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Tese de doutorado Larissa Costa Murad

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Published by Larissa Murad, 2017-04-10 23:50:18

Tese LCM

Tese de doutorado Larissa Costa Murad

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Cultura e integração do negro:

a experiência do Renascença Clube a partir da
conformação do subúrbio carioca

Larissa Costa Murad

2016

LARISSA COSTA MURAD

Cultura e integração do negro:

a experiência do Renascença Clube a partir da
conformação do subúrbio carioca

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação da Escola de Serviço Social da
Universidade Federal do Rio de Janeiro como
requisito parcial para a obtenção do título de
Doutor em Serviço Social.
Orientador: Prof. Dr. Marildo Menegat

RIO DE JANEIRO
Dezembro de 2016

Cultura e integração do negro:

a experiência do Renascença Clube a partir da
conformação do subúrbio carioca

Larissa Costa Murad
Orientador: Prof. Dr. Marildo Menegat

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação da Escola de Serviço Social da
Universidade Federal do Rio de Janeiro como
requisito parcial para a obtenção do título de
Doutor em Serviço Social.

Banca Examinadora:

______________________________________________
Orientador: Prof. Doutor Marildo Menegat

______________________________________________
Profa. Doutora Andrea Moraes Alves

______________________________________________
Profa. Doutora Roberta Lobo

______________________________________________
Prof. Doutor Vantuil Pereira

______________________________________________
Prof. Doutor Ricardo Janoario

M972 Murad, Larissa Costa.
Cultura e integração do negro: a experiência do Renascença

Clube a partir da conformação do subúrbio carioca / Larissa
Costa Murad. 2016.

197f.

Orientador: Marildo Menegat.

Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Escola de Serviço Social, Programa de Pós-Graduação em
Serviço Social, 2016.

1. Negros – Rio de Janeiro (RJ) – Condições sociais. 2.
Renascença Clube. 3. Clubes – Rio de Janeiro (RJ) - História. 4.
Subúrbios – Rio de Janeiro (RJ) – História. I. Menegat, Marildo.
II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Escola de Serviço
Social.

CDD: 305.896

A Helena Murad,
pelo exemplo de força e perseverança.

A Bruno Franco,
pelo companheirismo e pelo amor

no decorrer desta caminhada.
A todos os negros.

Agradecimentos

Esta tese conclui temporariamente uma caminhada iniciada há doze anos.
Um longo percurso no qual, não fossem os amigos, os dias nublados seriam a regra.
Por ter sido constantemente meu raio de sol, motivo do meu sorriso, um
agradecimento especial ao Bruno Franco. Além de ter me apresentado ao
Renascença Clube, cuja história inspirou esse trabalho, e de ter discutido conceitos
e ideias comigo constantemente, seu amor é o que me faz querer ser uma pessoa
melhor. Amo você e espero que saiba que este trabalho é meu e seu. Serei
eternamente grata pelo seu apoio e companheirismo.

Agradeço a Helena Murad, minha mãe, por ser este exemplo de perseverança
e força. Sua história me ensina que é possível sim recomeçar sem perder a
esperança no amor e na humanidade.

À Rosana Turlão, madrinha querida que me ajudou durante toda minha
formação, sempre me estimulando a tentar e seguir em frente. Minha criação se
deve a minha mãe e a você. À Fernanda Turlão, por ter apoiado a mim e a minha
mãe em um dos momentos mais sombrios, estando presente. Ao meu padrinho
Humberto e a Renata e Lilian.

À minha irmã de todas as horas Patricia Melo. A distância física e a maldade
do tempo não conseguem me afastar de você, que tem lugar especial e único em
minha alma. Ao Rodrigo Barbosa, amigo de longa data que adora me atazanar e
com quem compartilho boas risadas e boas lembranças. À Naiara Moreno, querida
amiga desde a infância. Reencontramos-nos na dor e crescemos juntas com os
piores temporais. Admiro sua força, coragem e humildade. À Evelin, amiga de
infância. Nosso reencontro mostra que a amizade resiste ao tempo e aos diferentes
caminhos.

À Marina, minha amiga persistente, que me ajuda a me entender e me
conforta nos piores momentos...você me lembra que nosso passado (de poucas
glórias e muita luta) também nos define, além de nos unir na vontade de superar as
coisas como estão. Amo você (espero que você saiba disso).

À Sabrina, amiga querida a quem quero muito bem. Obrigada por estar
sempre presente, espero poder retribuir seu carinho. Força para nós!

A todos os amigos legados pela graduação: Ju Ladeira (igual a você não
tem), Nikita Show (guerreira), Manu, Daiana, Kelly, Silvana...vocês são alegria e
energia boa em todos os momentos.

À Julia. Como era mesmo aquela citação? “A história é assim: quis o
paradoxo que a exceção de uma amizade duradoura se destacasse entre tantas
rupturas”. Algo assim, que define razoavelmente bem nossa amizade que prescinde
de definições. Obrigada por estar presente nos piores momentos. Espero que
possamos continuar nossa amizade fora desse mundo de horrores e rupturas que é
a academia.

À Fabiana Schmidt, amiga linda, pela amizade, parceria e por todo o apoio
durante as crises profissionais.

Aos “quartetos” Paulinha, Julian e Rachel. Por compartilharem dos estudos,
das muitas risadas e de tantas outras coisas...nossa amizade foi um presente
inesperado desse doutorado. Irmanamos-nos nessa batalha e espero que possamos
manter contato mesmo na correria da vida. Aprendi muito com cada um de vocês.

À Monique Gouveia, amiga de todas as horas e Roberta, que abriu as portas
de casa para mim sem sequer me conhecer, e me acolheu em um momento tenso.
Sua amizade foi uma grata surpresa.

