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terísticas que se aproximam a um conceito de precariado. No que se refere
às mulheres entrevistadas, percebe-se que, apesar do agravante dos
rebatimentos da divisão sociossexual18 do trabalho, elas demonstram mais
resistência em relação aos homens em situação de desemprego e pre-
carização, especialmente aqueles que são solteiros e chefes de família, os
quais demandam a presença feminina para a conciliação de trabalho e
afazeres domésticos.
Nesse sentido, importa destacar que não há, entre os entrevistados,
uma reflexão e questionamento críticos das diretrizes e orientações dos or-
ganismos internacionais, como a Organização Internacional do Trabalho
(OIT), levando ao esforço de obediência aos mesmos. Existe, porém, a rei-
teração de um conteúdo ideológico hegemônico de perpetuação e expansão
do capital, através da ampliação do desemprego e da precarização do
trabalho.
Diante do exposto, acredita-se que a aproximação com a temática
permitiu entender como a condição de desemprego se assemelha às con-
tribuições marxistas sobre a categoria “exército de reserva de mão de obra”,
que é funcional à ampliação do capital. Leva, ainda, a concluir e reiterar
que, apesar de não haver um consenso na conceituação de precariado, a
precariedade é funcional à manutenção do modo de produção capitalista
porque possibilita a maximização de lucros.
..............................................................................
18 O termo divisão sociossexual do trabalho vem sendo utilizado por Ricardo Antunes (2009) e/ou Claudia Mazzei
Nogueira (2010).
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Recebido em 30 de junho de 2015.
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A Revista Em Pauta: Teoria Social e Realidade Contemporânea está licenciada com uma Licença Creative
Commons Atribuição 4.0 Internacional.
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Revista da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Trabalho emocional e
gênero: dimensões do
trabalho no Serviço Social
Emotional labor and gender: dimensions of labor in Social Work
Débora de Paula Bolzan*
Resumo – Este resumo analisa o trabalho emocional de assistentes
sociais, tomando como base uma pesquisa de mestrado desenvolvida
na região metropolitana de Goiânia (GO). Para tanto, propõe uma
discussão da temática, pouco conhecida no Serviço Social, e traça o
objetivo de identificar como a apropriação do trabalho emocional é
feita nessa profissão. Os resultados apontam que a gestão emocional
é uma das diferentes dimensões e exigências do trabalho no Serviço
Social e identificam que assistentes sociais vivenciam e gerenciam
emoções, em grau considerável, e alteram o gerenciamento
emocional nas diferentes demandas, competências e situações
relacionadas à profissão. Não obstante, verificou-se que o trabalho
no Serviço Social envolve uma interseção intrínseca a gênero,
configurando o trabalho das emoções como sexuado e constitutivo
do processo de construção da identidade profissional.
Palavras-chave: Serviço Social; trabalho emocional; gênero; setor
de serviços.
Abstract – This summary examines the emotional labor of social
workers, based on a Masters level study developed in the metropolitan
area of Goiânia, Goiás. With this aim, it proposes a discussion about
this concept, rarely seen in Social Work literature, attempting to
identify how emotional labor is realized and managed in this profession.
The results show that emotional management is one of the various
dimensions and requirements of the job in Social Work and indicate
that social workers do experience emotions, to a considerable degree,
and alter the emotional management in the different demands, skills
and situations related to the profession. Nevertheless, Social Work
involves an intrinsic gender intersection, taking the gendered
emotional labor as constitutive of the very construction of professional
identity.
Keywords: Social Work; emotional labor; gender; services sector.
..............................................................................
* Assistente social graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), mestra em Sociologia pela
Universidade Federal de Goiás (UFG). Professora de Serviço Social da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
Correspondência: Universidade Federal do Tocantins - Av. Lourdes Solino, S/N, Setor Universitário, CEP: 77.000-
000, Miracema/TO. Email: <[email protected]>
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Introdução
As emoções fazem parte de toda a história da vida humana; no
entanto, constituíram-se como novo campo de estudos somente na década
1970. Este campo foi resultado de um processo de renovação teórica iniciado
nos Estados Unidos, que promoveu uma releitura da tradição sociológica e
antropológica, contribuindo para o surgimento da sociologia e da antro-
pologia das emoções como novas disciplinas. Assim, situando as emoções
como uma importante categoria para a reflexão da inter-relação entre in-
divíduo e sociedade (KOURY, 2014). Esta nova abordagem recorreu, princi-
palmente, à filosofia francesa de Derrida e Foucault e à filosofia social de
Simmel, entre outros autores.
Naquele país, o campo das emoções conheceu um forte desen-
volvimento a partir de meados dos anos 1980, com uma diversidade de
pesquisas e publicações, como a desenvolvida por Lutz (1990), ao refletir
sobre o lugar da emoção no pensamento do Ocidente. A autora identificou
um discurso ocidental associando as emoções ao gênero feminino, ou seja,
as emoções vistas como sinais de fraqueza e voltadas à mulher, ao contrário
da racionalidade, relacionada ao homem (LUTZ, 1990).
Ainda no contexto norte-americano dos anos 1980, Arlie Hochs-
child (1983), embasada na perspectiva dramatúrgica de Goffman (1959),
tornou-se uma grande referência na sociologia das emoções ao definir o
conceito de trabalho emocional (TE). Este pode ser compreendido como a
gestão das emoções ou a atuação da pessoa sobre os sentimentos, no tra-
balho, para produzir um resultado em si mesmo e nos outros, criando uma
expressão facial e corporal observável e desejada pela organização. Isso
significa que no TE é necessário administrar e articular mente e sentimentos,
além dos trabalhos físicos e mentais já inerentes às tarefas desempenhadas
neste ambiente.
Desde que o conceito de trabalho emocional foi formulado por
Hochschild (1983), passou a orientar diversas pesquisas no Ocidente. Valquí-
ria Padilha (2013) registra a publicação de mais de 300 artigos empregando
o conceito de TE, o que indica que este tema se encontra em intenso debate
em diferentes países.
No contexto brasileiro, a temática ganha reconhecimento e conso-
lidação quase duas décadas depois, nos anos 1990 (KOURY, 2014). O in-
teresse por ela tem contribuído para a discussão sobre as emoções no consu-
mo (ALMEIDA; NIQUE, 2004), nas compras on-line (COSTA; FARIAS, 2004)
e nas mais diversas profissões (PADILHA, 2013; NUNES, 2011; VILELA;
ASSUNÇÃO, 2007). Dessa maneira, estimula grupos de pesquisa, como o
Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia da Emoção (Grem), da
Universidade Federal da Paraíba, fundado em 1994 e liderado por Mauro
Koury, um dos primeiros brasileiros a realizar reflexões sociológicas e pes-
quisas sobre as emoções. Este grupo produz o periódico acadêmico intitu-
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lado Revista Brasileira de Sociologia das Emoções, trazendo abordagens e
contribuições aos campos da sociologia e da antropologia das emoções.
Além disso, há, desde 1998, o Grupo de Pesquisa Transformações da Intimi-
dade, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), e o Grupo de Pes-
quisa Cultura, Sociabilidades e Sensibilidades Urbanas, instituído desde
2010 na Universidade Federal da Bahia.
No ambiente de trabalho, em especial no setor de serviços1, es-
pera-se a demonstração de emoções que muitas vezes não existem. Desta
maneira, os trabalhadores devem possuir a capacidade de desenvolver a
gestão dos seus próprios sentimentos para serem capazes de realizar o traba-
lho e expressar emoções, como sorrir e ser cordial, mesmo sem vontade de
fazê-lo. É o que se espera, por exemplo, do trabalho de recepcionista de
hipermercado, dos operadores de caixa, comissários de bordo em linhas
aéreas e em diversas profissões do setor de serviços (HOCHSCHILD, 1983).
Este setor representa, por excelência, a ocupação laboral feminina
no mercado de trabalho, sendo marcado por interações que exigem novas
formas de controle, de gerenciamento e de administração das emoções
constituídas nessas interações (SORJ, 2000). De acordo com Hochschild
(1983), o trabalho emocional em serviços envolve um componente altamen-
te sexuado, apresentando um caráter fortemente ligado a atributos construí-
dos socialmente como femininos. Assim, a análise do trabalho emocional
no Serviço Social torna imprescindível um viés de gênero2, uma vez que o
Serviço Social está entre as profissões brasileiras que mais empregam mu-
lheres.
Na década de 1970, o Serviço Social era a segunda profissão
com maior concentração de mulheres no país; nos censos de 1980, 1991 e
2000 foi assumido como a profissão de nível superior mais feminina do
Brasil (SIMÕES, 2012). Desse modo, Serviço Social, Enfermagem, Pedagogia
e Biblioteconomia são as quatro profissões mais influenciadas pelo gênero
no mercado de trabalho brasileiro. Tais profissões revelam que as desigual-
dades entre os gêneros persistem historicamente e posicionam a mulher
em uma situação desigual, construída a partir da divisão sexual3 do trabalho
e que ganha concretude no mercado de trabalho, sobretudo no setor de
serviços (SORJ, 2000). Nesse contexto, o trabalho no Serviço Social apre-
senta particularidades, principalmente porque a atividade é constituída por
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1 A distinção habitual entre atividades econômicas compreende os tradicionais setores: primário (agrícola, pesca, ca-
ça e extrativismo), secundário (industrial) e terciário (serviços). Entre estes, lista-se: comércio; transportes; publicidade;
computação; telecomunicações; educação; saúde; setor financeiro, bancário e de seguros; administração pública;
alimentação; manutenção e reparação; beleza e higiene; diversões e recreação etc.
2 A análise da categoria gênero deve ser entendida como uma relação entre sujeitos históricos e participantes de um
padrão de acumulação capitalista. Este apropria-se das relações de gênero para explorar as diferenças socialmente
construídas a seu favor. Assim, “os sujeitos históricos têm suas relações reguladas pelo gênero, conjunto de repre-
sentações absolutamente central na sociedade” (SAFFIOTI, 2004, p. 74).
3 O conceito refere-se à distribuição desigual de homens e mulheres no mundo do trabalho, nas profissões e na divisão
desigual do trabalho doméstico. Essa divisão varia no tempo e no espaço, hierarquizando atividades, valorizando ou
não certas profissões e criando “guetos” ocupacionais, como é o caso do Serviço Social. Ver: Lobo, 1991.
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marcadores de desigualdade: é uma profissão historicamente feminizada,
instalada no setor de serviços e que não ocupa lugar de destaque na hierar-
quia das profissões. Portanto, torna-se importante identificar como a apro-
priação do trabalho emocional é feita no Serviço Social.
Dados da pesquisa
A pesquisa4 ora apresentada analisou o trabalho emocional como
uma das diferentes dimensões e exigências do trabalho no Serviço Social.
Para tanto, propôs uma discussão da temática, pouco conhecida no Serviço
Social, e traçou o objetivo de identificar como a apropriação do trabalho
emocional é feita nessa profissão.
A metodologia5 privilegiou as abordagens qualitativas, com base
em levantamento de literatura pertinente, análise documental e observação
sistemática. A pesquisa de campo envolveu a realização de entrevistas semi-
estruturadas, utilizando elementos técnicos de entrevistas narrativas (FLICK,
2004) com os assistentes sociais da região metropolitana de Goiânia (GO).
As narrativas objetivam obter experiências mais subjetivas e dados de maior
profundidade do que nos relatos da entrevista semiestruturada (FLICK, 2009).
Através das formas narrativas, os profissionais falaram de si, das suas práticas,
trajetórias, crenças e experiências laborais e de formação. Desse modo, foi
permitido dar voz aos assistentes sociais entrevistados (DUBAR, 2012).
As entrevistas semiestruturadas foram empregadas como um guia,
por meio de roteiro pré-elaborado; no entanto, permitiram o surgimento
espontâneo de outras questões sobre os objetivos pesquisados. Estas enfo-
caram as experiências biográficas, possibilitando o contato com a realidade
vivida pelos sujeitos. Como procedimento metodológico, as entrevistas são
um método específico de coleta de dados, enfocando as experiências biográ-
ficas e permitindo ao pesquisador estudar tópicos e contextos mais amplos.
A entrevista pode, ainda, ser considerada como uma técnica de pesquisa
por excelência na investigação social, de modo a proporcionar a obtenção
de dados sobre os mais diversos aspectos da vida social, além de dados em
profundidade acerca da vida do entrevistado (LAPERRIÈRE, 2008).
Já a técnica de entrevista narrativa foi empregada não no sentido
restrito desse tipo de técnica qualitativa, mas indiretamente, com o objetivo
de obter relatos baseados nas trajetórias biográficas, oferecendo espaço
para que os entrevistados narrassem suas histórias com pouca ou nenhuma
..............................................................................
4 Dissertação de mestrado intitulada Eu nasci para ser assistente social: o trabalho em Serviço Social, profissionalização,
identidade e gênero, apresentada em julho de 2014 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade
Federal de Goiás, sob orientação do professor Dr. Jordão Horta Nunes (BOLZAN, 2014).
5 A pesquisa contemplou todos os requisitos legais exigidos pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Goiás
(UFG). Foram utilizados nomes fictícios para garantir a privacidade e confidencialidade dos participantes da pesquisa,
resguardando sua identidade.
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intervenção da pesquisadora. As narrativas são um método específico para
coleta de dados particularmente interessante na pesquisa qualitativa. Isto
porque apresentam experiências mais profundas e detalhadas da vida do
entrevistado, estimulando os sujeitos a narrarem questões de sua vida e
pontos de vista que interessam à pesquisa (FLICK, 2009). Compreende-se
as histórias de vida como construções sociais, ou seja, as narrativas for-
necidas revelam as construções culturais da vida dos entrevistados (DUBAR,
2012).
Foram realizadas 15 entrevistas entre maio de 2013 e fevereiro
de 2014, com 13 mulheres e dois homens entre 30 e 70 anos. As áreas de
atuação desses profissionais são diversificadas: assistência social, saúde, Ins-
tituto Nacional do Seguro Social (INSS), Ministério Público (MP), Secretaria
Municipal de Desenvolvimento Urbano (Semdus) e Organização Não
Governamental (ONG). Os tipos de vínculos caracterizam-se por estatutários
efetivos (município, Estado ou União), contratos por tempo determinado,
cargo comissionado e trabalho voluntário.
A amostra constituída6 para a realização de entrevistas foi hetero-
gênea, intencional e não probabilística, composta por profissionais de ambos
os sexos, com idades variadas, tipos de vínculo/contrato de trabalho diferen-
ciados, locais de trabalho distintos e características sociodemográficas diver-
sas. Dessa forma, foram selecionados profissionais formados após o ano de
1993, utilizado como demarcador temporal, pois nesse período foi imple-
mentado um novo Código de Ética com novos parâmetros e referencial
teórico, com orientação teórico-prática inspirada na tradição marxista, obje-
tivando posicionar ética e politicamente os profissionais frente aos usuários
das políticas públicas.
No entanto, houve exceções. Duas entrevistas de pessoas que se
formaram em 1984 e em 1990 foram mantidas. Isto porque o perfil destas
entrevistadas foi extremamente interessante para a pesquisa: uma contribuiu
para a fundação de um grupo feminista em Goiânia; a outra, por sua vez,
participou de várias gestões do Conselho Regional de Serviço Social (Cress)
em anos anteriores. O ano de 1993 também marca a aprovação da Lei Or-
gânica de Assistência Social (LOAS – Lei no 8.742/93), a regulamentação
da profissão sob a Lei no 8.662/93 e a implementação de Novas Diretrizes
Curriculares para os cursos de Serviço Social durante a década de 1990.
Ou seja, estes são os maiores marcos legais que atuam diretamente sobre o
exercício profissional, e sintetizam a busca da categoria para transformar e
renovar a atuação da profissão com base em parâmetros legais.
As entrevistas foram realizadas observando o critério de “saturação
teórica”, ou seja, as informações foram coletadas até perceber que houve
..............................................................................
