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Published by ㅤㅤㅤ ㅤㅤ, 2018-03-12 09:39:11

ㅤㅤㅤ ㅤㅤ

educacao-imperio-romano

CAPÍTULO 6 • IMPERADORES

Como contrapartida, precisava permitir dele, apesar das muitas acusações. VESPASIANO,
ser guiado por eles no governo. Nero decidiu, então, colocar a culpa nos O NORMAL
cristãos, que já eram odiados e passa-
Enquanto isso, a mãe de Nero, Agri- ram a ser perseguidos. Segundo conta IMPERADOR ENTRE
pina, buscava recuperar a autoridade a tradição, ele teria mandado crucificar 69 E 79 D.C.
perdida junto ao filho. No entanto, em o apóstolo Pedro e decapitar Paulo de
59, o imperador mandou matá-la. Há Tarso. Em 65, Nero, no auge de sua lou- Tito Flávio Sabino Vespasiano nasceu
quem diga que ela era seu único freio cura, matou Popeia – que estava grávi- no ano 9, na comarca dos Sabinos,
moral. Após o assassinato, Nero tornou- da – com um pontapé no ventre. próximo de Rieti, e morreu em 79. Ele
-se um líder tirânico e, com o passar do acabou sendo proclamado imperador
tempo, ficaria conhecido como um dos A maldade extrema e o desperdí- pelos soldados em Alexandria. Primeiro
mais vergonhosos de Roma. Ele se ca- cio dos recursos públicos fizeram com burguês a ascender a um cargo tão ele-
sou, então, com Popeia Sabina depois que a oposição a ele ganhasse um coro vado e prestigiado, deu início à dinastia
de se divorciar de Otávia, que foi as- cada vez maior. Tais conspirações foram Flaviana.
sassinada logo em seguida também a abafadas por três vezes e os envolvidos
mando dele. eram obrigados a cometer suicídio. Fi- Segundo afirmam historiadores, era
cou paranoico. O pavor de ser morto o muito simples e trabalhador. Colocou
Na mesma época, Sexto Afrânio fa- assombrava. Por conta disso, instalou ordem no exército, pacificou as provín-
leceu e Nero nomeou para o cargo de um regime de terror e tentava se man- cias e continuou com o processo de con-
conselheiro Ofrônio, um sujeito sem es- ter popular doando quantidades enor- quista de Bretanha. Ainda combateu
crúpulos. A decisão do imperador levou mes de trigo. rebelião judaica em 66 e a esmagou
Sêneca a renunciar ao seu posto. violentamente em 70, quando ocorreu
No ano de 66, se casou com Messa- a destruição de Jerusalém pelas mãos
O período foi marcado ainda pela lina e viajou para um passeio de dois do coronel Tito, seu filho.
loucura dele em ser admirado. A paixão anos pelas ilhas gregas, um desejo
inflamada de Nero pela arte dramáti- muito antigo. No fim da viagem, Nero Ele também foi bastante eficaz na
ca e pelos espetáculos o levou a atu- libertou a Grécia do domínio romano e administração econômica, tanto na
ar como poeta e músico. O desejo de a tornou um estado independente. capital quanto nas províncias. Isso foi
ser famoso pelos mais variados feitos possível graças, sobretudo, ao aumento
também o impulsionou a participar de Contudo, no retorno à capital do do tributo anual e à sensível diminui-
corridas de biga, talvez o principal en- Império, se deparou com uma situação ção nos gastos públicos. A boa saúde fi-
tretenimento do Império. caótica. Ocorriam naquele momento nanceira do Império garantiu, inclusive,
rebeliões nas mais importantes pro- a arrecadação de fundos para a edifica-
O incêndio que destruiu parte de víncias de Roma, como Gália, Germâ- ção do Templo da Paz – dedicado a Júpi-
Roma em 64 não teria sido a mando nia, África, Lusitânia, Síria e Egito. Nero ter Capitolino – e também do Coliseu de
também foi traído por Ofrônio e deixou Roma. Morreu de causas naturais.
de ter a adesão da Guarda Pretoriana.
Inimigo principal do Senado, Nero teve
como única alternativa fugir e se matar.
O suicídio aos 30 anos de idade acabou
com a dinastia Júlio-Claudiana.
Shutterstock
Shutterstock
O filósofo
Sêneca foi o RESSUSCITOU?
grande tutor
de Nero MESMO DEPOIS DE MORRER,
NERO CONTINUOU TENDO UM
CONCEITO BASTANTE ELEVADO Moeda com
ENTRE OS ROMANOS POBRES. a face de

