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FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PARÁ DE MINAS

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Published by phonteboa, 2021-06-07 21:10:38

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PARÁ DE MINAS

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PARÁ DE MINAS

Edição Virtual



FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE
PARÁ DE MINAS

Acervo Documental “Mesopotâmia Mineira”

Pará de Minas – 2009
Edição Virtual - 2021

Copyright 2009, Acervo Documental Mesopotâmia Mineira

Equipe do Acervo Documental Mesopotâmia Mineira:

Alaércio Antônio Delfino
Ana Maria de Oliveira Campos

Flávio Marcus da Silva
Geraldo Rodrigues

Geraldo Fernandes Fonte Boa (Coordenador)
Joandre de Oliveira Melo

FICHA CATALOGRÁFICA
Acervo Documental Mesopotâmia Mineira.
Fragmentos da História de Pará de Minas. Pará
de Minas: Gráfica Ideal, 2009, 2009,
166p.[Edição Virtual – 2021 – 174p.]
1. História Regional de Minas Gerais
I. Título

CDD: 981 228r

Revisão de texto: Carmélia Cândida
Capa/Arte: KITHÃO – [email protected]



AGRADECIMENTOS

JOSÉ PORFÍRIO DE OLIVEIRA FILHO

Prefeito de Pará de Minas

INÁCIO FRANCO

Deputado Estadual e Ex-prefeito de Pará de Minas

CRISTINA GABRIELA MIRANDA PEREIRA

Secretária Municipal de Educação

SUZANA FRANCO DOS SANTOS

Ex-diretora do Muspam

Drª EUZA ARRUDA DE OLIVEIRA TEIXEIRA SILVA

Ex-diretora da Fapam

PROF. HERNANDO FERNANDES DA SILVA

Ex-vice-diretor da Fapam

Drª CLÁUDIA HELENA BATISTA

Ex-Juiza de Direito da Comarca de Pará de Minas

DR. MARCO ANTÔNIO FARIA

Instituto Histórico de Pitangui

ENGº PAULO MELO FRANCO

Aos ex-integrantes do Acervo Documental Mesopotâmia Mineira e a
todos que colaboraram de alguma forma para a elaboração deste livro.

APOIO:
PREFEITURA DE PARÁ DE MINAS
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO
FACULDADE DE PARÁ DE MINAS – FAPAM



ABREVIATURAS

• FFPN – Fundo Fórum Pedro Nestor
• FCAM – Fundo Cartório Arnaud Marinho
• CBG – Casa Borba Gato
• RAPM – Revista do Arquivo Público Mineiro
• AEM – Arquivo Eclesiástico de Mariana
• JCP – Jornal Cidade do Pará
• JOM – Jornal O Momento
• JOU – Jornal O Único
• APNSP – Arquivo da Paróquia Nossa Senhora da Piedade
• IHGB – Instituto Histórico e Geográfico do Brasil

Orientação de leitura dos códigos dos documentos do Acervo

Documental Mesopotâmia Mineira:

FCAM INV 34 01 (01)

Domínio Natureza do Nº do Nº do (Caixa)

documento Processo Documento

ASLIB – Ação Sumária de Liberdade
AUALIB – Auto de Ação de Liberdade
AUARB – Auto de arrematação de bens
AUCR – Auto de Crime
AUDEP – Auto de Depósito
AUDO – Auto de Doação
EMB – Embargo
INV – Inventário
PRC – Processo Crime
TEST – Testamento.



Sumário

Apresentação da Edição Virtual............................................................... 8
APRESENTAÇÃO ......................................................................................... 9
RAÍZES HISTÓRICAS DO ARRAIAL DO PATAFUFO ........................ 12

As primeiras bandeiras......................................................................... 13
O início da jornada................................................................................. 18
A busca de uma nova versão.............................................................. 21
Pesquisando o termo Patafufo ........................................................... 27
CULTURA ..................................................................................................... 33
A educação em Pará de Minas na primeira metade do século XIX
..................................................................................................................... 33
Grupo Escolar “Torquato de Almeida” ............................................ 34
A Escola Estadual Governador Valadares ...................................... 39
O carnaval em Pará de Minas.............................................................. 40
Sociedades literárias a serviço da República................................. 48
“O Fanal” e a República ....................................................................... 50
O Centro Literário Pedro Nestor ........................................................ 52
O palhaço Benjamim ............................................................................. 54
RELIGIOSIDADE ......................................................................................... 55
A Capela de Nossa Senhora da Piedade do Patafufio ................. 55
A Capela do Curato de Patafufio........................................................ 57
A antiga Matriz ........................................................................................ 58
A Igreja de Nossa Senhora das Graças............................................ 60
A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes............................................ 63
O Cristo Redentor de Pará de Minas................................................. 65
Frei Eugênio Maria de Gênova............................................................ 67

Vigário Paulino Alves da Fé: uma história de vida perdida no
tempo......................................................................................................... 68
Padre Neném ........................................................................................... 88
“Padre Zeca” e a “praça da Matriz”................................................... 92
ECONOMIA................................................................................................... 94
O povoamento da região de Pará de Minas no século XVIII....... 94
Pará de Minas no século XVIII ............................................................ 96
Urbanização e produção agrícola na região de Pitangui entre
1812 e 1825............................................................................................... 97
O século XIX ............................................................................................ 99
Os postos fiscais de Onça e Pitangui............................................. 101
Os engenhos de Pitangui................................................................... 102
Atividades econômicas e ocupação territorial da “Mesopotâmia
Mineira”................................................................................................... 103
Dona Joaquina do Pompéu ............................................................... 106
A grande Fazenda do Pompéu.......................................................... 108
Dona Joaquina e a vinda da Corte................................................... 110
A Fazenda Liberdade........................................................................... 111
Agricultura e pecuária em Pará de Minas na virada do século
XIX para o XX......................................................................................... 113
Ação de cobrança ................................................................................ 114
O inventário de D. Francisca Valadares Ribeiro .......................... 116
Carro de boi ........................................................................................... 117
O moinho do "Córrego do Engenho".............................................. 119
Investigando a história antiga de Ascensão................................. 121
Torneiros ................................................................................................ 124
O antigo Carioca................................................................................... 126
O antigo Córrego do Barro ................................................................ 127

O casarão da família Capanema....................................................... 129
ESCRAVIDÃO ............................................................................................ 131

População livre e população escrava do distrito de Patafufo na
primeira metade do século XIX......................................................... 131
As fazendas escravistas da região de Pará de Minas ................ 134
Demografia escrava da região de Pará de Minas ........................ 135
Religiosidade e escravidão em Mateus Leme no século XIX ... 137
O valor do escravo............................................................................... 138
A carta de alforria................................................................................. 139
O caso da escrava Lucinda ............................................................... 141
A Lei Áurea em Pará de Minas.......................................................... 142
“Acção de Liberdade”......................................................................... 144
O caso do escravo Manoel ................................................................ 145
O caso do escravo Porfírio ................................................................ 146
VIOLÊNCIA E CRIMES............................................................................. 148
Os motins de Pitangui (1717-1720).................................................. 148
Os paisanos armados de Patafufio ................................................. 150
Violência e crimes na região de Pará de Minas (final do século
XIX) ........................................................................................................... 151
A investigação policial no século XIX ............................................ 152
O Código Criminal de 1830 e sua aplicação na Vila do Pará.... 154
Violência contra a mulher .................................................................. 155
Grupos armados invadem o Fórum de Pitangui.......................... 157
Assassinato em Carmo do Cajuru................................................... 158
Mistérios do passado .......................................................................... 159
O crime da “Laginha”.......................................................................... 161
O caso do feiticeiro Bemvindo Moreira.......................................... 162

A vingança de Ana Thereza............................................................... 165

Agressão física e tentativa de homicídio na região de Pará de
Minas no final do século XIX............................................................. 166

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................... 168

Apresentação da Edição Virtual

A presente edição virtual da obra “Fragmentos da História de Pará
de Minas” surgiu da necessidade de facilitar o acesso a todos os
interessados em estudar a história da cidade de Pará de Minas de modo
particular ao público escolar.

Procuramos ser o mais fiel possível à edição original realizada no
ano de 2009. Não houve nenhum tipo de alteração em seu conteúdo. Mas
a obra apresenta paginação diferente devido a sua adequação ao formato
virtual. Portanto, devido a esta alteração resolvemos disponibilizar como
uma Edição Especial de forma virtual.

Poderíamos ter escolhido ter feito imagem de cada página do livro
original, no entanto, se fizéssemos esta escolha o leitor não teria como
utilizar dos textos livremente, ou seja, não teria condições de selecionar
fragmentos do livro e utilizá-lo em outros editores de textos, ou até
mesmo fazer algum tipo de busca rápida. Como o nosso objetivo é que
este conhecimento aqui produzido possa servir a quem dele tiver acesso
resolver fazer toda a digitação do texto original. Desta maneira, mesmo
gerando um arquivo em formato PDF ou PUB seria possível a seleção e
utilização dos mesmos em outros editores de texto utilizando o recurso
de selecionar, copiar e colar. Solicitamos apenas que, ao utilizar destes
textos façam os devidos créditos aos autores do Projeto Mesopotâmia
Mineira.

Tenha uma boa leitura e faça bom uso deste conhecimento.
Junho de 2021

Geraldo F. Fonte Boa

(Ex-Coordenador do Projeto)

8

APRESENTAÇÃO

o projeto deste livro foi longo, árduo e cheio de percalços. Creio que
seus textos, agrupados em eixos temáticos, podem revelar tais
características. Cada um desses textos foi objeto de discussão e debates
entre os membros da equipe do Projeto Acervo Documental
Mesopotâmia Mineira.

Não se trata de um livro da História de Pará de Minas, mas sim de
um livro de História sobre Pará de Minas. A diferença é que, se o livro
fosse da História de Pará de Minas, a tendência seria percorrer a trajetória
cronológica do desenrolar político-administrativo, social e econômico da
cidade, desde a formação do núcleo urbano, sua elevação à condição de
vila e depois cidade. No entanto, esta não é a proposta deste livro. O que
queremos é abordar vários assuntos sobre Pará de Minas e região ao longo
do tempo. Abordamos vários aspectos da economia, cultura, religião e da
sociedade de Pará de Minas e região do final do século XVIII e do século
XIX.

Dessa forma, trata-se de um livro sobre Pará de Minas, visto que é o
desenvolvimento da Cidade do Pará que permeia todo o livro e que se
converge em ponto de unidade do texto. Assim, não há um tratamento
fundamentalista de verdade histórica. Não há uma “verdade” pronta, mas
sim uma reflexão sobre vários temas, com inúmeras possibilidades de
análise, considerando que apresentamos um determinado olhar com base
na documentação analisada.

