58 CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS 100
SOCIAIS E A POLÍTICA
DO PÃO E CIRCO CAPÍTULO 11 •
O crescimento urbano em Roma, o desemprego
na zona rural e as “benesses” feitas por meio RELIGIÃO
das lutas de gladiadores nos estádios
O politeísmo e o credo
68 nos deuses, retirados,
em sua maioria, do
CAPÍTULO 8 • próprio panteão
grego. Constantino
ECONOMIA NA torna o cristianismo
ROMA ANTIGA a religião oficial do
Império Romano
Como as relações
econômicas colocaram 112 CAPÍTULO 12 • CRISE E
as diferentes regiões do DECADÊNCIA DO
Império em contato umas IMPÉRIO ROMANO
com as outras e dinamizaram Por que o Império Romano chegou à
as produções de minérios e decadência e como a corrupção dentro
artesanal do governo e os gastos extravagantes
do exército aceleraram o fim
80 CAPÍTULO 9 • RELIGIÃO
124 CAPÍTULO 13 •
CULTURA ROMANA LEGADO ROMANO
As heranças nos aspectos culturais,
Como a cultura romana foi influenciada científicos, artísticos e linguísticos,
pela cultura grega. A mitologia como forma o que enriqueceu a cultural ocidental
e explicação da realidade
92 CAPÍTULO 10 • ARTES
A influência grega nas criações dos artistas de
Roma e a introdução de novos elementos na
arquitetura, como o arco redondo e a cúpula
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
G971
Guia conheça a história : Roma / -- [3. ed.] - São Paulo : On Line, 2016.
: il.
ISBN 978-85-432-0050-7
1. Roma - História.
16-34727 CDD: 937
CDU: 94(37)
18/07/2016 20/07/2016
5
CAPÍTULO 1 • ORIGEM
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Shutterstock
DE VILAREJO
A UMA POTÊNCIA
O SURGIMENTO DE ROMA, NO
CENTRO DA ITÁLIA, DATA DO
SÉCULO VIII A.C., PERÍODO EM QUE
O FUTURO IMPÉRIO ERA APENAS
UM PEQUENO AGRUPAMENTO
DE POVOS DIVERSOS
E m geral, os historiadores modernos
dão como certo o surgimento da cidade
de Roma, durante o século VIII a.C., como
um vilarejo no centro da Itália. Aquelas ter-
ras na península Itálica já eram ocupadas
desde o primeiro milênio antes de Cristo
por diversos povos. Estas populações se
aproveitavam do solo fértil e clima bastante
ameno da região. Entre elas, estavam tribos
úmbrias, sabinas e latinas, que instituíram
aldeias agrícolas e pastoris.
Os especialistas ressaltam que Roma tem início
por meio da junção de um grupo de sete aldeias
latinas e sabinas, todas elas situadas às margens
do rio Tibre. Tais povos tiveram uma relação bas-
tante estreita com os gregos – fundadores de colô-
nias localizadas ao sul daquela península – e com os
etruscos, estabelecidos ao norte.
Às margens do ANCESTRAIS »»
Rio Tibre, surgiram
Segundo o historiador e professor da Universidade
as primeiras Harvard, Thomas R. Martin, as principais evidên-
aldeias que deram cias dos ancestrais imediatos dos romanos vêm da
escavação arqueológica de túmulos – datados dos
origem a Roma séculos IX e VIII a.C. – dos povos chamados poste-
riormente de villanovianos.
Contudo, não há quaisquer razões para se acre-
ditar que essas populações, que habitavam em co-
munidades diferentes, se classificavam como um
grupo unificado ou então homogêneo. Por outro
lado, os estudos destacam claramente que estas
pessoas realizavam atividades rudimentares de
agricultura e também de criação de cavalos.
7
CAPÍTULO 1 • ORIGEM
GREGOS ShutterstockTemplo na Sicília, Itália,
Shutterstockmostra influência grega
No oitavo século antes de Cristo, os ro- na formação romana
manos e os demais povos do sul e do
centro da Itália já realizavam contato Busto de
frequente com muitos comerciantes Heródoto:
provenientes da Grécia que viajavam historiador
para o território italiano pelo mar. Tal acreditava que
intercâmbio econômico contribuiu subs- etruscos eram
tancialmente para o crescimento da so- provenientes
ciedade e cultura romanas. de Lídia, na
Uma quantidade considerável de Anatólia
gregos fixou residência na região neste
mesmo período atrás de oportunidades
de enriquecer por meio da agricultura.
Assim, algumas cidades povoadas ma-
joritariamente por cidadãos da Grécia
tornaram-se, anos mais tarde, comuni-
dades extremamente representativas.
Alguns exemplos são Sicília e Nápoles.
A aproximação com a cultura grega
gerou um efeito no desenvolvimento
do modo de vida dos romanos, que fo-
ram inspirados pelos modelos de litera-
tura, teatro e também arquitetura. Po-
rém, se por um lado, a Grécia influen-
ciou e foi alvo da constante admiração
dos habitantes de Roma, por outro, era
menosprezada devido à sua desunião
política e inferioridade militar.
Povo etrusco
produzia peças
bastante refinadas
para a época
CURIOSIDADE Shutterstock ETRUSCOS
Os trabalhos arqueológicos Há muito debate com relação à influência dos
mostram que os ancestrais etruscos na vida romana. Alguns grupos de estu-
romanos fabricavam armas de diosos consideram que este povo, situado ao norte
metal, além de outros objetos de Roma, teria sido a força externa mais relevante
de bronze e ferro. Como a afetar os modos romanos. Alguns especialistas
o bronze é, basicamente, até já especularam que eles teriam conquistado
uma mistura de cobre e a Roma Antiga, com reis etruscos governando a
latão, e como o latão só era nova cidade na parte final da monarquia.
minerado em locais bem
distantes da Itália, essas
populações praticavam, muito
provavelmente, um sofisticado
comércio de longa distância.
8
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
A ORIGEM as águas empurrariam o cesto onde festejaram como o dono do trono por
MITOLÓGICA as crianças estavam para as margens ter um número maior de aves.
do rio. Ali, os dois foram achados Durante a discussão que teve início por
ASSIM COMO EM OUTRAS por uma loba, que os amamentou e, conta da indefinição, Rômulo matou
CIVILIZAÇÕES E POVOS, AS ORIGENS consequentemente, os manteve vivos. Remo. Diante do falecimento do irmão,
DE ROMA FORAM CONTADAS Um pastor que passava pelo local viu as Rômulo tornou-se o primeiro monarca
POR MEIO DE MITOS. SEGUNDO duas crianças e as levou imediatamente da cidade, que foi batizada com o
A HISTÓRIA, O MAIOR IMPÉRIO para serem criadas em sua aldeia. nome de Roma em sua homenagem.
DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA FOI A lenda conta que Rômulo e Remo O poema épico Eneida, obra de
FUNDADO PELOS GÊMEOS RÔMULO cresceram, tornando-se pastores Virgílio, é uma das obras utilizadas
E REMO. A TRADIÇÃO RESSALTA e caçadores. Viraram dois adultos como fonte para a expansão deste
QUE, QUANDO PEQUENOS, fortes. No entanto, nesta época, mito. O historiador Tito Lívio também
FORAM AMAMENTADOS POR eles foram descobertos por Amúlio. contribuiu, por meio de seu livro
UMA LOBA QUE OS ENCONTRARA O rei capturou um dos irmãos, Desde a fundação da cidade, no
ÀS MARGENS DO RIO TIBRE. Remo, quando ambos participavam desenvolvimento da narrativa.
de um evento esportivo. Foi aí que
Rômulo e Remo, reza a lenda, seriam Rômulo e Remo souberam que eram Estátua de
descendentes de Eneias, guerreiro e descendentes de Eneias e que possuíam Vênus: mãe
nobre troiano, filho da deusa Vênus e o direito de reivindicar o trono. Eles dos gêmeos
de Anquises. Conta-se que ele deixou também tiveram conhecimento da seria uma
Troia depois que a cidade foi destruída história por completo, que eram sacerdotisa
pelos gregos durante a famosa Guerra netos de Numitor e que Amúlio havia da deusa
de Troia. Eneias seguiu, sem direção deposto o avô deles para se tornar
certa, pelo mar Adriático até chegar rei. Eles, então, depuseram Amúlio, Shutterstock
à região de Lácio, onde mais tarde ele vingaram Numitor e o recolocaram Shutterstock
iria levantar Roma. no trono de Alba Longa.
Neste período, Eneias ficou mais Porém, os gêmeos não permaneceram
próximo da população local e casou- por lá. Os dois decidiram fundar outra
se com a filha do rei Latino, Lavínia. cidade, exatamente onde tinham
Posteriormente, foi o fundador da sido abandonados quando bebês.
cidade de Alba Longa, onde iniciou Ergueram muros, mas não sabiam
a adoração aos mesmos deuses que quem iria assumir o seu governo, pois,
costumava cultuar na região de como eram gêmeos, não havia quem
origem dele. A cidade alcançou um fosse mais velho. Para definir isto, cada
período de crescimento e mudou a um subiu em um dos morros da região.
vida das pessoas que ali habitavam. O Remo foi para o Aventino e Rômulo
primeiro monarca de Alba Longa foi para o Palatino para esperarem um
Ascânio, filho de Eneias. Ele gerou uma presságio que decidiria de uma vez por
descendência no comando da cidade. todas aquela pendência. Remo recebeu
Depois de doze gerações, nasceram o primeiro presságio: seis abutres. Mas
Rômulo e Remo, filhos de Reia Sílvia. Rômulo também recebeu um presságio
A mãe dos gêmeos era filha de na sequência: doze abutres.
Numitor, rei de Alba Longa na época. Assim, aqueles que eram partidários de
Ela era uma vestal, ou seja, uma Remo o saudaram como rei por ter sido
sacerdotisa da deusa Vênus. Ela havia o primeiro. Já os favoráveis a Rômulo o
se tornado uma vestal a mando do
irmão de Numitor, seu tio Amúlio. Estátua
Amúlio tinha como plano ocupar o ilustra a lenda
trono de Alba Longa e, para alcançar de que Rômulo
este objetivo, depôs o irmão, matou e Remo foram
todos os filhos homens dele e ordenou amamentados
que Reia Sílvia virasse uma sacerdotisa por uma loba
de Vênus. A intenção de Amúlio era que quando bebês
ela não pudesse ter filhos que viessem a
competir com ele pelo poder da cidade.
Entretanto, Reia engravidou do deus
Marte. Assim que soube do nascimento
de Rômulo e Remo, Amúlio mandou
que os gêmeos fossem jogados no
rio Tibre. O que ele não previa é que
»»
9
CAPÍTULO 1 • ORIGEM
No entanto, o próprio conhecimen- MONARQUIA Shutterstock
to da origem dos homens e mulheres
da Etrúria continua extremamente limi- A configuração inicial de governo dos romanos foi a monarquia. Basicamente, o
tado. Em parte porque os historiadores rei era escolhido pelo Senado, formado por uma espécie de conselho de anciãos
compreendem somente uma pequena de origem nobre e de chefes de famílias aristocráticas. O monarca exercia funções
parcela de seu idioma, que provavel- judiciárias, administrativas, legislativas, militares e, até mesmo, religiosas. No en-
mente não seja indo-europeu. tanto, para tomar decisões consideradas mais relevantes, o rei fazia uma consulta
junto aos senadores.
No século V a.C., o historiador Heró-
doto afirmava que os etruscos haviam Os historiadores destacam que neste período de dois séculos e meio de história
emigrado de Lídia, na Anatólia, para a sete reis administraram Roma – sendo Rômulo o pioneiro. Destes, os quatro pri-
região onde hoje está a Itália. No en- meiros eram sabinos e latinos, enquanto os três últimos eram de origem etrusca.
tanto, Dionísio de Halicarnasso recha-
çou a hipótese dizendo que o território Afresco
italiano sempre foi a verdadeira casa romano
desta população. retrata
conversa
De qualquer maneira, sabe-se hoje entre escravo
que os etruscos não formavam um país
unificado étnica ou politicamente. Eles e seus
moravam em incontáveis cidades in- senhores
dependentes agrupadas nas colinas da
região da Itália central. Shutterstock DESENVOLVIMENTO
Culturalmente, executavam peças Os senadores romanos De maneira geral, esse grupo de monarcas foi
de arte consideradas muito refinadas eram os responsáveis por responsável pelo desenvolvimento urbano e
para a época, como joias e também fortalecimento romano. Pouco a pouco, Roma
esculturas. Porém, eles despendiam escolherem o rei se tornou uma povoação maior e mais capaz
bastante dinheiro na importação de de se proteger de possíveis ataques através da
objetos luxuosos da região do Mediter- adoção de uma estratégia focada em duas fren-
râneo, sobretudo dos gregos. Os etrus- tes: a absorção de outros povos e o acerto de
cos, aliás, nutriam uma relação próxima alianças com sociedades vizinhas para a criação
com os habitantes da Grécia na época de uma cooperação militar.
e adequaram aquela cultura à sua. Um
exemplo são os famosos vasos gregos, O tempo provou que esta tática acabou sen-
encontrados intactos em túmulos etrus- do a mais correta, pois foi a responsável por for-
cos. mar a base de expansão romana de longo prazo.
A incorporação de estrangeiros era praticamente
CURIOSIDADE uma necessidade de sobrevivência para uma co-
munidade como Roma, que teve um nascimento
Os arqueólogos dão conta de que tão frágil e pequeno.
o povo etrusco tinha o costume de
enterrar seus mortos em tumbas
subterrâneas construídas na forma
de réplicas – em escala menor – das
casas onde moravam quando vivos.
Eles revestiam a parte interior
da residência com pinturas que
retratavam episódios mitológicos e do
cotidiano. As famílias desta população
também adornavam os locais de
sepultamento com objetos pessoais
e de decoração. O objetivo era o de
sempre reproduzir o conforto da vida
real nas tumbas.
10
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Além disto, a estratégia foi uma por nascer de uma mãe escrava. Este Roma ser pequena naquele momento,
inovação no mundo antigo. Nem mes- servo poderia comprar a sua liberda- os deuses tinham concedido a ela um
mo os gregos ou quaisquer outros de com ganhos que o mestre permitia futuro bastante próspero.
grupos da época implementaram uma que juntasse para incentivar o trabalho
política parecida. A realidade é que os mais intenso ou podia ainda receber a No entanto, todos os povos ao re-
estados da Grécia Antiga quase nunca liberdade como presente no testamen- dor teriam recusado a solicitação de
permitiam que um membro de fora se to do proprietário. alianças matrimoniais. Sem saída, o
tornasse cidadão. O mundo grego em- rei decidiu preparar um plano bastante
pregava o advento da cidadania apenas Vale ressaltar que o escravo liber- arriscado. Ele mandaria sequestrar mu-
como um jeito de homenagear um es- to tinha suas obrigações legais com o lheres. Para tanto, convidou o povo sa-
trangeiro rico que tivesse beneficiado ex-proprietário na forma de cliente. bino para uma festa religiosa em Roma
a comunidade e que não possuísse a Em contrapartida, homens e mulheres e raptou todas as moças solteiras.
necessidade ou a intenção de se tornar libertos, como era a designação oficial,
cidadão comum. tinham direitos civis completos, como o O episódio gerou uma batalha san-
casamento legal. Mesmo não podendo grenta entre as duas comunidades vi-
Assim, a nova e exclusiva política ser eleitos a cargos políticos nem servir zinhas. Porém, em meio à guerra, as
romana de receber estrangeiros de bra- no exército, seus filhos se tornavam ci- noivas sabinas teriam se precipitado
ços abertos com o intuito de elevar o dadãos de Roma com direitos integrais. contra os combatentes, fazendo com
número de cidadãos foi o segredo para que a luta fosse interrompida. Foi então
se transformar no Estado mais podero- Como em outros tantos casos, havia que as novas esposas dos romanos im-
so que o planeta já viu. uma lenda que fornecia uma origem ploraram aos dois grupos que parassem
antiga desta política bastante incomum de se digladiar e fizessem as pazes.
A ação era tão essencial que o go- de inclusão de estrangeiros. Rômulo, Caso contrário, poderiam matá-las ali
verno de Roma oferecia até mesmo de acordo com a história, teria perce- mesmo. Diante da súplica, romanos e
aos escravos a chance de mobilidade bido que Roma, depois da fundação, sabinos cessaram a batalha e combina-
social ascendente. Os nobres romanos não reunia condições de crescer ou ram as duas populações em um Estado
tinham escravos como suas proprie- se preservar, pois não tinha mulheres romano ampliado.
dades, da mesma forma como ocorria suficientes para darem à luz crianças
em todas as outras sociedades antigas. necessárias para elevar o seu número A lenda consegue explicar, por
Na época, os servos eram considerados de habitantes. Desta maneira, ele teria meio do papel das mulheres neste in-
apenas um bem e não seres humanos. enviado representantes às sociedades cidente específico, como a imigração e
Eles passaram a ter a oportunidade de vizinhas para pedir o direito de que a assimilação de outros povos forma-
ganharem o direito da cidadania após seus homens, sem importar a classe ram a base de poder na Roma Antiga.
o período de liberdade. Alguém virava social, pudessem casar com as mulhe- A história ainda destaca o ideal romano
escravo ao ser capturado na guerra, res de qualquer comunidade próxima. tradicional da mulher sendo a mãe dos
vendido no mercado internacional por Rômulo instruía os mensageiros a di- cidadãos romanos, disposta, inclusive,
invasores que o haviam sequestrado ou zer que, apesar de a comunidade de a se sacrificar corajosamente pela so-
brevivência daquela sua comunidade.
Fórum Romano
era o espaço
para reuniões
políticas, jurídicas
e comerciais na
Roma Antiga
Shutterstock CURIOSIDADE »»
Hoje, o Fórum Romano
apresenta uma aglomeração
de ruínas de séculos da
história. Pouco ou quase
nada restou da arquitetura
daquela época. Mesmo assim,
um passeio pelo local coloca
o turista em um ambiente
revestido pelos áureos
momentos de Roma.
11
CAPÍTULO 1 • ORIGEM
ARISTOCRACIA EXPANSÃO
DA ROMA ANTIGA
A política que visava absorver os estrangeiros teve um efeito tão
O AMBIENTE ARISTOCRÁTICO ROMANO, UMA grande que a população romana cresceu consideravelmente em
ESPÉCIE DE NOBREZA HEREDITÁRIA, ERA dois séculos. Neste período, o território já ocupava cerca de 780
COMPOSTO POR CIDADÃOS DENOMINADOS quilômetros quadrados do Lácio, terras agrícolas suficientes para
PATRÍCIOS. ESTE SELETO GRUPO PERDUROU sustentar até 40 mil famílias.
DURANTE PRATICAMENTE TODO O PERÍODO
HISTÓRICO DE ROMA, DESDE A SUA ORIGEM Provavelmente por meio dos serviços especializados de en-
ATÉ A QUEDA DO PODEROSO IMPÉRIO. O CERNE genheiros etruscos, os romanos drenaram, no século VI a.C., a
DESTA ARISTOCRACIA MUDOU MUITO POUCO seção aberta no sopé dos montes Palatino e Capitolino, que an-
EM TERMOS DE CARACTERÍSTICAS BÁSICAS, tes era pantanosa, para ser o centro da cidade. O espaço recém-
APESAR DAS DIVERSAS VARIAÇÕES EM TERMOS -criado, chamado de Fórum Romano, permaneceu sendo a seção
DE PODER E INFLUÊNCIA NO DECORRER DOS mais histórica e simbólica de Roma por mil anos.
SÉCULOS SEGUINTES.
