Mas dissemos que não sabíamos se beija-flor, como uma abelha ou, me-
Keblerc havia feito bem ou mal em não lhor, como uma doudinha. Eram eles
imitar os outros. Sem dúvida já fomos D. Carolina e Augusto.”
condenados por homem de mau gosto,
cumpre-nos dar algumas razões. Enten- Manuel Antônio de Almeida
demos, cá para nós, que por diversos
cami-nhos vão, tanto o alemão como os Nasceu em 1831, no Rio de Janeiro, e
rapazes, a um mesmo fim. Em resultado, faleceu em 1861, no naufrágio do vapor
esgotadas as garrafas e terminado o pas- Hermes, ocorrido no litoral fluminense.
seio, haverá mona, não só na sala do jan- Trabalhou no “Correio Mercantil” como
tar, mas também no jardim; a diferença é redator e revisor. Uma das maiores ins-
que uma será mona de vinho e a outra pirações de Machado de Assis, publi-
de amor. Esta última costuma sempre ser cou apenas uma obra: Memórias de um
mais perigosa. Pela nossa parte confessa- sargento de milícias, obra que marca a
mos que não há cachaça que embebede transição do Romantismo para o Realis-
mais depressa do que uma que se bebe mo, em que os personagens começam
nos olhos travessos de certas pessoas. a aparecer menos idealizados e mais
rebaixados, comuns.
Passeava-se. Cada cavalheiro dava o
braço a uma senhora, e, divag ando-se Bernardo Guimarães
assim pelo jardim, o dicionário das flo-
res era lembrado a todo o momento. Bernardo Joaquim da Silva Guimarães
Menina havia que, apenas algum lhe nasceu em 1825, em Ouro Preto, Minas
dizia, apontando para a flor: Gerais, e faleceu em 1884. Fundou, na
juventude, junto com Álvares de Azeve-
– Acácia! do e Aureliano Lessa, a sociedade Epicu-
– Sonhei com você! respondia logo. reia. Foi professor de Retórica e Poética
– Amor-perfeito! no Liceu Mineiro. Um dos precursores
– Existo para ti só! tornava imedia- do regionalismo no Brasil, conseguiu
tamente. retratar bem os costumes do sertanejo,
E o mesmo fazia a respeito de todas além de ser um escritor muito popular,
as flores que lhe mostravam. Era uma especialmente pela obra A escrava Isau-
doutora de borla e capelo em todas as ci- ra, que posteriormente foi adaptada em
ências amatórias; e esta menina era, nem telenovela e assistida em todo o mundo.
mais nem menos, aquela lânguida e son-
sinha D. Quinquina. Fiai-vos nas sonsas! Obras:
Um moço e uma moça, porém, an-
davam, como se costuma dizer, soltei- • O Ermitão de Muquém (1865)
ros; cem vezes dela se aproximava o • O seminarista (1872)
sujeito, mas a bela, quando mais perto • A escrava Isaura (1875)
o via, saltava, corria, voava como um
250
Franklin Távora logia e Mineralogia na Escola Militar.
É um autor romântico que não se deixa
Nasceu em 1842, no Ceará, e faleceu levar pelo sentimentalismo. Conseguiu
em 1888. Fundador do regionalismo ainda transportar para os seus livros a
Norte e contra as influências estrangeiras naturalidade e a agilidade dos diálogos
que outros escritores da época recebiam. coloquiais do homem do interior.
Registrou os costumes do homem nor-
destino. Criticou a obra de José de Alen- Obras:
car por considerá-la superficial.
• A retirada de Laguna (1871)
Obras: • Inocência (1872)
• O Cabeleira (1876) Martins Pena
• O matuto (1878)
• Lourenço (1881)
Visconde de Taunay
REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO
Alfredo d’Escragnolle Taunay Martins Pena, o “Molière brasileiro”
Alfredo d’Escragnolle Taunay nasceu Luis Carlos Martins Pena nasceu em
em 1843, no Rio de Janeiro, e faleceu 1815, no Rio de Janeiro, e faleceu em
em 1899. Militar, participou da guerra 1848. Foi colaborador do Jornal do Comér-
do Paraguai e foi professor de Geo- cio. É conhecido como o “Molière brasilei-
ro”, pela criação de comédias de costumes
populares, em que retrata figuras provin-
cianas, simples e ao mesmo tempo ridícu-
las, fazendo uma crítica social corrosiva.
251
Peças REPRODUÇÃO originalidade, misturando humor, iro-
nia, críticas à burguesia e as suas más-
• O juiz de paz da roça (1838) caras sociais, seguindo um vasto reper-
• A festa e a família na roça (1840) tório de influência de autores franceses,
• O judas em sábado de aleluia (1844) ingleses, entre outros. Para ler Machado
• O irmão das almas (1844) de Assis, é importante sempre estar
• O noviço (1845) atento às entrelinhas.
