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FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PARÁ DE MINAS

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Published by phonteboa, 2021-06-07 21:10:38

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PARÁ DE MINAS

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DE PARÁ DE MINAS

ano de 1937, também houve animados bailes carnavalescos. Os
carnavalescos desse clube, no meio da noite, iam, em formato de cordão,
visitar o baile do Centro Literário. No dia seguinte, era o pessoal do
Centro Literário que fazia a visita ao Clube Pereira da Costa. Essas visitas
consistiam em dar uma volta no salão do clube visitado (JOD, 1937).
Ritual interessante e importante esse, uma vez que essa prática cordial
proporcionava a aproximação da elite com a classe operária.

O carnaval, entre os anos 40 e 50, transferiu-se para locais fechados,
e o “Cine-Teatro Vitória” abrigou memoráveis festas promovidas pelo
Centro Literário. As famosas “marchinhas”, o lança-perfume, confetes e
serpentinas ainda estão nas lembranças de muitas pessoas.

O Clube Patafufo, em sua primitiva sede, um galpão rústico, iniciou
em 1969 seus memoráveis festejos do carnaval. O Automóvel Clube
também teve seus momentos de glória devido ao pouco espaço do Centro
Literário, que transferia para lá suas festas carnavalescas.

Em 1960, o Sindicato dos Trabalhadores em Indústrias Têxteis
promoveu grandes bailes em sua sede social, chegando a transferi-los
para o ginásio poliesportivo da Praça de Esportes em virtude do grande
número de foliões (JOM, 1960).

Após um longo período sem carnaval de rua, surgiu em 1966 o Bloco
“Menos 1 “, comandado por Ari Coutinho Júnior. O animado e jovem
bloco, com foliões usando roupas pretas, vermelhas e brancas, percorria
as ruas da cidade em cima de um caminhão.

A primeira escola de samba de Pará de Minas foi a denominada “Os
Araras”, criada em 1975. A escolha dessa denominação se deu em
homenagem ao pai de Djalma Pontes, um dos fundadores da escola, cuja
origem é a tribo indígena “Araras”, de Pernambuco, como nos esclareceu
em 2 de março de 2009 Expedito Cândido Ferreira (Expedito Calu), o
mais longevo dirigente da escola. A “Unidos do Morro” foi fundada em
1979 e foi pioneira no lançamento de samba-enredo. A “Partido Alto”
surge em 1986. Aparecem os animados blocos “Arruaça”, em 1984; “Os
donos do amanhã”, “Explode coração”, em 1986; e outros, como
“Tamborim de ouro”, “Fhusuê”, “Nem ouro, nem prata”, “Pano de saco”,
etc. Sabemos que nenhuma cultura fica isenta dos processos de
aculturação e, com o sucesso das escolas de samba do Rio de Janeiro

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veiculado pela mídia, foi natural a união de pessoas que desejaram
impulsionar o nosso carnaval de rua. Com a fundação do Gresar - Grêmio
Recreativo Escola de Samba Azul e Rosa - que desfilou pela primeira vez
em 1984, o carnaval ganhou mais força e beleza. Levando para a avenida
planejamento, estrutura, requinte e organização, o Gresar foi um marco
importantíssimo que motivou um enorme e significativo crescimento das
outras escolas, principalmente da “Unidos do Morro”, que fazia uma
saudável e brilhante concorrência com o Gresar. Os blocos não ficavam
para trás. O período compreendido entre 1984 e 1988 foi o apogeu do
carnaval de rua do Pará. A consequência disso foi o fracasso cada vez
maior dos bailes nos clubes, até chegarem à extinção.

Em 1989, não houve carnaval de rua, e os clubes não conseguiram
mais atrair um grande público como antigamente.

Gradativamente, o carnaval de Pará de Minas vem soerguendo-se.
Não desapareceu graças à garra dos carnavalescos e demais integrantes
das escolas que, teimosos e heroicamente, fazem-no sobreviver. Os temas
do ano de 2006, inteligentes e ricos culturalmente (mitologia grega,
orixás e os santos da igreja católica), com os quais as escolas trabalharam
aliados aos belos sambas-enredo, ao incentivo e apoio das autoridades
constituídas, impulsionaram os festejos, concorrendo para o
desenvolvimento do potencial turístico da cidade. Esses procedimentos
aumentam, com certeza, o número de pessoas que optam em permanecer
na cidade nesse período e ainda atraem outras – ao que o comércio e a
cultura de Pará de Minas agradecem.

Em 2007, o Bloco Acadêmicos Santos Dumont, que é bloco somente
no nome, pois já se estruturou em “escola de samba”, antecipando-se às
comemorações do sesquicentenário de Pará de Minas, desenvolveu um
desfile exaltando a história do município ao som do samba-enredo “Das
águas do Paciência surgiu Pará de Minas, uma terra abençoada”, criado
por João Batista Leite, seu dedicado carnavalesco. Kleber Nonato de
Souza, presidente do Acadêmicos Santos Dumont, em depoimento a
membros do “Mesopotâmia” em 17 de fevereiro de 2009, informa-nos
que o “Acadêmicos” é resultado de fusões de grupos menores dos anos
80 [década de 1980], como o “Rosa de Ouro” e o “Explode Coração”. Em
2008, a agremiação comandada por Kleber homenageou a África com

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alegorias, adereços e belos carros embalados com o bonito samba-enredo
“África, terra mãe”, do mesmo autor do ano anterior. Em 2009 o tema foi
a criação do universo.

A Escola de Samba Unidos do Mono, em 2007, abordou a paz; em
2008 o meio-ambiente, cantando o samba-enredo “Água, fonte de vida, a
preservação nas mãos do homem”, com letra de Eneida Oliveira e música
de Paulo Vicente. No ano de 2009, homenageou Pará de Minas pelos 150
anos de emancipação político-administrativa. Wilson Júnior,
carnavalesco dessa escola, mostrou na avenida Presidente Vargas a
história e as personalidades da nossa terra ao som do samba-enredo “150
anos de Pará de Minas, a Unidos do Morro faz parte desta história”, dos
mesmos autores do ano anterior. A beleza e o entusiasmo da escola
contagiaram o público, envolvendo-o e sintonizando-o num significativo
momento de exaltação da nossa história.

A Escola de Samba “Os Araras” - a primeira de Pará de Minas, criada
a partir do bloco América (Jornal GP, 16.02.2007) – em 2007, com o
enredo “Conto de Fadas”, trabalhado por Leônia, levou as histórias
infantis para a avenida (idem). O samba-enredo foi de João Batista Leite,
o carnavalesco do “Acadêmicos”. Em 2008 a escola também marcou
presença com o tema “Ecologia” e, em 2009, seus devotados integrantes,
com idealismo e garra, retomaram ao tema do ano anterior com o samba-
enredo “Mãe natureza”, sendo carnavalesco nesses dois anos Fernando
Henrique de Andrade.

Os desfiles das escolas de samba são verdadeiras aulas de história e
cultura da humanidade, transmitidas de forma lúdica e sutil. As
manifestações carnavalescas agregam diferentes pessoas que, esquecidas
das diferenças socioeconômicas e culturais, existentes nos outros dias do
ano, entregam-se aos festejos da mitológica divindade do Rei Momo,
convivendo de forma mais descontraída e fraterna. O carnaval é, assim,
poderoso e mágico, agregando encantamentos que encontramos também
no futebol.

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Sociedades literárias a serviço da República

No dia 20 de outubro de 1895, o editorial do Jornal “O Fanal”, de
Pitangui, deu destaque à instrução pública como forma de se evitar a
criminal idade no país, ressaltando a importância de se criar naquela
cidade uma associação literária. Tal associação teria como principal
objetivo fazer com que Pitangui marchasse “ao lado das mais florescentes
cidades do Estado na civilização e no progresso…”, conforme afirmação
de “O Fanal”. E continua: “Já em diversos pontos do Estado se fundam
bibliotecas, gabinetes de leitura e outras instituições úteis ao progresso
moral e material do povo; portanto não será a legendária Pitanguy que
ficará indifferente à marcha progressiva de suas irmãs”,

O editorial apelava, assim, para a boa vontade e para o patriotismo
do povo pitanguiense que, “esperamos, tomarão em consideração a ideia
que hoje levantamos e que aliás muitas vezes tem sido aventada n' esta
cidade, sem resultado algum”. Propunha, portanto, a fundação de uma
associação ou de um clube literário onde os membros pudessem contar
com “bons livros” e com revistas nacionais e internacionais “para uma
propaganda de conhecimentos úteis no seio” daquela sociedade. Cada
membro deveria contribuir, anualmente, com uma quantia de 10$000
[dez mil réis], que seria usada para arcar com assinatura de revistas e
compra de livros, os quais ficariam sob a guarda de um dos membros da
associação, que seria o responsável pelos empréstimos. E concluía o
editorial: “Esperamos que os nossos esforços sejam acoroçoados por
todos que desejam realmente o engrandecimento de Pitanguy, e nós,
animados pelo desejo ardente da prosperidade d'este município, não nos
pouparemos desde que sejamos amparados pelo apoio popular” (JOF, n°,
20.10.1895).

Ao que parece, a criação de associações literárias pelo interior do
Brasil no final do século XIX e início do XX teve como principal objetivo
levar o progresso e a civilização a comunidades que, na opinião dos
intelectuais da época, ainda viviam presas ao passado rural arcaico do
Brasil, enquanto os grandes centros urbanos – principalmente a capital da
República, o Rio de Janeiro, e, a partir de sua fundação em 1897, Belo
Horizonte – caminhavam rumo ao futuro. Esse futuro era representado

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pelo novo regime, a República, que havia sido proclamada em 1889,
enterrando a Monarquia junto com todo o atraso político, econômico e
social que ela representava. República, em 1895, ano da publicação do
editorial do Jornal de Pitangui, significava progresso, civilização,
liberdade, cultura e riqueza para todos os cidadãos- pelo menos
teoricamente. Não foi sem razão que a atual avenida João Pinheiro, em
Belo Horizonte, quando foi inaugurada no final do século XIX, recebeu
o nome de avenida da República; foi assim chamada porque conduzia à
Liberdade - representada pela praça da Liberdade, um dos maiores
símbolos do patriotismo republicano no Brasil.

Nesse clima republicano, em Pará de Minas, no dia 20 de julho de
1902, um grupo de homens criou o Centro Literário Paraense – que veio
a se chamar, mais tarde, Centro Literário Pedro Nestor. Embora o
objetivo primordial dessa sociedade fosse proporcionar aos seus
associados o cultivo intelectual e o desenvolvimento recreativo por meio
de conferências literárias, festas e outros eventos ligados à cultura e às
artes em geral, havia por trás das atividades que lá eram realizadas o
interesse maior de servir à República. No próprio hino do Centro
Literário, o compositor Bento Ernesto Júnior evidenciou o sentimento
patriótico que era compartilhado pelos seus associados, referindo-se ao
“desejo de a Pátria servir” e à necessidade de lutar para que “o fulgor,
sobre a fronte da Pátria querida, resplandeça em perpétuo esplendor”.

A primeira reunião do Centro Literário Paraense realizou-se no Salão
N obre do Paço Municipal em 20 de julho de 1902, tendo nela tomado
parte figuras destacadas da nossa história, como Pedro Nestor de Salles e
Silva, Antônio Benedito Valadares Ribeiro, Padre José Pereira Coelho,
Torquato Alves de Almeida, Fernando Otávio, entre outros. Foram esses
homens que, talvez influenciados pelo discurso do Jornal “O Fanal”, em
1895, resolveram criar em Pará de Minas uma associação nos mesmos
moldes daquela sonhada pelos cidadãos de Pitangui, acreditando, assim,
estarem contribuindo para que as promessas republicanas de
desenvolvimento chegassem até nós e se tomassem realidade. [Obs: o
Museu Histórico de Pará de Minas possui exemplares do jornal O Fanal].

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“O Fanal” e a República

A República dos Estados Unidos do Brasil foi proclamada em 15 de

novembro de 1889, após quase duas décadas de crise política da
Monarquia. O Segundo Reinado, como ficou conhecido o período em que
esteve no poder D. Pedro II, havia passado por uma fase de profunda
estabilidade que se iniciou em 1841 – quando o Partido Liberal Moderado
deu o “Golpe da Maioridade”, colocando D. Pedro II no poder com
apenas 14 anos de idade – e foi até 1870, quando surgiu no cenário
político brasileiro um partido de oposição ao governo centralizador e
autoritário de D. Pedro II: o Partido Republicano.

Além do mais, o Exército, tendo voltado vitorioso da Guerra do
Paraguai (1864-1870), passou a exigir do imperador – como recompensa
pela odiosa carnificina que promovera na Guerra – maior participação nas
tomadas de decisões. O pedido foi negado, e o Exército brasileiro tomou-
se republicano, visando, é claro, a obtenção de postos mais importantes
no novo regime.

Para completar a desgraça da Monarquia, grande parte da elite
agrária brasileira, constituída pelos cafeicultores que utilizavam mão-de-
obra escrava em suas fazendas, passou para a oposição quando a filha de
D. Pedro II, a Princesa Isabel, após um erro de cálculo político, aboliu a
escravatura em maio de 1888. Nessa ocasião, o imperador encontrava-se
fora do Brasil.

Formou-se, assim, o cenário ideal para o golpe militar que proclamou
a República em 15 de novembro de 1889. A Monarquia havia perdido o
apoio do Exército e da elite cafeicultora, suas principais bases de
sustentação, e, no ano que se seguiu à abolição da escravatura, a família
imperial não conseguiu apoio popular suficiente que pudesse salvá-la da
iminente queda.

Após a Proclamação da República, D. Pedro II e sua família foram
exilados e os militares montaram um governo republicano provisório
composto pelo Marechal Deodoro da Fonseca – seguido por Floriano
Peixoto – até o momento em que foi eleito o primeiro presidente civil:
Prudente de Morais, representante das elites cafeicultoras do oeste

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paulista.

Com o advento da República, a forma de governo sofreu uma
alteração radical: de uma Monarquia centralizadora (as decisões só eram
tomadas na sede do Império, o Rio de Janeiro) e autoritária, o Brasil
passou a ser uma República (o povo – “o público” – passa a escolher seus
representantes) federalista (ou seja, descentralizada: os estados passam a
ter autonomia) e presidencialista (governada por presidentes eleitos pelo
povo). Essa transformação gerou manifestações contrárias, lideradas
sobretudo pelos monarquistas, que queriam o retomo da Monarquia
centralizadora.

