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Published by katchauu27, 2023-09-26 12:09:31

paz guerreira

aventura

TALAL HUSSEINI 101 se seguir, pois já conheciam o ritmo da multidão. Cadenciavam sua corrida de modo a, incrivelmente, não esbarrar em ninguém. O gigante voltou-se para a moça, que ainda estava caída, assistindo àquele confronto inusitado, admirada com seu defensor inesperado: – Você está bem? – Sim, graças a você. Os olhos de Bakar brilharam. Nunca tinha visto uma mulher tão linda. Morena. Olhos ligeiramente puxados e brilhantes. Cílios longos. Nariz fino. Dentes perfeitos. Cabelos negros lisos e compridos. – Você poderia...? – disse a moça, estendendo a mão para que o distraído Bakar a ajudasse a se levantar. – Claro – alçou-a como se fosse de papel. – O que você fez foi realmente impressionante... Fico agradecida. – Não precisa agradecer, qualquer um teria feito o mesmo. – Mas de todas as pessoas que estavam aqui, ninguém fez. Você é muito forte... Bakar enrubesceu. Não sabia muito bem como lidar com aquele tipo de situação, uma mulher, tão bonita... Talvez fosse a dama que ele esperava há tanto tempo... Já em pé, a moça limpou sua roupa batendo o pó com a mão. Era esguia, de porte elegante. Havia cortado o braço na queda. Bakar intercedeu: – Você está ferida. Precisamos ver esse corte. – Não é nada, apenas um arranhão. – Mesmo assim é melhor você vir comigo dar uma olhada nesse corte, minha casa não fica longe daqui – disse com inocência – só preciso pagar por esta ferradura antes. Na barraca de onde retirara a ferradura agora imprestável, o dono se recusou a receber o pagamento e disse: – Não, o senhor é um herói, não precisa pagar.


102 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Bakar deixou as moedas correspondentes ao valor da ferradura sobre o balcão e voltou-se para a sua protegida sob os protestos do vendedor que insistia em não receber. – Vamos? A moça o acompanhou. Ao chegar na sua casa, antes de entrar, Bakar caiu em si. Como convidava uma moça solteira, que acabara de conhecer, já para entrar na sua casa?! Estúpido. Desculpou-se: – Puxa, me desculpe! Que falta de educação a minha convidar alguém que acabei de conhecer, uma moça, para entrar na minha casa... Acho melhor que você faça um curativo no seu braço em outro lugar. Desculpe mesmo... – Bakar parecia sinceramente constrangido. – Não se preocupe, você não precisa se desculpar, eu sei que suas intenções são as melhores possíveis. Você me parece alguém confiável. Vamos entrar. Mas posso ao menos saber o nome do meu salvador? – Bakar. – Combina com você. Eu me chamo Mirta. Ofis recebeu um envelope cor púrpura. Não continha nada. Ele sabia que devia dirigir-se a um local previamente designado num horário já estabelecido. Ofis não era homem de grandes alternâncias de humor, mas aquela mensagem velada o deixava irrequieto. No horário previsto, obedeceu. Cuidou que ninguém o visse entrar na velha casa. Entregou o envelope a dois guardas encapuzados, que lhe franquearam a passagem. Depois de passar por entre móveis velhos e empoeirados, Ofis abriu um alçapão oculto e desceu escadas íngremes. Numa antessala, vestiu uma túnica negra e prosseguiu até ganhar um grande salão retangular, de alto pé direito, e teto sustentado por seis colunas três de cada lado. O chão de granito polido formava desenhos de estranhas mandalas. Tomou posição e ali permaneceu, imóvel.


TALAL HUSSEINI 103 Também receberam o envelope de cor púrpura outras três pessoas, que acorreram ao mesmo local, adotando o mesmo procedimento de Ofis. Todos só se encontraram no salão, já com suas túnicas e capuzes, o que indicava que os envelopes tinham uma significação de horário diferente para cada uma daquelas pessoas. Os quatro, que tinham posições preestabelecidas, voltaram-se para uma espécie de altar que ficava numa das extremidades da sala e se ajoelharam, tocando a cabeça no chão à sua frente. Entrou uma pessoa numa túnica de cor púrpura e acendeu o fogo no altar. Derramou sobre o fogo um líquido vermelho que estava num pequeno recipiente de vidro. Um cheiro férreo espalhou-se pelo ar. Sua voz reverberou naquele espaço: – Meus caros! Chamei-os aqui porque vocês são os meus colaboradores mais próximos. Uma grande batalha se aproxima. O reino passa por um período de transição e ao que tudo indica isso não acontecerá da forma tranquila que esperávamos. Sokárin fugiu ao controle nos seus últimos momentos de vida. Entretanto, isso não importa mais. A cerimônia da colocação da nova placa na estela não ocorreu, o que significa que o nome que lá está é o meu. Se a nova placa tivesse sido encontrada e destruída, as garantias seriam maiores. Como não foi, há possibilidade de já ter sido gravada e alguém a encontrar, e pretender com isso justificar uma luta pelo poder. Mas mesmo que isso venha a acontecer, não podemos abrir mão do que é nosso por direito. A lei do reino determina que a alteração somente se perfaz com a cerimônia de troca. Portanto, vale o nome que lá está agora. Lutaremos até o fim, e levaremos a morte aos nossos inimigos e a todos aqueles que se interpuserem em nosso caminho rumo ao poder. Nosso Mestre nos determinou que estejamos atentos a uma pessoa em especial, e ao grupo que o cerca: Kadriel. Ele é um funcionário sem expressão, de segundo escalão, mas Ayamarusa deve ter suas razões para nos dar essas ordens, e não nos cabe questio-


104 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO ná-las, e sim segui-las. Cada um já tem suas instruções com relação a isso. Podem levantar-se agora. Os quatro obedeceram. Ofis ouvia atentamente. Nenhum deles sabia quem eram os demais. Ofis desconfiava de algumas pessoas, mas não tinha certeza. Ainda não era o momento de se conhecerem. Talvez depois que estivessem assegurados no poder. Sob o capuz da túnica púrpura, apenas se viam olhos brilhantes, metálicos, do condutor da reunião, a sugerir argúcia e determinação. Ele continuou seu discurso: – Nós que aqui estamos somos o centro de tudo o que vai acontecer neste país daqui por diante. Somos os pilares onde se sustentam milhares, milhões de aliados. Tenho estabelecido contatos com pessoas importantes que apoiarão nossa causa. Abaixo de nós há um exército pronto para a batalha. Acima de nós, estão forças que mal podemos compreender, mas que detêm poderes que nos levarão ao domínio. Nossa missão imediata é encontrar a placa gravada por Sokárin antes de morrer. Mas temos de estar preparados para enfrentar qualquer batalha. Seus olhos brilhavam. Ele já sentia o poder próximo de suas mãos, bastava agarrá-lo. – Sei que todos estão cientes de suas tarefas. Depois conversarei com cada um em particular para verificar o andamento dos planos e revisar os detalhes. Alguma dúvida? Que bom! As comunicações continuarão sendo efetuadas pelas cores dos envelopes e pelos sinais nos cumprimentos. Agora vão! A vitória se aproxima! – e dirigindo-se a Ofis, sem identificá-lo perante os demais: – Você, permaneça, pois tenho mais um assunto a tratar. Depois que os outros se retiraram, o homem de púrpura dirigiu-se a Ofis vociferando:


TALAL HUSSEINI 105 – Soube que você realizou uma ação contra o Capitão… – Ofis assentiu com a cabeça – Mas ele ainda caminha entre os vivos… – Meus homens falharam, senhor... – Não, não – respondeu com tranquilidade, aproximando-se do seu interlocutor, que estava de cabeça baixa – VOCÊ falhou! – gritou a plenos pulmões. Caminhou em torno de Ofis e prosseguiu, novamente em tom calmo: – O primeiro passo para conseguir o que desejamos é assumir nossos erros. Quem lhe deu a ordem para matar o Capitão? – Ninguém, senhor, mas eu pensei… – Faça-me uma gentileza: não pense! Limite-se a cumprir as minhas ordens! Eu tenho planos para o Capitão. Ele serve melhor aos nossos propósitos vivo. Nunca mais desobedeça a uma ordem minha nem tome iniciativas que podem prejudicar todos os nossos planos. Nesse sentido foi bom você ter falhado, mas isso não justifica nem a desobediência e nem a incompetência. Você agiu por conta própria e ainda falhou. Se você não tinha pessoas habilitadas, deveria ter feito isso você mesmo. Mas essa foi sua penúltima falha... Erros não são mais aceitáveis a partir de agora. Sua próxima falha será a última... e tenho certeza de que você a cometerá! Mas agora os planos em relação ao Capitão... ele voltará para buscar a família, pois não acredita que sua mulher e sua filha estão mortas, e terá uma grande surpresa! Viverá, mas em desgraça... – Talvez seja um erro... Penso que devíamos eliminar logo o Capitão... – Daqui em diante guarde para si suas opiniões estúpidas. O Capitão fugiu ao nosso controle, é um elemento perigoso, mas morto não nos serve, será mais útil vivo, porém desacreditado. Ficará destruído, acabado, mas não terá a chance de abandonar tão facilmente seu purgatório, vamos destruir a sua essência – olhou novamente para Ofis, que parece


106 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO ter-se animado ao lembrar sua missão e prosseguiu explicando com detalhes como ele deveria proceder dali em diante. 18. adriel ficara muito impressionado com a experiência que Ravi lhe proporcionara. Kadriel sentia ter descoberto seu Mestre, o que o enchia com um sentimento muito bom, seu coração parecia muito grande para caber no peito, queria expandir-se, explodir de alegria. Escolheu o caminho mais longo para voltar para a sua casa, aquele que margeava o rio que cortava a Capital. Era um passeio muito bonito. Kadriel aproveitava para colocar em ordem seus pensamentos, para absorver as novas situações que se desencadeavam rapidamente ao seu redor. Parou defronte à água corrente e permaneceu a olhá-la durante vários minutos. Colheu uma rosa e lançou-a ao rio, numa espécie de cerimônia, muito íntima, de contato direto com a natureza, como gesto de agradecimento por tudo que a vida lhe havia dado e fundamentalmente por ter encontrado um Mestre que pudesse guiá-lo nesta grande vida. Na beira do rio, com carinho, segurava a rosa e, antes de lançá-la, pensou: “Vai, rosa... Como símbolo daquilo que de melhor vive em mim, de alguma maneira toque o que de melhor vive nesse rio... E que possam os deuses saber que já não estou só. Tenho Mestre e sei que através dele todos os Mestres vivem. Sonho em ser digno de tal honra e pretendo servir-lhes inexoravelmente.” Deixou a bela rosa vermelha cair ao rio e lentamente começar a deslizar em sua suave e delicada correnteza. K