O primeiro capítulo discute a origem do Arraial do Patafufo.
Partimos do que já fora produzido pelos respeitáveis escritores e
pesquisadores de Pará de Minas do século XX e fomos buscar na
documentação cartorial, em arquivos de paróquias, do governo, pistas
para uma determinação mais precisa, histórica do surgimento do Arraial.
Focamos também sobre o termo “Patafufo” ou “Patafufio”. Que termo é
esse? Quais os seus possíveis significados? O personagem elaborado
como “Patafufo” existiu mesmo? Se existiu, quando? Quem era ele? Se
não existiu, por que foi criado? Qual a necessidade de sua “invenção”?
Baseados em nossos estudos, levantamos algumas possibilidades de
análises ao mesmo tempo que buscamos redimensionar o “mito”

9

fundador de Pará de Minas.
Assim sendo, este pequeno livro vem trazer mais dúvidas que

certezas, mais hipóteses que conclusões. Que esta seja sua grande virtude:
provocar discussões, pesquisas, fazer com que o leitor pense a sua
história, a história de sua cidade.

Os demais capítulos foram organizados por meio de eixos temáticos.
Trata-se de uma tentativa de pesquisar vários aspectos do cotidiano da
região de Pará de Minas ao longo da sua história. Assim como o primeiro
capítulo, os seguintes são olhares abertos a possibilidades de estudos,
formados por textos curtos e organizados de maneira didática que
facilitam sua utilização em sala de aula como suporte aos professores e
alunos.

Geraldo Fernandes Fonte Boa

Coordenador do Projeto Acervo Documental
Mesopotâmia Mineira

10

( ... ) é importante lembrar que, ao resgatar o nosso
passado, estamos ajudando a construir a nossa

identidade. Quem conhece a sua história, conhece
melhor o presente e, certamente, sabe se preparar

melhor para o futuro.

(Flávio Marcus da Silva - Historiador)

11

RAÍZES HISTÓRICAS DO ARRAIAL
DO PATAFUFO

A maioria dos povoados de nossa região é resultado do processo de
ocupação decorrente da descoberta do ouro no final do século XVII e
início do XVIII. A descoberta do ouro na região do Tripuí foi resultado
da ação dos bandeirantes, em sua maioria paulistas. Esses movimentos
bandeirantes buscavam ouro além do Taubaté e deram origem a
Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Jequeri, Sabarabuçu, Caeté, etc.
Observe que todas essas designações têm origem na língua indígena. Esse
movimento adentrou todo o século XVIII no vasto território de Minas
Gerais, chegando até o alto do Rio São Francisco.

Não podemos negar que a ação bandeirante, em um primeiro
momento, foi a saída encontrada pela população paulista para vencer a
pobreza e a falta de recursos de sua região, tendo sido inicialmente a
busca de escravo índio ou negro da terra (gentio) o primeiro alvo dessa
necessidade paulista. Como diz Taunay em sua apresentação da obra de
Antonil, Cultura e opulência do Brasil: “O Novo Mundo, para a mente
dos europeus, era a terra dos metais e das pedras preciosas ...” (1921). E,
assim, o ouro representou solução definitiva para os moradores de São
Paulo.

As bandeiras passaram, cada vez mais, a se embrenhar pelo sertão
comprometidas com os fins a que se propuseram, capturar índios e buscar
metais preciosos. O caminho percorrido por elas, de modo particular as
que partiam de São Paulo em direção à Bahia, ficou conhecido como
Caminho Geral do Sertão. No entanto, não podemos esquecer que toda a
ação bandeirante se desenvolvia dentro de uma estratégia mais ou menos
segura. Antes de partir com a bandeira propriamente dita, havia a
preocupação de se criar roças em pontos estratégicos de modo a garantir
a alimentação e a segurança dos que viriam depois. Isso demonstra uma
certa organização e, ao mesmo tempo, a própria sobrevivência da
bandeira. Essas roças ou pousos, ao longo do tempo, foram se
transformando em povoados, e muitas delas viraram cidade, como
Passagem do Paraobeba (hoje Belo Vale), Itacambira, Barbacena etc.

12

As primeiras bandeiras

Muitos já devem ter ouvido falar do grande bandeirante paulista
Fernão Dias Paes, ou ainda de Manuel de Borba Gato, tão importantes
para a história de Pitangui, e tantos outros. No entanto, antes deles, como
vimos no início deste nosso trabalho, muitos j á haviam percorrido o
sertão em busca de riquezas. Para Zoroastro Viana Passos, os baianos já
haviam iniciado suas investidas sobre o sertão por volta de 1555,
chegando até próximo a Sabará. Somente em 1675 é que Fernão Dias
Paes chega à região central do território mineiro e obtém sucesso na
descoberta dos metais preciosos. Depois dele, outras bandeiras
percorreram o sertão, atravessando o rio Paraopeba, e chegaram até as
cabeceiras do São Francisco.

A Revista do Arquivo Público Mineiro tem um precioso estudo sobre
a ação dessas bandeiras que serve de referência para quem se interessar
em um estudo mais pormenorizado ou mais específico. A título de
exemplo, podemos citar a compilação feita pelo Coronel Bento Fortunato
de Mendonça e resumida por M.J.P da Silva Pontes, publicada na Revista
do Arquivo Público Mineiro no ano de 1889 sob o título “Primeiros
descobridores das Minas do Ouro nas Capitanias de Minas Gerais”. Nesse
artigo, Pontes afirma que a compilação feita pelo Coronel Bento
Fortunato nos informa que “Partindo em direcção dos Sertões da Casa da
Casca a Bandeira chegou com muitas marchas a Itaberaba; e descobertos
ahi indícios de ouro e Cascalhos, Bueno e seus Companheiros resolverão
explora-los.

Acampando, pois, neste lugar mandarão derrubar mato para plantar-
se milho e legumes; mas como o paiz consistia em montanhas e matas,
onde a cassa era rara, concluída a plantação, passarão para as margens do
Rio das Velhas, nas quaes o terreno de planícies, campinas, e capões
abundava de cassa e mel para a mantença provisória da Bandeira.

Passados 6 mezes, espaço de tempo bastante para a fructificação das
sementeiras, a Bandeira voltou para Itaberaba. Colhidos então os
mantimentos, e renovados os exames dos Cascalhos, tão lisongeiro foi o
seo resultado, que os especuladores despacharão Mensageiros, para
convidarem suas famílias a residirem nestas paragens.” (RAPM, IV.

13

1899: 84ss).

Nas páginas seguintes desses primeiros apontamentos, o Coronel
Bento Fortunato enumerou outros acontecimentos os quais não vem caso
abordar aqui. O que nos interessa na transcrição dessa “compilação” é o
fato dela evidenciar como a descoberta do ouro se fez dentro de uma
margem de segurança e, principalmente, a preocupação dos bandeirantes
em plantar roças para a produção de alimentos para a manutenção da
bandeira.

Para contextualizar o que pretendemos com este nosso trabalho, que
é estudar a origem do Arraial do Patafufo, faz-se necessário um apanhado
geral sobre a descoberta do ouro nessa região. Para isso, recorremos ao
texto “Excavações (sic) ou Apontamentos Históricos da Cidade de
Pitanguy”, feito por Joaquim Antônio Gomes da Silva, publicado na
Revista do Arquivo Público Mineiro (Vol. VII, p. 702-734).

Inicialmente, o autor de “Excavações ...” (sic) baseia-se na tradição:
“É tradição constante que as Minas de Pitanguy foram descobertas
em 1709 pelos paulistas, que vinham das partes de Sabará e Caeté, em
demanda das terras que ficam ao poente e onde suppunham haver ricas
minas de ouro” (ibidem, p. 705). Como os fatos apresentados em
“Excavações ... “ baseiam- se na tradição, há de se considerar que a
chegada dos primeiros mineradores na região possa ter ocorrido
anteriormente a essa data. Mas o autor de “Excavações ...” continua: “É
também tradição constante que, tendo elles pernoitado á margem
esquerda do corrego Carurú ou lava-pés, ahi morreu, mordido de cobra o
velho guia que traziam enfermo em uma rêde e era o homem que sabia a
parte e ponto certo de seu destino (...) resolveram os Paulistas regressar,
sahindo pelo mesmo rumo por onde haviam entrado. (...) A pouca
distância, porem, do Caruru no morro que hoje se chama Batatal, vio o
aventureiro da dianteira um pequeno grão de ouro na terra de um buraco
de tatu. (...) D'ahi proveio o nome de Batatal áquelle morro” (ibidem, p.
70 5). Gostaríamos aqui de salientar dois aspectos fundamentais dessa
narrativa, que julgamos importantes para as interpretações que faremos
futuramente. Observe que o “velho guia” morreu picado por uma cobra.
Não que esse fato não possa ter acontecido, mas há semelhança entre o
ocorrido e a história de Fernão Dias Paes, que também morreu” no caso,

14

de febre” bem próximo à descoberta de ouro em Sabará. O que
gostaríamos de salientar é que, como a informação provém da “tradição”,
leia-se “oralidade”, muitos fatos são contados buscando semelhanças
com outros fatos ocorridos em outras regiões que, de certa forma,
aumentam as dificuldades vivenciadas desbravadores. É uma tendência
natural de se criar o “mito” do herói, tão próprio da oralidade. Outro fato
é a designação dos nomes dados a da região: morro do Batatal, devido à
pedra de ouro encontrada em terra, como se fosse uma batata. O mesmo
acontece com o nome segundo Excavações... “Em 1709, o rio Pará
chamava-se Pitanguy língua vulgar do gentio da terra, queria dizer - rio
de crianças, porque margem direita, encontraram os Paulistas um
pequeno aldeamento de com muitas crianças. Do nome do rio proveio,
para este logar a denominação de Minas do Pitanguy” (p.706).

Uma vez descoberto o ouro em Pitangui, os aventureiros
frequentavam Sabará, tanto para vender o ouro como para buscar
produtos que lhes faltavam para a sobrevivência. Esse contato com
Sabará divulgou a riqueza existente na região, o que atraiu mais e mais
aventureiros. Esses aventureiros segundo Joaquim A. Gomes da Silva,
iriam percorrer a região, seguindo os leitos dos rios em busca de ouro.
Em 1711, j á haviam percorrido os rios de “Brumado, S. João, Onça,
Guardas, S. Joanico e outros” (p.706), (entre eles o nosso “Paciência”,
que, quando chega em Guardas, adquire a denominação dessa região).

Fato histórico comprovado e descrito também pelo autor de
Excavações ... é a nomeação do 1º Tabelião para a região e a criação Vila
de Pitangui em 1715. Diz o autor: “Em 1714, houve o 1° Tabelião de
notas para as escripturas e mais papeis concernentes a esse officio, e
nelles se denominava esta terra por – Minas de Pitanguy, Freguesia de
Nossa Senhora do Pilar - até o mez de Abril de 1715, em que se nomeia
já por Villa de Nossa Senhora da Piedade de Pitanguy” (p. 707).