6 As primeiras seis profissionais foram selecionadas aleatoriamente durante a XXX Semana da/o Assistente Social,
realizada em maio de 2013. Outros contatos foram indicados por uma professora da UFG e por uma professora da
PUC-GO. Por fim, outros profissionais foram indicados pelos próprios entrevistados, por meio da estratégia “bola de
neve” (FLICK, 2009), fazendo com que um caso levasse a outro.
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saturação das categorias, quando não apresentaram dados adicionais de
maior relevância (FLICK, 2009). Desse modo, a amostragem foi constituída
gradativamente durante a fase de coleta, entre maio de 2013 e fevereiro de
2014. O prosseguimento da amostragem ocorreu de acordo com a rele-
vância dos casos e não conforme a representatividade do número de assis-
tentes sociais registrados no Cress. Nessa situação, Flick (2009, p. 124) sugere
que sejam integrados ao estudo os casos da amostragem que se apresentam
“extremos ou desviantes”, pois essa seleção permite chegar a uma com-
preensão do campo a partir de determinados casos que se distinguem entre
si. Caracterizando, assim, as extremidades desse campo e revelando “o al-
cance da variação e da diferenciação no campo”.
O trabalho emocional no setor de serviços
A sociologia das emoções é um campo de estudos novo para o
Serviço Social. Mesmo em extensa busca on-line pelos maiores sites de pu-
blicação científica, não se encontra nenhum trabalho, periódico, artigo
científico, tese ou dissertação que aborde a profissão pelas lentes da so-
ciologia das emoções.
Segundo Hochschild (2003, p. 7), “o trabalho emocional (emotio-
nal work) consiste na administração do sentimento para criar uma fachada
facial e corporal publicamente observável”. Isso significa que determinados
trabalhos necessitam administrar as emoções, inibindo-as, induzindo-as
ou moldando-as de acordo com as regras do sentimento estabelecidas so-
cialmente, criando, assim, uma fachada publicamente observável, como o
sorriso estampado das aeromoças ou a expressão séria de um policial. Os
empregados do setor de serviços são chamados a manifestar constantemente
suas emoções, uma vez que estabelecem relações com os clientes (HOCHS-
CHILD, 2003).
Na esfera pública, o trabalho emocional tem um valor de troca.
Torna-se uma mercadoria comercializada, ainda que, no espaço privado7,
esses atos emocionais tenham apenas um valor de uso. Ao desempenhar o
trabalho emocional, o agente atua superficialmente (surface acting), como
ao sorrir para demonstrar gentileza e receptividade. No entanto, também
atua em profundidade (deep acting), refletindo e transformando seus sen-
timentos para justificar subjetivamente a expressão de sinais corporais que
manifestam objetivamente o trabalho emocional.
O gerenciamento das emoções de maneira superficial se carac-
teriza pela atuação na mudança da expressão sem modificar os sentimentos
internos. Apesar disso, quando se torna necessário atuar em profundidade,
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7 Hochschild (2003) designa como administração das emoções (emotion management) ou operacionalização das
emoções (emotion work) a atividade do trabalho emocional no espaço privado.
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as emoções constituem um esforço de mudança desses sentimentos para
conseguir exibir o que é requerido, atingindo, constantemente, o bem-
estar no trabalho e a subjetividade do trabalhador (HOCHSCHILD, 2003).
O TE apresenta três características essenciais: o contato direto e
constante com o público (face a face ou voz a voz); o contato com o estado
emocional do cliente/usuário, interagindo e produzindo um estado emo-
cional no outro (gratidão, emoção, alegria, satisfação, medo etc.) e influência
da administração/gerência por meio de treinamento e supervisão, exercendo
controle sobre as atividades dos empregados (PADILHA, 2013). No caso
do Serviço Social, certamente as duas primeiras características se eviden-
ciam, pois o contato com os usuários frequentemente ocorre, inclusive em
seus próprios domicílios ou vizinhanças da moradia. Entretanto, o controle
administrativo ou no limite, coercitivo, não ocorre, a não ser em casos
específicos.
Por um lado, as competências hoje atribuídas e reconhecidas na
ocupação priorizam a implementação de políticas públicas e programas
sociais como dever do Estado e direito de todo cidadão. Contundo, ainda
persiste a dimensão “assistencialista” que caracterizou a ocupação no pas-
sado. Esta corresponde a uma representação social ligada ao cuidado (care),
valorizando social e psicologicamente a interação presencial e, no limite,
até afetuosa com os usuários. Na Lei no 8.662/93, por exemplo, que institui
as atribuições privativas para o exercício profissional de assistentes sociais,
a dimensão do “cuidado” está presente na competência de encaminhar
providências, prestar orientação social a indivíduos e grupos, orientando-
os na identificação de recursos e no uso destes, no atendimento e na defesa
de seus direitos, estabelecendo relações diretas e constantes com os usuários
do Serviço Social (BRASIL, 1993).
Na assistência social, a criação e o fortalecimento de vínculos
são uma proposta do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à
Fome (MDS) e faz parte da Proteção Básica, compondo serviços dos Centros
de Referência de Assistência Social (Cras). Segundo o MDS (2015, n.p.),
esses serviços “previnem a institucionalização e a segregação de crianças,
adolescentes, jovens e idosos e oportunizam o acesso às informações sobre
direitos e participação cidadã”. Compondo a equipe multidisciplinar dos
Cras e implementando tais programas, os assistentes sociais estão em cons-
tante envolvimento com usuários, famílias e comunidades. Não raro, isto
implica em relações próximas e até pessoais com os mesmos.
Além disso, as relações estabelecidas entre profissional e usuários
têm grande importância para as instituições empregadoras, geralmente ór-
gãos públicos. Ou seja, a qualidade dos atendimentos e das relações esta-
belecidas entre profissional e usuários favorece a representação positiva da
instituição, legitimando suas políticas e reforçando o poder estatal. Nessa
relação, é requerido maior dispêndio de TE pelo profissional de Serviço
Social, mediando os interesses e objetivos entre instituição e usuários.
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Segundo Glória Bonelli (2003), as ocupações que lidam direta-
mente com o público e estão em posições subalternas na hierarquia das
profissões são as que mais incorporam TE. Assim, devemos pensar o trabalho
das emoções numa perspectiva de gênero, uma vez que o TE “é mais acen-
tuado entre as mulheres do que entre os homens” (BONELLI, 2003, p.
357). Determinados grupos ocupacionais estão mais suscetíveis a realizar
TE, tais como enfermeiras, assistentes sociais, pedagogas, comissárias de
bordo e profissionais de venda direta. Essas profissões são marcadas por
uma estreita separação entre as características pessoais e sua adequação ao
trabalho, transformando traços como aparência, idade, educação, gênero
e raça em potencial produtivo, “de tal forma que características e compe-
tências individuais são a condição mesma da empregabilidade” (SORJ, 2000,
p. 30).
Não obstante, desde a criação do curso de Serviço Social em
Goiás, em 1957, reproduz-se uma “imagem” de Serviço Social baseado no
“modelo” de assistente social vinculada à “ação benéfica”, como especia-
lização técnica apta a trabalhar “junto aos empregados” e “desajustados
sociais” (MIGUEL, 1989, p. 74). Além disso, a Escola de Serviço Social do
Centro-Oeste trazia um caráter inteiramente religioso ao ensino, baseado
nos princípios católicos, sendo fundada e financiada sob a égide da Igreja.
A Escola buscava constantemente apoio moral e financeiro ao Estado e às
organizações da sociedade civil, como a Legião Brasileira de Assistência
(LBA). Dessa maneira, fazia-se uma forte vinculação da assistência social às
mulheres, acionando para o campo dessa política habilidades e qualidades
representadas na figura feminina, como cuidado, amor ao próximo, pa-
ciência e sensibilidade. Portanto, historicamente e ao longo do processo
de profissionalização, o Serviço Social tornou-se uma ocupação feminizada,
encampando todos os significados, atribuições e valores que a mulher ocupa
na sociedade.
Há uma clara divisão sexual do trabalho emocional, concebida a
partir de uma divisão entre a emoção (feminino) e o racional (masculino).
Assim, são atribuídas às mulheres tarefas que demandam simpatia, ternura,
paciência, bondade, gentileza, sensibilidade, intuição etc. Aos homens
cabem as tarefas que exigem racionalidade, agressividade, dureza, aspereza,
frieza etc. Até o ato de chorar é sexuado, socialmente construído sob a
ideia de que “homem não chora”, cuja expressão é, inclusive, letra de re-
cente música brasileira. No mundo do trabalho emocional, essa divisão se-
xual manifesta-se concretamente nas orientações profissionais, guiando os
homens para os trabalhos mais “duros”, ao passo que as mulheres têm mais
chances para os trabalhos que exigem “sua amabilidade” (HOCHSCHILD,
1983).
Nesse sentido, o trabalho deve ser pensado como uma relação
social que considera classe, gênero e raça como elementos constitutivos. É
preciso desvendar a pretensa neutralidade da categoria trabalho, mostrando
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suas características sexuadas e situando as suas relações necessariamente
num contexto social e histórico. Além disso, a problemática de gênero nos
permite pensar contra a ideia dominante de uma classe trabalhadora ho-
mogênea, o que, ao contrário, nos leva a pensar sua heterogeneidade, dando
evidência aos marcadores de diferença e desigualdade na sociedade, como
raça, sexo, nacionalidade e idade.
A categoria gênero explica as relações desiguais entre os sexos
como relações sociais, culturais, políticas e econômicas (re)produtoras dessas
desigualdades, legitimando-as e naturalizando-as. Cabe ressaltar que estas
relações desiguais são estabelecidas historicamente com base em construções
culturais e sociais que diferenciam e hierarquizam os sexos. Ou seja, essa
categoria questiona o lugar social e cultural ocupado pela mulher, lugar
esse construído hierarquicamente como uma relação aparentemente natural
de poder entre os sexos. Além disso, aborda a dimensão social, cultural e
material da desigualdade sexual.
A articulação entre TE e gênero faz com que trabalhos que exigem
maior grau de expropriação das emoções sejam geralmente preenchidos
por trabalhadoras, afirmando que as disposições emocionais fazem parte
das próprias condições de trabalho. As diferenças entre os sexos, criadas
desde a socialização dos indivíduos, ganham concretude na divisão sexual
do trabalho, atribuindo às mulheres profissões que impõem uma sobrecarga
emocional mais pronunciada (SOARES, 2013).
Em vários casos, o gerenciamento laboral de emoções está rela-
cionado ao reconhecimento e valorização cultural de certos estereótipos,
como o da “família tradicional” e seus papéis, como o de homem que é
“provedor”, ligado à esfera pública, e a mulher voltada ao trabalho re-
produtivo e doméstico, bem como os valores a ele associados.
No caso das comissárias de voo pesquisadas por Hochschild, per-
cebe-se que, no contexto histórico dos anos 1960, o conjunto de valores e
regras da família tradicional foi adaptado com sucesso para as atividades
das aeromoças. Nos treinamentos ministrados por uma das empresas pes-
quisadas, às aeromoças e comissários empregava-se a analogia do “lar”,
conduzindo as funcionárias a se relacionarem com os passageiros assim
como se relacionariam com convidados numa reunião familiar, em suas
próprias casas (HOCHSCHILD, 2003, p. 105). Contudo, esse tipo de analogia
sofreu transformações com o desenvolvimento da aviação comercial e o
aumento do número de passageiros, bem como com a acessibilidade do
serviço a estratos de menor poder aquisitivo. Com a criação de linhas com
trajetos menos extensos, os voos tornam-se mais curtos para os clientes,
enquanto as jornadas de trabalho tornaram-se mais longas para as co-
missárias, com número maior de passageiros a serem atendidos.
Assim, as representações sociais sobre a família tradicional e os
vocabulários de motivações a elas associados se modificaram com o aumento
do ingresso das mulheres na esfera pública do trabalho externo, acarretando
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mudanças no trabalho emocional, em nível privado e público. As tra-
balhadoras do sexo feminino sofrem processo análogo não somente no tra-
balho de comissários de voo, mas no setor de serviços em geral. Essas al-
terações nem sempre se coadunam aos interesses da empresa ou instituição,
podendo redundar em problemas na interação com os usuários, des-
continuidades no envolvimento ocupacional e até consequências para a
saúde, como estresse, estranhamento de si e perda da capacidade de sentir.
Por sua vez, o TE pode provocar grande prejuízo ao bem-estar de trabalha-
dores pelo enorme desgaste de fingir o que não se sente (HOCHSCHILD,
1983).
O trabalho das emoções no Serviço Social
O trabalho emocional torna-se, em muitas ocupações, uma di-
mensão do trabalho, sendo desempenhado tão rotineiramente que pode
ser considerado no mercado como uma commodity (NUNES, 2011;
HOCHSCHILD, 1983). No trabalho em serviços exige-se do trabalhador
muito mais do que esforço físico: as interações são altamente demandantes
de esforço emocional. Muitas vezes, o que se compra é a própria relação
que se estabelece, como nas instituições de ensino-aprendizagem. Dito de
outra forma, “o próprio trabalhador é parte do produto que está sendo ofe-
recido ao cliente” (SORJ, 2000, p. 30).
A análise das entrevistas permite perceber que, nos espaços ocu-
pacionais, o cotidiano dos assistentes sociais e as suas demandas são envoltas
por componentes emocionais que exigem um alto grau de trabalho emo-
cional: violência doméstica, desigualdades sociais, extrema pobreza, traba-
lho doméstico, abuso sexual e moral, direitos reprodutivos (gravidez, aborto),
planejamento familiar, disputa de guarda, dependência química, entre
outros. Os relatos seguintes expõem as principais demandas que exigem TE
das assistentes sociais:
Como eu trabalho com vítimas de violência, eu não perdi a capaci-
dade de ficar indignada com a crueldade que as pessoas são capazes.
Principalmente a violência sexual contra a criança, quando ela é
praticada pelo padrasto, pelo tio, isso ainda mexe comigo. (Elisa, 38
anos, estatutária, solteira).
Aqui são todas, porque são vítimas de violência, crianças, né; muitas
vezes é violência intrafamiliar. A gente faz o atendimento e busca
garantir todos os direitos, porém, eu não gostaria de estar nesse progra-
ma, isso mexe muito comigo [...] são jovens, são crianças que vêm
pro atendimento, são de baixa renda [...] vêm em sol ou chuva pra
ter o atendimento. (Laura, 43 anos, contrato por tempo determinado,
casada).
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Olha, [...], por exemplo, mãe solteira que tem dois, três filhos, e ela
que resolve tudo, que dá alimento, é pai e é mãe, isso me emociona
muito, eu fico emotiva com isso porque eu sei que ela tem que ir pro
trabalho e fica entre a cruz e a espada. Ela fica pensando no filho
que pode tá usando droga. Ou uma mãe que tem uma filha pequena,
não tem com quem deixar, é só ela e as crianças; a mãe tá se matando
e chega em casa, vai lavar a roupa, vai preparar a comida pra deixar
pronta pro outro dia. Isso é o que mais acontece. (Luiza, 53 anos, es-
tatutária, casada).
Historicamente, a oposição entre emoção e racionalidade faz
parte da cultura ocidental. Durante muito tempo acreditou-se que era pos-
sível separar razão e emoção na esfera do trabalho; isso faria com que o
trabalhador fosse mais eficiente e produtivo aos interesses capitalistas. Essa
visão, ainda existente, torna heterogêneo e simplifica o trabalho, subes-
timando os efeitos das emoções, inclusive sob a saúde do trabalhador. No
entanto, como atividade humana, o trabalho “é cenário de (re)produção
de diferentes emoções”: as pessoas criam relações, emocionam-se com uma
promoção, sentem medo de perder o emprego ou de sofrer um acidente
etc. (SOARES, 2013). Essas relações estabelecidas no ambiente de trabalho
envolvem emoções e influenciam no processo de construção das identidades
sociais.