Tanto é verdade que, por três Vespasiano,
vezes, muitos deles acreditaram responsável por
que ele havia reaparecido no
Oriente, o que ajudou a alimentar colocar Roma
a lenda do “Nero redivivo”. em ordem

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Arco de Tito foi construído para celebrar Mesmo com a tragédia, a popula-
a vitória na província da Judeia ridade dele não diminuiu. Até os dias
de hoje, pode-se observar pelo centro
histórico de Roma obras em sua ho- RELAÇÃO DE
menagem. A mais famosa é o Arco de IMPERADORES DESDE
Tito, peça de 15 metros de altura feita O INÍCIO DO IMPÉRIO
de mármore que celebra justamente a ROMANO, EM
vitória na Judeia. Foram esculpidos na 27 A.C., ATÉ A QUEDA
abóbada a mesa do pão ázimo, trom- DO IMPÉRIO DO
betas de prata e o candelabro de sete OCIDENTE, EM 476 D.C.
braços, símbolos do judaísmo.
Shutterstock DINASTIA JÚLIO-CLAUDIANA
ShutterstockAugusto (27 A.C. - 14 D.C.)
A TIRANIA DE Tibério (14-37)
BREVE REINADO DOMICIANO Calígula (37-41)
DE TITO Cláudio (41-54)
IMPERADOR ENTRE Nero (54-68)
IMPERADOR ENTRE 81 E 96 D.C.
79 E 81 D.C. ANO DOS QUATRO
Tito Flávio Domiciano nasceu em 24 de IMPERADORES
Tito Flávio Vespasiano Augusto nasceu outubro de 51. Foi designado impera- Galba (68-69)
em 30 de dezembro de 39, em Roma. dor depois da morte do irmão mais ve- Otão (69)
Era filho mais velho e sucessor de Ves- lho, Tito, em 81. Há quem diga que o Vitélio (69)
pasiano. Deixou o trono justamente por falecimento do irmão foi causado jus- Vespasiano (69)
falecimento em 13 de setembro de 81. tamente por ele. Teria também execu-
É mais lembrado como o general que – tado friamente um primo durante seu DINASTIA
durante o reinado de Vespasiano – com- governo. FLAVIANA
bateu rebelião na província da Judeia Vespasiano (69-79)
(no ano de 66) e destruiu Jerusalém Os abusos tiveram início, no en- Tito (79-81)
(ano 70). tanto, quando seu pai Vespasiano ain- Domiciano (81-96)
da era imperador. Domiciano forçou
Durante o reinado dele ocorreu a Domícia Longina, legítima esposa de DINASTIA DOS ANTONINOS
famosa erupção do Vesúvio, que en- Elius Lamia, a se divorciar para casar Nerva (96-98)
goliu Pompeia, Herculano e Stabia em com ele. Como imperador, limitou os Trajano (98-117)
agosto de 79. Somente em Pompeia, poderes dos senadores, tomando para Adriano (117-138)
foram 16 mil mortos, cerca de 80% da si a responsabilidade de designar go- Antonino Pio (138-161)
população da cidade. vernadores para as províncias, e criou Lúcio Vero (161-169)
o Conselho do Príncipe, que suplantou Marco Aurélio (161-180)
o Senado. Além disso, acumulou os Cômodo (177-192)

DINHEIRO NÃO TEM CHEIRO! »»Shutterstock

A FRASE PECUNIA NON OLET (DINHEIRO NÃO TEM CHEIRO) FOI DITA 53
POR VESPASIANO NA ÉPOCA DO IMPOSTO SOBRE URINA COBRADO POR
ELE E TAMBÉM PELO ANTECESSOR NERO. OS INTEGRANTES DAS CLASSES
MAIS POBRES DA SOCIEDADE DE ROMA URINAVAM EM POTES QUE ERAM
ESVAZIADOS EM FOSSAS PÚBLICAS.
A urina era recolhida e servia como uma valiosa matéria-prima para variados
processos químicos. Era usada, por exemplo, para curtimento de couro, como
fonte de amoníaco para limpar lã e ainda como clareador de dentes.
Quando Tito, filho de Vespasiano, reclamou da natureza repugnante do
imposto, o seu pai lhe mostrou uma moeda de ouro e fez a famosa afirmação:
“Dinheiro não tem cheiro”. Muitos, ainda hoje, utilizam essa expressão para
demonstrar que o valor do dinheiro não está contaminado por suas origens.

