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Published by DCL Play, 2016-01-28 13:47:37

Minimanual de Redação e Literatura

Minimanual de Redação e Literatura

ONOMATOPEIA É quando uma palavra ou O tic-tac do relógio me irritava!
frase imita um som ou
ruído. “Ó rodas, ó engrenagens,
r-r-r-r-r-r-r eterno.” (Fernando

Pessoa).

Figuras de Palavras

São assim denominadas as figuras caracterizadas por um novo sentido em rela-
ção ao sentido literal das palavras, devido à capacidade de comunicar outras ideias
e emoções.

FIGURA DEFINIÇÃO EXEMPLO

COMPARAÇÃO É quando se estabele- Os cabelos da vovó são macios
como lã.
ce uma equivalência
explícita entre um Jonas é forte tal qual um touro.
termo comparante e
um comparado, por

meio de um tempo de

comparação.

METÁFORA É quando se esta-be- O homem é uma ilha no meio de
muitas outras ilhas.
lece uma equivalência
implícita, sem o inter- Brad Pitt é um pão!

médio de um tempo de “Te corpo é a brasa do lume.” (Ma-
nuel Bandeira)
comparação. Baseia-se
numa associação de
ideias subjetivas, e

uma palavra deixa seu

contexto normal para

fazer parte de outro

contexto

150

METONÍMIA (SINÉDOQUE)

É quando se usa uma palavra em lugar de outra, não por semelhança, mas por uma
estreita relação de sentido entre elas.

Há vários casos de metonímia:

a) o autor pela Tive que ler Machado de Assis na quinta série. (O
obra emissor, na verdade, leu algum texto de Machado
de Assis)

b) o continente Bebi duas taças de vinho. (O emissor bebeu o vinho,
pelo conteúdo e não as taças.)

c) o lugar pela O China abriu uma loja de bijuterias. (Para referir-se
pessoa a um homem nascido na China.)

d) o efeito pela Respeite-lhe os cabelos brancos. (Cabelos brancos
causa = velhice)

e) o instrumento Meu tio é um bom prato. (Significa que ele come
pela pessoa que o muito)

utiliza

f ) a parte pelo Quantas cabeças vejo na estação de trem! (Cabeças
todo = pessoas)

g) o material pelo ob- Roubaram toda a prata da mansão. (Prata = objetos
jeto de prata)

h) a marca pelo Estou com vontade de comer um Miojo. (macarrão
produto
instantâneo)
Quero um Bombril, por favor. (palha de aço)

i) o lugar pelo O cheiro de havana me perturba. (Charuto da cida-
produto de de Havana.)

j) a coisa por seu sím- A suástica paira sobre a Europa. (Suástica = Nazis-

bolo. mo)

k) a espécie pelo O homem foi à Lua. (O homem = alguns astronau-
indivíduo. tas)

151

FIGURA DEFINIÇÃO EXEMPLO
CATACRESE
É quando se emprega um ter- O pé da mesa estava quebrado.
ANTONOMÁSIA mo figurado pela falta de O braço da poltrona es-tá sujo.
(PERÍFRASE) outro termo mais apropriado. Embarcou no avião bem cedo.
Minha batata da perna está
SINESTESIA Entretanto, devido ao uso contí-
nuo, não mais se percebe que doendo.
eleestásendo empregado em Esse bule não tem asa.
sentido figurado.

É quando se designa uma O Poeta dos Escravos morreu
pessoa não pelo seu nome, ainda jovem. (Castro Alves)
mas pela qualidade ou Os rapazes de Liverpool in-
circunstância que a nota- fluenciaram gerações. (Os Be-
bilizou. atles)

É quando há a evocação A luz crua da madrugada inva-
de impressões sensoriais, dia meu quarto. (visão + paladar)
permitindo a fusão de sen- O delicioso aroma do amor
sações visuais, olfativas, au- invadia meu peito. (paladar +
ditivas etc. olfato)

Figuras de Pensamento

São assim denominadas as figuras caracterizadas por um novo dimensiona-
mento dado ao sentido lógico da frase, do período, da oração.

FIGURA DEFINIÇÃO EXEMPLO

É quando se emprega pala- “Os jardins têm vida e morte.”

vras, expressões ou frases de Doce e salgado na comida é bom.

significação contrária. “Quem o feio ama, bonito lhe

ANTÍTESE parece.”

Obs.: É diferente do parado- “Já estou cheio de me sentir va-

xo, que é uma afirmação que zio.” (Renato Russo)

subverte ideias, por serem “Eu vi a morte, e ela estava viva.”

incompatíveis entre si. (Cazuza)

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IRONIA É quando se emprega pala- Com um governo desses, não há

vras, expressões ou períodos por que se preocupar com o futuro.
com o intuito de se dizer opos- Sara está tão linda como um es-
to do que elas expressam. pantalho de milharal!

EUFEMISMO É quando se tenta ate- Ela foi para o reino de Deus.
nuar o que é desagra-
APÓSTROFE dável por meio da subs- (morrer)
Você faltou com a verdade.
HIPÉRBOLE tituição de palavras ou ex-
(mentir)
PARADOXO pressões mais suaves.
(OXÍMORO) Sou muito católica e não caio nas
tentações do inimigo. (diabo)

É quando se evoca de e de-
terminadas entidades em “Pai nosso, que estais no céu,

um discurso, que pode ser santificado seja...”
poético, sagrado ou profa- “Oh, meu Santo Antônio, valhei-
no. Caracteriza-se pelo cha- -me!”
mamento do receptor, “Colombo! Fecha a porta dos
imaginário ou não, da teus mares!” (Castro Alves)
mensagem.

É quando se faz uma afir- Bebi 10 litros de água!
Faz mil anos que não te vejo.
mação propositalmente Morri de rir da piada.
exagerada de ideias ou sen- Comi um bife do tamanho de
um boi.
timentos.

Meu amor e meu ódio por você

É quando há uma afirmação são iguais.
que subverte ideias, por Eu sou um velho moço.
serem in-compatíveis en- “Amor é fogo que arde sem se ver;
tre si. Traz ideias contraditó- É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
-rias e desestabiliza clichês. É dor que desatina sem doer (...)”

(Camões)

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PROSOPOPEIA É quando se atribui qualidades O galo cantou às quatro da
(PERSONIFI- e características humanas a
CAÇÃO) seres inanimados, irracionais manhã.
ou abstratos. As flores se alegram com a pri-

mavera.
“O Morro dos Ventos Uivantes.”

É quando se utiliza duas O país do futebol acredita em

PERÍFRASE ou mais palavras para subs- seus filhos.(Brasil)

tituir um nome comum ou Moro na Cidade maravilhosa.

nome próprio. (Rio de Janeiro)

GRADAÇÃO É quando se tem uma sequência Tinha sede de viajar... Queria co-
crescente de ideias ou fatos até nhecer seu estado, os outros
estados, o Brasil, a América
um clímax, ou intensidade maior. Latina, o oriente, o mundo...

Figuras de Construção ou de Sintaxe

São assim denominadas as construções, tanto na fala quanto na escrita, que se des-
viam da norma ditada pela gramática normativa da língua. São utilizadas para dar mais
expressividade, clareza e elegância ao texto.

FIGURA DEFINIÇÃO EXEMPLO
ANACOLUTO É quando se quebra a sequên- Eu, ela nada me deve. (Ela nada
cia gramatical da frase de uma deve a mim.)
ASSÍNDETO forma abrupta. É uma constru- O forte, o covarde seus feitios
ção irregular. inveja. (O covarde inveja o feitio
dos fortes.)

É quando há a supressão do “Soltei a pena, Moisés dobrou
conectivo entre elementos co- o jornal, (e) Pimentel roeu as
nectados. unhas” (Graciliano Ramos)

ELIPSE É quando se omite uma ou “No mar, (há) tanta tormenta e
mais palavras da oração, mas (há) tanto dano.” (Camões)
que ficam subentendidas.

HIPÉRBATO OU É quando ocorre a inversão da Das minhas coisas cuido eu!
INVERSÃO ordem natural da frase. (Das minhas coisas eu cuido!)

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PLEONASMO É quando ocorre o emprego “O cadáver de um defunto
de palavras ou expressões morto que já faleceu.”
redundantes com o intuito de (Roberto Gómez Bolaños)
enfatizar uma ideia. “Eu nasci, há dez mil anos atrás.”
Obs.: Só é relevante quan-do (Raul Seixas)

confere mais vigor à frase; caso
contrário, torna-se um vício de
linguagem (subir pra cima, des-

cer pra baixo etc.)

POLISSÍNDETO É quando ocorre a repetição “Trabalha, e teima, e lima, e

enfática de um conectivo. sofre, e sua!” (Olavo Bilac)

REPETIÇÃO OU É quando se repete a mesma pa- “Não troque de cara, troque
ANÁFORA lavra ou expressão a intervalos de ótica, troque seus óculos
regulares, geralmente no inicio
na Fotoptica.” (W/Brasil)
de frases ou membros de frases. “Grande no pensamento,
grande na ação, grande na
glória, grande no infortúnio,

ele morreu desconhecido e só.”

(Rocha Lima)

SILEPSE É quando a concordância é feita Rio de Janeiro é muito linda.

não com a forma gramatical, mas (a cidade do Rio de Janeiro)
com o sentido, a ideia. Pode ser Os professores pedimos au-
de gênero, pessoa ou número.
mento salarial. (indica que o

emissor também é professor)

Corria gente de todos os la-
dos, e gritavam. (a ideia plu-

ral de “gente” prevalece sobre

o ato de a palavra ser singular)

ZEUGMA É uma forma de elipse, Ela odeia jiló; ele (odeia),
chuchu.
ocorrendo quando há uma
Em casa eu leio jornais; ela
omissão de um termo. Entre- (lê), revistas de moda.
tanto, se o termo suprimido já
apareceu na frase, essa figura é

chamada de zeugma.

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Vícios de linguagem

Os vícios de linguagem são palavras, expressões, construções em desacordo
com a norma culta da língua e que o emissor utiliza por descuido ou ignorância.
Elas dificultam a expressão e entendimento da mensagem, por isso deve-se cuidar
para não usá-las.

FIGURA DEFINIÇÃO EXEMPLO

Onde está o gato do seu irmão?

AMBIGUIDADE ou Ocorre quando a mensa- (Ondeestáquem,ogatoouoirmão?)
ANFIBIOLOGIA
gem tem a possibilidade Ele falava com o amigo parado.

de duplo sentido. (Quem estava parado, ele ou o

amigo?)

BARBARISMO Ocorre quando se tem rúbrica, em vez de rubrica
divergências de pronún- adevogado, em vez de ad-
cia, grafia, morfologia, vogado
significado etc., de uma sabo, em vez de sei
cabo, em vez de caibo
palavra, em relação à nor- proporam, em vez de pro-
puseram
ma culta.

CACOFONIA ou Ocorre quando se tem a Uma mão lava a outra.
CACÓFATO formação de um som de- Ela disputa para ele.
sagradável ou palavra de Eu beijei a boca dela.
sentido ridículo ou obs- Vai-a seguindo pela rua.
ceno, devido à união de Eu amo ela muito!
certas sílabas contíguas.

O rato roeu a roupa do rei de

COLISÃO Ocorre quando se tem uma Roma.
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aliteração ou assonância Sabia que o sabiá sabia assobiar?

com um efeito ruim. Quem a paca cara compra, paca

cara pagará.

Ocorre quando há termi- Alegremente, o presidente cum-

ECO nações iguais ou seme- primentou sua gente.
lhantes na frase, provo- Por alguma razão, o leão não en-

cando dissonância. trou no alçapão.

ESTRANGEIRISMO Ocorre quando se tem Vão fazer o remake de Alice no

o uso de palavras, ex- País das Maravilhas. (regravação)
Vamos ao pub? (bar)
pressões ou construções O toillette é à direita. (banheiro)
estrangeiras no lugar Eles têm serviço de delivery. (en-
das vernáculas. Depen-
trega)
dendo da procedência, Ela lhe esperará no mezzanino.

tem uma denominação: (nível entre o térreo e o primeiro

anglicismo, italianismo, andar de uma construção)

galicismo, castelhanismo

etc.

PLEONASMO Ocorre quando se tem Entrar para dentro, subir para
redundância inútil e cima, escolha opcional, anexar
desnecessária de pala- junto, ganhar grátis, acabamento
final, mensalidade mensal, viúva
vras em uma sentença. do finado, encarar de frente etc.

Ocorre quando se utiliza Os manos e as minas curtem pra

PLEBEÍSMO palavras de baixo calão, caralho essa paradinha aqui,

gírias e termos conside- meu irmão!

rados informais. Ih, meu, tu tá ferrado, morou?

SOLECISMO Ocorre quando estrutu- Fazem três anos que não te vejo.
ra sintática da frase está
inadequada em relação (Faz três anos que não te vejo.)
Assisti um filme ontem.
à gramática normativa
(Assisti a um filme ontem.)
da língua. Podem ser: de Me dá um chocolate.
concordância, regência (Dê-me um chocolate.)
ou colocação.