De 1715 até por volta de 1750, a região foi vasculhada por
aventureiros, na sede insaciável do ouro. Evidentemente que muitos
também perceberam que a região tinha terras de boa qualidade para o
cultivo e foram, pouco a pouco, ocupando vales e abrindo caminhos. O
Arraial do Patafufo surgiu nessa época. Ao tratar desse ponto, o autor de
“Excavações…” afirma que “Foi a villa crescendo em moradores, que,

15

estendendo-se por todos o: lados do Districto, foram elles mesmos, pela
necessidade do pasto espiritual. edificando capellas como a de Nossa
Senhora da Conceição do Pará, a de SantAnna do arraial da Onça, a de S.
Joanico, ade S. Gonçalo do Brumado, a do Divino Espírito Santo de
Itapecerica e Serra Negra, a de Nossa Senhora do Bom Despacho do
Lambary e Picão, a de Santo Antônio do rio S. João, a de Sant Anna do
mesmo rio acima, a de S. Gonçado do Pará acima, a de Nossa Senhora
da Piedade do Patafufo [grifo nosso], além de muitas outras de pessoas
particulares em suas fazendas, todas filiaes da Igreja de Nossa Senhora
do Pilar, que é a Matriz” (p. 709).

Embora não haja designação de datas nem são apresentadas em uma
sequência de fundação, essas comunidades foram surgindo já no final da
primeira metade e segunda metade do século XVIII. Encontramos no
Arquivo Judiciário de Pitangui uma referência à nomeação de delegados
ou representantes da Câmara de Pitangui, em 1765, para o Arraial do
Patafufo. O registro dessa nomeação confirma nossa afirmativa, pois
delegados ou representantes das câmaras somente eram nomeados para
núcleos populacionais significativos (AJP, CMP - Adm. Ata [Fragmento]
-1765- sede da Câmara Municipal). De igual teor, podemos citar a
transcrição feita do Termo de Vereação do Senado da Câmara de
Pitangui, datado de 26 de junho de 1764, publicado no livro Pesquisando
a História de Pitangui (DINIZ:256) no qual os vereadores acordaram
''Nomear em virtude do aviso do Doutor Ouvidor Geral pessoas que
ajudassem fazer as listras (sic) a Alonso Parreira de Siqueira e João
Francisco Grilo - para São João Acima e seus pertences, Antônio Salim
Bezerra e João Antunes da Silva - Patafufio [grifo nosso] e Paciência,
[...] os quais todos juramentados fariam listas em cada uma das paragens
respectivas e as levarão aos sobreditos dois procuradores [...]”.

Observe que grande parte das cidades recebeu um nome indígena,
sempre buscando expressar uma característica de suas montanhas, de seus
vales, de seus rios ou de fatos relativos à sua descoberta. Outros povoados
receberam o nome de santos de devoção, como Sant Anna, São Gonçalo,
São João, Santo Antônio, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora do
Pilar. Raros povoados, hoje cidades, receberam os nomes dos chefes das
bandeiras ou de ricos mineradores. Em nossa região, podemos citar a

16

cidade de Mateus Leme - que tem esse nome devido à presença do
minerador Mateus Leme - e Betim, devido ao companheiro de Fernão
Dias Paes, José Rodrigues Betim.

No entanto, isso não significa que essas cidades sejam frutos da ação
de um único homem; ao contrário, elas são frutos da ação de muitos,
sendo que alguns - mas não a maior parte - ficaram sob o comando
daqueles cujos nomes denominaram tais cidades. O que queremos dizer
é que nós temos uma tendência ou a necessidade de exaltar o trabalho de
um único homem. Como se fosse necessário possuirmos um fundador.
Foi o que ocorreu com o Arraial do Patafufo, pois durante anos os
historiadores procuraram personificar um fundador para o local. Criaram,
assim, um nome, um sobrenome, uma fisionomia, uma casa; no entanto,
não há nenhuma prova histórica, até o momento, de que, de fato, tenha
existido um homem com o codinome (ou apelido) “Patafufo”. Já
reviramos arquivos, já lemos muito sobre o assunto, e esse “Patafufo”
ainda não apareceu. Chegamos até a investigar uma pessoa de nome
Manuel Gomes Baptista, seguindo as pistas deixadas por Theophilo de
Almeida (1959), Pedro Moreira Mendonça (1959) e José Augusto Corrêa
de Miranda (1961). Mas, como vamos demonstrar mais à frente, essas
pistas não se sustentaram.

Foi com base nessas ideias que elaboramos as seguintes questões:
Qual a origem da designação “Patafufo”? Quando ela foi talhada?
Patafufo seria uma designação indígena da característica do lugar? Mas
que característica seria essa? Poderia ser uma junção de palavras de
origem indígena e portuguesa para designar o local? Ou seria um termo
de origem africana, possivelmente deturpado, como Augusto de Lima
Junior suspeitou? (ALMEIDA, 1959) A origem de Patafufo estaria ligada
ao pouso de tropas a caminho de Pitangui, passando por Azurita,
Itatiaiuçu e seguindo pelo caminho de Fernão Dias, rumo a São Paulo?
Ou seria um pouso que ligaria Itaúna a Pitangui?

Acreditamos que, ao buscarmos respostas para essas perguntas, além
de estarmos pesquisando a história do Arraial do Patafufo, hoje Pará de
Minas, estaremos buscando reconstruir nossa identidade. Foi com esse
pensamento que iniciamos nossos trabalhos. Traçamos uma meta,
iniciando pelo que já havia sido produzido a respeito do Arraial do

17

Patafufo. Em seguida, fomos confrontar informações da tradição com
informações encontradas em documentos oficiais, nos arquivos de
Pitangui, o Acervo Documental Mesopotâmia Mineira, no Arquivo
Público Mineiro, na Casa Borba Gato (Sabará), no Arquivo Setecentista
de Mariana e no Arquivo da Arquidiocese de Mariana.

O início da jornada

Um mistério ronda Pará de Minas: qual o porquê da denominação
“Patafufo” para o local? Patafufo seria o apelido do primeiro proprietário
da região? Patafufo seria uma designação indígena para a região? Seria
um nome toponímico? O correto seria “Patafufo” ou “Patafufio”?
Patafufo ou Patafufio seria a corruptela de “Pato fofo”?

Para muitos, essas são perguntas impossíveis de serem respondidas.
Para outros, j á foram dadas as respostas e, por isso, não se trata de mais
um problema histórico a ser investigado. Existem ainda aqueles que
acreditam que investigar esse mistério é ofuscar o brilho do mito fundador
de Pará de Minas.

Divergências à parte, nós – do Projeto Acervo Documental
Mesopotâmia Mineira – vemos o personagem “Patafufo” como uma
espécie de mito fundador de Pará de Minas. Mitos são criados pela
tradição oral e evocam soluções para problemas de uma determinada
época ou local. No entanto, encarar a questão do “Patafufo” como mito
nos impulsiona em duas direções: a primeira reacende em nós o espírito
investigativo, uma vez que nos faz voltar para problemas aos quais se
tentaram dar soluções (que problemas seriam esses?); a segunda é que,
mesmo que descubramos aspectos históricos mais prováveis sobre a
origem do “Patafufo”, ainda continuaremos a preservar a existência de
seu mito.

E quais as vantagens desse posicionamento? Uma é ganhar
motivações para pesquisar e conhecer nosso passado histórico (se é que
precisamos de mais motivações); outra é que, pesquisando e conhecendo
nosso passado histórico, estamos solidificando nossa identidade regional.

18

Pará de Minas é o único município da região que possui um mito
fundador, dessa forma constituído.

Iniciemos, pois, nossa jornada de investigação. Vamos começar com
a recuperação da memória, proveniente da tradição oral, que temos sobre
o “Patafufo”, lembrando que, nesse caso, devemos considerar que não há
somente “Patafufo”, mas há também “Patafufio” e “Pato-fofo”. Não
podemos negar que, se há tantas interpretações em tomo dessa
designação, isso significa que cada geração buscou lidar com esse mito
de alguma forma. Houve época em que até tentaram personificar o
personagem e apropriar-se dele, corporificaram-no, deram-lhe um nome,
criaram uma identidade para ele, caricaturizaram-no. e essa tendência
ainda é muito forte nos dias de hoje. Nós mesmos, a equipe do Projeto
Mesopotâmia, no passado, já nos inclinamos para isso, no entanto,
ninguém sabe ao certo quem é ou o que foi “Patafufo”, “Patafufio” ou
“Pato- fofo”. Para facilitar, iremos adotar aqui neste estudo a
terminologia “Patafufo”.

Abandonaremos as demais denominações, considerando-as variantes
desta, visto que é a que mais aparece em documentação oficial dos
séculos XVIII e XIX.

Passemos agora a abordar quatro importantes escritores de Pará de
Minas, todos do século XX, que registraram suas versões sobre o
“Patafufo”: Theophilo de Almeida (1959), Pedro Moreira Mendonça
(1959), José Augusto Corrêa de Miranda (1961) e Robson Correia de
Almeida (1983). Iremos expor as versões desses escritores para que
possamos compará-las e, com base nelas, dar sequência à nossa pesquisa.

Esses escritores foram homens que souberam registrar o que vinha
pela tradição oral; todos a seu modo apresentaram, com base no “ouvir
dizer”, o mito criado ao longo do tempo. A “cunhagem”, a lapidação
desse mito, ocorrida ao longo dos anos, certamente contou com a
criatividade de um povo e jamais deverá ser esquecida. No entanto, isso
não significa que não devemos buscar uma fundamentação documental
para a história da origem e do desenvolvimento da cidade.

Theophilo de Almeida, Pedro Moreira Mendonça, Augusto Corrêa
de Miranda e Robson Correia de Almeida registraram a tradição, a
oralidade, a construção do mito fundador e, ao fazerem isso, eternizaram-

19

no. Cabe a nós, historiadores, iniciar um novo processo de estudo, não
com o objetivo de desconstruir tal mito, mas de verificá-lo à luz da
pesquisa, da ciência histórica. Para realizar tal empreendimento,
consideraremos as informações contidas nas descrições desses escritores.
E que tipo de informação iremos considerar? Iniciaremos pelo nome do
indivíduo fundador, no caso, Manoel Baptista. O que temos sobre ele?

Para Theophilo de Almeida, Manoel Baptista era um mercador
português, gordo, baixo, com um andar semelhante ao de um pato e que
se fazia passar por um homem de posses. Dessa característica é que
adveio seu apelido “Patafufio” (ALMEIDA, 1959). Pedro Moreira
Mendonça também o identifica como “um mercador português de nome
Manuel Baptista que recebeu o apelido de Patafufo; era ... de porte
baixíssimo ... e muito gordo ... um pato fofo ... assim já em 1848 o arraial
era elevado à categoria de Vila, pela primeira vez, com o nome de Vila
do Patafufo” (MORElRA, 1959). José Augusto Corrêa de Miranda
(1961) reafirma as versões anteriores, sendo que acrescenta que o que se
sabe sobre o Patafufo é que “é lendário; veio de boca em boca, como
popularmente se diz, sem vestígios de autenticidade”. E levanta outras
questões igualmente importantes: “Seria ele casado? Teria filhos? Foram
seus bens inventariados? Vendidos? Onde se deram estas transferências?
Em Pitangui? Sabará? Ouro Preto?”

