história cultural da comunidade [...] na medida em que o léxico recorta realidades do
mundo, define, também, fatos de cultura.” (OLIVEIRA; ISQUERDO, 2001, p. 9). Os
topônimos, isto é, os nomes de lugares, guardam a história e a cultura da comunidade na
época em que foi nomeado, trazendo para o presente às marcas que foram visualizadas
pelo denominador.
É, pois, por meio dos aspectos linguísticos e extralinguísticos que o estudo
toponímico permite o conhecimento dos elementos envolvidos no ato de nomeação.
Desse modo, o levantamento e a análise do vocabulário toponímico, contido no
romance Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios, permitem estudar as
marcas dos aspectos culturais que envolvem a língua e a identidade do povo baiano. A
fim de verificar como os topônimos podem representar um “fóssil linguístico”, o
presente trabalho traz uma breve apresentação sobre o livro estudado, os recursos
teóricos e metodológicos e a análise de alguns topônimos.
2 A BAHIA SOBRE O OLHAR AMADIANO
O romance Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios é um guia que
revela as ruas, os becos, as encruzilhadas e os mistérios da cidade do Salvador da Bahia
de Todos os Santos. Jorge Amado descreve os bairros nobres e proletários, as ruas e
ladeiras, as feiras, os mercados, bem como apresenta as praias locais para uma leitora
imaginária. A imagem da Bahia construída por Jorge Amado é como a cidade da magia
com um pano de fundo místico, que soa com os atabaques do candomblé, com os
mistérios, as magias e dos contornos de Salvador e de algumas cidades do Recôncavo e
suas histórias que são verdadeiramente narradas em várias obras.
O autor, além de mostrar as belezas da cidade de Salvador, constrói a imagem da
Bahia e de seus habitantes, apresentando os costumes da população baiana: as práticas
de macumbas e os terreiros mais frequentados, as comidas típicas, as personalidades
intelectuais, os artistas, as principais igrejas e comemorações religiosas, como se pode
observar no trecho abaixo:
“Roma negra”, já disseram dela. “Mãe das cidades do Brasil”, portuguesa e
africana, cheia de histórias, lendária, maternal e valorosa. Nela se objetiva,
como na lenda de Iemanjá, a deusa negra dos mares, o complexo de Édipo.
Os baianos a amam como mãe e amante, numa ternura entre filial e sensual.
Aqui estão as grandes igrejas católicas, as basílicas, e aqui estão as grandes
macumbas, o coração da seita fetichista dos negros brasileiros. Se o arcebispo
é o primaz do Brasil, o pai Martiniano do Bonfim era uma espécie de papa
das seitas negras em todo o país. Os pais-de-santo vão bater candomblés no
Recife, no Rio, até em Porto Alegre. E seguem como bispos em viagem
pastoral. De tudo isso escorre um mistério denso sobre a cidade que toca o
coração de cada um. (AMADO, 2002, p.22)
O autor compara a cidade do Salvador a Roma, possivelmente pela importância na
história e deixa evidente o sincretismo existente na cidade e compara a importância
pastoril do pai de santo conhecido da cidade com o bispo primaz do Brasil. O mistério
permeia toda a leitura do romance embora o autor recomende à sua leitora-turista o não
desvendamento do mesmo, pois tal enigma é o que torna a cidade encantadora.
Desvendar tal conjunto de tentações e encantos seria mergulhar no universo que
ultrapassaria os mistérios de uma cidade histórica como acontece nos guias comuns de
turismos, pois desembocaria em “terrenos” que ligam corpo, alma e coração dos
baianos, como podemos observar no trecho abaixo:
Escorre o mistério sobre a cidade como um óleo. Pegajoso, todos o sentem.
De onde ele vem? Ninguém o pode localizar perfeitamente. Virá do baticum
dos candomblés nas noites de macumba? Dos feitiços pelas ruas nas manhãs
de leiteiros e padeiros? Das velas dos saveiros no cais do mercado? Dos
Capitães da Areia, aventureiros de onze anos de idade? Das inúmeras igrejas?
Dos azulejos, dos sobradões, dos negros risonhos, da gente pobre vestida de
cores variadas? De onde vem esse mistério que cerca e sombreia a cidade da
Bahia? (AMADO, 2002, p.21-22)
A obra Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios foi escrita em 1944,
mas somente foi publicado um ano mais tarde. É uma obra que apresenta as belezas e as
qualidades da capital baiana, mas que aborda também suas misérias e dores. Jorge
Amado relembra que as ruas da cidade conservam as marcas da escravidão e as mazelas
provenientes de uma falta de estruturação de políticas públicas para saúde e de moradia
que atingem a população mais pobre.
Ao longo da leitura da obra, alguns elementos parecem que permaneceram com o
passar dos anos e a imagem da Bahia que se tem hoje certamente, mesmo não sendo a
mesma que se tinha no século XIX, deixa transparecer fortes aspectos, mesmo depois de
70 anos de escritura do livro. Em outras palavras, não existe uma identidade que
descreva o povo baiano, suas culturas e anseios de forma única nem definida, pois se
trata de um processo dinâmico de construção de fronteiras entre povos, histórias e
culturas diversas.
A representação da identidade baiana mestiça, festeira, popular, cordial e com o
famoso “jeitinho brasileiro” da qual um dos criadores é Jorge Amado nada mais é que
um recorte parcial da sociedade e da história dos brasileiros nos anos quarenta do século
XX. O que Jorge Amado fez foi pontuar alguns elementos que, com tanta perspicácia,
observou a sua volta, mostrando “a força do povo”, a “atmosfera da cidade”, “as
revoluções”, os artistas, as mazelas que até hoje acompanham a cidade junto a seu
desenvolvimento. A Bahia apresentada por Jorge é a senhora da mestiçagem, da alegria,
das festas e da sensualidade que representa um conjunto de elementos pinçados dentro
de um repertório histórico e cultural, que revela a identidade expressiva dos baianos.
3 ESTUDO TOPONÍMICO: O OLHAR DE QUEM NOMEIA
A toponímia é a parte da ciência Onomástica que estuda os nomes de lugares e
acidentes geográficos, com o intuito de descobrir as motivações linguísticas e
extralinguísticas que influenciaram no ato de nomear. O estudo toponímico permite
compreender e desmitificar o olhar do denominador, a sua intenção primeira, pois o ato
de nomear não é aleatório, ele surge, muitas vezes, das inspirações humanas ao
visualizar o seu redor ou da necessidade de documentar as paisagens, as personalidades
que por ali passaram, no entanto, essa necessidade acaba aproximando o passado do
presente, principalmente a partir do estudo toponímico.
Nesta assertiva, Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick (1990, p.60) afirma
que “nome e nomeador pertencem a um só conjunto e são elementos de uma mesma
origem, unidos pelo ato de nomeação”. É possível perceber nas palavras da autora que o
homem busca nos aspectos naturais, bem como nas relevâncias históricas, culturais que
traduzem, no ato de nomear, os sentimentos, as ideologias, as crenças e outras formas de
representar as comunidades retratadas. Em relação ao aspecto motivado dos topônimos,
Dick (1990, p.18) afirma:
Muito embora o topônimo seja, em sua estrutura, uma forma de língua, ou
um significante, animado por uma substância de conteúdo, da mesma forma
que todo e qualquer outro elemento do código em questão, a funcionalidade
de seu emprego adquire uma dimensão maior, marcando-o duplamente: o que
era arbitrário, em termos de língua, transforma-se no ato do batismo de um
lugar, em essencialmente motivado, não sendo exagero afirmar ser essa uma
das principais características do topônimo.
Nomeando lugares e/ou acidentes geográficos, os topônimos resguardam a
história de um povo e desmitificam as peculiaridades capazes de revelar a identidade
sociocultural de uma comunidade a partir dos nomes.
Existem dois aspectos que contribuem para a verificação das motivações
toponímicas (Dick, 1992, p. 18): “a intencionalidade do nomeador e a origem semântica
da denominação”. A autora ainda propõe um estudo toponímico que leve em conta a
natureza motivadora, que seja desvendada pelo sentido do topônimo, muitas vezes,
opacos. Para tanto, Dick propõe as taxionomias, que buscam organizar as causas
motivadoras em diferentes taxes de cada nome de lugar ou acidente geográfico. As taxes
são subdivididas em dois grandes campos a depender da natureza: as taxionomias de
natureza física ou natural e as taxionomias de natureza antropocultural, como serão
observadas a seguir.
Taxionomias de Natureza Física
Astrotopônimos (Relativos aos corpos celestes em geral); Cardinotopônimos
(Relativos às posições geográficas em geral); Cromotopônimos (Relativos à escala
cromática); Dimensiotopônimos (Relativos às características dimensionais dos
acidentes geográficos, como extensão, comprimento, largura, etc.); Fitotopônimos
(Relativos à índole vegetal, espontânea, em sua individualidade, em conjuntos da
mesma espécie, ou de espécies diferentes); Geomorfotopônimos (Relativos às formas
topográficas e às formações litorâneas); Hidrotopônimos (Relativos aos acidentes
hidrográficos em geral); Litotopônimos (Relativos à índole mineral);
Meteorotopônimos (Relativos a fenômenos atmosféricos); Morfotopônimos
(Relativos ao sentido da forma geométrica); Zootopônimos (Relativos à índole animal,
representados por indivíduos domésticos e não domésticos e da mesma espécie em
grupos).
Taxionomias de Natureza Antropocultural
Animotopônimos ou Nootopônimos (Relativos à vida psíquica e à cultura espiritual);
Antropotopônimos (Relativos aos nomes próprios individuais); Axiotopônimos
(Relativos aos títulos e dignidades de que se fazem acompanhar os nomes próprios
individuais); Corotopônimos (Relativos aos nomes de cidades, países, estados, regiões
e continentes); Cronotopônimos (Aqueles que encerram indicadores cronológicos);
Ecotopônimos (Relativos às habitações de um modo geral); Ergotopônimos (Relativos
aos elementos da cultura material); Etnotopônimos (Relativos aos elementos étnicos,
isolados ou não); Dirrematotopônimos (Aqueles constituídos por frases ou enunciados
linguísticos); Hierotopônimos [hagiotopônimos e mitotopônimos] (Relativos aos
nomes sagrados de diferentes crenças, às efemérides religiosas, às associações
religiosas, aos locais de culto. Os hierotopônimos podem ser divididos em
hagiotopônimos, estes relativos aos nomes de santos e santas do hagiológio romano, e
os mitotopônimos, relativos às entidades mitológicas); Historiotopônimos (Relativos
aos movimentos de cunho histórico-social e aos seus membros, assim como às datas
correspondentes); Hodotopônimos ou Odotopônimos (Relativos às vias de
comunicação rural ou urbana); Numerotopônimos (Relativos aos adjetivos numerais);
Poliotopônimos (Aqueles constituídos pelos vocábulos vila, aldeia, cidade, povoação,
arraial); Sociotopônimos (Relativos às atividades profissionais, aos locais de trabalho e
aos pontos de encontro dos membros de uma comunidade); Somatotopônimos
(Aqueles empregados em relação metafórica às partes do corpo humano ou do animal
3.1 ANÁLISE TOPONÍMICA EM BAHIA DE TODOS OS SANTOS
A partir da leitura e do levantamento dos topônimos da obra em estudo, de Jorge
Amado, foram encontrados 108 topônimos referentes às ruas e bairros da cidade do
Salvados. Fez-se a identificação dos acidentes que os topônimos nomeiam; a localização
e contextualização na obra; definição da estrutura morfológica; a definição etimológica
para verificar a procedência linguística de cada topônimo; a classificação dos topônimos
em taxes, terminologia técnica proposta por Dick; pesquisa histórica/enciclopédica para
verificar a motivação do ato denominativo e registro dos topônimos em fichas
catalográficas. A seguir, apresentam-se algumas fichas preenchidas.