Um agradecimento especial ao Marildo Menegat, por ter me acompanhado
durante toda essa jornada. Nem tenho palavras para agradecer por todos os
ensinamentos e pelo carinho. Obrigada sempre será pouco, mas fica meu
reconhecimento e afeto pela pessoa que você é e pelo companheirismo na minha
formação política e intelectual. Os acertos dessa tese se devem também a você.

À Fátima Cabral, pela dedicação e por todo o auxílio na construção desta
tese. Você desde a época da pesquisa na graduação é exemplo de profissionalismo
e integridade. Obrigada pelo carinho.

Ao Vantuil Pereira e a Roberta Lobo, por também terem contribuído
imensamente com a produção desse trabalho no decorrer das bancas. Suas
observações foram valiosas. Obrigada pela disponibilidade e leitura atenciosa. À
Andrea Moraes, que aceitou prontamente o convite para compor minha banca e me
acompanha desde a monografia, tendo sido fundamental na minha formação. Ao
Ricardo Janoario, que apesar da distância continuou sendo uma inspiração,
obrigada pela disponibilidade e carinho.

Ao Nestor, por ter aceitado me atender mesmo com meus parcos recursos e
por ter se dedicado nessa tarefa ingrata que é me ajudar a me entender e a elaborar
minhas dores.

À Ana Elisa, pela convivência, pela ajuda em um momento difícil e pela
compreensão. Aos colegas de doutorado dispostos ao diálogo, George Ceolin e
companhia; aos colegas dos grupos de estudos, pela troca de ideias, todos muito
importantes em minha formação. À Júlia Araújo, pessoa linda e brilhante com quem
tive o prazer de trabalhar e com quem muito aprendi. Ao Edison, pela sua disposição
para o diálogo e por ter feito contribuições e sugestões sobre este trabalho.

À guerreira Roseli Rocha, sempre chamando atenção para a necessidade do
debate acerca das questões étnicas. À Fran Menezes (em memória).

À Nanci Rosa, madrinha de coração, que conheci no Renascença por
intermédio do meu companheiro e que generosamente me acolheu e –
posteriormente – facilitou minha pesquisa. Mulher negra, exemplo de dedicação e
luta, por quem tenho muito carinho e admiração. A professora Vanda Ferreira, pelo
carinho. A todos do Renascença, que tive o prazer de conhecer nos últimos anos,
mesmo antes dessa pesquisa. Aos que mantém a roda girando na contramão,
cientes da necessidade de valorizar e acolher o povo negro em suas demandas e
urgências. Ao Moacyr Luz por ter aceitado prontamente me conceder entrevista.

Aos colegas e profissionais da Aptus e Exata pelo preparo físico e,
consequentemente, mental, principalmente nessa reta final da tese (quando a coluna
trava e o corpo dói, a dança e os treinos regeneram e renovam as forças). Sintam-se
representados aqui pelos meus agradecimentos à professora Deborah, excelente
profissional, pessoa mega dedicada.

Aos colegas da Social Consultoria, pelo reconhecimento do meu trabalho e
pelas oportunidades. Aos inúmeros estudantes com quem tive o prazer de construir
algo. Aos colegas que de alguma forma me estenderam a mão e apontaram
oportunidades: Rodrigo Lima, Camila Brandão. À Newvone Ferreira, pela confiança
e profissionalismo. Um agradecimento especial ao Bruno Peres, exemplo de
seriedade e profissionalismo. Obrigada pela parceria, nosso reencontro foi uma
grata surpresa.

A Capes, por ter me concedido uma indispensável bolsa de estudos durante
três anos, nos quais pude aprofundar as reflexões que fundamentam essa tese sem
a opressão do trabalho.

No mais, agradeço a todos que de alguma forma compartilharam experiências
e saberes comigo no decorrer da caminhada, tornando a vida um pouco mais bela e
acolhedora.

Resumo
No presente texto propomos analisar a constituição da cultura e sociabilidade no
subúrbio do Rio de Janeiro, durante e depois de completada a modernização do
país, a partir da experiência do Renascença Clube. Observaremos o paradoxo que
caracteriza a integração do negro durante e depois de completada a modernização
no país, considerando tanto a possibilidade de produção de determinada
sociabilidade pelos negros como resistência e consequência ao/do processo de
homogeneização da cultura, resultante da universalização do ethos do trabalho e da
dinâmica de expropriação continuada, quanto os limites da integração pela cultura,
no marco de consolidação de uma indústria cultural e de entretenimento. Na
formação da sociedade brasileira, a dificuldade de integração do negro é um
paradoxo constitutivo do próprio processo de modernização tardia, o qual institui o
racismo enquanto prática social imprescindível no âmbito do desenvolvimento desta
forma social inconsciente. No Rio de Janeiro, em particular, quando ocorre a
integração, esta é propiciada por intermédio da produção de cultura, porém já no
marco de constituição da indústria cultural e da monetarização da vida social, como
aparece no Renascença nos diferentes momentos históricos em que há a
incorporação do samba como principal atrativo do Clube. Logo, o negro é integrado
como objeto e não sujeito da cultura. Observamos que a cultura no subúrbio do Rio
de Janeiro é representativa da instituição da modernidade nos países periféricos,
sendo a questão da integração do negro emblemática quanto às formas de exclusão
criadas e recriadas no processo de modernização e na crise da modernidade. A
história do Renascença Clube e as transformações ocorridas no Clube, desde sua
origem até os dias atuais, ilustram os percalços da integração do negro na
sociedade carioca. Analisamos, por meio de observação participante, atividades
como o Samba do Trabalhador e o Rena Cine e a partir do conceito de indústria
cultural indicamos a positivação da questão étnico-racial no âmbito da cultura, a
redefinição das rodas de samba contemporâneas, além de destacar o espaço do
Clube como local do encontro para segmentos do movimento negro.
Palavras-chave: Cultura; integração do negro; modernização tardia; Renascença
Clube; Rio de Janeiro.

