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Published by ㅤㅤㅤ ㅤㅤ, 2018-03-12 09:39:11

ㅤㅤㅤ ㅤㅤ

educacao-imperio-romano

CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

Estátua de
Júpiter na
Piazza Navona,
em Roma

Shutterstock

UM POVO DE FÉ

DA ADORAÇÃO AOS DEUSES DE ORIGEM GREGA ATÉ OS TEMPOS
DA CRISTIANIZAÇÃO, ROMANOS SEMPRE DEMONSTRARAM UMA
FORTE INCLINAÇÃO RELIGIOSA

A variedade da religião romana era Assim, os romanos da Antiguidade eram conside-
bastante acentuada e comprometia prati- rados politeístas, já que nutriam uma forte crença em
camente todos os aspectos da vida. A verdade diferentes deuses. Essas divindades eram antropomór-
é que os habitantes da Roma Antiga adoravam ficas, ou seja, possuíam características – qualidades e
diversos seres sobrenaturais – desde os deu- também defeitos – próprias dos homens, além de se-
ses com raízes na Grécia até espíritos capazes rem representadas em forma humana. O Estado apre-
de habitar em elementos naturais, como tem- goava uma religião oficial que prestava culto aos gran-
pestades, árvores e rochas. des deuses de origem grega, mas com nomes latinos.

102

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Vista do Capitólio, templo de
adoração a Júpiter, Juno e Minerva

RELIGIÃO Shutterstock
E ESTADO Shutterstock
Tábuas dos dez
A divindade de maior importância para mandamentos: MORALIDADE
os romanos era Júpiter. Para o povo, tra- relação dos hebreus
tava-se de um pai poderoso, muito se- Os romanos não atrelavam o culto a
vero e rei sobre todos os outros deuses. com seu Deus deidades com a necessidade de um
Juno, rainha dos deuses por ser irmã contrastava com comportamento moral aceitável. Para
e esposa de Júpiter, e Minerva, deusa a que os romanos eles, os deuses não eram os originado-
virgem da sabedoria e filha de Júpiter, tinham com suas res do código moral da sociedade. Era
uniam-se ao deus maior e formavam a uma crença que contrastava bastante
tríade central nos cultos públicos ofi- divindades com a dos hebreus, que tinham a sua
ciais. Eram feitos sacrifícios, orações e conduta regida por Deus através dos
rituais sancionados pelo próprio Estado. co Máximo. No período imperial, esse dez mandamentos e outras leis trans-
Os três deuses dividiam o Capitólio, o local de competições abrigava até 250 mitidas divinamente por meio da vida
templo mais famoso e importante de mil pessoas em assentos de pedra e do profeta Moisés.
Roma, localizado na região central da concreto para acompanhar combates
cidade. entre gladiadores, corridas de bigas, Na realidade, os deuses romanos
execuções públicas e ainda encenações pareciam demonstrar um interesse
Esse lugar de adoração foi constru- de caçadas de animais selvagens im- grande em como as pessoas os trata-
ído ainda no século VI a.C., no rochoso portados de diversas partes do mundo. riam, mas desprezavam por completo
monte Capitolino, e adornado com 24 a forma como elas viviam entre si.
colunas de pedra com pouco mais de 20 A trapaça nos negócios, mentira ou
metros de altura cada. Dentro do tem- agressão mútua não eram ações pas-
plo, os religiosos encontravam três sa-
las internas, sendo que na principal es- síveis de castigo divino, conforme o »»
tavam as estátuas dos deuses. Segundo
os historiadores, a separação interna
do Capitólio era bem semelhante à dos
templos etruscos.

Júpiter, Juno e Minerva recebiam
oferendas dos fiéis, pois esses deuses
tinham a função de resguardar a segu-
rança física e a prosperidade de Roma.
Como forma de homenagear o primei-
ro – considerado o melhor e maior –,
os romanos realizavam um festival de
exercícios militares e esportivos no Cir-

CARO, MAS NECESSÁRIO

CONSTRUIR O TEMPLO NO CAPITÓLIO, ALIÁS, NÃO SAIU NADA BARATO
PARA OS COFRES DO GOVERNO, QUE NA ÉPOCA AINDA NÃO OSTENTAVA
O PODERIO FINANCEIRO DOS TEMPOS VINDOUROS. MESMO ASSIM, O
GASTO VALEU A PENA, POIS OS ROMANOS CRIAM QUE A CONQUISTA
DA BOA VONTADE DOS DEUSES ERA UMA REAL NECESSIDADE PARA A
DEFESA NACIONAL CONTRA OS VIZINHOS MAIS AGRESSIVOS.

Ao mesmo tempo, os habitantes de Roma criam ainda que os deuses
determinavam que as pessoas assumissem a responsabilidade pela própria
segurança. Dessa forma, os romanos do século VI a.C. também levantaram
um muro enorme em torno da cidade.

103

CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

entendimento romano. Assim, apesar dos séculos, mantiveram essa compre- SACERDÓCIO
de acreditarem que Júpiter poderia ensão da natureza divina.
punir alguém pela quebra de um con- No período republicano, a classe de sa-
trato juramentado, a punição ocor- No entanto, os naturais de Roma cerdotes que dirigia o culto oficial aos
reria porque a pessoa ofendeu esse entendiam que alguns de seus valores diversos deuses romanos era compos-
deus ao ignorar o compromisso sob o mais importantes – como, por exem- ta por homens e mulheres do alto da
testemunhar dele. plo, a fidelidade – eram seres ou forças hierarquia social. Tais pessoas não con-
divinas especiais. Tanto é verdade que sideravam o sacerdócio uma carreira
O historiador romano Cícero fez um os romanos edificaram, em 181 a.C., profissional, mas tinham essa atividade
resumo das crenças romanas do se- um templo para Pietas, uma espécie como o cumprimento de um dos aspec-
guinte modo: “Júpiter é chamado de de personificação do valor central re- tos de uma vida pública bem-sucedida
‘o melhor’ e ‘o maior’ não porque nos lativo ao respeito aos deuses e obriga- na cidade de Roma.
faz justos, moderados ou sábios, mas ções morais. No local, havia a estátua
porque nos faz seguros, ricos e bem- de uma deusa que representava tais A função principal desses cidadãos
-providos”. Os romanos, no decorrer qualidades. era garantir a boa vontade dos deu-
ses para com a nação e o Estado. Esse
CULTO A VESTA Shutterstock relacionamento era denominado “paz
dos deuses”. Com o intuito de alcançar
A DEUSA DO LAR E PROTETORA DA FAMÍLIA TINHA DENTRO DE SEU TEMPLO a serenidade das divindades, sacerdo-
A CHAMA ETERNA OFICIAL DE ROMA. SUAS SACERDOTISAS, CHAMADAS tes e sacerdotisas eram frequente-
DE VIRGENS VESTAIS, MANTINHAM O CULTO A VESTA. TRADICIONALMENTE, mente chamados para conduzir fes-
ERAM SEIS MULHERES SOLTEIRAS QUE PRESTAVAM UM JURAMENTO DE NÃO tivais, sacrifícios e demais rituais em
FAZER SEXO PELOS TRINTA ANOS DE SERVIÇO ÀS DEUSAS. exata conformidade com a tradição de
A principal responsabilidade delas era garantir que o fogo continuasse aceso. seus ancestrais.
Conforme o historiador e crítico literário grego do século I a.C., Dionísio de
Halicarnasso, os romanos temiam a “extinção da chama acima de todas as Nada poderia ser feito de modo
coisas”. Criam que o apagar do fogo era “um presságio diferente. Caso a execução das fór-
da destruição da cidade”. mulas antigas de preces fosse dita de
Se uma virgem vestal fosse declarada culpada de maneira errada ou ocorresse um úni-
uma transgressão mais leve, ela era chicoteada co equívoco em uma palavra, todo o
em público. Caso a chama procedimento deveria ser reiniciado.
se apagasse, os romanos Assim, como Roma passou a ser, com
presumiam que uma o tempo, a sede de inúmeros santuá-
das sacerdotisas havia rios e templos, tais atividades sagra-
rompido o juramento de das tomavam muito tempo e esforço.
manter-se virgem. Se fosse Além disso, os gastos em torno delas
condenada pela quebra eram bastante elevados.
dessa promessa, a virgem
vestal era transportada em Os eventos oficiais do Estado, ali-
um leito fúnebre – como ás, sempre contavam com um ritual
um cadáver vivo – para religioso preparatório. As reuniões do
ser sepultada em uma Senado, por exemplo, usualmente ti-
câmara subterrânea, onde nham início com a análise de assuntos
permanecia confinada até religiosos considerados mais relevantes
a morte. Assim, a pureza ao Estado. Já os comandantes militares
sexual das mulheres recebia faziam ritos de adivinhação para desco-
um reconhecimento público brir a vontade dos deuses e auxiliá-los
como uma espécie de a compreender a melhor hora de reali-
símbolo da segurança e zar os seus ataques.
da proteção da estrutura
familiar romana e, O conselho mais importante de
automaticamente, da sacerdotes, que possuía quinze mem-
preservação do Estado. bros durante a República, era respon-
sável por aconselhar os magistrados
Ilustração sobre as suas responsabilidades reli-
da deusa giosas no papel de agentes do Estado.
romana Vesta

104

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

O líder desse grupo era o sumo pon- tes pelas zonas rural e urbana e “cada geiras que não possuíam um culto tra-
tífice, que tinha o cargo mais elevado proprietário atuava como empregado dicional entre os romanos. Um exemplo
dentro da religião pública romana. de seus escravos”. Por um lado, essa foi a importação do culto de Asclépio, o
Ele possuía a maior autoridade sobre revirada servia para liberar as tensões deus grego da área medicinal, no ano
assuntos religiosos que afetavam di- causadas pelas desigualdades entre 293 a.C., com o intuito de livrar Roma
retamente o governo local. Toda essa essas duas figuras. Por outro, buscava de uma grande peste. Outros cidadãos
importância política do sumo pontí- reforçar os vínculos de obrigação dos importavam da Grécia o culto ao deus
fice fazia com que os homens mais servos com seus senhores ao simbolizar Dionísio – mais conhecido como Baco
influentes buscassem o posto, que, a bondade que deveria ser retribuída entre os romanos. Essa veneração a
no século III a.C., era preenchido por com um serviço fiel. Baco, contudo, gerou certo desconten-
meio de eleição. tamento, pois exigia ritos moralmente
Como bons politeístas, os habitan- reprováveis na questão sexual. O go-
FESTIVAIS tes da Roma Antiga acreditavam que verno, porém, não demonstrava muito
poderiam existir deuses que exigiam interesse nessas polêmicas, a não ser
No princípio, a maioria dos eventos veneração, mas que ainda não tinham que despertassem uma ameaça ao Es-
religiosos romanos era baseada nas aceitado. Em casos de emergências na- tado, como ocorreria anos depois com o
aspirações da comunidade agrícola. cionais, o Estado costumava buscar pro- cristianismo.
Tradicionalmente, a religião de Roma teção divina contra divindades estran-
procurava proteção para a sua planta-
ção, o principal meio de sobrevivência Shutterstock
daquela comunidade em seu período
inicial. Assim, comumente as orações Cidade de Palestrina, na Itália, local que abrigava
estavam centradas em pedidos de aju- santuário um enorme santuário onde pessoas faziam
da aos deuses para alcançar colheitas suas preces para conseguirem alimento
de qualidade, evitar doenças, além de
garantir a reprodução saudável entre FESTIVAL DE LUPERCÁLIA
animais domésticos.
UM DOS FESTIVAIS DE MAIOR TRADIÇÃO EM ROMA ERA O DE
O enorme santuário em Praeneste LUPERCÁLIA. DURANTE TAL CELEBRAÇÃO, JOVENS CORRIAM NUS AO
– atual Palestrina, cidade a 32 quilô- REDOR DO MONTE PALATINO, NO CENTRO DA CIDADE, E CHICOTEAVAM
metros de Roma – era o local onde se – COM TIRAS DE COURO DE CABRA – QUALQUER MULHER QUE PASSASSE
buscava ajuda divina com relação à ob- PELO CAMINHO.
tenção do alimento. Essa edificação de
cinco níveis era uma das maiores estru- O mais curioso é que aquelas romanas que não conseguiam engravidar
turas religiosas de toda a Itália antiga. passavam propositalmente pelo local para serem atingidas, pois criam que
isso as ajudaria a serem férteis.
No geral, os rituais religiosos não
mudaram de modo considerável ao »»
logo dos anos. Isso ocorreu porque,
de acordo com o pensamento roma-
no, a adição de qualquer novidade às
homenagens consideradas habituais
feitas aos deuses poderia os ofender
e provocar uma ira indesejada contra
os humanos.

