lhe aconselharemos, chegando até a pôr-lho em caso de consciência que seja Imperador e não
Arcebispo, porque até lhe é mais fácil, em razão de ser ele mais esforçado que estudante.
— Assim me tem parecido a mim — respondeu Sancho — mas posso dizer, sem mentir, que para
tudo tem habilidade. O que eu por minha parte hei-de fazer, é rogar a Nosso Senhor que o incline
para a parte em que ele se aproveite mais a si, e a mim me faça melhores mercês.
— Falais como discreto — disse o cura — e obrareis como bom cristão; mas o que ao presente se
deve fazer é diligenciar pôr vosso amo fora daquela escusada penitência em que nos dissestes o
deixastes; e para combinarmos o que se há-de pôr em obra, e também para comermos, que já são
horas, bom será que entremos na venda.
Respondeu Sancho que entrassem, que ele esperaria ali fora, e depois lhes diria a causa por que não
entrava, nem lhe convinha entrar lá; mas que lhes pedia lhe mandassem vir para ali alguma coisa
quente, e também cevada para o Rocinante.
Entraram eles e o deixaram. Dali a pouco trouxe-lhe de comer o barbeiro.
Depois, tendo os dois ajustado bem o modo como haviam de conseguir o que desejavam, acudiu ao
cura um pensamento muito conforme ao gosto de D. Quixote e ao que eles queriam. Disse ao
barbeiro que a sua idéia era que ele se vestiria em trajo de donzela andante, e o barbeiro o melhor
que pudesse em hábitos de seu escudeiro; e assim iriam aonde D. Quixote estava, fingindo ser ela
uma donzela afligida e necessitada, e lhe pediria um dom que ele lhe não poderia recusar, como
valoroso cavaleiro andante que era; e que o dom que tencionava pedir-lhe era que viesse com ela
aonde o levasse, a reparar-lhe um agravo, que um descortês cavaleiro lhe havia feito; e igualmente
lhe suplicava que lhe não mandasse tirar a máscara, nem lhe perguntasse nada dos seus particulares,
antes de a ter vingado daquele mau cavaleiro; que tivesse por sem dúvida que D. Quixote estaria por
tudo quanto nestes termos a donzela lhe pedisse, e deste modo o tirariam dali, e o levariam ao seu
lugar, e lá se veria que remédio se poderia dar à sua estranha loucura.
CAPÍTULO XXVII
De como se houveram o cura e o barbeiro, com outras coisas dignas de ser contadas nesta
grande história.
Não pareceu mal ao barbeiro a maranha do cura; e tanto, que para logo a puseram por obra.
Pediram à vendeira uma saia e umas toucas, deixando-lhe em penhor uma sotaina nova do cura. O
barbeiro fez umas grandes barbas de um rabo de boi ruço ou ruivo, em que o taberneiro costumava
espetar o pente.
Perguntou-lhes a vendeira para que eram aquelas coisas. O cura contou-lhe em poucas palavras a
loucura de D. Quixote, e como era conveniente aquele disfarce para o arrancar da montanha onde
então estava. O vendeiro e a vendeira entenderam logo ser o doido o seu hospedado, o do bálsamo,
e o amo do manteado escudeiro, e contaram ao cura tudo que com ele haviam passado sem
omitirem o que Sancho tanto calava.
Em suma, a vendeira entrajou ao cura de modo que não havia mais que pedir. Pôs-lhe uma saia de
pano cheia de faixas de veludo preto largas de palmo, todas golpeadas, e umas roupinhas de veludo
verde, com seus vivos de cetim branco; roupinhas e saia, que deviam remontar-se ao tempo de El-
Rei Wamba.
Não consentiu o cura em que o toucassem, mas pôs na cabeça um barretinho de linho estofado, que
trazia para dormir de noite, e apertou-o na testa com uma fita de tafetá preto, e com outra fita
prendeu por cima do rosto uma máscara feita à pressa, com que cobriu muito bem as barbas, e o
semblante. Encaixou na cabeça o sombreiro, de abas tão largas, que lhe podia servir de guarda-sol,
e, pondo aos ombros o seu ferragoulo, sentou-se na sua mula à moda das mulheres, o barbeiro
montou igualmente na sua, com a sua barba que lhe chegava à cintura, entre ruiva e branca, por ser,
como se disse, da cauda de um boi malhado.
Despediram-se de todos, e da boa Maritornes, que prometeu rezar um rosário, ainda que pecadora,
para que Deus lhes desse boa fortuna em tão trabalhoso e tão cristão negócio, como era o que
empreendiam.
Mas apenas da venda saiu o cura, quando se sentiu entrado dum escrúpulo; não lhe pareceu bem o
ter-se posto daquela maneira, por ser coisa indecente para um sacerdote aquele trajo, embora muito
apropriado à ocasião. Assim o disse ao barbeiro, rogando-lhe que trocassem entre si o disfarce, pois
era melhor que o mestre representasse a donzela necessitada, e que ele, o padre, lhe serviria de
escudeiro, pois desse modo se profanava menos a sua dignidade; e se não estava por si isso, decidiu
não passar adiante ainda que o diabo levasse a D. Quixote.