Abstract
In this text we propose to analyze the formation of culture and sociability in the
suburb of Rio de Janeiro, during and after completion of the modernization of the
country, from the experience of « Renascença Clube » (Renaissance Club). We will
observe the paradox that characterises the black integration during and after
completion of the modernization in the country, considering both the possibility of
production of certain sociability by Blacks as resistance and result from process of
homogenization of culture, as a result of the universalisation of the ethos of the work
and the dynamics of expropriation, as the limits of integration by culture, within the
framework of a cultural and entertainment industry consolidation. In the formation of
brazilian society, the difficulty of integrating black people is a constitutive paradox of
the modernization process itself, which establishes the racism while essential social
practice in the context of the development of this unconscious social form. In Rio de
Janeiro, in particular, when the integration occurs, this is provided through the
production of culture, already within the framework of the cultural industry and
costing of social life, as it appears in the Renaissance in the different historical
moments in which there is the incorporation of samba as a main attraction of the
Club. So, the negro is integrated as an object and not the subject of culture. We
observe that the culture in the suburb of Rio de Janeiro is representative of
establishing of the modernity in peripheral countries, being the issue of black people
integration representative as regards forms of exclusion created and recreated in the
process of modernization and in the crisis of modernity. The history of the
«Renascença Clube» and the changes at the Club, from its origin to the present day,
illustrating the mishaps of black integration into society. We analyse, through
participant observation, activities such as the «Samba do Trabalhador» (Samba of
the worker) and the «Rena Cine» and from the concept of cultural industry we
indicate the positivization of the ethnic and racial issue in the field of culture, the
redefinition of the «rodas de samba» contemporary, in addition to highlight the Club’s
space as the meeting place for segments of the black movement.
Keywords: Culture; integration of black people; late modernization; Renaissance
Club; Rio de Janeiro.

Résumé
Dans le présent texte notre propos est d’analyser la constitution de la culture et de la
sociabilité dans la périphérie de Rio de Janeiro, pendant et après la modernisation
du pays, à partir de l’expérience du « Renascença Clube » (Club Renaissance).
Nous observerons le paradoxe qui caractérise l’intégration du noir pendant et une
fois finie la modernisation du pays, considérant tant la possibilité de production d’une
sociabilité spécifique par les noirs comme résistance et conséquence au/du
processus d’homogénéisation de la culture, résultante de l’universalisation de l’ethos
du travail et de la dynamique d’expropriation continue, quant aux limites de
l’intégration, dans le cadre de la consolidation d’une industrie culturelle et de
divertissement. Dans la formation de la société brésilienne, la difficulté d’intégration
des noirs est un paradoxe constitutif du propre processus de modernisation tardive,
lequel institue le racisme comme pratique sociale indispensable dans le cadre du
développement de cette forme sociale inconsciente. À Rio de Janeiro, en particulier,
quand a lieu cette intégration, elle est rendue possible par l’intermède la production
de culture, cependant déjà à l’intérieur de la constitution de l’industrie culturelle et de
la monétarisation de la vie sociale, comme on peut le voir dans le Renascença aux
différents moments historiques où a lieu l’incorporation de la samba comme attractif
principal du Club. Dès lors, les noirs sont intégrés comme objet et non comme sujet
de la culture. Nous observons que la culture dans les périphéries de Rio de Janeiro
est représentative de la institution de la modernité dans les pays périphériques, la
question de l’intégration des noirs étant emblématique quant aux formes d’exclusion
crées et recrées dans le processus de modernisation et la crise de la modernité.
L’histoire du « Renascença Clube » et les transformations qui y eurent lieu, depuis
son origine jusqu’à aujourd’hui, illustrent les travers de l’intégration des noirs dans la
société de Rio de Janeiro. Nous analysons, par le biais de observation participant
des activités telles que la «Samba do Trabalhador» (Samba du travailleur) et le
«Rena Cine» et de la notion d’industrie cuturelle a indique la positivization de la
question ethnique et raciale dans le domaine de la culture, la redéfinition des «rodas
de samba» contemporain, em plus de mettre em évidence l’espace du Club comme
réunion placer pour les segmentes du mouvement noir.

Mots-clés: Culture; integration des noirs; modernisation tardive; Club Renaissance;
Rio de Janeiro.

Sumário
1 Introdução.............................................................................................................14
2 A condição do negro na ordem competitiva......................................................26
Parte 1 Cultura, reação e resistência na conformação do território...................26

2.1 Tempo, trabalho e instrumentalização da cultura.............................................34
2.1.1 O paradoxo da instrumentalização dos corpos na periferia do capitalismo .......... 42

2.2 O samba urbano entre a resistência e a integração.........................................48
Parte 2 A fundação e as transmutações do Renascença Clube .........................63

2.3 A imposição do isolamento social e a necessidade do encontro .....................63
2.4 Reafirmação étnica e integração: o lugar controverso da mulher negra e do
samba ....................................................................................................................70
3 As alterações no samba: indústria cultural e a desconstrução das tradições
negras ......................................................................................................................83
3.1 O samba no Clube ...........................................................................................91

3.1.1 O samba fundo de quintal e suas transmutações................................................. 95
3.1.2 As rodas de samba: inversão e reinversão de hierarquias ................................. 103
3.2 O Soul e a americanização da alma negra ....................................................106
3.3. A reconfiguração do território e a redescoberta da roda ...............................111
4 A atualidade do Renascença Clube: a tentativa de recriar a alma da festa e o
Samba do Trabalhador .........................................................................................130
4.1 A integração do negro no capitalismo contemporâneo (ou o destino do anti-
herói perante a lógica do tempo abstrato)............................................................130
4.2 A roda de samba do trabalhador....................................................................146
4.3 Os sambas de Moacyr Luz ............................................................................164
4.4 A atualidade do Renascença .........................................................................174
4.4.1 O Rena Cine ...................................................................................................... 174
4.4.2 O Renascença como espaço do encontro.......................................................... 182
5 Considerações Finais ........................................................................................185
Referências ............................................................................................................188

14

1 Introdução

Estranhou o quê?
Preto pode ter o mesmo que você
(Moacyr Luz e o Samba do trabalhador)

Primeiro de maio de 2013. Casa lotada. No Renascença Clube, situado no
Andaraí, começa uma festividade em homenagem ao dia do trabalhador.
Excepcionalmente numa quarta-feira em função da data comemorativa Moacyr Luz
comanda mais uma vez o Samba do Trabalhador. Com um público diversificado, ao
som de sucessos como “Estranhou o quê?”, “Morro dos Prazeres” e “Vida da minha
vida”, além de reinterpretações de antigos sambas, a noite cai embalada pela
cantoria uníssona da roda. A hora passa e a lotação continua.