Pensando na possibilidade de não se envolver emocionalmente
no trabalho e na tentativa de separar o racional do emocional, Pedro (50
anos, contrato por tempo determinado, casado) expõe: “a gente acha que
com algum tempo vai conseguir, mas não consegue não”. Alice afirma ten-
tar manter-se distante do envolvimento com o usuário, mas não consegue
e se diz admiradora de profissionais que conseguem tal distanciamento:
É difícil lidar com as dificuldades dos outros, né, não tem como você
não se envolver. A gente tenta, mas tem situações que não tem co-
mo você não se fragilizar com a vivência do outro. Então há um pou-
quinho [de estresse] porque você lida com as diferenças, com as difi-
culdades do outro, e isso traz uma certa angústia. Eu fico admirada
daquela [profissional] que fica isenta de tudo, eu admiro, mas eu, eu
não consigo. (Alice, 42 anos, contrato por tempo determinado, casada).
O comprometimento emocional para Júlia é inseparável do seu
modo de ser assistente social:
Me admira quando as colegas falam que dão conta de fazer o atendi-
mento e ficar bem, depois nunca mais pensar naquilo. Eu já estive
na ponta, decidi parar de trabalhar, era com violência sexual. Eu tra-
balhei dois anos e no meu limite, eu não dou conta, não tenho estrutura
emocional pra isso. Porque cheguei ao ponto de terminar o atendi-
mento e sair pro banheiro e chorar. Eu me colocava no lugar daquela
família [...]. Eu vejo o quanto me fragilizou emocionalmente a ques-
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tão da violência sexual. Hoje, quando aqui recebe uma denúncia e
é uma coisa mais grave, eu olho e me faz mal. Eu pessoalmente te-
nho o comprometimento emocional sempre (Júlia, 36 anos, estatutária,
união estável).
Para Telma, assistente social do INSS, casos de concessão de BPC
e casos de requisição de pensão para mulheres idosas exigem mais trabalho
emocional, uma dimensão do trabalho em Serviço Social que, segundo a
profissional, faz parte de sua identidade. O relato chama atenção para o
fato de que muitas mulheres não alcançam os benefícios da previdência,
seja por se encontrarem na informalidade ou em vínculos sem direitos tra-
balhistas, como ocorre no serviço doméstico, seja por sequer possuírem
documentos pessoais, especialmente as que residem em áreas rurais. Essas
mulheres estão, portanto, cotidianamente procurando a assistência social
em busca de condições de sobrevivência de suas famílias.
Muitos casos e o BPC, né, porque você lida mesmo com a maioria
naquela condição de invisibilidade, de risco, e você vê assim que a
situação deles é muito precária. Mas você sabe que a deficiência
daquela criança não vai passar na perícia médica e não vai ser con-
cedido [o benefício]. E também é muito injusto com a maioria das
mulheres idosas; o marido é aposentado e ganha um salário mínimo,
aí ela faz o requerimento [do benefício] e o BPC é negado por causa
da aposentadoria do marido [...]. Eu vejo também uns casos muito
tristes de pensão, né. Aquelas mulheres dependentes do marido que
trabalha e ele não é segurado, ele falece num acidente e ela se en-
contra naquela situação, viúva, com vários filhos, e ela vem aqui e
não tem direito à pensão [...]. Você tenta não se vincular a essa pes-
soa, até pra sua própria saúde mental, mas tem muitos casos que é
inevitável, não tem como, até porque já faz parte da nossa identidade,
né, é muito difícil. (Telma, 38 anos, estatutária, casada).
Alice ressalta que o próprio relacionamento com o usuário, a ca-
pacidade de escuta e as emoções trazidas produzem e exigem o geren-
ciamento do TE:
Aí me emociona porque tem [...] tem vezes que o usuário só quer ser
ouvido, e isso também é muito importante, porque a partir do momento
que ele chega na unidade, que você recebe, que você faz a primeira
acolhida, que ele senta na sua frente e faz assim “ai!”, você vê que
você já acolheu bem aquele usuário. E ali ele tá aberto a tudo, você
entra no seio da família, você entra na intimidade daquele usuário,
ele traz coisas assim que, querendo ou não, não tem como não se
emocionar. (Alice, 42 anos, contrato por tempo determinado, casada).
De uma parte, o usuário chega ao Serviço Social com um conjunto
de expectativas de natureza material, emocional e psicológica advindas de
situações de carência material, violação de direitos, empobrecimento, abuso
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sexual etc. De outra, o assistente social, ao mesmo tempo, apresenta-se
com uma conformação emocional e psicológica também complexa, tendo
que gerir e mediar a relação daquele indivíduo com o Estado. Essa relação
de proximidade faz com que a assistente social tenha acesso privilegiado a
informações dos usuários e desenvolva ainda mais o TE, tornando a prática
profissional um exercício constante no sentido de gerenciar, além das suas
próprias emoções, as emoções do outro, como é percebido na fala de Telma:
“Na previdência, como a demanda é menor, a gente consegue dar o
atendimento mais qualificado, né. Então você conhece melhor e se envolve
mais com as pessoas, com as famílias que a gente acompanha, então acaba
que me afeta, né”.
É também importante mencionar que o trabalho emocional não
é por si só um motivo de estresse, exaustão emocional e esgotamento, mas
relaciona-se a outros fatores, como condições de trabalho desfavoráveis,
jornadas longas e pouca experiência e tempo de trabalho na atividade de
interação com clientes. Quanto maior for a autonomia, a possibilidade de
ser autêntico nas interações e o reconhecimento no trabalho, significativa-
mente menor será o desgaste emocional. Isso demonstra que não é o traba-
lho emocional em si que esgota o trabalhador, mas o conjunto de fatores,
exigências afetivas e condições em que o trabalho emocional é realizado
no contexto da organização (VILELA; ASSUNÇÃO, 2007).
As entrevistas expõem que o desgaste do ambiente de trabalho e
o esforço emocional e físico, além das condições inadequadas de trabalho,
trazem consequências para a saúde, tornando frequentes as queixas de
esgotamento, cansaço e estresse, entre outras patologias. Este é o caso de
Pedro, que ficou dois anos afastado do mercado de trabalho para tratamento
de saúde: “inclusive eu fui vítima do estresse, eu adoeci. Estresse e depres-
são”. Em outros casos, há relato de “mal-estar, desânimo, que é o que a
gente vê em todos” (Laura). Problemas de saúde também já afetaram Luiza:
“eu tive um problema na coluna e tive LER8 na Casa da Acolhida9, porque
a gente escrevia demais e eu escrevo muito”.
No caso de Telma, as consequências para a saúde parecem ter
sido mais graves, como relata: “eu adoeci, eu comecei a fazer terapia e
faço tratamento psiquiátrico até hoje, e tomo remédio pra depressão até
hoje. Só o [remédio] da síndrome do pânico que o médico tirou, mas hoje
eu consigo trabalhar melhor, antes me afetava mais, hoje já melhorou bas-
tante”.
Todos os assistentes sociais da pesquisa relatam que as exigências
institucionais, a burocracia excessiva e as condições precarizadas de trabalho ge-
ram sobrecarga e desgaste emocional, consequentemente demandando TE:
..............................................................................
8 Lesão por Esforço Repetitivo (LER), em inglês Repetitive Strain Injury.
9 Criada em 2007, a Casa de Acolhida Cidadã tem como objetivo abrigar, temporariamente, famílias e adultos em si-
tuação de rua, aqueles que estão em trânsito, ou seja, migrantes e imigrantes, e pessoas que recebem alta hospitalar
e não possuem vínculo familiar identificado no município de Goiânia.
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Olha, aqui é um trabalho que exige muito, que absorve muita energia
da gente, aqui é atendimento ao adolescente infrator [...]. Aqui é de-
mais o trabalho, eu falo aqui, mas não é só aqui não, isso é em todas
as unidades; a exigência é muito grande, mas as condições de traba-
lho não são boas, não temos nem material pra trabalhar. Até uma
coisa simples, uma pasta, um prontuário, tudo é muito burocrático, a
carga horária é excessiva porque você tem que mergulhar mesmo no
trabalho e é muita cobrança de relatório. Pela lei nós não podemos
assistir mais de vinte adolescentes, mas eu estou com trinta e quatro
adolescentes, então isso sobrecarrega muito, tem coisa que você
não quer levar pra casa, mas você leva. (Luiza, 53 anos, estatutária,
casada).
A própria dinâmica de funcionamento do setor público pode gerar
situações de estresse, como pontua Júlia: “Muito estresse! E pelo salário a
gente não tem motivação [...]. O ambiente e a profissão são muito es-
tressantes. Principalmente no serviço público. Tudo é pra ontem. Tudo é
pra apagar fogo. Então isso deixa a gente muito mal”.
Por outro lado, as relações sociais estabelecidas fora do ambiente
de trabalho oferecem suporte externo (relações familiares, amorosas, ami-
zades) e são fatores protetores contra a exaustão emocional, bem como ali-
viam o estresse emocional. Os entrevistados descrevem a prática de ativi-
dades físicas, como corrida, caminhada e academia, além de relato de tra-
balho manual com plantas, viagem em final de semana para chácara e cul-
tos religiosos como suavizadores das tensões emocionais e físicas geradas
no trabalho.
A apropriação do trabalho emocional, no que tange à manipulação
emocional por exigência institucional, aparece no relato de uma profissional.
Ela demonstra que há uma separação entre o significado dos sentimentos
exigidos pela instituição e de seus próprios sentimentos e interpretações,
exemplificando sua percepção de incongruência entre a emoção sentida e
a exigida:
Lá as pessoas vivem muito de aparência, então, assim, o tratamento
que pedem para com os usuários, inclusive, é um tratamento que
eles querem que seja tratamento paternalista, de política assisten-
cialista. Eles pedem para você ter esse tratamento, mas não é por
conta do usuário, é muito para deixar a impressão da equipe da pri-
meira dama, a equipe da primeira dama é a melhor equipe, é uma
equipe humanizada, mas é aquele humanismo conservador. Então,
assim, não é a questão do usuário, do usuário se sentir bem; é a ques-
tão do usuário dizer que foi na Secretaria (de Assistência Social) e
ele foi muito bem atendido pelo pessoal da primeira dama. Então
ninguém tá preocupado com o usuário, todo mundo tá preocupado é
em manter seu poder e as relações de poder. (Ana, 30 anos, estatu-
tária, união estável).
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Como observa Bonelli (2003, p. 358), o trabalho emocional é
um gerenciamento intermitente das emoções, uma forma consciente de
como “os seres humanos atuam para suprimir a distância entre o que estão
sentindo e o ideal que têm do que deveriam sentir”. É justamente uma
atuação superficial (surface acting) que se pode observar no trecho ilustrado
anteriormente, ou seja, uma divergência entre a “aparência” que o usuário
deve ter do serviço e a simulação que a instituição exige da profissional
por intermédio da manipulação da emoção. Entretanto, a assistente social
parece apresentar uma leitura crítica e consciente sob a dissonância entre
o componente político envolvido na simulação de sentimentos e a autenti-
cidade de seus próprios sentimentos enquanto profissional. Segundo Padilha
(2013), esse é um aspecto fundamental do trabalho emocional, no qual o
trabalhador vende a imagem da empresa/instituição e sua marca/serviço, e
nesse processo estabelece relações com os clientes/usuários.
Os relatos apresentados evidenciam que, no Serviço Social, as
emoções são administradas em profundidade (deep acting) e são tão rotinei-
ras que chegam a ser interiorizadas e inseparáveis do cotidiano, mesmo
quando se tenta manter certa distância e racionalidade. Isto contribui para
que o trabalho emocional se constitua como parte da identidade profis-
sional.
O TE orientado por gênero também deixa suas implicações no
Serviço Social, como se evidencia no relato de Pedro, que percebe uma
diferença no comportamento dos “meninos” quando são atendidos por
um profissional do sexo masculino: “Eu acho que na questão de abordagem,
tem hora que tem que ser forte. Então aí que entra a questão de ser homem,
a questão do menino te ouvir sabendo quando é pra tomar uma atitude,
ele vai tomar de uma forma diferente da mulher”. Soares (2013) observa
que o TE está implícito na divisão sexual do trabalho, sendo que os homens
devem externar atitudes que exijam um comportamento mais agressivo,
rude, duro, frio etc. Esses estereótipos associam os homens ao “campo do
racional, do público e da produção, enquanto as mulheres são associadas
ao campo do emocional, do doméstico e da reprodução” (SOARES, 2013,
p. 164).
As regras de sentimentos são construídas culturalmente, fazendo
parte da tradição e da socialização. Soares (2013) observa que, durante a
socialização, até o ato de chorar torna-se sexuado. Os homens são educados
para não chorar, reprimir emoções e não demonstrá-las em público. “No
mundo da virilidade, as lágrimas são associadas à fraqueza, à feminilidade,
à covardia” (SOARES, 2013, p. 167). Por outro lado, os estereótipos de gê-
nero permitem que a mulher exponha suas emoções, relacionando-as à
sua “natureza biológica”, à fragilidade e à docilidade. Portanto, a cultura e
a socialização têm papel crucial na determinação de quem pode expor ou
inibir suas emoções, definindo como, onde e por que elas devem e podem
aparecer.
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No setor de serviços, os códigos e regras de conduta sobre os
sentimentos encontram-se subentendidos no trabalho emocional como com-
ponente intrínseco ao trabalho feminino. As ocupações no setor de serviços
estão relacionadas ao tradicional papel ocupado pelas mulheres no âmbito
doméstico. São atividades vistas como menos qualificadas, geralmente ba-
seadas em atributos e “qualidades” femininas, como o amor, o cuidado, a
simpatia e a paciência.
No rol das profissões do setor de serviços, o Serviço Social configu-
rou-se desde seu surgimento como campo complexo e contraditório para
as mulheres. Isto porque representou uma conquista feminina, embora limi-
tada, no espaço ocupacional do mundo do trabalho assalariado, caracteri-
zando-se como um nicho feminino no mercado de trabalho. No entanto, a
profissão ainda não ocupa um lugar valorizado social e financeiramente
frente à hierarquia das profissões, ratificando a divisão sexual do trabalho e
permanecendo uma profissão vinculada a valores associados ao feminino,
mesmo nos dias atuais.
Considerações finais
No campo do trabalho emocional, o Serviço Social configura-se
como uma profissão que administra as emoções em “atuação profunda”
(deep acting), ou seja, um gerenciamento que engloba todo o ser, uma vez
que esses profissionais não conseguem separar as emoções do trabalho
cotidiano (HOCHSCHILD, 1983). Isto faz com que até sua subjetividade
seja engajada no trabalho, “misturando muito mais as fronteiras entre o
público e o privado” (PADILHA, 2013, p. 187).
A interseção entre TE e gênero mostra a persistência do Serviço
Social como nicho de trabalho feminino. Demonstra, ainda, a permanência
da divisão sexual do trabalho, hierarquizando as ocupações no mundo do
trabalho, valorizando ou não certas profissões e criando “guetos” ocupa-
cionais, como no Serviço Social, Enfermagem e Pedagogia. A permanência
da marca de gênero subsiste no Serviço Social, reproduzindo uma concepção
sexuada de exercício profissional. Portanto, reconhecer que o trabalho
possui, além das dimensões físicas e cognitivas, outras dimensões, como as
emocionais, sexuais e relacionais, é fundamental para compreender o tra-
balho e suas múltiplas significações que interagem reciprocamente.