TALAL HUSSEINI 107 Ajoelhado, observando a rosa, algo estranho aconteceu: Kadriel sentiu que por alguns instantes tudo começou a ficar vermelho e sentia um frio estranho percorrer seu corpo. Quando se deu conta, estava mergulhado no rio e tudo se movia devagar... Tentou nadar, mas era impossível... Percebeu que ele era a rosa. Não ficou desesperado, apenas não compreendia o que estava acontecendo. Olhava ao seu redor e via o mundo passar. Era reconfortante a maciez do rio, que o acolhia perfeitamente em sua fluidez. De repente, Kadriel viu uma luz se aproximando e pergunta: – Quem és? A luz respondeu: – Sou a consciência unificadora. – O que queres de mim? – Não posso pedir algo que ainda não possuis. – O que pretendes? – Que entendas... – O que queres que eu entenda? – O teu destino. – Diz-me aonde devo chegar, e irei. – Chegar não é tão importante quanto é caminhar. É a trilha que conta, é a jornada que modifica. – Mas não se descobre o mistério quando se chega a ele? Não devemos chegar a algum lugar para chegar a esse mistério? – O mistério que se encontra no final é o mesmo mistério que se encontra no início e no meio... Para a rosa não interessa o mistério do seu destino, mas a jornada no rio. – Desculpe-me a impertinência, consciência unificadora, mas diz-me por quê. – A rosa se transforma no rio, e o rio na rosa, na medida em que segue sua jornada, pois a rosa que saiu de algum ponto não é a mesma de


108 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO hoje, nem será a mesma amanhã. Quando a rosa começou a fazer parte do rio, ele também deixou de ser o que era e a cada instante se torna um novo rio. A rosa segue o fluxo do rio, e o rio se adapta à forma da rosa, que a cada instante já não é a mesma. A jornada é evolução, e o mistério da evolução transfere-se para a rosa e para o rio a cada instante. O importante não é a rosa no rio, mas a rosa se transformar em rio. – Porque rosa e rio são um só... – Esse grande rio que vês nasceu de um pequeno córrego, que por sua vez nasceu da união de pequenas gotas, que por sua vez nasceram da força invisível da natureza. A rosa que és nasceu de um agregado de energia, que por sua vez veio da terra, que por sua vez foi alimentada por uma força invisível. Essa força invisível faz crescer e viver os cabelos, a grama, as unhas, um feto, um vento, uma estrela. Essa força é a vida que unifica todas as coisas, que dá sentido a todas elas. Tanto rosa quanto rio compartilham da mesma força invisível da natureza: a vida. Evolução, vida e jornada são uma mesma coisa. – E como posso unir coisas que parecem tão distintas? – Através da consciência unificadora. Por um instante, Kadriel sentiu-se confuso, e em alguns segundos depois abriu os olhos e viu que nunca havia saído da posição em que estava e do ponto em que se encontrava, na beira do rio. Embora nunca tivesse saído do lugar, já não era mais o mesmo. Talvez até tivesse saído do lugar de uma forma mágica... Mas isso não era importante. Teve a nítida impressão que de alguma forma conhecia aquela luz que vira no rio e que o transportara para dentro d'água, transformando-o numa rosa. Sim, aquela luz, a consciência unificadora, sempre estivera dentro dele... O caminho de volta à cidade transcorreu tranquilamente, sem qualquer incidente. Kadriel sentia-se leve. Mais do que isso: sentia-se outra


TALAL HUSSEINI 109 pessoa, como se tivesse morrido e nascido de novo. De certa forma, era isto que tinha acontecido: Kadriel tivera um nascimento espiritual. As paisagens lhe pareciam mais belas, as cores mais nítidas, o ar mais puro, sentia-o encher seus pulmões. Sentia o oxigênio espalhar-se por todas as células do seu corpo, através da corrente sanguínea. Nunca se sentira tão bem. Kadriel chegou a pensar que estranharia o ambiente urbano depois do tempo que passou em meio à natureza, como no seu sonho com Mulil e o falcão, mas para sua surpresa, ao contrário, sentia-se preparado para qualquer situação, para qualquer desafio. Agora, já via Ravi de modo muito diferente do que quando o conhecera. Enxergava toda a energia que ele emanava. Essa energia o fazia parecer mais alto e mais forte do que ele era fisicamente. Seus olhos percorriam constantemente todo o ambiente em que se encontrava, enviando a seu cérebro com rapidez um relatório completo e detalhado de tudo: os objetos e a sua disposição, as pessoas presentes, seus problemas, preocupações, interesses. As emoções e pensamentos pairando à volta. Não que tudo isso o afetasse, ao contrário, estar consciente do que ocorria ao seu redor lhe permitia estar mais centrado. Suas emoções também pareciam sempre sob o mais perfeito controle, mas isso não o tornava frio, ao revés, era bastante caloroso e sempre pronto a ajudar a quem quer que fosse. Mas o que mais impressionava Kadriel era a mente de Ravi. Ele sabia tantas coisas, que parecia impossível para um ser humano aprendê-las todas em uma única vida, ainda que passasse o tempo todo a estudar. A mente de Kadriel trabalhava sem cessar. Ele tinha dificuldade em compreender a separação entre os homens, separação esta que afastava a possibilidade de a humanidade retomar a trilha divina, o caminho da hierarquia branca. Precisava ser restaurada a união mágica, liberando uma energia tal que mudasse os rumos da humanidade como era então


110 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO conhecida, permitindo que a verdadeira sabedoria voltasse a ser transmitida aos homens, ligados ao raio de luz divina, que ilumina desde o menor dos seres até chegar ao Sol fulgurante e sublime do Deus único e infinito. Kadriel assustava-se com seus próprios pensamentos e com a grandeza dessas ideias, que ao mesmo tempo eram muito belas. Mas por que alguém quereria impedir essa evolução? Por que há na terra seres que não desejam a evolução da humanidade, mas sim seu afastamento cada vez maior do que é espiritual e divino, o que a levará à inafastável destruição. Não importavam os porquês, mas sim o fato de que há tais seres, que pretendem corromper a ordem do universo, rompendo o fio que une a humanidade à sua verdadeira essência divina, deixando não mais do que cascas vazias... Sim, ele lutaria até o último fio de suas forças para que isso não acontecesse, para que essas forças obscuras não triunfassem sobre o que é bom, belo e justo... 19. fis deixou o palácio no mesmo horário de todos os dias. Permanecia realizando suas funções – que ninguém sabia dizer ao certo quais eram – junto ao Primeiro Ministro. Este o tratava como a um empregado qualquer, não denotando de modo algum que pudessem ter outras ligações que não as estritamente ligadas ao ministério. Como sempre, ia a pé. Seguia um caminho que atravessava certas ruelas obscuras da cidade, nas quais poucas pessoas de bem ousariam passar, mesmo durante o dia. O


TALAL HUSSEINI 111 Quando passava por um beco, pressentiu um ataque vindo de um canto escuro. Teve tempo apenas de se esquivar parcialmente. A adaga veio ao seu encontro num forte golpe desferido de cima para baixo. Seu antebraço foi ferido, mas seu peito, que era o alvo, foi poupado. Recuou, procurando divisar seu adversário, que seguiu atacando. Desta vez, Ofis teve mais sucesso e conseguiu, sem ser atingido, fazer com que seu oponente largasse a arma. Mas o embate prosseguiu. O homem de preto – pela força dos golpes, sem dúvida era um homem – arrojou-se novamente contra Ofis, que não foi rápido o suficiente para impedir que um soco lhe atingisse a boca. Sentiu seu lábio inferior latejar. Era um golpe duro. Sentiu sua consciência desvanecer por uma fração de segundo. Qualquer outro teria caído. Reagiu, logrando derrubar seu oponente, que rapidamente colocouse em pé mais uma vez. Quando Ofis finalmente pôde ver seu rosto, tornou-se irônico: – Capitão?! Por que não estou surpreso? – Onde está minha família, seu canalha? Elas estão vivas? – Eu não sei do que você está falando... – sorriu, cínico. – Eu matei os homens que você enviou para me emboscar. Um deles, antes de morrer, disse seu nome. Sei que você é responsável pelo desaparecimento de minha mulher e minha filha e imagino que está por trás também da morte do Rei. Tenho provas de que não foi uma morte natural... Um traço de sombra passou pelos olhos de Ofis ao ouvir essa frase, mas respondeu com sarcasmo: – Ninguém acreditará nessa sua absurda teoria da conspiração. Sua voz será um eco solitário. Você não tem prova alguma de nada, e ainda que tivesse facilmente seria desmentida. – É o que veremos! – ao mesmo tempo em que terminava a frase, já havia agarrado Ofis novamente – Você vai me dizer onde elas estão.


112 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Ofis desvencilhou-se do Capitão e o atingiu com um violento soco na ponta do queixo. O Capitão cambaleou quando outros dois golpes bem ajustados o levaram ao chão. Conseguiu, mesmo grogue, aparar um chute que vinha em direção ao seu rosto. Derrubou seu oponente e lançouse sobre ele. Mesmo combalido, ainda conseguia manter um fio de consciência de seus movimentos, fruto de muitos anos de treinamento. Atingiu Ofis com alguns socos, mas este não parecia acusá-los, parecia feito de madeira. O Capitão, ao contrário, já se ressentia das pancadas. Mas o coração o mantinha no combate. A mão dura de Ofis o atingiu no fígado. O Capitão dobrou-se. O segundo golpe veio agudo direto no seu baço. Parecia ter sido com a ponta dos dedos. Sua visão embaçou. Uma testada em seu nariz terminou de escurecê-la. Somente o ódio e a adrenalina o mantinham acordado. Não caiu porque uma tenaz o agarrou pelo pescoço, pressionando sua traqueia. Ofis o segurava forte. Aproximou seus lábios do ouvido do Capitão e sussurrou: – Você quer saber como elas morreram? O Capitão tentou desvencilhar-se em vão. Também não conseguia falar pois sua respiração era obstruída pelos dedos firmes de Ofis. Apenas fazia debater-se. Seu algoz continuava: – Primeiro foi sua mulher... A menina assistindo. Depois a criança... Não vou perder mais tempo com você. Sua alma me pertence. Você é um morto-vivo. Extraímos qualquer coisa que você pudesse ter de bom em seu coração. Tente viver sem esperança, vagando pelo mundo, perdido... Elas estão esperando por você em casa! Ao terminar a frase desferiu outro soco no fígado do Capitão, soltando ao mesmo tempo seu pescoço. Este caiu sobre as próprias pernas. Um último chute ainda lhe extraiu alguns dentes. Pensou ter ouvido Ofis rir enquanto virava as costas. O Capitão estava caído de cara na terra vermelha.