Assim, a religião da chamada Re-
pública tardia manteve diversos ritu-
ais antigos. Um deles era o festival da
Saturnália, realizado em dezembro,
quando a ordem social era temporaria-
mente invertida. Segundo o dramatur-
go e erudito Ácio (170 a.C. a 80 a.C.),
na ocasião, as pessoas faziam banque-

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CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

RMOITMOALONGAIA Marte era MARTE. Equivalente ao deus
conhecido
ASSIM COMO AS GREGAS, AS por sua grego Ares, Marte – filho de Juno
DIVINDADES ROMANAS TAMBÉM crueldade e Júpiter – era o deus romano da
POSSUÍAM CARACTERÍSTICAS DOS guerra sangrenta. Ele tinha uma
HOMENS. SENTIMENTOS COMO rixa com sua irmã Minerva. Esse
IRA E CIÚME ERAM NORMAIS desentendimento todo culminou em
NESSES DEUSES. ALÉM DISSO, ERAM um embate entre ambos, em frente
ATRIBUÍDAS A ELES FORMAS FÍSICAS às muralhas de Troia. Marte perdeu a
HUMANAS. O QUE DISTINGUE AS guerra familiar.
DIVINDADES DE ROMA, PORÉM, É QUE Mesmo sendo considerado cruel
ELAS NÃO TINHAM CONTATO DIRETO e bárbaro, Marte era amado pela
COM OS HOMENS. deusa Vênus, com quem acabou
tendo um filho, Cupido. Da relação
entre eles também foi gerada
Harmonia, uma filha mortal.

JÚPITER. Era o deus do dia e muito DIANA. Ártemis para os gregos, Diana era a deusa

comumente identificado com Zeus, seu virgem da lua e irmã gêmea de Apolo. Era tida como
correspondente grego. Júpiter tinha como pais poderosa caçadora, protetora das cidades, dos animais e
Saturno e Cibele. Ele teria sido doado pela mãe ainda das mulheres. Na cidade de Roma, o templo mais
logo ao nascer para as ninfas da floresta para importante dela encontrava-se no monte Aventino. O
que, como os demais irmãos, ele não fosse local teria sido erguido no século VI a.C. Ela era festejada
castigado pelo pai. A verdade é que Saturno não na metade do mês de agosto. Era representada na arte
queria dividir o seu trono com mais ninguém e, romana como uma caçadora – equipada com arco e uma
por isso, buscava impedir os demais, ainda que aljava – acompanhada por um cervo ou cão.
fossem seus próprios filhos. Quando adulto,
Júpiter descobriu tudo sobre seu triste passado e CERES. A filha de Saturno com Cibele era a deusa
decidiu retornar à casa dos pais para libertar os
irmãos. Travou uma batalha contra o pai, venceu das plantas que brotam – sobretudo os grãos – e do amor
e se casou com Juno, a sua irmã. maternal. Ela é a equivalente da deusa grega Deméter.
Júpiter teria travado uma batalha Além disso, era irmã e amante de Júpiter. Foi retratada por
com seu pai para libertar os irmãos muitos artistas com um cesto de flores e frutos, um cetro,
além de uma coroa.
JUNO. Conhecida como Hera na mitologia grega, Juno era De acordo com historiadores, foi adotada pelos romanos no
ano de 496 a.C., quando uma fome devastadora assolou a
a mulher de Júpiter. Considerada a grande rainha dos deuses, era cidade de Roma. A palavra cereal deriva do nome da deusa,
conhecida pelos romanos como a protetora do casamento, das associando a imagem dela aos grãos comestíveis. Havia um
esposas, crianças e lares. Ela é costumeiramente representada templo em honra a Ceres no monte Aventino, em Roma.
pelo pavão, que era a sua ave predileta.

Minerva, MINERVA. BACO. O deus romano Baco tinha Baco era
a deusa da o deus
sabedoria Além de ser a deusa da como correspondente grego Dionísio. do vinho
e das artes guerra justa, Minerva era O filho de Júpiter e da mortal Sêmele e dos
considerada a divindade era considerado o deus do vinho e dos prazeres
romana da sabedoria, prazeres, além de promotor da civilização,
das artes, da tecelagem, legislador e um amante da paz.
agricultura e navegação.
Correspondia à grega As festas chamadas de bacanais eram feitas em
Atena. A história conta honra a Baco. Em tais eventos ocorriam, muitas
que ela saiu da cabeça vezes, orgias. As sacerdotisas dele, conhecidas
do pai, Júpiter, já adulta como bacantes, dançavam freneticamente
nestas ocasiões vestidas com peles de leão.
e revestida de uma Por esse motivo, bacanal permaneceu como
armadura completa. um sinônimo para reuniões em que há sexo
e danças. O curioso é que, inicialmente,
somente mulheres podiam entrar nessas
festas. Com o tempo, porém, os homens
também ganharam o direito de participar.

Imagem de Vênus, a deusa do
amor e também da beleza

Imagem de Febo
(ou Apolo) no

museu do Vaticano

VÊNUS. Ela AURORA. A deusa romana FEBO. Equivalente ao grego Apolo, Febo era o irmão

correspondia à grega do amanhecer – equivalente à grega gêmeo de Diana e também filho de Júpiter com Latona. Ficou
Afrodite. Era considerada Eos – renovava-se todo amanhecer conhecido como o deus das músicas e o mais belo de Roma.
a deusa do amor e e alçava voo pelo céu anunciando Segundo a mitologia, quando Juno descobriu que a mãe
da beleza. Segundo que a manhã havia chegado. Vale de Febo estava grávida de seu esposo Júpiter, ficou muito
o mito, era o ideal de destacar que aurora é a palavra enciumada e pediu para que a deusa Gaia não cedesse lugar
beleza feminina. Em sua latina para amanhecer. Os parentes algum da terra para que ela pudesse ter seus filhos. Após
representação artística, mais próximos dela eram Helios muito vagar, Latona acabou por chegar à ilha flutuante
ela tinha um carro puxado (Sol) e Selene (Lua), seus irmãos. de Ortígia, achando, finalmente, um lugar seguro onde
por cisnes. Há duas William Shakespeare faz referência a pudesse dar à luz. Logo após seu nascimento, Febo matou a
versões para a origem ela em sua obra Romeu e Julieta. serpente Píton em Delfos, lugar onde foi construído o mais
dela. A primeira dá conta célebre de seus templos.
de que ela era filha de AABDEEOONNAA.EAs duas divindades
Júpiter e Dione (deusa ESCULÁPIO. VULCANO.
das ninfas). A segunda romanas eram as protetoras das
afirma que teria nascido viagens. Enquanto Abeona era Era conhecido como Conhecido como Hefesto
da espuma do mar. invocada para acompanhar a ida, o deus romano da pelos gregos, Vulcano era o
Adeona protegia o retorno. Na cura e da medicina. É, deus romano do fogo. Ele
NETUNO. O cidade de Roma, Abeona também como muitas outras seria filho de Júpiter e de Juno
era conhecida como aquela que divindades, uma herança ou ainda, segundo alguns
deus romano do mar ensinava os meninos a caminhar, da mitologia grega. Ele especialistas em mitologia,
foi inspirado na figura acompanhando-os nos primeiros teria nascido como um apenas de Juno com a ajuda
grega de Poseidon. Ele passos longe de casa. mortal, mas, depois de do vento. Sua figura era
representava os oceanos seu falecimento, recebeu representada por um ferreiro.
e as correntes d’água, CUPIDO. Equivalente ao deus o dom da imortalidade
era filho de Saturno e e transformou-se na IUSTITIA. Era a deusa
controlava o universo grego Eros, Cupido era filho de Vênus constelação Ofiúco.
ao lado de seus irmãos, e Marte. Com o passar do tempo, O culto a Esculápio foi de Roma que personificava a
Júpiter (céus) e Plutão começou a ser representado como disseminado por uma própria justiça. Equivalia na
(mundo dos mortos). um menino alado carregando um vasta região da Europa, Grécia a Nêmesis. A diferença
Contudo, existe uma arco e um carcás com setas. A lenda norte da África e ainda é que essa divindade romana
diferença entre o deus afirma que os ferimentos provocados pelo Oriente Próximo, aparecia com os olhos
dos mares, segundo pelas setas que atirava geravam sendo homenageado sempre vendados, uma forma
as mitologias grega amor nas vítimas atingidas. Apesar com inúmeros templos e de mostrar a imparcialidade
e romana. Enquanto de ser apresentado algumas vezes santuários, que atuavam da justiça nos julgamentos e
Poseidon tinha caráter como descuidado ou insensível, o como hospitais. a igualdade de direitos entre
violento e agressivo, deus Cupido era considerado como os homens.
Netuno era somente o benéfico por conta da felicidade
senhor das águas. que concedia aos casais. A história PLUTÃO. O deus do submundo – ou mundo dos
conta que, logo após o nascimento mortos – e também das riquezas era o correspondente do
O deus de Cupido, Júpiter, conhecedor grego Hades. Era filho de Saturno e de Reia e irmão
Netuno das perturbações que esse poderia de Júpiter e Netuno. Quando Júpiter fez a partilha
representava provocar, tentou obrigar Vênus a se do Universo, deu a Plutão o império dos infernos. Plutão
os oceanos desfazer da criança. Para protegê-lo, era tão macabro e assustador, que não conseguia encontrar
mulher que o aceitasse para casar. Por esse motivo, decidiu
a mãe o escondeu em um roubar Perséfone, filha de Júpiter e de Ceres. Plutão é
bosque, onde o menino representado com uma coroa de ébano na cabeça e as
alimentou-se de leite de chaves do inferno na mão em um coche puxado por cavalos
animais selvagens. negros. Em sua homenagem era celebrado um grande
festival em fevereiro, quando então lhe eram ofertados
Cupido ficou conhecido sacrifícios de touros e cabras da cor negra.
por conceder a
felicidade aos casais »»

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CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

FAMÍLIA Shutterstock

Dentro do seio familiar, os elementos da religião se Jesus escrevendo na areia: homem de Nazaré arrebatou
mostravam muito presentes nos próprios lares. Toda muitos com seus ensinamentos na província da Judeia
residência romana tinha espaços considerados sagra-
dos. A estátua de Juno – que possuía duas faces – era DE ONDE VIERAM OS CRISTÃOS?
colocada logo à porta da casa. Uma face ficava volta-
da para a rua e a outra para o interior da residência. A PRÁTICA DO CRISTIANISMO SURGE A PARTIR DA
Dessa maneira, cria-se que aquela divindade garantia DOUTRINA DE HOMENS QUE DECIDIRAM SEGUIR JESUS
proteção ao lar, impedindo a entrada de inimigos. CRISTO, UM JUDEU NASCIDO E MORTO NA REGIÃO ONDE
HOJE ESTÃO JORDÂNIA E ISRAEL, NO ORIENTE MÉDIO.
As famílias ainda mantinham um santuário no O TERRITÓRIO EM QUESTÃO ESTAVA SOB O DOMÍNIO
formato de um armário para guardar estatuetas que ROMANO NO PRIMEIRO SÉCULO.
representavam espíritos bons, como o dos mantimen- Atualmente, a maior parte do mundo ocidental segue o
tos e dos ancestrais. Os moradores da casa ainda pen- calendário cristão. Por isso, o ano um de nossa era é marcado
duravam máscaras da morte de antepassados ilustres pela data aproximada do nascimento de Jesus. O destaque que
nas paredes da sala. Era uma maneira de lembrar recebe o personagem histórico, que nasceu em Belém – cidade
aquela geração da importância de viver à altura dos no reino da Judeia –, é devido ao fato de ele ser considerado o
ideais antigos e virtuosos. Aliás, a fonte principal da Filho de Deus por seus seguidores.
moralidade romana estava diretamente atrelada ao Uma parte dos judeus cria que Jesus fosse verdadeiramente
forte sentimento de tradição familiar presente nessas o enviado de Deus para redimir toda a humanidade,
práticas e propagado pelos pais. O que mais ajudava como estava escrito em seus textos sagrados. Já os mais
a impedir um comportamento imoral era o receio da proeminentes daquela religião acreditavam que ele era um
perda do respeito e não o temor de receber alguma herege. Com isso, houve perseguição a ele por parte das
punição por parte dos deuses. autoridades judaicas.
De acordo com os evangelhos bíblicos – registros feitos pelos
Os rituais caseiros eram tão comuns que acompa- discípulos –, Jesus foi morto na cruz por seus perseguidores,
nhavam até atividades consideradas mais corriquei- mas ressuscitou ao terceiro dia por ser Deus. Tal crença não
ras, como a amamentação de uma criança e a adu- foi abafada com a morte de seu líder. Pelo contrário: acabou
bagem da terra para a plantação. A realização desses sendo alimentada e cresceu como uma nova religião.
pequenos eventos religiosos estava ligada à reverên- Os discípulos – como Pedro e Paulo – espalharam os
cia respeitosa que os romanos buscavam ter e à busca ensinamentos e histórias sobre Jesus, a partir de 40 d.C.,
da segurança em meio a um mundo cheio de perigos. por diversos pontos da Europa, Ásia e norte da África.
Escreveram ainda vários textos, que formaram mais tarde o
A disposição dos deuses em intervir em pratica- Novo Testamento.
mente todos os aspectos da vida cotidiana deixava a A principal diferença entre judeus e cristãos é que os
relação entre seres humanos e o divino bastante com- primeiros não acreditam que Jesus é o filho enviado por
plicada. Isso porque os romanos não acreditavam que Deus para salvar o mundo. Vale ressaltar que os seguidores
os deuses tinham a tendência de amar os homens. de Jesus não tinham a intenção inicial de formar uma nova
Assim, as divindades poderiam punir toda e qualquer religião, e sim de dar continuidade àquela já existente. A
criatura sem ter nem mesmo uma razão plausível. discordância entre os dois grupos, porém, tornou impossível
a permanência como um só credo.
Essa relação era ainda mais difícil porque não havia
uma clara comunicação entre as duas partes. Os ho-
mens, então, faziam de tudo para descobrir a vontade
divina. Essa constante obrigação de entender o querer
dos deuses motivava a atividade religiosa em Roma.