A gestão emocional é um aspecto importante do trabalho no
Serviço Social, uma vez que este é realizado em constante interação com
os usuários. As entrevistas comprovam que assistentes sociais realmente vi-
venciam emoções em grau considerável e alteram o gerenciamento emo-
cional nas diferentes demandas, competências e situações relacionadas à
profissão. As emoções são tão cotidianas no Serviço Social que se tornam
parte da identidade profissional dos assistentes sociais. Isso acontece porque,
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no trabalho em serviços, “é impossível separar claramente o trabalhador, o
processo de trabalho e o produto” (PADILHA, 2013, p. 190). Entretanto,
não se pode afirmar, a exemplo do que ocorre em outras ocupações no
mundo dos serviços, que é verificável uma exploração predatória, ou até
mesmo uma expropriação do trabalho emocional, por parte das instituições
empregadores, pois a maior parte dos trabalhadores do Serviço Social está
vinculada a instituições públicas, o que não garante condições satisfatórias
de trabalho.
Compete ressaltar que os resultados apresentados não são gene-
ralizáveis para toda a categoria, contudo, admite-se que a amostra possa,
de alguma forma, representar as peculiaridades e características no que diz
respeito ao trabalho emocional e à construção identitária. Ressalta-se, por-
tanto, a necessidade de uma cuidadosa reconstrução dos conceitos de tra-
balho emocional e gerenciamento emocional, com suporte na pesquisa
empírica e reelaboração de um instrumental teórico-metodológico ade-
quado à análise do Serviço Social no Brasil. Levando, desse modo, em
conta sua trajetória histórica e as diferentes formas de organização do tra-
balho, de contratação e de atuação ocupacional em localidades distintas.
Por fim, espera-se que a aproximação da Sociologia das Emoções
com o Serviço Social possa ser recebida pela categoria como aporte teórico
capaz de instigar novas pesquisas e estudos para o Serviço Social, atingindo
a própria categoria na autoavaliação e autorreflexão da profissão, consi-
derando o campo das emoções como uma das diferentes dimensões e exi-
gências do trabalho em Serviço Social, não menos importante que outras.
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Recebido em 31 de julho de 2015.
Aprovado para publicação em 21 de outubro de 2015.
DOI: 10.12957/rep.2015.21054
A Revista Em Pauta: Teoria Social e Realidade Contemporânea está licenciada com uma Licença Creative
Commons Atribuição 4.0 Internacional.
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Revista da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
O trabalho do assistente
social no contexto da crise
do capital: problematizações
necessárias
The work of the social worker in the crisis of capital:
required problematizations
Lindamar Alves Faermann*
Resumo – Este artigo aporta reflexões sobre as condições de trabalho
do assistente social nos marcos do capitalismo vigente. Considerando
que o Serviço Social só pode ser entendido em sua densidade histórica
no âmbito da sociabilidade capitalista, discute-se a profissão no pro-
cesso de produção e reprodução das relações sociais, particularizando
sua inserção na divisão sociotécnica do trabalho, reconhecendo o
assistente social como um trabalhador assalariado. O texto centra-se
em duas partes articuladas e complementares. A primeira proble-
matiza, a partir de uma pesquisa teórica, a crise atual do capital e
seus impactos na vida social, notadamente no mundo do trabalho. A
segunda evidencia dados sobre a realidade de trabalho dos assistentes
sociais nesse contexto, tendo por base uma pesquisa quanti-qualitativa
realizada com 45 profissionais.
Palavras-chave: Serviço Social; trabalho; crise do capital.
Abstract – This article provides reflections on the working conditions of
the social worker in the landmarks of contemporary capitalism. Whereas
social services can only be understood in its historical density within
the framework of capitalist sociality, this profession is discussed in the
process of production and reproduction of social relations, emphasizing
its insertion into the socio-technical division of labor and recognizing
the social worker as a wage worker. The text focuses on two articulated
and complementary parts. The first one explains, from a theoretical
research, the current crisis of capital and its impact on social life, es-
pecially in the domain of labor. The second one shows data about the
reality of activities of social workers, based on a quantitative and
qualitative research conducted with 45 professionals.
Keywords: Social Work; labor; crisis of capital.
..............................................................................
* Assistente Social, doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora da
Universidade de Taubaté. Atualmente coordena o Curso de Serviço Social da UNITAU. Correspondência:
Universidade de Taubaté – UNITAU. Departamento de Serviço Social - Rua Visconde do Rio Branco, 22. Cidade:
Taubaté - SP – CEP: 12020-040. Email: <[email protected]>
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Introdução
A discussão expressa neste artigo tem como eixo norteador re-
flexões decorrentes de uma pesquisa1 realizada com assistentes sociais que
trabalham na cidade de São José dos Campos, interior de São Paulo. Buscou-
se, através deste estudo, levantar o perfil dos profissionais, suas condições e
relações de trabalho, bem como identificar como a instrumentalidade vem
sendo apropriada em seu cotidiano profissional. Para tanto, realizou-se
uma pesquisa quanti-qualitativa com 45 profissionais.
A pesquisa foi organizada de modo a se aproximar da realidade
concreta vivenciada pelos assistentes sociais. Para a coleta dos dados utilizou-
se um questionário, o que permitiu abranger uma quantidade maior de su-
jeitos em menor espaço de tempo, ampliando o universo investigado. O
instrumental foi encaminhado para os assistentes sociais por correio ele-
trônico.
A análise do material coletado foi subsidiada por fontes bibliográ-
ficas e por um exame criterioso da realidade, em seu movimento e em suas
contradições. Desse modo, adotou-se como perspectiva a lógica dialética,
assumida como método para análise concreta dos fatos reais, isto é:
[...] como maneira de pensar as relações dos homens na sociedade,
tendo por ponto de partida a análise crítica dos dados factuais. Nesse
processo, o sujeito que pesquisa deve ser fiel ao objeto pesquisado,
sendo que esta fidelidade não significa retratar o objeto, mas, a partir
de sua apreensão, desmontá-lo (analisá-lo) para compreender seu
movimento e sua estrutura. (BAPTISTA, 2009, p. 47 – grifos da autora).
Essa perspectiva, caracterizada como método de investigação e
de exposição do real, abarca o movimento contraditório da gênese e do
desenvolvimento dos fenômenos sociais. Além disso, contempla, no processo
investigativo, a “articulação entre dados quantitativos e qualitativos, forma
e conteúdo, razão e sensibilidade” (PRATES, 2003, p. 2).
Por se tratar de uma pesquisa orientada pelo materialismo histórico
e dialético, a articulação dos dados teóricos e empíricos tornou-se funda-
mental para explicar os fenômenos estudados, pois, segundo Lefèbvre (1991,
p. 211), o “ser qualitativo considerado em sua relação com a quantidade,
manifesta-se como uma unidade concreta, a unidade de vários instantes
sucessivos, durante os quais a qualidade não se modifica”.
Vale ressaltar que, embora se trate de uma pesquisa regionalizada,
os resultados obtidos apresentam indicadores que conformam a realidade
..............................................................................
1 Esta pesquisa é fruto da tese de doutorado apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em
setembro de 2014, sob orientação da Prof. Dra. Myrian Veras Baptista. Para a estruturação deste artigo, elegeu-se
parte da análise empreendida no referido estudo, centrando-se na discussão sobre o trabalho do assistente social no
contexto da reestruturação produtiva e das políticas neoliberais.
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de trabalho do assistente social no Brasil (TRINDADE, 2010; CFESS, 2005).
Partindo do pressuposto de que a análise do Serviço Social requer uma re-
missão direta aos processos sociais mais amplos e às relações entre Estado e
sociedade, o estudo perpassou necessariamente pela contextualização eco-
nômica, política, social e cultural em que se insere o trabalho dos assis-
tentes sociais na atualidade.
Na composição desse artigo, discute-se inicialmente sobre a crise
atual do capital, centrando nas expressões particulares que assume no Brasil
e seus impactos no Serviço Social. Em seguida, são apresentados dados e
informações resultantes da pesquisa que apontam para as configurações
atuais do trabalho profissional.
Notas sobre a crise mundial do capital:
implicações sociais contemporâneas
Para o entendimento da crise contemporânea do capital tornou-
se consenso, e por certo necessária, a análise das mudanças gestadas no
modo de produção e de acumulação capitalista, sobretudo no pós-Segunda
Guerra Mundial, bem como de suas implicações no conjunto da vida social.
É abundante a literatura que versa a respeito das transformações ocorridas
nas sociedades capitalistas em sua fase monopolista, em virtude da crise
mundial instalada no sistema de produção, acumulação e concorrência –
resultado do esgotamento do modelo fordista-keynesiano –, que se estendeu
até o início dos anos 1970.
A crise mundial do sistema capitalista de base taylorista-fordista
e sua substituição pelo regime de produção flexível (toyotismo) instituíram
profundas alterações no mundo do trabalho, em suas formas de organização,
regulação e gestão, impondo redefinições no âmbito do Estado e das políticas
públicas. As estratégias de controle dessa crise, já amplamente conhecidas,
foram efetuadas por meio do projeto neoliberal, cujo foco foi o combate
ao Estado de Bem-Estar Social e o ordenamento da globalização financeira.
Opondo-se ao período conhecido como os “30 anos gloriosos
do capitalismo” – denominado por Mandel (1990) como “onda longa ex-
pansiva”, que permitiu um alto nível de concentração de capital e de cres-
cimento econômico, possibilitando a redução da desigualdade social nos
países centrais –, a crise de 1970 descerrou uma fase de restauração do ca-
pital, com amplas consequências para a economia mundial. Constata-se,
desde então, um período de intensa instabilidade econômica, em especial
a partir de 1980.
Esse período marca uma nova fase do capitalismo, denominada
por Chesnais (1996) de mundialização do capital, traduzida pelo aprofun-
damento do seu processo de internacionalização e premido pela hegemonia
do capital financeiro. Tal lógica passou a condicionar as demais formas do
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capital, indicando uma articulação entre elas. Assim, a nova fase de acu-
mulação capitalista passou a ser “capitaneada pela esfera financeira, e no
campo ideológico o velho liberalismo se veste com a ‘nova’ roupagem, re-
batizado de neoliberalismo” (SALVADOR, 2010, p. 5).
O rebatimento dessa crise no Brasil é enunciado no início dos
anos de 1990, quando a elite brasileira ocupou os espaços políticos deci-
sórios para difundir as ideias contidas na agenda neoliberal. Esse processo
vai se intensificar a partir desse período, como resultado da integração do
país ao mercado globalizado, no estágio de acumulação flexível do capital.
Cabe destacar que o Brasil participa dessas transformações com
refrações derivadas da sua própria conjuntura, combinadas com particula-
ridades de sua condição periférica e de suas formas de articulação às relações
capitalistas. Assim, as transformações se processam mediadas pela inserção
subalterna do país no sistema capitalista mundial e pelas particularidades
de sua formação sócio-histórica.
Enquanto o Brasil e alguns países latino-americanos (muitos her-
deiros de sangrentas e violentas ditaduras) saem no cenário político e fazem
conquistas reais, esse processo colide com a crise que afeta os países centrais
e, particularmente, com as diretrizes estabelecidas sob o viés neoliberal,
que têm no Consenso de Washington o seu principal paradigma.
Por um lado, em 1988, o Brasil institui a Constituição Federal,
conhecida como “Constituição Cidadã”; por outro, na contramão desse
processo, no final de 1989, sob o governo de Fernando Collor de Melo, o
país se rende ao conjunto de ajustes macroeconômicos, configurando sua
inserção definitiva na ordem econômica mundial. Nesse sentido, o sistema
de seguridade social no Brasil, antes mesmo de ser operacionalizado, começa
a sofrer a erosão dos princípios consagrados na Carta Magna.
No campo profissional do Serviço Social, constata-se de imediato
a contradição entre as propostas de trabalho da profissão e as propostas de
uma economia altamente racional, alinhada às transformações em curso,
que promovem em primeira instância o ataque aos direitos sociais con-
quistados na Constituição Federal. Nesse cenário, agudizam-se as expressões
da questão social, manifestas pela vivência dos sujeitos-usuários que buscam
os serviços nos diferentes espaços sócio-ocupacionais, onde os assistentes so-
ciais atuam. Portanto, as alterações observadas e vivenciadas a partir de então
[...] têm raízes nesses processos sociais, historicamente datados, ex-
pressando tanto a dinâmica da acumulação, sob a prevalência de in-
teresses rentistas, quanto a composição do poder político e a cor-
relação de forças no seu âmbito, capturando os Estado Nacionais,
com resultados regressivos no âmbito da conquista e usufruto dos di-
reitos para o universo dos trabalhadores. (IAMAMOTO, 2009, p. 343).
A mundialização do capital permitiu, com suas estratégias, sistemas
e dinâmicas, atravessar continentes, reconfigurando os Estados tanto nos
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países centrais quanto nos periféricos, com efeitos diferenciados mediados
pelas realidades e características de cada um.
Para Chesnais (1996), estamos diante de um novo regime mundial
de acumulação do capital, que alterou, de modo específico, o funciona-
mento do capitalismo. O que a mundialização do capital indica, destaca o
autor, é que estamos diante da globalização de uma massa de dinheiro que
se valoriza, seja por meio da produção de mercadorias, seja aquele que se
valoriza conservando a forma dinheiro – neste caso, os mercados financeiros.
Portanto, a mundialização do capital vai demarcar a nova etapa de
internacionalização capitalista, isto é, a globalização dos investimentos e
da produção. Para o autor,
O triunfo atual do ‘mercado’ não teria sido possível sem as inter-
venções políticas repetidas de instâncias políticas dos Estados ca-
pitalistas mais poderosos (em primeiro lugar, os membros do G7). Por
meio de uma articulação estreita entre o político e o econômico é
que as condições para a emergência dos mecanismos e das confi-
gurações dominantes desse regime foram criadas. (CHESNAIS, 1997,
p. 24 – grifos no original).
Chesnais (1997) ressalta que as características da economia mun-
dial que particularizam o regime de acumulação predominantemente finan-
ceira, sobretudo a partir dos anos 1990, são as baixas taxas de crescimento
do Produto Bruto Interno (PIB), inclusive em países centrais; a deflação; a
instabilidade na conjuntura global, marcada por constantes sobressaltos
monetários e financeiros; os elevados níveis de desemprego; a margina-
lização de regiões inteiras, em relação ao sistema de trocas; e a elevada
concorrência internacional.
Nas novas condições sócio-históricas de crise do padrão de acu-
mulação do capital, o autor pontua que a intensificação da tendência de-
crescente da taxa de lucro exige, como respostas, o crescimento e o predo-
mínio do capital constante sobre o capital variável, alterando significativa-
mente a composição orgânica do capital e acirrando as contradições da
ordem burguesa.
A exigência na esfera da produção é a de reduzir custos e de am-
pliar as taxas de lucros para enfrentar a tendência de queda da taxa média
de lucro, intensificada pelo crescimento do capital constante. Nesse sentido,
o que a atual crise explicita é a instabilidade estrutural do sistema mundial
do capital, imerso em antinomias orgânicas.
Mészáros (2002, p. 796-797) qualifica a crise atual como uma
crise estrutural, em que a ordem sociometabólica do capital defronta-se
com os seus limites absolutos, visto que ela “afeta a totalidade de um com-
plexo social em todas as relações com suas partes constituintes ou subcom-
plexos, como também a outros complexos aos quais é articulada”.
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Em suas reflexões, adverte que o capitalismo esgotou o seu caráter
civilizatório de expansão e avança para o nível exorbitante da exploração
da força de trabalho, da desigualdade e da barbárie. Como esse sistema
conta com poucos meios para se expandir, tem colocado em risco a própria
vida humana, assinalando que, quanto mais aumenta a competitividade e
a concorrência intercapitais, mais prejudiciais são suas consequências. Des-
tas, ressaltam-se a precarização do trabalho e a degradação do meio am-
biente, na relação metabólica entre homem, tecnologia e natureza, circuns-
crita aos ditames do capital.
Há que se considerar que, sob a ótica do capital, a crise significa
riscos e oportunidades históricas para reestruturações sistêmicas, objetivando
a expansão desenfreada da forma-valor. Por isso ela expressa o rearranjo
da contradição capital versus trabalho.
