esses resultados são curiosos, pois: (i) parece não
haver coerência entre os valores associados aos percentuais e os PRs; (ii) fica descartada uma
possível tendência à mudança em curso em direção ao uso de formas do indicativo, visto que o
jovem é o que menos produz essas formas e, também, menos as favorece (PR = .11).
O grupo de fatores Nível de escolaridade configura-se como de grande importância
para uma melhor compreensão do fenômeno investigado. Os resultados concernentes a essa
variável, que estão expressos na Tabela 7, à página seguinte, atestam que as formas do presente
do subjuntivo mantêm liderança nos fatores do Grupo em questão. Dentre as 214 estruturas
contendo Contextos de Subjuntivo realizadas pelos informantes do Ensino Fundamental, 62%
exibem as referidas formas, preferidas em 77% das 227 realizadas pelos informantes do Ensino
Médio. As formas do indicativo foram registradas em percentuais baixíssimos, tanto na fala dos
informantes do Ensino Fundamental (6%) quanto na fala dos informantes do Ensino Médio
(2%). As estruturas alternativas ocorrem em 32% da fala de informantes do Ensino Fundamental
e em 21% da fala de informantes do Ensino Médio, mostrando-se, portanto, a variante inovadora
preferida dos falantes de Salvador. Ainda de acordo com os resultados da Tabela 7, as formas do
subjuntivo são favorecidas por informantes do Ensino Médio (PR = .46), enquanto as estruturas
alternativas e as formas do indicativo são favorecidas por informantes do Ensino Fundamental
(PR = .42 e PR = .35, respectivamente). Isso revela a influência da escola na preservação da
variante prescrita pela GT, ou seja, na manutenção de uso do subjuntivo.
Tabela 7: Ocorrências das três variantes no Contexto de Subjuntivo, segundo o Nível
de Escolaridade
NÍVEL DE TOTAL FORMAS DO FORMAS DO ESTRUTURAS
ESCOLARIDADE SUBJUNTIVO INDICATIVO ALTERNATIVAS
Nº % PR Nº % PR Nº % PR
Fundamental 214 133 62 .22 12 6 .35 69 32 .42
Médio 227 174 77 .46 5 2 .29 48 21 .24
TOTAL 441 307 17 117
Fonte: Lima (2012)
21
3. CONSIDERAÇÔES FINAIS
Com esse estudo, constatou-se que, na fala de Salvador, predominam as formas do
presente do subjuntivo, o que confirma a hipótese inicialmente assumida. Os resultados obtidos
mostraram que essas formas são favorecidas por fatores estruturais (oração adverbial, oração
substantiva, a modalidade volição, a modalidade incerteza e a conjunção condicional) e fatores
não estruturais (com índice de favorecimento pelos fatores: Feminino, Jovem e Ensino Médio).
Esses resultados constatam que, em Salvador, a coocorrência das três variantes
consideradas configura uma variável estável, o que foi também constatado por Alves Neta na
fala de Januária∕MG. Assim sendo, refutam a hipótese de uma mudança em curso favorecendo a
substituição do presente do subjuntivo pelo presente do indicativo no PB, tal como defende
Bianchet; no entanto, apontam para uma possível diferença entre a fala de Salvador (com a qual
se harmoniza a fala do Norte de Minas Gerais e a fala de localidades de outras partes desse
Estado, tendo-se em vista os resultados obtidos por Bianchet, em relação à fala de Belo
Horizonte, que são corroborados pelo estudo de Nicolau (2011) ao avaliar a fala do Vale do Rio
Doce.
Enfim, vale ressaltar que os resultados referentes ao emprego da variável linguística
analisada mostram que, na fala da cidade de Salvador, as formas do subjuntivo em Contexto de
Subjuntivo são predominantemente preferidas dos falantes, de ambos os níveis de escolaridade.
REFERÊNCIAS
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Belo Horizonte.
CUNHA, Celso. & CINTRA, Lindley. (1985) Nova Gramática do Português Contemporâneo.
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culta. In: PRETI, Dino. (Org.). Estudos de língua falada - variações e confronto. USP-São
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22
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português falado em Minas Gerais. Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba‐PR,.
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PIMPÃO, Tatiana. (2002) Variação nas categorias verbais de tempo e modo na fala de
Florianópolis. In Vandersen, Paulino. Variação e mudança no português falado da região sul.
Pelotas: Educat,.
AS INTERFERÊNCIAS DAS LÍNGUAS DE ORIGEM NEGROAFRICANA NA
LÍNGUA PORTUGUESA E CRIOULAS DE BASE PORTUGUESA.
Abílio de Mendonça28
A África é um continente onde tudo é plural e nunca singular. Neste espaço pluricultural,
a língua não poderia ser diferente. Existem mais de duas mil línguas coexistindo dentro deste
território. Abaixo da linha do Equador, estão as línguas que mais influenciaram a língua
portuguesa, as do grupo bantu que são faladas em todo território subsaariano, com exceção da
parte do deserto de Kalahari, onde se encontram os Koissãs, que falam línguas de clique.
No início da colonização em África e nas colônias fora dela, a comunicação, entre os
colonizadores e os colonizados, e até mesmo entre os escravizados que possuíam línguas
maternas diferentes, foi quase nula, devido aos divergentes diassistemas, etnias e línguas.
Quando dois povos entram em contato durante um período considerável, como é o caso
dos colonizadores europeus e os escravizados negroafricanos, as línguas acabam se
influenciando mutuamente, através do aparecimento de traços de uma língua no discurso de
falantes de outra língua. Segundo Ngunga (2010), se o traço de uma língua que aparece na outra
for generalizado, este fenômeno se chama empréstimo, mas se for esporádico e individual,
chama-se interferência.
A interferência linguística é o fenômeno que ocorre da interação entre duas ou mais
línguas, na qual os traços característicos de uma são transferidos integralmente ou parcialmente
para outra. Isto deve-se ao fato do falante não produzir exatamente um som, uma palavra, uma
28 Abílio Manuel Marques de Mendonça é mestre em Linguagens na UNEB, professor de Português de Escola
Pública e membro do NGEALC (Núcleo de Estudos Africanos e Afrobrasileiros de Línguas e Culturas) da UNEB.
23
frase da língua não materna, ou até mesmo a tradução literal de algo análogo no seu idioma
materno. Ela ocorre em situações de contato de línguas, sobretudo na fase inicial da aquisição de
uma não materna que possui estruturas fonéticas, semânticas e morfossintáticas divergentes da
materna. Ela pode ocorrer tanto em falantes de línguas tipologicamente semelhantes, ou em
falantes de línguas similares em situação de aprendizagem de uma língua segunda ou
estrangeira.
Na época colonialista, a língua portuguesa era vista como veículo de opressão, pois foi
imposta pelo colonizador aos negroafricanos. Muitos países subsaarianos, após a independência
de Portugal, adotaram o português como língua oficial. Hoje, essa língua é usada como veículo
de comunicação e de unidade nacional, em países como Moçambique, passando assim a ser um
patrimônio, a língua de interação internacional, expressão de sua cultura. Segundo Abbade
(2006), uma língua é a expressão completa da cultura de um povo e fazer a história da língua, é
fazer a história da civilização que a utiliza.
Do contato sociolinguístico entre os colonizadores portugueses e os negroafricanos
oriundos de diversas partes da África, nascida no seio da escravatura negra, entre os séculos XVI
e XIX e coexistindo com o português, surge o crioulo, língua em alguns países como Cabo
Verde. Esta tornou-se independente com sua estrutura individualizada. No início, o crioulo
pretendia resolver os problemas de comunicação a partir de códigos mínimos e muito limitados
entre falantes de línguas diferentes em seus diassistemas, que através de empréstimos e
adaptações de outras línguas, aos poucos, evoluiu, deu origem a uma língua de caráter nacional.
As línguas crioulas nasceram a partir da língua do colonizador e da materna do
colonizado, nas Índias e nas Américas. De acordo com a língua europeia que se misturou com a
materna, pode-se ter um tipo de crioulo. Os países colonialistas como Portugal, Espanha, França,
Inglaterra e Holanda deram origem aos crioulos de base portuguesa, de base espanhola, de base
francesa, de base inglesa, de base holandesa. Neste artigo, trataremos das interferências das
línguas subsaarianas em contato com a língua portuguesa de países que foram colônias de
Portugal, mas até hoje falam o português como língua oficial ou nacional, como Moçambique,
Angola e Brasil e também das línguas crioulas de base portuguesa, faladas em S. Tomé e
Príncipe e Cabo Verde.
A LINGUA CABO-VERDIANA
Embora, tenha um status sociolinguístico, a língua portuguesa não é falada por todos os
cidadãos de Cabo Verde. Alguns deles somente falam sua língua materna, o crioulo. O
português é de domínio administrativo-político, enquanto que a língua crioula continua sendo o
instrumento de comunicação oral entre a maioria dos cabo-verdianos.
24
A língua crioula de Cabo Verde é fruto das influências de várias culturas e povos. mas
apesar dessas influências, ela não perdeu, nem perde a identidade própria. Ela recebe,
ressignifica, transforma, adapta tudo que vem de outras culturas e línguas.
O crioulo em Cabo Verde é estudado nas escolas e reivindicado por muitos linguistas
como língua cabo-verdiana oficial. Para Pires (2010), esta pode coexistir pacificamente com a
língua portuguesa, pois será uma forma de valorizar a língua materna que é símbolo forte da
identidade nacional. Atualmente, em Cabo Verde, duas línguas coexistem com estatuto e
funções diferentes. Uma delas, a oficial que é o português, reservada à função comunicativa
formal, abrange a administração, a comunicação social, o ensino e serve de veiculo para
comunicação internacional. A outra, a língua crioulo caboverdiana é nacional e materna, sendo
reservada à função comunicativa, no domínio da oralidade e teve caráter unificador entre os
cidadãos, ao contrário das outras colônias portuguesas em África, como Guiné Bissau.
