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Published by DCL Play, 2016-01-28 13:47:37

Minimanual de Redação e Literatura

Minimanual de Redação e Literatura

José das Dornas ao ouvir assim rá, acredita; porque, cumprindo cada
formulado o conselho do reitor sorriu um com o seu dever, serão ambos dig-
com a visível satisfação que sempre nos um do outro e prontos apertarão
experimentamos, vendo que um dos as mãos onde quer que se encontrem.
nossos pensamentos favoritos merece E no sentido mundano, julgas tu que
a aprovação de alguém, antes de lho fazes mais feliz Daniel, por o elevares
revelarmos. a uma classe social acima da tua! Aí,
homem, como viver enganado! O
— Nisso mesmo penava eu. Já me quinhão de dores e provações foi in-­
lembrou mandá-lo estudar, mas tinha distintamente repartido por todas as
cá certos escrúpulos. classes, sem privilégio de nenhuma. Há
infortúnio e misérias que causam o tor-
— Escrúpulos! Valha-te não sei mento dos grandes e poderosos, e que
que diga! Pois ainda és desses tem- os pobres e humildes nem experimen-
pos? Que escrúpulos podes ter em tam, nem imaginam sequer. Grande nau
mandar ensinar teus filhos? Fazes- grande tormenta: hás de ter ouvido di-
-me lembrar um tio meu que nunca zer. Sabes que mais José? – concluiu o
permitiu que as filhas aprendessem a reitor – manda-me o rapaz lá por casa,
ler; como se pela leitura se perdesse que eu lhe irei ensinado o pouco que sei
mais gente do que pela ignorância. do latim, e deixa-te de malucar!

— Não é isso, Sr. Padre Antônio, Com estas e idênticas razões foi o
não é isso o que eu quero dizer; mas bom do padre convencendo José das
custa-me dar a meus filhos uma edu- Dornas, que nada mais veementemen-
cação desigual. Vê Vossa Senhoria. São te desejava do que ser convencido - e,
irmãos e, mais tarde, o que tomar me- decorridos oito dias, via-se já Daniel
lhor carreira e se elevar pelo estudo, passar, com os livros debaixo do braço,
há de desprezar o que seguir a vida a caminho da casa do reitor.
do pai, a ponto de que os filhos dum
e doutro quase não se conhecerão: é o REALISMO
que mais vezes se vê. Não é uma injus-
tiça que faço a Pedro a educação que Cesário Verde
der a Daniel?
José Joaquim Cesário Verde nasceu
— Homem de Deus, não há de- em 1855, em Lisboa (Portugal), e fa-
sigualdade verdadeira, senão a que leceu em 1886. Sua poesia retrata do
separa o homem honrado do crimi- cotidiano do povo da zona portuária, os
noso e mau. Essa sim, que é estabe- trabalhadores, vendedores de peixes e
lecida por Deus, que, na hora solene, operários. Seus versos apresentam um
extremará os eleitos dos réprobos. tom triste, melancólico e forte subjeti-
Educa bem os teus filhos em qual- vidade. Antecipando o Simbolismo, faz
quer carreira em que os encaminhes;
educa-os segundo os princípios da
virtude e da honra, e não os distancia-

200

uso de uma poesia sensorial, cheia de E uma família, um ninho de sossego,
sinestesias, onomatopeias e prosopo- Desejava beijar o teu peito.
peias. Morreu precocemente de tuber-
culose, aos 31 anos. Deixou apenas uma Com elegância e sem ostentação,
obra póstuma, O Livro de Cesário Verde, Atravessavas branca, esbelta e fina,
organizada por seu amigo Silva Pinto. Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.
• Principal obra:
O Livro de Cesário Verde “Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!”
Eu que sou feio De repente, parastes embaraçada
Ao pé de um numeroso ajuntamento,

Eu que sou feio, sólido, leal, E eu, que urdia estes frágeis esbocetos,
A ti, que és bela, frágil, assustada, Julguei ver, com a vista de poeta,
Quero estimar-te, sempre, recatada Um pombinha tímida e quieta
Numa existência honesta, de cristal. Num bando ameaçador de corvos pretos.

Sentado à mesa de um café devasso, E foi, então que eu, homem varonil,
Ao avistar-te, há pouco fraca e loura, Quis dedicar-te a minha pobre vida,
Nesta babel tão velha e corruptora, A ti, que és tênue, dócil, recolhida,
Tive tenções de oferecer-te o braço. Eu, que sou hábil, prático, viril.

E, quando socorrestes um miserável, Antero de Quental
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

“Ela aí vem!”disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada; Antero de Quental
E invejava, - talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites, Antero Tarquínio de Quental nasceu
Nessa cintura tenra, imaculada. em 1842, em Ponta Delgada (Portu-
...
Soberbo dia! Impunha-me respeito 201
A limpidez do teu semblante grego;

gal), e faleceu em 1891 (suicídio). E interroguei, cismando, esse la-
Participou diretamente da Questão mento
Coimbrã, defendendo os realistas e
atacando os românticos. Ainda par- Que saía das coisas vagamente…
ticipou das Conferências do cassino Que inquieto desejo vos tortura,
Lisboense (1871), local de encontro Seres elementares, força obscura?
de escritores realistas para desen- Em volta de que ideia gravitais?
volver as suas ideias. Tenta divulgar Mas na imensa extensão onde se
os ideais socialistas em sua obra, esconde
mas acaba se desiludindo. Deprimi- O inconsciente imortal só me res-
do, frustrado, se suicida. Sua poesia ponde
é centrada na união da crítica social
à metafísica, além de refletir sobre Um bramido, um queixume e nada
a morte. É considerado um dos me- mais.
lhores sonetistas portugueses, ao
lado de Camões e Bocage. Com os mortos

Principais obras: Os que amei, onde estão? Idos, dis-
persos,
• Odes Modernas (1865)
• Primaveras Românticas (1871) arrastados no giro dos tufões,
• Sonetos Completos (1886) Levados, como em sonho, entre
visões,
R•aPiroossadse(1E8x2t3in, t1a92L6uze (1892) volu- Na fuga, no ruir dos universos…
1931) 3 E eu mesmo, com os pés também
imersos
mes Na corrente e à mercê dos turbi-
lhões,
Espiritualismo Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos sub-
Junto do mar, que erguia gravemen- mersos…
te Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu
A trágica voz rouca, enquanto o lado
vento De novo, esses que amei vivem
comigo,
Passava como o voo dum pensa- Vejo-os, ouço-os e ouvem-me tam-
mento bém,
Juntos no antigo amor, no amor
Que busca e hesita, inquieto e inter- sagrado,
mitente, Na comunhão ideal do eterno Bem.

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,

202

Eça de Queirós -se mais com o coletivo do que o indi-
vidual. São dessa fase: O crime do padre
Eça de Queirós Amaro (denúncia da hipocrisia do cle-
ro), O primo Basílio (triângulo amoroso)
José Maria Eça de Queirós nasceu em e Os Maias (obra complexa em que fala
1845, em Povoa de Varzim (Portugal), e de incesto e decadência da sociedade
faleceu em 1900. Embora seja amigo de
Antero de Quental, não se envolveu com •portuguesa e de seus valores).
a Questão Coimbrã, participando apenas Fase nacionalista: obras em que
das reuniões no Cassino Lisbonense pos- se resgata o passado glorioso de Por-
teriormente. Analisa e critica a hipocrisia tugal. São elas: A cidade e as serras e A
da sociedade burguesa de Portugal. ilustre casa de Ramires.
Detalhista, Eça de Queirós sempre será
conhecido por suas longas descrições Principais obras:
narrativas. Em seus livros, o autor ataca
as instituições aparentemente inaba- • Mistério da Estrada Sintra (1871)
láveis: a igreja, a política, o casamento • O Crime de Padre Amaro (1875)
e a família. A obra de literária de Eça de • O Primo Basílio (1878)
• O Mandarim (1879)
•Queirós é dividida em três fases: • A Relíquia (1887)
Fase romântica: escritor imatu- • Os Maias (1888)
ro, com uma crítica leve. A obra de • A Ilustre Casa de Ramires (1900)
maior destaque desse período é Pro- • A Correspondência de Fradique
•sas Bárbaras (1905).
Fase realista/naturalista: incon- Mendes (1900)
formismo e denúncia da hipocrisia da
sociedade portuguesa, preocupando- • A Cidade e as Serras (1901)
• A Capital (1925)

O primo Basílio

Tinha estado até então no ministério,
em comissão. Era a primeira vez que se
separava de Luísa; e perdia-se já em sau-
dades daquela salinha, que ele mesmo
ajudara a forrar de papel novo nas véspe-
ras do seu casamento, e onde, depois das
felicidades da noite, os seus almoços se
prolongavam em tão suaves preguiças!

E cofiando a barba curta e fina,
muito frisada, os seus olhos iam-se de-
morando, com uma ternura, naqueles
móveis íntimos, que eram do tempo
da manhã; o velho guarda-louça envi-

203

draçado, com as pratas muito tratadas leiro, o seu homem, ia jogar o boston
a gesso-cré, resplandecendo deco- ao club, recebia Jorge com grandes
rativamente; o velho painel a óleo, cautelas e palavras muito exaltadas;
tão querido, que vira desde peque- era enjeitada te no seu corpinho fino
no, onde apenas se percebiam, num e magro havia sempre o cheiro relen-
fundo lascado, os tons avermelhados tado duma pontinha de febre. Jorge
de cobre dum bojo de caçarola e os achava-a romanesca, e censurava-lho.
rosados desbotados dum molho de Ele nunca fora sentimental: os seus
rabanetes! Defronte, na outra parede, condiscipulos, que liam Alfred de Mus-
era o retrato de seu pai: estava vestido set suspirando e desejavam ter amado
à moda de 1830, tinha a fisionomia re- Margarida Gautier, chamavam-lhe pro-
donda, o olho luzidio, o beiço sensual; seirão, burguês: Jorge ria; não lhe fal-
e sobre a sua casaca abotoada reluzia tava um botão nas camisas, era muito
a comenda de Nossa Senhora da Con- escarolado, admirava Luis Figuier, Bas-
ceição. Fora um antigo empregado do tiat e Castilho, tinha horror a dívidas, e
Ministério da Fazenda, muito diverti- sentia-se feliz.
do, grande tocador de flauta. Nunca o
conhecera, mas a mamã afirmava-lhe Quando sua mãe morreu, porém,
“que o retrato só lhe faltava falar”. Vive- começou a achar-se só: era no inver-
ra sempre naquela casa com sua mãe. no, e o seu quarto nas traseiras da
Chamava-se Isaura: era uma senhora casa, ao sul, um pouco desamparado,
alta, de nariz afilado, muito apreensi- recebia as rajadas de vento na sua
va; bebia ao jantar água quente; e ao prolongação uivada e triste; sobretu-
voltar um dia do Lausperene da Graça do à noite, quando estava debruçado
morrera de repente, sem um ai! sobre o compêndio, os pés no capa-
cho, vinham-lhe melancolias lângui-
Fisicamente, Jorge nunca se pare- das: estirava os braços com o peito
cem com ela. Fora sempre robusto, de cheio dum desejo; quereria enlaçar
hábitos viris. Tinha os dentes admirá- uma cinta fina e doce, ouvir na casa o
veis de seu pai, os seus ombros fortes. frou-frou dum vestido! Decidiu casar.
Conheceu Luísa, no verão, à noite, no
De sua mãe herdara a placidez, o Passeio. Apaixonou-se pelos seus ca-
gênio manso. Quando era estudante belos louros, pela sua maneira de an-
na Politécnica, às oito horas recolhia- dar, pelos seus belos olhos castanhos
-se, acendia o seu candeeiro de la- muito grandes. No inverno seguinte,
tão, abria os seus compêndios. Não foi despachado, e casou. Sebastião, o
frequentava botequins nem fazia seu íntimo amigo, o bom Sebastião,
noitadas. Só duas vezes por semana, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma
regularmente, ia ver uma raparigui- oscilação grave da cabeça, esfregando
ta costureira, a Eufrásia, que vivia ao vagarosamente as mãos:
Borratem, e nos dias em que o Brasi-

204

– Casou no ar! casou um bocado SIMBOLISMO
no ar!
Eugênio de Castro
Mas Luísa, a Luisinha, saiu muito
boa dona de casa; tinha cuidados Eugênio de Castro e Almeida nas-
muito simpáticos nos seus arran- ceu em 1869, em Coimbra, e faleceu
jos; era asseada, alegre como um em 1944. Formado pela Faculdade de
passarinho, como um passarinho Letras de Coimbra e criador de algumas
amiga do ninho e das cadeias do revistas literárias, Eugênio de Castro é o
macho: e aquele serzinho louro e introdutor do Simbolismo em Portugal
meigo veio dar à sua casa um en- com o livro Oaristor (1890). Com forte in-
canto seno. fluência de Verlaine, Eugênio de Castro é
um grande defensor da “arte pela arte”,
É um anjinho cheio de dignidade! mas também valoriza os versos sem a
— dizia então Sebastião, o bom Sebas- métrica rigorosa. Cheia de musicalidade,
tião, com a sua voz profunda de basso. sua poesia é bem sugestiva, imagética e
sensorial, trabalhando principalmente
– Estavam casados havia três as aliterações e as rimas raras.
anos. Que bom que tinha sido! Ele
próprio melhorara; achava-se mais Principais obras:
inteligente, mais alegre... E recor-
dando aquela existência fácil e doce, • Horas (1891)
soprava o fumo do charuto, a perna • Interlúdio (1894)
traçada, a alma dilatada, sentindo-se • Silva (1894)
tão bem na vida como no seu jaque- • Belkiss(1894)
tão de flanela! • Tirésias (1895)
• Sagramor (1895)
– Ah! — fez Luísa de repente, toda • Salomé e Outros Poemas (1896)
admirada para o jornal, sorrindo. • Constança (1900)
• Canções Desta Negra Vida (1922)
– Que é? • Últimos Versos (1938)
– É o primo Basílio que chega!
E leu alto, logo: Um Sonho
“Deve chegar por estes dias a Lis- Na messe, que enlourece, estreme-
boa, vindo de Bordéus, o Sr. Basílio ce a quermesse...
de Brito, bem conhecido na nossa so- O sol, celestial girassol, esmorece...
ciedade. S. Exa que, como é sabido, E as cantilenas de serenos sons
tinha partido para o Brasil, onde se amenos
diz reconstituíra a sua fortuna com Fogem fluidas, fluindo a fina flor dos
um honrado trabalho, anda viajando fenos...
pela Europa desde o começo do ano
passado. A sua volta à capital é um
verdadeiro júbilo para os amigos de
S. Exa que são numerosos”.