REALISMO Em resumo, Machado de Assis foi
Machado de Assis um poeta, romancista, dramaturgo,
contista, jornalista, cronista e teatrólogo
Machado de Assis, considerado por brasileiro, considerado como o maior
muitos o maior nome da literatura nome da literatura brasileira, de forma
majoritária entre os estudiosos da área.
brasileira. Pintura de Henrique
Bernardellib, 1905. Obras:
Joaquim Maria Machado de Assis nas- Poesia
ceu em 1839, no Rio de Janeiro, e faleceu
em 1908. Posteriormente, tornou-se re- • Crisálidas (1864)
visor, redator e colaborador do “Correio • Falenas (1870)
Mercantil”. Participou da fundação da • Americanas (1875)
Academia Brasileira de Letras, em 1896. • Poesias completas (1901)
Sua produção teve início com crôni- Romance
cas, peças teatrais e folhetins que não
chamavam muito a atenção da crítica • Ressurreição (1864)
e de público. Passou por uma segunda • A mão e a luva (1874)
fase, com romances e contos cheios de • Helena (1876)
• Iaiá Garcia (1878)
• Memórias Póstumas de Brás Cubas
(1881)
• Quincas Borba (1891)
• Dom Casmurro (1900)
• Esaú e Jacó (1904)
• Memorial de Aires (1908)
• Memórias Póstumas de Brás Cubas
“Ao verme que primeiro roeu as frias
carnes do meu cadáver, dedico como
saudosa lembrança estas memórias
póstumas.
252
Ao leitor se te não agradar, pago-te com um pi-
parote, e adeus.
Que Stendhal confessasse haver es-
crito um de seus livros para cem leito- Brás Cubas
res, coisa é que admira e consterna. O
que não admira, nem provavelmente NATURALISMO
consternará, é se este outro livro não
tiver os cem leitores de Stendhal, nem Raul Pompeia
cinquenta, nem vinte, e quando muito,
dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na ver- Raul D’Ávila Pompeia nasceu em
dade, de uma obra difusa, na qual eu, 1863, em Jacuacanga (Rio de Janeiro) e
Brás Cubas, se adotei a forma livre de suicidou-se em 1895. Como jornalista, es-
um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, creveu vários artigos defendendo as cau-
não sei se lhe meti algumas rabugens sas abolicionistas. Envolveu-se em alguns
de pess imismo. Pode ser. Obra de fina- embates com Olavo Bilac por divergên-
do. Escrevia-a com a pena da galhofa e cias políticas. Suas obras têm influência do
a tinta da melancolia, e não é difícil an- impressionismo, expressionismo, além de
tever o que poderá sair desse conúbio. abordar a temática forte da sexualidade.
Acresce que a gente grave achará no li-
vro umas aparências de puro romance, Obras:
ao passo que a gente frívola não achará
nele o seu romance usual; ei-lo aí fica • Uma tragédia no Amazonas (1880)
privado da estima dos graves e do amor • O Ateneu (1888)
dos frívolos, que são as duas colunas • Canções sem metro (1900) – obra
máximas da opinião. •póstuma
Mas eu ainda espero angariar as As joias da coroa (1962) – obra pós-
simpatias da opinião, e o primeiro re- tuma
médio é fugir a um prólogo explícito
e longo. O melhor prólogo é o que O Ateneu
contém menos coisas, ou o que as
diz de um jeito obscuro e truncado. “Era hora de descanso, passeávamos,
Conseguintemente, evito contar o conversando. Falamos dos colegas. Vi, en-
processo extraordinário que empre- tão, de dentro da brandura patriarcal do
guei na composição destas Memórias, Rabelo, descascar-se uma espécie de ines-
trabalhadas cá no outro mundo. Seria perado Tersito, produzindo injúrias e mal-
curioso, mas nimiamente extenso, ali- dições. “Uma cáfila! uma corja! Não ima-
ás, desnecessário ao entendimento da gina, meu caro Sérgio. Conte como uma
obra. A obra em si mesma é tudo: se te desgraça ter de viver com esta gente.”E es-
agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; beiçou um lábio sarcástico para os rapazes
que passavam. “Aí vão as carinhas sonsas,
253
generosa mocidade... Uns perversos! Têm assim o conheço nesta casa, desde que
mais pecados na consciência que um con- entrei. De joelhos como um penitente
fessor no ouvido; uma mentira em cada expiando a culpa de uma raça. O diretor
dente, um vício em cada polegada de pele. chama-lhe cão, diz que tem calos na cara.
Se não tivesse calos ao joelho, não have-
Fiem-se neles. São servis, traidores, ria canto do Ateneu que ele não marcasse
brutais, adulões. Vão juntos. Pensa-se com o sangue de uma penitência. O pai
que são amigos... Sócios de banda- é de Mato Grosso; mandou-o para aqui
lheira! Fuja deles, fuja deles. Cheiram a com uma carta em que o recomendava
corrupção, empestam de longe. Corja como incorrigível, pedindo severidade. O
de hipócritas! Imorais! Cada dia de vida correspondente envia de tempos a tem-
tem-lhes vergonha da véspera. pos um caixeiro, que faz os pagamentos e
deixa lembranças. Não sai nunca...