A LÍNGUA CRIOULA E A LÍNGUA PORTUGUESA EM SAN TOMÉ E PRINCIPE
Segundo Bragança (2010), o português, em San Tomé e Príncipe, é falado por grande
parte da população, servindo como veículo de comunicação interna e externa e convive com os
crioulos locais, de forte predominância, sobretudo nas zonas rurais e nas populações urbanas
menos letradas. As línguas crioulas interferem também na estrutura fonológica do português.
Exemplo disto é que os falantes do português em San Tomé e Príncipe têm dificuldade de fazer
a distinção fônica de /R/ múltiplo, em carro (automóvel) e /r/ simples, como em caro (oposto de
barato). Provavelmente por estes fonemas não fazerem parte da língua materna falada no
arquipélago.
Outro exemplo é a tendência à tradução literal do português em sistemas linguísticos de
línguas crioulas, mantendo o mesmo sistema sintático destas no enunciado na língua portuguesa.
Usa-se muitas vezes o léxico do português com base na estrutura frasal do crioulo, conservando
toda a força cultural inerente da língua materna local. Outros fatores que determinam as
interferências são a ausência quase total de flexão em lexias ou classes gramaticais que variam
no português e uma sintaxe bem diferente, formando uma variante nesta língua em S. Tomé e
Príncipe.
Tais interferências são comuns e revelam a existência de uma lógica gramatical peculiar
à língua crioula. Esta lógica faz parte de toda uma estrutura de pensamento, toda uma vivência
cultural que se evidencia através da linguagem falada, a qual, do ponto de vista lexical, se
identifica com a modalidade de português coloquial, vivo, popular.
A LÍNGUA PORTUGUESA EM MOÇAMBIQUE
25
Segundo Ngunga (2010), além de muitos empréstimos das línguas maternas
negroafricanas, também ocorrem muitas interferências no português. Estas interferências não
são nacionais, mas sim regionais. As suas variantes refletem características próprias de variadas
línguas negroafricanas que são faladas nas diferentes regiões moçambicanas. Os moçambicanos
quase nunca se enganam na identificação de um falante de determinada região com base na
forma de uso das diferentes estruturas da língua oficial.
Em Moçambique, a língua portuguesa é a mais espalhada pelo país e a única oficial,
usada como língua estrangeira, que além de instrumento de dominação no colonialismo, serviu
também de instrumento de combate durante a luta armada, como meio de comunicação mais
ampla entre os moçambicanos que lutaram pela sua independência. Atualmente, ela convive
com mais de vinte línguas de origem bantu e serve como instrumento para comunicação
internacional. Ainda Ngunga (2010), os falantes da língua portuguesa, dependendo da fonte de
ofertas linguísticas, fazem vários tipos de transferência que os professores de língua portuguesa
rotulam de erros que devem ser corrigidos. Em Moçambique, estes erros, a vários níveis, não
são problemas exclusivos de pessoas com baixo nível de formação acadêmica, mas também em
discurso de um indivíduo licenciado e doutorado.
A semântica é um dos campos linguísticos onde mais se verifica transferências de traços
de língua moçambicanas para a portuguesa. Um traço tipológico das línguas do grupo bantu, que
é encontrado não só no português de Mocambique, mas também em Angola e Brasil, é a sua
estrutura de sílaba, geralmente aberta (V, CV(V)), atestado por Mingas (2000), Castro (2001) e
Ngunga (2010). Os falantes das línguas do grupo bantu tendem de produzir sílabas abertas
mesmo nos casos em que elas sejam fechadas em português.
A LÍNGUA PORTUGUESA EM ANGOLA.
A língua portuguesa em Angola coexiste ao lado de dois grupos linguísticos bem
distintos: as do grupo bantu, que são majoritárias e as dos povos khoisãs (NTONDO, 2010).
Segundo Costa (2010), em Angola, muitos dos falantes não têm o português como língua
materna e muitos angolanos não a falam. A maioria da população interage através de uma
variante sociolinguística híbrida, caracterizada por uma base lexical portuguesa e um sistema
lógico-gramatical bantu. Alguns fatores contribuem para que ela não seja efetivamente falada
por todos os angolanos. Estes fatores são: o fraco conhecimento de seu funcionamento, a baixa
taxa de escolarização de amplos setores da população, a falta de preparação adequada de muitos
professores, um ensino nem sempre adequado às necessidades de comunicação dos falantes. A
língua portuguesa sofre a interferência em todos os planos da estrutura e organização, seja no
nível fonológico, morfológico, sintático, semântico e até mesmo da pragmática do discurso. Em
um estudo comparativo entre o kimbundu e o português, Costa (2010) diz que em kimbundu,
26
não há uma coincidência entre os números de constituintes frásicos essenciais de uma
predicação e o sistema correspondente na língua portuguesa. Esse número de constituintes
essenciais de uma predicação manifesta um comportamento posicional diferente na frase.
A língua portuguesa possui um sistema linguístico com proeminência do sujeito,
enquanto que as variantes sociolinguísticas do grupo bantu possuem proeminência de sujeito e
proeminência de tópico. O português falado em Angola vai buscar no sistema lógico-gramatical
das línguas do grupo bantu a sua estrutura funcional.
A interferência negroafricana na língua portuguesa de Angola existe quando se quer
definir algo que faz parte da vivência do povo bantu que não existe na sociedade portuguesa,
mas sim nas línguas nacionais. Estas fazem parte da comunicação cotidiana dos angolanos que,
ao utilizarem outras línguas não maternas, interagem com estas, em uma soma de possibilidades
que são as variantes.
A variante angolana do português é determinada pela interferência das línguas nacionais.
Ela não se reflete somente no léxico, mas também no modo como os angolanos transformam a
estrutura morfossintática das frases, adaptando os novos lexemas e enriquecendo a língua
portuguesa com sons e palavras introduzidos que fazem parte da maneira de estar no mundo.
A variante do português angolano está muito presente na linguagem popular e na
literatura, mas no ensino formal, a predominância é da língua portuguesa. A variante é tida como
erro, embora muitos linguistas negroafricanos como Mingas (2000) defenda que não é um erro,
e sim uma outra forma de expressão que pode estar associada à interferência de línguas
nacionais. Como exemplo, há uma tendência em Angola de substituir a preposição a do
português padrão por em, com o verbo ir. Ao invés dos angolanos dizerem vou à escola,
geralmente é usado vou na escola. Nas línguas nacionais, quando se vai a um espaço específico,
o lexema das línguas do grupo bantu mu, que significa dentro, é sempre usado para determinar
para onde se vai. A variante em após o verbo ir é muito utilizada no Brasil também.
As palavras negroaficanas ao entrarem na língua portuguesa podem sofrer de
interferência fonética ou morfossintática, como no caso Mbanza Congo, de origem bantu, que
passa para o português como Banza Congo. Perde-se a sonoridade característica da sua origem
nacional para ser falada conforme o padrão lusitano. Há neste caso, uma descaracterização da
estrutura linguística original que prejudica o étimo negroafricano que faz parte do patrimônio
cultural do povo angolano e que revela sua identidade sociolinguística. Este também é um
fenômeno registrado no Brasil por Castro (2001).
A língua imposta do colonizador, no nosso caso, o português, completamente distinto das
negroafricanas, foi adaptado aos sons e estruturas morfossintáticas das línguas maternas.
Exemplo disto, as vogais são pronunciadas pelos angolanos de forma aberta, enquanto em
Portugal, estas são fechadas. Mingas (2000) afirma que esta mesma interferência nas vogais
acontece no Brasil e é confirmada por Castro (2001). As autoras concordam que Angola e Brasil
27
possuem traços linguisticamente mais próximos do que com Portugal, pois são frutos dos
antepassados negroaficanos que foram levados aos milhares para o Brasil e que, enfim,
interferiram no falar brasileiro.
INTERFERÊNCIAS NO BRASIL
A interferência, em muitos países subsaarianos, como também no Brasil, se caracteriza
pelo contato entre línguas negroafricanas e o português do tempo colonial. Assim como em
Angola, também no Brasil, a interferência linguística foi tida, por muito tempo, e ainda é
considerada como um erro para muitos puritanistas que acreditam que o português normativo
deve ser imposto como meio de comunicação, sem levar em conta as divergentes possibilidades
provindas das línguas maternas.
Segundo Castro (2001), existe uma grande tendência do falante brasileiro em adequar os
lexemas negroafricanos aos morfemas de origem portuguesa. Muitas lexias negroafricanas
foram incorporadas pela língua portuguesa através da derivação de acordo com o padrão
português, tais como: nominal (dendezeiro; pemba-branca; muqueca-de-peixe), adjetival
(samba+ista), verbal (des+bundar; en+quizila+r)) e adverbial (en+cabula+da+mente). Há uma
categorização de número plural dos substantivos assinalada pelos artigos em português. Sua
posição antecede sempre o substantivo, verossímil aos prefixos classificatórios de plural e
singular em bantu, como no caso da variante os menino vai.
Existe a tendência de transformar os ditongos em monotongos em algumas palavras de
formação brasileira. Como exemplo, a forma derivada macumbeiro, oriundo da lexia do grupo
bantu makumba (reza, invocação), perde a vogal i do ditongo e é pronunciado como
macumbero. Seguem este mesmo padrão: maluque(i)ro e muvuque(i)ro. Há também
interferências fonossemânticas. As lexias negroafricanas sofrem mutação ou uma variante surge
por aparentar-se com palavras de origem portuguesa, tais como Pombajira em Pomba-Gira, do
grupo bantu, ou do grupo yorubá Xangô-Dioro em Xangô-de-o(u)ro. Nota-se uma semelhança
sonora entre o morfema africano jira e a palavra gira do português, assim como dioro e de-ouro
(CASTRO, 2001).