205

As estrelas em seus halos Em Suaves,
Brilham com brilhos sinistros... Suaves, lentos lamentos
Cornamusas e crotalos, De acentos
Cítolas, cítaras, sistros, Graves,
Soam suaves, sonolentos, Suaves...
Sonolentos e suaves,
Em Suaves, Esmaece na messe o rumor da quer-
Suaves, lentos lamentos messe...
De acentos
Graves - Não ouves este ai que esmaiece e
Suaves... esmorece?

Flor! enquanto na messe estremece É um noivo a quem fugiu a Flor de
a quermesse olhos amenos,

E o sol, o celestial girassol, esmorece, E chora a sua morte, absorto, à flor
Deixemos estes sons tão serenos e dos fenos... [...]
amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos Antônio Nobre
fenos...
Antônio Pereira Nobre nasceu em 1867,
Soam vesperais as Vésperas... em Porto (Portugal), e faleceu em 1900. Sua
Uns com brilhos de alabastros, obra é cheia de lamento, tristeza devido à
Outros louros como nêsperas, dor da tuberculose, que o matou. Há uma
No céu pardo ardem os astros... preferência pelo soneto, versos longos e
gosto pelo decassílabo ou o alexandrino.
Como aqui se está bem! Além freme
a quermesse... Principais obras:

- Não sentes um gemer dolente que • Só (1892)
esmorece? • Despedidas (1902)
• Primeiros Versos (1921)
São os amantes delirantes que em
amenos Memória à minha mãe, ao meu Pai

Beijos se beijam, Flor! à flor dos fres- Aquele que partiu no brigue Boa
cos fenos... Nova

As estrelas em seus halos E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Brilham com brilhos sinistros... Aquele santo (que é velhinho e lá
Cornamusas e crotalos, corcova)
Cítolas,cítaras,sistros, Uma vez, uma vez, linda menina
Soam suaves, sonolentos, amou:
Sonolentos e suaves, Tempos depois, por uma certa lua-
-nova,
206

Nasci eu... O velhinho ainda cá ficou, Que são virgens antes e depois do
Mas ela disse: – “Vou, ali adiante, à parto!
Cova,
António, e volto já...” E ainda não Num berço de prata, dormia deita-
voltou! do,
António é vosso. Tomai lá a vossa
obra! Três moiras vieram dizer-lhe o seu
“Só” é o poeta-nato, a lua, o santo, fado
o cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais (E abria o menino seus olhos tão
do que o escrever... doces):
Lede-o e vereis surgir do Poente as
idas mágoas, “Serás um Príncipe! mas antes... não
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas fosses.”
águas,
E sobe aos alcantis para o tornar a Sucede, no entanto, que o Outono
ver! veio

Memória E, um dia, ela resolve ir dar um pas-
seio.
Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-
-os-Montes, Calcou as sandálias, tocou-se de
flores,
Em terras de Borba, com torres e
pontes. Vestiu-se de Nossa Senhora das Se-
nhoras:
Português antigo, do tempo da
guerra, “Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
António e já volto...” E não voltou
Levou-o o Destino pra longe da ainda!
terra. Vai o Esposo, vendo que ela não
voltava,
Passaram os anos, a Borba voltou, Vaí lá ter com ela, por lá se quedava.
Que linda menina que, um dia, en- Ó homem egrégio! de estirpe divina,
controu! De alma de bronze e coração de
Que lindas fidalgas e que olhos cas- menina!
tanhos! Em vão corri mundos, não vos en-
E, um dia, na Igreja correram os ba- contrei
nhos. Por vales que fora, por eles voltei.
Mais tarde, debaixo dum signo mo- E assim se criou um anjo, o Diabo, a
fino, lua;
Pela lua-nova, nasceu um menino. Ai corre o seu fado! a culpa não é
O mães dos Poetas! sorrindo em seu sua!
quarto, Sempre é agradável ter um filho Vir-
gílio,
Ouvi estes carmes que eu compus
no exílio,
Ouvi-os vós todos, meus bons Por-
tugueses!

207

Pelo cair das folhas, o melhor dos Ao longo da viola, morosa..
meses,
Antônio Patrício
Mas, tende cautela, não vos faça
mal... Antônio Patrício nasceu em
1878, em Porto (Portugal), e fale-
Que é o livro mais triste que há em ceu em 1930. Estudou matemática
Portugal! e medicina, e exerceu a carreira de
diplomata. Escritor versátil, produ-
Camilo Pessanha ziu dramas e poemas. Seus versos
são rigorosamente metrificados,
Camilo Almeida Pessanha nasceu em apresentam uma forte tragicidade,
1867, em Coimbra (Portugal), e faleceu em assim como uma forte influência de
1926. Formou-se em Direito e atuou como Nietzche.
professor em Macau e na China. No Oriente,
viciou-se em ópio. Fortemente influenciado Principais obras:
pelo poeta francêsVerlaine, Camilo Pessanha Poesia
é um dos maiores representantes do Simbo-
lismo, mostrando um pessimismo diante do • Oceano (1905)
mundo, desilusão e solidão, além de uma • Poesias (1942)
riqueza de sugestões sonoras. Há em, sua
poesia, um desencanto com a sua pátria. •Prosa e verso
O Fim (1909)
Principais obras:
•Contos
• Clepsidra (1920) – seu único livro Serão Inquieto (1910)
• China (1944 – obra póstuma)
Teatro
Viola chinesa
• Pedro e Cru (1910)
Ao longo da viola morosa • Dinis e Isabel (1919)
Vai adormecendo a parlenda • D. João e a Máscara (1924) – fábula
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa. trágica

Sem que o meu coração se prenda, De que me rio eu?... Eu rio horas e
Enquanto nasal, minuciosa, horas
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda. só para me esquecer, para me não
Mas que cicatriz melindrosa sentir.
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda Eu rio a olhar o mar, as noites e as
Numa agitação dolorosa? auroras;

208 passo a vida febril inquietantemen-
te a rir.

Eu rio porque tenho medo, um ter- Teatro
ror vago
• O Gebo e a Sombra (1923)
de me sentir a sós e de me inter- • O Rei Imaginácio (1923)
rogar; • O Doido e a Morte (1923)
• O Arejão (1929)
rio pra não ouvir a voz do mar pres-
sago Húmus

nem a das coisas mudas a chorar. Trago comigo um pó capaz de doirar
a própria eternidade. Não sei donde me
Rio pra não ouvir a voz que grita vem, nem por que nome lhe hei de cha-
dentro de mim mar. Todas as noites, sufoco diante do
negrume – ele reanima-me. Insiste dian-
o mistério de tudo o que me cerca te das forças desabaladas e da imagem
e a dor de não saber porque vivo da morte. Quero a vida! quero-a vulgar,
assim. tulmutuária e cega. Inerte não! incons-
ciente não! Tenho-lhe horror. (...)
É o poema de quem rasga os versos
porque os sentiu demais para os – Eu não vivi. Que importa, vais mor-
dizer rer! Para sempre, para todo o sempre, o
e os ouve nas ondas tão dispersos mesmo buraco donde não sai rumor.
como os sonhos que teve e viu Escuta isto: donde não sai rumor. Repe-
morrer te isto: para todo o sempre. Nenhuma
explicação te é lícita, nenhuma transa-
Viver é ir morrendo a beijar a luz. ção é possível. A morte não espera nem
atende. É estúpida. Primeiro é estúpida,
Raul Brandão depois é incompreensível. É tremenda
porque contém em si mistificação ou
Raul Germano Brandão nasceu em beleza. Absurdo ou uma beleza com
1867, em Foz do Douro (Portugal), e que não posso arcar. O nada ou uma
faleceu em 1930. Crítica aos valores coisa que a minha imaginação não
materiais burgueses e uma poesia com atinge. Se é o mistério, e se desvenda
preocupação social. Cantava a dor dos dum golpe, apavora-me. Se é o nada,
humildes através de suas prosas poéti- repugna-me. Apenas um minuto, e lá
cas, com uma beleza peculiar. em cima as mesmas estrelas, e outros
vagalhões de estrelas... Para ela tanto
Principais obras: vale um segundo como um século, car-
rega um ser inútil ou um ser delicado
•Romance com a mesma indiferença para o túmu-
História de Um Palhaço – Vida e lo. Tens passado a vida a esperá-la. Que
diário de K. Maurício (1896)
209
• A Farsa (1903)
• Os Pobres (1906)
• O Pobre de Pedir (1931)

outra coisa fizeste na vida senão esperar • Um Serão nas Laranjeiras (1904)
a morte? É a tua maior preocupação. • Rosas de Todo Ano (1907)
Debalde arredamos: a vida não é se- • O Reposteiro Verde (1912)
não uma constante absorção na morte. • Sóror Mariana (1915)
Então para que nasci? Para ver isto e • Carlota Joaquina (1919)
nunca mais ver isto? Para adivinhar um • Frei Antônio das Chagas (1947)
sonho maior e nunca mais sonhar? Para
pressentir o mistério e não desvendar o A ceia dos cardeais
mistério? Levo dias, levo noites a habi-
tuar-me a esta ideia e não posso. Tenho- Uma grande sala, no Vaticano. Pare-
-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de des cobertas de panos de Arras – Amplos
todo a porta do sepulcro. Estou nas tuas tetos de caixão, com apainelamentos de
mãos... Adeus sol que não te torno a ver, talha doirada – Um retrato de cardeal ver-
e água que te não torno a ver. Árvores, melho, sobre o fogão – À D. baixa, o cra-
adeus árvores que minha mãe dispôs; vo, o violoncelo e o violino de um terceto
adeus pedra gasta pelos teus passos e clássico – Estantes altas de coro – Luzes
que meus passos ajudaram a gastar. Para – Ao fundo, largo tamborete onde re-
sempre! Para todo o sempre! Tenho-te pousam as capas, os chapéus, os bastões
horror e odeio-te. Interrompes os meus - À E. baixa, grande armário pesado de
cálculos. És o maior dos absurdos. Ver baixela de oiro e prata lavrada – Quase a
para não ver, ouvir para não ouvir, viver meio, bufete onde ceiam os três cardeais:
para morrer!... toalha de holandilha, picada de rendas;
serviço de Sèvres, azul e oiro; cristais.
Júlio Dantas
CARDEAL GONZAGA, CARDEAL
Julio Dantas nasceu em 1876, em RUFO, CARDEAL DE MONTMORENCY,
Lagos (Portugal), e faleceu em 1962. sentados ao bufete, ceando; os fâmu-
Formou-se em Medicina, porém exer- los, vestidos de verde e prata, servem-
ceu as carreiras de deputado, professor, -nos, de joelhos. 
diplomata e ministro de Estado. Criou
obras em todos os gêneros. Alguns críti- CARDEAL RUFO, visivelmente agas-
cos comentam que possui um estilo re- tado.
trógrado. Descreve o passado histórico
de Portugal. É um dos autores mais lidos Será já amanhã!
e traduzidos em outros países.
CARDEAL RUFO, a outro fâmulo
Principais obras: Xerez.

• A Severa (1901) Continuando, a de MONTMORENCY:
• A Ceia dos Cardeais (1902) Roma! Roma! Que viu pela pri-
• Paço de Veiros (1903) meira vez,

210

Benedito XIV, um para receber Vamos nós ao faisão?
Conselhos de Inglaterra e cartas de Trinchando, com galanteria:
Voltaire! Se permitem, eu sirvo. É um faisão
doirado,
CARDEAL DE MONTMORENCY, Mau político, sim, mas todo embal-
grandioso samado
De trufas. Nunca fez encíclica ne-
As cartas de Voltaire honram! nhuma;
Não usou solidéu por sobre a áurea
CARDEAL RUFO, num sorriso de pluma,
desdém E, se um dia assistisse a qualquer
consistório,
É natural. Dormiria como eu – e como
Fala como francês. S. Gregório.

CARDEAL DE MONTMORENCY, com MODERNISMO
dignidade
Fernando Pessoa
Falo como cardeal!
Fernando Pessoa
CARDEAL GONZAGA, intervindo
de novo Fernando Antônio Nogueira Pessoa
nasceu em 1888, em Lisboa (Portugal),
Mas, perdão... Não será política de- e faleceu em 1935. Um dos maiores e
mais mais completos poetas da literatura
do século XX. Foi um dos fundadores
Para uma ceia alegre? Enfim, três da revista Orpheu, marco inicial do
cardeais Modernismo português. Desde criança
criava seus heterônimos, ou seja, poe-
Não salvam Roma ... tas inventados por Pessoa, com outro

CARDEAL RUFO, numa grande atitude 211
Pois, em minha consciência,
Bastava um só para salvar!

CARDEAL DE MONTMORENCY, com
ironia

Vossa Eminência?

CARDEAL GONZAGA, conciliand­o
docemente

Deixemos isso a Deus. E, na divina mão.
Roma repousará

CARDEAL DE MONTMORENCY, num
sorriso

nome, outra biografia e outro estilo de • Poesias Inéditas (1955-1956)
escrita. Os principais são: • Quadras ao Gosto Popular (1965)
• Antinous (1918)
– Alberto Caeiro: camponês, rude, que • 35 Sonetos (1918)
morreu de tuberculose ainda jovem. Res- • Inscriptions (1920)
gata o bucolismo de Virgílio. Critica a meta-
física, usa uma linguagem simples e acredi- •Prosa
ta na possibilidade de conhecer o mundo Páginas de Doutrina Estética
por meio dos sentidos (sensacionismo). (1946)

– Ricardo Reis: médico, influenciado • A Nova Poesia Portuguesa (1944)
pela estética neoclássica, tem um ape- • Análise da Vida Mental Portuguesa
go à vida campestre, mais na linha dos
árcades. Resgata temas da cultura he- (1966)
lênica como a passagem do tempo, da
vida, a busca pelo prazer e o carpe diem. • Apologia do Paganismo (1966)
• Páginas Íntimas (1966)
– Álvaro de Campos: engenheiro • Auto-Interpretação (1966)
inativo, influenciado pelo Futurismo • Páginas de Estética (1966)
italiano de Marinetti. Poeta que exalta o • Teoria e Crítica Literária (1966)
homem moderno, as máquinas, o pro- • Textos Filosóficos (1968 – 2 volumes)
gresso, o automóvel, a eletricidade, o
trem e o avião. Escreve longos poemas O guardador de rebanhos
com versos livres, além de fazer muito Alberto Caeiro
uso das onomatopeias.
Sou um guardador de rebanhos
Cabe lembrar que, além dos heterô- O rebanho é os meus pensamentos
nimos, Fernando Pessoa ainda produziu E os meus pensamentos são todos
poemas ortônimos, ou seja, assinados sensações.
por seu próprio nome. O Fernando Pessoa Penso com os olhos e com os ou-
“por ele mesmo” é nacionalista, sempre vidos
defendendo a história e glória de sua pá- E com as mãos e os pés
tria lusitana, além de sempre refletir sobre E com o nariz e a boca.
a linguagem e o papel do poeta. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sen-
Principais obras: tido.
Poesia Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
• Mensagem (1934) E me deito ao comprido na erva,
• Poesias de Fernando Pessoa (1942) E fecho os olhos quentes,
• Poesias de Álvaro de Campos (1944) Sinto todo o meu corpo deitado na
• Poemas de Alberto Caieiro (1946) realidade,
• Odes de Ricardo Reis (1946) Sei a verdade e sou feliz.
• Poemas Dramáticos (1952)

212

Mar português Brilha, porque alta vive
Fernando Pessoa 14/02/1933

Ó mar salgado, quanto do teu sal Quero dos deuses
São lágrimas de Portugal! Ricardo Reis
Por te cruzarmos, quantas mães
choraram, Quero dos deuses só que me não
Quantos filhos em vão rezaram! lembrem.