TALAL HUSSEINI 113 O curioso era que aquelas últimas palavras de Ofis ao contrário de o devastar, reacenderam suas expectativas de encontrá-las. Sim, elas o estavam esperando em casa... O Capitão sorriu por trás do semblante desfigurado. Precisava reunir suas últimas forças... Queria ver sua esposa e filha... Saudade... Levantou-se e arrojou-se sobre Ofis, derrubando-o. A luta recrudesceu. O Capitão, que parecia batido, recuperou-se acertando alguns golpes sobre o outro. Ofis parecia ter finalmente se cansado e esmorecia, já não opunha tanta resistência. O Capitão sentia que a situação virava a seu favor. Quando dominava o combate, Ofis conseguiu espetá-lo com algo pontiagudo. Não era um ferimento grave, mas sua vista ficou um tanto embaçada, seu corpo mais mole, seus pensamentos confusos. Ofis tratou de fugir. O Capitão o perseguiu pelas ruas, mas somente lograva enxergar o suficiente para ver sua silhueta, e se movimentar o suficiente para segui-lo de longe. Viu, à distância, Ofis entrar numa casa. Alguns minutos depois chegou à porta e entrou atabalhoadamente. Somente então percebeu que era a sua própria casa. Sua esposa estava sentada no chão, coberta de sangue, com as costas apoiadas sobre a parede. Tinha vários cortes sobre todo o tórax, e uma grande faca enterrada no peito sobre o coração. O Capitão jogou-se de joelhos ao seu lado e num impulso reflexo retirou a faca, largando-a ao lado. Tentava, em atitude desesperada fechar com as mãos os ferimentos que sangravam sem parar, principalmente aquele de onde retirara a faca. A pobre mulher ainda estava viva, mas apenas por alguns segundos... eram as últimas convulsões. Nada falou, mas ainda pôde voltar seus olhos para o marido e em seguida dirigi-los para o outro canto da sala. Lá estava a sua filha, caída no chão. O Capitão, com a mente obnubilada pela substância que a picada certamente lhe injetara, com as emoções absolutamente fora de controle pela situação que o envolvia, apa-


114 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO nhou-a nos braços, encostando o ouvido em seu peito. Ela fora vítima da mesma arma que sua mãe, mas ainda vivia. Era apenas um sopro de vida. Seus olhos de criança, marejados, olhavam com ternura para o pai, como que mais a procurar tranquilizá-lo do que a pedir auxílio. Na sua percepção de infante, sabia que não havia mais auxílio possível. Conseguiu sorrir, fechou os olhos e expirou... O pai a abraçava, inerte, contra o peito e soluçava, chorando copiosamente. Foi quando ouviu os chamados dos soldados do lado de fora, avisando que a casa estava cercada e que iriam entrar. O Capitão ainda estava confuso. Foi até a janela e verificou que não era um blefe. Muitos soldados de infantaria e arqueiros estavam de prontidão. O Capitão sabia que seria suspeito, caíra estupidamente numa armadilha. E sua família fora vítima desse pesadelo cruel. E elas não estavam mais com ele... As lágrimas verteram novamente, mas ele as reteve. Precisava se controlar, pensar em como contornar aquela situação. Só havia uma maneira: fugir... Se fosse preso, não teria como provar sua inocência. Por que não o haviam matado? O oficial responsável pelo cerco o reconhecera de sua aparição na janela e gritou: – Capitão! Sabemos que o senhor está aí dentro. Houve um chamado da vizinhança devido ao grande barulho proveniente de sua casa. Está tudo bem? Foi relatada situação de violência. Sim, precisava escapar, pensariam que ele era o responsável pelas mortes. O Capitão sempre fora precavido, como exigia a sua profissão. Sua casa possuía uma saída subterrânea que ele mesmo escavara até uma rua paralela. A entrada ficava atrás de um armário no porão. Foi até lá e evadiu-se, do modo que lhe permitiam as dores do corpo e da alma.


TALAL HUSSEINI 115 Quando os soldados adentraram à casa, ele já estava fora de alcance. Todos ficaram horrorizados com a chacina. O Capitão enlouquecera... e assassinara sua família. A notícia correu rápido. Em poucas horas, era o homem mais procurado da Cidade. O Conselho dos Anciãos, ao qual cabiam as responsabilidades do reino até a abertura da sucessão, declarou imediatamente sua exoneração da Guarda Real. De soldado real, o Capitão passava a foragido da justiça. 20. adriel foi almoçar com Haggi. Sabia da viagem que este faria ao interior do País e não queria deixar de lhe desejar boa sorte. Haggi ficara muito tempo fora, mas Kadriel o considerava um bom amigo e excelente cavalheiro. O encontro foi numa discreta tasca no bairro antigo da Capital. Esse local consistia num emaranhado de ruelas e becos que formavam um labirinto impossível de decifrar para quem não o conhecesse. Mas os dois jovens se haviam praticamente criado naquele local. Guiavam-se ali melhor do que a grande maioria das pessoas. O local a que se dirigiram ficava numa dessas ruas. A entrada era abaixo do nível da rua – era necessário descer uns quatro degraus para ganhar o interior. O proprietário era um velho conhecido dos dois, chamado Ragatis. Era um tipo rosado, possuidor de uma enorme barriga, cultivada à base de muito vinho e muita comida. Desde que conheciam aquele local, o que fazia muitos anos, aparentava ter a mesma idade. Sempre usava um avental surrado e camisa de mangas curtas, não importava o quão rigoroso fosse o inverno. Careca, com grandes orelhas, nariz de batata, olhos pequenos e perspicazes, sorriso franco e mãos gordas, quando viu Kadriel chegar, deu apenas um sorriso e indicou K


116 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO com um rápido movimento de olhos a mesa em que Haggi o esperava. Quando Kadriel sentou-se, o taverneiro perguntou-lhes: – O de sempre? Diante do assentimento, trouxe uma jarra de vinho da casa e um prato de petiscos. – E, então, meu amigo, soube que está de viagem marcada para o interior? – Sim, o Chefe do Conselho dos Anciãos me envia para assegurar a colaboração das lideranças regionais para com o sucessor. O equilíbrio conseguido pelo Imperador Gur Medhavin deve ser mantido. – Concordo que isso seria muito bom, mas tenho minhas dúvidas quanto à tranquilidade desta sucessão – lançou Kadriel. – Sim, também percebo certas tensões no ar. – O que pensa o Primeiro-Ministro? – Adaran é um homem difícil de decifrar... – Mas vocês são companheiros de espada na Real Sociedade... E para um homem observador como você não deve ser difícil detectar suas intenções. – Adaran sabe perseguir seus objetivos, é tenaz e determinado para conseguir o que quer. – Ele quer o reino? – Por mais que seu discurso seja desinteressado, creio que ele não desgostaria de assumir o trono, já que gosta do poder. Diria que ele pensa nessa possibilidade, e não hesitaria em comprar os apoios necessários para isso com privilégios, mordomias e presentes. Os chefes do interior são terreno propício para esse tipo de ação, pois querem manter seus domínios a qualquer preço. – E se a sucessão não transcorresse de forma pacífica? – O que poderia suceder? O nome de sucessor está na placa e ponto final, não há o que discutir.


TALAL HUSSEINI 117 – Todos sabem que Sokárin solicitou uma nova placa, o que indica que pretendia trocar o nome do sucessor. – Mas não trocou, não houve cerimônia de substituição da placa... – Em contrapartida, a nova placa não foi encontrada, o que significa que poderia já estar gravada. Isso indicaria que o nome que lá está não reflete a vontade de Sokárin. A troca, a cerimônia, é apenas uma formalidade. – Kadriel, nós nos conhecemos há muito tempo. Você está querendo me dizer alguma coisa? – Sim, Haggi, na verdade estou. Mas isso não pode sair desta mesa... O outro concordou com a cabeça. – O nome que estaria ou que está na nova placa é o meu. Haggi não conseguiu esconder sua surpresa. Os dois amigos se olharam, em silêncio, por alguns momentos. Kadriel esperou que Haggi falasse: – Como você pode saber disso? – O próprio Sokárin me falou, antes de morrer. Disse-lhe que não estava preparado para tal encargo, mas ele me pediu que aceitasse pois sabia melhor do que eu quem estava ou não preparado... – Mas por que ele não trocou a placa? – Ao que parece, não teve tempo. Ou a idade o traiu ou sua morte foi antecipada... Não duvido disso. – Mas, quem...? – Muitas pessoas poderiam ter interesse em abreviar a vida do Rei, mas o maior suspeito está com seu nome gravado na placa atual... Só saberemos no dia da abertura. – Sempre intuí que você seria um grande governante um dia, só não imaginei que pudesse ser tão cedo. Você é jovem, haveria muitas resistências... Mas de qualquer modo parece que isso não importa mais, a lei estabelece que vale o nome da estela.


118 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO – Mas nós sabemos que esse não é o nome que Sokárin desejava. E ao menos uma pessoa neste mundo sabe que sua vontade era que eu assumisse o governo, mesmo contra a minha vontade: eu. – Confesso que agora seu tom de voz deixou-me preocupado, Kadriel. Você não pensa em questionar o sucessor? O silêncio de Kadriel foi bastante eloquente. Haggi passou a mão esquerda sobre o olho, descendo até o queixo e soltando a respiração, num gesto que lhe era peculiar em momentos de grande preocupação. Conhecia o amigo e sabia que ele falava sério. Fazendo um sinal positivo com a cabeça, como se tivesse entendido, e, franzindo o cenho, prosseguiu: – E o que pretende fazer? – Primeiramente, encontrar a placa que estava em poder de Sokárin. Ele mesmo me disse que eu deveria lutar se fosse preciso. A placa com meu nome justificaria de alguma maneira essa luta. Ainda que não perante a lei, mas ao menos perante o povo. Tenho a convicção de que Sokárin a gravou, caso contrário não a teria escondido. – Na sua linha de raciocínio, o que garante que as mesmas pessoas que assassinaram o Rei não teriam destruído a placa? – Garantir...? Nada. Mas a justiça não tem garantias entre os homens. Não passa de um ridículo arremedo da justiça dos deuses. Mas isso não nos afasta do dever de buscá-la... – e mudando de direção a conversa, emendou: – preciso saber de uma coisa, Haggi. O diplomata permaneceu a fitá-lo com olhar inquisidor. Kadriel prosseguiu: – Se você está comigo nesta jornada, até o fim, custe o que custar. Haggi não hesitou nenhum instante em responder, sustentando com firmeza o olhar forte de Kadriel: – Sim, meu amigo, pode contar comigo. Até o fim. Custe o que custar.