Segundo Mészáros (2002, p. 216), diferentemente de momentos
anteriores, em que havia possibilidades de deslocamento das contradições
do capital e estas foram aproveitadas, a partir dos anos 1970 o desen-
volvimento da reprodução do capital alcançou “seus limites intrínsecos ou
absolutos, que não podem ser transcendidos sem que o modo de controle
prevalecente mude para um modo qualitativamente diferente”.
Nesses termos, trata-se de uma crise expansionista, destrutiva e,
no limite, incontrolável. O autor destaca que a incontrolabilidade é uma
categoria ontológica do sistema capitalista, uma vez que sua lógica de
funcionamento não depende da vontade pessoal. Como o sistema capitalista
não tem limite para prosseguir, trabalha apenas com os efeitos (post festum).
Daí a razão máxima da consciência capitalista ser a de restaurar o sistema.
De acordo com Mészáros (2002), a novidade histórica da crise
contemporânea se manifesta em quatro aspectos principais. Embora seja
longa a citação do autor, torna-se emblemática, para evidenciar sob a sua
ótica as particularidades da crise estrutural do capital:
(1) seu caráter é universal, em lugar de restrito a uma esfera particular
(por exemplo, financeira ou comercial, ou afetando este ou aquele
ramo particular de produção, aplicando-se a este e não àquele tipo
de trabalho com sua gama específica de habilidades e graus de pro-
dutividade etc. (2) seu alcance é verdadeiramente global (no sentido
mais literal e ameaçador do termo), em lugar de limitado a um con-
junto particular de países (corno foram todas as principais crises no
passado); (3) sua escala de tempo é extensa, contínua, se preferir,
permanente, em lugar de limitada e cíclica, como foram rodas as
crises anteriores do capital; (4) em contraste com as erupções e os
colapsos mais espetaculares e dramáticos do passado, seu modo de
se desdobrar poderia ser chamado de rastejante, desde que acrescen-
temos a ressalva de que nem sequer as convulsões mais veementes
ou violentas poderiam ser excluídas no que se refere ao futuro: a sa-
ber, quando a complexa maquinaria agora ativamente empenhada
na ‘administração da crise’ e no ‘deslocamento’ mais ou menos
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temporário das crescentes contradições perder sua energia. (MÉS-
ZÁROS, 2002, p. 795-796).
Nas palavras do autor, são essas as características da crise estrutural
do capital nas últimas quatro décadas. O capitalismo mundial, delineado
pela financeirização, acumulação flexível, neoliberalismo e sociometa-
bolismo da barbárie, constitui-se como forma histórica determinada na
contemporaneidade no bojo desta crise.
Iamamoto (2007) ressalta que, para enfrentar essa crise, o capi-
talismo avançou em sua tarefa de internacionalizar a produção e os mer-
cados, acirrando ainda mais as desigualdades sociais. A perda da rentabi-
lidade fez com que o capital se deslocasse do setor produtivo para a esfera
financeira, agindo de forma especulativa. De acordo com essa autora, os
países centrais impuseram ajustes estruturais (por intermédio dos organismos
multilaterais) aos Estados, com medidas que permitiram passagem livre ao
capital especulativo financeiro, isento de regulamentações e direcionado
ao lucro dos grandes capitalistas.
As modificações gestadas no sistema financeiro internacional le-
varam os bancos, a partir dos anos 1980, a adotarem estratégias para garantir
formas de acumulação em um cenário de elevada concorrência no setor
bancário. Constata-se, após esse período, um impetuoso crescimento do
mercado de câmbios e de títulos em escala global.
As mais recentes novidades do mercado financeiro global são os
chamados hedge funds2 e os fundos de pensão e de investimento. Outrossim,
continuam tendo papel importante nessa fase do capitalismo as grandes
corporações e os bancos centrais dos países desenvolvidos. Esses organismos
movimentam montantes impressionantes de riquezas na sua forma líquida,
objetivando a valorização crescente dos seus fundos em curtos prazos.
Contudo, lembra Salvador (2010) que, dada a vulnerabilidade
do sistema financeiro atual, regulamentado pelas transações especulativas,
pela flexibilidade dos preços dos ativos financeiros e pela política monetária
restrita à taxa de juros, pode-se desencadear o risco sistêmico, provocando
a reestruturação global das instituições financeiras. Assim, o efeito dominó
mundial é perigo constante em tempos de globalização financeira.
Não sem reservas que, desde 2007 e 2008, os países capitalistas
vêm enfrentando uma crise de extensas proporções. Para além de uma
crise financeira, como muitos analistas a examinam, trata-se de uma crise
estrutural do capital, de proporções comparáveis à crise de 1929 (MÉS-
ZÁROS, 2002). As análises totalizantes consideram-na como uma crise glo-
bal com amplas dimensões, que afetam o conjunto da vida social.
..............................................................................
2 Hedge fund, em português, significa fundos de cobertura. É uma forma de investimento especulativo e de alto risco.
Está entre as aplicações financeiras mais agressivas disponíveis no mercado de capitais. Os investidores fornecem
grandes quantias de dinheiro a uma empresa especializada em economia, para que ela invista em ativos financeiros
que lhes rendam lucros.
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Desde então, a economia americana passou a conviver com sub-
sequentes crises bancárias, além da quebra da Bolsa de Valores em 1987,
as intensas quedas da Bolsa em 2000 e 2001 e a crise imobiliária no final
do século XX, que se repetiu em 2007 e 2008 com o estouro da bolha de
títulos imobiliários nos EUA. Estudos revelam que a bolha especulativa foi
gerada a partir da emissão de um enorme volume de títulos imobiliários
norte-americanos. Desde meados dos anos 1990, o mercado imobiliário
dos EUA foi expandindo-se consideravelmente. A partir de 2001, essa ex-
pansão vê-se acelerada em decorrência das baixas taxas de juros. Os preços
dos imóveis foram aumentando constantemente até o ano de 2006, quando
começam a cair. Nesse mesmo ano, são visíveis os problemas no setor de
financiamento imobiliário, dado o alto índice de inadimplência. O aumento
da oferta de imóveis levou à queda dos preços, que exacerbou a ina-
dimplência e gerou a crise.
Entre 1990 e 2007, foram seis crises baseadas no estouro de bolhas
especulativas. O ritmo da acumulação de capital foi bastante desigual
nesta fase. As economias desenvolvidas apresentaram um crescimento
modesto, embora as taxas não tenham sido homogêneas. Extensas
áreas da periferia, sobretudo na América Latina e na África, tiveram
um desempenho medíocre, apresentando retrocessos sociais e econô-
micos significativos, enquanto várias economias do leste asiático
apresentaram um crescimento acelerado. (CORSI, 2010, p. 17).
Essa situação espalhou-se rapidamente para a economia mundial,
cujo centro propagador dessa crise foi o próprio coração do sistema capi-
talista. A forte queda do movimento especulativo no mercado de ações de
Nasdaq, em 2000, foi o indício de que a crise sistêmica tinha alcançado o
núcleo do capitalismo.
No momento em que a crise explodiu, havia, nos EUA, apro-
ximadamente 12 trilhões de dólares em empréstimos imobiliários. Parte
significativa desse montante constituía-se de títulos hipotecários insolventes3.
Dessa feita, a excessiva “inadimplência evidenciou que bancos, fundos de
investimentos e pensão e companhias de seguros poderiam estar com suas
carteiras carregadas de títulos ‘podres’” (CORSI, 2010, p. 39).
No final de 2008, a crise intensificou-se. A falência do tradicional
banco de investimentos Lehman Brothers foi a expressão desse processo,
considerado um dos maiores operadores de empréstimos a juros fixos de
Wall Street, com fortes investimentos em títulos ligados ao mercado do
chamado subprime (crédito imobiliário para pessoas avaliadas com alto
risco de inadimplência).
..............................................................................
3 Condição que se encontra o devedor (indivíduo, grupo ou sociedade) cujo patrimônio apresenta um passivo superior
ao ativo, portanto, apresenta grande risco de inadimplência.
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Já em meados de 2009, a economia mundial pareceu dar sinais
de recuperação. No segundo trimestre desse mesmo ano, o PIB norte-ame-
ricano cresceu 1%, diante de uma queda de quase 7% no trimestre anterior.
Outros países, como a França, a Alemanha e o Japão, também obtiveram
crescimento em suas economias. O ocorrido, como lembra Corsi (2010, p.
41), foi o suficiente para os “arautos do capitalismo, em especial os do ca-
pital financeiro, além de alardear que o pior já tinha passado e que a eco-
nomia mundial caminhava sóbria para uma recuperação consistente, re-
tomar a velha cantilena liberal”.
No entanto, a situação voltou a se agravar nos primórdios de
2010, quando a Grécia se viu diante de um ataque especulativo que atingiu
também Irlanda, Espanha, Portugal e Itália, entre outros países, que hoje
estão no epicentro da crise do capital. Esses países perceberam-se obrigados
à aplicação de planos de austeridade fiscal, sob a imposição do Fundo Mo-
netário Internacional, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Co-
mércio e da Comunidade Europeia, chocando-se com históricas conquistas
nacionais no campo dos direitos sociais.
Na particularidade do mundo do trabalho, os resultados desse
cenário foram devastadores. Expandindo a acumulação, a centralização
do capital amplia as transformações qualitativas na composição técnica do
capital, levando a um crescimento de sua parte constante em relação à sua
parte variável, reduzindo, desse modo, a demanda relativa de trabalho.
Assim, o desemprego e a precarização do trabalho foram/são efeitos con-
cretos desse processo, constituindo-se não apenas como alavanca da acu-
mulação capitalista, mas como condição à sua manutenção. Nesse sentido,
diz Marx (1978, p. 732) que,
Com a magnitude do capital social já em funcionamento e seu grau
de crescimento, com a ampliação da escala de produção e da massa
de trabalhadores mobilizados, com o desenvolvimento da produ-
tividade do trabalho, com o fluxo mais vasto e mais completo dos
mananciais da riqueza, amplia-se a escala em que a atração maior
dos trabalhadores pelo capital está ligada à maior repulsão deles.
Dados recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT),
em 2013, evidenciam que o número de desempregados no mundo au-
mentou em 4,2 milhões, atingindo 197 milhões de pessoas. As previsões
indicam que a recuperação da economia mundial não será suficiente para
reduzir a taxa de desemprego rapidamente, estimando que o número de
indivíduos em busca de trabalho aumentará em mais de 210 milhões du-
rante os próximos cinco anos.
Para os jovens, as expectativas de inserção no mercado de trabalho
permanecem desalentadoras. São quase 74 milhões de pessoas entre 15 e
24 anos desempregadas no mundo, representando um percentual de 12,6%.
No tocante a essa particularidade, constata-se, ainda, o aumento de jovens
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desempregados por longos períodos. A pesquisa revela que 35% dos jovens,
nos países de economias avançadas, ficam sem emprego durante seis meses
ou mais. Como resultado desse processo, muitos abandonam o mercado
formal de trabalho e ficam sem expectativas de futuro.
Os dados da OIT também revelam que o número de trabalhadores
pobres vem diminuindo; por outro lado, aumentou em 142 milhões o
número de trabalhadores em situação de miséria, isto é, trabalhadores que
vivem com 2 a 4 dólares por dia, sem nenhuma cobertura de seguridade
social, somando um total de 661 milhões de pessoas no mundo. Nesse sen-
tido, embora tenham sido muitos os artifícios utilizados pelo capitalismo
para se recompor da crise dos anos 1970, a mundialização do capital
[...] não garantiu um desempenho elevado para a economia mundial.
Desde o início da década de 1980 até 2003, a economia mundial
apresentou um desempenho sofrível, apesar das profundas trans-
formações que se processaram no sistema capitalista nesse período.
A reestruturação do capitalismo não conseguiu reverter por um longo
período o quadro de lento crescimento, com algumas regiões apre-
sentando forte crescimento, enquanto outras apresentam um desem-
penho medíocre. (CORSI, 2010, p. 27-28).
Corsi (2010) ainda destaca que, entre 1991 e 2003, os países em
desenvolvimento do Leste Asiático cresceram em média 6% ao ano, enquanto
que, no mesmo período, a América Latina cresceu em média 2,7% ao ano.
Para ele, a expectativa neoliberal de que o equilíbrio fiscal, a inflação con-
trolada, a abertura dos mercados, as privatizações e a restrição da inter-
venção do Estado na economia gerariam um crescimento acelerado e está-
vel, com baixo desemprego, salários reais crescentes e incremento da produ-
tividade, nem de longe se concretizaram.
A fase de expansão da economia mundial, iniciada em 2003,
suspendeu temporariamente a tendência de baixo crescimento instalada
desde os anos 1980, indicando alterações na dinâmica do capitalismo: dis-
seminou-se o crescimento econômico, e o Leste Asiático, em particular a
China, conformou-se como um dos centros mais importantes de acumulação
do capital, influenciando a economia de países da América Latina via in-
cremento das exportações. Porém, em 2007 e 2008 – conforme já assi-
nalado – o mundo capitalista viu-se abalado por mais uma crise financeira
de consequências ainda não dimensionadas.
O cataclismo econômico tem como epicentro os Estados Unidos. A
crise teve origem nos empréstimos hipotecários norte-americanos,
se arrastando inicialmente para os bancos de investimentos, as segu-
radoras e os mercados financeiros, enfim, a crise se espalhou rápido
pela economia dos Estados Unidos e atinge, atualmente, a Europa e
o Japão. Os desdobramentos são para a economia global, que entra
em recessão. (SALVADOR, 2010, p. 7).
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É evidente que o impacto da crise mundial não se processou (nem
se processará) do mesmo modo e na mesma proporção nos diferentes países
capitalistas, tendo em vista sua sujeição a um complexo conjunto de fatores.
Estes, segundo Gonçalves (2012), relacionam-se à natureza e extensão dos
mecanismos de transmissão (contágio e choques), à capacidade de resis-
tência de cada país diante das pressões, aos fatores desestabilizadores e
choques externos, ao que se chama policy space (espaço da política), assim
como às respostas de políticas de ajuste. No entanto,
Resguardadas as particularidades nacionais, as economias capitalistas
europeias e latino-americanas que materializam a cartilha do neolibe-
ralismo a partir da década de 1970 se deparam hoje com a perspectiva
de uma longa recessão ou de reduzidas taxas de crescimento, desem-
prego de massa e de longa duração, precarização do trabalho e redu-
ção dos salários. (BOSCHETTI, 2012, p. 33).
Na América Latina, por exemplo, o período ascendente da eco-
nomia mundial, de 2003 a 2008, favoreceu seu desempenho econômico,
possibilitando, por parte do Estado, a aplicação de políticas para a redução
das desigualdades sociais. Contudo, ainda que se constate a melhoria da
situação nessa região, a partir dos anos 2000, os países não estão avançando
no sentido de superarem seus graves problemas sociais. Segundo Gonçalves
(2012, p. 19),
Apesar de haver queda da desigualdade na América Latina na primeira
metade do século XXI, os países da região continuam com os mais
elevados indicadores da desigualdade de renda no mundo. Para ilustrar,
em meados desta década, quatro entre os cinco países com maior
desigualdade estão na região (Colômbia, Bolívia, Honduras e Brasil).
Quanto à economia brasileira, Salvador (2010) pontua que o Brasil
não escapou da crise financeira internacional; porém, foi um dos últimos
países a ser atingido e um dos primeiros a sair dela. Isso se justifica por vá-
rios motivos. Entre eles, menor endividamento, se comparado às economias
mundiais mais ricas, além de ser um grande produtor de commodities4,
ramo que vem crescendo consideravelmente no país, atraído pelas im-
portações da China, atualmente o maior parceiro comercial do Brasil.
