TALAL HUSSEINI 201 destruí-la e também àqueles que a viram. Para isso, precisaremos partir, para retornar quando estivermos preparados. – O senhor sugere fugir? – perguntou Kadriel, com certa indignação. – Não se trata de fugir, mas de se retirar para uma posição estrategicamente melhor. Como estamos agora, seremos facilmente destruídos. Devemos aproveitar para partir enquanto não somos procurados. Depois disso, nossa vida ficará bem mais difícil. Preparem o básico para uma longa viagem, mas evitando peso demais. Encontrem-me aqui amanhã, no início da noite. Já na saída, Kadriel lembrou-se da placa: – Pode deixá-la comigo, eu a esconderei onde jamais poderão encontrá-la. Agora vão! Os dois obedeceram. Kadriel ainda tinha muitos questionamentos: o que Ayamarusa representava em relação a Mulil, nos seus sonhos, e em relação a ele mesmo, nas suas meditações? E na montanha, o que se passara, como conseguira força para arremessar os quatro oponentes como fossem bonecos de palha? No momento oportuno, Kadriel perguntaria sobre isso a Ravi. Por agora, era melhor obedecer. 35. hara se surpreendeu quando chegou ao seu local de trabalho. Desde que voltara do exterior, pouco antes da morte do Rei Sokárin, trabalhava num consultório de atendimento médico ao público mantido pelo governo. As portas estavam fechadas. Na porta, apenas uma nota dando conta do fechamento por determinação do Rei Adaran. Formava-se uma fila de pessoas do lado de fora, para serem atendidas, algumas em estado grave. A maioria dos médicos colegas de Dhara havia ido embora ao se deparar com a notícia do fechamento. Dhara ia D
202 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA fazer o mesmo, mas uma mulher de certa idade lhe implorou por ajuda, e a médica não pôde deixar de lhe prestar atendimento, observando o juramento que fizera para poder exercer a medicina. Esse juramento não era muito praticado na época, mas Dhara o levava a sério. Sua vontade era ir até o palácio real tirar satisfações sobre aquele absurdo: deixar a população sem atendimento de saúde. No entanto, logo que terminava de atender a um paciente, outro lhe pedia ajuda. Mais dois médicos que estavam por ali começaram a ajudá-la, talvez por consciência, talvez por se sentirem mal com o exemplo. Havia também alguns auxiliares, que passaram a ajudar, sob o comando de Dhara. Terminando de atender ao último paciente realmente grave, Dhara dirigiu-se às outras pessoas que ali estavam: – Todos os casos mais graves já receberam tratamento inicial. Não poderemos atender a mais ninguém, pois do lado de fora não temos as condições para isso. Peço que retornem amanhã, quando este malentendido já deverá ter sido solucionado, ou que se dirijam a outro centro de atendimento. – Este é o terceiro centro a que venho – gritou um homem do meio da multidão – todos estavam fechados! – Não temos mais informações do que vocês. Agora só o que peço é que voltem às suas casas. Por ora, não temos solução. Desculpem! A população começava a se tornar hostil. O vozerio se elevava, alguns objetos começavam a ser atirados nos médicos. Dhara tentava conter, em vão, a multidão. Mas a massa humana não tem um comportamento racional, antes comporta-se como um grande e perigoso animal, pronto para devastar tudo à sua frente quando seus desejos não são atendidos. Dhara divisava as expressões de ódio e desespero, revolta e indignação: – Por favor, tenham calma! Tudo será resolvido! Ninguém a ouvia, e a situação já estava ficando crítica. Os médicos conseguiram sair do local, graças a uma ou outra voz de bom senso que
TALAL HUSSEINI 203 reconheceu que os que ali estavam ao menos atenderam algumas pessoas, e que não eram os culpados pelo ocorrido. Mas mesmo essas vozes logo foram caladas pela multidão em fúria. Houve tempo apenas para que Dhara e os outros saíssem dali. Dhara decidiu ir imediatamente até o palácio real, para ser recebida por alguém que lhe desse uma explicação plausível para aquela situação absurda. Entretanto, ela ainda não tinha sequer a informação do nome do novo ministro da saúde. No caminho para o Palácio Real, Kadriel a avistou. Ela andava rápido, falando consigo mesma, a ensaiar o que diria ao Rei, ao Ministro, ao Secretário, enfim a quem a recebesse. Ele a chamou. Como não ouvisse, correu até ela, interceptando o seu passo: – Dhara! Tudo bem? Vejo que está com pressa como eu... – Sim, muita, o rei mandou fechar os centros de saúde. A população está perecendo nas ruas. – E o que você pretende fazer? – Pretendo não, já estou fazendo, estou indo até o Palácio Real, para obter mais informações. – Não quero desiludi-la, mas isso me parece inútil... e perigoso, pois Adaran está se mostrando um tanto autoritário. – Creio que você tem razão, mas quero ouvi-lo da boca de alguma autoridade governamental. – Dhara, escute com atenção – disse Kadriel em tom sério, segurando-a nos dois ombros – preciso que você confie em mim, apesar de eu não poder lhe explicar muito agora. Se você quer ir ao palácio, não vou tentar dissuadi-la, mas depois me encontre em minha casa, até o cair da noite, sem falta. – Mas por quê? – Simplesmente esteja lá, aí lhe explico melhor a situação. Mas confie em mim, ela é muito mais grave do que parece... Esteja lá, certo? Você promete?
204 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Sim, tudo bem... – concordou Dhara, mais por ter ficado impressionada com a forma como Kadriel colocou a situação do que propriamente com as circunstâncias. – Outra coisa: não se exponha, nem confronte as autoridades, o momento é realmente muito delicado, você poderá se colocar em risco. Ela assentiu e continuou seu caminho. Subiu com passo firme as escadarias do palácio. Observou que a segurança havia sido redobrada. Os guardas que estavam à porta barraram sua entrada. – Alto! Identifique-se! – Sou médica do reino! Os guardas se entreolharam e resolveram deixá-la passar, afinal ali era apenas o primeiro ponto de checagem, e que mal poderia oferecer uma moça? Tendo entrado mais vinte metros, nova parada. Desta vez ela não esperou ser inquirida e foi logo se adiantando: – Sou médica do reino. Gostaria de ver imediatamente o responsável pela saúde! Os guardas cochicharam. Um deles saiu, o outro permaneceu em silêncio perante Dhara. O primeiro guarda voltou acompanhado de um indivíduo de baixa estatura, franzino, nariz longo, olhos pequenos, tronco ligeiramente curvado para a frente, mãos finas e longas em relação à sua estatura, juntas dos dedos salientes. O pequeno homem se aproximou de Dhara com um sorriso pouco convincente: – Em que posso ajudá-la, senhora? – Pode levar-me imediatamente para ver o Ministro da Saúde! – retrucou Dhara, com autoridade. O homem não demonstrou qualquer perturbação, deu um sorriso igual ao primeiro e respondeu: – Temo que isso não seja possível.