Pode-se até mesmo traduzir termos próprios de línguas negroafricanas como Aquirijebó,
do yorubá, o carregador de ebó em coruja-de-ebó. Neste caso, há uma metonímia, uma
comparação mental, pois a coruja é um animal noctívago, considerado agourento no Brasil e o
ebó (a oferenda) que é sempre levado para as ruas tarde da noite quando estão desertas
(CASTRO, 2010).
As interferências negroafricanas no português do Brasil podem ser vistas principalmente
na linguagem religiosa de matriz negroafricana, passadas através de geração a geração com
línguas cultuais dos terreiros. Estas somas de saberes tradicionais originaram o Candomblé. A
lexia candomblé vem do grupo bantu kandómbilé > kandómbelé ‘ação de rezar pela intercessão
28
de Deus’, originado do verbo kudomba > kulomba ‘rezar, invocar’. Estes grupos
sociorreligiosos são liderados por uma autoridade intitulada popularmente no Brasil de mãe de
santo ou pai de santo (CASTRO, 2001).
O repertório lexical da liturgia dos candomblés se manteve alicerçado nos lexemas de
origem negroafricana em sua forma arcaica e estranha ao domínio da língua portuguesa. Serve
como meio para entrar em contato com as suas divindades e o acesso ao seu conhecimento como
fator preponderante de integração e identidade etnoreligiosa do grupo. Este repertório se
manteve no processo comunicativo diário de seus membros por vários séculos, passados
oralmente de uma geração à outra. Suas lexias peculiares guardam segredos próprios de cada
povo de santo, revelando às outras gerações o universo mítico, social e linguístico,
salvaguardando-o das mudanças globais impostas pela sociedade atual. No processo de interação
linguística, algumas palavras usadas pelo povo de santo passaram a ser usadas na língua popular
do Brasil. As lexias de base negroafricana foram incorporadas no uso familiar ou espontâneo de
pessoas instruídas e de todas as classes sociais, principalmente por participantes das religiões de
origem negroafricana. Segundo Castro (2001), termos usados na língua de santo passaram a ser
usados na linguagem popular brasileira, como xibungo ou quibungo, do grupo bantu, que
significa em português pederasta. Esta palavra é marcada com o prefixo ki, diminuitivo ou
aumentativo, grafado em português xi com a alteração fonêmica shi. Este prefixo aparece
também em outros lexemas portugueses do Brasil, como quibata, quinti, quirica, quiuroto e
xibiu. O prefixo ka, marca de diminuitivo, também está presente em algumas lexias. Como
exemplo destas, temos a palavra kabasu, que em português passou para cabaço com a mesma
significação.
A mulher negroafricana teve um importante papel nas interferências linguísticas no
Brasil no período da escravidão. Do contato sociolinguístico da ama-de-leite, da mucama e das
cozinheiras com a sinhá e os demais da casa grande, resultou na incorporação de lexias
negroafricanas no vocabulário português, alterando-se e adaptando-se à nova realidade
linguística em uma soma de palavras que compõem o léxico da língua portuguesa no Brasil,
herança viva da África que deixou seu rico legado linguístico. Essas lexias fazem parte do
repertório vocabular do povo brasileiro, que substituíram suas correspondentes em português,
como é o caso da lexia de origem bantu caçula que é única usada no Brasil para designar o filho
mais novo da família, herança sociolinguística da mulher negra africana (CASTRO, 1980)
(HENCKEL, 2005).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os negroafricanos, sempre em maioria nas excolônias africanas e americanas, oriundos
de vários grupo linguísticos distintos, trouxeram consigo sua língua, cultura e religião e tiveram
de se adaptar à nova realidade sociolinguística estabelecida. Dessa mistura de línguas,
29
veiculadoras de culturas, imporam-se sua existência material, determinada de maneira peculiar
de expressão do vocabulário de cada povo, provocando as interferências linguísticas. O
vocabulário da interferência linguística reflete a riqueza de lexias que representam falares,
comportamentos e compõem o léxico de origem negrofricana na língua portuguesa e nos
crioulos de base portuguesa.
As línguas maternas negroafricanas contribuíram para a inserção de muitos aportes
linguísticos nesses falares. Seus sistemas lexicais interferiram no linguajar popular de países
como Angola, Moçambique, Brasil e nos crioulos de base portuguesa em San Tomé e Príncipe, e
também na morfologia, sintaxe, semântica e no léxico. Muitos morfemas de língua portuguesa
alteraram as lexias de base negroafricana e vice-versa, dando um sentido novo a muitas palavras.
Podemos citar a lexia descabaçar, os morfemas portugueses des- e -ar se unem à palavra do
grupo bantu kabasu que vai dar uma extensão de sentido, formando uma outra palavra.
Algumas lexias conservaram os morfemas de origem negroafricana. Estes morfemas são
comuns em muitas lexias e estão presentes em sua forma fonética inalterada, como é o caso dos
prefixos ku, das línguas do grupo bantu em cochilar, ki em chibata, ka em camundongo.
Por ter uma importância muito grande no resgate da cultura, o respeito às variantes
oriundas das interferências linguísticas é de grande relevância para a sociedade que as utiliza,
pois, através do vocabulário de um povo, pode-se resgatar suas raízes culturais. Muitas pessoas
usam estas lexias nos países que têm a língua portuguesa como língua oficial ou materna, ou até
mesmo nos crioulos oriundos da língua portuguesa, sem ter noção de sua origem. Através do
respeito destes termos linguísticos, pode-se reconhecer a herança vocabular negroafricana
deixada por vários séculos e que durante muito tempo sofreu tentativa de apagamento e
esquecimento.
Devido a essa grande interferência de lexias negroafricanas no português, os estudos
lexicais são de grande importância para compreender melhor a língua portuguesa e ampliar o
conhecimento do legado negroafricano. Através deles, poderemos entender as divergentes
culturas que contribuíram com a formação vocabular da língua portuguesa, pois estas lexias
fazem parte do patrimônio do povo negroafricano e americano. Cada uma dessas lexias expressa
seu significado próprio de acordo com a época, o grupo social e a região em que se encontram,
revelando sua riqueza lexical.
Estudar as interferências deste importante léxico é abrir possibilidades de conhecer
melhor a história social de cada povo e ressaltar essas palavras como parte integrante do
patrimônio cultural de seus falantes. Conhecer essas lexias é uma forma de resgatar a dignidade
de seus falantes, sem que haja qualquer tipo de exclusão, não se tratando simplesmente de fazer
um levantamento lexical, mas sim de compreender melhor a língua portuguesa e seu legado
30
negroafricano, a qual através dos tempos, vêm se adaptando com novas palavras de outras
línguas.
REFERÊNCIAS
ABBADE(2006), Celina. Márcia de Souza. O Estudo do Léxico. In: Diferentes perspectivas
dos estudos filológicos. Salvador: Quarteto.
BRAGANÇA(2010), Albertino. Interferências linguísticas no Português em S, Tomé e
Príncipe. In.: Interpenetração da Língua e Culturas de/em Língua Portuguesa na CPLP.
1ed. IDG: ____.
CASTRO(1980), Yeda Pessoa de. Os falares africanos na interação social do Brasil colônia.
N.89. Salvador: Centro de Estudos Baianos.
CASTRO(2001), Yeda Pessoa de. Falares Africanos na Bahia: um vocabulário afro-
brasileiro. 1 ed. Rio de Janeiro: Topbooks.
CASTRO(2010), Yeda Pessoa de. A participação dos falantes africanos na formação do
Português Brasileiro: aspectos sócio-históricos e linguísticos. In.: Interpenetração da
Língua e Culturas de/em Língua Portuguesa na CPLP. 1ed. IDG: ____
COSTA(2010), António Fernandes da. A ordem das palavras em português e línguas bantu.
In.: Interpenetração da Língua e Culturas de/em Língua Portuguesa na CPLP. 1ed. IDG:
____.
HENCKEL(2005), Rosa Cunha. Tráfego de palavras: Africanismos de origem banto na obra
de José Lins do Rego. Recife: Fundj. Ed. Massangana.
MINGAS(2000), Amélia. Interferência do Kimbundo no Português Falado em Lwanda.
Campo das Letras: Porto.
NGUNGA(2010), Armindo. A problemática de interferências de línguas moçambicanas na
língua portuguesa. In.: Interpenetração da Língua e Culturas de/em Língua Portuguesa na
CPLP. 1ed. IDG: ____.
NTONDO(2010), Zavoni. A coabitação linguística em Angola: diálogo vs conflito. In.;
Interpenetração da Língua e Culturas de/em Língua Portuguesa na CPLP. 1ed. IDG: ____.
PIRES(2010), Dora Oriana Gomes. A situação linguística em Cabo Verde. In.:
Interpenetração da Língua e Culturas de/em Língua Portuguesa na CPLP. 1ed. IDG: ____.
31
VILELA(2005), Mário. O cabo-verdiano visto pelos cabo-verdianos ou contributo para
uma leitura da situação linguística em Cabo Verde. Revista da Faculdade de Letras —
Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXII, Porto.