O Samba do Trabalhador, porém não é uma roda de samba como outra
qualquer, tem lá suas especificidades. Após um período de descenso na história do
Clube (hoje com mais de sessenta anos), o Samba do Trabalhador surge em 2005 a
princípio por um acaso, do encontro entre Moacyr Luz e o então presidente do
Clube, Jorge Ferraz. Com o objetivo de retomar as atividades e o movimento do
Clube e recriar o clima de rodas de samba das décadas anteriores são organizados
encontros às segundas-feiras no espaço do Renascença. Após trabalharem finais de
semana, os músicos e compositores se reuniam no Renascença nas segundas e
esse era o Samba do Trabalhador. Ou seja, de início a roda tinha um caráter mais
intimista e representava um momento de lazer para os próprios trabalhadores da
música.

Atualmente, dadas as proporções tomadas por essa roda, a princípio
descompromissada, o Samba do Trabalhador cumpre a função de dinamizar o lugar.
Acaba tendo por efeito colateral a ressignificação das próprias rodas de samba
como atividade de lazer, as quais andaram escassas, apagadas no final da década
de 1990 devido à onda do pop, a novidade do funk, e a ascensão do pagode
romântico que tomam o Rio de Janeiro de assalto.

Observando a quantidade de pessoas que frequentam essa roda, lotada no
feriado do dia do trabalhador, mas também lotada toda segunda-feira, impressiona o























26

2 A condição do negro na ordem competitiva

Parte 1 Cultura, reação e resistência na conformação do território

Armei
Pic-nic na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade

Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
Plantei novos brotos no Engenho de Dentro

Pra alma não se atrofiar
(Moacyr Luz e Aldir Blanc – Saudades da Guanabara)

A produção de cultura popular no Brasil remonta a formas de resistência de
determinados segmentos oprimidos perante o avanço das relações sociais
mercantis. A civilização que nasce do processo colonial de acumulação primitiva se
torna urbana pelo deslocamento contínuo de grandes contingentes populacionais;
por meio da expropriação continuada e também como necessidade inerente ao
desenvolvimento do urbano e à instituição do trabalho livre. Esse processo se inicia
e se perpetua com o desenraizamento forçado de diversas etnias, o qual envolve a
colonização de culturas diferentes e a imposição da raça como determinante: “(...) a
noção hierárquica de civilização estava por trás de certos desideratos biológicos,
fazendo da cor branca um indicador de superioridade, mesmo na ausência de um
discurso explicitamente racista” (SEYFERTH, 2002:119).

Segundo Cardoso (s/d), a exploração social característica do capitalismo se
substantiva no mercado das cidades. Nesse sentido, a construção de metrópoles é
inerente ao processo de conformação do capitalismo. Para Abreu (2013:16), “as
áreas metropolitanas brasileiras são, na atualidade, uma das expressões espaciais
mais acabadas da formação social brasileira”, ou seja, no processo de construção
das regiões metropolitanas se reproduzem as contradições inerentes ao
desenvolvimento desta forma social sistêmica. O autor destaca o lugar do Rio de
Janeiro como modelo urbano, o qual reflete características da formação social como
um todo:

O caso do Rio, então, parece ser ainda mais significativo, pois,
além de ter sido aí que se localizou a capital do Brasil de 1763
a 1960, a cidade foi a mais populosa do país durante quase

27

todo esse período, só perdendo essa posição privilegiada para
São Paulo na década de 1950. Devido a isso, o Rio de Janeiro
foi, durante muito tempo, um modelo urbano para as demais
cidades brasileiras. E esta função de servir de modelo e de
refletir, por conseguinte, as características da formação social
num determinado momento, parece ainda ser um monopólio
seu. (ABREU, 2013:16, 17).

O Rio de Janeiro experimenta o início de sua urbanização já no século XIX,
com a vinda da família real portuguesa em 1808 e as consequentes mudanças na
sociabilidade local. Fernandes (2008) observa que, anteriormente, a construção do
Rio de Janeiro enquanto cidade já esboçava traços de um projeto arquitetônico
pautado no estilo barroco, mesmo antes de sua urbanização, por isso ressaltamos
que a vinda da família real implica mudanças em termos de sociabilidade e de
desenvolvimento de toda uma infraestrutura urbana capaz de atender às suas
necessidades, o que resultou na crescente estratificação social do espaço, como
aponta Abreu (2013).

A vinda da família real implica em novas necessidades materiais, impondo
maior nível de estratificação social ao Rio, cuja maioria da população até então era
escrava. Combinado esse fator à independência política e ao boom do café o Rio
passa a atrair mais trabalhadores livres e capitais internacionais a partir
principalmente de meados do século XIX. Até então a maioria de sua população era
escrava. Rio de janeiro, São Paulo e Minas Gerais eram as três províncias com
maior concentração de escravos.

Lopes (2008) destaca os fatores externos de atração de imigrantes para o Rio
a partir do final do século XIX. O princípio da substituição do escravo por
equipamentos agrícolas em algumas regiões do país, combinado aos efeitos da
seca no Nordeste, provoca a venda de grandes contingentes de escravos para os
grandes centros – especialmente Rio e São Paulo. Com a abolição da escravatura, a
concentração populacional no Rio aumenta devido aos processos migratórios dos
então libertos, desencadeados por diversos fatores.