Ilustração
mostra estátua
de Juno,
divindade
protetora
dos lares

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CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

PERSEGUIÇÃO ACUSAÇÕES – e o incesto – essa era interpretação que
AOS CRISTÃOS INFUNDADAS faziam do abraço da paz que se dava na
celebração da Eucaristia entre “irmãos e
No período imperial, em meio ao po- As chamas que consumiram uma parte irmãs”. Essas acusações eram alimenta-
liteísmo, o governo romano mostrava significativa de Roma no ano 65 foram das pelas fofocas entre os populares e
profundo incômodo com o avanço no atribuídas pelo imperador Nero aos foram sancionadas pela autoridade do
número de cristãos. Os seguidores de cristãos. A verdade é que essa foi a imperador, que perseguia os cristãos e
um homem chamado Jesus se nega- maneira encontrada pelo rei de tirar o os condenava à morte.
vam a participar dos cultos religiosos foco dele, já que o povo o culpava pelo
realizados regularmente em Roma. incêndio. Shutterstock
Esse cenário foi o motivo principal
das perseguições ao grupo, conside- Nero, então, passou a perseguir, du-
rado uma seita do judaísmo. rante três anos, os seguidores de Jesus.
Alguns historiadores dão conta de que
Além disso, os encontros dos os apóstolos Pedro e Paulo estavam en-
cristãos despertavam suspeitas. Por tre os mortos na caçada.
conta disso, eles eram acusados de
praticar atos considerados imorais e O historiador Tácito Cornélio (54 a
criminosos. Tais homens se reuniam 120 d.C.), mesmo sendo um ácido críti-
antes do sol nascer ou à noite quase co dos cristãos, acusou Nero de ter cul-
sempre em cavernas. Entre as acusa- pado os religiosos injustamente. Mes-
ções contra eles estavam canibalis- mo assim, ele declarava-se convencido
mo, incesto e até infanticídio como de que os cristãos mereciam as mais
forma de adoração à sua divindade. severas punições, pois as superstições
Até mesmo a saudação com um beijo os levavam a cometer infâmias.
foi taxada como uma forma de con-
duta imoral. Portanto, os cristãos eram tidos
como gente desprezível, capaz de cri-
Os cristãos da época também mes horrendos, como o infanticídio – os
não aceitavam o fato de o impe- romanos acreditavam que, na renovação
rador ser adorado como um deus. da Ceia do Senhor, quando se alimenta-
Para os romanos, se curvar diante vam da Eucaristia, os religiosos sacrifica-
do rei era prova de lealdade. Havia vam uma criança e comiam suas carnes
no Império inúmeras estátuas es-
palhadas pelos locais públicos para MÁRTIRES Estátua
serem reverenciadas. Os seguidores de mármore
da nova religião não faziam tal ado- OS CRISTÃOS CONDENADOS, de Nero,
ração, pois esta era prestada apenas CONFORME O HISTORIADOR perseguidor
a Jesus, o verdadeiro rei deles. Tal TÁCITO, MORRIAM dos cristãos
posicionamento os colocava como DILACERADOS POR CÃES,
revolucionários ameaçadores diante CRUCIFICADOS OU MESMO MAIS
de Roma. QUEIMADOS VIVOS COMO PERSEGUIÇÕES
TOCHAS QUE SERVIAM PARA
O primeiro movimento de perse- ILUMINAR A ESCURIDÃO Marco Aurélio (161 – 180) foi conside-
guição do Estado contra os cristãos QUANDO CHEGAVA A NOITE. rado um imperador erudito e filósofo.
ocorreu durante o governo de Cláu- NO GOVERNO DE NERO, O Em suas frequentes anotações, o rei
dio, entre 41 e 54 d.C., quando o im- IMPERADOR OFERECIA SEUS mostrava um desprezo grande pelo
perador mandou expulsar judeus de JARDINS PARA ASSISTIR A ESTE cristianismo. Dizia que aquela religião
Roma porque estes discutiam entre “ESPETÁCULO”. era uma loucura, pois propunha à gente
si devido a um certo Cristo. Em geral, “comum e ignorante uma maneira de
os romanos viam o cristianismo como O próprio Tácito afirma em seus comportar-se que só os filósofos como
um conjunto de práticas irracionais escritos que, com o tempo, ele poderiam compreender e praticar
que magos e feiticeiros de personali- crescia certo senso de piedade ao final de longas meditações e disci-
dade sinistra usavam para enganar o pelos cristãos, pois estes eram plinas”. Para Marco Aurélio, a popula-
povo ignorante. “sacrificados não em vista de
uma vantagem comum, mas ção comum não era capaz de praticar, »»
pela crueldade do príncipe”.

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CAPÍTULO 11 • RELIGIÃO

por exemplo, a fraternidade universal, ShutterstockCONSTANTINO E JESUS CRISTO
o perdão e o sacrifício pelos outros sem
esperar uma recompensa. MUITOS GARANTEM QUE A VITÓRIA DE CONSTANTINO SOBRE MAXÊNCIO
TEVE COMO PRINCIPAL MOTIVO A INTERVENÇÃO DE UM DEUS. ANTES
Assim, o imperador atacou direta- DA FAMOSA BATALHA, O IMPERADOR MANDOU PINTAR NOS ESCUDOS
mente o cristianismo no segundo sé- DOS SOLDADOS O SÍMBOLO DE UMA DIVINDADE. EM GERAL, HÁ DUAS
culo. Decidiu proibir qualquer prática VERSÕES DISTINTAS SOBRE ESSE SUPOSTO EPISÓDIO SOBRENATURAL.
dessa religião, pois, segundo ele, ofe-
recia perigo ao Estado. A situação dos A primeira dá conta de que em 310, em um santuário gaulês de Apolo,
cristãos, que já era complicada, ficou Constantino teria visto aparecer um deus que lhe prometeu um reinado longo
ainda mais difícil.
e muito vitorioso. Portanto, desde seu triunfo,
Diversas comunidades na Ásia Me- ele passou a dedicar um culto ao Sol. Em
nor, fundadas pelo apóstolo Paulo, 315, contudo, os escritores cristãos Eusébio e
eram roubadas e saqueadas constan- Lactâncio começaram a espalhar outra história,
temente. Em Roma, o filósofo Justino e dizendo que Jesus Cristo se manifestou ao
um grupo de seguidores de Jesus foram imperador na Gália ou mesmo na véspera da
condenados à morte. batalha sobre o rio Tibre. A lenda tomou a sua
forma definitiva no fim do século IV. Segundo a
Intelectuais contrários ao cristianis- história, Jesus apareceu em sonho a Constantino
mo, como Marco Aurélio, Galeno (129- e lhe apresentou um emblema dizendo “Por este
200) e Celso, rebatiam a doutrina. Para sinal, vencerás”. Esse famoso sinal seria composto
eles, a filosofia era o caminho único para de duas letras gregas: o X atravessado pelo P, ou
a salvação do homem: “A ‘salvação’ da seja, o início da palavra Cristo no idioma grego.
desordem dos acontecimentos, do ani- O que se sabe é que, desde então, o imperador
quilamento da morte, da dor, só pode declarou-se um seguidor de Jesus, interrompeu
ser encontrada numa ‘sabedoria filosófi- a perseguição aos cristãos e, como resultado
ca’ por parte de uma elite de raros inte- disso, o Império passou a ter o cristianismo como
lectuais. Trata-se de uma loucura o fato religião oficial anos mais tarde.
de os cristãos colocarem esta ‘salvação’
na ‘fé’ num homem crucificado (como IMPÉRIO CRISTÃO expedição com o objetivo de libertar a
os escravos) na Palestina (uma provín- Itália.
cia marginal) e declarado ressuscitado. É O movimento de perseguição aos cris-
preciso eliminar os cristãos como trans- tãos só terminou de vez em 321 d.C., A ação de Constantino era ousada,
gressores da civilização humana”. após o edito de Constantino I, que ga- já que ele dispunha somente de 25
rantia a liberdade de culto no Império mil homens, enquanto seu oponen-
Mais tarde, já no terceiro século, Romano. A história que envolve o fim te possuía cerca de 100 mil soldados.
ocorrem anos de terríveis perseguições da caça aos seguidores de Jesus, contu- O seu exército transpôs rapidamente
aos cristãos. Renasceu no período a do, começou alguns anos antes. os Alpes, ultrapassando o desfiladeiro
caça ao cristianismo em nome da lim- de Montgenèvre. Com isso, apoderou-
peza étnica. Como o Império Romano A partir do ano 306, com o fracas- -se da cidade de Susa e a incendiou, o
atravessava uma profunda crise econô- so do sistema de tetrarquia – o Estado que abriu caminho para Turim. Nesta
mica e social, os reis enxergavam que dividido em quatro partes –, ocorre localidade, aconteceu a batalha mais
a única maneira de salvar a nação era uma grande confusão na distribuição violenta. O exército dos generais de
voltar a uma linha de pensamento ho- dos poderes em Roma. No Ocidente, Maxêncio, com seus temíveis guerrei-
mogênea. Assim, os seguidores de Je- porém, a eliminação de Maximiano e ros cobertos por uma couraça de ferro
sus deveriam ser aniquilados. Galérico deixa em destaque somente e montados em cavalos, tinha grande
Constantino, que acaba sendo procla- vantagem. Constantino, porém, utilizou
Entretanto, as perseguições siste- mado “augusto”. Maxêncio, filho de uma tática que bagunçou o exército
máticas mostraram-se ineficazes. Isso Maximiano, também recebe a denomi- inimigo e conquistou importante triun-
porque os próprios cristãos despreza- nação de “augusto”. fo. A vitória o ajudou a entrar majes-
vam as honras e muitos tinham como tosamente em Milão. Novos triunfos
objetivo final morrer por sua causa reli- Maxêncio habitava em Roma. Já levaram os homens de Constantino em
giosa. Além disso, a doutrina espalhada Constantino, que fizera uma aliança marcha até Roma.
largamente por eles tinha conquistado com Licínio – imperador do Oriente –,
a mente de muitas pessoas que foram estava na Gália. No ano de 312, Cons- Maxêncio, muito supersticioso, te-
relegadas por anos pelo Império. tantino utiliza supostos maus tratados ria sido atormentado por pesadelos e
infligidos por Maxêncio a seus súditos
como pretexto para chefiar uma grande

110

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

maus presságios que o impediam de depois, a história se inverteria por com- SÉCULO VI A.C.
avançar contra o seu rival. Por influ- pleto. Em 391, o cristianismo não só se Politeístas por influência dos
ência dos magos de sua corte, decidiu tornou a religião oficial de Roma, como etruscos e gregos, romanos
assim mesmo enfrentar o adversário ao todas as outras seitas pagãs passaram a constroem o Capitólio, templo
norte da cidade de Roma. ser perseguidas. Foi a partir desse mo- de adoração aos deuses Júpiter,
mento que a igreja cristã começou a Juno e Minerva
Em 28 de outubro de 312, Cons- ganhar mais força e transformou-se em SÉCULO III A.C.
tantino tomou a iniciativa na batalha. uma poderosa instituição. Cargo de sumo pontífice, o
O ataque lançado por ele desorganizou líder do conselho de sacerdotes,
muito rapidamente o exército de Ma- Os patriarcas do cristianismo espa- passa a ser preenchido por
xêncio. Uma parte dos homens dele se lharam-se por toda a região dominada meio de eleição
jogou no rio Tibre, enquanto a outra se pelos romanos. Os patriarcados foram 293 A.C.
refugiou em cima de uma ponte que, divididos entre as cidades de Alexan- Romanos ‘importam’ deus grego
sem suportar o peso, se rompeu. Os dria, Jerusalém, Antioquia, Constanti- Asclépio para livrar a cidade de
soldados foram levados pela correnteza nopla e Roma. Por ordem do impera- uma grande peste
e o próprio Maxêncio morreu afogado. dor, no ano 455, o patriarca de Roma 181 A.C.
passou a ser, a partir de então, a au- Governo de Roma ergue templo
Após o completo triunfo, Constan- toridade máxima de igreja, sob a de- para Pietas, uma espécie de
tino foi acolhido em Roma como um nominação conhecida nos dias de hoje personificação do valor relativo
verdadeiro libertador. Os seus soldados, como papa. ao respeito aos deuses
que encontraram o cadáver de Maxên- 40 D.C.
cio, seguiram o cortejo do vencedor, No ano de 325, o imperador Cons- Cresce na província da Judeia
levando a cabeça do imperador morto tantino havia promovido uma reunião a crença de que Jesus Cristo era
espetada na ponta de uma lança, sob em Nicéia com autoridades eclesiásti- o Filho de Deus e que teria sido
os aplausos dos cidadãos romanos. Com cas para definir as principais crenças crucificado pelos líderes judaicos
essa vitória, Constantino passou a do- que deveriam reger a conduta dos cris- 50 D.C.
minar sozinho o Império Romano. tãos. Esse acordo foi chamado de Concí- Tem início o primeiro movimento
lio de Nicéia e tornou-se um marco na de perseguição dos cristãos
A partir disso, no ano 313, o impera- constituição da religião. Outros encon- durante o governo de Cláudio
dor Constantino converteu-se ao cristia- tros foram promovidos no futuro para 65 D.C.
nismo e permitiu o culto dessa religião alinhar a igreja doutrinariamente. Nero culpa os cristãos pelo
em todo o Império. Quase oito décadas enorme incêndio que destruiu
parte de Roma e inicia uma
A cruz de Cristo: imperador Constantino nova perseguição contra o
passou a professar a fé cristão após grupo religioso
vencer importante batalha SÉCULOS II E III
Segue a caçada dos
imperadores aos cristãos
313 D.C.
Após supostamente ter visto Cristo
durante um sonho, imperador
Constantino vence batalha
pelo poder, declara-se cristão e
permite livre culto da religião