157

Importante! c) “Rios te correrão dos olhos, se cho-
Em processos seletivos, as fi- rares!” (Olavo Bilac)
guras de linguagem podem ser
cobradas em textos, sejam eles ver- d) “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e
bais, não verbais, literários ou não sua!” (Olavo Bilac)
-literários. Muitas vezes, é dada uma
determinada figura de linguagem e Neste caso, a resposta correta é a
sua respectiva definição, e o aluno letra c, uma vez que ocorre exagero
deve selecionar, entre as respostas quando o eu – lírico diz que “rios te
oferecidas, a que contém a figura. correrão dos olhos”. Na letra a, a figura
Por isso, fique atento à definição da que ocorre é a antítese, na letra b, a gra-
figura e ao sentido dos textos. Pode dação e na letra d, o assíndeto.
ainda haver questões em que se dá
um determinado texto e se pede Veja este outro exemplo:
que figura pode ser observada ali, No texto que se segue, há uma co-
sem o oferecimento de definição. nhecida figura de linguagem.
Veja um exemplo: “Au, au, au. Hi-ho hi-ho. 
Miau, miau, miau. Cocorocó.
Hipérbole: é quando se faz uma O animal é tão bacana
afirmação propositalmente exage- Mas também não é nenhum bana-
rada de ideias ou sentimentos. na. ” (Bicharada, Chico Buarque)

Em quais dos trechos abaixo se pode Esta figura é:
verificar essa figura de linguagem? a) eufemismo
b) onomatopeia
c) assonância
d) ironia

a) “Amor é fogo que arde sem se ver.” Neste caso, a resposta correta é a letra
(Camões) b, pois no trecho há a imitação de sons
produzidos por animais (au au, hi-ho,
b) “Um coração chegando de de- miau, cocorocó), característica da figura
sejos / Latejando, batendo, res- de linguagem chamada onomatopeia.
trugindo...”(Vicente de Carvalho)

158

literatura

159

CAPÍTULO 18

CONCEITO DE LITERATURA

A palavra Literatura origina-se resultado das relações dinâmicas entre
da palavra littera, que significa “letra”. escritor, público e sociedade. Mas, ao mes-
Literatura é a arte da palavra. Segun- mo tempo, a literatura possui liberdade
do Massaud Moisés, literatura seria a em relação à criatividade e ao conteúdo.
“expressão dos conteúdos da ficção, Não precisa estar necessariamente presa
ou da imaginação, por meio de pa- à realidade, sendo este o fator que a dife-
lavras, polivalentes, ou metáforas.” rencia dos textos não-literários, aqueles
Pela Literatura, os escritores tentam trabalham a função referencial da lingua-
demonstrar a sua visão particular do gem, ou seja, a linguagem objetiva (co-
seu conhecimento de mundo, da rea- mo jornais, revistas, anúncios).
lidade e de seu tempo.
A literatura também tem a função
A linguagem literária é polis­ de causar prazer, retratando o belo. Tal
sêmica, ou seja, trabalha com vários conceito foi muito difundido na Grécia
sentidos. Ela tira o leitor do cotidia- Antiga, sendo feito por meio do ritmo
no banal e o transporta a um mundo das palavras, sons e imagens conduzi-
particular diferente, cheio de possibi- das pelos escritores, com a função de
lidades. Para isso, o escritor se utiliza conduzir o leitor a mundos imaginá-
de alguns recursos e técnicas, aliados rios, causando prazer aos sentidos e à
à sensibilidade. Ezra Pound define a sensibilidade do homem. Basicamen-
literatura da seguinte maneira: “Li- te, a literatura se divide em três gêne-
teratura é linguagem carregada de ros literários, são eles: o épico, o lírico
significado até o máximo grau.” O que e o dramático.
faz a diferença no texto literário é o ar- GÊNEROS LITERÁRIOS
ranjo das palavras e a multiplicidade
de sentidos que elas possibilitam. Daí Narrativo: tem a função de narrar
a importância da conotação (lingua- fatos reais ou fictícios, situados em
gem figurada) e da criatividade. locais (espaço) e tempos determina-
dos, com um enredo que envolve as
A literatura também pode ter várias personagens e as situações em que
funções. Dentre essas funções, está a pre- elas se encontram. O narrador é o res-
ocupação com a sociedade e seus proble- ponsável por contar, ou seja, narrar
mas. O papel do escritor pode ser de en- a história, podendo ser onisciente
gajamento e denúncia das crises de seu
tempo, pois a literatura é um objeto vivo,
160

(terceira pessoa, observador, possui conflitos. Exemplos: Grande Sertão:
uma percepção neutra da história, tem veredas (Guimarães Rosa), São Ber-
conhecimento dela e de suas persona- nardo (Guimarães Rosa), O Senhor dos
gens, ele observa e relata o que está Anéis (J. R. R. Tolkien).
acontecendo ou aconteceu) ou per-
sonagem (em primeira pessoa; narra e Fábula: é um gênero de caráter fan-
participa da história e, contudo, narra tasioso, que apresenta histórias inve-
os fatos à medida em que acontecem, rossímeis, nas quais os animais são, em
não podendo prever o que acontecerá geral, as personagens. Por meio dos di-
com as demais personagens, muitas álogos entre os bichos e das situações
vezes apresenta aspectos tendencio- que os envolviam, a fábula tem como
sos). O gênero narrativo se subdivide finalidade transmitir sabedoria de cará-
nos seguintes gêneros: conto, novela, ter moral ao homem, sendo assim, sem-
crônica, romance, fábula, épico ou pre apresenta uma moral. Exemplos: A
epopeia, etc. lebre e a tartaruga, O lobo e o cordeiro
(ambas são de Esopo).
Conto: narrativa de curta duração,
centrada em um único acontecimen- Épico ou epopeia: é uma narrativa
to. Apresenta um momento de tensão feita em versos, num poema de longa
(clímax) próximo ao final, assim como extensão que ressalta as aventuras de
trabalha com um número de persona- um povo através de feitos heróicos e
gens, tempo e espaço reduzido. Exem- memoráveis. São exemplos de epo-
plos: Amor (Clarice Lispector), O menino peias: Os Lusíadas, de Luís de Camões,
do boné cinzento (Murilo Rubião), A cau- Ilíada e Odisseia, de Homero.
sa secreta (Machado de Assis).
Lírico: é o gênero ao qual a poesia
Novela: narrativa que se situa en- lírica está centrada na expressão do “eu
tre o a brevidade do conto e a longe- poético” (voz que fala no poema, que
vidade do romance. Exemplos: A hora nem sempre corresponde à do autor).
e a vez de Augusto Matraga (Guima- São utilizados pronomes e verbos em
rães Rosa) e Os crimes da Rua Morgue 1ª pessoa e há o predomínio das emo-
(Edgar Allan Poe). ções, ideias traduzidas em musicalida-
de (recursos usados pelo poeta como
Crônica: é uma narrativa ligada à rimas, metáforas, repetições, entre ou-
vida cotidiana, com linguagem colo- tras figuras de linguagem). O gênero
quial, breve, com um toque de humor lírico é subdividido em: soneto, elegia,
e crítica. Exemplo: Comédias da Vida ode, madrigal, etc.
Privada - 101 Crônicas Escolhidas (Luís
Fernando Veríssimo). Soneto: poema de quatorze ver-
sos, com dois quartetos e dois terce-
Romance: narrativa mais longa, tos. Exemplo: Soneto da fidelidade (Vi-
com um número de personagens nícius de Moraes).
maior, assim como maior profundi-
dade psicológica e maior número de Elegia: poema em tom triste e fúne-
bre. Nesse tipo de poema há digressões

161

moralizantes destinadas a ajudar ou- logada) e as rubricas (inscrições que in-
vintes ou leitores a suportar momentos dicam ao diretor e aos atores a postura
difíceis. Exemplo: Elegia na sombra (Fer- no palco, o tom de voz e tudo mais.
nando Pessoa). Geralmente, as rubricas vêm escritas
entre parênteses). Este gênero se sub-
Ode: poema de exaltação que divide em três categorias: tragédia,
surgiu na Grécia Antiga, que entre os comédia, drama e farsa.
antigos gregos, era um poema lírico
destinado ao canto. É um tipo de po- Tragédia: mostra acontecimen-
ema composto de estrofes de versos tos de caráter destrutivos. Baseados
iguais e que sempre apresenta um tom nos mitos e histórias já conheci-
alegre e entusiástico. Exemplo: Ode ao das do público, os textos trágicos
gato (Pablo Neruda). querem causar no espectador ter-
ror e piedade. Geralmente, há um
Madrigal: composição poética e personagem lutando contra forças
elegante que aborda assuntos herói- maiores do que ele e, na maioria
cos e pastoris. Exemplo: Madrigal Me- das vezes, sempre acaba perdendo.
lancólico (Manoel Bandeira). Exemplo: Édipo Rei (Sófocles).

Teatro em Viena, Áustria Comédia: enfatiza o compor-
tamento ridículo do ser humano e
Dramático: é o gênero tea- criticar os costumes dele perante a
tral, isto é, aquele que engloba o sociedade. Exemplo: O doente imagi-
texto de teatro, uma vez que es- nário (Molière), A tempestade (William
petáculo em si foge à alçada da li- Shakespeare), Lisístrata (Aristófanes).
teratura. Possui três características
básicas:nãoapresentanarrador,utiliza- Drama: peça que funde tragédia
-se do discurso direto (estrutura dia- e comédia, mas sem a presença das
forças exteriores grandiosas do teatro
grego antigo. Aqui os fatos se dão no
cotidiano. Exemplo: Leonor de Men-
donça (Gonçalves Dias), Macário (Ál-
vares de Azevedo).

Farsa: peça teatral que critica a
sociedade e apresenta um caráter pu-
ramente caricatural, porém, não há a
preocupação com o questionamento
de valores. Exemplo: A farsa se Inês Pe-
reira (Gil Vicente).

162

CAPÍTULO 19

ESTILOS LITERÁRIOS OU ESCOLAS DE ÉPOCA

Pintura Barroca, Adoração, Já o Arcadismo surge com a decadên-
cia dos pensamentos barrocos, que não
por Peter Paul Rubens condizem mais com a sua realidade
(Iluminismo). Essa mudança, é claro, não
Cada período da literatura em que acontece de um dia para o outro, e sim
existem obras e autores que apresentam de forma progressiva. Além disso, mes-
certas afinidades entre si é chamado de mo em um determinado período, em
escola literária. Quer dizer que, nessas es- que há escritores que seguem à risca os
colas literárias pode haver semelhanças preceitos de determinada escola literária
entre as obras de determinados autores (consciente ou inconscientemente), há
quanto aos temas, à linguagem, à forma outros que escrevem de maneira retró-
de ver o mundo. Essas diferenças e se- grada ou até bem a frente de seu tempo.
melhanças estão diretamente ligadas ao Por isso, para que não se torne difícil a
momento histórico da escrita das obras. memorização de estilo de certos autores
e o período em que viveram, é necessário
Por exemplo, o escritor do Barroco fazer a classificação em escolas literárias.
pensa e escreve de determinada maneira
de acordo com a situação vivida em seu ESCOLAS LITERÁRIAS –
tempo (nesse caso, a Contra-Reforma). CARACTERIZAÇÃO GERAL

ANTIGUIDADE CLÁSSICA
(GRÉCIA/ROMA) Do século V.
a.C. ao século V d.C

• Racionalismo;
• Antropocentrismo;
• A beleza como objetivo fun-
•damental;

Busca por equilíbrio, linearidade
e a harmonia;

• Mitologia como tema central;
• Paganismo;
• Nudez como recurso artístico;
• Apego aos bens do mundo.

163

TROVADORISMO (época • Equilíbrio, clareza e linearidade;
medieval – século XII ao • Universalismo;
século XV) • Presença da mitologia greco-

• Teocentrismo; -romana;
• Influência do Cristianismo;
• Submissão à Igreja e ao senhor • Neoplatonismo;
• Valorização da beleza;
feudal; • Grandes Navegações;
• Adoção da medida nova (versos
• Sobreposiçãodavidaeternaàterrena; •decassílabos);
• Simplicidade;
• Geocentrismo; Gosto pelo soneto.
• Poesia acompanhada de instrumentos;
• Paralelismos; BARROCO - (Século XVII)
• Coita amorosa;
• Humor e sátira; • Gosto pelas inversões sintáticas
• Idealização feminina. •(hipérbatos);

HUMANISMO (Século XV) Excesso de figuras de linguagem
(metáfora, hipérbole, antítese, para-
• Transição entre o Trovadorismo e doxo);
•o Classicismo;
• Sugestões sonoras e cromáticas;
Questionamentos dos dogmas • Gosto por construções complexas
religiosos; •e raras;

• Semipaganismo; Oposição entre o mundo material
• Ridicularização da Escolástica;
• Diluição do feudalismo •e o espiritual;
• Curiosidade científica; Consciência da efemeridade do
• A Natureza como espelho para a arte;
• Predomínio da razão; •tempo;
• Mitologia grega e Bíblia Sagrada Carpe diem (colha o dia, aproveite
o dia);
como temas;
• Cultismo (jogo de palavras);
• Clareza; • Conceptismo (jogo de ideias);
• Equilíbrio; • Antropocentrismo x teocentris-
• Heliocentrismo;
• Universalismo. mo;

CLASSICISMO (Século XVI) • Razão x fé;
• Pecado x perdão.
• Antropocentrismo;
• Racionalismo; ARCADISMO - (Século XVIII)

164 • Inutilia truncat (cortar o inútil) –
•valorização de um vocabulário simples;

Manutenção do soneto decassíla-
bo e de outras formas clássicas;

• Linguagem pastoril; • Sentimentos subordinados aos in-
• Bucolismo; •teresses sociais;
• Fugere urbem (fugir da cidade);
• Aureamediocritas (equilíbrio de ouro); Protagonista apresentado com um
• Influência da cultura greco--latina anti-herói ou um herói problemático;

(linearidade, clareza, racionalismo); • Crítica aos valores burgueses;
• Profunda análise psicológica
• Idealização amorosa; • Casamento por conveniência;
• Ideais iluministas; • Adultério.
• Carpe diem;
• Locus amoenus (lugar ameno). NATURALISMO