TALAL HUSSEINI 119 Os dois se cumprimentaram de modo fraterno e deixaram o local separadamente. Bakar não via a hora de seu encontro com Mirta. Estava encantado desde o primeiro, e até então único, encontro. Sonhara com ela nas três noites que se haviam passado desde então. Avistou-a no local onde haviam combinado. Estava linda! Cabelos soltos sobre os ombros, pele lisa. Bakar foi em sua direção. Apesar do tamanho, ele não era desajeitado. Mas desta vez a emoção o fazia parecer um rinoceronte solto num parque. Só não derrubou pessoas pelo caminho porque, qual fosse um rinoceronte de verdade, todos se afastavam à medida que ele se aproximava. Finalmente chegou perto de Mirta, que sorria discretamente e o recebeu com afeto: – Como você está elegante, Bakar! Não quer se sentar um pouco? Ruborizado com o inesperado elogio, sentou-se. Mirta continuou: – Um chá? – Sim, claro. – Onde você trabalha, Bakar? – No ministério, com meu amigo Kadriel. Você precisa conhecê-lo, é muito boa pessoa. Aliás, vou encontrá-lo daqui a pouco, se quiser vir comigo... – Claro, eu adoraria passar mais tempo com você... Após o chá, os dois caminharam pelo parque, em direção ao escritório do ministério, onde encontrariam Kadriel. Lá chegando, foram até a sala em que Bakar trabalhava. Bakar fez festa com seu amigo – na verdade, queria mostrar sua nova amiga: – Olá Kadriel, quero lhe apresentar uma pessoa.


120 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Kadriel voltou-se. Ao vislumbrar a bela morena, teve de disfarçar sua surpresa ao ver tão formosa dama em companhia de Bakar. Não que ele não merecesse, mas não era comum vê-lo acompanhado, devido à sua timidez. A moça foi discreta. Kadriel não pôde deixar de reparar nos seus olhos negros. Sua primeira impressão foi de que havia bondade naquele olhar. A moça era realmente muito bonita. Bakar se entreteve com algumas pessoas que o chamaram, deixando Mirta a sós com Kadriel, que notando seu desconforto procurou deixá-la à vontade: – Você quer beber alguma coisa? – Não, obrigada, acabamos de tomar um chá. – Sim, claro... – e tentando manter a conversa – faz tempo que você conhece Bakar? – Para dizer a verdade, acabamos de nos conhecer, em circunstâncias engraçadas... – ela interrompeu a frase, como se não quisesse perder o tempo de seu interlocutor com assuntos pessoais. – Sim, continue... você ia dizendo como o conheceu. – Não... deixe que ele lhe conte... – Mas vocês dois estão...? – fez uma expressão facial, como querendo que ela completasse a frase, mas Mirta se manteve em silêncio. Então ele insistiu: – você sabe... – Se você quiser saber alguma coisa, basta perguntar. – Vocês estão namorando? Ela deu uma gargalhada, mas não com desdém. Ao contrário, com extrema espontaneidade: – Não. Acabamos de nos conhecer. Tivemos uma simpatia mútua e imediata, só isso... Acho Bakar bondoso e engraçado, mas pretendo ser apenas sua amiga. Kadriel teve uma sensação estranha diante daquelas palavras. Conhecia seu amigo e já notara que ele estava completamente apaixonado pela


TALAL HUSSEINI 121 moça. Ela não parecia ter os mesmos sentimentos em relação a ele, o que podia não ser muito bom. Mas algo dentro de Kadriel gostara daquelas palavras. Ela era realmente muito bonita... 21. aggi partira cedo, junto com Tarin, seu empregado e braço direito. Tarin cuidara de seu pai e agora cuidava de Haggi. Não lhe deixava faltar nada. Antecipava suas necessidades, trazendo as soluções antes que Haggi sequer pensasse que tinha um desejo. Era um homem de certa idade, apesar de parecer bem mais jovem do que realmente era. Pele parda, sem nenhuma ruga, cabelos grisalhos, olhar discreto, mas profundo, o que só um observador mais atento poderia ver. Já havia providenciado tudo o que seria necessário para a viagem por terra. Os barcos não agradavam a Haggi, que preferia a possibilidade de durante o trajeto encontrar-se com pessoas do povo, cujas palavras traçavam o mais fiel retrato do país e dos anseios da população. Viajavam a cavalo, mas com vestimentas comuns, que não denotavam a origem nobre de Haggi. Não era vantajoso chamar muito a atenção naquelas estradas. A meio caminho da cidade que ficava sob o domínio de Nakan, líder da Aliança dos Doze, pararam numa estalagem, pois já se fazia noite. Depois de instalados, foram até a taverna que funcionava no mesmo local. Estava lotada. Muitas pessoas bebiam, conversavam em voz alta e gargalhavam. Discretamente, se instalaram numa mesa no fundo do salão, de costas para a parede e de frente para a porta de entrada. Daquela posição, Haggi observava todo o ambiente. Rapidamente havia contado quantas pessoas havia, e sua disposição nas mesas, quais H


122 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO estavam já alterados pelo vinho, quais poderiam ser perigosos, e todas as informações que lhe pudessem ser úteis. Tal habilidade, que era para ele um hábito, fora fruto de muito treinamento. Haggi observava o estalajadeiro, um homem de meia idade que não estava bebendo álcool e que, como ele, perscrutava a tudo e a todos. O homem estava suado e com aspecto cansado, por estar procurando atender a todos, mas feliz por ver seus lucros indo de vento em popa. Haggi tomava sossegado uma sopa acompanhada de vinho e percebeu a entrada de três homens de feição sisuda. Imediatamente sabia que causariam algum tipo de problema. Reparou que o estalajadeiro também notou a presença dos homens. Ambos, entretanto, permaneceram impassíveis. Haggi, automaticamente, avaliou que objetos naquele local poderiam transformar-se em armas, para uma eventualidade. Eram, sem dúvida, caçadores, pois portavam arcos e aljavas, bem como traziam os ombros guarnecidos por peles de animais abatidos. Foram em direção a uma das mesas, onde estava sentado um jovem corpulento, que Haggi identificou como sendo um ferreiro ou algo do gênero, pelas roupas e tipo físico. Usava uma camisa sem mangas, nos pulsos largos braceletes de couro. Os braços queimados denotavam exposição constante ao calor. Do lado esquerdo da cinta, levava uma adaga rústica, que os homens que chegaram não viam, eis que a mesa a ocultava. As deduções do diplomata foram confirmadas quando aquele que parecia ser o líder dos caçadores jogou sobre a mesa uma dessas armadilhas de caça que consistem numa boca dentada, de ferro, que é forçada a ficar na posição aberta e quando acionado um dispositivo de molas no seu centro, geralmente pela pisada do animal – a armadilha está escondida sob folhas – se fecha fortemente sobre a presa, prendendo-a pela pata, que imediatamente se quebra com o impacto. A presa não morre e nem tem sua pele danificada, o que é bom para a venda.


TALAL HUSSEINI 123 – Este conserto que você fez está uma porcaria! A mola não tem pressão, os animais escapam. O ferreiro permaneceu impassível, limitando-se a analisar o objeto com os olhos, que em seguida se voltaram novamente para a sua comida: – Eu não consertei essa armadilha – respondeu secamente. – Como não consertou? Você trocou o sistema de molas há duas semanas e já não está funcionando. – Já disse que, se isso foi consertado por alguém, não foi por mim. – Você está me chamando de mentiroso?! A essa altura, todos já haviam percebido a altercação e voltavam suas atenções para aquela mesa. Muitos se levantaram. O ferreiro respondeu com tranquilidade: – Estou dizendo que jamais coloquei minhas mãos nessa peça. Se você é ou não mentiroso não posso afirmar pois não o conheço bem. Suas amigas aí atrás é que poderiam responder melhor... – ao proferir essa ofensa já se levantou, aproximando a mão da faca, esperando uma reação mais dura. Foi o que um dos acompanhantes do caçador pretendeu fazer, mas este o conteve. – Não queremos problemas, apenas quero que seja realizado o serviço pelo qual paguei. – De fato você me pagou pelo conserto de uma armadilha, mas não foi esta. Veja: este sistema de molas não é o que eu utilizo, inclusive nem se utiliza nesta região. – Penso que não estou sendo bem claro. Se você não quiser consertar esta armadilha vai terminar com o seu pescoço no meio dela. – Vai ser preciso bem mais do que vocês três para colocar o meu pescoço aí.


124 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO O clima estava bem quente. Haggi percebeu a apreensão do proprietário do estabelecimento. Várias opiniões começaram a surgir por entre os frequentadores, mas dificilmente se percebia o autor de cada intervenção: – Se fez um serviço mal feito, tem de arrumar! – disse alguém. – Esses caçadores são muito arrogantes, provavelmente estão mentindo... – interveio outro. – Esse ferreiro faz tudo mal feito. Deve ter estragado a armadilha... – Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Um dia é da caça e outro do caçador – proferiu um homem que já estava embriagado. Todos o olharam, fazendo alguns segundos de silêncio para então retomar as discussões. Entrementes, as partes envolvidas já estavam na iminência do confronto físico. Foi quando Haggi resolveu interferir. – Senhores, não pude deixar de ouvir sua interessante discussão, a respeito de armadilhas de caça... – E posso saber quem é o senhor – interveio o caçador. – Quem eu sou é o que menos importa neste momento. O que importa é que a discussão já se vai acalorando, a ponto de logo se iniciarem as vias de fato, o que seria desagradável para o meu jantar e para o estabelecimento. O proprietário aprovava suas palavras com a cabeça. Mas os contendores não compartilhavam dessa aprovação. Desta vez foi o ferreiro que intercedeu: – Creio que podemos resolver muito bem nossos problemas. É melhor o senhor voltar para a sua mesa e continuar sua refeição se não quiser arrumar problemas para si mesmo. Haggi não se abalou com a ameaça e prosseguiu em tom sereno: – É claro que vocês podem resolver seus problemas, mas não penso simplesmente em resolver problemas, penso em como podemos todos ganhar com isso... – enquanto os dois homens pensavam em suas pala-


TALAL HUSSEINI 125 vras, Haggi continuou, voltando-se para o ferreiro: – o senhor é capaz de consertar este tipo de armadilha? – Evidente que sim. Não só consertar como melhorá-la... Este sistema de molas é antiquado, perde muito rapidamente a força. Na minha opinião deveria ser substituído por outro mais eficiente. – E o senhor faz essa substituição... – o ferreiro assentiu. Neste ponto o caçador nada dizia. Haggi o interpelou: – o senhor utiliza muitas armadilhas como esta? O homem não hesitou em responder, com certo ar de gabação: – É claro! Nosso grupo caça muito. Temos algumas dezenas destas. – Então, é possível que o senhor tenha-se enganado, e que a armadilha deixada para conserto seja outra? O homem pareceu apanhado de surpresa por aquela pergunta. Havia caído na armadilha de Haggi. Sustentou seu ponto de vista, já sem tanta convicção: – Conheço cada uma das minhas armadilhas... foi esta que ele consertou... O ferreiro já ia responder alguma coisa, mas Haggi se antecipou: – Também conheço de armadilhas, eis que venho de uma família de caçadores, e de fato este tipo de mola não é utilizado nesta região. Mas entendo que quem tem tantas armadilhas semelhantes possa cometer um engano inocente em relação a isso. De todas essas armadilhas, suponho que muitas já estejam precisando de reparos e manutenção. Por que não as traz todas para nosso amigo ferreiro consertar? – Espere um momento, amigo, eu não trabalho de graça. Cobrarei cada conserto e para esse indivíduo – olhou com desdém para o caçador – o preço é mais alto. – Você vai cobrar o preço justo, porque ele será um excelente cliente, que tem muitas peças para consertar. E as terá sempre. Mais vale ganhar menos e sempre do que ganhar muito apenas uma vez – decretou Haggi


