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Published by katchauu27, 2023-09-26 12:09:31

paz guerreira

aventura

TALAL HUSSEINI 151 Ao mesmo tempo em que conversava com o paciente, que já estava bem mais tranquilo, a moça tocou de leve o ombro deslocado com a ponta dos dedos de uma mão, enquanto com a outra segurava o pulso do homem. Num movimento rápido, preciso e suave, recolocou o braço no lugar. Kadriel estava deveras impressionado, e o homem agradecido. Movia o braço para um lado e outro, como que para se convencer de que estava realmente consertado. A médica entregou ao homem algumas ervas e lhe recomendou: – Faça com isto uma infusão e aplique no local durante três dias. Nesse período deve evitar grandes esforços com esse braço. Depois disso, estará novo. Kadriel observara tudo atentamente, embasbacado com a desenvoltura daquela moça. Sem ver seu rosto, já a achava linda. Ao menos seus cabelos o eram, e sua voz... Após certificar-se de que seu paciente inesperado estava mesmo bem, levantou-se, voltando-se para Kadriel, que ficou mudo ao cruzarem olhares. Aqueles olhos verdes... pensava reconhecê-los. Finalmente, quebrou a hipnose em que o haviam induzido e pôde ver todo o seu rosto, de pele clara, entornado por cabelos negros, sorriso luminoso de dentes perfeitos. Kadriel pensou estar diante da mulher de sua vida. Logo, seus arranjos mentais começaram a fornecerlhe uma identidade. Balbuciou: – Mas você é... – Dhara – ela completou – e você é Kadriel! Kadriel estava obtendo relativo êxito em não fazer cara de parvo, mas estava obviamente desajeitado. Lembrou-se do dia em que se despediram, ainda crianças, e de como tivera a certeza de que a reencontraria. Esse dia demorou a chegar, mas finalmente ali estava Dhara, diante dele, a menina se tornara uma bela mulher. Não sabia como reagir, o que dizer, se a abraçava, se estendia a mão. O impasse não deve ter durado


152 PAZ GUERREIRA - FORÇA mais do que alguns segundos, que lhe pareceram séculos. Foi Dhara quem, percebendo a situação, quebrou o gelo: – Será que uma velha amiga não merece ao menos um abraço? Não foi necessário repetir a pergunta, Kadriel estreitou-a nos braços, numa união terna. Quanto durou aquele abraço? Provavelmente nenhum dos dois saberia dizer. Kadriel tampouco sabia o que Dhara pensava naquele momento, mas ele... vivera toda uma vida ao lado dela naquele instante. Sua mente e seu corpo reagiam... Tinha agora certeza do que antes apenas ousara supor: estava diante da mulher da sua vida. 26. ustara-lhe muito chegar até lá, mas agora o Capitão se recuperava das suas mazelas físicas. Aquela área montanhosa não recebia visitantes, dado o seu acesso difícil e as suas condições hostis. Ele mantinha por lá uma cabana de caça com suprimentos e materiais necessários para passar ali um bom tempo. Havia o inconveniente de não poder se aquecer com o fogo, para não chamar a atenção de ninguém com a fumaça. Ainda que realmente não houvesse trânsito de pessoas, o Capitão não queria correr nenhum risco de ser encontrado antes de estar completamente recuperado. Nas proximidades havia um grande lago de água gelada, onde se banhava. Gostava da energia da água. A baixa temperatura lhe fazia doer até os ossos. Mas o Capitão de certa maneira queria impor a si mesmo aquele sofrimento. Suas feridas psíquicas eram graves. Sentia culpa por ter envolvido sua família em questões de estado, o que resultara na sua morte. Sentia ódio dos assassinos. Sentia raiva de si mesmo por ter cedido à coação. Alimentava sua sanidade com a vingança. Mas estava no C


TALAL HUSSEINI 153 limiar da loucura. Às vezes, ele mesmo não tinha absoluta certeza se não enlouquecera, se não estava vivendo um pesadelo tenebroso, do qual acordaria a qualquer momento. Mas seu sono era tão agitado quanto seus dias. Sempre que acordava, percebia que ainda estava naquele purgatório psicológico. Talvez alguma outra pessoa, no seu lugar, tivesse optado por interromper sua vida. Mas o Capitão, não. Apenas a certeza de que acabaria com todos que tiveram alguma relação com a morte de sua esposa e filha o mantinha lúcido. Contava os dias para esse momento de glória, que provavelmente seria o seu último... Planejava, traçava roteiros, depois os mudava, criava outros, voltava aos anteriores. Sua mente era um turbilhão. Ele mesmo sabia que só poderia partir para a ação quando conseguisse aquietar seus pensamentos. E isso ocorreria quando também seu corpo estivesse forte o bastante para a batalha que esperava por ele, um lobo que caça solitário sob a luz errante da noite. 27. entilmente, Haggi voltou-se para o líder da Aliança das Doze Cidades, agradecendo sua hospitalidade e os ensinamentos sobre o espírito guerreiro dos leões, mas dizendo que tinha agora outros assuntos para tratar. Foi então em direção a Ivis, sob os olhares marotos das suas companheiras, acompanhados de risinhos e cochichos. Ivis enrubesceu, o que a tornou ainda mais atraente para o diplomata, que lhe estendeu a mão dizendo: – Você prometeu sentar-se comigo durante o jantar... Antes que ela respondesse, uma das mulheres do grupo se antecipou: G


154 PAZ GUERREIRA - FORÇA – Sente-se você aqui conosco. Não é sempre que temos a honra da companhia de homens refinados. – É claro que muito me agradaria estar entre tão formosas damas, mas minha estada na cidade será de apenas algumas semanas, com uma agenda oficial muito cheia, o que me deixará pouco tempo para conversas agradáveis como a que preciso ter com Ivis. Portanto, sei que entenderão – concluiu alçando para fora do grupo Ivis, que já lhe pegara a mão estendida. – Obrigada por me salvar – sussurrou-lhe a moça quando já se afastavam – não aguentava mais as conversas banais, das quais por sinal você foi objeto. – Devo ficar preocupado? – Creio que eu deveria, pois elas queriam devorá-lo vivo – disse sorrindo. O jovem casal sentou-se a uma mesa mais no canto da sala, sob o olhar atento de Nakan, que discretamente observava seus movimentos. Beberam algumas taças de vinho, não o suficiente para inebriar-se, mas o bastante para perder um pouco a inibição. Quem os visse poderia pensar se tratar de um casal unido há muito tempo, pois riam e pareciam ter uma intimidade de fazer inveja a muitos casais. Os dois saíram para um balcão, onde podiam respirar o ar fresco da noite e ficar mais distantes dos olhares e da música. A companhia de Ivis realmente agradava a Haggi e a recíproca era verdadeira. Havia uma empatia entre eles. De repente, veio aquele momento de silêncio, em que toda a animada conversa cessa, restam os olhares e sorrisos inibidos. É o momento do beijo. Agora, Haggi sentia que Ivis, de fato, estava com ele, por ela mesma e não por determinação de Nakan ou de quem quer que fosse. Ele aproximou seus lábios dos dela, parou quando faltavam aproximadamente dez por cento do percurso. Esse último tre-


TALAL HUSSEINI 155 cho cabia à mulher, se ela quisesse de verdade o beijo ela o percorreria, caso contrário, se afastaria. Haggi, como bom cavalheiro, esperou, os olhos cravados nos de Ivis. Tinha de esperar o tempo que fosse necessário até sua definição. Ela sorriu com os olhos, e se aproximou. As mulheres costumam depositar muita confiança no primeiro beijo, pensam que por ele podem descobrir muitas coisas sobre um homem, inclusive se será um companheiro ideal. Ivis sorriu e disse: – Acho que já está tarde. Vou me retirar – beijou Haggi na face e partiu, completando: – amanhã nos vemos. Boa noite. – Boa noite... Finalmente Haggi fora surpreendido. No jogo da sedução, fora colocado em cheque. Resolveu ir para os seus aposentos, mas o sono não se apresentava. Pensou que a paciência necessária no amor era ainda maior do que a necessária na diplomacia. Era fato que com esse movimento Ivis se tornara ainda mais atraente para ele. No dia seguinte pela manhã, Haggi encontrou-se com Nakan para um combate com sabres, como haviam combinado. Era a oportunidade ideal para tratar de assuntos importantes sem ouvintes indesejáveis por perto. Os dois homens eram bastante hábeis com a espada. Haggi tinha um estilo mais sutil, de movimentos leves e rápidos, boas esquivas e contraataques. Nakan se destacava pela força e intensidade dos golpes, bem como por sua cadência constante, que obrigava o oponente a movimentar-se todo o tempo. Haggi sentia mais dificuldade em lutar com Nakan do que com Adaran, seu adversário principal na Capital, talvez porque já conhecesse melhor seu jogo. Mas o fato é que confiava em vencer qualquer um a qualquer momento. Fazia o jogo do adversário, esperando o momento ideal para o ataque fulminante. O duelo seguia acirrado.


156 PAZ GUERREIRA - FORÇA Não havia espaço para conversa. Quando finalmente os dois concordaram em fazer um intervalo, sem que se pudesse apontar um vencedor, Haggi tomou a iniciativa: – E então, Nakan, como estão os chefes das cidades que compõem a aliança em relação ao processo sucessório? – A Aliança dos Doze está unida. Ninguém manifestou nenhuma insurgência contra a sucessão. – Mas, para fazermos um exercício de raciocínio, se houvesse tal discordância, todas as cidades estariam unidas nessa dissidência? – Você me faz uma pergunta difícil de responder, Haggi. Eu diria que sim, mas em questões políticas é difícil ter absoluta certeza. – Você tem dúvidas quanto à sua liderança? – É claro que não, até porque sob a bandeira dos gêmeos, símbolo que representa a minha cidade, luta o exército mais poderoso da Aliança. Isoladamente, talvez só o exército da Capital nos supere em número e força. Então, é uma liderança com lastro – sorriu Nakan. – Como está Egas, o velho Leão? Todos sabem que ele esperava ter sido nomeado no seu lugar para essa liderança. Se ele resolvesse unir forças com outras cidades, poderia contestá-lo... – Se ele tivesse essa pretensão, já o teria feito. É evidente que ele não ficaria triste se eu quebrasse o pescoço numa caçada. Mantemos boas relações diplomáticas, mas não confiamos um no outro. Haggi, meu amigo, sei que fazer esta observação é a sua atribuição, porém não devemos colocar problemas onde eles ainda não existem. – Esta região é muito rica. Você sabe o quanto foi difícil unificá-la e mantê-la fiel ao País. Depois de muitos séculos, somente Gur Medhavin foi capaz de consegui-lo. Qualquer inconsistência poderia reacender o espírito separatista do povo.


