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Published by katchauu27, 2023-09-26 12:09:31

paz guerreira

aventura

TALAL HUSSEINI 51 Sokárin retirou-se escoltado pela Guarda Real, que nunca o abandonava. O assunto da sucessão novamente tomaria conta do reino. Apesar da idade avançada do Rei e do fato de que a qualquer momento uma sucessão seria necessária, o tema não era muito debatido, pois causava uma certa apreensão. As pessoas preferiam acreditar que o Rei viveria para sempre... Mas uma troca da placa, apenas cinco anos depois da última troca. Seria a quarta placa gravada por Sokárin em seu reinado. A primeira logo que assumiu o trono, como era de praxe. A segunda somente trinta anos depois, devido, segundo todos presumiam, ao provável sucessor ter antecedido a Sokárin na morte. A terceira mais dez anos depois, pelo mesmo motivo. E agora a quarta, cinco anos depois, no quadragésimo quinto ano de reinado, por motivos que só o Rei conhecia. Nenhum possível sucessor havia morrido. Os mais cotados eram Golan e Adaran. Outros nomes também eram cogitados nos corredores do poder e nas ruas do País, mas os nomes mais fortes eram de fato esses dois. 7. notícia da troca de sucessor era inequívoca. Um homem de capa preta, com a cabeça coberta, de forma que seu rosto não podia ser visto, cruzou rapidamente a cidade. A situação era emergencial. O homem certificou-se de que ninguém o observava e entrou na velha casa em ruínas. Ninguém nas redondezas se aventurava por ali. Uns diziam que era mal-assombrada, outros que era antro de marginais e desocupados. A


52 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE A grossa camada de poeira sobre o chão e alguns restos de antigos móveis indicavam que nenhuma alma viva passava por ali havia muito tempo. Tudo que era feito de tecidos, como as cortinas e estofados, havia sido roído pelos ratos. Os cupins tomavam conta do que foram sólidos móveis, bem como das vigas da casa e do assoalho. Era arriscado transitar naquele fantasma de casa. Mas o vulto avançava a passos seguros, como se soubesse de cada tábua confiável e de cada armadilha. Abriu um alçapão obscuro, que jamais seria encontrado por quem não o conhecesse, dava acesso a uma escada íngreme que desaparecia na profundeza de sombra. O ser da noite prosseguiu, chegando a uma sala ampla, de forma retangular. Diferentemente do resto da casa, não havia qualquer resquício de pó naquele recinto. O pé-direito teria uns cinco metros, seis colunas regularmente dispostas, três de cada lado sustentavam o teto, todo pintado com afrescos. Eram imagens terríveis, de pessoas em grande dor, sendo torturadas, feridas, outras já mortas e desmembradas, cabeças decepadas, seres monstruosos e toda sorte de figuras bizarras. A iluminação era provida por várias tochas que não soltavam fumaça, uma vez que o cômodo não tinha janelas ou qualquer outra abertura para o exterior. A ventilação era um mistério, já que não se via nenhum duto de ar ou abertura que pudesse servir para esse fim. E de fato o ar era pesado ali dentro. O chão era de pedra polida, formando vários desenhos de estranhas mandalas, círculos e linhas, determinando algum tipo de mapa. Numa das extremidades da sala, havia uma espécie de altar, sobre o qual estava um recipiente côncavo. Uma voz potente tomou conta do ambiente, fazendo até mesmo a pedra vibrar. Não era uma voz humana, era distorcida: Surgiram do nada duas figuras encapuzadas, em mantos brancos, portando um terceiro manto, de cor púrpura. Estenderam-no para o homem, que o vestiu e com um gesto de braço determinou às figuras que saís-


TALAL HUSSEINI 53 sem. Subiu ao altar e conferiu o conteúdo do recipiente, tocando o dedo indicador no líquido e levando-o aos lábios. Tudo certo. O vulto acendeu uma chama sob o recipiente que continha o sangue, pronunciando algumas palavras numa língua ininteligível. Abriu uma caixa que estava colocada sobre o altar e começou a retirar alguns objetos e colocá-los um a um dentro do líquido quente, que começava a exalar um odor férreo. Eram ossos, alguns pareciam de animais, outros... Continuou a proferir fórmulas mágicas naquele idioma obscuro, cada vez em voz mais alta. Ora mexia o líquido com um instrumento longo, espécie de colher, ora levantava os braços, em invocações negras. O ar se tornou ainda mais pesado. O odor insuportável parecia não incomodá-lo. Uma vibração caótica pareceu tomar conta do lugar, o homem entrou numa espécie de transe. Uma figura começou a formar-se na superfície de sangue... O rosto de um homem, de barba e cabelos compridos e desgrenhados. E os olhos... negros como o mais profundo dos abismos. Aqueles olhos eram... o nada... A imagem se desfez. – Por que me chama?! Ainda não é hora... – Sim, Mestre – respondeu o homem, curvando-se, respeitosamente – mas é que alguns fatos novos precipitaram os acontecimentos. Teremos de tomar algumas providências imediatas, e não quis fazer nada sem ouvir seus conselhos sábios... – Você precisa vir até aqui e me ouvir para saber que Sokárin deve morrer?! O vulto pareceu surpreso, mas antes que dissesse qualquer coisa a voz prosseguiu: – A sucessão... O nome que estará na estela que o Rei pretende gravar não é do nosso interesse. Precisamos evitar que a troca aconteça, e a única maneira de fazê-lo você sabe muito bem qual é... – Sempre poderíamos tentar dominar o sucessor e fazer dele um joguete em nossas mãos. E caso não concorde, ele pode morrer.


54 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE – Não subestime a capacidade de Sokárin. Ele não é tolo. Nós o dominamos por muito tempo, mas a proximidade da morte parece ter causado alguns efeitos inesperados. Ele vai nomear um jovem, e um rei jovem que morre repentinamente gera muitas suspeitas e investigações. Já um rei idoso... não levanta tantos questionamentos. Se o nome inscrito naquela placa chegar ao trono, poderá tornar-se muito perigoso. – O Senhor já sabe qual é o nome...? – O nome não importa, se a placa nunca chegar à estela. Nós sabemos o nome que lá está, e é este que deve permanecer. Se houver a troca, o novo indicado terá apoios sólidos, e outro ainda mais importante está chegando. – O senhor se refere a... O lugar todo tremeu, dando a impressão de que iria ruir. A voz assumiu um tom aterrorizador: – Sim! Nunca ouse pronunciar seu nome na minha presença, assim como ele não pronuncia o meu... Ele virá certificar-se de que a sucessão correrá como ele quer. Você tem pouco tempo. – Sim, Mestre, todas as providências serão tomadas. O Rei nunca entregará a placa. E se matarmos os possíveis candidatos a estar na placa...? – Não seja tolo! Isso despertaria muitas suspeitas e investigações. Concentre-se nas minhas ordens e procure não pensar por você mesmo. Agora vá! A vibração caótica se acentuou até parar repentinamente. O vulto caiu sobre os joelhos, prostrado, arfando. Aquele ritual sugara suas energias. Os contatos com seu Mestre eram sempre assim. Sentia-se um fantoche nas mãos daquele ser malévolo. Os auxiliares de branco entraram, o ajudaram a se levantar, retiraram sua túnica púrpura e desapareceram. O homem deixou a casa rapidamente.


TALAL HUSSEINI 55 8. Templo Maior era um dos edifícios mais antigos do País. Fora ampliado e reformado várias vezes. A construção original datava de antes do período do Império. Já ninguém podia precisar a época. Trazia a magnitude das antigas civilizações. A nave central, que era parte da construção original, com dimensões colossais. A sua abóbada era sustentada por quatro estátuas gigantes, de formas já desgastadas pelo tempo, o que tornava impossível ver em detalhe suas feições, mas tão sólidas quanto nas priscas eras em que foram concebidas. Os quatro colossos erguiam a abóbada nos braços estendidos acima da cabeça. Com mais de quarenta metros de altura, cada uma delas era esculpida em um único bloco de pedra. Arquitetos, arqueólogos, historiadores e outros estudiosos de todo o reino gastavam anos a estudá-las e milhares de páginas a tentar explicá-las, o que não era possível sem as chaves adequadas. Desembocava na abóbada o salão principal, que tinha aproximadamente cento e cinquenta metros de comprimento por oitenta de largura. O pé-direito contava por volta de dez metros. Em frente a cada uma das paredes mais longas havia uma fileira de colunas com um metro e meio de diâmetro cada uma e faces de leão nos capitéis. O teto era pintado com belos afrescos do tempo do Império. A entrada do salão era por uma das extremidades, enquanto na outra, sob a nave numa parte mais alta, estava a estela que continha as placas com os nomes de todos os monarcas, desde o primeiro Imperador, e a placa velada com o nome do sucessor. Quatro soldados montavam guarda em torno da estela, em turnos de quatro horas, durante as quais permaneciam absolutamente imóveis, sendo dois deles rendidos a cada duas horas. O


56 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE Nos espaços entre as colunas havia estátuas, a começar pelos deuses patronos do País no fundo do recinto, na abóbada, prosseguindo com seus dirigentes em direção à porta, dos mais antigos para os mais recentes. O espaço reservado a Sokárin estava de frente para a estátua de seu pai, que o antecedera no trono. Ao fundo, grandes estandartes com os símbolos do Reino pendiam do teto. Um tapete vermelho ia da porta ao altar. Em dias de cerimônia, vinte arautos postavam-se ao longo do tapete logo na entrada, dez de cada lado, formando um corredor com as trombetas das quais pendiam os estandartes reais em versão menor. As trombetas soavam um toque marcial, as portas se abriam em duas folhas, quatro soldados de negro entravam em formação de dois por dois, marchavam até o altar e ladeavam a estela, rendendo os que ali estavam. As trombetas soavam novamente, e o arauto anunciava o Chefe do Conselho dos Anciãos, e todos os demais senadores, seguidos dos ministros de estado, e depois pelos funcionários mais importantes de cada ministério. Conforme iam entrando, as pessoas permaneciam cada vez mais distantes do altar. Kadriel entrava junto com os funcionários dos ministérios, postando-se já na segunda metade do salão. Por fim, entravam os convidados, na sua maioria de famílias ilustres do Reino. Todos vestiam longas túnicas claras, ou brancas ou beges, que era o traje apropriado para essas cerimônias. Um toque curto das trombetas fazia cessar os alaridos do salão. Alguns bedéis entravam no salão e, com uma agilidade que só podia ser fruto de muita prática, enrolavam e recolhiam o tapete vermelho que todos os quinhentos presentes tinham pisado e ato contínuo estendiam outro igual, porém novo e limpo. Novo toque, sobre o silêncio. As luzes do recinto se apagavam, restando apenas a iluminação proveniente de tochas presas às colunas, o que dava um ar de antiguidade e tradição ao


