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Published by katchauu27, 2023-09-26 12:09:31

paz guerreira

aventura

PAZ GUERREIRA O CAMINHO DAS DEZESSEIS PÉTALAS


DEDICATÓRIA PÓSTUMA ada palavra desta obra está imbuída do espírito, da marcante presença, mesmo na ausência, e dos profundos ensinamentos de um grande homem, exemplo de cavalheiro, que soube praticar cada uma das virtudes que sempre se dedicou a ensinar a seus discípulos. Verdadeiro guerreiro da paz, que dedicou sua vida às pessoas, pautando cada um de seus atos, do mais grandioso ao aparentemente mais insignificante, em profunda elegância e generosa altivez. Não poderia dedicar esta obra a outra pessoa que não a meu professor, pai espiritual, exemplo de vida e Mestre no mais profundo sentido do termo, Michel Echenique Isasa. C


AGRADECIMENTOS conclusão desta obra marcou o final de um importante trabalho e o início de um novo ciclo, tendo contado com a colaboração de muitas pessoas, que não posso deixar de mencionar. Agradeço especialmente a minhas mestras, Beatriz Díez Canseco e Delia Steinberg Guzmán. A Luzia Helena Echenique, por seu apoio incondicional. A minha querida esposa, Giovanna Husseini, pela dedicação, compreensão e inspiração com que me brindou nas muitas horas de trabalho dedicadas a esta obra. A Roberto Pompeo, discípulo, que esteve presente em todas as horas deste livro, tendo cada uma de suas linhas passado por seu crivo e lapidação. A


PREFÁCIO ste livro foi escrito com um sentimento de profunda devoção, com o entusiasmo próprio de um guerreiro que, por amor ao seu Mestre, se transformou em um artista e Mestre das artes marciais, principalmente das artes marciais filosóficas. Um dos maiores sonhos desses especiais guerreiros é “vencer sem lutar”. Um sonho comum a homens e mulheres que na verdade guarda um conceito da marcialidade profundamente penetrado de conteúdo filosófico e humanista. Você sabe o que é sonho? Pois Talal Husseini fala do sonho como “uma esfera onde homens e deuses se encontram. No sonho habita algo dos deuses e algo dos homens, os deuses através dos sonhos delegam seu poder, os homens são agraciados pela capacidade de seguir sonhando, realizando e conquistando”. E este é o sonho de Talal e de seu Mestre Michel: a Paz Guerreira. O que um guerreiro faz? Luta, conquista, avança, domina. Fundamentalmente, protege os demais, que não têm em conta esta especial forma de encarar a vida e seus inúmeros desafios. Um guerreiro enfrenta todos eles, é um eterno inconformado com a injustiça, a falsidade, a corrupção, a irresponsabilidade e a ilusão. Mas no mundo, tanto nas sociedades atuais, quanto no decurso da história, eles não estão sozinhos. Encontram-se com homens e mulheres que também têm uma espécie de facilidade para os enfrentamentos e as lutas, embora nem sempre disponham de valor, inteligência e superioridade humana suficientes para lhes permitir abrir um acesso a uma porta interior, para justamente desenvolver todo o seu potencial guerreiro com vistas a essa superioridade humana que leva à paz e à concórdia. E


14 O autor deste livro é hoje um Mestre das Artes Marciais Filosóficas. Eu o conheci há muitos anos, ainda um adolescente, cheio de entusiasmo, vigor e amor pelas artes marciais. Foi o que o levou a conhecer o seu Mestre, Prof. Michel Echenique, que o formou desde então para uma trilha intensa de desenvolvimento marcial semeada através da filosofia à maneira clássica. Assim, por meio dessa relação profunda entre Mestre e discípulo, Talal Husseini fala de Paz Guerreira e de Vencer sem lutar não apenas tratando de usar frases de impacto, mas sim trazendo conceitos filosóficos profundos que lhe foram ensinados e que ele levou como prática de vida. Agora, reuniu esses ensinamentos neste romance e nos presenteou, com total entrega, como forma de retribuição por tudo que recebeu e aprendeu com seu Mestre. A Paz Guerreira é um livro sobre a necessária disposição e uso das virtudes guerreiras para todo aquele que se propõe a seguir por este caminho. Se queres a paz, então prepara-te para lutar por ela, ensinaram os mais sábios. Muitas vezes, cremos ser necessário possuir armas para velar ou lutar, seja pela nossa segurança, pela Justiça, ou pela Verdade. Nesta obra, encontramos muitas e verdadeiras armas, como por exemplo: a virtude do Respeito. Devemos então nos armar, se realmente nos dispomos como homens e mulheres idealistas e valentes protetores dos Valores da Humanidade, das sociedades e de cada ser vivo. 11ª Pétala – Respeito: “o Respeito é a virtude Cidadã. Não é possível construir uma civilização onde reine a ordem e a justiça sem dedicar muito respeito aos valores e à Convivência, sem o devido reconhecimento e aceitação das tradições, dos valores do Estado, dos valores morais e dos conselhos dos sábios”. Quando ocupamos muito tempo da nossa vida diária na luta pelos Ideais de Justiça e de Humanidade, às vezes, nos sentimos abater, can-


15 sados, sem esperança. Mas recordamos que nas lutas e batalhas (tanto interiores quanto exteriores) devemos observar constantemente a nossa própria capacidade de autorrenovação durante a luta, e não deixar que o fogo que ilumina e arde dentro de nós se apague. Também não devemos permitir que a esperança de um mundo novo e melhor se dilua ou se esconda dos seres humanos, pois a esperança é outra das grandes forças que necessitamos proteger como guerreiros. O autor nesta obra também nos enriquece com a alusão a mitos atemporais – velhos contos de velhos Mestres guerreiros – como aquele sobre a corda que comunica o céu com a terra. A tradição guerreira filosófica revela à nossa consciência algo fundamental que em geral tem sido esquecido, apagado da memória humana: que tudo ao nosso redor guarda uma Ordem, que nada vem do acaso. Quando buscamos o melhor e o mais justo não podemos nos contentar apenas com uma busca horizontal, na medida em que ampliamos a busca teremos que recorrer a tudo que apontaram e ensinaram Mestres e Sábios de todos os tempos, e eles sempre apontaram para o alto, para o espírito que está detrás do Sol e que é a causa ultérrima de tudo. “Não há poder sobre quem não teme” – este é outro conceito maravilhoso encontrado nesta obra. Aprender a lidar com o medo, conviver com ele, assimilá-lo, dominá-lo, é um dos grandes aprendizados que a trilha das artes marciais filosóficas nos lega insistentemente. Também um dos grandes filósofos de todos os tempos – Sócrates – dá-nos o seu ensinamento sobre a imortalidade da alma no diálogo Fédon. Devemos aprender a enfrentar a morte, dizia o filósofo. E, como guerreiros e filósofos, de quantas e diversas maneiras essa luta não se apresenta diariamente nas nossas vidas? Toda a vida consiste em aprender a morrer, e aprender a fazê-lo com honra e dignidade, dizia Sócrates, que além de filósofo foi um grande guerreiro ateniense.