Com a abolição da escravatura, entretanto, é que a capital do
Império vai ter sua população, de fato, aumentada. Aos
migrantes do Vale do Paraíba, que para o Rio de Janeiro
continuam vindo desde a falência da lavoura cafeeira na
região, aos veteranos da Guerra do Paraguai, aos flagelados
da Grande Seca vêm juntar-se, agora, mais e mais negros,

28

oriundos das mais diversas regiões do País, mas
principalmente das províncias vizinhas. (LOPES, 2008:39).

Ou seja, sendo o Rio de Janeiro a capital da República, seu processo de
urbanização até então incipiente combinado às consequências das transformações
sociais que ocorriam em todo o Brasil atraía contingentes negros de imigrantes e
recém- libertos. Em 1890, 34% dos habitantes da capital eram “negros ou mestiços”,
dentre os quais, grande parcela era oriunda de outras regiões do país (LOPES,
2008). A afluência dos imigrantes para o Rio era, obviamente, direcionada à área
central.

O processo de urbanização ganha forma no século XX com a reforma Pereira
Passos (1903), a qual representou politicamente uma tentativa de adequar a estética
local aos padrões da civilização ocidental. O que implicou na expulsão da população
pobre e negra do espaço da “cidade formal”, cujo marco foi a derrubada
generalizada dos cortiços. Construídos a partir das necessidades das classes
populares de morar perto das áreas centrais, onde se concentravam os empregos
relacionados à prestação de serviços (minimamente acessíveis aos ex- escravos),
os cortiços já eram perseguidos e estigmatizados desde 1893 pela administração do
prefeito Barata Ribeiro, momento no qual se inicia

um processo de intervenção direta do Estado sobre a área
central da cidade, que viria a se intensificar sobremaneira a
partir do início do século, e que seria responsável pelo
aumento da estratificação social do espaço carioca. (ABREU,
2013:50).

Até o início do século XX o Centro do Rio e suas imediações concentravam
também a incipiente atividade industrial, caracterizada pelo “baixíssimo nível de
mecanização” e pela existência de indústrias capazes, consequentemente, de
absorver grande quantidade de força de trabalho (ABREU, 2013:54, 55). Porém,

O final do século XIX não se caracterizou apenas pela
multiplicação de fábricas no Rio de Janeiro. Outra face da
mesma moeda, coincidiu também com o esgotamento do
sistema escravista, com o consequente declínio da atividade
cafeeira na Província do Rio de Janeiro e com o grande afluxo
de imigrantes estrangeiros. Resultou daí um processo de

29

crescimento acelerado via migração, que agravou
consideravelmente o problema habitacional da cidade, pois
levou ao adensamento ainda maior dos cortiços e ao
recrudescimento das epidemias de febre amarela que
assolavam a cidade periodicamente. (ABREU, 2013:57).

No caso da urbanização incipiente do Rio de Janeiro a necessidade de
disciplinar a força de trabalho aparece também pautada no discurso higienista na
parceria do Estado com as empresas privadas no subsídio da reprodução da força
de trabalho por meio da construção de Vilas Operárias, projetadas como “moradas
hygienicas” (Abreu, 2013:58) ainda na última década do século XIX. Estas, porém,
logo se mostraram insuficientes perante a quantidade de pessoas expulsas da área
central. O discurso higienista ganha força no início do século XX, configurando
inclusive uma forma de pressão social que se fortalece com a intervenção direta do
Estado no âmbito da reprodução da força de trabalho, levada às últimas
consequências na administração Pereira Passos.

Nesse contexto contraditório de formação do urbano, a vinda de ex- escravos
e migrantes pobres (unidos sob a denominação de trabalho livre) para os novos
centros urbanos era necessária ao desenvolvimento do capitalismo e ao mesmo
tempo combatida por um projeto político e estético de embranquecimento, o qual
legitima a mudança na inserção do país na divisão internacional do trabalho a partir
de alguns determinantes: a necessidade sentida pela elite de nos assemelharmos
aos países centrais, especificamente à estética moderna representada nos grandes
centros urbanos; a necessidade do capital de substituição do trabalho escravo por
uma mão de obra considerada mais adequada, a qual implica no estímulo à
imigração a partir da criação de um ideal de colono (SEYFERTH, 2002); e a
resistência dos ex- escravos a se adequar ao ethos do trabalho assalariado.

Sobre o caráter histórico do desenvolvimento do trabalhador, Menegat (2013)
indica que a massa de ex- escravos estava demasiado mutilada para adequar-se ao
assalariamento. Logo, a transformação dessa massa em trabalhadores “livres” não
ocorreu sem resistência por parte dos mesmos. Queiróz (2001) destaca a própria
violência, sistematicamente utilizada no cativeiro, como fator que implicava no
extermínio da vitalidade do escravo em prazo determinado. Porém, a resistência
quando configurada em reapropriação do tempo pelo ex- escravo é frequentemente

30

lida como ode à vadiagem, no sentido pejorativo, ou dificuldade moral de integração
à nova ordem.

Nesse sentido o disciplinamento dos corpos, necessário à consolidação da
modernidade, ocorre no Brasil como tensionamento contínuo em um movimento de
expropriação, inclusive do tempo livre e do espaço, permanência de formas de
violência extraeconômica e resistência. É nesse cenário que a vinda de
trabalhadores europeus continua a ser estimulada pelo Estado brasileiro, ratificando
a política do embranquecimento reverenciada pelas elites (MENEZES, 2013). E é
essa política que legitima a expulsão dessa massa de trabalhadores pobres e
negros dos grandes centros urbanos no processo de modernização do país, ao
mesmo tempo em que esses eram necessários para a realização de determinados
trabalhos. O acesso desses segmentos populacionais ao território se faz então por
meio da produção de cultura como possível forma de representação das dores
individuais- coletivas (BOSI, 2008). A produção de cultura popular implica ainda na
ressignificação do território pela apropriação do espaço da rua, conforme veremos
adiante.