Mas você é criança; não digo tudo
o que vale a generosa mocidade. Com Afastemo-nos que aí vem um grupo
eles mesmos há de aprender o que são... de gaiatos.
Aquele é o Malheiro, um grande em gi-
nástica. Entrou graúdo trazendo para cá Um tropel de rapazes atravessou-nos
os bons costumes de quanto colégio por a frente, provocando-me com surriadas.
aí. O pai é oficial. Cresceu num quartel
no meio da chacota das praças. Forte “Viu aquele da frente, que gritou
como um touro, todos o temem, muitos calouro? Se eu dissesse o que se conta
o cercam, os inspetores não podem com dele... aqueles olhinhos úmidos de Se-
ele; o diretor respeita-o; faz-se a vista lar- nhora das Dores... Olhe; um conselho:
ga para os seus abusos... Este que passou faça-se forte aqui, faça-se homem. Os
por nós, olhando muito, é o Cândido, fracos perdem-se.”
com aqueles modos de mulher, aque-
le arzinho de quem saiu da cama, com “Isto é uma multidão; é preciso for-
preguiça nos olhos... Este sujeito... Há de ça de cotovelos para romper. Não sou
ser seu conhecido. Mas faço exceções: ali criança, nem idiota; vivo só e vejo de
vem o Ribas, está vendo? feio coitadinho longe; mas vejo. Não pode imaginar.
como tudo, mas uma pérola. É a mansi- Os gênios fazem aqui dois sexos, como
dão em pessoa. Primeira voz do Orfeão, se fosse uma escola mista. Os rapazes
uma vozinha de moça que o diretor ado- tímidos, ingênuos, sem sangue, são
ra. É estudioso e protegido. Faz a vida brandamente impelidos para o sexo
cantando como os serafins. Uma pérola!” da fraqueza; são dominados, feste-
jados, pervertidos como meninas ao
– Ali está um de joelhos...? desamparo. Quando, em segredo dos
– De joelhos... Não há perguntar; é o pais, pensam que o colégio é a melhor
Franco. Uma alma penada. Hoje é o pri- das vidas, com o acolhimento dos mais
meiro dia, ali está de joelhos o Franco. velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão
Assim atravessa as semanas, os meses, perdidos... Faça-se homem, meu amigo!
Comece por não admitir protetores.”
254
Aluísio Azevedo Naturalistas
REPRODUÇÃO • O Mulato (1884)
• Casa de pensão (1884)
• O homem (1887)
• O cortiço (1890)
• O livro de uma sogra (1895)
O cortiço (Capítulo VII)
Aluísio de Azevedo, autor de “O Mulato” “E viu a Rita Baiana, que fora trocar o
vestido por uma saia, surgir de ombros
Aluísio Tancredo Gonçalves Azevedo e braços nus, para dançar. A lua destol-
nasceu em 1857, em São Luís (Maranhão) e dara-se nesse momento, envolvendo-a
faleceu em 1913. Seu romance O Mulato é na sua cama de prata, a cujo refulgir os
considerado o primeiro romance naturalista meneios da mestiça melhor se acentu-
do Brasil. Embora tenha escrito obras realis- avam, cheios de uma graça irresistível,
tas e românticas, Aluísio Azevedo se destaca simples, primitiva, feita toda de pecado,
pela fase naturalista, com forte influência do toda de paraíso, com muito de serpente
escritor francês Émile Zola. Em suas obras e muito de mulher.
dessa fase, encontramos ambientes social-
mente degradados e personagens próxi- Ela saltou em meio da roda, com os
mos ao animalesco. Há uma forte influência braços na cintura, reboland o as ilhargas
das tendências cientificistas da época como e bamboleando a cab eça, ora para a es-
o Darwinismo e o Determinismo. querda, ora para a direita, como numa
sofreguidão de gozo carnal num reque-
Obras: brado luxurioso que a punha ofegante;
já correndo de barriga empinada; já re-
Românticas cuando de braços estendidos, a tremer
toda, como se fosse afundando num
• Uma lágrima de mulher (1880) prazer grosso que nem azeite, em que se
• Mistérios da Tijuca ou Girândola de não toma pé e nunca se encontra fundo.
Amores (1882) Depois, como se voltasse à vida, solta-
va um gemido prolongado, estalando os
• A condessa Vésper (1882) dedos no ar e vergando as pernas, des-
• Filomena Borges (1884) cendo, subindo, sem nunca parar com os
• A mortalha de Alzira (1894) quadris, e em seguida sapateava, miúdo e
cerrado, freneticamente, erguendo e abai-
xando os braços, que dobrava, ora um, ora
outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe
fervia toda, fibra por fibra, tirilando.