Além disso, o autor esclarece que houve uma significativa expan-
são no volume de operações de créditos no Brasil, tanto que a Associação
Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Ane-
fac) registrou que, em dez anos, o volume de crédito elevou sua participação
como proporção do PIB de 24,7%, em 2003, para 55,2%, em 2013. Porém,
..............................................................................
4 Commodities – em inglês – significa mercadoria. Pode ser definido como mercadorias, principalmente minérios e gê-
neros agrícolas, que são produzidos em larga escala e comercializados em nível mundial. As commodities são pro-
duzidas por diferentes produtores e têm características uniformes. Geralmente, são produtos que podem ser estocados
por um determinado período sem que haja perda da qualidade.
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alerta que essa situação poderá indicar problemas de endividamento – fato
já constatado.
Dados recentes de 2013, fornecidos pelo Banco Central, apontam
que o endividamento da população brasileira voltou a crescer. O total de
dívidas das famílias representa 45,1% de sua renda acumulada em um
ano. Esse é o maior percentual dentre os estudos realizados desde janeiro
de 2005, quando o patamar de endividamento indicava 18,39%. Desde
então, o endividamento das famílias tem aumentado constantemente.
Atrelado à ampliação do crédito no Brasil, Salvador (2010, p.
15) também aponta o potencial do consumo interno, viabilizado pelas po-
líticas sociais no campo da seguridade social, como a previdência e a assis-
tência social. Os recursos destinados a essas políticas “foram responsáveis
pela injeção de R$ 257,2 bilhões na economia em 2009, o que garantiu a
continuidade do consumo, independentemente da renda advinda do tra-
balho”.
A esse respeito, Boschetti (2012) salienta que as políticas de re-
dução da pobreza, por meio da chamada proteção não contributiva, via
programas assistenciais de transferência de renda, estão sendo utilizadas
não apenas no Brasil, mas também em vários países da América Latina e da
Europa, como estratégias para garantir o consumo e enfrentar a crise.
Ao analisar os programas de transferência de renda no Brasil, a
autora afirma que, se por um lado é expressivo o contingente de pessoas
atendidas nesses programas, por outro lado é inexpressivo o percentual do
PIB aplicado, ou seja, de apenas 0,4%. Trata-se “nitidamente, de um ‘pobre’
programa que ‘custa pouco’, não atinge a estrutura da desigualdade, mas
possui forte impacto político” (BOSCHETTI, 2012, p. 52).
Examinando as consequências dos ajustes neoliberais no sistema
de proteção social no Brasil, os autores Silva, Yazbek e Giovanni (2004)
ressaltam que os avanços e as conquistas previstas na Constituição Federal
de 1988 estão sendo esvaziados gradativamente. Isto porque medidas res-
tritivas vêm inibindo esse sistema de garantir a universalização das políticas
sociais. Os autores chamam a atenção para os retrocessos de serviços, mesmo
nas áreas sociais básicas, e para o fato de que, no Brasil, o sistema de pro-
teção social caracteriza-se por sua incipiência, sendo incapaz de enfrentar
as vulnerabilidades que atingem parcelas significativas da população.
Exemplo disso é o caos instalado na saúde pública em vários es-
tados e municípios brasileiros. São situações amplamente conhecidas e di-
vulgadas: morosidade e/ou falta de atendimento à população, constantes
mortes nos hospitais, precarização das condições de trabalho dos profis-
sionais e privatização generalizada desse setor.
No que se refere às privatizações na saúde, vale mencionar que
em dezembro de 2011 foi sancionada a lei que criou a Empresa Brasileira
de Serviços Hospitalares (Ebserh). A partir de então, os hospitais e institutos
universitários – que fazem parte da maior rede hospitalar pública do país –
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passaram a ser administrados por uma empresa de direito privado. Também
foram criadas as Fundações Estatais de Direito Privado e as Organizações
Sociais de Saúde (OSs), traduzindo a flexibilização da gestão pública e a
implementação de modelos organizacionais que seguem a lógica de mer-
cado para gerir os serviços públicos. Essas empresas têm atuado nas três es-
feras governamentais, por meio da proposição de leis e de emendas cons-
titucionais que alteram o arcabouço jurídico e os princípios que norteiam
a administração pública, representando a violação do direito universal à
saúde de responsabilidade estatal.
No campo da política educacional não é diferente. São muitos
os problemas que a cercam. Há carência de vagas na educação infantil; es-
tima-se a falta de 150 mil somente no estado de São Paulo. No Brasil, esse
número chega a 1 milhão (CAROLINA, 2014). Já no âmbito do ensino fun-
damental e médio, permanecem velhos problemas em diversas escolas do
país, como a má qualidade do ensino, a violência e o aviltamento das con-
dições de trabalho dos professores. Na educação superior, destaca-se a ló-
gica de empresariamento desse setor, a intensificação da exploração docente
e a implementação massiva do ensino a distância, sem critério e sem qua-
lidade.
Igualmente, a política habitacional no Brasil apresenta imensos
entraves. O déficit habitacional é preocupante. Segundo dados do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2013, o déficit por moradia gira
em torno de 8 milhões. Cerca de 90% dos trabalhadores que não têm casa
própria recebem uma renda mensal de zero a três salários mínimos. O pro-
grama Minha Casa, Minha Vida, considerado a principal política do governo
do Partido dos Trabalhadores para responder a essa demanda, ainda é deû-
citário. Os recursos disponibilizados são baixos (cerca de R$ 65 mil) e os
preços dos terrenos e imóveis são altos. Em reportagem recente, a revista
britânica The Economist anunciou que os preços dos imóveis residenciais
no Brasil, em 2013, aumentaram 12,8%. Entre os 23 países pesquisados
pela revista, o Brasil ocupou o segundo lugar, ficando atrás apenas dos Es-
tados Unidos, que teve alta de 13,6% no período (O GLOBO, 2014).
Por isso, no dizer de Salvador (2010, p. 16), embora o Brasil te-
nha apresentado um crescimento econômico acelerado nos últimos 50
anos, não foi “capaz de obter resultado da mesma magnitude dos países do
capitalismo central, mantendo grande parte de sua população com con-
dições precárias de vida e trabalho”.
No Brasil, a exponenciação da questão social a partir dos anos
1990, em face das particularidades do processo de reestruturação produtiva
e nos limites da ideologia neoliberal, determinou uma inflexão no campo
profissional em decorrência das novas demandas. Estas foram postas pelo
“reordenamento do capital e do trabalho, pela reforma do Estado e pelo
movimento de organização das classes trabalhadoras, com amplas re-
percussões no mercado profissional de trabalho” (ABEPSS, 1996, p. 5).
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A constituição desta nova etapa do desenvolvimento capitalista
aprofundou e reconfigurou a histórica precarização do trabalho, fenômeno
antigo no Brasil, mas que vem assumindo novas dimensões, impactando os
trabalhadores de modo geral, ainda que em graus distintos. Além disso,
resguardando o caráter permanente e não mais transitório dessa condição,
expressando formas de precarização típicas de países dependentes que não
universalizaram os direitos sociais.
Diferentemente do que aconteceu historicamente com o capita-
lismo nos países centrais, o Estado brasileiro não ofereceu condições para
a reprodução social da totalidade da força de trabalho, nem tampouco ga-
rantiu direitos sociais ao conjunto dos trabalhadores, impossibilitando o
acesso ao trabalho protegido e às condições necessárias para a reprodução
social de um contingente significativo de trabalhadores. Apresentando um
fraco sistema de proteção social e de elevados índices de rotatividade da
força de trabalho, provenientes da informalidade e da precariedade estru-
turais do mercado de trabalho nacional.
Nesse contexto, ampliou-se o papel do Estado nos condiciona-
mentos das relações sociais e da distribuição cada vez mais desigual, assu-
mindo formas mais complexas. Conforme Netto (2001, p. 26), “o Estado
funcional ao capitalismo monopolista deve garantir o conjunto de condições
necessárias à acumulação e à valorização do capital”. Logo, o Estado tornou-
se alvo de mudanças para sua adequação à lógica do capital mundializado,
por meio de um amplo processo de reformas.
Sob essa direção, o Estado colocou-se a “desuniversalizar” as
políticas sociais mediante ajustes fiscais, direcionando-as por uma lógica
seletiva e reducionista que visa amenizar a questão social, contrapondo-se
à proposta de universalização dos direitos sociais. Desse modo, transferiu
as respostas às manifestações da questão social de sua esfera para a sociedade
civil e para o mercado.
Nesse contexto, a ideologia dominante tem estimulado um amplo
empreendimento de refilantropização do social, negando os direitos sociais
como função estatal e viabilizando uma profunda despolitização da questão
social ao não reconhecê-la como questão pública. Por conseguinte,
A filantropia substitui o direito social. Os pobres substituem os cida-
dãos. A ajuda individual substitui a solidariedade coletiva. O emer-
gencial e o provisório substituem o permanente. As microssituações
substituem as políticas públicas. O local substitui o regional e o
nacional. É o reinado minimalismo do social para enfrentar a globa-
lização da economia. Globalização só para o grande capital. Do
trabalho e da pobreza cada um cuida do seu como puder. De pre-
ferência, um Estado forte para sustentar o sistema financeiro e falido
para cuidar do social. (SOARES, 2013, p.12)
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O Estado passa a utilizar estratégias que envolvem as famílias, as
organizações sociais e o campo da filantropia, renegando políticas uni-
versais. As medidas efetivadas na esfera da proteção social são reducionistas,
voltadas primordialmente para situações extremas, com elevado grau de
seletividade e focalização, direcionadas à miséria e à pobreza absoluta,
que não impactam significativamente os níveis de desigualdade social
persistentes no Brasil.
O desmantelamento do sistema de seguridade social brasileiro
tem suas expressões na privatização, na descentralização e em programas
assistenciais emergenciais. O que está presente nesse processo são uma
nova arquitetura e uma nova pedagogia para as políticas sociais, configu-
radas por políticas de inserção, em oposição às políticas integradoras e re-
distributivas.
As medidas em curso buscam não só reestruturar os mecanismos
de acumulação do capital, como também investir nos processos políticos,
culturais e ideológicos formadores de uma sociabilidade alinhada à rees-
truturação do sistema.
Todo esse processo determinado por movimentos e por ações
objetivas do capitalismo contemporâneo incide no Serviço Social. O saldo
deixado pela reestruturação do capital confirma-se no cotidiano de trabalho
dos assistentes sociais: superexploração, inserção precária no mundo do
trabalho, aumento do desemprego e da miséria, múltiplas formas de
violência, políticas sociais seletivas e focalizadas, redução da intervenção
do Estado na sociedade e regulamentação do terceiro setor, dentre outros.
A realidade de trabalho dos assistentes sociais
em São José dos Campos: indicadores que configuram
as tendências gerais do mercado de trabalho no Brasil
Nesse item, são apresentadas informações sobre as condições e
relações de trabalho dos assistentes sociais pesquisados, evidenciando ele-
mentos particulares e universais, objetivos e subjetivos, quantitativos e qua-
litativos, que constituem e exprimem a realidade em tela.
Foram emblemáticas as mudanças ocorridas nas sociedades ca-
pitalistas após a crise mundial do capital nos anos 1970, impactando direta-
mente na vida dos trabalhadores. Essas mudanças referenciadas pelas novas
configurações de acumulação do capital (acumulação flexível) promoveram
alterações expressivas nas formas de organização e de gestão do trabalho.
Segundo Antunes (2005), o processo de flexibilização do trabalho e dos di-
reitos daí derivados são elementos centrais da nova morfologia do trabalho,
no contexto da reestruturação produtiva e das políticas neoliberais. Esse
processo desencadeou o desemprego estrutural, a erosão dos direitos sociais
e a “desresponsabilização” do Estado no enfrentamento da questão social.
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É nesse contexto que se insere o trabalho do assistente social; sua
intervenção no âmbito das políticas sociais sofre rebatimentos das condições
postas pelo capitalismo vigente. Um primeiro dado da pesquisa atrelado a
esse contexto refere-se à faixa salarial dos profissionais. Dos 45 assistentes
sociais, 18 recebem entre dois e quatro salários mínimos5, equivalendo a
40% do conjunto pesquisado. Na sequência, 14 profissionais recebem entre
quatro e seis salários, totalizando 31, 1% dos participantes, seguido de 12
com rendimentos acima de seis salários mínimos, compondo 26,7% do
universo total. Por fim, um profissional respondeu receber até dois salários
mínimos.
Apurou-se que a maioria dos profissionais (71%) recebe até seis
salários mínimos (SM), com concentração na faixa que não ultrapassa os
quatros salários mínimos (42%), ou seja, R$ 2.896,00. Assim, constata-se
que o salário médio dos profissionais é baixo. Tal indicativo também foi
evidenciado no estudo realizado pelo CFESS, no ano de 2005, sobre o per-
fil dos assistentes sociais no Brasil. Em todas as regiões pesquisadas, o nível
salarial prevaleceu entre quatro e seis SMs.
Esse quadro revela um dos componentes da precarização do tra-
balho no Brasil, conformado pelos baixos salários. As alterações no mundo
do trabalho sobre a hegemonia do capital financeiro são acompanhadas
pelos prejuízos dos direitos trabalhistas e pelas perdas salariais. Evidente-
mente, frente à precariedade do mundo do trabalho, os salários sofrem
uma queda brutal. O sistema capitalista, lembra Mészáros (2002), funda-se
na extração máxima do trabalho excedente dos produtores. Essa é a sua
determinação mais profunda.
Em relação à carga horária de trabalho, 91,1% dos assistentes so-
ciais estão cumprindo a jornada de 30h semanais, conforme a Lei n. 12.317,
de 27 de agosto de 2010. Apenas quatro profissionais (o que representa 9%
do total) informaram que trabalham acima desse teto.
A conquista das 30h semanais sem redução salarial foi uma vitória
histórica no âmbito da categoria profissional, resultante de sua organização
política representada pelo Conjunto CFESS/Cress, Abepss e Enesso. Sabe-se
que, no contexto do capitalismo, essa é uma das lutas mais importantes dos
trabalhadores, na medida em que as relações estabelecidas primam pela
lógica do lucro do capital e pela restrição dos direitos sociais. Por isso,
para Boschetti (2011, p. 566-567),
A redução da jornada de trabalho para trinta horas semanais sem re-
dução salarial, ainda que não altere estruturalmente a organização
do trabalho, possibilita diminuir a sobrecarga do trabalho, o que pode
melhorar a saúde do(a) trabalhador(a) e, ainda impor limites à ex-
ploração do trabalho pelo capital. Não por acaso, a implementação
..............................................................................
5 Para esse cálculo, tomou-se como referência o salário mínimo nacional – R$ 724,00.
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desse importante direito vem sendo contestado judicialmente pela
Federação Nacional da Saúde junto ao STF, e muitas instituições pú-
blicas resistem à sua implementação.
No tocante ao vínculo empregatício, 34 assistentes sociais (75,6%)
têm vínculo regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Esse
dado opõe-se ao estudo do CFESS de 2005, que aponta que 55,68% dos
profissionais possuem vínculo estatutário. Deve-se considerar, portanto,
que o mercado de trabalho do Serviço Social passou por mudanças signifi-
cativas durante esse período, podendo revelar outros indicadores. Na se-
gunda posição, aparece o vínculo estatutário; assim, 10 profissionais, re-
presentando 22,2% dos participantes, são funcionários públicos e, na ter-
ceira posição, apenas um assistente social (2,2%) é autônomo.
Vale ressaltar que, dos 34 assistentes sociais em regime celetista,
11 trabalham em uma autarquia municipal e três em uma fundação pública,
totalizando 14 assistentes sociais. Embora sejam reconhecidos juridicamente
como funcionários públicos, seus contratos de trabalho ocorrem via CLT,
portanto eles não têm as mesmas garantias que os funcionários com vínculo
estatutário.