ROMANTISMO - (Primeira • Linguagem simples;
metade do século XIX) • Preocupação com minúcias;
• Descrição e narrativa lentas;
• Vocabulário mais simples; • Determinismo;
• Gosto por métricas populares (re- • Objetivismo científico;
•dondilhas menores e maiores); • Temas de patologia social;
• Ser humano descrito sob a ótica do
Descrições minuciosas, com ex-
cesso de comparações e metáforas; animalesco e do sensual;

• Egocentrismo; • Despreocupação com a moral;
• Subjetivismo; • Literatura engajada.
• Sentimentalismo;
• Saudosismo; PARNASIANISMO
• Nacionalismo;
• Idealizaçãodamulher,doamoredoherói; • Perfeição formal;
• Escapismo; • Vocabulário rebuscado;
• Medievalismo; • Rimas raras e chaves de ouro;
• Indianismo; • Gosto pelas descrições;
• Religiosidade; • Objetivismo;
• Byronismo; • Gosto pelo soneto;
• Condoreirismo. • Contençãodasemoçõeseracionalismo;
• Universalismo;
REALISMO - (Segunda • Apego à tradição clássica;
metade do século XIX) • Presença da mitologia;
• “Arte pela arte”.
• Objetivismo;
• Narrativa lenta; SIMBOLISMO
• Exatidão para localizar tempo e espaço;
• Mulher não idealizada, com defei- • Linguagem vaga, que prefere suge-

tos e qualidades; rir a nomear;
165

• Excesso de figuras de linguagem • Fragmentação, flashes cinemato-

(paranomásias, sinestesias, aliterações, gráficos;
assonâncias, metáforas);
• Busca de uma linguagem brasileira;
• Subjetivismo; • Nacionalismo ufanista;
• Antimaterialismo; • Revisão de nosso passado históri-
• Religiosidade;
• Pessimismo; co-cultural;
• Loucura;
• Interesse pela noite e pela morte; • Ironia, humor, piada;
• Desejo de transcendência. • Valorização de temas ligados ao
•cotidiano;
MODERNISMO
Urbanismo.
• Versos livres
• Liberdade vocabular; • Obs: caracterização estabele-
• Linguagem sintética, quase elíp-
cida por William Roberto Cereja e The-
tica; reza Cochar Magalhães, em Literatura
Brasileira, São Paulo, 1996. (exceto Tro-
vadorismo, Humanismo, Classicismo,
Arcadismo e Parnasianismo)

166

CAPÍTULO 20

LITERATURA PORTUGUESA

Capa do exemplar de Lusíadas, de 1572 representantes da poesia provençal como:
os trovadores (que, na maioria das vezes,
Trovadorismo - Poesia são nobres que faziam trovas – poemas
com duas ou mais estrofes – mas não as
Início da literatura portuguesa, o Tro- executavam em público, preservando a
vadorismo foi do século XII ao século XV. sua condição elevada), os segréis (trova-
Tem sua origem em Provença, próspera dores profissionais, pagos para compor
região no sul da França. A literatura produ- seus trabalhos) e os jograis (declamadores
zida nessa região era ingênua, sentimental, de trovas alheias, mas que não compu-
oscilando entre o lamento amoroso e o sa- nham). As cantigas se dividem em:
tírico. As criações literárias desse período
eram chamadas cantigas, por aliarem po- Cantigas de amigo – composições
esia à música. Surge nesse período alguns feitas por homens, mas representando um
eu lírico feminino. A angústia feminina da
solidão era sempre tema. Os poetas retra-
tavam a mulher do povo, a mulher que
queria se casar, queixando-se à própria
mãe, a uma amiga ou à natureza da ausên-
cia e da saudade que sentiam do amigo (lê-
-se namorado) o qual partiu para a guerra
para combater um inimigo. As cantigas
de amigos eram apresentadas em várias
formas: as albas (que saudavam o sol), as
serenas (que louvavam o poente), as bar-
carolas (que louvavam o mar), as bailias
ou bailadas (próprias para as danças) e as
romarias (para comemorações religiosas).

Cantigas de amor – de origem proven-
çal, retratam a vida na corte, feitas de forma
requintada e com linguagem mais elevada,
culta. Com um eu lírico masculino, centra-
-se na coita amorosa, ou seja, o sofrimento
de um rapaz pelo amor não correspondido
de uma mulher, tratada com veneração.

167

Cantigas de maldizer – criticam Observação: a novela de cavalaria
alguém abertamente, com vocabulário mais popular de todas, curiosamente,
vulgar, chulo e erótico. O alvo das críti- não faz parte de nenhum desses ci-
cas sempre são os nobres decadentes, clos. Amadis de Gaula, de autor des-
mulheres feias ou adúlteras. conhecido, narra a história de amor
entre Amadis e Oriana.
Cantigas de escárnio – criticam
indiretamente, de forma irônica, cheia Humanismo (1434 – 1527)
de jogos de linguagem, ironias e am-
biguidades. Tudo fica subentendido, O Humanismo é um movimento
com discrição. intelectual de reformulação das artes,
ciências e a filosofia. Ocorreu entre o
Prosa final do século XIII e o início do século
XIV. É um período de transição entre
As primeiras portuguesas em o Trovadorismo e o Classicismo. O ho-
prosa não se destacam tanto quan- mem começa a abandonar os dogmas
da Igreja e valoriza cada vez mais a ra-
•to as cantigas. São elas as: cionalidade, começando a guiar o seu
hagiografias – relato da vida e dos próprio destino. O antropocentrismo
(homem no centro de tudo) começa
•milagres de santos católicos. a substituir o teocentrismo (Deus no
nobiliários – relatam casamentos centro de tudo) medieval.

•e nascimentos de fidalgos. O Humanismo português coincide
cronicões – crônicas da vida na com o período das grandes navega-
ções e se inicia quando Fernão Lopes
•corte. é escolhido para o cargo de cronista-
Novelas de cavalaria – histórias -mor do reino, iniciando assim a his-
de batalhas e grandes feitos heróicos. toriografia portuguesa. Vale ressaltar
Comuns e populares em toda a Europa, nesse período a produção poética pa-
que obedecem a ciclos, de acordo com laciana de Garcia de Resende, dando
a temática central de cada uma. Os ciclos nova abordagem ao tema amoroso
eram divididos em: dos trovadores. Além da prosa dou-
a) Ciclo bretão ou arturiano – trinária de D. Duarte, não se pode
esquecer de destacar o trabalho te-
histórias do Rei Artur e os cavalei- atral de Gil Vicente, com sua vasta
ros da Távola Redonda. A obra mais produção teatral em que se criticava
conhecida desse ciclo é A demanda os costumes da sociedade da época.
do Santo Graal.
b) Ciclo greco-latino – histórias da
mitologia e heróis da Grécia Anti-
ga como Zeus, Apolo e a Guerra
de Tróia.
c) Ciclo carolíngio – conta as histórias de
Carlos Magno e os Doze Pares de França.

168

Leia a crônica abaixo de Fernão Lopes:

FERNÃO LOPES
Chronica de el-rei D. Pedro I

Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal

*CAPITULO VII* – Como el-rei quizera metter um bispo a tormento porque dor-
mia com uma mulher casada.

Não sómente usava el-rei de justiça contra aquelles que razão tinha, assim
como leigos e semelhantes pessoas, mas assim ardia o coração d’elle de fazer justi-
ça dos maus, que não queriam guardar sua jurisdicção, aos clerigos tambem, de or-
dens pequenas, como de maiores. E se lhe pediam que o mandasse entregar a seu
vigario, dizia que o puzessem na forca e que assim o entregassem a Jesus Christo,
que era seu Vigario, que fizesse d’elle direito no outro mundo. E elle por seu corpo
os queria punir e atormentar, assim como quizera fazer a um bispo do Porto, na
maneira que vos contaremos.

Certo foi, e não o ponhaes em duvida, que el-rei, partindo de entre Douro e
Minho, por vir á cidade do Porto, foi informado que o bispo d’esse lugar, que então
tinha gram fama de fazenda e honra, dormia com uma mulher de um cidadão, dos
bons que havia na dita cidade, e que elle não era ousado de tornar a ello, com
espanto de ameaças de morte que lhe o bispo mandava pôr.

El-rei, quando isto ouviu, por saber de que guisa era, não via o dia que estivesse
com elle, para lh’o haver de perguntar.

E logo, sem muita tardança, depois que chegou ao logar, e houve comido, man-
dou dizer ao bispo que fosse ao paço, que o havia mister por cousas de seu serviço.
Falou com seus porteiros, que depois que o bispo entrasse na camara, lançassem
todos fóra do paço, tambem os do bispo como quaesquer outros, e que ainda que
alguns do conselho viessem, que não deixassem entrar nenhum dentro, mas que
lhe dissessem que se fossem para as pousadas, cá elle tinha de fazer uma cousa em
que não queria que fossem presentes.

O bispo, como veiu, entrou na camara onde el-rei estava, e os porteiros fizeram
logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não ficou nenhum, e foi
livre de toda a gente.

El-rei, como foi áparte com o bispo, desvestiu-se logo e ficou em uma saia de
escarlata, e por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras, e começou de o re-
querer que lhe confessasse a verdade d’aquelle maleficio em que assim era culpado:
e em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o brandir com elle.

169

Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fóra, e isso
mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir, pelo que sabiam que
o bispo fazia, dês ahi juntando a isto a condição de el-rei e a maneira que em taes
feitos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar de algum mau jogo, e
foram-se á pressa ao conde velho, e ao mestre de Christo Dom Nuno Freire, e a
outros privados de seu conselho, que accorressem asinha ao bispo.

E logo tostemente vieram a el-rei, e não ousaram de entrar na camara, por a
defeza que el-rei tinha posta, se não fôra Gonçalo Vasques de Goes, seu escrivão
da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobrevie-
ram de el-rei de Castella a gram pressa. E por tal azo e fingimento houveram
entrada dentro na camara, e acharam el-rei com o bispo em rasões, da guisa
que havemos dito, e não lh’o podiam já tirar das mãos. E começaram de dizer
que fosse sua mercê de não pôr mão n’elle, cá por tal feito, não lhe guardando
sua jurisdicção, haveria o papa sanha d’elle; demais, que o seu povo lhe chama-
va algoz, que por seu corpo justiçava os homens, o que não convinha a elle de
fazer, por muito malfeitores que fossem.

Com estas e outras rasões, arrefeceu el-rei de sua mui brava sanha, e o bispo se
partiu de ante elle, com semblante triste e turvado cor­ ação.

LOPES, Fernão, 1380?-1460. Chronica de el-rei D. Fernando / Fernão Lopes. - Lisboa : Escrip-
torio, 1895-1896. - 3 v. ; 19 cm. - (Biblioteca de clássicos portugueses) http://purl.pt/419

Classicismo (1527 – 1580) à arte. O soneto (quatorze versos,
divididos em dois quartetos e dois
Na Europa, surge um movimento tercetos) vira a forma dominante na
chamado Renascimento, que bus- poesia, assim como os versos decassí-
cava se desvincular da mentalidade labos (dez sílabas poéticas), também
medieval condicionada à Igreja e chamados de medida nova, em opo-
seu poder, resgatando a Antiguidade sição às redondilhas (versos de cinco
Clássica, pois viam nelas o exemplo ou sete sílabas poéticas) da poesia
da perfeição a ser copiada. O homem medieval. Nessa época, surge William
desse período queria uma compreen- Shakespeare, um dos maiores drama-
são mais clara do mundo, sem expli- turgos de todos os tempos, revolucio-
cações religiosas, buscando respostas nando o teatro com o seu interesse
na razão e na ciência. pela análise da natureza humana.

A Itália foi o berço dessa reno- Em Portugal, o Classicismo se inicia em
vação, principalmente em relação 1527, quando Francisco Sá de Miranda

170

voltou da Itália, onde havia conhecido vá- Eternos moradores do luzente
rios artistas e se influenciou por Petrarca Estelífero pólo, e claro assento,
(1304 – 1374), adotando o dolce stil nouvo Se do grande valor da forte gente
(doce estilo novo). De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente,
Com certeza, o maior artista portu- Como é dos fados grandes certo in-
guês do Classicismo foi Luís Vaz de Ca- tento,
mões, que produziu na épica e na lírica Que por ela se esqueçam os hu-
(e até alguns textos dramáticos) obras manos
de grande qualidade, destacando-se De Assírios, Persas, Gregos e Ro-
Os Lusíadas. No mesmo período, temos manos.
Antônio Ferreira (teatro e poesia), Ber-
nardim Ribeiro (poemas e uma novela), Início do discurso de Júpiter no con-
Fernão Mendes Pinto (literatura de via- cílio dos deuses, Canto I, estrofe 24.
gem), Damião de Góis (historiografia),
entre outros. Barroco (1580 – 1756)

Dois fatos marcam o fim do Classi- Portugal do século XVI sofria com
cismo em 1580: a morte de Camões e o domínio espanhol e, aos poucos,
a batalha de Alcácer Quibir, em que os tentava buscar a sua autonomia polí-
espanhóis venceram e dominaram o tica para desenvolver com autonomia
território de Portugal. atividades econômicas e culturais. Esse
período ficou conhecido como “proces-
O herói da obra, os portugueses. Monu- so de restauração”. Influenciados pelo
mento aos Descobrimentos Portugueses gongorismo (excesso de palavras) e o
maneirismo (tentativa de imitar o es-
em Lisboa, Portugal tilo de algum autor), predomina uma
literatura, com raras exceções, de qua-
lidade duvidosa, sem muita inspiração.
Surgem muitas academias literárias,
lugares de discussões e divulgação de
ideais culturais. Destaca-se desse pe-
ríodo Dom Francisco Manoel de Melo
(poesia), Padre Antônio Vieira (ser-
mões), Padre Manoel Bernardes (ane-
dotas e lendas).