Devemos a Corrêa de Miranda e a Correia de Almeida o registro do
possível endereço do lendário personagem. Corrêa de Miranda afirma que
“(...) Existe ainda nesta cidade, na rua São José, uma casa de construção
antiga, que dizem ter sido a sede de sua fazenda. Pertence, atualmente, à
distinta e ilustre família Castelo Branco. Casa histórica, primeira talvez,
edificada no arraial de Patafufo; foi a sede da fazenda de Manuel Baptista,
o Pato fofo” (MlRANDA, 1961). Correia de Almeida afirma que a “(...)
casa onde residiu Manuel Batista é a de nº 51, da rua que mais tarde tomou
o seu nome e que era precisamente o seguimento da rua de São José. Essa
casa ainda existe e é tida como a primeira residência que se construiu na
cidade. Era, finalmente, propriedade da Família Castelo Branco,
adquirida depois pela Prefeitura Municipal, passando a integrar o seu
patrimônio [...]” (ALMEIDA, 1983).

20

A busca de uma nova versão

Após o levantamento das informações contidas nas descrições dos
escritores, destacamos em primeiro lugar que todos evidenciam a notória
vulnerabilidade histórica, isto é, se sustentam no “ouvir dizer”. na força
da tradição. Outro ponto em comum entre nossos autores. portanto
importante, é que personificam Patafufo em Manoel Baptista que,
segundo eles. seria um “mercador, fazendeiro, aventureiro, impostor”.
Almeida e Moreira o definem como “baixo e gordo”; nesse ponto
Miranda é mais comedido. porém é audacioso ao conferir-lhe residência
na rua São José, hoje rua Manoel Batista. seguindo o imaginário popular
e dos ancestrais que conferiam a propriedade da casa onde hoje é o Museu
Histórico como sendo a casa de Manoel Baptista.

Assim, temos para começo de nossa pesquisa histórica: um nome –
Manoel Baptista; algumas características funcionais – minerador,
mercador, aventureiro, fazendeiro; um qualificativo – impostor; e
algumas características físicas – baixo e gordo. Todas essas informações,
porém, são insuficientes e vagas. Manoel Baptista era um nome muito
comum entre os portugueses e seus descendentes na colônia; minerador,
mercador e aventureiro não nos ajudam muito, pois qualquer um poderia
ser assim descrito naqueles tempos; quanto ao “impostor”, não temos
muito que dizer; e, finalmente, “baixo e gordo” são características de
muita gente, mesmo no século XVIII. Como se vê, não temos muito.

Iniciemos por Manuel Baptista, ou Manoel Baptista. Pesquisando por
pessoas com o nome de Manuel ou Manoel em documentos do Conselho
Ultramarino de Portugal, encontramos um total de 918 nomes entre os
anos de 1700 e 1800 para a região das Minas. Desses, os que tinham o
sobrenome Baptista ou Batista são os seguintes:

1. Manuel Batista, cego, morador de Vila Rica (AHU-Cons. Ultra-
Brasil/MG-Cx:51, Doc. :29);

2. Manuel Batista Ferreira, tabelião da Campanha da Princesa do
Rio Verde e inquiridor da Comarca do Rio das Mortes - São João
Del Rei (AHU-Cons.Ultra.-Brasil/MG-Cx: 101, Doc.:58 e
Cx:123, Doc.:106);

21

3. Manuel Batista Franco, capitão da 3a Companhia do Regimento
de Infantaria de Milícias da Vila de Paracatu do Príncipe (AHU-
Cons.Ultra.-Brasil/MG - Cx: 185, Doc.:44);

4. Manuel Batista Landim, sargento-mor do Regimento da Cavalaria
Ligeira Auxiliar da Comarca do Serro do Frio (AHU-Cons.Ultra.-
Brasil/MG-Cx:97, Doc.:38);

5. Manuel Gomes Baptista, morador da cidade de Mariana, dono de
escravos e que se encontrava em disputa judicial com o
governador José Antônio Freire de Andrade (AHU-Cons.Ultra.-
Brasil/MG-Cx:31, Doc.:44; Cx:68, Doc.:94 e Cx:68, Doc.:32);

Direcionamos nossas pesquisas para a Revista do Arquivo Público
Mineiro e encontramos as seguintes referências: Manuel Batista Landim;
Manuel Gomes Baptista; Manuel Batista Pereira e Manuel Batista
Ferreira.

Manuel Batista Landim é o mesmo encontrado no Arquivo do
Conselho Ultramarino, sendo que na RAPM ele aparece em três ocasiões,
primeiro como membro da Caixa e Real administrador do Contrato dos
Diamantes da Comarca do Serro Frio, na região de “Arassuahy” (cd 1,
Pasta 4, imagem 00009 ou RAPM vol. A, 1899, pág. 3-82); depois, como
demarcador de terras limítrofes entre as províncias da Bahia e Rio de
Janeiro e, finalmente, com uma carta patente de Coronel da Companhia
do Diamante da Comarca do Serro Frio.

Sobre Manuel Gomes Baptista, o que temos na Revista do Arquivo
Público Mineiro foi escrito em 1902 (vol. 7, jul/dez 1902, fase. 3 e 4,
págs. 701-734) pelo historiador Joaquim Antônio Gomes da Silva (Quim
Gomes, como era conhecido), em seu texto “Excavações ou
apontamentos historicos da cidade de Pitanguy”. Segundo Quim Gomes,
Manuel Gomes Baptista era na realidade um sertanista e minerador: “No
rumo de 1792, o Alferes Manoel Gomes Baptista, o Padre Anastácio
Gomes Pimentel e muitos outros, servindo-se de um roteiro, que se dizia
fôra deixado pelo velho guia, morto no Cururu, internaram-se pelo sertão
em procura o logar denominado - Três Irmãos - onde esperavam encontrar
grandes riquezas.

Com effeito, descobriram que o rio Andaya era diamantino, e, no rio
Abaeté, acharam o grande diamante que pesou mais de sete oitavas e que

22

por elles foi conduzido a Capital da Villa Rica.

Nesse mesmo anno foi estabelecido o Quartel do Andaya e foi seu
primeiro Commandante o Alferes Antônio Dias Bicalho”(RAPM: 1902,
pág. 711).

Ainda sobre Manuel Gomes Baptista, encontramos uma transcrição
feita por seu neto, o advogado e sacerdote Dr. José Marciano Gomes
Baptista, filho de Antônio Gomes Baptista. A presença do Dr. José
Marciano no Patafufo e na Vila do Pará foi constatada por nós em alguns
registros, como vimos nos Livros de Batismos da Paróquia N. S.” da
Piedade e nos processos judiciais em que ele atuava profissionalmente. O
prestígio do Dr. José Marciano devia ser grande, pois ele foi bem votado
na Vila do Pará quando se candidatou a deputado provincial para o biênio
1874-1875, como consta no trabalho de Sílvio Gabriel Diniz Quatorze
anos de eleições na Vila do Pará, MG 1861 a 1875 (DINIZ, 1964). As
informações sobre Manuel Gomes Baptista que provêm do Dr. José
Marciano Gomes Baptista são as mais precisas que encontramos e foram
publicadas no Recopilador Mineiro de 10 de agosto de 1872 e
reproduzidas no Mosaico Ouro-Pretano de 18 de janeiro de 1877. Esse
texto está na íntegra no “Efemérides Mineiras”, de Xavier da Veiga.
Segundo o Revdo. Dr. José Marciano, o “alferes Manuel Gomes Baptista,
paulista de origem e até descendente dos caiapós, estabeleceu-se em
Lavras do Funil, e passando por aí um outro paulista, seu parente e amigo,
deu-lhe um roteiro que indicava na Mata da Corda uma jazida tão
abundante de ouro que só em carros se poderia conduzir o metal que ali
existia. Guiado por este roteiro, o alferes Manuel Gomes, nos fins do ano
de 1796, dirigiu-se aquelas paragens, tendo reunido uma bandeira de
garimpeiros, levando em sua companhia um padre seu amigo. Anastácio
de tal, e um Fuão Xavier (...).”

Nessa empreitada, Manuel Gomes Baptista encontrou um grande
diamante, denominado o Regente, que foi ofertado à Rainha de Portugal
D. Maria I que, em troca, nomeou-o para o cargo de tesoureiro das reais
casas da fundição de Sabará; além disso, ele e seu filho Antônio também
tiveram” ... a mercê do hábito de Cristo, coisa in illo tempore de subido
apreço, mas de que não se serviram aqueles homens, que existindo em
termos em que se dizia minha cabeça é do rei, tinha em seus corações os

23

germens do liberalismo, com que ambos baixaram a sepultura” (VEIGA,
1998).

E, para encerrar as informações sobre Manuel Gomes Baptista,
temos um documento de 1822 no qual seus filhos, o guarda-mor Manuel
Baptista Gomes e Antônio Gomes Baptista, respondem a uma Execução,
movida por Broxado, sobre dívidas de inventário. Nessa época, o Alferes
Manuel Gomes Baptista já havia falecido e sobrevivia-lhe sua mulher,
Dona Ignes Clara de Jesus. Nas páginas 9 e 9v do referido processo, Dona
Ignez e o Guarda-mor Manuel Baptista Gomes foram citados em suas
próprias pessoas. A citação foi feita na Fazenda das Gerais, aos vinte e
seis de fevereiro de mil oitocentos e vinte e dois (AJP, VII, 235, pág. 9 e
9v). Analisando a cartografia da região com as informações dessa
documentação, podemos constatar que a família de Manuel Gomes
Baptista era residente na região da Serra da Saudade, próximo a Dores do
Indaiá, na Fazenda das Gerais.

Essa permanência na região de Dores do Indaiá remonta ao final do
século XVIII (1799), conforme a descrição feita nas Cartas de Sesmarias
da família - Cartas de Sesmarias são documentos oficiais passados pelos
representantes do governo doando terras para uma pessoa ou família; as
Sesmarias variavam de tamanho, sendo aproximadamente de 6 léguas
(6,6 km) quadradas. Depois de vasculhadas todas as Cartas de Sesmarias
encontradas no Arquivo Público Mineiro, as únicas que se referem a
Manuel Gomes Baptista e a seus filhos eram para aquela região. Portanto,
não podemos afirmar de modo definitivo que esse Manuel Gomes
Baptista é o lendário “Patafufo”, mesmo que fosse ele o homem que
tivesse como alcunha “Patafufo” (nenhum documento ou nenhuma prova
foi encontrada com tal referência).

Sobre o Manuel Gomes Baptista, o mesmo de Dores do Indaiá, que
se encontrava em Lavras do Funil por volta 1770, segundo o relato do Dr.
José Marciano Gomes Baptista, acreditamos ser precipitado querer elegê-
lo como fundador do arraial do Patafufo, considerando a existência de
nomeação de delegados para o Arraial do Patafufo já no ano de 1765,
embora ele possa ter estado em nossa região antes desta data, ainda muito
jovem, visto ter morri do em 1809.

O documento acima referendado (AJP, VII,235, pág. 9 e 9v) faz

24

sentido, visto que ele era o guarda-mor que havia sido notificado em sua
própria pessoa na Fazenda das Gerais, conforme descrição feita em sua
Carta de Sesmaria.