CAMINHANDO PELA CIDADE DE FEIRA DE SANTANA – BA: EDIÇÃO
SEMIDIPLOMÁTICA E ESTUDO LEXICOLÓGICO DE UMA AÇÃO DE DESQUITE
(1919-1922)
Josenilce Rodrigues de Oliveira Barreto (UEFS/ FTC)29
Rita de Cássia Ribeiro de Queiroz (Orientadora/ UEFS)30
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Editar, a partir de critérios específicos, documentos manuscritos é uma tarefa realizada
há milênios pelos filólogos. Esta atividade tem como principal característica a possibilidade de
permitir a preservação do patrimônio histórico-linguístico-cultural de povos que, através dos
registros escritos, puderam transmitir de uma geração para outra o seu modo de vida, a sua
história e a sua memória ou como afirma Acioli (1994, p. 1) “[...] o documento manuscrito é
considerado a mola-mestra da História. É indiscutível que ele proporciona recursos inestimáveis
ao historiador, representando o melhor testemunho do passado [...]”, ou seja, através do
documento manuscrito temos acesso à história de outros. Assim, torna-se de fundamental
importância a edição de textos de outras épocas históricas, a fim de que as informações contidas
naqueles sejam preservadas para a posteridade.
Desta forma, com a finalidade de preservar textos escritos, fizemos a edição
semidiplomática de uma ação ordinária de desquite, lavrada em Feira de Santana-Ba no período
29 Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Estadual de Feira de Santana, Especialista em Metodologia do
Ensino de Língua Portuguesa e Literatura pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci e Graduada em Licenciatura
em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Integrante do Núcleo de Estudos do
Manuscrito e do Grupo de Edição de Textos, ambos da UEFS. Professora da Faculdade de Tecnologia e Ciências e
professora de Língua Latina na Universidade Estadual de Feira de Santana. E-mail: [email protected].
30 Doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), professora da Universidade
Estadual de Feira de Santana e orientadora do trabalho. E-mail: [email protected]
32
de 1919 a 1922, a qual foi solicitada pela senhora Albertina da Motta Barretto, filha de um
influente coronel na referida cidade, o senhor Agostinho Fróes da Motta, que, por amor e zelo à
sua filha, ofereceu-lhe ajuda e incentivo para que aquela pedisse o desquite ao seu marido, por
este ter abandonado o lar conjugal por mais de dois anos seguidos, o que, segundo as leis
vigentes, era motivo suficiente para que a efetivação da separação judicial ocorresse, já que a de
corpos já havia se consumado.
A edição semidiplomática do referido documento foi realizada com o intuito de preservar
todo o conteúdo e a grafia, o que permite que todas as suas informações e, consequentemente,
toda a história que envolve os protagonistas da trama contida no texto sejam conservadas.
Assim, a atividade de editar se torna cada vez mais de fundamental importância e se constitui
como parte do labor filológico, pois, segundo Queiroz (2007, p.26), com este tipo de trabalho
“[...] o texto pode ser estudado na sua essência, pois as suas características mais importantes
foram preservadas [...]”.
Desse modo, além da edição, que é um trabalho de cunho filológico, realizamos também
um estudo linguístico voltado para o léxico. Em relação aos estudos do léxico, Abbade (2006, p.
213) considera que “[...] estudar o léxico de uma língua é enveredar pela história, costumes,
hábitos e estrutura de um povo, partindo-se de suas lexias [...]”. Portanto, além de editar
semidiplomaticamente, também fizemos o levantamento, o estudo e a análise de lexias presentes
no documento mencionado, sendo que a vertente dos estudos lexicais abordada foi a teoria do
Sistema Racional de Conceitos31 de Hallig e Wartburg ([1952] 1963).
2 DO TEXTO À EDIÇÃO: DESMEMBRANDO O CORPUS
Realizar edições é uma tarefa inerente ao ofício do filólogo. Através de edições é
possível preservar a história e a língua do povo constantes no documento, pois o labor filológico
não se restringe a apenas descrever e/ou transcrever, secamente, o texto que se tem em mãos. O
trabalho do filólogo é muito mais do que isso, porque através da edição textual são trazidos à
tona os aspectos sócio-histórico-culturais e até políticos presentes nos documentos, pois a
maneira como as palavras são ditas/colocadas sobre o papel revelam o modo de pensar e de agir
das pessoas envolvidas na produção do texto, visto que, neste, os autores buscam transpor para
outros os seus desejos, anseios, medos, alegrias, enfim os seus pensamentos e sentimentos a fim
de deixar registrado para além das linhas do tempo o modus vivendi dos membros que fazem
parte daquela comunidade linguística.
Assim, a atividade de fixar, editar, interpretar e comentar textos escritos se torna muito
mais importante do ponto de vista linguístico-cultural, mesmo porque o trabalho do filólogo é
“viajar pelo túnel do tempo” através das palavras, reconstituir e salvaguardar a história deixada
31 Título original em alemão: Begriffssystem als grundlage für die lexikographie. Na quarta seção desta dissertação
falaremos mais acerca do Sistema Racional de Conceitos.
33
para trás, revelando pontos específicos sobre a sociedade de então, trazendo para o tempo
presente evidências de como a língua funcionava, fatos que tornam a Filologia ainda mais
importante para a Linguística, a História, a Antropologia, a Sociologia e outras ciências da
linguagem e do homem.
Desse modo, através dos critérios estabelecidos cientificamente no século XIX, foram
trazidos à superfície textos genuínos a partir das edições realizadas pelos filólogos que, ao se
depararem com quaisquer tipologias textuais têm o poder de decidir qual o tipo de edição será
feita, bem como tem o dever de conhecer a língua representada na mancha escrita com o
objetivo de distinguir os padrões de comportamento do povo, para que possa chegar a identificar
o máximo de palavras (léxico) existentes nessa língua pois, como sabiamente disse Melo (1971),
cabe ao filólogo identificar e analisar as formas, a estrutura gramatical e a evolução da língua a
partir do texto que se tem à disposição, já que é o texto escrito que apresenta convincentes
indícios de como o sistema linguístico funciona ao longo do tempo. Até mesmo porque a língua,
materializada em suportes físicos, é reveladora da cultura e da sociedade e, consequentemente,
dos padrões socioculturais dos povos, fato que lhe confere também um aspecto essencialmente
social.
2.1 OS CRITÉRIOS ADOTADOS PARA A EDIÇÃO SEMIDIPLOMÁTICA
Como dito anteriormente, a edição de textos e a consequente preservação da história
cultural de povos de épocas pretéritas são objetivos essenciais da ciência filológica moderna.
Para alcançar tal objetivo, o editor decide qual o tipo de edição será realizada, pois cada
documento apresenta características peculiares e, por esse motivo, o tipo de edição apropriado é
escolhido a partir da leitura prévia do texto que se deseja editar.
A edição fac-similar, por exemplo, possui o “[...] grau zero de mediação [...]”
(CAMBRAIA, 2005, p. 91), ou seja, não há nenhum tipo de intervenção do editor, pois este tipo
de edição é feita com o auxílio tecnológico, realizada através da reprodução de fotografias
digitais e da microfilmagem. Assim, este modelo de edição “[...] tem como vantagem permitir o
acesso ao texto de forma praticamente direta, o que confere ao consulente grande autonomia e
liberdade na interpretação do testemunho [...]” (CAMBRAIA, 2005, p. 91), logo, esta edição é
preparada para um público especialista, visto que este tipo de edição exige do leitor a habilidade
de ler o texto na sua escrita original.
A edição paleográfica32, por sua vez, caracteriza-se como um tipo de edição em que o
editor intervém de maneira mediana sobre o texto. Assim, a intervenção realizada pelo editor
tem a finalidade de facilitar a leitura do documento, realizando-se o desdobramento de
32 Cambraia (2005) diz que a edição paleográfica também pode ser chamada de semidiplomática, paradiplomática
ou diplomático-interpretativa. Contudo, nesta dissertação, optamos por usar o termo semidiplomática, por este ser
utilizado pelo Grupo de Edição de Textos da Universidade Estadual de Feira de Santana – BA (Cf.
www.uefs.br/get).
34
abreviaturas, inserindo ou suprimindo elementos por conjectura, etc, de forma que o público não
sinta muitas dificuldades na decodificação do texto. Assim, neste tipo de edição, os objetivos
principais, de acordo com Cambraia (2005), são: facilitar a leitura do texto para um público
menos especializado e tentar corrigir falhas ocorridas no processo de cópia do texto. Levando
em consideração as definições de Cambraia (2005), realizamos esses dois tipos de edição – fac-
similar e semidiplomática – para as quais delimitamos alguns critérios:
Para a descrição do documento, observamos:
Número de colunas;
Número de linhas da mancha escrita;
Existência de ornamentos;
Maiúsculas mais interessantes;
Existências de sinais especiais;
Número de abreviaturas;
Tipo de escrita;
Tipo de papel.
Já para a transcrição, optamos por:
Respeitar fielmente o texto: grafia, linhas, fólios, cor da tinta utilizada33 etc.;
Fazer remissão ao número do fólio no ângulo superior direito;
Numerar o texto linha por linha, constando a numeração de cinco em cinco;
Separar as palavras unidas e unir as separadas;
Desdobrar as abreviaturas usando itálico;
Nos casos dos textos manuscrito com impresso (f. 60r e 61r), adotamos como
critério utilizar letras maiúsculas em negrito para representar os trechos
impressos;
Utilizar colchetes para as interpolações: [ ];
Indicar as rasuras, acréscimos e supressões através dos seguintes operadores:
((†)) rasura ilegível;
[†] escrito não identificado;
(...) leitura impossível por dano do suporte;
/ / leitura conjecturada;
< > supressão;
( ) rasura ou mancha;
[ ] acréscimo;
* * intervenção de terceiros.
33 Na edição semidiplomática, reproduzimos a cor da tinta da caneta, utilizada pelo escrivão, constante no
documento.