O Barroco tem como características
o excesso de figuras de linguagem (cul-

171

tismo), o jogo de ideias (conceptismo), Lusitana estava ficando reprimida,
a dualidade entre a fé e a razão, o jogo fator que motivou o seu fim e acabou
do claro e escuro (especialmente nas surgindo a Nova Arcádia, de onde
artes plásticas), o exagero de metáfo- apareceu Bocage, o poeta árcade
ras, hipérboles e hipérbatos. português mais importante.

Arcadismo (1756 – 1825) Fugindo dos conflitos religiosos,
o Arcadismo opõe-se ao Barroco, por
Após um período de decadência, ter uma postura mais racional, já que
Portugal resgata, em 1640, a sua in- há uma forte influência dos ideais ilu-
dependência e, logo, quer restaurar ministas. Há também um resgate de
a sua política, sua economia e o or- temas e personagens do imaginário
gulho de sua nação. A grande trans- pagão, além da utilização de vários le-
formação da sociedade portuguesa mas latinos como locus amoenus (lugar
veio pelas mãos de Sebastião José ameno), inutilia truncat (cortar o inútil),
de Carvalho, o marquês de Pombal, entre outros.
que, influenciado pelos ideais ilu-
ministas, reconstruiu Lisboa após o Além de Bocage, no Arcadismo,
terremoto de 1755, baniu o ensino destacam-se o prosador Luís Antônio
religioso das escolas, expulsou os Verney, os poetas Nicolau Tolentino,
jesuítas e trouxe de volta intelectu- Filinto Elísio e Correia Garção.
ais exilados pela Inquisição. Todas
essas mudanças contribuíram para Romantismo (1825 – 1865)
o avanço do pensamento científico e
cultural português. O Romantismo começa em Portu-
gal com a publicação do poema Ca-
O Arcadismo inicia-se em Portugal mões, de Almeida Garret, em 1825.
em 1756, com a Fundação da Arcá- A obra é uma espécie de biografia do
dia Lusitana, (também conhecida autor de Os Lusíadas.
como Arcádia Ulissiponense, em ho-
menagem ao herói grego Ulisses), a As características do Romantismo
qual ocupava-se em discutir o pen- são: a busca pela morte, a solidão, o
samento grego e difundir a estética sofrimento amoroso, a idealização da
neoclássica. A Arcádia pedia que figura feminina e do mundo ao seu
seus membros adotassem um nome redor, o exagero na subjetividade e no
de pastores celebrados pela cultura individualismo. Nos quarenta anos de
grega, obedecessem às regras clássi- Romantismo português, a escola lite-
cas, declamassem poemas e apresen- rária passou por algumas transforma-
tassem seminários sobre a estética ções, mas podem ser identificadas três
neoclássica. Pelo excesso de regras, fases diferentes:
a liberdade dos criadores da Arcádia
1a fase (1825 – 1838): ainda com
172 influências neoclássicas. Almeida Gar-

ret, Alexandre Herculano e Antônio para chamar a atenção para as suas
Feliciano de Castilho. discussões. Para agravar mais o fato,
em 1865, Feliciano de Castilho, escri-
2a fase (1835 – 1860): ultra-român- tor do Romantismo português, envia
tica, com influência de autores fran- uma carta ao seu editor criticando os
ceses e ingleses (Byron), em que tudo jovens escritores realistas Antero de
aparece de forma arrebatadora, extre- Quental, Vieira de Castro e Teófilo Bra-
ma, em excesso. Camilo Castelo Branco ga, alegando que em seus trabalhos
e Soares de Passos. literários faltavam “bom senso e bom
gosto”. Antero de Quental respondeu
3a fase (1860 – 1865): marca a Feliciano de Castilho em um livreto in-
transição do Romantismo para o Rea- titulado “Bom senso e bom gosto”, que
lismo. João de Deus e Julio Diniz. “A futilidade num velho desgosta-me
tanto como a gravidade numa criança.
Realismo (1865 - 1890) V. Exa. Precisa menos cinquenta
anos de idade, ou então mais cin-
Durante a segunda metade do quenta anos de reflexão”. O comentário
século XIX, o pensamento científico no opúsculo acabou gerando polêmi-
e filosófico provoca uma mudança cas e discussões.
radical no comportamento da socie-
dade. Esse período era chamado de Destacam-se nesse período os poe-
“novo século das luzes”. O devaneio tas Guerra Junqueira, Antero de Quen-
romântico e a idealização eram logo tal, Cesário Verde e Gomes Leal. Já na
substituídos pela verdade. O artis- prosa, são significativos os trabalhos
ta começava a ver o mundo com os de Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão
olhos da razão e seguindo as teorias e, sem dúvida, a narrativa minuciosa e
cientificistas, como uma tentativa de crítica de Eça de Queirós.
explicar aquilo que a religião deixava
sem respostas. A realidade seria expli- Parnasianismo (final do séc.
cada pelas leis naturais. XIX e início do séc.XX)

Em Portugal, o Realismo surgiu a Originado na França, o Parnasia-
partir da Questão Coimbrã, marco nismo apresenta os princípios da es-
inicial do Realismo. A Questão Coim- tética realista, porém, os romancistas
brã era uma forma de lutar contra a realistas e naturalistas não tinham
estagnação do circuito literário, que exatamente os mesmos propósitos
ainda seguia os preceitos românticos. da manifestação poética desta épo-
Os coimbrãos, como eram chamados ca quanto à ideologia. O movimento
esses estudantes opostos a uma li- recebe o nome de Parnasianismo em
teratura que não condizia mais com função de uma antologia, Parnasse
a realidade vigente, chegaram até a
sequestrar o reitor da Universidade 173

Contemporain, publicada a partir de Em Portugal, o Simbolismo está
1866, na França, na qual havia poemas ligado às revistas Boêmia Nova e Os
de T. Gautier, de Lecomte de Lisle e ou- Insubmissos, criadas por estudantes
tros. Essas produções revelavam gosto de Coimbra. O livro de poemas Oa-
da descrição nítida, metrificação tradi- risto de Eugênio de Castro, lançada
cional, preo-cupação formal e um ideal em 1890, é considerado a primeira
de impessoalidade. obra simbolista portuguesa. Além
de Eugênio de Castro, vale destacar
Em relação às características do Antônio Nobre, Camilo Pessanha, An-
movimento, há a preocupação exa- tônio Patrício, Manuel Laranjeira, Raul
gerada com o poema, tratando-o Brandão, Júlio Dantas, Augusto Gil e
como produto concreto e acabado Alfonso Lopes Vieira.
em que se deposita toda a importân-
cia; a ânsia na construção do objeto, Modernismo (1915 – até hoje)
não se preocupando com o conteú-
do e nem com o sentimento poético, O Modernismo português inicia-
tudo isso acabou se tornando um -se com a publicação, em 1915, da
reflexo do processo de produção revista Orpheu, organizada por Mário
mecânica acelerada da época, trans- de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. A
formando até o próprio homem em intenção dessa revista era questionar
mais um objeto de consumo. os valores burgueses, revolucionar a
poesia e propagar uma nova arte. O
O poeta molda o poema assim com Modernismo português é subdivido
um ourives, um escultor, um carpintei- em algumas fases:
ro, e a sua obra, o seu poema é também
um produto material, como qualquer 1915 – 1927: influências futuristas
outro, onde o que importa não é o sen- propostas pela revista “Orpheu”.
timento, mas sim a técnica, a capacida-
de artesanal do criador devidamente 1927 – 1940: influências da revista
associada a seu esforço. “Presença”, que continuava as propos-
tas da Orpheu.
Simbolismo (1890 – 1915)
1940 – 1947: neo-realismo, literatu-
De origem francesa, o Simbolismo ra socialmente engajada.
é o resgate do lado imaginativo, dando
ênfase no inconsciente, combatendo a 1947 – 1974: literatura influenciada
obsessãocientífica realista, retomando pelo surrealismo.
o subjetivismo e a espiritualidade. Nesse
período,predominamosonho,omistério, 1974 até hoje: contemporâneo,
com uma linguagem obscura, vaga após o período salazariano, dando des-
e fantasiosa. taque à prosa.

174 Autores mais significativos: Fer-
nando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro.
Almada Negreiros, Florbela Espanca,

Aquilino Ribeiro, José Régio, Miguel Também escrevi em meu
Jorge, Antônio Botto, Irene Lisboa, Fer- tempo cartas de amor,
reira de Castro, Miguel Torga, Manuel Como as outras,
de Fonseca, José Saramago, Lídia de Ridículas.
Castro, Antônio Lobo Antunes, Agusti-
na Bessa-Luís, Antonio Gedeão, entre As cartas de amor, se há amor,
outros. Têm de ser
Ridículas.
Todas as cartas de amor
Mas, afinal,
Todas as cartas de amor são Só as criaturas que nunca
Ridículas. escreveram
Não seriam cartas de amor se Cartas de amor
não fossem É que são
Ridículas. Ridículas.

Quem me dera no tempo em
que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935

175

CAPÍTULO 21

ANTOLOGIA – LITERATURA PORTUGUESA

TROVADORISMO D. Dinis

A primeira obra da Literatura Portu- D. Dinis I de Portugal nasceu em
guesa é a Cantiga de Guarvaia (datada de 1261, em Lisboa (Portugal), e faleceu em
1189 ou 1198), conhecida como Cantiga da 1325. Rei de Portugal entre 1261 e 1291
Ribeirinha, de Paio Soares deTaveirós, dedi- e um dos maiores trovadores de sua
cada a Dona Maria Pais Ribeiro, a Ribeirinha, época. Deixou quase 140 composições,
amante de D.Sancho I. Cantiga de amor em entre cantigas de amor, de amigo e de
que o trovador sofre por não ser corres- maldizer. Encontram-se distribuídas no
pondido pela amada. Há o exagero e o uso Cancioneiro da Vaticana e no Cancio-
da expressão“mia señor”(minha senhora), neiro da Biblioteca Nacional. Fundou a
forma de tratamento cortês que demons- Universidade de Lisboa, em 1290.
tra a submissão do poeta à sua amada.
CAN TIGA DE AMIGO
Cantiga de Guarvaia Ai flores, ai flores do verde pino,
No mundo non me se sei parelha, se sabedes novas do meu amigo!
mentre me for como me vai, ai Deus, e u é?
ca já moiro por vós – e ai! Ai flores, ai flores do verde ramo,
Mia senhor branca e vermelha, se sabedes novas do meu amado!
queredes que vos retraia ai Deus, e u é?
quando vos eu vi em saia. Se sabedes novas do meu amigo,
Mau dia me levantai aquel que mentiu do que pôs
que vos enton non vi fea! comigo!
E, mia senhor, dês aquel dia’, ai! ai Deus, e u é?
me foi a mi mui mal Se sabedes novas do meu
E vós, filha de don Paai amado,
Moniz, e bem vos semelha aquel que mentiu do que mi há
d’aver eu por vos guarvaia, jurado!
pois eu, mia senhor, d’alfaia ai Deus, e u é?
nunca de vós houve nen hei
valia d’ua correa. CANTIGA DE AMOR
En gran coita, senhor,
MOISÉS, Massaud. A Literatuta Portuguesa que peior que mort` é,
vivo, per boa fé,
através dos textos. São Paulo: Cultrix, 1994.

176

e polo voss` amor a Joan Bolo, como se queixou,
esta coita sofr` eu non se queixar’, andando pela
por vós, senhor, que eu rua;
mais o rapaz, por mal que lhi
Vi polo meu gran mal; cuidou,
e melhor mi será Levou-lh’ o rocin a mua.”
de morrer por vós já
e, pois me Deus non val, HUMANISMO
esta coita sofr` eu
por vós, senhor, que eu Crônicas
(Historiografia)
Polo meu gran mal vi;
e mais mi val morrer Fernão Lopes
ca tal coita sofrer,
esta coita sofr` eu Fernão Lopes
por vós, senhor, que eu
Fernão Lopes nasceu entre 1378 e
Vi por gran mal de mi, 1390, em Lisboa (Portugal), e faleceu
pois tan coitad` and` eu. por volta de 1460. Ao assumir o cargo de
guarda-mor da Torre do Tombo (local em
CANTIGA DE ESCÁRNIO que se guardavam os mais importantes
documentos), mudou o conceito de histo-
Joan Bol’ anda mal desberatado riografia ao mudar o estilo dos nobiliários
e anda trist’e faz muit’aguisado, (ou livros de linhagem) da época. Conse-
ca perdeu quant’ avia guaando guiu imprimir um lado artístico nesses do-
e o que lhi leixou a madre sua: cumentos. Escreveu a história dos antigos
uu rapaz, que era seu criado, reis de Portugal com minuciosidade, sem
levou-lh’ o rocin e leixou-lh’ esquecer a valorização do povo como per-
a mua. sonagem, agente importante na a constru-
ção de uma figura da realeza. Fernão ficou
Se el a mua quisesse levar conhecido como o“Heródoto português”.
a Joan Bol’ e o rocin leixar,
non lhi pesara tant’, a meu cuidar, 177
nen ar semelhava cousa tan crua;
mais o rapaz, por lhi fazer pesar,
levou-lh’o rocin e leixo-lh’a mua.