No dia 10 de dezembro de 1895, o jornal “O Fanal”, de Pitangui,
publicou, na íntegra, um manifesto monarquista lançado em São Paulo no
dia 15 de novembro de 1895. O “pyramidal manifesto”, como se refere a
ele o editorial “Manifesto Monarchista” de “O Fanal”, termina assim: “O
Imperador D. Pedro II, de saudosa memoria, tendo de responder a alguem
que, por telegramma, manifestara-lhe condolencias pelo facto de sua
deposição em 15 de novembro de 1889, escreveu, cheio de uncção
religiosa: «Minha sorte está na mão de Deus». Pois bem: Deus não falta
a quem o invoca; e nós, esperando a divina sentença, temos fé na efficacia
dos nossos votos e esforços para a restauração do Imperio, que será o
renascimento da ordem e da liberdade. São Paulo, 15 de novembro de
1895”.

No entanto, apesar de publicar o manifesto na íntegra, o jornal
pitanguiense mostrou-se totalmente contrário à volta da Monarquia,
manifestando sua opinião sobre o documento logo na primeira página,
duas colunas antes da publicação do texto monarquista: “um manifesto
infeliz escripto de baixo de uma impressão apaixonada e cheio de
palavrões num deserto de ideias”.

Reproduzimos, a seguir, a primeira parte do editorial republicano do
jornal de Pitangui:

“Os idolatras do regimen que se esboroou a 15 de novembro de 89,
açulados pela ambição e feridos do despeito, já começam deitar seus
manifestos anti-patrióticos e cheios de fofices. Embora procurem dar à
sua propaganda um caracter religioso, com o único intento de explorarem
a boa fé dos brazileiros que, em sua maioria, são catholicos; embora a

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insinuação dulçurosa seja uma das armas empregadas, temos pia e firme
crença de que jamais alcançarão calar no espírito do povo brazileiro, em
pleno gozo de uma benefica autonomia, os erros de uma propaganda de
demolição, ou antes, da anarchia que tende a tudo avassalar. Os taes
manifestos restauradores são settas atiradas contra a República, à
semelhança do salteador nomade do deserto que, passando em frente das
pyramides egypcias, despede em vão contra ellas seus dardos e uma
passam ficando sempre firmes esses monumentos que affrontam os
seculos.

Cidade de Pitanguy, Minas, 1 de dezembro de 1895. O Fanal –
Orgam politico, litterario e noticioso, n. 13” (JOF, nº 13,01.12.1895).

O Centro Literário Pedro Nestor

A inauguração da nova sede, do Centro Literário na rua Benedito
Valadares, número 183, deu-se em clima de alegria e entusiasmo no dia
8 de maio de 1912, data em que também foi comemorada a conclusão das
obras da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Simbolicamente, esses dois
eventos significaram o avançar irresistível do progresso, da onda
transformadora que já havia logrado êxitos em outras regiões do Brasil,
mas que no interior de Minas não passava de uma longínqua promessa.

De 1913 a 1925, o Centro Literário passou por quatro períodos de
reorganização social e administrativa, mantendo, porém, na medida do
possível, as suas atividades. Em 15 de novembro de 1925, data em que
eram celebrados os 36 anos da Proclamação da República, o Centro
Literário Paraense passou a se chamar, por iniciativa e sugestão do Dr.
Benedito Valadares Ribeiro, Centro Literário Pedro Nestor, em
homenagem ao ilustre juiz de direito, seu primeiro presidente. Deu-se
início, então, a um período de intensa atividade no Centro, com festas
recreativas, conferências literárias e visitas ilustres, como a do
governador do estado, o Sr. Antônio Carlos Ribeiro de Andrade, que
esteve em Pará de Minas em 1928. Naquela época, o Brasil encontrava-
se diante daquilo que ficou conhecido nos meios historiográficos como a

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“linha divisória de 1930”, e Pará de Minas, juntamente com o seu Centro
Literário, também teve um papel significativo nos acontecimentos que
levaram à ascensão de Getúlio Vargas ao poder. A “Revolução de 1930”
começou quando o governador de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de
Andrade, aproximou-se do Rio Grande do Sul e da oposição dos outros
estados, compondo o grupo chamado Aliança Liberal, que tinha como
objetivo frustrar os planos eleitorais de Júlio Prestes, candidato de São
Paulo à presidência da República. A Aliança lançou a candidatura de
Getúlio Vargas, que acabou perdendo a eleição para Júlio Prestes, embora
de modo contestável, pelo uso da máquina governamental. Tem início a
Revolução e, naquela época, o Centro Literário Pedro Nestor foi o quartel
das forças revolucionárias aliadas de Getúlio Vargas e organizadas em
Pará de Minas pelo nosso conterrâneo Benedito Valadares Ribeiro. A
sede do Centro Literário esteve sob domínio exclusivo dos chefes
revolucionários no período de 5 de outubro a 18 de novembro de 193 o.

Terminada a Revolução de 1930, o Centro Literário Pedro Nestor
voltou a ser o palco privilegiado das atividades festivas e culturais de Pará
de Minas, iniciando uma fase de profunda tranquilidade e prosperidade.
Em 1933, teve início a construção de novas obras em sua sede - salão de
festas, nicho para palestras e orquestras, secretaria, alpendre e, no
pavimento térreo, salão de bilhar e restaurante com reservados, cozinha,
etc. As novas instalações foram inauguradas com uma grande festa em 21
de junho de 1936, na qual esteve presente o já governador do estado e
sócio honorário do Centro Literário Pedro Nestor, o pará-minense
Benedito Valadares Ribeiro, além de outras altas autoridades estaduais.

Os anos foram passando, e as atividades realizadas no Centro
Literário foram ganhando novos contornos à medida que o tempo e o
avançar da História iam impondo novos valores e visões de mundo. A
antiga função “literária” daquela sociedade deu lugar a uma tradição
festiva que até hoje tem marcas profundas nos corações dos pará-
minenses mais nostálgicos. Nos anos 60 e 70, o Rock and Rol!, os Beatles
e os conjuntos musicais que faziam a febre da juventude tomaram contado
Centro. Os bailes de carnaval e a “Festa dos Barangos” tomaram-se
tradicionais na cidade e encontraram no Centro Literário um local
privilegiado para as explosões de alegria e contentamento.

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O palhaço Benjamim

Durante o século XIX, nos arraiais e vilas de Minas Gerais, quando
se aproximava a data da chegada das companhias de circos com seus
saltimbancos e cavalinhos, os habitantes dessas localidades tinham seus
desejos, alegrias e temores despertados pela perspectiva de assistirem a
algo diferente do que estavam acostumados a assistir e de entrarem em
contato com pessoas que tinham escolhido um modo de vida
completamente fora dos esquemas tradicionais da época. As notícias da
proximidade de circos enchiam as páginas dos jornais locais, e, quando
finalmente chegavam, suas armações despertavam a curiosidade dos
habitantes que, maravilhados, reuniam-se em torno da cena, invadidos
por um misto de encantamento e ansiedade. As crianças simplesmente
adoravam! A historiadora Regina Horta Duarte, em seu livro ''Noites
Circenses: espetáculos de circo em Minas Gerais no século XIX” –
resultado de sua tese de doutorado, cita o caso de uma menina em
Diamantina que, em 1880, recebeu a notícia de que iria ao circo: “Tendo
seu pai anunciado à mãe que iria levar toda a família ao circo, a menina
e sua irmãzinha menor passaram o resto do dia correndo abraçadas, aos
pulos, imaginando o espetáculo” (DUARTE, 1995).

No entanto, os circos despertavam, também, um certo temor, pois era
comum associá-los ao que é vago, indeterminado, confuso, desordenado,
indeciso, que não tem constância ou estabilidade. Em uma época em que
o movimento de fixação parecia querer dominar as relações sociais em
Minas Gerais, após a loucura da época do ouro, os circos, segundo Regina
Horta, “acenavam com possibilidades de uma vida de trajetos em
oposição à família, ao trabalho fixador, à vida estabelecida em um lar
imóvel” (DUARTE, 1995). É por isso que os circos despertavam não só
alegrias, mas também temores e desejos. Era mesmo comum ouvir dizer
que, assim que uma companhia se retirava de uma determinada
localidade, algum rapaz ou menino tinha fugido de casa para acompanhar
o circo.

Foi o que aconteceu em Pará de Minas com o menino Benjamim,
que, no ano de 1882, fugiu com a Companhia de Circo Sotero, tomando-
se um palhaço muito conhecido e admirado pelo público. Regina Horta

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Duarte se interessou muito pelo caso de Benjamim e encontrou na obra
do professor Pedra Moreira Mendonça as informações de que necessitava
para ilustrar um dos capítulos mais importantes do seu trabalho que
discute a questão do apego à fixação do mineiro no século XIX. Será que
o mito da mineiridade apagou do espírito do mineiro o nomadismo, o
desejo de abandonar tudo e percorrer o mundo? Será que o caso de
Benjamim e de outros jovens que abandonaram suas famílias para
acompanhar os circos não são indícios de que o mineiro era menos
quietinho e apegado às tradições do que o mito da mineiridade faz
parecer?

Ao que parece, Benjamim deixou poucos registros de sua vida em
Pará de Minas antes de sua partida rumo às aventuras do mundo do circo,
mas sabemos que no seu trabalho foi apontado como “mestre de
gerações” e “rei dos palhaços do Brasil”.

RELIGIOSIDADE

A Capela de Nossa Senhora da Piedade do
Patafufio

Em 1951, a historiadora paulista Mafalda Zemella, em seu
importante estudo “O abastecimento da Capitania das Minas Gerais no
século XVIII”, - formulou a seguinte pergunta: “Teriam o comércio e a
concentração, determinada pelo movimento de compras, feito surgir a
igreja e posteriormente a cidade? Ou teria sido a igreja o ponto de atração
dos comerciantes e das construções urbanas?” (ZEMELLA, 1990). Em
outras palavras: em Minas Gerais, o que surgiu primeiro: a venda ou a
capela?

Augusto de Lima Júnior (1943), grande pesquisador do passado de
Minas Gerais, considerava as casas de venda e ranchos de tropeiros como

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pontos iniciais das formações urbanas nas Minas, pois esses
estabelecimentos determinavam os locais onde, mais tarde, seriam
erigidas capelas e igrejas, iniciando, assim, a formação dos arraiais. Para
Mafalda Zemella, no entanto, é difícil generalizar quanto ao nascimento
das cidades mineiras. Nas palavras da própria autora, “só estudos mono
gráficos em torno das origens de cada cidade da Capitania das Minas
Gerais poderiam responder com segurança à pergunta” (ZEMELLA,
1990).

Pesquisando em Sabará, na documentação histórica da Casa Borba
Gato, encontramos um documento que lança novas luzes sobre as origens
de Pará de Minas. Trata-se do testamento de Gaspar Rodrigues, redigido
em 5 de setembro de 1779, que registra o seguinte: “nesta Capela de
Nossa Senhora da Piedade do Patafufio, filial da Freguesia de Nossa
Senhora do Pilar da Vila de Pitangui” (CBG: doe. n° 38, fls. 82v-87,
1409). Sabemos, por diversas fontes, que em 1772 o Padre João Pimenta
da Costa recebeu autorização da cúria de Mariana para erigir na paragem
do Patafufio uma capela que, no entanto, só foi iniciada em 1841 e
terminada em 1849. A questão que formulamos é a seguinte: será que, ao
contrário do que parece afirmar a bibliografia consultada, existiu uma
capela no Patafufio entre 1772 e 1841? Sabemos que o testamento
encontrado na Casa Borba Gato (datado de 1779) refere-se, claramente,
a uma “Capela de Nossa Senhora da Piedade do Patafufio”; mas será que,
no vocabulário da Igreja Católica daquele tempo, o termo “capela” não
seria uma forma de se referir a um núcleo urbano? Há também a hipótese
de que, para se considerar que um arraial tivesse uma capela, ele não
precisasse, necessariamente, ter uma construí da, mas apenas ter um
documento das autoridades eclesiásticas superiores autorizando sua
construção. Mesmo prevalecendo a dúvida, acreditamos que, no caso de
Pará de Minas, o que surgiu primeiro foram as vendas, pois, ao que tudo
indica, antes de 1772 já havia um pequeno arraial na região. Para reforçar
essa nossa hipótese, documentos comprovam que o fluxo de mercadorias
entre Pitangui e outras regiões da capitania foi muito intenso na segunda
metade do século XVIII, o que faz supor que houvesse uma importante
estrutura de ranchos e vendas nos caminhos que ligavam essa vila a outros
pontos do território mineiro.

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A Capela do Curato de Patafufio

No Decreto Imperial de 14 de julho de 1832 (que criou algumas
paróquias na província de Minas Gerais), o arraial de Patafufio é citado
como sendo um curato. Não seria lógico afirmar que, em 1832,já havia
um templo católico erigido no arraial?

Estaria correta a afirmação de que, mesmo tendo sido autorizada pela
cúria de Mariana a construção de uma capela no Patafufio em 1772, esta
só foi iniciada em 1841 e concluída em 1849? Essa informação encontra-
se no livro do Monsenhor Vicente Soares (1972), “A história de
Pitangui”, bem como nos importantes estudos de Theóphilo de Almeida
(1959), Robson Correia de Almeida (1983) e Pedro Moreira Mendonça
(1959). Mas será que, de fato, não existiu uma capela no arraial de
Patafufio entre 1772 e 1841? O testamento encontrado em Sabará, datado
de 1779, que faz referência a uma “Capela de Nossa Senhora da Piedade
do Patafufio”, juntamente com o Decreto Imperial de 1832, que faz
referência ao “Curato de Patafufio”, constituem peças importantes desse
nosso quebra-cabeça.