35
2.2 A DESCRIÇÃO DO CORPUS
O processo judicial de desquite solicitado por Dona Albertina da Motta Barretto encontra-se sob
a guarda do CEDOC, órgão pertencente à Universidade Estadual de Feira de Santana, sob a classificação:
Estante 03, Caixa 65 e Documento 753. A seguir apresentamos as imagens da universidade e do CEDOC,
locais onde o referido documento está depositado.
Figura 1 - UEFS Figura 2 - CEDOC/UEFS
Fonte: < http://www.uefs.br >. Fonte: < http://www.uefs.br/portal/departamentos/dchf/menus/cedoc-1 >.
Acesso em: 18 abr. 2013. Acesso em: 18 abr. 2013.
Figura 3 - Acervo do CEDOC/UEFS Figura 4 - Processo de catalogação dos documentos
Fonte: <http://www2.uefs.br/cedoc/Historico.html>. Fonte: <http://www2.uefs.br/cedoc/Historico.html>.
Acesso em: 18 abr. 2013. Acesso em: 18 abr. 2013.
No processo de catalogação dos documentos disponibilizados pelo Fórum Desembargador
Filinto Bastos, também localizado em Feira de Santana-Ba, para o CEDOC, estagiários do acervo
inseriram uma ficha catalográfica no primeiro fólio da ação de desquite analisada, a qual está reproduzida
na figura a seguir:
Figura 5 – Ficha catalográfica
36
Fonte: Ação Ordinária de Desquite (1919 – 1922), Acervo do CEDOC/UEFS
Fotografia: Josenilce Rodrigues de O. Barreto
Figura 6 - Ficha catalográfica
Fonte: Ação Ordinária de Desquite (1919 – 1922), Acervo do CEDOC/UEFS
Fotografia: Josenilce Rodrigues de O. Barreto
Nessa ficha constam informações relevantes, tais como: o nome do Fórum Desembargador
Filinto Bastos, que cedeu esse e muitos outros documentos para o CEDOC; o Departamento de Ciências
Humanas e Filosofia da UEFS, responsável pela catalogação dos textos; a localização do documento
(constante no ângulo superior direito); o tipo de processo (neste caso cível); a seção: judiciária; a série:
Processo cível; a subsérie: Ação Ordinária de Desquite; a Comarca e a localidade: Feira de Santana; o
37
número de folhas: 9634; o período de escrita do documento: 1919-1922; e as partes interessadas: Dona
Albertina da Motta Barretto como autora do processo e o Senhor Antonio Alves Barretto, o réu.
O documento encontra-se em razoável estado de conservação, não apresenta capa nem
contracapa, é constituído de 97 fólios redigidos em papel almaço medindo, aproximadamente,
330mm X 220mm, lavrado na cidade de Feira de Santana-Ba no início do século XX. Os fólios
são escritos, na sua grande maioria, no recto e no verso em tinta preta, sendo que apenas os
fólios de número 22r, 48r, 48v, 49r, 49v, 50r, 50v, 51r, 79r, 79v, 80r, 80v, 81r, 81v, 95r e 97r
são datiloscritos em tinta azul, dentre outras características.
2.3 A EDIÇÃO FAC-SIMILAR E A SEMIDIPLOMÁTICA: DISPONDO O CORPUS
Figura 7 – fólio 1r
Figura 8 – fólio 2r
34 Vale salientar que, na catalogação feita pelos estagiários do CEDOC, consta o número de 96 fólios, mas na
realidade o documento possui 97 enumerados e rubricados, no recto, pelos próprios escrivães.
38
3 DO TEXTO AO LÉXICO: ENVEREDANDO PELA LEXICOLOGIA
A língua pode ser vista como o reflexo cultural de uma sociedade. Estudar uma língua a
partir de suas características puramente linguísticas é uma atividade que se resumiria apenas à
observação e estudo dos aspectos fonéticos, morfológicos e/ou sintáticos. Contudo, para se
compreender a cultura e a sociedade, é preciso ir além daqueles e adentrar também no nível do
léxico, o qual nos permite detectar particularidades relacionadas àquelas. Neste sentido, a língua
se torna
[...] o interpretante da sociedade [...] pelo fato de que se pode isolar a língua, estudá-la e
descrevê-la por ela mesma sem se referir a seu emprego na sociedade, e sem se referir a
suas relações com as normas e as representações sociais que formam a cultura. Em
contrapartida, é impossível descrever a sociedade, descrever a cultura, fora de suas
expressões linguísticas. Neste sentido a língua inclui a sociedade [...] (BENVENISTE,
2006, p. 97-98).
Indiscutivelmente, é através da língua que são refletidas a cultura e a sociedade de um
povo. Diante disso, buscamos identificar, através do vocabulário, aspectos socioculturais
presentes no documento analisado. A fim de alcançar tal objetivo, enveredamos pelas subáreas
da Lexicologia35: a Semasiologia e a Onomasiologia e em seus critérios de classificação lexical,
sendo que a Semasiologia parte do significante para o significado, já a Onomasiologia, em uma
relação opositiva àquela, toma o conceito/significado dos objetos ou coisas como ponto de
35 De acordo com Abbade (2006), a Lexicologia possui seis subdivisões ou ciências afins, a saber: a Lexicografia, a
Terminologia, a Semântica, a Etimologia, a Semasiologia e a Onomasiologia.
39
referência para se chegar ao significante. A seguir, trazemos duas figuras que representam o
tratamento dado pela Semasiologia e pela Onomasiologia ao nome e ao significado/ conceito.
Figura 38: Semasiologia Figura 39: Onomasiologia
Fonte: (BALDINGER, 1966, p. 28).
A partir das figuras elaboradas por Baldinger (1966), constatamos que a Semasiologia e a
Onomasiologia se opõem e se complementam ao mesmo tempo. Essa duplicidade de aspectos
nos remete ao signo linguístico, que é composto por um significante e um significado, ou
melhor, a união entre a imagem, que elaboramos do objeto em nossa mente e o objeto
representado no mundo real.
Apropriando-se da Onomasiologia e com o intuito de fazer um possível levantamento e
análise do léxico, os autores do Sistema Racional de Conceitos desenvolveram a sua primeira
proposta em 1952, na qual defendiam a criação de dicionários ideológicos que classificassem os
conceitos, os quais, segundo eles, são mais estáveis e mais tendentes à generalização do que a
palavra (C.f. CASTILHO; CARRATORE, 1967). Contudo, mesmo depois de sofrerem críticas
assaz diversas sobre a eficiência do Sistema Racional de Conceitos em trabalhos científicos que
envolviam línguas naturais diferentes, Rudof Hallig e Walther von Wartburg não se deram por
vencidos e, ao invés disso, fizeram modificações no Sistema Racional de Conceitos, em 1963.
Assim, para a realização deste trabalho nos apropriamos da segunda versão.
Esta teoria trata do estudo de qualquer língua natural partindo, primordialmente, de
conceitos pré-científicos, que abarcam os conhecimentos de mundo adquiridos a partir de
experiências cristalizadas nas palavras, a fim de estabelecer uma classificação lexical centrada
no significado, ou seja, parte-se, a priori, do conhecimento que se tem sobre determinado objeto
para se chegar ao seu significante. Trata-se, portanto, do uso dos princípios da Onomasiologia -
cujo “[...] método permite ver a cultura do povo cuja língua se estuda, costumes, ocupações,
instrumental, crenças e crendices, moradia, enfim, sua mundividência. Permite sentir a
linguagem viva, traduzindo a vivência cultural do povo [...]” (BASSETO, 2005, p. 77) – a qual
classifica as lexias a partir dos significados e não dos significantes.
Assim, o Sistema Racional de Conceitos foi desenvolvido a partir de uma pirâmide
tripartite, composta por três esferas que se distinguem e se completam simultaneamente, a saber:
40
esfera A – O Universo, esfera B – O Homem, e esfera C – O Homem e o Universo, sendo que
para cada esfera há subdivisões ou subesferas, que fazem referência àquelas.
Na primeira esfera, O Universo, os autores partem do universal para as especificidades,
atribuindo àquele um lugar de destaque e independente da existência humana. Essa divisão
conceitual é subdividida em quatro partes, as quais são: I - O céu e a atmosfera; II – A terra; III
– As plantas e IV – Os animais.
Na segunda esfera, O Homem, é atribuída ao ser humano uma espécie de consciência de
si mesmo, incluindo todos seus pensamentos, seus sentimentos, sua vontade, seu trabalho e seu
poder criador. Essa esfera também é subdividida em quatro partes, a saber: I – O homem, ser
físico; II – A alma e o intelecto; III – O homem, ser social e IV – A organização social.
Na terceira esfera, O Homem e o Universo, são apresentados os conceitos baseados na
relação existente entre o homem e o universo. Esta esfera é subdividida em duas partes: I – A
priori e II – A ciência e a técnica. Em I – A priori são delimitados conceitos sobre os objetos,
referindo-se ao seu estado, forma, dimensão, matéria, qualidade, quantidade, valor, causalidade,
tempo e movimento. Já em II – A ciência e a técnica há conceitos no tocante à ciência e à
técnica e à ciência e indústria (PAULA, 2007; QUEIROZ, 2002).
No entanto, as esferas e suas respectivas subdivisões nem sempre conseguem dar conta
das especificidades encontradas em cada trabalho, mas isso não invalida e nem diminui a
proposta de estudo do léxico elaborada por Hallig e Wartburg ([1952] 1963), muito pelo
contrário, mostra que ela é flexível, passível de adaptações e, portanto, acabam atendendo,
mesmo que indiretamente, à ideia de que podem ser aplicadas a qualquer língua natural, porque
apesar de sofrerem possíveis adaptações, realizadas por pesquisadores, a essência da proposta
inicial se mantém. Embora tenhamos encontrado 533 lexias distribuídas pelas esferas e
subesferas do Sistema Racional de Conceitos, apresentamos, neste trabalho, apenas as lexias
alocadas na esfera B, na primeira parte – O homem, ser físico.