255
Em torno o entusiasmo tocava ao delí- abre feridas com o seu azeite de fogo; ela REPRODUÇÃO
rio; um grito de aplausos explodia de vez era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta vis-
em quando rubro e quente como deve cosa, a muriçoca doida, que esvoaçava ha-
ser um grito saído do sangue. E as palmas via muito tempo em torno do corpo dele,
insistiam, cadentes, certas, num ritmo assanhando-lhe os desejos, acordando-
nervoso, numa persistência de loucura. E, -lhe as fibras embebecidas pela saudade
arrastado por ela, pulou à arena o Firmo, da terra, picando-lhe as artérias, para lhe
ágil, de borracha, a fazer coisas fantásti- cuspir dentro do sangue uma centelha
cas com as pernas, a derreter-se todo, a daquele amor setentrional, uma nota da-
sumir-se no chão, a ressurgir inteiro com quela música feita de gemidos de prazer,
um pulo, os pés no espaço, batendo os uma larva daquela nuvem de cantáridas
calcanhares, os braços a querer fugirem- que zumbiam em torno da Rita Baiana e
-lhe dos ombros, a cabeça a querer saltar- espalhavam-se pelo ar numa fosforescên-
-lhe. E depois, surgiu também a Florinda, cia afrodisíaca.”
e logo o Albino e até, quem diria! o grave
e circunspecto Alexandre. AZEVEDO, Aluisio. O Cortiço. São Paulo:
Editora DCL, 2008.
O chorado arrastava-os a todos, des-
poticamente, desesperando aos que não PARNASIANISMO
sabiam dançar. Mas, ninguém como a Rita;
só ela, só aquele demônio, tinha o mágico Olavo Bilac
segredo daqueles movimentos de cobra
amaldiçoada; aqueles requebros que não Olavo Bilac
podiam ser sem o cheiro que a mulata sol- Olavo Brás Marins dos Guimarães Bi-
tava de si e sem aquela voz doce, quebrada, lac nasceu em 1865, no Rio de Janeiro,
harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. e faleceu em 1918. Cursou Direito em
São Paulo e Medicina no Rio de Janei-
E Jerônimo via e escutava, sentindo ro, mas não chegou a concluir nenhum
ir-se-lhe toda a alma pelos olhos ena- dos dois cursos. Bilac soube conjugar
morados.
Naquela mulata estava o grande mis-
tério, a síntese das impressões que ele
recebeu chegando aqui: ela era a luz
ardente do meio-dia; ela era o calor ver-
melho das sestas da fazenda; era o aroma
quente dos trevos e das baunilhas, que o
atordoara nas matas brasileiras; era a pal-
meira virginal e esquiva que se não torce a
nenhuma outra planta; era o veneno e era
o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce
que o mel e era a castanha do caju, que
256
o rigor formal parnasiano com grande E as confissões de amor que morrem
expressividade, obtendo efeitos imagís- na garganta?
ticos e ritmos interessantes.
Raimundo Correia
Obras:
Raimundo da Mota Azevedo Correia
• Poesias (1888) nasceu em 1859, no Maranhão, e mor-
• Sagres (1898) reu em 1911. Formou-se em Direito em
• Poesias infantis (1904) São Paulo, trabalhou como juiz em Mi-
• Tarde (1919) nas Gerais e no Rio de Janeiro. Foi um
dos fundadores da Academia Brasileira
Inania Verba de Letras. Soube driblar a impessoa
lidade parnasiana e atingir o universa-
Ah! quem há de exprimir, alma im- lismo, desenvolvendo temas sociais e,
potente e escrava, sobretudo, filosóficos: a busca de uma
verdade essencial e imorredoura, os
O que a boca não diz, o que a mão conflitos da condição humana etc.
não escreve?
Obras:
— Ardes, sangras, pregada à tua
cruz, e, em breve, • Primeiros Sonhos (1879);
• Sinfonias (1883);
Olhas, desfeito em lodo, o que te • Versos e Versões (1887);
deslumbrava... • Aleluias (1891);
• Poesias (1898)
O Pensamento ferve, e é um turbi-
lhão de lava; As pombas
A Forma, fria e espessa, é um sepul- Vai-se a primeira pomba despertada...
cro de neve... Vai-se outra mais... mais outra... en-
fim dezenas
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve, Das pombas vão-se dos pombais,
Que, perfume e clarão, refulgia e apenas
voava. Raia sanguinea e fresca a madrugada.
Quem o molde achará para a ex- E à tarde, quando a rígida nortada
pressão de tudo? Sopra, aos pombais, de novo elas,
serenas,
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Do sonho? e o céu que foge à mão
que se levanta?
E a ira muda? e o asco mudo? e o de-
sespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram
ditas?