16 A Paz Guerreira é um livro de profundos ensinamentos filosóficos, mas recheado com batalhas físicas, psíquicas e mentais, em que a exigência é manter-se atento e concentrado. Com uma trama estimulante, reativa nossa ação de potencial inteligente: física, psicológica, mental e espiritual, tanto individual quanto coletivamente. E isso é tremendamente estratégico, pois educar os seres humanos na mentalidade de sermos Um promove uma ação unificadora em que todos os movimentos serão de um só corpo. E isso é união, isso é eficiência. Considero-me sua Irmã de Armas nesta vida, armas filosóficas, morais e pedagógicas. Nós lutamos por um Ideal de Sabedoria. E aquele velho orgulho guerreiro me preenche o coração, por conceder-me a honra de apresentar este livro, esta saga! Luzia Helena de Oliveira Matos Echenique Diretora Nacional da Associação Cultural Nova Acrópole


SUMÁRIO Eixo do Poder 1ª Pétala: Humildade ............................................................................. 23 2ª Pétala: Admiração ............................................................................. 79 3ª Pétala: Força.................................................................................... 141 4ª Pétala: Liderança ............................................................................. 185 Eixo da Realeza 5ª Pétala: Obediência .......................................................................... 239 6ª Pétala: Nobreza ............................................................................... 277 7ª Pétala: Honra ................................................................................... 321 8ª Pétala: Cavalaria ............................................................................. 361 Eixo do Senado 9ª Pétala: Retidão .............................................................................. 403 10ª Pétala: Coragem ............................................................................ 437 11ª Pétala: Respeito ............................................................................. 477 12ª Pétala: Regulamento ..................................................................... 513 Eixo do Império 13ª Pétala: Paciência ........................................................................... 547 14ª Pétala: Valor .................................................................................. 583 15ª Pétala: Determinação .................................................................... 621 16ª Pétala: Destino .............................................................................. 669


TALAL HUSSEINI 25 1. s dois exércitos distavam cerca de mil metros um do outro. À frente dos seus, perfilados, lanças em punho, imóveis, Sokárin observava o rei adversário, que também permanecia imóvel. As tropas adversárias reluziam sob o Sol em suas armaduras completamente brancas. No exército de Sokárin, ao contrário, todos trajavam negro, da cabeça aos pés. Os exércitos se equivaliam em número e força. A batalha seria decidida nos detalhes, qualquer pequeno erro poderia ser fatal. Talvez por isso a demora na tomada de alguma iniciativa. Sokárin não enxergava em cores, somente em branco e preto. Esse momento de expectativa gerava uma tensão crescente no campo de batalha. Todos os soldados, dos dois lados, só esperavam um gesto do seu líder para arremeter contra o oponente. O Rei branco levantou sua lança. Imediatamente Sokárin o imitou, como num espelho, já que usava a lança na mão esquerda. Praticamente juntos baixaram as lanças, em sinal de ataque. Sokárin, o Rei negro, reparou que nada ouvia do galope e dos gritos dos soldados. Tudo lhe parecia num ritmo lento, um completo silêncio. Esse transe foi quebrado pelo estrondo produzido pelo encontro dos exércitos. O choque das armaduras se fez ouvir a quilômetros de distância. Agora Sokárin sentia-se no fragor da batalha, gritos, de guerra e de dor, ecoavam por todo o espaço, membros decepados, sangue jorrando por todos os lados. Ajudava não enxergar cores, pois não é a todos que o vermelho do sangue faz bem. O Rei negro manejava sua espada com destreza, buscando o Rei branco no campo de batalha. Podia distingui-lo dos demais de uniforme branco pelo estandarte que o acompanhava. O estandarte também o proO


26 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE curava, vinha em sua direção. Ambos pisavam os cadáveres: mais de metade de cada um dos exércitos já sucumbira. Finalmente, os dois reis se encontraram frente a frente. A luta arrefeceu, como que numa trégua tácita. Abriu-se um círculo em torno dos monarcas. A cena era pitoresca, pois parecia uma dança diante de um espelho. O duelo seguia ferrenho, nenhum lograva atingir o outro de forma definitiva, quando algo chamou a atenção de Sokárin. Ele olhou o céu na direção de um guincho que parecia ser de falcão. Foi bem menos do que um segundo de desatenção, mas o suficiente para que a espada do Rei branco lhe trespassasse o ventre, saindo nas costas junto à coluna vertebral. Órgãos vitais foram atingidos. O golpe era fatal. Sokárin teve certeza quando viu seu sangue, vermelho, manchar o chão... Pela primeira vez em sua vida, via uma cor. Ainda teve tempo de olhar ao redor e ver o exército negro recuar atônito e frágil, ante a morte de seu líder. Os soldados de branco guardavam silêncio, provavelmente esperando que se lhe esvaísse o último sopro de vida para soltar seu brado de vitória. Prostrado na terra, com a espada cravada no ventre, fixava o seu algoz, que retirava o elmo. Seu rosto... A última imagem que Sokárin viu foi seu próprio rosto no lugar daquele que o vencera... Sokárin acordou ofegante, imediatamente levando as mãos ao ventre, onde a espada entrara. Nada. Um pesadelo. Real, mas um sonho apenas. O velho Rei sentia o cansaço da batalha e as dores da sua idade avançada. Seu coração palpitava dentro do peito. Ficou alguns minutos sentado em sua cama, até a respiração se normalizar. Estava confuso, procurava um sentido para aquele sonho, tão real, tão vívido... Saiu do seu quarto para o terraço de onde dominava toda a capital. Estava envolto naquele tipo de solidão que só os monarcas conhecem. Vivia sozinho entre os homens. E agora, com mais de oitenta anos,


TALAL HUSSEINI 27 aproximava-se sozinho da morte. Já havia algumas noites que não conseguia dormir pensando na sua sucessão. A transferência do poder é sempre um momento delicado em qualquer organização. Num País, é um momento crítico. Pode ser a consagração e reafirmação das instituições ou sua degradação. O júbilo ou o padecimento do povo nos anos subsequentes. Cogitava. Quase meio século de reinado. Os anos maravilhosos do início desse período não passavam de memórias distantes. O Rei já não se lembrava em que momento perdera o rumo, traíra sua própria natureza e se deixara manipular por interesses que não levavam em conta os anseios do povo e, pior, dos deuses. Pode alguém governar afastado dessas diretrizes? Devia ter deixado o trono quando não teve mais energia para fazer valer sua vontade... Mas não era tão simples assim... Entretanto, esse sonho, esse pesadelo, o impressionara de tal forma que tudo lhe parecia parte de uma estranha realidade. Era como se acordasse de um sonho dentro de outro sonho, o sonho de outra pessoa... Os sentimentos que se lhe amalgamavam na alma eram intensos... Tudo mudava em seu coração. Sim, ele não podia mais comandar um exército negro. Se na sua vida levara o País em direção às trevas, não podia permitir que em sua morte elas tomassem definitivamente conta de tudo e subvertessem a ordem. A noite estava escura como o breu. Lua nova. Estranhas energias estavam à solta no reino naqueles tempos, e aquela noite em especial era ainda mais lúgubre. Um calafrio percorreu a espinha do velho Monarca. O vento estava gelado. Silêncio demais. Uma paz ameaçadora. Da sua sucessão dependia o futuro do reino. Sim, aquele sonho o fizera entender: estava do lado errado e por isso vinha matando a si mesmo... Mas ainda havia tempo para mudar. A transição devia ser pacífica, e o próximo rei um homem moral. A placa de pedra com o nome do sucessor gravado pessoalmente pelo Rei devia ser postada na estela em que figuravam os nomes de todos os soberanos que o antecederam e o seu. Essa placa ficava coberta com um lacre de metal, que só seria aberto quando