Aquel rapaz, que lh’ o rocin
levou,
se lhi levass’ a mua que lhi ficou

Principais obras: Ora assim foi que, sendo pouco
mais de hora de terça e enchendo já
• Crônica d’El Rei D.Pedro a maré, pareceu a frota de Portugal
• Crônica d’El Rei D.Fernando pela ponta de S. Gião, que são três
• Crônicas d’El Rei D.João I léguas da cidade, e vinha ordenada
desta guisa:
Crônica d’El Rei D. João I
Vinham cinco naus diante, e na
O Mestre disse que lhe tinha mui- maior delas, que chamavam a Mi-
to em serviço seu bom desejo e fiel lheira, vinha Rui Pereira com ses-
bem querença, mas que em nenhu- senta homens d’armas e quarenta
ma guisa do mundo ele não ficaria besteiros consigo; e em outra que
na cidade, mas per sua pessoa seria chamavam a Estrela, Álvaro Peres
presente na peleja, e que fiava em de Castro; e na Farinheira, João Go-
Deus que sairia dela com muita sua mes da Silva; e na Sangrenta, Aires
honra e de toda a cidade e do reino Gonçalves de Figueiredo; e em ou-
de Portugal. Eles, quando viram que tra, Pêro Lourenço e Rui Lourenço
se al não podia fazer, disseram que de Távora; e assim nas outras seus
fizesse como sua mercê fosse. capitães, assim como Gil Vasques
e Lopo Vasques da Cunha, e João
E em fazendo-se esta assim, a frota Rodrigues Pereira, e Lopo Dias de
del-rei de Castela, que eram quarenta Castro, e Nuno Viegas, e Gonçalo
naus e treze galés, como foi manhã, as Eanes do Vale, e outros; mas estas
naus todas meteram as vergas altas e quatro nomeamos, porque estas sós
forneceram-se de muitas e boas gen- aferraram. Depois destas cinco naus,
tes; e porque a maré vazava e o vento vinham as galés todas juntas, pave-
era calmo, levavam as galés as naus sadas e apendoadas; e trás as galés,
grandes à toia; e as outras mais peque- vinham doze naus. E a viração venta-
nas os batéis por davante; e foram-se va tendente ao longo do rio, muito
todas a Restelo o Velho, que era dali de viagem pera poder entrar.
uma pequena légua, contra onde a
frota havia de vir, e puseram-se todas Rui Pereira, varão bem notável, em
em ordem, com as proas pera a terra que avondava maravilhoso e ardido
de Almada, e cada uma seu proiz em coração, quando viu as naus de Cas-
terra, por não se gurrarem com a maré; tela estar cerradase em terra como
e assim estava ordenada sua batalha. dissemos, que ainda não deferiram,
E mais mandou el-rei gentes d’armas não sabendo a tenção porquê, veio-
a cavalo acerca dos muros de Santo -as demandar mui acerca, e as outras
Agostinho e de São Vicente de Fora, quatro naus com ele; e quando viu
por serem os da cidade ocupados em que os castelãos não fizeram que-
acudir àquela parte e não ajudarem os rença contra eles, fez em outro bordo
da frota desembargadamente. contra Almada.

178

Ora assim foi que ainda a manhã dadas, que se queriam entornar com
com sua claridade não alumiava bem a elas. Uma barcha em que ia Gonçalo
terra e já os muros e lugares altos eram Gonçalves Borjas, deferiu por fazer via-
cheios de homens e mulheres pera ver. gem pera Restelo, e o vento contrairo
Em este espaço do dia que atá aqui a levou per força caminho de Sacavém;
passou, não faziam homens e mulhe- e assim fez a outra em que ia Mem Ro-
res dês que amanheceu, senão correr drigues de Vasconcelos.
pera os muros e lugares altos por te-
rem lugar dhu vissem a peleja. Vinham- O Mestre quisera também fazer
-lhe à memoria seus padres e irmãos vela, e vendo a maré e vento contrai-
que ali traziam, e batendo nos peitos, ro, e que era muito pior deferir, saiu-se
ficados os joelhos em terra, rogavam a em terra e as gentes com ele; as barcas
Deus chorando que os ajudasse; endu- eram navios pequenos e não podiam
ziam as madres os inocentes parvoos empeecer aos grandes, mormente per
que tinham no colo que alçassem as tempo a elas contrairo, e desarmaram-
mãos ao céu, ensinando-lhe como -se como os navios.
dissessem que prouguesse a Deus
de ajudar os portugueses; outros fa- Rui de Pina
ziam seus votos per desvairadas ma-
neiras, chamando a preciosa Madre Rui de Pina nasceu em 1440, em
de Deus e o mártir S. Vicente, que Guarda (Portugal), e faleceu em 1522.
fossem em sua ajuda. Foi cronista-mor e diplomata do reino
de Portugal. Queria escrever e copiar
Doutra parte o Mestre e toda a as crônicas dos sete grandes reis de
gente da cidade era ocupada em se Portugal, mas não viveu o suficiente
fazer prestes pera entrar nos navios para isso. Sua obra é contestada, já que
e barcas, que haviam de armar pera muitos alegam ser plágio de crônicas
acorrer à sua frota, de guisa que não já existentes.
somente os homens mancebos mas
as velhas cabeças cobertas de cãs se Principais obras:
guarneciam de armas pera pelejar. Es-
tonce entrou o Mestre em uma gran- • Afonso V
de e fromosa nau, que fora das que • D.João II
tomaram com os panos dos genove-
ses que dissemos, e entraram com ele Crônica de D.João II
bem quatrocentos homens de armas;
e porque a nau não era lastrada e a Foi el-rei D.João homem de corpo,
gente entrou mais do que devera, não mais grande que pequeno, mui bem
podia reger como cumpria. feito e em todos os seus membros mui
proporcionado; teve o rosto mais com-
Nos outros navios se meteram tantas prido que redondo e de barba em boa
gentes, e isso mesmo nas barcas ban- conveniência povoado.

179

Teve os cabelos da cabeça casta- em seus reinos andasse para as bem
nhos e corredios e porém em idade reger como fazia, porém seu espírito
de trinta e sete anos na cabeça e na sempre andava fora deles, com de-
barba era já mui cão, de que se mos- sejo de os acrescentar.  Foi príncipe
trava receber grande contentamento mui justo e mui amigo de justiça e
pela muita autoridade que à sua dig- nas execuções dela mais rigoroso
nidade real suas cãs acrescentavam; e severo que piedoso, porque, sem
e os olhos de perfeita vista e às vezes alguma exceção de pessoas de baixa
mostrava nos brancos deles umas e alta condições, foi dela mui inteiro
veias e mágoas de sangue, com que executor, cuja vara e leis nunca tirou
nas coisas de sanha, quando era dela de sua própria seda, para assentar
tocado, lhe faziam aspecto mui te- nela sua vontade nem apetites, por-
meroso. E porém nas coisas de hon- que as leis que a seus vassalos con-
ra, prazer e gasalhado, mui alegre e denavam nunca quis que a si mesmo
de mui real e excelente graça; o nariz absolvessem.
teve um pouco comprido e derruba-
do. Era em tudo mui alvo, salvo no Poesia
rosto, que era corado em boa manei-
ra. E até idade de trinta anos foi mui Garcia de Resende
enxuto das carnes e depois foi nelas
mais revolto.  Foi príncipe de mara- Garcia de Resende nasceu em 1470,
vilhoso engenho e subida agudeza em Évora (Portugal), e faleceu em 1536.
e mui místico para todas as coisas; e Organizou mil poemas palacianos (po-
a confiança grande que disso tinha emas mais bem elaborados e feitos por
muitas vezes lhe fazia confiar mais nobres no ambiente do palácio) no
de seu saber e creio conselhos de ou- Cancioneiro Geral, em torno de 1516.
trem menos do que devia. Foi de mui Faz poemas bem elaborados, cheio de
viva e esperta memória e teve o juízo jogos de palavras, ambiguidades, lin-
claro e profundo; e porém suas sen- guagem figurada e forte musicalidade.
tenças e falas que inventava e dizia
tinham sempre na invenção mais de Principais obras:
verdade, agudeza e autoridade que
de doçura nem elegância nas pala- • Miscelânea (1554)
vras, cuja pronunciação foi vagarosa, • Vida e Feitos de João II
entoada algum tanto pelos narizes,
que lhe tirava alguma graça. Foi rei Trovas à morte de D. Inês de Castro
de mui alto, esforçado e sofrido cora-
ção, que lhe fazia suspirar por gran- Eu era moça, menina,
des e estranhas empresas, pelo qual, por nome Dona Inês
conquanto seu corpo pessoalmente de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, qu’era dina
180

de meu mal ser ao revés. Gil Vicente
Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar Gil Vicente nasceu em 1465, em
nem dá-la ninguém a mim: Barcelos (Portugal), e faleceu entre
foi-m’o príncipe olhar, 1536 e 1540. Com o seu Monólogo do
por seu nojo e minha fim. vaqueiro ou Auto da visitação, em 1502,
em comemoração do nascimento de
Começou-m’a desejar d. João III, filho de D. Manuel e de D.
trabalhou por me servir; Maria de Castela, iniciou o teatro de
Fortuna foi ordenar caráter popular em Portugal. Em suas
dous corações conformar obras, seguia o lema de Plauto: ridendo
a uma vontade vir. castigat mores (“rindo, castigam-se os
Conheceu-me, conheci-o, costumes”), que seria uma crítica a seu
quis-me bem e eu a ele, tempo por meio do humor.
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio Com a proposta de resgatar a moral,
o bem que, triste, pus nele. os valores perdidos de sua sociedade,
Gil Vicente satirizou o clero, a nobreza e
Dei-lhe minha liberdade, o povo. Além de trabalhar temas univer-
não senti perda de fama; sais e atemporais, Gil Vicente criou um
pus nele minha verdade, teatro rudimentar, que não respeitava a
quis fazer sua vontade, três unidades clássicas do teatro (ação,
sendo mui formosa dama. espaço e tempo). Usava muitos troca-
dilhos, ditados populares, mimetizando
Teatro a linguagem da respectiva classe social
retrata. Sua obra é constituída por dois
tipos de produções: autos (peças com te-
mas religiosos, com personagens alegó-
ricos – aqueles que simbolizam alguma
qualidade como a bondade, a maldade,
a avareza, entre outros) e farsas (peças
com humor ácido sobre o cotidiano, que
ridicularizam ao extremo as persona-
gens criticadas).

Gil Vicente Principais obras:

• Farsa de Inês Pereira
• Auto da Fé
• Auto da Índia
• Auto da Lusitânia

Trilogia das Barcas

181

Farsa de Inês Pereira Pera gamo.
Carregado ides, noss’amo,
Põe-se Inês Pereira às costas do ma- Com duas lousas.”
rido, e diz: PÊRO
“Pois assi se fazem as cousas”
INÊS INÊS
Marido, assi me levade. “Bem sabedes vós, marido,
PÊRO Quanto vos quero.
Ides à vossa vontade? Sempre fostes percebido
INÊS Pera cervo.
Como estar no Paraíso! Agora vos tomou o demo
PÊRO Com duas lousas.”
Muito folgo eu com isso. PÊRO
INÊS “Pois assi se fazem as cousas.”
Esperade ora, esperade! E assi se vão, e se acaba o dito
Olhai que lousas aquelas, Auto.
Pera poer as talhas nelas!
PÊRO RENASCIMENTO
Quereis que as leve?
INÊS Camões
Si.
Uma aqui e outra aqui. LuísVaz de Camões retratado por Fernão Gomes
Oh como folgo com elas! 
Cantemos, marido, quereis? Luiz Vaz de Camões nasceu em 1524
PÊRO possivelmente, em Lisboa (Portugal), e
Eu não saberei entoar. faleceu em 1580. Estudou em Coimbra,
INÊS tendo contato com os grandes escritores
Pois eu hei só de cantar da Antiguidade Clássica, foi admitido na
E vós me respondereis corte de D. João III, como cavaleiro fidal-
Cada vez que eu acabar: go da Casa Real.
“Pois assi se fazem as cousas”.
Canta Inês Pereira:
INÊS
“Marido cuco me levades
E mais duas lousas.”
PÊRO
“Pois assi se fazem as cousas.”
INÊS
“Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo.
Sempre fostes percebido

182

Esteve em Ceuta, como solda- do Tejo), dedicatória (homenagem ao
do, combatendo os mouros, quan- rei D.Sebastião), a narração (a viagem
do acabou perdendo o olho direito. de Vasco da Gama e seus confrontos) e
Teve vários casos amorosos, alguns o epílogo (comentário final da obra).
deles eternizados em sua poesia líri-
ca. Sofreu um naufrágio na costa da Principais obras:
Cochinchina numa viagem de volta
para a Índia, mas conseguiu salvar os • Os Lusíadas
manuscritos de Os Lusíadas, embora • El-Rei Seleuco
tenha perdido, segundo a lenda, a • Auto de Filodemo
sua amante oriental Dinamene. Após • Anfitriões
a publicação de Os Lusíadas (1572) re-
cebeu do rei uma pensão, mas, mes- Soneto
mo assim, morreu na miséria.
Alma minha gentil, que te
A obra de Camões se divide em partiste
poesia lírica e épica. Na poesia lírica, Tão cedo desta vida,
há o uso do soneto decassílabo, can- descontente,
tando a temática amorosa, da mulher Repousa lá no céu eternamente
inatingível, da passagem do tempo e E viva eu cá na terra sempre
o desconcerto do mundo. Sua poesia triste.
também é cheia de referências a epi- Se lá no assento etéreo, onde
sódios bíblicos. Na épica, Camões es- subiste,
creveu uma das maiores epopeias do Memória desta vida se consente,
mundo ocidental: Os Lusíadas. Escrita Não te esqueças daquele amor
em 1102 estrofes, com 8816 versos ardente
decassílabos em oitava rima (ABABA- Que já nos olhos meus tão
BACC), a grande epopeia camoniana puro viste.
exalta a glória do povo português na E se vires que pode merecer-te
viagem de Vasco da Gama à África. A Alguma cousa a dor que me
epopeia segue a rígida estrutura clás- ficou
sica de 10 cantos (como se fossem Da mágoa, sem remédio, de
capítulos) em que se destacam alguns perder-te,
dos mais famosos episódios da lite- Roga a Deus, que teus anos
ratura portuguesa como: A morte de encurtou,
Inês de Castro, O gigante Adamastor, Que tão cedo de cá me leve a
O velho do Restelo, A ilha dos Amores, ver-te,
entre outros. Vale também ressaltar a Quão cedo de meus olhos te
divisão da epopeia: proposição (ex- levou.
posição do tema a ser tratado), invo-
cação (pedido de inspiração às ninfas Trecho do livro Os Lusíadas