TALAL HUSSEINI 157 – Não creio nisso, mas vou ficar atento. Amanhã bem cedo sigo viagem para a Capital, para a cerimônia de abertura da placa. Você virá comigo? – Não, minha missão ainda não terminou por aqui... – Entendo. Ivis... – Nakan, você me toma por um cafajeste – respondeu Haggi, sorrindo – são assuntos de Estado. – É claro, Haggi, é claro. Bem, você terá alguns dias para tratar desses assuntos sem a minha presença. Ainda estará aqui quando eu voltar? – Sem nenhuma dúvida. Creio que ainda teremos muito que conversar depois da posse do novo rei. Haggi provavelmente já conheceria o nome do sucessor antes do retorno de Nakan, pois mantinha uma eficiente rede de inteligência por todo o País e inclusive fora dele. – Aguenta mais um combate? Haggi, sem responder, levantou-se, pegou seu sabre e tomou posição de guarda. Lutaram por mais duas horas, para ao final não se definir um vencedor. Sim, um empate. Nakan parecia mais feliz do que Haggi, pois normalmente perdia. O diplomata, entretanto, não parecia abalado. Não que a técnica de Nakan tivesse melhorado muito, mas ele lutava com uma garra impressionante. – Foi um bom combate – concluiu Haggi. – Concordo. Você foi cortês com seu anfitrião não o derrotando em sua própria casa. Mas da próxima vez, espero mais do que isso. – Nakan, você sabe que eu jamais amoleço num combate. Você é que lutou bem mesmo – respondeu Haggi, com semblante impassível, mas pensando consigo mesmo o quão astuto era o líder da Aliança. Jamais pôde ter certeza se ele realmente sabia, ou se só estava tentando fazer com que Haggi se traísse.


158 PAZ GUERREIRA - FORÇA O jogo de cena também terminou empatado, pois os dois se mantiveram indiferentes. Nakan se despediu: – Ainda nos veremos esta noite, pois darei um jantar para anunciar o noivado de minha filha. – Ah, sim, você tem uma filha que estudava fora do País, não é mesmo? Não me lembro dela. – Tenho certeza de que se lembrará quando a vir. Ela tem me auxiliado muito no governo desde que retornou. É muito capaz. O mesmo não se pode dizer do homem que ela escolheu... – Você não o aprova? – Não devia comentar estes assuntos particulares, mas sei que posso confiar em você, e não tenho mais ninguém com quem possa me abrir com relação a isso. Eu o considero um fraco, apesar de ser de uma das famílias mais ricas da região. Foi um amor de infância que ela reencontrou na sua volta, mas ela ainda o vê com os olhos de adolescente. Apesar de ser muito lúcida para certas coisas, não está agindo de forma madura neste caso. – Por que você simplesmente não impede o casamento? – Em primeiro lugar, porque em minha casa sempre tratamos com liberdade as questões eminentemente pessoais. Na vida pública, já não temos muito espaço para nós mesmos. Se o tolhermos mais ainda, nada restará. E depois porque a minha oposição seria o suficiente para a decisão final dela a favor desse casamento. Fosse um assunto de Estado, ela me obedeceria de modo absoluto. Mas na sua vida pessoal não gosta de imposições e é muito determinada. – Neste caso, não sei o que dizer. Creio que só lhe resta esperar pelo inesperado. – Só me resta contar com que ela veja a realidade por si mesma. Vemo-nos à noite. – Até lá.


TALAL HUSSEINI 159 Após descansar em seus aposentos, Haggi se propôs uma missão para aquela tarde: encontrar Ivis. Mas ela havia desaparecido. Vasculhou todo o palácio sem sucesso. Perguntava aos serviçais, mas todos o olhavam com estranheza e não respondiam. A última esperança era o jantar. A música já tocava e o vinho já era servido. Todos os convivas começavam a soltar-se e desinibir-se, Haggi vasculhava com os olhos todo o salão, e nada de avistar Ivis. Nakan fez sinal para que se aproximasse: – Noto que você está inquieto, meu amigo. – Estou bem – respondeu, sem deixar de procurar com os olhos. – Não está encontrando o que procura? – Aquela moça que estava presente no dia da minha chegada, Ivis, não a vejo por aqui. – Não se aflija, tenho certeza de que logo ela aparecerá – respondeu Nakan. Haggi pensou ter sentido um tom de ironia na voz do líder, mas relevou. Os arautos anunciaram a presença do futuro noivo, que já dava sinais claros de embriaguez. Isso poderia se explicar pela ocasião mas, somado às preocupações que o pai da futura noiva lhe manifestara, tal impressão fez com que Haggi sentisse imediata antipatia pelo sujeito. A filha de Nakan surgiu. Quando a viu, Haggi ficou lívido. Os arautos anunciaram: – Damas e cavalheiros, a filha do governador Nakan: Ivis! Apenas Nakan percebeu, porque o observava, a reação de surpresa de Haggi, mas o diplomata prontamente se restabeleceu. Ivis estava linda! O ébrio noivo foi em sua direção, com um sorriso abobado estampado na face, e a tomou pelo braço, dirigindo-se à mesa que lhes estava reservada, ao lado da de Nakan, onde estava Haggi. O governador se levantou para fazer o anúncio. Ficou em pé, em silêncio por alguns segundos, até que todos se aquietassem. Aguardou


160 PAZ GUERREIRA - FORÇA mais alguns segundos para se certificar de que todos lhe davam a devida atenção e então proclamou: – Senhoras e senhores aqui presentes, a noite de hoje é muito especial para todos, especialmente para minha filha, Ivis. Não posso dizer que eu esteja feliz, pois qual é o pai que gosta de entregar sua filha? Mas, enfim, se ela está feliz, tenho que aceitar os fatos. Oficializo perante todos o noivado de Ivis e Garat – completou secamente. Todos aplaudiram. Os noivos sinalizaram um brinde para Nakan com suas taças. Quando a audiência silenciou, Garat ficou com a palavra: – Agradeço as palavras, senhor Governador, e lhe digo que farei sua filha muito feliz. Pode estar tranquilo. Também eu gostaria de fazer um anúncio – Ivis pegou no seu braço para tentar contê-lo, mas foi em vão – quero dizer que a data do casamento... Nakan o interrompeu abruptamente, mas com um sorriso: – Meu caro Garat, creio que é muito cedo para falarmos em datas. Não criemos expectativas cedo demais. Aproveitem esse momento de noivado e mais tarde, então, sim, poderão marcar a data. Garat ainda fez menção de continuar falando, mas Nakan finalizou qualquer possibilidade disso: – Insisto! Não falaremos de datas esta noite. Senhores músicos, toquem! Senhores convidados, aproveitem a noite! Não restou ao alegre noivo senão voltar-se para sua taça de vinho, que estava longe de ser a primeira da noite e mais longe ainda de ser a última. Os convidados afluíam para cumprimentar os noivos. Haggi voltou-se para o governador, em tom cínico: – Que demonstração de alegria, Nakan! – Não sou homem de dissimular minhas opiniões. Ivis sabe que não aprovo este noivado e quero que isso fique muito claro também para Garat.


TALAL HUSSEINI 161 – Não creio que ele tenha compreendido, considerando seu estado... Nakan, posso lhe fazer uma pergunta? – Faça! – Por que, no dia em que aqui cheguei, você mandou Ivis acompanhar-me, se sabia que ela ficaria noiva? – Era um teste. – Para mim ou para ela? – Para ambos. Haggi entendeu que não conseguiria extrair mais do que isso de Nakan. Mudou de assunto: – Bem, acho que está na hora de cumprimentar os noivos – deixou a mesa, tomando nas mãos uma maçã. Aproximou-se da mesa dos noivos, estendeu a mão para Garat, mas não desviava os olhos de Ivis: – Meus parabéns, Garat! Você é um homem de muita sorte. Sua noiva, se me permite dizer, é a mais bela dama deste lugar. Vejo que todos vieram preparados com belos presentes, mas infelizmente eu não sabia da razão deste jantar. O que me trouxe a Rubatis foram outros propósitos. Mesmo assim, com a sua licença, não gostaria de me furtar a presentear a noiva. Dizendo isso, cumprimentou-a com uma mão e estendeu-lhe a maçã com a outra. Ivis sorriu francamente: – É uma bela maçã, mas confesso que é o presente mais inusitado que recebi... – Ela é muito mais do que parece. A uma mulher complexa e misteriosa forçosamente devem agradar os mistérios, que podem estar presentes mesmo nas pequenas coisas. – Mas que mistério pode residir numa maçã?


162 PAZ GUERREIRA - FORÇA Ao responder, Haggi olhou rapidamente para Garat, de forma que só Ivis o percebesse, e emendou: – O primeiro deles é que uma maçã, quando está podre, cai sozinha... Tarin, que um pouco afastado de seu Mestre ainda assim ouvia toda a conversa, pensou consigo: “cai sozinha, mas um vento sempre pode ajudar...”. Conhecia seu patrão. Sabia que ele já articulava em sua mente toda uma estratégia para conquistá-la. Nunca o vira falhar nesse intento. Ivis perguntou: – Mas quando uma maçã podre cai, surge outra em seu lugar? – Sempre. – E como saber se essa nova maçã também já não está podre? Haggi ainda segurava a mão da noiva durante todo esse diálogo. Garat se sentia incomodado com aquela conversa da qual nada entendia. Também as pessoas que vinham depois de Haggi para cumprimentar a noiva se impacientavam, mas isso não incomodava em nada o visitante, e tampouco à noiva. Ele respondeu, olhando no fundo dos olhos de Ivis: – Só há uma maneira de saber quantas sementes há numa maçã: provando-a. Mas mesmo assim, não se pode saber quantas maçãs há numa semente... Dizendo isso, Haggi se retirou, percebendo que extraíra ainda um último sorriso de Ivis. Não desviou seus olhos dela até deixar a sala. Ela fez o mesmo. Ele notou que Garat falava com Ivis um pouco exaltado, mas ela não lhe fazia atenção. Quando ganhou o exterior, Haggi respirou. Tarin surgiu ao seu lado: – Senhor, se me permite dizer, creio que após tão demorada e tão intensa conversa com a noiva, como todos lá dentro puderam notar, não seria conveniente deixar a festa. – Sim, Tarin, você tem razão. Vou apenas tomar um pouco de ar e retornarei em seguida, para ficar mais alguns momentos.