Neste ponto chegou Sancho, que, vendo os dois naquela mascarada, não pôde conter o riso.
Com efeito o barbeiro conveio na lembrança do cura, e enquanto se trocavam de parte a parte os
hábitos, foi-lhe o cura ensinando o papel que haviam de representar, e as palavras que se haviam de
dizer a D. Quixote para o obrigar a vir com eles, e deixar o covil que tinha escolhido para a sua
escusada penitência.
Respondeu o barbeiro que aceitava a lição, e pontualmente a poria por obra. Dispensou vestir-se
antes de chegarem perto donde D. Quixote estava, e dobrou o fato. O cura experimentou como lhe
assentava a barba, e seguiram caminho, conduzidos por Sancho Pança, que os foi entretendo a
contar-lhes o que lhes tinha acontecido na serra com o encontro do louco, mas sem boquejar, já se
sabe, no achado da maleta, e do que nela havia; apesar de lerdo, o sujeitinho não deixava de ser
fino.
Ao seguinte dia chegaram aonde Sancho havia deixado postos os sinais das giestas; apenas as
reconheceu, disse aos companheiros ser por ali a entrada, e que bem se podiam já vestir, supondo
ser isso necessário para a liberdade do amo, porque eles lhe haviam já dito que o irem assim, e
vestirem-se daquele modo, era importantíssimo para livrarem a D. Quixote da má vida a que se
tinha posto, e que lhe recomendavam todo o cuidado de lhe não dizer quem eles eram, nem que os
conhecia; e que se ele lhe perguntasse (como decerto havia de perguntar) se tinha entregado a carta
a Dulcinéia, dissesse que sim e que, por não saber ler, ela lhe respondera vocalmente, dizendo-lhe
que lhe mandava, sob pena de lhe descair da graça, que viesse logo logo ter com ela, para coisas que
muito lhe importava, porque com isto, e com o mais que eles tencionavam dizer-lhe, tinham toda a
esperança de o trazer a melhor modo de vida, convencendo-o a pôr-se logo em via para se ir fazer
Imperador ou Monarca; e lá de ser Arcebispo nada temesse.
Tudo aquilo ouviu Sancho muito atento, e foi registrando pontualmente na memória, agradecendo-
lhes a tenção de aconselhar ao fidalgo que fosse Imperador e não Arcebispo, pois estava
persuadidíssimo de que para fazerem mercês aos seus escudeiros mais podiam Imperadores que
Arcebispos andantes.
Disse-lhes também que seria bom ir ele adiante para lhe dar primeiro a resposta da sua senhora, o
que só por si bastaria para se ele dali desencovilar, sem eles terem para isso mais trabalho.
Tomou-lhes o conselho de Sancho, pelo que determinaram ficar à sua espera, até que ele voltasse
com a notícia de ter encontrado o fidalgo.
Entranhou-se o escudeiro por aquelas quebradas da serra, deixando-os ambos numa delas, por onde
manava um pequeno e manso regato, sombreado fresca e agradavelmente de outras penhas e
árvores, que por ali abundavam.
Era aquele um dos calmosos dias de Agosto, que por essas partes costumava ser as zinas do verão; a
hora, as três da tarde; o que tudo concorria para tornar o sítio mais aprazível e convidativo para nele
esperarem como de feito fizeram.
Estando assim ambos remansados e à sombra, chegou-lhes aos ouvidos uma voz, que,
desacompanhada de instrumento algum, soava doce e regaladamente, do que não pouco se
admiraram, por lhes parecer que não era lugar aquele onde se esperar quem tão bem cantasse,
porque deixar dizer que pelos bosques e campos se acham pastores de vozes peregrinas mais são
isso encarecimentos de poetas, que verdades. A mais subiu ainda a maravilha, quando repararam
serem versos o que ouviam cantar, não de estilo de pegureiros rústicos, mas de cortesãos discretos;
no que os foi confirmando cada vez mais o teor das letras, que dizia assim:
Quem menoscaba meus bens?
desdéns.
Quem mais ceva meus queixumes?
ciúmes.
Quem me apura a paciência?
a ausência.
De meu fado na inclemência,
nenhum remédio se alcança,
pois me dão morte: esperança,
desdéns, ciúmes e ausência.
Quem me causa tanta dor?
amor.
Quem me as glórias arruina?
mofina.
Quem às dores me há votado?
o fado.
Receio me é pois fundado
morrer deste mal tirano,
pois conspiram em meu dano
o amor, a mofina e o fado.
Quem pode emendar-me a sorte?
a morte.
O bem de amor quem no alcança?
mudança.
E seus males quem os cura?
loucura.
Então em vão se procura
remédio algum a tais chagas,
sendo-lhe únicas triagas
morte, mudança, loucura.