Nessa carta de sesmaria, o Conselheiro Bernardo José de Lorena, em
nome do governador da Capitania de Minas Gerais, delimita as terras de
Manuel Gomes Baptista “morador nos Certoens da parte de cima do rio
São Francisco”, na “paragem chamada Bom Sucesso das Gerais”, com as
terras de Antônio Gomes Baptista pela nascente, e pelo poente com as
terras de Francisco da Silva e pelo norte com o Rio dos Veados e,
finalmente, pelo sul com as terras de Anna Baptista de Santo Ignácio (SC
285, p.183).

No fim da página 184v desse mesmo documento encontram-se
apenas duas linhas com o registro de outra sesmaria que seria dada a
Antônio Gomes Baptista e que provavelmente foi descrita nas páginas
185 e 185v do mesmo livro (não tivemos acesso a essas páginas).
Encontramos, também, outra sesmaria, registrada sob o código SC- 293,
p. 119, 119v e 120, que fazia divisa com a de Antônio Gomes Baptista
e era de propriedade de Manuel Baptista Gomes.

Quanto a Manuel Batista Ferreira, consta uma provisão régia para
ele ser “inquiridor, contador e distribuidor do Juizo Ordinário do
distrito do Arrayal de S. Pedro de Alcântara e das Almas de Jacuhy,
comarca do Rio das Mortes, em 23 de maio de 1770” (CD 03, Pasta 17,
imagem: 0000295 ou RAPM vol. 17, 1912, pág. 454 - 678). E,
finalmente, Manuel Batista Pereira aparece como demarcador de
fronteiras no Sul do Brasil, em 10 de junho de 1755 (CD 04, Pasta 24,
Imagem 0000026 ou RAPM vol. 24,1933, fasc. 1, pág. 43-344).

No entanto, não encontrar documentação sobre um determinado
indivíduo não significa que ele não tenha existido. Pode significar apenas
que a existência desse indivíduo não ficou comprovada. Imaginem vocês
as dificuldades encontradas em nossa caminhada, três séculos após a
formação do nosso território, conscientes de que muita documentação já
se evaporou, não comportando aqui discutir os motivos de tanto desleixo.
Já no início do século passado, a identidade de Manoel Batista era
desconhecida, como descobrimos pelo discurso do doutor Alfredo de
Albuquerque, orador oficial da inauguração da Companhia Industrial

25

Paraense, pioneira da industrialização de Pará de Minas. O orador é citado
na fonte em que encontramos o discurso como “o intelligente moço”. O
teor de sua fala foi reproduzido no jornal Cidade do Pará, de 12 de julho
de 1908, cuja edição foi totalmente dedicada às importantes realizações
que aqui chegavam, a fábrica de morins e a energia elétrica: “(...) Não sei
que bandeirante, desgarrado do grupo de Domingos Rodrigues do Prado,
o descobridor de Pitanguy, aqui, como primeiro, elevou ao alto a ponta
aguda da torre de uma egreja, aqui se deteve e, creando uma familia,
transmittiu no sangue de seus descendentes a audacia que se revela no
emprehendimento que, hoje, com tão grande concurso do povo, se
inaugura. Não sei quem tenha sido. A tradição não guardou o seu nome
(...)” .

Se existisse algum Manoel Baptista proprietário de terras na região e
que tivesse sido o primeiro povoador dessa região, isso só poderia ter
ocorrido anteriormente ao ano de 1765, visto que nessa data a Câmara de
Pitangui nomeara representantes - delegados - para “o lugar denominado
de Patafufio”, documento encontrado e citado por Sílvio Gabriel Diniz
em Pesquisando a História de Pitangui (1965). Assim, teríamos que
encontrar algum documento de doação de terras na região para esse
possível fundador. Esse documento, se existe, ainda não foi encontrado.

Quanto à residência de “Manuel Batista” de nossos escritores, há
também dúvidas e lacunas a serem preenchidas. O que sabemos sobre
essa hipotética residência de Manoel Baptista, hoje referendada como
primeira habitação de Pará de Minas, que pertence à Prefeitura de Pará
de Minas e abriga o Museu Municipal- Muspam -, é que pertencia, entre
os anos de 1870 a 1905, ao Padre Miguel Vital de Freitas Mourão,
coadjutor da Paróquia N. S.” da Piedade e responsável pelo início das
reformas na antiga Matriz, que culminaram na sua inauguração no
primeiro dia do século XX, primeiro de janeiro de 1901 (SILVA, 1998).
Depois de transferido para Abaeté, esse sacerdote vendeu aquela
residência para a família Castelo Branco em 1905, de acordo com a
certidão de compra e venda, ficando a casa sob o domínio daquela família
até janeiro de 1981. Mas as lacunas são: de quem o padre comprou aquela
casa? Teria ele sido seu construtor? Onde se encontram os registros da
hipotética compra? Teria, de fato, sido residência de algum Manuel

26

Batista? Não obtivemos, ainda, respostas satisfatórias a essas questões.
Mas o trabalho continua…

Pois bem. Feito esse levantamento, a que ponto chegamos? Até agora
colocamos em xeque a existência de Manoel Baptista como o “Patafufo”
e ainda duvidamos de sua residência. Estaríamos esvaziando a existência
de um personagem denominado Patafufo; enfim, estaríamos esvaziando
um mito... mas o que nos resta? Propomos agora a busca de uma
designação toponímica. E por que essa proposta? Gostaríamos de
recordar aquilo que tratamos no início deste trabalho. A maioria dos
nomes das cidades mineiras baseia-se em nomes indígenas, buscando
caracterizar a região ou algum acontecimento, ou em nomes de santos de
devoção ou, ainda, em nome de algum bandeirante ou aventureiro que
dominou, temporariamente, a região. Assim, acreditamos podermos
descartar a hipótese de uma designação de santo de devoção e de
designação ligada à ação de um bandeirante que teria por alcunha
(apelido) o codinome “Patafufo”. Resta-nos observar a designação de
origem indígena ou africana, como suspeitou o conceituado historiador
Lima Júnior, buscando caracterizar a geografia ou a condição do lugar.

Pesquisando o termo Patafufo

As palavras Patafufo, Patafufio ou, ainda, Patafufu, não se encontram
grafadas nos dicionários da língua portuguesa. Nem nos dicionários do
português arcaico colonial, nem nos modernos. Isso nos sugere a
possibilidade de esse termo ter sido talhado por meio da apropriação
linguística indígena ou africana feita pelo colonizador. O prof. Dr. Hildo
Honório, do Departamento de Línguas Estrangeiras & Tradução da
Universidade de Brasília, coordenador do Mestrado em Linguística
Aplicada, afirma que “é preciso que fique claro desde o início que o
processo de formação (e de transformação) de uma língua não é apenas
estrutural, isto é, não se trata apenas de uma questão imanente de
formação de estruturas semânticas, sintáticas, morfológicas e
fonológicas. Pelo contrário, é preciso levar em conta o processo sócio-

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histórico do contato de povos” (http:// www.unb.br/il/let/crioul/contato
01.htm).

Ao considerarmos fatores extemos, isto é, sócio-históricos, além dos
fatores internos, ou seja, estruturais, de uma língua, não podemos
esquecer que a nossa língua resulta do encontro dos colonizadores
europeus com os povos colonizados. No entanto, para Dr. Hildo Honório
“o idioma resultante é um compósito, realmente misturado no que tange
a seu vocabulário, mas sua gramática permanece essencialmente indo-
europeia, embora extremamente simplificada” (http://www.unb.br/il/
letlcrioul/contatoOl.htm).

Assim posto, e como Lima Júnior já desconfiava, a palavra
“Patafufo” e suas variantes podem ter sido formadas com base nesse
“compósito” (composição semântica), carregado de significados sócio-
histórico-culturais. Essa situação justifica a dificuldade que é para nós
encontrar uma explicação plausível para o termo “patafufo” ou
“patafufio”. Devemos considerar também a possibilidade de se ter
grafado a pronúncia cotidiana de algum termo toponímico ou de alguma
palavra referente a alguma atividade ou comida típica ou, ainda, elemento
cultural regional, como atesta Dr. Hildo Honório.

Provavelmente, o caminho mais fácil para encontrar uma solução
para esse termo foi emprestá-lo a um indivíduo, se possível um indivíduo
que ganhara fama por ter encontrado um diamante ou por ter ficado rico
repentinamente. E, ao apelidá-lo de Patafufo, agregou-se ao longo dos
anos um sentido mitológico que dá conta de explicar a origem do arraial
ou do povoado onde desenvolveu sua cidade.

Não se trata aqui de esvaziar o sentido do mito construído ao longo
dos anos pela tradição, mas não podemos também desconsiderar o
caminho da construção linguística, buscando o sentido da denominação
dada à região. Assim, temos algumas hipóteses que merecem ser
investigadas: a primeira é a junção de terminologia indígena com o
português arcaico colonial; a segunda seria a junção da terminologia
indígena com a africana; a terceira seria o resultado da junção de
terminologia dos três segmentos linguísticos, lembrando que esses três
segmentos eram formados por vários ramos linguísticos. Destacamos que
investigar qualquer uma dessas três hipóteses não será uma tarefa fácil.

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Mas, para dificultar um pouco mais, temos que considerar uma quarta
hipótese, não menos provável, que seria a junção de termos do português
arcaico colonial com erro de interpretação ou de leitura da grafia,
ocorrido em algum momento ao longo do tempo e que tenha provocado
a cunhagem da palavra “patafufo” ou “patafufio”.

Se considerarmos a hipótese de junção linguística indígena com o
português arcaico colonial ou ainda a junção de línguas africanas com a
língua geral dos paulistas (que era resultante da junção do português
arcaico com a língua nativa tupi) devemos levar em conta que não se trata
de um único tronco linguístico definido, visto que tanto os nativos como
os africanos dominavam inúmeros dialetos. Assim, procuramos não só
pelo termo “patafufo” ou “patafufio”; consideramos também os termos
“pata”, “fufo”, “fufio”, “fufu”. Reviramos inúmeros dicionários,
consultamos estudiosos das línguas africanas, dicionários indígenas e
dicionários antigos da língua portuguesa. Em nenhum deles encontramos
o termo “patafufo” ou “patafufio”. Foi por isso que procuramos pelos
demais termos mencionados. O que encontramos não foi suficiente para
afirmar com certeza que o termo “patafufo” tivesse algum significado que
pudesse designar uma característica de alguém ou de algum lugar. Talvez
ainda o termo “patafufo” ou “patafufio” teria algum significado que se
perdeu ao longo do tempo.

O resultado de todo esse trabalho de pesquisa, que levou anos, foi,
até hoje, desolador. O que encontramos na língua bantu africana foi o
termo “fufu”, que é uma comida típica constituída de farinha de milho
com açúcar e pedaços de coco. Na língua nativa dos índios tupis, ou
mesmo dos caiapós, encontramos apenas o termo “pata”. que se refere a
pé de animais, ou mesmo a pé chato. Nos dicionários antigos pesquisados,
encontramos o termo “pata” para fêmea do pato; e “pata” como derivação
do francês patte, também referente a pé de animal, ou pé espalmado ou
grosso do cavalo, boi etc. Foi encontrado também o termo “patarata”
como sinônimo de “ostentação van, mentira jactanciosa, cousa vistosa,
mas de pouca dura ou solidez” (Diccionario Critico e Etymologico da
Lingua Portugueza. F. Solano Constancio, Paris, 1836).