Quantas noivas ficaram por casar Serei livre – sem dita nem desdita,
Para que fosses nosso, ó mar! Como o vento que é a vida
Valeu a pena? Tudo vale a pena Do ar que não é nada.
Se a alma não é pequena. O ódio e o amor iguais nos buscam;
ambos,
Quem quer passar além do Bojador Cada um com seu modo, nos opri-
Tem que passar além da dor. mem.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, A quem deuses concedem
Mas nele é que espelhou o céu. Nada tem liberdade.

Autopsicografia Saudaçao ao walt whitman
Fernando Pessoa Álvaro de Campos)

O poeta é um fingidor. Portugal Infinito, onze de junho de
Finge tão completamente mil novecentos e quinze...
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
E os que leem o que escreve, De aqui de Portugal, todas as épocas
Na dor lida sentem bem, no meu cérebro,
Não as duas que ele teve, Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão
Mas só a que eles não têm. em Universo,
E assim nas calhas de roda Eu, de monóculo e casaco exagera-
Gira, a entreter a razão, damente cintado,
Esse comboio de corda Não sou indigno de ti, bem o sabes,Walt,
Que se chama coração. Não sou indigno de ti, basta saudar-
-te para o não ser...
Para ser grande Eu tão contíguo à inércia, tão facil-
Ricardo Reis mente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e com-
Para ser grande, sê inteiro: nada preendo-te e amo-te,
Teu exagera ou exclui. E embora te não conhecesse, nasci-
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és do pelo ano em que morrias,
No mínimo que fazes. Sei que me amaste também, que me
Assim em cada lago a lua toda conheceste, e estou contente.

213

Sei que me conheceste, que me meça a andar a vapor,
contemplaste e me explicaste, Milton-Shelley do horizonte da

Sei que é isso que eu sou, quer em Eletricidade futura! incubo de todos
Brooklyn Ferry dez anos antes de eu os gestos
nascer,
Espasmo pra dentro de todos os
Quer pela Rua do Ouro acima pen- objetos-força,
sando em tudo que não é a Rua do
Ouro, Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares...
E conforme tu sentiste tudo, sinto [...]
tudo, e cá estamos de mãos dadas,
Almada Negreiros
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas,
dançando o universo na alma. José Sobral de Almada Negreiros
nasceu em 1893, em Lisboa (Portu-
Ó sempre moderno e eterno, cantor gal), e faleceu em 1970. Queria igua-
dos concretos absolutos, lar Portugal a outras grandes nações
europeias nas artes. Produziu textos
Concubina fogosa do universo dis- futuristas e cubistas em que se utili-
perso, zou de muitas onomatopeias e ver-
sos livres. Era um dos artistas mais
Grande pederasta roçando-te con- respeitados de sua época.
tra a adversidade das coisas,
Principais obras:
Sexualizado pelas pedras, pelas ár-
vores, pelas pessoas, pelas profissões, • O moinho (1913)
• Os outros (1914)
Cio das passagens, dos encontros ca- • 23, 2o Andar (1914)
suais, das meras observações, • Manifesto Anti-Dantas e por Ex-

Meu entusiasta pelo conteúdo de tenso (1915)
tudo,
• K4, O Quadrado Azul (1917)
Meu grande herói entrando pela • Litoral (1917)
Morte dentro aos pinotes, • A Engomadeira (1917)
• Invenção do Dia Claro (1921)
E aos urros, e aos guinchos, e aos • Pierrot e Arlequim (1924)
berros saudando Deus! • Deseja-se Mulher (1928)
• S.O.S (1929)
Cantor da fraternidade feroz e terna • Portugal, Direção Única (1932)
com tudo, • Elogio de Ingenuidade (1936)
• Nome de Guerra (1938)
Grande democrata epidérmico, • Mito – Alegoria –Símbolo (1948)
contágio a tudo em corpo e alma, • Orpheu (1965)

Carnaval de todas as ações, bacanal
de todos os propósitos,

Irmão gêmeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo
que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable de flutu-
ante carnal,
Shakespeare da sensação que co-

214

Canção da Saudade obras da literatura portuguesa. É inte-
grante do grupo modernista português,
Se eu fosse cego amava toda a participando da única edição da revista
gente. Orpheu. Sua obra busca romper com a
tradição literária, ao mesmo tempo em
Não é por ti que dormes em meus que mostra uma insegurança do homem
braços que sinto amor. Eu amo a minha diante da vida. Em sua obra poética, há
irmã gemea que nasceu sem vida, e muita influência do Simbolismo, princi-
amo-a a fantazia-la viva na minha edade. palmente no interesse pela metafísica.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Obras:
Dize onde vives, dize onde móras, dize
se vives ou se já nasceste. Prosa

Eu amo aquela mão branca depen- • Princípio (1912)
durada da amurada da galé que partia • A confissão de Lúcio (1914)
em busca de outras galés perdidas em • Céu em fogo (1915)
mares longíssimos.
•Poemas
Eu amo um sorriso que julgo ter Dispersão (1914)
visto em luz do fim do dia por entre as
gentes apressadas. Ângulo

Eu amo aquelas mulheres formosas Aonde irei neste sem-fim perdido,
que indiferentes passaram a meu lado e Neste mar oco de certezas mortas?
nunca mais os meus olhos pararam nelas. Fingidas, afinal, todas as portas
Que no dique julguei ter cons­
Eu amo os cemitérios – as lágens são truído...
espessas vidraças transparentes, e eu
vejo deitadas em leitos floridos virgens Barcaças dos meus ímpetos tigra-
nuas, mulheres belas rindo-se para mim. dos,

Eu amo a noite, porque na luz fugi- Que oceano vos dormiram de Se-
da as silhuetas indecisas das mulheres gredo?
são como as silhuetas indecisas das
mulheres que vivem em meus sonhos. Partiste-vos, transportes encanta-
Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. dos,

Se eu fosse cego amava toda a De embate, em alma ao roxo, a que
gente. rochedo?...

Mário de Sá-Carneiro – Ó nau de festa, ó ruiva de aven-
tura
Mário de Sá-Carneiro nasceu em
1890, em Portugal, e se suicidou em 215
1916. Sua obsessão pela morte está em
sua obra. Em 1914, publica A confissão
de Lúcio, considerada uma das melhores

Onde, em champanhe, a minha José de Sousa Saramago nasceu
ânsia ia, em 1922, em Azinhaga (Portugal), ainda
vivo. Um dos mais representativos escri-
Quebraste-vos também ou, por tores da atualidade. Produziu em todos
ventura, os gêneros. Ganhou o prêmio Nobel de
Literatura em 1998. Produz histórias que
Fundeaste a Ouro em portos de remontam às raízes do povo português,
alquimia?... mas também aborda temas polêmicos
como a reescritura do Evangelho. Nos
Chegaram à baía os galeões últimos tempos, tem aderido à literatura
Com as sete Princesas que mor- fantástica, uma forma de se fazer críti-
reram. ca social a partir de situações absurdas
Regatas de luar não se correram... dentro das rotinas das grandes cidades.
As bandeiras velaram-se, ora- Por mais que pareçam estranhos even-
ções... tos insólitos como a greve da Morte (In-
termitências da Morte) ou uma epidemia
Detive-me na ponte, debruçado, de cegueira (Ensaio sobre a cegueira) são
Mas a ponte era falsa – e derra- alguns dos elementos de seus romances
deira. para se refletir sobre a condição humana,
Segui no cais. O cais era abaula- este último acabou se tornando filme.
do, Outra característica que chama a atenção
Cais fingido sem mar à sua beira... nas obras de Saramago é a substituição
dos pontos de interrogação, travessões
Por sobre o que Eu não sou há e pontos finais por apenas vírgulas. O
grandes pontes estilo do autor tenta recriar a fluência da
linguagem cotidiana, da fala, que é con-
Que um Outro, só metade, quer tínua, sem interrupções, pausas, típicas
passar da escrita, que requer um outro tempo e
outro ritmo.
Em miragens de falsos horizontes
Um outro que eu não posso acor- Principais obras:
rentar... Poesia

José Saramago • Os Poemas possíveis (1966)
• Provavelmente Alegria (1970)
José Saramago • O ano de 1993 (1975)

Crônicas

• Deste Mundo e do Outro (1971)
• As opiniões que o DL teve (1974)
• Os apontamentos (1977)

216

Teatro de semelhante a um surto epidêmico
de cegueira, provisoriamente designado
• Á Noite (1979) por mal-branco, e desejaria poder contar
• Que farei com este livro? (1980) com o civismo e a colaboração de todos
os cidadãos para estancar a propagação
Contos do contágio, supondo que de um contá-
gio se trata, supondo que não estaremos
• Objecto Quase (1980) apenas perante uma série de coincidên-
• Poética dos cinco sentidos - O Ou- cias por enquanto inexplicáveis. A deci-
são de reunir num mesmo local as pes-
vido (1979) soas afetadas, e, em local próximo, mas
separado, as que com elas tiveram algum
Romance tipo de contato, não foi tomada sem séria
ponderação. O Governo está perfeita-
• O Ano de 1993 (1975) mente consciente das suas responsabili-
• Manual de Pintura e Caligrafia dades e espera que aqueles a quem esta
mensagem se dirige assumam também,
(1977) como cumpridores cidadãos que devem
ser, as responsabilidades que lhes com-
• Levantado do Chão (1980) petem, pensando que o isolamento em
• Memorial do Convento (1982) que agora se encontram representará,
• O Ano da Morte de Ricardo Reis acima de quaisquer outras considera-
ções pessoais, um ato de solidariedade
(1984) para com o resto da comunidade na-
cional. Dito isto, pedimos a atenção de
• A Jangada de Pedra (1986) todos para as instruções que se seguem,
• História do Cerco de Lisboa (1989) primeiro, as luzes manter-se-ão sempre
• O Evangelho segundo Jesus Cristo acesas, será inútil qualquer tentativa de
manipular os interruptores, não fun-
(1991) cionam, segundo, abandonar o edifício
sem autorização significará morte ime-
• Cadernos de Lanzarote (1994) diata, terceiro, em cada camarata existe
• Ensaio sobre a Cegueira (1995) um telefone que só poderá ser utilizado
• A bagagem do viajante (1996) para requisitar ao exterior a reposição de
• Todos os nomes (1997) produtos de higiene e limpeza, quarto, os
• A caverna (2000) internados lavarão manualmente as suas
• O homem duplicado (2002) roupas, quinto, recomenda-se a eleição
• Ensaio sobre a lucidez (2004) de responsáveis de camarata, trata-se
• As intermitências da morte (2005) de uma recomendação, não de uma or-
• As pequenas memórias (2006) dem, os internados organizar-se-ão
• A Viagem do Elefante (2008)
217
Ensaio sobre a cegueira

“Atenção! Atenção! Atenção! O Gover-
no lamenta ter sido forçado a exercer ener-
gicamente o que considera ser seu direito
e seu dever, proteger por todos os meios
as populações na crise que estamos a atra-
vessar, quando parece verificar-se algo

como melhor entenderem, desde que O conto da ilha desconhecida
cumpram as regras anteriores e as que
seguidamente continuamos a enunciar, Um homem foi bater à porta do rei
sexto, três vezes ao dia serão depositadas e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do
caixas de comida na porta de entrada, à rei tinha muitas mais portas, mas aque-
direita e à esquerda, destinadas, respecti- la era a das petições. Como o rei passava
vamente, aos pacientes e aos suspeitos de todo o tempo sentado à porta dos ob-
contágio, sétimo, todos os restos deverão séquios (entenda-se, os obséquios que
ser queimados, considerando-se restos, lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia
para este efeito, além de qualquer comi- alguém a chamar à porta das petições
da sobrante, as caixas, os pratos e os ta- fingia-se desentendido, e só quando o
lheres, que estão fabricados de materiais ressoar contínuo da aldraba de bronze
combustíveis, oitavo, a queima deverá se tornava, mais do que notório, escan-
ser efetuada nos pátios interiores do edi- daloso, tirando o sossego à vizinhança
fício ou na cerca, nono, os internados são (as pessoas começavam a murmurar,
responsáveis por todas as consequências Que rei temos nós, que não atende), é
negativas dessas queimas, décimo, em que dava ordem ao primeiro-secretário
caso de incêndio, seja ele fortuito ou in- para ir saber o que queria o impetran-
tencional, os bombeiros não intervirão, te, que não havia maneira de se calar.
décimo primeiro, igualmente não deve- Então, o primeiro-secretário chamava
rão os internados contar com nenhum o segundo-secretário, este chamava
tipo de intervenção do exterior na hipó- o terceiro, que mandava o primeiro-
tese de virem a verificar-se doenças entre -ajudante, que por sua vez mandava o
eles, assim como a ocorrência de desor- segundo, e assim por aí fora até chegar
dens ou agressões, décimo segundo, em à mulher da limpeza, a qual, não tendo
caso de morte, seja qual for a causa, os ninguém em quem mandar, entreabria
internados enterrarão sem formalidades a porta das petições e perguntava pela
o cadáver na cerca, décimo terceiro, a frincha, Que é que tu queres. O supli-
comunicação entre a ala dos pacientes e cante dizia ao que vinha, isto é, pedia
a ala dos suspeitos de contágio far-se-á o que tinha a pedir, depois instalava-se
pelo corpo central do edifício, o mesmo a um canto da porta, à espera de que o
por onde entraram, décimo quarto, os requerimento fizesse, de um em um, o
suspeitos de contágio que vierem a cegar caminho ao contrário, até chegar ao rei.
transitarão imediatamente para a ala dos Ocupado como sempre estava com os
que já estão cegos, décimo quinto, esta obséquios, o rei demorava a resposta,
comunicação será repetida todos os dias, e já não era pequeno sinal de atenção
a esta mesma hora, para conhecimento ao bem-estar e felicidade do seu povo
dos novos ingressados. O Governo e a Na- quando resolvia pedir um parecer fun-
ção esperam que cada um cumpra o seu damentado por escrito ao primeiro-
dever. Boas noites.” -secretário, o qual, escusado se ria dizer,