28 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE da sua morte. A abertura se operava somente com duas chaves codificadas. Uma era o sinete do Rei. A outra ficava com o chefe do Conselho dos Anciãos. Perto de todos, mas fora do alcance. Vigilância o dia todo, todos os dias. O Rei sentia que estava próximo o momento em que o nome ali depositado seria revelado. O chefe do Conselho dos Anciãos era um nobre dos mais considerados de todo o reino, homem acima de qualquer suspeita. A placa era infalsificável, pois havia um teste alquímico, feito na peça antes de gravada e repetido depois de aberta a sucessão, o que tornava impossível que a substituição não fosse detectada. Poucas pessoas no reino sabiam desse procedimento. O sistema de indicação do sucessor fora mudado quando problemas ocorreram – uma única vez na história do País – muitos séculos antes, levando a uma guerra civil que durara quase dez anos. A experiência fora traumática para todos, e desde então as sucessões, apesar da tensão natural desses momentos, sempre correram normalmente. O vento da noite esfriou ainda mais, trazendo Sokárin de volta de seus pensamentos à realidade de seu corpo alquebrado. Entrou nos seus aposentos para ali passar as horas restantes de sua insônia. Urgia que a placa com o nome do sucessor fosse trocada... Só havia um nome possível para devolver o reino aos seus tempos de ouro... Sokárin já o observava havia algum tempo. O sonho lhe dava a coragem necessária para a mudança, mas precisava agir rápido, sua vida já não importava, o destino de todo o País estava em jogo... 2. dia amanheceu sombrio. Como sombrio era Ofis, assistente do palácio, espécie de encarregado geral, a quem se atribuíam as funções mais variadas, inclusive serviços duvidosos, que por sinal eram O


TALAL HUSSEINI 29 os que mais lhe davam prazer. Seria difícil precisar sua idade, bem como sua origem étnica. Homem de poucas palavras, ninguém no palácio se lembrava de alguma vez tê-lo visto sorrir. Mas cumpria suas tarefas com empenho e eficiência. Ofis parecia composto apenas de pele e ossos, mas não que fosse absolutamente magro, havia um preenchimento sólido como madeira que lhe outorgava um aspecto de indestrutibilidade. Não se sabia no palácio qual era exatamente a sua função ou cargo, mas isso jamais era questionado ou comentado. Melhor não se envolver com ele. Circulava o boato de que era violento, mas nunca foi visto envolvido em qualquer altercação. Inspirava temor. Não comungava desse temor Adaran, o Primeiro-Ministro, braço direito do Rei. Ao contrário, Ofis é que parecia temê-lo, talvez por reconhecer o seu poder dentro do reino. Adaran era um homem de educação refinada, sempre em absoluto controle de seus pensamentos e emoções. Transmitia a todos respeitabilidade e segurança. Conduzia os assuntos do Estado com mão de ferro, e todos sabiam que era praticamente ele quem governava desde que a saúde do Rei se deteriorara. Mas mesmo assim evitava o assunto da sucessão, demonstrando de forma clara que refutava completamente a ideia de substituir Sokárin, apenas não se furtando de dar sua contribuição às questões públicas se necessário. Adaran estava sempre vestido de maneira impecável. Dominando vários idiomas, transitava pelas mais altas cúpulas da política internacional com grande naturalidade. Exímio espadachim e lutador, fazia questão de deixar evidente seu repúdio pela violência, preferindo sempre que possível as soluções diplomáticas para os impasses. Ao chegar ao Conselho dos Anciãos, foi abordado por um dos senadores: – Sr. Adaran, comenta-se que o estado de saúde do Rei se deteriora rapidamente... Saiba que tem todo o meu apoio para a melhor condução dos assuntos do interesse do nosso reino, mesmo depois que Sokárin se for...


30 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE – Senador, agradeço seu interesse pelos assuntos de Estado, mas cumprido meu papel neste governo pretendo dedicar-me às minhas empresas, que estão negligenciadas desde que apoio o Rei. Ademais, Vossa Excelência pode estar tranquilo, pois Sokárin governa com muito pulso e ainda vai nos enterrar a todos. Agora, se me permite... – concluiu já se retirando em direção à mesa da chefia. No Conselho dos Anciãos, reuniam-se os quarenta e nove senadores, que serviam como um órgão consultivo para o Rei, aportando com sua experiência e conhecimentos nas mais diversas áreas. O Chefe do Conselho dos Anciãos era o Senador Rohel, que tinha a atribuição de Custódio das Tradições. Era um homem de olhar sereno, mas firme, a quem o peso da idade avançada – era contemporâneo do Rei – não havia atingido ainda. Educado nas antigas tradições, o Senador Rohel não aceitava com facilidade a decadência que o sistema educacional experimentava, assim como várias outras instituições de Estado. Talvez fosse um saudosismo injustificado, afinal não estavam os mais velhos sempre a pensar que as coisas e os jovens de agora eram piores do que os de antes? Iludindo-se dessa forma em seus pensamentos para ocultar de si mesmo as evidências, o ancião viu aproximar-se Adaran: – Saudações, Senhor Primeiro-Ministro. – Saudações, Senador Rohel. Como vai a Sra. Inari? – Bem, obrigado, dentro do que se permite aos velhos... – Sua esposa conserva o vigor e a energia da juventude, assim como Vossa Excelência. – Poupe sua diplomacia para quem acredita nela, Adaran, não compensa gastar seus elogios com alguém que já está mais próximo do outro lado da existência do que deste... Mas vamos aos trabalhos? – É claro, Senador. O Senador Rohel brandiu um antigo martelo de madeira maciça, lançando-o por três vezes sobre um apoio de madeira com uma energia tal, de que se custaria a crer ele fosse capaz. Anunciou:


TALAL HUSSEINI 31 – Senhores Senadores, está aberta a sessão! Como previamente anunciado, não há deliberações, destinando-se esta jornada à manifestação do Senhor Primeiro-Ministro, a quem passo desde logo a palavra. Subindo ao púlpito, Adaran agradeceu meneando a cabeça: – Senhor Chefe do Conselho, senhores Senadores, como todos sabem, a causa que me traz a esta plenária, a pedido do Rei, é, como todos sabemos, e não podemos nos utilizar de meias palavras neste foro, o estado de saúde debilitado de Sua Majestade, crendo ele mesmo que este ano será o último do seu reinado. É importante, pois, que todos envidemos esforços para apoiar integralmente o escolhido, tendo em vista que a sua escolha foi amparada pela decisão sábia de nosso Monarca. – Adaran, não há qualquer dúvida de que você será o sucessor – gritou um dos senadores, do fundo da assistência. – Todos sabem que não tenho qualquer interesse nesse pesado encargo, pois estou envolvido na política em razão do acaso e do senso de dever cívico que não me permitiu declinar do pedido de auxílio que me foi dirigido. Prefiro, portanto, nesta etapa de minha vida, ver-me livre das funções estatais, para dedicar-me aos meus assuntos pessoais. Entretanto, não poderei me furtar, se for esse o caso, de cumprir com o meu dever de cidadão, pois não me reservo o direito de abandonar minhas obrigações em função de minha felicidade pessoal. Apupos avolumaram-se por todo o ambiente. Pelo menos dois terços dos presentes aplaudiam fervorosamente o cativante Primeiro-Ministro. Não havia dúvida de que ele era a pessoa indicada para conduzir o reino a uma nova era de prosperidade e pujança. O Senador Rohel estava entre a minoria que não se manifestou diante das palavras de Adaran. O ancião não gostava do Primeiro-Ministro. Se lhe perguntassem que razões objetivas tinha para isso não saberia responder, mas ao longo dos anos aprendera a ler as pessoas por algo além de seus atos e palavras. Algo em Adaran não lhe agradava.