183

Sá de Miranda quanto que me prometestes.
quanto que me falecestes!
Francisco Sá de Miranda nas­ceu
em 1481, em Coimbra (Portugal), e BARROCO
faleceu em 1558. Introdutor do Clas-
sicismo em Portugal, Sá de Miranda Padre Manuel Bernardes
trouxe o dolce stil nuovo (doce estilo
novo) ao voltar da Itália e ter conhe- Padre Manuel Bernardes nasceu em
cido grandes escritores da época. 1644, em Lisboa (Portugal), e faleceu em
Além de valorizar a vida bucólica e a 1710. Com um estilo simples, a obra de
liberdade individual, conseguiu aliar Manuel Bernardes tinha como objetivo
a medida nova (decassílabo) com a formação dos cristãos e a reflexão, a
a velha (redondilhas) harmoniosa- meditação, o encontro com a paz interior,
mente. Produziu glosas, vilancetes, diferentemente de Vieira, mais voltado ao
cantigas, esparsas, trovas, sonetos, mundo exterior e os problemas sociais. Es-
éclogas, odes, elegias e epístolas. creveu toda a sua obra na Congregação do
Oratório de S. Felipe Néri por insistência de
Principais obras: seus superiores. Morreu cego e louco.

• Poesia clássica •Principais obras:
• Teatro Nova Floresta (em 5 volumes: 1706,
• Trovas à maneira antiga 1708, 1711, 1726 e 1728)

Redondilhas • Pão Partido em Pequeninos (1694)
• Luz e Calor (1696)
Ó meus castelos de vento • Exercícios Espirituais (1707)
que em tal cuita me pusestes, • Últimos Fins do Homem (1726)
como me vos desfizestes! • Armas da Castidades (1737)
Armei castelos erguidos, • Sermões e Práticas (1771)
esteve a fortuna queda, • Estímulo Prático para bem seguir o
e disse: – Gostos perdidos,
como is a dar tão grã queda! bem e fugir o mal (1730)
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes O trecho a seguir se encontra num ser-
que então me não socorrestes? mão de um padre da Igreja Católica Romana:

Caístes-me tão asinha Sermão
caíram as esperanças;
isto não foram mudanças, “Ainda que as matérias que o pregador
mas foram a morte minha. escolheu para tratar no púlpito fossem
Castelos sem fundamento,

184

boas e proveitosas, como não podemos • Condestabre (1609)
negar que às vezes são, todavia o estilo • Primavera (1601)
com que se tratam é tão asseado, tão
sumido em descrições, tão estofados de Soneto
lumes retóricos, tão pendurados de cor-
respondências de palavras e períodos, Fermoso Tejo meu, quão
que não pode o sério e espiritual do as- diferente
sunto lograr a sua eficácia, e, parando os Te vejo e vi, me vês agora e viste:
entendimentos dos ouvintes a ver o res- Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
plendor falso que lhe mostram, ficam as Claro te vi eu já, tu a mim
vontades frias e secas, sem calor algum contente.
ou suco de devoção. Nem o pregador
lhe pode pagar, porque, com o dito estilo A ti foi-te trocando a grossa
vai todo embarcado na felicidade da me- enchente
mória e sujeito aos seus naufrágios, en- A quem teu largo campo não
quanto o espírito atende a este leme, não resiste;
pode desocupar-se para as operações da A mim trocou-me a vista em
vontade fervorosa, nem receber as luzes que consiste
que o Anjo do Senhor ali subministra.” O meu viver contente ou
descontente!
Francisco Rodrigues
Lobo Já que somos no mal
participantes,
Francisco Rodrigues Lobo por Sejamo-lo no bem. Oh, quem
volta de 1580, em Leiria (Portugal), e me dera
faleceu em 1622, vítima de um nau- Que fôramos em tudo
frágio no rio Tejo. Doutorou-se em Di- semelhantes!
reito pela Universidade de Coimbra.
Escreveu em português e castelhano. Mas lá virá a fresca Primavera:
Produziu muitos poemas bucólicos, Tu tornarás a ser quem eras
éclogas e sonetos com forte influ- dantes,
ência camoniana. Gôngora foi outra Eu não sei se serei quem
grande influência, com o seu jogo de dantes era.
palavras e metáforas fortes, típicas do
Barroco. Também produziu prosa di- ARCADISMO
dática sobre a vida na corte.
Luís Antônio Verney
Principais obras:
Luís Antônio Verney nasceu em 1713,
• Corte na Aldeia (1619) em Lisboa (Portugal), e faleceu em 1792.
• O Pastor Peregrino (1608)
185

Estudou Filosofia em Évora, em Lis- mas porque talvez nos explicamos me-
boa e Teologia em Roma. Queria es- lhor com uma figura do que com mui-
crever uma grande obra com caráter tas palavras. Pelo contrário, para nos
enciclopédico, mas morreu antes de explicarmos naturalmente e sem figu-
completá-la. Escreveu em forma de ra, é necessário buscar o termo próprio,
epístola sobre questões pedagógi- que exprima o que se quer, o qual nem
cas, discutindo até o acesso das mu- sempre se acha, ou, ao menos, não sem
lheres à cultura. dificuldade, e sempre se quer perfeita
inteligência da língua para o executar.
•Principais obras: Além disto, as figuras encantam o leitor
Verdadeiro Método de Estudar e impedem-lhe penetrar é descobrir
vícios que se cobrem com tão ricos
•(1746) vestidos. Não assim no estilo simples,
De Ortographia Latina Liber Sin- o qual, como não faz pompa de orna-
mentos, deixa considerar miudamente
•gularis (1747) os pensamentos do escritor...
Apparatus ad Philosophiam et
Theologiam (1751) Isto que digo das expressões co-
muns e naturais deve-se entender
• De Re Logica (1751) com proporção. Não quero dizer que
• De Re Metaphysica (1753) um homem civil fale como a plebe,
• Gramática Latina (1758) mas que fale naturalmente. A matéria
• De Re Physica (1769) do estilo humilde não pede elevação
de figuras etc., mas nem por isso se
ESTILO SIMPLES E ESTILO deve exprimir com aquelas toscas pa-
MEDÍOCRE lavras de que usa o povo ignorante.
Não é o mesmo estilo baixo que estilo
Ao estilo sublime contrapomos o simples. O estilo baixo são modos de
estilo simples ou humilde. Assim como falar dos ignorantes e pouco cultos:
as coisas grandes devem explicar-se o estilo simples é modo de falar na-
magnificamente, assim o que é humil- tural e sem ornamentos, mas com
de deve-se dizer com estilo mui sim- palavras próprias e puras. Pode um
ples e modo de exprimir mui natural. pensamento ter estilo sublime, e
As expressões do estilo simples são ti- não ser pensamento sublime; e
radas dos modos mais comuns de falar pode achar-se um pensamento su-
a língua; e isto não se pode fazer sem blime, com estilo simples. Explico-
perfeito conhecimento da dita língua. -me. Para ser sublime o estilo, basta
Esta é, segundo os mestres da arte, a que eu vista um pensamento e o orne
grande dificuldade do estilo simples. com figuras próprias, ainda que ó pen-
Fácil coisa é a um homem de alguma samento nada tenha de sublime. Pelo
literatura ornar o discurso com figuras; contrário, chamamos simplesmente
antes todos propendemos para isso,
não só porque o discurso se encurta,

186

sublime (com os retóricos) àquela be- cerimônia a pessoas grandes etc., cos-
leza e galantaria de um pensamento tumam ser neste estilo. É, porém, de
que agrada e eleva o leitor, ainda que advertir que o estilo medíocre admite
seja proferida com as mais simples pa- todos os ornamentas da arte: beleza de
lavras. De sorte que o sublime pode-se figuras, metáforas, pensamentos finos,
achar em um só pensamento nu figura belas descrições, harmonia do núme-
etc. Importa muito entender e distin- ro e da cadência. Contudo, não tem a
guir isto, para não ser enfadonho nas vivacidade e grandeza do sublime. Par-
conversações e nas obras que pedem ticipa de um e outro, sem se asseme-
estilo humilde. lhar a nenhum. Tem mais força e abun-
dância que o simples, menos elevação
Do que... tenho dito fica claro qual que o sublime, e prossegue com passo
é o estilo medíocre: aquele, digo, que igual e mui brandamente.
participa de um e outro estilo. Tam-
bém este estilo não é pouco dificulto- Filinto Elísio
so, porque é necessário conservar uma
mediania que não degenere em vicio- Padre Francisco Manuel, que usava
sos extremos. E são poucos aqueles o pseudônimo Filinto Elísio, nasceu em
que conhecem as coisas na sua justa 1734, em Lisboa, e faleceu em 1819. Li-
proporção e formam aquela ideia que derou o grupo da Ribeira das Naus (sob
merecem. Já disse que a matéria é a o pseudônimo de Niceno) em oposição
que determina qual há de ser o estilo; à Arcádia Lusitana.
e assim uma matéria medíocre pede
um estilo proporcionado. A maior par- Exilou-se na França, em 1778, ao ser
te das coisas de que falamos são me- perseguido pela Inquisição (por ler livros
díocres; e daqui vem que neste estilo racionalistas). Fez amizade com o poeta
de falar deve-se empregar um homem Lamartine. Suas poesias foram publica-
que quer falar bem e conseguir fama das em Paris, reunidas em dois volumes
de homem eloquente. Um homem de denominados Obras Completas. Em seus
juízo, que conhece as coisas como são, escritos atacava o clero e a aristocracia.
Forma delas ideias justas e verdadei-
ras, e as explica com as palavras que •Principal obra:
são mais próprias. Donde vem que Obras Completas (1817 – 1819)
o estilo medíocre compete propria-
mente às Ciências todas, à História e Tem a Virtude o Prémio
outras coisas deste gênero, nas quais
se representam coisas não vis, mas Tardio às vezes, sempre
medíocres; porém representam-se da merecido,
mesma sorte que são, e com palavras Tem a Virtude o prémio
próprias. Também as cartas de negó- aparelhado
cios graves, ou eruditas, e aquelas de

187

Ao profícuo talento, ao peito Garção escreveu muitos sonetos, redon-
honrado, dilhas com motes (temas pré-definidos)
Que do dever o stádio tem
corrido. Principais obras:

O Sábio, que dos louros • O Teatro Novo
esquecido • A Assembleia ou Partido
Só no obrar bem os olhos tem • Obras Poéticas (obra póstuma - 1778)
cravado
Inópino também se acha c’roado Sonetos
Por mãos sob’ranas c’o laurel
devido Cheios de espessa névoa os
horizontes,
Útil à Pátria seja, as paixões dome, Espantosas voragens vem
Seja piedoso, honesto, afável, saindo!
justo; Foi-se o Sol entre as nuvens
Que no futuro o espera ínclito encobrindo,
nome. Voltando para o mar os quatro
Etontes
Assim falou Minerva ao Coro Caiu a grossa chuva pelos
augusto, montes,
Pondo no Templo do imortal Os incautos pastores aturdindo;
Renome, E engrossados os rios vão
De glória ornado, o teu cobrindo
prezado Busto. Com embate feroz as curvas
pontes
Correia Garção Com medonho estampido,
pavorosos.
Pedro Antônio de Correia Garção Os longos ecos dos trovões
nasceu em 1724, em Lisboa (Portugal), e soando.
faleceu em 1772. Frequentou o curso de A rezar nos pusemos temerosos.
Direito em Coimbra, mas não chegou a Parou a chuva; correm
se formar. Fez parte da Arcádia Lusitana, sussurrando
com o pseudônimo de Corydon Eriman- Os torcidos regatos vagarosos;
theo. Escreveu duas comédias e teve os Não me atrevo a sair, fico
seus poemas publicados em um único jogando.
volume, em 1778, Obras Poéticas. Poeta
preocupado com a função social da lite- Nicolau Tolentino
ratura, alertando os outros poetas do ex-
cesso de imitação dos clássicos. Correia Nicolau Tolentino de Almeida nasceu
em 1740, em Lisboa (Portugal), e faleceu
188

em 1811. Tornou-se professor de Retórica Bocage
em Lisboa. Foi um dissidente da Arcádia Lu-
sitana. Poeta que se utiliza de forte humor e
de ironia. Um de seus textos mais importan-
tes é a sátira A guerra.