Como pode ser observado, até onde conseguimos ir, não
encontramos nenhum termo que fosse suficiente para revelar a possível

29

junção linguística. Apesar disso, não podemos de todo descartar essas
hipóteses. Caso um dia alguém faça uma pesquisa e as comprove,
certamente terá contribuído de forma significativa para a história da
região. É preciso, ainda, considerar o estudo dos fonemas, visto que
grande parte dos habitantes da região era constituída de pessoas que
pouco ou nada sabiam de leitura e escrita, eram analfabetas e, por isso,
pessoas presas ao mundo dos sons, do ouvir, dos fonemas. Por último,
vamos considerar uma nova hipótese. Embora para muitos historiadores
ela possa parecer absurda, nós a consideramos plausível ou pelo menos
merecedora de um pouco de atenção. Para apresentá-la, convidamos o
amigo leitor a realizar conosco um pequeno teste.

Colocaremos abaixo algumas imagens e faremos a transcrição delas
para que possamos demonstrar o que queremos.

Vejamos:

O que você lê nessa frase? Seria

Fufo de torcer linhas? Foi o que lemos.

Mais um exemplo: Fufo de lagar.

Pois bem, essa leitura quê fizemos não está incorreta, está? Observe
que, nesses dois casos apresentados, as frases foram tiradas de um
dicionário impresso em 1741, denominado de Vocabulario Portuguez &
Latino (BLUTEAU, Coimbra: 1712). Veja que O termo Fufo está grafado
corretamente, mas essa palavra não é “Fufo”, mas sim “Fuso”. Isso
mesmo, “Fuso”.

Para confirmar, vejamos a imagem da página inteira do dicionário, a
seguir:

30

FUSO: Páosinho, torneado, em que as
mulheres torcem, &recolhem, o que fi-
ão. Há fuso aberto, &fuso ferrado;este
tem muança, o outro não. Fusus, i.Mase
Flin.

Fuso de torcer linhas. He um fuso
mais gosso em cima, que em baixo, &
em cima tem huma rodinha, & na pon-
ta do fuso, que vai por cima da rodi-
nha, tem hum ganchosinho de ferro, ou
arame, ode se prendem as linhas, para
não escaparem, & se torcerem. Fusus,
rorquente filo.

Fuso de lagar. Páo comprido com
rscas, ou páo torneado a modo de pa-
rafuso, & direito, por meyo do qual
sobe & dece a cabeça da vara, com que
se pisa a uva. Torcularia cochira, & Fem.

Torcalaria, a um he do Columella

Observou o que fizemos com você, amigo leitor? Nós o induzimos a
uma leitura equivocada para um termo escrito num dicionário de
português arcaico. Se um equívoco desse tipo pode ocorrer ao se utilizar
um texto impresso em um dicionário de português arcaico, imagine em
texto manuscrito do século XVIII! Assim, observe nas imagens que
colocamos abaixo e veja se não seria possível lermos outros “f” onde
estaria escrito “s” ou até mesmo “ss”, Vejam os exemplos:

A transcrição seria Athanasio, mas
facilmente confundido com Athanafio.

31

O que lemos aqui? “Conservei”

ou “Conformei”?

arraial de Patafufo. Mas não poderia ser

arraial de Patafuso, ou Patasuso?
Observe que, na grafia antiga, o “s'' era grafado como se fosse o “f”

ou de forma muito parecida com essa letra. Sendo assim, não poderia ser
Pata “fuso” no lugar de Pata fufo, isto é, lugar onde as pessoas teriam o
“pé chato” de tanto tocar “roda de fiar” ou os paus de “fuso”? Nesse

sentido, as informações do viajante mineralogista Vieira Couto, que

chegou em nossa região em 1801, ganhariam sentido novo. Diz ele:
“D'aqui com dua legoas nos dirigimos ao arraial de Patafufo,

povoação de uma centena de fogos. Este arraial, algum dia mineiro,

hoje tem achado melhor fortuna nas suas plantações e teçumes de

algodões [grifo nosso], por cuja causa ia em augmento, e se notavam a

muido muitas construções de novas casas. O caminho continuava a ser

plano e coberto até pouco antes de chegar à povoação: então se descortina

o terreno; verdejam os campos; branqueja o arraial ao longe, e em logar

de um terra vermelha e barrenta, esta se muda em arenosa, e cheia de
pedregulho” (COUT0,1800).

De Patafuso teria vindo “Patafufo”, uma vez que “parafuso” era
grafado na forma “patafufo”. Podemos estar enganados ao considerar

essa hipótese; no entanto, faz sentido histórico e há uma lógica que pode

ser facilmente percebida e seguida. O equívoco de transcrição de patafuso

para patafufo pode ter gerado uma série de outros equívocos. Essa

hipótese poderá parecer absurda para muitos assim como a existência de
um personagem “baixo e gordo, com o andar parecido como o de um
pato” também nos parece insuficiente para explicar o termo patafufo e a

origem do nome de nossa região.

O que essa hipótese de equívoco nos traz de novo? Qual a
“vantagem” histórica de uma explicação como essa? Para nós,

historiadores, é uma questão ideológica, afinal a fundação do arraial de

Patafufo não parece estar ligada à ação de um comerciante trapaceiro,

32

mas à ação de inúmeros trabalhadores anônimos, que trabalhavam com
afinco na fiação e no teçume do algodão após a fase mineradora ou
paralelamente à mineração. Essa visão nos impulsiona a novos estudos
sobre a vocação socioeconômica da região de Pará de Minas, desde o
princípio voltada para a atividade agropecuária e para o trabalho honesto.

Pesquisas continuarão e, à medida que novas documentações
surgirem, certamente elas serão analisadas e darão suporte a outras
hipóteses, colocando esse mistério à prova. O que constituirá um outro
momento da reconstrução da história de Pará de Minas.

CULTURA

A educação em Pará de Minas na primeira metade
do século XIX

Segundo o Dr. Theophilo de Almeida, o primeiro professor de Pará
de Minas foi Joaquim da Rocha Ribeiro, nomeado na cidade de Ouro
Preto em 27 de julho de 1830 pelo então presidente da província de Minas
Gerais José Manuel de Almeida, numa época em que “o Pará” ainda era
“Arraial de Patafufo”. O professor de primeiras letras tinha o ordenado
de 200$000(duzentos mil réis) anuais pagos pela Fazenda Pública
(ALMEIDA, 1959).

Naquela época, o Brasil encontrava-se mergulhado na econômico-
financeira que levaria à renúncia do imperador D. Pedra I na madrugada
de 7 de abril de 183l. Com relação à educação, vigorava a primeira lei
geral sobre o ensino elementar no Brasil, decretada por D. Pedro I em 15
de outubro de 1827. Por essa lei, foi determinada a criação de escolas de
primeiras letras (que correspondem, hoje, às de ensino fundamental) em
todas as cidades, vilas, arraiais e lugares mais populosos do Império. Em
Pará de Minas, como já dito, isso só veio a acontecer em 1830, tendo

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Joaquim da Rocha Ribeiro aqui tomado posse como professor de
primeiras letras no dia 22 de outubro daquele ano.

Nessas escolas, ensinava-se a leitura, a escrita, as quatro operações
de cálculo e noções gerais de geometria prática. Isso, para os meninos;
para as meninas, ensinava-se a leitura, a escrita e as quatro operações,
mas no lugar das noções gerais de geometria prática, ensinavam-se as
prendas que serviam à economia doméstica (costurar, bordar, cozinhar,
etc.), o que era perfeitamente normal numa sociedade em que a mulher
não tinha nem direito de voto. Mas as escolas de primeiras letras para
meninas, segundo o artigo 11 da lei de 1827, só seriam criadas “nas
cidades e vilas mais populosas, em que os Presidentes em Conselho
julgarem necessário este estabelecimento”. Não era o caso do Arraial de
Patafufo em 1830, que teve seu primeiro professor nomeado para ensinar
unicamente aos meninos.

Além das matérias acima relacionadas, os pequenos patafufos
receberiam, segundo o artigo 6 da Lei Geral, “os princípios de moral
cristã e da doutrina da religião católica apostólica romana,
proporcionados à compreensão dos meninos”. Como se vê, tratava-se de
um sistema educacional “machista” que, segundo a historiadora da
educação, Maria Lúcia de Arruda Aranha, em seu livro História da
Educação, não chegava nem a ser um sistema nacional de ensino, uma
vez que tal sistema foi ofertado a pouquíssimas escolas nas quais se
oferecia apenas a instrução elementar. Com relação aos professores, pelo
menos nos primeiros 10 anos de vigor da lei, a qualidade do ensino por
eles ministrado pode ser questionada, pois a primeira escola para
formação de professores no Brasil só foi criada em 1835, em Niterói. A
autora ressalta, ademais, o caráter elitista e aristocrático da educação
brasileira nesse período, o que - acreditamos - serve também para a nossa
região.

Grupo Escolar “Torquato de Almeida”

A Cidade do Pará, ainda no processo educacional de escolas públicas
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singulares, isoladas, no qual turmas de alunos separadas por sexo eram
preparadas nas residências dos professores ou em qualquer outro local
improvisado, ficou em júbilo com o seu primeiro grupo escolar em 1914.

Com o índice alarmante de analfabetismo no país, a chegada do
primeiro estabelecimento de ensino da cidade foi um significativo marco
de desenvolvimento sociocultural para a comunidade paraense. Veremos
como isso aconteceu.

O processo de implantação dos grupos escolares, iniciado no estado
em 1906, com a Lei n° 439, de 28 de setembro, foi resultado do novo
modelo educacional implantado após a Proclamação da República. A lei
previa a prioridade de instalação dos grupos escolares nos lugares que já
possuíam edifícios disponíveis, terrenos ou somas em dinheiro para
efetivá-los, Oito anos se passaram para a Cidade do Pará conseguir o seu
grupo escolar.

Imaginem vocês a pacata cidade ainda sem calçamento e com sinais
bem visíveis de desenvolvimento e expansão: já possuía água canalizada,
luz elétrica, estação telegráfica, duas indústrias de tecidos, ramal
ferroviário, dois cinemas, um teatro, um clube literário, um hospital, duas
igrejas e uma capela e estava recebendo mais um benefício que seria
instalado em prédio próprio, gigantesco, de bela arquitetura clássica.
Certamente, os habitantes da Cidade do Pará compararam o majestoso
prédio da escola a um palácio, desconhecendo que a arquitetura suntuosa
daquela edificação servia aos ideais republicanos. A Cidade do Pará
parou para comemorar a inauguração do estabelecimento.

O grupo escolar da Cidade do Pará foi criado pelo Decreto N° 3.804,
de 28 de janeiro de 1913. A denominação “Torquato de Almeida” foi
dada logo depois, por ato do governo do estado publicado em 7 de
fevereiro de 1913 no jornal Minas Gerais. Foi uma justa homenagem ao
presidente da Câmara e agente executivo, que conseguiu com as
autoridades do estado esse benefício para a comunidade.