A hora, a conjuntura, a soledade, a voz e a perícia do cantor, causaram maravilha e contentamento
nos dois ouvintes, que ficaram imóveis, aguardando continuação; como porém o silêncio se
prolongasse, determinaram sair à procura de tão esmerado músico.
Iam já efetuá-lo, quando a mesma voz os tornou a deter com este
SONETO
Santa amizade, que habitar imitas
neste baixo, fingido, e térreo assento,
mas que tens por morada o firmamento
coas essências angélicas benditas.
De lá, por dó das térreas desditas,
sonhos nos dás de alegre fingimento,
imitações do céu por um momento,
fugaz consolo às regiões prescritas.
Volta, volta dos céus, pura amizade,
ou proíbe que a amável aparência
te usurpe a desleal perversidade.
Confundida coa nobre e infame essência,
breve reverte o mundo à prisca idade;
volve o caos, é morta a Providência.
Acabou-se a cantilena num suspiro do íntimo, ficando ainda os dois atentos à espera de mais.
Vendo, porém, que a música se tinha desfeito em soluços e ais lastimados, desejaram saber quem
seria aquele triste, tão eminente na toada como dolorido no gemer.
Não andaram muito, quando, ao voltar da ponta duma penha, viram um homem exatamente do
mesmo talhe e figura, como Sancho Pança lhes havia pintado quando lhes referiu a narrativa de
Cardênio.
Quando o homem os viu, em vez de mostrar sobressalto, conservou-se como estava de cabeça
pendida para o peito, com ar de meditabundo, sem levantar para eles os olhos, mais que no primeiro
momento, quando inesperadamente ali chegaram. O cura, que era bem falante (e já tinha notícia
daquela desgraça, porque pelos sinais facilmente o reconhecera), achegou-se para ele, e com poucas
palavras muito discretas lhe rogou que se deixasse daquela tão miserável existência, para que a não
viesse ali a perder, que seria essa de todas as desditas a maior.
Estava naquela conjuntura Cardênio em aberta de perfeito juízo, livre daquele furioso acidente, que
tão repetidas vezes o alheava de si; e assim, vendo os dois em trajo tão desacostumados dos que por
aquelas solidões se deparavam, não deixou de admirar-se algum tanto, e mais, quando ouviu que lhe
tinham falado do seu caso como de coisa sabida; os ditos do cura assim lhe tinham dado a entender;
pelo que respondeu deste modo:
— Bem vejo eu, senhores, quem quer que sejais, que o céu, que tem cuidado de acudir aos bons, e
muitas vezes até aos maus, me envia, sem o eu merecer, a estes lugares tão longes e apartados do
trato comum da gente, algumas pessoas, que, pondo-me diante dos olhos com vivas e variadas
razões quão sem ela ando em levar a vida que levo, têm procurado passar-me deste sítio para algum
outro melhor. Porém, como não sabem o que eu sei, que, tirando-me deste mal, hei-de cair em
algum maior, talvez me devem ter por homem de fraco discurso, e até (o que pior seria) por de
nenhum juízo; e não fora maravilha que assim fosse, porque a mim mesmo se me entreluz que a
imaginação das minhas desgraças é tão forte, e pode tanto para a minha perdição, que, sem eu poder
coibi-la, venho a ficar como pedra, falto de todo o bom sentido e conhecimento. Desta verdade mais
me capacito, quando algumas pessoas me dizem e mostram sinais de coisas que fiz enquanto me
senhoreou aquele acesso. Então nada mais sei que arrepender-me sem fruto, e maldizer
escusadamente a minha desgraça, e por desculpa das minhas loucuras contar a causa delas a quantos
ma querem ouvir. Os cordatos à vista da causa não poderão estranhar os efeitos; e se me não derem
remédio, pelo menos hão-de desculpar-me. O aborrecimento das minhas desenvolturas converte-se
logo em lástima da minha miséria. Se é que vós, senhores, vindes com as mesmas tenções com que
outros já têm vindo, antes de passardes adiante nas vossas discretas persuações vos rogo ouçais a
relação infinda das minhas desventuras. Talvez, depois de me ouvirdes, vos dispenseis do trabalho
que tomaríeis, procurando consolar o que não admite consolações.
Os dois, que nada mais desejavam que ouvir-lhe da própria boca a verdadeira explicação de
tamanha infelicidade, instaram com ele para que lha expusesse, prontificando-se a não fazerem
senão o que ele quisesse, para seu remédio, ou alívio pelo menos.
Com isto começou o triste cavaleiro a sua lastimável história, quase pelas mesmas palavras e passos
contados como a havia relatado a D, Quixote e ao cabreiro poucos dias atrás, quando a propósito do
mestre Elisabat, e pela pontualidade de D. Quixote em guardar o decoro da cavalaria, o conto ficou
truncado, como em seu lugar se disse.