TALAL HUSSEINI 205 Dhara o fuzilou com os olhos, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele completou: – Sua Majestade, o Rei Adaran, ainda não nomeou seu ministério. Portanto, a pessoa que a senhora deseja ver – fez uma pausa estalando os dedos das mãos – não existe. Desta vez, foi Dhara quem não se abalou e emendou com firmeza: – Bem, neste caso, o Rei ainda é responsável por cada um dos ministérios! Exijo uma audiência imediatamente! – Não quero ser pessimista, mas diria que isso é um tanto... como direi? Impossível. O Rei não concede audiências a qualquer pessoa que bate às portas do palácio. Sugiro que a senhora tente marcar um apontamento com a assessoria do Rei e quem sabe em dois ou três anos será atendida... – deu novamente o seu sorriso sarcástico e voltou-se para deixar a sala. Via-se que era um desses funcionários medíocres a quem fazia gosto abusar do pequeno poder que lhe fora dado. O que ele não viu, quando voltou as costas para Dhara, foi seu olho esquerdo escurecer, sua fisionomia assumir traços que pouco lembravam a beleza que despertou o amor de Kadriel. Ela avançou sobre o homenzinho e agarrou-o pela gola do casaco antes que qualquer dos guardas tivesse tempo para esboçar uma reação. Talvez eles não tivessem a vontade para isso, pois aquele homem era do tipo irritante para todos e não apenas para o povo que acorria ao Rei. Ela o puxou com vigor, fazendo-o voltar-se para ela. Agora que estava à sua mercê, sua arrogância tinha desaparecido, se transformando em medo: – Escute aqui, meu senhor, acabo de vir do centro de saúde no qual trabalho como médica, acabo de atender a várias pessoas em estado grave que, como eu, deram com a cara na porta. Posso entender que o Rei não queira me atender, mas não suportarei o cinismo de um subalterno qualquer. O senhor vai terminar de me atender e vai me explicar exata-
206 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA mente o que eu preciso fazer para agendar uma audiência com o Rei, ainda que leve dez anos...! O homem estava visivelmente intimidado, mas ainda não tivera tempo de responder quando um oficial da Guarda Real, acompanhado de dois soldados, intercedeu: – Já basta, senhora! – o sorriso voltou aos lábios do homenzinho, que pensou ter retomado o controle da situação, mas o oficial completou: – o Rei vai vê-la imediatamente, senhora. Por favor nos acompanhe. O sorriso se desvaneceu da face do homenzinho. Dhara retomou a fisionomia tranquila e acompanhou os guardas. Não lhe ocorreu que poderia ser um subterfúgio para prendê-la, até mesmo por que se quisessem fazê-lo não precisariam de subterfúgios. Fizeram-na entrar numa grande sala, que era o ofício de despachos do Monarca. Se Dhara tivesse conhecido aquela sala nos tempos de Sokárin, teria percebido que o novo Rei fora bastante ágil em redecorá-la, com grandes cortinas de veludo, mobília clássica, tapetes tecidos a mão. O Rei estava próximo a uma grande lareira acesa. Dhara ajoelhou-se em sinal de respeito. Depois de alguns segundos, Adaran fez sinal para que ela se levantasse: – Eu a estava observando em sua conversa com o meu funcionário... Gosto de pessoas determinadas, por isso lhe concedo esta audiência. Você é médica, pois não? Dhara assentiu. – Você é muito bonita, para uma médica. Dhara não entendeu se aquilo era um elogio, preferiu fingir que não ouviu. Adaran parecia estudá-la, andava em torno dela, medindo-a dos pés à cabeça. Outra pessoa teria começado a se sentir desconfortável. Dhara ousou tomar a palavra: – Majestade, o que me traz à sua presença é o fechamento dos centros de saúde... – antes que ela pudesse concluir o raciocínio, Adaran prosseguiu:
TALAL HUSSEINI 207 – O que você acha de ficar para o jantar? Poderíamos discutir isso com mais... privacidade. – Majestade, seu convite realmente é uma honra, mas não vejo o assunto como de ordem privada e sim de ordem pública. Gostaria de saber apenas se o fechamento é temporário ou definitivo. E se os médicos dos centros podem considerar-se à disposição ou se ainda estão vinculados ao governo. – O fechamento é por tempo indeterminado, pois estamos redirecionando as prioridades. Os médicos continuam vinculados ao governo, pois serão muito úteis nos próximos tempos. Algo mais? – Nada mais Majestade – disse Dhara, ajoelhando-se novamente como para se despedir da entrevista. – Por que tanta pressa? Afinal você ainda não me respondeu sobre o jantar... – Infelizmente ainda tenho muitos doentes para atender hoje... – mentiu Dhara. – Eles podem esperar. Os que têm chance de sobreviver vão aguentar até amanhã. Os outros, bem..., morrerão de qualquer jeito... – Sim, Majestade, pode ser, mas minha obrigação é ao menos tentar evitá-lo. Agora, peço permissão para me retirar. O Rei demorou a responder, deixando Dhara mais alguns segundos ajoelhada. Então a dispensou. Quando ela já saía pela porta do aposento, o Rei lançou: – Também sou como você, – Dhara voltou-se – determinado. Sempre consigo o que quero… refiro-me ao jantar. Você ainda não me disse seu nome... – Dhara, Majestade – e deixou o salão. Ela manteve a compostura até deixar o Palácio Real. Já nas ruas, respirou fundo. O novo Rei era uma figura no mínimo bizarra. Dhara não
208 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA estava se sentindo muito bem. Havia algo no ar do Palácio que não lhe fez bem. Seguiu para a sua casa o mais rápido que pôde. 36. arauto do rei anunciou a presença de Haggi no Palácio Real, atendendo à convocação que lhe fora feita. O diplomata teve de aguardar alguns minutos antes de ser recebido, o que preferiu fazer de pé. Ficou imóvel, pernas separadas, mãos para trás, em posição de descanso, diante do funcionário franzino, de sorriso sarcástico, o mesmo que havia atendido Dhara. Depois de cinco minutos com Haggi a encará-lo, seu sorriso já havia desaparecido da face, após dez minutos já se sentia desconfortável. Vinte minutos de espera e o homenzinho já rezava para que o Rei atendesse logo aquele visitante. Suas preces foram atendidas: Haggi foi chamado. Entrando na suntuosa sala de despachos do novo rei, Haggi logo percebeu as profundas alterações na decoração. Na verdade, estava bem mais aconchegante do que a sala austera que Sokárin utilizava, salvo pela presença de Adaran, que não era nem de perto tão agradável quanto a do antigo monarca. Haggi ajoelhou-se diante de seu parceiro de combates com sabre, cumprindo o protocolo real. Adaran demorou-se um pouco até lhe dar a ordem para se levantar, saboreando o momento. Finalmente, dirigiu-se ao diplomata: – Meu caro Haggi, há quanto tempo! Levante-se. Soube que você estava quase gostando da vida do interior – ironizou Adaran. – Majestade...! – terminou Haggi a mesura – sim a vida no interior não é das mais desagradáveis. Sabem receber bem seus hóspedes. O
TALAL HUSSEINI 209 – Diga-me: como se posiciona Nakan em relação à sucessão? – fuzilou o Rei, de forma bem mais direta do que as conversas que costumavam ter. – Pareceu-me tranquilo, em princípio, disse que fosse quem fosse o sucessor, apoiaria a decisão de Sokárin. – E depois que soube quem de fato era o sucessor...? – O tom do seu discurso não mudou, mas não sei... – O que você não sabe? – Não sei se ele ficou feliz. Procurou não demonstrar nada abertamente, mas o percebi um pouco reticente. Não sei se foi alguma coisa que ele ouviu na reunião do Conselho de Guerra... Bem, poderia ser só uma impressão minha. – Ele mencionou algo do que foi conversado no Conselho de Guerra? – Não, Majestade, mas sou treinado para perceber a intenção das pessoas, e por mais que Nakan saiba dissimular muito bem seus pensamentos, pude notar algo diferente. – Haggi, como rei, não tenho tempo para conversas muito prolongadas. O que preciso saber é se posso ou não confiar em Nakan e qual sua posição em relação à Aliança. Haggi mirou fixamente nos olhos o Rei, antes de responder: – Majestade, na sua posição, eu não confiaria em Nakan. Quanto à segunda pergunta, creio que se ele tivesse de tomar uma posição aberta, haveria divisão dentro da aliança. E como sabemos, tudo que está dividido fica mais fraco. – Está certo. Era só o que eu precisava saber. Permaneça na cidade, Haggi, pois em breve terei outra designação para você. Como sempre dizíamos, um diplomata hábil é útil para qualquer governo. Haggi fez um sinal com a cabeça e preparou-se para sair. Quando já deixava o aposento, o Rei lhe falou: – Ah, e tão logo meus compromissos me permitam não vamos abrir mão de um bom combate com sabres.