3.1.1 ÁGUA DOS MENINOS
TOPÔNIMO: Água dos meninos TAXIONOMIA: Hidropotônimo
MUNICÍPIO:
Salvador (Microrregião MRG 021: Salvador Mesorregião:
MESO 05: Metropolitana de Salvador)
ACIDENTE: Humano/bairro
ETIMOLOGIA: ÁGUA- do lat. aqua ‘líguido incolor, inodolor e insipido,
ENTRADA LEXICAL essencial a vida’. MENINOS- pl. de menino. De origem
ESTRUTURA desconhecida. Segundo Cunha (2007), termo de criação
MORFOLÓGICA expressiva.
HISTÓRICO/ Água dos meninos
INFORMAÇÕES
ENCICLOPÉDICAS Elemento composto (substantivo feminino singular+ contração +
substantivo masculino plural)
CONTEXTO Águas dos Meninos, Santo Antonio e Carmo faziam parte das
sesmarias concedidas por Tomé de Souza a Cristovão de Aguiar.
Segundo Alves (2008), o nome Águas dos Meninos ou Água de
Meninos tem origem no período colonial e, segundo historiadores,
em meados do século XVIII, havia nesse local um engenho de
propriedade dos padres da Companhia de Jesus que era movido
pelas águas de uma lagoa formada pela enxurrada que descia do
alto de Santo Antônio além do Carmo. Teriam sido os meninos da
catequese os primeiros a banharem-se nessas águas, daí surgindo o
nome. Outra versão dá conta de que a lagoa era formada de uma
nascente d’água que corria perto do mar [...] naquele local, os
jesuítas teriam recebido de Tomé de Souza uma sesmaria para dela
tirar o sustento dos meninos. (ALVES, 2008, p. 22)
“Encontram saveiros ainda em Água dos Meninos, em Monte
Serrat, no Porto da Lenha em Santo Antonio da Barra e no Rio
Vermelho”. (p.94)
“Incendiou-se em Água dos Meninos numa barraca de cerâmica e
depois no Mercado Modelo na Barraca Camafeu de Oxossi, o bom
homem”. (p. 204)
“E, com as máquinas de som e de filmagem, dirigimo-nos todos
para a Feira de Água dos Meninos”. (p. 262)
3.1.2 ALAGADOS
TOPÔNIMO: Alagados TAXIONOMIA: Hidrotopônimo
MUNICÍPIO:
Salvador (Microrregião MRG 021: Salvador Mesorregião:
ACIDENTE: MESO 05: Metropolitana de Salvador)
ETIMOLOGIA: Humano/bairro
ENTRADA LEXICAL ALAGADOS- Do lat. *lacale ‘converte-se em lago’, de lacus
ESTRUTURA ‘porção de água circundada por terras’ (HOUAISS, 2001)
MORFOLÓGICA Alagados
Elemento simples (adjetivo masculino plural)
O bairro de Alagados foi formado na década de 40, pela ocupação
irregular da área de borda pertencente à Marinha e à União. Sobre
o mar da Enseada dos Tainheiros, a partir da Península de
Itapagipe, parte da população carente, que não tinha condições de
arcar com as despesas de habitação da cidade de Salvador, iniciou
a construção de casas sobre palafitas fincadas no fundo do mar.
HISTÓRICO/ Cada vez que as etapas da ocupação se estabeleciam, o mar era
INFORMAÇÕES aterrado, criando-se o solo que possibilitaria a melhoria das casas e
ENCICLOPÉDICAS a substituição dos materiais provisórios pela alvenaria de tijolos.
Segundo Albinati (2010), o bairro de Alagados teve em seu
CONTEXTO processo de formação “sucessivos movimentos de ocupação
irregular e repressão policial, construção e derrubada de palafitas e
pela constante ampliação da área seca, através do aterro feito pelos
próprios moradores e, mais tarde, também pelo Estado”.
(ALBINATI, 2010, p.31)
“São os Alagados, os casarões do Pelourinho, e do Tabuão,
Plataforma, Itapegipe. (p. 89)
“Os pintores da cidade, como Jenner Augusto, inspiram-se na face
trágica dos Alagados”. (p. 91)
“Mas o pintor partiu numa asa delta para o Rio de Janeiro levando
os Alagados, Luísa e a cidade sergipana de Lagarto”. (p. 226)
3.1.3 ITAPAGIPE
TOPÔNIMO: Itapajipe TAXIONOMIA: Hidrotopônimo
MUNICÍPIO:
Salvador (Microrregião MRG 021: Salvador Mesorregião:
ACIDENTE: MESO 05: Metropolitana de Salvador)
ETIMOLOGIA: Humano/bairro
ENTRADA LEXICAL ITAPAGIPE - Do tupi-guarani itapé-jy-pe, ‘no rio da laje’.
ESTRUTURA (BUENO, 1982)
MORFOLÓGICA Itapagipe
HISTÓRICO/ Elemento simples (substantivo feminino singular)
INFORMAÇÕES
ENCICLOPÉDICAS O bairro fica localizado na Cidade Baixa. Por ficar muito distante
do centro da cidade, o bairro foi, por muito tempo, a serviço dos
CONTEXTO veraneios, vindo a transforma-se depois em bairro residencial.
“Para além da cidade baixa no contorno da baía, fica a península
de Itapagipe, bairro de pequena burguesia pobre e de proletariado
[...]” (p. 23)
“Está em bairros distantes com Cidade da Palha, São Caetano,
Itapegipe, Plataforma, Estrada da Liberdade.” (p. 87)
“São os Alagados, os casarões do Pelourinho, e do Tabuão,
Plataforma, Itapegipe”. (p.89)
“Plataforma está ligada a Itapagipe (fica defronte à península)
pelas canoas que vão e vem numa travessia que em dia de sol e
delicioso passeio”. (p. 98)
“A popular Igreja do Bomfim, na qual se realiza um espetáculo
fetichista imponente no mês de janeiro, fica na península de
Itapagipe sobre uma linda colina”. (p. 114)
“A linda Capela de Monte Serrat, na península de Itapagipe, data
do século XVII”. (p. 116)
3.1.4 PELOURINHO
TOPÔNIMO: Pelourinho TAXIONOMIA: Ergotopônimo
MUNICÍPIO:
ACIDENTE: Salvador (Microrregião MRG 021: Salvador Mesorregião:
ETIMOLOGIA: MESO 05: Metropolitana de Salvador)
ENTRADA LEXICAL Humano/Bairro
ESTRUTURA
MORFOLÓGICA PELOURINHO – Do fr. Pilori, francização do lat. medieval
pilorium, provavelmente derivado do lat. Pila ‘coluna de pedra ou
HISTÓRICO/ madeira em praça ou lugar público, e junto da qual se expunham e
INFORMAÇÕES castigavam os criminosos’. (CUNHA, 2007)
ENCICLOPÉDICAS
Pelourinho
Elemento simples (substantivo masculino e singular)
Faz parte de um conjunto arquitetônico do Centro Histórico da
cidade, representativo do Brasil Colônia. Apesar de ter
oficialmente o nome de Praça José de Alencar, o povo o ignora...
O nome pelourinho ou picota é uma coluna de pedra, ou pilastra,
erguida em meio da praça pública, símbolo do poder municipal.
Havia argolões ou correntes aos quais se prendiam criminosos,
expostos á vergonha pública. Nesse local, os escravos eram
castigados com chicotadas. A coluna esteve erguida até 7 de
setembro de1855, quando foi destruída pelos membros
abolicionistas da Sociedade Dois de Julho, com o apoio da câmara
Municipal.
CONTEXTO “Passam todos pelo Pelourinho, encruzilhada da cidade.” (p.34)
“Como chamam de outra maneira a Ladeira de Pelourinho onde
se elevava o pelourinho nos tempos passados?” (p.69)
“[...] descem pelo Pelourinho, sobem pelo Paço e pelo Carmo
[...]” (p. 73
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os topônimos, como uma testemunha das vivências de uma comunidade,
favorecem a perpetuação dos saberes do povo retratado, visto que os nomes de lugares
não servem apenas para nomear ruas, cidades, estados e outros, vão além do simples ato
de nomear, pois trazem consigo a memória culturais, social e histórica de uma
comunidade.
Essa memória pode ser retomada quando, ao analisar os topônimos Água dos
Meninos, Alagados, Itapagipe e Pelourinho, é revelada a história do povo baiano
numa dada época, marcada pelo sofrimento e dor, uma gente que ansiava por liberdade,
respeito às diferenças étnicas, religiosas, e por que não dizer linguísticas? É possível
perceber também a escolha ligada aos fatores físicos e ambientais que cercava o lugar,
mostrando o contexto da época e a formação da capital baiana.
REFERÊNCIAS
ALBINATI, Mariana. Assistir, Entrar em Cena ou Roubar a Cena? – Políticas
Culturais no Território de Alagados (Salvador-BA). / Mariana Albinati – 2010.
ALVES, Lizir Arcanjo. A cidade da Bahia no romance de Jorge Amado: dicionário
topográfico. Salvador: Casa de Palavras, 2008.
AMADO, JORGE. Bahia de todos os santos: guia de ruas e mistérios. 42. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2002.
BUENO, Silveira. Vocabulário tupi-guarani português. 5. ed. São Paulo: Brasilivros, 1982.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa.Assistentes
Cláudio Mello Sobrinho... [et al.]. 3. ed. 2. imp. Rio de Janeiro: Lexicon Editora Digital, 2007.
DICK, Maria Vicentina de Paula do Amaral. A Motivação toponímica e a realidade
brasileira. São Paulo: Arquivo do Estado, 1990.
______. Toponímia e antroponímia no Brasil. Coletânea de estudos. 3. ed. São Paulo:
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – USP, 1992.
HOUAISS, Antônio; VILLAR , Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
OLIVEIRA, Ana Maria Pinto Pires de; ISQUERDO, Aparecida Negri (Org). As ciências do
léxico: lexicologia, lexicografia, terminologia. 2. ed. Campo Grande: Ed. UFMT, 2001.
A REPRESENTAÇÃO CULTURAL E IDENTITÁRIA
NO LIVRO: JORNADAS.PORT
Por: Carla Eliana da Silva Tanan1
INTRODUÇÃO
O interesse por desenvolver esse estudo surgiu a partir de reflexões a respeito de como
o livro didático está presente na vida dos alunos principalmente das escolas públicas, atuando
como um dispositivo de representação cultural e identitária.
O livro em estudo é o jornadas.port, das autoras Dileta Delmanto e Laíz B. de Carvalho,
ambas com formação em Língua Portuguesa, o livro faz parte do Programa Nacional do Livro
Didático (PNLD) e será adotado nas escolas por três anos tendo inicio no ano
2014 com término ao final de 2016.
A escolha deste livro ocorreu por ser adotado nas escolas públicas da cidade de
Itaberaba-Ba, local em que realizei a coleta de dados da pesquisa de mestrado que se encontra
em desenvolvimento intitulada “Práticas sociais de escrita de sujeitos da área rural e urbana
da cidade de Itaberaba-Ba”. Ao visitar as escolas e conhecer o livro didático adotado nas
turmas do nono ano, surgiu o desejo e a inquietação por analisar como e de qual maneira o
livro didático contempla os aspectos relacionados a cultura e a identidade dos estudantes.
Considerando que o livro didático faz parte do processo de aprendizagem do estudante
durante todo o ano letivo, e atua como um dos dispositivos ideológicos que fazem parte do
ambiente escolar se tornando um instrumento que perpassa representações culturais e
identitárias.