32 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE O Primeiro-Ministro entrou na carruagem que o aguardava, conduzido por Ofis, partindo rapidamente. Adaran saiu do Senado e foi à Real Sociedade, que era um local onde a elite da Capital se encontrava para a prática de esportes. O lugar ficava num antigo castelo, com muitos jardins e bosques. Oferecia também banhos a vapor e ambientes de reunião e conversa, em que questões importantes do poder e assuntos intelectuais eram tratados. Adaran tinha direito a uma revanche contra Haggi Eitan, que o vencera dois dias antes, depois de um duelo equilibrado com espadas. Por isso gostava de lutar com Haggi: os outros membros da Sociedade não eram páreo para ele. Kadriel ainda o fazia suar um pouco, mas não o vencia. Haggi era diferente. Tinha um estilo mais clássico, de movimentos suaves, rápidos e precisos. Boa defesa, era difícil de ser atingido. Seria uma boa luta. Hoje estava motivado. No entanto, mais uma vez, Haggi Eitan venceu. Perder a luta não era tão ruim, pois isso incentivava Adaran a melhorar ainda mais sua técnica. Ruim era encarar o sorriso irônico e desdenhoso de Haggi, mas era impossível zangar-se com ele, tal o seu carisma. Não havia quem não gostasse dele. Daí o seu sucesso na carreira diplomática. Ainda assim, nunca se podia saber se falava a verdade. Ocultava muito bem seus pensamentos e emoções. Era um jogador. Depois do duelo, sentavam-se na adega para conversar sobre os rumos da política mundial e tomar um vinho. Uniu-se a eles Golan, filho mais velho do Rei Sokárin. Era frequentador da Real Sociedade e das rodas de conversa, mas nunca lutava contra Adaran ou Haggi por ser de nível muito inferior. Seria uma humilhação para ele e um aborrecimento para os outros. O mesmo nível mediano que tinha com as espadas se refletia em sua vida. Era médio em tudo. Competente, é verdade, em


TALAL HUSSEINI 33 qualquer atribuição que lhe fosse designada, mas sem iniciativa para ir além. Muitos achavam que seria o sucessor natural do Rei. Ele tinha certeza. – Então, senhores – disse, já sentando-se à mesa, com ar satisfeito – como foi o combate? – Por que tanta alegria, Golan, já está dando seu pai como morto? Ou sabe alguma coisa que nós não sabemos? – ironizou Haggi – Golan ficou sem graça: – Não, de forma alguma… Só estou contente em ver os amigos… – Não precisa ficar sem graça, foi apenas uma brincadeira. Ademais, todos sabem que a saúde do Rei já não é das melhores, e é muito provável que ele realmente não passe deste ano. – Não diga isso, Haggi Eitan, meu pai ainda viverá muitos anos. – Se os deuses assim desejarem – intercedeu o Primeiro-Ministro – você deverá suceder seu pai com sabedoria, Golan. Terá de mim todo o apoio que necessitar. – Homens como você, Adaran, são sempre muito importantes para qualquer governante ter por perto. – Haggi assumiu novamente seu ar provocativo: – Mas o que o faz ter tanta certeza de que será o sucessor de Sokárin, Golan? – Não tenho certeza – disse, sem convicção – nunca se pode ter certeza, mas meu pai me preparou para isso, sempre me passou toda a sua experiência e ensinamentos necessários para reinar. Sei, sem falsa modéstia, que sou capaz de reinar. – E é mesmo, Golan. Você será um grande soberano – aquiesceu Adaran. – E você um grande Primeiro-Ministro, não é? – completou Haggi. – Eu já sou o Primeiro-Ministro, Haggi. – Sim e quer continuar a sê-lo… Ou quem sabe uma promoção...?


34 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE – Os cargos e títulos não me interessam. – Mas o poder… – Inclusive tenho certeza de que Golan precisará de um Ministro do Exterior competente como você, Haggi. O filho do Rei assentiu com a cabeça: – Vocês sabem que podem contar com a minha ajuda, mas nunca se esqueçam de uma coisa: eu não sirvo a governos, sirvo ao Estado. Por isso preferi a carreira diplomática aos cargos de administração. Mas sempre é bom deixar as portas abertas. – Bem – disse o Primeiro-Ministro – estou na minha hora. Creio que nosso próximo duelo ficou para a semana que vem, certo Haggi? Até logo, Golan. – É claro. Até lá. – Até logo. Haggi e Golan conversaram mais um pouco sobre as questões que envolviam a sucessão e depois se foram, cada um pensando como os outros lhe poderiam ser úteis. 3. s têmporas de Mulil latejavam. O Sol redondo o fustigava naquele dia em que o céu estava de um azul quase branco, tal era a claridade. O suor que escorria da testa para dentro dos olhos atrapalhava sua visão, o calor atrapalhava seus pensamentos, as palmas de suas mãos estavam lanhadas pelas pedras pontiagudas. Ele era um pequeno inseto sobre a superfície gigantesca da rocha. A parede fazia um ângulo exato de noventa graus com o solo. Em alguns pontos a inclinação chegava a ser ligeiramente negativa. A temperatura ambiente, que A


TALAL HUSSEINI 35 beirava os cinquenta graus, era ainda mais alta na pedra, o que não tornava sua missão nem um pouco confortável. Aos catorze anos de idade, Mulil ainda não tinha a força de um homem feito, porém não era mais um garoto frágil. Acompanhando as mudanças por que passava seu corpo, vinham as da mente. Seus pensamentos não paravam, a energia que pulsava em seu peito era difícil de controlar. Ele queria conquistar o mundo... Mas antes precisava conquistar a si mesmo, eram as palavras de seu Mestre, que o observava ao longe. Sua presença era o que mantinha Mulil naquele momento, pois já pensara mil vezes em desistir. Mas ao se imaginar fracassando perante seu Mestre Montuhotep, pensava mil e uma vezes em continuar. E prosseguia sua lenta escalada em direção ao ninho. Cada movimento tinha de ser muito bem estudado, sob pena de funesto destino, rumo às pontas escarpadas das rochas lá embaixo. Seu coração estava acelerado pelo esforço e pelo medo da altura. A coragem está dentro de você, dizia Montuhotep, e ela se exterioriza pelo valor. Seja corajoso e mostre-se valente. As palavras ecoavam em sua cabeça. Seus braços já não aguentavam, não tinham mais força alguma, eram velas queimadas. Só a vontade o sustinha. Procurava concentrar-se em não perdê-la. Já havia duas horas que a única coisa que olhava era a rocha, cada pequena fresta ou vão onde se agarrar, cada saliência, cada reentrância, rocha, rocha e mais rocha, e um objetivo: não era dominar o cume, mas dominar o falcão... Assim lhe havia dito Montuhotep, sem maiores explicações. Disse que no momento certo ele entenderia... Mulil não tinha tanta certeza de sua capacidade de entendimento, mas muito cedo aprendera uma coisa: a confiar no seu Mestre, caso contrário não estaria ali, a mais de setenta metros do chão duro, sem qualquer proteção senão o aprendizado que tivera até então.