210 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA Saindo, Haggi respondeu: – Sim, Majestade, quando quiser. A diferença é que agora não creio que possa vencê-lo... Depois que Haggi se havia afastado do recinto, uma figura que estava oculta numa sala contígua apareceu diante do Rei. – Então, General Ofis, nosso diplomata passou no teste. Confirmou o que nossos informantes já haviam dito: Nakan não é confiável. Creio que agora poderemos designar-lhe a próxima missão. – Creio que sim, Majestade... – respondeu o sombrio Ofis, roçando a mão no cavanhaque, com ares de quem não estava plenamente convencido da confiabilidade de Haggi. O Rei não se importou muito com isso, pois afinal de contas, Ofis não confiava em ninguém mesmo. 37. uando Bakar chegava perto de sua casa para fazer seus preparativos, conforme Ravi determinara, alguém o chamou: – Bakar, tudo bem? O que você faz por aqui? Bakar voltou-se surpreso e deparou-se com Mirta. – Mirta...! – Então, o que faz por estes lados? – É que... bem... eu moro aqui perto. – E por que tanta pressa? – É que tenho umas coisas para arrumar em casa. – É uma pena... Pois tinha pensado em darmos um passeio. – Infelizmente, hoje não vai ser possível. Q
TALAL HUSSEINI 211 – Bem, estou indo para a mesma direção, posso ao menos acompanhá-lo até a sua casa. Se não se importar. – É claro que não. – Como estão os seus amigos? – Bem, estão bem, preparando a viagem – Bakar interrompeu a frase, sentindo que falou demais. – Vocês vão fazer uma viagem entre amigos. Que ótimo! Gostaria de fazer algo assim, mas não tenho tantos amigos... Para onde vão? – Ainda não sei, mas acho que você poderia vir conosco. – Uma viagem surpresa! Adoro surpresas! Será que seus amigos não se importariam? – Creio que não. Arrume suas coisas, poucas coisas. Partiremos amanhã, e me encontre aqui na minha casa no final da tarde, certo? – Certo, até depois – respondeu Mirta, saindo em disparada. Jamais passaria por uma mente ingênua como a de Bakar achar algo de estranho em alguém que ele conhecia há tão pouco tempo, aceitar acompanhá-lo numa viagem de destino desconhecido. Agregue-se a isso o fato de Bakar estar apaixonado por Mirta. E, ademais, haviam-se encontrado por coincidência, e quem mencionou a viagem e a convidou foi ele, Bakar. O gigante arrumou rapidamente suas coisas e ficou o resto do tempo pensando em Mirta. 38. akan passava em revista suas tropas. A fama era de que seus homens eram os mais bem treinados do reino. O governador acreditava nessa fama e fazia questão de incentivá-la. Após ter presenN
212 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA ciado o ocorrido na reunião do Conselho de Guerra com o Rei, o General Nakan havia acirrado ainda mais os exercícios. Sua cidade era uma das poucas fortificadas no Reino. Nakan determinara a restauração e o reforço de todos os pontos falhos na muralha. Dessa forma, o acesso à cidade ficava muito difícil, só sendo possível por dois grandes portões, ao Norte e a Leste, este na direção da Capital. Os homens já se perguntavam se o País se preparava para alguma guerra. Nenhum oficial sabia de nada nesse sentido. O General negava a hipótese, limitando-se a dizer que estar bem preparado para a guerra pode ser, muitas vezes, uma garantia da paz. A verdade é que Nakan estava inquieto. Também havia muita gente que dizia que ele se preparava para um golpe de estado, para marchar com suas forças rumo à Capital. Tal hipótese, no entanto, era absurda, pois mesmo a força das doze cidades reunida não era bastante para superar o exército real e principalmente a unidade de elite da Guarda Real. Mas Nakan de fato estava pensativo naqueles dias. Já se havia reunido com alguns dos governadores das outras cidades da Aliança. A unidade desta já não era a mesma de tempos passados. A ganância, a sede de poder, o orgulho dos líderes locais, cada vez mais, levava cada um a buscar seus próprios interesses, sem pensar na coalizão. Nakan sabia que isso os enfraquecia, mas nada podia fazer, ao menos por enquanto. O arauto anunciou o visitante: o Rei Escorpião. Ele governava a menor cidade da Aliança. Seu exército era menos numeroso do que os demais, mas essa limitação era compensada com um treinamento rigoroso e soldados muito fortes e valorosos. Seu pequeno número não permitia que sustentassem sozinhos uma longa campanha, mas ao engrossar outras fileiras podiam fazer a diferença. Em suma, todos os queriam como aliados. O Rei sempre acompanhava seus soldados nas campanhas, deixando um substituto para gerir a cidade na sua ausência e na hipótese de
TALAL HUSSEINI 213 não retornar com vida. Nakan gostou da conversa. Podia contar com aquele apoio incondicional. Outras duas cidades lhe prestaram apoio integral, qualquer que fosse a posição por ele adotada. Quatro governadores de outras cidades nem sequer atenderam ao seu convite, o que deixava claras suas intenções de romper a Aliança. Nakan não havia em momento algum dissimulado seus sentimentos em relação ao governo central de Adaran. Suas atitudes no Conselho de Guerra e em relação ao Conselho dos Anciãos o haviam deixado extremamente preocupado, a ponto de manifestar publicamente sua repulsa, não pelo Rei mas por suas condutas, o que dava no mesmo. Os que não atenderam ao seu chamado queriam deixar clara sua postura de total alinhamento com o governo da Capital. As quatro outras cidades anunciaram que viriam conversar em bloco, o que demonstrava que haviam tecido sua união antes de qualquer outra coisa. Sua manifestação de apoio ou de repúdio, ou ainda de neutralidade, seria realizada também em bloco. Uma coisa preocupava Nakan: seu líder. Os governadores foram anunciados. Entraram lado a lado na sala, pretendendo demonstrar igualdade. Mas na conversa Nakan rapidamente confirmou suas suspeitas: o Velho Leão os tinha em suas mãos, ou seriam garras. A certa altura da conversa, Nakan passou a se dirigir somente ao líder, deixando os outros governadores em segundo plano: – Egas, vamos ser francos e diretos nesta conversa. Por ora, a única coisa que fica clara para mim é que vocês quatro se posicionarão em conjunto – disparou Nakan. – Creio que em um ponto concordamos, para mim também parece a única coisa clara nesta sala – esbravejou o Leão, com sua voz tonitroante – você ainda não disse por que conversa com os governadores da Aliança, por que testa seus apoios. Quer realizar um levante contra o governo central?
214 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Egas, meu caro, a situação ainda não está definida. Não sei se podemos confiar no novo Rei. Não quero levantar-me contra ele, nem levar o País a uma guerra civil. Apenas quero resguardar os interesses das cidades da Aliança. Apenas quero manter a autonomia que sempre tivemos, desde os tempos do Imperador Medhavin. Nossa região é rica, pode fazer crescer os olhos de um Rei ganancioso – Nakan relatou-lhes o que presenciara no Conselho de Guerra, depois continuou seu discurso: – evidentemente não quero guerra contra o Rei, mas gostaria de me mostrar forte o suficiente para que ele também não queira guerra comigo. E isso só é possível com a Aliança sólida. O Velho Leão coçou a barba, como sempre fazia quando estava pensando seriamente sobre alguma coisa. Disse pausadamente: – Dois leões não reinam juntos... – Entendo, Egas, mas podem lutar juntos para ter sobre o que reinar... – Nós lhe deixaremos saber nossa posição no momento oportuno, Nakan – declarou Egas já se levantando, no que o acompanharam os demais governadores. Nakan também se levantou, em sinal de educação e quando já estavam na porta de saída, lançou: – Só espero que esse momento não seja no campo de batalha, Egas. O Leão sorriu e deixou a sala. Todos os soldados de Nakan estavam em alerta, bem como todos os portões da cidade eram mantidos fechados. E exatamente nestas condições ela se apresentava quando surgiu diante da cidade um emissário do Rei, acompanhado de uma força considerável, de aproximadamente mil soldados. Um sentinela foi de imediato avisar ao governador, que dirigiu-se pessoalmente ao portão.