391 D.C.
Cristianismo torna-se a
religião oficial do Império

Shutterstock
Shutterstock

111

ShutterstockCAPÍTULO 12 • CRISE

A DECADÊNCIA
DO IMPÉRIO

Exército romano precisou ser ampliado no terceiro
século por conta das invasões estrangeiras

A PARTIR DO SÉCULO III, AS SUCESSIVAS INVASÕES ESTRANGEIRAS E OS
CONSEQUENTES E IRRESPONSÁVEIS GASTOS COM O EXÉRCITO AJUDARAM
A LEVAR A POTÊNCIA PARA A SUA DERROCADA

Viver ficou bem mais difí- imperadores de Roma a aumentar con- as receitas e o déficit fiscal no Império
cil para a maioria dos habitan- sideravelmente o efetivo do exército. foi praticamente inevitável.
tes do Império Romano a partir do A ampliação das forças de defesa, no
século III d.C. por conta de vários entanto, prejudicou as finanças impe- Essa situação incômoda gerou uma
desastres combinados que criaram riais, já que havia cessado o processo profunda crise na defesa nacional. Im-
uma crise no governo e também de grandes conquistas territoriais – que peradores desesperados por uma arre-
na sociedade. Esse cenário, inima- garantiam ótimas recompensas com o cadação de dinheiro maior danificaram
ginável alguns anos antes, deu iní- despojo – e, àquela altura, o exército só muito a economia romana e ainda des-
cio ao declínio da grande potência gerava gastos. gastaram a confiança que as pessoas
daquela época. tinham na segurança. Tal ambiente in-
Para piorar ainda mais, a chama- centivou generais ambiciosos a toma-
As frequentes invasões impostas da economia não militar expandiu-se rem o poder por meio de seus exércitos
por estrangeiros há diversos anos nas bem menos do que o necessário para pessoais. Isso levou a mais uma guerra
fronteiras norte e leste obrigaram os contrabalancear. Em outras palavras: as civil, que durou décadas e desestabili-
despesas cresceram muito mais do que zou por completo o governo imperial.

112

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Detalhe no Arco de Constantino, em Roma, cinco a seis mil homens exigia o couro
ilustra batalha entre legião romana e bárbaros de 54 mil bezerros.

ShutterstockINVASORES bárbaros desejarem continuar no ter- Não bastasse essa grande demanda
Shutterstockritório do Império permanentemente.de recursos, a inflação do período fez
Bastante preocupados com a soberania Importante ressaltar que esse movi- com que os valores de tais mercado-
nacional, os líderes de Roma vinham re- mento foi um prenúncio dos contornos rias subissem demais. Acredita-se que
alizando campanhas para combater in- territoriais da Europa na atualidade. o principal motivo para a elevação nos
vasores desde o século I d.C., no reinado preços tenha sido o período da “paz
de Domiciano. Os invasores considera- GASTOS romana”, que aumentou a procura por
dos mais agressivos eram os germâni- produtos e serviços da economia local.
cos, bandos desorganizados vindos do Por volta do ano 200 d.C., o exército
norte que, muitas vezes, atravessavam romano cresceu de maneira bastante Ao logo do tempo, alguns impera-
os rios Danúbio e Reno para saquear as acentuada. Neste período, segundo os dores de Roma responderam aos pre-
províncias daquela região. historiadores, havia 100 mil tropas a ços inflacionados fraldando as moedas
mais do que nos tempos de Augusto. de prata emitidas em nome do gover-
Esses grupos começaram a fazer Estima-se que o recrutamento, no iní- nante, a forma mais importante de di-
ataques que geraram muitas perdas cio do terceiro século, tenha chegado a nheiro oficial. A adulteração da cunha-
durante o governo de Antonino Pio quase 400 mil homens. gem ocorria por meio do uso de menos
(138 a 161 d.C.) e elevaram ainda mais prata na moeda sem diminuir o seu va-
as suas investidas no reinado de Marco Mas, para manter todo esse contin- lor nominal. Dessa maneira, o governo
Aurélio (161 a 180 d.C.). As batalhas gente satisfeito, tornava-se importante comprava mais gastando menos.
contra o exército romano ficaram mais providenciar o soldo regular, já que
constantes e isso permitiu que os ger- a carreira era bastante difícil. Além Contudo, os mercadores eram es-
mânicos se tornassem, com o tempo, disso, era necessária uma quan- pertos e dificilmente deixavam ser lu-
melhor organizados militarmente. tidade enorme de suprimentos dibriados. Eles subiram ainda mais os
para essa verdadeira multidão. preços com o intuito de compensarem
Como estratégia para diminuir os Em um forte temporário de as perdas com as moedas adulteradas,
estragos, Roma usou a arma inimiga a determinada área de fron- o que gerou uma hiperinflação. No final
seu favor. Os imperadores passaram a teira arqueólogos acha- do século II d.C., esse cenário conturba-
contratar os combatentes germânicos ram, aproximadamente, do provocou um déficit permanente na
como soldados auxiliares e os posicio- um milhão de pregos balança comercial do Império Romano.
navam justamente nas fronteiras para de ferro, o equivalente Mesmo assim, os soldados continuavam
estancar o avanço de mais bandos inva- a dez toneladas do ma- exigindo bons pagamentos. A situação
sores. O recrutamento de estrangeiros terial. Esse tipo de acam- encaminhou-se para uma profunda cri-
foi, no curto prazo, uma das principais pamento precisava ain- se financeira no governo.
alternativas da defesa nacional. O efei- da de 28 quilômetros de
to colateral, entretanto, foi permitir que tábuas para as fortificações. Por fim, a Ilustração mostra organização de um »»
os alemães tivessem conhecimento de estimativa é que equipar uma legião de acampamento do exército romano
como era o confortável dia a dia roma-
no. Isso aumentou a tendência desses

113

CAPÍTULO 12 • CRISE

Óleo sobre tela retrata
discussão entre Severo
e Caracala: imperadores
severianos destruíram
austeridade romana

Crédito Editorial: McCarthy's PhotoWorks / Shutterstock.com

Soldados romanos precisavam Shutterstock
ter ótimo preparo físico
pouco ortodoxo nos gastos do tesouro, compensação monetária (espécie de
VIDA DE o que desestabilizou ainda mais o já bônus) da parte do imperador para
SOLDADO combalido Império. amenizar as perdas.

OS SOLDADOS ROMANOS Muito experiente na área militar, Severo não só desprendeu estron-
NÃO TINHAM VIDA FÁCIL. OS Severo começou a lutar pelo posto de dosas quantias para providenciar o di-
INTEGRANTES DO EXÉRCITO imperador depois do assassinato de nheiro como ainda decidiu melhorar as
PASSAVAM POR TREINAMENTOS Cômodo – filho de Marco Aurélio –, que condições dos soldados no longo prazo,
CONSTANTES E PRECISAVAM gerou uma grande crise em solo ro- elevando a taxa regular de pagamento
MANTER UMA BOA FORMA mano. Ele precisou derrotar seus prin- em um terço. O considerável tamanho
FÍSICA PARA CONSEGUIR cipais pretendentes ao trono em uma do exército romano naquela época fez
CARREGAR EQUIPAMENTOS violenta guerra civil para tomar posse com que esse reajuste salarial fosse
DE QUASE 20 QUILOS POR no ano de 193. muito superior ao que o tesouro na-
ATÉ 35 QUILÔMETROS, cional poderia suportar. Dessa forma, a
ATRAVESSANDO RIOS A NADO Em busca de recursos financeiros inflação cresceu ainda mais.
NO CAMINHO. para o exército e glória para a sua
Em campanha, levantavam família, o rei perseguiu arduamente Mesmo diante de um ambiente
um acampamento fortificado o sonho da conquista de novas terras econômico calamitoso, o imperador
por noite. Para tanto, era ao lançar campanhas para além das
preciso transportar para todo fronteiras orientais e ocidentais do Ruínas dos banheiros públicos
o lugar que fossem o material Império na Mesopotâmia e também construídos por Caracala
necessário para montar uma na Escócia. Porém, as expedições não
cidade cercada por um muro alcançaram o lucro esperado e ele fra-
de madeira. O historiador cassou em sua tentativa de consertar o
Flávio Josefo, depois de ver os déficit no orçamento.
soldados de Roma em ação,
relatou que “a infantaria pouco Do outro lado, os soldados se pre-
se diferenciava de mulas de ocupavam cada vez mais, pois a infla-
carga carregadas”. ção corroía o poder de compra de seus
salários para quase nada, principal-
PIORA mente com os descontos decorrentes
dos custos de suprimentos básicos
Septímio Severo (145 a 211) e seus e vestimentas do soldo, segundo as
filhos CaSeptímio Severo (145 a 211) antigas regulamentações do exército.
e seus filhos Caracala e Geta foram os Assim, as tropas aguardavam por uma
responsáveis por garantir a concretiza-
ção da ruína econômica. Eles secaram
os cofres públicos para satisfazerem os
desejos dos homens do exército. Além
disso, o trio era conhecido por seu perfil

114

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

não se preocupava nem um pouco com Shutterstock cargo lutou arduamente pelo trono.
as gravíssimas consequências. Tanto é
verdade que, em seu leito de morte, Aproximadamente trinta homens as-
teria dito aos filhos: “Mantenham as
boas relações entre vocês, enriqueçam sumiram o governo ou simplesmente
os soldados e não prestem atenção em
mais ninguém”. o reivindicaram. Alguns “imperado-

O problema foi que os filhos dele res” chegaram ao poder até mesmo
seguiram apenas parte do conselho
à risca. Caracala não mostrou estar simultaneamente. O cenário era aná-
tão disposto a ter uma boa relação
com Geta e o assassinou para garan- logo ao anarquismo.
tir o controle do governo para si. O
reinado, reconhecidamente violento O terceiro século foi repleto de
e libertino, acabou definitivamente
com a paz e a prosperidade da Idade guerras civis que prejudicaram dema-
de Ouro da época imperial. Caracala
subiu o valor do soldo em quase cin- siadamente o povo e a economia. A
quenta por cento. Além disso, torrou
uma montanha de dinheiro em cons- Antiga moeda romana de prata com falta de segurança atingiu o seu ápice.
truções colossais, sendo a maior delas o retrato do imperador Caracala
uma sequência de banheiros públicos A hiperinflação prosseguiu e a vida ga-
que se estendiam por incontáveis CARACALA E
quarteirões da capital. SUA SEDE POR nhou ares de lamento na maior parte
DINHEIRO
A extravagância do imperador nos do poderoso Império. A agricultura ja-
gastos impôs pressão insustentável nos NO ANO DE 212, CARACALA
funcionários públicos das províncias na TOMOU UMA MEDIDA zia, uma vez que os agricultores não
arrecadação de tributos e também, é DRÁSTICA PARA TENTAR
claro, nos cidadãos, que eram obriga- SOLUCIONAR A CRISE conseguiam manter a produção habitu-
dos a pagar impostos absurdos. Caraca- FINANCEIRA. O IMPERADOR
la conseguiu, assim, devastar qualquer DECIDIU CONCEDER CIDADANIA al por causa da guerra. Nesse período,
possibilidade de recuperação da eco- ROMANA A PRATICAMENTE
nomia romana. O ambiente ruim foi a TODOS OS HABITANTES DO os exércitos combatentes danificavam
desculpa perfeita para o guarda-costas IMPÉRIO, EXCEÇÃO FEITA AOS
do imperador o assassinar no ano 217 ESCRAVOS. A INICIATIVA VISAVA boa parte das plantações atrás de algo
para assumir o trono. AUMENTAR A RECEITA COM
OS IMPOSTOS PAGOS PELOS para se alimentarem.
CIDADÃOS SOBRE HERANÇA
E COM AS TAXAS PARA A Os membros dos conselhos das
LIBERTAÇÃO DE SERVOS.
A busca por receitas a qualquer cidades enfrentavam obrigações cada
custo gerava boatos vindos de
pessoas próximas, que diziam dia mais elevadas de arrecadação por
que o imperador estava insano.
Em certa ocasião, sua própria exigência dos imperadores, que se al-
mãe o repreendeu pelo exagero,
mas ele respondeu tirando sua ternavam no poder com uma veloci-
espada da bainha: “Não importa,
jamais ficaremos sem dinheiro dade incrível. A total desordem admi-
enquanto eu tiver isto”. Caracala
foi morto pouco tempo depois. nistrativa fez com que as elites locais

DESORDEM deixassem de apoiar as comunidades.

Depois dos imperadores severianos, Não bastassem os problemas in-
uma sucessão de problemas tomou
conta do Império Romano e levou ao ternos, mais inimigos estrangeiros se
ponto máximo da crise no século III.
Inicialmente, a instabilidade na políti- aproveitaram da fragilidade romana
ca foi o efeito mais imediato da crise
econômica. Por um período de quase para irem ao ataque. A situação ficou
setenta anos, uma quantidade gran-
de de imperadores e postulantes ao realmente crítica quando o rei do Im-

pério Persa Sassânida, Sapor I, capturou

Valeriano – governante entre os anos

de 253 e 260 – na Síria, em 260.