A construção dele como um local de reunião para assuntos
Em linhas gerais, as chamadas famílias patrícias políticos, jurídicos e comerciais, além de funerais públicos e fes-
eram aquelas que descendiam dos fundadores da tivais, ocorreu quase ao mesmo tempo em que os atenienses
cidade de Roma, o que mostra que a importância criaram a ágora na Grécia para servir de centro público aberto.
e o prestígio delas vinha de uma longa data, Isso demonstra os desenvolvimentos culturais comuns que acon-
em tempos em que a região ainda estava sob o teciam na região do Mediterrâneo na época.
governo dos principais membros das antigas tribos
itálicas. Vale ressaltar que a palavra “patrício” é No decorrer dos anos, foram erguidas novas e grandes cons-
derivada do latim “patres”, que significa “pais”. truções no entorno do Fórum. Estas edificações eram usadas para
Originalmente, era aproximadamente 130 o encontros entre autoridades, realização de julgamentos e fun-
número de famílias patrícias. No começo da fase ções administrativas do governo.
republicana, a inserção de novas famílias foi vetada,
assim como o matrimônio com os cidadãos plebeus. REIS
Tal proibição fez com que houvesse uma diminuição
progressiva e acentuada no número de aristocratas A figura do rei nutria uma forte valorização na Roma
em virtude da morte de muitos de seus Antiga. Os monarcas eram reconhecidos como céle-
integrantes. Por conta disto, Júlio César bres fundadores de tradições duradouras. Um exem-
decidiu, anos depois, instaurar lei que
permitia o ingresso de novos núcleos
familiares na aristocracia romana.
O interesse em fazer parte deste plo é Numa Pompílio, o segundo a assumir o trono
grupo não era meramente (governou de 715 a.C. até 673 a.C.), que ganhou fama
uma questão de status social. pelo estabelecimento dos rituais religiosos públicos e
Na verdade, os patrícios sacerdócios que veneravam os deuses para pedir su-
detinham diversos privilégios porte a Roma.
governamentais. Eles
possuíam, por exemplo, Túlio Hostílio foi o sucessor de Numa Pompílio e go-
o direito à isenção de vernou entre os anos de 673 a.C. e 641 a.C. Ele ganhou
impostos. Tinham também mais notoriedade por conta de suas guerras com Alba
a possibilidade exclusiva de Longa, Fidene e Veios, que se notabilizaram como as
se tornarem soberanos de primeiras conquistas de território latino e o primeiro
Roma. Além disto, ainda aumento dos domínios fora dos muros de Roma.
poderiam ser oficiais,
magistrados e senadores, Anco Márcio assumiu o reinado de Roma após o fa-
o que era vetado para a lecimento de Túlio Hostílio e permaneceu no comando
maior parte dos cidadãos.
Normalmente, eles exerciam Shutterstock por 25 anos. Conhecido por ter alcançado uma admi-
funções bastante elevadas nistração tranquila, foi o último rei de origem sabina.
na religião, no exército, na Estruturou a cidade com a construção de aquedutos,
administração pública e fundou o porto de Óstia e ergueu a primeira ponte de
também no sistema judiciário. madeira sobre o rio Tibre.
Eram donos de enormes
porções de terra e ainda tinham Depois da morte de Anco Márcio, Tarquínio Prisco
os plebeus como credores. foi até a Comitia Curiata – a assembleia popular – e
Os patrícios moravam em um conseguiu convencer seus integrantes que ele devia
domus – uma mansão – ou em ser eleito rei no lugar dos filhos do falecido monarca,
suas propriedades rurais.
Estátua de Júlio César, que pois estes ainda eram apenas adolescentes. Desta for-
muitos anos depois permitiu
o ingresso de novas famílias
na aristocracia
12
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Festival de reconstituição da história tantrik71/ Shutterstock
em Moscou, na Rússia, mostra um
pouco da vida dos patrícios romanos
ma, Tarquínio sucedeu a Anco Márcio. ESTRUTURA munidade política como um todo era
Ele assumiu o trono em 616 a.C. e nele SOCIAL “povo romano” (populus Romanus),
continuou até 578 a.C, quando teria mas na realidade essa definição não
sido morto em um complô promovido Grande parte dos romanos acreditava sugeria propriamente um ambiente de
pelos três filhos de Anco Márcio. mesmo que a região tomou forma de democracia. A realidade é que a clas-
comunidade no século VIII a.C., quando se dominante quase sempre tinha as
Sérvio Túlio, também etrusco, era esteve sob domínio de reis. Este teria rédeas do governo local. Assim como
genro de Tarquínio Prisco e assumiu o sido o primeiro período monárquico na sociedade contemporânea mundial,
poder por influência de sua sogra, Ta- de Roma. Entretanto, os historiadores algumas poucas famílias possuíam os
naquil. Ele governou entre 578 a.C. e modernos concluem que pouco se sabe comandos político e econômico dentro
535 a.C. Ficou famoso pela criação de sobre os eventos do período formativo do cenário romano.
instituições básicas para organizar os da história local.
cidadãos romanos em grupos para fins Desta maneira, os plebeus, maior
políticos e militares, além de instaurar Mesmo assim, as lendas que ron- parcela da população – composta por
com bastante sucesso a prática de con- dam a monarquia da época demons- artesãos, comerciantes e camponeses –
cessão de cidadania a escravos libertos. tram a existência de ideias relevantes viviam em condições sociais pouco con-
que os cidadãos romanos tinham sobre fortáveis. Os clientes, pessoas livres e
O sétimo e último rei romano antes suas origens. Tais linhas de pensamen- pobres, dependiam das famílias patrí-
da instauração da república foi Tarquí- to auxiliam na compreensão da estru- cias, para as quais prestavam regular-
nio, o Soberbo. Ele chegou ao trono em tura da política e também da sociedade mente favores, serviços e davam apoio
535 a.C. e o deixou em 509 a.C., quando já nos tempos posteriores de Repúbli- político e militar. Em troca, recebiam
uma série de eventos culminou em sua ca, sistema que surgiu na parte final do ajuda econômica e proteção. Quanto
deposição e no encerramento do primei- século VI a.C. assim que a monarquia mais clientes um patrício tivesse sob a
ro período monárquico em Roma. foi derrubada. Um fato curioso é que sua proteção, mais importância política
os romanos, pelo resto de sua história, e social ele conquistava. Por fim, os es-
CURIOSIDADE referiram-se ao governo como republi- cravos, em geral prisioneiros de guerra
cano, mesmo depois da restauração da ou endividados, compunham uma par-
Reza a lenda que o rei Túlio monarquia no Império. cela da população não muito numerosa
Hostílio, terceiro monarca no período monárquico.
de Roma, morreu atingido O termo técnico romano para a co-
por um raio como punição
por seu orgulho.
Wikipedia
SÉCULOS X E IX A.C. Wikipedia 715 A 673 A.C. SÉCULO VI A.C.
Os villanovianos, gregos e etruscos começam Numa Pompílio Roma se expande para
a se desenvolver na região da Itália. torna-se rei e controlar o território de
estabelece rituais 780 quilômetros quadrados
753 A.C. religiosos públicos na região central da Itália
Rômulo funda e sacerdócios. e cria seu Fórum.
Roma e torna-se 578 A 535 A.C.
Shutterstock o primeiro rei. Frans Huys Sérvio Túlio assume
o trono e passa a
716 A.C. organizar os cidadãos Shutterstock
Rômulo em grupos políticos e
morre sob militares. Estabelece a
circunstâncias concessão de cidadania
misteriosas. a escravos libertos.
CAPÍTULO 2 • REPÚBLICA
A ROMA REPUBLICANA
OPOSIÇÃO DA T udo indicava que eram bons os ventos de morrer, no entanto, ela solicitou aos
ARISTOCRACIA que sopravam sobre a monarquia de familiares que a vingassem.
FEZ FRACASSAR Roma. Era praticamente um consenso que
Sérvio Túlio – governante entre os anos de A deposição de Tarquínio foi lidera-
O PERÍODO 578 a.C. e 535 a.C. – havia criado bases só- da por Lúcio Júnio Brutus, que alcançou
MONÁRQUICO lidas para organizar os cidadãos romanos êxito na missão ao se unir a homens
NO TERRITÓRIO em grupos para fins políticos e militares. autointitulados libertadores. A aliança
ROMANO E ABRIU A ideia de conceder cidadania a escravos entre estes integrantes da classe alta
CAMINHO PARA libertos também parecia ser um passo im- foi suficiente para a abolição da mo-
UMA NOVA FORMA portante para a consolidação do regime. narquia romana.
DE GOVERNO Contudo, os monarcas passaram a ter o do- Após o episódio, ficou estabeleci-
mínio ameaçado pelas classes mais abastadas. da a República Romana. A justificativa
Esta oposição direta imprimiu forte pressão, pois para a entrada do novo regime era que
as famílias ricas se consideravam equivalentes o governo capitaneado por um único
sociais do rei e, portanto, requeriam mais status homem, como era o caso da monar-
e poder em suas mãos. O apoio que pessoas co- quia, levava a terríveis abusos de po-
muns davam ao monarca também as incomoda- der, como o estupro de Lucrécia.
va profundamente.
O termo “República” é originado do
Esta guerra fria colocava os reis em posição latim res publica, que significa “a coi-
de insegurança absoluta, pois havia o medo de sa do povo”, “o assunto do povo” ou
que um integrante mais poderoso da alta clas- “comunidade”. Esse era o ideal do go-
se recorresse à violência para tomar o trono. Em verno romano: ser para a comunidade.
busca de um apoio contra tais pessoas, os mo- Porém, esse conceito nunca foi coloca-
narcas costumavam ter como importantes alia- do completamente em prática, pois a
dos cidadãos donos de riqueza suficiente para classe alta dominou o governo e a so-
lhes abastecer com armas, mas que não reuniam ciedade neste período.
dinheiro para fazer parte da classe alta.
CURIOSIDADE
Mesmo com esta salvaguarda, alguns dos
mais ricos romanos conseguiram, em 509 a.C., Segunda a lenda, o
depor o rei Tarquínio, o Soberbo. Ele perdeu o rei Tarquínio, o Soberbo,
trono por conta de um episódio envolvendo Lu- era um etrusco que ascendeu
crécia. Esta peculiar integrante da classe alta de ao trono depois que a filha
Roma teria sido estuprada pelo filho do rei após de Sérvio, Túlia, o forçou
ser ameaçada com uma faca. Apesar de o marido a desposá-la e, em seguida,
e seu pai terem pedido a ela que não se culpasse matar o próprio pai dela.
pelo incidente, Lucrécia cometeu suicídio. Antes
14
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Pintura do espanhol Eduardo Rosales retrata
o suicídio de Lucrécia, que culminou na queda
da monarquia e na instituição do período
republicano em Roma
Shutterstock
REPÚBLICA os plebeus mais abastados, que eram os altos juros de suas dívidas, muitos
DOS CARGOS os encarregados de exercerem ativida-
des econômicas e militares. plebeus chegaram ao ponto de saírem
O período republicano em Roma ficou
marcado pelo surgimento de inúmeros Mas as fontes de conflito entre pa- do limite sagrado da cidade para um
postos políticos. Tais cargos visavam trícios e plebeus no início da República
satisfazer os anseios da elite patrícia eram também econômicas. Os plebeus povoado temporário em uma colina que
em participar ativamente do governo. pobres eram os mais desesperados por
Esta situação foi o estopim para o apa- alívio das políticas dos patrícios no perí- ficava nas proximidades. Além disto, os
recimento de conflitos sociais diversos odo. Com o aumento populacional, esta
na época. fatia da população precisava de mais plebeus se recusaram a servir no exér-
terra para cultivar e se alimentar. Os
Esta presença de membros da clas- integrantes da elite, no entanto, domi- cito da milícia de cidadãos. A secessão
se alta nos postos mais importantes e navam a maior parte das propriedades
nas decisões políticas de Roma promo- e ainda faziam empréstimos aos pobres. funcionou. A defesa romana ficou bas-
veu uma disputa acirrada entre estes e
Com a falta de terra para plantio e tante prejudicada, pois não contava com
um exército permanente profissional.
Essa situação fez com que os patrícios
precisassem ceder, algo que eles, natu-
ralmente, não gostavam nem um pouco.
Assim, tiveram que costurar um acordo
com os plebeus. »»
15
CAPÍTULO 2 • REPÚBLICA
Shutterstock
Ilustração presente no Museu de Madri retrata o sonho de um patrício e sua esposa conjunto. O tempo de governo era de
um ano e estava proibida a reeleição
DIREITO inclina sobre o terreno do vizinho, que para mandatos consecutivos.
ROMANO os seus galhos sejam podados à altura
de mais de quinze pés”. Esse conjunto A palavra cônsul tinha o significado
De acordo com a tradição local, o acerto de regras mostrava que o romano tinha de “aquele que cuida da comunidade”.
entre as duas partes foi o que levou à um intenso interesse pelo direito civil. Era uma forma de deixar claro que os
criação das primeiras leis escritas em Já o código penal nunca chegou a ser detentores do posto deveriam agir em
Roma. O código legal passou a vigo- extenso. Desta forma, os tribunais não nome dos interesses de todos os roma-
rar depois da visita de uma delegação tinham um conjunto vasto de regras nos. As principais atribuições dos côn-
romana a Atenas, onde foi estudado para orientar os vereditos. sules eram fornecer liderança sobre a
como a cidade grega desenvolveu um orientação política e civil, além de co-
código de direito escrito. Apesar des- CURIOSIDADE mandar o exército em tempos de guer-
ta pesquisa, foi necessário um tempo ra. O embate para alcançar este posto
grande para que as duas ordens roma- A Lei das Doze Tábuas era intenso, pois ocupá-lo se tratava de
nas atingissem o acordo final sobre as transformou-se em um símbolo uma maneira de elevar o prestígio fa-
leis. Isso porque o pacto precisaria, por nacional do compromisso miliar por um longo período. Algumas
um lado, proteger os plebeus e, por ou- romano com a justiça legal. famílias com apenas um cônsul entre
tro, garantir o status dos patrícios. 400 anos depois, as crianças os seus ancestrais tinham o costume de
ainda eram obrigadas a se chamar de “nobres”.
A Lei das Doze Tábuas, o código es- decorar essas antigas leis.
crito mais antigo do direito romano, foi Já o Senado, que perdurou durante
promulgado entre os anos de 451 e 449 SISTEMA todos os séculos da história romana,
a.C. Apesar de gerar avanços, os patrí- POLÍTICO pode ser considerado a instituição mais
cios aproveitaram a ocasião para incluir influente da “constituição romana”.
a abolição do matrimônio com plebeus. A constituição romana incluía vários Importante lembrar que a casa datava
Contudo, era muito importante à clas- funcionários eleitos e o Senado como da época monárquica e que mesmo os
se plebeia ter um código de leis escrito órgão especial. O posto de cônsul era o reis não tomavam decisões importan-
com o intuito de evitar que os magis- mais alto no período republicano. Como tes sozinhos, uma vez que era uma
trados patrícios, que julgavam a maio- a República foi criada para evitar que tradição romana sempre pedir conse-
ria das ações legais, tivessem decisões apenas um homem tomasse o governo lho a amigos e a idosos. Deste modo,
arbitrárias e injustas apenas por causa por um tempo indeterminado, o cônsul os monarcas reuniram um grupo seleto
de interesses pessoais. surgiu para que dois líderes do Estado de experientes conselheiros que eram
fossem eleitos para prestar serviço em chamados de senadores (palavra latina
De modo geral, a Lei das Doze Tábu- para idosos). Portanto, o costume de o
as trazia questões muito práticas e sim- líder tomar conselho sempre prosse-
ples, como “Se alguém for chamado a guiu durante o período republicano.
juízo, compareça” ou “Se uma árvore se
Durante a maior parte da história, o
Senado funcionava com cerca de trezen-
tos membros. O general Sulla dobrou
este número com o advento de uma
profunda reforma em 81 a.C. Júlio Cé-
sar, por sua vez, subiu o montante para
novecentos com o objetivo de conseguir
partidários durante a guerra civil da
década de 40 a.C. Em 13 a.C., Augusto
reduziu o contingente de senadores no-
vamente para seiscentos.
Segundo historiadores, o Senado
sempre incluiu patrícios e plebeus da
elite. O tempo encarregou-se de obrigar
os candidatos a possuírem uma quantia
grande de propriedades para poderem
entrar na disputa ao posto de senador.
16
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
No início da República, os senadores tentando a eleição de menor valor, a de se tornava necessária a rápida tomada
eram escolhidos pelos cônsules entre os questor, que era responsável pela admi- de decisões para garantir a boa saúde
homens já eleitos anteriormente como nistração financeira do Estado. O cargo do Estado. Geralmente, a posse de um
magistrados menores. Tempos depois, seguinte era o de edil, que carregava ditador significava que Roma havia so-
a seleção passou a ser realizada pelos consigo a difícil tarefa de gerenciar a frido uma perda militar muito grande e
censores, que eram magistrados espe- manutenção de ruas, esgotos, templos, precisava de uma ação extremamente
ciais de alto prestígio. Uma das maiores mercados e demais obras públicas. cirúrgica para que um desastre fosse
influências do Senado recaía sobre as evitado. O ditador tinha plenos poderes,
decisões relativas à declaração e con- O passo seguinte dentro da hierar- suas decisões não poderiam ser ques-
dução de guerras. Importante observar quia do poder romano era buscar a vitó- tionadas, mas a sua permanência no
que, nesta época, Roma vivia em confli- ria na eleição para o cargo anual de pre- posto era de, no máximo, seis meses.
tos armados quase que continuamente. tor, magistratura muito prestigiosa e que
só perdia em importância para a vaga FUNCIONÁRIOS
Um aspecto relevante é que no de cônsul. Em geral, os pretores tinham ASSALARIADOS
período republicano o Senado não de- como incumbência a administração da A entrada na carreira pública, no entan-
tinha o poder de votar projetos, ele justiça e o comando de tropas de guerra.
apenas agia como conselheiro. Ou seja, to, estava longe de gerar lucros finan-
não possuía o direito oficial de vetar ou Assim, o poder e o prestígio des-
liberar quaisquer decisões do governo sas posições as tornavam o centro da ceiros aos portadores dos cargos, que
executivo, mas sim um status de res- disputa entre patrícios e plebeus por
peito e consideração em meio aos cida- postos públicos. Em 337 a.C., a pressão não recebiam salário por seu trabalho.
dãos romanos. da classe plebeia forçou a aprovação de
lei que abria todos os cargos de forma Ao contrário, os funcionários, inclusi-
CARGOS uniforme entre as duas ordens.
ve, gastavam parte do seu dinheiro ao
Obviamente, o posto de cônsul era tido A “constituição romana” tinha ain-
como o mais importante em Roma. Na da duas posições de governo especiais exercerem tais atividades. Desta forma,
sequência, os demais cargos seguiam não anuais: censor e ditador. O primeiro,
uma ordem de prestígio. Mas, para al- que deveria ser um ex-cônsul, cuidava fica claro que somente aqueles homens
cançar os lugares mais elevados, era da contagem periódica de cidadãos e
necessário seguir um plano de carreira, de suas propriedades para que os im- que tinham condições financeiras privi-
que tinha início por volta dos vinte anos postos pudessem ser cobrados de uma
de idade, geralmente como assistente maneira mais justa e os romanos classi- legiadas podiam cumprir o funcionalis-
de oficial. A seguir, a escalada seguia ficados para o serviço militar. Já o cargo
de ditador era ocupado somente em mo público. Estes, normalmente, obti-
emergências nacionais graves, quando
nham renda por meio de propriedade
familiares ou suporte financeiro de
amigos mais próximos.
Além disto, assim como nos dias
de hoje, os custos de uma campanha
eleitoral eram bastante exacerbados.