TALAL HUSSEINI 215 O emissário dava claros sinais de irritação quando o governador ordenou que se abrisse o portão. Permitiu que entrasse o emissário, acompanhado do capitão que comandava aquela divisão, mas lhes solicitou que os soldados permanecessem do lado de fora, pois causariam tumulto na cidade. O emissário portava um escrito com o selo real, que deveria entregar a Nakan dependendo da resposta que este desse a uma pergunta que devia fazer: – Senhor Governador Nakan, jura fidelidade e obediência ao novo Rei? O senhor deve responder e beijar o selo real que aqui trago. Nakan sabia que se respondesse a verdade, isto é, que não juraria absolutamente nada por Adaran, seria destituído do governo e provavelmente preso. Mas um guerreiro não pode deixar de dizer a verdade. Essa era a sua formação. Todos à sua volta guardavam um silêncio ansioso, esperando pela jura. Nakan por fim respondeu: – Eu juro – o emissário respirou aliviado, mas seu alívio durou pouco – fidelidade ao povo da minha cidade, juro obediência aos meus Mestres, e beijo o selo da Divindade. Juro defender a justiça, a beleza e a bondade. O Rei Adaran não representa para mim nenhum desses valores. Portanto, não posso segui-lo. O emissário, que sabia do conteúdo da carta, suava frio. Tinha que entregá-la. Se o General Nakan resolvesse resistir, eles seriam rechaçados com facilidade. Provavelmente sua cabeça seria enviada à Capital cravada numa lança. Nakan abriu lentamente o envelope: ele estava destituído do posto de general do reino e também de governador da cidade. Seus bens estavam confiscados, e ele estava exilado. Tinha um dia para juntar seus pertences pessoais e deixar a cidade. E uma semana para deixar o País. Nakan limitou-se a responder:
216 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Os senhores são meus convidados no palácio para esta noite. Mas os soldados continuam do lado de fora das muralhas. O emissário aceitou de pronto o convite, o capitão disse que preferia ficar acampado do lado de fora com seus homens. A notícia se espalhou rapidamente pela cidade. O burburinho era inevitável. A maior parte da população se revoltava contra o Rei e apostava que Nakan não entregaria a cidade sem luta. O governador parecia o menos preocupado. Passou a noite pensando na medida mais certa a tomar. O Rei o surpreendera, fora rápido em suas ações. É certo que ele não escondera uma certa animosidade contra o Rei, mas quem lhe teria dito? Haggi? Outros informantes? Impossível saber. O importante era resolver o momento. A Aurora ainda não anunciara seus róseos cabelos sobre a curva do horizonte quando um grupo formado por todos os capitães do exército de Nakan lhe pediu audiência: – Senhor, viemos prestar-lhe nossa solidariedade e dizer que estamos ao seu lado, seja em que circunstâncias for. Nakan sorriu: – Agradeço-lhes, meus fiéis camaradas, mas o mais acertado a se fazer é aceitar as ordens do Rei. Eu me retiro e nossa cidade será poupada. – Mas nós podemos exterminar os soldados do Rei. – Esses sim. Mas e os outros que virão? O exército do Rei é mais forte do que todo o exército da Aliança. E já nem podemos dizer que há uma Aliança. Se resistirmos seremos nós os exterminados. – Então, vamos morrer combatendo, senhor. – Nós, que temos o espírito guerreiro, nos sentiríamos felizes com tal morte, mas a população sofreria, nossa cidade seria maltratada. Já decidi: podem comunicar aos homens que me retirarei da cidade amanhã ao meio-dia.
TALAL HUSSEINI 217 Próximo do meio-dia, todos os soldados de Nakan se perfilaram no pátio em frente ao portão, do lado de dentro, sob as ordens dos seus capitães, para saudar o general que se despedia. Levava consigo uma carroça carregada com mantimentos para a viagem e alguns gêneros úteis. Ivis o acompanhava. Ele não conseguira demovê-la desse propósito. Ninguém de toda a corte se propusera a acompanhá-lo, pois sabiam que sua vida dali em diante seria difícil. Do lado de fora, os soldados do Rei, que não sabiam da decisão do governador, estavam tensos. Estavam preparados para entrar em combate, mas sabiam que seriam massacrados. Sua preocupação aumentou quando começaram a escutar as formações de soldados e os gritos de guerra do lado de dentro dos muros. Nakan passou em revista seus soldados. Primeiro, percorreu toda a linha de frente a cavalo. Depois desmontou e foi conversando com os homens como se cada um deles fosse seu filho. Ao escutar no meio da tropa gritos sugerindo a batalha, imediatamente os dissuadiu, ordenando que não reagissem contra os soldados do Rei e que acatassem as ordens dos seus novos superiores que viriam. Ele terminou sua peroração, montou em seu cavalo e já se preparava para partir, quando escutou a frase dirigida a um dos capitães: – Permissão para sair de forma, senhor, e acompanhar o meu general – disse um soldado dando um passo à frente. – Permissão concedida! – Permissão para sair de forma, senhor – disse outro. – Permissão concedida! – repetiu o capitão. E assim vários soldados, quase metade do total o fizeram, formandose atrás de Nakan, preparados para segui-lo. Esses soldados já tinham deixado preparados seus sacos de viagem. Além da infantaria, vários cavaleiros fizeram o mesmo.
218 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA O emissário corria desesperado de um lado para o outro, tentando conter a deserção: – Parem! Todos vocês! Apenas Nakan foi exilado! Quem o acompanhar será considerado um fora da lei! Ninguém lhe dava ouvidos. Os portões se abriram. Os soldados do Rei fizeram menção de tentar conter a saída dos soldados de Nakan, mas este se dirigiu ao comandante: – Eu poderia ter resistido a essa ordem de usurpação do meu governo e da minha cidade, mas não o fiz para evitar derramamento de sangue. Não conclamei ninguém a me acompanhar, pelo contrário, tentei demovê-los dessa ideia. Mas eles me acompanham mesmo assim. Pretendemos sair em paz, mas se vocês tentarem nos impedir, não hesitaremos em entrar em combate. – Senhor, mas esses são soldados do Reino, e as armas e equipamentos que portam pertencem ao governo. Não posso permitir que os levem. – Em primeiro lugar, esses não são soldados do reino, são homens livres! E, em segundo lugar, você precisaria muito mais do que esses mil homens para pedir que deixemos as armas. Se você realmente as quer, terá de vir pegá-las. O capitão entendeu a mensagem, impressionado com a imponência de Nakan, e ordenou a seus homens que não interferissem na saída. Depois que Nakan estava longe, entraram na cidade para mantê-la sob controle e noticiar à população algumas medidas do novo Rei. Questionado por um dos oficiais sobre para onde pretendia rumar ao deixar o País, Nakan respondeu com seu velho sorriso, de quem já sabia perfeitamente para onde ir, com a segurança de quem não olhou para trás, para ver diminuir as muralhas de sua amada cidade, nem uma vez sequer. Dirigiu seus homens em direção à região das montanhas.