3.1 A PIRÂMIDE TRIPARTITE: O LÉXICO EM EVIDÊNCIA
Para a análise e sistematização do léxico, adotamos e, em alguns casos, adaptamos as
divisões e subdivisões do Sistema Racional de Conceitos, atendendo aos seguintes critérios:
Para as entradas lexicais, as lexias foram apresentadas em letras maiúsculas e em
negrito, seguidas pela classificação genérica da categoria gramatical a que
pertencem;
As entradas dos nomes (substantivos e adjetivos) foram feitas pelo masculino e
feminino singular;
As entradas dos verbos foram feitas pelo infinitivo;
41
Após a entrada e a classificação apresentamos a significação da lexia no contexto
específico, seguida de um exemplo do texto e, na medida do possível, as demais
indicações presentes na ação de desquite e os respectivos fólios e linhas;
Os exemplos foram apresentados de acordo com a ordem em que aparecem no
texto, com a lexia destacada em negrito (QUEIROZ, 2002).
3.2 O VOCABULÁRIO ONOMASIOLÓGICO
B- O HOMEM
I – O HOMEM, SER FÍSICO
a) O ser
PESSOA (s.f.): indivíduo considerado por si mesmo; ser humano.
Contexto: “[...] Certifi[c]o eu Official de Justica/ infra firmado que em virtude do man-/ dado
rectro e do seu respeitavel/ despacho me dirigi mesta Cidade e/ intimei as 11 horas do dia de
hoje/ em sua propria pessoa Antonio Al-/ ves Baretto [...]” (f. 21v, l. 10-16; f. 77v, l. 4);
INDIVÍDUO (s.m.): ser humano.
Contexto: “[...] O instincto é a tendencia espontanea e irre-/ flectida do homem para fazer todos
os actos/ uteis á conservação do individuo e da especie. [...]” (f. 37r, l. 14-16);
HOMEM (s.m.): ser humano.
Contexto: “[...] algumas vezes mesmo acontece que, por uma / exaltação inteiramente
voluntaria e livre, / o homem toma uma especie de prazer no soffrimento [...]” (f. 39r, l. 17-20;
f. 37r, l. 11, 15, 21; f. 37v, l. 11; f. 38r, l. 30; f. 38v, l. 16, 23, 27; f. 39r, l. 19; f. 39v, l. 28; f. 40r,
l. 28; f. 40v, l. 22, 24; f. 41r, l. 7, 9; f. 41v, l. 10);
SEMELHANTE (s.m.): indivíduo da mesma espécie em relação a outro ser.
Contexto: “[...] A moral manda que ninguem se divirta com/ a infelicidade dos seus
semelhantes. [...]” (f. 41v, l. 30 – f. 42r, l. 7).;
VARÃO (s.m.): indivíduo masculino que atingiu a idade adulta.
Contexto: “[...] pensamos/ que o abandono só não é voluntario/ nos casos que encontram
justificativa/ na lei: o abandono para ir o conjuge pres-/ tar serviço militar; o abandono para
defesa/ de interesses pessoaes ou reaes; em fim o/ abandono por determinação de uma mo-/
lestia nervosa ou mental de tal na/ tureza que justifique a nomeação da mulher/ para ser a
curadora do seu marido. Isso quanto/ ao abandono por parte do varão [...]” (f. 77r, l. 7-17, 24).
b) O organismo, a vida
42
VIDA (s.f.): existência humana.
Contexto: “[...] nesta dita noite/ sua mulher o ameaçara/ contra a sua vida [...]” (f. 29v, l. 28-30;
f. 38v, l. 26; f. 42v, l. 29; f. 44r, l. 9);
VIVER (V.): estar vivo.
Contexto: “[...] obrar é sua essência, cessar de obrar é/ para ella cessar de viver [...]” (f. 37r, l.
7-8);
ESPÉCIE (s.f.): categoria taxonômica abaixo do gênero, cujos indivíduos são
morfologicamente semelhantes entre si.
Contexto: “[...] O instincto é a tendencia espontanea e irre-/ flectida do homem para fazer todos
os actos/ uteis á conservação do individuo e da especie. [...]” (f. 37r, l. 14-16);
ORGANISMO (s.m.): a constituição orgânica.
Contexto: “[...] A deliberação que precede depende da In-/ telligencia; o esforço muscular e a
acção que/ seguem não são mais que movimentos de ner-/ vos e contracções de musculos que
dependem/ do organismo [...]” (f. 38r, l. 14-18).
c) O Corpo e os membros
CORPO (s.m.): estrutura física do ser humano.
Contexto: “[...] nesta dita noite / sua mulher o ameaçara / contra a sua vida atirando / atirando
lhe as facas [...] / e garrafas, tendo affecta- / do o seu corpo [...]” (f. 29v, l. 28-30; f. 30r, l. 1-3;
f. 3r, l. 11; f. 37r, l. 17; f. 39r, l. 24; f. 41v, l. 9);
FACE (s.f.): rosto.
Contexto: “[...] atirando-lhe as faces morin-/ gues e garrafas, tendo affecta-/ do o seu corpo a
mesma que/ a ele depoente para evitar/ consequencias mais duras/ desde aquelle momento/
temendo mesmo a noite/ abandonou o lar e lá não/ mais voltara [...]” (f. 30r, l. 1-9);
FÍSICO (adj.): relativo ao corpo.
Contexto: “[...] Taes são os movimentos do corpo para se pôr/ em equilibrio; tal ainda a
tendencia do es-/ pirito pra estudar os objectos que não conhece,/ ou a aspiração da alma para o
bem e o/ bello; pois o homem tem instinctos intellectu-/ aes e moraes como tem instinctos
physicos. [...]” (f. 37r, l. 17-22; f. 40r, l. 25);
PEITO (s.m.): tórax.
Contexto: “[...] Contrario á honra o meu amor se empenha;/ Arde aquella no peito, e este
afrouxa o braço! [...]” (f. 37v, l. 28-29);
43
BRAÇO (s.m.): cada um dos dois membros superiores do ser humano.
Contexto: “[...] Contrario á honra o meu amor se empenha;/ Arde aquella no peito, e este
afrouxa o braço! [...]” (f. 37v, l. 28-29; f. 79v, l. 20);
MEMBRO (s.m.): cada um dos quatro apêndices do tronco.
Contexto: “[...] Emfim, este poder da Vontade estende-se até/ os movimentos dos membros e
as funcções dos/ orgaos [...]” (f. 40v, l. 9-11).
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir do trabalho desenvolvido e apresentado, em parte, neste artigo, podemos
constatar que a afirmativa de que o trabalho filológico facilita a vida do linguista no que tange
ao conhecimento da língua em uma perspectiva histórica se torna inconteste. Dessa forma, ao
realizarmos a edição semidiplomática de uma ação de desquite do início do século XX e
conseqüente estudo do léxico a partir do aparato científico possibilitado pela Lexicologia e
depois verticalizando para a teoria do Sistema Racional de Conceitos, sistematizamos as
inúmeras lexias dispostas ao longo do documento.
Desde que a Filologia adquiriu status de ciência, as edições ficaram mais rigorosas e
incontestavelmente mais confiáveis, o que, de fato, permite que a língua seja estudada em
épocas diversas. Através da edição realizada sob critérios filológicos, o referido documento fica
à disposição de outros pesquisadores e do público em geral para que conheçam não apenas o
sistema lingüístico utilizado naquele, mas também a estória dos envolvidos em tal processo.
Em relação ao estudo do léxico, o trabalho realizado contribui para a área da
Lexicologia, a qual é recente em comparação a outras que foram criadas há mais tempo. Além
de se tratar de um trabalho ancorado no Sistema Racional de Conceitos, sobre o qual há ainda
poucos trabalhos na área. Dessa forma, acreditamos que tanto o trabalho filológico quanto o
lingüístico, realizados a partir da ação de desquite supracitada, contribuem significativamente
para o avanço da Filologia e da Lexicologia, esta última voltada especificamente para o Sistema
Racional de Conceitos ([1952] 1963) de Hallig e Wartburg.
REFERÊNCIAS
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Reis; QUEIROZ, Rita de Cássia Ribeiro de; SANTOS, Rosa Borges dos (Org.). Diferentes
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manuscritos. Recife: Massangana, Editora da Universidade Federal de Pernambuco, 1994.
44
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BASSETO, Bruno Fregni. Elementos de filologia românica. São Paulo: EDUSP, 2005. p. 63-
86.
BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral II. Tradução de Eduardo Guimarães. 2.
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CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
CASTILHO, Ataliba T. de; CARRATORE, Enzo Del. A onomasiologia no léxico e na sintaxe.
Alfa, Marília, n. 11, p. 129-149, mar. 1967.
HALLIG, R.; WARTBURG, W. von. Begriffssystem als grundlage für die lexikographie;
Versuch eines Ordnungsschemas. 2. Neu bearbeitete und erweiterte Auflage. Berlin: Akademie-
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MELO, Gladstone Chaves de. Iniciação à Filologia e à Linguística portuguesa. 4. ed. melh. e
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PAULA, Maria Helena de. Rastros de velhos falares: Léxico e cultura no vernáculo
catalano. 2007. 522 f. Tese (Doutorado em Lingüística e Língua Portuguesa) - Faculdade de
Ciências e Letras - Universidade Estadual Paulista, Araraquara, São Paulo, 2007.
QUEIROZ, Rita de Cássia Ribeiro de. Introdução metodológica. In: ______. (Org.).