Essa possibilidade foi outorgada por meio da Emenda Constitu-
cional n. 19, de 4 de junho de 1998, que suprimiu a obrigatoriedade de
um único regime jurídico para os funcionários públicos. A partir de então,
foi permitido o regime jurídico na modalidade estatutária, celetista ou admi-
nistrativa especial. Tal emenda trouxe implicações diretas nas condições
de trabalho dos funcionários públicos. Dentre elas destaca-se a questão da
estabilidade no emprego que, longe de ser um privilégio, objetiva garantir
a qualidade do serviço e a autonomia dos trabalhadores. Essa condição é
crucial para quem atua na administração pública, pois possibilita (embora
não garanta) que os funcionários exerçam suas atividades com compromisso
e sem receios de coações ou de ingerências políticas, que poderiam resultar
em demissões por parte dos seus superiores ou dos governantes no
momento.
No âmbito do Serviço Social, pode-se dizer que a instabilidade
apresenta outros agravantes. Por um lado, ela dificulta sobremaneira a orga-
nização política dos assistentes sociais. Em um contexto de profundas mu-
danças no mundo do trabalho, marcadas pela retração e mesmo pela erosão
do trabalho contratado e regulamentado, vem sendo impactada pela in-
segurança e pelo medo do desemprego. Por outro lado, a não estabilidade
dificulta a construção de um saber específico sobre a apreensão das situações
atendidas e dos modos de se atuar sobre elas.
No que se refere às formas de contratação profissional, a pesquisa
revelou que 25 assistentes sociais, isso é, 55,6% dos participantes, foram
admitidos via concurso público. Ao passo que 10 profissionais, repre-
sentando 22,2% desse grupo, através de processo seletivo. Em seguida,
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nove profissionais, compondo 20% do universo pesquisado, foi contratado
mediante indicação e um profissional foi admitido após a realização de
estágio em Serviço Social na instituição.
Ressalta-se que, embora 55,6% dos assistentes sociais tenham sido
admitidos via concurso público (o que, à primeira vista, é de extrema im-
portância, uma vez que essa situação oferece maior autonomia profissional),
parte significativa desse grupo foi contratada sob o regime CLT, portanto,
não tem os mesmos direitos e nem as mesmas condições de trabalho dos
estatutários. Essa situação expressa um dos mecanismos gerenciais assumido
pelo Estado brasileiro, traduzido pela flexibilização das relações de trabalho,
mediante formas de contratação, sem recorrer ao concurso público e com
remuneração fora dos parâmetros estabelecidos nos planos de cargos e sa-
lários.
A reforma administrativa como parte da chamada reforma do
Estado, que vem ocorrendo no Brasil desde os anos de 1990, teve como
marco legal a Emenda Constitucional 19/1998, que imprimiu mudanças
centrais no capítulo da Administração Pública da Constituição de 1988. A
estrutura da reforma instituiu regras voltadas à redução de custos e à eli-
minação do déficit público, englobando normas sobre o controle de gastos
com pessoal e a estabilidade dos servidores, além de regras para a eficiência
administrativa, por meio de critérios de flexibilização de admissão de
pessoal. Desde então, o Estado brasileiro, na perspectiva de alcançar os pa-
drões de gestão utilizados pelas empresas, e de atender aos ditames do ca-
pital financeiro, vem reduzindo os custos da máquina pública através de
demissões, privatizações, terceirizações e corte de benefícios dos traba-
lhadores.
Nos marcos da reforma gerencial do Estado, ou de contrarreforma,
nos termos de Behring (2003), amplia-se a precarização do trabalho, desen-
cadeando um amplo processo de sucateamento dos serviços públicos. Com
isso, o atendimento desses serviços, que é de responsabilidade do Estado,
passou a ser visto como uma fonte de acumulação para os capitalistas. Não
sem nota, o movimento do capital sobre as relações sociais liga-se a seu
impulso expansionista, na busca de sua reprodução ampliada.
Constata-se uma progressiva mercantilização do atendimento às
necessidades sociais, decorrente da privatização das políticas sociais.
Nesse quadro, os serviços sociais deixam de expressar direitos, meta-
morfoseando-se em atividade de outra natureza, inscrita no circuito
de compra e venda de mercadorias. Estas substituem os direitos de
cidadania, que, em sua necessária dimensão de universalidade, re-
querem a ingerência do Estado. (IAMAMOTO, 2009, p. 366 – grifos
no original).
Em relação aos profissionais cujas contratações ocorreram me-
diante indicação, destaca-se que seis deles atuam no terceiro setor e três na
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rede privada/filantrópica. Dada a natureza dessas instituições, abrem-se
brechas para as contratações por essa via. Embora essa situação seja re-
corrente em todas as áreas do mercado de trabalho, sendo muitas vezes
avaliada como positiva para as instituições empregadoras, pode trazer sérios
desdobramentos, como o estabelecimento de relações clientelistas e o
exercício profissional sem a qualificação necessária. Tanto que o CFESS
lançou, em 2012, uma campanha que defende o concurso público para
assistentes sociais, sob a perspectiva da luta por trabalho com direitos e por
entender que o concurso é um dos caminhos para assegurar o compromisso
com a qualidade dos serviços prestados aos usuários, conforme estabelecido
no Código de Ética Profissional.
Quanto à natureza das instituições empregadoras, a pesquisa in-
dicou que 29% dos participantes trabalham no setor público. Desse grupo,
24,4% trabalham em uma autarquia municipal. Comparando esse resultado
com o estudo do CFESS (2005), é possível verificar semelhanças. Em nível
nacional, 78,16% dos assistentes sociais também atuam em instituições
públicas, das quais 40,97% são do setor municipal. Assim, no Brasil, os
assistentes sociais são majoritariamente funcionários públicos, atuando na
formulação, planejamento e execução de políticas sociais, centralmente
nas políticas de assistência social, saúde, educação e previdência.
É importante destacar que a redução dos postos governamentais
de trabalho no Serviço Social, principalmente em níveis federal e estadual,
e a sua transferência para os municípios, deram-se em virtude dos processos
de descentralização e municipalização dos serviços públicos, a partir dos
anos 1990. Nesse sentido, a descentralização das políticas, notadamente
da assistência social, tem contribuído para o aumento do quadro de assis-
tentes sociais no município. Um dos impulsionadores desse processo deve-
se à proposição contida na Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS –
1993) e, posteriormente, na Política Nacional de Assistência Social (PNAS
– 2004), sobre o reordenamento das funções entre os três níveis de governo.
Ademais, a implementação do Suas em 2004 impulsionou a demanda por
profissionais do Serviço Social para atuarem nesse campo.
Ainda sobre a natureza das instituições empregadoras, ressalta-se
que 24,4% dos assistentes sociais inserem-se no terceiro setor; 6,7% tra-
balham na rede privada filantrópica; 6,7% numa instituição pública es-
tadual; 4,4% na rede privada, seguidos de 2,2% na rede pública estadual,
e igualmente 2,2% na rede pública federal.
Diante do exposto, os dados evidenciam que o mercado de tra-
balho em São José dos Campos é constituído, majoritariamente, por ins-
tituições de natureza pública, como Prefeitura, Fundação Casa, Previdência
Social e Centro Técnico Aeroespacial, seguindo a tendência histórica de
maior concentração profissional nesse setor. Das públicas, destacam-se as
de âmbito municipal.
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Na sequência, o estudo apontou que 28,8% dos profissionais tra-
balham no setor privado (escolas e entidades sociais), demonstrando que o
terceiro setor aparece como um nicho expressivo de inserção profissional,
constituindo-se no segundo maior empregador dos assistentes sociais que
participaram da pesquisa. Trata-se de um dado relevante que aponta para
um crescente processo de privatização das políticas públicas na cidade.
Esse processo evidencia a lógica neoliberal, que propugna a “des-
responsabilização” do Estado na garantia do atendimento às necessidades
sociais dos trabalhadores. Além disso, também a disseminação de uma ideo-
logia que considera caber à sociedade a responsabilidade pelo enfren-
tamento da questão social pela via da solidariedade, e não pela via do
direito.
Constata-se que, nos espaços políticos onde há a predominância
dessa ideologia, ocorre o enxugamento dos gastos públicos na área social,
legitimando a proposta neoliberal. Nesse contexto, segundo Yazbek (2009,
p. 138),
[...] ganham evidência as defesas de alternativas privatistas para a
‘questão social’, crescem as ações no campo da filantropia e as
organizações não governamentais, sem fins lucrativos, criadas e man-
tidas pela ênfase na participação voluntária, envolvidas na construção
de uma esfera de interesse público, não estatal. Emergem como alter-
nativas em face da delimitação da ação social do Estado neoliberal
e pelo papel subsidiário que cabe ao Estado neste contexto, no âmbito
da Proteção Social, propostas seletivas, reducionistas, apenas sufi-
cientes para minimizar as consequências negativas dos programas
de ajuste estrutural.
Diante disso, o Estado tem regulamentado e fortalecido, de modo
contínuo e crescente, o nomeado terceiro setor para administrar e executar
políticas sociais, materializando seu abandono quanto ao papel de finan-
ciador e operacionalizador dos serviços públicos, deixando essa tarefa à
revelia da sociedade civil e do mercado.
Seguindo essa ótica, afirma-se a necessidade de o Estado
ultrapassar a administração pública tradicional e se manter na condição de
regulador do desenvolvimento econômico e social, evidenciando o des-
locamento dos serviços públicos para o atendimento das necessidades sociais
dos trabalhadores, em favor de sua privatização. Desse modo, impondo
critérios de seletividade no atendimento aos direitos sociais de abrangência
universal.
Esse contexto sócio-histórico atravessa e conforma o mercado de
trabalho do Serviço Social incidindo no cotidiano desse profissional, de
maneira a afetar suas condições e relações de trabalho, assim como as con-
dições de vida dos usuários. Com isso, intensificam-se os processos de con-
tratação temporária, sem direitos e garantias trabalhistas, além da crescente
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terceirização da mão de obra profissional por parte de empresas que prestam
serviços aos governos. Assim, confirmam-se a insegurança e a vulnera-
bilidade do trabalho, o aumento da exploração e a desregulamentação do
trabalho profissional, por meio de contratações pontuais e em decorrência
das novas formas de gestão das políticas, seja por projeto ou por tarefa.
Em alguns campos de atuação, como é o caso da habitação social,
entre outros, a terceirização vem se consolidando como novo modelo
de produção e gestão da habitação, no qual o projeto, a obra, a
operação, sua fiscalização e gerenciamento, bem como o trabalho
social passam a ser contratados através de processos licitatórios, sem
que, no entanto, a administração pública consiga manter a regulação
e o controle estratégico de todo o processo. (RAICHELIS, 2009, p.
383).
Na terceirização, o elemento terceirizado são as atividades, e
não o trabalhador ou a empresa que as executarão: estes fazem parte do
processo. Desse modo, a terceirização das políticas sociais, lócus privilegiado
de intervenção profissional do assistente social, implica em consequências
diretas nas relações profissionais com usuário e instituição.
Na relação com o usuário, um dos entraves é a rotatividade de
profissionais, que não permite a construção de vínculos entre ambos, além
de provocar a descontinuidade nas ações realizadas. O que é mais perverso
nessa dinâmica da terceirização dos serviços é que se trata de um mecanismo
que viabiliza a divisão entre direito e serviço, fetichizando o papel do Es-
tado nesse processo. Na relação com a instituição, o assistente social fica
submetido à gestão da empresa que o contratou, bem como da empresa na
qual desenvolve seu trabalho, o que pode gerar conflitos na tomada de
decisões, na resolução de problemas e na identificação das atribuições e
competências profissionais, além de outras objeções.
Verifica-se também o uso de diversas formas de terceirização, no
âmbito da política de assistência social, “pela mediação de empresas ou de
ONGs, na contratação de profissionais e na prestação de serviços socio-
assistenciais, configurando-se a ação indireta do Estado na produção dos
serviços públicos” (RAICHELIS, 2009, p. 383). Dessa forma, os impactos
das mudanças relativas aos processos produtivos têm rebatimentos diretos
no mercado de trabalho do Serviço Social, com uma progressiva e crescente
desregulamentação do trabalho.
Diante da forte volatilidade do mercado, do aumento da competição e
do estreitamento das margens de lucro, os patrões tiraram proveito do
enfraquecimento do poder sindical e da grande quantidade de mão-
de-obra excedente (desempregados ou subempregados) para impor
regimes e contratos de trabalho mais flexíveis. (HARVEY, 1992, p.
143-144).
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Quanto à área de atuação profissional, os resultados mostram
que 28 assistentes sociais (62,2%) inserem-se na assistência social, seguidos
de oito profissionais (17,9%) na saúde, três (6,7%) na educação e, com o
mesmo índice, também três (6,7%) no campo sociojurídico. Posteriormente,
dois (4,4%) atuam em empresas e, por fim, um (2,2%) na Previdência Social.
Verifica-se que a Seguridade Social aglutina 82,3% dos profis-
sionais. Em seu tripé, a assistência social é o setor de maior concentração:
28 assistentes sociais – representando 62,2% do universo pesquisado –
atuam nessa política. Pode-se dizer, inclusive, que esse dado reflete a ten-
dência geral do país, impulsionada pela implantação, em 2004, do Sistema
Único de Assistência Social, e pela instituição, no ano de 2006, da Norma
Operacional Básica de Recursos Humanos NOB-RH/Suas, que exige a pre-
sença de assistentes sociais nas equipes de trabalho.
A expansão de profissionais na área da assistência social é con-
firmada pelo Censo Suas de 2010. De acordo com esse documento, no pe-
ríodo entre 2007 e 2010 houve um aumento de 19,1% de trabalhadores
nessa área. O documento não registra a representatividade de assistentes sociais
nesse universo, apenas indica que, no ano de 2010, 48,7% do quadro de
recursos humanos do Suas era formado por profissionais com nível superior.
Referente às suas condições de trabalho, dos 45 assistentes sociais
que participaram da pesquisa, 25 informaram que não têm condições
adequadas de trabalho, perfazendo um total de 55,6% do universo pes-
quisado. Ressalta-se que, entre os 18 profissionais que responderam ter
condições adequadas de trabalho, apenas cinco mantiveram coesão em
suas respostas, ao passo que os demais apresentaram claras restrições nesse
âmbito. Diante do exposto, verifica-se que a maioria dos profissionais en-
contra limitações efetivas em suas condições de trabalho, visto que, dos 45
assistentes sociais que responderam ao questionário, somente cinco não
apresentaram objeções quanto a esse aspecto, embora muitas vezes tais
limitações não sejam reconhecidas por eles.
Isso demonstra a necessidade de o profissional ter clareza sobre a
sua condição de trabalhador assalariado para não incorrer em uma apreen-
são superficial e mistificadora desse processo. Ao se negligenciarem as rela-
ções sociais, por meio “das quais se dá a realização da atividade profissional,
considerando apenas a qualidade do trabalho, corre-se o risco de resvalar
a explicação para uma análise a-histórica, ainda que em nome da tradição
marxista” (IAMAMOTO, 2007, p. 216). Para que o assistente social desen-
volva uma intervenção de qualidade é imprescindível a existência de meios
de trabalho adequados, isto é, para a sua força de trabalho entrar em ação/
movimento precisa do que Marx (1968) denomina de instrumental de tra-
balho. Sendo este de propriedade dos empregadores, deve ser colocado à
sua disposição.
Dos problemas e constrangimentos que abrangem as suas condi-
ções de trabalho, apareceram predominantes em suas respostas os fatores
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tempo, carga horária e excesso de demandas: 20 assistentes sociais apre-
sentaram queixas dessa natureza. Os depoimentos6 abaixo são emblemáticos
para o reconhecimento dessa realidade:
Nossa maior dificuldade é quanto ao tempo, pois foi reduzida a carga
horária do assistente social; porém, continuamos com as mesmas
atribuições e demandas. A falta de tempo compromete a qualidade
de nosso trabalho, desde os aspectos de planejamento, discussão e
avaliação, bem como o atendimento, registro e articulação. (N. C. F.).