TALAL HUSSEINI 163 Quando entrava novamente no salão, Haggi sentiu uma aproximação pelas costas. Com um leve movimento deslocou-se para o lado, deixando passar e cair atabalhoadamente Garat. Todos perceberam a alteração. Alguns amigos de Garat, tão fúteis quanto ele, haviam enchido sua cabeça com ideias de que Haggi o desrespeitara, mantendo uma conversa muito longa com sua noiva, para ser um simples cumprimento. E que, pior, ela parecia ter gostado dessa conversa. Já embriagado, Garat se inflamou e atacou Haggi, mas sua investida foi fracassada. Estatelou-se de forma humilhante. Ao se levantar, desafiou: – Você não pertence a esta cidade, e vem aqui me desrespeitar. Eu o desafio para lutar! – Não tenho porque lutar com você, Garat, e não o desrespeitei. Apesar de que no estado em que se encontra não merece mesmo respeito e muito menos merece que eu lute com você – ao dizer isso, Haggi virou as costas para deixar o local. Garat, não se conformando, apanhou uma faca sobre uma das mesas e se lançou sobre Haggi, que num movimento muito rápido derrubou o oponente, tomando-lhe a faca e colocando-a sobre o seu pescoço, ao mesmo tempo em que com a outra mão segurava seu pulso numa torção. O salão todo fez silêncio. Alguém murmurou: – Você foi atacado. A lei permite que o mate. – Sim – completaram outras vozes – você deve matá-lo! O coro cresceu. Garat chorava, diante da possibilidade real e da proximidade da morte. No lugar de Haggi, ele nem teria esperado tanto tempo, já teria usado aquela faca. Haggi terminou de lançar Garat ao chão, que ali permaneceu em prantos, jogou a faca longe, e saiu, sem dizer palavra.


164 PAZ GUERREIRA - FORÇA Pôde ouvir os vários comentários dos presentes que estavam sedentos de sangue, inclusive alguns amigos de Garat: “fraco”, “não o matou, demonstrou que não tem valor”, “sem honra”, e por aí afora. Mas ao menos uma pessoa naquele salão não vira fraqueza naquele ato: Nakan. Este vira compaixão, e gostara disso. Ivis talvez também tivesse entendido alguma coisa naquela situação, não sobre Haggi, mas sobre Garat e maçãs... Haggi estava convicto de que agiu de acordo com a sua regra de cavalheiro: jamais poderia atacar ou matar alguém caído, de costas ou inferior na luta. Garat se enquadrava em pelo menos duas dessas situações. Quando passou pela mesa de Nakan, este o recebeu com um leve tapa nas costas e um sorriso, sem tocar no assunto do que acabara de ocorrer: – Haggi, amanhã parto cedo para a Capital, para a posse do novo rei. Creio que não nos veremos antes de minha partida, mas espero ainda encontrá-lo na minha volta, dentro de alguns dias. – Sim, é claro Nakan, estarei aqui. Ainda teremos muito a conversar, depois da posse do novo rei. Agora vou me retirar, creio que já tive ação o bastante por hoje. 28. daran acordou não cabendo em si no primeiro dia do seu reinado. Todos esperavam o anúncio das primeiras medidas do novo soberano, como era de praxe. Ele pretendia fazer história. Pretendia dirigir-se ao povo à tarde, pois tinha várias reuniões pela manhã. Com os militares, com os Ministros e com o Senado. A primeira reunião foi com o Conselho de Guerra, formado por nove generais de estrela dourada. O mais novo de todos era Nakan, com seus A


TALAL HUSSEINI 165 cinquenta e tantos anos. Os demais contavam todos mais de sessenta mas em boa forma, apesar do longo período de paz por que passava o Reino. Via-se em seus rostos que eram homens duros, capazes no seu mister, prontos a defender o País com suas vidas contra qualquer ameaça. Estavam em torno de uma mesa longa. Quando Adaran entrou, fizeram reverência, até receber a ordem para descansar. Era a primeira reverência que Adaran recebia afora a da cerimônia de posse, que acabou prejudicada pelo maldito vulcão. E vinha de uma elite nacional. Adaran saboreou seu momento, esperou um pouco mais do que o necessário para dar o comando de descansar. Finalmente, sentou-se à ponta da mesa, fazendo um gesto altivo para que os generais o imitassem. Tomou a palavra: – Senhores Generais, vocês são a elite do nosso exército! O saudoso rei Sokárin ficou muitos anos no poder, teve vida longa. Foi um período de paz, o que pode ter amolecido nossas tropas – o ataque fora direto, mas todos permaneceram impassíveis, exceto um dos mais velhos, que ficou visivelmente contrariado com a observação ofensiva. Entretanto, se conteve e nada disse. Adaran prosseguiu: – Começamos agora uma nova fase. Pretendo passar em revista nossas tropas, a começar dentro de três dias. Estejam preparados. Não será tolerado qualquer desvio de disciplina! Temos de estar muito bem preparados para os novos tempos. Pedindo licença para falar, um dos generais perguntou: – Vossa Majestade pretende ir à guerra?! Adaran riu: – Para que serve um exército senão para estar preparado para a guerra? Mas isso não significa que precisemos ir à guerra. Apenas não quero


166 PAZ GUERREIRA - FORÇA surpresas. Vou dirigir mais investimentos do Reino para as tropas. Novas armas, de melhor qualidade, mais cavalos, mais treinamento. Todos assentiram com a cabeça, alguns até sorriram. Com aquelas promessas Adaran parecia ter conquistado o apoio de alguns. De outros ainda não conseguira fazer a leitura, mas logo saberia a posição de todos. Continuou: – Pretendo implementar muitas mudanças, obviamente para melhor, mas que podem encontrar resistência. Quero que estejamos preparados para suplantar rapidamente qualquer indício de revolta. É imprescindível evitar qualquer estremecimento nas relações internas, para que não enfraqueçamos perante nossos vizinhos em virtude de conflitos e desavenças intestinas. Estamos todos de acordo? Os senhores são os defensores da lei e da ordem. Apoiarão incondicionalmente o novo Rei? Aguardavam em silêncio para ouvir as medidas que Adaran anunciaria: – Não teremos mais um Ministro da Guerra. Este Conselho se reportará diretamente a mim! Em contrapartida, terá suas atribuições aumentadas, e também suas vantagens... O fato de estar realizando a primeira reunião oficial de meu reinado com este Conselho demonstra o prestígio que lhe quero outorgar. Tenho certeza de que os senhores compreenderão a medida que estou prestes a anunciar, mas também estou certo de que outros não o farão. Para fazer entender a todos, até mesmo pela força se for necessário, pois o povo nem sempre entende as medidas do governante, qual o doente que se nega a tomar o remédio por amargo, conto com a pronta ação dos senhores e de seus comandados. Pois bem... Fez uma longa pausa, deixando todos ansiosos para ouvir o restante, apesar de nenhum deles demonstrá-lo: – Este Conselho de Guerra passa a exercer as atribuições até agora exercidas pelo Conselho dos Anciãos!


TALAL HUSSEINI 167 Novamente Adaran esperou, perscrutando no olhar de cada um as reações que pudessem denotar apoio ou contrariedade. Os mesmos três que antes sorriram ao ouvir as notícias sobre suas novas vantagens exultaram. Claramente aprovavam as medidas do Rei e lhe expressaram total e incondicional apoio. Os seis demais permaneceram impassíveis, à exceção do velho General, que antes já demonstrara impaciência. Desta feita, não se conteve, pediu a palavra e quase sem esperar a autorização do Rei vociferou: – Isto é um ultraje! Senhores Generais, meus companheiros de armas, vocês não percebem o que está acontecendo aqui?! Isto é um golpe de Estado! Com todo respeito, Vossa Majestade está conspurcando as instituições de nosso país. Este Conselho tem atribuições bem distintas das do Conselho dos Anciãos. Não temos a pretensão nem a capacidade de usurpar suas atribuições! Pretende Vossa Majestade corromper-nos com vantagens e poder? Jamais aceitaremos! Vamos a público desmascará-lo perante o Conselho dos Anciãos e perante o povo. O exército jamais aceitará este disparate! Se assim for, prefiro resignar-me de minhas funções – ao dizer isso, levou a mão à espada para retirá-la da cintura e entregá-la, num gesto de renúncia ao cargo. Mais do que rápido, a um sinal imperceptível de Adaran, um dos vários guardas reais que faziam a segurança da reunião atingiu o velho general com uma seta disparada da sua balestra. O tiro certeiro calou o general, antes que ele pudesse terminar de retirar sua espada. Ele tombou sobre a mesa, para espanto dos demais. Antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, o Rei emendou: – Todos os senhores viram, são testemunhas, de que o general estava desequilibrado e num gesto impensado ia sacar da sua espada para atentar contra a pessoa real. O guarda cumpriu sua obrigação de defender o Rei. É tão tênue a linha que separa os aliados dos inimigos... – comentou em tom mais baixo, como se falasse consigo mesmo, e depois em


168 PAZ GUERREIRA - FORÇA tom normal, encarando seus interlocutores com firmeza: – nestes tempos em que vivemos, não há espaço para a dúvida. Aqueles que questionam o progresso são inimigos do Reino e, como tal, devem ser eliminados. Conto com o apoio dos senhores? – perguntou ignorando o cadáver sobre a mesa. Os generais estavam chocados, apesar de acostumados ao rigor nas atitudes. Procuravam dissimular sua consternação, mas pela primeira vez sentiram o peso da autoridade do novo Rei. Um dos que havia sorrido antes, pediu a palavra e se levantou: – Vossa Majestade conta com o apoio dos generais! E acho que falo por todos nós – olhou ao redor indagando os outros com o olhar. Ninguém se manifestou – se Vossa Majestade me permite perguntar, o que será feito do Conselho dos Anciãos, será dissolvido, seus membros devem ser presos? – É claro que não, meu caro general! O Conselho dos Anciãos ganhará novas atribuições. Não podemos extirpar instituições com as quais o povo está acostumado. Os membros do Conselho dos Anciãos são muito idosos para carregar o peso que hoje carregam. Não se trata de um golpe de estado, como disse nosso amigo falecido, mas sim de uma medida humanitária, que visa a proteger a integridade de nossos senadores. Eles manterão seus proventos e ficarão responsáveis por todos os eventos cívicos e festividades nacionais. Aparecerão interna e externamente como um órgão de honra, mas não terão sobre seus ombros o peso do trabalho duro de Estado. Aqueles que não compreenderem essa situação e essa intenção deverão ser detidos, para evitar que contaminem os demais e o povo. Alguns assentiram com um gesto de cabeça, outros concordaram com o seu silêncio. Adaran continuou: – Por fim, precisamos recompor o número de nove neste Conselho. Então, nomeio agora mais um general de estrela dourada, a quem espero que todos recebam como a um irmão: General Ofis!