Até o experiente imperador Aure-

Shutterstock liano – no poder entre 270 e 275 – su-

cumbiu à situação caótica e só conse-

guiu cuidar das operações iminente-

mente de defesa, casos da recuperação

do Egito e da Ásia Menor das mãos de

Zenóbia, rainha guerreira de Palmira,

na Síria. Ele ainda cercou Roma com

uma muralha de dezessete quilôme-

tros de comprimento para se proteger

de ataques surpresa, sobretudo das

tribos germânicas, que já se avizinha-

vam pelo norte. Ainda hoje, partes da

construção (bem como suas torres e

portões) podem ser vistas em diversos

locais da capital da Itália. »»

115

CAPÍTULO 12 • CRISE

Shutterstock Imagem mostra ruínas do
antigo palácio de Diocleciano:
Foto de ossadas de cristãos RESGATE imperador reergueu o Império
mortos na perseguição romana no fim do século III
Um herói improvável. Assim Diocleciano
TERREMOTOS, podia ser considerado pelos romanos do do Dominato reafirmavam a autocra-
DOENÇAS final do século III. O rapaz da região aci- cia na punição de crimes e no direito.
E COLAPSO dentada da Dalmácia, nos Balcãs, iniciou A ordem vinda deles tinha força de lei
a carreira militar sem grande instrução. e as assembleias da República não ope-
Em meio ao fracasso administrativo ro- Mas a coragem e a inteligência fizeram ravam mais como fontes de legislação.
mano, os desastres naturais. Os tremo- com que ele subisse na hierarquia e,
res de terra devastavam construções. com o apoio do exército, foi declarado DIVINDADE
As epidemias virulentas atingiam em imperador em 284. IMPERIAL
cheio toda a região mediterrânea. Para
piorar ainda mais, a procedência dos Conseguiu encerrar a crise do século UM EPISÓDIO EM 331 MOSTRA
alimentos tornava-se menos confiável III por meio de um governo autocráti- COMO OS IMPERADORES DO
e também ajudava a deixar a popula- co, ou seja, baseado em suas próprias DOMINATO PASSARAM A TER
ção mais fraca e suscetível. As guerras ideias. Com a adesão dos militares, foi UMA VOZ QUASE DIVINA ENTRE
civis aniquilavam soldados e civis. reconhecido de modo formal como do- OS “MORTAIS” ROMANOS.
minus (mestre) ao invés de “primeiro Naquele ano, Constantino
O cenário colapsado deixou as áreas homem”. O sistema de governo instituí- ordenou aos funcionários
fronteiriças muito convidativas para os do a partir de Diocleciano passou a ser públicos que “contivessem
ataques estrangeiros. Os bandos erran- denominado Dominato, que consistia no as mãos gananciosas”, senão
tes de ladrões também se faziam pre- poder absoluto do imperador. Isso elimi- seriam punidos tendo seus
sentes dentro do Império à medida que nava qualquer possibilidade de autori- membros superiores decepados
as condições econômicas pioravam. dade compartilhada entre o governante pela espada. Essa nova
e a elite de Roma. Os cargos de senador, “legislação” previa ainda que
Os adeptos da religião tradicional cônsul e outros postos inerentes à Repú- quem cometesse um crime
politeísta passaram a crer que os deu- blica foram mantidos, mas faziam parte grave poderia ser amarrado em
ses estavam contra eles. O motivo? somente de uma fachada. um saco de couro com cobras e
Acreditavam que as divindades tinham afogado em um rio.
se zangado por causa dos cristãos, que Uma característica do novo modo de
se negavam a adorar os deuses roma- governar era a escolha de funcionários
nos. O ambiente já extremamente con- a partir das camadas menores da socie-
flitante ficou ainda mais inóspito com dade, de acordo com a competência e a
a perseguição mais intensa aos segui- lealdade ao governante. Assim, foi in-
dores de Jesus. O imperador Décio (go- terrompida a tradição de nomear admi-
vernante entre 249 e 251) capitaneou nistradores com origem na classe alta.
ataques violentos contra os cristãos com
o objetivo claro de eliminar o grupo. Além disso, os governantes do Do-
minato deixaram a tradição iniciada por
O imperador Galiano (dono do trono Augusto de vestirem roupas simples e
entre os anos de 260 e 268) restaurou do cotidiano. Começaram a usar vesti-
a paz religiosa e cessou a perseguição. mentas com joias e coroas deslumbran-
Apesar disso, na década de 280, não ha- tes. Como forma de mostrar a diferença
via como negar que o Império Romano entre o “mestre” e as pessoas comuns,
encontrava-se à beira do abismo. no palácio, vários véus separavam as sa-
las de espera do espaço interno onde o
governador realizava as suas audiências.

No período, também foi desenvol-
vida uma estrutura teológica que vi-
sava legitimar o governo. Diocleciano,
por exemplo, adotou o título Jovius,
proclamando-se descendente de Júpi-
ter (principal deus romano).

As palavras do imperador ganharam
tons mais agressivos. Os imperadores

116

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock

NOVA TETRARQUIA REFORMA
Mesmo com seu sucesso como gover- deveria receber a lealdade do demais ECONÔMICA

nante, Diocleciano avaliava que o Impé- coimperadores. O imperador também fez de tudo para
reestabelecer o poderio da economia
rio Romano era muito extenso para ser A nova tetrarquia tinha o objetivo de Roma. Inicialmente, Diocleciano
buscou restaurar a importância das mo-
defendido e administrado através de de conter o isolamento do governo edas de prata e de ouro ao diminuir a
quantidade agregada de ouro nas pe-
um único centro. Diante disso, concluiu imperial de Roma, que estava muito ças, mas mantendo o valor nominal.
Além disso, colocou em circulação mo-
que dividir o governo em duas partes longe das enormes fronteiras do gran- edas divisionárias de bronze com uma
fina cobertura de prata, que serviam
seria a melhor saída. Por meio de um de Império e dos problemas que apa- para as operações do cotidiano e visa-
vam facilitar o troco. Tal peça, contudo,
processo arrojado, separou o territó- reciam nessas regiões mais afastadas. foi depreciada e diversos comerciantes
passaram a se negar a aceitá-la como
rio em Leste e Oeste. Na prática, criou Tais decisões foram históricas, já forma de pagamento.

um Império Romano Oriental e outro que a criação das quatro regiões fez Nessa época, as casas de cunhagem
precisaram ser ampliadas para pode-
Ocidental, apesar dessa divisão não ter com que Roma deixasse de ser a ca- rem satisfazer as necessidades prove-
nientes do comércio, da construção de
sido reconhecida de modo formal. pital dos romanos depois de mil anos. obras públicas e da elevação do núme-
ro de militares e civis.
Após a primeira etapa de reforma Escolheu as novas capitais de acordo
O governante ainda impôs refor-
administrativa, Diocleciano fez outras com suas utilidades como postos de mas tributárias para cobrar impostos
diferenciados de acordo com as classes
duas subdivisões – uma em cada região comando militar: Milão, na região nor- sociais. Para tanto, ele realizava um
recenseamento do povo a cada cinco
– e nomeou homens de confiança para te da Itália; Sírmia, perto da fronteira anos e, segundo os dados levantados
sobre os seus bens, taxava o cidadão.
uma espécie de governo de coopera- com o rio Danúbio; Tréveris, na fron- Tais tributos eram, muitas vezes, in na-
tura. Um exemplo era o agricultor, que
ção. Cada um controlava um distrito, teira com o rio Reno; e Nicomédia, na pagava em grãos, vinhos, azeites e
carnes. O pagamento em espécie, por
sua respectiva capital e as forças mi- Ásia Menor. sua vez, só era feito pelos negociantes
e artesãos presentes nas cidades.
litares. Para evitar quaisquer tipos de Assim, a Itália tornou-se apenas
Os entraves na agricultura, aliás,
desavenças ou desunião, o líder mais mais uma seção do Império, em igual- precisavam ser solucionados breve-
mente, pois o setor era considerado
graduado – neste caso específico, Dio- dade com as demais províncias e sujei- como o fundamento da manufatura,
onde se extraía da natureza a matéria-
cleciano – atuava como imperador e ta ao mesmo sistema de tributação. -prima. A medida adotada por Diocle-
ciano foi a ruralização, que nada mais
era que o arrendamento das terras aos
camponeses, agricultores e arrendatá-
rios, que deveriam pagar um imposto
sobre a produção agrícola anual.

Os desenvolvimentos adequados
da agricultura, comércio, pecuária e ar-
tesanato foram garantidos depois que

diversos germânicos pacíficos foram »»

117

CAPÍTULO 12 • CRISE

Moedas romanas: quantidade de ouro Shutterstock comercializassem as suas colheitas aos
foi diminuída para equilibrar a economia chamados atravessadores. Assim, os
compradores oficiais de Roma deve-
Shutterstock riam controlar a semeadura, realizar a
fiscalização da colheita e monopolizar
os transportes, dando ênfase à quali-
dade do desenvolvimento da produção
e também do comércio.

O governo de Diocleciano ainda
ficou conhecido por gerar inúmeras
vagas de trabalho por meio de inves-
timentos nas construções, ampliações
ou reformas de viadutos, pontes, estra-
das, arcos triunfais, edifícios imperiais,
aquedutos, obras públicas, circos para
apresentações teatrais, abóbadas, en-
tre outros projetos arquitetônicos.

Com a proposta de diminuir os
custos dessas intervenções, foi usado
como alternativa o concreto – que era
um material mais barato – juntamente
com os tijolos. Nas casas mais simples,
eram utilizados ainda ladrilhos, pedre-
gulhos e estuque.

Diocleciano instituiu como forma
de lazer os banhos públicos, que che-
gavam a reunir até três mil pessoas.
Os cidadãos de Roma se encontravam
nesses locais para conversar em salões
centrais refrigerados. Não eram somen-
te lugares onde as pessoas simples-
mente tomavam banho, como também

Agricultor POUPANÇA
romano passou a IMPERIAL

pagar imposto APESAR DE COLOCAR EM
in natura PRÁTICA DIVERSAS MEDIDAS
AUSTERAS, DIOCLECIANO TINHA
agregados como agricultores ou solda- rativa que reunia os trabalhadores do UM MODO DE GOVERNO QUE
dos com o objetivo de defenderem a mesmo ramo de atividade. PRIMAVA PELA SIMPLICIDADE
fronteira romana. ADMINISTRATIVA.
No ano de 301, Diocleciano iniciou O imperador deixava essa
Já os plebeus presentes nos gran- o combate à hiperinflação ao lançar característica clara ao, depois
des centros urbanos passaram ter o Edito Máximo de Preços, que previa de pagar as despesas em curso,
uma representação política que re- um limite de ganhos dos salários so- formar uma ampla reserva
fletisse a nova realidade econômica. bre a jornada de trabalho e um teto financeira com aquilo que
Segundo a medida, eles deveriam de preço para os produtos de consu- sobrava do tesouro imperial.
continuar em suas respectivas profis- mo. Na Sicília, o Estado foi obrigado a Esse dinheiro poderia ser
sões e transmiti-las aos descenden- fazer a regulamentação da produção revertido livremente, mas com
tes. Também precisariam formar ou agrícola dos cereais e da troca de mer- muita prudência e sensatez,
se associar a uma espécie de coope- cadorias, impedindo que os lavradores pois também servia para as
emergências do Estado.

118

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock

havia bares, restaurantes, barbeiros,
livrarias, bordéis, casas de massagem,
lojas de roupas, espaços para prática de
esportes, piscinas, área para exercícios
de ginástica e salas aquecidas. Tratava-
-se de uma forma de empreendedoris-
mo para fazer a economia romana girar
cada vez mais intensamente.

Mesmo com o sucesso obtido em
sua gestão, Diocleciano decidiu abdicar
do governo do Império. No dia primeiro
de março de 305, ele anunciou a de-
cisão de deixar o trono durante uma
cerimônia na região de Nicomédia. Ele
retirou-se para a Dalmácia com o senti-
mento de dever cumprido.

Estátua de Constantino, imperador romano que aderiu ao cristianismo

CONSTANTINO Mesmo assim, fez grande força para na construção de uma nova capital,
promover o cristianismo através da entre os anos de 324 e 330. O impera-
Os feitos administrativos de Dioclecia- construção da Basílica de São João de dor ergueu Constantinopla no lugar da
no são incontestáveis. O imperador, Latrão para que fosse a igreja sede do antiga Bizâncio (atualmente Istambul,
porém, fez de tudo para ter o controle bispo de Roma. Ele ainda edificou outra na Turquia) na foz do Mar Negro. Nesse
absoluto do governo. No ano 303, vol- enorme basílica dedicada a São Pedro. novo projeto, Constantino decidiu colo-
tou a imprimir uma forte perseguição O prédio, concluído no ano de 349 d.C. car estátuas dos costumeiros deuses da
aos cristãos presentes no Império, des- após décadas de obras, foi um centro de cidade para não causar discordâncias
truiu suas igrejas, ordenou que seus adoração por mais de mil anos. No sé- com o tradicionalismo. Com esse com-
textos sagrados fossem queimados e culo XVI, acabou sendo derrubado para portamento, ele desejava manter a boa
matou aqueles que se recusavam a dar lugar ao prédio atual. relação e não causar implicações polí-
participar dos ritos religiosos oficiais. ticas ruins e desnecessárias para o seu
Na realidade, o interesse dele não era Constantino também devolveu to- governo, que caminhava com bastan-
religioso, mas buscava manter ordem das as propriedades confiscadas por te tranquilidade durante todos esses
no período, conhecido como a Grande Diocleciano aos cristãos. Contudo, para anos. Respeitar os costumes romanos
Perseguição. não ter problemas com os não cristãos foi um de seus principais lemas.
que adquiriram as terras em leilão,
Já Constantino, que assumiu a ordenou uma compensação financeira Lentamente, com o sincretismo re-
vaga deixada pelo antecessor em 306, pelas perdas. ligioso, o cristianismo ganhou espaço
mudou a história religiosa – e conse- e tornou-se a religião oficial do Impé-
quentemente política – do Império ao Mas o governo dele não foi com- rio Romano em 391, durante o reinado
se converter ao cristianismo. Era a pri- posto apenas de benevolência para de Teodósio.
meira vez que um governante de Roma com os cristãos. Ele também investiu
proclamava sua aliança com a religião.
Constantino, aliás, adotou o cristianis- DIA DO SENHOR
mo pelo mesmo motivo que Dioclecia-
no o havia perseguido: na crença de EM 321 D.C., CONSTANTINO TOMOU A DECISÃO DE TORNAR O DIA DO
que estava alcançando a proteção divi- SENHOR UMA OCASIÃO SAGRADA NA QUAL NENHUM NEGÓCIO OFICIAL
na para o Império e também para si. OU TRABALHO DE MANUFATURA PODERIAM SER FEITOS.