257
Voltam todas em bando e em revoada... REPRODUÇÃO um dos fundadores da Academia Brasi-
Também dos corações onde abotoam leira de Letras. É considerado um parna-
Os sonhos, um a um, céleres voam, siano ortodoxo. Em sua poesia, podem-
Como voam as pombas dos pombais; -se distinguir três fases: 1a) contida, com
No azul da adolescência as asas soltam, linguagem nobre, mas sem arcaísmos;
Fogem... Mas aos pombais as pom- 2a) descritiva, em que descreve coisas
bas voltam, antigas e a natureza; 3a) melancólica,
E eles aos corações não voltam mais. sentimentalista e saudosista.
Alberto de oliVeirA
obras:
Alberto de Oliveira, um dos fundadores
da Academia Brasileira de Letras • Canções Românticas (1878);
• Meridionais (1884);
Antônio Mariano Alberto de Oliveira • Sonetos e Poemas (1885);
nasceu em 1857, em Palmital de Saqua- • Versos e Rimas (1895).
rema, no Rio de Janeiro, e faleceu em
1937. Foi professor de Português, His- VAso chinês
tória e Literatura na Escola Normal e na
Escola Dramática, no Rio de Janeiro. Foi Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um per-
fumado
Contador sobre o mármore luzidio,
Entre um leque e o começo de um
bordado.
Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.
Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe? – de um velho man-
darim
Também lá estava a singular figura.
Que arte em pintá-la! A gente acaso
vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele
chim.
258
De olhos cortados à feição de conflito entre a matéria e o espírito, a
amêndoa. loucura e a obsessão pela cor branca.
simbolismo
cruz e sousA obras:
Cruz e Sousa • Broquéis (1893)
João da Cruz e Sousa nasceu em • Faróis (1900)
1861, em Nossa Senhora do Desterro • Últimos Sonetos (1905)
(atual Florianópolis), Santa Catarina, e
faleceu em 1898. Filho de escravos al- cAVAdor do inFinito
forriados, teve uma educação esmera-
da, e trabalhou como jornalista e pro- Com a lâmpada do Sonho desce aflito
fessor no Rio de Janeiro. Casou-se com E sobe aos mundos mais imponde-
Gavita Rosa Gonçalves, com quem ráveis,
teve quatro filhos, sendo que dois de- Vai abafando as queixas implacáveis,
les morreram quando o poeta ainda Da alma o profundo e soluçado grito.
vivia, e o caçula nasceu depois de sua
morte. Em 1896 as esposa foi acome- Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
tida por uma loucura temporária, fato Sente, em redor, nos astros inefáveis.
que marcou profundamente sua obra. Cava nas fundas eras insondáveis
Seus principais temas são a morte, a O cavador do trágico Infinito.
transcendência espiritual, o sagrado,
E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias...
Alto levanta a lâmpada do Sonho.
E como seu vulto pálido e tristonho
Cava os abismos das eternas ânsias!
AlPhonsus de GuimArAens
Afonso Henriques da Costa Guimarães
nasceu em 1870, em Ouro Preto – Minas
Gerais, e faleceu em 1921. Formado em
Direito, foi jornalista e ainda graduou-
-se em Ciências Sociais. Apesar de ter se
casado com Zenaide e de ter tido 14 fi-
lhos, recebeu o apelido de o “Solitário de
259
Mariana”, por seus hábitos reclusos. Os te- PRÉ-MODERNISMO
mas mais recorrentes de sua poesia são o
amor, a religiosidade, o escapismo, a natu- Augusto dos Anjos
reza e a morte. Suas principais influências
literárias foram: Paul Verlaine, Cruz e Sou- Augusto Rodrigues Carvalho dos An-
sa, Antero de Quental e Antônio Nobre. jos nasceu em 1884, no Engenho do Pau
d’Arco, na Paraíba, e faleceu em 1914.
Obras: Formou-se em Direito, embora tenha
sido professor de literatura no Liceu Parai-
• Setenário das dores de Nossa Senho- bano. Augusto tem obsessão pela morte
e os seus aspectos materiais: o verme e a
ra (1889) decomposição do corpo causam-lhe uma
perplexidade vazada em versos escato-
• Câmara Ardente (1889) lógicos. Além disso, Augusto dos Anjos
• Dona Mística (1899) apresenta influência de várias estéticas
• Kyriale (1902) como Simbolismo, Parnasianismo, Ex-
pressionismo e Cientificismo naturalista.
Ismália
Obra:
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar... • Eu e outras poesias (1902)
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar. Psicologia de um vencido.
No sonho em que se perdeu, Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Banhou-se toda em luar... Monstro de escuridão e rutilância,
Queria subir ao céu, Sofro, desde a epigênese da infância,
Queria descer ao mar... A influência má dos signos do zodíaco.
E, no desvario seu, Profundissimamente hipocondríaco,
Na torre pôs-se a cantar... Este ambiente me causa repugnân-
Estava perto do céu, cia…
Estava longe do mar... Sobe-me à boca uma ânsia análoga
à ânsia
E como um anjo pendeu Que se escapa da boca de um cardíaco.