Nesse sentido, é necessário que o livro didático represente não só uma identidade, mas
as múltiplas identidades existentes no espaço escolar. Sabemos que, esse não é o objetivo
principal do livro didático de língua portuguesa, no entanto, nosso olhar estará voltado para
observar e analisar como ocorre a representação identitária, tomando como ponto de partida a
representação das três etnias da formação do povo brasileiro (índio, branco, e o negro). Bem
1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem, vinculada a linha de
pesquisa: Linguagens, Discurso e Sociedade.E-mail:[email protected].
como, para as representações culturais que constituem o modo de vida, as crenças e as
práticas desenvolvidas de acordo com a diversidade cultural existente em nosso país.
Nesse artigo, tem-se por objetivo analisar as representações de identidade e cultura que
são contempladas no livro didático jornadas.port. Tendo em vista, que o livro didático é um
instrumento de ensino e aprendizagem presente no cotidiano dos alunos, e mesmo que seja
indiretamente perpassa as ideologias de um determinado grupo social, bem como, a
representação deste grupo dominante.
Para a realização desse estudo buscamos a fundamentação teórica que contempla os
temas abordados identidade, cultura, livro didático e ensino. Concomitante, com o estudo
teórico realizamos a análise do livro didático, bem como a seleção dos textos que serão
analisados neste artigo. A seleção ocorreu tendo como critério a representação de identidade e
cultura apresentadas nos textos.
O artigo se divide em três sessões a primeira aborda concepções teóricas a respeito do
que é cultura, o segundo a respeito da identidade, apesar de considerarmos que cultura e
identidade estão intrinsecamente relacionadas realizamos essa opção de divisão de sessões, e
o terceiro realiza análise dos textos selecionados do livro didático jornadas.port.
estabelecendo um diálogo com os autores que abordam a tema em estudo.
1 Representação cultural
A cultura está presente na dinâmica da sociedade através dos diálogos e interações
estabelecidos nos diversos contextos sociais, Oliveira A.P (2008, p.2) apud Byram (1997)
“Cultura compreendida em termos de comunicação intercultural, isto é, a habilidade e a
capacidade de entrar em uma outra cultura e comunicar eficazmente e apropriadamente. A
cultura é vista como um processo”. Portanto, não é um conjunto fechado, mas um processo
que se constitui através da interação que cada individuo desenvolve através da sua
participação na sociedade relacionando-se com as diferentes culturas.
Interagimos cotidianamente com diversas culturas para que essa interação ocorra torna-
se necessário que o individuo seja capaz de desempenhar diferentes papeis nas diversas
situações sociais e culturais. De acordo com Oliveira I.B (2000, p. 12) é preciso “mas do que
encarar, compreender o diálogo entre múltiplas culturas que coexistem/convivem nos espaços
tempos
sociais, que inclui obviamente, os escolares como possibilidade real de tessitura do
conhecimento”. Portanto, o contexto escolar é um lugar de interação e produção do
conhecimento cultural.
O contexto da sala de aula nos coloca diante de uma grande diversidade cultural que
precisa ser compreendida e representada, a partir das práticas desenvolvidas nesse espaço.
Nesse sentido, Laraia chama à atenção para a importância da formação que contempla o
conhecer e o compreender das diversas culturas.
“é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre povos
de culturas diferentes, é necessário entender as diferenças que ocorrem dentro
do mesmo sistema. Este é o único procedimento que prepara o homem para
enfrentar serenamente este contraste e admirável mundo por vir.”
LARAIA (1997, p.105).
A partir desta afirmação torna-se clara a importância de uma formação que contempla o
conhecimento e a capacidade do individuo interagir com os diversos movimentos culturais,
pois só assim ele estará preparado para desenvolver-se na sociedade. Para que essa formação
aconteça, a escola tem a sua parcela de responsabilidade e contribuição a ser dada na
formação dos indivíduos que frequentam o espaço da sala de aula.
Sendo assim, a escola e os instrumentos utilizados no processo de aprendizagem se
tornam responsáveis pela formação e a construção do conhecimento para dialogar com a
sociedade, suas diferenças e semelhanças que são constituídas a partir das culturas que fazem
parte da vida de cada sujeito e da sociedade.
Nesse sentido, o livro didático é um instrumento utilizado no espaço escolar, visando a
formação dos indivíduos, portanto, é preciso que contemple as manifestações culturais que
fazem parte de diferentes contextos sociais, estabelecendo um diálogo entre as múltiplas
culturas.
Tendo em vista que, a escola é o lugar da heterogeneidade o livro didático não pode
nem deve ser o lugar da homogeneidade. Visto que, é necessário desenvolver uma prática de
ensino aprendizagem significativa, tanto para o aluno, como para o professor, deixando claro
o porquê e o para que, está sendo estudado. Para tanto, é preciso dar desenvolver uma prática
de ensino que contempla a diversidade cultural nos diversos instrumentos de ensino e
aprendizagem.
2 Representação identitária
Neste trabalho abordamos o conceito de identidade diretamente relacionado a
constituição da identidade no contexto escolar, tendo em vista que o objeto de análise é o livro
didático que contribui para a constituição da identidade no espaço da sala de aula.
De acordo com Lopes (2006, p.311) diz que: “As identidades sociais construídas na
escola podem desempenhar um papel importante na vida dos indivíduos quando depararem
com outras práticas discursivas nas quais suas identidades são re-experienciadas e
reposicionadas”. Portanto, a construção da identidade no espaço escolar é de suma
importância para sua vida social dos estudantes, além disso, sabemos que pelo fato da escola
deter do discurso do conhecimento ela exerce influência direta na construção das identidades.
Nessa perspectiva, a construção da identidade ocorre através da interação das
adaptações e adequações, Rajagapolan (2003, p.71) “Em qualquer momento dado, as
identidades estão sendo adaptadas e adequadas as novas circunstâncias que vão surgindo. A
única forma de definir uma identidade é em oposição a outras identidades em jogo”. Portanto,
as identidades se constituem pela fragmentação através do jogo entre o que lhe representa e o
que não lhe representa.
No que tange a autonomia do individuo na sociedade Baumam (2001, p. 50) afirma
que: “não há uma sociedade autônoma, e a autonomia da sociedade requer uma
autoconstituição deliberada e perpétua, algo que só pode ser uma realização compartilhada de
seus membros”.
Nessa perspectiva quando o livro didático representa apenas uma identidade ele está
colocando todas as outras em contraposição, e quando essa contraposição é feita a partir de
estereótipos e silenciamentos há de se pensar. Que tipo de representação está sendo realizada?
Esta atendendo aos interesses de quem? Pensando em questões como essas que realizamos
esse estudo, atentando-se para a representação identitária que é realizada através do livro
didático jornadas.port, e sua relação com o contexto da sala de aula.
3 Análise livro didático: jornadas. Port
A literatura didática no Brasil começa com as cartas manuscritas,
que eram levadas às salas de aula pelos professores e pais de alunos.
Por meio das cartinhas, mais tarde cartilhas, os alunos aprendiam a
ler e escrever; aprendiam também noções de catecismo.
J.B Oliveira, 1984
O livro didático ganhou espaço no contexto escolar a partir da segunda metade do século XX
como aponta J.B Oliveira (1984, p. 23) “A abertura e proliferação das escolas no Brasil são
identificadas como elemento propulsor da literatura didática nacional”. A partir da abertura
das escolas e da oferta do ensino para as classes que até então não tinham acesso à escola, o
livro didático passa a ganhar maior espaço no cenário educacional brasileiro.
Desde então, muito tem sido pensado em torno do livro didático, no entanto percebemos que
em alguns aspectos como representação cultural e identitária e a abordagem sobre o ensino da
língua materna, ainda tem sido insipiente, necessitando de grandes avanços como aponta
d’Ávila.
“sem dúvida é gritante o distanciamento entre o conteúdo do manual didático
escolar e realidade vivida por estudantes excetuando-se as regiões Sul e
Sudeste.(...). Isso não implica que o ensino deve circunscrever-se do mundo
particular dos estudantes de cada canto do país; implica, sim respeito às
raízes socioculturais, aos valores, a linguagem, ao modus vivendi, enfim, das
pessoas que fazem uso desse material e que não se veem representadas nele.”
D’ÁVILA ( 2008, p. 101)
Nesse sentido, consideramos não ser possível um livro didático que represente as
particularidades de cada região do Brasil, no entanto, percebemos que ocorre uma
representação hegemônica, que não contempla a diversidade cultural e identitária do povo
brasileiro.
O livro didático não é pensado para uma totalidade que se constitui a partir da diversidade,
mas é pensado e elaborado a partir de um lugar e constituído de uma ideologia dominante que
instaura uma representação que não condiz com a realidade, Faria (1994, p. 76) “o livro
didático é feito para a pequena burguesia “assumir” a ideologia burguesa, para que depois
continuando seus estudos, ela possa ir adquirindo mais conhecimentos”.
Podemos perceber o quanto é destoante a representação cultural e identitária no livro didático
pela sua capa. Conforme podemos observar abaixo, a imagem retirada da cena de um
espetáculo do grupo suíço mummenschanz, consagrado pela versatilidade e criatividade
comédia de mistura teatro de fantoches e circo.
Pensando que o livro é para escolas brasileiras e temos um país tão rico em sua
diversidade cultural, acreditamos não ser necessário buscar uma representação de cultura na
Suíça, para ilustrar a capa de um livro didático brasileiro.
Outro aspecto que chama atenção, é que o livro didático centra sua representação étnica
vinculada a um modelo europeu, como podemos observar ao longo das imagens e dos textos
apresentados no livro, que possui muitas ilustrações ao longo de suas trezentas e dezessete
páginas a imagem do negro aparece apenas quatro vezes..
Esta imagem apresentada na
página.138. Deixa clara a condição
em que o negro é representado no
livro didático, não que se tenha
algo contra a dança de rua o hip-
hop, entendemos sim que é uma
manifestação cultural, no entanto,
o que está em jogo, é o fato de
colocar apenas esse tipo de
representação a respeito do negro,
o negro ocupa outros espaços e papeis sociais. Pois, ao trazer um noticia sobre Pelé
considerado o rei do futebol, ocorre o inverso a imagem de um branco, para representar Pelé
que é negro.
Fica claro, o jogo de interesses em colocar o branco no lugar de prestigio e o negro em
condições desfavorecidas. Pois, quando é para representar alguém que ocupa um lugar social
reconhecido como de poder, a imagem que aparece é de um branco, mesmo essa pessoa sendo
negra.
É preciso pensar nas identidades que constituem o espaço escolar e como elas estão sendo
contempladas nesse espaço. Nesse sentido, Kleiman afirma que:
“No campo da educação, questões relativas a identidade tem sido tratadas sob
a perspectiva de intervenção para a resolução de problemas estruturais em
sociedades cuja dinâmica de relações sociais coloca em risco a preservação
da identidade de minorias, sejam elas étnicas ou de grupos de baixa renda”.
KLEIMAN ( 2006, p. 268)
Portanto, a identidade de muitos alunos encontra-se em jogo, visto que é uma minoria que se
torna maioria diante do público alvo das escolas públicas, pois ao não ser contemplado nesse
espaço, é colocado no lugar do silenciamento e da invisibilidade. Pois, muitas vezes os alunos
estão inseridos no contexto da sala de aula, mas suas histórias e vivencias são esquecidas,
visto que suas marcas identitárias não são contempladas nesse espaço.
Ao nos depararmos com essas representações apresentadas, percebemos que está sendo
construída uma representação de identidade e cultura de lugares hegemônicos, é possível
perceber esse fato através da representação cultural que fica centrada na região sudeste
principalmente no Rio de Janeiro.