TALAL HUSSEINI 57 local. Todos sentiam forte comoção. Uma música suave de coral soava entoando um refrão que se repetia em idioma antigo. O toque das trombetas anunciava então a entrada do Rei. Todos se postavam com o joelho direito em terra durante toda a lenta passagem do Rei pelo tapete vermelho, até sua chegada ao altar. O Chefe do Conselho dos Anciãos o aguardava, beijava o sinete real e recebia um sinal para se levantar, seguido por todos os presentes. Então, o Monarca voltava-se para o público e abria a cerimônia, que, para muitos, era apenas forma, ou um evento social, mas para Kadriel era o que havia de mais real na vida, fora dali é que estava a ilusão. Kadriel estranhamente sentia-se mais vivo durante aqueles momentos cerimoniais do que na sua vida quotidiana. Era transportado a um estado de espírito que não conseguia reproduzir fora dali. Ficava revigorado, a ponto de esquecer por completo que seria o seu nome o encoberto na estela... Kadriel perdia-se em suas lembranças e pensamentos. Sempre que podia ia até o Templo Maior e lá permanecia meditando, orando, observando as estátuas, sozinho, salvo pelos imóveis guardas da estela. Pensava que já era hora de muitas coisas mudarem no País. Os tempos de grandeza e glória dos antepassados deviam ser restaurados. Kadriel estava imbuído de um forte espírito de humanidade, disposto a dar sua vida pela civilização que estava e pela civilização que ainda estava para ser. De repente, Kadriel sentiu-se desfalecer pela epifania daquele momento e certamente cairia se não tivesse sido sustentado com firmeza por alguém que surgiu ao seu lado. Ao olhar para o lado, Kadriel deparou-se com a imagem do Imperador Gur Medhavin. Ao olhar com mais atenção, viu que não se tratava exatamente do Imperador: – Eu conheço o senhor…? – Todos conhecem a todos, só não se lembram... – respondeu o homem, com um sorriso sincero.


58 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE Kadriel assentiu, sem entender muito o que ele quis dizer. Mudou de assunto: – Foi o senhor quem me escorou. Obrigado. Não fosse isso teria desmaiado. Há momentos em que a vida parece maior do que podemos suportar. O senhor me entende? – Sim, entendo. É sempre bom poder ajudar, e meu trabalho é de certa forma ajudar as pessoas a não caírem. E se caíram, ajudá-las a se levantar. Kadriel sentiu com aquele homem de olhar austero, mas ao mesmo tempo suave, uma conexão que excedia os limites do tempo. Não sabia explicar, mas queria continuar aquela conversa: – Bem, muito prazer, meu nome é Kadriel Vahan. – Sim, eu sei. Ravi – fez uma pausa – Medhavin. – Medhavin...? O senhor quer dizer... como o Imperador? – Sim, meu avô, Gur Medhavin. – Foi um grande guerreiro. – E, como todo grande guerreiro, conquistou a paz... Essa frase gerou um estranho efeito em Kadriel: ao mesmo tempo em que sentia seu peito vibrar pela força do heroísmo guerreiro, sentia uma paz aquietadora em seu coração. 9. m vulto se esgueirava pelas vielas escuras da cidade. Aquela noite era de um silêncio absurdo. Nem os gatos davam suas voltas habituais. Até mesmo os grilos e os sapos haviam aderido ao pacto tácito de não produzir ruído. Porque os animais sabem quando a noite pertence a outras criaturas e permanecem então em suas alcovas. O vulto prosseguia apressado. Parecia antever alguma coisa. U


TALAL HUSSEINI 59 Surgiu sabe-se lá de que entranhas da terra um bêbado a trançar as pernas em direção ao vulto resmungando no seu linguajar truncado pelo álcool o que devia ser um pedido de dinheiro ou ajuda. Ousava quebrar o pacto de silêncio daquela noite de lua nova. Mostrava nas ruas a sua presença ultrajante, seu hálito fétido, seus andrajos imundos, mas aproximava-se de um ser ainda mais baixo do que ele, um homem, sim, que não pedia licença aos demônios da noite para transitar no submundo. O bêbado aproximou-se demais... o suficiente para ver o rosto sob o capuz, mas somente por alguns segundos. O vulto debruçou-se sobre o corpo inerte cuja existência já havia abandonado por conta de uma estocada muito precisa de lâmina finíssima que mal deixava um ponto de sangue nos trapos sujos. Mais um ser que não faria falta alguma ao mundo e que teria, de qualquer modo, morrido de frio, de fome, ou por alguma doença ocasionada pela própria sujeira, sendo sepultado como indigente. O ato bárbaro não aplacou o ódio que corroía aquele corpo, mas descarregou ainda que momentaneamente a sua tensão. O vulto chegou a uma porta discreta batendo de maneira ritmada como fosse um código pré-avençado. A porta se abriu deixando-o passar a uma sala de pé-direito baixo e iluminação fraca: – Minha encomenda – disse o visitante inusitado, em tom seco. O outro deu-lhe as costas passando por uma porta induzindo o vulto a segui-lo. Estendeu-lhe um frasco contendo um líquido transparente. – Vai funcionar? – Alguma vez já falhei? – e acrescentou – E meu pagamento? Tive alguns gastos extras... O vulto buscou algo no bolso de seu casaco. Tirou um pequeno pacote de pano e colocou sobre a mesa. O outro o apanhou, ávido. Seus olhos brilharam arregalados sobre as moedas de ouro. O olhar metálico do visitante não transparecia qualquer traço de humor. Foi a última imagem gravada na retina do pobre homem. A fina


60 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE lâmina o privou da sua triste existência. O vulto guardou o frasco com o líquido e apanhou o embrulho com as moedas, desaparecendo porta afora. 10. adriel ainda não se recuperara daquelas palavras, que o atingiam de maneira inesperada. Faziam-no pensar, cogitar. Nunca lhe havia ocorrido de entender os imperadores ou governantes em geral como guerreiros, pois sempre associara guerreiros à idéia de soldados, batalhas, armas, jamais paz... Perguntou: – Mas um guerreiro suportaria todas as tensões que o poder impõe? – Um guerreiro flutuaria nas caldas do poder. Seria o canal puro do poder universal. – Mas não seria facilmente corrompido por ele? – Não é o poder que corrompe, o poder liberta e ilumina. Quando o homem se corrompe é porque perde o canal do poder e da sabedoria. Um guerreiro sabe disso e luta todos os dias para sacar o véu da ignorância que corrompe o homem. Portanto, onde homens comuns se corrompem, o guerreiro resiste – girou o olhar em torno do salão: – você pensava neste salão cheio, num dia de cerimônia, ao observar todas essas pessoas, diga-me o que vê. – Vejo pessoas comuns querendo algo não comum. – As pessoas comuns veem tudo de forma comum e não sabem como conquistar algo diferente porque estão sempre com a mente no passado ou no futuro. O guerreiro vê tudo de forma especial porque vive o presente. Para um guerreiro, sentar-se, caminhar, tomar banho, ver o Sol e as estrelas são sempre atos especiais, porque vive cada momento como K


TALAL HUSSEINI 61 se fosse o último. A consciência posicionada no momento presente abre as portas da realidade. Só quem conhece essa realidade tem o verdadeiro poder para governar. – Digamos que eu pudesse ver o presente, e a realidade se apresentasse, qual seria o primeiro ensinamento que o poder universal me apresentaria? – A humildade. Surpreso com a resposta, Kadriel perguntou: – Mas a humildade não é expressão de caráter servil, baixa elevação, fraqueza? – Ocorre que esse sentido foi retirado de contexto com o passar do tempo. O homem de poder é aquele que serve aos deuses, aos Mestres de sabedoria, e ante eles se prostra com baixa elevação, serve com honra, ciente de sua fraqueza ante a força que está naqueles. Um guerreiro é humilde ante os Mestres, a cujos pés faz seu juramento de servir para além de suas forças com senso de dever e com alegria no coração. Perante seus iguais, é forte, determinado e destemido. Isto é o guerreiro: humildade e entrega aos Mestres, e poder ante seus iguais. Por que o mar é tão grandioso, tão profundo e tão poderoso? Porque decidiu ficar pelo menos um pouco abaixo de todos os rios do mundo. – Então posso tornar-me rapidamente poderoso e invencível por meio da humildade? – Querer as coisas com rapidez denota vaidade, pois tudo tem seu tempo e seu ritmo. Ademais, é importante saber em primeiro lugar que o poder não é do homem, e em segundo lugar que vencer não significa exatamente o que você está pensando. Não se vence no aspecto pessoal. Toda obra deve ter em vista os valores da alma: nobreza, bondade, verdade e justiça. Para isso, a personalidade deve sacrificar-se por inteiro, o que deve primar é o dever, não o querer. A força do desejo e do personalismo nos impulsiona à vaidade. O sacrifício consiste em morrer co-


62 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE mo pessoa, para humildemente renascer no Eu superior. A morte da personalidade faz brilhar a alma. É preciso aceitar o plano dos Mestres e dos deuses e esquecer de nós mesmos. Lutar contra tudo que seja falso e ilusório, pois a personalidade quer seu trono. Aceitar o destino e não fugir dos combates que a vida impõe, não fugir nem da vida nem da morte, nem da dor nem do medo. Um guerreiro é humilde e aceita a morte, uma pessoa comum não. Kadriel sentia-se estranho, conversava com Ravi como se conhecessem um ao outro há muito tempo. Sentia uma forte pressão no peito, em parte pelo que Ravi dizia, em parte por se lembrar do compromisso que havia tido com o Rei. Sendo ele o sucessor, já não poderia ter vida pessoal. Compreendia que para governar teria que primeiramente se tornar um guerreiro, para que a luz triunfasse com sabedoria. Compreendia que milhões de pessoas dependeriam de suas decisões, e a humildade era o seu primeiro código como um governante guerreiro. Se falhasse, muitos sofreriam. Sentiu uma espécie de tristeza. Baixou os olhos e teve vontade de chorar. Ravi toca no ombro de Kadriel: – Sei em que você está pensando e compreendo seus sentimentos, mas um guerreiro, mesmo com esse sentimento de abismo, assume seu lugar. Não pense que é um sentimento negativo. Ele traz consigo humanidade, sobriedade, amabilidade, discernimento e poder profundo de reflexão, aliados importantes nesta dura jornada. Seja humilde e sirva aos Mestres e aos deuses, Kadriel, pois neste mundo não existe garantia de vitória, a vitória está em sua alma. Kadriel já não procurava disfarçar que tudo que era dito perpassavalhe o corpo e a alma. Sentia-se despido diante daquelas realidades novas para ele, mas na verdade tão antigas quanto o homem, que Ravi lhe desvelava. Sentiu-se fraco: – Como poderei superar os desafios que me esperam?