O imperador não fez de sua nova fé Porém, o imperador teve a sagacidade de garantir que o dia em questão
pessoal a religião oficial, mas decretou a correspondesse ao domingo. Isso permitia que os adeptos ao politeísmo
tolerância de crença. A realidade é que cressem que um dia específico da semana continuava a homenagear a antiga
ele não desejava atrair a raiva dos adep- deidade deles, o sol (domingo, em inglês, é Sunday, literalmente o dia do sol).
tos ao politeísmo, pois esses ainda eram
muito mais numerosos que os cristãos. »»

119

CAPÍTULO 12 • CRISE

Shutterstock

DIVISÃO MIGRAÇÕES Antiga igreja dos visigodos
DO IMPÉRIO BÁRBARAS na Espanha: povo bárbaro
foi perseguido pelos hunos e
O plano de um governo tetrarca, ins- Os bárbaros levavam esse nome por seguiu para o Império Romano
tituído por Diocleciano, não vingou. conta da impressão que os romanos
Apesar disso, o princípio de divisão da tinham dos habitantes do norte. O idio-
administração rendeu frutos. Constanti- ma, as vestimentas e os costumes di-
no travou uma intensa guerra civil no ferentes os faziam parecer atrozes aos
começo do reinado dele para alcançar olhos dos moradores do Império.
um governo unificado e aboliu a tetrar-
quia por temer lideranças desleais. Os bárbaros germânicos do século
IV d.C., que formavam um grupo bem
No final de seu reinado, ele ainda diverso etnicamente, migraram pela
relutava em admitir que o Império ne- primeira vez para as terras romanas
cessitasse de mais governantes. Mes- na condição de refugiados em busca
mo assim, Constantino designou os três de outro local por estarem amedronta-
filhos dele como sucessores conjuntos. dos com os fortes ataques dos hunos.
Porém, uma rivalidade entre os irmãos Estavam interessados na segurança e
arruinou por completo qualquer possi- conforto garantidos pelo Império. No
bilidade de manter a unificação. No fim fim do século IV d.C., porém, a chega-
do século IV, o Império foi formalmente da de bárbaros tornou-se muito mais
dividido em duas seções (ocidental e intensa. Esse povo foi escorraçado da
oriental), cada qual com um imperador. terra onde hoje é o Leste Europeu, a
norte do rio Danúbio.
O tempo e as desavenças fizeram
com que houvesse um distanciamento Os bárbaros tinham pouquíssima
entre as duas metades. Constantinopla expectativa de avanço como nação,
era a capital do Império Oriental e tra- pois não eram unidos política e mili-
zia qualidades importantes: estava em
uma península fortificada e encontrava-
-se entre as rotas de comércio. Além
disso, Constantino deixara a cidade
equipada com fórum, palácio imperial
e um hipódromo para corridas de bigas.

A geografia também determinou o
local da capital do Império Ocidental.
Em 404, o imperador Onório fez de Ra-
vena – um porto na costa nordeste ita-
liana – a capital permanente do Ociden-
te. Grandes muros a protegiam contra
os ataques terrestres. Já o acesso para
o mar evitava que ficasse totalmente
privada de mantimentos se ocorresse
um cerco. Mesmo assim, Ravena nunca
alcançou Constantinopla em tamanho
ou esplendor, conforme o historiador
Thomas R. Martin.

A cidade de Roma, por sua vez, che-
gara a um triste declínio que a reduzi-
ria, com o passar dos anos, à condição
do vilarejo empobrecido em que o anti-
go lar dos romanos começara há muito
séculos. A pomposa localidade entrou
em um processo de ruína.

120

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Vista aérea de tarmente. Nem mesmo um senso com- bens móveis e os escravos da cidade,
Istambul: antiga partilhado de identidade possuíam.
A única ligação que mantinham – ao os romanos teriam perguntado: “O que
Constantinopla menos uma parcela considerável deles
era a capital do – era a origem germânica dos muitos ficará para nós?”. “Suas vidas”, teria
Império Oriental idiomas.
Indumentária de um soldado anglo-saxão: respondido o general bárbaro.
povo estabeleceu reinado na Bretanha Os primeiros bárbaros germânicos
a fugir pela fronteira até o Império Ro- Diante da grave situação, o gover-
mano vieram a ser chamados de visi-
godos. Como andavam espalhados por no do Império Ocidental concordou, em
conta dos ataques dos hunos, em 376,
imploraram ao imperador oriental, Va- 418, assentá-los no sudoeste da Gália
lente, que permitisse a eles migrar para
os Balcãs. Os visigodos foram autoriza- (atual território francês). Lá, organi-
dos sob a condição de que seus guer-
reiros se alistassem no exército romano zaram um Estado e tornaram-se uma
na defesa contra os hunos.
sociedade tribal ligeiramente demo-
No entanto, alguns gananciosos
funcionários públicos de Roma, encarre- crática. O problema do Império Ociden-
gados de ajudar os refugiados, acaba-
ram explorando os bárbaros para obte- tal, contudo, estava só começando. As
rem lucro. Assim, os germânicos foram
enfraquecidos pela fome. Tais funcioná- concessões feitas aos visigodos fizeram
rios até mesmo os forçavam a vender
alguns de seu próprio povo como escra- com que outros grupos bárbaros utili-
vos em troca de cães para comer.
zassem a força para conquistar o terri-
Diante desse cenário, os visigodos
revoltaram-se. No ano de 378, der- tório romano. Em 406, o bando conhe-
rotaram e assassinaram Valente em
Adrianópolis (atual parte europeia da cido como vândalos, também fugitivo
Turquia). Mataram ainda dois terços
das forças romanas. Sucessor de Valen- dos hunos, atravessou o rio Reno. Esse
te, Teodósio I (governante entre 379
e 395) teve que renegociar o acordo volumoso grupo abriu caminho pela
com os visigodos, que conquistaram o
direito de ficar permanentemente no Gália até chegar à costa espanhola. No
Império, a liberdade para estabeleci-
mento de um reino sob suas próprias ano 429, 80 mil vândalos navegaram
leis e o recebimento de valores anuais
do tesouro. até a África do Norte, onde capturaram

Sem conseguir cumprir o trato, os a província romana. Lá, se apropriaram
governantes do Ocidente começaram a
forçar a ida dos bárbaros para a direção de terras e do pagamento de tributos.
do Império Oriental. Os imperadores
cortavam os subsídios aos refugiados e Isso enfraqueceu ainda mais o Império
ameaçavam uma guerra total caso não
fossem embora. Ocidental.

Shutterstock Mais uma vez, os visigodos respon- Em 455, saquearam Roma e destru-
deram. Em 410, os bárbaros captura-
ram Roma e aterrorizaram a população íram o símbolo central da antiga glória
local. Quando Alarico, comandante dos
visigodos, exigiu o ouro, a prata, os do Império. Os vândalos também atra-

palharam os planos do Império Oriental

quando romperam o comércio no Medi-

terrâneo, sobretudo o de suprimentos

alimentares.

Além disso, grupos menos numero-

sos se aproveitaram da desordem total

causada pelos bandos mais expressi-

vos para se apossarem de partes do

Império do Ocidente. Entre eles esta-

vam os anglo-saxões. Esse grupo, com-

posto por anglos vindos da Dinamarca

e saxões provenientes do noroeste da

Alemanha, invadiu a Bretanha, na dé-

cada de 440 d.C., depois que o exército

romano foi convocado para defender

a Itália contra os visigodos. Os anglo-

-saxões estabeleceram reinado na Bre-

tanha ao arrancarem o território à força

dos povos celtas indígenas e dos habi-

tantes romanos remanescentes. No fim

Shutterstock do século V, foi a vez dos ostrogodos,

vindos do leste, instituírem seu reina-

do na Itália. »»

121

CAPÍTULO 12 • CRISE

Shutterstock

Capela privada
de Teodorico, em
Ravena: rei dos
ostrogodos assumiu
o controle do
Império do Ocidente
no século VI

FIM DO IMPÉRIO rei independente e encerrou um perí- também queria manter as tradições do
OCIDENTAL odo de cinco séculos de imperadores Império Romano para garantir status ao
de etnia romana. Era o fim político do seu novo governo. Mais uma vez, o Se-
Vários comandantes do exército germâ- Império Ocidental. nado e o posto de cônsul continuaram
nico foram chamados para ajudar na intactos. Cristão ariano, Teodorico se-
defesa da área central romana. Mas, no Mesmo assim, Odoacro fez questão guiu o exemplo deixado por Constanti-
século V, alguns desses generais apro- de manter o Senado de Roma e ainda no e adotou uma política de tolerância
veitaram-se das lutas pelo poder entre os cônsules para mostrar certo amor religiosa.
os romanos que concorriam ao posto pela tradição. Além disso, ele enviou
de imperador e se transformaram em embaixadores a Constantinopla para de- CALDEIRÃO
mediadores com influência política na monstrar reconhecimento ao imperador CULTURAL
decisão sobre quem seria o governante do Oriente e garantir apoio diplomático.
da vez. Os germânicos, aliás, também A ascensão dos bárbaros ao trono do
podiam destituí-lo, o que reduzia o im- No entanto, Constantinopla descon- Ocidente, destacada por historiadores
perador romano a um mero fantoche fiou da atitude e decidiu contratar o rei como a grande transformação política
nas mãos deles. dos ostrogodos, Teodorico, o Grande, da Europa na época – gerou profundas
para eliminar Odoacro. Ele fez o serviço, transformações socioculturais. Os ha-
O último a ocupar o trono nessas assassinou o intruso, mas traiu o impe- bitantes recém-chegados ajudaram a
condições foi um garoto de nome Rô- rador do Oriente. Teodorico criou o seu criar novas formas de vida baseadas
mulo Augusto. No ano 476, o coman- próprio reino germânico em território em uma mistura de tradições de dife-
dante bárbaro Odoacro o depôs, mas italiano e manteve o Ocidente sob o rentes partes.
foi piedoso por conta da pouca idade domínio ostrogodo até o final de sua
do rapaz e lhe deu uma pensão para vida, no ano 526. O rei visigodo Ataulfo – governante
viver em um exílio perto de Nápoles. entre 410 e 415 – foi um exemplo disso.
O general germânico se autoproclamou Na mesma linha de pensamento de
Odoacro, Teodorico desejava usufruir da
vida mais luxuosa da elite imperial. Ele