36 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE O guincho às suas costas lhe fez gelar o sangue, seu coração bateu descompassado, o turbilhão de pensamentos que povoava sua mente cessou como num passe de mágica, para dar lugar a um único pensamento: procurar um apoio na parede que lhe permitisse olhar para o seu oponente. Conseguiu. O primeiro guincho fora emitido num voo de reconhecimento. Agora a ave arremetia contra Mulil. Ver o que antes ouvira não lhe aumentou em nada a segurança. Desejou nunca se ter virado e apenas ter esperado a morte sem ter que a encarar. Sua reação foi procurar pelo Mestre, que distava dele cerca de duzentos metros em linha reta pela hipotenusa que fecharia o triângulo com a parede e o chão. Foi como se numa fração de segundo tivesse ficado cara a cara com o Mestre. A figura esguia, de elevada estatura, vestindo uma túnica branca que parecia imune ao pó e à areia, a cabeça ornada com uma espécie de coroa com uma pedra amarela na frente, em torno do pescoço um colar de contas do qual pendia um escaravelho de lápis-lazúli, o encarou de tal forma que Mulil imediatamente preferiu o falcão. Olhou mais uma vez na direção dos guinchos que se aproximavam rapidamente junto com seu emissor. Mas o olhar de Mulil já não era o mesmo, era um olhar de guerreiro, um olhar capaz de descortinar o Universo... Esse olhar encontrou as pupilas alongadas do falcão, que de imediato mudou sua postura. Aparentemente nada mudara, pois os guinchos continuavam a ser emitidos, e a ave ainda vinha em sua direção, mas Mulil sabia, acreditava que algo havia mudado. Ergueu seu braço esquerdo, deixando o antebraço em posição horizontal. O falcão parou com seu bico curvo a poucos centímetros do rosto de Mulil, os olhos cravados nos seus, as garras cravadas em seu braço, firmemente, como se daquilo dependesse sua vida. Coragem, pensou Mulil, superando o medo que sentia e suportando a dor aguda, que pa-


TALAL HUSSEINI 37 recia irradiar-se em choques elétricos ao longo de seu corpo, tal sua intensidade. O cheiro férreo do sangue chegou às suas narinas... Entretanto, a sensação que tomou conta do discípulo foi de paz, uma paz profunda, mas delicada. Uma paz que dependia da sua postura para se manter. Qualquer deslize, qualquer demonstração de debilidade, poderia ser o fim. A ave facilmente o despregaria da rocha, lançando-o no vazio... Mas Mulil sabia que isso não aconteceria, olhou com ternura para o falcão e soube... ele seria seu aliado, para sempre... O falcão soltou seu braço e alçou voo, descrevendo um oito perfeito no céu branco, para desaparecer sobre o deserto... 4. adriel acordou suado, pela agitação e pelo calor do deserto do seu sonho. Levantou-se, lavou o rosto com água gelada, foi até a janela. A vista era privilegiada: dominava toda a cidade até as colinas do lado oposto. Os primeiros raios da aurora transpassavam a neblina que cobria as casas e parte dos edifícios, tingindo-a de amarelo-ouro. Kadriel divagou por longos minutos, aguardando que a coroa solar apontasse no horizonte e pensando que se aproximava o dia em que governaria a cidade, depois o Estado e ainda o País. Ele retinha seus pensamentos quando estes queriam por vontade própria ir além do País. A política era difícil, mas Kadriel confiava nas pessoas que o cercavam, e elas confiavam nele. Ele era um político promissor, bom caráter, às vezes até um pouco inocente. Mas era determinado e honesto, o que lhe conferia crédito para, bem assessorado, atingir seus objetivos. K


38 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE Um dos primeiros pássaros da manhã riscou o céu, trazendo à mente de Kadriel lembranças de sua infância. De modo involuntário, levou a mão direto ao antebraço esquerdo, como sempre fazia, afagando as cicatrizes que obtivera havia muito tempo. Três pequenos riscos de aproximadamente dois centímetros cada um, paralelos, sendo dois alinhados e o do centro mais avançado. Completando a marca um quarto risco quase idêntico aos outros do lado exatamente oposto do antebraço. Kadriel lembrou-se de uma tarde na escola. Ele tinha dez anos de idade. Estava com seus amigos inseparáveis Bakar, Haggi e Dhara. Desobedecendo as determinações dos professores, afastaram-se da atividade indo em direção às montanhas. Em certa altura pararam, em dúvida sobre a continuidade da expedição. Haggi não queria continuar, Kadriel e Bakar discutiam sobre os prós e contras de prosseguir ou retornar. Enquanto se perdiam em dúvidas, Dhara tomou a dianteira e prosseguiu dizendo sem se voltar: – Espero vocês lá em cima, caso resolvam vir, é claro. Os garotos se entreolharam e sem dizer mais nada a seguiram. Chegaram até o topo num local que dava para um penhasco. Os quatro se deitaram de barriga para baixo, apenas com a cabeça para além da beirada. Ali permaneceram olhando os detalhes da parede escarpada, que devia contar uns oitenta metros de altura. Cada um pensava em suas coisas, quando Dhara viu um ninho a aproximadamente dez metros abaixo de onde estavam. Propôs: – Vejam, é um ninho de falcões, aqui há um caminho na rocha… Kadriel a reteve: – Não, deixe que eu sigo à frente, pode ser perigoso. E sem deixar muita margem à argumentação, ultrapassou-a em direção ao ninho. Ela o seguiu. Bakar a secundou. Haggi permaneceu no topo, aguardando qualquer contratempo. Prosseguiam pela encosta lentamente, estudando cada movimento, pois qualquer deslize poderia ser