Segundo o Dicionário Koogan Larousse, dirigido por Antônio
Houaiss (1978), “cura” é pároco, vigário, prior; e “curato” é a habitação
do cura ou povoação pastoreada por um cura. Pois bem, o arraial de
Patafufio, segundo o decreto imperial acima citado, já era um curato em
1832, e a questão levantada nos possibilita uma hipótese - perfeitamente
plausí vel- de que, se havia um curato e um cura em Patafufio em 1832,
havia também uma capela ou igreja onde esse cura exercia o seu ofício.
Talvez não fosse uma “capela primitiva”, sobre a qual teria se erguido um
novo templo em 1841, no mesmo local, mas uma “outra capela”,
localizada em “outro lugar”; talvez fosse até um templo maior, erguido
nas últimas décadas do século XVIII, demolido décadas depois sem
deixar qualquer registro que comprovasse sua existência para a
posteridade. Talvez ... talvez!'! Como gostaríamos de encontrar uma
resposta para essa questão, algum documento definitivo que, de uma só
vez, completasse o nosso quebra-cabeça ... mas isso não é fácil. No
entanto, o que dificilmente podemos aceitar é a afirmação de que não
havia um lugar de culto católico, sagrado, onde o pároco celebrava missas

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e recebia seus fiéis à procura de reconforto em horas difíceis no antigo
arraial de Patafufio entre 1772 e 1841.

A alguns leitores, pode parecer uma bobagem a preocupação com tal
questão, mas é importante lembrar que, ao resgatar o nosso passado,
estamos ajudando a construir a nossa identidade. Quem conhece a sua
história, conhece melhor o presente e, certamente, sabe se preparar
melhor para o futuro.

A antiga Matriz

Durante nossas pesquisas no acervo do Museu Histórico de Pará de
Minas – Muspam, deparamo-nos com peças importantíssimas para a
montagem do quebra-cabeça da nossa história. Em meio aos inúmeros
documentos, encontramos uma página de jornal publicada há mais de 100
anos.

Trata-se de um artigo publicado no jornal Cidade do Pará, edição n”
19, de 27 de março de 1904. A sede desse semanário popular funcionava
na rua Direita, n° 19, e tinha como editor e proprietário Antônio Praxedes.
Hoje, essa página, amarelada pelo tempo, está anexada a um dos
processos arquivados no Museu.

O leitor poderá estranhar a grafia e a pontuação, mas ressaltamos que
o artigo abaixo foi transcrito na íntegra, sem atualizações ortográficas ou
gramaticais. Como é sempre bom aprendermos um pouco mais sobre a
história do povo patafufo, entendemos que o texto trará muitas
recordações para quem conheceu a antiga ou, à época de sua inauguração,
a nova Matriz:

“Esse que ahi vemos ao meio da praça, templo singello e gracioso,
varando triumphalmente o azul com a flecha doirada do seu campanario
gracil, é a expressão corporea do espirito religioso de um povo, que na
crença legada pelos seus maiores, sabe haurir o viatico preciso aromagens
de tão alta monta, qual essa empresa insana de, sem recursos de valia,
fazer erguer- se sobre o solo querido da pátria a morada condigna do Deus

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dos exércitos, empresa que se impunha não só aos seus sentimentos de
religiosidade, como à dignidade de povo civilizado que se presa ser.

Que de obices, vultuosos e consecutivos, não se vieram oppôr entre
meio e o desejo fervente de todos nós e o ideal querido a que nosso
espirito tendia?' De quanta grura e escabrosidade não tivemos nós juncada
a estrada a palmilhar?! Felizmente a nós a quem fallecia o poder de
riquezas com desbravasse a rota a sobejava o capital inexgotavel da Fé,
da Fé que transporta as montanhas e fornece azas com que subamos ao
céo.

Conservando sempre vivaz e radiosa a chama bendita da crença,
pudemos, romeiros da religião, ver da nossa estrada os cardos
trasmutados em rosas. Diante da tenacidade do povo paraense e da
dedicação louvabilissima dos illustres sacerdotes, directores da
benemerita cruzada, os obstaculos e as adversidades ruiram por terra,
como outróra as mulralhas de Jerichó ao soar as trombetas de Judá. E ahi
temos singello e dorainoso, ao centro da praça, o nosso templo principal,
varando triumphalmente o azul com a flecha doirada do campanario
gracil. Viva a religião Catholical.

Os trabalhos de construcção da nossa Egreja Matriz tiveram inicio
em Abril de 1899, sob a direcção do Revm. Padre Miguel Vital de Freitas
Mourão. Vencendo obstaculos enormes, insuperaveis para espiritos de
tempera menos rija, o virtuoso e dedicado sacerdote, então coadjuctor da
Parochia, contractou o serviço, ordenando a demolição do velho templo,
sendo incançavel na dedicação ao progresso das obras. Seguiu-se-lhe na
direcção dos Revmo. Padre José Pereira Coelho, que, nomeado
coadjuctor em 1900, desenvolveu uma actividade ininterrupta,
admirabilissima, para levar a termo a construcção do templo, que poude
ser inaugurado a 1 de Janeiro de 1901.

No correr do ano seguinte, fizeram-se, no interior, as importantes
obras das tribunas, coro e salão da conferencia de S. Vicente. A 2 de
Dezembro do mesmo anno, uma faísca eléctrica, alvejando o edificio,
damnificou-o em muito, principalmente no campanario.

Os trabalhos de reconstrucção e embellezamento da fachada,
confiados ao constructor italiano Pedro Bachetta, foram concluidos, a um
mez, dando ao templo um bonito aspecto. É idéa do Revm. Padre Pereira,

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– verdadeiro benemerito da nossa Matriz – fazer concluidos, este anno,
os serviços de pintura interna e substituição do arco do Cruzeiro e dos
altares lateraes. O modesto cliché que hoje damos, da fachada da Matriz,
foi preparado sobre um desenho de Alfredo Leite e devido aos esforços
desse talentoso moço paraense e do nosso companheiro Antonio
Praxedes” (FCAM-INV-229-04[27]).

A Igreja de Nossa Senhora das Graças

Em 14 de setembro de 1947, em Pará de Minas, o Padre José Viegas
da Fonseca, vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, celebrou

Padre Viegas nem seu “braço direito”, José Odorico de Aguiar, a
darem início a uma grande campanha para a construção da nova igreja,
iniciada ainda em 1947.

Na época em que foi celebrada essa primeira missa, Padre Viegas era
vigário da única paróquia da cidade; porém, em 3 de janeiro de 1948,
deixou o paroquiato para assumir a Prefeitura de Pará de Minas,
permanecendo no cargo até 31 de janeiro de 1951, quando voltou a
assumir a paróquia. Foi, portanto, como prefeito eleito pelo povo que o
Padre Viegas participou da fase mais difícil da construção da nova igreja,
a que exigiu maiores esforços de todas as pessoas que se reuniram em
tomo daquele objetivo.

Padre Viegas, como prefeito, deu a ajuda que pôde, mas a
comunidade também teve que se empenhar na arrecadação de dinheiro e
ajudar, nas horas de folga, a descarregar tijolos e outros materiais
destinados à construção. José Odorico de Aguiar foi um dos moradores
que mais se empenhou, organizando barraquinhas para obter renda e
pedindo ajuda às pessoas. Consta que a maior doação que recebeu foi a
de um caminhão de cimento e 10 contos. Do governador de Minas, Milton
Campos, ele conseguiu um sino para a igreja, que até hoje se encontra na
torre, com a inscrição em alto relevo: “Fundido nas oficinas da R. M. V.”,
isto é, “Rede Mineira de Viação”, que era a rede ferroviária do estado. A
data: 28 de abril de 1950.

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O Padre José Viegas da Fonseca esteve em Pará de Minas de 1936
até 1952 e, como vigário da Paróquia e prefeito da cidade, foi responsável
por realizações que melhoraram muito a vida do pará-minense. Como
vigário, dentre outras realizações, construiu o Educandário Padre José
Pereira Coelho e a Vila Vicentina; fundou o Instituto Benjamim
Guimarães; promoveu a vinda das irmãs e de padres salesianos; deu
assistência às capelas rurais e reformou o telhado e a pintura externa da
antiga Matriz. Como prefeito, sua preocupação principal foi com a falta
de água potável e de energia elétrica, o que dificultava muito a vida do
povo. Por isso, construiu a estação de tratamento de água e entregou o
serviço de distribuição de energia elétrica à Companhia Industrial
Paraense. Além disso, promoveu o loteamento do bairro Nossa Senhora
das Graças e calçou inúmeras ruas públicas. No entanto, para os católicos
de Pará de Minas, sua principal realização foi a construção da Igreja de
Nossa Senhora das Graças.

Quando Padre Viegas celebrou a primeira missa em intenção da
construção da nova igreja, em 14 de setembro de 1947, ainda não se sabia
qual santo seria homenageado pela comunidade, dando seu nome à igreja.
Segundo Alice Terezinha de Jesus, zeladora da Igreja de Nossa Senhora
das Graças, em entrevista à funcionária do Museu Histórico de Pará de
Minas, Ana Maria Campos Varela, a escolha do nome foi feita após a
ocorrência de um fato misterioso que, segundo ela, até hoje encontra-se
sem explicação: a aparição de uma imagem de Nossa Senhora das Graças
- tendo ao lado uma imagem de Santa Catarina - em meio aos tijolos que
seriam utilizados na construção, quando a igreja encontrava-se ainda no
seu alicerce.

O pedreiro responsável pela construção da igreja era Job Viegas
Viana, falecido em Pará de Minas no dia 8 de maio de 2002, com 82 anos
de idade. Naquela ocasião, Job Viegas chegou do almoço juntamente com
seus ajudantes e, antes de reiniciar o trabalho, foi chamado por um
servente para ver as imagens que tinham sido encontradas em meio aos
tijolos. Depois de perguntar a todos se aquelas imagens estavam ali antes
de saírem para o almoço e receber uma resposta negativa, Job Viegas
mandou chamar José Odorico de Aguiar. Padre Viegas também foi
avisado e logo chegou no seu “Fordinho”, o qual deixou parado na rua

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Capitão João Cruz, subindo a pé até o local da construção. Ao ver a
imagem de Nossa Senhora e discutir com os presentes a respeito do nome
que dariam à igreja, Padre Viegas concluiu, dizendo: “a casa é dela”. E,
assim, a igreja passou a ser “de Nossa Senhora das Graças”.

Não se sabe, ao certo, a data da aparição das imagens, mas é provável
que elas tenham aparecido após a benção da pedra fundamental da igreja,
dada pelo arcebispo metropolitano Dom Antônio dos Santos Cabral em 7
de março de 1948, e antes de 25 de novembro de 1951, quando um primo
do Padre Viegas, recém-ordenado sacerdote, celebrou sua primeira missa
na igreja - que já se encontrava erguida - embora ainda o templo não
possuísse todos os paramentos e objetos sacros necessários para a
realização da eucaristia.

A aparição da imagem de Nossa Senhora das Graças - tendo ao lado
uma imagem de Santa Catarina - deu ainda mais ânimo à comunidade
local, que se dedicou com afinco e determinação para ver concluída a
obra o mais rapidamente possível. Em uma entrevista, Alice Terezinha
de Jesus, atual zeladora da igreja, conta que José Odorico de Aguiar, dono
de olaria, trazia os tijolos que doava para a construção, e que o povo, após
uma jornada inteira de trabalho, ainda dedicava algumas horas por dia a
descarregar o material.

Em 1953, a Igreja de Nossa Senhora das Graças encontrava-se
praticamente pronta, mas foi só em 1958 que sua chave foi entregue ao
Padre Gabriel Hugo da Costa Bittencourt, vigário da Paróquia de Nossa
Senhora da Piedade. No dia 22 de junho de 1958, Padre Hugo entregou a
José Odorico de Aguiar um documento assinado, declarando ter recebido
os bens pertencentes à nova igreja.

Em 17 de abril de 1966, a igreja passou a pertencer à recém-criada
Paróquia de São Francisco. Nessa época, Padre Libério, figura muito
querida na região centro-oeste mineira, morava em Pará de Minas e,
quando não estava viajando, celebrava missas na Igreja de Nossa Senhora
das Graças. Segundo o relato de Alice Terezinha de Jesus, Padre Libério
chegou a Pará de Minas em 1965, contando, na época, com mais de 80
anos. Mesmo com essa idade, ele viajava muito, pregando e celebrando
missas em muitas cidades da região. Com o tempo, porém, já debilitado,
passou a permanecer por períodos mais longos em Pará de Minas, onde

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todos os domingos, às três da tarde, celebrava missa na Igreja de Nossa
Senhora das Graças, localizada próximo à casa em que ele vivia de forma
humilde e simples aos cuidados de Tereza de Freitas. Recebia visitas de
pessoas que vinham de outros estados, pedindo uma bênção, uma palavra
acolhedora e uma mensagem de paz em momentos de tristeza. Tido como
um santo pela maioria dos fiéis, Padre Libério contribuiu muito com a
sua presença para que a Igreja de Nossa Senhora das Graças se tornasse
um ponto de romaria. Todos os domingos, cerca de três ou quatro ônibus
que transportavam fiéis podiam ser vistos estacionados nas proximidades
da igreja.

Por volta de 1951, a imagem de Nossa Senhora das Graças que, como
já foi relatado, tinha aparecido misteriosamente no canteiro de obras da
igreja, foi substituída por uma imagem maior, doada por Francisco Duarte
Mendonça. Até às vésperas de sua morte, ocorrida em Belo Horizonte na
tarde de 13 de abril de 1986, o saudoso Padre Viegas procurou saber a
quem pertenciam as misteriosas imagens de Nossa Senhora e Santa
Catarina, mas nunca descobriu.

Em 1985, quando era vigário da Paróquia de São Francisco o Frei
Estanislau Bartholdy, a igreja passou por uma reforma, tendo recebido,
na época, a imagem de um Cristo na cruz, esculpido em madeira por
Raimundo Nogueira de Faria - o Sica.

No dia 15 de setembro de 1997, o então Vigário Frei Edvaldo
Kemmeren celebrou uma missa na Igreja de Nossa Senhora das Graças
em comemoração aos 50 anos da primeira missa, celebrada pelo Padre
Viegas em 1947.

A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes

Um ano após a celebração do centenário das aparições de Nossa
Senhora na cidade francesa de Lourdes, os católicos de Pará de Minas se
reuniram e mandaram construir na cidade uma gruta, onde até hoje se
encontram as belas imagens ria 'Virgem de Lourdes e de Santa Bernadete,
doadas durante a solenidade de inauguração, ocorrida no dia 10 de

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fevereiro de 1959.

Naquela época, em Pará de Minas, os moradores da região da praça
da Independência queriam que a gruta fosse construída ali e tentaram
convencer o vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, Padre
Gabriel Hugo da Costa Bittencourt, de que aquela seria a melhor
localização para a gruta. Padre Hugo, no entanto, achou melhor construí-
la na região oeste da cidade, onde hoje é o bairro de Nossa Senhora de
Lourdes.