A construção do edifício escolar foi entregue ao italiano Amedeo
Celso Grassi, residente na cidade. O terreno em que foi construído foi
adquirido pela municipalidade do Sr. Francisco de Araújo Lopes Cançado
(Chiquinho Bahia) na administração de Fernando Otávio da Cunha
Xavier (SILVA, 1988) e, somente em 1970, teve sua doação ao estado

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legalizada.

A diretora Maria Ignez Mendes de Paula, ao providenciar a
documentação necessária para o recebimento de uma verba federal para
a reforma da escola, não encontrou a escritura do terreno onde a escola
foi edificada, uma das exigências para se efetivar a doação da verba.
Descobriu-se, então, que ele ainda pertencia ao município.
Imediatamente, Maria Ignez fez contato com o prefeito José Porfírio de
Oliveira e com a Câmara de Vereadores para comunicar a descoberta e
solicitar a legalização da doação ao estado (Jornal do Pará, 1994).
Prontamente, sua reivindicação foi atendida e se transformou na Lei na
1199, de 29 de maio de 1970; a escritura se encontra no livro 199, fl.45v,
de 6 de julho do mesmo ano.

A solenidade de instalação oficial do Grupo Escolar “Torquato de
Almeida” realizou-se às 13h do dia 22 de março de 1914, no magnífico
prédio próprio localizado na praça Cel. Francisco Torquato, 22, espaço
central da cidade. A cerimônia foi abrilhantada pela Banda de Música
“São Luiz Gonzaga”, de Mateus Leme. Diversas autoridades
compareceram à inauguração: Augusto Lucas da Silva, inspetor regional,
representando o dr. Américo Ferreira Lopes, secretário dos Negócios do
Interior do Estado, a cuja pasta estava vinculada a educação (SILVA,
1988); Torquato de Almeida, presidente da Câmara e agente executivo,
inspetor escolar municipal, patrono do estabelecimento, também no ato
representando o presidente do estado DI'. Delfim Moreira da Costa
Ribeiro; Dr. Orozimbo Nonato da Silva, advogado de renome na capital,
orador oficial da cerimônia, irmão do promotor recém-chegado dr.
Aristides Milton; dr. Pedro Nestor de Salles e Silva, juiz de direito; Padre
José Pereira Coelho, vigário da Paróquia N. S.” da Piedade, que na
ocasião também representava o dr. José Alves F erre ira e Mello; Padre
Silvestre Pereira Coelho; Padre Francisco Lopes de Araújo (Padre
Neném), vigário de Barbacena; outras autoridades judiciais; membros da
Câmara, do comércio, indústria e lavoura; representante da imprensa
local; alunos e professores do grupo (ATA de instalação, 1914).

A benção do prédio foi oficiada pelo Vigário Padre José Pereira
Coelho, auxiliado pelos padres Silvestre Pereira Coelho e Francisco
Lopes de Araújo. A seguir, o orador oficial, doutor Orozimbo Nonato, fez

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um “excellente, substancioso, longo e erudito discurso, que foi merecida
e geralmente applaudido (Idem). Dona Alice Andrade fallou longa,
satisfatória, brilhante, elo quente e apreciadamente sobre o acto”,
representando os professores; Oscar Ferreira de Oliveira, aluno da 4a
série, e Clotilde Xavier de Abreu, aluna da 3a série, “fallaram
brilhantemente e foram excessivamente apreciados”. Torquato de
Almeida encerrou a cerimônia com um “substancioso discurso repassado
de patriotismo, de enthusiasmo e de muita erudição” (Ibidem).

O grupo escolar iniciou seus trabalhos com o diretor Fernando
Otávio da Cunha Xavier, que o comandou de setembro de 1913 a janeiro
de 1919 (ALMEIDA, 1959). No primeiro ano de atividade, 525 alunos
foram matriculados (SILVA). Seus primeiros professores foram José
Pereira da Costa, Maria das Dores Leite, Idalina Moreira de São Pedro,
Maria Eliza de Paula Borges, Maria Raimunda de Morais, Jenny Versiani
Caldeira, Maria Calixta Marques, Blandina de Araujo Milton e Alice
Andrade (ALMEIDA, 1959). É interessante observar, em uma fotografia
do acervo do Muspam, o pátio interno do prédio dividido ao meio por um
muro, separando meninos e meninas no “recreio”, evidência dos
costumes repressores vigentes na época.

É presumível que o entusiasmo da comunidade com a escola tenha
se sobreposto às preocupações com os conflitos mundiais, que
culminariam na primeira grande guerra, dois meses depois da
inauguração do grupo escolar. Estariam os habitantes da Cidade do Pará
cientes das notícias sobre as descobertas do já famoso Einsten e das
possibilidades da sua teoria da relatividade, que breve seria anunciada?
Será que notícias tão importantes assim chegaram à cidade? Não se sabe.
O que sabemos é que os habitantes do Pará valorizavam a formação
educacional, pois a cada ano o número de alunos do grupo escolar
aumentava. A escola cresceu tanto que um novo prédio foi inaugurado
em 1935 para atender a demanda.

O Grupo Escolar Torquato de Almeida foi, até 1945, a única escola
primária em Pará de Minas. O novo prédio construído para abrigar as
turmas anexas, inaugurado em 1935, transformou-se no Grupo Escolar
Governador Valadares em 1945.

Pela escola já passaram memoráveis professores, que estão inseridos

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na história da educação de Pará de Minas, como o professor Pereira da
Costa (Inhozé). Nomeá-los todos chega a ser árdua tarefa, pois pode
ocorrer de omitirmos involuntariamente algum nome e cometermos,
assim, um ato de injustiça. Melhor não fazê-lo.

O prédio do Grupo Escolar Torquato de Almeida, pela sua imensidão
e espaço geográfico privilegiado, serviu à comunidade em muitas outras
ocasiões de significativas manifestações socioculturais, até o advento do
Automóvel Clube e do Patafufo Country Club. Exemplificam essa
afirmativa os festejos do jubileu de prata do vicariato do Padre José
Pereira Coelho, os bailes, os desfiles para eleição de rainha dos
estudantes, rainha do centenário de Pará de Minas, as recepções a
políticos, entre outras promoções que lá aconteceram.

Em julho de 1974, por lei estadual, a referência “grupo escolar” foi
alterada para “escola estadual”. Em janeiro de 1998, a escola foi
municipalizada, e essa condição integrou o seu nome, passando a ser
Escola Municipal Torquato de Almeida. A municipalização durou pouco,
somente quatro anos e, pelo Decreto Estadual N° 42.490, de 05 de abril
de 2002, sua nomenclatura retomou para Escola Estadual Torquato de
Almeida.

À frente dessa instituição escolar sempre estiveram dedicados
mestres. Exemplificamos citando a diretora que mais tempo comandou a
escola: Maria Ignez Mendes de Paula. Após 31 anos (1966 a 1997)
captaneando a conceituada instituição educacional, Maria Ignez
aposentou-se em 17 de dezembro de 1997.

Pela ordem cronológica, foram seus diretores: Fernando Otávio da
Cunha Xavier (1913);Antônio Baptista dos Santos (1918); José
Gonçalves de Mello (1919); José Pereira da Costa (1920); Salathiel
Rodrigues de Mello (1922); Jaime Pereira Pinto (1923); Alice Andrade
(Substituta); Edsonina Castelo Branco (1930); José Fábio Vilhena
(1931); Maria das Dores Leite (1934); Antônia Antonieta Mendonça
(1934 também); Anna Xavier Capanema (1940); Alice de Abreu e Silva
(1940 também); Arma Xavier Capanema (1941); Orosina Cecílio
Mendonça (1941); Elza de Queiroz Xavier (1945); Maria Vicentina de
Almeida (1946); Maria da Conceição Morato (1946); Olga Villaça
(1949); Maria Vicentina de Almeida (1951); Maria José Moreira(1954);

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Teresinha Oliveira (1955); Elvira Xavier de Melo (1955); Maria Ignez
Mendes de Paula (1966); Hellen Nice Campolina Ferreira (1998; diretora
no período da municipalização); Marluce de Sousa Pinto Coelho (2000;
diretora no período de transição da escola do município para o estado) e
Leda Silva (2002). Atualmente, Maria Perpétua Pinto da Silva a dirige
desde 2004 (REL. Diretores, 2009).

A E.E. Torquato de Almeida é um marco na história da educação no
município de Pará de Minas. Seu prédio histórico foi tombado pelo
Conselho Deliberativo do Patrimônio Histórico e Cultural de Pará de
Minas, pelo Decreto N° 2.768, de 13 de abril de 1998.

A Escola Estadual Governador Valadares

Segundo levantamento do Conselho Deliberativo do Patrimônio
Cultural de Pará de Minas, o prédio onde atualmente funciona a Escola
Estadual Governador Valadares foi construído em 1935, e suas
dependências funcionaram como um anexo do Grupo Escolar Torquato
de Almeida até 1945. Em 3 de julho desse ano, foi inaugurado o Grupo
Escolar Governador Valadares, na gestão do prefeito Francisco Valadares
Ribeiro. A denominação do grupo foi uma homenagem ao chefe do
governo de Minas Gerais, Benedicto Valadares Ribeiro, importante
autoridade política da região, aliado do presidente Getúlio Vargas durante
a ditadura do Estado Novo, de 1937 a 1945.

A primeira diretora do Grupo Escolar Governador Valadares foi a
educadora Orozina Cecílio Mendonça, que permaneceu no cargo durante
22 anos. Posteriormente, a direção foi exercida pelas senhoras Mônica
Capanema; Rita Grácia Palhares Diniz; Edna Maria de Aguiar Fonseca;
Tânia Morato, tendo esta ficado até a implantação da 43ª
Superintendência Regional de Ensino em Pará de Minas, em 2003,
quando se afastou para comandar esse órgão, deixando Telma de Moura
Morato, sua irmã, na direção. A referência do estabelecimento havia sido
alterada por uma lei estadual de 6 de julho de 1974 que determinou que
os “grupos escolares” fossem denominados “escolas estaduais”.

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A Escola Estadual Governador Valadares foi responsável pela base
de formação de inúmeras pessoas, que mais tarde se tomaram conhecidas
por atuarem com destaque em diversas áreas.

O prédio desse centro educacional foi tombado pelo Conselho
Deliberativo do Patrimônio Cultural Municipal em 1998. Essa medida foi
uma das garantias para que a Escola Estadual Governador Valadares
continuasse formando pessoas capacitadas sem jamais perder o charme e
a imponência de seu prédio, localizado na rua Delfim Moreira, 80, no
centro de Pará de Minas, bem perto do Santuário de Nossa Senhora da
Piedade e do Fórum Desembargador Pedro Nestor, que também é
tombado pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Histórico e Cultural
de Pará de Minas.

O carnaval em Pará de Minas

O carnaval é uma festa popular, promovida nos três dias que
antecedem a Quaresma, com interesses lúdicos: o disfarce, a dança, o
canto e o prazer de certa liberdade de comunicação humana inexistente
ou grandemente refreada durante o ano.