126 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO com autoridade. Desta vez foi o caçador a ponderar, já em tom mais moderado: – Mas o problema é que eu não tenho como pagar por todos esses consertos... – Viu só? – disse o ferreiro, com ares de quem tinha razão. – Com armadilhas ruins você caça bem menos, certo? Se ele não caça e não tem dinheiro, são vários trabalhos de conserto a menos, não é? Eis o que vamos fazer. Haggi chamou os dois homens num canto e lhes pediu que viessem apenas os dois, deixando seus respectivos amigos de lado: – Primeiramente, me prometam que escutarão minha proposta até o final, sem interrupções – os dois homens concordaram – depois, se não quiserem segui-la, tomo meu rumo e o problema será de vocês. Você consertará cinco armadilhas dele, sem cobrar nada – o ferreiro se retesou, mas manteve sua palavra de não interromper – agora. Mas depois de conseguir caça, você pagará por esse serviço, acrescendo um décimo ao seu valor em retribuição à confiança e ao crédito que o ferreiro lhe deu. As peles conseguidas você vai negociar com um amigo meu. Mostre-lhe isto – estendeu um pequeno pedaço de pergaminho com um símbolo desenhado – e a partir daí os negócios com ele ficam por sua conta. Já aviso que ele só trabalha com material de primeira, mas paga bem mais do que nestas redondezas. Quando você voltar para pagar pelo primeiro conserto, deixará mais cinco armadilhas para consertar, pagando adiantado desta vez. O ferreiro lhe cobrará um décimo a menos no valor dos serviços, em face do adiantamento. Na próxima vez, você trará mais cinco armadilhas para consertar, e a partir daí o pagamento será no preço normal, sendo metade ao deixar as armadilhas e a outra metade ao retirá-las. Todos ganham. Você caçará mais com armadilhas boas. Estas sempre precisarão de reparos, pois quando as últimas estiverem consertadas, já as primeiras precisarão de novos reparos. É um ciclo que não termina.


TALAL HUSSEINI 127 Os dois homens se olharam, olharam para Haggi. Por mais que tentassem pensar em alguma falha naquele plano, não conseguiam. Foi o ferreiro que tentou, já esperando por uma resposta: – Mas e se ele não aparecer mais para me pagar o primeiro conserto? – Então você terá o prejuízo desse serviço, mas eu ficarei sabendo e ele não mais conseguirá vender sua caça para o meu contato. Então, todo o ciclo que descrevi ficaria corrompido e ninguém sairia ganhando. Só idiotas fariam isso. Como sei que vocês não são idiotas, creio que o plano funcionará – os dois concordaram – então vamos selar este acordo com um brinde? Os três se cumprimentaram, brindaram e continuaram conversando. Os caçadores e os amigos do ferreiro, que olhavam à distância, não entendiam o que se passava. Estavam desejosos de uma boa briga, mas suas expectativas foram frustradas pelo estranho. Não restava senão continuar a se divertir. Os três homens ainda permaneceram algumas horas conversando, como velhos amigos. Haggi tinha este dom: fazer com que pessoas que acabara de conhecer se sentissem à vontade com ele, a ponto de lhe confiar seus mais recônditos segredos. Aproveitava essas oportunidades para perquirir sobre o que o povo pensava dos governantes, da política, das necessidades. Para um governante é importante ouvir a população, não esperando dela soluções, mas para ter uma correta leitura dos problemas. Haggi conquistara, naquela noite, dois amigos, dois aliados. Não eram nobres, não tinham exércitos, mas tinham lealdade. Homens leais são sempre importantes nos momentos difíceis. Na verdade, conquistara três aliados, pois ainda que ninguém mais reconhecesse o valor daquela intervenção, ao menos um homem reconhecia: o dono do estabelecimento, que já contabilizava os prejuízos que a briga poderia causar. Todos que conheciam sua fama de sovina estranharam quando ele ofereceu uma rodada por conta da casa. Todos, exceto Haggi.


128 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO 22. adriel tinha uma curiosidade histórica sobre Ravi, e como ganhavam intimidade a cada dia, resolveu perguntar por que seu pai não sucedera Gur Medhavin e depois o próprio Ravi, que seria então Rei a esta altura. Ravi respondeu com a mesma naturalidade de sempre. Os meandros do poder não exerciam sobre ele nenhum apelo. Tratava o assunto sem qualquer exaltação, apesar de ser descendente direto de um dos maiores dirigentes da história recente. Foi nesse tom que Ravi respondeu: – Kadriel, não falemos num governo de sábios, pois já nos esquecemos o que é isso. Mas mesmo em um governo de filósofos, como já experimentamos em nosso País, a sucessão não se dá por linhagem sanguínea e sim por retidão, capacidade e solidez moral. Normalmente, um soberano procura preparar para sucedê-lo seus filhos de sangue, aos quais poderá dar exemplos próximos e práticos de como governar. Mas muitas vezes o Destino intervém para subverter isso que em nossa visão limitada parece ser ordem, em prol de uma ordem superior, que resta de difícil entendimento para os homens. Às vezes, a despeito de esmerada educação, aquele que deveria suceder se deixa dominar por sua personalidade e fica suscetível a vícios inaceitáveis num governante. Não poderá, então, suceder. Se força essa situação, lança o caos. A personalidade é como um cavalo que deve ser domado, ora com carícias, ora com chibatadas. Mas pobre do cavaleiro que se deixa conduzir pelo cavalo ao invés de conduzi-lo. Perder-se-á do caminho ou será jogado ao chão onde perecerá. Ravi parou diante de uma flor, observou-a durante longos minutos. Kadriel não ousou interromper aquele momento de contemplação. Ao contrário, conseguiu compartilhar a admiração que Ravi demonstrava K


TALAL HUSSEINI 129 por uma simples flor. Quase pôde vislumbrar a perfeição que pode conter uma pétala. Como uma flor transcende os sentidos para despertar percepções naquele que, ao olhar, sabe ver... Ravi retomou suas palavras como se não as tivesse largado: – Meu avô foi um homem precoce na vida e na morte. Foi um soldado no período das guerras incessantes que assolaram nosso País. Por coincidência, por destino ou por arranjos do Universo – escolha o que preferir –, numa batalha decisiva, todos os oficiais superiores de sua unidade sucumbiram. De forma natural, Gur assumiu a liderança dos soldados. Foi um daqueles instantes que só acontecem em combate. Ninguém precisou dizer nenhuma palavra, ele sabia que devia liderar e todos sabiam que ele devia ser o líder. De uma situação de inferioridade, ele obteve uma vitória estrondosa. Era um militar nato. Quando isso ocorreu, tinha apenas dezoito anos de idade. O Imperador o nomeou General de Campo. Num período de um ano, tornou favorável nossa situação na guerra, o que àquela altura parecia impossível. Esta é uma característica dos grandes homens: conquistar o impossível. Mesmo aqueles que por convicção ou por inveja haviam se manifestado contrariamente à sua nomeação tiveram de reconhecer sua capacidade. Kadriel ouvia atentamente, como se não quisesse perder nem um detalhe. Ravi relatava como se tivesse presenciado os fatos. E Kadriel também os vivenciava naquele relato: – Foi então que o Imperador surpreendeu ainda mais a todos, inclusive ao próprio Gur: nomeou-o seu sucessor e afastou-se do trono ainda em vida. Inicialmente Gur Medhavin relutou, se dizia um soldado e não um governante, mas o Imperador, com a visão que só os grandes dirigentes têm, lhe mostrou que esse era o caminho e o demoveu das suas resistências. Não fosse a firmeza de caráter e o prestígio com que contava o Imperador, aquele menino de apenas dezenove anos não teria resistido às pressões. Mas até a sua morte o Imperador se manteve ao lado


130 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO do jovem, como seu Mestre e conselheiro. Gur Medhavin ainda enfrentaria mais sete anos de guerra em seu governo e depois mais sete anos de paz. No período de guerra, Gur Medhavin não perdeu uma única batalha, por menor que fosse. E a paz foi conquistada da maneira mais inusitada possível, da maneira guerreira. Gur pacificou os inimigos já sem, no final, precisar sequer lutar. Consolidou o apoio das lideranças regionais, criando a Aliança dos Doze, que eram os dirigentes das doze maiores cidades do Império. Durante esse período de paz, deu acesso a alimentos a todos com uma agricultura eficiente, promoveu a educação, calcada no senso de justiça, na vivência moral, na importância de falar a verdade, no domínio do medo. Deu suporte à cultura e à ciência, criando bibliotecas e universidades, fundou templos, permitindo a liberdade de religiões, exceto a feitiçaria. Fundou uma escola de dirigentes, onde se poderiam preparar aqueles que fossem exercer cargos públicos. Teve muitas realizações. Os olhos de Kadriel brilhavam ao pensar que tudo aquilo era possível. Sim, se já havia existido, poderia voltar a existir. Ravi continuou, ciente de que a maior curiosidade de Kadriel não havia sido respondida, ainda que ele não se lembrasse: – Tudo isso foi elaborado num período curto, pois, como disse, Gur Medhavin não foi prematuro somente na vida, mas também na morte. Morreu aos trinta e três anos, quando meu pai tinha apenas oito e não poderia sucedê-lo. Deixar o trono para um menino, que dependeria de um tutor, seria inconcebível e jogaria por terra todas as conquistas. Gur era consciente. Nomeou como seu sucessor um homem de sua extrema confiança: o pai de Sokárin. Mas Gur decretou que a partir de então não haveria mais Império e sim um Reino. No futuro, quando as condições se apresentassem novamente, o Império ressurgiria. Kadriel conseguia ver a admiração com que Ravi se referia ao Imperador Gur Medhavin e partilhava dessa admiração. Mais do que isso,