TALAL HUSSEINI 169 Ao ouvir sua deixa, Ofis, que aguardava do lado de fora da sala, adentrou, já em trajes de general de estrela dourada, como se não esperasse outra coisa daquele encontro. Ao ver a cena, até mesmo o General Tybur, que era o mais prestativo para com o novo soberano, não conseguiu disfarçar seu constrangimento. Um sujeito que nem era militar, nomeado general de estrela dourada, era algo inusitado. Era certo que a comenda era privativa do Rei, e não havia lei que dissesse que só poderia ser dada a militares, mas a tradição... Adaran estava bem a par da lei e amenizou a situação, ao menos com seu mais novo aliado, fazendo mais um anúncio: – O Conselho de Guerra precisará de um líder, que será a ponte direta entre o que se passa aqui dentro e os ouvidos reais. Assim sendo, eu nomeio Presidente do Conselho de Guerra o General Tybur! O General agradeceu e dissipou qualquer constrangimento que ainda tivesse em seu semblante em relação a Ofis. O mesmo não se podia dizer dos demais, que disfarçavam o melhor que conseguiam seus pensamentos e emoções, pensando na reação e no fim que teve o velho general, cujo corpo finalmente era retirado pela Guarda Real. O Rei Adaran deixou a reunião e foi a público fazer seus anúncios oficiais. Quebrando a tradição, resolveu dirigir-se primeiro à população e somente depois ao Conselho dos Anciãos. Anunciou como em seu reinado promoveria a igualdade entre todas as pessoas, pois somente sendo iguais poderiam ser livres. O pobre seria igual ao rico, o covarde igual ao valente, o estudioso igual ao ignorante. Tais distinções incabíveis não mais teriam lugar neste Reino. Igualdade e liberdade seriam então realidades para todos, indistintamente. A educação seria promovida com vistas ao futuro e não mais ao passado, pois era importante vislumbrar a evolução e o desenvolvimento, em lugar de ficar atrelados às tradições e à história, que só faziam perder tempo precioso de estudo e frear a ciên-


170 PAZ GUERREIRA - FORÇA cia, que esta sim traçava os rumos de um conhecimento sólido e palpável, ao contrário da filosofia e das religiões, que cuidavam do irreal, do metafísico, portanto, de coisas ilusórias que só serviam para atrapalhar o verdadeiro desenvolvimento individual e social do povo. Todos aplaudiam com vigor. A praça pública estava lotada. O povo finalmente tinha a sensação de que um verdadeiro líder chegara para lançar o país numa nova era, desatrelada do passado. O apoio da população fora facilmente conquistado. Agora, restava dirigir-se ao Conselho dos Anciãos. Com as vantagens de ganhos que, antes de mais nada, pretendia anunciar, Adaran tinha por objetivo neutralizar boa parte das eventuais reações adversas no Senado. A realidade saiu um pouco diferente do que esperava. Anunciou com sucesso os benefícios que dava aos senadores, mas quando relatou as modificações nas atribuições do Senado que implementava, a reação foi forte. Aqueles cujo apoio já tinha o mantiveram, os que não lhe eram simpáticos reagiram com violência, como também aqueles que se posicionavam de maneira neutra, dificultando, assim, os planos de Adaran que almejava trazê-los para o seu lado. O tumulto chegou à exaltação e, não fossem os senadores todos de certa idade, teriam ido às vias de fato. O Rei concluiu agradecendo os serviços prestados até então pelo Senado e principalmente por tudo que ainda teriam de fazer nas suas novas funções e se retirou rapidamente, deixando as discussões e divergências para os que subiam ao púlpito. Vários soldados da Guarda Real permaneceram no Senado após o Rei se ter retirado, mas não interferiram nas disputas, apenas fazendo observar quais eram as posições de cada um. Aqueles que não apoiavam as iniciativas do Rei, já nomeados pelos outros como oposicionistas, conclamavam o Senador Rohel, que era uma espécie de baluarte dessa corrente, a subir à tribuna e dirigir-se à plenária. Este aceitou, mas estava visivelmente abatido. Não era naquele dia o orador inflamado de outros tempos. Apenas deixou claro seu repúdio às


TALAL HUSSEINI 171 medidas anunciadas por Adaran em relação ao Senado, o que, segundo ele, caracterizava um isolamento daquela Casa, de forma a extirpá-la da vida pública do País. Falou pouco. Desceu da tribuna entre aplausos e apupos dos dois grupos que dividiam o Senado. Rohel já vislumbrava o porvir. Sabia que os dias de paz e tranquilidade se aproximavam do fim. Saiu da tribuna direto para a sua casa. Inari, que conhecia seu marido, ao vê-lo chegar, apenas franziu o sobrolho. Entendendo a pergunta que ela não lhe fizera, respondeu: – Vamos nos preparar para o pior, Inari, minha querida! 29. o chegar à casa de Ravi, Kadriel estava ansioso para lhe relatar seu sonho e para conversar sobre o reino, a sucessão e tudo mais, porém sua ansiedade tinha sido dissipada pelo encontro com Dhara. Ele estava aéreo. Ravi, que examinava tranquilamente alguns escritos, convidou-o a sentar-se: – Olá, Kadriel. Esperava você um pouco mais ansioso neste primeiro dia de reinado de Adaran, mas vejo que está bem tranquilo. O que o traz aqui? – É que esta noite tive um sonho... – Novamente com Mulil. – Sim... E acho que ele morreu... – Você acha? – É, não tenho certeza. – De qualquer modo, não se esqueça de que é apenas um sonho. – Cada vez mais eu acho que esses sonhos têm relação com a minha vida. Cada vez mais me identifico com Mulil. Tudo parece tão real... A


172 PAZ GUERREIRA - FORÇA – Os sonhos são reais, na sua esfera. O que nos parece etéreo e fantasioso pode ser a realidade em uma outra perspectiva. E o que vivemos como realidade pode não passar de ilusão. Já pensou nisso? Mas conteme seu sonho, vamos ver qual é a sua realidade onírica. Kadriel contou em detalhes o que sonhara e disse que estava curioso para saber o que aconteceria em seguida com Mulil, pois já reparava que os sonhos pareciam seguir uma sequência. Ravi respondeu-lhe que poderia aprender muito com esses sonhos, a partir das experiências vividas por Mulil, que poderia fazê-las suas. Disse-lhe que quando sonhasse devia se lembrar de guardar as memórias do sonho dentro do coração, pois por mais real e vívido que fosse, poderia ser esquecido algum tempo depois de acordar. Também era uma prática interessante tomar notas logo ao acordar. Kadriel assim faria. Os dois conversavam acerca do sonho, quando chegou à casa um militar, fazendo-se anunciar e chamando por Ravi. O dono da casa mandou que o fizessem entrar. O homem tinha um ar circunspecto e aparentava estar preocupado: – Bom dia, General Aldhar. Como estão as coisas? O General não respondeu, dirigindo o olhar para Kadriel. Entendendo suas dúvidas, Ravi o tranquilizou: – Este é Kadriel, Aldhar – os dois se cumprimentaram com um gesto de cabeça – ele é da minha mais absoluta confiança. Podemos conversar. Quase inconscientemente, Kadriel sentiu-se orgulhoso das palavras de Ravi. Esse sentimento o fez perceber o quão importante a opinião de Ravi se tornara para ele. Sentiu um calor aconchegante no coração. O General Aldhar continuou: – Estou preocupado, Ravi! Você já soube das primeiras declarações do novo Rei? – Não, ainda não tive notícias...


TALAL HUSSEINI 173 – Seu primeiro ato foi uma reunião com o Conselho de Guerra, da qual participei, juntamente com os outros oito generais de estrela de ouro. Ele ampliou as vantagens e as atribuições do Conselho de Guerra – fez uma pausa, como aguardando alguma intervenção de Ravi, que permaneceu calado. Então prosseguiu: – o Rei vai destinar muitos investimentos ao exército. Ele disse que não quer fazer a guerra, mas se trata de uma preparação para isso. Pediu nosso apoio para tornar o Conselho dos Anciãos um ente inoperante, meramente decorativo, que não terá mais qualquer atribuição prática. – E os generais apoiaram tal medida? E o velho General Margut, ranzinza por natureza? – Margut... está morto! Ravi não conseguiu esconder sua surpresa, assumindo uma feição séria. Aldhar continuou sua narrativa: – O General não se conformou com as medidas, se manifestou de forma exaltada. Levou a mão à sua espada, como tinha o hábito de fazer sempre que discursava de maneira mais inflamada. Um dos guardas reais o abateu com uma seta. Adaran afirmou que o general iria atacá-lo, mas Margut tinha muito senso de dever e respeito à coroa, independente de quem a usasse. A mim me pareceu mais que ele ia entregar sua espada. Em todo caso, nunca saberemos ao certo. Adaran continuou sua prolação com o cadáver ali estendido sobre a mesa, em um tom de certa forma de ameaça contra quem não o apoiasse integralmente. – E como você acha que os outros vão se posicionar? – Difícil dizer. Ao menos Tybur, que foi nomeado presidente do Conselho, e mais um parecem apoiá-lo incondicionalmente. O terceiro é Ofis, que foi nomeado general para compor o Conselho no lugar de Margut. – Ofis...? – É um lacaio de Adaran desde os tempos em que era ministro. Nem sequer é militar, mas a regra diz que a nomeação do Conselho de Guerra