Aproveitando o momento da homenagem à Virgem Maria e talvez
acreditando que, com a construção da gruta, novos habitantes passassem
a residir naquela região, o prefeito de Pará de Minas, Edward Moreira
Xavier, decretou a criação do bairro, que recebeu o nome de Nossa
Senhora de Lourdes. O decreto foi lido durante a solenidade de
inauguração.

A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes foi o resultado de um trabalho
de fé e dedicação que movimentou os moradores da praça Francisco
Valadares em torno do pedreiro João Viegas, responsável pela obra.
Embora não tivesse o aval de um engenheiro, João Viegas conseguiu
realizar um trabalho perfeito graças à sua experiência e talento como
mestre de obras. Os trabalhos iniciaram-se em 24 de setembro de 1958 e,
em pouco mais de 4 meses, a gruta foi inaugurada.

O Livro de Tombo n. 3 da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade
registra que no dia 10 de fevereiro de 1959 (APNSP) o povo pará-
minense, “num digno testemunho de amor à excelsa Mãe de Deus,
deixará perenizado o centenário de suas aparições em Lourdes,
oferecendo-lhe uma piedosa Gruta”. O mesmo livro registra ainda que às
9 horas da manhã do mesmo dia foi celebrada uma missa na Matriz de
Nossa Senhora da Piedade por intenção de todas as pessoas que
trabalharam na construção da gruta e que, às 16 horas, houve uma nova
celebração, dessa vez em frente à Padaria Guimarães, onde já se
encontravam as imagens de Nossa Senhora de Lourdes e de Santa
Bernadete, doadas pelos proprietários daquele estabelecimento. Em
seguida, os fiéis dirigiram-se em procissão até a gruta, onde as duas
imagens foram colocadas, tendo ali recebido a benção do pároco.

Com o passar dos anos, o bairro Nossa Senhora de Lourdes cresceu,

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ganhou novas residências, estabelecimentos comerciais e muitos novos
moradores. Com o tempo, também, a gruta passou a ser vista não só como
um símbolo da fé em Nossa Senhora, mas também como um ponto de
encontro para os fiéis em festividades.

Em entrevista realizada no dia 6 de março de 2003, uma das
zeladoras da gruta, D. Áurea Geralda de Carvalho, recordou a época em
que, na opinião dela, eram realizadas as melhores festas religiosas de Pará
de Minas, “bem ali” em frente à gruta nos anos 60 e 70.

D. Áurea recordou, também, com muita alegria, a época em que ela
e D. Antônia Lucinda da Silva, mais conhecida como Tunica, “tomavam
conta da gruta”. D. Antônia se entregava com afinco à tarefa de varrer e
lavar o interior, molhar as flores e cuidar das plantas que ornamentavam
as pedras sobre as quais se erguiam - e ainda se erguem - as imagens de
Nossa Senhora de Lourdes e de Santa Bernadete. D. Áurea e a irmã de D.
Antônia, D. Maria José F erre ira, eram as auxiliares e, juntas, recebiam
o apoio de todos os moradores da região. No seu leito de morte, D.
Antônia pediu ao Padre Hugo para “entregar a gruta para D. Áurea tomar
conta”, o que foi feito, e D. Áurea tomou-se zeladora da gruta juntamente
com D. Maria Alice de Almeida Peixoto, mais conhecida como Licinha.
Hoje, D. Licinha é a responsável pela limpeza e organização da gruta,
contando sempre com a ajuda dos outros moradores da praça.

O Cristo Redentor de Pará de Minas

No dia 25 de agosto de 1963, a cidade de Pará de Minas recebeu das
mãos de seu filho Joaquim Xavier Villaça um presente que jamais seria
esquecido, pois ainda hoje encontra-se majestoso e imponente no alto da
Serra de Santa Cruz, onde pode ser visto e apreciado por toda a
população: a estátua do Cristo Redentor.

Joaquim Xavier Villaça – mais conhecido como Nem Villaça – foi o
idealizador do projeto e, mesmo contando na época com mais de 80 anos,
lutou com muita gana e determinação para que seu sonho se tomasse
realidade. Nessa empreitada, contou com a colaboração do engenheiro

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civil Ives Soares da Cunha, dos pedreiros Adriano de Carvalho e Vicente
Pereira Duarte, do Sr. José Alves Ferreira, que doou o terreno, e de muitos
outros cidadãos que acreditaram no projeto e se empenharam para a sua
concretização. O coração de alumínio no peito da imagem, por exemplo,
foi uma contribuição do povo, que doou talheres, copos, fôrmas e outros
utensílios para serem fundidos e utilizados como matéria-prima básica
para a confecção da peça.

Para muitas pessoas que não conhecem a história do monumento do
Cristo Redentor de Pará de Minas, a estátua no alto da Serra de Santa
Cruz não passa de uma imitação da escultura do Cristo do Rio de Janeiro,
que foi inaugurada em 12 de outubro de 1931 e recebeu, na época, o título
de maior escultura art déco do mundo. De fato, a primeira inspiração de
Joaquim Xavier Villaça foi, segundo seu neto Marcos de Abreu e Silva,
uma pequena imagem do Cristo Redentor do Rio que seu avô comprara
na loja do Sr. Luiz Martins dos Santos. Ademais, é fato também inegável
que a relação de Nem Villaça com o Rio de Janeiro era de longa data.

Nascido em 30 de julho de 1878, o idealizador do “Cristo de Pará de
Minas” foi ainda jovem para a capital carioca, onde trabalhou na casa
comercial Barbosa dos Santos e Cia., tendo ali ocupado vários cargos.
Embora já estivesse de volta a Pará de Minas na época em que a estátua
do Rio começou a ser construí da, Nem Villaça certamente recebia de
seus conhecidos notícias sobre o andamento das obras – iniciadas em
1926 e concluídas cinco anos depois. Talvez tenha até mesmo visitado o
Rio nesses anos e acompanhado de perto o transporte e a montagem das
peças que constituíram a imponente escultura no alto do Corcovado.

Entretanto, apesar da inspiração, o Cristo Redentor de Pará de Minas
é uma obra absolutamente original. Embora tivesse elegido como ponto
de partida uma réplica do Cristo do Rio, Joaquim Xavier Villaça
desenvolveu o seu modelo baseando-se em estudos de moldagem que
realizava em sua casa, utilizando para isso dezenas de estatuetas de argila
que ele próprio modelava. Criou, assim, um modelo original que, aos
poucos, foi se transformando na grande escultura que hoje se ergue no
alto da Serra de Santa Cruz, revelando um traçado peculiar que lembra
muito pouco o do Cristo carioca.

Os trabalhos iniciaram-se por volta de 1958 e, cinco anos depois, lá

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estava “Ele”, abraçando a cidade que, naquele dia memorável, levantou
os olhos e assistiu admirada à inauguração da grande escultura. Joaquim
Xavier Villaça contava, na época, com 85 anos de idade. O idealizador
de tão audacioso projeto, juntamente com os outros construtores,
puderam, finalmente, apreciar o resultado de um árduo trabalho e
participar, juntamente com familiares e amigos, da solenidade de
inauguração, realizada no alto da serra em 25 de agosto de 1963. Na
solenidade esteve presente o bispo diocesano Dom Cristiano Portela de
Araújo Pena, que, após dar sua benção ao monumento, celebrou uma
missa ao pé do Cristo que foi assistida por inúmeros fiéis.

Nem Villaça, após ter ajudado fundar o Centro Literário Pedro
Nestor – no início do século –, a Companhia Industrial Paraense e a
Companhia Melhoramentos de Pará de Minas; após ter participado da
Comissão Construtora do novo Hospital Nossa Senhora da Conceição, do
Grupo Escolar Torquato de Almeida e do Ginásio São Francisco - hoje
Escola Estadual Fernando Otávio; e após ter construí do o primeiro prédio
da cidade, com três andares, pôde fechar os olhos em paz para esta vida,
admirando da janela de sua casa a sua obra-prima. Joaquim Xavier
Villaça faleceu em 27 de março de 1965.

Frei Eugênio Maria de Gênova

Frei Eugênio Maria de Gênova foi um missionário franciscano da
Ordem dos Frades Menores que passou pela região de Pitangui e Pará de
Minas em meados do século XIX. Embora seu trabalho missionário seja
digno de nota, Frei Eugênio é mais lembrado na região como construtor
de cemitérios, tendo sido, ao que tudo indica, um dos primeiros
representantes do catolicismo na nossa região a levar os cemitérios para
fora das igrejas.

Nascido na província de Gênova, na Itália, em 4 de novembro de
1812, frei Eugênio recebeu as ordens sacras em 1836. No ano de 1843,
veio para o Brasil em missão evangelizadora, chegando ao Rio de Janeiro
em 19 de julho daquele ano. No Livro Tombo da Paróquia Nossa Senhora

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da Piedade (ano de 1855) encontramos uma citação da presença de Frei
Eugênio na Vila do Pará – assim como a de outros freis – em trabalho
missionário, mencionando a construção do cemitério paroquial.

Todos os historiadores locais consultados afirmam que foi ele quem
construiu os “cemitérios velhos” de São Gonçalo do Pará, de Carmo do
Cajuru e de Pitangui, entre 1853 e 1855. Em São Gonçalo do Pará, por
exemplo, Frei Eugênio coordenou os trabalhos de construção do
cemitério local, utilizando, para isso, mão-de-obra escrava pertencente a
fazendeiros da região. Os muros foram construídos em pedra por escravos
da Fazenda do Ribeirão dos Morais, de propriedade do Sr. Inácio Ferreira
Gomes. Eram muros característicos de outras áreas da região, chamados
popularmente de “muros escravos”.

Localizados no alto de uma colina, o cemitério municipal (ou
“cemitério velho”, como é também chamado) e sua bela capela, dedicada
a São Miguel (também construída por Frei Eugênio no século XIX),
podem ser vistos da igreja matriz, de onde, segundo um historiador local,
são percebidos pela população de São Gonçalo envoltos em “insondável
mistério”: ““.e parece que seus moradores, de suas sepulturas, espreitam
cá embaixo os nossos gestos, ouvem os nossos passos e acompanham o
nosso deambular pelos intricados caminhos da vida”.

Vigário Paulino Alves da Fé: uma história de vida
perdida no tempo

Paulino Alves da Fé nasceu em 2 de fevereiro de 1821 na Freguesia
de Sant' Arma da Onça, região de Pitangui, filho de Francisca de Oliveira
Barbosa. Mais tarde, esse menino tornaria-se o primeiro vigário colado
da Cidade do Pará, após se formar em Mariana pelas mãos do moralista
Dom Antônio Ferreira Viçoso, bispo daquela diocese que abrangia três
quartos da província de Minas Gerais.

Vigário Paulino foi pároco em Pará de Minas por quase seis décadas.
Era homem de confiança dos paroquianos até nas pendências judiciais.
Durante esse tempo, acumulou muitos bens, que ficaram para os netos.

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Isso mesmo! Para os netos! Em testamento, ele confessou ter tido uma
filha, que já havia falecido quando o documento foi lavrado.

Antes, porém, de abordarmos os fatos que marcaram a vida do
Vigário Paulino em Pará de Minas, é preciso analisar a situação da igreja
católica na época do vigário.

No século XIX, o objetivo central da Igreja na América Latina era a
ampliação do sistema educacional católico, com a criação de faculdades
e universidades em diversos países. Esse projeto da Igreja, porém,
encontrou resistência por parte dos liberais, que pleiteavam a construção
de modernos centros de ensino desvinculados da Igreja e organizados de
forma a reproduzirem os ideais do liberalismo.

Na América Espanhola, após a independência política, ocorreram
diversos confrontos entre os advogados e políticos que queriam a
manutenção da universidade colonial e os que lutavam pela implantação
de uma instituição moderna, liberal. Para os últimos, “os antigos
estabelecimentos superiores eram símbolo do atraso, da opressão e do
domínio da Igreja” (PRADO, 1999). Por outro lado, os partidários do
clero defendiam a ideia de que a educação e a moral não poderiam ser
garantidas por outra instituição que não fosse a igreja católica.

Nota-se que o clima era de tensão entre a Igreja e o Estado.

Entretanto, os liberais saíram vitoriosos nessa disputa. Com a
derrota, a Igreja teve que se sujeitar ao Estado, que “ocupou seu
preeminente lugar na educação” em toda a América Latina (Ibidem).

No Brasil, no final do Segundo Reinado, nos anos 1860, a chamada
“Questão Religiosa” estava na ordem do dia. Os bispos de Olinda e
Belém, Dom Vital de Oliveira e Dom Antônio de Macedo Costa,
formados na Europa, voltaram para o Brasil dispostos a propagar e a
defender o catolicismo, lutando contra o próprio Estado, se necessário
fosse. Seguindo a Bulla Syllabus, do papa Pio IX, esses bispos proibiram
as “alianças entre a Maçonaria e a Igreja, entre o catolicismo e o
liberalismo, que o negava ou desfigurava” (HOLLANDA, 1966). Agiram
com rigor contra os católicos maçons, obrigando-os a optar entre a Igreja
e a Maçonaria. Esse fato acabou aumentando a tensão entre a Igreja e o
Estado no Brasil, pois, aqui, o Estado Imperial apoiava a Maçonaria.

Dom Vital de Oliveira afirmava que a Maçonaria era uma sociedade

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condenada pela Igreja e que o governo não tinha competência para
lidar com questões religiosas. Só restava, então, uma saída: “Ou o
governo do Brasil declara-se acatólico, ou declara-se católico” (Ibidem).

A briga se arrastou por um bom tempo, uma vez que grande parte
dos parlamentares brasileiros e também o próprio imperador D. Pedro II
eram maçons. Nesse embate, os bispos acabaram presos.

Uma missão brasileira foi enviada ao Vaticano para tentar resolver o
impasse, mas não obteve sucesso.

Para a monarquia, a afirmação da religião oficial estava ligada ao seu
próprio destino; afinal, era o catolicismo que afirmava o direito divino da
realeza e a sustentava.