TALAL HUSSEINI 131 partilhava do sonho de reconquistar aquelas épocas gloriosas. Absorvido por aquelas palavras, assumia definitivamente o seu destino. Entendia por que Sokárin o havia escolhido e por que lhe ordenara lutar pelo poder. Kadriel, como Gur, não queria o poder, e era exatamente isso que o legitimava. Somente quem não deseja o poder para si saberá usá-lo em benefício da justiça. Estava pronto para a batalha. Ao chegar no palácio de Nakan, Haggi foi recebido com todas as honras de um grande líder. Enquanto alguns empregados, juntamente com Tarin, tomavam conta de seus pertences, o próprio Nakan veio ao seu encontro para dar as boas vindas. Nakan era um homem de seus cinquenta e tantos anos, cabelos grisalhos nas têmporas, olhos negros despertos, mãos largas, o que denunciava um bom soco. Estava em boa forma física, aspecto militar. Haggi pôde sentir sua força quando o cumprimentou com um aperto de mãos, reforçado pela outra mão agarrando com vigor o pulso de Haggi. – Haggi Eitan! Há quanto tempo não nos vemos. Fiquei feliz quando chegou o mensageiro anunciando sua visita. Sempre passamos momentos agradáveis quando nos encontramos. Você sabe, fora da Capital, é difícil encontrar conversas refinadas. A mensagem, entretanto, não incluía o motivo da visita, mas deixemos para tratar disso após o jantar. Há um bom banho quente preparado para você nos seus aposentos. Ivis irá acompanhá-lo – concluiu, indicando uma bela moça que aguardava em silêncio o fim da conversa. – Nakan – respondeu Haggi, com o mesmo entusiasmo de seu anfitrião – eu é que fico honrado em ser recebido na sua corte. Como estão as coisas na principal cidade da aliança? Vejo que seu bom gosto para as coisas belas da vida não se perdeu – acrescentou, fazendo referência a


132 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Ivis – vejo também que você mantém sua boa forma. Espero termos tempo para um combate com sabres. – É sempre uma honra combater com alguém hábil. Por aqui já não tenho adversários. Mas teremos tempo para isso nos próximos dias. Por hora, descanse da viagem. Mandarei chamá-lo para o jantar. Então poderemos conversar melhor. – Agradeço-lhe desde logo a hospitalidade. Vou aceitar de bom grado a oferta do banho, pois a viagem para cá não é das mais confortáveis. – Até mais tarde, então. Ivis, com um sorriso, pediu a Haggi que a acompanhasse. Disparou, lépida, pelos corredores, deixando atrás de si um rastro inebriante de perfume de flores. Aquele aroma, por si só, já dissipava o cansaço do diplomata, que era um emérito apreciador do sexo oposto, sabendo ler com precisão o corpo e a psiquê femininos. Deixou-se conduzir pela moça, que lhe indicou seu quarto, junto ao qual havia uma casa de banho com uma banheira esfumaçante, preparada com ervas aromáticas. Ivis fechou a porta atrás de si. Olhou para Haggi com seus lindos olhos cor de mel, cabelos ruivos cacheados, tez branca, e declarou com naturalidade: – Nakan me ordenou que cuidasse muito bem do senhor – disse aproximando-se de Haggi. Ela sorria com os olhos. Esta é uma característica admirável nas pessoas, principalmente nas mulheres: sorrir com os olhos. Ivis não possuía qualquer traço de vulgaridade ou lascívia, era linda e discreta, mesmo oferecendo entregar-se ao visitante. Haggi, apesar do encantamento que o tomou, respondeu como um cavalheiro: – Ivis, você é belíssima! Muito me agradaria sua companhia, desde que fosse por sua própria vontade e não por ordens de Nakan. Sei que ele quer agradar-me e sou grato por isso. Vejo também que ele não poderia ter escolhido melhor, pois você é, além de bela, discreta, o que é


TALAL HUSSEINI 133 uma qualidade adorável. Tem os mais lindos olhos em que um homem poderia querer mergulhar, silhueta digna das princesas, perfume de rosas. Apenas lhe peço uma coisa: me chame de Haggi, não de senhor... – Sim, senhor, quer dizer, sim... Haggi. Quer que o deixe, então? Se não o agrado, Nakan pode providenciar outra companhia... – Não, por favor – interrompeu Haggi – espero que você me dê a honra de sentar-se ao meu lado no jantar. Agora estou de fato muito cansado e vou aproveitar estes momentos para me recompor. Quando você estiver ao meu lado sem falar em Nakan e sem pensar nas ordens que ele lhe deu, tenho a certeza de que nos entenderemos muito bem. – Com licença. Haggi consentiu com a cabeça. Ivis retirou-se, fechando atrás de si a porta. Haggi soltou a respiração de uma só vez, sentando-se na cama. Mais alguns segundos e não teria resistido. Ivis era simplesmente maravilhosa. Normalmente teria aceitado de imediato a proposta de uma mulher como ela, mas aquela moça era especial, ele reconhecera isso desde quando a vira no saguão. Ela deveria ser uma conquista plena. E ao não usurpar seu corpo, ganhara pontos no seu coração. O diplomata afundou-se na banheira para apaziguar seu ânimo. Os serviçais haviam deixado sobre a cama uma túnica para ser usada durante o jantar. Haggi a vestiu. Sentia-se confortável no palácio de Nakan, apesar de estar acostumado a muitas cortes, de vários países. Desceu para o salão em que seria servido o jantar. Ao deparar-se com o número de cortesãos, percebeu que não seria fácil ter os momentos de privacidade com Nakan de que precisaria para tratar dos assuntos de estado. Aproximou-se sorridente do governador, ao lado do qual havia um lugar que lhe estava reservado.


134 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO – Ivis não lhe agradou, meu caro Haggi? Posso providenciar outra moça para cuidar de você em sua estada. Quem sabe mais de uma...? – Ivis me agrada muito, Nakan. Mas você me conhece. Sabe que gosto de realizar sozinho minhas conquistas amorosas. – Quem falou em amor? Estou falando de companhia e diversão. Veja – disse, olhando em direção a um grupo de moças, dentre as quais se encontrava Ivis. Ela olhou na direção dos observadores e sorriu. Nakan alçou sua taça em direção a ela. Haggi devolveu o sorriso, pensando consigo mesmo o quão encantadora ela era. – Nakan, você sabe que não estou aqui somente para me divertir e passear. A visita é oficial, determinada pelo Senador Rohel. Ele me pediu que verificasse como as doze cidades estão vivendo a expectativa da sucessão e que assegurasse seu apoio e união em torno do novo rei. – Haggi, sei que você está ansioso para resolver as questões políticas que o trouxeram até aqui, mas agora há muitos ouvidos atentos por perto. Deixemos essas conversas para outro momento, quem sabe durante uma luta de sabres amanhã...? Como bom diplomata, Haggi entendeu de imediato que o governador não queria tratar de assuntos de estado naquele momento. Dançou conforme a música: – Isso é um desafio? Alguma vez você já me venceu com o sabre, Nakan? – Não me lembro é de você alguma vez ter me vencido. – Se sua luta estiver tão ruim quanto sua memória não terei muita dificuldade. Haggi aproveitou o assunto de lutas, querendo sondar as possibilidades bélicas da Aliança: – Meu nobre Nakan, você sabe que lhe guardo muito respeito, mas você é um general de um exército de brinquedo. Muito bem treinado, é


TALAL HUSSEINI 135 verdade... Mas como saber se no fragor da luta real se irão portar como verdadeiros guerreiros? Nakan, compreendendo de imediato aonde Haggi queria chegar, não se ofendeu, pelo contrário, respondeu na linguagem do jovem – com diplomacia –, puxando para perto de si um pequeno gato que estava ao seu lado, atado por uma coleira: – Haggi, meu caro, você vê este filhote de leão? Foi retirado da selva recém-nascido, por caçadores que abateram sua mãe e mo deram de presente. Sem ela, não teria qualquer chance de sobrevivência lá fora. Aqui no palácio, é adulado pelas cortesãs e criado junto aos gatos domésticos e animais de companhia, brincando com as ovelhas – parou de falar, acariciando a cabeça do gatinho, que, nervoso, procurava livrar-se da contenção, mordendo e arranhando, sem a força necessária, as mãos que o retinham. Haggi aguardou a conclusão, que não demorou: – Você acha que por ter sido criado entre ovelhas, perderá sua natureza de leão? – nesse momento o pequeno felídeo conseguiu finalmente encaixar uma boa mordida na mão de Nakan, que o soltou, mostrando a Haggi o pequeno corte, com um levantar de sobrancelhas. – Você tem razão: um leão será sempre um leão. Resta saber de quem será a mão que ele irá morder... Os dois riram, para quebrar o rumo sério que a conversa tomara, e passaram a conversar amenidades. Falaram dos lugares em comum que tinham visitado. Falaram de história e de filosofia. De mulheres e de lutas, enfim, de todos os assuntos possíveis para desviar da sucessão. Mas Haggi entendera a mensagem: um guerreiro seria sempre um guerreiro, pronto para a batalha, bastando que ela se apresentasse. Pensava consigo mesmo que ter aquele leão do seu lado seria muito melhor do que tê-lo contra si.


136 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Pediu licença ao governador e foi em direção a Ivis, que lhe sorriu, com os olhos... 23. odo o Reino vivia a agitação do dia da abertura da placa, que finalmente era chegado. Seria exposto, na Pedra dos Mil Reis, o nome do sucessor de Sokárin. O País passara por um período de luto e reflexão para alguns, e de planejamento e conluio para outros. A ansiedade incontida teria fim. Aqueles cujas possibilidades eram reais experimentavam verdadeira tensão. Golan, filho de Sokárin, era o mais nervoso. Acompanhado por seus acólitos, não conseguia disfarçar a impaciência. Só adentravam ao salão real os senadores, os ministros de estado e funcionários de alto escalão, os nobres e algumas pessoas convidadas. A população permanecia do lado de fora, na grande praça em frente ao palácio. A multidão tomava todas as ruas dos arredores. O burburinho era grande. Em alguns momentos, pequenos grupos ensaiavam um coro com nome de sua preferência. Mas logo era retomado o silêncio da expectativa. Era um momento ímpar. Dentro do salão real, a cerimônia era presidida pelo Senador Rohel, na qualidade de Chefe do Conselho dos Anciãos. Próximos a ele, na parte mais elevada do salão, onde ficava a Pedra, o Primeiro-Ministro Adaran, Golan, os demais senadores e alguns guardas reais estrategicamente espalhados, imóveis em seus trajes negros que impunham sóbrio respeito. O Senador Rohel tomou a palavra, acenando para o público ali presente, a fim de que se fizesse silêncio: T


TALAL HUSSEINI 137 – Autoridades aqui presentes, cidadãos das mais respeitadas famílias do reino, servidores do Estado, população que preenche as ruas fora deste palácio a aguardar o nome de seu novo soberano, damas e cavalheiros, é chegado o momento por que todos tanto esperamos: a revelação da placa de pedra que guarda o nome daquele que irá dirigir este Reino daqui por diante. Qual é o nome que ali está é o que menos importa agora! Porque a partir do instante em que for revelado assumirá não apenas um título, mas um encargo, o pesado encargo de governar. Fez uma pausa e prosseguiu: – Governar com sabedoria é tarefa das mais difíceis. Exige denodo, abnegação, renúncia à vida pessoal. Dedicar-se ao Estado e ao povo demanda afastar-se de si mesmo, e aproximar-se de si mesmo. Afastarse da personalidade traiçoeira e aproximar-se do espírito clarividente. Exige intuição, que é a visão direta das coisas, despida da intermediação dos sentidos. Confiamos em nosso monarca Sokárin para ter sabido escolher aquele que reunirá essas condições. Como disse, o nome não importa tanto quanto a confiança em que o escolhido assumirá as vestes de um verdadeiro estadista, de um verdadeiro rei. O apoio incondicional de todos será imprescindível para o futuro deste país. Como é de praxe, antes da abertura, fica aberta a palavra aos ministros de estado e aos senadores que dela queiram fazer uso. Depois da abertura, somente o silêncio respeitoso. Passaram-se alguns segundos, até que um velho senador deu um passo adiante e educadamente aguardou que o presidente da cerimônia lhe outorgasse a palavra: – Ainda não foi encontrada a placa solicitada por Sokárin, nem gravada e nem destruída. Mas o simples fato de ter ele solicitado outra placa significa de forma muito clara uma coisa: o nome que aí está não era o do seu desejo – dando um passo atrás o ancião voltou à sua posição original.