TALAL HUSSEINI 63 – Vou lhe contar uma estória: o Sol, querendo conhecer a escuridão, pergunta aos sábios da montanha onde poderia encontrá-la. Estes respondem: "vai até o íntimo da caverna mais profunda e lá seguramente encontrarás a escuridão". O Sol partiu em sua busca e, encontrando a caverna mais profunda, procurou a escuridão com entusiasmo. Depois de algum tempo, já decepcionado, voltou ao encontro dos sábios e disse: "procurei intensamente, mas, para minha infelicidade, não pude encontrar o que desejava". Os sábios, já preocupados, responderam: "vai, então, até o oceano das esperanças e lá, na mais abissal das profundezas marinhas, sem dúvida encontrarás a mais poderosa escuridão". Depois da sua busca em vão, o Sol voltou aos sábios e disse: "procurei com toda a força da minha alma, procurei no mais profundo dos oceanos e fui aonde ninguém jamais fora, no entanto, não pude conhecer a escuridão, pois nos mares ela não se encontrava". Os sábios, depois de algum tempo, trouxeram uma resposta para o Sol: "caro Sol, nunca conhecerás a escuridão, nem nas cavernas, nem nos oceanos, nem em lugar algum no mundo, pois como és o Sol, carregas a luz contigo para onde quer que seja e iluminas tudo ao teu passo. Portanto, jamais conhecerás a escuridão". Kadriel, assim também deve ser o guerreiro. Seu coração é um Sol que ilumina as trevas, leva solução para os problemas, leva virtudes para combater os defeitos. Um guerreiro é luminoso e não dá espaço à escuridão. Por isso, não se preocupe com os que gostam da escuridão, pois, quando se aproximarem de você, seu coração de guerreiro os iluminará com uma luz tão intensa que eles não resistirão. A luz de cada um é do seu exato tamanho, mas é a mesma luz que banha todo o universo. Sendo guerreiro e estando ligado à hierarquia branca, você é um elo da corrente de guerreiros e Mestres, iniciados, e toda a hierarquia de deuses, até encontrar o Sol maior do Deus único e infinito, ao qual todos se unirão um dia. Para isso, basta você descobrir e assumir o guerreiro que existe dentro de você. A humildade fará brilhar o mais


64 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE puro coração, um coração que você ainda desconhece, mas que está lá, luminoso e radiante. 11. hena seria uma mulher bonita se não tivesse os traços tão endurecidos pela vida. Tinha a fisionomia rígida, os atos rígidos, o coração rígido. Julgava-se invulnerável, sob o argumento de que já suportara tudo que seria possível uma pessoa suportar. Assim sendo, nada poderia atingi-la. Não tinha família mais. Sabia bem que os filhos eram o ponto mais fraco de qualquer pessoa. Quem sobrevive a ver seus filhos sendo destroçados, torturados e, já mortos, vilipendiados, ultrapassa as barreiras da mortalidade. Atinge a liberdade, pois nada nem ninguém poderá mais coagi-lo. Khena passara por essa barreira e deixara que suas tendências maléficas a dominassem por completo. Fazia o mal pelo mal, sem qualquer razão aparente. Mas no fundo vingava-se dos deuses, que lhe tinham sido tão cruéis. O caos lhe agradava. Foi com esse espírito que adentrou à casa no subúrbio da Capital, onde vivia o Capitão da Guarda Real com sua esposa e filha. Na sala não havia ninguém. Khena e seu companheiro vestiam máscaras e roupas inteiramente negras. Estavam pesadamente armados, pois não se ia desprevenido à casa de um guarda real. Foram entrando com cautela. A criança brincava no quintal, a esposa do Capitão tratava de seus afazeres na cozinha. Os dois invasores entraram furtivamente na cozinha, balestras em punho, apontando para a dona da casa. Ao perceber a presença hostil, sua reação reflexa foi procurar com os olhos a filha. O homem se aproximou colocando o dedo indicador sobre os lábios. Após um segundo de K


TALAL HUSSEINI 65 hesitação, a dona da casa atacou o invasor com uma faca que tinha à mão para a preparação do almoço, logrando fazer-lhe um corte no braço, ao mesmo tempo em que gritava para sua filha: – Fuja!!! Não disse mais, pois foi atingida por um golpe que lhe extraiu a luz dos olhos. Quando olhou do quintal para o interior da casa, através da porta entreaberta, sua filha já não viu a mãe, que jazia desmaiada. Olhar foi o único gesto que teve tempo de realizar, pois em um segundo Khena já estava sobre ela. Borrifou sobre seu rosto um líquido que a fez perder os sentidos. Em seguida a levou para dentro da casa, largando-a no chão. O homem vociferou: – Veja o que ela fez no meu braço – mostrando o corte fundo no antebraço, o qual sangrava muito. – Deixe-me ver isso – disse Khena, rasgando uma tira do vestido da mulher. Enrolou no membro ferido a apertou com força. – Cuidado! Isso dói. – Que homem fraco, não aguenta um arranhão. Só não vá chorar, por favor – disse em tom irônico. E completou, já com ar sério: – Trate de limpar essa bagunça, teremos que levá-las conosco. O homem obedeceu contrariado. Jogaram mãe e filha na carruagem, desmaiadas. Limparam a sujeira e se foram. O Capitão passava em revista seus homens. Era um tipo exigente. Não admitia qualquer falha nos uniformes e principalmente no equipamento. Todos tremiam nessas ocasiões. Depois de verificar um a um, partiam para o treinamento diário, carregados. Não era fácil suportar o ritmo que o Capitão imprimia, mas ele era um homem moral. Executava todo o treinamento junto com seus homens, e sempre terminava os exercícios antes de todos. Não havia, portanto, o que dizer ou reclamar. Ali-


66 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE ás, reclamação era uma palavra que não existia naquele lugar. Era a maior honra possível para um soldado servir diretamente ao Rei. Quem não tivesse capacidade física ou psíquica para suportar esse peso que pedisse baixa ou transferência para outras unidades que aceitavam pessoas mais delicadas. Todos dependiam de um, ninguém podia falhar ou fraquejar, pois a falha seria de todos. A força de uma corrente se mede por seu elo mais fraco. A Guarda Real era uma corrente forte, composta apenas por homens duros. Depois de um dia de trabalho intenso, o Capitão retornou à sua casa, ansioso por rever sua esposa e sua filha. Estranhou encontrar a porta aberta. Chamou, ninguém respondeu. Seu instinto de soldado imediatamente o colocou em alerta. Parou de chamar, foi vasculhando silenciosa e cautelosamente a casa toda. Ninguém. Em sua mesa de trabalho viu um envelope cor púrpura. Dentro uma carta anônima, com um cacho de cabelo de sua filha, dando conta de que ela fora sequestrada junto com sua mãe, e do que lhes aconteceria se não seguisse algumas instruções bastante específicas. O Capitão sentiu um misto de raiva e apreensão. Sua família era o que havia de mais valioso para ele. Tinha de fazer o que fosse necessário para preservá-la. Depois, puniria os responsáveis, custasse o que custasse. 12. eckus fizera o mesmo caminho de todos os dias de sua casa até o palácio real, a pé, antes da alvorada. Cumprimentava as pessoas que encontrava na rua, que àquela hora não eram muitas. Sempre as mesmas que, como ele, madrugavam para trabalhar. Era um homem P


TALAL HUSSEINI 67 feliz, apesar de morar sozinho – não era casado – e ter de cuidar de si mesmo sem uma boa mulher para ajudar. Gorducho por força da profissão, não deixava de ter uma certa agilidade. Tinha de estar preparado antes de o Sol raiar, pois o Rei com o passar dos anos dormia cada vez menos, acordando sempre mais e mais cedo. Bem cedo o rei tomava o seu desjejum, e lá estava Peckus para certificar-se de que a comida não estava envenenada. Estava no emprego havia dois anos. Seu antecessor teve um mal súbito e não sobreviveu. Nunca se disse que tivesse sido à custa da comida do Rei e nunca veio a público qualquer atentado contra a pessoa real, mas o atual provador oficial tinha lá suas dúvidas. Entretanto, tivera sorte até o momento. Ganhava razoavelmente bem, comia do bom e do melhor e ainda não morrera pela boca. Não havia do que reclamar. Aquela manhã não era diferente das outras. Provou o desjejum do Rei e continuou vivo. Ótimo. A bandeja podia ser levada. Era passada por uma portinhola para dentro dos aposentos do Monarca pois ele não gostava de ser incomodado durante as refeições. Era uma noite de verão, mas nos aposentos do Rei não fazia tanto calor quanto no restante da cidade. A construção dos primeiros tempos do império possuía um sistema de ventilação discreto e eficiente que permitia um frescor arejado em dias quentes e mantinha uma temperatura amena em dias frios. O Monarca teve um sono tranquilo como havia algum tempo não tinha. Acordou cedo, como sempre, com o canto dos primeiros pássaros, logo antes da Aurora com dedos de rosa surgir matutina. Sentia-se bem disposto naquela manhã. Dirigiu-se ao balcão para o qual dava a sua janela, para aguardar o nascer do Sol. O frescor dos úl-


68 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE timos instantes de madrugada o fez experimentar grande vitalidade. Finalmente o Sol se fez anunciar por um manto dourado que cobriu a Capital, lançando uma névoa amarelada sobre os telhados. Surgiu em seguida o astro-rei imponente como só um ser que é o centro de um sistema pode ser. O Rei absorveu seus raios e voltou para dentro do quarto. A bandeja com seu desjejum já havia sido deixada pela abertura na parte inferior da porta, como todos os dias. Após seu desjejum, o Rei dirigiu-se ao escritório para os despachos de expediente e assuntos corriqueiros da administração. Três dos guardas que ali estavam o acompanhavam, enquanto um ali permaneceu. Minutos depois, o Capitão apareceu rendendo o guarda que ficara em frente ao quarto real, sob o argumento de que sua presença era solicitada no pátio. Esperou que o guarda desaparecesse e fez um sinal para alguém que se ocultava atrás de uma cortina. O indivíduo entrou no quarto. O Capitão o advertiu: – Seja rápido, temos pouco tempo. O homem assentiu com a cabeça e desapareceu no interior do aposento. Lá, foi à escrivaninha do Rei, apanhando sua pena, cuja ponta embebeu num líquido transparente contido num frasco que trazia consigo. Em seguida, começou a procurar freneticamente por algo: a placa com o nome do sucessor. Mas não podia deixar vestígios de que ali estivera, então procedia com muito cuidado. Do lado de fora, o Capitão estava impaciente, pois o visitante já devia ter saído. Abriu a porta: – Não há mais tempo, o Rei deve estar voltando com os guardas. Você precisa ir. – Ainda não encontrei o que procuro. – Isso não é problema meu, fiz minha parte trazendo-o até aqui, mas agora você precisa ir.