Desta vez porém permitiu a boa sorte que o intervalo da loucura fosse mais prolongado, e desse
ensanchas para se concluir a história. Chegando pois ao passo do bilhete achado por D. Fernando,
disse Cardênio que o tinha bem de cor, e que rezava assim:
LUCINDA E CARDÉNIO
“Cada dia descubro em vós valias novas, que me obrigam a mais vos estimar. Assim se me
quiserdes tirar desta dívida sem prejudicar-me na honra, muito bem o podereis fazer. Meu pai, que
vos conhece, quere-vos bem; sem forçar a minha vontade, há-de cumprir a que vós por boa justiça
igualmente deveis ter, sendo verdade que me estimais como dizeis, e eu devo acreditar.”
— Por este bilhete me determinei a pedir Lucinda por esposa como já vos contei; e foi também por
ele que Lucinda ficou tida no conceito de D. Fernando por uma das mais discretas e ajuizadas
mulheres do seu tempo; e foi, por derradeiro, esta carta a que lhe acendeu o desejo de me perder
antes que o meu se realizasse. Contei eu a D. Fernando o reparo do pai de Lucinda, a saber: que
havia de ser meu pai quem para mim a pedisse; o que eu a ele não ousava dizer-lhe com receio de
que mo recusasse, não porque não estivesse convencido da nobreza, bondade, virtude e formosura
de Lucinda, em suma, de que tinha méritos bastantes para enobrecer qualquer outra linhagem de
Espanha, mas sim porque tinha para mim que o seu desejo era que eu me não casasse tão depressa,
antes de ver o que o Duque Ricardo faria da minha pessoa. Em conclusão, disse-lhe que me não
aventurava a fazer semelhante súplica a meu pai, tanto por aquele inconveniente, como por outros
muitos que me acovardavam, sem bem saber quais eram. Parecia-me que desejos meus nunca
haveriam de chegar a efetuar-se. A tudo isto me respondeu D. Fernando que tomava a si o falar a
meu pai, e resolvê-lo a entender-se com Lucinda! Ó Mário ambicioso! ó Catilina cruel! ó facinoroso
Sila! ó Galalão embusteiro! ó Belido traidor! ó Julião vingativo! ó Judas cobiçoso! ó traidor, cruel,
vingativo e embusteiro! que mal te havia feito este triste, que tão sincero te descobriu os segredos e
contentamento da sua alma? que ofensas te fiz? que palavras te disse ou conselhos te dei que não
fossem inteiramente encaminhados a acrescentar o teu decoro e proveito? Mas de que me queixo,
desgraçado de mim, pois é coisa infalível que em as estrelas nos influindo o infortúnio, como são
mandatos de cima, despenhados com furor e violência, não há força na terra que os detenha, nem
indústria humana que os possa precaver? Quem havia de imaginar que D Fernando, cavaleiro
ilustre, discreto, obrigado de meus serviços, com posses para alcançar o que os seus apetites
amorosos lhe pedissem, onde quer que pusesse a mira, se havia de empenhar, como se costuma
dizer, em me furtar a mim uma só ovelha que eu nem ainda possuía? Mas deixemo-nos destas
considerações escusadas, que já nada aproveitam, e atemos o quebrado fio da minha história.
Parecendo a D. Fernando que a minha presença lhe era inconveniente para a execução do seu
desígnio mau e pérfido, determinou enviar-me ao seu irmão mais velho, com o pretexto de lhe pedir
uns dinheiros para pagar seis cavalos, que no mesmo dia de propósito havia comprado, só com o
fim de me afastar para melhor se lhe lograr o seu danado intento. Comprou-os no dia mesmo em
que se oferecera para falar a meu pai, e quis que eu viesse pelo dinheiro. Podia eu prevenir esta
traição? podia eu sequer imaginá-la? por certo que não, antes com grandíssimo gosto me ofereci a
partir logo, contente da boa compra concluída. Naquela noite falei com Lucinda, e lhe disse o que
ficava combinado com D. Fernando, e que tivesse firme esperança no efeito dos nossos legítimos
desejos. Ela, tão crente como eu na sinceridade de D. Fernando, disse-me que procurasse tornar-me
depressa, pois tinha fé que para logo seriam os nossos votos preenchidos, apenas meu pai falasse
com o dela. Acabando de dizer isto, arrasaram-se-lhe os olhos de água, não sei por que, e pos-se-lhe
na garganta um nó, que não lhe deixava proferir palavra, posto que eu bem via que muitas outras
quisera pronunciar. Fiquei admirado daquele acidente que nunca ainda lhe vira, pois sempre quantas
vezes a fortuna e a minha diligência nos proporcionavam falarmo-nos, era tudo entre nós regozijo e
contentamento, sem a mínima mistura de lágrimas, suspiros, zelos, suspeitas ou temores; era tudo
engrandecer eu a minha ventura, por ma ter o céu dado por senhora. Exagerava a sua beleza:
maravilhava-me do seu valor e entendimento; pagava-me ela na mesma moeda, elogiando em mim
o que na sua qualidade de namorada se lhe figurava digno de elogio. Com isto nos contávamos de
parte a parte mil ninharias e acontecimentos dos nossos vizinhos e conhecidos; e o mais a que se
atrevia a minha desenvoltura era tomar-lhe quase à força uma das suas belas e brancas mãos, e
chegá-la à boca, segundo no-lo consentia o apertado duma grade baixa que nos separava. Naquela
véspera porém da minha partida ela chorou, gemeu, suspirou e foi-se, deixando-me cheio de
confusão e sobressalto, espantado de ter visto tão novas e tão tristes mostras de dor e sentimento em
Lucinda; mas eu para não aniquilar as minhas esperanças, atribuí tudo à força do amor que ela me
tinha, e à dor que a ausência costuma causar nos que bem se querem. Enfim, parti-me triste e
pensativo, com a alma cheia de imaginações e suspeitas, sem saber o que suspeitava ou imaginava;
claros indícios que me prognosticavam já o triste sucesso e desventura que me aguardavam.