138 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Um burburinho se fez sentir no salão. Outro senador pediu a palavra, e iniciou sua intervenção mal esperando a licença do Senador Rohel: – O nobre colega deverá desculpar-me, mas não comungo da sua opinião. Entendo que sua manifestação foi intempestiva, tendo por único fim lançar a dúvida e a discórdia em torno do nosso novo soberano, seja ele quem for. Nenhum outro nome foi cogitado, nem placa alguma foi encontrada. Assim sendo, devemos esquecer que ela um dia existiu, devemos esquecer que Sokárin a solicitou, devemos prestar nosso integral apoio ao novo Rei. – Discordo – intercedeu outro, já sem praticamente pedir licença ao presidente da cerimônia, que já dava mostras de impaciência – no nosso sistema sucessório, o Rei é quem escolhe quem deverá substituí-lo, sua vontade é determinante. Sokárin requereu outra placa, como esta não foi encontrada, não sabemos qual seria o nome da sua vontade, mas sabemos que por certo não é o nome que aí está! Estava criado o debate. Não havia como voltar atrás, pensava Rohel. Tinha de pensar numa forma de apaziguar os ânimos, pois era certo o que todos haviam dito até aquele momento. De fato, possivelmente o nome que ali estava não era o dos desejos de Sokárin, mas era o único de que dispunham. Já se fazia difícil conter a audiência. O vozerio tomava conta do ambiente. Do lado de fora, o povo não entendia o porquê de ainda não ser conhecido o nome do novo Rei, mas já circulavam rumores sobre o debate que se travava no interior do palácio, o qual se reproduzia nas ruas, com as devidas proporções retóricas. Dentro, a discussão se acirrara. As opiniões formavam duas facções de mesmo peso numérico. Kadriel, que assistia à cerimônia ao lado de Ravi, mantinha-se sereno. De algum modo, a situação que se apresentara lhe dava forças, pois não ficava completamente desprovido de argumentos na luta que pretendia entabular. O futuro próximo não seria pa-


TALAL HUSSEINI 139 cífico, mas justificaria o porvir. Na mente e no coração de Kadriel não havia lugar para o cinza, ele conseguia distinguir perfeitamente, naquele momento, o branco do negro... Quem tomou novamente a palavra, com o intuito de pôr fim à pendenga, foi o Senador Rohel. Respeitabilíssimo, conseguiu recompor o silêncio e pôde se manifestar com tranquilidade: – Senhores, senhores, por favor, todos que aqui se manifestaram o fizeram com muita propriedade, tanto na forma de se expressar, demonstrando cultura, discernimento e conhecimentos profundos de oratória, quanto no mérito dessas expressões. É fato que ter o Rei Sokárin solicitado outra placa poderia indicar a vontade de alterar o nome que aí está. Por outro lado, essa vontade só se consolidaria com a efetiva substituição da placa, uma vez que antes disso muita coisa poderia acontecer: poderia voltar atrás em sua opinião, por exemplo. Sei que alguém poderia argumentar que nesse caso o Rei deveria devolver a placa aos sacerdotes para que fosse destruída. Mas não o fez. Talvez lhe tenha faltado tempo para isso, assim como esse mesmo tempo pode lhe ter faltado para fazer a substituição da placa. Nem uma coisa, nem outra. E mais, não há sequer sinal dessa nova placa, não se sabe se chegou mesmo a ser gravada. Mas nada disso importa mais. Nossas leis são muito claras ao dizer que eventual alteração somente será convalidada com a cerimônia de substituição da placa conduzida pessoal e privativamente pelo Rei. Tal cerimônia não teve lugar. O único nome que temos para a condução do nosso reino é o que está velado por essa chapa de metal. O mais sábio que podemos fazer neste momento é prosseguir com esta cerimônia, prestando nosso suporte ao novo monarca. Assim sendo, se ninguém mais tiver nenhum pronunciamento relevante, prosseguimos com a abertura. Como ninguém se manifestasse, Rohel aproximou-se da estela, sacou um anel da sua mão esquerda e outro da direita, este último era o anel de


140 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Sokárin que ficara sob sua custódia até aquele dia e que logo passaria às mãos do Rei. Os anéis eram as chaves que reunidas serviriam para remover a placa de metal que recobria a placa de pedra com o nome gravado. Rohel inseriu os dois anéis nas posições corretas, mas eles não giraram como deveriam. De fato, havia uma resistência. Talvez o tempo que a placa ali estivera tivesse gerado uma oxidação do metal que agora o prendia. Dois guardas reais se aproximaram a um sinal do Senador. Os anéis finalmente giraram, mas a chapa continuava presa. Era uma situação inusitada e um tanto desconfortável. Os mais supersticiosos se apressavam em imaginar que o fantasma de Sokárin segurava a placa por não desejar aquele nome. Foi trazido um pé-de-cabra, com o qual se forçou a retirada da chapa de metal. A chapa finalmente cedeu, mas com o esforço algo desagradável ocorreu: a placa de pedra com o nome rachou ao meio. Para desfazer a tensão criada, Rohel prosseguiu como se nada tivesse acontecido – o que era difícil, pois o estalo da pedra quebrando foi ouvido em todo o salão, que guardava silêncio mortal – revelou a todos em voz alta: Adaran. Foi nesse instante que todos tiveram um sobressalto. O chão tremeu por alguns segundos, parou, e voltou a tremer por mais alguns segundos, fazendo-se ouvir um forte estrondo. A agitação entre os presentes e nas ruas foi grande. Todos acorreram às janelas do salão. Nas ruas, viam-se muitos braços apontando na direção de Anthar. Uma coluna de fumaça cinza escura, quase negra, se elevava aos céus. O vulcão, inerte havia muito tempo, dera um sinal de vida. Não era uma erupção, mas o velho Anthar vivia... e usurpava o momento de glória de Adaran.


TALAL HUSSEINI 143 24. ulil tinha-se desenvolvido muito como discípulo desde a prova no deserto, na qual enfrentara a tempestade de areia como um falcão. Seu laço de confiança com Montuhotep era absoluto. Por isso, não questionou, nem sequer em pensamento, quando o velho Mestre lhe deu uma missão que parecia impossível: – Mulil, preciso que você realize uma tarefa de extrema importância. Não tenho mais ninguém a quem possa confiá-la, exceto você; – fez uma pausa e prosseguiu – quero que você saia da cidade pelo lado oeste, em direção ao deserto. E não pare, senão para descansar, durante sete dias, sempre perseguindo o Sol poente. Todos sabiam que o deserto era imenso e voraz naquela direção. Ninguém se aventurava naquele sítio inóspito, nem mesmo os bandos de saqueadores nômades, até mesmo porque não havia quem saquear. Uma missão de um homem só, com os víveres que ele pudesse carregar, só conseguiria caminhar três dias, considerando outros três para voltar. Quatro dias viajando não deixariam margem para o retorno. Mas Mulil não pôs isso em questão. Simplesmente assentiu com a cabeça e perguntou: – Quando parto? – Amanhã, ao raiar do dia. – Mais alguma coisa que devo saber? – Se você estiver à altura do desafio, o deserto lhe dirá. Apenas lembre-se de tudo que já aprendeu. E mais uma coisa: o deserto é caprichoso, um passo fora da trilha e você poderá nunca mais reencontrá-la. E, para um discípulo, perder a trilha é o pior dos castigos. Agora, sugiro que você comece os preparativos para a viagem. Mulil obedeceu sem pestanejar. M


144 PAZ GUERREIRA - FORÇA Outra pessoa talvez tivesse feito mais perguntas. Mulil nada perguntou. Outro discípulo talvez tivesse dúvidas. Mulil não teve nenhuma dúvida. Outro talvez tivesse medo. Mulil não teve medo. Era uma jornada ao desconhecido, ao deserto profundo, ao nada... O que Montuhotep pedia levaria certamente à morte. Mas era o seu Mestre quem pedia. Do que já aprendera, Mulil repetia para si mesmo sempre uma máxima: confiar nos Mestres até a morte. Agora lhe era dada a oportunidade de praticar esse ensinamento. Lançou-se sem hesitação ao desafio. Lançou-se ao deserto. Mulil partiu só e a pé, pois não considerava justo arrastar consigo mais nenhuma pessoa ou animal. A tarefa era sua. Caminhou sem maiores problemas durante os três primeiros dias. Na terceira noite, foi tomado por uma certa agitação. Sua mente de desejos começou a questioná-lo. Se quisesse sobreviver, na manhã seguinte devia começar o percurso de volta. Em contrapartida, seguir adiante significava ultrapassar o ponto sem volta. Dali em diante seria impossível completar o caminho de retorno. O castigo que duas noites e três dias no deserto já lhe haviam imposto até então era uma simples amostra do que estaria por vir. A dúvida assolou Mulil, qual a vaga atinge o rochedo. Aparentemente não lhe faz estrago, mas cria frinchas na pedra, enfraquece paulatinamente a estrutura do sólido para em algum momento derrubá-lo. Mulil estava ciente desse processo, mas as incertezas eram muitas. Dúvida, a fraqueza da mente. A única forma de impedir a queda do rochedo é evitar que a água o atinja. Mulil lutava para isto: evitar que a dúvida o atingisse. Resolveu deixar a decisão para o dia seguinte ao acordar. De qualquer modo, precisava descansar. Tinha então a dura tarefa de silenciar seus pensamentos e dormir. Sentia-se mais desgastado pelas