TALAL HUSSEINI 219 39. Capitão só pensava em sua vingança contra Ofis, agora General Ofis, e contra Adaran, agora Sua Majestade Adaran. Seus inimigos haviam crescido, mas isso não importava, o Capitão ainda tinha bem claras em sua memória as imagens finais de sua família, e isso o alimentava em seu sonho revanchista. Também não podia esquecer que, além de procurar Justiça, era um homem procurado pela Justiça, sob a acusação de assassinato de sua família. Mesmo assim, depois que se recuperara no lago, o Capitão conseguira fazer contato com alguns de seus homens, os de maior confiança, que acreditariam na sua estória. Alguns desses de fato acreditaram e reuniram-se a ele, formando uma milícia que se ocultava nas montanhas. Não era um grupo grande, mas era bem preparado, na sua maioria formado por ex-componentes da Guarda Real. O Capitão se tornara uma espécie de guia daqueles jovens – praticamente todos os que o seguiram eram aqueles que não tinham família e procuravam uma bandeira por que lutar –, apesar de sempre fazer questão de deixar claras suas intenções de vingança. No reino, não se propagavam entre o povo quaisquer notícias a respeito desse grupo, mas na corte sabia-se da sua existência e, apesar de até aquele momento não terem realizado nenhuma ação contra o poder constituído, essa existência devia terminar, antes de se tornar relevante. Além do Capitão, os nomes de todos os que haviam deixado a Guarda Real após a ascensão de Adaran ao trono faziam parte da lista de procurados. Nos povoados das montanhas, conhecia-se o grupo e nutria-se por ele certa simpatia, já que essas populações se consideravam esquecidas pelo governo e tinham em seu sangue uma certa rebeldia contra O
220 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA qualquer um que estivesse no poder. Agradava-lhes a ideia de alguém que confrontasse as autoridades. O grupo do Capitão preparava uma ação ousada: assassinar o Rei. Misturar-se-iam à população, em disfarces, alguns membros do grupo provocariam um tumulto ante a passagem do Rei, para desviar a atenção, enquanto pelo outro lado os arqueiros entrariam em ação. Ninguém poderia ser capturado, todos carregavam uma pequena adaga que serviria para o suicídio em caso de captura. A população aclamava a passagem do Rei, que vinha cercado por vários homens da Guarda Real. Quando o tumulto premeditado começou, instintivamente a maioria dos Guardas colocou-se à frente do Rei voltada para o lado da algazarra. O lado oposto ficou menos protegido. Nesse instante, o Capitão e mais quatro de seus homens, os melhores arqueiros, atiraram simultaneamente. Uma das setas passou raspando pelo ombro do Rei, mas as outras foram barradas pelo escudo de Ofis, que, ao contrário dos demais, não havia se deslocado para o lado do tumulto, como que pressentindo algum perigo. Alguns Guardas Reais misturaram-se ao povo na tentativa de perseguição dos agressores. Não obtiveram sucesso com os arqueiros, mas os dois causadores da distração foram presos. Foram incontinenti ligados ao ataque contra a pessoa real. Um deles conseguiu sacar sua faca e auto-infligir-se um golpe fatal. O segundo tentou fazer o mesmo, mas foi impedido. Foi bastante golpeado pelos Guardas e imediatamente arrastado à presença do General Ofis. A essa altura, Adaran já estava em segurança dentro do Palácio. Não se percebeu o discreto sorriso de escárnio no rosto de alguns Guardas Reais ante a reação desesperada e quase histérica do Rei diante do perigo. O homem foi amarrado num palanque, sob os apupos da população sedenta de sangue. Levou várias chibatadas, intercaladas com perguntas
TALAL HUSSEINI 221 sobre quem era o autor daquele atentado, as quais não respondia. Ofis aproximou-se do ouvido do prisioneiro e sussurrou: – Você já está morto... Resta saber se será de forma rápida ou lenta, com muita dor ou com pouca dor. Diga quem o mandou e morrerá rapidamente. Particularmente, espero que você não fale logo... Iniciou-se então uma tortura, que consistia em arrancar lentamente as vísceras do prisioneiro, ainda vivo, com pequenos anzóis. Quando começava essa sessão, uma flecha precisa, disparada não se sabia de onde, atingiu o cativo no olho esquerdo, privando-o instantaneamente da existência. Ofis não escondia seu desapontamento. Alguns Guardas tentaram em vão encontrar o atirador. O General percebeu então na seta cravada no prisioneiro uma gravação: “assassinos”. Havia gravações idênticas nas flechas que atingiram o escudo de Ofis. Não se sabia se aquele termo visava a denominar o grupo de atiradores ou suas pretensas vítimas, o que era mais provável. Em todo caso, a partir daquele momento, o grupo do Capitão ficou conhecido em todo o reino como os “assassinos”. O incidente, ainda que frustrado, tornou impossível para as autoridades esconder a existência de uma oposição hostil e agressiva contra o reinado de Adaran. Ao passar de boca em boca, a história do atentado era aumentada, a ponto de os “assassinos” se tornarem figuras quase míticas, que inspiravam em muitos o temor e em muitos outros curiosidade e simpatia. Escondidos novamente nas montanhas, os “assassinos” lamentavam o fracasso de sua ação e a perda de dois homens, mas sentiam-se orgulhosos e excitados com a tentativa e com a repercussão que esta teria. Deveriam redobrar os cuidados com segurança, pois agora os esforços para prendê-los seriam maiores. O Capitão falou aos homens sobre o ocorrido e pôde perceber nos seus olhos a confiança que lhe dedicavam. Fez
222 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA questão de ressaltar mais uma vez que sua missão terminaria com a morte do General Ofis e do Rei. 40. hara chegou à casa de Kadriel ainda irritada com o descaso demonstrado pelo Rei pela situação da saúde. E também pelo assédio do Monarca que parecia exceder à questão pública. Depois que ela terminou de falar e desabafar sua inquietação, calmamente Kadriel começou a lhe relatar tudo o que se vinha passando no reino desde a sua conversa com Sokárin. De alguma maneira, sabia que podia confiar em Dhara. Esta ficou em silêncio durante vários segundos, assimilando todas aquelas informações. Quando ia dizer alguma coisa, Kadriel se antecipou: – Dhara, em razão disso tudo, deixaremos a cidade amanhã. Se Adaran desconfiar das intenções do nosso grupo estaremos perdidos. Por isso, a partida abrupta. Fora da Capital e do alcance do Rei, será possível traçar uma estratégia mais eficaz. Você já teve uma amostra do caráter do Rei, nós sabemos de outras situações que corroboram seu autoritarismo. Quanto mais tempo ele permanecer no poder, pior se tornará a situação do povo – fez uma pausa e emendou: – você vem conosco? – É difícil saber que posição tomar, assim, repentinamente. Até ontem minha vida estava tranquila, hoje não tenho mais trabalho, descubro que o Rei é um tirano, e me encontro em meio a uma rebelião... Sinceramente, não sei o que fazer... – Entendo sua hesitação. É difícil assimilar as voltas que a vida nos dá. Mas você não está no meio de uma rebelião, e sim de um grupo que legitimamente quer reclamar o trono, pois essa era a vontade de D
TALAL HUSSEINI 223 Sokárin. Não se trata de buscar o poder a qualquer preço, pois eu nunca quis estar nesta posição, mas sim de ter de assumir o destino que me foi reservado. Por mais que o preço seja alto, e o caminho adiante seja duro, não posso dar as costas a esse destino. E você também, Dhara, tem de tomar uma posição, e infelizmente tem de ser agora. Se não lutarmos, estaremos condenando o povo, já miserável, à definitiva miséria da desesperança. Agora é o momento. Se quiser vir conosco, esteja aqui antes do final da tarde, para irmos até a casa de Ravi, de onde partiremos. Vou esperar por você. Dhara saiu, ainda atônita com as palavras de Kadriel. A noite seria longa para ela. Teria muito em que pensar. Perto do final da tarde do dia seguinte, Kadriel, já pronto para sair, aguardava apenas a chegada de Dhara, quando alguém bateu na porta. Kadriel não pôde conter sua felicidade, que foi tão grande quanto sua decepção ao abrir a porta e se deparar com dois soldados da Guarda Real: – Senhor Kadriel? – Sim – confirmou Kadriel, desconfiado – em que posso ajudá-los? – O senhor deve nos acompanhar até o ministério. O senhor trabalha lá, não é? Kadriel até havia esquecido que trabalhava no ministério, ademais, com a mudança de rei, não ficaram vacantes todos os cargos? – Sim, trabalho... Mas neste momento não posso acompanhá-los, tenho um compromisso... – Nossas ordens são para escoltá-lo até lá. Nesse momento, Kadriel viu que Dhara chegava, já olhando com estranheza para os soldados. Ele lhe fez um sinal muito discreto para que seguisse caminho e não parasse ali. Felizmente ela o entendeu e passou direto por sua casa. Kadriel dirigiu-se então aos guardas:
224 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Bem, eu estava aguardando uma pessoa, que vai ficar preocupada se não me encontrar aqui. Permitam ao menos que eu deixe uma mensagem. Como os guardas concordaram com o seu pedido, dirigiu-se para dentro de sua casa para apanhar o material de escrita. Entrou no seu quarto, agitado, olhando para todos os lados e pensando na melhor opção. Enfrentar os dois guardas sozinho seria suicídio. Só restava fugir. Mas e se fosse um assunto banal? Não, nesse caso, não teriam enviado a Guarda Real, bastaria uma convocação. Assim, apanhou parte de suas coisas e saiu por uma janela nos fundos da casa. Quando os guardas estranharam a demora e resolveram entrar para verificar o que tinha acontecido, ele já estava próximo à casa de Ravi. Dhara já estava lá relatando o ocorrido a Ravi. Ficaram aliviados quando viram Kadriel chegando esbaforido. Dhara se antecipou: – Kadriel, você está bem? O que os guardas queriam com você? – Não sei, porque não fiquei lá para ver. Mas a minha fuga deve têlos colocado em alerta. Precisamos partir imediatamente! Ravi concordou. Todos já estavam reunidos, podiam seguir viagem: Ravi, Kadriel, Dhara, Bakar e Mirta. Também estavam presentes o Senador Rohel e sua esposa Inari, mas apenas para se despedir. Eles não tinham mais idade para enfrentar uma viagem daquelas. O Senador continuaria lutando à sua maneira, enquanto o Senado existisse, já que suas atribuições haviam sido drasticamente reduzidas. A caravana partiu com duas carruagens puxadas por quatro cavalos cada uma. Levavam mais dois cavalos, para revezar e outros dois em que Bakar e Kadriel iam montados. Por decisão de Ravi, foram em direção à região das montanhas. Retornando ao Palácio, os guardas que haviam ido à casa de Kadriel reportaram-se diretamente ao General Ofis, e não ao ministro Doran,
TALAL HUSSEINI 225 como deram a entender no que disseram a Kadriel. Ao vê-los de mãos vazias, o semblante de Ofis se transtornou: – Onde está ele?! – Bem, senhor... ele... nos enganou... – Como os enganou? Ele nem sabia que se tratava de uma prisão. Vocês não disseram que era um chamado do ministro? – Sim, senhor, mas acho que ele desconfiou... – Idiotas! Uma semana na limpeza das latrinas, que é só para isso que vocês servem. Agora desapareçam da minha frente. Ofis pensou consigo que teria de aguardar um comunicado de seu informante, e no momento oportuno os interceptaria. O Rei não estava muito preocupado com Kadriel e seu bando, mas ele sabia que o rapaz ainda lhes causaria problemas. Queria evitá-los enquanto isso ainda era fácil. Mas talvez o Rei tivesse razão, e não houvesse com que se preocupar. Em outro momento pensaria nisso. A prioridade do momento era o grupo dos assassinos. Ao retornar à sua casa, o Senador Rohel se deparou com Guardas Reais, que o esperavam junto ao portão principal. O Senador foi em sua direção e os interpelou sobre o que queriam. – Precisamos que o senhor nos acompanhe, Senador. – Posso saber aonde? – Ao quartel da Guarda Real. O General Ofis deseja vê-lo. – “General” Ofis! Hum. Como se aquele lacaio de Adaran tivesse feito alguma coisa que lhe pudesse valer essa patente... – os guardas fingiram não ouvir, muitos não discordariam dessa frase. Rohel dirigiu-se a sua esposa: – Inari, fique em casa e não se preocupe, logo estarei de volta. – Mas, querido, para onde vão levá-lo?