174 PAZ GUERREIRA - FORÇA é privativa do Rei, dentre aqueles que ele entender capacitados... Os outros, e também eu mesmo, saíram em silêncio, não pude fazer uma leitura de ninguém. Todos pareciam estudar a nova situação, para depois se posicionar. Mas o Rei é Adaran, então não parece haver muita opção. Ravi parecia pensativo: – Sim, Aldhar, é verdade, mantenha-se discreto, ficaremos em contato. O General despediu-se de Ravi com um abraço e saiu marchando, visivelmente consternado. Ravi dirigiu-se então a Kadriel: – Você vê, meu jovem? Adaran agiu rápido, está consolidando sua posição, apesar de não senti-la realmente ameaçada. – Sim, e ao investir no exército está aumentando e confirmando sua força... – Força? Não. O que Adaran tem não é força. Ele é vaidoso, e o vaidoso não tem força porque está sempre sozinho, ainda que compre apoios e companhia. – Mas se isso não é força, então o que é a força? – A força é a virtude que compartilham todos os guerreiros de um clã, não é uma questão pessoal, mas sim um poder coletivo. Os antigos diziam que um homem sem cidade não é nada, pois carece de força para lutar como um guerreiro. A força e o espírito que emanam da companhia vêm da união dos cavalheiros diante de um ideal superior. Dizendo isso, Ravi apanhou no chão um graveto e o entregou a Kadriel, mandando-o quebrá-lo. Kadriel o fez com facilidade. Então, Ravi juntou vários gravetos num feixe e mandou que Kadriel os quebrasse. Ele não conseguia, por mais força que empregasse. – Por trás de cada graveto existe uma linha de força que os une e justifica, é como uma linha luminosa que se manifesta quando as partes descobrem que na realidade são unas em essência. Tudo no universo está interligado e interconectado, o ser humano, quando desliza pelo aroma do mistério da união, encontra a força que vem do ideal, e através


TALAL HUSSEINI 175 da técnica o guerreiro é capaz de explorar com eficácia tudo o que a força do ideal lhe oferece. Espírito, força e técnica compõem as três armas do verdadeiro guerreiro. Kadriel queria entender melhor tudo aquilo. Era um ensinamento que não podia ser digerido de uma só vez, exigia reflexão. Kadriel despediuse de Ravi, com a intenção de voltar para a sua casa e pensar no assunto. Quando já estava do lado de fora da porta, indo em direção à rua, Ravi lhe perguntou: – E como é ela? Kadriel voltou-se, sem entender direito a que seu Mestre queria referir-se. Perguntou, com ar confuso: – Ela quem...? – Ora, a mulher que colocou esse brilho nos seus olhos. Desde que você chegou aqui hoje, notei que está diferente, mais tranquilo, um pouco disperso. Dessas observações, ficou claro que só pode ser uma moça. Kadriel surpreendeu-se com a percepção demonstrada por Ravi, pois não imaginava que cada célula de seu corpo transparecia seus sentimentos. Voltou até a porta e contou a Ravi então o que se passara quando vinha de sua casa. Seus olhos brilhavam novamente ao falar de Dhara: – Você nunca poderá dizer que o primeiro dia de reinado de Adaran foi ruim para você, – ironizou Ravi – você encontrou uma dama muito especial, que ao que parece tem alma nobre. O coração tem sabedoria para encontrar seus próprios caminhos. 30. ulil acordou sem saber onde estava. Alguém o havia limpado, colocado roupas novas. Estava dentro de um edifício. Tinha dormido sobre uma esteira. O M aposento era confortável, apesar


176 PAZ GUERREIRA - FORÇA de simples. Sua última lembrança era de estar sucumbindo ao deserto, à sede e à fome. Caminhara o que pudera, para além do ponto sem volta. Perdera-se da trilha por perseguir uma miragem, mas a conseguira reencontrar graças ao ensinamento de seu Mestre. Quando caiu ao solo, lembrou-se de uma prática que havia aprendido, que consistia em reduzir a respiração, pacificar as emoções e esvaziar a mente, de modo que o corpo passava a ter um gasto mínimo de energia, possibilitando a sobrevivência. Era como um estado de hibernação. O corpo ficava inerte, quase como uma pedra. Mulil teve tempo somente de induzir esse estado. Assim foi encontrado. – Você passou o umbral – disse uma voz suave às suas costas, retirando-o de seus pensamentos. Era um homem esguio, cuja aproximação Mulil não percebera. Usava uma túnica típica dos antigos sacerdotes. O homem prosseguiu, sorrindo: – Nós o encontramos deitado na areia do deserto, com os sinais vitais muito fracos. Já o esperávamos, mas não tínhamos certeza de que conseguiria. – Que lugar é este? – É o templo de Zohar. É o lugar a que você tinha de chegar para cumprir a missão que seu Mestre lhe designou. – Mas eu nunca ouvi falar de nenhum templo nesta parte do deserto. – Somente os sacerdotes e alguns sábios o conhecem. O deserto, que costuma expulsar ou engolir aqueles que nele se aventuram, nos acolheu e nos protege contra visitantes indesejados. Você é um bom discípulo, cumpriu à risca a missão que seu Mestre lhe outorgou, mesmo que ela o fosse levar à morte. – E o que o deserto tem a me dizer?


TALAL HUSSEINI 177 – Se houver resposta para essa pergunta, ela lhe será dada numa pequena cerimônia logo mais. Você agora precisa se alimentar, pois passou por privações na sua viagem e precisa se recuperar. No início da noite, após um repasto frugal, Mulil foi conduzido a um salão cerimonial. Era iluminado com várias tochas de fogo azul, o que dava um ar etéreo ao ambiente. Havia apenas quatro sacerdotes no local, que aguardavam Mulil em torno de um altar, sobre o qual ficava uma pia cheia d’água. Também havia um recipiente em que se queimavam incenso e mirra. Os sacerdotes explicaram a Mulil que ele devia guardar aquele altar durante toda a noite, sentado sobre os joelhos. Após algumas horas, já não sentia mais as pernas. Depois polarizou, procurando esquecer até mesmo que tinha um corpo. O cheiro da mirra e do incenso, e a luz diáfana azul causavam-lhe tontura. Mulil procurava resistir, mas sentia que iria desmaiar a qualquer momento. Fechou os olhos, perdendo por um instante a consciência da realidade que o cercava. Foi quando alguém tocou-lhe suavemente o ombro. Ele despertou, deparando-se com uma mulher esguia, de pele muito clara, que usava uma espécie de turbante, não permitindo que se lhe vissem os cabelos. Seu rosto era excessivamente alongado, grandes e profundos olhos negros. Estendeu a mão sobre Mulil. – O que você veio fazer aqui? – perguntou a mulher. – Vim por ordens de meu Mestre... Estou velando o fogo... – O que você veio fazer aqui? – insistiu. – Vim saber o que o deserto tem para me dizer... – Sobre o deserto marcha o vento, capaz de gerar tempestades, subverter cidades, destruir civilizações, tudo por uma força silenciosa, de fonte invisível mas extremamente poderosa. Quando você conseguir


178 PAZ GUERREIRA - FORÇA ouvir essa força silenciosa, sentir esse vento marchar sobre sua alma, vai aprender a dominar a si mesmo e a vencer sem lutar. Ela fez uma pausa e prosseguiu, respondendo a pergunta que Mulil não fez: – A chave está nas dezesseis partes do Deus, nas dezesseis pétalas, nas dezesseis virtudes. Mulil queria perguntar mais, mas um forte odor penetrou suas narinas, sua vista ficou enevoada. Quando o ardor se dissipou, a mulher não estava mais na sua frente. Ele prosseguiu sua velatura, até que os sacerdotes vieram rendê-lo. Demorou vários minutos até conseguir mover suas pernas. Disse aos sacerdotes: – Gostaria de falar novamente com a sacerdotisa que veio ter comigo durante a meditação. – Não temos nenhuma sacerdotisa em nosso templo... apenas sacerdotes. Mulil não escondeu sua perplexidade. Tudo fora tão real. Sentia-se muito diferente do que quando chegara ao templo, e mais ainda do que antes de partir naquela jornada inusitada no deserto. O sacerdote levou-o até uma área externa, onde alguns homens trabalhavam em tarefas manuais, como pintura, escultura, marcenaria. Aproximaram-se de um dos artesãos, que não desviou o olhar nem a atenção do seu trabalho. O sacerdote indicou-o a Mulil, dizendo: – Este é Sigés. Ele é a razão concreta de sua vinda ao nosso templo. Você deve levá-lo até Montuhotep, que tem um trabalho específico para ele realizar, o qual não pode ser executado por outro – o artesão fez uma ligeira mesura com a cabeça, sem perder o foco da sua obra. Mulil dirigiu-se a ele: – Chamo-me Mulil. Espero que possamos fazer uma viagem rápida e tranquila até a cidade.


TALAL HUSSEINI 179 Sigés nada respondeu. O sacerdote explicou: – Ele não pode lhe responder. Fez um voto de silêncio, que não lhe permite pronunciar palavra. Já há cinco anos nada fala. Seu mundo são as suas obras. Ele conhece as proporções mágicas, pois aprendeu com seus Mestres a dominar os números mágicos. Consegue com isso dar movimento à pedra, infundir-lhe a energia que lhe dá vida. Diz-se que suas estátuas podem locomover-se sozinhas... Na viagem de volta de Mulil e Sigés, tudo correu tranquilamente. Cruzaram o deserto sem maiores problemas, mas não sabiam o que os aguardava na chegada… 31. adriel sentia-se feliz por Mulil não ter morrido no seu sonho. Também sentia-se disposto a iniciar sua missão. Tinha de cumprir o que prometera a Sokárin: lutar pelo poder. Primeiro, precisava encontrar a placa. Tinha a certeza no seu íntimo de que ela existia e de que o Rei falecido a escondera, para ser encontrada no momento oportuno. Esse momento era agora. O início da sua luta dependia de um fator que o justificasse. É certo que perante a lei pouco importava, pois a cerimônia de troca das placas e a inserção da nova placa na estela é que determinavam o nome do sucessor. Isso não ocorrera. O trono era de Adaran. Mas perante a Justiça, o trono era seu. Essa era a vontade de Sokárin. Confiava em que muitas pessoas entenderiam a verdade e o apoiariam. Ia reunir-se com Bakar para traçarem uma estratégia de busca. Havia perguntado a Ravi o que ele achava, mas este lhe respondera que esta era uma batalha que Kadriel precisava lutar sozinho. Era importante que K


180 PAZ GUERREIRA - FORÇA assim fosse, pois essa prova fazia parte de algo maior, e se não pudesse ser vencida, significava que Kadriel não merecia nem cogitar a coroa. Kadriel já tentara detectar algum indício do possível esconderijo da placa através da frase que Sokárin deixara, mas não lhe ocorria nada. O enigma falava de falcão, também seus sonhos tinham a presença renitente dessa ave... Bakar chegou. Kadriel esperava sua ajuda mais para as questões operacionais, pois não tinha muita esperança de que ele pudesse ajudar com o enigma, uma vez que seu forte não era o intelecto. O gigante deu-lhe um forte abraço. Como já o conhecia, Kadriel preparou-se para o aperto. Um desavisado, ao receber o abraço amistoso de Bakar, podia ficar com dor nas costelas por alguns dias. – Então, Kadriel, para que me chamou aqui? Aonde vamos? Kadriel relatou para o amigo toda a história, desde a sua conversa com Sokárin. O outro ouvia estupefato. Via-se em seu olhar um misto de admiração e incredulidade. Quando Kadriel terminou seu relato, ele disse, com firmeza: – Ora, e o que estamos esperando? Vamos logo buscar essa placa. – O problema é que não sabemos onde ela está. – Como não sabemos? Você mesmo não acabou de dizer na sua estória que ela está no ninho do falcão? É só ir buscá-la! – concluiu Bakar, achando incompreensível por que ainda não estavam a caminho. – O enigma não é literal, Bakar, é apenas uma metáfora, é simbólico. – Quem foi que disse isso?! Se o Rei falou sobre ninhos e falcões é por que queria dizer isso mesmo. Além do mais, você tem alguma ideia melhor para começar a procurar? Em vez de ficarmos aqui perdendo tempo com pensamentos inúteis, vamos agir. O único lugar que conheço com falcões aqui por perto é aquela montanha em que nos perdemos quando éramos crianças. Vamos logo! Se não estiver lá, aí pensamos em mais alguma coisa.