Como podemos notar nas
páginas. 118 e 119 nas imagens e
texto sobre o carnaval. Tanto na
imagem como no texto a
representação de carnaval que esta
presente é a do Rio de Janeiro essa
representação centralizada no
carnaval do Rio de Janeiro, que se
inicia na página cento e quatorze e
a vai até a página cento e vinte e
cinco, todos os textos que
aparecem durante a sessão sobre o carnaval, a representação está centralizada no carnaval do
Rio de Janeiro.
Diante dessa centralização, fica clara a monopolização em torno de um único lugar
social, não contemplando todas as outras possibilidades de Carnaval, existentes no nosso país.
Nesse sentido Bhabha ( p. 117) diz que:
“o estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de
uma dada realidade. É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de
representação que, ao negar o jogo da diferença (que a negação através do
Outro permite), constitui um problema para a representação do sujeito em
significações de relações psíquicas”.
BHABHA (2010, p. 117).
Percebemos essa fixidez apontada por Bhabha ao analisarmos o livro didático e
perceber o quanto está preso a um modelo sobre o que é identidade e cultura. Demonstrando
claramente o quanto estão sendo negadas outras possibilidades de manifestações culturais e
identidades que poderiam ser contempladas, no entanto, foram deixadas no lugar do
silenciamento, como a imagem do índio que é colocada no lugar do silenciamento, não
aparece em nenhum momento sendo retratada sua cultura e identidade.
É notório, que o livro didático atua uma ferramenta na disseminação de conceitos e
preconceitos, estabelecendo lugares sociais, nesse caso o negro e o índio estão ocupando o
lugar do sujeito estereotipado e silenciado socialmente. Visto que, o índio não aparece em
nenhum momento e o negro aparece apenas de maneira estereotipada.
Pensar no processo de aprendizagem é também pensar como se sentirá o aluno negro ou
indígena ao estudar com um livro que não o representa etnicamente e culturalmente, como o
aprendizado irá produzir significado e não silenciamento na sua formação como cidadão.
Outro aspecto que vale ressaltar é o da idealização de um corpo a ser seguido, não por
uma questão de saúde, mas sim por uma questão de beleza que é pregada à todo momento na
sociedade. Observamos que o único momento que aprece a representação de um corpo que
não se encaixa nesse modelo do “magro e belo” é para abordar um assunto relacionado a
doença, como observado nas páginas 62 e 63.
Essa utilização não se justifica sequer por ser um texto relacionado a hábitos
alimentares, no entanto, o que temos claramente é o uso da imagem de quem esta fora de um
ideal de beleza, para tratar sobre doença, logo ocorrendo a associação quem não tem o corpo
“magro belo” esta doente, não é saudável.
O individuo da sociedade moderna, cada vez mais se torna um ser de pouca autonomia
e representatividade, nesse sentido Bauman ( 2001, p.50) afirma que: “o ser humano se torna
individuo de facto ao tornar-se cidadão”. A escola está imbuída diretamente nesse papel de
tornar o individuo cidadão participante da sociedade, portanto torná-lo um individuo de fato
capaz de interagir com as diversas culturas e identidades.
O espaço da sala de aula não deve ser o lugar do silenciamento de culturas e
identidades, mas o lugar de evidenciar todas as manifestações culturais e representação
identitária. Nesse sentido, Lopes (2006, p. 320) afirma que “as identidades sociais não estão
nos indivíduos, mas são construídas nas interações com as pessoas”. Portanto, podemos
considerar que não só
a interação com as pessoas, mas também os textos que circulam no contexto da sala de aula,
sendo assim, o livro didático têm a sua parcela de contribuição.
Vale ressaltar que, o professor exerce papel fundamental no processo de ensino
aprendizagem, bem como no processo para tornar um sujeito crítico, nesse sentido Faria
(1994, p.82), diz que precisamos de “um professor que perceba o contraste entre o conteúdo
do livro e a vivência das crianças”. Portanto, o professor se torna uma peça importante entre
reproduzir ou transcender o que esta no livro didático, cabe à este último o papel de não tornar
o sujeito um mero reprodutor de discursos excludentes.
Considerações finais
O livro didático esta presente diariamente na vida dos estudantes, sendo que muitas
vezes não há uma maior reflexão a respeito das ideologias, discursos, e representações que
são disseminados e perpassados através dele.
Muito se tem dito sobre o papel da escola na busca por formar cidadãos críticos, no
entanto, que criticidade estará sendo desenvolvida diante de um material didático que prega
uma homogeneidade construída ideologicamente de um lugar de prestigio em que poucos são
representados.
É claro, que o livro didático não é o único instrumento na formação do conhecimento
dos estudantes, o professor também tem a sua contribuição em muito pode contribuir, através
de uma prática docente crítica. No entanto, nada nos garante que estes profissionais não
comungaram do discurso pregado pelo livro didático, e ao menos buscará desenvolver outras
possibilidades e outros olhares a respeito da cultura e das identidades dos estudantes presente
no contexto escolar.
Diante da discussão realizada, podemos perceber que muitos caminhos ainda precisam
ser trilhados para que o livro didático contribua efetivamente para a formação de cidadãos
críticos que se relacionam com as diversas culturas e identidade.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zigmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor LTDA, 2001.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
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1989.
LOPES, Luiz Paulo da Moita. Discursos de identidade em sala de aula de leitura de L1: a
construção da diferença. In: SIGNORINI, Inês (org). Lingua(gem) e identidade: elementos
para uma discussão no campo aplicado. São Paulo: Mercado de Letras, 1998.
KLEIMAN, Angela B. A construção de identidades em sala de aula: um enfoque
interacional. In: SIGNORINI, Inês (org). Lingua(gem) e identidade: elementos para uma
discussão no campo aplicado. São Paulo: Mercado de Letras, 1998.
D’ÁVILA, Cristina. Decifra-me ou te devorarei: o que pode o professor frente ao livro
didático?. Salvador: EDUNEB; EDUFBA, 2008.
FARIA, Ana Lucia G. de. Ideologia no livro didático. 11ed. São Paulo: Cortez, 1994.
(coleções questões da nossa época).
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito Antropológico. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar editor LTDA, 1997.
RAJAGAPOLAN, Kanavillil. Por uma linguística critica: linguagem, identidade e a
questão ética. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
SILVA, Rafael Moreira da. Textos didáticos: crítica e expectativa. São Paulo: Alínea, 2000.
MENDES, Edleise. CASTRO, Souza Maria Lúcia (Org). Saberes em Português: Ensino e
formação docente. São Paulo: Pontes, 2008.
OLIVEIRA, Inês Barbosa. SGARB, Paulo (orgs). Redes culturais diversidade e educação.
Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
OLIVEIRA, João Batista Araújo; BOMENY, Helena Maria Bousquet; GUIMARÃES, Sonia
Dantas Pinto. A política do livro didático. São Paulo: Summus, 1984.
OLIVEIRA, Adelaide P. de. O conceito de cultura e a identidade do falante de L2.
In: MAGALHÃES, José Sueli de; TRAVAGLIA, Luiz Carlos (orgs). Múltiplas
perspectivas em Linguística. Uberlândia: EDUFU, 2008.
A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA ENTRE LÍDERES NEGRAS EM SALVADOR
Janete Fernandes Suzart16
Norma da Silva Lopes17
O texto ora apresentado é parte de uma pesquisa de mestrado em
desenvolvimento, com o objetivo de investigar a variação na utilização de marcas da
concordância nominal de número em oito mulheres negras baianas que atuam em
comunidades como representantes do seu grupo. Os estudos estão fundamentados na
teoria da sociolinguística variacionista, a qual elege como seu objeto as relações entre
língua e sociedade. Essa teoria parte do princípio de que existe uma conexão entre o uso
linguístico e a estrutura social da comunidade que utiliza a variedade linguística.
Segundo os estudos sociolinguísticos, as variedades linguísticas relacionam-se a fatores
externos que têm a ver com a identidade dos falantes como o grau de escolaridade, a
idade, o sexo, a classe social, e com dados do contexto social e comunicativo.
O fenômeno observado: a variável estudada comporta duas variantes no
português, a realização com marca de plural –S e a variante ø (sem o –S), a exemplo de:
(i) Deus estando no comando, está sempre provendo AS COISAS, né? (ensino médio,
Faixa etária 1 - FE 1)
(ii) Era SEIS BOLO na mão, quando a coisa era grave (ensino médio, FE 1)
A pesquisa sociolinguística variacionista controla o efeito de variáveis
linguísticas e sociais sobre a variação estudada e a pesquisa de que esse texto emerge,
além desse tipo de observação, explora a avaliação da escola e do mercado de trabalho
no que diz respeito à escolha das variantes. Refletimos sobre a escola como a instituição
responsável em qualificar a força de trabalho, por integrar o indivíduo no sistema
produtivo e, em relação à mulher negra, a escola reitera e transmite o sistema ideológico
de uma sociedade excludente. Lopes (2001) afirma que o estigma social que as variantes
sofrem concorre grandemente para que o efeito da escolarização seja mais ou menos
garantido. Aquelas variedades mais estigmatizadas são priorizadas pelo trabalho dos
16 Mestranda do PPGEL/UNEB
17 Professora permanente do PPGEL/UNEB
professores, que têm como papel preservar a forma padrão e impedir a mudança, ou
seja, a generalização da variante desvalorizada. Neste texto, parte da pesquisa em
andamento, analisam-se questões relativas a diferenças entre os informantes do gênero
feminino, líderes de suas comunidades em periferias de Salvador, e a realização de
marcas de plural, conhecida como a concordância nominal de número.
O aporte teórico-metodológico da sociolinguística considera a dimensão histórica:
o processo de investigação se inicia no presente, volta-se ao passado para se fazer o
encaixe histórico das variantes e retorna-se ao presente para o fechamento do ciclo da
análise. Nesse sentido, é de suma importância, uma reflexão sobre a aquisição da língua
portuguesa no Brasil.
Lopes (2001) defende a hipótese de que a variação da concordância no sintagma
nominal do português brasileiro tem como explicação o tipo de aquisição da língua
portuguesa pelos negros e pelos índios, no processo de colonização no Brasil. Ainda
segundo a autora, na fase de aquisição da língua, as características dos dados a que se
tem acesso são de fundamental importância para a definição do produto final a ser
adquirido. Para ela, a aquisição da língua em condições especiais de movimentação
populacional dão origem a processos de formação de línguas de emergência , tipo
pidgin, e posteriormente, crioulos e também de dialetos, que se distanciam da língua
inicial, como resultado de situação semelhante, embora menos radical, em processo de
nativização Pode-se afirmar que há uma estreita relação entre a variação da
concordância e a história de aquisição do português brasileiro.
Lopes (2001) afirma que embora não se trate da existência de uma base crioula
no português brasileiro, a aquisição da língua com dados com muita diversidade e
divergência tem relevância diante da história de aprendizagem da língua na cidade do
Salvador, cuja população foi resultado da mistura de três raças, que se relacionaram
entre si, durante séculos, por um processo escravocrata.
O processo histórico da aquisição da língua pode explicar as variedades faladas
pelos negros escravizados que aprenderam a língua portuguesa como segunda língua,
repleta de diversidades pela influência de diversas línguas. Segundo Lucchesi (2003),
a língua foi aprendida de forma simplificada em decorrência do processo de
transmissão linguística irregular.
O corpus utilizado nesta pesquisa em andamento, para investigar a variação da
concordância nominal de número, e a influência dos fatores sociais, é composto por
entrevistas de oito mulheres negras, com faixa etária entre 40 anos e mais de 50 anos,
com escolaridade de ensino fundamental e ensino médio, moradoras de bairros
periféricos de Salvador. A única variável selecionada até a fase atual do estudo foi o
condicionamento individual, relacionado às experiências individuais. A pesquisa
carece, portanto aprofundar os estudos sobre a relação da concordância nominal de
número entre essas mulheres e outras variáveis, inclusive o mercado ocupacional, o que
será feito nas próximas etapas do trabalho.