Os candidatos, por vezes, desprendiam
uma quantidade razoável de recursos
Shutterstock e até contraíam dívidas enormes. Não
bastasse isto, era desejável que, depois
de eleito, um funcionário do governo
pagasse, com seu dinheiro, obras públi-
cas em estradas, templos e aquedutos.
Mas, se no início, a carreira pública
conferia só status social, depois de um
tempo a conquista de novos territórios
ajudava muitos a ganharem dinhei-
ro. Estes funcionários passaram a ter o
direito legal de enriquecer ganhando
presas de guerra quando exerciam os
postos de comandantes em batalhas
de conquistas vencidas. Outra forma de
obter ganhos – ilicitamente – era pelo
recebimento de propina enquanto ad-
ministrava as províncias dos territórios
Figura de senador e seus escravos: parlamentar conquistados pelos romanos. »»
romano era uma espécie de conselheiro do cônsul
17
CAPÍTULO 2 • REPÚBLICA
ASSEMBLEIAS Shutterstocksoas era respeitada. Para piorar, a vota-Já os grupos eleitorais na Assem-
ção começava dos mais ricos até chegar bleia Tribal dos Plebeus eram deter-
As decisões em Roma eram tomadas aos menos abastados. Com isso, os in- minados segundo o local onde os
por meio da votação em assembleias. tegrantes das classes mais afortunadas cidadãos moravam. Este assembleia
Nestes eventos ao ar livre, eram defi- podiam votar em bloco na assembleia obteve o nome da instituição romana
nidos os resultados de pleitos e aprova- e, quando o pleito chegava aos mais de tribos. À época, chegava a 35 o nú-
das novas leis. No entanto, os historia- pobres, a maioria de votos já estava mero de tribos, que eram estruturadas
dores afirmam que tais ocasiões apre- praticamente decidida. em termos geográficos para dar uma
sentavam um nível de complexidade
muito grande. Os cidadãos – adultos e MACCARI, César CURIOSIDADE
livres – se reuniam depois da convoca- (1840-1919), Cícero
ção de um funcionário público. Denunciando Catilina, Para conseguirem apoio dos
1880, Roma eleitores, candidatos a cargos
Os debates ocorriam antes das as- públicos em Roma financiavam
sembleias em um grande agrupamento Em busca de votos, candidatos a cargos festivais de luta entre
do qual qualquer um – mesmo não ci- públicos promoviam lutas entre gladiadores gladiadores e batalhas de
dadãos e mulheres – podiam participar, para cativar os cidadãos romanos animais trazidos da África.
mas somente cidadãos homens tinham
o direito à palavra. Por outro lado, to-
dos podiam expressar suas opiniões
através de aplausos ou vaias para aqui-
lo que era falado.
Entretanto, no início da assembleia
em si, apenas poderiam ser votadas
propostas feitas pelos funcionários pú-
blicos. Era momento também de solici-
tar emendas às propostas.
Nesta época, a cidade de Roma pos-
suía três assembleias eleitorais diferen-
tes: Assembleia das Centúrias, Assem-
bleia Tribal dos Plebeus e Assembleia
Tribal do Povo. A apuração, porém, não
estabelecia a regra de “um homem,
um voto”. Na Assembleia das Centú-
rias, por exemplo, os cidadãos eram di-
vididos em pequenos grupos segundo
as regras específicas de cada encontro.
Estes grupos, em geral, não eram equi-
valentes em tamanho. Primeiramente,
os integrantes de cada círculo votavam
individualmente para que fosse deter-
minado qual seria o voto único do gru-
po na assembleia. Assim, a soma dos
votos únicos dos grupos definia uma
assembleia.
O grande problema é que este pro-
cedimento, aparentemente democráti-
co, gerava distorções nos resultados das
eleições. Os homens mais ricos e pode-
rosos compunham grupos menores que
possuíam votos com o mesmo peso de
grupos bem maiores formados por ci-
dadãos pobres. Assim, nem sempre a
vontade da maioria absoluta das pes-
18
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
vantagem a proprietários de terras cano, todas as propostas aprovadas públicos e de assembleias dava a eles
ricos da zona rural. Esta assembleia pelos plebeus nestas reuniões eram um potencial enorme de influenciar o
não incluía os chamados patrícios. tidas somente como recomendações, governo de Roma. Desta maneira, os
Constituída, basicamente, de eleitores nunca como leis. Assim, os aristocra- detentores do cargo passaram a ser
plebeus, conduzia julgamentos e as tas, que dominavam o governo ro- odiados por integrantes da elite roma-
mais diferentes formas de negócios mano nesta época, em muitos casos na, que, em inúmeras ocasiões, tinham
públicos imagináveis. Sobretudo nos simplesmente ignoravam os encami- os seus desejos políticos negados por
primeiros séculos do período republi- nhamentos dados nestes plebiscitos. conta da influência deles.
Shutterstock Contudo, os plebeus passaram a se Posteriormente, a Assembleia
revoltar com tal falta de consideração Tribal também passou a ter reuniões
da elite para com os seus pedidos e ampliadas com as presenças de pa-
desejos. Diante disso, a prática da se- trícios e plebeus. Os encontros com
cessão foi uma ferramenta mais uma este formato ganharam o nome de As-
vez importante para pressionar a aris- sembleia Tribal do Povo. Tais reuniões
tocracia romana. Repetido por várias serviam para eleger, por exemplo, os
vezes, esse instrumento de luta fez questores e ainda podiam decretar leis
com que os patrícios fossem obriga- e realizar julgamentos considerados
dos a ceder. Um novo movimento de de menor importância.
revolta em 287 a.C. culminou em um
acordo que tornava as decisões toma- Apesar de todas as tentativas de
das nos plebiscitos plebeus uma fonte chegar a um denominador comum,
de leis oficiais. a luta entre classes e poderes gerou,
durante a República, muitos conflitos
Essa mudança fez com que os re- políticos sérios. Tais confrontos, acre-
sultados de votos dados na Assem- ditam alguns historiadores contempo-
bleia dos Plebeus passassem de meras râneos, eram causados pelo fato de
recomendações a uma das principais várias instituições poderem criar leis
fontes de legislação, que atingiam, ou normas equivalentes. Como Roma
inclusive, os próprios patrícios. O reco- não tinha uma Suprema Corte, não
nhecimento destes plebiscitos acabou, era possível resolver disputas sobre a
assim, com o conflito das ordens entre validade das leis que estavam sobre-
patrícios e plebeus. postas ou em discordância umas com
as outras.
A Assembleia Tribal dos Plebeus
era responsável por eleger, entre ou- Mesmo com toda esta movimenta-
tros, os dez tribunos. Estes eram funcio- ção e efervescência, os romanos mais
nários públicos especiais e poderosos ricos e de maior status social continu-
dedicados a proteger os interesses da aram dominando a maior parte do go-
classe plebeia. O poder dos tribunos de verno republicano de Roma.
obstruir ações de outros funcionários
451 A.C. E 449 A.C.
Com o desenvolvimento
da República, é criada
a Lei das Doze Tábuas,
o mais antigo código
escrito do direito romano.
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509 A.C. 337 A.C. 287 A.C.
Depois do estupro Após pressão dos plebeus, Novamente depois
e suicídio de os patrícios são obrigados de grande pressão, a
Lucrécia, membros a aceitar a criação de assembleia plebeia
da elite derrubam a uma lei que distribuía deixa de ser um
monarquia e todos os cargos públicos mero conselho e
instituem a República. de forma uniforme entre ganha o caráter de
as duas ordens. formadora de leis.
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CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO
Shutterstock
Expansão romana: mapa mostra que, no segundo século depois de Cristo,
o império dominava boa parte da Europa, Ásia Menor e norte da África
GUERRAS D urante sua época republicana, Roma travou
E AVANÇO guerras que a ajudaram a ampliar o domínio
TERRITORIAL territorial de um modo bastante significativo. Esta
expansão sobre terras anteriormente governadas
OS ROMANOS ENFRENTARAM DURAS BATALHAS PARA por outros povos foi fundamental no projeto de
CONSEGUIREM AMPLIAR DE MANEIRA SIGNIFICATIVA SEU formação de um verdadeiro império.
DOMÍNIO NO PERÍODO REPUBLICANO
Se trouxe ganhos de terras, este movimento tam-
bém gerou profundas mudanças na sociedade de Roma.
Após dominar diversos arraiais, os romanos passaram a
ter contato muito estreito com o modo de viver de outras
culturas. O caso mais claro foi a interação com os gregos.
Esta relação levou, inclusive, à criação da primeira obra de
literatura romana escrita em latim.
Além disto, a expansão fez com que uma infinidade
de pequenos agricultores da Itália caísse na pobreza. Tal
situação gerou conflito entre os membros da elite sobre
o que fazer com estes conterrâneos necessitados. Era o
prenúncio do fim da República.
20
Apóstolo São Paulo utilizou as peças do CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
vestuário de um soldado romano para
exemplificar como deveria estar preparado
um cristão para enfrentar suas provações
Shutterstock Nos cem anos seguintes, travaram in- intensa preparação do exército auxiliou
tensas lutas contra os etruscos da loca- Roma a avançar em suas investidas.
CURIOSIDADE lidade de Veios, ao norte do rio Tibre. A Em 220 a.C., o imperialismo começava
vitória veio no ano de 396 a.C. e ajudou a ganhar contornos mais fortes depois
A eficiência e força do exército os romanos a praticamente dobrarem o que toda a Itália ao sul do rio Pó estava
romano eram bem conhecidas no seu território. Nesta época, o exército sob controle dos valentes romanos.
primeiro século depois de Cristo. romano já era considerado o mais pode-
Tanto é verdade que, na carta roso da região do Mediterrâneo. A sua Quando vencia as ásperas batalhas,
bíblica aos cristãos da igreja de maior unidade era a legião, composta Roma tinha como estratégia escravizar
Éfeso, escrita por volta de 60 d.C., por, aproximadamente, 5 mil soldados os povos derrotados. Quando não fazia
o famoso apóstolo São Paulo utiliza de infantaria. Cada legião ainda tinha a isso, os forçava a ceder extensões de
como exemplo os armamentos e retaguarda de 300 tropas de cavalaria, terra bastante consideráveis. Com re-
peças do vestuário de um soldado além de engenheiros responsáveis por lação a povos italianos conquistados,
de Roma para rogar que os efésios atividades de apoio. os romanos não os obrigavam a pagar
permanecessem fiéis aos seus impostos, mas exigiam que estes pres-
ensinamentos. Ele usa expressões A legião era subdividida em unida- tassem ajuda militar nas batalhas. Os
como “armadura de Deus”, “cinto de menores, que eram lideradas pelos novos aliados recebiam uma parte dos
da verdade”, “couraça da justiça”, chamados centuriões. Tratava-se de despojos de guerra – como escravos
“escudo da fé”, “capacete da uma forma de garantir maior mobilida- e terra. Em linhas gerais, a estratégia
salvação” e “espada do Espírito” de do exército em caso de necessidade romana era agregar ex-adversários e,
(Efésios 6:11-17). de uma reação rápida a situações ines- assim, fazer com que sua riqueza fos-
peradas durante os combates. Essa for- se ainda maior com o passar do tempo.
PRIMEIROS mação deixava espaços entre os grupos Diante deste cenário, os especialistas
COMBATES de cem homens, o que permitia que os no tema enfatizam que o imperialismo
soldados de infantaria permanecessem romano era inclusivo.
As batalhas iniciais ocorreram na região atrás dos grandes escudos enquanto fa-
central da Itália. Os romanos obtive- ziam bom uso das lanças para romper a UM MILHÃO
ram importante triunfo sobre vizinhos linha de frente d o inimigo. Em seguida, DE HABITANTES
latinos em 499 a.C., pouco depois que eles empunhavam suas espadas para o
o regime republicano foi estabelecido. temido combate corpo a corpo. A REPÚBLICA NÃO FOI UM
MOMENTO APENAS DE
Segundo historiadores, as espadas EXPANSÃO TERRITORIAL. DE
usadas pela infantaria eram especial- ACORDO COM HISTORIADORES,
mente feitas para golpear oponentes A CIDADE DE ROMA TAMBÉM
a uma distância bem curta. Além dis- ALCANÇOU UM AUMENTO
so, tais homens passavam por rigoroso POPULACIONAL SIGNIFICATIVO
treinamento para conseguirem suportar NESTE PERÍODO E TERIA SIDO A
os sangrentos confrontos. Essa boa e PRIMEIRA CIDADE DO PLANETA
A ATINGIR A IMPRESSIONANTE
Legião do exército romano era composta MARCA DE UM MILHÃO
por 5 mil soldados de infantaria DE HABITANTES HÁ CERCA
DE 2.500 ANOS.
Apesar de alguns especialistas
não concordarem com a
afirmação e dizerem que
Alexandria, no Egito, seria a
dona do feito, a maioria dos
peritos costuma dar o título a
Roma. Com o passar do tempo,
a cidade italiana foi perdendo
espaço e acabou ultrapassada
por outras localidades.
Atualmente, as cinco maiores
metrópoles do mundo são
Tóquio, Cidade do México, Nova
Iorque, Mumbai e São Paulo.
Shutterstock »»
21
CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO
EXPANSÃO PRIMEIRA dido por toda a região oeste do Medi-
GUERRA PÚNICA terrâneo, até mesmo sobre a ilha da
Por volta de 300 a.C., a taxa populacio- Sicília, localizada em uma faixa estreita
nal de Roma chegou, diante deste am- Um combate, no mínimo, bem diferente de mar na ponta da península italiana.
biente de progresso, a níveis considera- colocou à prova a hegemonia romana
dos altíssimos para o período. Somente entre os anos de 280 e 275 a.C. A bata- A prosperidade de Cartago gerou um
dentro do muro de fortificação da ci- lha na cidade grega de Taranto colocou ávido interesse dos romanos. O grande
dade viviam cerca de 150 mil pessoas. Roma diante de um exército equipado problema é que lhes faltava experiência
Para conseguir abastecer toda esta alta com elefantes de guerra. A tática foi naval para um combate marítimo, algo
demanda, foram levantados aquedutos utilizada pelo general mercenário Pirro que sobrava para os cartagineses. Os ci-
que levavam água potável para a ci- para tentar conter o quase inevitável dadãos de Roma, no século III a.C., não
dade. Além disto, a presa das guerras avanço adversário sobre o sul da Itália. contavam com praticamente nenhum
vencidas era usada para financiar um conhecimento tecnológico para cons-
amplo projeto de edificações de casas. Diante de um inimigo tão podero- truir um navio de guerra e também não
so, os líderes romanos convenceram as possuíam a organização necessária para
Fora das muralhas, aproximada- assembleias a votarem favoravelmente formar uma marinha poderosa.
mente 750 mil cidadãos romanos liber- ao enfrentamento desta ameaça. Ape-
tos moravam em diferentes regiões da sar de todas as dificuldades, após cinco Dessa forma, uma batalha parecia
Itália na terra tomada dos povos locais. anos, Pirro abandonou a guerra e retor- inviável. Além disso, não havia traço
A população rural, contudo, acabou nou à Grécia. Assim, Roma obteve total de inimizade entre os povos para que
passando por percalços econômicos na controle do sul da Itália até a costa do fosse precipitado qualquer tipo de ação
época por conta do aumento da taxa de Mediterrâneo no fim da península. romana contra Cartago. Porém, um epi-
natalidade – o que levava à impossibi- sódio insignificante mudou este cená-
lidade em conseguir sustentar famílias Diante desta expansão em direção rio e levou a uma guerra destruidora
maiores – e também pela dificuldade ao sul, os romanos estavam à beira da com mais de um século de duração.
em manter uma fazenda produtiva região dominada por Cartago, um Es-
quando muitos homens estavam em tado bastante próspero que ficava do Tudo começou quando, em 264
campanhas militares muito longas e outro lado do mar Mediterrâneo, na a.C., um bando de mercenários na ci-
desgastantes. Além disso, as grandes região onde atualmente está localizada dade de Messina, no extremo nordeste
porções de terras nas mãos de poucos a Tunísia. Em 800 a.C., os fenícios colo- da Sicília, encontrava-se em situação
contribuíram para o surgimento de no- nizaram Cartago, uma região favorável de perigo depois que o serviço militar
vos conflitos velados entre romanos ri- para o comércio marítimo e com áreas para o qual foi contratado terminou em
cos e pobres. agrícolas férteis em sua parte central. fracasso. Desesperados, eles decidiram
O comércio dos cartagineses foi expan- solicitar auxílio de Cartago e Roma ao
Em 300 a.C., a população apenas dentro da mesmo tempo. O senado romano não
Roma fortificada já era de 150 mil pessoas Shutterstock entrava em um consenso sobre o que
fazer com relação ao pedido de resgate
dos mercenários. No entanto, o cônsul
patrício Ápio Cláudio Cáudice convenceu
a maioria a votar pelo envio de tropas
para a região da Sicília com a promes-
sa de garantia de excelentes despojos.
Assim, o envio do exército para Messina
tornava-se a primeira expedição militar
de Roma fora da Itália.
O que ninguém esperava é que Car-
tago também enviaria soldados àquela
região. O encontro dos dois exércitos
eclodiu uma batalha entre as forças das
potências econômicas. Como resultado,
houve a Primeira Guerra Púnica entre
os anos de 264 a.C. e 241 a.C. A vitória
romana veio a partir da persistência.
Preparada a sacrificar vidas e gastar
muito dinheiro no conflito, Roma per-
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Imagem de antiga construção em Sagunto: conflito
na região precipitou Segunda Guerra Púnica
deu 250 mil homens e cerca de qui-
nhentos navios de guerra construídos
recentemente. Um século depois, o his-
toriador Políbio, da Grécia, considerou a
Primeira Guerra Púnica a maior guerra
da história em duração, intensidade e
escala de operações.
O que impressiona é que, forçada a
lutar no mar contra um rival muito me-
lhor preparado para estas condições,
Roma decidiu desenvolver sua mari-
nha a partir do zero. Copiou os navios
e táticas do adversário com a ajuda dos
gregos e conseguiu, finalmente, con-
quistar Messina. Assim, findava-se a
Primeira Guerra Púnica em 241 a.C.
Com o triunfo, os romanos torna-
ram-se os mestres da próspera Sicília,
região repleta de portos e campos. A
receita que vinha dos impostos que os
romanos recebiam dos sicilianos era
tão elevada que, em 238 a.C., outras
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duas colônias cartaginenses – as ilhas SEGUNDA
de Córsega e Sardenha – também fo- GUERRA PÚNICA
ram anexadas pelo império.
Depois da longa guerra diante de Carta-
Ilustração de go, os romanos decidiram fazer alianças
navio romano com comunidades que ficavam ao leste
da Espanha com o intuito de bloquear
durante o poder inimigo na região. Roma, con-
viagem no mar tudo, dava garantias de que não iria
interferir no lado sul do rio Ebro, loca-
Mediterrâneo lidade de domínio cartaginês.
em meio a
Entretanto, as autoridades de uma
uma grande cidade de nome Sagunto, que ficava
tempestade justamente naquela região, solicitaram
auxílio romano contra Cartago. Vale
destacar que se tratava de um local
com intensa atividade comercial em
recursos minerais e agrícolas na Espa-
nha. Diante do pedido, o senado roma-
no simplesmente ignorou a promessa
feita anteriormente de não intervir na
cidade e decidiu socorrer.
Talvez, o principal motivo para a
quebra do pacto tenha sido a visão ro-
mana de que os cartagineses eram bár-
baros de moral inferior. Eles os conde-
navam pela prática de sacrificar bebês e
crianças em emergências nacionais para
recuperar o favor dos deuses.