As asas para voar... Já o verme – este operário das ruínas -
Queria a lua do céu, Que o sangue podre das carnificinas
Queria a lua do mar... Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para
As asas que Deus lhe deu roê-los,
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
260
E há de deixar-me apenas os cabelos,REPRODUÇÃOto da figura de Antônio Conselheiro); A
Na frialdade inorgânica da terra! luta (narra todo o conflito, até seu final
Euclides da Cunha melancólico).
Caricatura de Euclides da Cunha feita Obras:
por Raul Pederneiras(1903)
• Os Sertões (1902);
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha • Peru versus Bolívia (1907);
nasceu em 1866, em Cantagalo, Rio • Contrastes e Confrontos
de Janeiro, e faleceu, assassinado pelo
amante de sua esposa, em 1909. Em (1907);
1897, foi enviado como correspondente
ao sertão da Bahia, pelo jornal O Estado • À margem da História (1909);
de São Paulo, para cobrir a guerra de • Canudos – diário de uma expedição
Canudos. A partir dessa experiência, es-
creveu Os Sertões (1902), obra que narra (1939).
os acontecimentos de Canudos à luz das
teorias cientificistas da época. A sua obra A terra
Os Sertões foi organizada em três partes:
A terra (descrição da condições geográfi- “O regime desértico ali se firmou, en-
cas de Canudos); O homem (estudo das tão, em flagrante antagonismo com as
etnias da região, assim como o surgimen- disposições geográficas: sobre uma es-
carpa, onde nada recorda as depressões
sem escoamento dos desertos clássicos.
Acredita-se que a região incipiente
ainda está preparando-se para a vida:
o líquen ainda ataca a pedra, fecun-
dando a terra. E lutando tenazmente
com o flagelar do clima, uma flora
de resistência rara por ali entretece a
trama das raízes, obstando, em parte,
que as torrentes arrebatem todos os
princípios exsolvidos – acumulando-os
pouco a pouco na conquista da para-
gem desolada cujos contornos suavi-
za – sem impedir, contudo, nos estios
longos, as insolações inclementes e as
águas selvagens, degradando o solo.
Daí a impressão dolorosa que nos do-
mina ao atravessarmos aquele ignoto
trecho do sertão – quase um deserto –
quer se aperte entre as dobras de serra-
261
nias nuas ou se estire, monotonamente, posição de equilíbrio instável, em que
em descampados grandes...” todo o seu corpo fica suspenso pelos
dedos grandes dos pés, sentado sobre
O homem os calcanhares, com uma simplicidade
a um tempo ridícula e adorável.”
“O sertanejo é, antes de tudo, um
forte. Não tem o raquitismo exaustivo A luta
dos mestiços neurastênicos do litoral.
“Canudos não se rendeu.
A sua aparência, entretanto, ao pri- Fechemos este livro.
meiro lance de vista, revela o contrário. Canudos não se rendeu. Exemplo
Falta-lhe a plástica impecável, o desem- único em toda a história, resistiu até
peno, a estrutura corretíssima das orga- ao esgotamento completo. Expugna-
nizações atléticas. do palmo a palmo, na precisão integral
do termo, caiu no dia 5, ao entardecer,
É desgracioso, desengonçado, torto. quando caíram os seus últimos de-
Hércules-Quasímodo, reflete no aspec- fensores, que todos morreram. Eram
to a fealdade típica dos fracos. O andar quatro apenas: um velho, dois homens
sem firmeza, sem aprumo, quase gin- feitos e uma criança, na frente dos quais
gante e sinuoso, aparenta a translação rugiam raivosamente 5 mil soldados.
de membros desarticulados. Agrava-o Forremo-nos à tarefa de descre-
a postura normalmente abatida, num ver os seus últimos momentos. Nem
manifestar de displicência que lhe dá poderíamos fazê-lo. Esta página,
um caráter de humildade deprimente. imaginamo-la sempre profundamente
emocionante e trág ica; mas cerramo-la
A pé, quando parado, recosta-se in- vacilante e sem brilhos.
variavelmente ao primeiro umbral ou Vimos como quem vinga uma mon-
parede que encontra; a cavalo, se so- tanha altíssima. No alto, a par de uma
freia o animal para trocar duas palavras perspectiva maior, a vert igem...
com um conhecido, cai logo sobre um Ademais, não desafiaria a incredu-
dos estribos, descansando sobre a es- lidade do futuro a narrativa de porme-
penda da sela. Caminhando, mesmo a nores em que se amostrassem mulhe-
passo rápido, não traça trajetória retilí- res precipitando-se nas fogueiras dos
nea e firme. Avança celeremente, num próprios lares, abraçadas aos filhos
bambolear característico, de que pare- pequeninos...