218

passava a encomenda ao segundo- gravemente o descontentamento social,
-secretário, este ao terceiro, sucessiva- o que, por seu turno, ia ter imediatas e
mente, até chegar outra vez à mulher negativas consequências no afluxo de
da limpeza, que despachava sim ou obséquios. No caso que estamos narran-
não conforme estivesse de maré. do, o resultado da ponderação entre os
benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei,
Contudo, no caso do homem que ao cabo de três dias, e em real pessoa, à
queria um barco, as coisas não se pas- porta das petições, para saber o que que-
saram bem assim. Quando a mulher da ria o intrometido que se havia negado a
limpeza lhe perguntou pela nesga da encaminhar o requerimento pelas com-
porta, Que é que tu queres, o homem, petentes vias burocráticas. Abre a porta,
em lugar de pedir, como era o costume disse o rei à mulher da limpeza, e ela
de todos, um título, uma condecoração, perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O
ou simplesmente dinheiro, respondeu, rei duvidou por um instante, na verdade
Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não não gostava muito de se expor aos ares
pode vir, está na porta dos obséquios, da rua, mas depois reflexionou que pa-
respondeu a mulher, Pois então vai lá receria mal, além de ser indigno da sua
dizer-lhe que não saio daqui até que ele majestade, falar com um súdito através
venha, pessoalmente, saber o que quero, de uma nesga, como se tivesse medo
rematou o homem, e deitou-se ao com- dele, mormente estando a assistir ao co-
prido no limiar, tapando-se com a manta lóquio a mulher da limpeza, que logo iria
por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dizer por aí sabe Deus o quê, De par em
dele. Ora, isto era um enorme problema, par, ordenou. O homem que queria um
se tivermos em consideração que, de barco levantou-se do degrau da porta
acordo com a pragmática das portas, ali quando começou a ouvir correr os ferro-
só se podia atender um suplicante de lhos, enrolou a manta e pôs-se à espera.
cada vez, donde resultava que, enquanto Estes sinais de que finalmente alguém
houvesse alguém à espera de resposta, vinha atender, e que portanto a praça
nenhuma outra pessoa se poderia apro- não tardaria a ficar desocupada, fizeram
ximar a fim de expor as suas necessida- aproximar-se da porta uns quantos aspi-
des ou as suas ambições. À primeira vista, rantes à liberalidade do trono que por ali
quem ficava a ganhar com este artigo do andavam, prontos a assaltar o lugar mal
regulamento era o rei, dado que, sendo ele vagasse. O inopinado aparecimento
menos numerosa a gente que o vinha in- do rei (nunca uma tal coisa havia sucedi-
comodar com lamúrias, mais tempo ele do desde que ele andava de coroa na ca-
passava a ter, e mais descanso, para rece- beça) causou uma surpresa desmedida,
ber, contemplar e guardar os obséquios. não só aos ditos candidatos mas também
À segunda vista, porém, o rei perdia, e à vizinhança que, atraída pelo repentino
muito, porque os protestos públicos, ao alvoroço, assomara às janelas das casas,
notar-se que a resposta estava a tardar no outro lado da rua. A única pessoa que
mais do que o justo, faziam aumentar
219

não se surpreendeu por aí além foi o guntou o rei disfarçando o riso, como se ti-
homem que tinha vindo pedir um bar- vesse na sua frente um louco varrido, dos
co. Calculara ele, e acertara na previ- que têm a mania das navegações, a quem
são, que o rei, mesmo que demorasse não seria bom contrariar logo de entrada,
três dias, haveria de sentir-se curioso A ilha desconhecida, repetiu o homem,
de ver a cara de quem, sem mais nem Disparate, já não há ilhas desconhecidas,
menos, com notável atrevimento, o Quem foi que te disse, rei, que já não há
mandara chamar. ilhas desconhecidas, Estão todas nos ma-
pas, Nos mapas só estão as ilhas conhe-
Repartido pois entre a curiosidade cidas, E que ilha desconhecida é essa de
que não pudera reprimir e o desagrado que queres ir à procura, Se eu te pudesse
de ver tanta gente junta, o rei, com o dizer, então não seria desconhecida, A
pior dos modos, perguntou três pergun- quem ouviste tu falar dela, perguntou o
tas seguidas, Que é que queres, Por que rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse
foi que não disseste logo o que querias, caso, por que teimas em dizer que ela
Pensarás tu que eu não tenho mais nada existe, Simplesmente porque é impossí-
que fazer, mas o homem só respondeu à vel que não exista uma ilha desconhecida,
primeira pergunta, Dá-me um barco, dis- E vieste aqui para me pedires um barco,
se. O assombro deixou o rei a tal ponto Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E
desconcertado, que a mulher da limpeza tu quem és, para que eu to dê, E tu quem
se apressou a chegar-lhe uma cadeira de és, para que não mo dês, Sou o rei deste
palhinha, a mesma em que ela própria se reino, e os barcos do reino pertencem-me
sentava quando precisava de trabalhar todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do
de linha e agulha, pois, além da limpeza, que eles a ti, Que queres dizer, perguntou
tinha também à sua responsabilidade o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e
alguns, trabalhos menores de costura no que eles, sem ti, poderão sempre navegar,
palácio como passajar as peúgas dos pa- Às minhas ordens, com os meus pilotos e
jens. Mal sentado, porque a cadeira de pa- os meus marinheiros, Não te peço mari-
lhinha era muito mais baixa que o trono, nheiros nem piloto, só te peço um barco,
o rei estava a procurar a melhor maneira E essa ilha desconhecida, se a encontrares,
de acomodar as pernas, ora encolhendo- será para mim, A ti, rei, só te interessam as
-as ora estendendo-as para os lados, en- ilhas conhecidas, Também me interessam
quanto o homem que queria um barco as desconhecidas quando deixam de o
esperava com paciência a pergunta que ser, Talvez esta não se deixe conhecer,
se seguiria, E tu para que queres um bar- Então não te dou o barco, Darás. Ao
co, pode-se saber, foi o que o rei de fato ouvirem esta palavra, pronunciada com
perguntou quando finalmente se deu tranquila firmeza, os aspirantes à porta
por instalado, com sofrível comodidade, das petições, em quem, minuto após
na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à minuto, desde o princípio da conversa,
procura da ilha desconhecida, respondeu a impaciência vinha crescendo, e mais
o homem, Que ilha desconhecida, per-

220

para se verem livres dele do que por se as coisas lhe correrem mal. Quando
simpatia solidária, resolveram intervir o homem levantou a cabeça, supõe-se
a favor do homem que queria o barco, que desta vez é que iria agradecer a
começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá- dádiva, já o rei se tinha retirado, só es-
-lhe o barco. O rei abriu a boca para di- tava a mulher da limpeza a olhar para
zer à mulher da limpeza que chamasse ele com cara de caso. O homem desceu
a guarda do palácio a vir restabelecer do degrau da porta, sinal de que os ou-
imediatamente a ordem pública e im- tros candidatos podiam enfim avançar,
por a disciplina, mas, nesse momento, nem valeria a pena explicar que a con-
as vizinhas que assistiam das janelas fusão foi indescritível, todos a quererem
juntaram-se ao coro com entusiasmo, chegar ao sítio em primeiro lugar, mas
gritando como os outros, Dá-lhe o bar- com tão má sorte que a porta já estava
co, dá-lhe o barco. fechada outra vez. A aldraba de bronze
tornou a chamar a mulher da limpeza,
Perante uma tão iniludível manifes- mas a mulher da limpeza não está, deu
tação da vontade popular e preocupa- a volta e saiu com o balde e a vassoura
do com o que, neste meio tempo, já ha- por outra porta, a das decisões, que é
veria perdido na porta dos obséquios, raro ser usada, mas quando o é, é. Agora
o rei levantou a mão direita a impor si- sim, agora pode-se compreender o por-
lêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas quê da cara de caso com que a mulher
a tripulação terás de arranjá-la tu, os da limpeza havia estado a olhar, foi esse
meus marinheiros são-me precisos para o preciso momento em que ela resolveu
as ilhas conhecidas. Os gritos de aplau- ir atrás do homem quando ele se diri-
so do público não deixaram que se per- gisse ao porto a tomar conta do barco.
cebesse o agradecimento do homem Pensou ela que já bastava de uma vida
que viera pedir um barco, aliás o mo- a limpar e a lavar palácios, que tinha
vimento dos lábios tanto teria podido chegado a hora de mudar de ofício, que
ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá lavar e limpar barcos é que era a sua vo-
me arranjarei, mas o que distintamente cação verdadeira, no mar, ao menos, a
se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais água nunca lhe faltaria. O homem nem
à doca, perguntas lá pelo capitão do sonha que, não tendo ainda sequer
porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele começado a recrutar os tripulantes,
que te dê o barco, levas o meu cartão. O já leva atrás de si a futura encarrega-
homem que ia receber um barco leu o da das baldeações e outros asseios,
cartão de visita, onde dizia Rei por baixo também é deste modo que o destino
do nome do rei, e eram estas as palavras costuma comportar-se connosco, já
que ele havia escrito sobre o ombro da está mesmo atrás de nós, já estendeu a
mulher da limpeza, Entrega ao porta- mão para tocar-nos o ombro, e nós ain-
dor um barco, não precisa ser grande, da vamos a murmurar, Acabou-se, não
mas que navegue bem e seja seguro, há mais que ver, é tudo igual.
não quero ter remorsos na consciência
221

cAPÍtulo 22

literAturA brAsileirA

estilos de éPocA nA literAturA brAsileirA

Quinhentis-
mo /

Literatura de
informação

Barroco
Arcadismo
Romantismo
Realismo
Naturalismo
Parnasianismo
Símbolismo
Pré-Moder-

nismo
Modernismo

1500 1601 1768 1836 1881 1893 1902 1922

literAturA de inFormAÇÃo e Já a Literatura Jesuítica, como o
JesuÍticA (1500 – 1601) nome já diz, tinha a missão de relatar
os fatos da catequização dos índios.
A literatura de Informação se inicia Nesses relatos, encontramos fortes
com a carta de Pero Vaz de caminha documentos sobre a vida nas colônias
(1500), considerada a nossa “certidão aqui formadas nesse período. Os jesu-
de nascimento”. ítas mostravam costumes dos nativos
como poligamia, nudez, o politeísmo e
Em relação à literatura do início do a antropofagia. Por outro lado, os jesuí-
século XVI devemos ressaltar alguns tas sabiam da necessidade de se criticar
aspectos: primeiro, é uma literatura também a exploração e a escravidão re-
produzida sobre o brasil e não por alizada pelos colonizadores portugue-
brasileiros, já que, os escritores eram ses. Para eles, o pecado não escolhia
portugueses que chegaram aqui nas cor ou raça e a conversão seria a única
primeiras expedições às nossas terras. forma de salvação.
Tinha como objetivo informar o povo
português sobre as características da Destacam-se na Literatura Jesuítica
terra, suas possibilidades mercantis, e Padre Manuel da Nóbrega e Padre José
sobre os nativos que aqui viviam. Esses de Anchieta.
textos possuem valor mais histórico/
documental que literário. bArroco (1601 – 1768)

Destacam-se Pero Vaz de Caminha, Escola de origem italiana, o Barro-
Pero de Magalhães Gândavo, Hans Sta- co se inicia no Brasil com a publicação
den, Jean de Lery.

222

da obra Prosopopeia, de Bento Teixei- Arcadismo (1768 – 1836)
ra, em 1601.
No século XVIII, chamado de“século
O Barroco retrata bem o homem das luzes”, houve uma busca pela clare-
do período e os seus conflitos, ligados za, o equilíbrio e o uso maior da Razão.
às contradições entre teocentrismo e A ciência e a racionalidade eram as res-
antropocentrismo. O homem vivia o ponsáveis pela explicação do mundo.
dualismo entre a fé e a razão, entre
obedecer aos dogmas da Igreja e, ao Uma das correntes de pensamento
mesmo tempo, desfrutar ao máximo que mais se destacou foi o Iluminismo,
os prazeres da vida. Há um conflito pensamento filosófico que se espalhou
entre os valores teocêntricos que a pela Inglaterra, França e Alemanha.
Contrarreforma tentou resgatar e os Consiste na crença da Razão como a
valores antropocêntricos vindos do fonte de todo conhecimento válido. A
Renascimento. Logo, a linguagem publicação mais importante do Ilumi-
barroca refletira as sensações em ex- nismo foi a Enciclopédia, organizada
cesso que o homem gostaria de ex- por D’Alembert, Diderot e Voltaire, para
perimentar, e, ao mesmo tempo, as condensar o conhecimento humano
contradições existenciais e dúvidas em um único lugar.
não respondidas nem pela fé e nem
pela razão. Portanto, há o excesso Dessa forma, o estilo Barroco vai se
de antíteses, paradoxos, metáforas, tornando ultrapassado por representar
sinestesias, hipérboles e hipérbatos. o conflito, o desequilíbrio. Buscava-
-se um estilo mais claro, mais simples,
No Barroco, como recurso refle- de acordo com as novas necessidades
xivo, há o jogo de contrastes entre o do homem da época, um estilo mais
claro (representando o céu, a luz, a racional. Eis que surge o Arcadismo,
salvação) e o escuro (representando para se rebater os excessos formais do
o medo, o inferno, o pecado). Ainda Barroco. O nome Arcádia (de onde vem
dentro da possibilidade de reflexão e a palavra Arcadismo), segundo a lenda,
contradição, os autores se utilizam de dominada pelo deus Pã, representava
dois estilos: conceptismo (raciocínios, uma província grega em que pastores
jogo de ideias, muita das vezes contra- viviam de modo simples, se divertiam,
ditórias) e o cultismo (valorização da cantavam, dançavam, fazendo disputas
forma e abuso de metáforas e outros poéticas, celebrando o amor e o prazer.
recursos estilísticos). A primeira Arcádia surgiu em Roma, Itá-
lia, por volta de 1690, chegando a nosso
Destacam-se os autores Gregório país um pouco mais tarde.
de Matos e Padre Antônio Vieira (es-
tudado tanto como autor português e O primeiro texto árcade a ser pu-
brasileiro). blicado no Brasil foi Obras poéticas, de
Cláudio Manuel da Costa, em 1768.