Assim, em 218 a.C., 23 anos de-
pois do primeiro combate entre Roma
e Cartago, tinha início a Segunda Guerra
Púnica, que só chegaria ao fim em 201 »»
23
CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO
a.C. Este novo longo combate foi ainda go, os romanos voltaram as atenções TERCEIRA
mais desgastante. Tudo porque o gene- para o embate contra os gauleses no GUERRA PÚNICA
ral cartaginês Aníbal Barca fez uso de norte da Itália. Este grupo celta era
uma audaciosa tática. Ele marchou com considerado muito perigoso, sobretudo O ano de 146 a.C. marcou a aniqui-
suas tropas e elefantes pelas passagens depois que saqueou Roma de modo de- lação de Cartago ao final da Terceira
cobertas de neve nos Alpes para inva- vastador no ano de 387 a.C. Tratava-se, Guerra Púnica (149 a.C. a 146 a.C.). O
dir a Itália. Em 216 a.C., 30 mil romanos portanto, de uma defesa preventiva. derradeiro combate começou no mo-
foram dilacerados naquela que ficou co- No fim do século III a.C., os romanos já mento em que Cartago, já recuperado
nhecida como Batalha de Canas. controlavam todo o vale do Pó – antes do pagamento de indenizações impos-
em poder dos gauleses – e, consequen- tas por Roma após a Segunda Guerra
Aníbal conhecia o tamanho do po- temente, toda a Itália até os Alpes. Púnica, atacou o vizinho rei da Numí-
derio romano e tinha como estratégia dia, Massinissa, aliado romano. Desta
tentar provocar revoltas nas cidades CURIOSIDADE vez, a cidade foi completamente des-
italianas aliadas a Roma. Ele ainda truída e o território passou a ser uma
apostou corretamente em uma aliança Em 249 a.C., durante a província do império. A destruição de
com o rei Filipe V, da Macedônia, em Primeira Guerra Púnica, a Cartago como um Estado independen-
215 a.C., o que forçou os romanos a lu- derrota de Roma em uma te foi uma resposta aos insistentes pe-
tarem na Grécia. O general de Cartago batalha foi explicada como didos do senador romano Marco Pórcio
gerou inúmeras dificuldades aos seus punição divina pelo suposto Catão, que temia as ameaças, ainda
oponentes durante quinze anos. Ele sacrilégio cometido pelo cônsul que tímidas, daquele rival.
marchou pela Itália neste período, des- Cláudio Pulcro. Segundo lenda
truiu parte do território romano e ame- romana, antes de um combate, MUDANÇAS
açou, inclusive, a soberania da capital. o comandante precisava ver
aves se alimentando como Como consequência das atividades
Porém, Aníbal falhou em sua táti- um sinal de sorte. Entretanto, militares e diplomáticas intensas, as
ca de jogar os aliados italianos contra quando algumas galinhas, relações romanas com o sul da Itália,
Roma. Eles, muito pelo contrário, per- provavelmente enjoadas com o Sicília, Grécia e Ásia Menor tornaram-
maneceram leais e o general teve de balanço do navio, se rejeitaram -se mais efetivas e fizeram com que
finalizar a campanha de guerrilha na a comer no convés, Cláudio, os romanos tivessem um contato mais
Itália para retornar ao norte da África em um ataque de raiva, as teria aprofundado com a cultura grega. Essa
juntamente com todo o seu exército em lançado ao mar e dito: “Ora, que interação influenciou profundamente o
203 a.C. Naquele mesmo ano, os roma- bebam, então”. Apesar disto, desenvolvimento da arte, arquitetura
nos, sob o comando do general Cipião, ele deu início à batalha e perdeu e literatura na cultura de Roma. O pri-
lançaram ataque importante contra Car- 93 de seus 123 navios em uma meiro templo de mármore construído
tago. Após longos anos, finalmente Aní- espetacular derrota naval. Mais na capital, por exemplo, foi erguido
bal seria definitivamente derrotado na tarde, o cônsul foi punido pelo
batalha de Zama, em 202 a.C. Shutterstockdesacato arrogante à tradição.
Para concretizar a vitória, os roma- Templo em homenagem
nos impuseram aos cartagineses um a Júpiter mostra influência
acordo de paz punitivo. Eles foram obri- grega na cultura romana
gados a afundar navios, pagar indeniza-
ções de guerra muito elevadas durante
cinquenta anos e abrir mão de territó-
rios na Espanha. Roma ainda lutaria pos-
teriormente contra indígenas espanhóis
pelo controle das áreas, mas os lucros
que as terras eram capazes de gerar aos
seus donos – principalmente por meio
da extração mineral – faziam a difícil
empreitada valer a pena. Essas receitas
eram tão grandes que garantiam a reali-
zação de projetos de prédios públicos de
custo elevadíssimo em Roma.
Depois do sucesso diante de Carta-
24
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
no ano de 146 a.C. em homenagem a Estátua de Cícero,Shutterstock
Júpiter, seguindo a tradição dos gregos responsável por processar Shutterstock
de usarem este tipo de pedra brilhante. um governador da Sicília
Servos retratado em mosaico romano
A literatura também ganhou corpo Antes do acontecimento das Guer-
a partir dos conhecidos e admirados ras Púnicas, Roma mantinha uma ope- MIGRAÇÃO
modelos gregos. Por volta de 200 a.C., ração bélica que seguia os padrões
a primeira história romana foi escri- mediterrâneos normais, ou seja, cam- Sem condições para plantar e viver dig-
ta no idioma grego. Já a peça literária panhas militares curtas programadas namente, muita gente passou a migrar
mais antiga escrita em latim, um po- que não interferiam nas atividades para Roma. Na capital, homens procu-
ema longo produzido após a Primeira relacionadas à agricultura. Os comba- ravam um trabalho subalterno. As mu-
Guerra Púnica, foi uma adaptação da tes sazonais permitiam que os homens lheres aguardavam serviços ocasionais
Odisséia, de Homero. permanecessem em casas nos períodos na produção de tecidos. Este exército
do ano em que necessitavam semear de pobres desesperados em busca de
Mas as mudanças sociais no Impé- e colher, além de supervisionar o aca- alimento inchou a população da cidade.
rio Romano também foram profundas salamento e abate de animais. Mas, Este cenário transformara o ambiente
no período. A classe alta auferiu ganhos a partir da Primeira Guerra Púnica, as político romano em um verdadeiro bar-
consideráveis nos séculos II e III a.C, so- campanhas passaram a ser demasiada- ril de pólvora. Estas famílias inteiras de
bretudo por meio do recebimento de mente extensas e impediam que estes miseráveis estavam dispostas a apoiar
presas de guerra. voltassem periodicamente aos lares. através de seus votos quaisquer políti-
cos que prometessem atender às suas
Além disto, a criação de novas pro- Em muitos casos, mulheres e crian- necessidades mais básicas. De alguma
víncias gerou a necessidade de uma ças – sobretudo familiares de soldados maneira, os mais carentes precisavam
quantidade mais elevada de líderes – morriam de fome por não contarem ser alimentados para que grandes ma-
militares e políticos que não podia com a figura masculina para lhes ga- nifestações fossem evitadas ao máximo.
ser fornecida pelo número tradicional rantir a provisão necessária. Outras mu-
de funcionários públicos eleitos. Com lheres decidiam buscar a sobrevivência Roma, no final do século II a.C., foi
isto, um ajuntamento cada vez maior se prostituindo nas cidades da Itália. obrigada a importar grãos para conse-
de funcionários passou a ter poderes Diversas famílias agrícolas se endivida-
estendidos para comandar tropas e vam e tinham de vender a terra. Por sua guir alimentar minimamente sua ex- »»
administrar estas províncias. Todavia, vez, ricos proprietários de terras podiam
como o governador provincial geria adquirir estes terrenos para criar plan-
por lei marcial, ninguém era capaz de tações ainda maiores. Já os latifundiá-
impedir que ele enriquecesse por meio rios aumentavam as suas posses ainda
de corrupção e extorsão. Claro que nem mais ocupando, de modo ilegal, terras
todos eram corruptos. Verdade também públicas que Roma havia confiscado dos
que poucos dos do que praticavam atos povos derrotados na Itália.
ilegais eram punidos. Um dos poucos
exemplos foi Verres, processado por
Cícero, em 70 a.C., por crimes adminis-
trativos na Sicília.
POBREZA
Na época, a base econômica continuou
sendo a agricultura. Nestes séculos, os
agricultores trabalharam em pedaços de
terra pequenos no interior da Itália. Pa-
ralelamente, os proprietários também
representavam a principal fonte de sol-
dados do exército. Devido a este quadro,
a República passou por imensuráveis di-
ficuldades, econômicas e sociais. Duran-
te as guerras, a produção agrícola ficou
demasiadamente desguarnecida.
25
CAPÍTULO 3 • EXPANSÃO
cessiva população urbana. O mesmo volvidas para redistribuir terras públi- preços subsidiados pelo Estado. Conse-
havia feito Atenas cerca de trezentos cas para romanos que não tinham pro- guiu ainda aprovar projetos de obras
anos antes. Além disto, o senado ro- priedades. Tal medida foi adotada sem públicas por toda a Itália para fornecer
mano fazia um trabalho de supervisão a consulta e aprovação dos senadores. emprego aos pobres.
no mercado de grãos especulação no A manobra era legal – já que o senado
suprimento alimentar básico e garantir não podia barrar quaisquer medidas –, As mais revolucionárias de todas
a distribuição em tempos de escassez. mas extremamente estranha à tradição as ações foram as suas propostas de
romana. Ele afrontou ainda mais o cos- dar cidadania romana a diversos ita-
No entanto, essa política gerava tume político romano ao simplesmente lianos e constituir um tribunal de júri
muita controvérsia. Enquanto alguns lí- ignorar o senado sobre a questão do para senadores acusados de prática
deres entendiam que esta era a única financiamento desta proposta de refor- de corrupção enquanto exerciam car-
solução possível para o problema que ma agrária. gos governamentais nas províncias. A
batia à porta, outra parcela significati- proposta de cidadania fracassou. Já o
va discordava com bastante veemência, As reformas levantadas por Tibério estabelecimento do tribunal para pro-
mas também não buscava propor uma para auxiliar os agricultores desapro- cessos contra os senadores gerou uma
alternativa melhor. Desta maneira, esta priados tinham, obviamente, uma raiz enorme polêmica, pois suas causas
política permaneceu. No decorrer dos política, pois ele precisava quitar um seriam analisadas por homens ricos.
anos, a quantidade de necessitados débito com rivais políticos e tinha o À época, estes cidadãos, conhecidos
cresceu vertiginosamente. Dezenas de objetivo de se tornar popular como um como equestres, eram mais envolvi-
milhares faziam parte desta grande lista defensor do povo mais sofrido. dos em negócios, mas mantinham suas
de pessoas com direito ao recebimento ambições em serem designados a car-
dos subsídios sem qualquer custo. Pros- Esse ímpeto de Tibério, contudo, gos públicos. A entrada deles no funcio-
seguir ou não com este gasto exponen- foi barrado de maneira violenta. Um nalismo, contudo, era frequentemente
cial gerava cada vez mais discussão. ex-cônsul chamado Cipião Nasica or- bloqueada pelos senadores.
ganizou violento ataque surpresa con-
CONFLITOS tra ele. Um grupo de senadores e seus A proposta de Caio de fazer com que
INTERNOS clientes assassinaram Tibério e seus os equestres atuassem como jurados no
companheiros a golpes no monte Capi- júri dos senadores acusados de ilegali-
A total falta de consenso em torno do tolino no final do ano de 133 a.C. Deste dades na administração das províncias
auxílio aos pobres teve efeitos devas- modo sangrento e nada republicano marcou a ascensão deles na política ro-
tadores até mesmo em núcleos fami- teve início esta triste história de violên- mana. Tal ameaça deixou o senado em
liares proeminentes. Tibério Graco e cia e assassinato como tática política fúria. Os senadores, então, em 121 a.C.,
Caio Graco vieram de uma das famílias em Roma. publicaram documento que autorizava
de classe alta mais distintas de Roma: o cônsul Opímio a empregar força mi-
Cornélia, mãe de ambos, era filha do Caio Graco venceu eleição para tri- litar dentro da cidade de Roma, onde,
lendário general Cipião Africano. Tibé- buno em 123 a.C. e, mais uma vez, em segundo a tradição, nem mesmo os
rio foi eleito para o posto de tribuno 122 a. C. Assim como o irmão Tibério, funcionários públicos tinham tal poder.
plebeu em 133 a.C. Imediatamente, fez ele deu o pontapé inicial a algumas re- Caio ainda buscou contratar um guarda-
com que a Assembleia Tribal dos Ple- formas que ameaçavam muito a elite -costas para tentar se proteger contra
beus adotasse leis de reforma desen- romana. Além de manter as reformas ataques inesperados. Mas, sem saída,
agrárias, introduziu ainda leis que ga- ele, para fugir da detenção e execução
rantiam grãos a cidadãos de Roma a
CURIOSIDADE 499 A.C. 300 A.C.
Romanos vencem Aumento populacional:
Uma parte dos ganhos guerra contra Cidade de Roma chega
com despojos de guerra vizinhos latinos. a 150 mil moradores.
era direcionada para a Thinkstock
construção de templos. Para mr_coffee/ Shutterstock
o romano, a construção de 396 A.C.
locais sagrados era uma Roma alcança vitória
forma de garantir maior na batalha contra
segurança para todos, pois etruscos em Veios.
acreditava-se que os deuses
ficariam satisfeitos por
terem mais santuários que
os homenageassem.
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Shutterstock
Vista do Monte Capitolino, onde Shutterstock
Tibério e seus companheiros teriam
sido assassinados em 133 a.C. Estátua equestre do
Imperador Marco Aurélio
que se avizinhavam, ordenou a um de seus escravos em frente ao Capitólio
que cortasse a sua garganta. (datada de 175 a.C.).
Sua imagem foi utilizada
Depois dos falecimentos de Tibério e Caio Graco, para ilustrar a moeda de
os membros da alta classe romana viram-se cada vez 50 cents de euro italiano
mais divididos. Não havia qualquer possibilidade de
se estabelecer consenso com relação à ajuda irrestrita 149 A.C. A 146 A.C.
ou não aos pobres que tomavam a capital do império. Romanos obtém vitória definitiva sobre
Certos líderes políticos ainda preservavam suas alian- Cartago na Terceira Guerra Púnica.
ças políticas. Outros simplesmente tinham o objetivo
de promover abertamente as suas carreiras fingindo 130 A.C. E 120 A.C.
ser adeptos de um ou de outro lado. Porém, indepen- Cônsules Tibério
dentemente da postura adotada, o racha dentro da e Caio incitam
elite continuou sendo uma plena fonte violento conflito
de efervescência política e violência gra-
tuita nos últimos anos de República. político e acabam
assassinados.
Thinkstock 280 A.C. Tyler McKay/ Shutterstock
Tropas romanas 360b/ Shutterstock Toniflap/ Shutterstock
vencem forças
gregas no
Sul da Itália.
264 A.C. A 241 A.C.
Roma vence a Primeira
Guerra Púnica.
218 A.C. A 201 A.C.
Aníbal invade Itália, mas
é superado por romanos
na Segunda Guerra Púnica.
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA
O FIM DA ERA
REPUBLICANA
OS CONFLITOS ENTRE INTEGRANTES DA ELITE ROMANA
E AS REVOLTAS INTERNAS DESTRUÍRAM O REGIME E
MARCARAM UM NOVO TEMPO DENTRO DO IMPÉRIO
A falta de consenso com relação a políticas
sociais tornou insustentável o regime repu-
blicano em Roma no século I a.C. O processo de
deterioração começou na época dos mandatos
dos cônsules Tibério e Caio Graco e durou cerca
de cem anos. As guerras civis no período tam-
bém ajudaram a acelerar ainda mais este mo-
mento de degradação.
Além disso, o Estado romano passou a enfrentar re-
beliões internas e externas. Na época, cerca de 70 mil
escravos escaparam de propriedades na região da Sicília
e uniram-se com o objetivo de organizarem um levante.
A revolta durou três anos. Também foi preciso estancar
uma guerra estrangeira com Jugurta, rei-cliente rebelde
na África do Norte. Por fim, guerreiros gauleses precipi-
taram diversos ataques nas regiões do norte da Itália.
O ambiente inóspito abriu caminho para um novo
tipo de líder, alguém sem vínculo com a nobreza, mas
muito hábil na condução militar e com melhor reputa-
ção para o cargo de cônsul. Estes novos candidatos ao
cargo, mesmo não tendo um histórico familiar distinto,
passaram a ser chamados de novos homens.
Porém, eles precisaram vencer o preconceito social
para alcançarem tal posto. Isso foi possível por meio de
atitudes consideradas nobres, como a generosidade com
soldados – que recebiam despojos e tinham suas ne-
cessidades atendidas. Em geral, o combatente romano
comum era pobre. Assim, ele via nesta nova figura um
comandante a quem devia ter como patrono e prestar
obediência. Este personagem nutria mais empatia do
que senadores ou integrantes de assembleias. Assim, o
sistema patrono-cliente tornou-se mais um jeito de os
líderes conseguirem poder individual do que um suporte
para os interesses da comunidade de Roma em si.
Shutterstock
28
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Imagem mostra local de
reunião dos senadores na
época da República, que
começaria a se degradar no
início do século I a.C.
»»
29
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA
Shutterstock CURIOSIDADE PRECURSOR os romanos puderam finalmente cami-
Durante as cerimônias de nhar rumo à vitória.
honra militar em carro Caio Mário (157 a.C. a 86 a.C.) foi quem
aberto, era bastante mais colocou a ideia reformada de li- Assim, o general começou a subir
comum o general derança em prática. Sem raízes nobres, alguns importantes degraus na escada
homenageado ter ele teria não teria chance alguma de de cargos eletivos. O apoio a interesses
atrás dele um chegar a um posto de liderança den- de patronos nobres e o casamento com
escravo que lhe tro do cenário tradicional romano. Sua uma mulher pertencente a uma famosa
alertava: “Olhe condição o levaria, no máximo, a uma família de patrícios o auxiliaram ainda
atrás de você e carreira pública em cargos minoritários mais na empreitada que tinha como
lembre-se de que dentro do senado. objetivo maior o cargo de cônsul. As-
é um mortal”. A tuto, Caio Márcio soube usar a sua boa
prática era uma Contudo, uma grande e urgente ne- reputação e o histórico invejável de
forma de evitar que cessidade de Roma fez com que o jogo triunfos militares para vencer as elei-
o orgulho e a fama virasse completamente para ele. No fi- ções para um dos cônsules de 107 a.C.
subissem à cabeça. nal do século II a.C., o império precisava
Estátua de Caio de homens com suas características e Sua popularidade era notória entre
Mário, que capacidades para levar um exército à os eleitores. Tanto que as vitórias con-
instituiu em vitória. Mário serviu com maestria na tra os celtas do norte – este povo tentou
Roma sistema guerra norte-africana e ganhou noto- em inúmeras oportunidades invadir a
patrono-cliente riedade. Tais combates haviam se ar- Itália no fim do século II a.C. – o fizeram
rastado por muito tempo por conta da ser escolhido cônsul por seis mandatos
Shutterstock falta de competência de outros gene- seguidos, algo sem precedentes.
rais. Somente com a chegada dele que
Xseon/ Shutterstock Caio Mário ainda nutria o respeito
Figurante reconstitui figura do do senado, que lhe homenageou com a
centurião: exército romano passou honra militar definitiva de Roma. Trata-
va-se de um raro reconhecimento dado
por importantes avanços somente a generais que obtinham
triunfos considerados estupendos. No
dia de recebimento da nomeação, o ge-
neral desfilava pelas ruas da cidade em
uma carruagem militar e era aclamado
pela multidão.
Porém, mesmo com a popularidade
em alta, Mário nunca foi unanimidade
na elite romana. Ele era visto como
um ameaçador ‘novo rico’. Seu grande
apoio vinha mesmo da ordem equestre
– classe aristocrática considerada mais
baixa – e do povo comum. É provável
que os equestres tenham incentivado
sua entrada na nobreza com a intenção
de provarem o valor desta classe social.