Cheguei ao lugar onde era enviado, dei as cartas ao irmão de D. Fernando, fui bem recebido, mas
bem despachado não, porque me deu ordem de esperar oito dias, com grande desgosto meu,
recomendando-me que o Duque seu pai me não avistasse, porque a quantia que o irmão pedia lhe
mandasse era a ocultas dele. Tudo armadilhas do falso D. Fernando, pois o irmão tinha dinheiro de
sobejo para poder imediatamente aviar-me. Aquela ordem e recomendação puseram-me em
balanços de desobedecer, por me parecer impossível que me durasse tantos dias a vida ausente de
Lucinda, e mais tendo-a deixado com a tristeza que já contei. Entretanto obedeci como servo fiel,
sabendo bem ser à custa da saúde. Ao quarto dia chegou a procurar-me um homem com uma carta,
que, pela letra do sobrescrito, de repente conheci vir de Lucinda. Abri-a sobressaltado, entendendo
que não podia deixar de ser coisa grande a que a obrigava a escrever-me, estando ausente, porque
presente poucas vezes o fazia. Antes de lê-la, perguntei ao portador quem lha havia dado, e que
tempo gastara no caminho. Respondeu-me que, passando casualmente por uma rua da cidade, à
hora do meio-dia, uma senhora muito formosa o chamara duma janela, com os olhos cheios de
lágrimas, dizendo-lhe a toda a pressa: “Irmão, se sois cristão, como pareceis, pelo amor de Deus vos
CAPÍTULO XXXIII
Onde se conta a novela do curioso impertinente.
Em Florença, rica e famosa cidade de Itália, na província que chamam Toscana, viviam Anselmo e
Lotário, cavalheiros ricos e principais, e tão amigos, que, por excelência e antonomásia, “os dois
amigos” lhes chamavam todos.
Eram solteiros, moços, de igual idade, e dos mesmos costumes, o que tudo concorria para a
recíproca amizade de entre ambos. Verdade é que Anselmo era algum tanto mais inclinado aos
passatempos amorosos que Lotário; e este se deixava ir de melhor ânimo atrás dos recreios da caça.
Quando porém acontecia, deixava Anselmo de seguir os seus gostos próprios para não faltar aos de
Lotário; e Lotário deixava também os seus para acudir ao de Anselmo. Desta maneira, tão
conformes andavam entre ambos as vontades, que não havia relógio mais infalível.
Andava Anselmo perdido de amores por uma donzela ilustre e formosa da mesma cidade, filha de
tão bons pais, e tão boa ela mesma de sua pessoa, que assentou, com aprovação do seu amigo
Lotário (sem a qual nunca fazia coisa alguma), em pedi-la por esposa aos pais; e assim fez. O
mensageiro da embaixada foi Lotário; e tão a gosto do amigo concluiu o negócio, que em breve
tempo se viu o nosso namorado em posse do seu enlevo, e Camila tão contente de haver alcançado a
Anselmo por esposo, que não cessava de dar graças ao céu, e a Lotário, por cuja intervenção
tamanho bem chegara a pertencer-lhe.
Os primeiros dias que foram todos de folgança, segundo o estilo das bodas, freqüentou Lotário,
conforme ao seu costume, a casa do seu amigo Anselmo, procurando honrá-lo, festejá-lo e regozijá-
lo em tudo que podia. Acabadas porém as bodas, e acalmada já a freqüência das visitas e parabéns,
começou Lotário a escassear já de indústria as idas a casa de Anselmo, por lhe parecer, como é bem
que pareça a todos os discretos, que aos amigos casados já se não hão-de as casas freqüentar tanto
nem com tamanha intimidade, como enquanto viviam solteiros, porque, se bem que a verdadeira
amizade não pode nem deve ser em coisa alguma suspeitosa, contudo tão delicada é a honra de um
casal, que parece se pode ofender até dos próprios irmãos, quanto mais dos amigos.