A política do branqueamento no Rio de Janeiro é também indicada por Lopes
(2008) a partir da análise da composição da força de trabalho realizada por
Chalhoub:

em 1890, dos 89 mil trabalhadores estrangeiros em atividade
na terra carioca, mais da metade tinha os empregos mais bem
remunerados, no comércio, na indústria e nas atividades
artísticas; enquanto, entre os negros, 48% eram empregados
domésticos, 17% eram operários, 16% não tinham profissão
declarada e 17% trabalhavam em atividades extrativas, na
lavoura e na pecuária. E é essa mesma ideologia do
branqueamento que vai delimitar o espaço físico a ser ocupado
por esses negros, vindos de todo o território brasileiro, na
geografia carioca. (LOPES, 2008:40).

É no movimento de deslocamento forçado, remoção e construção do sistema
de transportes (ABREU, 2013) que se constitui o subúrbio carioca, sendo sua origem
também marcada pela segregação étnica fundamentada na ideologia do
branqueamento. A necessidade de acessar os locais de trabalho, a expulsão
continuada do centro da cidade e o desenvolvimento do sistema de transportes para

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atender às necessidades de reprodução do capital nacional e internacional
provocaram um rápido crescimento das áreas em torno dos trens.

A partir da inauguração do primeiro trecho da Estrada de Ferro Dom Pedro II
em 1858, e subsequentes estações e novas ferrovias, o subúrbio carioca começa a
se expandir. Na última década do século XIX, início do XX, o Rio de Janeiro já
experimentava uma industrialização incipiente, podendo o movimento de ocupação e
o crescimento dos subúrbios serem exemplificados “pela movimentação de
passageiros nas estações da Central do Brasil, que atingiu, no período 1886- 1896,
um total de quase 30 milhões de pessoas” 9 (ABREU, 2013:53).

Com a reforma Pereira Passos a derrubada dos cortiços e a campanha para
erradicação dos mesmos se combinaram a desapropriações e demolições em
função da renovação do Centro. As favelas se constituíram como parte desse
mesmo processo, alternativa aos mais pobres que precisavam continuar perto do
Centro perante a expulsão do núcleo central10, mas “nem todos os que eram
expulsos dos cortiços ou que chegavam à cidade, localizaram-se, entretanto, nas
favelas. A grande maioria, ao que parece, instalou-se nos subúrbios, contribuindo
assim para a sua ocupação efetiva”. (ABREU, 2013:66). Dentre a população de
baixa renda expulsa da área central, os negros eram maioria, atingidos inclusive
pela mecanização do Porto a partir de 1906 (LOPES, 2008).

O subúrbio carioca foi então construído não como parte de uma
sistematização do planejamento urbano, sendo antes resultado de uma ocupação
forçada devido ao processo de expulsão sistemática das áreas centrais, iniciado já
no final do século XIX; e viabilizado pelo desenvolvimento dos trens no movimento
de conferir respostas às necessidades de reprodução do capital.

Portanto, com o desenvolvimento dos trens e o decorrer do processo de
modernização o trabalhador negro passou a encontrar no subúrbio local razoável de
moradia e durante esse deslocamento rotineiro casa- trabalho- trabalho- casa se
produzia também uma sociabilidade original das classes populares:

a inauguração e extensão das linhas da Estrada de Ferro
Central do Brasil, por etapas, até o matadouro de Santa Cruz,
na segunda metade do século XIX, bem como da Avenida

9 Apesar do autor se referir a 30 milhões de pessoas, seria mais exato nos referirmos a 30 milhões de
passagens, já que a movimentação de passageiros envolve idas e vindas de uma mesma pessoa.
10 Paralela à expulsão dos mais pobres do Centro do Rio ocorreu a construção da Zona Sul da cidade
enquanto espaço privilegiado da elite carioca, processo inaugurado com a expansão dos bondes.

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Automóvel Clube em 1926; mais a crise do capitalismo mundial
em 1929 que, estimulando a indústria nacional, motiva a vinda
para o Rio de Janeiro de enormes contingentes da população
interiorana; tudo isso vai determinar o crescimento dos morros
e dos subúrbios e acabar de definir geograficamente o universo
do samba e do partido-alto (LOPES, 2008:44).

Podemos observar nesse sentido a origem de atos como o samba no trem11
como exemplo dessa relação trabalho- cultura popular- constituição do território. O
ato de fazer samba no trem é uma prática antiga no Rio de Janeiro, surgida de
maneira espontânea como reação, no contexto de perseguição e repressão às
tradições de matriz afro-brasileiras, principalmente ao samba e ao candomblé; o
trem seria um espaço livre da repressão policial, onde se podia realizar o batuque
nas horas gastas a caminho de casa e do trabalho.

Conforme indica Lopes (2008), a forma de samba partido-alto12 também é
criada nessa relação, na virada do século XIX para o XX, quando ainda havia grande
concentração de negros e mestiços (a maioria oriunda da Bahia e de Minas Gerais)
na Zona Portuária e em seus arredores – principalmente na Cidade Nova, até então
Praça Onze. Essa região, conhecida como Pequena África13, é apontada pelo autor