TALAL HUSSEINI 69 O homem sabia que o Capitão estava certo, mas ainda assim saiu contrariado. As explicações que teria de dar pelo seu fracasso não seriam das mais agradáveis. Retornando aos seus aposentos, Sokárin sentou-se à escrivaninha para algumas horas de escrita, como costumava fazer todos os dias. Apanhou sua pena e passou a escrever num pergaminho. Foram apenas algumas linhas. Guardou o escrito cuidadosamente numa caixa sobre a mesa. Continuou a escrever, até começar a sentir-se muito cansado, sensação inabitual naquele horário, mas que o Rei reputou à sua idade, que lhe pesava mais a cada dia. Deitou-se no terraço para aproveitar o ar puro. Sentia-se como se a espécie de divã que ali havia o abraçasse. Adormeceu. Como a bandeja do almoço demorava a ser devolvida, após alguma deliberação, os guardas da porta decidiram comunicar o fato ao Capitão da Guarda Real. Este bateu à porta, chamando: – Majestade! Repetiu o gesto depois de alguns segundos. Nada. Os guardas se entreolharam. O Capitão fez um gesto de cabeça para que um deles abrisse a porta. Trancada. Mais um momento de dúvida e tensão. Não havia alternativa, tinham que entrar. O arrombamento da porta levou alguns minutos, dada a sua solidez. Foi necessário um pequeno aríete. Finalmente conseguiram. Primeiro entraram dois guardas, reconhecendo a área e verificando se não havia nenhum intruso. Tudo limpo. Foram em direção ao leito do Rei. Afastaram as cortinas... Ninguém! Todos foram tomados de uma estranha sensação, de vazio, mas seu rigoroso treinamento não permitiu que nenhum deles perdesse o controle.


70 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE Vasculharam o aposento. Realmente não havia ninguém. A bandeja do almoço não fora tocada. O terraço... Os guardas encontraram Sokárin deitado com aparência tranquila. O Capitão, que examinava cuidadosamente o local com os olhos, deu a ordem: – Vocês dois – disse ele, apontando os voluntários – vão até a residência do Primeiro-Ministro e do Chefe do Conselho dos Anciãos e peçam que venham até aqui. É um caso de urgência! Chegando à suntuosa mansão do Primeiro-Ministro, os guardas pediram a uma serviçal que chamasse seu patrão. A moça foi até o jardim preferido de Adaran: – Com licença, Senhor Adaran, dois homens da Guarda Real desejam vê-lo, dizem que é um assunto de vida ou morte. Adaran não demonstrou nenhuma surpresa. Não era homem de arroubos nem de gestos muito amplos. Terminou lentamente o que estava fazendo e dirigiu-se ao saguão de entrada de sua casa, onde os soldados esperavam em pé, apesar de lhes ter sido oferecido assento. Um deles tomou a iniciativa: – Boa tarde, Senhor Primeiro-Ministro. O Capitão pede sua presença no Palácio Real. Adaran permaneceu impassível, em pleno controle de suas emoções: – Do que se trata, o Rei manda me chamar? – Senhor, o Capitão só nos mandou dizer que é um caso de urgência… Agora sim o observador mais atento poderia ter notado um ligeiro e rápido brilho nos olhos de Adaran. Os guardas não perceberam. – Vamos até lá!


TALAL HUSSEINI 71 – Nossas ordens são para chamar também o Chefe do Conselho dos Anciãos. – Muito bem, sua casa fica no caminho para o palácio, eu os acompanho. A casa do Senador Rohel não deixava muito a desejar à de Adaran. A moça uniformizada que atendeu a porta não deixou de se assustar com a presença imponente do Primeiro-Ministro, ladeado pelos soldados da Guarda Real. O Primeiro-Ministro ordenou: – Diga ao Senador Rohel que estou aqui! Rápido, a questão é urgente. A moça hesitou. Adaran reforçou a ordem, já visivelmente contrariado, pois não gostava de ter de repetir ordens: – Algum problema? Por que você ainda não foi? A moça, assustada, quis começar a balbuciar alguma explicação quando uma voz vinda do fundo da sala, suave e ao mesmo tempo firme, interveio: – O Senador não está em casa, Senhor Primeiro-Ministro, mas posso ajudá-lo? O ânimo do Primeiro-Ministro arrefeceu instantaneamente: – Desculpe incomodá-la em sua residência, Sra. Inari, mas temos um assunto de Estado urgente para tratar com o Senador. – Vocês aceitam um chá? – disse a esposa do Senador Rohel, fazendo pouco caso da alegada urgência. Adaran esteve perto de perder a paciência, mas conseguiu controlarse. Aquela tranquilidade da Sra. Rohel o irritava, todos estavam com pressa para saber o porquê do chamado urgente do Capitão da Guarda e a mulher lhes oferecia chá. Mas ele não era homem de perder facilmente o controle e respondeu com polidez:


72 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE – Nós agradecemos sua hospitalidade, Sra. Inari, mas os assuntos de Estado são prioritários. A Senhora saberia nos dizer onde podemos encontrar o Senador Rohel? – Não sei lhe dizer onde ele está, mas creio que estará de volta antes de vocês terminarem o chá. Adaran desta vez ia mesmo perder sua paciência, quando o Chefe do Conselho dos Anciãos entrou na sala sorridente como se viesse de um passeio no bosque: – Bom dia, senhores. A que devo a honra desta visita? Aceitam um chá? – Já lhes ofereci, querido, mas parece que estavam com muita pressa de encontrá-lo. Quem sabe agora que já o encontraram possam aceitar… – disse a Sra. Inari Rohel, com um sorriso sincero nos lábios. – É claro, minha querida, poderia servir-nos no jardim? Está um lindo dia e ali podemos conversar com mais reserva – respondeu antes que o Primeiro-Ministro pudesse ter qualquer reação. Não restou senão seguir o velho senador ao jardim. Irritava um pouco a Adaran a cortesia com que aquele casal se tratava e com que tratavam os filhos e os empregados. Não deixava de ser um pouco de inveja, já que essa cortesia era verdadeira, e afinal onde se podia encontrar isso nos dias atuais. Adaran começou a falar: – O Capitão pediu nossa presença no palácio. Não disse ser um chamado de Sokárin. Temo que este tenha… – …falecido – completou o ancião. Desta vez o Primeiro-Ministro não conseguiu esconder sua surpresa do olhar arguto do Senador Rohel, que prosseguiu: – Creio que o senhor já esperava por isso, não é Senhor PrimeiroMinistro? – antes que Adaran pudesse esboçar qualquer resposta prosseguiu: – Todos nós esperávamos e, de certa forma, até o próprio Sokárin, dado o seu estado de saúde. Terá havido tempo para que ele devolvesse a placa com o novo sucessor? Ou ao menos para gravá-la?


TALAL HUSSEINI 73 Seria curioso que o Rei morresse logo antes de poder indicar seu novo sucessor... Qualquer indício suspeito na sua morte apontaria imediatamente para o nome que está atualmente na estela, não é PrimeiroMinistro? – ao utilizar a mesma construção inquisitiva pela segunda vez, o Senador fixou os olhos em Adaran, buscando alguma reação estranha, mas desta feita o semblante de Adaran nada transpareceu. – O Capitão não mencionou nada sobre isso. Ambos sabiam mais do que falavam e falavam mais do que diziam, num jogo de gato e rato entre dois gatos criados. – Mas creio que é tempo de nos dirigirmos ao palácio real, Senador. – Sim, já é tempo..., Primeiro-Ministro. O Primeiro-Ministro não gostava do ancião. Imaginou-se estrangulando-o naquele mesmo instante, mas nada podia fazer. Resignou-se. Saíram para o palácio. Quando o Rei despertou, sentiu como se tivesse dormido muitas horas. Estava leve, bem disposto. Resolveu ir à biblioteca. Os dois guardas do lado de fora permaneceram imóveis ante sua passagem, como se não o vissem. Este era o dever deles. O Rei seguiu até a biblioteca do palácio. Não cruzou com ninguém. Tudo estava como sempre. Quando ia retirar um livro da estante, ouviu um burburinho que provinha da ala em que se situavam seus aposentos. Pessoas surgiram de todos os lados indo em direção ao tumulto. O Rei acorreu também ao local. As pessoas pareciam desorientadas, a ponto de não verem que o próprio Soberano estava ao seu lado, para lhe franquearem passagem ou mesmo auxiliá-lo no deslocamento. Ao chegar ao corredor em que ficava seu quarto, o Rei se consternou ao verificar que os cortesãos se acumulavam à porta do seu quarto. Dirigiu-se para lá tão rapidamente quanto permitia sua idade. O tumulto era tanto que suas ordens de dispersão não eram atendidas. Os guardas continham os curiosos, mas já havia algumas pessoas no interior do aposento real. O Rei conseguiu entrar.