TALAL HUSSEINI 39 fatal. A concentração era total. Foi quando um guincho agudo cortou o silêncio. O falcão que defendia seus filhotes arremeteu contra os improvisados escaladores. A inquietação tomou conta de todos. Haggi gritou, Bakar bateu em retirada pelo mesmo caminho por onde tinha descido. Dhara o seguiu. Somente Kadriel permaneceu estático, mas não de medo, ele estava tranquilo, não sabia bem por que mas estava tranquilo. O falcão voou em direção a Kadriel. Todos gritaram, mas ele teve o impulso de enrolar sua blusa no braço para se proteger. O pássaro continuou sua arremetida, mas quando estava próximo do rapaz seus olhares se cruzaram. Foi um momento único, que Kadriel jamais esquecerá. O tempo pareceu parar naquele instante, e antes que ele tivesse a chance de qualquer reação a ave pousou em seu braço. E cravou seus olhos nos dele, fixamente. Da mesma forma que suas garras afiadas trespassavam o tecido da blusa para se cravarem em sua pele. Kadriel sentiu o calor do sangue que encharcava o tecido que envolvia seu braço, entretanto não entrou em pânico, ao contrário, foi tomado de intensa serenidade. Sustentou o olhar do falcão. Ambos tiveram um instante de união. Todo o som do universo desapareceu. O infinito os envolveu naquele pequeno espaço de tempo… O falcão soltou então suas garras e alçou voo, descrevendo no céu um oito deitado e desaparecendo no horizonte. Foi só então que Kadriel pôde ouvir de novo os sons do mundo e dentre eles os gritos de Bakar, que escorregara pela encosta em sua fuga, ficando preso em uma delicada árvore, que se soltava na medida em que ele se debatia. Dhara procurava ajudá-lo, mas não tinha força para alçar seu corpanzil. Kadriel aproximou-se, então, para unir forças com Dhara; Haggi estava paralisado de medo, mas ao ver que o esforço dos dois amigos não era suficiente, somou-se a eles para, juntos, conseguirem resgatar o prisioneiro do abismo.


40 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE Todos, já em segurança, seguiram em direção à escola. O silêncio que os envolvia era sepulcral. Ninguém pronunciou palavra em toda a descida, mas aqueles momentos permaneceriam indeléveis na memória de todos eles. O silêncio os unia mais do que quaisquer palavras que pudessem pronunciar. Entretanto, era indisfarçável que todos olhavam para Kadriel com estranheza. A mesma estranheza que pautava vários episódios de sua vida: certa vez, antes de começar a praticar artes marciais, foi cercado por oito garotos na escola, que queriam roubar seu lanche. Kadriel atravessou essa barreira humana sem que nenhum dos garotos pudesse tocá-lo. De outra feita, foi surpreendido por um grande cachorro que escapou de uma casa, quando estava prestes a ser atacado fixou seu olhar no do cão, que desistiu do seu intento. Quem quebrou o silêncio foi Dhara: – Deixe-me ver como está seu braço. Ele, como que em transe, estendeu seu braço para a menina. Ela desenrolou a blusa que recobria o ferimento, empapada de sangue já meio seco. Eram três cortes de um lado do antebraço e mais um do lado oposto, não muito profundos, mas o suficiente para algum sangramento. – Dói? Ele respondeu negativamente com um gesto de cabeça. – Mas ainda assim é melhor lavarmos o ferimento para evitar uma infecção. Kadriel assentiu, deixando-se conduzir pela suavidade de Dhara. O Sol que aparecera em sua plenitude por sobre o horizonte retirou Kadriel de suas memórias. Ele ainda afagava o braço onde o falcão pousara naquela tarde da sua adolescência e ainda sentia o perfume suave de Dhara, no lenço que guardara desde então e que lhe trazia doces lembranças. Nunca chegou a lhe dizer o quanto ela era importante para ele. Naquele mesmo ano do episódio com o falcão, ela se mudara com sua família para o exterior. Lembrava-se da última vez que a viu, acenando


TALAL HUSSEINI 41 um adeus. Seus olhares se cruzaram e tiveram a certeza de que voltariam a se encontrar. Talvez por isto até hoje não tivesse encontrado uma companheira definitiva: nutria esperanças de um dia rever Dhara... Mas esse dia demorava a chegar. Aos vinte e oito anos, Kadriel já era conhecedor de diversas técnicas de combate e uso de armas. Seu interesse pelo assunto se devia à vontade de dominar seus medos e entender aqueles fatos estranhos que o acompanhavam desde a infância. Conseguiu com isso controlar seus impulsos, muitas vezes açodados e até violentos, mas não lograra dominar seus medos e tampouco entender-se a si mesmo. Quanto a seus outros companheiros de infância, Haggi Eitan ficara afastado por alguns anos em que estudava no exterior para a carreira diplomática, que agora seguia com bastante sucesso. Apesar da pouca idade, Haggi já fora adjunto de diversas embaixadas em países importantes, bem como já participara de missões diplomáticas de suma relevância para a economia do País. Desde que voltara, mantinham contato constante até mesmo porque, como Kadriel, Haggi estava estreitamente ligado à administração atual, sobretudo ao Primeiro-Ministro. Bateram na porta. Kadriel era chamado por seu amigo inseparável Bakar, com quem jamais perdeu o contato e que ainda era seu fiel companheiro de tantas batalhas. Eles eram aguardados no Ministério. Partiriam em seguida para o interior. 5. adriel estava ansioso, pois à tarde teria uma audiência com o Rei. Não fazia a menor ideia de por que fora convocado, o que o deixava ainda mais nervoso. Teria cometido algum erro grave no exercício de suas funções no Ministério? O Ministro Doran, sob cujo K


42 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE comando se encontrava não gostava do trabalho. Em verdade, pouco aparecia no Ministério e quando o fazia era para dar entrevistas ou receber os louros por algum projeto bem sucedido no qual ele naturalmente não tivera qualquer participação. Kadriel, apesar de ser apenas o segundo homem no Ministério, era quem realmente conduzia as ações. Mas ele não buscava méritos nem reconhecimento, acreditava no que fazia e na importância dos trabalhos desenvolvidos sob a sua orientação. Quando o encarregaram da tarefa provavelmente esperavam o seu fracasso. Seria uma pá de cal em suas pretensões de ascensão política. Um retumbante fracasso já no início de sua vida pública. O Rei insistira em sua indicação, mesmo contra a vontade do Primeiro-Ministro, que por nutrir grande simpatia por Kadriel, achava que era muito cedo para ele exercer um cargo de tal magnitude que poderia prejudicá-lo se não tivesse êxito em sua execução. Mas como o Rei fora irredutível nesse ponto, Adaran lhe prestou apoio decisivo para que Kadriel conseguisse superar os obstáculos, sem o qual, com certeza, teria realmente fracassado. Mas agora o Ministério era um sucesso. O povo conhecia Kadriel e lhe dedicava muito apreço, mas não tanto quanto ao Ministro, que sem dúvida era a cabeça pensante que concebia e viabilizava todos aqueles trabalhos sensacionais, que tantos benefícios traziam à população mais pobre do Reino. O edifício do Ministério era da antiga dinastia. Tinha mais de cinco séculos de idade. A entrada portentosa apoiada sobre grandes colunas de mármore. No exterior da parede frontal, estátuas de mármore dos governantes da época do Império, em tamanho natural. O último deles, que antecedera o pai de Sokárin na direção do País, era o que mais chamava a atenção de Kadriel, que todos os dias não se furtava de parar à frente da estátua durante uns cinco minutos, permanecendo estático diante dela, como se esperasse que o Imperador Gur Medhavin lhe falasse. E