223

No estilo árcade, imitava-se o esti- a tradição helênica, que valorizava a
lo renascentista, por ser considerado o razão, a contenção, o equilíbrio, em
modelo de perfeição, e, ao mesmo tem- oposição ao sentimentalismo, o exa-
po, valorizando a razão. Há também o gero, uma busca pela espiritualidade.
bucolismo (valorização do campo, da
natureza) do pastoralismo (busca da Para o artista clássico, a arte deve-
vida pastoril, simples) e a presença da ria ser imitação dos modelos greco-
mitologia. É muito comum nesse perí- -latinos, enquanto no romantismo,
odo o uso de pequenas máximas lati- havia uma busca pela originalidade,
nas que serviam de parâmetros para a a valorização da emoção, inspiração e
arte perfeita a qual se almejava: Fugere intuição do artista. Os artistas românti-
urbem (fugir da cidade), Inutilia truncat cos conseguiram aproximar bem a arte
(cortar o inútil), Carpe diem (colha o dia), e suas próprias experiências pessoais.
Locus amoenus (lugar ameno), Aurea Para auxiliar na busca pela inspiração,
mediocritas (equilíbrio em ouro). alguns artistas usavam drogas ou
álcool, vivendo intensamente cada
Em nosso país, o Arcadismo (tam- momento, encontrando no suicídio
bém chamado de Neoclass­ icismo) teve e na morte a solução para as angús-
um aspecto singular, pois teve um pa- tias da vida. Outros artistas, por outro
pel importante de críticas ao governo lado, envolviam-se com causas sociais,
durante a Inconfidência Mineira. Vários como a escravidão.
autores árcades foram inconfidentes e
foram exilados ou mortos por isso. A arte clássica, por apreciar a razão
e a claridade, era chamada de “diurna”,
Autores que mais se destacaram enquanto o a arte romântica, por apre-
nesse período foram Tomás Antônio ciar o desconhecido, a escuridão, a
Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, morte, o conflito, era chamada de “no-
Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto, Ba- turna”. Pela sua liberdade de expressão
sílio da Gama, Santa Rita Durão. e busca pela originalidade, o Roman-
tismo é considerado um período de
Romantismo (1836 – 1881) união dos contrastes: conseguiu aliar
o belo ao grotesco harmoniosamente.
Os preceitos do Romantismo estão
ligados à Revolução Francesa (1789) e O Romantismo no Brasil se iniciou
a ascensão da burguesia e seus ideais com a publicação de Suspiros poéticos e
de Liberdade, Igualdade e Fraternida- saudades, de Gonçalves de Magalhães,
de. Nesse período há uma valorização em 1836.
da individualidade e da sensibilidade
do artista, que seguia o seu coração, Após a Independência política, em
o seu lado emocional. O Romantismo 1822, há aqui também a ascensão de
rebatia o Arcadismo e rompe com toda uma burguesia, a transformação do
Rio de Janeiro em uma grande capital
e, logo, a intelectualidade nacional co-

224

meçaria a valorizar mais as suas raízes, símbolo da liberdade e tem inspiração
a sua cultura, a sua história e a sua pró- no autor francês. Voltada para as causas
pria língua. A literatura desse período, sociais como a abolição da escravatura.
inicialmente, assume uma postura anti- Autores: Castro Alves e Sousândrade.
lusitana e anticolonialista, surgindo as-
sim com vários temas que resgatam as Prosa
nossas origens e a nossa individualida-
de: o indianismo, o regionalismo, o fol- Era muito comum a publicação dos
clore e o nosso passado pré-cabralino. romances de folhetim, obras publica-
Há um projeto de valorização da pátria das em capítulos todas as semanas
e da nossa identidade nacional. nos jornais da época. Fizeram grande
sucesso entre a burguesia, equivalen-
No geral, o Romantismo tem as se- te às novelas de hoje (embora essas
guintes características: idealização, sub- atinjam as classes sociais mais baixas),
jetividade, sentimentalismo, medievalis- com uma estrutura simples, mas que,
mo, egocentrismo, religio­sidade, evasão, com seus conflitos e estratégias, con-
pessimismo e melancolia (chamado por seguiam prender a atenção do leitor.
alguns de mal-do-século), valorização Escritores como José de Alencar, Joa-
do índio, nacionalismo, da lutas sociais quim Manuel de Macedo, entre outros,
e da liberdade (condoreirismo), gosto fizeram muito sucesso com o gênero
pela vida boêmia e noturna (byronismo) e tiveram os seus textos publicados
e obsessão pela morte. primeiramente em folhetins no jornal
para posteriormente serem lançados
Por ser abrangente, o Romantismo reunidos em livros, em forma de ro-
é dividido da seguinte maneira: mance. Há também outros tipos de
romances como:
Poesia
Romance urbano – que criticava
É dividida em três gerações: os costumes da sociedade burgue-
1a geração – indianista e nacio- sa. Exemplos: A moreninha (Joaquim
nalista – valoriza o nosso país e vê o Manuel de Macedo); Memórias de um
índio como o símbolo de honra e do sargento de milícias (Manuel Antônio
herói nacional. Autores: Gonçalves Dias de Almeida).
e Gonçalves de Magalhães.
2a geração – byronista ou mal- Romance indianista – sempre
-do-século – inspirada em Byron, pessi- ligado às histórias de uma tribo no pe-
mista, gosto pela noite e pela morte. Au- ríodo antes da chegada dos portugue-
tores: Álvares de Azevedo, Fagundes Va- ses no Brasil ou relata o contato do ín-
rela, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire. dio com o branco, após a colonização.
3a geração – condoreira ou hu- Exemplos: O Guarani; Iracema; Ubiraja-
goana – usa a figura do condor como ra (todas as obras de José de Alencar).

225

Romance regionalista – obras em 1867, primeiro obra naturalista, que
que caracterizam e descrevem os há- propunha um método científico para
bitos culturais de uma determinada re- escrever, utilizando-se até de coleta de
gião. Exemplos: Inocência (Visconde de dados e formulação de hipóteses.
Taunay); O seminarista (Bernardo Gui-
marães), O gaúcho (José de Alencar). O Realismo/Naturalismo surge no
Brasil em um momento de discussões
Romances históricos – obras com sobre a abolição da escravatura. Ideias
um fato histórico como pano de fundo. liberais, influenciadas pelo Positivismo
Exemplos: A guerra dos mascates; As e Determinismo começavam a prolife-
minas de prata (José de Alencar). rar. Alguns escritores usavam o jornal
para divulgar suas opiniões.
Realismo/Naturalismo
(1881 – 1902) Os textos realistas/naturalistas
eram instrumentos de denúncia das
Na segunda metade do século XIX, desigualdades sociais e crises. Os au-
surgem novas tendências cientificistas tores buscavam retratar o seu universo
que ajudam a repensar e compreender literário com clareza, objetividade e
melhor a realidade. O pensamento impessoalidade. O narrador descreve
subjetivo, sonhador dos românticos os fatos e observa os seus personagens
foi sendo substituído pelo olhar mi- como um cientista.
nucioso, racional, impessoal e objeti-
vo do cientista. Entre as correntes de A primeira publicação realista
pensamento da época, destacam-se o é Memórias Póstumas de Brás Cubas
Positivismo (de Augusto Comte), o So- (1881), de Machado de Assis. No mes-
cialismo (de Marx), Determinismo (de mo ano é publicada também a pri-
Taine), O Evolucionismo (de Darwin) e meira obra naturalista: O mulato, de
a Psicanálise (de Freud). Aluísio Azevedo.

A literatura, como não podia deixar Observação: É importante res-
de ser, também começa a rejeitar o olhar saltar que, embora tenham surgido
idealista do romântico em relação à so- na mesma época, Realismo e Natu-
ciedade e seus problemas. Autores fran- ralismo têm as suas semelhanças e
ceses como Gustave Flaubert e Émile diferenças. Para começar, todo es-
Zola começam a propor novos tipos de critor naturalista é realista, mas nem
romances. Flaubert lança em 1857, Ma- todo escritor realista é naturalista.
dame Bovary, primeiro romance realis- Como semelhança, há o fato de que
ta, que chocou a sociedade francesa da ambos os movimentos se utilizam da
época e levou o autor e o seu editor aos realidade e da crítica social, da lingua-
tribunais por ferir a moral e os bons gem objetiva e narrador impessoal
costumes. Zola lança Thérèse Raquin, como artifícios de criação. Porém, os
realistas buscavam fazer o “roman-
ce de revolução”, ou seja, obras que,

226

por meio da crítica e da análise psi- As principais características do Par-
cológica de um número reduzido de nasianismo são: a aproximação entre
personagens, queriam transformar e literatura e artes plásticas, gosto por
educar a sua sociedade. O autor tinha métricas (na maioria das vezes, decas-
um compromisso moral e intelectual sílabos), perfeição formal (rimas raras
com os seus leitores. Enquanto isso, e chaves de ouro), de cunho descritivo,
os naturalistas buscavam demonstrar usos de temas clássicos, objetividade,
as suas teorias científicas em seus impessoalidade e gosto por temas
personagens. Eram os “romances de universais (como a Beleza, a Vaidade, a
tese”. Neles, o narrador tinha uma óti- Poesia). O lema central parnasiano era
ca cientificista, reduzindo o homem “arte pela arte”.
a mero animal, que lutava contra a
própria razão, deixando ser domina- No Brasil, o Parnasianismo acon-
do pelos instintos. Além de mostra- teceu paralelamente à prosa realista/
rem aspectos desagradáveis de seus naturalista. A primeira publicação foi
personagens, os escritores natura- Fanfarras, de Teófilo Dias, de 1882.
listas buscavam retratar ambientes
coletivos, carregados de tipos sociais Destacam-se no Brasil a famosa tría-
rebaixados, cheios de defeitos morais, de parnasiana: Olavo Bilac (considerado
baseando-se no determinismo, que o“príncipe dos poetas”), Raimundo Cor-
afirmava que o meio influenciava o reia e Alberto de Oliveira.
comportamento do homem.
Simbolismo (1893 – 1902)
No Realismo destacam-se os escri-
tores Machado de Assis e Raul Pom- A segunda metade do século XIX
peia, enquanto no Naturalismo, desta- foi marcada por um período de crise e
camos Aluísio Azevedo. várias transformações. Uma das crises
mais fortes desse período foi a Grande
Parnasianismo (1882 – 1893) Depressão (1873 – 1896), que retardou
o desenvolvimento econômico e cien-
O Parnasianismo era um movi- tífico da Europa.
mento que tentava rebater os ex-
cessos de sentimentalismos do Ro- Como o materialismo positivista e
mantismo. Os autores dessa época o racionalismo não deram ao homem
valorizavam a arte como ofício, bus- todas as respostas, mostrando que as
cando também uma universalidade. O crises parecem ser, em primeiro mo-
nome da escola é inspirado no monte mento, insolúveis, era necessário bus-
Parnaso, na Grécia Antiga, consagra- car no misticismo, a transcendência as
do a Apolo, deus da poesia, das artes, explicações dos conflitos. Nesse con-
da medicina e dos rebanhos. texto surge o Simbolismo.

Apoiados nas teorias freudianas
do inconsciente e subconsciente, os

227

simbolistas queriam uma arte de co- do literário propriamente dito, sendo
nhecimento e culto do próprio “eu”, apenas uma ponte, uma fase de tran-
rejeitando assim a realidade e o mundo sição entre as escolas parnasianas e
material. Logo, usariam também uma simbolistas para o Modernismo. Essa
linguagem sugestiva, que ampliaria as constatação se dá pelo fato de os au-
possibilidades de se conhecer o mundo tores terem mais diferenças do que
e as coisas. O lema simbolista era: “su- semelhanças (o que caracterizaria
gerir, não nomear”, pois a sugestão, ou uma escola ou período literário) em
seja, trabalhar os símbolos poderia tra- suas obras, seja nos temas, nas ideo-
zer um distanciamento e ampliação das logias e em sua linguagem, que oscila
várias possibilidades de conhecimento entre o simples e o rebuscado, e não
do mundo e dos objetos, diferente da se encaixavam também dentro da
nomeação das coisas, que acabariam produção parnasiana ou simbolista.
limitando as formas de se ver o mundo Em comum, os pré-modernistas te-
concreto. Seria como trabalhar o con- riam a preocupação com a denúncia
creto por meio do abstrato. das mazelas do nosso país.

As principais características do Sim- No período pré-modernista, his-
bolismo são: o misticismo, a forte musi- toricamente, muita coisa acontecia: a
calidade (uso de aliterações, paranomá- instalação e consolidação do regime re-
sias, assonâncias, entre outras), abuso publicano com a República da Espada
de várias imagens noturnas, a solidão (1889 – 1894); a República Café-com-
e o isolamento (simbolizados pela torre -Leite; a vinda de imigrantes, especial-
de marfim), a transcendência, subjetivi- mente italianos, para substituir a mão
dade forte. Além disso, é muito comum de obra escrava nas lavouras de café,
no Simbolismo o uso das sinestesias, a urbanização de São Paulo; na Bahia,
que seria a relação e aproximação entre ocorreu a Revolta de Canudos; em Per-
dois sentidos diferentes como a visão e nambuco, aparecem os cangaceiros de
o olfato, por exemplo. Lampião; no Rio de Janeiro, a Revolta da
Vacina e a Revolta da Chibata. Os pré-
O Simbolismo brasileiro se inicia -modernistas denunciavam os proble-
com a publicação de dois livros de mas sociais e apontavam esses vários
Cruz e Sousa, Broquéis e Missal, de “Brasis” dentro de um só Brasil.
1893. Os principais escritores simbo-
listas são Cruz e Sousa, Alphonsus de As duas obras iniciais do Pré-Moder-
Guimaraens e o ainda pouco estudado nismo foram Os Sertões, de Euclides da
Pedro Kilkerry. Cunha, e Canaã, de Graça Aranha, am-
bas publicadas em 1902. Os principais
Pré-Modernismo (1892 – 1922) autores pré-modernistas na prosa são
Euclides da Cunha, Graça Aranha, Mon-
O Pré-Modernismo, para muitos teiro Lobato e Lima Barreto. Na poesia,
críticos, não é considerado um perío- temos a figura de Augusto dos Anjos.

228

Modernismo (1922 – 1980) As principais características dos
autores modernistas são: a valoriza-
O Modernismo foi o responsável ção do cotidiano, do coloquial, da
por uma revolução artística, rompen- linguagem simples, há uma aproxima-
do com a arte tradicional, totalmente ção da prosa com a poesia, o naciona-
academicista. Os autores dessa época lismo, crítica social, liberdade formal,
têm a preocupação de retratar as vá- uso do verso livre (sem métrica), do
rias mudanças da sociedade, assim verso branco (sem métrica) e humor
como aproximar mais as obras da lin- como recurso crítico (poema-piada e
guagem cotidiana. poema-paródia).