A seguir, os resultados das análises realizadas até o momento.
Tabela 1: Perfil das Informantes e pesos relativos de concordância (PR)
Inf Atividade escolaridade PR
1 Dona de casa, líder religiosa Média .40
2 Representante nacional de classse fundamental .70
(emp. Domésticas)
3 Administração de centro comercial Média .52
de periferia
4 Professora Média .89
5 Funcionária da construção civil fundamental .17
6 Funcionária da construção civil fundamental .10
7 Empregada doméstica fundamental .39
8 Funcionária pública – área da saúde Média .44
É importante salientar que, nessa pesquisa, o fator escolaridade não se mostra
diretamente a mais ou menos concordância entre as mulheres, a influência do tipo de
ocupação parece ter tido um efeito mais consistente na frequência de uso da variante
privilegiada (com o –S de concordância), do que a escolaridade: apresentam maior
frequência as mulheres que desempenham funções ou ocupações que se relacionam a
experiências de vida que exigem maior envolvimento com o padrão da norma culta da
língua. Em outras palavras, o mercado ocupacional exige maior ou menor uso do padrão
de prestígio.
A observação da tabela 1 indica que os pesos relativos de concordância,
apresentados por informante, demonstram uma relação estreita entre mais possibilidade
de concordância e ocupações que levem a maior necessidade da variedade padrão do
português. As profissões que demonstram exigir menos o uso padrão são as
relacionadas a construção civil e empregada doméstica, em que basicamente o trabalho
executado, mas não necessariamente a fala, são cobrados.Os falantes que fazem mais
uso das marcas de plural são a representante da classe das empregadas domésticas e a
professora, cujas funções sociais exigem delas a fala próxima do padrão. As viagens a
que a representante de classe faz, para cumprir obrigações do seu papel social, apesar de
pouca escolaridade, fazem dela um usuário da língua equiparável a pessoas de mais
escolaridade. Dessa forma, pode-se concluir que a variável pela alta realização da
concordância não parece ser a escolaridade, mas a sua ocupação na sociedade: a
informante 4 que apresenta 91% de frequência e peso relativo de .89, é professora do
ensino básico, o que exige dela um maior envolvimento com a língua padrão culta. A
informante 2 que apresenta a segunda frequência de concordância tem ensino
fundamental, porém as experiências de vida, como representante de uma categoria
profissional o que a obriga a viagens constantes e participações frequentes em
seminários, conferências inclusive internacionais, faz com ela tenha se aproxime mais
com a língua padrão. Salienta-se o caso da informante 8 que possui ensino médio,
cursando um curso superior e apresenta uma frequência de 44% e peso relativo .44,
menor que a informante 2 que possui apenas ensino fundamental, a informante passou
anos trabalhando na área de saúde, o que não exigia dela um envolvimento maior com a
língua padrão, apesar de viajar bastante e participar de encontros, congressos,
conferências internacionais, como representante de movimentos de mulheres negras. As
informantes 5 e 6 são trabalhadoras da construção civil, com ensino fundamental e com
menor envolvimento com a língua padrão, o que não é exigência para sua ocupação.
De acordo com Bourdieu(1998), assim como no sistema capitalista existe um
mercado no universo social, que regula e estrutura a circulação, o valor e a troca de bens
materiais, há um mercado linguístico que impõe regras e orienta, a troca de bens
simbólicos, entre eles a língua. Nesse mercado, a competência linguística funciona
como capital, que se constitui capacidade de produção socialmente classificada, e, ao
mesmo tempo, configura capacidade de apropriação e apreciação que, por sua vez,
define mercados eles mesmos socialmente classificados. É a relação entre essas
competências que contribui para determinar a lei de formação de preços e não é apenas
o confronto entre essas competências, mas também toda uma estrutura social que se faz
presente nessa interação. A competência linguística de uma variação dominante
funciona como capital linguístico, cujo valor nos mercados linguísticos, garante aos
falantes uma posição privilegiada, sobre os falantes de outras variações linguísticas, e se
impõe nos mercados linguísticos, mercado escolar, social, administrativo, como
legítimo.
As variações linguísticas recebem valores diferenciados no mercado linguístico,
esses valores dependem do lugar social do falante, de suas condições de produção
linguística, para que tenham direito á palavra. São essas condições de produção que
determinam quem detém a linguagem autorizada, legitimada pelos mercados
linguísticos institucionalizados, esses mercados transformam a competência linguística
em capital linguístico, e atribui a ele e aos seus produtos, lucros simbólicos e materiais,
concedendo pleno acesso aos bens culturais e aos privilégios.
De acordo com Lopes (2001) o nível de escolarização pode ser um dado
favorecedor da variação ou mudança linguística. Os estudos já realizados mostram que,
em casos de mudanças, os falantes mais escolarizados privilegiam a forma socialmente
mais valorizada. A escolaridade apesar de não ter sido selecionada nesse estudo,
apresenta uma frequência de 67% de concordância para as informantes de ensino médio
e 44% para as informantes do ensino fundamental, as mulheres com escolaridade de
ensino médio fazem mais concordância do que as mulheres que tem ensino
fundamental. Esse fato comprova a teoria de Labov, segundo Silva e Paiva (1996) nos
estudos das variações fonológicas.
A pesquisa, avaliando o efeito das diferenças de idade na realização de marcas de
plural no Sintagma Nominal, considerou que essa variável (idade) não interfere no
fenômeno estudado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Até os estudos desenvolvidos com a pesquisa apresentada, pode-se considerar
que:
- A escola tem papel fundamental em preservar a forma padrão culta da língua e
impedir a mudança, combatendo a variante desvalorizada;
- Com a única variável selecionada até a atual fase da pesquisa, condicionamento
individual relacionado às experiências individuais, considera-se que esse grupo de
fatores tem grande efeito sobre a escolha da variante padrão e usam mais marcas de
plural as mulheres que desempenham funções ou ocupações que se relacionam a
experiências de vida que exigem maior envolvimento com o padrão da norma culta da
língua. O mercado ocupacional, como se discutiu, exige maior ou menor uso do padrão
de prestígio.
- As variantes linguísticas recebem valores diferenciados no mercado linguístico,
esses valores dependem do lugar social do falante, de suas condições de produção
linguística, para que tenham direito à palavra. Os falantes de variantes estigmatizadas
encontram-se vulneráveis no mercado linguístico.
- O nível de escolarização pode ser um dado favorecedor dos usos prestigiados, e
as falantes com mais escolaridade observadas nesta pesquisa privilegiam a forma
socialmente mais valorizada.
- Nessa pesquisa a variável idade não interfere no fenômeno estudado.
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. A Economia das trocas linguísticas. In: ORTIZ, R. (org.)
Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
BOURDIEU, Pierre. Aeconomia das trocas linguísticas. O que falar quer dizer. In:
MICELI, Sérgio. (org.). 2 ed.São Paulo: Editora USP, 2008.
LOPES, Norma da Silva. Concordância nominal, contexto linguístico e sociedade.
2001. Tese (Doutoramento) – Universidade Federal da Bahia, Salvador.
LUCCHESI, Dante. O conceito de transmissão linguística irregular e o processo de
formação do português do Brasil, In: RONCARATI, C.; ABRAÇADO, J. (org.).
Português brasileiro: contato linguístico, heterogeneidade e história. Rio de Janeiro: 7
letras, 2003.
SILVA, G.M.O.; PAIVA, M. C. A. Visão de conjunto das variáveis sociais. In:
SILVA,G.M.O.; SCHERRE, M.M.P, (org.). Padrões Sociolinguísticos: Análise de
fenômenos variáveis do português falado na cidade do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro:Tempo Brasileiro, 1996, 335-378.
ALGUNS TRAÇOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BAIANA NO SÉCULO
XVIII: EDIÇÃO E ESTUDO DA ARGUMENTAÇÃO DE UMA CARTA DO
SENADO A SUA MAGESTADE
Alan da Hora Silva18
Gilberto Nazareno Telles Sobral19
“É de fato ao auditório que cabe o papel principal para determinar a
qualidade da argumentação e o comportamento dos oradores.”
Perelman e Tyteca
INTRODUÇÃO
Este trabalho vincula-se a pesquisa, em andamento, denominada “O gênero
epistolar no século XVIII: Estudo da Argumentação em Cartas do Senado a Sua
Magestade”, realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens
(PPGEL/UNEB). O corpus analisado neste trabalho faz parte da compilação de cartas
que estão sendo editadas e analisadas a fim de dispor o material para a dissertação final.
Nesta pesquisa, pretende-se realizar uma reflexão sobre alguns traços da
administração baiana no século XVIII, através de uma carta do Arquivo Histórico.
Trata-se de um documento oficial do Senado da Câmara a Sua Majestade, o Rei D. João
V. O estudo de sua materialidade linguística será realizado com base nos pressupostos
teóricos da Nova Retórica de Chaim Perelman e Lúcie Olbrechts-Tyteca, enquanto que
sua edição pelos estudos da Crítica Textual.
É sabido que os documentos históricos nos permitem entender um pouco mais
sobre o processo de formação de uma sociedade, sobre sua cultura e sua língua em
diferentes épocas. Apesar do documento em questão dizer respeito a prática de extração
18 Licenciado em Letras com Língua espanhola pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É
aluno do Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens (PPGEL – UNEB). E-mail:
[email protected]. Autor.
19 Doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia. Professor Adjunto da Universidade do
Estado da Bahia. Professor e coordenador do programa de Pós-Graduação em Estudos de
Linguagens/UNEB. Pesquisador do grupo Edição e Estudo de Textos (Diretório dos grupos de pesquisa –
CNPQ). E-mail: [email protected]. Orientador.
do minério de ouro, na Bahia do século XVIII, é possível observar como pano de fundo
a relação estabelecida entre a Colônia e a Metrópole e seu modus operandi.
SOBRE A EDIÇÃO DE TEXTOS
A preparação de textos para edição, exame dos mais variados aspectos, como o
linguístico, crítico-textual, sócio-histórico, são algumas das tarefas exercidas pelos
filólogos, cuja origem remonta para mais de dois mil anos, iniciada pelos bibliotecários
alexandrinos.
Em seu trabalho, no Museu Serapeum, próximo a biblioteca, esses eruditos se
deparavam com textos com problemas de legibilidade, autenticidade e de conservação.
Com a finalidade de resgatar sua materialidade, sábios como Zenódoto de Éfeso (280 a.
C.), Eratóstenes de Cirene (236 a. C.) e Aristófanes de Bizântio (195 a. C.) se
incumbiram a essa tarefa, a citar, os célebres trabalhos de edição crítica dos poemas
épicos homéricos. Nas palavras de Spina (1994):
… o labor desses eruditos consistiu em catalogar as obras, revê-las, emendá-
las, comentá-las, provê-las de sumários e de apostilas ou anotações
(escólios), de índices e glossários (indicações marginais sobre as variantes
das palavras), de tábuas explicativas, tudo isso complementado com excursos
biográficos, questões gramaticais e até juízos de valor de natureza estética
(ibidem, 1994, p. 69).
Na Idade Média as edições não se resumiam a textos pagãos gregos e latinos,
mas também a literatura evangélica. Destacamos a obra de Orígenes (185-253),
Hexapla, uma adaptação do Antigo Testamento na qual comparava-se suas traduções
gregas e hebraicas, segundo a crítica homérica; a edição da Bíblia realizada por São
Jerônimo, em 383.