Reparou Anselmo na menos freqüência de Lotário, e queixou-se grandemente dizendo que, se
adivinhara que do casamento lhe havia de provir tal resfriamento nunca ele o teria feito; e que, se
pela boa harmonia que entre os dois reinava enquanto ele era solteiro, havia alcançado tão doce
título como era o serem chamados os dois amigos, não quisesse agora ele Lotário, só para fazer de
circunspecto, e sem outro nenhum motivo, que tão famosa e agradável antonomásia se perdesse; e
portanto lhe suplicava, se o termo de suplicar podia entre eles caber, que tornasse a ser senhor
daquela casa, entrando e saindo como dantes, assegurando-lhe ele que a sua Camila se conformava
em tudo, e sempre, com os desejos dele, e que, por lhe constar com quantas veras os dois se
amavam entre si, andava até vexada de o ver agora tão arredio.
A todas estas e outras muitas razões de Anselmo respondeu Lotário com tanta prudência e juízo,
que lhe tapou a boca, e concordaram que dois dias por semana, e nos dias santos, Lotário iria lá
jantar; e, ainda que isto ficou estabelecido entre os dois, propôs Lotário como regra geral não fazer
nunca senão o que visse ser conveniente à honra do amigo, cujo crédito ele antepunha até ao seu
próprio. Dizia ele, e com razão, que um marido, a quem o céu concedeu mulher formosa, tanto
devia reparar nos amigos que metia em casa, como ter tento nas amigas com quem sua mulher se
dava, porque, muita coisa que se não faz nem se ajusta nas praças, nem nas igrejas, nem nas festas
públicas e ajuntamentos semelhantes, muitas vezes concedíveis pelos maridos a suas mulheres,
muita coisa de contrabando se conchava ou facilita em casa da amiga ou parenta em que há mais
confiança.
Mais dizia Lotário ser necessário aos casados ter cada um deles algum amigo que lhe notasse os
descuidos que no seu proceder se pudessem dar, porque às vezes acontece, em razão do muito amor
do marido para com a mulher, ou não dar por certas coisas, ou não lhas dizer (para não magoá-la)
que as faça ou as deixe de fazer, podendo umas e outras ser todavia importantes para o crédito ou
descrédito de ambos eles; advertido assim pelo amigo, já o consorte poderia pôr cobro a tempo a
não poucos males.
Mas onde se achará amigo tão discreto e leal como Lotário aqui o pinta? eu por mim não sei; desse
feitio não vejo outro senão o próprio Lotário, quando tão cauteloso está atentando pela honra do seu
amigo, e procurando ainda dizimar, aguarentar e diminuir os dias aprazados para as visitas, para não
darem que falar aos ociosos e aos mirões vadios e praguentos, tantas entradas de um moço rico,
gentil-homem, de claro nascimento e de tantas prendas como ele entendia possuir, na casa de uma
dama tão formosa como Camila. Suposto com a bondade e força própria pudesse Camila pôr freio a
todas as murmurações, contudo não queria ele nem por sombras pôr em dúvidas nem o seu crédito,
nem o dela, nem o do amigo. Por isso os mais dos dias da combinação os ocupava e entrelinha
noutras coisas que dava a entender serem-lhe impreteríveis, por modo que em suma, em queixas de
um e desculpas do outro, se passavam por vezes horas de cada dia.
Uma vez andando ambos a passear por um prado fora da cidade, Anselmo disse a Lotário pouco
mais ou menos o seguinte:
— Bem deves entender, amigo Lotário, que às mercês que Deus me há feito em dar-me tais pais
como eu tive, e bens com mão larga, tanto dos que chamam da natureza, como dos da fortuna, não
posso eu corresponder com gratidão que baste; ainda por cima de tudo mais me favoreceu Deus em
deparar-me um amigo como tu, e uma esposa como Camila, duas jóias que eu aprecio, se não
quanto devo, ao menos quanto posso. Apesar de tantas e tamanhas ditas, que seriam para o geral dos
homens o cúmulo da felicidade, vivo eu no maior desconsolo e desesperação do mundo todo,
porque de dias a esta parte entrou comigo, e me atormenta, um desejo tão estranho e tão raro, que
ando até pasmado de mim mesmo; ralho comigo a sós, e rigorosamente me invectivo, mas em vão;
é tal, que à minha própria consciência o procuro encobrir. Agora porém já não posso ter mão neste
segredo; parece que desejo até fazê-lo de todos conhecido; de ti, de ti, primeiro que ninguém.
Confio em que pelo esforço que hás-de fazer, como verdadeiro amigo, para me acudir, depressa me
poderás livrar da angústia de tão longo silêncio; o meu contentamento atingirá, pela tua solicitude,
ao auge a que pela minha loucura tem já chegado a minha impaciência.
Estava Lotário suspenso com todo este enigmático prólogo de Anselmo, sem poder adivinhar onde
iria aquilo dar consigo, e por mais que revolvesse na imaginação que desejo poderia ser aquele tão
tormentoso, feria sempre com as suas conjecturas longe do alvo. Para sair sem mais demora da
agonia de tamanha incerteza, respondeu-lhe que era agravar manifestamente a sua muita amizade o
andar excogitando rodeios antes de lhe declarar os seus ocultos pensamentos, tendo aliás certeza de
que nele havia de achar em todo o caso ou bons conselhos ou remédios para cura, segundo o
negócio fosse.