226 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Ao quartel da Guarda Real. Caso eu não volte hoje contate... – e cochichou um nome junto ao seu ouvido. Ela assentiu e entrou, enquanto o Senador acompanhou os soldados. Chegando ao quartel, foi levado imediatamente à presença de Ofis: – Vou ser bem direto, Senador. O senhor esteve com Kadriel? – Posso saber a que título estou aqui? Estou preso? – É claro que não, Senador. O senhor é nosso convidado, apenas para esclarecer se esteve com um fugitivo da lei recentemente. – Não estive com nenhum fugitivo da lei! – De onde o senhor veio quando chegou à sua casa? – Da casa de meu amigo Ravi. – Que também é amigo de Kadriel... – Sim, e de muitas outras pessoas... não há crime algum nisso. E Kadriel, cometeu que crime para ser procurado pela justiça? – Nós pensaremos em algum, Senador, nós pensaremos em algum... – respondeu o General, ironicamente. – Sim, é claro... bem ao seu feitio e do seu patrão. – Se o senhor estiver se referindo a Sua Majestade posso mandar prendê-lo por desacato à coroa. – Rapaz, olhe bem para mim, você acha que eu tenho idade para temer esse tipo de ameaça? Ainda mais vinda de um lacaio desqualificado como você? Pois me prenda! Como se precisasse de motivo para isso. Ofis não se alterou com as ofensas, limitou-se a provocar: – O senhor pode não se importar com nossas prisões, mas sua esposa Inari... O ancião arremeteu contra Ofis, mas foi detido pelos guardas: – Não ouse ameaçar minha esposa, seu verme! Você não vale absolutamente nada! Vou estar na primeira fila no dia que terminar essa pantomima a que vocês chamam de reinado! – Já basta! Saia daqui, velho! Antes que eu mande mesmo prendê-lo!
TALAL HUSSEINI 227 O Senador não esperou que ele repetisse a ordem e saiu rapidamente. Os guardas nem piscavam. Ofis lhes disse: – E vocês, idiotas, uma palavra sobre o que aconteceu aqui, e vão passar o resto das suas vidas miseráveis limpando as cocheiras! Dispensados! No caminho para as montanhas, Ravi aproveitou um momento de parada para descanso e, magistralmente, como num passe de mágica, desapareceu ante os olhos de Kadriel. Estupefato, este começou a se embrenhar na floresta com a esperança de encontrar o Mestre. Depois de alguns minutos, avistou ao longe, sentado numa pedra frente ao rio, a figura de Ravi contemplando a natureza com a pureza própria de uma criança. Aproximou-se e, de um silêncio pleno, irrompeu a voz quase metalizada de Ravi: – Sente, cale a sua mente e observe. Kadriel começou a admirar toda a paisagem, sem saber ao certo o que deveria ver, se é que deveria ver alguma coisa. Tratou de pacificar as emoções e pouco a pouco sentiu sua mente se aquietar. Ravi ordenou que Kadriel levasse todos os sons para o seu coração, como se escoassem por um funil e se envolvessem em uníssono no seu centro solar. Sentiu que por trás de todos os sons havia uma espécie de segundo som, muito sutil, que após alguns eternos segundos, se traduziram num silêncio indescritível. – Da solidão do guerreiro nasce o silêncio, e do silêncio, qual véus que se abrem aos mistérios, surge o poder. O poder é a ponte entre o Ser e a existência. É o que abre as portas para a magia e para a vida. Por ser uno com o Ser, é puro. Por isso, o poder nunca pode corromper. Os homens, por perderem o canal do poder, é que se corrompem. Para um
228 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA homem de poder, não existe o impossível, pois tem consciência de sua unidade interior e de sua própria imortalidade. Enquanto ouvia atentamente o Mestre, Kadriel sentia um misto de muitas coisas. Sentia algo frio subir a coluna, ao mesmo tempo em que algo quente descia. Sua mente por momentos vislumbrava o que significava o poder para aquele que reina e ao mesmo tempo via que o poder era interior. Lutava para se concentrar e manter viva aquela experiência. O guerreiro que canaliza o poder se torna representante desse atributo divino na terra. A isso chamamos liderança. Um líder é um canal do poder. Como numa espécie de “aura mágica”, faz com que todos que estão ao seu redor voltem a sonhar e a ter esperanças. Faz que as pessoas se sintam seguras e protegidas, motivadas e valorizadas, sintam que suas vidas podem tocar o incomum, se vejam capazes de romper as limitações e de rasgar a mediocridade. Um líder encontra as respostas para todas as perguntas em sua própria alma, nada está para além dele, sabe que a realidade do poder está dentro de seu círculo interno. Um líder sempre toma a iniciativa e sabe que rumo seguir. Sempre utiliza o elemento surpresa e com carisma garante o êxito. O líder é como o Sol: quando surge, o caos e as sombras abrem espaço para a sua passagem. – Chegou o momento de você realmente aceitar seu destino Kadriel, não tema o poder, pois quando nos encontramos com ele descobrimos que sempre fomos o poder. Não tema liderar, pois não só as pessoas que estão com você o necessitam, como você também necessita delas. Cada um nasce para algo neste mundo. Só encontramos nossa identidade quando efetivamente agimos em conformidade com o nosso destino. O eixo do poder é o canal pelo qual Deus se manifesta. Quatro são as virtudes que o guerreiro deve desenvolver para abrir passo a esse poder: a humildade entra como forma de energia espiritual e sai como admiração; entra a força, que se exterioriza como liderança. Esse quadrante de
TALAL HUSSEINI 229 virtudes conforma as quatro primeiras pétalas necessárias para o guerreiro trilhar a conquista da sua guerra interior. Só quem tem o poder de vencer dentro poderá vencer fora. Kadriel compreendia cada ensinamento como se fosse único. Sentia um aperto forte na garganta, de alguma forma intuía que a decisão se localizava fisicamente na garganta. Também intuía que o ser humano se compromete com o universo no momento em que as palavras lhe saem da garganta e se liberam pela boca. – Serei digno de honrar o poder. Liderarei com todas as minhas forças e trarei paz e justiça para o nosso reino. Ravi forjava o rapaz com muito amor. Sabia que na realidade não lhe ensinava nada novo, só fazia-lhe lembrar aquilo que de alguma forma sua alma já conhecia. O que precisava era formar seu caráter. Voltaram em silêncio. A cada pulso do coração, Kadriel sentia o pulso da natureza em sua manifestação. Quando chegaram ao vilarejo, Ravi aproveitou o momento de parada para retomar com Kadriel o assunto daquilo que ocorrera no penhasco, quando foram apanhar a placa. De como ele enfrentara quatro oponentes, livrando-se de todos eles, quase sem fazer esforço. Intuitivamente, Kadriel havia utilizado uma técnica de Nei Kung – A Arte Guerreira da Ação Inteligente –: a técnica dos quatro dragões. Ravi a explicou detalhadamente a Kadriel, que conseguia vislumbrar em tudo aquilo que havia sentido no penhasco os aspectos que lhe eram objetivamente transmitidos agora. Na ocasião ele não tinha essa consciência, mas agora conseguia fazer as relações. Ravi frisava: – Lembre-se que o objetivo da técnica dos quatro dragões é buscar o centro, esse lugar mágico onde se encontra o poder e se pode controlar e dominar os quatro elementos... Cada dragão representa um obstáculo a essa busca dura e complicada: o dragão mental é o desejo, o dragão