Principais obras:

• Obras Poéticas (1801 – 2 volumes)
• Obras Póstumas (1828)
• Obras Completas (1861, publicada

postumamente)

Sonetos Manuel Maria Barbosa Du Bocage
Chaves na mão, melena
desgrenhada, Manuel Maria Babosa du Bocage
Batendo o pé na casa, a mãe nasceu em 1765, em Setúbal (Portugal),
ordena e faleceu em 1805. Participou da Nova
Que o furtado colchão, fofo e Arcádia, sob o pseudônimo de Elmano
de pena, Sadino (Elmano é um anagrama de seu
A filha o ponha ali ou a criada. primeiro nome, enquanto Sadino faz
A filha, moça esbelta e referência ao rio Sado, que banha a sua
aperaltada, cidade natal, Setúbal). Poeta com espírito
Lhe diz coa doce voz que o ar aventureiro, Bocage alistou-se pela mari-
serena: nha portuguesa e foi às Índias. Ao chegar
– Sumiu-se-lhe um colchão? lá, abandonou o posto e saiu como um
É forte pena; errante pelo mundo. Ao voltar para Por-
Olhe não fique a casa tugal, arrumou alguns desafetos por ser
arruinada... muito genioso. Nesse período, também
– Tu respondes assim? Tu encontrou sua paixão, Gertrudes, casada
zombas disto? com Francisco, seu irmão. Arrasado pela
Tu cuidas que, por ter pai decepção amorosa, cai na vida boêmia.
embarcado,
Já a mãe não tem mãos? Foi preso por ter escrito um poema
E, dizendo isto, em homenagem a Napoleão Bonapar-
Arremete-lhe à cara e ao te, entre outros poemas considerados
penteado.
Eis senão quando (caso nunca 189
visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do
toucado!...

pornográficos. Arrependido de seu pas- Esta alma, que sedenta em si
sado devasso, Bocage mudou de vida e não coube,
trabalhou como tradutor até o fim da No abismo vos sumiu dos
vida, morrendo com apenas 40 anos. desenganos.
Deus, ó Deus!... Quando a morte
Escreveu em todas as formas líricas, à luz me roube,
mas foi um mestre no soneto. Embora Ganhe um momento o que
traga as características básicas do Arca- perderam anos.
dismo (equilíbrio, mitologia, linguagem Saiba morrer o que viver não
pastoril), é considerado pré-romântico soube.
por já se deixar levar pelo derramamen-
to excessivo de sentimentalidade. Soneto ditado na agonia

Principais obras: Já Bocage não sou!... À cova
escura
• Várias traduções Meu estro vai parar desfeito em
• Pena de Talião vento...
• Rimas (1791, 1799, 1804, 1813 e 1842) Eu aos Céus ultrajei! O meu
tormento
Abaixo há exemplos de algumas Leve me torne sempre a terra
produções de Bocage: dura;
Conheço agora já quão vã
Saiba morrer o que viver figura,
não soube Em prosa e verso fez meu louco
intento:
Meu ser evaporei na lida insana Musa!... Tivera algum
Do tropel de paixões, que me merecimento
arrastava; Se um raio da razão seguisse
Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu pura.
sonhava Eu me arrependo; a língua
Em mim quase imortal a quase fria
essência humana. Brade em alto pregão à
mocidade,
De que inúmeros sóis a mente Que atrás do som fantástico
ufana corria:
Existência falaz me não dourava! Outro Aretino fui... a santidade
Mas eis sucumbe a Natureza Manchei!... Oh! Se me creste,
escrava gente ímpia,
Ao mal que a vida em sua Rasga meus versos, crê na
origem dana. eternidade!
Prazeres, sócios meus e meus
tiranos!

190

ROMANTISMO • Viagens na Minha Terra (1846)

Almeida Garrett Prosa Doutrinária

João Baptista da Silva Leitão de Almei- • Da Educação (1829)
da nasceu em 1799, em Porto (Portugal), • Portugal na Balança da Europa (1830)
e faleceu em 1854. Introduziu o Roman-
tismo em Portugal com o poema Camões, Seus Olhos
em 1825. Escreveu poesia, prosa e teatro.
Sua poesia é marcada pela liberdade for- Seus olhos - se eu sei pintar
mal, simplicidade ainda influenciada pelo O que os meus olhos cegou -
Arcadismo, vocabulário culto e ênfase na Não tinham luz de brilhar.
subjetividade, característica já do Roman- Era chama de queimar;
tismo. Em seu teatro, valoriza o resgate da E o fogo que a ateou
história de Portugal, com diálogos afiadís- Vivaz, eterno, divino,
simos e forte carga dramática. Como facho do Destino.

Principais obras: Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
Poesia E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
• Retrato de Vênus (1821) Queimar toda alma senti...
• Camões (1825) Nem ficou mais de meu ser,
• D. Branca (1826) Senão a cinza em que ardi.
• Adozinda (1828)
• Lírica de João Mínimo (1829) Abaixo há um trecho da peça Frei
• Romanceiro (1843-1851) Luís de Sousa
• Flores sem Fruto (1845)
• Folhas Caídas (1853) Cena XI
MADALENA, JORGE, MIRANDA
Teatro MIRANDA (apressurado)
— Senhora… minha senhora!
• Catão (1822) MADALENA (sobressaltada)
• Mérope (1841) — Quem vos chamou, que quereis?
• Um Auto de Gil Vicente (1842) Ah! és tu, Miranda. Como assim! já che-
• O Alfageme de Santarém garam? Não pode ser.
• (1842) MIRANDA
• Frei Luís de Sousa(1844) — Não, minha senhora: ainda agora
• D. Filipa de Vilhena (1846) irão passando o pontal. Mas não é isso.
MADALENA
•Prosa de Ficção — Então que é? Não vos disse eu que
Arco de Santana (1845-1850) não viésseis dali antes de os ver chegar?

191

MIRANDA MADALENA
— Para lá torno já, minha senhora: — Ide vê-lo. Frei Jorge. Engano há
há tempo de sobejo. Mas, venho trazer- de ser; mas ide ver o pobre do velho.
-vos recado… um estranho recado, por MIRANDA
minha fé. — É escusado, minha senhora: o
MADALENA recado que traz, diz que a outrem não
— Dizei já, que me estais a assustar. dará senão a vós, e que muito vos im-
MIRANDA porta sabê-lo.
— Para tanto não é; nem coisa séria, JORGE
antes quase para rir. É um pobre velho — Eu sei o que é: alguma relíquia
peregrino, um destes romeiros que dos Santos Lugares, se ele o efeito de
aqui estão sempre a passar, que vêm lá vem, que o bom do velho vos quer
das bandas de Espanha… dar… como tais coisas se dão a pessoas
MADALENA da vossa qualidade… a troco de uma
— Um cativo… um remido? esmola vultada. É o que ele há de que-
MIRANDA rer: é o costume.
— Não, senhora, não traz a cruz , MADALENA
nem é; é um romeiro, algum destes que — Pois venha embora o romeiro! E
vão a Santiago; mas diz ele que vem de trazei-mo aqui, trazei.
Roma e dos Santos Lugares.
MADALENA Alexandre Herculano
— Pois, coitado, virá. Agasalhai-o, e
deem-lhe o que precisar. Alexandre Herculano de Carva-
MIRANDA lho e Araújo nasceu 1810, em Lisboa
— É que ele diz que vem da Terra (Portugal), e faleceu em 1877. Um
Santa, e… dos escritores mais nacionalistas
MADALENA do Romantismo. Introdutor do ro-
— E porque não virá! Ide, ide; e mance histórico em Portugal, res-
fazei-o acomodar já. É velho? gatando o passado de sua pátria e
MIRANDA a figura do cavaleiro medieval. O
— Muito velho, e com umas bar- tema de sua obra mais conhecida,
bas!… Nunca vi tão formosas barbas Eurico, o presbítero, é a invasão ára-
de velho e tão alvas. Mas, senhora, diz be na Península Ibérica, no século
ele que vem da Palestina e que vos traz VIII. Seu estilo é grandioso e cheio
recado… de exaltação.
MADALENA
— A mim! Principais obras:
MIRANDA
— A vós; e que por força vos há de • Historiografia
ver e falar. • História de Portugal (1846-1853)

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• História de Origem e Estabele- francos, que em suas correrias assolavam
as províncias visigóticas d’além dos Pire-
cimento da Inquisição em Portugal neus, acabara com a espécie de monar-
(1854-1859) quia que os suevos tinham instituído na
Galécia e expirara em Toletum depois de
Romances ter estabelecido leis políticas e civis e a
paz e ordem públicas nos seus vastos do-
• Eurico, O Presbítero (1844) mínios, que se estendiam de mar a mar
• O Monge de Cister (1848) e, ainda, transpondo as montanhas da
• O Bobo (1866) Vascônia, abrangiam grande porção da
antiga Gália narbonense.
•Contos
Lendas e Narrativas (1851) Desde essa época, a distinção das
duas raças, a conquistadora ou goda
•Ensaios e a romana ou conquistada, quase
Opúsculo (1873-1908) desaparecera, e os homens do norte
haviam-se confundido juridicamente
Eurico, o presbítero com os do meio-dia em uma só na-
ção, para cuja grandeza contribuíra
Os Visigodos aquela com as virtudes ásperas da
Germânia, esta com as tradições da
A um tempo toda a raça goda, soltas cultura e polícia romanas. As leis dos
as rédeas do governo, começou a incli- césares, pelas quais se regiam os ven-
nar o ânimo para a lascívia e soberba. cidos, misturaram-se com as singelas
e rudes instituições visigóticas, e já
Monge de Silos - Chronicon, c. 2. um código único, escrito na língua
latina, regulava os direitos e deveres
A raça dos visigodos, conquistadora comuns quando o arianismo, que os
das Espanhas, subjugara toda a Penín- godos tinham abraçado abraçando o
sula havia mais de um século. Nenhuma evangelho, se declarou vencido pelo
das tribos germânicas que, dividindo catolicismo, a que pertencia a raça ro-
entre si as províncias do império dos mana. Esta conversão dos vencedores
césares, tinham tentado vestir sua bár- à crença dos subjugados foi o comple-
bara nudez com os trajos despedaçados, mento da fusão social dos dois povos.
mas esplêndidos, da civilização romana A civilização, porém, que suavizou a
soubera como os godos ajuntar esses rudeza dos bárbaros era uma civiliza-
fragmentos de púrpura e ouro, para se ção velha e corrupta. Por alguns bens
compor a exemplo de povo civilizado. que produziu para aqueles homens
Leovigildo expulsara da Espanha quase primitivos, trouxe-lhes o pior dos ma-
que os derradeiros soldados dos impe- les, a perversão moral. A monarquia
radores gregos, reprimira a audácia dos visigótica procurou imitar o luxo do

193

império que morrera e que ela subs- No meio, porém, da decadência dos
tituíra. Toletum quis ser a imagem godos, algumas almas conservavam
de Roma ou de Constantinopla. Esta ainda a têmpera robusta dos antigos
causa principal, ajudada por muitas homens da Germânia. Da civilização ro-
outras, nascidas em grande parte da mana elas não haviam aceitado senão a
mesma origem, gerou a dissolução cultura intelectual e as sublimes teorias
política por via da dissolução moral. morais do cristianismo. As virtudes civis
e, sobretudo, o amor da pátria tinham
Debalde muitos homens de gênio nascido para os godos logo que, assen-
revestidos da autoridade suprema tando o seu domínio nas Espanhas, pos-
tentaram evitar a ruína que viam no suíram de pais a filhos o campo agriculta-
futuro: debalde o clero espanhol, in- do, o lar doméstico, o templo da oração
comparavelmente o mais alumiado e o cemitério do repouso e da saudade.
da Europa naquelas eras tenebrosas Nestes corações, onde reinavam afetos
e cuja influência nos negócios públi- ao mesmo tempo ardentes e, profundos,
cos era maior que a de todas as outras porque neles a índole meridional se mis-
classes juntas, procurou nas severas turava com o caráter tenaz dos povos do
leis dos concílios, que eram ao mes- norte, a moral evangélica revestia esses
mo tempo verdadeiros parlamentos afetos de uma poesia divina, e a civiliza-
políticos, reter a nação que se despe- ção ornava-os de uma expressão suave,
nhava. A podridão tinha chegado ao que lhes realçava a poesia. Mas no fim do
âmago da árvore, e ela devia secar. O século sétimo eram já bem raros aqueles
próprio clero se corrompeu por fim. O em quem as tradições da cultura romana
vício e a degeneração corriam solta- não havia subjugado os instintos gene-
mente, rota a última barreira. rosos da barbaria germânica e a quem
o cristianismo fazia ainda escutar o seu
Foi então que o célebre Roderico se verbo íntimo, esquecido no meio do luxo
apossou da coroa. Os filhos do seu pre- profano do clero e da pompa insensata
decessor Vítiza, os mancebos Sisebuto e do culto exterior. Uma longa paz com as
Ebas, disputaram-lha largo tempo; mas, outras nações tinha convertido a antiga
segundo parece dos escassos monu- energia dos godos em alimento das dis-
mentos históricos dessa escura época, sensões intestinas, e a guerra civil, gas-
cederam por fim, não à usurpação, por- tando essa energia, havia posto em lugar
que o trono gótico não era legalmente dela o hábito das traições covardes, das
hereditário, mas à fortuna e ousadia do vinganças mesquinhas, dos enredos infa-
ambicioso soldado, que os deixou viver mes e das abjeções ambiciosas. O povo,
em paz na própria corte e os revestiu esmagado debaixo do peso dos tributos,
de dignidades militares. Daí, se dermos dilacerado pelas lutas dos bandos civis,
crédito a antigos historiadores, lhe veio prostituído às paixões dos poderosos,
a última ruína na batalha do rio Críssus esquecera completamente as virtudes
ou Guadalete, em que o império gótico
foi aniquilado.