A notoriedade de Caio Mário entre
os mais pobres teria sido um reflexo,
entre outras coisas, da reforma que ele
fez em relação aos requisitos para que
um homem pudesse entrar no exército
de Roma. Se antes apenas pessoas com
posses podiam se alistar, naquele mo-
mento o proletário também tinha este
direito. Com isso, os cidadãos da classe
baixa vislumbravam ganhar recompen-
sas de status e despojo aos quais os
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Italianos chegaram a
cunhar suas moedas
durante a Guerra Social
contra Roma
soldados tinham direito em campanhas Shutterstock
vitoriosas. Essa era a grande oportuni-
dade para que estes pobres romanos GUERRA SOCIAL a palavra latina para “aliado” é socius –
pudessem melhorar um pouco suas
vidas. Nem mesmo o risco de serem Ao mesmo tempo em que o exército de teve duração de quatro anos.
mortos ou gravemente feridos tirava a Caio Mário abriu espaço para importan-
vontade destes homens de irem para tes vitórias, trouxe também problemas. Os italianos se uniram para formar
os combates. Suas tropas se tornaram uma fonte de
poder político para comandantes sem uma nova república, que recebeu o
Nesse período, o Estado romano escrúpulos que desestabilizaram a Re-
não oferecia qualquer tipo de recom- pública em termos políticos. Mário, po- nome de Itália. Decidiram montar uma
pensa ou pensão a ex-soldados. Desta rém, era muito apegado à tradição para
forma, um bom retorno financeiro de- utilizar um exército seu para manter a confederação – composta por picenos,
pendia de uma vitória na batalha e ain- própria carreira. Com essa postura, ele
da da generosidade do general. Como acabou perdendo importância política lucanos, marsos, samnitas, apúlios,
não havia mais terra na Itália para ser depois do ano 100 a.C.
distribuída entre os veteranos nesta etruscos e úmbrios – para lutar contra
época, as tropas ficavam dependentes No começo do século I a.C., as cres-
por completo da participação nos des- centes crises de relacionamento entre a Roma. Eles cunharam uma moeda pró-
pojos conseguidos. Vale ressaltar que capital e seus aliados italianos transfor-
o general tinha o direito de manter a maram-se em guerra. A tradição roma- pria e implementaram seu senado. O
maior parte da pilhagem para si mes- na conta que os aliados costumavam di-
mo. Por isso, as tropas proletárias sen- vidir os despojos dos triunfos militares. conflito contou com muitas batalhas.
tiam uma imensa gratidão quando seu Contudo, eles não eram cidadãos roma-
líder era generoso na distribuição. nos e não tinham direito de interferir As primeiras foram vencidas pelos ita-
nas decisões das políticas domésticas
Diante deste comportamento de ou internacionais. Tal situação deixava- lianos. Mas, quando Lúcio Cornélio Sulla
Caio Mário, a lealdade dos combatentes -os insatisfeitos, pois eles viam a rique-
era cada vez maior para com seus ge- za aumentar cada vez mais dentro da assumiu o controle do exército romano,
nerais e não necessariamente para com República. Os italianos desejavam uma
o Estado. Assim, o exército romano pas- divisão muito mais igualitária. em 90 a.C., o jogo virou. Daí por diante,
sou a se comportar como uma legião de
clientes, seguindo com retidão seus lí- O aborrecimento dos aliados passou Roma aniquilou os samnitas. Algumas
deres e deixando os interesses estatais do limite do aceitável em 91 a.C., quan-
em segundo plano. do a violência tomou conta da Roma fontes dão conta de que aproximada-
republicana na Guerra Social. O embate
Este período marcou uma reorgani- interno – que foi assim chamado porque mente 300 mil italianos foram mortos
zação do exército de Roma, com o uso
de novas táticas. As legiões passaram em batalha.
a ser compostas por dez unidades com
480 homens cada. Cada unidade ti- Ao final da guerra, a vitória, teorica-
nha seis centúrias de oitenta homens
comandados por um centurião. Nesta mente, foi romana. Porém, os italianos
época, o armamento, antes composto
por quaisquer equipamentos, também conseguiram alcançar parte de seus ob-
passou a ser mais uniforme.
jetivos. Para garantir um ambiente de
A infantaria principal levava lanças,
espadas e grandes escudos. Mário pro- paz, Roma decidiu conceder aos aliados
jetou o uso de lanças pesadas para que
dobrassem após o impacto no escudo a cidadania, motivo pelo qual tinham
inimigo, o que impedia o seu movi-
mento e facilitava sua morte. Em se- dado início à revolta. A partir daquele
guida, os soldados romanos agrediam
o adversário e utilizavam espadas no momento, os povos nascidos livres da
combate individual.
Itália ao sul do rio Pó passavam a ter
os privilégios da cidadania romana. Um
dos direitos – talvez aquele que mais
contava para eles – era o de votar nas
assembleias. »»
31
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA
Shutterstock GUERRA CIVIL
GUERRAS Mapa da Ásia Menor, palco Lúcio Cornélio Sulla saiu das guerras
MITRIDÁTICAS das guerras mitridáticas Social e Mitridáticas em alta. Com a
exitosa condução do exército romano,
Mas a sangrenta Guerra Social era ape- SULLA, este nobre romano – vindo de uma de-
nas um prenúncio das dificuldades que O DITADOR cadente família de patrícios – venceu,
Roma iria enfrentar. Uma rebelião de- em 88 a.C., eleição para o cargo de
sencadeada na Ásia Menor abalaria ain- LÚCIO CORNÉLIO SULLA cônsul. Diante do ganho de poder do
da mais a frágil estrutura republicana. ATERRORIZOU ROMA ex-subordinado, Mário conspirou contra
O rei de Ponto, Mitríades VI, liderou um DEPOIS DE SUA OUSADA E Sulla para tirá-lo do posto.
levante, sobretudo, por conta da forma INESCRUPULOSA ESTRATÉGIA
arbitrária como os impostos eram co- PARA CONTINUAR NO PODER. Foi então que Lúcio Cornélio Sulla
brados naquela região. A CRUELDADE DELE FEZ tomou uma medida ousada. Aprovei-
COM QUE OS SENADORES tando-se de seu exército de clientes,
A requisição dos tributos, vale dizer, TEMESSEM POR SUAS VIDAS marchou com os soldados contra Roma.
não era feita por funcionários romanos. E DECIDISSEM DAR A ELE A Estava decretada a guerra civil. Ao cap-
A capital fazia uma espécie de licitação NOMEAÇÃO DE DITADOR SEM turar Roma com tropas de cidadãos
entre empreendedores privados para LIMITE DE MANDATO. VALE romanos, Sulla matou brutalmente ou
definir quem faria o serviço. Aquele LEMBRAR QUE TAL CARGO SÓ exilou adversários políticos. Em segui-
que desse a maior oferta ganhava a ERA OCUPADO EM CASO DE da, conduziu seus soldados para uma
concorrência e poderia ficar com os va- EMERGÊNCIA NACIONAL E POR campanha militar na Ásia Menor.
lores arrecadados a mais. Assim, os co- UM PERÍODO MÁXIMO DE SEIS
bradores pressionavam de modo brutal MESES. DESTA MANEIRA, A Após a saída de Sulla da Itália,
os locais para que pudessem levar uma NOMEAÇÃO ERA CONTRÁRIA Caio Mário e seus aliados retomaram
quantidade grande de dinheiro. À TRADIÇÃO REPUBLICANA. para Roma. A violência de Sulla seria
Este patrício fez jus à sua combatida por eles, a partir de agora,
Mitríades obteve um sucesso instan- ditadura. Com a alegação de com mais violência. O território roma-
tâneo em sua ação militar. Um ataque estar devolvendo a República no estava imerso em um mar de ódio
surpresa teve como resultado o assassi- ao coração da tradição, e sangue. Mário morreu pouco tempo
nato de dezenas de milhares em um dia transformou o senado no poder depois, mas os seus seguidores manti-
só. Foi o estopim para a Primeira Guerra supremo do Estado. Ele ainda veram o poder até 83 a.C., ano em que
Mitridática, ocorrida entre os anos de 88 mudou a composição dos júris Sulla retornou da Ásia Menor com uma
a.C. e 85 a.C. Ao todo, foram necessárias para que os equestres não vitória importante na bagagem.
três guerras para que Roma, com extre- julgassem mais os senadores.
ma dificuldade, conseguisse afastar a Além disso, o posto de tribuno Uma nova guerra civil começou
ameaça do rei do Ponto. plebeu foi fragilizado, pois estes depois que os adversários de Sulla se
não mais poderiam sugerir uniram a outros italianos para comba-
legislação sem aprovação prévia ter o inimigo em comum. Segundo o
do senado. Um homem eleito historiador Thomas R. Martin, “a bata-
tribuno também não poderia lha culminante da guerra ocorreu no fim
ter mais nenhum outro cargo de 82 a.C., na Porta Colina de Roma”. O
público posteriormente. general dos samnitas teria inflamado
seus homens contra Sulla: “O dia final
está próximo para os romanos! Esses
lobos que tanto assolaram a liberdade
dos povos italianos jamais desaparece-
rão enquanto não cortarmos a floresta
que lhes serve de refúgio”. Porém, mes-
mo diante da empolgação, os samnitas
perderam a batalha e a guerra. Foram
exterminados e o território deles seguiu
para as mãos de Sulla e seus partidários.
Ele ainda aterrorizou seus inimi-
gos em Roma utilizando medida de
lei marcial chamada de “proscrição”.
32
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
A tática era publicar lista dos nomes CURIOSIDADE Shutterstock
de pessoas acusadas de crimes de trai-
ção. Qualquer cidadão poderia caçar e Sobre o fato bastante
matar tais pessoas sem a necessidade incomum de ter sido
de qualquer julgamento prévio. A pro- homenageado por uma
priedade dos proscritos era confiscada grande vitória militar com
e distribuída aos homicidas. Os aliados apenas 23 anos – já que os
de Sulla passaram, então, a adicionar a grandes generais só recebiam
esta macabra lista nomes de homens honrarias em idades mais
inocentes que tinham muitas terras. avançadas –, Pompeu teria
Dessa forma, eles tinham o pretexto dito a Sulla: “Mais pessoas
perfeito de punir “supostos traidores” veneram o nascer do que o
e ficar com as suas valiosas e cobiçadas pôr do sol”.
propriedades. Busto do líder
Pompeu, que,
Percebendo que sua saúde estava bastante jovem,
debilitada, Sulla deixou a vida pública se tornou um
em 79 a.C. e faleceu no ano seguinte. reconhecido líder
POMPEU VITÓRIA SOBRE OS PIRATAS
O novo modelo de líder romano deixa- No ano de 67 a.C., Pompeu acabou eleito para ser um comandante com altos po-
do por Sulla criou sucessores. Homens deres no combate a mais de mil navios piratas que infestavam as rotas do mar
que buscavam poderes para si mesmos Mediterrâneo. O cônsul romano contava com 500 barcos, 120 mil homens, além de
enquanto proclamavam estar traba- cinco mil cavalos.
lhando pelo Estado. Gneu Pompeu
(106 a.C. a 48 a.C.) foi o primeiro líder Sua tática nesta batalha foi bastante astuta. Ele dividiu o Mediterrâneo em tre-
desta leva. Ainda muito jovem, com ze regiões, pois, se tentasse atacar em um só ponto, os piratas teriam tempo para
apenas 23 anos, Pompeu teria agrega- reagir. Sua estratégia deu certo. Os adversários não puderam revidar a ofensiva
do, de acordo com a tradição, um exér- romana. Eles ainda tentaram fugir para a região da Sicília, mas, em apenas 40 dias,
cito privado dos clientes de seu pai na os ladrões que ameaçavam o comércio marítimo do Império Romano já estavam
Itália para se unir a Sulla na campanha dispersos. Cerca de 20 mil deles foram rapidamente capturados.
de retomada do poder da capital no
ano de 83 a.C. O rapaz alcançou o fei- VIOLÊNCIA NO Shutterstock
to de derrotar os inimigos restantes de TOPO DA POLÍTICA
Sulla que tinham fugido para a Sicília e »»
África do Norte. O episódio lhe rendeu LÚCIO CORNÉLIO SULLA
a honra de celebrar um triunfo, algo ATERRORIZOU ROMA DEPOIS DE
incomum para os mais jovens – ainda SUA OUSADA A CONSPIRAÇÃO
mais para alguém que nunca ostentou DE LÚCIO SÉRGIO CATILINA,
um cargo público sequer. EM 63 A.C., MOSTRAVA COMO
RAZÕES FINANCEIRAS PODERIAM
O prosseguimento de sua carreira GERAR PROBLEMAS DENTRO DO
mostrou que ele não se importava mui- CONTEXTO POLÍTICO.
to com as tradições romanas. Depois Ele era um nobre afundado em
que Sulla saiu de cena, ele tomou as dívidas que reuniu um grupo de
rédeas do poder para si. Ajudou a re- devedores de alta classe e vítimas
primir uma rebelião na Espanha e uma dos confiscos realizados por Sulla.
revolta bastante aguda de escravos na Como não conseguia vencer a eleição
Itália, liderada pelo gladiador Espárta- para cônsul, tentou matar os líderes
co. Como consequência dos triunfos mi- da época para redistribuir a riqueza
litares, exigiu e foi eleito cônsul em 70 aos seus partidários. No entanto,
a.C., bem antes de ter atingido a idade Cícero, um dos cônsules daquele
legal de 42 anos. ano, impediu que o plano de Catilina
ganhasse forma.
busto em
mármore
de Cícero
33
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA
ESCRAVOS SE Gravura de Shutterstock ÊXITOS E
REVOLTAM SOB Espártaco, PROBLEMAS
A LIDERANÇA líder da
DE ESPÁRTACO rebelião de O sucesso de Pompeu lhe rendeu gló-
escravos rias. Ele chegou a ser comparado com
Alexandre, o Grande. Por isso, recebeu
NA ÉPOCA DE POMPEU, A era atravessar os Alpes e chegar à o nome Magnus, o que o tornou “Pom-
REPÚBLICA FOI COLOCADA Gália. Em seguida, queriam pisar na peu, o Grande”. Ele gabava-se por ter
SERIAMENTE EM RISCO POR Trácia, a sua terra natal. Para impedi- feito as receitas das províncias de Roma
ESPÁRTACO, LÍDER DE UMA los, dois cônsules foram destacados. dispararem e chegou a distribuir aos
REVOLTA DE ESCRAVOS SEM O primeiro, Gélio Publícola, seguiu soldados dinheiro que equivalia a doze
PRECEDENTES. OS SERVOS em direção ao sul. Já Lêntulo anos de pagamento apenas com a par-
ENFRENTARAM COM BRAVURA Clodiano tinha como tarefa ticipação nos despojos.
AS LEGIÕES POR DOIS ANOS interceptar os escravos no norte.
E SÓ FORAM VENCIDOS PELA No Monte Gargano, na Apúlia, Gélio Quando da conquista de algum ter-
INTERVENÇÃO DAS TROPAS venceu vinte mil rebeldes. O cônsul ritório, não consultava o senado sobre
TOCADAS POR POMPEU. partiu, em seguida, para auxiliar os arranjos políticos que deveria seguir.
Lêntulo. Contudo, os escravos Comportava-se como um rei indepen-
O grego Espártaco foi pastor destruíram os dois exércitos. dente, não mais como representante
e soldado romano. Desertou e O governador da Gália Cisalpina, maior da República.
tornou-se chefe de uma quadrilha. Cássio Longino, atacou Espártaco
Em 73 a.C., acabou preso e vendido com 10 mil homens na atual Mas os êxitos de Pompeu também
a uma escola de gladiadores no Modena, mas também sofreu revés. lhe reservavam dificuldades. Os rivais
sul da península Itálica. Segundo Espártaco poderia ter prosseguido da classe alta romana estavam ressen-
conta o historiador grego Plutarco, a viagem para o lado norte, tidos e temerosos. Entre eles estavam
Espártaco se revoltou contra entretanto, decidiu voltar para Marco Licínio Crasso – que comandou a
a humilhação e as injustiças o sul. Talvez pretendesse atacar vitória sobre Espártaco – e o jovem Júlio
cometidas no local e fugiu junto Roma, que tinha dois dos principais César (100 a.C. a 44 a.C.). Para conse-
com outros cativos. generais em campanhas distantes: guirem apoio contra Pompeu, decidi-
Foi então que Roma mandou tropas Pompeu, na Espanha, e Lúculo, na ram ajudar os mais necessitados e se
para estancar a rebelião. Mas o Trácia. O senado destacou Marco tornaram líderes populares.
exército romano sofreu um forte Crasso para combatê-lo.
revés. As notícias começaram a Espártaco venceu mais duas colunas Shutterstock
se espalhar rapidamente e muitos romanas e continuou rumo ao sul.
outros escravos juntaram-se aos Ele queria chegar ao mar e atravessar
rebeldes, refugiados no monte para a Sicília. Fez um pacto com
Vesúvio (um vulcão em Nápoles). piratas, mas os espiões de Crasso
Em nova tentativa de encerrar o descobriram o plano e subornaram
levante, o governo de Roma enviou os corsários. Sem opções, Espártaco
três mil homens sob o comando do ainda buscou negociar a rendição.
pretor Cláudio Glaber, que planejou Crasso negou-lhe. Sem saída, o
matá-los de fome fechando a única rebelde atacou o exército romano
saída do Vesúvio. No entanto, no norte da Lacânia, em 71 a.C.
Espártaco desceu a montanha O historiador Plutarco conta que
com cordas e atacou as tropas de Espártaco tentou matar Crasso, mas
surpresa. Os romanos abandonaram não teve condições de chegar até o
suas armas e fugiram. general. O exército dos rebeldes foi
A cada nova vitória alcançada, derrotado e os 6 mil combatentes
o contingente rebelde recebia a que sobreviveram foram crucificados
adesão de agricultores pobres, ao longo dos 200 quilômetros da
desempregados, além de mais Via Ápia de Cápua, perto de
escravos. O avanço de outro pretor, Nápoles, até Roma. O movimento
Públio Varino, também foi detido rebelde chegava ao fim.
pelas táticas de guerrilha dos
gladiadores. No final de 73 a.C., o
exército de Espártaco já contava com,
aproximadamente, 100 mil homens.
Os rebeldes se dividiram. Uma parte
continuou no sul da península Itálica.
Já o líder Espártaco e outro grupo
seguiram para o norte. O plano deles
34
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
A população de Roma era muito Shutterstock TRIUNVIRATO noivo dispensado casando-o com a fi-
grande e boa parte dela morava amon- lha dele. O casamento entre Pompeu e
toada em prédios não melhores do que No ano de 62 a.C., quando Pompeu Júlia, inicialmente apenas um arranjo
favelas. Estava bem difícil achar tra- voltava a Roma, vindo da vitória no com interesse estritamente político,
balho. Muitos se alimentavam apenas Mediterrâneo, os líderes políticos de- virou paixão intensa. O relacionamen-
com os grãos que eram distribuídos há cidiram se recusar a apoiar os seus to ajudou a impedir que Pompeu rom-
tempos pelo governo central. Era peri- arranjos territoriais e a autorizar a dis- pesse de imediato a aliança política
goso andar na rua, pois a cidade não tribuição de terras como recompensa com César. Contudo, em 54 a.C., quan-
tinha força policial constituída. O cená- aos veteranos de guerra. A represália do ela faleceu durante um parto junto
rio econômico também já não era dos era fruto de inveja pela fama dele. O com a criança que carregava, o vínculo
melhores e os preços das propriedades episódio fez com que Pompeu fosse entre os líderes foi quebrado definiti-
caíam a olhos vistos. obrigado a fazer uma aliança política vamente.
com Crasso e Júlio César. Estava for-
Estátua de mado o Primeiro Triunvirato – aliança CURIOSIDADE
Marco Licínio entre três homens.