230 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA emocional é a ansiedade, o dragão vital é a agitação e o dragão éterofísico é a rigidez corporal... Kadriel passou o resto do tempo no vilarejo ao pé da montanha pensando sobre tudo aquilo. Sobre os quatro dragões, sobre o poder e a liderança. Por um segundo, pensou em ser alguém comum, ter sossego, uma vida simples, sem grandes preocupações. Mas seu destino era o de um dirigente, de um guerreiro, que teria de fazer de tudo para que as pessoas pudessem ter uma vida tranquila, boa e justa. Também viu que não poderia ser feliz tendo uma vida comum. Para alguns neste mundo, a felicidade está na proporção do sacrifício. Kadriel era um desses. 41. or ser um grupo reduzido, conseguiram instalar-se no pequeno vilarejo sem maiores problemas, pois Ravi conhecia seu líder, Durkan. Este era um homem austero, como a vida rígida das montanhas determinava. Era, como todos os homens da aldeia, um camponês, não sendo afeito às questões da política, de governos ou de guerra. Ravi conversou com ele em particular, recebendo todo o apoio de que necessitassem. Entretanto, ao saber das intenções de Ravi de não permanecer muito tempo ali, e sim rumar com seu grupo para regiões mais altas nas montanhas, alertou-os de que aquela era uma região de domínio dos “assassinos” e que seria perigoso ir mais adiante. Conforme se subia nas montanhas, os povoados que se encontravam eram menos hospitaleiros, pois os víveres eram mais escassos. Não se confiava muito nas pessoas dos vales, principalmente da Capital. Ravi pareceu reflexivo por um momento. Logo agradeceu a acolhida e foi ter com os seus. Chamou de P
TALAL HUSSEINI 231 lado Kadriel e Bakar, falando-lhes durante alguns minutos. Parecia darlhes instruções minuciosas sobre alguma coisa. Os dois saíram em seguida em direção ao alto da montanha. Tinham que encontrar o chefe dos “assassinos”. Ou melhor, segundo Ravi, bastava que se embrenhassem por aquelas paragens, que eles seriam encontrados. Não levavam consigo nenhuma arma, fato com o qual Bakar não se conformava, como sua expressão deixava saber, apesar de nada ter dito. Caminharam cerca de duas horas. Até aquela altitude, a vegetação ainda era cerrada. Os caminhantes tinham a sensação de que estavam sendo observados o tempo todo. De repente, uma flecha veio cravar-se no chão bem à frente de Kadriel, que imediatamente deteve o passo. Era evidente que a intenção não fora atingi-lo, caso contrário estaria morto. Ele gritou para as árvores: – Quem está aí? Nenhuma resposta. Uma rede foi lançada da copa das árvores, mas apanhou apenas Kadriel, Bakar conseguiu esquivar-se, com uma agilidade inesperada para o seu corpanzil. Vários homens lançaram-se sobre ele. Dois, que o agarram cada um dos braços, foram logo arremessados. Outro agressor que, incauto, ficou parado na sua frente, contando que seus braços estivessem imobilizados, levou um soco apontado ao nariz, mas que atingia o rosto inteiro, dadas as dimensões da mão de Bakar. Seu nariz desapareceu dentro do rosto, e a consciência o abandonou de imediato. Restava um agarrado às suas costas. Bakar lançou-se de costas contra um tronco, amassando o passageiro indesejado. Mas nesse momento outros homens surgiram, juntamente com os dois que haviam sido arremessados no início. Um deles acertou uma paulada em Bakar, que lhe atingiu as costas, não causando aparentemente nenhum efeito, mas veio outra paulada na testa, que escureceu um pouco a visão do gigante, apesar de não derrubá-lo. Quando a luz voltou-lhe aos olhos,
232 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA mais de meia dúzia de flechas estavam apontadas para ele, os arcos tensionados, prontos para disparar. De dentro da rede, Kadriel, lendo as intenções de Bakar nos seus olhos gritou: – Bakar! Não faça isso! Não reaja! Ao ouvir a voz do amigo, Bakar cedeu, relaxou os braços ao lado do corpo. Aquele que parecia ser o líder falou: – Esse é um bom conselho – e dirigindo-se aos outros: – amarrem-no! Os dois foram amarrados e encapuzados, para que não soubessem aonde estavam indo. Kadriel permaneceu em silêncio. Bakar tentou fazer algumas perguntas no início – quem são vocês? Para onde estão nos levando? –, mas não obteve qualquer resposta. Depois de cerca de uma hora de caminhada, pararam e tiveram os capuzes retirados. Estavam numa espécie de acampamento, que ficava numa clareira aberta propositalmente para esse fim. A vegetação ainda era espessa no entorno, o que denotava que não deviam estar a grande altitude. Kadriel pensou conhecer o líder do bando. Ele estava bastante mudado, principalmente o olhar, que estava vazio, mas sim, era ele, o Capitão da Guarda Real! – O que vocês querem aqui?! Não sabem que estes são domínios dos “assassinos”? Têm sorte de estar vivos! – Se estamos vivos, é por que você quis assim. Por que não nos matou? – Tive vontade quando meus homens me relataram o estrago que seu amigo mastodonte fez, mas por outro lado fiquei pensando que quem fosse louco o bastante para entrar nestas matas, desarmado, devia ter alguma coisa interessante para dizer... E, ademais, se eu estiver enganado, ainda posso matá-los a qualquer momento. Portanto, eu ganho de todas as maneiras – fez um pequeno trejeito com o canto da boca, que devia representar o máximo de um sorriso para aquele homem, que completou: – então, me enganei?
TALAL HUSSEINI 233 – Não – respondeu Kadriel – creio que nós temos interesses em comum. Meu nome é Kadriel Vahan, e pretendo lutar contra Adaran. – Sei quem você é. Por que pretende lutar contra o Rei? – Porque a coroa é minha! Todos os homens riram da frase, menos o Capitão. Kadriel não se intimidou e prosseguiu, seguindo à risca o que Ravi lhe dissera para fazer: – Você sabe que Sokárin havia gravado outra placa de sucessão antes de morrer, mas não teve tempo de colocá-la na estela, certo? – Muitos dizem que essa placa não existe... – Mas ela existe. Sokárin a escondeu. E nós a encontramos – ao dizer isso, levou a mão dentro das roupas para pegar alguma coisa. Imediatamente várias lanças foram encostadas contra seu peito. Ele olhou para o Capitão, que fez sinal a seus homens para se afastar. Kadriel retirou então um embrulho e o entregou ao Capitão. Ao abri-lo, este sentiu um calafrio. Procurou não demonstrá-lo e desdenhar do que estava diante dos seus olhos. – Sim. Isto é uma pedra com seu nome gravado... O que isso prova? – Essa é uma pedra dos mil reis. Você sabe disso. Quantas vezes montou guarda diante da estela? Além disso, ela poderá, no momento oportuno, passar pelo teste alquímico. – Certo. Suponhamos que eu acredite que esta pedra é verdadeira, o que você espera? Que eu me ajoelhe aos seus pés e lhe jure obediência? Você é um rei sem coroa, sem trono, sem cidade e, pior, sem exército. – Não espero que você me reconheça como seu rei, mas está claro que temos um inimigo em comum e, como diz o ditado guerreiro, “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Todos os itens que você mencionou, os terei, cada um a seu tempo... O Capitão ficou pensativo, depois respondeu: – Minha única motivação é a vingança! Não me interesso por reis, príncipes, imperadores ou o que quer que seja.