74 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE Sentiu um calafrio atravessar-lhe cada célula do corpo quando pôde vislumbrar a razão do tumulto. Adaran, o Primeiro-Ministro, estava em pé ao lado da cama, juntamente com o Senador Rohel. Sobre o leito, dois médicos do reino debruçavam-se sobre o corpo do Rei. Ao se ver, Sokárin entendeu. Os médicos acenaram negativamente com a cabeça para os dois políticos. O pensamento mais imediato do Rei foi voltar ao seu leito e deitar-se, para voltar a dormir desta vez sem sonhar, para em seguida acordar e retomar seu quotidiano. Mas foi apenas um pensamento rápido. Logo em seguida não queria mais se aproximar daquele corpo, daquela vida, queria o Sol e seus raios dourados. Foi em direção à janela-porta que dava para o balcão. O Sol nunca estivera tão forte. Uma luz intensa o cobriu e ofuscou sua visão. Sokárin saiu para o balcão, na direção dessa luz. Lentamente sua visão adaptou-se à intensa luminosidade, até que pôde enxergar seu Reino, de paz e harmonia, sem desavenças, sem injustiça, sem pobreza, sem dor, sem miséria. Era o reino que Sokárin vinha sonhando, aquele que ele acreditava possível quando gravou o nome de Kadriel Vahan na placa. Se ele passasse pelas provas que o aguardavam, a indicação se mostraria acertada. Sokárin sentiu uma alegria intensa em seu coração. Ficaria ali para sempre. Quando olhou para trás, na direção do seu quarto, nada pôde ver pois estava escuro lá dentro. Preferiu seu reino de luz e não olhou mais para trás... 13. s arautos percorriam a Capital anunciando a morte do Rei e o luto oficial de sessenta dias. O mesmo ocorria em todas as cidades do Reino. Mulheres choravam, muitos dispuseram panos negros O


TALAL HUSSEINI 75 nas janelas, em demonstração de luto. A comoção foi geral. Sokárin havia reinado muitos anos, as pessoas estavam acostumadas com ele. Mesmo aqueles alijados de oportunidades durante o seu reinado lamentavam. Os prognósticos começavam. Quem seria o sucessor? Obviamente o substituto natural seria Golan, filho do Rei. Não, o Primeiro-Ministro era quem governava de fato, portanto daria continuidade ao trabalho. Rohel era o nome mais indicado, pois era um homem sério, acima de qualquer crítica. Não, de modo algum, muito idoso, era preciso alguém mais jovem. E assim as conjecturas percorriam o reino em todas as esferas, desde os estratos mais pobres da população, que nada entendiam de governo ou de política, que mediam o desempenho de um governante pela quantidade de comida que chegava à mesa, e com que frequência, até a alta cúpula do governo, em que as conversas eram preenchidas com palavras mais bonitas, frases mais bem elaboradas, raciocínios que aparentavam uma lógica irrefutável e o conhecimento de causa de quem estava ao lado do Rei quando ele gravou a placa. A verdade é que todos temiam ainda que inconscientemente os períodos de sucessão. Muitas coisas podiam acontecer. Mudanças nunca são muito bem vindas. Ainda que a opção possa ser melhor, o pior conhecido é preferível. Cada um buscava suas maneiras de aliviar a ansiedade, e os exercícios de adivinhação eram uma delas. Kadriel passara a maior parte do tempo, nos últimos dias, com Ravi Medhavin. Ele era uma pessoa interessante, de vasta cultura e grande magnetismo. Kadriel sentiu por ele grande empatia, como se o conhecesse há séculos. Em poucos dias, já se sentia como um velho amigo, ou para retratar melhor, como um filho. Ravi lhe transmitia a segurança de um pai.


76 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE Ravi era o único que sabia o conteúdo da conversa de Kadriel com o Rei. Kadriel o revelara no mesmo dia em que Sokárin morrera, mas não antes, a fim de manter sua palavra. Ravi não transparecera nenhuma surpresa, mas lhe deu alguns conselhos que poderiam ser valiosos no futuro. Os dois foram juntos para a cerimônia de cremação do Rei. Como o acesso era livre ao público, as ruas estavam intransitáveis. Milhares de pessoas se apinhavam para dar seu último adeus a Sokárin. Os membros de governo e convidados especiais tinham o acesso facilitado pela polícia e pela Guarda Real. Somente assim Kadriel e Ravi puderam chegar até as proximidades da cerimônia. A população era mantida a certa distância, podendo observar daí o que se passava, mas quem tentava cruzar a linha limite era detido com veemência. Alguns poucos mais empolgados tentaram fazê-lo, mas foram todos impedidos. A cremação foi emocionante, com cânticos entoados pelas sacerdotisas, e palavras cerimoniais no idioma antigo sendo pronunciadas pelos sacerdotes. Todos se esqueceram, por duas horas, da sucessão, só voltando o assunto à memória coletiva quando começaram a decair as chamas que consumiam o corpo físico de Sokárin, que havia sido cuidadosamente preparado. O sinete real, que passava de governante em governante desde tempos imemoriais, fora retirado e estava com o Capitão da Guarda Real, que o entregaria ao Custódio das Tradições, para abrir, no momento oportuno, a placa com o nome do novo rei. Fazia calor. – Não vá desmaiar – cochichou Ravi ao seu ouvido – não ficaria bem para um rei. – Ainda custo a acreditar que Sokárin falava sério – cochichou de volta. – Há certas coisas com que não se brinca. – Mas não sei se houve tempo para ele efetuar a troca das placas.


TALAL HUSSEINI 77 – Isso não importa. O que importa é o que você sabe e o que o Rei lhe pediu: para lutar por sua posição. O Senador Rohel tomou a palavra, abrindo um pequeno envelope: – Senhoras e Senhores aqui presentes, que vieram de todo o Reino prestar suas últimas homenagens ao Rei Sokárin: ele próprio confioume esta mensagem para ser lida nesta ocasião, de suas honras fúnebres. Diz a mensagem: “Estão aqui presentes todos aqueles de quem dependerá o sucesso do próximo dirigente, meu sucessor, cujo nome será conhecido dentro de algumas semanas. Por isso, rogo a todos, povo, senado, clero, militares, que apoiem a pessoa indicada e lhe prestem todo o suporte necessário ao bom desenvolvimento do Estado. A sucessão deve decorrer, como tem decorrido das últimas vezes, em total harmonia e tranquilidade, sob pena de se repetirem os dias terríveis de guerra civil que conhecemos somente pelos livros de história. Na única vez em que isso ocorreu na história conhecida de nosso País, ainda antes do tempo do Império, uma guerra fratricida de mais de dez anos nos atrasou e fez derramar nosso sangue por sangue idêntico. Fez trazer a barbárie aonde havia civilização, fez brotar o ódio onde havia cordialidade, fez prevalecer a ignorância à razão, fez soçobrar os valores mais básicos de nossa sociedade no lodo das paixões, tendo custado muito trabalho, muita vontade e muitas vidas para que enfim as grandes águias que guardaram em seus ninhos nas montanhas mais altas as sementes da Sabedoria pudessem restaurar a chama da civilização. A verdade, por mais que pareça obscura, ao final prevalecerá, pois dela emana a luz. Para aqueles que veem com o coração não há escuridão. Vejam, pois, com a consciência. Vida longa e próspera ao Rei!” O Senador Rohel estava visivelmente emocionado ao terminar de ler aquelas palavras de seu soberano e amigo. Fez uma pausa, como que para se recompor, e retomou a palavra:


78 PAZ GUERREIRA - HUMILDADE – Outro ponto – esperou até que os rumores na assistência silenciassem – encontramos nos aposentos do Rei um escrito, que possivelmente são suas últimas palavras. Estavam num papiro escrito de próprio punho por Sokárin, guardado na caixa que conteve a nova placa com o nome do sucessor, sobre a sua escrivaninha. A placa não estava lá. Portanto, não temos como saber se Sokárin já a havia colocado na estela ou se a guardou em outro lugar. Mas entendo que essas palavras devem ser conhecidas por todos os aqui presentes, e, como são um tanto enigmáticas, cada um deverá entendê-las como o seu coração mandar. Sokárin escreveu: “PARA O FALCÃO PODER POUSAR É PRECISO QUE O NINHO ESTEJA PREPARADO”.


TALAL HUSSEINI 81 14. s dois homens caminhavam havia algumas horas. Mulil já não fazia ideia de onde estava, pareciam andar em círculos. Mas evidentemente não andavam. Montuhotep sabia exatamente o que fazia. Quando Mulil pensava em entregar-se ao cansaço físico e jogar-se ao chão, morrendo ali mesmo, seu Mestre disse que descansariam um pouco. Foram apenas alguns minutos, uns goles d’água e nenhuma palavra. A curiosidade corroía o jovem, mas preferiu poupar suas forças para o que estava por vir, fosse o que fosse. O ancião não deixava muitos espaços para a personalidade de seus discípulos, principalmente Mulil, a quem, apesar da aparente tranquilidade, era evidente que buscava preparar o mais rápido possível para algo... Mulil se perguntava como o velho homem aguentava a caminhada sob aquele Sol escaldante, durante horas, sem transpirar uma gota sequer, sem demonstrar qualquer traço de cansaço. Foi seu último pensamento antes de retomarem a marcha. Ao cabo de mais quatro horas, Montuhotep parou, olhou ao redor com satisfação, respirou fundo e disse, mais para os ventos do que para Mulil: – Aqui estamos! Era um local plano e alto. Estavam sobre um penhasco. Sim, Mulil o reconhecia. Sete anos antes ali estivera, mas havia percorrido outro caminho. Haviam chegado pela parte inferior do rochedo, aquele rochedo que tivera de escalar até o ninho do falcão que lhe deixara marcas indeléveis no braço e no espírito. Desta vez estavam no alto do penhasco. Aquele lugar ficava nos limites do deserto, não havia vegetação, salvo algumas touças rasteiras, mas o solo ainda não era de areia solta, e sim de terra seca, dura – último estágio de desidratação antes do piso propriamente desértico – e algumas pedras. O


82 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Era final de tarde. Montuhotep proclamou que deviam se preparar para descansar, pois teriam muito trabalho à noite. Cada um trazia pouco peso: uma manta, pão e água. O ancião ainda carregava consigo uma pequena sacola que segundo ele continha alguns produtos úteis. Os últimos raios do Sol do ocaso permitiram a Mulil uma visão assustadora: uma parede de areia se aproximava... Seu Mestre continuava impassível. Apenas retirou da sua sacola dois lenços, entregou um a Mulil e envolveu seu rosto no outro, exortando-o com os olhos a fazer o mesmo. Mulil estava nervoso, a areia lhe enchia os olhos, até fazê-lo entender que ficavam melhor fechados. O jovem agarrava-se ao braço de Montuhotep como um náufrago a uma tábua de salvação. Tentava falar mas o vento levava suas palavras como fossem folhas secas. Subitamente, o braço de seu Mestre lhe escapou. Mulil restou como um cego numa floresta, exceto que não havia árvores em que se apoiar. Andou por alguns minutos a esmo, os braços estendidos à frente do corpo fazendo movimentos laterais como para evitar o choque com as árvores inexistentes ou talvez para encontrá-las. Seu senso de direção não mais existia quando se lembrou de que estava próximo de um penhasco e seu próximo passo poderia ser no nada. Parou. Lembrou-se do que havia aprendido sobre o medo, essa reação natural que muitas vezes podia significar a diferença entre a vida e a morte, mas que deixava uma trilha delgada. Ausência de medo: morte. Excesso de medo: morte. A vida residia no estreito caminho do controle do medo. Mulil tranquilizou então sua respiração, baixou os braços, já que não serviriam para detectar o vazio. Finalmente, decidiu que a melhor estratégia era ficar parado. Sentou-se no chão, entocando-se em sua manta, de modo a ser o menos atingido possível pela areia. Já se haviam passado horas, ao menos em sua avaliação. A estratégia funcionou por algum tempo, mas a temperatura começou a baixar drasticamente, in-