Com relação à educação, as discussões parlamentares se acirraram
em 1879. Novamente estava na pauta de discussões o relacionamento da
Igreja com o ensino superior no Brasil. O deputado Joaquim Aurélio
Barrete Nabuco, da província de Pernambuco, opunha-se à ideia de se
criar, no Brasil, faculdades livres católicas, por ele consideradas
contrárias à ciência. Era contra a concessão de verbas para os seminários,
entendendo que “nesses seminários, os meninos se tomavam padres por
persuasão hábil da parte dos mestres, sendo educados em uma atmosfera
especial de misticismo, isolados de todas as ambições e aspirações
patrióticas. A Igreja, pois, que os educasse à sua custa” (FREYRE, 2000).

Com o passar do tempo, as discussões avançaram. e o projeto
católico continuou reiterando a importância da educação, único caminho
capaz de promover a revolução espiritual necessária ao país. Porém, foi
só na aurora dos anos 40 do século XX que as universidades católicas
foram instaladas no Brasil, tardiamente em relação aos demais países
latino-americanos. “Em outubro de 1940, Getúlio Vargas autorizava o
funcionamento das faculdades católicas (Direito e Filosofia), no Rio de
Janeiro, inauguradas em março de 1941” (PRADO, 1999).

Entretanto, a Igreja investiu em outros setores para propagar sua
doutrina em território brasileiro e estimular a generosidade e a caridade
dos seus fiéis para com o próximo, em especial os mais carentes. Assim
nasceram as “santas casas de misericórdia”, das ordens terceiras,
confrarias ou irmandades, “uma força protetora do homem contra a
doença, a velhice, a desgraça” (FREYRE, 2000).

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Essas casas de caridade eram administradas pelos chamados “bons
homens” da Igreja, que praticavam a caridade e o m110r cristão. Esses
mesmos homens, na hora da morte, talvez temendo o fogo do inferno,
muitas vezes deixavam para as santas casas de misericórdia e outras
irmandades legados consideráveis em testamentos impregnados do
“melhor sentimento cristão” (Ibidem). Em Pará de Minas, por exemplo,
o Vigário Paulino Alves da Fé deixou certa quantia em seu testamento
para a Santa Casa de Caridade - atual Hospital Nossa Senhora da
Conceição -, instituição que havia ajudado a fundar na então “Cidade do
Pará” em 1885, conforme documento a seguir:

“Aos vinte dias do mês de janeiro do Ano do Nascimento de Nosso
Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e oitenta e cinco, nesta cidade do
Pará, Comarca de Sete Lagoas, no prédio destinado ao mesmo hospital,
presentes os cidadãos Marciano Augusto de Moura, Presidente interino
da Associação religiosa de caridade; Joaquim Peregrino Varela,
Secretário; Alferes Francisco Esteves Rodrigues, Tesoureiro; Antônio
Júlio Teixeira de Faria, Procurador; o Reverendo Vigário desta Freguesia
Paulino Alves da Fé; os irmãos da mesma associação, abaixo assinados;
o Dr. João Severiano de Souza Mata e o quartanista de medicina Cândido
José Coutinho da Fonseca Júnior, convidados previamente para
assistirem a este ato. (...) O Presidente, depois de haver feito uma
importante exposição sobre as vantagens da instituição desta Irmandade,
declarou instalada a dita Casa. (...) Depois, observando provisoriamente
os estatutos do Hospital de Caridade da Cidade de Sete lagoas, declarou
que se procedesse a eleição do Provedor e mais empregados da Mesa
Administrativa. (...) Sendo eleito Provedor o cidadão Marciano Augusto
de Moura. (...) Vice-Provedores, Dr. Cândido José Coutinho da Fonseca
e Francisco de Araújo Lopes Cançado. (...) Tesoureiro, Francisco Esteves
Rodrigues. (...) Secretário, Joaquim Peregrino Varela. (...) Procurador,
Antônio Júlio Teixeira de Faria. (...) Enfermeiro- Mor, José Nunes
Moreira e Silva, além de oito Mordomos, dentre outros membros da
primeira Mesa Administrativa da Casa de Caridade” (SILVA, 1980).

Vinte e dois irmãos do Hospital participaram da reunião e assinaram
a primeira ata, dentre os quais Vigário Paulino Alves da Fé, que também
ajudou na elaboração do Primeiro Estatuto da instituição, aprovado em

71

25 de janeiro de 1885 (Ibidem).

No Brasil do final do século XIX, a Igreja estava à frente da
instalação das santas casas de caridade e das irmandades. Isso fica claro
na provisão da cúria diocesana de Mariana, aprovando o compromisso e
erigindo canonicamente a Irmandade da Casa de Caridade da Cidade do
Pará, por intermédio do bispo Dom Antônio Maria de Sá Corrêa e
Benevides:

“Fazemos saber que atendendo Nós a apresentação da Mesa
Administrativa da Santa Casa de Caridade da Cidade do Pará, deste
Bispado; havemos por bem de aprovar o seu compromisso, redigido em
dezesseis capítulos e quarenta e três artigos, bem como criar a Irmandade
de Nossa Senhora da Conceição da mesma Santa Casa de Caridade. Esta
se cumprirá como nela se contém, salvo sempre os direitos paroquiais e
os da Fábrica da Matriz; se registre na Nossa Câmara e onde mais
convier” (Ibidem).

Esse documento não tem data; porém, no seu verso, encontra-se a
aprovação do governo provincial datada de 15 de janeiro de 1886.

Essa aprovação do governo explica-se pelo fato de não ser suficiente
apenas a aprovação da Igreja para se criar uma santa casa de caridade na
província de Minas Gerais, naquela época. Foi necessário que o estado
também desse parecer favorável:

“O Doutor Presidente da Província, atendendo ao que requereram os
cidadãos Marciano Augusto de Moura, Vigário Paulino Alves da Fé, e
outros fundadores da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Santa
Casa de Caridade da Cidade do Pará, resolve aprovar, na parte civil, o
compromisso que organizaram para regência da mesma Irmandade,
devendo o dito compromisso ser registrado nos livros da Província e onde
mais tocar. Dado no Palácio da Presidência da Província de Minas Gerais,
em Ouro Preto, aos quinze dias do mês de janeiro do ano do Nascimento
de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil oitocentos e oitenta e seis,
sexagésimo quinto da Independência e do Império” (Ibidem).

O bispo Dom Antônio Maria de Sá Corrêa e Benevides também
aprovou a petição do provedor da santa casa de misericórdia da freguesia
da Cidade do Pará, concedendo licença para a construção de uma capela
na santa casa, cujo orago seria Nossa Senhora da Conceição. Na mesma

72

provisão, autorizou o Vigário Paulino Alves da Fé “a benzê-la na forma
do Ritual Romano, e então nela poderá ser celebrado o Santo Sacrifício
da Missa por qualquer Sacerdote aprovado na Diocese, administrar os
Sacramentos da Igreja, menos o Batismo” (Ibidem). Essa autorização foi
lavrada no Paço Episcopal da cidade de Mariana, aos 12 de abril de 1888.
A capela de Nossa Senhora da Conceição foi benzida pelo Vigário
Paulino no dia 5 de janeiro de 1889.

Reorganização da Igreja em Minas Gerais:

Ainda no século XIX, a Igreja Católica na província de Minas Gerais
encontrava-se desestruturada e, por que não dizer, até desmoralizada
devido aos excessos cometidos pelos padres, particularmente na omissão
da homilia e nos abusos sexuais.

Foi nesse contexto que ganhou força no Brasil o Jansenismo, um
fenômeno religioso de origem europeia, muito complexo, com múltiplas
faces e manifestações, apresentando três aspectos principais: “o
dogmático, o disciplinar e o moral” (MELLO, 2000). O Jansenismo foi
um movimento marcado por espiritual idade e moral do temor: o medo
de não pertencer ao número dos eleitos.

A chegada das ideias desse movimento ao Brasil foi facilitada pela
reforma pombalina, promulgada em 1772, visando à formação do clero
português e brasileiro com base em ensinamentos jansenistas, numa
época em que a maioria dos padres da colônia não possuía formação em
seminários. No Brasil, até então, a maior parte dos clérigos buscava
apenas riquezas, preocupando-se pouco com a ação pastoral.

A independência do Brasil do domínio português não trouxe
melhores dias para a Igreja. Os problemas vividos durante o período
colonial continuaram e até agravaram-se. No que dizia respeito à relação
entre Igreja e Estado, o imperador “Dom Pedro I não rompeu com o
sistema de Padroado (domínio do Estado sobre a Igreja); regalista que
era, fez-se herdeiro desse direito dos reis de Portugal no novo império”
(Ibidem).

73

A situação da Igreja Católica em Minas Gerais era tão grave que o
seminário de Mariana fechou suas portas para se tomar quartel de tropas
na revolução de 1842.

Em meio a tantas incertezas, entrou em cena o bispo português Dom
Antônio Ferreira Viçoso, que chegou à cidade de Mariana em 1844,
“encontrando apenas um único seminarista” (Ibidem). O Seminário
Nossa Senhora da Boa Morte, em Mariana, estava em decadência.

Assim que assumiu suas funções, Dom Viçoso concluiu que o
problema dos párocos “era a incontinência e o mau exemplo que davam;
não explicavam a doutrina ao povo. Escândalos públicos eram frequentes.
Mancebias e casamentos desunidos eram sem conta. A escravidão
contribuía para a ruína moral do povo, constituindo uma verdadeira fonte
de imoralidade” (Ibidem).

O quadro se agravava com problemas envolvendo a sexualidade, o
envolvimento dos padres em profissões lucrativas e, sobretudo, a
participação político-partidária do clero num tempo de grande
efervescência política em todo o país.

Para Dom Viçoso, o que estava em jogo era a própria salvação. Na
hora da morte, ele próprio manifestou seu medo do inferno. Em
testemunho do Padre João de Santo Antônio, em carta enviada a Dom
Silvério Gomes Pimenta, há o seguinte relato: “Tendo ido visitar ao nosso
santo Dom Viçoso, pouco antes de sua morte, no decurso de nossa
conversação, me disse ele: 'Oh meu Padre João, estou com muito medo
do inferno'. 'Por que, Exmo. Sr., V. Exa. tem trabalhado tanto para a honra
e glória de Deus e a salvação das almas. Como tem medo do inferno?' 'O
que são estes padres - retorquia ele, estes padres que tenho ordenado?' -
'Oh Exmo. Sr., V. Exa. e todos devemos dar graças a Deus! V. Exa. tem
reformado o clero de quase todo o bispado. Que diferença do que era
antes de V. Exa.! Quantos padres virtuosos e zelosos da glória de Deus e
salvação das almas!' 'O quê, padre, acabo de ordenar um: ele foi para casa,
pôs logo as manguinhas de fora, o suspendi logo, com pouco mais de um
mês de padre'” (Ibidem).

Dom Viçoso era tão moralista que proibiu, em 1874, a realização de
procissões e festividades religiosas noturnas para evitar que homens e
mulheres se encontrassem. Dizia ele que “as mulheres não podem

74

acompanhar as procissões de noite: a constituição do bispado lhes proíbe
debaixo de penas de excomunhão. Fiquem elas no seu lugar no corpo da
Igreja, e sem necessidade não ocupem a capela-mor não peguem em
tochas, nem nos andores ou varas do pálio. Não entrem no corpo da
procissão, mas vão atrás dela inteiramente separadas dos homens. Melhor
será não fazer procissões que fazê-las com tais abusos” (Ibidem).

Dom Viçoso tinha uma visão do mundo profundamente pessimista.
Mais importante que viver as virtudes era fugir do pecado. A frase que
define essa espiritual idade, presente em diversos de seus escritos, é:
“antes morrer, que pecar” (Ibidem).

Vale ressaltar que, nos primeiros anos de seu bispado em Mariana,
entre 1844 e 1847, Dom Viçoso acolheu noventa e nove seminaristas,
sendo a maioria deles pessoas adultas. Em meio aos novos padres
ordenados por Dom Viçoso nesse período estava Paulino Alves da Fé,
ordenado em 18 de abril de 1847. No ano seguinte, Paulino j á era vigário
colado na Cidade do Pará.

Durante seu episcopado, Dom Antônio Ferreira Viçoso fez inúmeras
visitas pastorais para conhecer seu rebanho. Numa delas, esteve em
Pitangui, onde, com grande festa, benzeu a matriz reconstruída e sagrou-
lhe o altar-mor “Desta visita resultou a devoção do beija-pedra no dia 7
de setembro de 1886, entre os católicos pitanguienses. A igreja foi refeita,
porque, em 1850, caiu um raio na Matriz de Nossa Senhora do Pilar quase
provocando seu desmoronamento. Na sessão ordinária da Câmara, de 8
de setembro, vereador Dr. Higino Álvares de Abreu e Silva indicou que
se felicitasse sua Excelência Reverendíssima (Dom Viçoso) pela
reconstrução da Matriz, agradecendo-lhe a cooperação que para isto
prestou, e a parte que veio voluntariamente tomar nos festejos da
inauguração” (SOARES, 1972).

Pitangui, Patafufo e Pará de Minas:

O processo de instalação da Vila do Pará, que ficaria independente
de Pitangui, não foi nada fácil. Uma lei provincial, publicada em 9 de

75

outubro de 1848, conforme Lei n.” 386, elevou o Arraial de Patafufo à
condição de vila, com a denominação de Vila do Patafufo. Porém,
segundo a mesma lei,

n. ° 386, nos seus artigos 2 e 3, a vila seria suprimida se não fossem
construí dos edifícios que servissem de câmara, cadeia e salão de júri
dentro de um prazo de dois anos (ALMEIDA, 1959).

O prazo não foi cumprido, e a Assembleia Provincial suprimiu a Vila
do Patafufo pela Lei n.” 472, de 31 de maio de 1850, conforme projeto
n° 20, apresentado pelo deputado Dr. Joaquim Ferreira da Veiga. A vila,
suprimida por 8 anos, foi finalmente restaurada com a denominação de
Vila do Pará pela Lei Provincial n.” 882, de 8 de junho de 1858.

Em 20 de setembro de 1859, foi solenemente instalada a vila, com as
casas da câmara e cadeia construí das pelos moradores. A eleição dos
novos vereadores se deu em 7 de agosto de 1859, conforme portaria do
presidente da província, de 2 de maio, dirigida à Câmara de Pitangui.

A questão, no entanto, não ficou resolvida. Por causa da briga
política entre liberais e conservadores, o deputado Dr. Gustavo Xavier
Capanema, na sessão ordinária da Assembleia Provincial de 29 de maio
de 1872, apresentou um projeto assinado por 16 deputados pedindo a
supressão da Vila do Pará. O projeto foi aprovado sem discussão na
sessão ordinária de 21 de junho daquele ano.