194

guerreiras de seus avós. As leis de Vamba Camilo Ferreira Botelho Castelo
e as expressões de Ervígio no duodécimo Branco nasceu em 1825, em Lisboa (Por-
concílio de Toletum revelam quão fundo tugal), e suicidou-se em 1890. Abando-
ia nesta parte o cancro da degeneração nou o curso de Medicina pela metade.
moral das Espanhas. No meio de tantos Escritor fecundo, Camilo Castelo Branco
e tão cruéis vexames e padecimentos, o conseguia viver exclusivamente da ven-
mais custoso e aborrecido de todos eles da de seus livros, sustentar a sua família
para os afeminados descendentes dos com os direitos da publicação. Escreveu
soldados de Teodorico, de Torismundo, compulsivamente e, por isso, apresenta,
de Teudes e de Leovigildo era o vestir as dentre as suas 63 obras, textos de qua-
armas em defensão daquela mesma pá- lidade duvidosa e cheios de erros, na
tria que os heróis visigodos tinham con- pressa de enviar os originais às editoras.
quistado para a legarem a seus filhos, e
a maioria do povo preferia a infâmia que Ficou conhecido pelas novelas pas-
a lei impunha aos que recusavam defen- sionais, obras em que o leitor acompa-
der a terra natal aos riscos gloriosos dos nha os encontros e desencontros de um
combates e à vida fadigosa da guerra. casal apaixonado, que, ao final da tra-
ma, sempre encontra um final trágico,
Tal era, em resumo, o estado polí- seja na morte, na loucura ou na solidão.
tico e moral da Espanha na época em Curioso notar é que a vida de Camilo
que aconteceram os sucessos que va- Castelo Branco, se por acaso fosse es-
mos narrar. crita, daria uma grande novela como as
escritas por ele. Casou-se cedo e aban-
Camilo Castelo Branco donou a esposa e sua filha; envolveu-se
com uma freira; ingressou no seminário;
Camilo Castelo Branco, gravura de ao sair do seminário, envolveu-se com
Francisco Pastor uma mulher casada, cujo marido os
denunciou, resultando em sua prisão,
onde escreveu Amor de perdição. Em
seguida, fica cego devido a uma sífilis e
suicida-se aos 65 anos.

Principais obras:
Romance

• Eusébio Macário (1879)
• A Corja (1880)
• A Brasileira de Prazins (1882)
• Vulcões de Lama (1886)

•Poesia
Nas trevas (1890)

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Novela nias do coração que ainda não sonha
em frutos, e todo se embalsama no
• Onde Estáa Felicidade (1856) perfume das flores! Dezoito anos! O
• Amor de Perdição (1862) amor daquela idade! A passagem do
• Amor de Salvação (1864) seio da família, dos braços de mãe,
• A Doida do Candal (1867) dos beijos das irmãs para as carícias
mais doces da virgem, que se lhe abre
Abaixo temos um trecho do livro ao lado como flor da mesma sazão e
Amor de Perdição: dos mesmos aromas, e à mesma hora
da vida! Dezoito anos!... E degreda-
INTRODUÇÃO do da pátria, do amor e da família!
Nunca mais o céu de Portugal, nem
Folheando os livros de antigos as- liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem
sentamentos, no cartório das cadeias reabilitação, nem dignidade, nem um
da Relação do Porto, li, no das entradas amigo!... É triste!
dos presos desde 1803 a 1805, a folhas
232, o seguinte: O leitor decerto se compungiria; e
a leitora, se lhe dissessem em menos
Simão Antônio Botelho, que assim de uma linha a história daqueles de-
disse chamar-se, ser solteiro, e estudante zoito anos, choraria!
na Universidade de Coimbra, natural da
cidade de Lisboa, e assistente na ocasião Amou, perdeu-se, e morreu amando.
de sua prisão na cidade de Viseu, idade É a história. E história assim po-
de dezoito anos, filho de Domingos José derá ouvi-la a olhos enxutos a mu-
Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Cal- lher, a criatura mais bem formada
deirão Castelo Branco; estatura ordinária, das branduras da piedade, a que por
cara redonda, olhos castanhos, cabelo e vezes traz consigo do céu um reflexo
barba preta, vestido com jaqueta de ba- da divina misericórdia?! Essa, a minha
etão azul, colete de fustão pintado e calça leitora, a carinhosa amiga de todos
de pano pedrês. E fiz este assento, que as-­ os infelizes, não choraria se lhe dis-
sinei – Filipe Moreira Dias. sessem que o pobre moço perdera
honra, reabilitação, pátria, liberdade,
A margem esquerda deste assento irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da
está escrito: primeira mulher que o despertou do
seu dormir de inocentes desejos?!
Foi para a Índia em 17 de março de Chorava, chorava! Assim eu lhe
1807. soubesse dizer o doloroso sobressal-
to que me causaram aquelas linhas,
Não seria fiar demasiadamente na de propósito procuradas, e lidas com
sensibilidade do leitor, se cuido que o amargura e respeito e, ao mesmo
degredo de um moço de dezoito anos tempo, ódio. Ódio, sim... A tempo ve-
lhe há de fazer dó. rão se é perdoável o ódio, ou se antes

Dezoito anos! O arrebol dourado e
escarlate da manhã da vida! As louça-

196

me não fora melhor abrir mão desde Segue abaixo um trecho do livro
já de uma história que me pode acarear As pupilas do senhor reitor:
enojos dos frios julgadores do coração, e
das sentenças que eu aqui lavrar contra a José das Dornas era um lavrador
falsa virtude de homens, feitos bárbaros, abastado, sadio e de uma tão feliz dis-
em nome da sua honra. posição de gênio, que tudo levava a rir;
mas desse rir natural, sincero e despre-
Júlio Diniz ocupado, que lhe fazia bem, e não do
rir dos Demócritos de todos os tempos
Joaquim Guilherme Gomes Coelho - rir céptico, forçado, desconsolador,
usava o pseudônimo Júlio Diniz, nasceu que é mil vezes pior do que o chorar.
em 1839, em Porto (Portugal), e faleceu
em 1871. Seus romances valorizaram a Em negócio de lavoura, dava, como
vida na cidade e no campo. Criou per- se costuma dizer, sota e ás ao mais
sonagens idealizadas, apaixonadas, pintado. Até o Sr. Morais Soares teria
que enfrentavam conflitos em seus re- que aprender com ele. Apesar dos seus
lacionamentos, mas que conseguiam sessenta anos, desafiava em robustez e
resolvê-los ao longo da trama, culmi- atividade qualquer rapaz de vinte. Era-
nando em um final feliz. É um mestre -lhe familiar o canto matinal do galo, e
na descrição dos ambientes. Sua obra é o amanhecer já não tinha para ele se-
considerada de transição para o Realis- gredos não revelados. O sol encontra-
mo, pois algumas de suas personagens va-o sempre de pé, e em pé o deixava
apresentam imperfeições. ao esconder-se.

Principais obras: Estas qualidades, juntas a uma
longa experiência adquirida à cus-
•Poesia ta de muito sol e muita chuva em
Poesias (1873- 1874) campo descoberto, faziam dele um
lavrador consumado, o que, diga-
•Teatro -se a verdade, era confessado por to-
Teatro Inédito (1846-1847) 3 volu- dos, sem esforço de malquerenças e
mes murmurações.

•Contos Diz-se que quem mais faz menos
Serões da Província (1870) merece e que mais vale quem Deus
ajuda do que quem muito madruga,
Romance e não sei o que mais; será assim; mas
desta vez parecia que se desmentira
• As Pupilas do Senhor Reitor (1867) o ditado, ou pelo menos que o fato
• A Morgadinha dos Canaviais (1868) das madrugadas não excluíra o auxílio
• Uma Família Inglesa (1868) providencial, porque José das Dornas
• Os Fidalgos da Casa Mourisca (1872) prosperava a olhos vistos. Ali por fins
de agosto era um tal de entrar de car-
ros de milho pelas portas do quinteiro

197

dentro! S. Miguel mais farto poucos se para suceder ao pai no amanho das ter-
gabavam de ter. Que abundância por ras e na direção dos trabalhos agrícolas.
aquela casa! Ninguém era pobre com
ele; louvado Deus! Assim o entendera José das Dor-
nas, que foi amestrando o seu pri-
Como homem de família, não ha- mogênito e preparando-o para um
via também que por a boca em José dia abdicar nele a enxada, a foice, a
das Dornas. Em perfeita e exemplar vara, a rabiça, e confiar-lhe a chave
harmonia vivera vinte anos com sua do cabanal, tão repleto em ocasiões
mulher, e então, como depois que de colheita.
viuvara, manifestou sempre pelos
filhos uma solicitude, não revelada Daniel já tinha condições físicas e
por meiguices – que lhe não estavam morais muito diferentes. Era o avesso
no gênio – mas que, nas ocasiões, se do irmão e por isso incapaz de tomar o
denunciava por sacrifícios de fazerem mesmo rumo de vida.
hesitar os mais extremosos.
Possuía uma constituição quase de
Eram dois estes filhos – Pedro e mulher. Era alvo e louro, de voz efemi-
Daniel. Pedro, que era o mais velho, nada, mãos estreitas e saúde vacilante.
não podia negar a paternidade. Ver o
pai era vê-lo a ele; a mesma expressão O sangue materno girava-lhe mais
de franqueza no rosto, a mesma ro- abundante nas veias, do que o sangue
bustez de compleição, a mesma exce- cheio de força e vida, ao qual José das
lência de musculatura, o mesmo tipo, Dornas e Pedro deviam aquela invejá-
apenas um pouco mais elegante, por- vel construção.
que a idade não viera ainda curvatura
de certos contornos e ampliar-lhe as Votar Daniel à vida dos campos
dimensões transversais, como já no seria sacrificá-lo. Apertava-se o co-
pai acontecia. Conservava-se ainda ração do pobre pai, ao lembrar-se
correto aquele vivo exemplar do Hér- que os sóis ardentes de julho ou
cules escultural. os tufões regelados de dezembro
haviam de encontrar sem abrigo
Pedro era, de fato, o tipo de be- aquela débil criança, que mais se
leza masculina, como a compreen- dissera nascida e criada em berços
diam os antigos. O gosto moderno almofadados e sob cortinados de
tem-se modificado, ao que parece, cambraia, do que no leito de pinho
exigindo nos seus tipos de adoção o e na grosseira enxerga aldeã.
que quer que seja de franzino e deli-
cado, que não foi por certo o carac- E desde então, desde que pensou
terístico dos mais perfeitos homens nisto, uma ideia fixa principiou a labora-
de outras eras. ra no cérebro daquele pai extremoso e a
monopolizar-lhe as poucas horas que o
A organização talhara Pedro para a trabalho não absorvia.
vida de lavrador, e parecia apontá-lo
De vez em quando o encontravam
198 os amigos deveras preocupados, o que,
sendo nele para estranhar, excitava

curiosidades e receio e desafiava inter- mesmo ao desamparo de todo, se a
rogações. sorte lhes roubar o pai... esses, sim, é
que não sei como podem ter um mo-
O reitor foi um dos que mais se mento de alegria; e contudo encon-
importou com a preocupação do trá--los nas festas, que é um louvar a
nosso homem. Deus.

Era este reitor um padre velho e — É assim, Sr. Reitor, eu sei que os
dado, que há muito conseguira na pa- há por aí mais infelizes do que eu, mas...
róquia transformar em amigos todos
os fregueses. Tinha o Evangelho no — Mas então, quem tem saúde
coração – o que vale muito mais ainda e a quem Deus não falta com o pão
do que tê-lo na cabeça. nosso cotidiano, só deve erguer as
mãos ao céu para lhe tecer louvores.
A qualidade de egresso não tolhia Mareia a tua vida, que teus filhos não
os ser liberal de convicção. Era-o como são nenhuns aleijados para precisa-
poucos. rem pedir esmolas.

— Ó homem de Deus – disse, pois, — Graças a Deus que não são,
o reitor um dia, resolvido deveras a Sr. Reitor. O Pedro, sobretudo, não
sondar as profundezas daquele mis- me dá cuidados. O Senhor fê-lo
tério – que tens tu há tempos a esta robusto e fero; é um homem para
parte? Que empresa é essa em que me o trabalho; e quem pode trabalhar
andas a cismar há tantos dias? não precisa de outra herança. Pelo
trabalho, e com a ajuda de Deus,
— Que quer, Sr. Padre Antônio? fiz eu esta minha casa, que não é
Um homem de família tem sempre das piores, vamos; ele, com menos
em que cuidar; tem a sua vida e tem custo, a pode agora aumentar, se
a dos filhos. quiser. Mas o Daniel já não é as-
sim. Aquilo é outra mãe – o Senhor
Foi a resposta que obteve. a chame lá. Um dia de ceifa é bas-
— Ora essa! – insistiu o padre – Bem tante para mo matar. É a sorte dele
alegre te via eu, em tempos mais aza- que me dá cuidado.
dos para tristezas, e bem alegres vejo
muitos com bem outras razões para o – Então é só isso? Ora valha-te
contrário. Mas tu! Que mais queres? Deus! É verdade. O pequeno é fraqui-
Tens bons haveres para deixares a to e decerto não pode com o trabalho
teus filhos; mas, quando não os tives- do campo, mas... para que queres tu o
ses, sempre eram dois rapazes; e dei- dinheiro, José? Acaso não terás alguns
xa lá, José; um homem é outra coisa centos de mil-réis ao canto da caixa
que não é uma mulher; onde quer se para pôr o rapaz nos estudos? Não po-
arranja; toda a terra é sua; em toda a des fazer dele um lavrador? Fá-lo pa-
parte encontra o que fazer, e qualquer dre, letrado ou médico, que não ficarás
trabalho lhe está bem. Agora os po- pobre com a despesa.
bres que vejo por ai com um rancho
de raparigas, coitadinhas, que ficam 199


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