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Universidade Estadual de Feira de Santana, 2007. p. 23-34.
______. “Dos benefícios de Deus”, “Livro da Consciência e do conhecimento próprio”, “Da
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da obra ascético-mística “Castelo Perigoso” (Cód(s). ALC 199 e ALC 214). 2002. 468f. Tese
(Doutorado em Filologia e Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.
CULINÁRIA, GASTRONOMIA OU OPSOFAGIA?
Um tour lexical pela alimentação na Bahia sobre os elementos de herança africana
Liviane Gomes Ataíde Santana36
1. CONSIDERAÇÕES SOBRE A CULINÁRIA, A GASTRONOMIA E A OPSOFAGIA
36 Mestranda em Estudos Linguísticos, Especialista em Estudos Linguísticos pela UEFS, Graduada em Letras com
Francês na UEFS e Professora Auxiliar de Língua Francesa do Departamento de Letras e Artes da Universidade
Estadual de Feira de Santana.
45
Borba (2002) define o termo culinária como preparação de comida e também como
cozinha. Já Ferreira (1999) adentra o universo artístico e o define como a arte de cozinhar.
Houaiss (2001) é mais detalhista e abrangente em sua definição e caracteriza a culinária como a
arte e a técnica de cozinhar, especialmente pratos requintados, sofisticados, e também como um
conjunto de pratos, especialidades de uma localidade, região, país. Com isso, pode-se dizer, por
exemplo, a culinária da Bahia, a culinária brasileira, etc.
Sobre a lexia gastronomia, ela é definida simplesmente como a arte de cozinhar e bem
preparar alimentos, isso na visão de Borba (2002), em seu Dicionário de usos do português do
Brasil. Ferreira (1999) e Houaiss (2001) aprofundam mais as suas definições. O primeiro
considera a gastronomia como um conhecimento teórico e/ou prático acerca de tudo que diz
respeito à arte culinária, às refeições apuradas, aos prazeres da mesa, além da arte de regalar-se
com finos acepipes, ou o que pode se chamar de petiscos. O segundo determina que a
gastronomia corresponde à prática e conhecimentos relacionados com a arte culinária, e ao
prazer de apreciar pratos finos.
Já a palavra opsofagia é utilizada por Houaiss (2001) de forma a assemelhar-se em sua
definição com o termo gastronomia, em parte, uma vez que ele apresenta o verbete opsófago
como aquele que aprecia, se regala com pratos finos, com boas iguarias.
A culinária, embutida na gastronomia, entendida como a arte de cozinhar, torna-se parte
de uma cultura particular, da cultura de uma região, de uma época. Ela está associada à cozinha
de forma invariável, já que este é o local ideal para o preparo dos alimentos, e o cozinheiro
principal é normalmente conhecido como chef, assim reconhecido pela sua boa cozinha e dotes
culinários. A gastronomia está frequentemente associada ao refinamento e apreciação da
alimentação, incluindo não só a forma como os alimentos são preparados, mas também como
são apresentados, e ao prazer proporcionado pela comida. O gastrônomo é conhecido como
gourmet, palavra de origem francesa, que é aquele que pode ser também um cozinheiro, além de
se ocupar do refinamento da alimentação e de sua apreciação. Quanto à opsofagia, esta se
encontra também embutida na gastronomia, já que trata única e exclusivamente do gosto pela
boa comida.
Revel (1996, p. 36) tira conclusões interessantes a respeito do gastrônomo:
A palavra gastrônomo37, vocábulo pedante derivado do grego, só aparece no início do
século XIX, mas a personagem que lhe corresponde nasce no século XVII. [...]
O gastrônomo é simultaneamente curioso e desconfiado, investigador e medroso, ele
explora com pusilanimidade. Busca as sensações novas e ao mesmo tempo as teme.
Passa a metade do tempo a evocar as satisfações passadas e a outra metade a calcular
com ceticismo as possibilidades vindouras.
37 Grifo do autor.
46
Então, o gastrônomo está sempre a querer inventar e descobrir novas receitas, novas
combinações de sabores, mas teme que suas novidades alimentares possam desagradar os
paladares que venham a saboreá-las, daí ser encarado por Revel (1996) como pusilânime.
2. ARTE CULINÁRIA, GASTRONÔMICA OU OPSOFÁGICA NA BAHIA
Não só na Bahia, mas em qualquer outro local que tenha uma cultura alimentar, seria
mais econômico em uso de termos, abrangente e conveniente, considerar a arte do preparo e do
regalo dos alimentos, apenas como gastronômica, já que esta envolve tanto a culinária quanto a
opsofagia.
E de acordo com Querino (1928), a cozinha baiana também representa a fusão do
português, do indígena e do africano, assim como a formação étnica do Brasil. Ele afirma que
foi o africano o introdutor do azeite de cheiro, do camarão seco, da pimenta malagueta, do leite
de coco e de outros elementos, no preparo das variadas refeições da Bahia.
Exaltando a Bahia na arte culinária brasileira, estado que recebeu deliciosas
contribuições africanas no âmbito culinário, Querino (1928, p. 21) afirma que:
É notório, pois que a Bahia encerra a superioridade, a excelência, a primazia, na arte
culinária do país, pois que o elemento africano, com a sua condimentação requintada de
exóticos adubos, alterou profundamente as iguarias portuguesas, resultando dali um
produto todo nacional, saboroso, agradável ao paladar mais exigente, o que excele a
justificativa fama que procede a cozinha baiana.
Serão descritos a seguir, com base, essencialmente, nos estudos feitos por Manuel
Raimundo Querino (1928), os principais alimentos dos quais o africano fazia abundantemente
uso em estando em terras baianas, e que são, atualmente, ainda preparados e apreciados pelos
seus descendentes ou até mesmo pelos não-descendentes, e possivelmente com a mesma
perfeição. Definições e/ou formas de preparo de cada alimento citado, serão apresentadas de
acordo com o referido autor e com o dicionarista Houaiss (2001).
2.1. Sobre os alimentos baianos de herança africana
ABARÁ s.m. Porção de feijão fradinho descascado e moído, temperada com sal, cebola,
azeite de dendê e camarão seco, e cozida em banho-maria ou vapor, depois de enrolada em folha
verde de bananeira.
47
ABERÉM s.m. Espécie de bolo feito de milho ralado na pedra38, água e açúcar, envolvido
em folha de bananeira e assado ao forno. Bolo de massa de milho ou de arroz, envolto em folhas
de bananeira e cozido.
ACAÇÁ s.m. Bolinho afro-baiano feito de farinha de arroz ou de milho, cozido em ponto de
gelatina e envolvido, ainda quente, em folhas de bananeira. É também uma bebida refrescante
feita de fubá, arroz ou milho, fermentado em água açucarada.
ACARAJÉ s.m. Bolinho de feijão fradinho descascado, moído, temperado com sal e cebola
ralada, muito bem batido antes de ser frito no azeite de dendê, e servido com molho de pimenta
malagueta, camarões secos, vatapá, tomate e pimentão.
ADUM ou ADO s.m. Milho torrado e moído, temperado com azeite de dendê e mel de
abelha. Corresponde a um prato votivo do orixá Oxum.
ALUÁ ou ARUÁ s.m. Bebida refrigerante feita de farinha de arroz (ou de milho) ou de
cascas de frutas (especialmente abacaxi, raiz de gengibre esmagada ou ralada), açúcar ou caldo
de cana e sumo de limão.
AMORI ou LATIPÁ s.m. Efó (pasta) de folhas de mostarda cozinhadas, aromatizadas com
malagueta, camarões secos, cebolas e sal, e refogadas em dendê.
ARROZ-DE-HAUÇÁ s.m. Prato preparado com farinha de arroz ou com arroz branco
cozido em água e sal e batido até adquirir consistência de pirão, que se come com molho feito de
charque, camarão seco, azeite de dendê, cebola alho, etc.
BOBÓ s.m. Comida de origem africana, feita com feijão, geralmente mulatinho, cozido até a
consistência de uma papa, com azeite de dendê e temperos. Creme de inhame, aipim ou fruta-
pão cozido com azeite de dendê e temperos, que se come puro, com frutos do mar ou ainda
como acompanhamento de pratos de peixe ou carne.
CARURU s.m. Prato afro-brasileiro feito de quiabos, a que se acrescentam camarões secos e
peixe, e temperado com cebola, azeite de dendê, pimenta malagueta, amendoim, castanha de
caju, etc.
38 A pedra de ralar, como era chamada, era um instrumento do cotidiano das cozinhas baianas. Uma pedra que
media cinquenta cm. de comprimento por vinte e três de largura, tendo cerca de dez cm. de altura. Tinha a face
plana ligeiramente picada, por canteiro, de modo a torna-la porosa ou crespa. Um rolo da mesma pedra e em forma
cilindro de cerca de trinta centímetros de comprimento apresenta a superfície áspera. Esse rolo impelido para frente
e para trás, sobre a pedra, na atitude de quem mói, tritura facilmente milho, feijão, etc.
48
DENGUÉ s.m. Milho branco cozido acrescido de açúcar.
EBÔ s.m. Prato afro-baiano feito de farinha de milho branco sem sal, ao qual, por vezes, se
acrescenta feijão fradinho torrado e azeite de dendê. Corresponde a um prato votivo de orixá
Oxalá (como Oxalufã e Oxaguiã), Iemanjá (com azeite de oliveira ou mel) e Oxumaré (com
coco).
ECURU s.m. Farofa de feijão fradinho torrado, prato de Iansã.
EFÓ s.m. Espécie de pasta obtida de certas verduras como língua-de-vaca, taioba, mostarda,
etc., aromatizadas com camarão seco, azeite de dendê, malagueta e outros condimentos, e
refogada em dendê, a que se pode acrescentar camarão fresco ou peixe.