Fortemente influenciados pela re- Os autores mais importantes da 1a
volução artística trazida pelas vanguar- fase modernista são: Manuel Bandeira,
das europeias, alguns jovens artistas, Oswald de Andrade, Mário de Andra-
como Oswald de Andrade, realizaram de, Cassiano Ricardo, Guilherme de
a Semana de Arte Moderna em 1922, Almeida e Alcântara Machado.
evento que teve grande repercussão
(tanto positiva como negativa) no meio A 2a fase modernista apresenta
artístico e que ditaria as novas regras da uma maturidade em relação a primei-
arte, valorizando uma estética mais bra- ra, especialmente na poesia, em que
sileira e de crítica às tradições vigentes. há uma união de alguns elementos tra-
dicionais (como o soneto) e inovações
O Modernismo é dividido em três na linguagem. Há o interesse pelo lado
fases, com traços bem distintos: místico e religioso das coisas. Destaca-
-se também nos poemas o engajamen-
1a fase (1922 – 1930): heroica, de to, a forte crítica social e política aos
ruptura com a tradição. problemas da época, como a 2ª Gran-
de Guerra Mundial, o Estado Novo e a
2a fase (1930 – 1945): regionalista. Era Vargas. Os principais poetas do pe-
3a fase (1945 – 1980): pós-mo-derna. ríodo são Carlos Drummond de Andra-
de, Vinícius de Moraes, Murilo Mendes,
A 1a fase modernista servia para Jorge de Lima e Cecília Meireles.
difundir as ideias antiacademicistas,
valorizar a coloquialidade, resgatar Na prosa, há um resgate do ro-
o nosso nacionalismo, revolucionar mance regionalista (que se popula-
a linguagem e criticar os problemas rizou durante o Romantismo), obras
sociais da época. Umas das formas em que são mostradas determinadas
de divulgação das ideias moder- regiões brasileiras, com o seu povo, os
nistas eram os manifestos. Os mais seus problemas, a sua linguagem e os
importantes eram os manifestos seus costumes. Eles também são cha-
Pau-Brasil,oManifestoNhengaguçuVerde- mados de Romances de 30. Há a pre-
-Amarelo e o Manifesto da Antropofagia. ocupação em enfatizar o psicológico
Esses manifestos foram publicados nas do personagem e a sua relação com a
revistas Klaxon, A Revista e Festa.
229

sua terra, em uma espécie de determi- Na poesia da época, destaca-se o res-
nismo do homem e o seu meio. Os ro- gate do rigor das formas tradicionais e a
mances regionalistas se dividem pelas métrica. O autor mais importante desse
regiões retratadas nas obras: período é João Cabral de Melo Neto.

– Nordeste – Graciliano Ramos, José Contemporaneidade
Lins do Rego, Raquel de Queirós, Jorge (1980 – até os dias atuais)
Amado, José Américo de Almeida.
Na contemporaneidade não encon-
– Sudeste – Cornélio Pena, Cyro dos tramos o predomínio de um só estilo,
Anjos, Octávio de Faria. mas sim, várias tendências que convi-
vem ao mesmo tempo. Na poesia, sur-
– Sul – Érico Veríssimo, Dionélio gem cinco tendências:
Machado. 1. concretismo: que aboliu o verso

A 3a fase modernista, também tradicional e a sua linearidade, va-
chamada de Geração de 45, é a mais lorizando a visualidade, trabalha
diversificada, pois tem a preocupação com a montagem e a desmonta-
de transformar a literatura vigente, gem das palavras, possibilitando
fundindo o resgate de certo rigor várias interpretações. Seus princi-
formal com a criação de uma nova lin- pais representantes são Haroldo
guagem artística, somada à profunda de Campos, Augusto de Campos e
análise psicológica e reflexões exis- Décio Pignatari.
tenciais. Na prosa, surgem algumas 2. poema-práxis: criado pela dis-
tendências como: sidência do grupo concretista.
A poesia-práxis valoriza cada pa-
– prosa de abordagem psicoló- lavra como um ser atuante, uma
gica: que trata da introspecção, dos fonte, um organismo que gera ou-
conflitos existenciais e psicológicos tras palavras. Surge daí o conceito
de seus personagens. Os principais de “palavra-energia”. Os principais
escritores dessa tendência são Clarice autores são Mário Chamie, Mau-
Lispector, Carlos Heitor Cony, Antônio ro Gama, Armando Freitas Filho,
Olavo e Lygia Fagundes Telles. Ailton Medeiros, José Guilherme
Melquior, Camargo Meyer, Lou-
– prosa urbana: que trata dos con- sada Filho, Antônio Carlos Cabral,
flitos dos homens das grandes cidades. dentre outros.
Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. 3. poema-processo: textos predomi-
nantemente visuais, propondo-se a
– prosa regionalista – diferente substituir a palavra por “novas dis-
da geração regionalista de 30 (que posições tipográficas”, resultando
buscavam apenas representar deter- um poema predominante visual,
minada região), a preocupação desses
autores de 45 é a recriação do univer-
so regional e da palavra. Destaca-se
a figura de Mário Palmério, Herberto
Sales, Bernardo Elis e, principalmente,
Guimarães Rosa.

230

“semiótico”, com vários recursos. Os político. Os principais autores são
principais autores são Luis Ângelo Mário Palmério, Bernardo Elis,
Pinto e Moacir Cirne. Ariano Suassuna, Márcio Souza,
4. poesia social: discordando do Milton Hatoum, Josué Montello,
radicalismo concretista, surge Dalcídio Jurandir e José Cândido
paralelamente um movimento de Carvalho.
de denúncia dos problemas e de- 2. prosa política: ferramenta de de-
sigualdades sociais do país. Com núncia política durante a ditadura
uma linguagem simples, esses e contra os problemas sociais do
novos poetas tinham como alvo país. Destacam-se Ignácio de Loyo-
de suas críticas a ditadura militar la Brandão, Antônio Callado, Ivan
e a Guerra do Vietnã. Os princi- Ângelo, Roberto Drummond, Már-
pais representantes dessa ten- cio Souza, João Ubaldo Ribeiro.
dência são Ferreira Gullar, Afonso 3. fantástico: prosa que trabalha
Ávila, Thiago de Mello e Affonso com aquilo que é irreal, insólito,
Romano de Sant’Anna. mas como metáfora de problemas
5. poesia marginal: produzida du- do cotidiano. Os autores mais co-
rante a década de 70, era distri- nhecidos são Murilo Rubião, José
buída em bares, cinemas, teatros, J. Veiga, Moacyr Scliar e Lygia Fa-
revistas alternativas, entre outros gundes Telles.
meios. Considerada marginal por 4. prosa urbana: denúncia da reali-
ser uma produção feita fora do dade, da vida das grandes cidades
circuito editorial tradicional. Mui- e seus problemas como a violên-
ta das vezes, o próprio autor era cia, a solidão, o preconceito racial
quem fazia a distribuição de suas e a prostituição. Os autores mais
obras. É ampla e diversificada. A conhecidos são Rubem Fonseca,
obra que dá um parâmetro dessa Dalton Trevisan, Luiz Vilela, João
produção da época é 26 poetas Antônio, Ignácio Loyola Brandão,
hoje (1976), organizada por Heloí- Patrícia Melo e Sérgio Sant’Anna.
sa Buarque de Holanda, que reúne 5. prosa intimista – voltada para a
autores como autores como Cha- sondagem psicológica e a crise
cal, Ana Cristina César, Vera Pedro- existencial do indivíduo. Muita
sa, Torquato Neto, Wally Salomão, das vezes, o enredo é reduzido
Roberto Schwartz, entre outros. para se enfatizar os conflitos in-
ternos do personagem. Autores
Na prosa, destaca-se: desse tipo de obras são: Lygia
Fagundes Telles, Osman Lins, Né-
1. prosa regionalista: retoma a tra- lida Piñon, Ivan Ângelo, Bernardo
dição dos romances de 30, e, em Carvalho, Autran Dourado, Adélia
certos casos, com o engajamento Prado e Raduan Nassar.

231

6. prosa autobiográfica ou memo- mentos ficcionais. Como destaque,
rialista: obras feitas a partir de temos José Louzeiro, João Antônio
experiências traumáticas dos pró- e Aguinaldo Silva.
prios autores como a ditadura mili- 8. crônicas e contos: dois tipos de
tar, convivência com tribos, prisões textos com grande popularidade,
ou doenças. Os principais autores as crônicas e contos chamam a
são Marcelo Rubens Paiva, Luis atenção por sua brevidade. Os cro-
Alberto Mendes, Antonio Callado, nistas mais famosos são Fernando
Fernando Gabeira, Pedro Nava e Sabino, Carlos Drummond de An-
Érico Veríssimo. drade, Rubem Braga, Paulo Mendes
Campos, Stanislaw Ponte Preta, Luís
Vale também destacar as biografias Fernando Veríssimo. Já no conto,
e reconstruções de períodos histó- quem se destaca é Moac­yr Scliar,
ricos e culturais importantes resga- Dalton Trevisan, Luiz Vilela e Rober-
tados por Ruy Castro (que escreveu to Drummond.
Chega de Saudade – valorizando
a história da Bossa Nova), Ana Mi- Observação: Vale ainda destacar
randa (que romanceia a vida de outros autores contemporâneos de
grandes escritores como Gregório qualidade como: Chico Buarque,
de Matos, Clarice Lispector e Gon- André Sant’Anna (filho de Sérgio
çalves Dias, imitando os estilos dos Sant’Anna), Paulo Leminski, José
mesmos e fazendo um panorama Paulo Paes, Caio Fernando Abreu,
de suas respectivas épocas), Fer- Domingos Pellegrini Jr, Paulo Hen-
nando Morais (que escreveu Chatô, riques Brito, Marcelino Freire, Tony
o Rei do Brasil, sobre a vida de Assis Belloto (guitarrista do grupo Titãs),
Chateaubriand), entre outros. Marcelino Freire, Jorge Furtado,
Adriana Falcão, Daniel Galera, Cristó-
7. romance reportagem: com influ- vão Tezza e Clarah Averbuck
ência do New Journalism (tendên-
cia a misturar literatura e jornalis-
mo), os autores contam histórias
baseadas em fatos verídicos, mas,
na maioria das vezes, colocam ele-

232

CAPÍTULO 23

ANTOLOGIA - LITERATURA BRASILEIRA
LITERATURA DE INFORMAÇÃOE JESUÍTICA (1500-1601)

Carta de Pero Vaz de O escrivão documenta os traços de ter-
Caminha (1500) ra e o momento de vista da terra (quan-
do se avistou o Monte Pascoal, a que
Fac-símile da carta original de Pero Vaz de deu-se o nome de Terra de Vera Cruz).
Caminha quando aportou da expedição
de Cabral em terras brasileiras Os portugueses vão até à praia, local
Caminha era o escrivão-mor da ex- em que acontece o primeiro contato
com os índios, quando os portugueses
pedição de Pedro Álvares Cabral e autor praticam o primeiro escambo com os
de um dos mais importantes relatos de índios brasileiros. Menciona-se tam-
viagem da Literatura de Informação. A bém o pau-brasil e é narrada a Primeira
Carta é exemplo do deslumbramento Missa na nova terra.
do europeu diante do Novo Mundo. No
entanto, apresenta informações erradas. Segue abaixo um trecho da Carta de
Pero Vaz Caminha:
Inicialmente, Caminha se desculpa
pela Carta, a qual considera “inferior”. “A feição deles é serem pardos, um
tanto avermelhados, de bons rostos e
bons narizes, bem feitos. Andam nus,
sem cobertura alguma. Nem fazem
mais caso de encobrir ou deixa de en-
cobrir suas vergonhas do que de mos-
trar a cara. Acerca disso são de grande
inocência. Ambos traziam o beiço de
baixo furado e metido nele um osso
verdadeiro, de comprimento de uma
mão travessa, e da gross­ura de um
fuso de algodão, agudo na ponta como
um furador. Metem-nos pela parte de
dentro do beiço; e a parte que lhes
fica entre o beiço e os dentes é feita a
modo de roque de xadrez. E trazem-
-no ali encaixado de sorte que não os

233

magoa, nem lhes põe estorvo no fa- matar o prisioneiro e diz: “Sim, aqui estou
lar, nem no comer e beber. eu, quero matar-te, pois tua gente tam-
bém matou e comeu muitos dos meus
Os cabelos deles são corredios. E an- amigos”. Responde-lhe o prisioneiro:
davam tosquiados, de tosquia alta antes “Quando estiver morto, terei ainda muitos
do que sobre-pente, de boa grandeza, amigos que saberão vingar-me”. Depois
rapados, todavia, por cima das orelhas. E golpeia o prisioneiro na cabeça, de modo
um deles trazia por baixo da solapa, de que lhe saltam os miolos. Imediatamente
fonte a fonte, na parte detrás, uma espé- as mulheres levam o morto, arrastam-
cie de cabeleira, de penas de ave ama- -no para o fogo, raspam-lhe toda a pele,
rela, que seria do comprimento de um fazendo-o inteiramente branco e tapan-
coto, mui basta e mui cerrada, que lhe do-lhe o ânus com um pau, a fim de que
cobria o toutiço e as orelhas. E andava nada dele se escape.
pegada aos cabelos, pena por pena, com
uma confeição branda como, de manei- Depois de esfolado, toma-o um ho-
ra tal que a cabeleira era mui redonda e mem e corta-lhe as pernas acima dos
mui basta, e mui igual, e não fazia mín- joelhos, e os braços junto ao corpo. Vêm
gua mais lavagem para a levantar.” então as quatro mulheres, apanham
os quatro pedaços, correm com eles
Hans Staden em torno das cabanas, fazendo grande
alarido, em sinal de alegria. Em seguida
Alemão que foi capturado pelos ín- separam as costas, com as nádegas, da
dios tupinambás, mas conseguiu fugir parte dianteira. Repartem isto entre si.
antes de ser devorado. Por duas vezes As vísceras são dadas às mulheres, Fer-
Staden passou pela América Portuguesa vem-nas e com o caldo fazem uma papa
no início do século XVI, onde teve opor- rala, que se chama mingau, que elas e as
tunidade de participar de combates na crianças sorvem. Comem essas vísceras,
Capitania de Pernambuco e na Capitania assim como a carne da cabeça. O miolo
de São Vicente, contra corsários france- do crânio, a língua e tudo o que podem
ses e seus aliados indígenas. aproveitar comem as crianças. Quando
todo foi partilhado, voltam para casa,
Descreve em suas livro Duas via- levando cada um o seu quinhão.
gens ao Brasil os rituais de antropofa-
gia dos índios. Quem matou o prisioneiro recebe
ainda uma alcunha, e o principal da
“Quando ele retorna com os seus com- choça arranha-lhe os braços, em cima,
panheiros para o pátio, aquele que traz com o dente de um animal selvagem.
o prisioneiro lhe entrega o tacape, em Quando essa arranhadura sara, vêm as
frente ao dito cujo. Vem então o principal cicatrizes, que valem por ornato hon-
da cabana, toma a arma e mete-lha entre roso. Durante esse dia, deve o carrasco
as pernas. Consideram isto uma honra. permanecer numa rede, em repouso.
A seguir retoma o tacape aquele que vai Dão-lhe um pequeno arco, com uma