11 A forma atual do samba no trem – o Trem do Samba – foi criada em 1996 pelo compositor
Marquinhos de Oswaldo Cruz, como modo de celebração do Dia Nacional do Samba, comemorado
em 02 de dezembro. Com entrada franca, o Trem do Samba reúne atualmente cerca de 200 mil
pessoas por ano, o que já indica a mudança de uma prática social, um ato popular, para um evento
turístico, de massas, característico da cidade espetáculo que se consolida pós- década de 1970.
Apesar da intenção do compositor ter sido o reconhecimento oficial do samba como parte significativa
da cultura, a partir da recuperação de suas origens, vinculadas ao subúrbio e à sociabilidade
construída no espaço de trânsito trabalho- casa.
12 Não há um consenso acerca da definição da forma de samba Partido-alto, porém cabe indicar que
Lopes (2008) tenta conceitua-la a partir de dois determinantes: o desenvolvimento da “música da
Diáspora Africana” entre a integração e a manutenção de seus traços ancestrais; e a configuração do
que o autor chama de “samba de morro”, o qual se dividirá em “samba urbano (a partir do Estácio),
próprio para ser dançado e cantado em cortejo, e em partido-alto, próprio para ser cantado e dançado
em roda” (LOPES, 2008:19). Esta última divisão, porém, refere-se ao partido-alto instrumental, antes
deste ser cantado. O raciocínio que desenvolvemos no presente trabalho envolve a noção de que o
partido-alto também faz parte do samba urbano, no sentido desta forma de samba que surge no Rio
de Janeiro com a urbanização e industrialização do país, mesclando tradições inclusive trazidas da
Bahia, que a partir da forma de sociabilidade que se desenvolve com a construção da cidade se
conforma e se reconfigura. Destacamos, portanto a noção de que o samba partido-alto surge
umbilicalmente ligado à sociabilidade da roda e se modifica a ponto de ser posteriormente entendido
como disputa cantada entre os assim chamados partideiros.
13 “A expressão popularizada por (Roberto) Moura se baseia numa afirmação de Heitor dos Prazeres,
segundo o qual a Praça Onze de seu tempo era uma ‘Pequena África’. Mas observe-se que o
sambista se referia ao carnaval da Praça e não ao cotidiano da Cidade Nova, região de que o antigo
logradouro era o centro, e que abrigava também imigrantes italianos e uma coesa comunidade
judaica” (LOPES, 2008:45).

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como berço do samba urbano14. Pois ali “confraternizavam-se ou confrontavam-se,
nas rodas de batucada e de pernada, os sambistas descidos dos morros e
subúrbios” (LOPES, 2008:46).

Cabe destacar que referimo-nos ao “samba urbano” no sentido do gênero
musical criado nesse contexto de conformação do urbano, particularmente do
subúrbio, e que expressa formas urbanas de sociabilidade, apesar de ter em suas
origens raízes rurais – vivas em seus criadores mesmo quando estes vivenciavam
como imigrantes a urbanização do Rio. Ou seja, referimo-nos a forma musical que
tem sua origem vinculada a maneiras particulares de sociabilidade e à vivência da
festa, o que faz com que seja considerada inclusive “música de preto” (Moura,
2004). Porém o reconhecimento do “samba urbano” nesses termos não confere
prejuízo ao entendimento do sentido polissêmico do samba, o qual remete a formas
anteriores de expressão e sociabilidade do segmento em foco, além de envolver o
amálgama de tradições africanas e ritmos europeus. Sociabilidade expressa
inclusive na roda, tratada por Moura (2004) como ambiência que permitiu o
desenvolvimento do samba. Logo, quando tratamos de “samba urbano” entendemos
este gênero musical como contraditório, pois não obstante seu surgimento e suas
raízes vinculados à festa, sua consolidação e posteriores transformações enquanto
“gênero musical constitutivo da nossa identidade social”15 ocorrem já no âmbito da
conformação do moderno.

Nesse momento inicial, porém a rua ainda é o espaço da confraternização e
esta ocorre por meio do encontro e do sentir em comum; nesse movimento, descrito
em detalhes e em suas contradições por Lins (2012), observamos a conformação da
cultura nos marcos da recriação das tradições africanas, paralelo à imposição do
trabalho como forma de organização da vida social e à consequente repressão
policial característica do processo por meio do qual a cidade “civilizava-se”. No bojo
deste processo constitui-se a experiência desse grupo social como “estrutura do

14 Cabe destacar que não há consenso acerca da territorialidade originária do samba, visto que este
possui várias formas e ramificações enquanto música popular. No Samba da Benção, de Toquinho e
Vinicius de Moraes, por exemplo, os compositores cantam: “porque o samba nasceu lá na Bahia e se
hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração”. Ou seja, quando falamos do samba
urbano nos referimos a esta forma que surge e se desenvolve atrelada à conformação do subúrbio
carioca, logo, às transformações territoriais oriundas da modernização e às formas difusas de
resistência e reação a estas. Lopes (2008) indica as influências de ex-escravos que vêm para o Rio
oriundos da Bahia e de ritmos como a chula, dentre outros, na construção do que o autor chama de
samba de morro.
15 DaMatta. Prefácio. In: MOURA, R. M., op.cit., p.14.

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sentimento de um período histórico” (FILMER, 2003:375), expressa em uma forma
musical como o samba, por exemplo, conforme veremos adiante.

2.1 Tempo, trabalho e instrumentalização da cultura

o canto do trabalho
a dança, a ânsia sagrada de rememorar

o juro do negreiro
o açoite pardo do feitor
e um clarão enganador
a liberdade sonhada ainda não chegou
(Moacyr Luz e Aldir Blanc – Rainha Negra)

Apresentaremos agora uma breve digressão sobre a imposição do trabalho
como forma de organização da sociabilidade moderna e a consequente
instrumentalização da cultura. Apesar de árido, tal deslocamento se mostra
necessário para situarmos posteriormente a relação sujeito- objeto e a inversão que
constitui a cultura em seu caráter sistêmico; e demarcarmos o período no qual houve
possibilidade de conformação de uma cultura popular como resistência à
universalização do ethos do trabalho.