TALAL HUSSEINI 43 de fato o artista que concebera aquela estátua o fizera em momento de grande inspiração, parecendo faltar apenas um sopro para que a obra deixasse seu pedestal e fosse retomar seu lugar no trono, trazendo de volta os anos de ouro do Império. O rosto da estátua era impressionante: tinha feições serenas, boca reta de lábios finos, nariz adunco que não podia ser classificado como pequeno, orelhas pequenas coladas ao crânio e os olhos... pareciam os de uma águia, com as sobrancelhas ligeiramente franzidas sobre o nariz, fitavam o infinito... Kadriel sentia ao mesmo tempo admiração e opressão diante de tamanho poder. Naqueles minutos diários, sonhava com o dia em que os homens-águia retornariam para conduzir as gentes, mais uma vez, em direção ao Sol... Bakar também permanecia estático dois passos atrás de Kadriel, todos os dias. Não pensava as mesmas coisas, nem via os mesmos homens, pois eram muito grandes para ele. Mas sabia que iria aonde seu amigo fosse e esmagaria qualquer um que tentasse feri-lo. Não era difícil crer nisso ao ver Bakar. Era ao menos vinte centímetros mais alto que Kadriel, que não era baixo. Sua cabeça quadrada ligava-se ao corpo através de um cilindro mais largo do que ela. Isso que poderia ser chamado de pescoço alargava-se ainda mais na base para soldar-se aos ombros, largos o suficiente para que quem o visse de longe não pensasse que ele tinha mais de dois metros de altura. Como sua cabeça, a visão geral de Bakar era a de um quadrado. Uma cabeça quadrada sobre um tronco quadrado do qual pendiam braços roliços. Não era musculoso, seus braços, como suas pernas, eram cilindros de grande diâmetro. Ao vislumbrar tal estrutura física não seria possível imaginar que se movesse com tamanha agilidade e rapidez, desafiando a física e a lógica. A inteligência não era a principal arma de Bakar, mas gostava de demonstrar sua força física, brandindo o punho cerrado, que era quase do tamanho de uma cabeça de uma criança.


44 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE De fato, um único golpe daquele gigante certamente privaria um desavisado da existência. E, apesar dessas dimensões colossais e do aspecto rústico, Bakar era um grande coração. Provavelmente ele mesmo não sabia que era possuidor de uma virtude encontrada em poucos seres humanos: pureza. E lealdade. Não haveria cão mais fiel ao seu dono do que o gigante era aos seus amigos, sobretudo a Kadriel. Depois que Kadriel saiu de sua contemplação, dirigiu-se ao interior do edifício. Bakar o acompanhou em silêncio, que Kadriel quebrou como que pensando em voz alta: – O que o Rei quererá comigo? – Por certo parabenizá-lo por seus feitos no Ministério, ou até lhe dar uma promoção. Quem sabe um ministério só para você... – respondeu o amigo. – Não, o Rei nem sabe o que faço por aqui. Pensa, como todos, que o Ministro é o autor de todos os sucessos. E isso de fato não me importa. Só interessa que o trabalho esteja sendo feito de maneira correta e trazendo bem-estar para o povo. – Você está errado Kadriel, foi o Rei quem insistiu em colocá-lo nesta posição. Ele pode estar velho, e ter cometido erros na condução do País, mas não é tolo. Ele vê mais do que nós, e por isso é o Rei. – É, você pode ter razão... Mas ainda assim não consigo imaginar que assunto terá comigo. – Aguarde e saberá. Bakar tinha sempre essas respostas curtas e diretas, de uma lógica irrefutável, pela sua simplicidade. Kadriel afundou-se no trabalho para que o final da tarde chegasse logo. Kadriel estava havia vinte minutos sentado no corredor do palácio real, aguardando que o arauto o anunciasse ao Rei. Não que a audiência estivesse atrasada, ele é que havia chegado bem adiantado. Aquela con-


TALAL HUSSEINI 45 vocação repentina o surpreendera e por mais que se esforçasse não conseguia sequer vislumbrar qual seria o assunto tratado. Mas estava com sua melhor roupa de gala. Só estivera perto do Rei três vezes, sempre em cerimônias, junto com muitas outras pessoas. A sós, cara a cara, nunca. Por isso era normal que seu coração palpitasse meio descompassado, por mais que procurasse manter sua respiração tranquila. O jovem desistiu de prestar atenção ao tempo e levantou-se para assistir ao pôr-do-Sol de uma das janelas. Alguém dera pinceladas horizontais de amarelo-dourado sobre o azul intenso. Eram faixas irregulares, mas que continham harmonia perfeita, de uma perfeição que jamais poderia ser traduzida pela mão humana, por melhor que fosse o artista. O arremedo de natureza nunca chegaria aos pés da obra original, da obra de Deus... O arauto anunciou seu nome. O tempo tem dessas coisas, passa mais rápido quando nos esquecemos dele. Kadriel empertigou-se, respirou fundo e dirigiu-se para a porta do salão real. O visitante aproximou-se do trono em que estava sentado o Monarca, ajoelhando-se a dez passos de distância. Dois soldados da Guarda Real ladeavam o trono e outros dois ficavam à porta. Mais uma pequena tropa de cinquenta homens estava estrategicamente distribuída pelo palácio. Eram todos homens de elevada estatura, escolhidos um a um pelo Capitão da Guarda, que era homem da mais absoluta confiança do Rei, que naquele momento e quase sempre estava à sua direita. Usavam couraças peitorais negras, como também eram negros os mantos que levavam sobre os ombros, as calças e as botas. Eram os soldados mais bem treinados do Reino, sempre estavam no mínimo em dois. Constituíam uma força de elite temível. O Rei fez sinal para que Kadriel se aproximasse. Os guardas permaneceram impassíveis. Ao chegar próximo do trono, que estava dois degraus acima do chão, Kadriel prostrou-se novamente, beijando o sinete real. O Rei levantou-se com alguma dificuldade e dirigiu-se lentamente


46 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE a uma das janelas do salão, fez sinal para que Kadriel o seguisse. O Capitão da Guarda fez o mesmo, mas os outros três guardas restaram imóveis. O Rei apontou para fora da janela, instando o rapaz a olhar. Assim permaneceram alguns minutos, até que o Monarca quebrou o silêncio: – Você vê este pôr-do-Sol? – Sim, Majestade, é claro. – Não pergunto se você o enxerga. Pergunto se o vê. Kadriel sentiu-se aliviado quando o Rei prosseguiu antes que respondesse, mesmo porque não sabia o que dizer: – Enxergamos com os olhos. Qualquer pessoa que não é cega faz isso. Mas ver é para poucos... Isso é feito com a consciência. O quadro pintado nesta janela não é simplesmente composto por nuvens dispostas de determinado modo pelo vento, coloridas pelos reflexos do Sol que se esconde por detrás do horizonte, sobre um fundo azul, que é o céu que vemos todos os dias. Não. É a obra de Deus. Este pôr-do-Sol a que assistimos juntos neste momento jamais se repetirá em todo o Universo infinito, neste mundo ou em outros. O Rei fez sinal para o Capitão sair com seus homens. Sabia que ele obedeceria essa ordem a contragosto pois não gostava de deixar Sokárin sozinho com quem quer que fosse. Kadriel não chegou a notar nada no semblante do soldado. Os dois ficaram sozinhos. Mas Sokárin não se moveu, continuou olhando o ocaso, até que no céu só restavam tons rosados do astro maior. Kadriel ficou estático todo esse tempo, que não foi mais do que alguns minutos, mas curiosamente sua tensão e sua ansiedade desapareceram. O Soberano parou então diante de um dos muitos quadros que cobriam todo o entorno das paredes do salão real, que retratava um homem de olhar aquilino. – Você sabe quem é este, Kadriel? – Sim, Majestade, é o Imperador Gur Medhavin.