234

flecha, com que deve passar o tempo, sempre há entre estas mulheres ciúmes,
atirando num alvo de cera. Assim proce- mormente a mulher primeira; porque
dem para que seus braços não percam a pela maior parte são mais velhas que as
pontaria, com a impressão da matança. outras, de menos gentileza, o qual ajun-
tamento é público, diante de todos.”
Tudo isso vi e assisti.”
Padre Manuel da Nóbrega
Gabriel Soares de Sousa
Chefe da primeira missão jesuítica à
Escreveu o Tratado Descritivo do América. Escreveu o Diálogo sobre a Con-
Brasil (1587), obra fundamental para versão do Gentio. Ao catequizar os índios,
se conhecer a fauna e a flora da época. contribuiu bastante para os estudos dos
Ainda mostra os hábitos culturais dos hábitos dos tupinambás, criticando al-
tupinambás, diferentemente de Hans guns de seus costumes como a nudez,
Staden, respeitando e mostrando tam- a poligamia e a antropofagia. Mas, ao
bém as qualidades da tribo, principal- mesmo tempo, criticava o comporta-
mente os ritos matrimoniais. mento do homem branco que explorava
o nativo como escravo.
Capítulo CLII – Que trata da
maneira dos casamentos dos tupi- Carta ao padre mestre
nambás e seus amores Simão R. de Azevedo

“A mulher verdadeira dos tupinambás “[...] Também achamos um princ­ipal
é a primeira que o homem teve e conver- deles já cristão batizado, o qual me dis-
sou, e não tem em seus casamentos outra seram que muitas vezes o pedira, e por
cerimônia mais que dar o pai a filha a seu isso está mal com todos os seus paren-
genro, e, como têm ajuntamento natu- tes. Um dia, achando-me eu perto dele,
ral, ficam casados; e os índios principais deu uma bofetada grande a um dos
têm a mais de uma mulher, e o que mais seus por lhe dizer mal de nós ou cou-
mulheres têm, se tem por mais honrado sa semelhante. Anda muito fervente
e estimado; mais elas dão todas a obe- e grande nosso amigo; demos-lhe um
diência à mais antiga, e todas a serve, a barrete vermelho que nos ficou do mar
qual tem armado sua rede junto da do e umas calças. Traz-nos peixes e outras
marido, e entre uma e outra tem sempre cousas da terra com grande amor. [...]
fogo aceso; e as outras mulheres têm suas Espero no Senhor que este há de ser um
redes, em que dormem, mais afastadas, e grande meio e exemplo para todos os
fogo entre cada duas redes; e quando o outros, os quais lhe vão já tendo gran-
marido se quer ajuntar com qualquer de inveja por verem os mimos e favores
delas, vai-se lançar com ela na rede, onde que lhe fazemos. Um dia comeu conos-
se detém só aquele espaço deste con- co à mesa perante dez ou doze ou mais
tentamento e torna-se para seu lugar; e
235

dos seus, os quais se espantaram do fa- Em 1554, fundou a cidade de São Paulo.
vor que lhe dávamos. Escreveu crônicas, poemas que merecem
destaque, sermões e textos teatrais com
Parece-nos que não podemos deixar finalidades pedagógicas. Criou a primeira
de dar a roupa que trouxemos a esses gramática tupi-guarani: Arte de Gramática
que querem ser cristão, repartindo-lha da Língua mais usada na Costa Brasileira.
até ficarmos todos iguais com eles, ao
menos por não escandalizar aos meus A Santa Inês
irmãos de Coimbra, se souberem que
por falta de algumas ceroulas deixa uma Cordeirinha linda,
alma de ser cristão e conhecer a seu Cria- como folga o povo
dor e Senhor e dar-lhe Glória. porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
[...] Somente temo o mau exemplo
que o nosso cristianismo lhe dá, por- Cordeirinha santa,
que há homens que há sete e dez anos de Iesu querida,
que se não confessam e parece-me que vossa santa vinda
põem a felicidade em ter muitas mulhe- o diabo espanta.
res. Dos sacerdotes ouço cousas feias.
Parece-me que devia Vossa Reverendís- Por isso vos canta,
sima de lembrar a Sua Alteza um vigário com prazer, o povo,
geral porque, sei que mais moverão o porque vossa vinda
temor da justiça que o amor do Senhor.” lhe dá lume novo.

Padre José de Anchieta

REPRODUÇÃO Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura

Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

O missionário jesuíta Padre José de Anchieta Virginal cabeça
pela fé cortada,
Jesuíta que chegou ao Brasil em 1533 com vossa chegada,
para converter os índios ao Cristianismo. já ninguém pereça.
236

Vinde mui depressa mulatos). Sua obra foi publicada postu- REPRODUÇÃO
ajudar o povo, mamente em 1822.
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo. Triste Bahia
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Vós sois, cordeirinha, Estás e estou do nosso antigo estado!
de Iesu formoso, Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
mas o vosso esposo Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
já vos fez rainha. A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
Também padeirinha A mim foi-me trocando, e tem trocado,
sois de nosso povo, Tanto negócio e tanto negociante.
pois, com vossa vinda, Deste em dar tanto açúcar excelente
lhe dais lume novo. Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
BARROCO Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Gregório de Matos Que fora de algodão o teu capote!
Padre Antônio Vieira
Gregório de Matos e Guerra nasceu
em 1633, em Salvador, Bahia, e faleceu Obra de autor desconhecido com a efígie
em 1696. Formado em Direito pela do célebre padre jesuíta, retratado num
Universidade de Coimbra, ao voltar ao escritório, com o manuscrito da Clavis
Brasil, trabalha de vigário-geral e de Prophetarum, obra deixada inédita e só
tesoureiro-mor. Por fazer duras críticas publicada e traduzida em 2000
ao governador Antônio da Câmara Cou-
tinho, foi exilado em Angola. Voltou ao
Brasil, mas não poderia voltar à Bahia,
estabelecendo-se em Pernambuco,
onde morre depois. Escreveu poemas
amorosos (com forte influência camo-
niana), poemas religiosos (conflito en-
tre o pecado e a salvação), filosóficos
(em que refletem sobre a vida, o tempo,
a vaidade e a morte) e satíricos (com os
quais ficou conhecido pela alcunha de
“Boca do inferno”, por criticar os gover-
nantes corruptos, os padres, negros e

237

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, da idade a levaram os espinhos, já que
Portugal, em 1608, e faleceu em 1697. outra parte a levaram as pedras, já que
Ingressou na Companhia de Jesus e mi- outra parte a levaram os caminhos, e
nistrava aulas de retórica. Destacava-se tantos caminhos, esta quarta e última
pelos sermões excepcionais. Foi conse- parte, este último quartel da vida, por-
lheiro de D. João VI. Após a morte do rei que se perderá também? Porque não
de Portugal, Vieira aderiu ao Sebastia- dará fruto? Porque não terão também
nismo, ganhando inimigos, entre eles, os anos o que tem o ano? O ano tem
o tribunal do Santo Ofício, mas conse- tempo para as flores e tempo para os
guiu ser absolvido brilhantemente. Em frutos. Porque não terá também o seu
seus sermões, criticava a escravidão, a Outono a vida? As flores, umas caem,
ganância, a corrupção e as injustiças so- outras secam, outras murcham, outras
ciais. Ao criticar a escravização do índio, leva o vento; aquelas poucas que se
se indispôs com os colonos e pequenos pegam ao tronco e se convertem em
comerciantes. Um de seus sermões fruto, só essas são as venturosas, só
mais conhecido é o Sermão da Sexagési- essas são as que aproveitam, só essas
ma, em que reflete sobre as qualidades são as que sustentam o Mundo. Será
do bom pregador. bem que o Mundo morra à fome? Será
bem que os últimos dias se passem
• Principais obras: em flores? – Não será bem, nem Deus
Sermões (15 volumes): 1679-1690, quer que seja, nem há de ser. Eis aqui
1710-1718 porque eu dizia ao princípio, que vin-
des enganados com o pregador. Mas
• História do Futuro: 1718 para que possais ir desenganados com
• Esperança de Portugal: 1856-1857 o sermão, tratarei nele uma matéria
de grande peso e importância. Servirá
Sermão da Sexagésima como de prólogo aos sermões que vos
hei de pregar, e aos mais que ouvirdes
“Oh que grandes esperanças me esta Quaresma.”
dá esta sementeira! Oh que grande
exemplo me dá este semeador! Dá-me ARCADISMO
grandes esperanças a sementeira por-
que, ainda que se perderam os primei- Tomás Antônio Gonzaga
ros trabalhos, lograr-se-ão os últimos.
Dá-me grande exemplo o semeador, Nasceu em 1744, em Porto, Portu-
porque, depois de perder a primeira, gal, e faleceu em 1810. Formou-se em
a segunda e a terceira parte do trigo, Direito pela Universidade de Coimbra
aproveitou a quarta e última, e colheu e trabalhou como magistrado em Vila
dela muito fruto. Já que se perderam Rica (Minas Gerais). Por se envolver
as três partes da vida, já que uma parte

238

com a Inconfidência Mineira, foi pre- Adeus, doce rabil; neste alto freixo
so na Ilha das Cobras, até ser conde- Te fica, ao meu destino consa-
nado ao exílio em Moçambique, onde grado.
advogou e casou-se com Juliana Mas- Se te for meu sucesso perguntado,
carenhas. Sua obra está dividida em não declares, rabil, de quem me
poesia lírica e épica. Na poesia lírica, queixo;
usou o pseudônimo Dirceu, um pas- não quero que se saiba vive Aleixo
tor apaixonado por Marília. Utiliza-se por causa de uma infame dester-
de vários elementos autobiográficos. rado.
Alguns poemas foram escritos antes
da prisão de Tomás Antônio Gonza- Se vires a pastor desconhecido,
ga, apresentando um tom mais ale- lhe dize então piedoso: – Ah! vai-te
gre e emotivo, diferentes de outros embora,
(escritos na prisão), mais sombrios e atalha os danos, que outros têm
pessimistas. Já na poesia épica, Gon- sentido.
zaga escreve Cartas Chilenas, em que
destaca-se pela crítica satírica a Luís Habita nesta aldeia uma pastora,
da Cunha Menezes, que governou de rosto belo, coração fingido,
a capitania de Minas Gerais entre umas vezes cruel, e a mais traidora.
1783 e 1788. Gonzaga assina com o
pseudônimo de Critilo e dirige-se a Cláudio Manuel da Costa
Doroteu (Cláudio Manuel da Costa)
que vivia supostamente na Espanha. Nasceu em 1729, em Mariana,
O autor critica a administração des- Minas Gerais, e suicidou-se (embora
pótica de Fanfarrão Minésio (Luís da haja controvérsias) em 1789. Forma-
Cunha Menezes), em Santiago, Chile. do em direito pela Universidade de
Chile representava Minas Gerais e Coimbra, tomou contato, em Por-
Santiago, Vila Rica. tugal, com as novidades literárias
trazidas pela Arcádia Lusitana. Fez
Obras: parte do movimento da Inconfidên-
cia Mineira, sendo preso e tortura-
• Marília de Dirceu (1812) do. Foi encontrado morto na cela
• Cartas Chilenas (1845) em que aguardava o julgamento.
Alguns contestam a versão de suicí-
Soneto XX de Tomás dio, alegando que Cláudio Manuel
Antônio Gonazaga da Costa teria sido assassinado. Seu
livro Obras poéticas, de 1768, é o ini-
Adeus, cabana, adeus; adeus, ó gado; ciador do Arcadismo no Brasil. Em
Albina ingrata, adeus, em paz te deixo; sua obra, Cláudio Manuel da Costa

239

faz referências à paisagem mineira, de Arcádia Romana mineira, sob o
ao Ribeirão do Carmo, às pedras, às pseudônimo de Alcindo Palmireno.
montanhas e aos vales. Escreveu po- Embora sonhava em ser músico, exer-
esia lírica e épica. Em alguns poemas, ceu as carreiras de advogado e profes-
sob o pseudônimo de Glauceste Sa- sor. Suas obras mais conhecidas são
túrnio, narra a sua desilusão amorosa O desertor (1774), O templo de Netuno
em relação à musa inspiradora, Nise. (1777) e Glaura (1799). Destaca-se na
Ainda escreveu Vila Rica, poema ins- produção de rondós e madrigais, com
pirado nas epopeias clássicas, que re- forte musicalidade e a presença de ele-
lata a descoberta de ouro em Minas. mentos da fauna e flora de nosso país.

Soneto À Lua

Onde estou? Este sítio desconheço: Como vens tão vagarosa,
Quem fez tão diferente aquele prado? Oh formosa e branca lua!
Tudo outra natureza tem tomado; Vem co’a tua luz serena
E em contemplá-lo tímido esmoreço. Minha pena consolar!
Geme, oh! céus, mangueira antiga,
Uma fonte aqui houve; eu não me Ao mover-se o rouco vento,
esqueço E renova o meu tormento
Que me obriga a suspirar!
De estar a ela um dia reclinado: Entre pálidos desmaios
Ali em vale um monte está mudado: Me achará teu rosto lindo
Quanto pode dos anos o progresso! Que se eleva refletindo
Puros raios sobre o mar.
Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera: Alvarenga Peixoto
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era: Inácio José de Alvarenga Peixoto
Mas que venho a estranhar, se estão nasceu em 1744, No Rio de Janeiro, e
presentes faleceu em 1793. Exerceu o cargo de
Meus males, com que tudo degenera?! Juiz de Fora da vila de Sintra, em Por-
tugal, bem como o de senador pela
Silva Alvarenga cidade mineira de São João del-Rei.
Também exerceu o cargo de Ouvidor
Manuel Inácio da Silva Alvarenga da comarca de Rio das Mortes Vila Rica.
nasceu em 1749, em Ouro Preto, Mi- Frequentava constantemente Vila Rica.
nas Gerais, e faleceu em 1814. Partici- Por participar da Inconfidência Minei-
pou da Colônia Ultramarina, espécie ra, foi condenado ao degredo na África.