Crasso Na batalha épica ocorrida na
César foi eleito cônsul em 59 a.C. e Grécia, os homens de César
recebeu um comando especial amplia- tiveram seus suprimentos
do na Gália. Já Crasso conseguiu opor- alimentares cortados por
tunidades financeiras para cobradores Pompeu através de um bloqueio.
de impostos romanos na Ásia Menor, Mas os seus fieis soldados não o
alcançando importância política e mais abandonaram e foram obrigados
recursos financeiros. a comer um pão de gosto
horrível feito de grama e raízes
Os triunviratos – reeditados poste- misturadas com leite.
riormente – foram invenções políticas Os homens de César correram
que ignoraram a constituição romana. até os postos avançados de
Tinham o objetivo, único e exclusivo, Pompeu e atiraram o primitivo
de beneficiar seus membros. Para sus- alimento por sobre o muro
tentar esta estrutura, os integrantes da gritando que jamais deixariam
tríplice união passaram então a con- de lutar enquanto “a terra
trair casamentos de motivação política produzisse raízes para que
entre si. Em 59 a.C., Júlio César casou roessem”. Os historiadores
a filha dele, Júlia, com Pompeu. Ela es- relatam a exclamação de
tava comprometida com outro rapaz, Pompeu: “Estou lutando
mas o próprio Pompeu tranquilizou o contra animais selvagens”! Ele,
então, proibiu que o alimento
rudimentar fosse mostrado
às tropas, temendo que os
homens perdessem a coragem
caso descobrissem como eram
corajosos e obstinados os
soldados de César.
Por suas Imagem de
conquistas, Júlio César, que
Pompeu chegou dividiu o poder
a ser comparado com Pompeu
a Alexandre, o e Crasso
Grande, retratado
nesta escultura
Shutterstock »»
35
CAPÍTULO 4 • MUDANÇA
JÚLIO CÉSAR Shutterstock Pintura do francês Antoine
X POMPEU ShutterstockCaron ilustra batalha entre
CÉSAR E CLEÓPATRA Pompeu e Júlio César
Cônsul na Gália (atual França) a partir Modelo utiliza
de 58 a.C., César virou o maior rival de Após derrotar Pompeu, o líder viajou ao Egito para cobrar uma indumentárias
Pompeu e decidiu lutar pelo cargo má- quantia em dinheiro que o governo devia ao tesouro romano de Cleópatra
ximo em Roma. Ele começou a montar desde o reinado do pai de Cleópatra. No entanto, os assuntos
sua estratégia durante a Guerra da Gá- políticos abriram espaço para o famoso romance entre Júlio César
lia. Após derrotar os gauleses, Júlio Cé- e Cleópatra.
sar atravessou o Rubicão, rio que sepa-
ra a Itália da Gália, em direção a Roma. O rei Ptolomeu 13 – irmão de Cleópatra –, ao saber do caso
O senado já o via como uma ameaça entre os dois, incitou o povo de Alexandria a rebelar-se contra os
real e um futuro ditador. romanos. O exército de Roma foi cercado e sitiado no palácio. Os
reforços para auxiliar César chegaram apenas meses depois, mas
Sem alternativa diante do rival, conseguiram vencer os aliados de Ptolomeu. O jovem faraó foi
Pompeu enfrentou as tropas inimigas achado morto por afogamento no Rio Nilo. Mantendo a tradição,
na Itália, na Espanha e nos Balcãs. Cé- Cleópatra casou-se com o último irmão dela, Ptolomeu 14.
sar o derrotou nas três oportunidades.
Finalmente, em Farsália – norte da Gré- Mesmo assim, o romance entre César e Cleópatra era eviden-
cia –, veio o revés definitivo de Pompeu, te a todos. Eles teriam passeado de barco durante dois meses
mesmo com uma cavalaria bem arma- pelo Nilo como dois bons amantes. Contudo, os historiadores res-
da. Os exércitos de César se antecipa- saltam que o motivo maior da permanência de César no Egito
ram aos oponentes, mataram seis mil era outro: como abril era o mês da colheita do trigo egípcio, ele
adversários e capturaram outros 24 mil aproveitou a ocasião para estocar as suas embarcações com o
homens. Pompeu, após 34 anos de in- cereal. Vale dizer que a maior parte do trigo consumido em Roma
vencibilidade militar e aos 59 anos, pre- vinha justamente do Egito.
cisou fugir. Foi de barco rumo ao Egito.
Como o rei egípcio, Ptolomeu, tinha
apenas 10 anos de idade, o governo lo-
cal era administrado por um conselho
constituído por Potino, Tódoto e Áquila.
O trio teve medo de César e planejou
uma armadilha para Pompeu. Áquila
convocou o tribuno Septimio e o cen-
turião Sálvio. Os três receberam o barco
de Pompeu, que foi assassinado. Ele
teve a cabeça cortada e levada para Jú-
lio César que, uma década depois, foi
nomeado ditador romano (48 a.C.).
107 A.C. 88 A.C.
Caio Mário Romanos lutam
vence a Primeira Guerra
eleição Mitridática contra
para cônsul o rei do Ponto,
91 A 87 A.C. na Ásia Menor
CURIOSIDADE ShutterstockRomanos e 73 A.C.
Shutterstockaliados italianosSob a liderança
Júlio César mostrou-se mais Nikolay Sachkov/ Shutterstockconfrontam-sede Espártaco,
benevolente com os inimigos na Guerra Social escravos se
do que outros líderes. revoltam
Orgulhava-se de sua clemência contra Roma
e tinha os antigos adversários
como seus clientes. Como 87 A.C.
recompensa, César recebia Confronto entre
homenagens sem precedentes, Lúcio Cornélio
como um assento de ouro Sulla e Caio
no senado e a renomeação Mário dá início
do sétimo mês do ano (Júlio, à Guerra Civil
dando origem a julho).
Vincenzo Camuccini, do período
neoclássico, retratou em tinta a
óleo a morte de Júlio César
Júlio César nunca se casou com Cle-
ópatra. Isso porque ele já era casado
com Calpurnia, uma romana com quem
jamais teve filhos.
GOVERNO Shutterstock
DE CÉSAR
As eleições para cargos públicos peras de iniciar mais uma campanha
Em 47 a.C., no mês de julho, Cleópatra continuavam, mas César era quem de- militar, foi atacado por seus conspira-
deu à luz um menino. Ele recebeu o terminava os resultados recomendando dores. Em 15 de março de 44 a.C., foi
nome de Ptolomeu 15, mas ficou mais candidatos às assembleias, que eram assassinado por 60 senadores, que o
conhecido mesmo como Cesário. dominadas por seus partidários. E, evi- acusavam de querer ser rei, o que sig-
dentemente, as suas “recomendações” nificaria o fim da República e a volta da
César assumiu a paternidade. Con- eram imediatamente obedecidas. Ele monarquia. Ele teria sido alvejado com
tudo, atualmente, muitos colocam em foi ambicioso em seu governo. Reduziu 23 facadas nas escadarias do senado.
dúvida quem era o verdadeiro pai da as dívidas com moderação, iniciou um
criança. Segundo alguns historiadores grande programa de obras públicas – in- A história conta que o grupo foi li-
contemporâneos, Cleópatra nutria a clusive com a edificação de bibliotecas derado por Marcus Julius Brutus, filho
esperança de que seu filho fosse her- –, estabeleceu colônias para os vetera- adotivo dele. Júlio César ainda buscou
deiro não somente do reino do Egito, nos na Itália e ampliou a cidadania aos se defender, cobrindo-se com uma toga.
mas também de Júlio César. Caso isso não romanos. César ainda regularizou Ao ver Brutus, ele teria dito a sua última
ocorresse, Cesário se tornaria gover- o calendário, iniciando um ano de 365 frase, que ficaria muito famosa: “Até tu,
nante de um império comparável ao de dias. Este sistema foi fundamentado em Brutus”. O que os conspiradores não
Alexandre, o Grande, da Macedônia. um antigo calendário egípcio e forma a imaginavam era que o assassinato de
base do calendário moderno. César não traria o sistema republicano
O nascimento do filho de Cleópatra de volta, mas criaria uma nova guerra
foi bastante conveniente para César. DERROCADA civil e as condições necessárias para o
Como pai do herdeiro do trono do Egi- início de uma verdadeira monarquia.
to, ele poderia garantir o envio do trigo Este líder governou Roma como quis.
egípcio para o território romano sem Obrigava senadores a aprovar projetos Após o episódio, Cleópatra surpre-
maiores despesas. No ano de 44 a.C., que não haviam lido. Elevou o número endeu-se ao verificar que o testamento
César removeu qualquer limitação de de integrantes do senado para colocar de César designava Otávio, seu sobri-
tempo ao seu mandato de ditador. Tan- amigos nos novos postos. Ainda ali- nho, e não Cesário, como o seu principal
to que em suas moedas aparecia a ins- mentava o sonho de conquistar o reino herdeiro. O mais conhecido atentado
crição “ditador perpétuo”. Como havia dos Partos (região entre o mar de Aral político da Antiguidade deu fim à vida
um ódio à monarquia dentro de Roma, e o mar Cáspio) para formar uma nova do polêmico ditador. Mesmo assim, o
ele insistia em dizer: “Não sou rei, sou monarquia mundial. Porém, às vés- nome “César” ainda foi utilizado por
César”. Mas a distinção que fazia era, na muitos anos como título para os futuros
prática, insignificante. Com ditador, ele imperadores romanos.
controlava pessoalmente o governo.
63 A.C. 58 A.C. Shutterstock
Catilina tenta conspirar Tropas de Pompeu investem
contra Pompeu contra Júlio César, que vence
batalhas e assume o poder
60 A.C:
Pompeu,
Crasso e Júlio
César formam
o primeiro
governo
Triunvirato
Shutterstock
Shutterstock
Shutterstock
70 A.C. 47 A.C.
Após importantes 59 A.C. 57 A.C. Cleópatra dá à Shutterstock
vitórias militares, Júlio César luta Júlio César inicia luz Cesário, filho
Pompeu é eleito cônsul na Guerra da Gália romance com Cleópatra de Júlio César
44 A.C.
67 A.C. Grupo de conspiradores
Pompeu vence assassina Júlio César
piratas que ameaçavam
comércio marítimo
pelo Mediterrâneo
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA
Estátua de César
Augusto em Roma:
imperador assumiu
o poder após a
morte de Júlio César
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
A ASCENSÃO DO
IMPÉRIO ROMANO
APÓS O DERRAMAMENTO DE SANGUE EM
INÚMERAS GUERRAS, UM REPAGINADO SISTEMA
MONÁRQUICO DE GOVERNO ELABORADO POR
CÉSAR AUGUSTO REAPARECE EM 27 A.C.
O assassinato de Júlio César, em 44 a.C., marcaria o
triste fim da República e também uma nova etapa
na história romana. Em 27 a.C., o sistema monárquico
estava de volta, ainda que não fosse assim denomina-
do. Naquele ano, Otaviano já havia vencido todos os
seus rivais e adotou o nome Augusto – com a alegação
de estar aprimorando a República. Os historiadores con-
temporâneos são unânimes em dizer que se tratava de
uma monarquia disfarçada e afirmam que tais governa-
dores eram, na realidade, imperadores.
Independentemente disso, o grande mérito do novo sistema
era ter posto fim a décadas de guerra civil. A concentração de
poder nas mãos de um homem soberano trouxe de volta valo-
res como a lealdade ao governante e sua família. Otaviano, por
sua vez, manteve instituições importantes e já consagradas no
ambiente romano – casos do Senado, da escada de cargos, das
assembleias e dos tribunais. Enquanto isso, ele atuava como um
imperador sem reivindicar os privilégios de tal posição.
Shutterstock DISPUTAS »»
Após a morte de Júlio César, a batalha pela vaga do tirano não foi
tranquila. Mais guerras civis marcaram o momento. Os concor-
rentes iniciais foram Lépido e Marco Antônio – dois experientes
generais –, além de Otaviano, sobrinho-neto de apenas 19 anos
de César. Esse último era um militar novato, cuja nova identidade
como filho de César rendeu-lhe a lealdade daqueles soldados
que tinham adorado o ditador.
Com o apoio dos militares veteranos de seu pai adotivo, que
aguardavam pelo recebimento de recompensas pelo general
morto, Otaviano estudava na Grécia. Assim, o jovem os enviou
para lutar contra Marco Antônio no Norte da Itália. Depois de um
triunfo inicial, ele marchou com seus homens para a capital. Lá,
exigiu ser eleito cônsul, mesmo não tendo nenhuma experiência
sequer em cargos públicos. Bastante amedrontados, os senadores
39
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA
Shutterstock Shutterstock No entanto, Otaviano e Marco Antônio
conspiraram entre si para relegar Lépido
Marco Antônio, retratado em obra exposta a um cargo de importância menor. Ele fi-
na Áustria, lutou pelo posto de tirano cou com o posto de governador da África
do Norte, mas perdeu todo e qualquer
CURIOSIDADE Escultura antiga faz menção a poder de decisão com relação aos assun-
Cleópatra VII, que se uniu amorosa e tos de Roma.
Os historiadores contam que
Cleópatra VII decidiu dar fim politicamente com Marco Antônio Desta maneira, Marco Antônio e
à própria vida de um modo Otaviano passaram a dividir o controle
bastante inusitado. Ela teria concederam o posto a Otaviano. Essa foi, romano. O primeiro detinha os territó-
permitido ser picada por uma sem dúvida alguma, a maior exceção à rios do Mediterrâneo Oriental – incluindo
cobra venenosa, símbolo de tradição da escada de cargos. as terras do Egito. Já o segundo ficava
autoridade régia. com a Itália e o Ocidente. Porém, com o
Em seguida, Otaviano decidiu unir passar do tempo, a relação entre ambos
Shutterstock forças com Marco Antônio e Lépido para ficou mais hostil.
enfrentar nova guerra civil contra os
seus inimigos na Itália. Eles venceram Antônio uniu-se à rainha do Egito,
a batalha e, em novembro de 43 a.C., Cleópatra VII. Sagaz, ela fez da relação
formaram um novo Triunvirato – gover- mais do que um acordo de aliados: os
no de três líderes. Forçaram o Senado a dois tiveram uma relação amorosa.
reconhecer a aliança como uma disposi- Como resposta, Otaviano reuniu os ro-
ção emergencial oficial para reconstru- manos e alegou que o rival tinha planos
ção do Estado. Juntos, triunfaram sobre o de fazer de Cleópatra a soberana estran-
exército dos “libertadores”, em 42 a.C., geira deles. Além disso, também trans-
na batalha de Filipos, norte da Grécia. formou os habitantes da Itália e provín-
cias ocidentais em clientes, obrigando-
-os a fazer juramento de lealdade a ele
em 32 a.C. Foi desse modo que Otavia-
no conseguiu, em 31 a.C., vencer uma
guerra naval contra Cleópatra e Antônio
na costa de Ácio, no Noroeste da Grécia.
Os amantes derrotados decidiram fugir
para solo egípcio, onde teriam cometido
suicídio um ano depois. Otaviano tomou
para si o reino do Egito, muito rico em
recursos diversos. Abastado e no coman-
do de um exército poderoso, tornou-se
um líder sem rival à altura e, de longe, o
mais próspero da época.
RESTAURAÇÃO
DA REPÚBLICA?
Após a vitória, Otaviano – líder de um
exército de clientes – distribuiu terras
aos militares veteranos com o objetivo
de criar povos fiéis a ele. No ano de 27
a.C., fez um comunicado público de que
estava restaurando a República. Disse
ainda que seria tarefa do Senado e do
povo romano decidir a forma como o
governo deveria ser preservado a par-
tir daquele momento. Os senadores,
40
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
CURIOSIDADE Shutterstock Estado. Para tanto, concederam a ele o buno mesmo sem exercer tais funções.
nome honorário de Augusto – que signi- Era desse modo que Augusto conseguia
Otaviano – também chamado ficava “favorecido dos deuses”. Na oca- manter-se como uma espécie de impe-
de César Augusto – recebeu sião, Otaviano pensou em mudar seu rador camuflado. César Augusto tam-
uma grande homenagem nome para Rômulo, o que o colocava bém decidiu prosseguir com a cerimô-
ao dar nome ao oitavo mês como uma espécie de segundo funda- nia tradicional. Vestia-se como um cida-
do ano, “augustus”, que antes dor de Roma. Porém, ele avaliou que a dão normal e não como um monarca.
era chamado de “sextilis”. alcunha de um rei era perigosa naquele
momento político. A estrutura de governo, nos anos
Estátua após 27 a.C., ajudou a manter a apa-
de César A realidade é que a forma de gover- rência republicana. As eleições anuais
Augusto no elaborada por Augusto atualmente de cônsules e outros cargos, a existên-
em Roma é denominada principado, derivada do cia do Senado e a aprovação de legis-
seu título de princeps – que significa lação nas Assembleias são alguns bons
contudo, reconheciam que Otaviano “o primeiro”. A escolha da designação exemplos de práticas que asseguraram
possuía um poder avassalador e im- “primeiro homem” foi uma verdadeira essa imagem. Isso ocorria porque o
ploraram a ele que continuasse com jogada de mestre. No período republi- controle de Augusto era exercido no
as rédeas da situação para proteger o cano, tal designação honorária era dada exército e no tesouro público. Essas
ao senador com o maior status, para instituições foram reconfiguradas com
quem os demais integrantes do Senado a intenção de garantir a manutenção
se voltavam em busca de orientação. do poder. O exército deixou de ser uma
Com isso, Augusto indicava de maneira milícia de cidadãos para se tornar uma
implícita que continuava uma das mais força permanente. A receita imperial
valorizadas tradições republicanas. foi usada para garantir os salários dos
soldados e bonificação na aposentado-
Para reforçar a ideia de que estava ria. Para conseguir pagar demais cus-
apenas dando sequência à República, tos, Augusto instituiu um imposto sobre
ele mantinha vivo o discurso de que as heranças. A tributação direta sobre
só prosseguia como líder político por os cidadãos, algo bastante raro, afetou
insistência dos senadores. Obrigava-os sobremaneira os mais ricos, o que cau-
também a aprovar, periodicamente, a sou descontentamento.
concessão de poderes de cônsul e tri-
Foto atual da floresta de Teutoburgo, na Alemanha, EXÉRCITO DE AUGUSTO SOFRE
onde três legiões romanas foram exterminadas DERROTA NA ALEMANHA
Shutterstock SEMPRE EM OBEDIÊNCIA AO SEU LÍDER, OS SOLDADOS
ACEITAVAM OS DESAFIOS PROPOSTOS SEM HESITAR.
A GRATIDÃO PELO PATRONO MOVIA AQUELE GRUPO DE
HOMENS RUMO A TAREFAS BASTANTE PERIGOSAS.
Em uma delas, no ano de 9 d.C., Augusto designou as forças
militares de Roma para uma expedição que tinha como
objetivo expandir a dominação para a atual Alemanha.
Contudo as três legiões da missão foram exterminadas em
uma emboscada na Floresta de Teutoburgo. O exército romano
bateu em retirada e não alcançou seu grande objetivo.
A história conta que Augusto ficou em desespero, pois temia
uma série de rebeliões e ataques. Além disso, na avaliação dele,
os danos pela perda de tantos homens na guerra poderiam ser
avassaladores. Segundo o escritor latino Caio Suetônio, nesta
época, Augusto parou de se barbear e de cortar o cabelo por
meses. Ele vagava pela residência em Roma e batia a cabeça em
uma porta enquanto gritava contra o comandante morto da
expedição: “Quintílio Varo, devolva minhas legiões”.