TALAL HUSSEINI 47 – O último governante do Império. – Eu sempre admiro sua estátua na entrada do Ministério. Parece ter sido um grande homem. – E foi. Um grande homem numa época de grandes homens. Hoje, nem entre os homens pequenos conseguimos ver muitos grandes homens. Seus antecessores foram ainda maiores, mas já escapam à dimensão que podemos conceber. Por isso você sequer consegue olhar suas estátuas. Já pensou nisso? – Na verdade não, mas de fato nunca olho para as estátuas dos outros imperadores, apenas para a dele. – Você está cogitando o porquê desta convocação, Kadriel – cortou o Rei, mudando repentinamente de assunto – não imagina o que eu teria para discutir com você. Eu sei, eu sei... O assunto que o traz aqui é o mais importante que poderia haver: o futuro do País, a sucessão... Kadriel estremeceu. O que poderia ele opinar numa questão capital como essa? Mas o tom do Rei não era de brincadeiras, ao contrário, era grave. Kadriel aguardou. – Nós temos um momento muito difícil à frente, que é a transição de governo. Não importa o que você diga, meus dias estão no final. O nome que gravarei na placa extraída da “Pedra dos Mil Reis” e depositarei na estela será o do novo soberano: Kadriel Vahan. A mensagem demorou muito entre os ouvidos e o cérebro de Kadriel. A sensação era de que se tratava de outra pessoa. Quando o sentido foi percebido, Kadriel empalideceu, sentiu seu ser esvaindo-se pela planta dos pés. As pernas amoleceram, o coração enfraqueceu sua batida quase a ponto de parar, e apesar de não ter dúvidas quanto ao que havia escutado ainda assim não acreditava. Pensou em mil frases, em respostas, em negativas, em desculpas, pensou até em lançar-se porta afora em desabalada carreira. Mas ainda que suas pernas o obedecessem, não poderia fazê-lo, pois o Rei o segurou firme pelos dois ombros e cravou os olhos reais dentro dos seus:


48 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE – Kadriel, já o tenho observado há muito tempo. Não se esqueça de que fui eu que o nomeei para o cargo em que está, apesar das oposições de muita gente. Portanto, sei muito bem o que estou fazendo. Você é o meu sucessor – decretou. Depois de alguns segundos Kadriel pôde responder, com voz fraca e hesitante, ainda sem estar completamente recuperado do impacto daquelas palavras: – Majestade, obviamente jamais argumentaria contra as suas decisões, mas serei a pessoa mais indicada? Nunca tive, nem tenho pretensões dessa natureza... – E é precisamente isso que o faz adequado. Você está fora da luta pelo poder. Realiza um excelente trabalho no Ministério. O povo pode não saber, mas eu sei que o Ministro Doran só faz aparecer em público e colher as glórias pelo trabalho que você realiza. No entanto, isso nunca o impediu de continuar trabalhando. – Mas, Majestade, e seu filho Golan? Muitos julgam que ele seria o seu sucessor natural. – Sim, Kadriel, inclusive ele mesmo, suponho, mas a sucessão num reino não é questão hereditária e sim de um código interno. O dirigente deve reunir as virtudes necessárias para a condução do povo. Além disso, Golan já não é mais um jovem, e será preciso tempo e energia que só um jovem tem, para enfrentar o porvir de nosso País. E continuou, adotando um semblante mais sério: – Mas não pense que governar é uma benesse! Ao contrário, é um sacrifício, um sacerdócio. Você não terá mais vida pessoal, não terá mais amigos, correrá riscos, terá de compor com os interesses dos mais diversos grupos, terá de identificar o mal quando ele se aproximar de você por todos os lados, e, mais importante, terá de fazer o que eu em muitos momentos não consegui: resistir-lhe.


TALAL HUSSEINI 49 – A tarefa que Vossa Majestade me anuncia está além das minhas forças. – As tarefas que se nos deparam nunca estão além das nossas forças. São do nosso exato tamanho. Kadriel, você deverá estar preparado. Estou articulando para que a transição se passe sem grandes transtornos, pois há forças que se irão insurgir contra a alteração que farei na estela, mas se isso ocorrer, lute. Disso depende o futuro da nação. Você deverá enfrentar quaisquer desafios que se interponham entre sua chegada ao trono e esse futuro. Não se trata de poder ou de querer fazer, trata-se de um dever. E não esqueça, você deve governar para o povo e para os deuses, deve ser a ponte entre o céu e a terra. – Sim, Majestade. – Não preciso dizer que este assunto deve ser mantido no mais absoluto sigilo até o momento adequado. Aproveite o tempo que ainda me resta para se preparar para as duras provas que o aguardam. Agora, pode ir. Kadriel ajoelhou-se, beijou o sinete real, deu três passos atrás, virouse para a porta e caminhou com passos firmes, sem olhar para trás. Se o tivesse feito, veria um olhar de satisfação no rosto do Rei. 6. okárin dirigiu-se ao Templo Maior, cujos sacerdotes eram os encarregados de guardar a Pedra dos Mil Reis, da qual eram extraídas as placas em que cada governante gravava, com a escrita ensinada nas tradições, o nome do seu sucessor, para ser agregada à estela que continha os nomes de todos, desde o início do Império. O nome ficava velado até sessenta dias depois da morte do Rei, quando terminava o S


50 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE período de luto com a cerimônia de abertura da placa e coroação do novo Monarca. Todas as placas eram retiradas dessa mesma pedra, à qual somente os sacerdotes do Templo Maior tinham acesso. Depois, em uma cerimônia secreta, a placa de pedra passava por um tratamento alquímico, dentro do Templo, que lhe conferia características peculiares, impossíveis de ser copiadas. Era então entregue ao Rei, que gravava pessoalmente o nome do seu sucessor, fixando-a na estela e cobrindo-a, em uma cerimônia que era do conhecimento de todos, mas que o Rei realizava sozinho, de portas fechadas. A placa só seria aberta após a sua morte, ou por ele próprio caso resolvesse alterar o nome do sucessor, como faria agora. Neste caso, a placa com o nome anterior seria destruída por completo alquimicamente. Depois de revelado o sucessor, os sacerdotes faziam um teste na placa de pedra, certificando que era a mesma gravada pelo Monarca. Apesar da grande segurança de que gozava a estela, este era um teste final que decretava com absoluta certeza a autenticidade deste objeto cerimonial, e por conseguinte da sucessão. Todo o procedimento de troca do nome do sucessor se passava de forma reservada. O Conselho dos Anciãos, os Ministros e a população eram informados, mas não participavam de nada. Era um período de solidão do monarca. Quando Sokárin anunciou a solicitação da pedra ao Templo Maior, houve um pequeno sussurro na câmara, mas todos se resignaram. Somente um observador muito atento, como era o Senador Rohel, teria notado a sombra que perpassou o olhar do PrimeiroMinistro. Muito rapidamente suas feições voltaram ao normal, ninguém mais percebeu sua contrariedade. Golan, o filho do Rei, não sabia se ficava feliz ou preocupado com a notícia. Teria ele somente agora adquirido a confiança do pai, que resolvera gravar seu nome na placa? Ou estaria retirando seu nome para inserir outro?


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