A origem do carnaval é obscura, sendo apenas provável que ele tenha
raízes em alguma festividade primitiva de feição religiosa em honra ao
ressurgimento da natureza com a volta da primavera. O carnaval -
“primitivamente designativo da terça-feira gorda, tempo a partir do qual
a igreja católica suprime o uso da carne” - conforme Antenor Nascente,
surgiu com a propagação do cristianismo e por força do seu calendário
litúrgico (FREYRE, Gilberto; MAIOR, Mário Souto:1974, pp 81-91).
Encontramos, na Enciclopédia Mirador Internacional, a informação de
que o vocábulo latim carnem levãre (carne levare com o infinitivo
substantivado, “abstenção de carne”) documenta-se no latim medieval
carnelevãrium, palavra dos séculos XI- XII, que designava a véspera da
quarta-feira de cinzas, isto é, o dia em que se iniciava a abstinência de
carne exigida pela Quaresma, o que corrobora a afirmativa anterior,

O carnaval chegou ao Brasil por meio dos portugueses. Era
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conhecido como “entrudo” desde 1595 e compreendia os três dias que
antecediam a quarta-feira de cinzas. No início, o “entrudo” consistia em
atirar contra as pessoas ovos podres, fuligem, farinha de trigo, etc. Depois
passaram a ser usados água, gomas, pós ou cal (que eram atirados por
meio de bisnagas) e limões de cera. Posteriormente, foram usados água
perfumada, vinagre, groselha ou vinho, sempre com a intenção de molhar
ou de sujar uma pessoa desprevenida. Dom Pedro I e Dom Pedro II
apreciavam bastante a brincadeira.

Um novo elemento foi introduzido na folia no [mal da 1 a metade do
século XIX: o “Zé Pereira” ou o tocador de bombo. A folia, em passeata
pelas ruas, era animada com os sons de tambores e zabumbas.

No início do século XX, o “corso” já era um sucesso! Era a passeata
em carros sem a capota de pano, em caminhões conduzindo os foliões
fantasiados de pierrots, colombinas, que mexiam com os outros
ocupantes dos veículos vizinhos e com os pedestres. Uma verdadeira
batalha de confetes, serpentinas e lança-perfume acontecia durante os
festejos.

Em Minas Gerais, podemos afirmar que o “carnaval” organizado se
manifestou de forma espetacular e esplendidamente marcado por
características barrocas em Vila Rica, em 1733, com o Triunfo
Eucarístico: a festa de transladação do SSmº. Sacramento da Igreja do
Rosário para a do Pilar, que seria sagrada (RAPM, vol. 6, 1901). Não
vamos nos esquecer das cavalhadas, que já eram um costume da
população das Minas.

E em Pará de Minas, o que já descobrimos sobre essa manifestação
popular?

Encontramos nos manuscritos de Robson Correia de Almeida, no
acervo do museu local, a informação de que o jornal “Cidade do Pará” de
1° de março de 1908 registrou o início dos folguedos em homenagem ao
momo daquele ano. O Clube Carnavalesco “Diabo Azul”, composto por
“rapazes da elite paraense”, foi quem promoveu os folguedos. O jornal
descreveu como “deslumbrantes” os festejos que aqueles rapazes
proporcionaram nos três dias (JCP, 1908).

No ano seguinte, o mesmo jornal “Cidade do Pará”, de 21 de
fevereiro de 1909, relatou que a população não esperava festejo algum

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até o meio-dia daquela data. Porém, à tarde, um mascarado anunciou
pelas ruas uma passeata às 7h da noite: “Foi o bastante para que se notasse
grande movimento. O jogo de entrudo assumiu grandes proporções:
confetes, bisnagas, serpentinas, limões, etc., travando-se verdadeiros
combates não somente na rua Direita, o ponto principal [...]. Às 7 horas
da noite era notável o número de pessoas aglomeradas em frente à casa
do Sr. Joaquim Marinho de Almeida, de onde, ao executar a primeira peça
a banda de música regi da pelo maestro Emídio de Melo, saía o préstito,
tendo à frente diversos mascarados formando alas, seguidos pelo povo,
por banda de música e cano alegórico de magnífico efeito. Nesse cano,
artisticamente preparado, surgia ao centro uma grande estrela, e à frente
desta, um trono, o qual tinha habilmente dispostas 3 cadeiras ocupadas: a
do centro, pela menina Alzira de 6 meses de idade, a da esquerda pela
menina Conceição e a da direita, pela menina Alice, todas filhas do Sr.
Joaquim Marinho de Almeida, as quais distribuíam ao povo poesias de
escritores mineiros adequadas ao ato. [...] O préstito percorreu as ruas
Direita, [...], chegando finalmente ao ponto de partida. As noites,
retumbantes 'Zé-Pereiras' atordoavam os ouvidos do povo [...]” (JCP,
1909).

Pelas descrições acima, percebemos a sociedade da época em
movimento, brincando, se divertindo. O aparentemente trivial, o
cotidiano, os rituais, são matérias-primas importantes para a compreensão
dessa sociedade. No ano anterior (1908), os “rapazes da elite paraense”
haviam promovido o carnaval e, já no ano seguinte, uma importante
família da cidade organizou-o, conseguindo envolver o povo. As
“crianças” (havia uma de 6 meses de idade) distribuíram poesias de
“escritores mineiros adequadas ao ato”. Essas e outras informações
revelam um pouco da linguagem social, o que permite um melhor
entendimento dos valores da época (JCP, 1908).

Vamos avançar alguns anos, até 1917, para verificarmos a radical
mudança ocorrida no carnaval daquele ano. A Primeira Grande Guerra
(1914 - 1918) estava acontecendo, e a Revolução Russa em breve também
mudaria o mundo. A notícia sobre esse carnaval foi veiculada no mesmo
jornal “Cidade do Pará”, de 18 de fevereiro de 1917. Lembramos que,
como há uma foto bastante conhecida das festas daquele ano, esse

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carnaval é erroneamente considerado por muitos como o primeiro
carnaval do Pará. Já provamos que não foi. As famílias Coutinho e
Castelo Branco, que aqui passaram a residir, foram as promotoras desse
carnaval. As festas aconteceram na praça da Matriz, onde foi armado um
coreto para a banda do maestro Emídio de Meio. Das 6 às 9 horas da
noite, a banda animou as mais de mil pessoas que ali compareceram.
Durante os três dias, batalhas de confetes, de serpentinas e lança-
perfumes aconteceram no local. Ao enorme Cordão “Tic-Tac”, composto
por senhorinhas fantasiadas de turcas, portuguesas, ciganas, japonesas,
camponesas, toureiras, espanholas, lavadeiras, pastorinhas e pierrots,
seguia uma legião de rapazes e meninos (JCP, 1917).

Na tarde do dia seguinte, 19, um grupo de mascarados percorreu as
principais ruas, criticando o jogo do bicho e a ação da polícia. Outro
grupo criticou a falta de iluminação pública na rua Cel. Domingos Justino
(rua da Boa Vista). Após o espetáculo cinematográfico realizado no
Teatro Recreio Dramático, na própria praça da Matriz, houve animado
baile a fantasia, que se prolongou até a madrugada. No dia 20, um
espirituoso mascarado criticou as rifas e, à noite, um grupo fantasiado
conduziu um carro alegórico criticando o edifício do fórum em ruínas.
“Todas essas críticas foram apreciadíssimas”, afirma o “Cidade do Pará”.
No terceiro dia, houve no Centro Literário “Paraense” o último baile a
fantasia. O edifício “artisticamente ornamentado” ficou repleto. Torquato
de Almeida, presidente da Câmara e agente executivo, em “vibrante
discurso” saudou a família paraense ali representada. Foi aplaudidíssimo!
Representando o Cordão “Tic-Tac”, falou, agradecendo, o estudante
César Castelo Branco. Doces, confeitos e cálices de saborosos licores
foram distribuídos aos presentes. O animado baile terminou à meia-noite
(JCP, 1917).

O carnaval do Pará de 1924, que encontramos relatado no jornal “O
Momento” de 9 de março de 1924, aconteceu na rua Vinte de Setembro,
atual Benedito Valadares, que estava repleta de pessoas entregues aos
jogos de lança-perfumes, confetes e serpentinas, nas imediações do Ideal
Cinema (em frente à Pará Som, atualmente). Ali foi montado um coreto
para a banda de música “Pará Euterpe” animar a festa. Houve poucos
mascarados e poucas críticas. A animação maior foi nos bailes do Ideal

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Cinema, cuja concorrência, de acordo com “O Momento”, “era seleta e
transbordante [...] o que a nossa sociedade conta de fino, elegante e
distinto. [...] não houve a menor falta de respeito, nem um empurrão, nem
uma palavra indelicada ou inconveniente. O presente carnaval mostrou-
nos que o povo paraense não é este povo triste, indolente e cético, como
se apregoa, mas sim que são as diversões que lhe faltam”.

O povo distancia-se da elite cada vez mais… A reivindicação por
mais lazer para o povo já é evidenciada (JOM, 1924).

Em 1933, o carnaval continua animado em Pará de Minas. Batalhas
de confetes, “Zé-Pereiras”, fantasias grotescas, o bloco “É curioso”
animam as festas ao som das jazz bands “Glória” e “Cruzeiro”. Registros
desse carnaval foram encontrados no jornal “O Único”, de 5 de fevereiro
de 1933 (JOU, 1933).

Em 1937, houve um carnaval marcante nos dias 7, 8 e 9 de fevereiro.
A iniciativa foi do presidente do Centro Literário Pedro Nestor, sr.
Joaquim Pereira, mais conhecido como Pereirinha; de D. Neném
Coutinho (Heráclita Coutinho de Melo Franco), senhora detentora da
total confiança dos pais, e do Padre José Pereira Coelho (Padre Zeca).

Os blocos foram organizados. Músicas representaram-nos. Fantasias
foram selecionadas. O Rei Morno foi o Sr. Jonas Morais (cujo filho é ex-
presidente da Coopará). O corso ia buscá-lo na Maniçoba (na estrada para
Tavares de Minas) e, atendendo a um pedido do Padre Zeca, passava em
frente à casa desse vigário na praça que possui seu nome (José Pereira
Coelho). Padre Zeca, da janela de seu casarão, assistia e incentivava a
festa. Depois, os blocos dirigiam-se ao Centro Literário para o baile
animado pela banda do maestro Spíndola.

O Bloco “Tem durd'aí!” teve sua música composta por um dos seus
responsáveis, Amadeu Atílio Grassi, e a letra foi de Otávio Xavier. A
fantasia dos componentes do bloco era de tecido com listras grossas
pretas e brancas e cartola. O Bloco “Bambas de Fú-man-chú” foi formado
com fantasias chinesas, em cetim vermelho e preto. Foi adotada uma
música da época compatível com o tema escolhido. O Bloco dos
“Tiroleses” teve fantasias em cetim vermelho, com aplicações de coração
azul, colete preto e blusa branca.

No Clube Lítero Recreativo “Professor Pereira da Costa”, naquele

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