TALAL HUSSEINI 83 dicando que já caíra a noite no deserto. A inércia que por algum tempo significou sobrevivência agora significava morte, pelo frio. Mulil pela primeira vez entendeu o que seu Mestre sempre lhe dizia sobre a vida e a morte: que eram as duas faces da mesma moeda. Levantou-se e começou a andar com dificuldade, tateando o chão antes de completar cada passo. Tinha de encontrar seu Mestre, era seu único pensamento, sem ele não havia esperança de sobrevivência naquele ambiente hostil. Mulil sentiu-se desfalecer em meio ao turbilhão de areia. Recuperou lentamente a consciência e, quando conseguiu focalizar sua visão embaçada, pôde ver o rosto sulcado de Montuhotep, que repetia estranhos mantras numa língua desconhecida para Mulil. Estavam dentro de algum tipo de caverna em que mal se podia ficar em pé. O ancião ordenou que Mulil se sentasse à moda dos escribas, ao que obedeceu de imediato, embora se sentisse bastante tonto. Ele devia permanecer ereto e repetir alguns exercícios respiratórios. Continuaram esses exercícios por algumas horas, até Mulil não sentir mais suas pernas, nem seus braços e por fim nenhuma parte de seu corpo. Em certos momentos, Mulil chegou a pensar que iria desmaiar, mas conseguiu manter-se em razão da presença de seu Mestre, diante de quem não queria falhar. Aos poucos, a dor se transformou em amortecimento, mas não um amortecimento físico, e sim uma polarização que permitia ao jovem ignorar seu corpo físico. Desse modo, o mal-estar tornou-se conforto. Por fim, o velho Mestre ordenou que fechasse os olhos e visualizasse um falcão dourado. Então, Mulil devia imaginar-se cada vez menor ante esse pássaro, até que ele se tornasse gigante à sua frente. Em seguida, Mulil devia projetar-se em direção ao falcão dourado e entrar nele, fundindo-se nele. O discípulo o fez sem dificuldade. Montuhotep continuava a entoar a sequência de mantras, em meio aos quais orientava o jovem:


84 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO – Agora, você é o falcão! Abra suas asas, sinta-as. Busque a saída da caverna e voe em direção ao céu. Mulil obedeceu. Voou para a saída da caverna e viu-se novamente em meio à tempestade de areia. Mas desta feita ela não o assustava. Bateu mais forte suas asas e de repente ganhou o firmamento. Sobrevoou a tempestade, que se transformava numa pequena nuvem de areia na medida em que o falcão ganhava altura. A luz dourada que emanava de Mulil iluminava tudo ao seu redor, refletindo-se na terra distante. O jovem voltava sua cabeça de falcão para os lados e via suas asas dominando o vento. Nunca vira tantas estrelas. Sentia-se uma delas, sentiase parte do espaço absoluto. Subiu até as arestas do mundo terrestre se desfazerem, e as cores se esfumarem na noite profunda. Voava em direção ao ser essencial. Estava livre… Mesmo ao longe continuava a ouvir a voz de seu Mestre como se estivesse ao seu lado. Ouvia com o coração. Ela o chamava. Mulil não queria voltar, não queria mais ser um homem, queria permanecer falcão, queria permanecer livre, queria ganhar o espaço infinito e as estrelas suas irmãs. Mas devia obedecer. Sentia um misto de alegria pelo sentimento que experimentava e de tristeza por ter de abandoná-lo. Seus olhos de falcão viram através da areia, que já se dissipava, o pequeno buraco no chão, de onde saíra. Mergulhou em direção a ele, ganhando-o rapidamente. Sentia agora o peso de sua coluna vertebral. As palavras de seu Mestre norteavam seu retorno, tornando-o seguro. Mulil sentia-se humano novamente. Abriu lentamente os olhos. Dava graças por seu Mestre ser o único ser humano ali presente. Não queria palavras, não queria emoções, não queria pensamentos humanos.


TALAL HUSSEINI 85 Kadriel despertou daquele sonho com uma sensação de distanciamento. Sentia-se, como Mulil, uma ave, um falcão voando distante da terra dos homens mas sem perdê-la de vista, voando sob as estrelas mas sem poder tocá-las. Não queria contato com pessoas, preferia estar consigo mesmo. Novamente um sonho com aqueles personagens longínquos no tempo. As palavras do Rei, lidas pelo Senador Rohel, ainda ecoavam na mente de Kadriel: “Para o falcão poder pousar...”, misturando-se com as imagens do seu sonho. Por que o Rei deixara aquelas palavras? Seriam fruto do delírio de um moribundo? Ou guardariam algum segredo impenetrável? Por que o falcão, figura renitente no seu sonho e na sua vida? O jovem sentou-se no chão, à moda dos antigos escribas, fechou os olhos e procurou reproduzir a concentração que o discípulo fizera no seu sonho. Nenhum resultado. Kadriel passou o dia sem sair de casa, cogitando, um tanto aéreo. Era curioso que a única pessoa com quem imaginava poder conversar naquele momento era Ravi, apesar de tê-lo conhecido há tão pouco tempo. Já perto das cinco horas da tarde, resolveu tomar uma atitude: dirigiu-se à casa de Ravi. 15. o dia da morte do Rei, o Capitão ficara extremamente desconfiado. Aquele ingresso indevido nos aposentos, que ele mesmo permitira, e o subsequente óbito eram coincidência demais para uma mente treinada como a sua. Ele observara atentamente cada detalhe do quarto. O Rei estivera escrevendo, comera sua refeição e deitara-se no terraço para dali não mais sair vivo. N


86 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO A comida não era uma hipótese, pois havia o provador oficial Peckus. Ademais a refeição não estava lá quando da invasão. As cozinheiras e Peckus haviam sido detalhadamente questionados. Nada indicava alguma participação na morte de Sokárin. Tudo indicava que a resposta mais direta era a correta: morte natural. Mas os instintos de guarda do Capitão dificilmente falhavam e ele ainda estranhava algo, não sabia bem o que era, mas descobriria. Se houvesse alguma irregularidade no caso, ele descobriria. Por via das dúvidas, havia recolhido a pena e algumas das folhas que o Rei utilizava para escrever nos seus últimos momentos deste lado da existência. Mandara fazer seus próprios testes. A pessoa que os realizou era da sua confiança e além disso não sabia do que se tratava. Disse haver um traço de uma substância que poderia ser venenosa, mas não tinha como afirmar com certeza por ser altamente volátil e já estar terminando de se dissipar quando ele fez os testes. Quando os repetiu para confirmação, nada mais encontrou. De qualquer maneira, o Capitão guardou consigo esse material, poderia ser-lhe de alguma utilidade no futuro. Pedir um exame do corpo do Rei, sendo que nada indicava qualquer crime, seria loucura, profanação, o soldado não ousou cogitar tal hipótese. Se havia algum indício no corpo do Rei de que sua morte não tinha sido natural seria cremado junto com o Soberano. Só lhe restava aguardar e concentrar suas preocupações em outro assunto relevante: sua família. Era o dia seguinte à cerimônia fúnebre real, e era seu dia de folga. Resolveu não sair de casa na esperança de que os sequestradores fizessem contato. Sua expectativa foi atendida. Uma batida na porta e um envelope sob ela. Faltou pouco para as mãos firmes do Capitão tremerem ao abrir o envelope. Continha apenas um local. Entendeu que indicava aonde devia se dirigir e lá foi.


TALAL HUSSEINI 87 – Nesse local, outro envelope idêntico ao primeiro continha outra indicação geográfica. Finalmente, no sétimo envelope, havia um endereço e um horário. A velha olaria desativada, três horas depois de o Sol se pôr... Esse compromisso o Capitão não iria perder. Ao chegar à casa de Ravi, Kadriel foi recebido por uma moça que não fez nenhuma pergunta, como se ele estivesse sendo esperado. Indicoulhe o caminho do jardim, nos fundos da residência, que se localizava no extremo da cidade com vista direta para o vulcão Anthar, que em sua última erupção, mil anos antes, havia causado grandes estragos à cidade. Desde então, estava tranquilo. Não inativo, pois diz-se que não existem vulcões inativos e sim adormecidos, com seu grande poder latente esperando o momento certo para eclodir. Nesse sentido, os vulcões são como as pessoas... Ravi foi rápido em deixar Kadriel bastante à vontade: – Você vê este bosque? – indagou apontando as árvores que ficavam no fundo do seu quintal; Kadriel assentiu com a cabeça – gosto de olhar para ele todas as tardes. O Sol o cobre com essa névoa amarelada, até esconder-se atrás do grande vulcão, que domina nossa cidade. – Realmente, aqui o senhor tem uma paisagem muito bonita. – Mais do que bonita, ela tem a intensidade da vida, que se renova todos os dias, permitindo que nunca nos esqueçamos dos ciclos que a compõem. Meditando neste lugar perante o Sol que vai, pode-se sentir a respiração do Universo, seu lento movimento de contração e expansão. Tudo em nossa existência é assim: expande-se até um ponto extremo, para depois novamente contrair-se até um único ponto. Quando o Universo se contrai num ponto há apenas o Ser, e não a manifestação, não o Existir... – Não estou certo de que entendo isso muito bem...


88 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO – É porque nem tudo se pode entender racionalmente. Certas coisas só podem ser intuídas, após muita contemplação. Kadriel não respondeu, não sabia o que dizer. Procurava uma brecha para abordar o assunto que o levara até ali. Ravi reparou na sua ansiedade: – Kadriel, você obviamente veio até aqui porque quer contar-me alguma coisa. – De fato, mas é que na verdade nem sei bem porque estou aqui. Conhecemo-nos tão pouco e o senhor já sabe certas coisas sobre mim que eu não disse a mais ninguém... – Você quer falar da sucessão? – Não. Quer dizer, sim, gostaria de falar sobre isso também, pois não tenho certeza se saberei cuidar sozinho do que me espera... Mas não foi isso que me trouxe aqui desta vez... É que esta noite tive um sonho estranho... Ravi não fez qualquer comentário, só permaneceu com a atitude de quem está aberto ao discurso do seu interlocutor. Kadriel prosseguiu: – O mais estranho é que quando acordei sentia-me como que fora deste mundo. E a única pessoa em quem conseguia pensar, para conversar sobre isso, era o senhor... – Conte-me seu sonho, Kadriel. Relatou-o, então, como também o primeiro sonho com esses mesmos personagens, na prova do penhasco. Falou das impressões que tivera durante estes momentos oníricos, parecendo-lhe estes mais realidade do que sua realidade vigílica. Começava a achar que aqueles sonhos teriam algum significado, mas não sabia qual. – O falcão aparece nos dois sonhos. E as últimas palavras do Rei mencionavam o falcão – foi o único comentário de Ravi – prossiga. – Depois que acordei, sentia-me como se ainda estivesse sonhando. Na verdade, tentei fazer a concentração que Mulil fez no sonho, para