Naquele tempo, a política não era um jogo leal nem muito menos
pautado pela precisão e firmeza das decisões. Mudava-se o pensamento
de uma hora para outra. Prova disso é que o deputado e capitão Antônio
de Assis Martins, que havia apoiado o deputado Capanema no projeto de
supressão da Vila do Pará, apresentou outro projeto à Assembleia, na
sessão ordinária de 13 de novembro de 1874, pedindo a restauração da
vila, o que garantiria, novamente, a sua emancipação de Pitangui. O
projeto foi aprovado e transformado na Lei Provincial n° 2.081, de 23 de
dezembro de 1874, que restaurou a Vila do Pará. A reinstalação se deu
em 25 de março de 1876, conforme ata original.

A comarca do Pará foi criada em 13 de novembro de 1891, por efeito
da Lei n° 11 (em 1877, a vila havia sido elevada à condição de cidade).

Em 22 de setembro de 1921, pela Lei Estadual n° 806, a Cidade do
Pará passou a se chamar Pará de Minas.

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A Paróquia de Nossa Senhora da Piedade:

O primeiro padre do Arraial de Patafufo foi Luís Machado de Castro,
que exerceu o sacerdócio em um período anterior ao ano de 1847.

Em 18 de abril de 1847, como já visto, foi ordenado pelo bispo Dom
Antônio Ferreira Viçoso O segundo vigário de Patafufo, o Padre Paulino
Alves da Fé, nascido em Sant' Anna da Onça e falecido no início da
madrugada de 24 de outubro de 1906, após 59 anos como vigário colado
da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Patafufo, depois Cidade do
Pará (1877).

“A capela filial de Pitangui, com orago Nossa Senhora da Piedade,
foi elevada à categoria de paróquia canônica pela lei N. ° 312, de 8 de
abril de 1846, através do bispo Dom Antônio Ferreira Viçoso”
(www.camarapm.mg.gov.br).Em1899.comaigrejaameaçandoruir.as
obras de reforma começaram, conforme uma publicação da época: “Os
trabalhos de construção da nossa Igreja Matriz tiveram início em abril de
1899. sob a direção do Reverendíssimo Padre Miguel Vital de Freitas
Mourão (auxiliar do Vigário Paulino), então coadjutor da Paróquia;
contratou o serviço, ordenando a demolição do velho templo. Seguiu-se-
lhe na direção o Reverendíssimo Padre José Pereira Coelho que. nomeado
coadjutor em 1900, desenvolveu uma atividade ininterrupta,
admirabilíssima, para levar a termo a construção do templo” (Livro de
Tombo na 1). A inauguração ocorreu na noite de 31 de dezembro de 1900
para 1 ° de janeiro de 1901, com a celebração de uma missa solene à meia
noite, privilégio concedido por Leão XIII à igreja universal pela
passagem do século (Livro de Tombo na 1 da Paróquia de N. S.” da
Piedade).

Galeria dos vigários de Nossa Senhora da Piedade:

Desde a criação da Capela de Nossa Senhora da Piedade e posterior
instalação da paróquia, poucos sacerdotes a assumiram, até a atualidade.
O primeiro, como vimos. foi o Padre Luís Machado de Castro; depois
dele seguiram o Vigário Paulino Alves da Fé, a partir de 12 de outubro

77

de 1847, de acordo com o livro de Tombo nº 1 da Paróquia Nossa Senhora
da Piedade; o Padre José Pereira Coelho, falecido em 1940; o Padre José
Viegas da Fonseca, substituído interinamente pelo Padre José de Souza
Nobre durante a gestão daquele como prefeito de Pará de Minas; o Padre
Geraldo Maria de Morais Penido, substituído interinamente pelo Padre
Grevy Guimarães até a designação e confirmação pontifícia do pároco
sucessor. Em seguida, assumiu o Padre Gabriel Hugo da Costa
Bittencourt (Livro de Tombo da Paróquia N. S.” da Piedade). Com a
morte de Padre Hugo, fundador e diretor espiritual da Faculdade de Pará
de Minas – Fapam, em 27 de novembro de 2002, assumiu interinamente
o Padre Rafael Caetano Moreira, vigário forâneo da diocese de
Divinópolis e titular da paróquia de São Pedro em Pará de Minas. Em
seguida, assumiu o Padre Paulo Pereira da Silva, o “Padre Paulinho”.

O Vigário Paulino:

Pela análise de documentos do Fundo Cartorial Arnaud Marinho, que
se encontram sob a guarda do Museu Histórico de Pará de Minas e que
foram inventariados pela equipe do Projeto Acervo Documental
Mesopotâmia Mineira, constatamos que o Vigário Paulino residia em
Pará de Minas em um amplo sobrado situado na praça da Matriz, atual
praça Padre José Pereira Coelho.

O Vigário Paulino também possuía vários imóveis, conforme
inventário aberto em 1906, ano do seu falecimento. Dentre esses imóveis,
consta a chácara onde hoje se encontra instalada a Escola Municipal de
Artes e Oficios “Sica”, localizada próximo ao Colégio Sagrado Coração
de Maria. Essa chácara foi adquirida pelo vigário das mãos de Belmiro
José Pinto Coelho, que fez parte da primeira Câmara Municipal da Vila
do Pará, tendo sido responsável pela primeira indicação apresentada na
Câmara na reunião extraordinária de 21 de setembro de 1859, na qual
solicitou a criação de uma agência de Correios na vila recém-criada
(www.camarapm.mg.gov.br). O imóvel também pertenceu a Luiz Orsini,
que dá nome à chácara até hoje.

Segundo Mário Luiz Silva, grande conhecedor da história de Pará de
78

Minas, o Vigário Paulino costumava usar “clesgimam” (casaco comprido
e calça), pois andava sempre a cavalo e só vestia batina para ir à igreja.
Era chamado pelos seus paroquianos de “padrinho vigário”. Era
“inteligente e de muito bom senso, mas de pouca cultura. Seco, às vezes
ríspido, mas amigo, respeitado e querido por todos. Era o guia espiritual
e o conselheiro de seus paroquianos” (Depoimento de Mário Luiz Silva
em 28 de junho de 1978 ao Muspam).

O Dr, Theophilo de Almeida, notável pará-minense que foi batizado
pelo Vigário Paulino, descreve o vigário como a tradição local o
preservou: “figura de expressão bíblica, que todos reverenciavam e lhe
beijavam a mão, sério, austero, beirando os noventa anos, mas lúcido,
embora um pouco surdo”. (Discurso proferido pelo Dr. Theophilo de
Almeida num jantar de homenagem do Lions Club de Pará de Minas em
28 de abril de 1975. Arquivo do Muspam).

Ainda sobre o cotidiano do padre, ficou registrado no Legislativo
local que na “sessão ordinária de 17 de outubro de 1859, deu entrada na
Câmara Municipal o requerimento do Vigário Paulino Alves da Fé, em
que solicitava licença para construção' de uma calçada ou passeio na
frente de suas casas'. Chamado a opinar, o fiscal de obras da Câmara foi
de parecer favorável” (www.camarapm.mg.gov.br).

Pároco modelo de confiança:

O Vigário Paulino Alves da Fé era um homem de muitas funções na
sociedade local. Além de traçar diretrizes e conduzir os rumos da Igreja
Católica na Vila e, depois, Cidade do Pará, ele exercia outras atividades.
Podemos citar as negociações, envolvendo compra e venda de imóveis,
ações e apólices. Ele até emprestava dinheiro aos paroquianos, que, com
raras exceções, se livravam do pagamento dos juros estipulados pelo
vigário.

Como era considerado um homem de confiança, no ano de 1867 foi
convidado a comparecer no cartório para servir de depositário numa ação
de auto de depósito por meio da qual o requerente queria desfazer um

79

negócio.
No documento acima referido, consta que “no Ano do Nascimento

de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e sessenta e sete, aos dois
dias do mês de maio do dito ano. nesta Vila do Pará. em meu cartório. por
parte de Feliciano José de Almeida. me foi entregue uma sua petição
requerendo depósito de dois créditos, sendo um de 100$000 (cem mil
réis) e outro de 40$000 (quarenta mil réis), pertencentes a Leandro
Antônio de Assunção, por não lhe convir mais o negócio de engajamento
do escravo Adão pelas circunstâncias apontadas na mesma petição,
despachada pelo Doutor Antônio Carlos Monteiro de Moura, Juiz
Municipal, que nomeou para depositário o Vigário Paulino Alves da Fé e
mandou que se despachasse o mandado de notificação para levantamento
dos créditos” (FCAM - AUDEP- 165-02[09-Div]).

Paulino da Fé: um padre que dividiu o que tinha com o próximo:

O Vigário Paulino não era um homem ganancioso. Ele doava parte
de seus bens e perdoava dívidas, como poucos em sua época. Sendo um
homem de posses, dono de vários imóveis e de boa soma de dinheiro
investido, o vigário repartia parte do que tinha com as pessoas mais
próximas, como seus ex-escravos, por exemplo.

Conforme um documento redigido em 1893, Vigário Paulino abriu
mão de alguns bens imóveis em favor de seus fiéis servidores:

“Diz Vigário Paulino Alves da Fé que tendo feito a Martinho José de
Novaes a doação intervivos de dois prédios e seus pertences, sitos
(localizados), nesta cidade, no valor de 2:500$000 (dois contos e
quinhentos mil réis), constante da escritura inclusa sob número 01; e
sendo também a Catharina Barbosa de Oliveira, a Jacintho e a Maria feito
o mesmo (Vigário) a doação de outros dois prédios no valor igualmente
de 2: 500$000 (dois contos e quinhentos mil réis) conforme escritura
inclusa sob número 02; somando o valor das duas doações na importância
de 5 :000$0000 (cinco contos de réis ), precisa insinuá-las para inteira
validade. ( ... ) O Reverendíssimo Vigário Paulino Alves da F é disse que

80

possuía, livre de qualquer ônus, uma Chácara que havia sido de Belmiro
Pinto Coelho, com seu chão, aguada, benfeitorias, mobílias e mais
pertences, cuj a Chácara é situada nesta cidade, perto do ribeirão, fazia
doação intervivos [ da Chácara], e de muito livre e espontânea vontade, à
Dona Catharina Barbosa de Oliveira, residente em Rita, com o ônus
porém de em tempo algum pudessem dispor – em 1897, usando da
Cláusula Revogatória, Vigário Paulino autorizou a venda da Chácara para
o cidadão Luiz Orsini, por 16:000$000 (dezesseis contos de réis) (FCAM
-EMB- 24 7 -07[ 18- Div]) (...) Também livre de ônus, mais duas casas
edificadas na rua que desce do Cemitério, cujo quintal divide com a casa
que se acha na rua de cima pelos bambus e com os mais vizinhos pelas
cercas dos quintais nos lugares existentes; e uma outra sita na rua da
Vargem que foi do finado Camilo José D' Araújo. (...) no valor de
2:500$000 (dois contos e quinhentos mil réis). (...) Mais duas casas sitas
nesta cidade, na rua Direita e Largo da Matriz, sendo uma onde habita o
Reverendíssimo Vigário, outra onde reside o cidadão Martinho José de
Novaes, dessas duas casas, constava as mobílias e mais pertences que
forem dele doador a exceção de qualquer quantia de dinheiro que nas
mencionadas casas fazia a doação intervivos, ao já referido cidadão
Martinho José de Novaes, no valor de 2:500$000 (dois contos e
quinhentos mil réis), ficando desde já ele donatário na posse, domínio e
ação das mencionadas propriedades, (...) ficando ainda salvo a ele doador
o direito de revogação com posse por procedimento do donatário,
futuramente, em caso de necessidade para alimentação ou
medicamentação dele, possam ser essas casas e seus pertences
disponíveis, se por falecimento do donatário não lhe ficarem dependentes
legítimos e as supra ditas casas existirem. 03 de março de 1893” (FCAM-
AUDO-314-12[09-Div]).

Vigário Paulino Alves da Fé, o inventariante:

Como visto acima, dentre os beneficiados com as doações feitas pelo
Vigário Paulino estava Catharina Barbosa de Oliveira, falecida em 20 de
dezembro de 1902. Como ela vivia na casa do vigário como empregada,

81

ele se encarregou, em 21 de janeiro de 1903, de mandar fazer o inventário
dos bens deixados pela finada:

“Diz Vigário Paulino Alves da Fé, que é falecida sua empregada
Catharina Barbosa de Oliveira, sem testamento. Declarou que a
inventariada faleceu deixando os herdeiros: Rita Maria de Oliveira, idade
9 anos; José, idade de 6 anos; Maria, 7 anos; todos sobrinhos em segundo
lugar da inventariada. (...) Pelo inventariante Vigário Paulino Alves da
Fé, foi dito que os bens eram os seguintes: dívidas ativas, por crédito
firmado em nove de fevereiro de mil novecentos e dois, com o cidadão
Luiz Orsini - o principal de 4:000$000 (quatro contos de réis), a prazo de
quatro anos vencíveis, sendo o primeiro pagamento em nove de maio de
1898; (...) também ficou a dever Joaquim Xavier Lopes Vilaça, por
crédito firmado em dois de novembro de 1899, a juros de um por cento
ao mês, a quantia de 1 :000$000 (um conto de réis), tendo sido pagos
todos os juros até abril de 1902. (...) Dívidas passivas: Vigário Paulino
Alves da Fé declarou que o espólio lhe deve a quantia de 284$050
(duzentos e oitenta e quatro mil e cinquenta réis) de despesas funerárias
e farmácia, (...) Diz (...) que deve fazer parte do monte inventariado a
quantia de 652$479 (seiscentos e cinquenta e dois mil e quatrocentos e
setenta e nove réis) que era usufrutuária a inventariada por determinação
do Testamento de Martinho José de Novaes, usufruto que recebera em
dinheiro e bens, inclusive uma casa que fôra avaliada por 200$000
(duzentos mil réis). (...) Cidade do Pará, 23 de fevereiro de 1903. (...)
Pagamento feito em 14 de abril e 1903 aos herdeiros Rita Maria de
Oliveira, José e Maria da quantia de 1 :359$049 (um conto, trezentos e
cinquenta e nove mil e quarenta e nove réis) cada um (...) determinado
pelo Juiz de Direito Doutor Pedro Nestor de Salles e Silva”(FCAM-INV-
244-10 [26]).