TALAL HUSSEINI 181 Kadriel pensou consigo que de fato seu amigo de grandes proporções tinha toda a razão. A energia e a disposição que Bakar demonstrava infundiram-lhes ânimo para partirem logo. Sem demora, já estavam subindo a montanha. Ela parecia menor do que da última vez em que ali estiveram. Na oportunidade, Kadriel ganhara as cicatrizes no seu antebraço. Os dois amigos chegaram à beira do abismo em que anos antes haviam estado, junto com Dhara e Haggi. Deitaram-se na borda e olharam para baixo. Não viram alguns vultos que se locomoviam às suas costas. Lá estava o ninho. Não devia ser o mesmo ninho da sua infância, mas estava no mesmo lugar. Kadriel começou a descer pela encosta para se aproximar. Desta vez, tomaram o cuidado de amarrar uma corda na sua cintura, cuja outra ponta foi atada a uma árvore. Kadriel chegou rapidamente ao ninho. Nenhuma ave por perto. Remexeu a palha do ninho, até que suas mãos se depararam com algo sólido. O objeto estava envolto em um pedaço de tecido. Kadriel reconheceu o brasão de Sokárin. Seu coração palpitou. Apanhou o embrulho e iniciou o caminho de subida. Chegando ao plano, sentou-se no chão para abrir o invólucro. Não pôde conter a emoção quando viu que era o mesmo tipo de rocha da pedra dos mil reis. As lágrimas rolaram sobre a sua face ao se deparar com o nome escrito na pedra real: KADRIEL VAHAN. Bakar colocou-se imediatamente sobre o joelho direito, inclinando-se em reverência, cabeça abaixada. Kadriel fez sinal para que não fizesse aquilo, mas ao mesmo tempo sentiu uma estranha satisfação, era o primeiro cumprimento que recebia como rei. Era a deixa que esperavam os vultos. Surgiram rápidos de seu esconderijo e lançaram sobre os dois amigos uma rede. Bakar ficou retido, mas Kadriel conseguiu escapar. Não por muito tempo, pois os quatro homens se lançaram sobre ele. Tudo isso se


182 PAZ GUERREIRA - FORÇA passou no mais absoluto silêncio. A única agitação se dava dentro da cabeça de Kadriel, que estava um turbilhão. Os pensamentos de Kadriel retomaram o rumo de uma possível reação. Como lesse seus pensamentos, um dos homens aproximou uma balestra da cabeça de Kadriel e disse: – Não tente nada. Mal acabara a frase, Kadriel surpreendeu-o com um golpe rápido que lançou a arma nas trevas. Quando se preparava para atacar seu oponente, outro dos homens pulou sobre suas costas, apertando-lhe o pescoço com o antebraço. Enquanto tentava se soltar, outros dois o apanharam. Kadriel lutava com vontade, mas logo estava com um dos homens torcendo cada um de seus braços para trás, um terceiro segurando-o pela cintura e o primeiro segurando-lhe o pescoço. Não conseguia mais se movimentar, faltava-lhe o ar, seus braços pareciam prestes a quebrar. Quando estava a ponto de desistir, Kadriel transportou-se. Tinha a sensação de estar flutuando no ar. No ar não, numa substância mais densa que o ar e menos densa que a água. Fez-se silêncio, que lhe dizia para relaxar, esquecer a dor. Aos poucos, Kadriel relaxava. Sua respiração foi baixando e se tornando consciente. Ele inflou o ventre e abriu as costelas para os lados e para cima. Abriu o peito, pressionando os ombros para baixo, facilitando a respiração. Abriu as fossas nasais, respirando como um touro furioso. Seu olhar tornou-se duro como o da águia que fixa sua presa. Com movimentos suaves, mas rápidos e irresistíveis, Kadriel livrouse dos seus oponentes, arremessando-os com facilidade nas quatro direções. Surpresos com a reação inesperada, voltaram à carga desordenados. O primeiro e o segundo foram projetados com facilidade. Kadriel movimentava-se como o fogo. Seus gritos foram diminuindo até desaparecer, o que o fez lembrar de onde estava: na beira de um precipício. Não se ouviu nenhum baque, o que indicava a profundidade.


TALAL HUSSEINI 183 O terceiro homem foi barrado com um chute na garganta. O estalido do pescoço soou claro no silêncio da montanha. Quando o corpo rolou pelo precipício, já estava sem vida. A morte fora instantânea. A montanha seria o seu sepulcro, junto com seus dois companheiros. Kadriel voltou sua atenção para o quarto elemento, que fugia correndo em direção à floresta. Quando Kadriel pensou em começar a persegui-lo, Bakar, que havia finalmente conseguido rasgar a rede, lançou um pedregulho certeiro em direção ao fugitivo, que o atingiu na nuca, levando-o à morte instantânea. Bakar virou-se para Kadriel, com ar de total indignação: – Ao menos um você deixou para mim! O comentário, que não podia partir de outro senão de Bakar, fez dissipar a tensão que envolvia Kadriel, e este sorriu para o amigo, olhou para a placa e respondeu: – Não se preocupe, Bakar, nossa luta está apenas começando! Hoje é o primeiro dia de um futuro que acaba de chegar.


TALAL HUSSEINI 187 32. akan entrou casmurro no seu palácio, com passos marciais, quase marchando, sem falar com ninguém. Os serviçais que o conheciam há mais tempo sabiam que nessas ocasiões não se devia dirigir a palavra ao governador nem para desejar um bom dia, sob o risco de deixá-lo ainda mais irritado. Aparentemente, algo na viagem à Capital o havia desagradado. Mas de qualquer modo não podia se furtar a encontrar seu hóspede Haggi, que havia permanecido na cidade até a sua volta atendendo a um pedido seu. O governador mandou chamar Haggi para encontrá-lo a sós na biblioteca do palácio. Quando o governador chegou ao local designado, Haggi já o aguardava, pois, como bom diplomata, jamais deixava uma autoridade esperando. O governador vociferou: – Adaran...!! – Perdão, Nakan, não compreendi... – As primeiras ações de Adaran como novo Rei não me agradaram nem um pouco! – completou Nakan. Haggi fingiu surpresa. O General completou: – Não vou esconder meu descontentamento. Não acho que ele seja a pessoa mais indicada para conduzir o reino. O velho Sokárin devia estar certo em alterar o sucessor. É lamentável que não tenha tido tempo para trocar a placa... – Mas Adaran é um homem inteligente e capaz. Será que não pode fazer um bom reinado? – Não duvido da capacidade nem da inteligência de Adaran. Só não tenho certeza sobre o seu caráter. – Posso entender, então, que o Rei não terá o apoio do interior. Será que uma revolta se aproxima? N


188 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Não, de forma alguma vou me rebelar ou conspirar contra o Rei, mas também não terei grande prazer em apoiá-lo em suas empreitadas. Pressinto tempos difíceis. A conversa decorria num tom bastante franco, o que não era tão comum entre aqueles dois homens treinados nas artes diplomáticas. Nakan relatou então o episódio ocorrido na reunião com os generais, que culminou com a morte de um velho general. Desse fato Haggi não sabia, pois sua rede de informações não contava com ninguém dentro do Conselho de Guerra. – Nakan, você sabe que minha missão aqui é verificar as condições em que a Aliança das Doze Cidades vai encarar a sucessão, e agora o novo Rei. Posso dizer em meu relatório que o apoio da Aliança ao novo Rei é absoluto? – Meu caro amigo – retrucou Nakan, tornando contido o ritmo da conversa – penso que relatórios não devem conter juízos de valor muito específicos. Relatórios são tanto mais precisos quanto menos informações trouxerem. – Entendo... Entre nós, podemos pensar em algo mais conclusivo? – Haggi, minha conclusão é que vou procurar cuidar da melhor forma possível dos interesses da minha cidade e das demais cidades da Aliança, sem entrar em atrito com o poder central. Mas por certo não aceitaremos nenhuma imposição que venha a restringir de qualquer forma nossas posições. A Aliança das Doze Cidades procurará manter sua autonomia. – E se o governo central não permitir? – Prefiro não pensar nessa hipótese, por enquanto, mas não iremos nos submeter. Assim dito, Nakan despediu-se de Haggi. Esse era mais um teste que impunha ao rapaz, pois sabia que ele representava o Estado, e que ao deixar sua posição de insurgência tão exposta corria sérios riscos. Se


TALAL HUSSEINI 189 relatasse a Adaran o que ouvira, certamente ele tomaria medidas contra a Aliança, ou contra Nakan, mas este estava preparado. Já a Aliança... seria mesmo uma aliança? Nakan estava absolutamente certo com relação à fidelidade de duas cidades, acreditava em outras duas, mas não colocaria sua mão no fogo. Quatro eram duvidosas e as outras três por certo estariam com o Rei. O choque não seria fácil... Haggi despediu-se do governador e foi em direção aos seus aposentos. Quando já estava perto, um vulto surgido do nada o surpreendeu. Era Ivis. Não se tinham visto desde o episódio no jantar. Depois daquilo, Haggi estivera ocupado com seus afazeres oficiais e algumas viagens curtas até outras cidades da Aliança. Haggi não era homem de ser surpreendido e muito menos de se assustar. Ivis havia sido discreta. O susto mesclou-se à satisfação em vê-la. – Ivis...! Que surpresa! – Precisava vê-lo... Não tive a oportunidade de me desculpar por Garat. – Você não tem do que se desculpar, pois nada fez. Se alguma culpa lhe assiste é a de estar noiva daquele imbecil. – Creio que essa culpa já expiei, pois não sou mais noiva... nem dele, nem de ninguém. Haggi teve trabalho para ocultar a alegria que sentiu com tal notícia. Uma demonstração dessa natureza arruinaria sua estratégia de conquista. O próprio fato de sentir aquela alegria foi estranho para Haggi, pois não era a satisfação de um movimento bem sucedido no tabuleiro da conquista, e sim um sentimento verdadeiro, cuja origem ele não conseguia identificar. Ao se recompor internamente, Haggi indagou: – Não é mais noiva? Mas e Garat? E as famílias? E tudo que envolve esse tipo de situação? – Não posso me importar com tudo isso se minha felicidade estiver em jogo. Garat é um covarde, falta-lhe o valor de um cavalheiro.