TALAL HUSSEINI 89 tentar reproduzir suas experiências, mas não obtive sucesso – confessou Kadriel, um pouco encabulado. – A meditação tem uma forma correta para ser feita. Se quiser, posso ensiná-lo. Kadriel concordou, demonstrando entusiasmo pela ideia. Ravi continuou: – Você já subiu no vulcão Anthar? – Nunca. Não é proibido? Dizem que é perigoso, pois ele pode entrar em atividade. Ravi sorriu, como quem se dirige a uma criança a quem disseram que o fogo é perigoso porque queima, que a água é perigosa porque afoga, que os animais são perigosos porque mordem, e que tudo deve ser temido porque é perigoso de alguma maneira, ainda que não saibamos de momento qual seja. A educação pautada no medo fazia rir a Ravi, mas era um riso de condescendência e ao mesmo tempo de tristeza, diante da incapacidade humana em se fazer entender de forma construtiva, mesmo pelas crianças. A humanidade havia desaprendido como ter obediência por respeito e por admiração. O medo era a ferramenta mais fácil, começava a ser utilizada na infância e continuava até a morte, o maior de todos os medos. As pessoas viviam com medo e morriam com medo, quando não morriam, muitas vezes, do próprio medo. O instrumento natural de proteção e sobrevivência era transformado em aparelho de letargia e inconsciência. – Se ele entrar em atividade, não fará muita diferença estarmos dentro da sua cratera ou estarmos bem aqui neste quintal olhando para esse bosque. Teremos apenas alguns minutos a mais para olhar de frente a nossa própria morte. Aquelas palavras ao contrário de infundir temor em Kadriel o encheram com um sentimento novo, uma vontade de escalar as costas da velha montanha, para a qual – agora percebia – sequer olhava detidamen-


90 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO te. Sentia vontade de aproximar-se do céu e dos deuses. Ravi, como que percebendo seus pensamentos, lhe fez sinal que o seguisse e adentrou no bosque, com passos rápidos. Cruzaram todo o bosque até ganhar um descampado. Intuindo a pergunta que ardia na garganta de Kadriel, Ravi respondeu sem responder, apenas fazendo um ligeiro movimento de sobrancelha em direção ao vulcão. Enquanto caminhavam lado a lado, em silêncio, o Sol se punha, tingindo de escarlate o ocaso e a planície; pinceladas de azul e amarelo terminavam de tecer aquele final de tarde. Ravi não deixou transparecer sua consternação com o prenúncio que o vermelho trazia: sangue seria derramado... Quando começaram a parte mais íngreme da subida, Ravi explicou a Kadriel como ele devia andar sem fazer força com os músculos, apenas utilizando as articulações. Explicou-lhe também que ele devia manter a conversa enquanto fazia esforços, para descondicionar a respiração. Entre um assunto e outro, caminharam horas, sem qualquer cansaço. Quando Kadriel se deu conta, estava diante da cratera. – Você queria fazer a meditação, deixe-me explicar-lhe algumas questões. Para meditar é necessário se concentrar e contemplar. Primeiro, é necessário concentrar-se, pois só assim você conseguirá ver a unidade por trás das coisas. Concentrando-se com firmeza num único ponto, logrará ver o que está por trás desse ponto, e depois o que está por trás desse outro e assim sucessivamente até chegar à unidade das coisas. Então, será necessário desacelerar os pensamentos, para aumentar a velocidade da mente. A mente livre de pensamentos atingirá uma vibração que lhe permitirá chegar ao silêncio, sobre o qual foi construído todo o Universo, silêncio este que pode ser vislumbrado entre as palavras, ou entre as letras de uma palavra, ou nos intervalos entre os sons... Aí cessa a mente e começa a meditação, que vai lhe permitir contem-


TALAL HUSSEINI 91 plar. E a contemplação vai lhe permitir descobrir que esse todo é a Unidade. Quem contempla não tem a visão do observador e de Deus como coisas distintas. Tudo passa a ser uma coisa só. Meditar é silenciar-se em Deus. Agora vou mostrar-lhe a prática do que lhe ensinei, que aprendi com o meu Mestre – disse, indicando que se sentasse sobre os joelhos, com a coluna reta – ouça apenas a minha voz, deixe-se guiar por ela... Na medida em que Kadriel ia realizando os passos, ouvia ao fundo a voz de Ravi, que em tom suave parecia integrar-se à natureza: Circulação. O Centro é algo que não pode ser ensinado, tampouco aprendido. O Centro é algo que somente pode ser recordado. Um velho sábio disse aos seus discípulos que quando saíssem em busca do seu Ideal e no caminho sentissem as primeiras dificuldades, quando sentissem os músculos enfraquecer, a palidez tomar conta dos lábios, os olhos titubear e o coração sentir o hálito do fracasso, se lembrassem de que um dia estiveram lado a lado com seus irmãos, em torno de uma fogueira, cantando os hinos de glória e de vitória desse Ideal Superior. Essa lembrança lhes traria a força às veias e certeza às almas, pois o maior mal da humanidade é o esquecimento. Fluxo. É na recordação que nos encontramos. É nesse ponto de recordação que todas as coisas do universo se encontram. É no Centro que todas as coisas nascem, desenvolvem-se, e são novamente consumidas. Para o Centro todas as coisas marcham. Pulso. Onde os mares deságuam, onde a rotação da terra gira, onde as galáxias flutuam, onde os pássaros encontram seu destino. Onde o silêncio é o corpo de Deus, e o movimento deixa de existir. Lá é o Centro.


92 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Irradiação. Onde o coração do cisne celeste se transforma em diamante e suas asas de luz se projetam tocando o cosmos. Onde a magia é a única realidade ponderável. Onde o mortal transmuta-se em imortal. Lá é o Centro. O Centro é o ponto onde todo o universo se une. Onde a eternidade é engolida pela duração, e o Uno do infinito é absorvido pelo Absoluto. Iluminação. O discípulo é o único que pode conceber o Centro. É infinito o potencial latente que reside dentro do coração do discípulo. Focalização. O cérebro é o ministro. O coração é o rei. Esse rei segue os impulsos da vontade do ser. Esse ser é o infinito, o poder interno, o Centro que habita o coração de cada discípulo. Por ser infinito, não nasce, não morre. Polarização. Selo. Kadriel visualizou um círculo branco dentro de um círculo dourado. Lembrou-se da imagem que, enquanto falcão, vira formar-se na tempestade de areia. Abriu os olhos. A imagem que se formara era semelhante à do seu sonho: nuvens em torno da cratera e claridade apenas no centro. Ele enxergava toda a montanha. Voava. Sentiu algo puxá-lo. Olhou para baixo. Lá estava seu corpo, sentado sobre os joelhos. Ravi parado à sua frente lhe falava. A cada palavra que dizia, sentia uma força compeli-lo para baixo. Sentiu-se cair. Tudo tornou-se escuro. Seus pensamentos, sentimentos, seu corpo... tudo estava confuso. Nada parecia fixar-se. Abriu os olhos, agora de verdade. Em meio à confusão mental que experimentava, tinha uma certeza: sentira o Centro no coração. Seu corpo estava gelado. Aquela pequena experiência o fizera ver as coisas com um pouco mais de realidade. Não sabia como, apenas sentia. Melhor, intuía.


TALAL HUSSEINI 93 O universo parecia-lhe parado. Sentia apenas seu coração pulsando. Um falcão cortou o céu sobre a cratera. Seu grito ecoava pela montanha. Kadriel pensou que tinha sido aquele falcão, ao menos por alguns momentos. Invejou-o, no bom sentido. Ravi, como que lendo seus pensamentos, disse: – Os seres da natureza têm muito a nos ensinar. Nos momentos em que tudo parece perdido, o discípulo pode renovar-se e brilhar como nunca. Certas aves, como os falcões e as águias, têm características muito especiais, sempre foram mencionadas nas tradições como símbolo de poder e sapiência. Ao contrário de outras aves, quando veem uma tormenta, vão diretamente de encontro a ela, não se escondem, nem ficam agitadas, abrem suas asas poderosas e velozes e enfrentam a tormenta, superam as nuvens negras, a tempestade, os choques elétricos provenientes dos raios. Sabe por quê? E prosseguiu, sem esperar a resposta: – Porque sabem que acima, para além da tormenta, está o brilho do Sol! Kadriel sentiu vontade de chorar. 16. olaria era num lugar ermo. Nenhum morador por perto. Como estava abandonada havia anos, não havia sequer um guardião. Era objeto de um litígio entre herdeiros, muitos donos, nenhum dono, e o patrimônio se deteriorava. Ademais, havia o boato de que aquele lugar era mal-assombrado. O velho proprietário falecido não conseguira deixar o local e atormentava qualquer um que se aventurasse naquelas paragens. A


94 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO Exceto algumas turmas de jovens que, animados pelo álcool, por vez ou outra lá iam para instigar a adrenalina, saciando as necessidades do velho fantasma, ninguém ousava passar por ali. O silêncio era perturbador. Se caísse um simples alfinete, a reverberação da queda soaria como uma bomba. Quando o Capitão abriu o portão, sentiu o magnetismo pesado. Um arrepio lhe percorreu a espinha, e até os cabelos se eriçaram. Manteve o controle. Observou tudo ao seu redor. Nenhum sinal de vida. Havia uma enorme construção, em ruínas. O Capitão gritou para ver se alguém respondia. Nada. Percorreu o lugar rapidamente, tentando encontrar um possível cativeiro. Não, sua mulher e sua filha não estavam ali. Os sequestradores não seriam tão imprudentes. Verificou as possíveis saídas e procurou se inteirar dos materiais deixados no local, canos, pedras, ferramentas, que poderiam transformar-se em armas. Prosseguiu caminhando em campo aberto, para ver se alguém fazia contato. Finalmente parou onde podia ver a entrada e ali permaneceu, à espera. Vestia o uniforme negro da guarda real acrescido de uma espécie de capuz que não permitia ver seu rosto, salvo de muito perto. Nos bastidores desse cenário, duas sombras se moviam em silêncio. Uma delas posicionou-se dentro do prédio, atrás do Capitão. Era um arqueiro que tinha a mira fixada bem na sua nuca, bastava retesar o arco e disparar. Só aguardava o sinal. Não estava ciente da outra sombra, que flutuava em sua direção, qual um espectro. Ela não tinha peso, não emitia nenhum som. Por certo, não pertencia a este mundo. Quando o arqueiro se deu conta, a sombra já estava sobre ele. Sentiu uma pontada nas costas que paralisou completamente seus músculos. Sem poder se mover, quase nem sentiu outra pontada, no pescoço, que o privou da existência. De repente, dois homens entraram na velha olaria, andando rapidamente em direção ao Capitão. Este foi também na sua direção para esta-