Nesse sentido buscamos a seguir indicar também a diminuição do tempo de
trabalho socialmente necessário e a mudança na norma de produtividade global
apontada por Postone (2014) para observarmos algumas especificidades da
modernização brasileira e do racismo – mecanismo funcional no desenvolvimento do
capital como forma universal. Este raciocínio será resgatado no decorrer do terceiro
capítulo, quando discorreremos acerca da compreensão do lugar destinado ao negro
depois de completado o processo de modernização e da inviabilidade da dialética da
malandragem, que expressa a inversão sujeito-objeto a qual nos referimos
anteriormente.

O trabalho se generaliza e se torna laço social central na cultura consolidando
a cisão que funda a modernidade. A dissociação da vida em esferas é representativa
desse processo, que resvala também no âmbito da criminalização da cultura popular
– vivenciada por algumas vertentes do samba, particularmente aquelas ligadas a
formas de sociabilidade das classes populares. Como indica Moura (2004:35): “é lá
(na Praça Onze) que aparece, quase criminoso, um samba de raiz, onde ex-

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escravos e seus descendentes cantam suas dores e amores. Paralelo a ele, há o
choro, seu primo-irmão, só que mais aceito pelas autoridades da época”.

Além da criminalização dos “tipos” de samba vinculados diretamente a
determinados segmentos sociais e ao seu ethos, Moura (2004) indica ainda que a
construção do samba como gênero musical original não comporta a moderna divisão
da vida em esferas atomizadas. Observando a roda como ambiência constituinte do
samba, espaço de “ampliação do universo doméstico, (...) onde o trabalhador dá
lugar ao boêmio e a rotina cede vez à criatividade” (MOURA, 2004:37), o autor
aponta a reprodução de uma forma de vida social onde a cultura é o todo. Nesse
sentido que o samba surge como expressão de uma forma de sociabilidade
particular, onde tradições africanas são recuperadas e mescladas a ritmos europeus.
“Toda essa paisagem sonora, que não separa música e vida, lazer e produção, vem
sendo historicamente definida como ‘mundo do samba’” (MOURA, 2004:37).
Podemos afirmar que nos primórdios da construção deste mundo a cultura
representa a produção da vida em outro marco, fora da incorporação subjetiva do
ethos conformado a partir da centralidade do trabalho, apesar de estar instituída na
vida social neste momento a separação entre trabalho e lazer. A dialética da
malandragem, entendida a partir da relação orgânica entre ordem e desordem
expressa o paradoxo de viver em uma sociedade que se transforma, porém mantém
traços de sociabilidade que possibilitam o trânsito entre mundos, ou a sobrevivência
“marginal” – marginal no sentido de que o malandro não se integra totalmente ao
todo, antes o usa para se sobrepor a ele.

Candido (2004) desenvolve este conceito de dialética da malandragem ao
analisar o personagem Leonardo, do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de
Manuel Antônio de Almeida. Para o autor, Leonardo seria “o primeiro grande
malandro que entra na novelística brasileira” (CANDIDO, 2004:22); porém, apesar
do caráter folclórico oriundo da comicidade popularesca que acompanha o
personagem do malandro, o autor cunha o conceito de dialética da malandragem
para ressaltar que, neste personagem e na obra como um todo, há um quê de
“intuição da dinâmica social do Brasil na primeira metade do século XIX” (CANDIDO,
2004:25).

Nesse sentido, Memórias de um Sargento de Milícias seria obra
representativa da dialética entre ordem e desordem, a qual nos permitiria nos
aproximarmos da dinâmica de um país que está em processo de transição do

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trabalho escravo para o trabalho assalariado. Nesse contexto, há uma
correspondência entre ordem e desordem, pólos pelos quais o malandro transita
sem necessariamente ser absorvido, nem integrado pelo polo da ordem. Sua não
integração aparece, bem como a dialética da malandragem generalizada enquanto
princípio descritivo da sociedade e da subjetividade da época, na supressão do
trabalho feita por Manuel Antônio e no trânsito entre lícito e ilícito.

No processo de abolição da escravidão, a condição do negro no Brasil aponta
para este não lugar vivenciado pelo negro liberto. Não mais escravo, e ainda sem
lugar nas relações de assalariamento; preterido pelo colono europeu, e impedido
inclusive de adquirir terras. Ou seja, o trânsito pelos pólos da ordem e desordem
pode ser entendido aqui como forma de sociabilidade – e sobrevivência em última
instância – possível, onde o homem livre dependia das relações de favor e estas
eram estruturantes das relações sociais na sociedade brasileira. No decorrer da
modernização do país, principalmente a partir da década de 1930 quando começa a
se consolidar o ethos do trabalho, essa sociabilidade “malandra” será violentamente
criminalizada enquanto vadiagem.

Com a modernização do país a homogeneização das relações sociais vai-se
estabelecendo por meio da instrumentalização da cultura. O corpo do trabalhador
nesse sentido “pode ser interpretado, também, como uma grande metáfora da
perversão instituída pelo capitalismo, a partir da instrumentalização da natureza e da
humanidade, melhor dizendo, da cultura” (FONTENELLE, 2002:282).

Ou seja, quando toda atividade humana é transformada em trabalho, no
sentido da produção do valor, também os homens em sua corporalidade se
transformam em meio na busca incessante de fins alheios, precisando para isso de
serem disciplinados. Nas palavras de Marx, a força de trabalho em sua
potencialidade particular de conservar e criar valor “devém força do capital” (MARX,
2011:286, grifos do autor). Logo, o capital só é produtivo em relações de produção; e
o trabalho só tem existência nessa relação.

Nessa forma social, os indivíduos criam laços uns com os outros e com a
natureza por intermédio da troca de mercadorias, tendo como finalidade a geração
de mais valor. Ou seja, os sujeitos se tornam objetos no processo produtivo, sob o
qual eles não exercem nenhum controle e sua atividade é reduzida a trabalho
abstrato. Na produção de mercadorias, o conteúdo concreto que particulariza a
atividade humana se apaga ao se tornar simples invólucro de valor, logo, universal e




























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