cem ser o traço geométrico os mean- E de que modo comentaríamos,
dros das trilhas sertanejas. E se na mar- com a só fragilidade da palavra huma-
cha estaca pelo motivo mais vulgar, na, o fato singular de não aparecerem
para enrolar um cigarro, bater o isquei- mais, desde a manhã de 3, os prisio-
ro, ou travar ligeira conversa com um
amigo, cai logo – cai é o termo – de có-
coras, atravessando largo tempo numa
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neiros válidos colhidos na véspera, e Obras:
entre eles aquele Antônio Beatinho,
que se nos entregara, confiante – e • Romances:
a quem devemos preciosos esclare- Recordações do escrivão Isaías Cami-
cimentos sobre esta fase obscura da
nossa História? •nha (1909);
Triste fim de Policarpo Quaresma
Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram
de o destruir desmanchando-lhe as ca- •(1915);
sas, 5.200, cuidadosamente contadas.” Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá
Lima Barreto •(1919);
Clara dos Anjos (1924)
Afonso Henrique de Lima Barreto,
nasceu em 1881, no Rio de Janei- • Contos:
ro, e faleceu em 1922. Seu sonho de Histórias e Sonhos (1920)
tornar-se engenheiro foi baldado pe-
las dificuldades econômicas e pela Triste fim de Policarpo
loucura do pai que, ironicamente, Quaresma
acabou sendo internado no asilo de
loucos onde trabalhou a vida toda. “Como de hábito, Policarpo Quares-
A revolta contra o preconceito de ma, mais conhecido por Major Quares-
cor e de classe social está presente ma, bateu em casa às quatro e quinze
em toda a sua obra. O autor foi um da tarde. Havia mais de vinte anos que
grande crítico dos acontecimentos da isso acontecia. Saindo do Arsenal de
República. Em sua obra, encontram- Guerra, onde era subsecretário, bon-
-se os episódios da insurreição anti- gava pelas confeitarias algumas frutas,
florianista, a campanha contra a febre comprava um queijo, às vezes, e sem-
amarela, a política de valorização do pre o pão da padaria francesa.
café, o governo Marechal Hermes da
Fonseca, a participação do Brasil na Não gastava nesses passos nem mes-
Primeira Guerra Mundial, o advento mo uma hora, de forma que, às três e
do feminismo. Em 1914 começou a quarenta, por ai assim, tomava o bonde,
publicação, em formato de folhetins sem erro de um minuto, ia pisar a soleira
no Jornal do Dia, de sua mais impor- da porta de sua casa, numa rua afasta-
tante obra, Triste Fim de Policarpo Qua- da de São Januário, bem exatamente
resma, que um ano mais tarde foi edi- às quatro e quinze, como se fosse a
tado em brochura e considerado pela aparição de um astro, um eclipse, en-
crítica especializada como basilar no fim um fenômeno matematicamen-
período do Pré-Modernismo. te determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os há-
bitos e tanto que, na casa do Capitão
Cláudio, onde era costume jantar-se
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aí pelas quatro e meia, logo que o Monteiro Lobato REPRODUÇÃO
viam passar, a dona gritava à criada:
“Alice, olha que são horas; o Major Monteiro Lobato na Cia. Editora Nacional
Quaresma já passou.”
José Bento Monteiro Lobato nasceu
E era assim todos os dias, há quase na cidade de Taubaté, São Paulo, e fale-
trinta anos. Vivendo em casa própria e ceu em 1948. Formado em Direito, traba-
tendo outros rendimentos além do seu lhou como promotor no interior de São
ordenado, o Major Quaresma podia le- Paulo. Criou a Monteiro Lobato & Cia., a
var um trem de vida superior aos seus primeira editora nacional, e mais tarde a
recursos burocráticos, gozando, por Companhia Editora Nacional e a Editora
parte da vizinhança, da consideração e Brasiliense. Monteiro Lobato destaca-se
respeito de homem abastado. no conto. O universo retratado geral-
mente são os vilarejos decadentes e as
Não recebia ninguém, vivia num iso- populações do Vale do Paraíba, quando
lamento monacal, embora fosse cortês da crise do plantio de café. Criou o fa-
com os vizinhos que o julgavam esqui- moso personagem Jeca Tatu, retratado
sito e misantropo. Se não tinha amigos na obra Urupês. Lobato foi também um
na redondeza, não tinha inimigos, e a dos primeiros autores de literatura in-
única desafeição que merecera, fora a fantil em nosso país e em toda a América
do doutor Segadas, um clínico afama- Latina. Personagens como Narizinho,
do no lugar, que não podia admitir que Pedrinho, Emília, Rabicó, Visconde de
Quaresma tivesse livros: “Se não era for- Sabugosa, Dona Benta e a negra velha
mado, para quê? Pedantismo!” Tia Nastácia ficaram conhecidas por
O subsecretário não mostrava os
livros a ninguém, mas acontecia que,
quando se abriam as janelas da sala de
sua livraria, da rua poder-se-iam ver as
estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus hábitos; ultima-
mente, porém, mudara um pouco; e
isso provocava comentários no bairro.