A chamada “Crítica Textual moderna”, surge, segundo alguns estudiosos, com o
método lachmanniano, no século XIX. Embora devamos reconhecer que entre o
Renascimento e as contribuições de Karl Lachmann, muito tenha sido produzido,
período que compreende três séculos, suas edições instauram um sistema de crítica
objetiva aos estudos filológicos.
Em nosso trabalho, optamos por trabalhar com a edição conservadora, do tipo
semi-diplomática, também conhecida como edição paleográfica. Cambraia (2005)
destaca que, dentre seus principais objetivos, está o de facilitar a leitura do texto,
visando torná-lo acessível a um público menos especializado, agindo de forma
interventiva, desde que sejam explicitadas na reprodução. Nesse sentido, adotaram-se os
seguintes critérios em nossa edição: reprodução fiel do texto (grafia, pontuação, etc.);
indicação do número dos fólios, à margem direita; numeração do texto, linha por linha,
indicando-a de cinco em cinco, desde a primeira linha do fólio, e reiniciando a
numeração no seguinte. Segue a edição:
f.206v
Registro da Carta escri-
ta a Sua Magestade sobre que sepro-
ibissem as Minnas do Ouro //_______//
Senhor// Saõ tantos os Clamores
05 deste povo sobre o excessivo pre-
ço com que se vendem os Escra-
vos em razaõ das Minnas do
Ouro que pelo prejuizo da Coroa
ezêllo da Republica entendemos
10 ser necessario dar conta delle
aVossa Magestade porque os
fructos que se cultivaõ com o
serviço dos ditos Escravos naõ
só mente enriquecem os Vassa-
15 los senaõ tambem as Monar-
quias por que com elles sesus-
tentaõ as Lavouras ese augmen-
tá onegocio de que rezultaõ os
f. 207r
os direitos Reais, epor isso os Senho
res Reis dePortugal sempre fa-
voreceraõ os Lavradores, especial=
mente ElRey Dom Sancho opri-
05 meiro e o famozo Rey Dom Di-
niz que fazendo a estimaçaõ da
Lavoura se chamou Lavrador
e Pai da Pátria conhecendo o dito
Senhor que os Lavradores eraõ
10 os nervos da Republica. Pelo que
naõ se podendo cultivar a terra
sem os ditos Escravos, que os La-
vradores naõ se atrevem a com-
prallos pelo excessivo preço sefa-
15 raõ inuteis, e haverá ehaverá
a quella esterilidade que temos
em prejuizo da Coroa edeseus
Vassalos aque se deve acudir
com oremedio prompto prohi-
20 bindo as ditas Minas de ouro
por evitar o maior prejuizo da
esterilidade dos fructos esepode
considerar / como dis apolitica
…....... nas suas emprezas /
25 que mais poderozos eraõ os Reis
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hia eCamara quatorze deJunho
10 demil esete centos edez annos
Joaõ deCouros Carneiro sobscre-
vy// Francisco Pereira Botelho
Manoel Botelho Oliveira
Francisco Machado Palhares
15 Antonio de Bra// Pascoal Fer=
nandes Monteiro//
O ESTUDO DA ARGUMENTAÇÃO
Nos anos de 1960, observou-se um reavivamento dos estudos retóricos, com a
publicação do “Tratado da Argumentação”, de Chaim Perelman e Lúcie Olbrechts-
Tyteca. É sabido que desde a época dos Imperadores romanos, a retórica passou por um
gradativo descendimento. A necessidade do bom uso da eloquência entrou em
decadência após o findar da democracia, que teve seu posto ocupado pela política
centralizadora do poder imperial. O reflexo de uma sociedade carente de debates
públicos se fez nítido na educação, na qual o ensino da retórica passou a ser feito de
maneira artificial, como que apartada da vida cotidiana.
O declínio, propriamente dito, da retórica não se deu na Idade Média, pois esta
se fez presente como disciplina escolar, muitas das vezes como auxiliar nas práticas de
estudo da Bíblia e da literatura profana. Para Reboul (1996), foi com Descartes, no
século XVII, que tal processo se inicia. Em seu “Discurso do método”, ele rejeita o
princípio da verossimilhança em prol de uma verdade una, análoga a demonstração
matemática. Além dele, os empiristas ingleses, representados por Locke, também a
rechaçam, dessa vez ao inferir que sua verdade resulta dos logros da eloquência, sendo,
dessa forma, uma falsa verdade. No século XIX, tanto o positivismo, em nome da
verdade científica, quanto o romantismo, em prol da sinceridade, reforçaram o
descrédito no qual se encontrava.
Somente a partir do século XX surgem estudos comprometidos em reabilitá-la, a
citar, os de Toulmin ([1958] 2003) e de Perelman e Olbrechts-Tyteca ([1958: 1996],
vistos como referências.
Nos estudos de Perelman e Tyteca, a língua, mais especificamente, as línguas
naturais, ocupa papel indispensável na atividade argumentativa, uma vez que seu bom
uso é fundamental para que o orador se faça entender por todos. Além desse
componente, o auditório ocupa um papel central na atividade argumentativa, pois é
mediante sua reação que o orador realizará sua progressão. Nisto resulta o caráter
psicológico da teoria da argumentação perelminiana.
Para os autores, argumentar é uma ação do orador sobre um auditório, visando
provocar uma ação ou conduta. Nesse ínterim, estes chamam de “acordo” o momento
no qual o orador e o auditório alcançam um contato intelectual, um tipo de
consentimento mútuo a respeito do que se concebe e admite entre ambos. A
argumentação busca a adesão dos espíritos por meio do princípio de verossimilhança,
ou seja, de premissas não evidentes que resultem numa verdade construída junto ao
auditório, motivo pelo qual a confiança entre si deve ser presumida.
O auditório é definido nas palavras dos autores como “o conjunto daqueles que o
orador quer influenciar com sua argumentação” (PERELMAN E OLBRECHTS-
TYTECA [1958], 1996, p. 22). Os autores distinguem dois tipos de auditório: o
universal, entendido como um auditório heterogêneo, constituído por pessoas de
diversos segmentos; e o particular, constituído por um grupo específico. Embora todo
auditório seja por definição particular, os autores discutem sua noção universal talvez
como aquela na qual o orador é capaz de superá-lo, alcançando assim outros possíveis
auditórios.
Dentre os argumentos apresentados no Tratado da Argumentação, identificam-
se, no corpus, os seguintes: o argumento pelo modelo, entendido como aquele que
incentiva a imitação de uma conduta, levando-se em conta o prestígio do arquétipo. Este
argumento edifica-se sobre a ênfase em características de pessoas ou grupos cujos atos
são valorizados; o argumento pragmático, que valora as consequências favoráveis ou
desfavoráveis de um ato ou acontecimento.
ANÁLISE DO CORPUS
Como a pessoa enuncia num dado espaço e num determinado tempo, todo
espaço e todo tempo organizam-se em torno do 'sujeito', tomado como o
ponto de referência. Assim, espaço e tempo estão na dependência do eu, que
neles se enuncia. O aqui é o espaço do eu, e o presente é o tempo em que
coincidem o momento do evento descrito e o ato de enunciação que o
descreve. A partir desses dois elementos, organizam-se todas as relações
espaciais e temporais” (Fiorin, 2008, p. 42).
A carta em análise foi escrita pelo Senado da Câmara (eu) ao Rei D. João V (tu)
em 14 de junho de 1710 (agora). Na época, a emissão de correspondências entre a coroa
portuguesa e o Senado era prática recorrente, visto que, na ausência de amparo legal, a
Câmara necessitava de permissão para seus atos. Ressalta-se que, no século XVIII, a
máquina administrativa não havia a organização que dispõe hoje, de modo que
sobrecarregava as câmaras com inúmeras incumbências dos poderes Legislativo,
Executivo e Judiciário.
Na cena enunciativa, os camaristas solicitam a “Sua Magestade” o envio de uma
autorização que lhes permitisse proibir as atividades de extração de ouro nas minas, em
razão de tal prática oferecer mais riscos que benefícios a economia da colônia (tese). No
entanto, como observou Sobral (2004), seu prestígio junto a Coroa muitas vezes era
insuficiente para que alcançassem êxito em seus requerimentos, fazendo-se necessário o
exercício da argumentação.
As cartas do Senado apresentam regularidades peculiares que vão além daquelas
comuns ao gênero. Conforme o mesmo autor, os camaristas costumavam iniciá-las
indicando o destinatário e o assunto a ser tratado (protocolo), como pode ser confirmado
através do enunciado Registro da Carta escrita a Sua Magestade sobre que
seproibissem as Minnas do Ouro.
Senhor// Saõ tantos os Clamores deste povo sobre o excessivo preço com
que se vendem os Escravos em razaõ das Minnas do Ouro que pelo prejuizo
da Coroa ezêllo da Republica entendemos ser necessario dar conta delle
aVossa Magestade porque os fructos que se cultivaõ com o serviço dos ditos
Escravos naõ só mente enriquecem os Vassalos senaõ tambem as Monarquias
por que com elles sesustentaõ as Lavouras ese augmen tá onegocio de que
rezultaõ os direitos Reais… (Câmara, 1710)
No excerto acima, apresenta-se o corpo do texto, iniciado pelo vocativo Senhor,
local no qual situa-se sua argumentatividade. Observa-se que os camaristas iniciam seu
discurso construindo uma imagem de si e do outro, por meio do léxico. Enquanto que a
lexia Senhor denota seu respeito com quem se dirige, a “Sua Magestade”, o enunciado
Saõ tantos os Clamores deste povo, visa demonstrar seu comprometimento e
preocupação com os assuntos que dizem respeito aos interesses dos colonos.
Faz-se notório a insatisfação da Câmara com as minas de ouro. Inicialmente, ela
faz uso de um argumento comum em economia, referente a Lei da oferta e da procura.
A busca pelo ouro das referidas minas fez com que a procura por escravos superasse
sua demanda, resultando na alta dos preços. Isso afetaria diretamente outros setores da
economia que também necessitassem de mão de obra escrava, no caso o agrícola. Por
conseguinte, o orador constrói uma espécie de cadeia linear de causa-efeito, na qual o
prejuízo alcançaria aos lavradores, aos proprietários de terras e, finalmente, à Coroa,
pois arrecadaria menos tributos com a referida crise. Esse argumento faz-se presente na
obra de Perelman e Olbrechts-Tyteca ([1958]1996, p. 303), como o argumento
pragmático, que, nas palavras dos autores, é “aquele que permite apreciar um ato ou um
acontecimento consoante suas consequências favoráveis ou desfavoráveis.”
… epor isso os Senhores Reis dePortugal sempre favoreceraõ os Lavradores,
especialmente ElRey Dom Sancho oprimeiro e o famozo Rey Dom Diniz que
fazendo a estimaçaõ da Lavoura se chamou Lavrador e Pai da Pátria
conhecendo o dito Senhor que os Lavradores eraõ os nervos da Republica.
Pelo que naõ se podendo cultivar a terra sem os ditos Escravos, que os
Lavradores naõ se atrevem a comprallos pelo excessivo preço sefaraõ inuteis,
e haverá ehaverá a quella esterilidade que temos em prejuizo da Coroa
edeseus Vassalos aque se deve acudir com oremedio prompto prohibindo as
ditas Minas de ouro por evitar o maior prejuizo da esterilidade dos fructos
esepode considerar como dis apolitico nas suas emprezas que mais poderozos
eraõ os Reis deCastella no tempo que naõ haveraõ as Minas da prata do que
quando as houveraõ por que faltaraõ os homens para a Lavoura pela ambiçaõ
da prata que os levava as Indias, e podemos dizer que as minas saõ mais
castigos do […] que fortunas da Monarchia … (Câmara, 1710)
Na sequência acima, o orador faz uso do argumento pelo modelo, quando faz
menção da conduta de antecessores do até então Rei D. João V, os Reis D. Sancho e D.