122

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Ele se casou com uma nobre romana e subornos com astúcia para rechaça- tiniano (entre 482 e 565). Ele lançou
falou abertamente sobre a integração rem as migrações e as enviaram para expedições romanas para tentar supri-
dos costumes diversos: “No início, eu o Ocidente (longe de seus territórios). mir os germânicos do Ocidente, mas
queria apagar o nome dos romanos e Também bloquearam a agressão do tais campanhas serviram apenas para
transformar a terra deles em um impé- reino sassânida na Pérsia ao leste e alimentar um sonho distante e esvaziar
rio gótico, fazendo a mim mesmo o que protegeram a rota das especiarias no os cofres públicos.
Augusto fizera. Mas aprendi que a selva- sentido leste-oeste. Dessa maneira, os
geria desregrada dos godos jamais acei- governantes do Oriente mantiveram, A partir do sétimo século, os impe-
taria o governo da lei, e que Estado sem em grande parte, as tradições antigas radores perderam enormes áreas de
lei não é Estado. Sendo assim, escolhi e a população da região. terra nos ataques violentos de exérci-
com mais sabedoria outro caminho para tos islâmicos, mas ainda conseguiram
a glória: renovar o nome romano com o O último imperador oriental a ten- manter o governo na capital por mais
vigor gótico. Rezo para que as gerações tar ressuscitar o antigo Império foi Jus- 850 anos.
futuras se lembrem de mim como o fun-
dador de uma restauração romana”. SÉCULO II ANO 215
Ataques estrangeiros, Imperador Caracala
Contudo, os visigodos não demons- sobretudo germânicos, administra mal o
travam estar preparados para adminis- geram as primeiras perdas Império e deixa Roma
trar o Império por conta das antigas tra- ao Império Romano ainda mais devastada
dições trazidas do nordeste da Europa. Shutterstock economicamente
Naquela região, eles viviam em assenta- Shutterstock
mentos pequenos cujas economias de- ANO 200
pendiam do cultivo de lotes diminutos, Crescem demasiadamente os gastos
pastoreio e trabalho com o ferro. com o exército, que chega a 400 mil
homens; tesouro do governo romano
As assembleias de guerreiros livres apresenta primeiros sinais de déficit
eram a única forma tradicional de or-
ganização política dos bárbaros. As fun- ANO 306
ções dos líderes ficavam basicamente Constantino assume
restritas a deveres religiosos e milita- SÉCULO III FIM DO SÉCULO III
res. Tribos e clãs, muitas vezes, sofriam Ambiente político Diocleciano governa com posto de Diocleciano;
conflitos internos e se hostilizavam vio- conturbado leva a mão de ferro, institui anos depois, imperador
lentamente. Assim, os reinos germâ- guerras civis se converte ao
nicos jamais se equipararam ao modo ENTRE 324 E 330 reformas e garante uma cristianismo e declara
organizacional do antigo governo ro- Constantino sobrevida ao Império
mano na Idade de Ouro do Império. investe na liberdade religiosa no
construção de território romano
IMPÉRIO uma nova capital FIM DO SÉCULO IV
ORIENTAL – Constantinopla Império Romano
– no lado oriental é dividido em duas ANO 404
Do outro lado, os integrantes do Im- do Império Ravena torna-se a nova
pério do Oriente procuraram evitar as ANOS 476 partes: Ocidental capital do lado ocidental
mudanças que alteraram por comple- Após longo período e Oriental
to a metade ocidental. A integridade de invasões bárbaras,
econômica e a união política foram germânicos ascendem SÉCULO V
as suas marcas nos séculos seguintes. ao poder no Ocidente Imperador oriental
Na maioria das vezes, os historiadores Justiniano tenta
contemporâneos se referem ao Império resgatar antigo
Oriental como Império Bizantino, termo Império, mas não
derivado de Bizâncio, nome anterior da obtém sucesso;
capital. Império do Oriente
ainda resiste por
Os imperadores em Constantino- muitos séculos
pla se valeram de força, diplomacia e grupo religioso

SÉCULOS II E III 313 D.C. 391 D.C.
Segue a Após supostamente ter visto Cristianismo
caçada dos Cristo durante um sonho, torna-se
imperadores imperador Constantino a religião
aos cristãos vence batalha pelo poder, oficial do
declara-se cristão e permite Império
livre culto da religião

123

CAPÍTULO 13 • LEGADO

Shutterstock

A HERANÇA Os algarismos romanos foram um
ROMANA dos legados que resistiram aos séculos

O DOMÍNIO SE ESVAIU COM O PASSAR DOS do Império do Ocidente. Essas caracte-
ANOS, MAS A INFLUÊNCIA DA ANTIGA POTÊNCIA rísticas foram ainda mantidas na Euro-
ESTENDEU-SE NO DECORRER DOS SÉCULOS POR pa Medieval e, a partir do século XVI – o
MEIO DO DIREITO, IDIOMA, ARQUITETURA E ARTES período das grandes navegações e dos
descobrimentos –, passaram a ser di-
A s invasões bárbaras ao Contudo, a herança de Roma vai fundidas por algumas regiões da Ásia,
Império Ocidental nos séculos muito além e está presente nas cultu- África e América.
IV e V destruíram o domínio roma- ras ocidentais contemporâneas, sobre-
no depois de séculos de uma plena tudo nas áreas jurídica e linguística. LATIM
preponderância. Entretanto, o que Não há como esquecer também o le-
nem sempre nos damos conta, gado romano na arquitetura, engenha- Se hoje podemos nos comunicar uti-
mas que fica claro quando pres- ria e até mesmo no campo das artes. lizando a língua portuguesa por meio
tamos um pouco mais de atenção Não estamos isentos dele nem mesmo da fala e também da escrita, devemos
ao nosso redor, é que a influência quando nos deparamos com nosso ca- isso quase que exclusivamente ao latim,
desse povo ainda está muito pre- lendário diariamente. idioma da Roma Antiga. Depois da que-
sente em nosso dia a dia. No iní- da do Império do Ocidente e da invasão
cio desse parágrafo está um bom Tais traços marcantes dessa civiliza- dos germânicos na Europa, o português
exemplo disso: continuamos utili- ção foram preservados muito por conta foi uma das línguas que se originaram
zando os algarismos romanos para da instauração dos reinos germânicos. do latim. Os outros filhos do idioma são
nos referirmos a um determinado Essas populações absorveram profun- o francês, italiano, espanhol e o romeno.
século. dos aspectos culturais romanos na Ida-
de Média, quando dominaram a região O latim nada mais é do que uma
língua indo-europeia. Ele teria surgi-
do no século VI a.C., na região do Lá-
cio, próximo à cidade de Roma. Além
de tomar conta de todo o Império, foi
adotado posteriormente pela Igreja
Católica Apostólica Romana. No pe-
ríodo conhecido como Idade Média,
a maior parte das regiões utilizava o

124

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock VOCÊ FALA
Shutterstock LATIM TODOS
Shutterstock OS DIAS!
Apesar de não ser falado por nenhum país atualmente, o latim foi de extrema
importância, uma vez que deu origem a outros idiomas, como o nosso português MESMO NÃO TENDO UM PAÍS
PARA CHAMAR DE SEU, O
latim. Nos dias de hoje, nenhum país Palíndromo mais antigo do LATIM É FALADO TODOS OS
do mundo fala o idioma, mas, mes- mundo, escrito em latim DIAS. INCLUSIVE POR VOCÊ.
mo assim, muitos consideram que ele Muitos nomes das marcas
não está totalmente morto. A verda- CURIOSIDADE que estão disponíveis aos
de, porém, é que poucas pessoas ao montes nas gôndolas dos
redor do planeta – a maioria, estudio- O palíndromo é uma palavra supermercados, por exemplo,
sos de línguas antigas e religiosos – ou frase que tem a mesma estão escritos em latim. A
conhecem bem o latim. sequência de letras em verdade é que o idioma ganhou
qualquer ordem de leitura, a simpatia dos publicitários,
O português foi o último idioma tanto da esquerda para a sobretudo nas últimas décadas.
formado a partir do idioma. O poema direita, quanto da direita para Apesar da forte tendência de
“Língua portuguesa”, de Olavo Bilac, a esquerda. Alguns exemplos: utilização de palavras de origem
faz essa referência de maneira bem “ovo”, “osso” e “radar”. anglicana (já que o inglês é o
clara: “Última flor do Lácio, inculta e O curioso é que o palíndromo idioma preferido das agências
bela. És, ao mesmo tempo, esplen- mais antigo do mundo é a de publicidade), o latim foi
dor e sepultura. Ouro nativo, que na frase em latim “Sator arepo resgatado. Entende-se hoje que
ganga impura. A bruta mina entre os tenet opera rotas” (O lavrador as expressões latinas conferem
cascalhos vela”. diligente conhece a rota do ao produto certo status e
arado). Ele foi criado entre os credibilidade. Além das marcas,
Já o alfabeto romano é utilizado séculos II e V. o latim também está presente
até hoje na maioria dos países ao redor em palavras e expressões que
do globo. Até mesmo línguas que não usamos em diferentes ocasiões. »»
são de origem latina (o alemão é um Exemplos não faltam:
exemplo) fazem uso dele. A priori = em princípio 125
Aliás
Também chegaram até nós os al- Carpe diem = aproveite o dia
garismos romanos, instituídos e usados Corpus Christi = corpo de Cristo
na Roma Antiga. Entretanto, os utiliza- Curriculum Vitae = trajetória de vida
mos hoje mais para nos referirmos aos Data venia = com o devido respeito
séculos. Sete letras maiúsculas com- Et cetera (etc)
põem o sistema de numeração romana In loco = no local
do alfabeto latino: I, V, X, L, C, D e M. Mea culpa = minha culpa
Modus operandi = modo de agir
Sui generis = de seu próprio gênero
Vade mecum = vem comigo

A expressão latina curriculum
vitae está muito presente em
nosso dia a dia

CAPÍTULO 13 • LEGADO

Reprodução de antigo calendário Egípcio dele, aliás, se confunde bastante com por meio de números ordinais: Quin-
a origem de Roma (753 a.C.). tilis, Sextilis, September, October,
November e December. É importante
Curiosamente, o calendário roma- lembrar que se tratava de um calen-
no primitivo tinha apenas 10 meses dário sem qualquer base astronômica,
e 304 dias. Nele, os quatro primeiros já que os períodos nele definidos não
meses possuíam nomes próprios em tinham relações com os movimentos
homenagem aos deuses da mitologia solar ou lunar.
romana (Martius, Aprilis, Maius e Ju-
nius). Já os demais eram designados

Shutterstock NUMA POMPÍLIO

Somente o segundo rei romano, Numa Pompílio (715-673 a.C.), estabeleceu um ca-
lendário baseado nos movimentos do Sol e da Lua. Com isso, o ano passou a ter 355
dias devidamente distribuídos em doze meses. Como ele considerava meses com
dias pares “azarados”, decidiu tirar um dia de cada mês que tinha trinta dias. Ele,
então, juntou esses seis a mais outros 50 e constituiu dois novos meses: Januarius e
Februarius. Esse segundo – com 28 dias – foi dedicado a Februa, divindade que purifi-
cava os mortos. Os romanos ofereciam sacrifícios a ela para compensar as suas faltas
durante todo o ano. Por conta disso, Februarius foi instituído como o último mês.

CALENDÁRIO CALENDÁRIO Ao alcançar o poder em Roma, Júlio
ROMANO JULIANO César decidiu eliminar o problema de
uma vez por todas. O novo imperador
Os calendários foram elaborados em Porém, os romanos começaram a ve- destacou o astrônomo Sosígenes, da
muitas sociedades devido à necessi- rificar a importância de coordenar seu Grécia, para avaliar a caótica situação.
dade de mensuração do tempo. Com ano lunar com o ciclo das estações. Para O especialista concluiu que havia um
o passar dos anos, esse mecanismo tanto, eles formaram um incipiente sis- adiantamento de 67 dias no calendário
assumiu o papel de principal orien- tema solar-lunar, colocando em seu romano quando comparado às estações.
tador da vida em muitos sentidos. Os calendário, a cada dois anos, um novo
integrantes de diferentes povos davam mês, que ganhou o nome de Mercedo- Assim, Júlio César deu ordens para
funções para determinados dias e anos. nius. Esse novo mês tinha duração de que naquele ano de 46 a.C., além do
Ou seja, os calendários ganharam ain- 22 ou 23 dias. Desse modo, passou a Mercedonius, fossem instituídos ainda
da um forte caráter cultural e estavam existir um ano de 377 dias e outro de mais dois meses: um de 33 e outro de
ligados também a aspectos como cren- 378 entre dois anos com somente 355 34 dias, perfazendo um ano civil de 445
ças e religiosidade. dias. Ao considerarmos a média a cada dias, o maior de todos os tempos. Esse
quatro anos, constatamos que ela é de ficou bastante conhecido como o Ano
Os calendários mais primitivos 366,25 dias, um dia a mais que o cha- da Confusão.
eram o hebreu e o egípcio. Os dois mado ano trópico.
possuíam um ano composto por exa- A partir do ano 45 a.C., foi adotado
tos 360 dias. Segundo alguns histo- Tais intercalações do mês Merce- o calendário solar ou calendário Julia-
riadores, por volta do ano 5.000 a.C., donius, contudo, começaram a ocorrer no. Ele se desenvolveu por meio de um
após várias reformas, os egípcios es- segundo os interesses políticos. Geral- sistema que deveria se desenrolar por
tabeleceram um ano civil de 365 dias, mente, os pontífices aumentavam ou ciclos de quatro anos, com três perío-
sem variação. O atraso aproximado de diminuíam o ano de acordo com as suas dos comuns de 365 dias e um bissex-
seis horas por ano com relação ao ano simpatias com quem detinha o poder to de 366 dias. O ano bissexto tinha o
trópico fez com que, de modo lento, naquele momento. Essa situação trouxe objetivo de compensar as quase seis
as estações egípcias atrasassem. Já a tanta confusão que chegou ao ponto de horas de diferença para o ano trópico.
introdução do primeiro calendário ro- o início do ano estar adiantado quase Mercedonius foi retirado e Februarius
mano é atribuída ao lendário funda- três meses em relação ao ciclo das es- realocado como o segundo mês do ano.
dor da cidade, Rômulo. A construção tações climáticas. Como uma homenagem a Júlio César, o
mês Quintilis passou a se chamar Julius.