Além do compadre e da filha, as únicas
pessoas que o visitavam até então, nos
últimos dias, era visto entrar em sua
casa, três vezes por semana e em dias
certos, um senhor baixo, magro, pálido,
com um violão agasalhado numa bolsa
de camurça. Logo pela primeira vez o
caso intrigou a vizinhança. Um violão
em casa tão respeitável! Que seria?
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inúmeras gerações de crianças, de vários Nos mercados, para onde leva a REPRODUÇÃO
países, e chegaram à televisão brasileira, quitanda domingueira, é de cócoras,
na década de 60, com o seriado O Sítio como um faquir do Bramaputra, que
do Picapau Amarelo. vigia os cachinhos de brejaúva ou o
feixe de três palmitos.
Algumas obras de Monteiro
Lobato Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no
romance e feio na realidade [...]”
• Urupês (1918)
• Cidades Mortas (1919) MODERNISMO
• Negrinha (1920)
• O escândalo do petróleo (1936) Manuel Bandeira
• Coleção Sítio do Picapau Amarelo
Manuel Bandeira (3o esquerda para direita
(1921-1947) em pé), Alceu Amoroso Lima (5a posição) e
Urupês Hélder Câmara (7a) e sentados (esquerda
para direita), Lourenço Filho, Roquette Pinto
“Jeca Tatu é um piraquara do pa-
raíba, maravilhoso epítome de carne e Gustavo Capanema. Rio de Janeiro, 1936
onde se resumem todas as caracterís-
ticas da espécie. Ei-lo que vem falar ao Manuel Carneiro de Sousa Bandeira
patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro Filho nasceu em 1886, em Recife (Per-
movimento após prender entre os nambuco), e faleceu em 1968. Abando-
lábios a palha de milho, sacar o ro- nou o curso da Escola Politécnica em São
lete de fumo e dispara a cusparada Paulo, por causa da tuberculose. O poeta
d’esguicho, é sentar-se jeitosamente apresenta duas fases: 1a) parnaso-sim-
sobre os calcanhares. Só então destra- bolista, em que reflete sobre a morte de
va a língua e a inteligência. forma pessimista, a mulher é retratada de
forma idealizada e se utiliza de um gran-
– Não vê que... de rigor métrico-formal; 2a) é caracteri-
De pé ou sentado as ideias se lhe en- zada pela utilização do verso livre e do
tramam, a língua emperra e não há de
dizer coisa com coisa.
De noite, na choça de palha, acocora-
-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”,
imitado da mulher e da prole.
Para comer, negociar uma barganha,
ingerir um café, tostar um cabo de foice,
fazê-lo noutra posição será desastre in-
falível. Há de ser de cócoras.
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verso branco, assim como apresenta o – O senhor tem uma escavação no pul-
prosaico de uma maneira cômica, fun- mão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
dindo gêneros (lírico, épico e dramático),
mostrando a mulher de forma erotizada – Então, doutor, não é possível ten-
e vendo a morte com humor negro. tar o pneumotórax?
Obras: – Não. A única coisa a fazer é tocar
um tango argentino.
Poesia
Poema tirado de uma
• Cinza das horas (1917); noticia de jornal
• Carnaval (1919);
• Ritmo Dissoluto (1924); João Gostoso era carregador de fei-
• Libertinagem (1930); ra-livre e morava no morro da Babilônia
• Estrela da Manhã (1936); num barracão sem número.
• Lira dos Cinquent’anos (1944);
• Belo Belo (1948); Uma noite ele chegou no bar Vinte
• Mafuá do Malungo (1948); de Novembro
• Opus 10 (1952);
• Estrela da Tarde (1963); Bebeu
• Estrela da Vida Inteira (1966) Cantou
Dançou
Prosa Depois se atirou na Lagoa Rodrigo
de Freitas e morreu afogado.
• Crônica da província do Brasil (1937);
• Guia de Ouro Preto (1938); Mário de Andrade
• Itinerário de Pasárgada (1954);
• Andorinha, andorinha (1966); Mário Raul Moraes de Andrade nasceu
em 1893, em São Paulo, e faleceu em 1945.
Pneumotórax Foi crítico de arte. Ele foi um poeta, roman-
cista, crítico de arte, musicólogo, professor
Febre, hemoptise, dispneia e suores universitário e ensaísta, considerado una-
noturnos. nimidade nacional e reconhecido por crí-
ticos como o mais importante intelectual
A vida inteira que podia ter sido e brasileiro do século XX. Com apenas 20
que não foi. anos publicou seu primeiro livro: Há uma
gota de sangue em cada poema (1917), no
Tosse, tosse, tosse. qual fazia críticas à carnificina produzida
pela Primeira Grande Guerra Mundial. Or-
Mandou chamar o médico: ganizador da Semana de Arte Moderna
– Diga trinta e três. (1922). Era um grande estudioso de mú-
– Trinta e três... trinta e três... trinta sica, antropologia, etnografia e folclore,
e três... elementos importantes para a escrita de
– Respire. sua obra mais popular: Macunaíma (1924).
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