— Dizes muitíssimo bem — respondeu Anselmo; — confiado nisso te declaro, amigo Lotário, que
a incerteza que me rala é a de andar cismando se porventura a minha Camila será em realidade tão
boa e completa como eu imagino. Desta incerteza me não posso eu livrar se não for
experimentando-a de maneira que a prova manifeste os quilates da sua bondade, como no fogo do
crisol se apura a fineza do ouro, porque tenho para mim, meu amigo, que uma mulher não é melhor
nem pior que outra, senão conforme a solicitam ou deixam de solicitar, e que só é deveras forte a
que não fraqueia às promessas, às dádivas, às lágrimas e às contínuas importunações dos amantes
obstinados. Pois que há que se agradeça — continuava ele — em ser uma mulher boa, onde nada a
induz a ser má? Que admira que viva recolhida e toda sobre si aquela que não tem azo para soltar-se
e que sabe que tem marido que em a apanhando no primeiro desvio é homem para lhe tirar a vida?
portanto a que é boa por medo, ou por falta de ocasião, não a acho merecedora da estima em que
terei a solicitada e perseguida, que saiu da provação com a palma de vencedora. Por todas estas
razões, e por outras muitas que te pudera referir em abono do meu pensar, desejo que a minha
esposa passe por estas dificuldades, e se acrisole resistindo a atrevimentos. Se ela sai, como espero,
triunfante de tal conflito, ficarei tendo a minha ventura por incomparável; direi ter achado a mulher
forte, de quem o sábio perguntou: “Quem a achará?” No caso contrário, o gosto de ver que não era
errado o meu juízo compensará a pena de uma experiência tão custosa. Já sabes que por demais
seria contrariares-me neste propósito; quero pois, amigo Lotário, que sejas tu próprio o que me
ajudes na provação em que me empenho; eu me encarrego de te proporcionar as facilidades; por
mim nada te há-de faltar de quanto seja necessário para solicitar a uma mulher honesta, honrada,
recolhida e desinteressada. Além de outros motivos, que me obrigam a fiar de ti este cometimento,
tenho o de saber que, se Camila for por ti vencida, nunca a sua rendição há-de chegar às últimas;
pararás onde o dever to determine, e assim não haverei sido ofendido senão em desejos, e a minha
desonra ficará sepultada no teu virtuoso silêncio, que tenho toda a certeza que, no tocante a mim,
há-de ser eterno como o da morte. Se quiseres, pois, que eu tenha vida, que tal nome mereça, hás-de
entrar já já nesta campanha de amores, não friamente nem por demais, mas com afinco, mas com
verdadeira diligência, como eu desejo, e com a confiança a que se não pode faltar entre dois amigos
como nós.
Tais foram as ponderações que Anselmo explanou, e que Lotário (a não ser o que acima se referiu
ter ele dito) esteve escutando com a maior atenção, sem descerrar os lábios até ao fim. Como as viu
concluídas, depois de estar encarando nele por um bom espaço, como se jamais tivera visto objeto
para igual espanto, respondeu:
— Não me pode entrar na idéia, amigo Anselmo, que tudo isso que para aí disseste não passe de
gracejo; aliás, não te houvera deixado prosseguir; se eu não escutasse, poupava-te todo esse
desperdício de palavras. Está-me parecendo, que ou tu me não conheces, ou te não conheço a ti;
engano-me; sei que és Anselmo, e tu não ignoras que eu sou Lotário; o mau é que já me não pareces
o Anselmo de antes, assim como, segundo vejo, já também te não pareço o mesmo Lotário, que
devia ser. As coisas que me tens dito não são do Anselmo meu amigo, nem as coisas que tu me
pedes se deviam pedir a Lotário teu conhecido, porque os amigos verdadeiros hão-de provar os seus
amigos e valer-se deles, como disse um poeta, usque ad aras; isto é, que não se devem valer da sua
amizade em coisas que sejam ofensa de Deus. Se um gentio a respeito da amizade entendeu isto,
quanto mais o não deve sentir um cristão, sabendo que a amizade de Deus por nenhuma da terra se
há-de perder! e quando o amigo fosse tão imprudente que pospusesse os interesses do outro mundo
ao serviço do amigo, nunca por coisas ligeiras o faria, senão só por aquelas em que a honra e vida
do amigo se empenhassem. Ora dize-me tu, Anselmo: qual destas duas coisas, vida ou honra, se te
acham em perigo, para que eu me aventure a comprazer-te, praticando uma coisa tão detestável
como essa que me pedes? decerto que nenhuma; pelo contrário pedes-me, segundo eu entendo, que
forceje para arrancar-te a honra e mais a vida ao mesmo tempo que a mim próprio, porque se hei-de
procurar roubar-te a honra, claro está que te roubo também a vida, porque o homem sem honra é
pior que um morto; e, sendo eu o instrumento, como tu queres que o seja, de tamanho mal teu,
venho eu a ficar desonrado, e por isso mesmo também sem vida. Escuta, amigo Anselmo, e tem
paciência de não me responderes enquanto não acabo de dizer o que me ocorre acerca do que
desejavas; não faltará tempo para que tu depois me expliques e eu te ouça.