190 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – E o que a traz aqui? Posso ajudar de alguma maneira? – dizendo isso, Haggi aproximou seu rosto do de Ivis e por um instante estiveram verdadeiramente perto de se beijar, não fosse um serviçal do palácio têlos abordado correndo, desesperado e resfolegado: – Senhor, uma convocação do Rei, o senhor precisa ir imediatamente à Capital! – Pois bem, não há necessidade para tamanho desespero, amanhã preparar-me-ei para a viagem. – O senhor não entendeu, a convocação é para agora! Há uma carruagem real a aguardá-lo no pátio, para partir imediatamente. Suas malas já foram arrumadas e estarão na carruagem. O rapaz fez uma pausa e prosseguiu: – Creio que não exista a opção de não ir agora, pois há guardas reais para a sua escolta, com firmes ordens para seguir imediatamente para a Capital, com o senhor... – Entendo. Haggi afastou-se de Ivis, com um olhar resignado: – O dever me chama, mas por certo nos encontraremos novamente. Vou esperá-la na Capital. Não fique noiva de novo sem me consultar. Ivis sorriu e acenou um adeus tímido, de quem não conseguiu obter o que queria. 33. figura que comandava a reunião era tenebrosa. Pele acinzentada, longos cabelos desgrenhados, olhos fundos, negros como breu. Sua voz não parecia humana, soava algum tanto metálica e ao A


TALAL HUSSEINI 191 mesmo tempo grave, fazia vibrar as entranhas de quem o ouvia, mais precisamente o estômago, causando uma sensação incômoda. Vestia apenas uns trapos em torno da cintura, lembrando o estilo utilizado pelos povos de além do Indo, mas mais folgados. Ayamarusa admoestava seus interlocutores, que eram os seus discípulos, ou, antes, seus servos. Ele começou imprecando-os de palavrões, pois haviam permitido que Mulil completasse sua missão no deserto. A notícia era que Mulil estava percorrendo o caminho de volta, trazendo com ele um artesão sagrado, encarregado de cumprir não se sabe qual missão de Montuhotep. Nenhum dos presentes ousava sequer olhá-lo diretamente, pois era realmente uma visão desagradável. Se apenas sua voz já causava náuseas, esta acompanhada da sua figura faria qualquer um desmaiar. Quem ousou responder à pergunta de Ayamarusa de por que havia sido permitido a Mulil chegar ao seu destino foi um homem com idade entre os trinta e cinco e os quarenta e cinco anos, de estatura bastante elevada, cabelos curtos, rosto largo e quadrado. Pelos trajes, via-se que era militar de alta patente do exército egípcio. Os ombros largos e braços secos terminados por grandes mãos denotavam grande força física. Knef era um assassino profissional. Conhecia todas as formas de matar, desde as mais violentas até as mais sutis. Conhecia muito bem todas as técnicas de combate manual e armado. Todas essas habilidades somadas a uma mente extremamente metódica o tornavam um homem muito perigoso. Ele redarguiu ao seu Mestre que lhes pareceu mais conveniente deixar que o deserto destruísse Mulil. – Mas não destruiu! – esbravejou Ayamarusa – Vocês o subestimaram, e agora corremos sério risco. O artesão não pode chegar à presença de Montuhotep. Devemos capturá-lo com vida, para extrair dele as informações sobre a missão que lhe foi confiada. Reúnam todas as forças para realizar essa tarefa. O momento ideal é agora, pois devem


192 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA estar chegando à cidade. Depois que estiverem entre os seus, será muito mais difícil nos aproximarmos. Vão! E desta vez não falhem! Todos obedeceram imediatamente, seguindo em direção à entrada oeste da cidade, por onde sabiam que Mulil chegaria. Era um grupo bizarro, formado por assassinos e vilões de todos os tipos. Além de Knef, havia um sujeito magro e alto, de idade indefinida e de raça também indefinida, pálido, chamado Agap. Ele era um mago, perito nas artes da sabotagem e da intriga. Dentro do meio da magia e da feitiçaria não tinha grande poder, mas o que possuía era o suficiente para provocar grandes estragos em pessoas desprotegidas. Nos círculos que frequentava, todos sabiam que ele era mau-caráter, mas ninguém conseguia prová-lo. Também na linha da feitiçaria, fazia parte do grupo uma mulher, com ares sensuais, de boa aparência física, salvo pelo olho esquerdo esbranquiçado. Aparentava pouco mais de trinta anos de idade, devido a certos rituais de magia negra que costumava realizar, pois em verdade tinha idade bem mais avançada. Sethini dominava o sonho. Interferindo nesse ambiente, conseguia induzir as pessoas a fazer o que ela quisesse e, se fosse o caso, poderia causar-lhes danos psíquicos levando-as até mesmo à loucura ou à morte. O último componente do estranho grupo se chamava Ripu. Era um homem de instintos violentos, utilizado para fazer todos os trabalhos mais sujos que eram necessários. Foi cooptado por meio do sequestro de sua família, perpetrado pelo restante do grupo para chantageá-lo. Certo dia, quando procuravam forçá-lo a um trabalho ameaçando de morte seus familiares cativos, ele mesmo se adiantou e os matou, esposa e três filhos. Seu semblante nem sequer se alterou. Em seguida, realizou o trabalho que lhe ordenavam, assim como realizou todos os que lhe solicitaram depois disso. Gostava, não era questão de coação. Ja-


TALAL HUSSEINI 193 mais mencionou palavra sobre sua família, seguiu trabalhando para Ayamarusa como se nada tivesse acontecido. Com isso ganhou sua confiança. Os quatro começaram a fazer os preparativos para cumprir sua missão. Desta vez, não podiam falhar. O erro de cálculo sobre o deserto fora grave. Jamais imaginariam que Mulil pudesse conseguir. Poucas pessoas haviam sobrevivido àquelas areias, ainda mais sem conhecêlas previamente. Mas agora não falhariam. O plano era perfeito. O artesão capturado e Mulil morto, isso lhes bastava... Mulil e Sigés haviam feito uma tranquila viagem de volta. É mais fácil traçar planos de viagem quando se conhece o itinerário e as distâncias a percorrer. Entretanto, por mais que no início Mulil tivesse tentado encetar alguma conversa, não obteve qualquer resultado além de alguns sinais. Além de silencioso, Sigés era bastante compenetrado. Parecia fazer cálculos e planos mentais durante toda a viagem, apesar de ainda não conhecer sua próxima tarefa. Já se aproximavam da cidade, o denotavam algumas palmeiras que surgiam ao longo do caminho e aquela névoa que, ao longe, formava uma espécie de redoma em torno do povoado, que distorcia as imagens naquela área. Sigés carregava seus instrumentos com cuidado. Traziaos num grande saco de lona que parecia bastante pesado, mas em momento algum permitiu que Mulil o ajudasse a levá-lo. Ambos estavam exaustos. Surgiram no horizonte, vindo em sua direção, duas silhuetas. Mulil ficou desconfiado, mas daquela distância ainda não se divisava seus rostos. De qualquer modo, alertou Sigés, que já estava com uma marreta, que era uma das suas ferramentas, nas mãos. Mulil tinha um longo bastão que, aprendera com seu Mestre, era um importante instrumento para longas caminhadas.


194 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA Talvez fossem seus amigos que viessem recebê-los. Sentia saudades de sua amada Sekhmetis. Uma das silhuetas podia ser de seu amigo Zimbro, pelas grandes proporções. Zimbro era um grande guerreiro, dotado de extrema força física e domínio sobre os animais. Parecia comunicar-se com eles, nunca estava desacompanhado de Onix, sua pantera negra. Não, não podia ser ele, pois não havia nenhum animal ao seu lado. A preocupação de Mulil cresceu. Os dois vultos que, agora se via, eram de homens, começaram a correr em sua direção. Não havia onde se esconder, pois estavam em campo aberto. Fugir também era inútil, pois com o cansaço da viagem fatalmente seriam alcançados. Restava lutar. Esperaram parados. Knef lançou-se sobre Mulil, que conseguiu se esquivar do primeiro assalto. O combate tornou-se feroz entre os dois homens. Evidentemente, Knef o superava em força física e técnicas de combate, mas Mulil aprendera com seu Mestre muito sobre tática e estratégia, o que lhe permitia equilibrar as ações. Enquanto isso, Sigés surpreendeu contra o violento Ripu, logrando desviar do seu ataque e contra-atacá-lo com uma forte marretada nas costelas, que o retirou de combate com duas ou três quebradas. Sigés passou a ajudar Mulil contra Knef, que intensificava seus ataques. Mas não viu chegar Agap, que lhe soprou um pó no rosto, paralisando os seus músculos e deixando-o consciente, mas sem qualquer possibilidade de reação. Juntou-se a ele Sethini, colocando um capuz negro sobre a cabeça de Sigés e ajudando Agap a colocá-lo sobre um cavalo. Mulil viu que levavam o artesão, mas nada podia fazer, pois já estava em grande dificuldade na sua luta contra Knef. Os rigores do deserto minavam sua resistência. Knef conseguiu derrubá-lo, sacou uma espada curta e foi em sua direção, pronto para liquidá-lo. Foi quando uma flecha passou zunindo por ele, riscando-lhe o ombro. A espada caiu. Mulil lançou-se sobre ela, mas Knef a chutou para longe. Voltou-se


TALAL HUSSEINI 195 para o vulto que disparara contra ele. Estava muito longe para que pudesse identificar. Fora um excelente tiro para aquela distância. Era uma pessoa pequena, mas estava acompanhada de outra, bem maior, com um animal ao lado. Vinham rápido na sua direção. Knef pensou por um momento em qual seria a melhor atitude. Terminar de acabar com Mulil..., mas ficaria exposto a outro disparo. Enfrentar os inimigos desconhecidos... seriam três contra um, pois seus companheiros já haviam fugido com o prisioneiro, acompanhara-os Ripu, ferido. Resolveu fazer uma retirada estratégica, mas ainda teve tempo de se dirigir a Mulil: – Ainda vamos nos encontrar de novo! E você não terá tanta sorte! Chamo-me Knef, guarde bem este nome, pois será o último que ouvirá antes da sua morte – ao dizer isso, saltou sobre um cavalo que seus companheiros lhe haviam deixado, e partiu em disparada. O primeiro vulto a chegar perto de Mulil foi Onix, a pantera negra de Zimbro. Ela poderia ter alcançado o fugitivo, mas permaneceu com Mulil, atendendo a um assobio de seu companheiro. Os outros dois chegaram em seguida. O gigante Zimbro sorria, como sempre, feliz em rever o amigo. A pessoa menor era Sekhmetis, que ajoelhou-se ao lado do prostrado Mulil, abraçando-o carinhosamente. Ver aqueles olhos verdes fazia com que se esquecesse de todas as agruras do deserto. Enquanto o casal se perdia num abraço sem fim, quem disse as primeiras palavras foi Zimbro: – Mulil, você está horrível, o deserto acabou mesmo com você... De fato, o discípulo de Montuhotep estava mais magro, com a pele queimada pelo Sol e ressecada pelo sal, barba de semanas, sujeira de dias. Mas ainda teve energia para responder com humor: – Quase acabou, meu amigo, quase... não fosse o tiro preciso, como sempre, de Sekhmetis. A jovem sorriu. Mas Mulil prosseguiu em tom mais grave: – Ocorre que conseguiram levar Sigés!