240

Seus poemas têm como tema central o Basílio da Gama
amor e a crítica à sociedade da época.
José Basílio da Gama nasceu em 1740,
À D. Bárbara Heliodora em Minas Gerais, e faleceu em 1795. Par-
ticipou da Arcádia Romana com o pseu-
Bárbara bela, dônimo de Termindo Sepílio. Foi preso
Do Norte estrela, por ter ligações com a Companhia de
Que o meu destino Jesus, e por fazer um epitalâmio (poe­ma
Sabes guiar, em homenagem às núpcias) para a filha
De ti ausente do Marquês de Pombal, recém-casada,
Triste somente sendo libertado a pedido dela. Sua obra
As horas passo mais significativa é O Uraguai (1769),
A suspirar. epopeia que já não segue rigorosamente
os moldes camonianos e faz duras críti-
Por entre as penhas cas aos jesuítas espanhóis e portugueses
De incultas brenhas que guerreavam por fronteiras no atual
Cansa-me a vista Rio Grande do Sul, por discordarem das
De te buscar; decisões do Tratado de Madri.
Porém não vejo
Mais que o desejo, A morte de Lindóia
Sem esperança
De te encontrar. Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindoia
Eu bem queria A noite e o dia Lá reclinada, como que dormia,
Sempre contigo Poder passar; Na branda relva e nas mimosas flores,
Mas orgulhosa Sorte invejosa, Tinha a face na mão e a mão no tronco
Desta fortuna Me quer privar. Dum fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Tu, entre os braços, Descobrem que se enrola no seu corpo
Ternos abraços Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Da filha amada Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Podes gozar; Fogem de a ver assim sobressaltados
Priva-me a estrela E param cheios de temor ao longe;
De ti e dela, E nem se atrevem a chamá-la e temem
Busca dous modos Que desperte assustada e irrite o
De me matar! monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Poema dedicado à sua esposa, re- Porém o destro Caitutu, que treme
metido do cárcere da Ilha das Cobras. Do perigo da irmã, sem mais demora

241

Dobrou as pontas do arco, e quis três Basílio da Gama
vezes
faleceu em 1784. Formado em Teologia,
Soltar o tiro, e vacilou três vezes pertenceu à Ordem de Santo Agosti-
Entre a ira e o temor. Enfim sacode nho. Foi professor e reitor da Universi-
O arco e faz voar a aguda seta, dade de Coimbra. Escreveu Caramuru
Que toca o peito de Lindoia e fere (1781), poema épico escrito nos moldes
A serpente na testa, e a boca e os camonianos (dez cantos, versos de-
dentes cassílabos e rimas ABABABCC) em que
Deixou cravados no vizinho tronco. narra as aventuras de Diogo Álvares
Açoita o campo com a ligeira cauda Correia, que naufragou no Recôncavo
O irado monstro, e em tortuosos giros Baiano, sendo apelidado pelos nativos,
Se enrosca no cipreste, e verte envolto ao dar um tiro de espingarda, de Cara-
Em negro sangue o lívido veneno. muru, ou seja, “filho do trovão”.
Leva nos braços a infeliz Lindoia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento e aos ecos tantas
vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.

Tanto era bela no seu rosto a morte!

sAntA ritA durÃo

Frei José de Santa Rita Durão nasceu
em 1722, em Cata-Preta, Minas Gerais, e

242

REPRODUÇÃO Janeiro, e faleceu em 1882. Figura
ilustre em seu tempo, Gonçalves de
Capa de Caramuru REPRODUÇÃO Magalhães foi médico, diplomata,
deputado e professor de Filosofia
ROMANTISMO no Colégio Dom Pedro II. Sua obra
sofreu críticas severas de José de
Os ideais de liberdade, fraternidade e Alencar, sendo defendido por alguns
igualdade, criados pela Revolução France- amigos, entre eles, D. Pedro. Sua obra
sa, foi um dos propulsores da nova escola é considerada monótona pela crítica
e ainda se prende aos preceitos do
literária, conhecida como Romantismo, Arcadismo. Suspiros poéticos e sau-
que se espalhou por diversos países dades (1836) é importante por ser a
obra inicial do Romantismo no Brasil.
Gonçalves de Magalhães
Domingos José Gonçalves de Ma- Gonçalves Dias

galhães nasceu em 1811, no Rio de Antônio Gonçalves Dias nasceu em
1823, em Caxias, Maranhão, e faleceu
em 1864, no naufrágio do navio “Ville
de Boulogne”. Estudou Direito, embo-
ra não tenha se formado. Foi profes-
sor de Latim e de História do Brasil
no Colégio Dom Pedro II. Gonçalves
Dias, por ser filho de comerciante
português branco com mãe cafuza, se
orgulhava de trazer em seu sangue a
mistura das três raças que formaram
a etnia do Brasil. Em sua obra, valori-
zou a pátria e exaltou a figura do ín-
dio, símbolo do nosso herói nacional
e de nossa honra. Critica também o
português, que quer enriquecer às
custas do índio, não respeitando a
sua cultura. Na lírica-amorosa, produ-
ziu poemas que falavam de amores
não correspondidos. Alguns desses
poemas de amor possuíam um tom
autobiográfico já que, Gonçalves
Dias foi apaixonado por Ana Amélia

243

Ferreira do Vale, mas a família impediu Sem qu’inda aviste as palmeiras, REPRODUÇÃO
a união dos dois. Onde canta o Sabiá.
Álvares de Azevedo
Principais obras:
Poesia Manuel Antônio Álvares de Azevedo
Manuel Antônio Álvares de Azeve-
• Primeiros cantos (1846) do nasceu em 1831, em São Paulo, e
• Segundos cantos (1848) faleceu em 1852. Estudou Direito em
• Sextilhas de Frei Antão (1848) São Paulo, mas não chegou a concluir
• Últimos cantos (1851) o curso, pois morreu no quarto ano
• Os Timbiras (1857) da faculdade. Poeta boêmio e preco-
ce, inspirado em Byron e Musset, es-
Teatro creveu uma obra significativa, apesar
do pouco tempo de vida. Em todos
• Leonor de Mendonça (1847) os seus textos há sempre os mes-
• Beatriz Cenci (1843) mos elementos: o mistério, o medo,
o amor (que oscila entre o casto e o
Canção do Exílio libidinoso), a morte, o pessimismo e
o gosto pelo noturno.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;

244

Principais obras: Fui beijá-la... roubei do seio dela REPRODUÇÃO
um bilhete que estava ali metido...
Poesia Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
• Lira dos vinte anos (1853) são versos dela... que amanhã decerto
• Conde Lopo (1886) ela me enviará cheios de flores...
• O poema do frade (1890) Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
• Prosa Como Otelo beijando a sua esposa,
Noite na taverna (1855) eu beijei-a a tremer de devaneio...
É ela! é ela! — repeti tremendo;
• Teatro mas cantou nesse instante uma coruja...
Macário (1855) Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!
É ela! É ela! É ela! É ela! Castro Alves
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela! Castro Alves
Eu a vi... minha fada aérea e pura — Antônio Frederico Castro Alves
a minha lavadeira na janela. nasceu em 1847, em Curralinho,
Bahia, e faleceu em 1871. Poeta
Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus
passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos
braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...

245

defensor das causas abolicionistas, mas E da alcova saía um cavaleiro
sem cair na arte panfletária, Castro Al- Inda beijando uma mulher sem véus
ves buscava soluções menos idealiza- Era eu Era a pálida Teresa!
das para os problemas sociais e a opres- “Adeus”lhe disse conservando-a presa
são e ignorância do povo brasileiro.
Muitos de seus poemas eram declama- E ela entre beijos murmurou-me:
dos em festas, logo, eles apresentavam “adeus!”
uma linguagem grandiloquente, cheia
de exclamações, apóstrofes, hipérboles, Passaram tempos sec’los de delírio
que representavam espaços amplos Prazeres divinais gozos do Empíreo
como o céu, o mar, o deserto, universo, ... Mas um dia volvi aos lares meus.
cosmo, infinito. O poeta também cons- Partindo eu disse - “Voltarei! des-
truiu uma lírica cheia de sensualidade cansa!...”
e menos idealização, se comparado à Ela, chorando mais que uma criança,
Álvares de Azevedo.
Ela em soluços murmurou-me:
Obras: “adeus!”

Poesia Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na
• Espumas flutuantes (1870) orquestra
• A cachoeira de Paulo Afonso (1876) Preenchiam de amor o azul dos céus.
• Os escravos (1883) Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!
• Teatro
Gonzaga ou a Revolução de Minas E ela arquejando murmurou-me:
(1875) “adeus!”

O “adeus” de Teresa Junqueira Freire

A vez primeira que eu fitei Teresa, Luís José Junqueira Freire nasceu em
Como as plantas que arrasta a cor- 1832, em Salvador, Bahia, e faleceu em
renteza, 1855. Esteve doente por muitos anos,
A valsa nos levou nos giros seus viciando-se em cânfora. Estudou Filo-
E amamos juntos E depois na sala sofia no Liceu Provincial da Bahia. Ao
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala sofrer uma desilusão amorosa, ingres-
E ela, corando, murmurou-me:“adeus!” sou no Mosteiro de São Bento de Salva-
dor, mas abandonou a ordem um ano
Uma noite entreabriu-se um re- depois. Sua poesia é excessivamente
posteiro...

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autobiográfica e oscila entre o religioso REPRODUÇÃO Obras:
e o filosófico, mostrando uma alma ator-
mentada entre a fé e a razão. • Poesia
Primaveras (1859)
Obras:
• Teatro
• Inspirações do claustro (1855) Camões e o Jaú (1856)
• Contradições poéticas (s.d)
Fagundes Varela
Casimiro de Abreu
Luís Nicolau Fagundes Varela nas-
Casimiro José Marques de Abreu ceu em 1841, em Rio Claro, Rio de
Casimiro José Marques de Abreu Janeiro, e faleceu em 1875. Tentou
nasceu em 1839, em Barra de São João, concluir o curso de Direito duas ve-
Rio de Janeiro, e faleceu em 1860. Vi- zes, mas a vida boêmia lhe atraía mais.
veu durante um período em Lisboa, Sua poesia tem um caráter espiritual,
escrevendo poemas e peças teatrais. panteísta, pess­imista (especialmente
Seu livro foi publicado e distribuído em homenagem ao seu filho Emiliano,
por seu próprio pai, que tinha uma morto com apenas três meses de vida),
firma de caixeiros viajantes. Sua poesia mas, ao mesmo tempo, faz a defesa do
concentra na saudade, no ambiente índio, do negro e da pátria.
familiar, na simplicidade, na infância, a
natureza e o amor. Obras:

• Noturnos (1863)
• O estandarte auriverde (1863)
• Vozes da América (1864)
• Cantos meridionais (1869)
• Cantos religiosos (1878)

José de Alencar

José Martiniano de Alencar nasceu
em 1829, na Vila de Mecejana, Ceará, e
faleceu em 1877. Dedicou-se à carreira
de advogado, jornalista e escritor. Tam-
bém se interessou pela carreira política,
sendo eleito deputado várias vezes, che-
gando ao cargo de ministro da Justiça.
A prosa de Alencar está dividida em ro-

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mances indianistas, históricos, urbanos e Iracema (Capítulo II)
regionalistas. Foi também autor de crôni-
cas, críticas e peças teatrais. Autor preocu- “Além, muito além daquela serra, que
pado com a construção da identidade e ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
da cultura nacional. Destaca-se o a valori-
zação de um romance indianista com uma Iracema, a virgem dos lábios de mel,
linguagem mais brasileira. Nos romances que tinha os cabelos mais negros que
urbanos, destaca-se a crítica à sociedade a asa da graúna, e mais longos que seu
burguesa e seus costumes, lançando mão talhe de palmeira.
de descrições lentas e detalhistas. Nos
romances regionais e históricos, o autor O favo da jati não era doce como
pinta a natureza com cores fortes e exal- seu sorriso; nem a baunilha recendia no
ta os grandes heróis da nossa História. bosque como seu hálito perfumado.

Obras: Mais rápida que a corça selva­gem, a
morena virgem corria o sertão e as ma-
Romance urbano tas do Ipu, onde campeava sua guerrei-
ra tribo, da grande nação tabajara. O pé
• Cinco minutos (1856) grácil e nu, mal roçando, alisava apenas
• A viuvinha (1860) a verde pelúcia que vestia a terra com
• Lucíola (1862) as primeiras águas.
• Diva (1864)
• A pata da gazela (1870) Um dia, ao pino do Sol, ela repousava
• Sonhos D’ouro 91872) em um claro da floresta. Banhava-lhe o
• Senhora (1875) corpo a sombra da oiticica, mais fresca
• Encarnação (1893) do que o orvalho da noite. Os ramos da
acácia silvestre esparziam flores sobre os
Romance regionalista úmidos cabelos. Escondidos na folhagem
os pássaros ameigavam o canto.
• O gaúcho (1870)
• O tronco do ipê (1871) Iracema saiu do banho: o aljôfar
• Til (1872) d’água ainda a roreja, como à doce man-
• O sertanejo (1875) gaba que corou em manhã de chuva.

Romance histórico Enquanto repousa, empluma das
penas do gará as flechas de seu arco, e
• As minas de prata (1865) concerta com o sabiá da mata, pousa-
• A Guerra dos mascates (1873) do no galho próximo, o canto agreste.

Romance indianista A graciosa ará, sua companheira e
amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe
• O guarani (1857) aos ramos da árvore e de lá chama a
• Iracema (1865) virgem pelo nome; outras, remexe o
• Ubirajara (1874) uru de palha matizada, onde traz a sel-
vagem seus perfumes, os alvos fios do
crautá, as agulhas da juçara com que

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tece a renda, e as tintas de que matiza ografia no Colégio Pedro II. Além de es-
o algodão. crever livros didáticos, foi deputado várias
vezes. Suas obras mostram o cotidiano
Rumor suspeito quebra a doce harmo- burguês, confusões amorosas, encontros
nia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que e desencontros, personagens femininas
o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. ingênuas – elementos que satisfazem
bem o gosto do leitor da época. Sua obra
Diante dela e todo a contemplá-la A moreninha é considerada a primeira
está um guerreiro estranho, se é guer- obra romântica propriamente dita.
reiro e não algum mau espírito da flo-
resta. Tem nas faces o branco das areias Obras:
que bordam o mar; nos olhos o azul tris-
te das águas profundas. Ignotas armas Romance
e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
• A moreninha (1844)
Foi rápido, como o olhar, o gesto de • O moço loiro (1845)
Iracema. A flecha embebida no arco par- • Dois amores (1848)
tiu. Gotas de sangue borbulham na face • A luneta mágica (1869)
do desconhecido.
Teatro
De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu
sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. • O cego (1849)
O moço guerreiro aprendeu na religião • O fantasma branco (1856)
de sua mãe, onde a mulher é símbolo • O primo d Califórnia (1858)
de ternura e amor. Sofreu mais d’alma
que da ferida. A moreninha

O sentimento que ele pôs nos olhos “Poucos momentos depois da cena
e no rosto, não o sei eu. Porém a vir- antecedente, a sala de jantar ficou
gem lançou de si o arco e a uiraçaba, entregue unicamente ao insaciável
e correu para o guerreiro, sentida da Keblerc, que entendeu, não sabemos
mágoa que causara. se mal ou bem, que era muito mais
proveitoso ficar fazendo honras a
A mão que rápida ferira, estancou mais meia dúzia de garrafas de belo vinho
rápida e compassiva o sangue que go- do que acompanhar as moças, que se
tejava. Depois Iracema quebrou a flecha foram deslizar pelo jardim. Outro tanto
homicida: deu a haste ao desconhecido, não fizeram os rapazes, que de perto as
guardando consigo a ponta farpada.” acompanharam, assim como pais, mari-
dos e irmãos, todos animados e cheios
Joaquim Manuel de Macedo de prazer e harmonia, dispostos a aca-
bar o dia e entrar pela noite com gosto.
Nasceu em 1820, em São João do Ita-
boraí, Rio de Janeiro, e faleceu em 1882.
Embora formado em Medicina, trabalhou
como professor de História do Brasil e Ge-

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