A herança deixada por dona Catharina Barbosa de Oliveira foi muito
útil para os sobrinhos, em especial para Rita Maria de Oliveira, que pôde
pagar uma parte dos seus estudos no curso de normalista, no Colégio
Providência de Mariana, conforme determinação de seu tutor, Augusto
César Moreira, após a morte do Vigário Paulino. O tutor também cuidou
de toda a sua formação, até o casamento, quando entregou a ela e ao
marido o dinheiro que sobrou (Ibidem).

82

Precavido, o vigário elaborou seu testamento:

O testamento chama a atenção por trazer uma importante confissão
do vigário. O texto não deixa margem para dúvidas: Vigário Paulino
cometeu um pecado considerado muito grave entre o clero,
principalmente na sua época, marcada pela sombra do bispo moralista
Dom Antônio Ferreira Viçoso, cuja frase mais famosa era “antes morrer,
que pecar” (MELLO, 2000). O bispo condenava com maior rigidez o
pecado sexual, ao qual não resistiu o Vigário Paulino.

Além de fazer referência à filha que teve o vigário, o documento
também registra algumas curiosidades. Vejamos o que diz o texto
original:

“Com grandíssimo vexame e milhares de arrependimentos declaro,
que tendo sido agredido e vencido pela natural e comum fragilidade
humana, dela resultou-me uma filha de nome Maria Margarida da
Conceição, nascida de mãe desimpedida, exposta que foi em casa do
finado Valeriano Francisco da Silva e casada que foi com Benvindo
Gonçalves dos Reis, a qual, neste Testamento, reconheço por minha filha,
e corno já seja falecida, a declaro e instituo minha legítima herdeira nas
pessoas de seus filhos, que reconheço por meus netos, e que corno tais
herdarão as duas terças partes dos meus bens, nos quais me sucederão
corno descendentes ou, em último caso, corno legatários” (FCAM-
TEST-632-32 [27-Div]).

O vigário também não se esqueceu do afilhado Evaristo José de
Oliveira e de sua mulher Francisca Maria de Jesus, que herdaram uma
boa quantia em dinheiro, além de imóveis. Lembrou-se ainda que devia
favores a um ex-escravo, por isso amparou a filha do antigo servo: “Para
minha protegida menina Rita, filha de meu finado liberto Antônio
Francisco de Oliveira, deixo as duas casas com seus quintais divididos
corno se acham ambas sitas no referido Largo do Rosário, urna maior e
que faz esquina na rua a que desce para a ponte, e outra menor, sita entre
esta, e que serviu de rancho” (Ibidem).

Mas as surpresas não param por aí. Vigário Paulino Alves da Fé
incluiu em seu testamento outro pedido inusitado: “Determino que meu
corpo, de noite, se puder, seja conduzido por quatro pobres jornaleiros

83

(trabalhadores que recebiam por dia de serviço) de pés no chão, a cada
um dos quais dada seja a gratificação de dois mil réis, e assim conduzido,
seja acompanhado e simplesmente encomendado por um só sacerdote,
que quatro missas por minha alma dirá, urna de corpo presente, e três nos
dias 3º, 7° e 30° de meu enterramento”(Ibidem). Foram nomeados
testamenteiros: Manoel José Simões, Faustino Pereira da Fonseca e
Evaristo José de Oliveira. Esse documento foi lavrado em 11 de Abril de
1905 e assinado pelo Vigário Paulino Alves da Fé.

A herança deixada pelo vigário garantiu o futuro dos netos e de
outros beneficiados:

“Diz Manoel José Simões que. no mês de outubro - dia 24 de outubro
de 1906, à uma e meia da madrugada, faleceu, nesta cidade, o
Reverendíssimo Vigário Paulino Alves da Fé, que instituiu o suplicante
em Testamenteiro e inventariante dos bens que deixou; no referido
testamento, o Vigário Paulino Alves da Fé reconheceu urna filha. já
falecida, e instituiu bens deixados aos filhos dela. seus netos. cujos nomes
o suplicante protesta declarar em termo competente. Um dos herdeiros
instituídos, Cândido Gonçalves dos Reis, é menor e por esse motivo
tomou-se necessário inventariar no Juizado de Órfãos, os bens que o
finado deixou, os quais excedeu à tape do regimento. (...) Cidade do Pará.
6 de dezembro de 1906. (assinado) Manoel José Simões” (FCAM-TEST-
632-32[27-Div]).

No relato do inventário foram relacionados os nomes dos herdeiros
diretos do Vigário Paulino Alves da Fé, como se segue:

“Filha: Margarida da Conceição, falecida, casada que foi com
Benvindo Gonçalves dos Reis, deixando os seguintes filhos (netos do
Vigário): 1° - José Gonçalves dos Reis, casado; 2° - Maria Benvinda,
casada com José Honório dos Santos; 3° - Maria José, casada com
Joaquim Alves da Silva Moreira; 4° - Maria das Dores, casada com
Juscelino Cesário da Fonseca; 5° - Cândido Gonçalves dos Reis, solteiro,
idade de 14 anos”(Ibidem).

O juiz Dr. Pedro Nestor de Salles e Silva e os partidores Joaquim
Eustáchio Esteves Rodrigues e Ricardo José Marinho deduziram as
dívidas e as despesas, destinando os seguintes valores para os herdeiros:
a cada um dos cinco netos coube a quantia de 8:883$962 (oito contos,

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oitocentos e oitenta e três mil, novecentos e sessenta e dois réis); Evaristo
José de Oliveira recebeu o total de 9:277$330 (nove contos, duzentos e
setenta e sete mil, trezentos e trinta réis). O pagamento feito à herdeira
Rita Maria de Oliveira (filha de sua empregada, Catharina) somou
10:794$953 (dez contos, setecentos e noventa e quatro mil, novecentos e
cinquenta três réis). Os herdeiros José Gonçalves dos Reis, dona Maria
das Dores, dona Maria José, Cândido Gonçalves dos Reis, representados
pelo advogado Antônio Benedicto Valladares Ribeiro, receberam cada
um a quantia de 8:883$962 (oito contos, oitocentos e oitenta e três mil,
novecentos e sessenta e dois réis), entre bens imóveis, mobília, apólices
da Dívida Pública Nacional, ações de indústria e objetos pessoais, além
de dinheiro.

No processo de inventário, após a relação dos bens deixados pelo
Vigário Paulino Alves da Fé, o testamenteiro Manoel José Simões pediu
esclarecimentos sobre a não inclusão de 200$000 (duzentos mil réis) que,
por desejo do vigário expresso no testamento original, deveriam ir para a
santa casa de caridade, a qual o vigário ajudara a fundar. Isso se deu em
4 de março de 1906. Posteriormente, em 22 de fevereiro de 1907, o
escrivão Moisés da Costa Guimarães assumiu o erro pela não inclusão do
dinheiro deixado pelo Vigário Paulino para a santa casa de caridade da
Cidade do Pará na cópia do testamento que transcreveu (Ibidem).

Todos foram beneficiados com o dinheiro do reverendo, cuja soma
total foi de 71:250$765 (setenta e um contos, duzentos e cinquenta mil,
setecentos e sessenta e cinco réis), uma bela fortuna para a época. Porém,
ao que parece, os que melhor empregaram o dinheiro foram Rita Maria
de Oliveira, que se formou normalista, casou-se e foi morar em Campo
Belo; e Cândido Gonçalves dos Reis, que foi estudar “Pharmácia” em
Ouro Preto e depois se estabeleceu no distrito - hoje cidade - de
Papagaios.

Em 14 de janeiro de 1907, Martinho Francisco Alves requereu
direitos sobre o espólio do Vigário Paulino Alves da Fé no valor de
5:000$000 (cinco contos de réis). O peticionário argumentou dizendo que
sua filha Maria Rita de Oliveira vivia em companhia do vigário. Porém,
no dia 29 de janeiro de 1907, o juiz Pedro Nestor de Salles e Silva
indeferiu o pedido com apenas uma frase: “institui-se os herdeiros e

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legatários”, ou seja, ninguém mais, além dos citados, teria qualquer
direito (FFPN-doc.6234, CEPEHR).

Em 1929, 23 anos após a abertura do inventário do Vigário Paulino
Alves da Fé e a autorização de várias alterações no documento, a Justiça
deu o processo por encerrado.

Anos mais tarde, a Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, onde o
Vigário Paulino permaneceu por 59 anos, realizou a festa do 10
cinquentenário da morte do religioso. A data foi comemorada em 24 de
outubro de 1956, com a Semana das Vocações Sacerdotais.

Cabe ressaltar que, no Livro de Tombo n° 3 da referida paróquia, foi
feita uma correção em 15 de maio de 1997 pelo reverendíssimo cônego
Gabriel Hugo da Costa Bittencourt. No livro, havia sido registrado que
em 1956 comemorava-se o “centenário” da morte do Vigário Paulino
Alves da Fé quando, na verdade, tratava-se do cinquentenário (Livro de
Tombo 3). Em 2006, foi comemorado o primeiro centenário da morte do
Vigário Paulino.

Fica a pergunta: até que ponto ele pode ser julgado pelo erro carnal
que cometeu?

Apesar de ter sido ordenado por um bispo moralista e por ter
abraçado a vida sacerdotal ciente das responsabilidades exigidas pela
função, fica a dúvida se devemos ou não fazer um julgamento da conduta
do Vigário Paulino Alves da Fé, morto há mais de um século, que teve
(ou manteve) relações sexuais durante sua vida sacerdotal.

Em 2004, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil- CNBB-
admite que quase metade dos padres atuais tiveram algum tipo de relação
afetiva, conforme constatado em estudo recente. Dos 758 padres ouvidos
no estudo, 41 % disseram já terem tido “envolvimento afetivo com
mulheres”. Esse “envolvimento” seda um “relacionamento sexual”,
segundo responsáveis pelo levantamento (www1. folha.uol.com.br/folha/
brasil/ult96u60256.shtml - 22/04/04). A CNBB, porém, tentou negar essa
afirmação por intermédio de seu presidente, o cardeal Geraldo Majella
Agnello, argumentando que houve erro de interpretação, pois
“envolvimento afetivo inclui um vasto leque de empenho dos afetos
humanos e não apenas a relação sexual” (www.cnbb.org.br/ag/
ag42/notaesclarece.htm). E acrescenta que “se fosse verdade que, em

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algum momento da vida, 41 % dos sacerdotes tiveram alguma fraqueza
ou queda no campo da castidade, isso ainda não poderia ser interpretado
como situação estável de infidelidade ao dever do celibato”
(www.uai.com.br – 23/04/04).

E o nome da rua?:

Por fim, gostaríamos de levantar uma dúvida surgida no decorrer de
nossas pesquisas sobre os nomes que a atual rua Benedito Valadares já
recebeu.

Segundo consta, primeiramente esse logradouro recebeu a
denominação de “18 de Abril”. Mais tarde, passou a se chamar rua
Direita. Recebeu ainda o nome de “20 de Setembro”, antes de receber a
nomenclatura atual.

A escolha do nome “Benedito Valadares” compreende-se facilmente,
uma vez que se trata de uma justa homenagem ao político ilustre que foi
governador de Minas Gerais e senador; a denominação “20 de Setembro”
refere-se à data da emancipação político-administrativa de Pará de Minas;
rua Direita é um nome bastante comum nos principais logradouros dos
municípios. Mas por que rua “18 de Abril”? Ao que consta, em Pará de
Minas, no estado de Minas Gerais, ou mesmo no Brasil, não existe
qualquer comemoração de relevância nessa data.

Assim, conclui-se que “18 de Abril”, primeiro nome dado à principal
rua da cidade, pode estar diretamente ligado à história do Vigário Paulino
Alves da Fé. Basta observarmos que ele foi ordenado sacerdote pelo bispo
Dom Antônio Ferreira Viçoso em 18 de abril de 1847. Como ele foi o
primeiro vigário colado da cidade, pode estar na data de sua ordenação a
explicação plausível para a atual rua Benedito Valadares ter sido
denominada, um dia, rua 18 de Abril.

Independentemente dessa interrogação, o Vigário Paulino Alves da
Fé empresta hoje seu nome a um logradouro na região central de Pará de
Minas, numa justa homenagem a quem tanto fez pela cidade desde os
tempos em que ela era apenas o Arraial do Patafufo.

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Padre Neném

Quem foi o Padre Francisco Lopes de Araújo, o Padre Neném? Ele
nasceu em Pará de Minas em 17 de março de 1876. Era filho de Francisco
de Araújo Lopes Cançado, conhecido como Chiquinho Bahia, e de Maria
Cândida de Araújo. Seu pai vendeu o terreno para a municipalidade para
a construção do Grupo Escolar “Torquato de Almeida”, sendo agente
executivo na época Fernando Otávio da Cunha Xavier. Sua irmã Blandina
de Araújo Milton integrou o primeiro corpo docente dessa escola e se
casou com o juiz Dr. Aristides Milton, que se tornaria, de 1923 a 1927,
presidente da Câmara e agente executivo de Pará de Minas. Desse casal,
nasceria Mário Silésio de Araújo Milton, primeiro a se inscrever para a
primeira turma do mestre Guignard - Alberto da Veiga Guignard - em
1944, quando Juscelino Kubtscheck, então prefeito de Belo Horizonte,
trouxe o professor do Rio de Janeiro para abrir uma moderna escola de
arte na capital mineira. Mário Silésio tomou-se um mestre da pintura
construtivista. Padre Neném era tio dele.

Padre Neném foi o 6° filho desta terra que se tornou padre. Foi
ordenado em Mariana em 4 de abril de 1899. Sua primeira missa foi
celebrada em Pará de Minas cinco dias depois, no dia 9, na nossa antiga
Matriz de N. S.ª da Piedade. Daqui nunca se ausentou longamente. Há,
no Museu Histórico de Pará de Minas – Muspam, diversas fotos e
documentos textuais comprovando sua constante participação na vida
política, religiosa, social e econômica do Pará. Esteve presente na
instalação oficial do Grupo Escolar “Torquato de Almeida” em 22 de
março de 1914, ao lado do presidente do estado de Minas Gerais Dr.
Delfim Moreira e de sua comitiva. Quando o presidente de Minas Gerais
(era essa a denominação do mandatário do estado, que passou a se
denominar “governador” somente após a Revolução de 1930) Dr.
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada visitou nossa cidade em 1928, aqui
estava o Padre Neném! No jubileu de prata do vicariato do Padre Zeca,
em 1931, ele estava também! Com o governador Benedito Valadares em
diversas ocasiões e localidades, de 1933 a 1945, novamente foi visto! Há
registros de memoráveis discursos dele em importantes acontecimentos
em nossa terra. Ele foi um exímio orador!