EFUN-OGUEDÊ s.m. Espécie de farinha obtida com banana de São Tomé, não muito
madura, descascada, cortada em fatias que são colocadas ao sol para secar. Dias depois é pisada
no pilão e passada na peneira.
ERAN-PATERÊ s.m. É um naco39 de carne verde, bem fresca, salgada e frita no azeite de
cheiro.
IPETÉ s.m. Massa de inhame cozido com camarões secos moídos, sal, cebola e azeite de
dendê, servido em palha de banana. Corresponde a um prato votivo do orixá Oxum.
MASSA s.f. Comida baiana de origem africana feita da seguinte forma: rala-se o arroz,
cozinha-se, e formam-se pequenas bolas que se envolvem em polvilho de arroz. São também
refrigerantes dissolvidas em água com açúcar. De acordo com Querino (1929), o negro
muçulmano, porém, frigia essas bolas de arroz no azeite de cheiro ou no mel de abelhas,
constituindo essa iguaria verdadeira preciosidade em suas cerimônias religiosas.
OGUEDÊ s.m. Banana da terra frita no azeite de cheiro.
OLUBÓ s.m. Espécie de massa feita da raiz da mandioca, triturada ao pilão e passada na
peneira, depois de seca ao sol em fatias muito finas.
39 Naco – s.m. grande pedaço de qualquer coisa. BUENO (1991, p. 761.)
49
OMOLOCUM s.m. Prato da cozinha baiana, mas de origem africana, também conhecido
como Humulucu ou Feijão de azeite, é uma comida ritual do orixá Oxum. O seu preparo é:
cozido o feijão fradinho, tempera-se com cebola, sal, alguns camarões, sendo todas estas
substâncias raladas na pedra, adicionando-se, ao mesmo tempo, o azeite de cheiro. A iguaria só é
retirada do fogo depois de cozidos os temperos. Pode ser enfeitado com camarões inteiros e ovos
cozidos inteiros sem casca, normalmente são colocados 5 ovos ou 8 ovos, mas essa quantidade
pode mudar de acordo com a obrigação do candomblé.
XINXIM s.m. Prato da culinária baiana consistente em algum tipo de carne temperada com
sal, alho e cebola ralados e refogada em azeite de dendê com camarão seco, amendoim e
castanha de caju.
ABARÁ ABERÉM ACAÇÁ ACARAJÉ ALUÁ
ARROZ-DE-HAUÇÁ BOBÓ CARURU EBÔ
EFÓ IPETÉ OMOLOCUM XINXIM
Como a concentração de negros de forma mais homogênea foi muito grande no estado da
Bahia, mais especificamente em Salvador, isso provavelmente possibilitou a conservação do uso
de velhas comidas africanas. As crenças exercem grande influência na cultura alimentar da
Bahia, e é especialmente no candomblé que se cultiva o hábito de preparar alimentos ligados à
cozinha de origem africana, a exemplo dos pratos apresentados acima.
Tratando do que vem após a segunda refeição, ou seja, após o almoço, Querino (1928)
vem afirmar que a influência africana no preparo de doces e guloseimas de sobremesa, foi
inteiramente nula.
50
2.2. Sobre os condimentos utilizados pelos africanos
O condimento é uma substância aromática, geralmente de origem vegetal, usada para
realçar o sabor dos alimentos. Os africanos gostavam de condimentar as suas refeições, e para
isto usavam:
ATARÊ s.m. de acordo com Querino (1928), trata-se de um condimento conhecido também
como pimenta da costa, usado em quantidade muito reduzida. Houaiss (2001) afirma que este
condimento é a pimenta malagueta, e que é usado no candomblé em comidas votivas e, na
quimbanda e umbanda, em certos rituais mágicos. Pimenta da África.
BEJERECUM s.m. Querino (1928) afirma que é também conhecido como pejerecum, e é
uma fava de quatro centímetros de comprimento por dez milímetros de espessura, empregada no
tempero do caruru. Houaiss (2001) aprofundou os seus estudos sobre este termo, e chegou à
conclusão de que é um condimento em forma de bagas com sementes, extraído de uma árvore de
até 7 m. chamada coajerecu, nativa da Amazõnia e das Guianas, com casca aromática, picante. É
da família das anonáceas.
EGUSSI s.m. Querino (1928) define como uma pevide 40de abóbora ou de melancia usada no
condimento de certas iguarias.
IERÊ s.m. Querino (1928) traz a informação de que é uma semente semelhante à do coentro,
e usada no tempero do caruru, do peixe e da galinha.
IRÚ s.m. segundo Querino (1928), é uma fava de um centímetro de diâmetro usada em
quantidade diminuta. Para Houaiss (2001), é simplesmente uma fava usada como condimento na
culinária afro-brasileira.
2.3. Sobre os utensílios de herança africana
A cultura africana, ao lado da cultura indígena e da cultura portuguesa, contribuiu para a
formação da civilização brasileira, principalmente no que diz respeito à preparação dos pratos e
sua apreciação – foco de estudo do presente trabalho, em se tratando apenas dos aspectos de
herança africana. E, para tanto, herdou-se dos africanos, utensílios domésticos, que, até o
presente século XXI, são utilizados para o preparo de variados pratos. Dentre os utensílios de
herança africana, são destacados: a colher de pau, a gamela de madeira, o quengo, o ralador de
coco, a tigela e o pilão mais sofisticado.
40 PEVIDE – s.f. Semente de diversos frutos carnosos; película mórbida na língua de algumas aves; massa de
farinha com a forma de pevide de melão. BUENO (1991, p. 862)
51
COLHER DE PAU s.f. é um instrumento culinário, espécie de colher usada para mexer
alimentos que se cozem, temperos, bebidas, etc.
GAMELA s.f. é uma vasilha com a forma de uma tigela ou bacia, esculpida
em madeira retirada de árvores cuja madeira é macia, um exemplo é a gameleira. Pode ser
redonda ou ovalada e é utilizada, quer na alimentação humana, como prato ou vasilha para levar
a comida à mesa, quer para dar de comer aos porcos, para banhos, lavagens e outros fins.
PILÃO s.m. é um utensílio culinário essencial na cozinha africana, com as mesmas funções
de um almofariz, ou seja, para moer alimentos, mas de tamanho muito maior. É normalmente
feito de um tronco escavado, geralmente de uma madeira macia, com dimensões que variam
entre 30 a 70 cm de altura, e utiliza-se colocando dentro o material a moer e batendo-lhe com
um pau liso de 60 cm a 1,2 m (de acordo com o tamanho do pilão), que pode ser de uma madeira
mais rija e tem uma das extremidades arredondada, e é chamado o “pau do pilão”.
QUENGO s.m. espécie de vaso com cabo, feito da metade do endocarpo do coco, e que
serve para tirar caldo da panela.
RALADOR s.m. é um utensílio culinário usado para ralar alguns alimentos, ou seja, dividi-
los em pequenos pedaços ou partículas.
TIGELA s.f. é um utensílios culinário dos mais simples e dos mais utilizados na cozinha.
Geralmente sem tampa, as tigelas são recipientes de forma aproximadamente hemisférica,
de metal, vidro, cerâmica ou plástico, que servem para separar ou misturar os alimentos a
cozinhar; e também se usam para guardar ou servir à mesa alimentos, saladas ou doces.
COLHER DE PAU GAMELA DE MADEIRA RALADOR DE CÔCO
TIGELA QUENGO PILÃO
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3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Constatou-se com esta pesquisa, que o termo gastronomia abrange tanto a definição de
culinária quanto a definição de opsofagia. Pois, a gastronomia corresponde à arte de cozinhar,
que é também delegada à culinária, e ao prazer de apreciar pratos finos, que é também o papel
da opsofagia. E a gastronomia vai além, já que se preocupa também com a forma com que os
alimentos são preparados e como são apresentados. A aparência dos pratos é fator
preponderante, pois instiga o opsófago ou gastrônomo ao prazer de apreciá-los.
Outro ponto importante que foi observado, é que os termos relativos aos condimentos e
aos pratos de refeições são pouco usados, atualmente, no dia-a-dia das pessoas ligadas à arte da
gastronomia, e que algumas palavras concernentes aos elementos de herança africana, possuem
também outro significado fora do contexto alimentar. Como exemplo, cita-se o Ierê,
correspondente também ao movimento em círculo causado pelo cruzamento de ondas, o
Quengo, que, com um sentido figurado e popular, pode significar cabeça, talento, inteligência, e
Gamela, que é um termo também atribuído a uma pequena corça.
Observou-se também, que os africanos, com suas “deliciosas” contribuições para a
gastronomia baiana, introduzindo, por exemplo, o azeite de cheiro, o camarão seco, a pimenta
malagueta, o leite de coco, dentre outros elementos, pôde tornar as refeições da Bahia mais
belas, apetitosas e apreciáveis, de acordo com o paladar do gastrônomo e de cada um em
particular.
O presente trabalho possivelmente seja relevante para os grupos ligados aos estudos e/ou à
prática da arte gastronômica, já que oferece definições que se traduzem em receitas dos pratos
pesquisados, além de revelar os nomes atribuídos a cada um deles, bem como os nomes de seus
condimentos e utensílios que contribuem para o bom preparo. Acredita-se que, alcançou-se com
esta pesquisa, além de uma satisfação pessoal, a contribuição para o vocabulário histórico da
língua portuguesa do Brasil.
REFERÊNCIAS
BORBA, Francisco S. Dicionário de usos do português do Brasil. São Paulo: Ática, 2001.
BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário escolar da língua portuguesa. 11.ed. Rio de
Janeiro: FAE, 1991.