CAPÍTULO 6 • IMPERADORES

títulos de cônsul e de censor perpé- miciano foi muito pressionado e buscou vítima de uma conspiração em 18 de
tuo. Não bastasse, empenhou-se na garantir sua permanência no poder tor- setembro de 96. Teriam integrado o le-
reconstrução de monumentos, onde nando-se sanguinário e cruel. Adversá- vante contra ele alguns de seus amigos
mandava gravar o seu nome sem nem rios eram torturados e mortos sumaria- e sua própria mulher, Domitia Longina.
mesmo mencionar a alcunha do fun- mente. Com o passar dos anos, passou Após o assassinato, o Senado, horrori-
dador. Chegou também a proibir que também a exigir ser tratado como um zado com aquela figura nefasta, decide
erguessem estátuas dele no Capitólio deus. Nessa época, deu início à segun- declará-lo maldito e apaga seu nome
que não fossem de ouro ou de prata. da perseguição de cristãos. dos monumentos romanos.

Dono de um caráter reprovável, Do- Diante de tanta tirania, foi morto

Trajano ficou TRAJANO: ADMINISTRADOR NATO
conhecido pela
IMPERADOR ENTRE 98 E 117 D.C.
competência
militar e Marco Úlpio Nerva Trajano nasceu em 18 de setembro de 53 na Hispânia. Era filho
de uma família nobre e teve formação militar. Com 38 anos foi nomeado cônsul
administrativa e adotado pelo imperador Nerva como o seu sucessor. As vitórias alcançadas em
campanhas foram seu passaporte para angariar tanto prestígio.
Shutterstock
Quando Nerva faleceu, Trajano recebeu apoio do Senado e demonstrou, com
o tempo, ser um excelente administrador. Reorganizou o Império, recuperando a
agricultura e o comércio e, mesmo diminuindo a carga tributária, promoveu obras
importantes para os romanos. Liderou ainda conquistas territoriais que levaram
Roma à sua extensão máxima na história.

A parte final de seu reinado foi marcada pelas guerras. Justamente retornando
de uma batalha próxima do Mar Negro, Trajano faleceu, provavelmente de ataque
cardíaco, no dia 8 de agosto de 117.

Shutterstock COLUNA DE ADRIANO,
TRAJANO UM AMANTE
DAS ARTES
EM SUAS CAMPANHAS
EXPANSIONISTAS, TRAJANO IMPERADOR ENTRE
AVANÇOU SOBRE O DÁCIOS, 117 E 138 D.C.
QUE VIVIAM EM UMA TERRA
RICA EM OURO E PRATA – Nascido no ano de 76 em Itálica (atual
ONDE ATUALMENTE ESTÃO Espanha), Adriano governou entre os
ROMÊNIA E HUNGRIA. anos de 117 e 138. Era sobrinho de Tra-
A conquista territorial ocorreu jano, que foi também seu grande tutor.
depois de duas grandes Ficou conhecido como um administra-
guerras entre os anos de 101 dor muito hábil, além de um viajante
e 105. A campanha militar é incansável. Andou por todo o Império
documentada no monumento Romano para avaliar a situação das
chamado de Coluna de províncias e garantir as adequações e
Trajano, que até hoje pode ser reformulações que precisavam.
encontrado no centro de Roma.
A coluna de pedra, levantada Ele ainda implementou uma pro-
em 113, diante do Fórum de funda reforma na administração e, no
Roma, está repleta de imagens ano de 131, editou um código de leis
do combate em baixo-relevo para ser aplicado em todo o Império, o
que sobem em espiral por todo Edito Perpétuo. Trata-se de uma com-
o monumento. A coluna tem 30 pilação judicial que regeu Roma até o
metros de altura e mais de três tempo de Justiniano.
metros e meio de diâmetro.

54

Adriano abandonou as campanhas de Traja- Shutterstock GOVERNO PRETORIANO
no na Mesopotâmia e adotou uma política de-
fensiva, fortificando as fronteiras do Império Ro- Adriano era Pertinax (193)
mano. Em solo inglês, mandou edificar em 112 imperador Dídio Juliano (193)
o Muro de Adriano, que marcou durante séculos e poeta
a fronteira entre a Inglaterra e a Escócia para DINASTIA DOS SEVEROS
defendê-la dos povos do norte. Shutterstock
Septímio Severo (193-211)
Mas o governo não foi a sua maior paixão. Shutterstock Geta (209-211)
Ele gostava era mesmo das letras e das artes em Caracala (211-217)
geral. Em seu leito de morte, produziu o poema
Anímula, que significa pequena alma: DINASTIA MACRINA