Diniz, de modo favorável, visando sua imitação. Tais monarcas reinaram no período
feudal, no qual toda Europa viveu um grande processo de ruralização.
Após reiterar os problemas desencadeados pelas minas, e suas consequências, o
orador apresenta aquela que é a sua tese, representada pelo enunciado oremedio
prompto prohibindo as ditas Minas de ouro por evitar o maior prejuizo da esterilidade
dos fructos.
Observa-se também a presença da analogia no enunciado Mais poderozos eraõ
os Reis deCastella no tempo que naõ haveraõ as Minas da prata, visto que, ao
estabelecer uma comparação entre os casos, o orador visa convencer o auditório das
perdas e vantagens ao aderir ou rechaçar sua sugestão.
… Deos Guarde aVossa Magestade por muitos annos Bahia eCamara
quatorze deJunho demil esete centos edez annos Joaõ deCouros Carneiro
sobscrevy// Francisco Pereira Botelho Manoel Botelho Oliveira Francisco
Machado Palhares Antonio de Bra// Pascoal Fernandes Monteiro// (Câmara,
1710)
Por fim, na parte final do documento (escatocolo) os camaristas costumavam
apresentar uma saudação, na qual reforçavam sua imagem de vassalos fiéis a Sua Alteza
Real. Além disso, apresentam-se como regulares a lexia sobscrevy, que indica quem
escreveu a carta, o elemento topográfico (lugar), cronológico (dia, mês e ano) e a
validação, por meio das assinaturas dos membros presentes no ato de sua elaboração.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através do estudo das Cartas do Senado é possível compreender traços da
realidade política, administrativa e social do Brasil, sob situação colonial. Atividades
como aforamento de terras, edificações, concessão de licenças, tabelamento de preços,
verificação de pesos e medidas, correições, devassas, vistorias, dentre tantas outras
incumbências suas, apresentam-se como instrumentos de controle do Senado da Câmara
sobre as relações de produção material que sustentam a vida cotidiana local, e revelam a
realidade da época.
Por outro lado, a necessidade do envio constante de ofícios régios evidencia, em
si, que a relação entre as câmaras e a coroa não era das mais tranquilas. A instituição
dos juízes de fora, em 1696, mostrou-se como um claro sinal de desconfiança desta com
seus subordinados. Muito além da política centralizadora, estava a corrupção, a falta de
isenção política, no cumprimento das leis gerais. Esse quadro explica o porquê da
presença da retórica em Cartas do Senado, visto que, o bom uso das palavras superaria a
desconfiança da coroa, aumentando suas chances de obter sucesso em seus pleitos.
Essas e outras reflexões são fruto do legado da Crítica Textual, em seu trabalho
de preparação de textos para publicação. Apresentamos, assim, como resultados desse
trabalho, a edição, o estudo e a divulgação do texto aqui analisado.
REFERÊNCIAS
CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes,
2005.
PERELMAN, Chaim. OLBRECHTS-TYTECA, Lucie: Tratado da argumentação: a
nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. Tradução de. Ivone Castilho Benedetti. São
Paulo: Martins Fontes, 1998.
RUY, Affonso. História da câmara municipal do Salvador. 2.ed. Salvador: Câmara
Municipal de Salvador, 1996.
SALVADOR, Câmara Municipal. Cartas do Senado a Sua Magestade. Câmara
Municipal / Fundação Gregório de Matos. Tombo n° 28.8. Salvador, 1696-1715.
SOBRAL, Gilberto Nazareno Telles. A relação colônia-metrópole no século XVIII:
Edição semidiplomática das cartas do Senado e Estudo da Argumentação. Tese de
Doutorado. Salvador: UFBA, 2004.
SOUSA, Avanete Pereira. A Bahia no século XVIII: poder político local e atividades
econõmicas. Avanete Pereira de Sousa. São Paulo: Alameda, 2012.
SPINA, Segismundo. Introdução à Edótica. 2ª ed. São Paulo: EDUSP, 1994.
ANÍSIO MELHOR EM O CONSERVADOR: RESGATE E EDIÇÃO DE
TEXTOS
Ediane Brito Andrade1 Maria da
Conceição Reis Teixeira2
1 INTRODUÇÃO
Enveredar-se pelos caminhos da Filologia é ter a possibilidade de descobrir
histórias ainda não contadas, de conhecer personalidades que deixaram registrado seu
legado às gerações futuras, de aproximar-se da realidade e da cultura de sociedades
pretéritas por meio de seu patrimônio escritural.
O presente artigo objetiva apresentar alguns resultados do labor filológico, no
viés da crítica textual moderna, a partir de uma incursão no periódico baiano O
Conservador. O referido periódico circulou na cidade de Nazaré – BA no período de
1912 a 1942. Todavia, a amostra de análise ora apresentada, incide sobre o período de
1912 a 1920, isso porque, dada a vasta gama de publicações literárias, não seria
viável tratar de todas num único momento. Por conseguinte, centrar-se-á nas
produções literárias do escritor, romancista e folclorista baiano Anísio Melhor.
O interesse por resgatar e estudar as produções dispersas de Anísio Melhor
(1885 – 1955) surgiu quando ainda na graduação participamos do projeto de Iniciação
Científica, intitulado Edição e estudo de textos literários e não literários publicados
no O conservador entre 1912 e 19163. O trabalho de localização e resgate de
textos possibilitou o acesso a diversos escritores – os quais se valiam desse espaço para
fazer circular suas produções – dentre eles o autor objeto de nosso estudo. Numa viagem à
cidade de Nazaré com intuito de pesquisar sobre os autores resgatados, foi possível
encontrar, na biblioteca particular do
1 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Estudo de Linguagens, pela Universidade do Estado
da Bahia. 2 Doutora em Letras e Lingüística pela Universidade Federal da Bahia. Professora Titular do
DCH-Campus I da Universidade do Estado da Bahia. Docente do Programa de Pós-Graduação em
Estudo de Linguagens - UNEB. Professora Titular do Seminário Latino Americano de Teologia –
SALT. Líder do Grupo de Pesquisa Edição eEstudo de Textos – UNEB (Diretório dos Grupos de
Pesquisa – CNPq). [email protected].
3 O referido projeto de Iniciação Científica compreendeu o período de 01/08/2011 a 31/07/2012, sendo
orientado
pela Prof. Dra. Maria da Conceição Reis Teixeira, cujo projeto principal se intitulava: Edição e estudo
dos textos literários e não literários publicados em periódicos baianos. Os exemplares do periódico O
Conservador foram localizados e digitalizados na Biblioteca Pública do Estado da Bahia.
Professor Lamartine Augusto, algumas obras anisianas publicadas (Os meus versos, Maria do
Céu, Maria Cabocla, Almas Enfermas). No entanto, havia apenas um único testemunho das
mesmas. O professor Lamartine apresentou os exemplares de periódicos que continham
publicações literárias diversas, o que reafirmou o fato de a maioria de sua produção ainda
encontrar-se dispersa em periódicos baianos que circularam no início do século XX,
carecendo, portanto, de receber tratamento filológico.
2 A FILOLOGIA E A PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA
Assim que se fez sentir a necessidade de preservar o patrimônio espiritual produzido
coletivamente, o homem procurou meios de fazê-lo. Pode-se afirmar que a escrita foi, dentre
tantos outros, o meio mais eficaz de preservar e transmitir a memória às gerações futuras.
Dessa forma sem a escrita “[...] cada indivíduo reduzido à sua própria existência, seria
forçado a recomeçar a carreira que o seu antecessor teria percorrido, e a história dos
conhecimentos do homem seria quase a da ciência da humanidade” (DIDEROT, apud
MARTINS, 1996, p. 70).
Sendo, portanto, fonte de registro, preservação e transmissão de conhecimento, a
escrita passou, desde seu advento até os dias atuais, por diversas transformações, tanto no que
se refere ao suporte quanto às formas de circulação. Segundo Segismundo Spina (1977, p.
23), “[...] a comunicação através da escrita conhece duas tradições: a tradição manuscrita,
que vem de épocas imemoriais até o aparecimento da escrita no século XV; e a tradição
impressa, a partir daí até nossos dias” (grifo do autor). Em uma ou em outra tradição (naquela,
possivelmente, mais que nessa) há documentos que necessitam do trabalho de resgate e edição
textual. Tarefa a ser desempenhada, por excelência, pelo filólogo.
Por conseguinte, ao resgatar textos que se encontravam relegados ao esquecimento, o
filólogo exerce uma função semelhante ao do garimpeiro que extraí o material bruto para
depois lapidá-lo, mostrando o que há em sua essência. O resultado disso vai além da
materialidade, que é o texto, pois o mesmo traz consigo os registros históricos e culturais de
um povo e de uma época. A este respeito é pertinente a afirmação de Spina (Idem, p. 81):
[...] o filólogo que pretenda estabelecer a edição crítica de uma obra do passado
precisa de seguros conhecimentos da língua, da cultura, do pensamento, da arte, da
história, das técnicas de composição vigentes na época em que a obra foi escrita.
Não se trata, portanto, de fazer inferências, mas de fazer um levantamento de todo o universo
histórico, cultural e social da época em que o documento foi lavrado.
Há de se acrescentar que a tarefa de resgate dos textos empreendido pelo filólogo não
é fácil. Pelo contrário, trata-se de um trabalho árduo e minucioso, que exige desse profissional
muita atenção e cuidado, sobretudo quando o suporte dos textos encontra-se em más
condições de uso por conta dos desgastes sofridos ao longo do tempo. Conforme Teixeira
(2006, p. 98) “[...] o labor do filólogo do texto escrito significa resgatar, recuperar, restaurar,
autenticar, interpretar, iluminar, enfim, tornar transparente a produção intelectual elaborada
por uma sociedade”.
Ainda sobre o papel do filólogo Teixeira (2014, p. 53) pondera que ao recuperar os
textos de épocas passadas o mesmo
[...] estaria dando a sua contribuição para o estudo da linguagem, da literatura, e
todos os fenômenos de cultura de um povo ou de um grupo de povos; [...] ao mesmo
tempo estaria buscando manter viva sua memória como forma de significar sua
existência [...].
Ressalta-se, dessa maneira, a tarefa ímpar da Filologia que, além de restituir uma obra,
disponibilizando-a para o público leitor de modo geral – assim como para especialistas –
resgata aspectos extrínsecos ao texto.
3 ANÍSIO MELHOR: BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE AUTOR E OBRA
Anísio Melhor nasceu na cidade de Nazaré – Ba, em 1885. Apaixonado pela literatura,
pelo jornalismo e pela educação, sua vida esteve sempre nesse entremeio. Escritor de poesias,
contos, crônicas, romances e novelas, sua vasta produção é reveladora de características
peculiares do Recôncavo Baiano. A figura das praias, dos pescadores, da gente simples do
campo, do boiadeiro, do violeiro, dos repentistas, das procissões, pinta com todas as cores o
quadro magnífico da cultura popular e do regionalismo desse ambiente, tão marcadamente
presentes em seus textos.
Figura 1: Fotografia de Anísio Melhor. Fonte: O conservador, 15 ago. 1920. 2ª col. P. 02.
Um dos fundadores do periódico O Conservador, Anísio viu no mesmo o espaço
propício para que seus textos fossem publicados. Embora tenha publicações livrescas (Os
meus versos, Maria do Céu, Maria Cabocla, Almas Enfermas, Violas), foi em jornais que
difundiu mais largamente sua escrita, fazendo jus às denominações de escritor, poeta,
romancista, folclorista.