234 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA – Entendo isso. Mas podemos reunir esforços? Ainda numa última hesitação, o Capitão perguntou: – Eu tenho homens, que não são muitos, mas são na sua maioria exsoldados da Guarda Real, combatentes de elite. E você, o que tem? – Além da legitimidade à coroa, tenho um Mestre! Ravi Medhavin encabeça o nosso grupo. Sua sabedoria nos será muito valiosa. O Capitão admirava muito o imperador Medhavin. A menção a alguém daquela linhagem o agradou. Ele estendeu a mão para Kadriel: – Temos um pacto! Kadriel e Bakar sorriram. O Capitão mandou dois homens à cidade para escoltar o resto do grupo de Kadriel até o acampamento, pois seria perigoso ficar na cidade. As forças do Rei poderiam aparecer. Quando todos chegaram já era noite. Uma comemoração foi feita, ainda que com a sobriedade e a austeridade de quem está em guerra e não pode se dar ao luxo do desperdício. Mas todos se reuniram em torno de uma fogueira e contaram estórias. Ravi encantou a todos com relatos de suas viagens pelo mundo, alguns que nem mesmo Kadriel tinha ouvido. A alegria foi interrompida por um dos sentinelas, que viera da parte mais baixa da montanha: – O exército marcha para cá! Depois de indagado com mais calma, após ter descansado um pouco da carreira, disse que uma enorme formação de soldados se aproximava. Era uma superioridade numérica muito grande. Seriam dizimados. A agitação tomou conta do acampamento. Como descobriram aquele lugar. A culpa era de Kadriel, alguém os havia seguido... Quem interrompeu a confusão foi Ravi, com seu tom de voz tranquilo: – Fui eu quem disse a eles que estaríamos aqui! – e continuou antes que alguém tivesse tempo de fazer qualquer colocação – eu disse isso há muitos anos.
TALAL HUSSEINI 235 Ravi se divertia com os olhares de confusão de todos, inclusive de Kadriel, que nada sabia a respeito do que acabara de proferir. Ravi dirigiu-se ao mensageiro: – Como eram os estandartes que portavam? Tinham as cores do rei Adaran? – Havia três estandartes na linha de frente, ao que me pareceu, representando constelações. Havia a de gêmeos, a do caranguejo e a de peixes. – Senhores, esses não são exércitos do Rei, são os nossos exércitos! – anunciou – são exércitos da Aliança das Doze Cidades. A constelação de gêmeos representa a cidade de meu amigo Nakan. As outras devem ser seus aliados. Provavelmente, o Rei não os considerou confiáveis e eles agora aqui estão. – Mas são apenas três estandartes e a Aliança tem doze cidades. Onde estão as outras? – perguntou alguém. – As outras, meu amigo, quando for o momento você as encontrará no campo de batalha... Quando se encontraram, Ravi e Nakan se estreitaram num abraço fraterno, de velhos amigos. As apresentações foram feitas, Kadriel, Bakar, o Capitão, e todos os outros. Nakan, apesar do seu bom humor, estava preocupado com quais seriam os próximos passos daquele grupo. Ele tinha metade dos seus homens, na cidade do escorpião todos haviam acompanhado seu general, mas eram poucos no total, as outras duas cidades também tinham vindo com menos de metade do seu contingente. Isso não seria suficiente nem para fazer cócegas nas forças do Rei, ainda mais com o reforço das outras cidades da Aliança. Ravi continuava tranquilo e disse que tudo teria seu tempo certo. O momento não era agora, muitos preparativos ainda teriam de ser feitos
236 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA antes de poderem confrontar Adaran, que por sinal não era seu pior inimigo. Ninguém entendeu muito bem o sentido daquelas últimas palavras que Ravi parecia ter dito mais para si mesmo, mas ninguém perguntou. Ravi relatou aos governadores das cidades a história da sucessão, da mesma forma que Kadriel a havia exposto ao Capitão, que agora a escutava novamente. Kadriel estava imóvel ao seu lado. Sua postura estava diferente, parecia ter assumido seu destino. Os líderes no entanto ainda não pareciam conformados em segui-lo como Rei. Os dias se passaram e o clima não cooperava com a situação precária de um acampamento. A chuva já durava mais de trinta dias. Se isso continuasse, as plantações das cidades montesinas estariam completamente perdidas. Os prognósticos dos anciãos das cidades encarregados de fazer a leitura do tempo não eram boas: em meio à tempestade, viria o vendaval, na forma de ciclones. De fato, no dia seguinte, logo que o dia raiou, se é que se podia chamar assim, uma vez que ainda parecia noite, no horizonte, unindo o céu cinza à terra escura, um paredão. Aproximavase rápido, trazendo seu cinza ainda mais escuro na direção das aldeias. À sua frente, qual cavaleiros de escolta, quatro formações de vento, saindo do céu, no meio das nuvens, em redemoinho que ia fincar sua ponta no chão. Eles se contorciam num balé assustador, pareciam debochar dos pobres humanos que os aguardavam atônitos. Se alguém um dia tivesse uma visão do fim do mundo, certamente seria aquela. Perto do meio-dia, tudo escureceu, haviam chegado as legiões dos ventos, a artilharia dos raios que retumbavam seus tambores ao fulminar árvores gigantes apenas para demonstrar seu poder, a água que insistente amolecia as consciências... Era uma luta que os homens não podiam vencer. Restava-lhes esperar. Todos pensaram que Kadriel enlouquecera quando ele foi na direção de que vinha o temporal, levantou os braços, com as palmas das mãos
TALAL HUSSEINI 237 abertas, e começou a recitar palavras incompreensíveis. Alguns até sentiriam vontade de rir, não fosse a situação desesperadora. Mas a estupefação foi geral quando tudo pareceu parar: a chuva, os raios, e o vento, o próprio tempo... Fez-se o mais absoluto silêncio, nenhum pássaro cantava, nenhum animal da floresta emitia qualquer som, ninguém falava, ninguém sequer respirava. Em meio ao céu cinzento, abriu-se um círculo de claridade exatamente sobre a montanha, sobre o lugar onde estavam, deixando entrar toda a luz e todo o calor do Sol do meio-dia. Ouviu-se então um guincho, era um falcão que descia através daquela espécie de portal que se abrira entre as nuvens. Ele vinha de onde não havia tempestade, de onde o céu era claro e o Sol brilhava pleno. Demorou mais de dois minutos na sua descida, pois voava em forma circular, descrevendo uma espiral para baixo, até pousar sobre o ombro de Kadriel. Era um falcão diferente dos demais. Normalmente tinham a plumagem de cor marrom, aquele era amarelo. O efeito brilhante que as aves têm nas suas penas o fazia parecer dourado ao Sol. O destino pousara nos ombros de Kadriel. Sim, este seria seu nome: Destino. O céu se abriu por completo, terminando de dissipar a tempestade. Todos ficaram olhando fixamente para o homem e a ave. Bastou que um o fizesse, para que todos em sequência o imitassem: um a um todos ajoelhavam-se sobre o joelho direito, baixando a cabeça, em sinal de reverência, em direção a Kadriel. O poder que ele demonstrara não era dos homens comuns, era digno dos reis. O presságio do falcão afastava qualquer dúvida que porventura ainda persistisse. Até mesmo o Capitão sentiu vontade de fazer reverência, mas resistiu ao enorme peso que lhe pressionava os ombros, não, ele jamais seguiria alguém novamente, sua vida poderia acabar quando cumprisse sua vingança.
238 PAZ GUERREIRA - LIDERANÇA Kadriel fez sinal a todos para que se levantassem. Um brado espontâneo elevou-se da soldadesca para exultá-lo. Os generais se aproximaram, os demais também, todos queriam estar perto do Príncipe. Podia-se sentir o seu magnetismo. Agora tinham uma bandeira por que lutar. Estava reunida a companhia de heróis.