— Seja assim — disse Anselmo — podes falar à tua vontade. Lotário prosseguiu:
— Estás-me parecendo agora, meu Anselmo, uma espécie de arremedo dos mouros: aos mouros não
se pode mostrar o erro da sua seita com as citações da Escritura, nem com razões que assentem em
especulação do entendimento, ou se fundem em artigos de fé; não admitem senão exemplos
palpáveis, fáceis, inteligíveis, demonstrativos, indubitáveis, como demonstrações matemáticas das
que se não podem negar, como quando se diz: “Se de duas partes iguais tiramos partes iguais, as
restantes serão também iguais.” E quando nem isto mesmo entendam de palavra, como de feito o
não entendem, há-de se lhes mostrar com as mãos, e meter-se-lhes pelos olhos; e assim mesmo
ninguém consegue convencê-los das verdades da nossa santa religião. No mesmo aperto me vejo eu
contigo, porque esse teu desejo é tão sem caminho, e tão fora de toda a racionalidade que me parece
será tempo perdido o que se gastar para te convencer da tua simpleza (que por enquanto lhe não
quero dar outro nome); e quase que estou em deixar-te lá com o teu desatino, para castigo do teu
mau desejo; mas vale-te a amizade que te professo; ela é que me não consente que te desampare em
tão manifesto perigo de perdição. Para bem compreenderes isto, dize-me, Anselmo: não me
confessaste que eu tinha de solicitar a uma recatada? persuadir a uma honesta? oferecer a uma
desinteressada? cortejar a uma prudente? Disseste-mo, não há dúvida. Pois se tu sabes que tens
mulher recatada, honesta e prudente, que mais queres? e se entendes que de todos os meus assaltos
há-de sair vencedora, como sem dúvida há-de sair, que melhores títulos esperas dar-lhe, que os que
já tem? ou que ficará ela sendo mais do que já é? Ou tu a não tens realmente pela que dizes, ou não
sabes o que pedes. Se a não tens pela que dizes, para que é experimentá-la? Supõe que é má, e faze
dela o que mais te agradar. Mas se é tão boa como crês, impertinente coisa será fazer experiência da
verdade reconhecida, porque depois da experiência há-de ficar tão estimada como dantes era. Regra
certíssima: tentativas em coisas de que antes nos pode vir prejuízo que proveito, são de
entendimento boto e ânimo temerário, mormente quando para tais tentativas não há necessidade
nem obrigação, e logo desde todo o princípio se conhece que se vai tentar uma loucura manifesta.
As coisas difíceis empreendem-se por Deus ou pelo mundo, ou por ambos juntos. Por Deus as
empreenderam os santos, propondo-se viver como anjos em corpo de homens. As que têm por alvo
respeitos do mundo são as daquelas que passam tanta infinidade de águas, tanta diversidade de
climas, tanta estranheza de gentes, para adquirir os chamados bens de fortuna. E as que se cometem
ao mesmo tempo por Deus e pelo mundo são as dos soldados valorosos, que, apenas divisam no
muro inimigo aberta uma pequena ruptura, como a pode fazer uma bala de artilharia, postergam
temores, cerram olhos a toda a consideração dos perigos iminentes, voam com o desejo de acudir à
sua fé, à sua nação e ao seu Rei, e se arrojam intrépidos por meio de mil contrapostas mortes que os
aguardam. Estas coisas, sim, se costumam afrontar, porque é honra, glória e proveito que se
afrontem, ainda que cheias de inconvenientes e perigos; e isso com que tu queres arrostar-te, nem te
há-de alcançar glória de Deus, nem bens de fortuna, nem fama entre os homens, porque, ainda que
saias afinal como desejas, nem por isso hás-de ficar nem mais ufano, nem mais rico, nem mais
acrescentado; e, se não sais como estás almejando, cais na maior miséria que imaginar-se pode,
porque então nada te aproveitará o pensar que ninguém sabe a desgraça que te sucedeu, porque
bastará para te afligir e desfazer-te o sabere-la tu mesmo. Para confirmação desta verdade, quero
repetir-te uma estância que fez o famoso poeta Luís Tansilo no fim da primeira parte das Lágrimas
de S. Pedro; diz assim:
Cresce em Pedro o pesar, cresce a vergonha,
quando vê que no oriente o dia é nado;
ninguém o vê, mas tem de si vergonha,
pois em si sabe e sente que há pecado.
Não é mister que o mundo se interponha
testemunha de um crime a peito honrado;
ele próprio se acusa, aflige, e aterra,
bem que o vejam somente o céu e a terra.
Portanto de não ser notória a tua dor não te provirá isenção dela; terás, pelo contrário, de chorar
continuadamente, senão lágrimas dos olhos, lágrimas de sangue do coração, como as derramava