Apesar do valor de sua produção literária, a sua obra é pouco conhecida e,
consequentemente, são poucos os especialistas que se dedicaram a estudá-la, dentre estes,
destaca-se Scarante (2008), a qual elaborou uma dissertação de mestrado intitulada Um
convite à leitura de Anísio Melhor, na qual apresenta um esboço biográfico e literário sobre o
autor em questão. A pesquisadora utiliza-se dos textos publicados e dispersos a fim de
apresentar dados referentes à vida e à produção do escritor.
3.1 NOTÍCIAS SOBRE AS OBRAS RESGATADAS NO O CONSERVADOR
Para resgate dos textos da obra anisiana, foi empreendida uma busca nos acervos
públicos da cidade de Salvador, na tentativa de localizar em quais estavam acomodados os
exemplares do periódico O Conservador. O primeiro local a ser visitado foi o Arquivo
Público do Estado da Bahia, no qual não foi encontrado nenhum exemplar. No instituto
geográfico e histórico da Bahia foram localizados alguns exemplares. No entanto, não foi
viável, vez que a digitalização não poderia ser feita senão com dispêndios de recursos
financeiros. A Biblioteca Pública do Estado da Bahia foi o local onde se deu a localização dos
exemplares de 1912, 1917 a 1926.
O estado de deterioração dos exemplares era, em alguns casos, avançado. A maioria
encontrava-se alocada em uma seção à parte, sob a inscrição SCU (Sem Condição de Uso).
Todavia, em vista do interesse de pesquisar e registrar em fac-símile as informações ali
presentes, na iminência de serem perdidas definitivamente, o material foi disponibilizado.
Figura 2: Fotografia do O Conservador
Após esse momento empreendeu-se a digitalização de todo o material. Na sequência
os textos foram transcritos, linha por linha. Ao mesmo tempo em que os textos iam sendo
transcritos, lançava-se os dados sobre o mesmo num índice, o qual contemplava: nome do
autor, título do texto, assunto abordado, gênero, informações editoriais (coluna, página e data
de publicação), observações (espaço reservado para indicar danos no suporte, ou quaisquer
outras informações pertinentes aos textos).
Desta incursão compreendendo os anos de 1912, 1917 a 19204 foram resgatados 64
textos de Anísio Melhor, 15 em verso (poemas, baladas, trovas) e 49 em prosa (novelas,
romances, contos, crônicas, artigos, crítica literária) 5. Os temas tratados nos mesmos são
diversos. O autor, em alguns momentos, leva o leitor a passear por “praias alvadias”; em
outros o conduz ao mais puro amor; noutros, ainda, apresenta a vasta tradição do povo da
cidade de Nazaré e de seus arredores.
No intuito de fazer conhecer algumas dessas obras, apresentar-se-á, a seguir a edição
do texto Estrias, de autoria do referido autor.
4 ESTRIAS: UMA PROPOSTA DE EDIÇÃO
Como tem sido mencionado nesse trabalho, a Filologia, desde seu surgimento, tem
contribuído para a recuperação e preservação da memória dos povos passados, através do
resgate de sua produção escrita. Sua função primária (TEIXEIRA, 2006) é o resgate, a
recuperação e a interpretação dos textos tornando-os acessíveis ao público contemporâneo.
Neste sentido, o papel da Crítica Textual de reconstituição dos textos é de grande relevância.
O texto ora apresentado foi publicado no O Conservador em 07 de junho de 1917,
ocupando a 1ª metade da 6ª coluna, na página 01.
4.1 NORMAS EDITORIAIS
Considerando a existência de muitos tipos de edição textual deve-se, escolher a que
melhor atenda aos objetivos pretendidos e ao público alvo almejado.
4 Não foram localizados os exemplares correspondentes ao período de 1913 a 1916. Acredita-se terem sido
perdidas, visto que também não foram encontrados na cidade de origem do periódico.
5 Esses mesmos textos compõem o corpus de pesquisa desenvolvida no mestrado, pelo Programa de Pós-
Graduação em Estudos de Linguagens, da UNEB, no viés lexicológico.
Para o estabelecimento do texto Estrias optou-se pela edição interpretativa, conforme
define Duarte (1997):
[2] Edição de um texto de testemunho único, ou de um determinado testemunho
isolado de uma tradição, destinada a um público não diferenciado; para além da
transcrição e correção de erros, o editor actualiza a ortografia e elabora notas
explicativas de caráter geral. (DUARTE, 1997, p. 77)
Os critérios de edição adotados são os mesmos preconizados pela Crítica Textual
Moderna. No entanto, é levado em consideração as exigências e particularidades do texto de
Anísio Melhor, mantendo-se inalterados aspectos textuais que constituem o estilo literário do
autor. Assim, procurou-se seguir as seguintes normas, indicando em aparato crítico as
emendas editoriais:
1. Numerar as linhas de cinco em cinco.
2. Acentuar de acordo com as normas vigentes.
3. Manter a pontuação original, salvo nos casos em que prejudique a construção
textual, podendo haver, nestes casos, acréscimos, apresentados entre colchetes e
indicados no aparato.
4. Manter a distribuição do texto em parágrafos, conforme original.
5. Corrigir os erros tipográficos, indicando no aparato.
6. Atualizar a grafia conforme as normas vigentes atualmente.
7. Conservar os estrangeirismos conforme apresentados pelo autor.
8. Manter as opções tipográficas do autor quanto ao uso de itálico, negrito e
aspas.
9. Apresentar as letras maiúsculas conforme as normas vigentes, exceto nos
casos em que caracterize o estilo do autor.
4.2 EDIÇÃO DO TEXTO
Figura 3: Fac-símile do texto Estrias. O conservador, 07 jun. 1917. 6ª col. P. 01.
ESTRIAS
Ontem a vi na missa. Com os braços apoiados na travessa hotem
superior da cadeirinha, o terço todo feito de contas de ma- madreperolas
drepérolas preso à uma das mãos, ela tinha o olhar cravado á
05 na imagem piedosa e serena da Virgem.
Dentro dos olhos havia o brilho quente de uma lágrima. O lagrima
gradil da nave escondia-lhe um pouco o rostinho moreno e
ela, entregue àquela prece de pensamentos e de olhos, não ella; áquella
não via que longe, bem longe, no fundo largo do templo, eu
10 tinha os olhos para ela, preso à sua imagem, cismando na- á; ella; scismando.
quela piedosa prece que o seu olhar e o seu pensamento fa- naquella
ziam à Virgem, nesse perfumado mês de maio, mês de cri- á; mez
sántemos e de rosas rubras.
orchestra
A sineta tintilou. A orquestra momentos após entoou uma
15 Ave Maria. Eu, insensivelmente de joelhos, os olhos presos aquelle
àquele perfil esguio de S. Cecilia, murmurei baixinho, quan-
do em volutas o incenso invadia tudo:
Ave Maria!
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme dito anteriormente, o papel da Filologia é de suma importância. Sua
contribuição não se restringe a uma área apenas, mas é profícua à Literatura, à Linguística, à
História, dentre tantas outras. Por meio do trabalho filológico chega-se a conhecer aspectos
singulares de um povo. O que nos permite asseverar que é um trabalho de preservação do
patrimônio espiritual, isto é, da memória, de uma dada civilização.
Os resultados da pesquisa, então em desenvolvimento, aqui apresentados constituem
apenas uma pequena amostra do trabalho que se tem empreendido com o periódico O
Conservador. Além do resgate dos textos, da disponibilização dos mesmos ao público, esse
trabalho possibilita o acesso aos saberes, às tradições do povo do Recôncavo Baiano,
especialmente da cidade de Nazaré- BA.
O resgate, a edição e o estudo dos textos de Anísio Melhor permitem reafirmar que por
meio dos escritos os povos deixam sua marca na história. Para além das palavras, registram-se
os costumes, as crenças, os valores, os sentimentos. Enfim, registram-se a maneira como
determinada comunidade percebe, sente e se manifesta no mundo.
REFERÊNCIAS
CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Pulo: Martins Fontes, 2005.
DUARTE, Luiz Fagundes. Crítica Textual. Glossário. Relatório para a obtenção do título de
Agregado em Estudos Portugueses, disciplina Crítica Textual. Lisboa: Universidade Nova de
Lisboa, 1997.
1
MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. 2. ed.
São Paulo: Ática, 1996.
MELHOR, Anísio. Estrias. O Conservador. Nazaré, 07 jun. 1917, n.5, p. 01.
QUEIROZ, Rita C. R de. A Crítica textual e a recuperação da história. Scripta filológica,
Feira de Santana, n. 1, p. 64-79, 2005.
. Da necessidade de edições críticas de autores baianos. Caderno de Letras da UFF,
n. 35, p. 83-95, 2008.
SPINA, Segismundo. Introdução à edótica: Crítica textual. São Paulo: Cultrix, 1977.
TEIXEIRA, Maria da Conceição Reis. Filologia textual e literatura. Cadernos do CNLF, n.
10. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2005.
. A filologia textual: o revelar de aspectos da história. Cadernos do CNLF, n. 12. Rio
de Janeiro: CiFEFiL, 2008.
. Aspectos da memória cultural baiana documentada em periódicos do século XIX e
XX. In: SOBRAL, Gilberto N. Telles; TEIXEIRA, Maria da Conceição Reis. Diálogos com
as Letras. Salvador: Quarteto, 2014.
AS DIFERENTES VERSÕES DE A ESCOLHA OU O DESEMBESTADO:
AS MÃOS QUE MARCAM O TEXTO
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Paulo Roberto Dias Brunelli Júnior (PIBIC-CNPQ)
Rosa Borges dos Santos (UFBA – Orientadora)
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O presente trabalho é resultado parcial da pesquisa realizada pelo grupo Edição e estudo
de textos teatrais censurados no período da ditadura na Bahia, coordenado pela Profa. Dra.
Rosa Borges. Tal projeto justifica-se por apresentar as diversas transformações pelas quis passou
o texto A Escolha ou o Desembestado, decorrentes do processo de transmissão e de apropriação
do texto por diferentes mãos, que contribuíram para construir, assim, um novo texto a cada nova
encenação teatral. A importância das marcas decorrentes da manipulação do texto por cada
indivíduo é aqui valorizada, com o objetivo de demonstrar o processo de apropriação do texto
por diferentes autores sociais através das leituras das marcas deixadas por estes no texto.
2 DO CONTEXTO AO TEXTO
A Escolha ou O Desembestado foi registrado na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais
(SBAT) no ano de 1968 e, posteriormente, foi encenada durante a década de 1970, na Bahia. O
país se encontrava sob a égide do Regime Militar, marcado por torturas, exílios e assassinatos e
pela forte repressão ao teatro, à literatura, ao cinema e outras formas de expressão artística e
cultural. O teatro deste período em particular possuía forte resistência às condições repressivas e
à ideologia militar. Porém, mesmo assim, manteve seu papel subversivo, com a intenção tanto
de despertar o senso crítico da população, quanto de ironizar as figuras dos governantes, criticar
a sociedade e as condições nas quais se encontravam os cidadãos.
No ano de 1968, o mundo estava em efervescência política, social e cultural. A Guerra
Fria, conflito indireto, entre os Estados Unidos, e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS), representava também um conflito entre o capitalismo, e socialismo, pelo segundo,
provocava grande tensão política. Durante o mesmo ano perdurava a Guerra do Vietnã, palco do
combate indireto entre URSS e os Estados Unidos, fazia o mundo sofrer pelo enorme número de
mortos e se questionar sobre as guerras.
Graduando em Letras Vernáculas, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Bolsista da
CNPQ de Iniciação Científica do Grupo de Edição e estudo de textos teatrais censurados na Bahia,
coordenado pela Profa. Dra. Rosa Borges. Contato: [email protected] - Autor
Professora Adjunta no Departamento de Fundamentos para o Estudo das Letras do Instituto
de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: [email protected] – Orientadora.