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Padre Francisco Lopes de Araújo tomou posse na paróquia de
Barbacena em 8 de dezembro de 1908, nomeado por Dom Silvério
Gomes Pimenta. Desenvolveu grande trabalho pastoral e social naquela
cidade. Ali, foi também professor no Ginásio Mineiro. Em 17 de março
de 1924, dia do seu aniversário, foi agraciado pela Santa Sé com o título
de monsenhor em solene cerimônia na matriz de Barbacena perante altas
autoridades locais e estaduais. Entre as autoridades em pose para uma
foto em frente à igreja matriz da cidade, estava o Dr. Antônio Carlos
Ribeiro de Andrada, amigo pessoal do padre.

O político brasileiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada nasceu em
Barbacena e foi um homem de grande atuação como deputado estadual,
federal, senador e presidente do estado de Minas Gerais. Foi um dos
líderes da Aliança Liberal, com participação ativa na Revolução de 1930.
Padre Neném estava ao lado de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada em
uma das inúmeras visitas que o político fez à terra natal do amigo.
Ficamos a imaginar que a proximidade com tantas figuras políticas
proeminentes pode ter influenciado o monsenhor Lopes, para nós o Padre
Neném, a se tornar vereador e presidente da Câmara Municipal de
Barbacena em 1936.

Na vida do religioso há coincidências interessantes que fortalecem a
ligação que ele tinha com sua terra natal: foi batizado pelo Vigário
Paulino Alves da Fé, pároco da Matriz de N. S.ª da Piedade, em Pará de
Minas. Foi grande amigo do Padre Zeca (Padre José Pereira Coelho), que
substituiu o Vigário Paulino. Em 1924, monsenhor Lopes, na matriz de
Barbacena, em 31 de agosto, batizou o menino que aqui chegaria em
1956, também em agosto, para assumir a Paróquia de N. S.ª da Piedade e
que ficaria até o falecimento: Padre Gabriel Hugo da Costa Bittencourt.

Monsenhor Lopes faleceu em 6 de dezembro de 1951, com 75 anos,
em Barbacena, onde esteve à frente da paróquia por mais de 43 anos. Lá,
onde atuou e viveu a maior parte de sua vida, foi sepultado. Pode ser visto
em mais de uma foto no museu daquela cidade, sempre ladeado por
influentes autoridades. Em fotos do museu de Pará de Minas, também
pode ser visto em situações semelhantes. E certamente ele habita a mente
e o coração de tantos que o conheceram.

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Auto de aprovação do testamento do Padre José Pereira Coelho

Aos 4 de agosto de 1938, o tabelião Alfredo Leite Praça foi chamado
à residência do vigário da Paróquia N. S.ª da Piedade para proceder ao
auto de aprovação do testamento. O texto que se segue é uma transcrição
do auto de aprovação do testamento do Padre José Pereira Coelho:

“Saibam quantos este público instrumento de aprovação de
testamento virem, que aos quatro dias do mês de agosto, do ano do
Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e trinta e
oito, nesta cidade de Pará de Minas, do Estado de Minas Gerais, em casa
de residência do testador. à Praça Padre José Pereira, número 78, onde eu
tabelião a chamado vim; e sendo aí, compareceu o Reverendíssimo Padre
José Pereira Coelho, que reconheço pelo próprio e que se acha de pé e em
seu perfeito juízo e entendimento, segundo o meu parecer e das cinco
testemunhas idôneas, previamente convocadas para este ato, e que se
acham presentes e reconhecem também o testador pelo próprio; perante
as quais, por ele testador, das suas mãos às minhas me foi dado o papel
onde comecei este instrumento, fechado, dizendo-me que era o seu
testamento, que eu lho escrevi a seu rogo, e que queria que eu, na
qualidade de tabelião, lho aprovasse, o qual papel eu aceitei e verifiquei
com efeito ser o testamento do sobredito testador Padre José Pereira
Coelho, escrito em quatro páginas de papel, o qual vi, e não achando nele
borrão, riscado ou entrelinha, nem coisa que dúvida faça, lhe fiz as
perguntas da lei, em presença das testemunhas abaixo assinadas; (...)
respondeu que este era o seu testamento e última vontade e que
finalmente era contente que ficasse fechado, cosido e lacrado, que não
fosse aberto senão depois do seu falecimento; e por não encontrar nele
coisa que dúvida fizesse, rubriquei as quatro páginas de papel em que se
acha escrito o testamento (...) e lho aprovei e houve por aprovado na
forma da lei e com todas as solenidades de direito, e será fechado, cosido
e lacrado, com quatro pingos de lacre por banda. E, para constar, fiz este
auto de aprovação em que assina o testador, do que dou fé, sendo
testemunhas presentes: Dr. João Ferreira de Oliveira, médico, casado;
José Ignácio Marinho, comerciante, casado; Erothides Mendes,
comerciante, casado; José de Araújo Mendes, comerciante, casado; e José
Victorino de Oliveira, chouffer – todos maiores, pessoas idôneas,

90

residentes nesta cidade e que reconhecem ser o dito testador o próprio, e
assinam depois de lhes ser lido em voz alta este auto de aprovação, e de
tudo dou fé. Eu, Alfredo Leite Praça, tabelião do 20 Ofício, o escrevi, dou
fé e assino, em público (...). Pará de Minas, quatro de agosto de 1938”
(FFPN-6324/CEPEHR).

O Testamento do Padre José Pereira Coelho

No dia 6 de julho de 1940, na cidade de Pará de Minas, a escrivã
substituta Maria Xavier Capanema escreveu: “Pelo apresentante [coronel
Torquato Alves de Almeida] foi declarado que o Testador, Padre José
Pereira Coelho, faleceu ontem às vinte e três horas e dez minutos, em sua
residência, nesta cidade, com a idade de 72 anos, e que o testamento foi
entregue ao apresentante hoje pela sobrinha do Testador, a normalista
Conceição Pereira, que lhe pediu fizesse a apresentação do mesmo em
juízo (...)”.

O testamento do Padre José Pereira Coelho foi redigido em 16 de
julho de 1938, quando o vigário encontrava-se, segundo suas próprias
palavras, “no gozo pleno de minhas faculdades mentais e livre de
qualquer coacção ou constrangimento”. Pelas disposições testamentárias,
nota-se imediatamente que o saudoso vigário da Paróquia de Nossa
Senhora da Piedade era um homem de ricas posses. Legou a maior parte
dos seus bens a instituições de caridade, conferências vicentinas, igrejas
e seminários, e, como já dito, tratava- se de uma bela fortuna avaliada em
mais de quarenta contos de réis (40:000$000), sem contar as ações que
possuía da Companhia Melhoramentos e a casa que deixou em usufruto
às suas irmãs solteiras e a sobrinhas, localizada na rua “Doutor
Benedicto”, onde, nas palavras do vigário, “nasci e passei a minha
juventude”. Homem caridoso, Padre José Pereira Coelho deixou cem
ações da Companhia Melhoramentos de Pará de Minas ao “futuro Asilo
dos Sacerdotes Inválidos, da Archidiocese de Bello Horizonte”; cem
ações da mesma companhia à “Santa Casa de Caridade desta cidade de
Pará de Minas”; uma caderneta do “Banco Commercio e Indústria de
Minas Geraes”, no valor de quinze contos de réis (15:000$000), aos
pobres de Pará de Minas e seu distrito [a ser entregue ao presidente do
Conselho Vicentino], “para com os juros respectivos annuaes comprar

91

cobertores e, anualmente, distribuí-los com os pobres, sendo meu desejo
que não seja desviada para outro fim a menor parcela desta importância”.
Deixou também uma caderneta do Banco da Lavoura de Minas Gerais no
valor de dez contos de réis (10:000$000) para a Igreja de Nossa Senhora
da Piedade; e uma caderneta do Banco de Minas, também de dez contos,
para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Outros beneficiários do Padre
José Pereira Coelho foram a “Associação da Boa Imprensa”, de Belo
Horizonte; o “Seminário do Coração Eucharístico”, também de Belo
Horizonte; o Colégio do Caraça, onde o vigário iniciou seus estudos; o
seminário de Mariana, onde concluiu seus estudos; e várias conferências
vicentinas de Pará de Minas. Deixou também dois contos de réis
(2:000$000) para as “Obras da Propagação da Fé”. Com relação aos
sufrágios, determinou que “além das missas de corpo presente, sétimo e
trigésimo dia, sejam celebradas cincoenta missas para o repouso eterno
de minha alma”, e mais missas para as almas de seu pai, mãe, irmãos,
mãe de criação (Lídia), avós paternos e matemos e outros parentes
(FFPN-6324/CEPEHR).

“Padre Zeca” e a “praça da Matriz”

Padre José Pereira Coelho nasceu em Pará de Minas em 14 de abril
de 1868 e faleceu em 5 de julho de 1940. Era filho de José Pereira Coelho
e de Maria José das Dores de Melo. Estudou no antigo Colégio do Caraça
e depois ingressou no Seminário de Mariana, ordenando-se padre em
1893.

Mais conhecido como “Padre Zeca”, o Padre José Pereira Coelho foi
nomeado, em 1900, coadjutor do Vigário Paulino Alves da Fé em Pará
de Minas (coadjutor é um sacerdote nomeado para ajudar e substituir um
prior [padre] no exercício de suas funções). No caso em questão, o Padre
José Pereira Coelho, após o falecimento do Vigário Paulino, em 1906,
assumiu o seu lugar, tendo sido nomeado vigário da Paróquia de N. S.ª
da Piedade em 10 de novembro de 1906, posição que ocupou até o seu
falecimento (ocorrido em 5 de julho de 1940), participando ativamente

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de inúmeras iniciativas para o progresso de nossa cidade.

Não encontramos, até o momento, a data correta da urbanização da
praça Padre José Pereira Coelho, mas podemos afirmar, sem receio de
equívoco, que ela ocorreu no início da década de 1930, como comprovam
várias fotos do acervo do museu histórico de nossa cidade. Seu traçado,
com jardins e passeios, foi construído muito antes de ocorrer o
calçamento das vias públicas da cidade, obra iniciada somente em agosto
de 1939.

Em 13 de setembro de 1946, durante as comemorações do centenário
da Paróquia de N. S.ª da Piedade, cujo vigário era o Padre José Viegas da
Fonseca, houve a entronização do Coração de Jesus na praça “da Matriz”
(a antiga), pelo monsenhor José Augusto Dias Bicalho, vigário geral da
arquidiocese de Belo Horizonte, convidado especialmente para a oração
ao pé da “Estátua Monumento Centenário”.

O pesquisador e professor Mário Luiz Silva, em seu trabalho
Logradouros Públicos de Pará de Minas, escrito em 1988, menciona um
fato curioso: “Comumente, a Prefeitura muda o nome do logradouro, mas
o novo não 'adere': a Praça Pe. José Pereira Coelho tem este nome há mais
de 60 anos, ainda é chamada Praça da Matriz, (...)” (SILVA: 1988).

Em 1971, de acordo com a Lei n°. 1247, de 9 de março, a área
correspondente à edificação da Matriz de N. S.ª da Piedade foi
expropriada, e a Matriz foi demolida nesse mesmo ano.

Em 1975, a praça foi reconstruída e ampliada. A ampliação refere-se
ao local da matriz já demolida e à via urbana que havia na frente dela,
separando a igreja da praça. A praça adquiriu uma fonte luminosa e uma
concha, onde atualmente acontecem shows nos finais de semana durante
a feira de artesanato, tomando-se um ponto de encontro, de lazer e
comércio para a nossa população.

Dessa reconstrução há o testemunho da placa fixada em um dos seus
jardins: “DO TRABALHO DOS OPERÁRIOS NASCE A GRANDEZA
DAS NAÇÕES. Esta obra foi construí da e inaugurada na administração
do Prefeito Walter Martins Ferreira, Vice-Prefeito José de Oliveira e
Presidente da Câmara Simeão Stelita de Oliveira, com efetiva
colaboração dos senhores vereadores: José Paulino Pereira Santos - Vice-
Presidente; José Torres Marinho - Secretário; Dalmi Pedro de Assunção,

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Geraldo Marinho, José Primo Duarte, Dr. Joaquim Araújo Mendes, João
Gualberto Teixeira, Moacyr Ferreira Chaves, Mozart Campos Moreira,
Nelson Melo Franco, Vicente Souza Sobrinho, Valdemar d e Oliveira.
30.03.1975”.

ECONOMIA

O povoamento da região de Pará de Minas no
século XVIII

Tomando-se por base um documento citado pelo historiador Sílvio
Gabriel Diniz em seu livro “Pesquisando a História de Pitangui” (1965),
podemos afirmar que no ano de 1764 a nossa região já era conhecida
como “Patafufio” e que aqui já haviam se estabelecido alguns habitantes.
O documento em questão é um Termo de Vereação da Câmara da Vila de
Pitangui datado de 26 de junho de 1764. Segundo Diniz, “verear significa
governar ou reger a terra, estabelecendo bom regime e boa polícia”; era e
o papel das câmaras no século XVIII: não apenas votar e publicar leis, m
administrar toda a área do seu termo, atuando na regulamentação dos
oficiais (de ferreiro, sapateiro, parteira, artesão, etc.), do comércio, das
feiras mercados, na construção de estradas, pontes e calçadas, na limpeza
e n abastecimento da vila, etc.

No século XVIII, a região de Pará de Minas encontrava-se sob
jurisdição das autoridades de Pitangui, devendo ser por elas administrada.
Por isso, em 26 de junho de 1764, reuniram-se os oficiais da Câmara de
Pitangui - dentre os quais encontrava-se o capitão Inácio de Oliveira
Campos. marido da célebre dona Joaquina do Pompéu - e publicaram um
termo de vereação (ou acórdão) em que nomeavam Antônio Salim
Bezerra e João Antunes da Silva como responsáveis por fazer “as listas”
das paragens de “Patafufio e Paciência” (p. 256). Ao que tudo indica, tais

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