»»
41
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA
ORDEM IMAGEM de Augusto foi formalmente aberto
NA CASA em 2 a.C. e nele havia um templo para
Mostrar a figura do imperador como um Marte (o deus romano da guerra) e
Com o passar do tempo, César Augus- líder bem-sucedido e patrono generoso Vênus (deusa do amor), que o impera-
to decidiu concentrar a sua atenção na era de fundamental importância para dor alegava ser a sua ancestral divina.
segurança do perímetro do Império. Em garantir a estabilidade daquele sistema O santuário foi construído como uma
geral, a maior parte do exército cuidava político. Para conseguir passar adiante forma de agradecimento às divinda-
das províncias para que fossem evita- este conceito, Augusto utilizava as mo- des pelo triunfo diante das forças dos
das rebeliões internas e também inva- edas como um meio de propaganda assassinos de César. Lá era exibida a es-
sões dos diversos povos estrangeiros. política. Nelas era possível ler mensa- pada de Júlio César como um memorial
gens que o proclamavam “restaurador ao pai adotivo.
A partir do ano de 27 a.C., o líder da liberdade”. Outras faziam menção a
romano começou a colocar em posição alguma obra importante por ele idea- A preocupação de Augusto com sua
soldados na própria capital. Tais ho- lizada. imagem fica clara até mesmo no lo-
mens eram chamados de pretorianos cal de habitação. O imperador romano
por conta da função original de esta- Augusto, aliás, enfatizava outra fez questão de edificar sua residência
rem estacionados como guarda-costas tradição romana: como um homem pessoal no monte Palatino, onde vivia
perto da barraca (praetorium) de um rico, usava o próprio dinheiro para er- modestamente. Tal fato, é claro, era
comandante no campo. Essas tropas guer importantes construções públi- muito bem divulgado com o objetivo
compunham a guarda imperial prin- cas. Importante dizer que o imperador de mostrá-lo como um cidadão comum.
cipal, ainda que o imperador contasse herdou uma enorme fortuna de Júlio Já os imperadores que o sucederam não
com um pequeno grupo de mercenários César, além de ter multiplicado seus tiveram essa astúcia política e construí-
alemães – fiéis somente a ele – para a ganhos através dos confiscos de guer- ram palácios gigantescos na mesma co-
proteção pessoal. A existência desses ras e despojos conquistados, principal- lina com vista panorâmica para o Circo
agrupamentos foi uma forma de mos- mente, no Egito. Os projetos arquitetô- Máximo, local que abrigava corridas de
trar que a superioridade do governante nicos dele não só garantiam melhorias bigas – um dos entretenimentos públi-
era pela ameaça de força, não somente nas instalações públicas, mas também cos favoritos de Roma.
pela suposta autoridade moral em si. passavam ao povo a mensagem de
que seu imperador era alguém bas-
eZeePics/ Shutterstock tante generoso. Shutterstock
O novo fórum – uma praça pública
ao lado do antigo Fórum Romano – foi
totalmente custeado por Augusto. Se-
gundo o historiador Thomas R. Martin,
“a obra no centro da cidade ilustra in-
teiramente a sua habilidade em enviar
mensagens claras aos populares por
meio das pedras e estátuas”. O Fórum
Atores encenam em Shutterstock
Roma uma ação da
antiga guarda pretoriana
Moedas da época
do Império Romano:
Augusto as usava
como instrumento de
propaganda política
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Durante seu governo, Augusto ainda mais que havia visto a República estava dele: além da conexão familiar com o
elaborou um longo documento. Ele que- vivo”. Contudo, mesmo os mais jovens
ria que a carta, que descrevia todas as podiam perceber que o imperador trou- antecessor, o brilhante histórico de ge-
suas realizações como governante, fosse xe uma rara estabilidade à sociedade
divulgada por toda parte depois de seu de Roma, o que ajudou a transformá-la neral garantia-lhe o respeito máximo
falecimento. Nela, Augusto afirma, em no grande império do período.
primeira pessoa, que sua carreira fora de todo o exército romano.
firmada nas tradições da República. DINASTIA JÚLIO-
CLAUDIANA O sucesso político, contudo, gerou
Em geral, os historiadores diver-
gem sobre as reais intenções de César Antes de falecer, Augusto arquitetou a perdas pessoais. Para tornar-se suces-
Augusto. Enquanto alguns o classificam sucessão de poder em Roma. Como não
como um imperador cruel e descarado tinha herdeiro próprio, adotou Tibério, sor de César, precisou fortalecer os la-
que tinha apenas o objetivo de alcan- filho adulto do casamento anterior da
çar o poder suprimindo a liberdade da esposa dele, Lívia. O rapaz apresenta- ços familiares. Augusto forçou Tibério
República, outros o consideram um re- va um brilhante histórico militar. César,
formador bem-intencionado que encon- então, informou ao Senado que o exér- a separar-se da esposa, Vipsânia, para
trou na monarquia maquiada uma ma- cito queria que esse filho adotivo esti-
neira de superar um cenário anárquico. vesse na linha sucessória. desposar a filha dele, Júlia. Um matri-
Mesmo sofrendo com muitas doen- Os senadores foram bastante pru- mônio estritamente político e extre-
ças durante a sua vida, ele governou dentes ao confirmar a escolha de Au-
Roma até a morte, em 14 d.C., aos 75 gusto a esse respeito depois do fale- mamente infeliz, pois ele amava mui-
anos de idade. Foram, ao todo, 41 anos cimento do primeiro imperador. Inte-
de um longo reinado. Segundo observou grantes da família de César – conheci- to a ex-mulher. Tibério nunca teria se
o historiador Tácito um século depois, dos como Júlio-Claudianos por causa
Augusto viveu tanto que, por volta da dos nomes das linhagens da família de recuperado por completo da tristeza.
época em que morreu, “quase ninguém Augusto (julianos) e Tibério (claudia-
nos) – continuaram a ocupar a posição Tanto que passou a última década de
Imagem do de “primeiro homem” nos cinquenta
Fórum de anos seguintes com aprovação do Se- vida recluso em um palácio na ilha de
Augusto, obra nado. Tibério assumiu o poder e perma-
totalmente neceu como imperador por 23 anos, até Capri, perto de Nápoles, e nunca mais »»
custeada pelo 37 d.C. O longo período de governo só
imperador foi possível por causa das qualificações voltou para Roma.
Escultura de
mármore do
imperador
Tibério, sucessor
de Augusto
Shutterstock
Shutterstock
Ruínas no monte Palatino, local
de habitação dos imperadores
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA
CURIOSIDADE CALÍGULA por uma prostituta que escapasse do Shutterstock
tributo de Caio.
Algumas fontes antigas Caio foi o sucessor de Tibério na di-
dão conta de que, após nastia Júlio-Claudiana. Mais conhecido Vaidoso, ele ainda exagerou em sua
separar-se de Vipsânia, Tibério como Calígula (12 a 41 d.C.), ele nu- conduta pública, labutando em comba-
foi para a casa da ex-mulher tria um defeito letal dentro da política: tes gladiatórios simulados e fazendo
para lhe rogar o perdão. apreciava demasiadamente o poder. aparições em palcos como cantor, ator
Não há registro na história Além disso, não havia construído uma e até vestido de mulher. Calígula ainda
sobre a resposta ao pedido sólida carreira militar como os demais teria tido casos sexuais com as próprias
dele. O que se sabe é que, líderes romanos. A verdade é que Tibé- irmãs. O comportamento do imperador
pouco depois, ele prometeu rio o escolheu para substituí-lo por ser ultrapassou todos os limites. Em 41
a Augusto que nunca mais bisneto da irmã de César Augusto. d.C., para colocar fim à sua farra, dois
voltaria a ver Vipsânia. soldados da guarda pretoriana o mata-
Mesmo com a falta de tais atribu- ram como vingança pelos insultos dire-
Mesmo com fama de poucos ami- tos, Caio poderia ter alcançado suces- cionados a eles.
gos e da impopularidade, Tibério con- so na empreitada, pois, no começo de
seguiu oferecer à nação um tempo seu governo, possuía uma considerável Imagem de
tranquilo de transição. Era o período apreciação do povo. Também entendia Agripina,
que o Império necessitava para que de assuntos militares, apesar da falta
ficasse estabelecido um denominador de maior experiência prática. mulher de
comum entre o imperador e a elite, tão Cláudio: ela
descontente na época de César Augus- Contudo, ao receber poder sem li-
to. Ainda que governasse como um mo- mites, Calígula mostrou que não trazia o matou
narca, ele precisava da cooperação da consigo uma personalidade de lide- envenenado
classe alta nos cargos públicos da admi- rança. Ele, na realidade, carregava no
nistração, de comandantes do exército coração o desejo de satisfazer os seus
e de líderes nas províncias. Enquanto interesses pessoais. O sucessor de Ti-
esta relação fosse boa, governo e elite bério governou cruelmente, usando da
poderiam gozar de respeito e status. As violência para tratar de diversos pro-
classes mais abastadas continuavam se blemas. Também desperdiçou o dinhei-
deleitando com o prestígio das funções ro público para seu próprio gozo. Para
de cônsules, pretores e senadores. Já os preencher o rombo que abriu no tesou-
imperadores poderiam deixar o status ro, impôs novos impostos sobre vendas
superior evidente ao decidirem quem em todos os setores. Não havia refeição
ocuparia tais postos. Assim, as Assem- rápida na rua ou ato sexual realizado
bleias logo passaram a ser apenas au-
torizações automáticas para os anseios Busto de
dos imperadores. Com isso, essas reu- Calígula,
niões perderam muito de sua antiga imperador
força. romano que
apreciava
No ano de 23 d.C., Tibério decidiu muito
construir um acampamento permanen- o poder
te na cidade para a guarda pretoriana.
Isso facilitava a utilização dos homens Shutterstock
para apoiá-lo caso fosse necessário agir
com força. Ele teria morrido em seu
leito por causas naturais mesmo. No
entanto, um rumor espalhado pelo Im-
pério dava conta de que teria sido asfi-
xiado. A notícia da morte dele, aliás, foi
comemorada efusivamente por muitas
pessoas.
44
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
AMEAÇA À DINASTIA NERO E O INCÊNDIO EM ROMA Shutterstock
O período Júlio-Claudiano ficou em perigo após o assas- ATUALMENTE, AO CONTRÁRIO DO QUE FOI CONTADO »»
sinato de Calígula, pois ele não possuía filhos e o com- DURANTE ANOS, OS HISTORIADORES RECHAÇAM A
portamento violento dele havia assustado sobremanei- IDEIA DE QUE NERO REALMENTE COLOCOU FOGO EM 45
ra a população de Roma. Quando da notícia do homi- ROMA NO ANO DE 64 D.C. O MAIS PROVÁVEL É QUE O
cídio, uma parcela dos senadores movimentou-se com INCÊNDIO ARRASADOR QUE TOMOU CONTA DA CAPITAL
o objetivo de restaurar a República original. Porém, DO IMPÉRIO ENTRE OS DIAS 18 E 19 DE JULHO DAQUELE
essa tentativa foi frustrada pela guarda pretoriana, que ANO TENHA COMEÇADO ACIDENTALMENTE. AS CHAMAS
desejava que os imperadores continuassem como seus DESTRUÍRAM GRANDE PARTE DA CIDADE E DEIXARAM
patronos. Os soldados literalmente arrastaram Cláudio MUITOS MORTOS (APESAR DE O NÚMERO TOTAL DE
– parente de Augusto que não evidenciava qualquer ca- ÓBITOS NÃO SER CONHECIDO). A REALIDADE É QUE AS
pacidade de governar – para o acampamento e, à força, INFORMAÇÕES SOBRE O INCIDENTE SÃO ESCASSAS, POIS
fizeram o Senado proclamá-lo o novo soberano. OS REGISTROS DO CASO SÓ FORAM ESCRITOS VÁRIAS
DÉCADAS DEPOIS.
Cláudio, aos cinquenta anos de idade, assumiu o A teoria de que Nero fora o responsável pelo fogo surgiu
poder e mostrou competência no comando romano. da ideia de que ele tinha a intenção de fazer uma grandiosa
Ele instaurou um precedente essencial ao governo do reforma urbana na cidade, dando fim a diversos bairros
Império alistando homens da província de Gália Tran- inteiros para edificar construções mais modernas no lugar.
salpina – Sudeste da França – no Senado pela primeira Os defensores dessa versão da história acreditavam que o
vez. Essa modificação abriu caminho para a importân- incêndio aceleraria esse processo na metrópole.
cia de se ter províncias como clientes dos imperadores, Já a tese de fogo acidental parte do pressuposto de que as
cuja função era ajudar a manter o Império em paz e chamas teriam surgido em um dos cubículos de madeira do
próspero. O governante ainda liberou o emprego de grande camelódromo ao lado do Circo Máximo, o principal
escravos libertos em cargos administrativos poderosos hipódromo romano. Eram centenas de barracos ocupados
esperando lealdade dos mesmos. por astrólogos, prostitutas e cozinheiros, que utilizavam
fogo para cozinhar e iluminar os ambientes.
O que Cláudio não esperava era pela traição da Segundo relatos da época, o calor do verão em Roma
própria esposa, Agripina, que o envenenou em 54 d.C. era intenso naquele dia e as chamas teriam se alastrado
Ela desejava que Nero (37 a 68 d.C.) – filho adoles- rapidamente alimentadas pela grande quantidade de
cente de um ex-marido – virasse imperador, ao invés madeira e materiais inflamáveis de lojas próximas. Conta-se
do próprio filho de Cláudio. Agripina alcançou o seu que o fogo propagou-se ainda mais por conta do forte vento
objetivo e naquele mesmo ano Nero assumiu o trono. que soprava no sentido sudeste.
O novo imperador apresentava uma personalidade O setor mais densamente povoado de Roma tinha vários
difícil e também caiu nas perigosas armadilhas pro- pequenos e precários prédios de até cinco andares, todos
porcionadas pelo poder absoluto. Não possuía treina- edificados com madeira, tijolos e alvenaria. O fogo,
mento militar adequado. Tampouco foi devidamente provavelmente, se disseminou primeiro por
capacitado para governar um Império. essas construções. Em seguida, avançou para
as áreas mais nobres e consumiu
O que não faltava a Nero era a paixão por música construções mais sólidas.
e pela arte dramática. Assim, os luxuosos festivais pú- Há registros de que uma
blicos que organizava e o dinheiro distribuído às mas- gigantesca nuvem de
sas mantinham a sua popularidade nas alturas. Nero fumaça cobriu a cidade.
desprendeu quantias enormes apenas com os seus Com suas casas arrasadas
prazeres. Para conseguir mais dinheiro, costumava e parentes mortos,
forjar acusações de traição contra cidadãos abastados. pessoas se desesperaram
Assim, podia confiscar as suas propriedades. e cometeram suicídio.
Pelas ruas, muita gente
Diante de um governo tão problemático e polêmi- tentou combater o
co, os indignados comandantes das províncias apoia- incêndio utilizando
ram rebeliões contra ele. Os senadores também insti- baldes com água. Por
tuíram um levante. O fim da linha para Nero foi quando isso, vários romanos morreram asfixiados
um dos comandantes dos pretorianos os subornou para ou pisoteados. Já os bandidos buscavam
desertarem o imperador. Em 68 d.C., com medo de ser saquear as casas abandonadas.
preso e executado, não teve outra escolha: pediu a um Reza a lenda que, durante o incêndio, Nero
servo para cortar sua própria garganta. Antes de fale- teria subido no teto de seu palácio para
cer, teria exclamado: “Que artista morre comigo!”. tocar lira e apreciar os efeitos do fogo. Já
outros relatos informam que ele, na verdade,
participou das brigadas para conter o grande
incêndio. As chamas teriam, inclusive,
destruído o seu palácio.
Desenho contemporâneo faz menção à
lenda de que Nero estava tocando lira
enquanto assistia ao incêndio em Roma
CAPÍTULO 5 • MONARQUIA
VOCÊ SABIA? Estátua de Shutterstock CONTINUIDADE
Vespasiano,
Calígula quer dizer “botinhas”. sucessor A dinastia flaviana teve prosseguimen-
O imperador recebeu este de Nero to com os filhos de Vespasiano, Tito e
apelido das tropas quando no poder Domiciano. Ambos, contudo, herdaram
criança, pois utilizava problemas profundos. Primeiramente,
pequenos sapatos de ras divindades soava normal aos mo- precisavam melhorar a vida do povo
couro que imitavam os dos radores das províncias, que já home- para prevenir as desordens. Em segun-
soldados enquanto viveu nos nageavam reis locais desta forma há do lugar, tinham que esmerar-se na
acampamentos militares onde séculos, desde a época de Alexandre, o defesa contra invasões de outros povos
seu pai era comandante. Grande, no século IV a.C. nas fronteiras.
NOVA DINASTIA Como o culto ao imperador já es- Tito ganhou fama no ano 70 ao
tava estabelecido no lado oriental do derrotar uma rebelião de quatro anos
A morte de Nero deixou Roma sem um Império, Vespasiano buscou fortalecer entre os judeus onde hoje fica Israel
sucessor, pois ele não tinha filhos. Es- a ideia entre os das províncias da Es- e capturar Jerusalém. O Templo de Je-
tava decretado o fim da dinastia Júlio- panha, Sul da França e África do Norte. rusalém, onde ocorriam os rituais do
-Claudiana. Por conta disso, em 68 d.C., Contudo, na Itália o conceito não ga- judaísmo, fora incendiado no ataque e
uma guerra civil teve início entre os in- nhou força entre aqueles habitantes. Os nunca mais reconstruído. No pequeno
teressados em assumir o poder. O vence- italianos, aliás, desdenhavam do culto período em que permaneceu no poder
dor da batalha pelo posto de imperador imperial. (79 a 81 d.C.), Tito ainda foi responsá-
romano foi o general Vespasiano. Com vel por enviar ajuda às comunidades
isso, em 69, ele empossou a família – os Em um período de estabilidade, prejudicadas pela erupção vulcânica no
flavianos – como a nova dinastia. Vespasiano seguiu soberanamente no Monte Vesúvio em 79 d.C.
poder até a sua morte, no ano de 79. Ele
Para dar legitimidade ao novo re- deixou o terreno preparado para a con- Além das ações emergenciais, Tito
gime, Vespasiano obrigou o Senado a tinuidade da nova dinastia que surgira. ainda foi o provedor de diversão para
reconhecê-lo como governante com as massas romanas. Ele concluiu o Co-
uma declaração bastante minuciosa liseu, em 80 d.C., equipando a constru-
dos poderes que passava a ter. Esta foi ção com imensos toldos para fornecer
oficialmente transformada em lei. Com sombra à multidão. Tito faleceu no ano
o objetivo de estimular a lealdade nas seguinte devido a causas naturais.
províncias, ele incentivou os integran-
tes das elites locais a participarem do Domiciano, irmão dele, assumiu
culto imperial. Tais celebrações incluí- o posto em 81 d.C. e permaneceu até
am o sacrifício de animais aos deuses 96. Ele conduziu o exército no combate
para o bem do imperador e, em certos a invasores germânicos – do Norte até
casos, a adoração do próprio imperador. as áreas do Reno e do Danúbio. Era o
A veneração de líderes como verdadei- início de perigosas batalhas fronteiriças
que se intensificariam com o passar dos
anos. Mas o que derrubou Domiciano
mesmo foi a arrogância. O historiador
CURIOSIDADE 43 A.C. 31 A.C.