196 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Quem é Sigés? – perguntaram quase em uníssono. – É um artesão. Foi o motivo de minha viagem pelo deserto. Devia trazê-lo à presença de Montuhotep, que tinha para ele uma tarefa. Mas eu pus tudo a perder... Graças à minha falha, intuo que ele está nas mãos de Ayamarusa. – Montuhotep saberá o que fazer, precisamos ir até ele sem perda de tempo – respondeu Sekhmetis. Os dois homens concordaram. O grupo partiu apressado para ter com o Mestre. 34. adriel parecia ter dormido vários dias. A busca da placa fora desgastante. Sua vontade era ir direto a Ravi para lhe relatar as novas, mas o cansaço e a hora tardia em que retornaram o fizeram ir diretamente para a sua casa. Bakar, que o acompanhara, roncava sonoramente sobre uma manta no chão da sala. Como nenhum dos homens que os haviam atacado na montanha sobrevivera, acharam seguro ir para casa, uma vez que a notícia da placa ainda não teria chegado aos ouvidos de ninguém, principalmente de Adaran, que não permitiria que seu trono fosse ameaçado por nada. Kadriel não via a hora de falar com Ravi, ele saberia como esconder a placa e como utilizá-la da maneira mais adequada e no momento oportuno. Resolveu, entretanto, fazer a prática de concentração que aprendera com Ravi, enquanto esperava que Bakar acordasse. Sentou-se sobre os joelhos, na posição que lhe havia sido indicada como a mais adequada para concentrar-se, e iniciou os passos. Ao chegar perante o senhor das portas, algo inusitado aconteceu: surgiu um K


TALAL HUSSEINI 197 ruído agudo que quase estourava seus ouvidos. De repente, Kadriel como que se transportou, em velocidade espantosa, passando sobre mares e cidades, até as altas montanhas do topo do mundo, parando bruscamente, frente a frente com um indivíduo magro, a ponto de deixar aparecer as costelas sob a pele, vestido apenas com um tipo de calção indiano curto, de tecido, folgado, justo apenas na cintura e em torno das coxas, sentado com as pernas cruzadas, como os escribas, em frente à entrada de uma caverna. Kadriel flutuava em frente a esse indivíduo. Sua pele era de uma cor estranha: um misto de escura acinzentada com um tom avermelhado, como se tivesse apanhado muito Sol. Os cabelos e a barba longos estavam desalinhados. A vibração ensurdecedora continuava. Kadriel sentia que aquela vibração fazia com que tudo à sua volta tendesse ao caos, como se o mundo fosse desintegrar-se a qualquer momento. Quando olhou para trás, Kadriel viu uma multidão vibrando daquela forma, como que hipnotizada. Voltou-se novamente para aquela figura bizarra e deparou-se com uma imagem que nunca mais esqueceria: os olhos. Seus olhos eram negros como o abismo, praticamente não tinham esclerótica. Duas esferas negras, de uma profundidade insuportável. Kadriel viu seu nome, que jamais ousaria pronunciar: Ayamarusa. No exato momento em que soube seu nome, foi arrebatado de volta pelo mesmo caminho até a sua casa. O impacto do retorno foi tanto, que Kadriel não conseguira recuperar de imediato a consciência. Quando abriu os olhos, deparou-se com Bakar, que o retinha em seus braços com uma expressão de pavor na face. Kadriel sangrava pelas narinas, sentia náuseas e tonturas. Bakar gaguejou: – Você está bem...? Kadriel pensou na resposta, mas ela não saiu de seus lábios. Fez um gesto afirmativo lento com a cabeça, o que pareceu não convencer ao seu amigo, que insistiu:


198 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Pois você não me parece nada bem, acho melhor irmos a um médico. Você está tremendo, e sangrando... – concluiu tocando seu próprio nariz, para indicar onde era o sangramento. Kadriel levou as costas da mão ao nariz, depois a olhou, para constatar o que já sabia ser verdade. Procurou respirar com calma, buscando forças para pronunciar algumas palavras que pudessem tranquilizar Bakar: – Estou melhor... Um médico não será necessário. Precisamos ir até a casa de Ravi. Bakar o ajudou a se levantar. Kadriel ainda estava visivelmente trêmulo, mas o sangramento estancara. Os dois partiram rapidamente rumo à casa de Ravi. Havia muito que conversar. Chegando à casa de Ravi, este os recebeu pessoalmente, fazendo-os entrar no jardim que ficava na parte posterior da casa, aquele que possuía vista para Anthar. Percebendo que Kadriel não estava muito bem, Ravi fez sinal a uma serviçal para que lhe trouxesse algo de beber. Apenas pelo sinal, ela sabia que devia trazer vinho. Serviu as taças a partir de uma ânfora decorada com estranhos símbolos, desconhecidos tanto para Kadriel quanto para Bakar, pois não pareciam humanos. Kadriel ficou curioso, mas deixou as perguntas para uma outra oportunidade, já que havia muitos assuntos importantes para tratar. Sem pronunciar palavra, com um ar solene, Kadriel fez sinal a Bakar para que mostrasse a Ravi o fruto de seus esforços. Bakar, fazendo ares ainda mais cerimoniais, colocou sobre a mesa um embrulho e o foi desvelando vagarosamente. Ravi não demonstrou qualquer surpresa ao se deparar com a placa, apenas pousou a mão sobre ela, saboreando com o tato cada uma das letras que formavam o nome de Kadriel. Ravi indagou:


TALAL HUSSEINI 199 – Vocês tiveram algum problema para consegui-la? Você não me parece nada bem, Kadriel. Tome um pouco deste vinho envelhecido, lhe fará bem. – Não foi um problema com a placa... Quer dizer, na verdade tivemos sim alguns problemas... Mas, quero dizer... Não foram eles que me deixaram assim – Kadriel ainda estava visivelmente perturbado. Ravi fez uma expressão interrogativa, e foi Bakar quem tomou a palavra para tentar explicar. – Senhor, nós encontramos a placa num ninho de falcão nas montanhas, no mesmo local em que certa vez, na nossa infância, havíamos sido atacados por um falcão. Nós a pegamos sem maiores problemas, mas quando estávamos de saída, apareceram alguns homens... – fez uma pausa, esperando alguma pergunta de Ravi, mas este permaneceu em silêncio, como tinha por hábito fazer, aguardando a continuação. Então Bakar prosseguiu: – eram quatro, nos pegaram de surpresa, me acertaram na cabeça, colocando-me fora de combate, e então os quatro partiram para cima de Kadriel. Quando me recuperei, ele não havia deixado quase nada para mim, três deles estavam mortos e o último fugia em disparada em direção à floresta. Tive de abatê-lo com uma pedrada. Como era muito tarde e estávamos cansados, voltamos para casa. – Então por que Kadriel está atônito? Chegou a ser golpeado? – Não, senhor, ontem quando retornamos ele estava bem. Hoje pela manhã, quando acordei, o encontrei ajoelhado no chão, trêmulo, com o nariz sangrando muito... – neste momento da narrativa, Ravi o interrompeu: – Trêmulo e sangrando?! Rápido, ajude-me a colocá-lo neste catre. Colocou uma mão sobre o coração de Kadriel e a outra sobre a cabeça e, fechando os olhos, pronunciou algumas palavras impossíveis de se entender. Depois preparou um chá e fez Kadriel bebê-lo. Este logo pe-


200 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA gou no sono, dormindo por aproximadamente meia hora. Quando despertou, Ravi o velava: – O que aconteceu, Kadriel? – Nós recuperamos a placa... – Sim, isso eu já sei, Bakar me contou tudo. Você fez uma prática de concentração? – Sim, aquela que o senhor me ensinou, mas algo muito estranho aconteceu... – Kadriel relatou então sua experiência. Bakar, que também ouvia, parecia impressionado. Ravi limitou-se a dizer: – Ayamarusa quis vê-lo de perto. Agora já o conhece. Mas não se preocupe, não acontecerá de novo, já criei algumas barreiras que o impedirão de chegar novamente até você. – Mas quem é esse? É uma figura real, ou uma fantasia tenebrosa dos meus pesadelos? Pois o vi também no meu sonho. Ele era o líder de um grupo que atacou Mulil. – Ele é ambos. O mal que ele pode fazer é bem real. Só esperava um novo momento histórico para buscar realizar seus intentos malignos. – O senhor o conhece, então? – Sim, o conheço há muito tempo. Mas você não deve se preocupar com ele agora. Suas atenções devem estar focadas em como cumprir o seu destino, como lutar pelo trono e fazer deste País um lugar belo e justo. Quanto mais tempo Adaran ficar no poder, pior ficará a situação da população. – Vamos levar a placa a público, tenho certeza de que muitos nos apoiarão! – Sim – concordou Bakar – vamos lutar pelo direito de Kadriel à sucessão. – Entendo o seu açodamento, rapazes, ele é fruto da juventude, mas o momento agora é para uma estratégia mais elaborada. Temos que traçar alianças fortes em torno de um núcleo formado pelos guerreiros mais fiéis. Assim que Adaran souber da placa, não poupará esforços para


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