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CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

POLÍTICA

Apesar de o período imperial ter marcado

definitivamente Roma como uma gigantes-

O calendário só chegou ao formato ca potência, boa parte de sua história foi
que conhecemos hoje na época do
escrita sob o regime republicano. Do século
imperador César Augusto
VI a.C. até o ano 27 a.C., esse foi o sistema
CALENDÁRIO
DE AUGUSTO político utilizado como forma de adminis-

O calendário romano só chegaria ao tração. A expressão latina res publica sig-
formato usado ainda nos dia de hoje no
ano 730 de Roma. Naquela ocasião, o Shutterstocknifica “coisa pública”. Assim, ao menos na
senado definiu, através de decreto, que Shutterstock
Sextilis fosse chamado de Augustus, já teoria, tratava-se de um modo de governo
que foi durante esse mês que o então
imperador César Augusto colocou fim à ligado ao povo. Mas não a toda a população
guerra civil que assolava a população
romana. Para que o mês de Augustus romana. Quem detinha o poder nessa época eram
não tivesse menos dias que o de Julius
(dedicado a Júlio César), o oitavo mês os patrícios.
do ano passou a ter 31 dias. O dia em
questão foi tirado do mês de Febru- O senado de Roma, aliás, era formado por 300
arius, que ficou com 28 dias em anos
comuns e 29 nos bissextos. patrícios e tinha como uma de suas funções eleger

A alteração gerou outras mudanças. um cônsul para governar a República por um pe-
Para que não houvesse diversos meses
na sequência com 31 dias, September ríodo determinado. Havia, abaixo dos senadores,
e November foram diminuídos para 30
dias. Assim, October e December ga- as magistraturas, por meio das quais os magistra-
nharam mais um dia e ficaram com 31.
Mesmo sem muita lógica, essa distri- dos exerciam diversas funções públicas. Ocorriam
buição dos dias e meses continua ainda
hoje. O nome de cada mês foi apenas também as assembleias ou comícios. Eram três Busto de senador
transcrito para os respectivos idiomas. tipos: Curiata, Tribucínia e Centuriata. Essa últi- romano: legislativo
ma tinha maior importância, pois agregava os da Roma Antiga
soldados, sendo um poder político dos militares. era composto por
300 patrícios
As diferentes divisões e funções talvez tenham

sido os maiores legados romanos para a política contemporânea. Um espaço terri-

torial tão grande não poderia ser gerenciado por poucos e as diversas estratégias

traçadas ao longo dos séculos – inclusive no período de Império – foram de funda-

mental importância para a manutenção da governabilidade.

Além disso, a época da República assistiu à luta das classes entre os menos

favorecidos e os detentores do poder. O sistema daquele período possibilitou uma

abertura para que os mais simples tivessem sua representação na política. Apesar

das falhas na execução do sistema republicano, foi o momento em que o povo teve

um pouco mais de voz ativa.

ECONOMIA DIREITO

Alguns dos pilares da economia roma- Os governantes de Roma precisaram criar
na no período imperial eram a indústria alguns mecanismos para manter o imen-
artesanal e a mineração. As conquistas so Império dentro de certa ordem duran-
de outras terras ao seu redor fizeram te os seguidos séculos. Para tanto, foram
com que Roma desse grande salto de desenvolvidas leis que deram origem,
uma economia agrária para uma mer- posteriormente, aos códigos jurídicos.
cantil, ou seja, o comércio como siste- Nasceu, dessa forma, o direito romano,
ma soberano na área econômica. que foi utilizado como base pelas socie-
dades futuras do lado ocidental. Óbvio
Esse modelo foi amplamente difun- que tais normas e regulamentações so-
dido ao redor do planeta e hoje muitos freram diversas adaptações e também
países tem no comércio uma considerá- alterações no decorrer dos anos.
vel fonte de rendimentos. Além disso,
Roma instituiu o pagamento obrigató- O direito romano foi dividido, basi-
rio de impostos como forma de susten- camente, em três categorias distintas:
to da máquina pública.
direito público (leis voltadas aos cida- »»

127

CAPÍTULO 13 • LEGADO

dãos); direito privado (leis para as fa- Andrii Lutsyk/ Shutterstock.com Estátua de Justiniano:
mílias); e direito estrangeiro. O código formação do direito
civil, bastante comum em nações do FASES DO DIREITO
Ocidente nos dias de hoje, surgiu a par- ROMANO moderno ocorreu na época
tir do direito público. do imperador romano
O desenvolvimento do direito romano
Além disso, várias expressões da no decorrer da história ocorreu em eta- culo IV d.C., após o imperador Dioclecia-
área jurídica usadas atualmente nas pas bem distintas. Com isso, o processo no. Esse regime continuou até a morte
legislações de muitos países foram jurídico passou por um constante aper- do imperador Justiniano, no século VI.
cunhadas no direito romano e, por esse feiçoamento. O primeiro período do di- Foi o momento do direito pós-clássico,
motivo, são grafadas em latim, o idio- reito romano foi o Régio, que começou marcado pela ausência de grandes ju-
ma oficial do Império. Alguns exem- na fundação de Roma e prosseguiu até risconsultos e pela adaptação das leis
plos: habeas corpus, habeas data (ação o século V a.C., já na época do regime em face à nova religião oficial, o cristia-
que assegura acesso do cidadão a in- republicano. Nesse momento, predomi- nismo. Nesse período ocorre a forma-
formações relativas ele mesmo), stric- nava um direito baseado no costume, ção do direito moderno, que começa a
to sensu (senso restrito), juris tantum tendo o direito sagrado diretamente ser codificado a partir do século VI por
(presunção de inocência), vacatio legis ligado ao humano. Justiniano.
(prazo legal que uma lei tem para en-
trar em vigor), entre tantas outras. O período seguinte foi o Republi- UMA OBRA
cano, que vai desde 510 a.C. até o iní- FUNDAMENTAL
O direito em Roma teve início no cio dos tempos imperiais, em 27 a.C.,
período de fundação da cidade (753 com Augusto no comando da grande UMA OBRA, ESPECIFICAMENTE,
a.C.) e estendeu-se até a morte do úl- potência. Nessa etapa prevalecia o jus FOI PREPONDERANTE PARA DAR
timo imperador, Justiniano, em 565 de gentium (direito dos povos) no lugar BASE PARA AQUILO QUE HOJE
nossa era. Nesses mais de oitocentos do jus fas (direito sagrado). Era uma CONHECEMOS COMO DIREITO
anos, o corpo jurídico romano estabele- forma comum a todos os povos do Me- CIVIL MODERNO.
ceu-se como um dos mais importantes diterrâneo. Na mesma época, também O Corpo de Lei Civil, do
sistemas criados. estavam em voga os conceitos “direito imperador Justiniano, organizou
e justiça” e boa fé. as leis existentes na época e
O direito formulou novas normas. Além
romano foi Já o período do Principado foi o do de ser uma verdadeira revolução
utilizado como direito clássico, uma época áurea da jurídica, a compilação é ainda
base pelas jurisprudência, que vai do reinado de um documento importante
sociedades Augusto até o imperador Diocleciano, sobre a vida no Império Romano.
seguintes no fim do século III. Nessa ocasião, ha- O livro é dividido em quatro
via uma participação muito maior dos partes: Código de Justiniano
Shutterstock especialistas do direito – conhecidos (com toda a legislação
como jurisconsultos. romana revisada desde o
século II); Digesto (composto
Por fim, o direito romano viveu o pela jurisprudência romana);
período da Monarquia Absoluta, no sé- Institutos (princípios
fundamentais do direito); e as
Novelas ou Autênticas (as leis
formuladas por Justiniano).

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

ENGENHARIA E Qualidade das estradas romanas
ARQUITETURA permitia a ligação da capital a
diversas províncias do Império
Um dos principais ganhos pro-
porcionados por Roma foi o desen- Shutterstock
volvimento de variadas técnicas ar-
quitetônicas e de engenharia para ARTES histórico, os artistas esculpiam cenas de
a construção de grandes edifícios,
palácios, basílicas, estádios, anfite- Os romanos foram fortemente influen- momentos importantes. Os principais
atros, além de prédios públicos. Os ciados pelos gregos também no campo
romanos demonstraram uma efici- das artes. Entre as mais profundas ca- exemplos são as conhecidas colunas dos
ência tão grande que muitas edi- racterísticas vindas da Grécia que che-
ficações daquela época chegaram garam à Roma estão a reprodução do imperadores Trajano e Adriano.
até os dias de hoje. corpo humano e de elementos da natu-
reza de modo real. Durante a República, o retrato foi o
Os aquedutos, por exemplo,
deixavam a paisagem romana ain- Apesar de ter sido deixado de lado gênero mais cultivado. Ele vinha apre-
da mais atraente. Essas constru- nos idos da Idade Média, o realismo em
ções – espécies de grandes pontes esculturas e pinturas acabou por ser res- sentado em forma de bustos e também
com colunas de pedra e arcos – gatado no período do Renascimento e
eram responsáveis pelo transporte foi preservado por diferentes correntes de estátuas equestres. Na época do
de água às cidades. De tão sólidos e escolas de arte posteriormente.
que eram, alguns ainda se encon- imperador César Augusto, produzia-se
tram em uso, como os aquedutos As primeiras esculturas romanas fo-
de Espanha, construídos nos tem- ram desenvolvidas, na verdade, por gre- imagens apenas até o pescoço. Porém,
pos do imperador Augusto. gos e também orientais que viviam em
Roma. As formosas estátuas de César no século I da era cristã já se fazia pe-
Pode-se dizer ainda que as ci- Augusto e de seus auxiliares chegaram
dades romanas tinham um plano até a época atual. Já a arte do camafeo ças até a metade do peito. Com o tem-
urbanístico perfeito que era estru- – que consistia em ressaltar determina-
turado a partir de um traço de ruas da figura em uma pedra semipreciosa po, o retrato distinguiu-se pelo realis-
retas que se cruzavam de modo usando as veias da pedra e as cores das
perpendicular. Esse modelo urba- diferentes camadas – chegou ao seu ápi- mo sóbrio.
no de Roma se impôs em todos os ce no século I do Império Romano.
locais que abrangiam o Império, Se as estátuas tiveram grande re-
com foros, arcos de triunfo, termas Os relevos pictóricos, por sua vez,
e templos. receberam novos elementos. Eles ga- levância, a pintura romana não deixou
nharam profundidade com a introdução
As estradas eram outra uma de paisagens. Por outro lado, no relevo um legado profundo, ficando mais
especialidade dos romanos. Tais
vias ligavam a capital às inúmeras como uma função decorativa da arqui-
províncias que estavam sob o seu
controle. Elas possibilitavam um tetura. Importante ressaltar que não
rápido transporte de mercadorias e
foram fundamentais no desenvol- são muitos os restos desse tipo de arte
vimento econômico do Império.
que chegaram até o Ocidente. Mesmo
Toda a técnica para o desen-
volvimento dessas edificações foi assim, a pintura foi trabalhada em três
amplamente usada pelas socieda-
des que vieram na sequência. Até superfícies principais: o livro, o muro e
mesmo o estudo da física (aplica-
da à engenharia) avançou. Com a tabela. Os grandes murais surgiram
isso, a influência romana está pre-
sente em prédios, casas e igrejas por meio, principalmente, da decora-
nos dias atuais.
ção de igrejas. Por fim, os mosaicos

tiveram um espaço bastante acentuado

em Roma, tanto na decoração de muros

quanto na pavimentação do chão. »»

129

CAPÍTULO 13 • LEGADO

Exemplo de mosaico romano, usado em
decoração de muros e pavimentação

Shutterstock OUTRAS HERANÇAS

ALÉM DAS GRANDES DISCIPLINAS, OUTROS ITENS ESSENCIAIS DO NOSSO DIA
A DIA FORAM DESENVOLVIDOS PELOS ROMANOS. O PERFUME, POR EXEMPLO,
TEVE O SEU USO POPULARIZADO NA ÉPOCA FINAL A REPÚBLICA, QUANDO
ROMA CONVERTEU-SE EM UMA CIDADE RICA E PRÓSPERA. FOI UM PERÍODO
DE INTENSO CRESCIMENTO DAS ÁREAS DE COSMÉTICO E PERFUMARIA.

Na medicina, os romanos nos deixaram importantes conhecimentos
científicos, apesar de ser, na época, uma espécie de prática bastante
rudimentar. Com o conhecimento adquirido dos gregos, criaram uma escola
médica própria em Roma. No século II, Galeno, um médico de origem grega,
mas que viveu entre os romanos, escreveu inúmeros tratados de medicina
e assentou a base do conhecimento médico com relação às doenças. Se
anteriormente os médicos atribuíam as enfermidades a superstições e crenças
religiosas, Galeno passou a estudar os sintomas do paciente para poder
determinar qual órgão estava sendo afetado. Assim, deduzia a causa da doença
e o possível medicamento. Além disso, os mais renomados doutores romanos
usavam técnicas cirúrgicas mais avançadas para cuidar de feridas de soldados.

ENRIQUECEDORES de Roma está presente em incontáveis disciplinas e o modelo de
organização do Império fica como uma verdadeira lição para nós
Os gregos são muito mais conhecidos pelo gênio intelectual e ainda na atualidade. Sendo assim, não há qualquer dúvida que
criativo na Antiguidade. Contudo, mesmo não alcançando tal ca- nossa sociedade não chegaria ao nível de crescimento e amadu-
pacidade criadora, os romanos conseguiram assimilar, enrique- recimento cultural sem o auxílio dessa importante sociedade que
cer e difundir a herança helênica pelo Ocidente. Dessa forma, a estabeleceu o seu poderio no mundo antigo.
tradição cultural greco-romana nunca se perdeu por completo,
como pode ser verificado no período da Renascença. O legado

753 A.C. 750 A.C. Shutterstock
Surge o primeiro calendário Início do período Régio Shutterstock
romano, atribuído a Rômulo, do direito romano
lendário fundador de Roma

Shutterstock

SÉCULO VI A.C. SÉCULO I A.C. SÉCULO VI A.C.
Instituição da República, sistema político Imperador Augusto Época provável do nascimento
que influenciou o restante do mundo faz últimos ajustes do latim, na região do Lácio,
próximo à cidade de Roma
no calendário SÉCULO IV D.C.
romano, que perdura Direito romano vive o período
da Monarquia Absoluta
até os dias de hoje

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