Otaviano força Tempos depois do
Vespasiano parece ter o Senado a rompimento do governo
levado a sério a ideia reconhecê-lo como triúnviro, Otaviano derrota
de ser uma divindade. cônsul. Ele, Lépido aliança entre Cleópatra VII
De acordo com o e Marco Antônio e Marco Antônio.
historiador Suetônio, formam um Triunvirato.
ele teria proferido
a seguinte frase no 42 A.C. 9 D.C.
leito de morte: “Ai de Trio vence os Augusto sofre revés na
mim! Acho que estou autoproclamados Alemanha e encerra planos
virando deus”. “libertadores” na batalha de expansão ao Norte.
de Filipos, na Grécia.
27 A.C. 14 D.C.
Otaviano “restaura a Augusto morre
República”, que, na realidade, depois de 41 anos
é o início do Império. como imperador.
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Shutterstock
Suetônio relata que, ao comunicar seus o que transformou Jerusalém em uma Adriano foi
desejos pessoalmente ou então por es- colônia militar. Aurélio, por sua vez, pas- imperador
crito, costumava afirmar: “Nosso Mestre sou muitos anos protegendo a região do na época da
e Deus, eu mesmo, ordena que façais Danúbio contra as tentativas de invasão. chamada
isso”. Ele ainda ampliou o seu palácio Idade de Ouro
no monte Palatino para mais de 32 mil Os cinco imperadores se sucede- da política
metros quadrados. Seu comportamento ram um ao outro sem registros de ca- romana
gerou descontentamento. Após o surgi- sos de assassinatos ou conspiração. Os
mento de uma conspiração dentro de quatro primeiros, por não possuírem não eram necessárias as guarnições de
sua própria residência, Domiciano foi filhos, usaram a tradição romana de tropas. Até mesmo a Gália, que resistira
assassinado em 18 de setembro de 96. adotar adultos com o intuito de en- muito ao controle romano nos tempos
contrar o melhor sucessor possível. Na de Júlio César, passou a ser controlada
IDADE DE OURO área econômica, tudo caminhava bem: por poucos homens. A preocupação
os impostos geravam boas receitas e o quase que exclusiva ficou com a manu-
Nesse período, o assassinato de um comércio exterior atingiu o seu auge. tenção da segurança nas fronteiras.
imperador já não causava mais tanta Além disso, o exército continuava obe-
turbulência política. Era apenas motivo diente ao comando dos imperadores.
para iniciar a busca por um novo nome
que fosse de agrado do exército. Foi o mais longo período da história
romana sem uma guerra civil desde o
Os cinco imperadores seguintes século II a.C. A grande parte das pro-
estabeleceram um período de relativa víncias era pacífica nesta época. Assim,
paz em Roma. A época ficou conhecida
como a Idade de Ouro política do Impé- OS AVANÇOS COM Nessa época, o comércio também
rio, pois esses soberanos conseguiram A ROMANIZAÇÃO se intensificou, inclusive com a
providenciar tranquilidade por quase interação maior com mercados
um século. Nerva governou de 96 a 98; A ADOÇÃO DA CULTURA ROMANA distantes, como Índia e China.
Trajano ficou no poder entre 98 e 117; POR NÃO ROMANOS ALTEROU Mercadores romanos passaram
Adriano foi imperador entre 117 e 138; O MUNDO MEDITERRÂNEO. A a navegar para estas regiões em
Antonino Pio esteve no trono romano “ROMANIZAÇÃO” TAMBÉM FOI busca de produtos para importar
entre 138 e 161; por fim, Marco Aurélio IMPORTANTE INSTRUMENTO PARA à Europa. Os tributos sobre tais
governou entre 161 e 180. Esta foi a di- A ELEVAÇÃO DO PADRÃO DE VIDA. mercadorias acabavam sendo uma
nastia dos Antoninos. PARA MUITOS HABITANTES DAS das principais fontes de receita
PROVÍNCIAS, A CONSTRUÇÃO para o Império.
Trajano foi quem travou mais bata- DE ESTRADAS E PONTES ELEVOU A agricultura nas províncias
lhas. Foram violentas campanhas que A QUALIDADE DO TRANSPORTE também prosperou a olhos vistos
expandiram o Império rumo ao Norte PARA OUTROS PATAMARES. JÁ OS com o passar do tempo. O fato
– além do rio Danúbio até a atual Romê- LONGOS AQUEDUTOS FORNECIAM de que a maioria dos provinciais
nia – e para o Leste, até a Mesopotâmia GRANDE QUANTIDADE DE ÁGUA tinha uma vida mais próspera
(Iraque). Já o imperador Adriano com- PARA AS CIDADES. sob o domínio romano facilitou
bateu uma segunda rebelião judaica, a aceitação da “romanização”.
14 a 37 54 69
Primeiro imperador da Cláudio é Vespasiano
dinastia Júlio-Claudiana,Shutterstock assassinado e vence guerra
Tibério governa até sua morte. ShutterstockNero assume civil e cria
o poder. dinastia
37 a 41 64 flaviana.
Calígula assume o governo Incêndio 81
e permanece por quatro de grandes Tito morre e
anos, até ser assassinado. proporções 70 Domiciano assume.
destrói parte Tito, filho de
41 de Roma. Vespasiano, captura 96
Guarda 68 Jerusalém e encerra Domiciano é assassinado.
Pretoriana Nero é perseguido por
impede volta conspiradores e comete suicídio; rebelião judaica. 96 a 180
da República a morte dele marca o fim
e faz de da dinastia Júlio-Claudiana. Cinco bons imperadores (Nerva,
Cláudio o novo 79 Trajano, Adriano, Antonino Pio e
imperador. Vespasiano falece e Marco Aurélio) governam durante
Tito assume o poder. a Idade de Ouro do Império.
CAPÍTULO 6 • IMPERADORES
Busto de
imperadores
romanos
expostos no
Vaticano, Itália
Shutterstock
CRUELDADE Responsável pela introdução do perí-
E INSANIDADE odo imperial em Roma, César Augusto
NO TRONO puxou a fila de líderes astutos que gover-
naram com mãos de ferro. Ele deu a es-
IMPERADORES ROMANOS ERAM GENIOSOS, tabilidade ao ambiente político romano,
EXCÊNTRICOS, CHEIOS DE MANIAS E mas, indiretamente, também abriu cami-
ALGUNS DELES DEMONSTRAVAM UM nho para imperadores cruéis e habituados
COMPORTAMENTO ATROZ CONTRA SEUS a condutas pouco ortodoxas.
PRÓPRIOS FAMILIARES E ADVERSÁRIOS
A realidade é que os donos do poder tiveram
atitudes das mais variadas. Algumas versões –
nem todas confirmadas pelos historiadores – dão
conta de que até um cavalo teria sido nomeado
para um cargo público de bastante importância.
Os imperadores também eram conhecidos pela
crueldade e ganância, o que teria levado alguns
até a matarem os seus familiares.
No entanto, certas atitudes – como, por exem-
plo, a prática do incesto – precisam ser relativi-
zadas, pois ocorreram há quase dois mil anos e
em contextos completamente distintos dos dias
de hoje. Nas próximas páginas, o leitor poderá
conhecer mais detalhadamente o perfil e o com-
portamento de alguns desses homens.
48
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
CÉSAR AUGUSTO, extremamente gracioso em todos os acreditam que era pelo fato de não ser
O PRIMEIRO períodos de sua vida, embora não se um lambe-botas e por afrontá-lo em
importasse com nenhum adorno pesso- diversas oportunidades.
IMPERADOR ENTRE al”. O imperador também era portador
27 A.C. E 14 D.C. de olhos claros e brilhantes. Tibério passou boa parte do reinado
em campanhas militares. Muitas asse-
Além de ter sido o primeiro imperador Por outro lado, o biógrafo relata guraram a expansão das fronteiras. Em
romano, não há dúvida de que Caio Jú- que Augusto tinha dentes afastados, uma dessas batalhas, perdeu o irmão,
lio César Otaviano Augusto também foi pequenos e mal conservados. O cabelo Druso, seu companheiro nas investidas.
um dos mais importantes. Ele nasceu dele era ligeiramente cacheado e incli-
na cidade de Roma – capital do Império nado para dourado. Já as suas sobran- Já o episódio do falecimento de seu
– em setembro de 63 a.C. e morreu em celhas se juntavam. Por outro lado, as sobrinho Germânico, no Oriente, deu
agosto de 14 d.C. na comuna italiana suas imagens oficiais eram bastante início a uma época de governo marca-
de Nola. Augusto, que pertencia à di- controladas e idealizadas. Aos 19 anos, da pela violência e tirania. Em um esta-
nastia Júlio-Claudiana, teve dois filhos, a face dele apareceu pela primeira vez do de insanidade bastante acentuado,
Maior e Júlia. Esteve no poder romano em moedas, uma forma de destacar a matou a própria esposa, Júlia, e o chefe
por 41 anos, de 16 de janeiro de 27 a.C. imagem do imperador. da Guarda Pretoriana, Lúcio Élio Sejano.
até a data de sua morte. Também executou friamente seus fa-
TIBÉRIO: miliares, cúmplices e amigos.
Durante seu governo, Otaviano or- EFICIENTE E
ganizou expedições militares na Récia, MALDOSO Nesse período, integrantes impor-
Panônia, Hispânia, Germânia, Arábia e tantes da sociedade romana foram per-
África. Ainda pacificou as regiões dos IMPERADOR ENTRE seguidos, torturados e assassinados,
Alpes e Hispânia. Além disso, anexou 14 E 37 D.C. principalmente na capital do Império. O
ao Império a Galácia e a Judeia. Muitos reinado dele também é marcado pela
historiadores consideram o período de Tibério Cláudio Nero César, nascido no
Augusto como um dos mais prósperos ano 42 a.C. e falecido em 37 d.C., foi crucificação de Jesus Cristo. O governo »»
do Império, tanto no quesito econômico imperador romano com a idade de 56
quanto no cultural. anos. Reinou desde a morte do padras- Shutterstock
to, Augusto, em 14, até sua morte.
Era conhecido como um governante
moderado e enérgico. Implicitamente, Era filho de um casamento anterior
queria deixar a imagem de um grande de Lívia, a terceira mulher de Augusto.
pai que restaurou a paz e a prosperida- Foi adotado e executou, a mando do
de ao povo devastado pela guerra de então imperador, missões diplomáti-
modo altruísta. Não há dúvida de que cas e militares. Os combates vitoriosos
Augusto foi um patrono generoso aos na Panônia e Germânia o credencia-
mais pobres, forçando os ricos a fazerem ram para ser o sucessor no Império.
contribuições financeiras para pagar o
exército permanente e obras públicas. Tibério não era a primeira
Contudo, atrás da benevolência estava opção de seu padrasto. No en-
escondido um veio de crueldade. Mui- tanto, Augusto não teve outra
ta gente – inclusive amigos e parentes escolha, já que todos os seus
– foi assassinada nas proscrições de 43 sucessivos herdeiros falece-
a.C. Tantos outros cidadãos perderam ram, casos de Agripa, Marcelo,
suas casas nos confiscos que forneciam Lúcio e Gaio.
terras para veteranos do exército.
Na cerimônia em que anun-
APARÊNCIA ciou Tibério como herdeiro do
trono, César mostrou relutân-
Um século depois, Suetônio, biógrafo cia. Tanto que, ao final do
de Augusto, utilizou muitas expressões discurso, disse: “Faço isso
para exaltar a boa imagem do primeiro por questões de Estado”.
imperador de Roma. Ele ressaltava que A história não explica o
Otaviano era “incomumente bonito e motivo de não gostar
do enteado, mas muitos
Suetônio, biógrafo de César 49
Augusto, o descreve como
“incomumente bonito”
CAPÍTULO 6 • IMPERADORES
dele ajudou a impregnar a ideia do cul- CALÍGULA E romano. De acordo com o próprio Tibé-
to ao imperador e elevou o caráter ma- A DEVASSIDÃO rio, Calígula possuía todos os vícios dos
terialista em Roma. Os pontos positivos MORAL pais e nenhuma das virtudes.
foram a melhora nos serviços públicos,
o equilíbrio nas finanças e o controle IMPERADOR ENTRE O início liberal de seu governo pare-
disciplinar do exército. 37 E 41 D.C. cia um bom presságio para a população.
Porém, o imperador adoeceu por conta
Em 26 d.C., Tibério parece cansa- O pai de Caio Calígula era Germânico, dos excessos e orgias. Quando estava
do das intrigas políticas da Corte. Ele valente cônsul e general do Império Ro- finalmente recuperado, mostrou o seu
abandonou a capital e estabeleceu-se mano que faleceu com apenas 34 anos, lado maligno. Alguns historiadores acre-
na Campânia. No ano seguinte foi para provavelmente envenenado. Órfão mui- ditam que a doença fez com que ficasse
a Ilha de Capri, onde passava o tempo to pequenino, Calígula foi adotado pelo demente. Nesse momento, começou a
com os intelectuais gregos. Faleceria imperador Tibério e tinha 25 anos quan- gastar de forma exorbitante e impor tri-
naturalmente em 37. Contudo, muitos do sucedeu o pai adotivo e foi nomeado butos muito elevados. A parte final do
acreditam que ele teria sido assassinado imperador. Com o passar dos anos, ele reinado de Calígula não teve freios.
no próprio leito, sob as ordens de Calígu- obteve todos os títulos imperiais, inclu-
la, pelos homens da Guarda Pretoriana. sive o de Augusto César, que lhe garan- Era conhecido pela completa devas-
tia poder soberano sobre toda a nação. sidão na vida sexual. Foi acusado de ter
Estátua de transado com suas três irmãs. Contudo,
mármore retrata Ele viveu desde os dois anos de a sua principal diversão era torturar
Tibério: crueldade idade no acampamento militar do pai. condenados na frente dos familiares.
marcou o reinado Era muito querido pelos soldados, que Tomava as posses das vítimas e não ad-
do imperador acompanharam o seu crescimento. Fo- mitia, de jeito algum, ser contrariado.
ram eles que lhe colocaram o apelido Ele também foi acusado de determinar
com o qual ficou famoso. Calígula é o que criminosos fossem servidos vivos
diminutivo de caliga, o calçado militar como refeição para animais selvagens.
usado pelos romanos.
Ele mantinha uma casa de prosti-
Segundo o historiador Suetônio, tuição e chegou a dar ordens para que
Calígula teria participado do assassi- estátuas fossem postas em locais de
nato de seu pai adotivo. Tibério – que destaque em todos os templos, inclu-
sive nas sinagogas de Jerusalém. Isso
o designou como um de seus gerou conflito com os judeus, que não
herdeiros – conhecia bem o seu aceitavam de modo nenhum esse de-
caráter distorcido e afirmou que sejo do imperador. Calígula queria ser
preparava uma víbora para o povo adorado como um verdadeiro Deus.
Busto de MITO OU
Calígula em VERDADE?
Modena, UMA HISTÓRIA QUE GANHOU
na Itália STATUS DE VERDADE FOI A
SUPOSTA NOMEAÇÃO DE
Shutterstock INCITATUS COMO SENADOR.
Shutterstock O PROBLEMA É QUE ELE ERA O
CAVALO DE CALÍGULA, QUE TERIA
AINDA LEVANTADO UM PALÁCIO
DE MÁRMORE PARA O ANIMAL.
Antes, o quadrúpede fora designado
sacerdote pelo imperador e tinha
o seu sono velado pela Guarda
Pretoriana. A ideia de Calígula seria
humilhar os senadores e mostrar
que ele poderia fazer qualquer coisa
com a vida de qualquer pessoa.
CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Apesar de os soldados apoiarem Shutterstock NERO E SEU
as loucuras de seu líder, os oficiais da VERGONHOSO
guarda se cansaram de tanta insanida- Morte de Cláudio teria sido GOVERNO Shutterstock
de e decidiram acabar com seu governo por envenenamento
desvairado. Numa conspiração que reu- IMPERADOR ENTRE
niu a guarda e senadores, o imperador 53, a ilha da Bretanha. Vinculou ao Im- 54 E 68 D.C.
foi assassinado num túnel que ligava o pério a Lícia, Judeia e Trácia, e promoveu
Palácio ao Fórum. a romanização das novas províncias. Nascido em Antium no dia 15 de de-
zembro de 37 d.C., Tibério Nero Cláudio
CLÁUDIO: Como benefício direto ao povo, Domiciano César tornou-se soberano
AVANÇOS E executou obras públicas de suma im- em Roma aos 17 anos de idade. A as-
POLÊMICAS portância, como a edificação de novos censão dele ao poder foi fruto de uma
aquedutos – o que solucionou o pro- trama conjunta da mãe, Agripina, e do
IMPERADOR ENTRE blema de abastecimento em Roma –, filósofo Sêneca, seu mestre. Eles con-
41 E 54 D.C. a melhoria das estradas e a edificação venceram Cláudio a adotá-lo um pouco
de um porto em Óstia. Seu passatempo antes de morrer.
Nomeado imperador pelos pretorianos, preferido de Cláudio era ver criminosos
Tibério Cláudio César Augusto Germâni- sendo torturados até a morte. Ele tam- Contudo, logo que assumiu o pos-
co nasceu em Lyon (10 a.C.) e morreu bém mandou matar a terceira mulher to, Nero entrou em conflito com a mãe,
em Roma (54 d.C.). Filho de Nero Cláu- dele, Messalina, e trezentos amigos – que tinha como grande aspiração domi-
dio Druso e Antônia, ele era irmão mais inclusive o famoso ator Mnester. A ver- nar Roma através do filho. Com o tem-
jovem de Germânico, o sucessor natural dade é que desconfiava que sua esposa po, ela passou a cogitar a possibilidade
ao trono. No entanto, este morreu em promovia orgias com esses homens. de mudar o dono do trono. Sêneca, po-
circunstâncias bastante estranhas: retor- rém, providenciou a morte de um dos
nando de Antioquia, teria sido acometi- No fim, acabou sendo assassinado concorrentes.
do de uma doença que se tornou fatal. O pela quarta esposa, Agripina II, depois
governador da Síria, Calpúrnio Piso, não que adotou o filho dela, Nero, como seu O próprio Sêneca e o prefeito de
gostava dele e foi acusado de envenená- sucessor. Cláudio foi envenenado com Roma, Sexto Afrânio, eram os conse-
-lo ou amaldiçoá-lo. Cláudio, com apoio cogumelos. Foi com César que a célebre lheiros de Nero. Os cinco primeiros anos
da Guarda Pretoriana – que lutava contra frase dos gladiadores surgiu: “Ave Cesar. do governo dele, aliás, foram conside-
o reestabelecimento da República pro- Nós que vamos morrer te saudamos”. rados um dos períodos mais felizes do
posto pelo Senado –, foi colocado como o Império. Seus orientadores o deixavam
grande líder do governo romano. DECISÕES
FOLCLÓRICAS se satisfazer com todas as suas paixões. »»
O imperador era coxo e gago. Quan-
do criança, foi acometido por diferentes CLÁUDIO NÃO FOI SOMENTE Maldade,
doenças. Isso fez com que seu corpo fi- EFICIENTE NO GOVERNO E que beirou
casse debilitado e sua mente sofresse MALDOSO NO TRATO COM a loucura,
com um ligeiro retardo. Era considera- OS INIMIGOS. foi a marca
do um tolo pela própria mãe. Por outro Ele também tomava medidas de Nero
lado, Cláudio confessou que fingiu ser bizarras. A princaipal foi a
retardado para passar despercebido a liberação da livre flatulência
seu sobrinho, Calígula, sobrevivendo durante os banquetes!
assim ao reinado de terror.
Cláudio foi muito dedicado à lite-
ratura durante seu governo. Iniciou,
mas não terminou um trabalho sobre a
história romana. Foram ainda mais de
duas dezenas de livros sobre os etrus-
cos e cartagineses, uma autobiografia e
um projeto de reforma ortográfica.
Como conquistador, anexou, em 42,
a Mauritânia, no norte da África, e, em
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