TALAL HUSSEINI 95 belecer contato. Mas não teve tempo de pronunciar nenhuma palavra, pois quando já estavam bem próximos os homens sacaram espadas. A sombra que desabilitara o arqueiro havia tomado para si o arco, mas só teve tempo de disparar uma flecha, que atingiu no peito um dos homens. O outro desferiu um corte rápido e preciso, que atingiu o Capitão no pescoço. A morte foi instantânea. Seu corpo tombou de lado, inerte. Outra seta partiu da sombra atingindo o agressor na perna, logo acima do joelho. Ele tentou fugir, mas o ferimento não permitia um deslocamento eficiente. Logo, a sombra estava sobre ele. Já desarmado, o agressor ferido fez um olhar de pavor quando pôde ver de perto o vulto que o atingira. O Capitão…! Mas não podia ser, acabara de matá-lo..., pensava, olhando para o corpo que jazia mais adiante. Na verdade, aquele era um amigo do Capitão que propositalmente se fizera passar por ele para evitar a emboscada. Sua morte foi lamentável. O Capitão não esperava uma ação tão rápida e direta de seus inimigos. Mas choraria a morte do companheiro de armas depois: – Onde está a minha família? – Eu não sei... – sua frase foi interrompida por um duro golpe. – Não tenho tempo a perder com mentiras inúteis! – respondeu o Capitão – você vai morrer mesmo, mas tem a possibilidade de escolher se vai ser com pouca dor ou com muita dor! – Eu recebi ordens apenas para matá-lo, não sei onde elas estão, juro! – Quem deu essas ordens? – inquiriu, amarrando os pulsos do homem em torno de uma pilastra. – Nós nunca fazemos contato direto, recebemos apenas ordens escritas, que devemos queimar em seguida... O Capitão sacou uma faca. Sem anunciar seu movimento, cortou na metade o dedo indicador da mão direita do interrogado, que soltou um grito pavoroso.


96 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO – Estou apenas começando com você. Se quer me fazer perder tempo, terei prazer em gastar esse tempo com você. Onde estão minha mulher e minha filha? – O senhor precisa acreditar em mim, jamais as vi. O Capitão assentiu com a cabeça, soltando o ar dos pulmões, como quem está no limite da sua paciência. Aproximou a faca do olho do rapaz. Este assumiu uma expressão de pavor, aguardando a próxima pergunta e já cogitando até respondê-la. Mas a pergunta não veio. Veio a faca e arrancou seu olho da órbita. A vítima esqueceu a dor do dedo. – Você pensa que eu estou brincando, não é? Com a vida da minha família? Pois você vai gostar das brincadeiras que ainda tenho reservadas para você. – Não tenho as informações que quer! Mate-me logo! – Muito fácil. Agora você quer morrer. Quando eu terminar, desejará nem ter nascido. Um calafrio trespassou-lhe a espinha. Sentiu que era sério. Resolveu falar: – Senhor... Elas estão mortas! – Mentira! Mentira! Seu cão! – socou-o algumas vezes na cara. – Não tenho por que mentir. Já estou morto. A intenção nunca foi devolvê-las. O senhor foi usado e deveria estar morto agora. – Quem? – Já disse, não sei... Não temos essa informação. O Capitão começou a bater com o fio de sua faca contra uma pedra, ao tempo em que se dirigia ao seu prisioneiro: – Você sabe por que estou fazendo isto? Porque esta é a faca que vai decapitá-lo... Não pode estar muito afiada. E vai estar cada vez menos, conforme você demore em responder o que quero. Quem? O Capitão pensava em sua filhinha enquanto começava a cumprir sua promessa. O homem resolveu falar e antes de ter sua vida e seu martírio


TALAL HUSSEINI 97 abreviados pela misericórdia de seu algoz, pronunciou um quase que chiado apenas: – Ofis... Adaran e Haggi se encontraram na Real Sociedade para um duelo com espadas como sempre que possível faziam. Os últimos dias tinham sido conturbados, com a morte do Rei e toda a tensão que precede a sucessão. Mas, finalmente, ambos haviam conseguido algum tempo em suas agendas cheias, sempre em nome de uma boa luta, e quem sabe uma conversa interessante. Começaram de forma lenta, para aquecimento, sem trocar palavra. O ritmo do combate foi aumentando gradativamente. O som do metal com metal marcava a cadência. O combate já estava em frequência real quando Adaran obteve um êxito, ao desferir o que seria um corte no rosto de Haggi, que apenas deu seu sorriso irônico. Adaran não resistiu: – Sinto-me bem hoje. Não lhe darei qualquer chance. Haggi fingiu ignorar a observação e concentrou-se ainda mais na luta, pois, como o seu oponente, não gostava de perder. Adaran riscou-lhe o braço com a espada. Riu de novo. – Em quem você aposta? – Você sabe que sempre aposto em mim, Adaran. – Para o reino... – Aposto no nome que está escrito na placa – respondeu Haggi, com diplomacia. O combate continuava acirrado. Adaran atingiu Haggi com outro golpe fictício, desta vez um corte horizontal no abdômen. – Aposto em mim – tripudiou Adaran. – Para o reino...? Adaran riu e não respondeu. Logrou outro golpe:


98 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO – Para o combate é uma aposta ganha. Você me parece um pouco lento hoje, Haggi. Algo o preocupa? – Creio que é você que está inspirado, Adaran. Algo o anima? – O futuro do reino depende do nome que está escrito na placa. Espero que Sokárin tenha sabido escolher... Mas o fato de ele ter solicitado uma placa para troca no final... Não sei... – Não sabemos se ele chegou a gravar a nova placa. E ao que parece nunca saberemos. Não apareceram vestígios da placa entre os pertences do Rei. Portanto, não há como saber se foi gravada. Os dois contendores conversavam enquanto combatiam, mas estavam mais concentrados do que nunca. Mais nenhum golpe aterrou. Adaran prosseguiu: – Soube que você vai ao interior. Alguma razão específica? – Vou a pedido do Senador Rohel. É missão oficial solicitada na qualidade de Chefe do Conselho dos Anciãos, que é quem responde pelo Reino neste período de vacância. – Qual o objetivo? – Apenas estar em contato com os chefes locais e assegurar que estão tranquilos quanto à sucessão e que irão apoiá-la, seja quem for o escolhido. Quer vir junto, Adaran? Você parece ter bastante interesse nesse assunto. – Para você não preciso fingir, Haggi, não tenho interesse em assumir o trono, pois é um desgaste muito grande. Mas sei que tenho chances e se for esse o caso, precisarei de todo apoio possível. Seria muito útil que os chefes locais estivessem fechados em torno do meu nome caso eu fosse o escolhido. Uma transição segura é melhor para todos. Os interesses deles seriam preservados... – Você quer dizer os privilégios... – Quem não os tem? Veja você, Haggi, você é pago pelo Estado para viajar, comer e beber bem, estar perto das mais belas mulheres. Imagine


TALAL HUSSEINI 99 se isso acabasse de uma hora para outra! – ao terminar a frase atingiu novamente Haggi, eram cinco contra zero, encarou-o e continuou: – um rei detém o poder, atinge sem ser atingido. As alianças evitam conflitos. E todos queremos evitar os conflitos, não é Haggi? – acertou-o pela sexta vez – principalmente quando vamos perder... – De fato, vou me lembrar das suas palavras quando estiver no interior do País. Você sabe que a diplomacia sempre traz saídas menos onerosas do que os conflitos. Qualquer rei não prescindiria dos serviços de um diplomata hábil, principalmente quando pode perder... – ao concluir a frase, acertou o golpe fatal em Adaran, parando a espada junto ao seu pescoço – muitos golpes fracos não são tão efetivos quanto um bem aplicado. Isso é diplomacia. Haggi baixou a espada e deu as costas para seu oponente: – Creio que basta, por hoje. Caso tivesse se voltado teria visto em Adaran um olhar ameaçador. 17. akar passeava tranquilo na feira da praça central, que tinha lugar nos dias de saturno, como fazia todas as semanas. A feira era pitoresca: barracas amontoavam-se lado a lado, num caos aparente, guardando certas regras de organização que podiam parecer muitas vezes misteriosas para um visitante, mas que faziam todo sentido para quem estava habituado a elas. O pouco espaço que restava para o trânsito era plenamente ocupado por centenas de transeuntes que buscavam comprar algum utensílio ou simplesmente passeavam, como Bakar, olhando o movimento de pessoas e de mercadorias. B


100 PAZ GUERREIRA - ADMIRAÇÃO A compleição física de Bakar o fazia destacar-se do restante da multidão, eis que seus ombros e cabeça ficavam acima do mar de cabeças que enchia as ruas dos arredores do centro da Capital. O gigante estava detido numa das barracas que comercializava artigos de cavalaria, como selas, ferragens e outros materiais. Bakar analisava uma ferradura, cujo jogo pensava comprar para seu cavalo, quando uma altercação a alguns metros de onde se achava chamou a sua atenção. Escutou alguns gritos de mulher e observou que cinco homens cercavam uma moça, tentando roubar sua bolsa de couro, à qual agarrou-se fortemente, a ponto de cair quando um dos assaltantes tentou puxá-la. Abriu-se uma roda de pessoas em torno da situação, mas ninguém movia uma palha para ajudar a vítima do ataque. Um dos homens preparava-se para chutar a moça caída, quando seu gesto foi interrompido por um soco no seu plexo que literalmente o arremessou por sobre uma barraca de frutas. O homem caiu sobre algumas abóboras, esmagando-as e ficando coberto daquela gosma alaranjada. Bakar brandia seu enorme punho, ainda fechado, em direção aos demais agressores, que se entreolharam compartilhando o medo, depois de passar pelo companheiro desfalecido entre as abóboras, e sobre um outro que parecia ser o líder, como que esperando um ato de coragem. Coagido moralmente, o suposto líder sacou uma faca e, sem muita convicção, arremeteu gritando na direção de Bakar, que sem esboçar nenhuma reação no semblante, apenas desferiu um chute que imprimiu a sola da sua bota na cara do seu oponente, interrompendo o grito e o ataque. Faca para um lado e mais um agressor jazendo inerte do outro, este parecendo mais gravemente ferido que o primeiro. O sólido cavalheiro voltou-se para os três restantes, que saíram em disparada por entre a população, ao ver que no calor da luta, sem perceber, Bakar simplesmente amassara a ferradura que ainda estava na sua mão esquerda. Os assaltantes desapareceram, sem que alguém os pudes-


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