Tempo insuficiente diante da demanda complexa de trabalho e o
número de famílias que atendo. Há prazos curtos a serem cumpridos
para intervir em situações complexas, visto que há situações que de-
mandam maior tempo para avaliar, orientar, encaminhar e ter retorno
da rede socioassistencial, entre outros. (C. C. S.).
Com relação à estrutura física, a falta ou inadequação de salas
para atendimentos e reuniões, bem como as barreiras arquitetônicas, foram
sinalizadas por 18 profissionais. Quanto a esse aspecto, dizem:
Não possuo condições de trabalho adequadas. A sala de atendimento
é pequena e insuficiente para os profissionais da Unidade. Temos
que fazer um rodízio na agenda. As escadas são um dificultador para
os idosos, gestantes e deficientes. Devido à demanda excessiva de
usuários para apenas uma profissional, que sou eu, o trabalho social
acaba ficando no imediatismo. (F. B. D. M.).
Atualmente, o local onde fica a sala do Serviço Social é totalmente
inadequada devido ao barulho intenso das crianças. É quase im-
possível atender às famílias na saída e entrada das crianças, momento
em que o Serviço Social é mais procurado. A unidade em que trabalho
no momento está comprometida como um todo com relação à estrutura
física, situação que já se sustenta por anos na instituição. Infeliz-
mente. (C. R. S.).
Na sequência, 14 assistentes sociais pontuaram a ausência de recur-
sos materiais, como computadores, veículos para visitas e outros equipa-
mentos necessários ao desenvolvimento do seu trabalho. Assim, registraram que:
Concretização dos encaminhamentos, pois faltam programas e proje-
tos para a inserção dos usuários. (E.).
Quanto aos recursos, esses nunca são suficientes para a demanda
atendida, uma vez que a vulnerabilidade social aumenta e o recurso
.............................................................................. 145
6 Para preservar a identidade dos entrevistados, optou-se por manter abreviados os seus nomes.
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não acompanha essa demanda que chega cotidianamente aos serviços
socioassistenciais. (S. S.).
A escassez de verbas e recursos das instituições prestadoras de serviço
público. A precarização nos campos da saúde, da educação, da ha-
bitação, dentre outros. (Z. A. L. G.).
A escassez generalizada de recursos nos espaços sócio-ocupa-
cionais comprova a “desresponsabilização” do Estado e das instituições
empregadoras no tocante ao desenvolvimento do trabalho profissional. Aos
profissionais são colocados entraves de toda ordem. Segundo Druck (2009),
as condições atuais de trabalho sofrem um processo de degradação cres-
cente, em que a precarização, através das suas múltiplas faces, torna-se fria
e perversa. No contexto dos últimos 20 anos, a precarização tornou-se um
fenômeno mundial, como uma estratégia econômico-política.
A carência de pessoal para compor a equipe técnica também foi
explicitada por sete profissionais. Para eles, a “alta demanda para poucos
técnicos, agrava a situação de prontuários na gaveta de demanda reprimida”
(F. B.). Alertam, ainda, que são insuficientes os “recursos humanos existentes
no equipamento” (A. C. J. M. R.), evidenciando, desse modo, a “defasagem
na equipe técnica e de apoio” (E. F. L. G.).
Em seguida, seis assistentes sociais falaram sobre a restrição em
sua autonomia profissional; três pontuaram a inexistência e/ou ineficácia
de serviços, programas e projetos para o atendimento às necessidades dos
usuários. Ainda foram mencionados outros problemas quanto às condições
de trabalho. Observe:
Pouca privacidade e autonomia, acúmulo de funções e burocracia.
Dificuldade dos gestores de entendimento do papel interventivo do
Serviço Social. Acesso restrito à equipe multidisciplinar e pouca arti-
culação política. Restrito acesso às informações técnico-admi-
nistrativas e chefia imediata com outra formação acadêmica. (S.
T.).
Falta de supervisão técnica para o alinhamento teórico e metodo-
lógico, uma vez que os profissionais compreendem sua intervenção
baseada em sua visão de mundo e que, às vezes, se diverge da ideal
naquele contexto. Limitação da possibilidade de criação e in-
tervenções privilegiando o indivíduo. (Z. R. S.).
A instituição em que atuamos tem sua gênese na Ditadura Militar,
com fins e objetivos de manter a ordem. Trata-se de reajustar adoles-
centes-problema. Com a lógica da tecnocracia, a burocracia se torna
um obstáculo, uma camisa de força, impedindo a execução do tra-
balho socioeducativo. As tarefas exigidas correspondem apenas às
formalidades, o que importa é a rotatividade dos adolescentes, en-
quanto a estrutura montada, física e administrativa, corresponde ao
vigiar e punir. (R. R. N.).
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É nítido, nos depoimentos dos assistentes sociais, o processo de
precarização em suas condições de trabalho, além de outros agravantes,
como a burocracia, as divergências teóricas entre a equipe e o controle
institucional sobre os profissionais e os usuários. Quanto a este último
entrave, ressalta-se que, atrelada à função econômica da assistência social
e às demais políticas para garantir a expansão do capital, tem-se outra
igualmente importante: a função ideológica, que se “aderiu fortemente à
prática social, expressando-se através da tácita ou explicita repressão sobre
a organização da classe trabalhadora e sobre sua expressão política” (MAR-
TINELLI, 2003, p. 99).
Assim, muitos profissionais demonstram conviver com aspectos
diversos de um trabalho desgastante, limitado, enfadonho e precarizado.
O processo de precarização que conforma o trabalho na atualidade tem se
tornado, segundo Druck (2011, p. 42), um fenômeno central nesta fase de
desenvolvimento do capital. Para a autora,
Na era da acumulação flexível, as mudanças trazidas pela ruptura
com o padrão fordista geraram outro modo de trabalho e de vida
pautado na flexibilização e na precarização do trabalho, como exi-
gências do processo de financeirização da economia, que via-
bilizaram a mundialização do capital num grau nunca antes alcan-
çado.
A precarização promove uma permanente insegurança e vola-
tilidade no trabalho, redundando em perdas de direitos e de empregos e
fragilizando os vínculos e a saúde dos trabalhadores. Um dos sintomas do
processo de precarização – consequência da reestruturação produtiva – é
a intensificação do próprio trabalho. Não por acaso, a falta de tempo, a
carga horária e o excesso de demandas foram os aspectos mais sinalizados
pelos assistentes sociais.
Situados em uma dinâmica societária, orientada pelos preceitos
da reestruturação produtiva, os assistentes sociais, assim como os demais
trabalhadores, submetem-se à lógica da flexibilização e da precarização
do trabalho. Na condição de profissionais assalariados, suas ações são ten-
sionadas pela relação de compra e venda da sua força de trabalho especia-
lizada, portanto, nos dilemas da alienação e das determinações sociais que
os afetam, ainda que tais dilemas se expressem de modo particular no âmbito
desse trabalho qualificado e complexo.
O trabalho assalariado na sociedade contemporânea constituiu-
se como uma forma de aprisionamento do trabalhador, na medida em que
seu modo de organização e de gestão está vinculado a mecanismos de do-
minação e opressão que degradam as condições de trabalho e adoecem,
física e psiquicamente, os sujeitos, alterando toda a sua rede de relações
sociais.
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Nos diferentes espaços sócio-ocupacionais, o trabalho profissional
tem sido incessantemente metamorfoseado, centrando-se nos interesses do
capital e não nas necessidades dos trabalhadores. Subsumido ao capital, o
trabalho se converteu em um meio de produzir riquezas; na perspectiva
capitalista, a propriedade privada, a lei do mercado, a divisão e a alienação
do trabalho formam um elo que aprisiona e embrutece quem o realiza.
Assim, pode-se afirmar que os assistentes sociais entrevistados vi-
venciam um trabalho alienado, precarizado, subjugado e obrigatório, em
outros termos, um trabalho miserável. Diz Marx (1968) que o modo de
existência quantitativo do trabalho é o tempo de trabalho uniforme e indi-
ferenciado, simples, por assim dizer, despido de toda qualidade. Portanto,
o modo de produção capitalista, em seu estágio atual de financeirização
da economia, e os avanços do ideário neoliberal, acentuam a precarização
do trabalho, atingindo diretamente os assistentes sociais.
Desse modo, entender o Serviço Social como uma profissão in-
serida na divisão sociotécnica do trabalho e “identificar o seu sujeito vivo
como trabalhador assalariado, implica problematizar como se dá a relação
de compra e de venda dessa força de trabalho a empregadores diversos”
(RAICHELIS, 2011, p. 423 – grifos da autora). Assim, para além da análise
do serviço social como trabalho concreto (MARX, 1968), munido de qua-
lidades específicas para responder às demandas que lhe são postas, tendo
como suportes de ação os recursos materiais e seu acervo técnico-intelectual,
o trabalho do assistente social adquire um caráter abstrato na medida em
que passa a ser mediado pelo mercado. Isto é, pela produção, troca e con-
sumo das mercadorias (bens e serviços) dentro da divisão social do trabalho.
Verifica-se, portanto, no desenvolvimento do seu trabalho, uma
tensão entre o projeto profissional – o qual o afirma como um sujeito dotado
de liberdade e de teleologia, ou seja, um ser prático social, capaz de elaborar
projeções e de concretizá-las – e a sua condição de trabalhador assalariado.
Dessa maneira, situa-se nas particularidades do seu trabalho o
clássico dilema entre causalidade e teleologia, “entre momentos de estrutura
e momentos de ação, exigindo articular, na análise histórica, estrutura e
ação do sujeito” (IAMAMOTO, 2007, p. 416). Logo, por um lado interpõem-
se, no exercício profissional, os condicionantes do estatuto assalariado;
por outro, assegura-se ao assistente social relativa autonomia na sua condu-
ção, sendo esta respaldada por aparatos legais.
Desta feita, a análise do Serviço Social como especialização do tra-
balho coletivo e sua prática como concretização de processos de trabalho,
que têm como objeto de intervenção as múltiplas expressões da questão so-
cial, implicam entender que as dimensões constitutivas do fazer profissional arti-
culam-se aos elementos fundamentais de todo e qualquer trabalho, isto é, ao
[...] objeto ou matéria prima sobre a qual incide a ação transformadora;
os meios de trabalho – instrumentos, técnicas e recursos materiais e
intelectuais que propiciam uma potenciação da ação humana sobre
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o objeto; e a atividade do sujeito direcionada por uma finalidade, ou
seja, o próprio trabalho. (ABEPSS, 1996, p. 12 ).
O trabalho do assistente social é uma das práticas sociais realizadas
pelo homem e, assim, um processo de objetivação do ser social. O homem
como ser social diferencia-se do ser natural através de seu trabalho e, a
partir de suas necessidades, transforma a natureza e a si mesmo, delineando-
se no seu próprio produto final.
Para desenvolver o seu trabalho, o profissional realiza um pro-
cesso de prévia ideação: uma antecipação ideal da finalidade que pretende
alcançar. A sua ação indica uma intencionalidade pautada em componentes
ético-políticos e teórico-metodológicos que expressam a sua visão de ho-
mem, de mundo e de sociedade, mediante a invocação de valores que a
legitimam e da escolha de meios para concretizá-la. Os meios de trabalho
são, para Marx (1968, p. 298), “uma coisa ou um complexo de coisas que
o trabalhador coloca entre si mesmo e o objeto de trabalho e que lhe serve
como condutor de sua atividade sobre esse objeto”. Acrescenta o autor:
Além das coisas que mediam a atuação do trabalho sobre seu objeto
e, por isso, servem, de um modo ou de outro, de condutor da atividade,
o processo de trabalho conta, em sentido lato, entre seus meios com
todas as condições objetivas que são exigidas para que o processo se
realize. Estas não entram diretamente nele, mas sem elas ele não
pode decorrer ao todo ou só deficientemente. (MARX, 1968, p. 299).
No Serviço Social, os meios de trabalho são considerados potencia-
lizadores da ação humana sobre o objeto (ABEPSS, 1996). Contudo, parte
expressiva desses meios de trabalho necessários à intervenção do assistente
social (recursos materiais, financeiros e humanos) é disponibilizada pelos
empregadores. Portanto, são eles, em última instância, os responsáveis por
articularem as condições necessárias ao desenvolvimento do seu trabalho.
Considerações finais
Sintetizando as reflexões apresentadas nesse artigo, reafirma-se
que a crise do capital e as transformações contemporâneas no mundo do
trabalho instituíram profundas redefinições na sociedade, no Estado e nas
políticas sociais, refletindo nas condições e relações de trabalho dos assis-
tentes sociais. Nessa direção, foram exemplares as dificuldades mencionadas
pelos assistentes sociais participantes da pesquisa: 88,9% declararam
objeções que revelam o processo de precarização do seu trabalho, viven-
ciado através da intensificação de suas atividades cotidianas, do aumento
de suas demandas e da indisponibilidade de tempo para uma intervenção
qualificada.
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Revista da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
} O TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL - FAERMANN, L. A. }
DOI: 10.12957/rep.2015.21055
Ao mesmo tempo em que os assistentes sociais evidenciaram en-
traves institucionais para o desenvolvimento do seu trabalho, elucidaram o
modo de agir do Estado, ou seja, suas respostas frente às expressões da
questão social, mediadas, sobretudo, por políticas compensatórias e foca-
lizadas.
Pode-se afirmar que, em todas as áreas de atuação profissional,
prevalece um processo de deterioração das condições de trabalho dos assis-
tentes sociais, as quais devem ser analisadas em suas particularidades. Diante
desse contexto, observou-se certo desânimo, passividade e até mesmo so-
frimento nos profissionais pesquisados, o que permite afirmar que esse pro-
cesso interfere não apenas nas questões objetivas do seu trabalho, mas na
sua própria subjetividade.
A convivência diária com demandas que expressam o quadro de
desigualdade social e as múltiplas formas de opressão e de violação de
direitos a que estão submetidos os usuários, leva-os muitas vezes a situações
de adoecimento, com alto nível de estresse, desgaste físico e emocional. O
que acaba por justificar suas lamúrias quanto à falta de recursos, de liberdade
e de possibilidades para um trabalho qualificado e prazeroso, dando a sen-
sação de certa desesperança em relação à profissão, ao contexto econômico
e social e ao próprio futuro.
Diante disso, avalia-se que, embora os assistentes sociais almejem
certas condições e/ou possibilidades interventivas, suas atividades estão su-
jeitas à sua condição de trabalhador assalariado. Portanto, do mesmo modo
que na produção social de sua existência os homens estabelecem “relações
determinadas, necessárias, independentes de sua vontade, relações de pro-
dução que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das
forças produtivas materiais” (MARX, 1974, p. 129), na objetivação de sua
prática profissional as ações empreendidas são determinadas pela divisão
sociotécnica do trabalho, correspondendo a certo grau de desenvolvimento
dessa estrutura.
Por outro lado, mesmo possuindo relativa autonomia na condução
de seu trabalho, sendo esta respaldada por aparatos legais, ficou explícita,
nas respostas dos assistentes sociais, certa imobilidade quanto às alternativas
de enfrentamento desse quadro. Não houve indicativos de organização
coletiva ou mesmo de posicionamentos individuais para responderem às
situações de violação de direitos vivenciadas, tanto pelos usuários, quanto
pelos próprios assistentes sociais.
A atitude solitária do profissional frente a essa realidade, somada
aos riscos da rotina, da burocracia e da pressão institucional, pode levar à
naturalização ou à mera aceitação de um contexto de trabalho perverso,
que se contrapõe radicalmente ao Projeto Ético-Político do Serviço Social.
Por isso, a negação dessa situação é fundamental e impõe-se a ela a luta
coletiva para construir novas sociabilidades. Assim, analisar o Serviço Social
nessa perspectiva permite
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