TALAL HUSSEINI 145 últimas horas de pensamentos do que por toda a sua caminhada. À noite, a temperatura caía quase ao ponto de congelamento da água, enquanto com o Sol a pino, o calor era muito maior do que o do sangue humano enquanto circula nas veias. O extremo calor e o extremo frio não eram o pior, mas sim a mudança brusca, que se dava em poucos minutos. Foi uma noite de muitos sonhos, na sua maioria pesadelos, situações confusas que não permitiam saída. Mulil já havia aprendido algumas técnicas básicas do estado onírico, como voluntariamente trocar de sonho ou fazer o sonho parar, mas naquela noite não conseguia aplicálas. Ficava encurralado num pesadelo, conseguia trocar de sonho e momentos depois se encontrava novamente na mesma situação. Acordou exausto antes do Sol. Saiu debaixo das suas mantas para o frio da noite desértica. O ar gélido o despertou, precisava decidir: prosseguir para a morte certa ou retornar e encarar a decepção de seu Mestre. Sem perceber, Mulil estava à mercê de sua mente inferior. Foi então que retomando os ensinamentos de seu Mestre parou de pensar, deixou a decisão para o coração. E seu grande coração lhe respondeu com uma única palavra que ficou ecoando em sua cabeça: abismo. Quantas vezes crescera quando se lançara ao abismo? Este era o maior dos abismos com que já se deparara... Sem mais cogitar, apanhou seus apetrechos e marchou sobre o deserto, deixando às suas costas o Sol que nascia. Não se voltou para ver o céu de azul claro sobre o horizonte dourado. Partiu em direção à noite, como se andando para oeste rápido o bastante pudesse fazer o tempo parar. Tornou ainda mais rígido o racionamento dos seus víveres e principalmente da água, que acabou por completo no quinto dia de jornada. Ainda tinha pão, mas parou de comê-lo para evitar que a sede o castigasse mais ainda. Mais se arrastava do que caminhava em direção ao


146 PAZ GUERREIRA - FORÇA Sol que se punha, como lhe tinha indicado seu Mestre. Sua pele estava toda rachada pelo Sol. Seus lábios pareciam ter escamas, que sangravam ao menor movimento, devido à agrura da ausência de líquido. Seu corpo chegava ao limite. Suas últimas forças eram consumidas rapidamente. Ele já tentava apenas manter-se sob controle, para morrer com dignidade e não chorando em desespero como aqueles sem trilha, nem guia. De repente, mais para a sua direita, a salvação... Mulil vislumbrara algumas palmeiras. Vegetação significava água. Juntou o ânimo que lhe restava e correu como pôde em direção àquele oásis, que estava mais longe do que lhe parecera inicialmente, pois não chegava nunca. Subitamente, o oásis evaporou diante dos seus olhos. Foi quando se deu conta de que estava mais perto do que calculara, estava na sua mente. Miragem. O deserto pregava peças e pregou-lhe a maior de todas, pois a noite caíra, e Mulil saíra da trilha. No deserto, basta afastar-se alguns passos da trilha para perdê-la para sempre. Mulil se afastara bastante. Deixou-se cair de joelhos sobre a areia macia e ali permaneceu, prostrado, durante longos minutos. Ou seriam horas? Já não sabia. Era o fim, ele falhara. Lembrou-se então de algo que um beduíno certa vez lhe ensinara para sobreviver – ao menos um pouco mais – no deserto. O homem lhe relatara uma situação parecida com esta em que ora se encontrava. Sobrevivera extraindo água do estômago do camelo, bebendo seu sangue e utilizando a gordura de suas corcovas. Mulil não tinha camelo. Tirou sua faca, fez um corte no antebraço e bebeu seu próprio sangue. Adiava um pouco a desidratação completa. Colocou-se sentado sobre os joelhos, para meditar. Depois da prova do falcão na tempestade de areia, Montuhotep o levara a um templo em que passaria por uma primeira grande sala com várias esfinges enfileiradas dos dois lados, umas de frente para as outras. Ali passara por provas que lhe permitiriam um elevado grau de


TALAL HUSSEINI 147 domínio do seu corpo físico. Resgatou então aquele conhecimento para relevar as dores que seu corpo ora lhe impunha. Sentiu-se melhor polarizando e vendo as reais condições que aquele corpo ainda tinha para levá-lo mais adiante naquela missão. Sim, era possível prosseguir. Após a sala com as esfinges, passava por um gigantesco portal, formado por dois obeliscos encimados por bandeiras flamejantes, que lhe permitiam administrar com eficiência a energia que o animava. Conseguiu então infundir uma nova carga de vitalidade no seu corpo alquebrado. Passava, então, à terceira sala, que era na verdade um pátio aberto, onde os sacerdotes faziam as curas, inclusive pelo sonho, e ensinavam a controlar as emoções – o que lhes permitia também dominar os animais –, evitando que elas o fizessem se sentir destruído antes de a destruição de fato chegar. Essa meditação recompôs Mulil. O repouso da noite completaria a recuperação. Mas ainda restava um problema grave: saíra da trilha e não sabia como reencontrá-la. Ademais, nem mesmo sabia para onde essa trilha o levaria, apenas acreditava que o levaria a algum lugar com base na confiança que depositava em Montuhotep. Foi com essa confiança que Mulil caiu no sono, ainda em posição de meditação. Ele era novamente um falcão. Alçou voo para a noite infinita. Mesmo na escuridão, o céu ainda tinha a luz das estrelas. O chão parecia um imenso oceano negro. Era curioso como sempre que ficava entre o céu e a terra preferia o céu. Passou-lhe a ideia de não mais voltar, mas sua missão naquele momento era na terra. Em meio ao negrume da areia do deserto, viu um caminho dourado, muito nítido. Viu também seu corpo ajoelhado na areia ao longe e soube então como retomar a trilha. Era uma oportunidade a poucos dada no deserto. Bastava seguir os ensinamentos da tradição: sempre que estiver em dúvida sobre que caminho seguir, escolha o mais difícil.


148 PAZ GUERREIRA - FORÇA Quando amanheceu o dia, Mulil analisou o local em que estava. Areia de todos os lados, exceto de um. Todos sabiam que o deserto fora mar em outras épocas. Havia então algumas áreas em que esse mar salgado ficava petrificado, formando uma crosta de sal que tornava ainda mais forte o calor, pois refletia de forma intensa a luz do Sol. Tais locais eram muito perigosos, pois, além do calor insuportável e do perigo de rompimento da superfície salgada – o que poderia tragar uma pessoa ou animal de forma muito mais rápida e fatal do que areia movediça –, ali era um habitat profícuo para milhares de escorpiões. Sem nenhuma dúvida, aquele era o caminho mais difícil. Sem mais digressões, Mulil prosseguiu por ali. E conseguiu encontrar a trilha. Era o sétimo dia. Montuhotep lhe dissera para prosseguir durante sete dias, mas ele não via absolutamente nada nem ninguém. Pensou que seu ritmo de viagem não fora intenso o bastante. Talvez por se ter perdido teve seu itinerário atrasado. Continuou caminhando o quanto pôde, mas num dado momento suas forças o abandonaram por completo. O expediente de beber o sangue era um paliativo que só o enfraqueceria naquela altura. As meditações para concentrar as energias também não podiam mais ajudá-lo, pois seus recursos de simples discípulo haviam chegado ao fim. Enfrentara com bravura os limites humanos e a força da natureza, ali representada pelo fogo do deserto, mas agora não restava mais nada. Curvou-se, humilde, e reconheceu a soberania dos deuses. Usou suas últimas forças para agradecer pela feliz encarnação que tivera, com a oportunidade de ter tido um Mestre. E pela primeira vez em suas orações pediu. Pediu que alguém pudesse ter êxito nesta empreitada em que falhara. E pediu para novamente nascer discípulo na sua próxima encarnação. Caiu com o rosto sobre a areia escaldante.


TALAL HUSSEINI 149 25. adriel acordou com o coração disparado. Aqueles sonhos tinham de ter algum significado, alguma relação com sua vida. O que Mulil estava buscando? Por que seu Mestre o mandara para a morte? Que presságio lúgubre era aquele? Sim, só podia significar o fim de seu reinado que não foi. Não havia placa. Sokárin não fizera a troca. Adaran era o novo rei, aclamado em cerimônia pública após a abertura da placa. É certo que a atividade de Anthar diluíra a atenção de todos, povo ou nobreza. Não foi possível reunir novamente a assistência para o encerramento oficial da coroação, pois a consternação foi geral. Até um certo pânico se iniciou com pessoas deixando suas casas com o que podiam, para abandonar a cidade e escapar à cólera do vulcão. O Chefe do Conselho dos Anciãos passou então o cetro real a Adaran e pronto, nada mais. O País tem novo rei. Hoje era o dia seguinte. Todos aguardavam os primeiros decretos do novo monarca. Kadriel começou desanimado esse dia. Precisava falar com Ravi. Aprontou-se rapidamente e saiu. Nem conversou direito com Mirta, que chegava à sua casa naquele momento, encontrando-o já de saída do lado de fora. Ela trajava uma roupa provocante, como de hábito, que salientava as formas de seu corpo. Kadriel mal reparou, perguntando de maneira seca, o que não lhe era peculiar: – O que faz aqui, Mirta? – Bakar convidou-me para a reunião de logo mais. Como aqui é meu caminho, resolvi passar um pouco antes, para podermos conversar em particular... – Infelizmente, não poderemos conversar agora, pois estou de saída. Mas foi bom que você veio – Mirta abriu um sorriso, que se desfez logo K


150 PAZ GUERREIRA - FORÇA que Kadriel completou sua frase: – preciso que você avise Bakar de que a reunião deverá ser adiada para o período da tarde. Peça a ele que avise aos demais, por favor. – Sim, é claro... – respondeu Mirta, mal conseguindo esconder seu ar de desapontamento, no qual Kadriel nem sequer reparou, saindo e deixando a moça plantada no meio da rua. Quando se dirigia à casa de Ravi, Kadriel ouviu gritos que eram de um homem cujo cavalo havia disparado. As pessoas que estavam à volta nada faziam. Quando Kadriel tomou um cavalo para perseguir o conjunto descontrolado e tentar pará-lo, uma mulher já havia tomado a dianteira com o mesmo intuito. Kadriel apertou o passo de sua cavalgadura, mas a amazona era bastante hábil e a distância não encurtava. Quando ela já estava bem próxima do cavalo disparado, o ginete deste despencou. Ao tocar o solo, ouviu-se o estalido seco de algo se deslocando ou quebrando. Imediatamente, a moça desmontou e aproximou-se para verificar o estado do caído e ajudá-lo se possível. O cavalo responsável pela queda, aliviado do peso que o atormentava, diminuiu o ritmo e parou mais adiante. O homem caído estava pálido, condição típica da baixa de pressão sanguínea causada pelo rompimento de tendões. O ombro estava deslocado, o que projetava todo o braço para frente. O homem gritava de dor. Nesse momento, Kadriel já havia chegado ao local mas só fez observar, uma vez que a situação estava totalmente controlada pela mulher. Ela falava mansamente com o ferido, tranquilizando-o e dizendo que não era nada de grave, explicava que era médica e que iria verificar as condições da lesão. Sua voz era suave e, de fato, tranquilizou não só a vítima da queda como também Kadriel, que tinha os olhos fixos nos longos cachos da médica.


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