Pequena alma terna flutuante, Macrino (217-218)
Companheira e hóspede do corpo Diadumeniano (217-218)
Agora se prepara para descer a lugares
Pálidos, árduos, nus DINASTIA (RESTAURADA)
Onde não terás mais os devaneios costumeiros DOS SEVEROS

Adriano ainda inspirou-se na cultura grega Heliogábalo (218-222)
para deixar Roma mais bonita. O império en- Alexandre Severo (222-235)
cheu-se de monumentos: ele mandou construir
a Vila de Adriano, a ponte de Sant’Ângelo e o CRISE DO TERCEIRO SÉCULO
castelo de mesmo nome, seu mausoléu.
Maximino Trácio (235-238)
Shutterstock PRINCÍPIO DA Gordiano I (238) Shutterstock
PRESUNÇÃO DE Gordiano II (238)
Antonino ficou INOCÊNCIA Pupieno (238)
conhecido como Balbino (238)
MUITO JUSTO, ANTONINO PIO Gordiano III (238-244)
um sujeito REUNIU, DURANTE SEU MANDATO, Filipe, o Árabe (244-249)
desapegado UMA EQUIPE DE ESPECIALISTAS Décio (249-251)
EM LEIS QUE O AUXILIARAM Herénio Etrusco (251)
do poder NO TRABALHO DE REVISÃO DA Hostiliano (251)
LEGISLAÇÃO ROMANA. Treboniano Galo (251-253)
Volusiano (251-253)
Ainda hoje lhe é creditado o Emiliano (253)
princípio de que todo o homem Valeriano I (253-260)
deve ser considerado inocente Galiano (253-268)
até que seja provado o contrário. Salonino (260)

ANTONINO PIO, O SERENO IMPERADORES ILÍRIOS »»

IMPERADOR ENTRE 138 E 161 D.C. Cláudio II (268-270)
Quintilo (270)
Imperador romano entre 138 e 161, Antonino Pio contrasta com muitas das amar- Aureliano (270-275)
gas figuras que comandaram o Império. Ele nasceu em Lanúvio, em 86, e vinha da Tácito (275-276)
burguesia tradicional de Lácio. Era um homem que nutria respeito pelas pessoas e Floriano (276)
divindades. Chegou a ser chamado de Imperador perfeito pela doçura, ar sereno e Próbo (276-282)
desapego pela glória. Além de tudo, aceitava de bom grado um conselho amigo. Caro (282-283)
Carino (283-285)
Diferente da maioria dos imperadores romanos, Antonino amava muito a sua Numeriano
mulher. Um dos mais bem preservados monumentos do Fórum, em Roma, é o Tem- (283-284)
plo de Antonino e Faustina, que foi construído em 141 a.C. em honra à sua esposa.
O local foi depois dedicado ao imperador na data de sua morte, em 161. Shutterstock

CAPÍTULO 6 • IMPERADORES

O FILÓSOFO Shutterstock AS LOUCURAS
MARCO AURÉLIO DE CÔMODO
Marco Aurélio foi influenciado
IMPERADOR ENTRE pelo estoicismo de Zenão IMPERADOR ENTRE
161 E 180 D.C. 177 E 192 D.C.
assim o terceiro e último expoente
Nascido em 26 de abril de 121, em do estoicismo romano. O conteúdo de Cômodo pode ser definido como um
Roma, Marco Aurélio Antonino era de suas Meditações é marcado por essa menino mimado. O filho de Marco Au-
uma família de aristocratas, mas, quan- filosofia, mas um estoicismo distante rélio e Faustina nasceu em 31 de agos-
do criança, perdeu os pais. Foi adotado das doutrinas de Zenão, fundador des- to de 161. Foi feito César por seu pai
pelo tio Aurélio Antonino – que mais ta linha de pensamento. As especula- com somente cinco anos de idade e,
tarde seria imperador. Pouco tempo ções físicas e lógicas cedem lugar ao aos 16, tornou-se Augusto. Participou
depois, foi nomeado o seu sucessor. caráter prático dos romanos e ao acon- nas guerras do Danúbio por dois anos
selhamento moral. junto com o pai. Virou único imperador
Com 11 anos, conheceu as ideias com a morte de Marco Aurélio em 180.
do estoicismo – doutrina que coloca a
extirpação das paixões e a aceitação A realidade é que Cômodo não es-
resignada do destino como marcas do tava nem um pouco interessado nos
homem sábio. Dedicou-se ao estudo da assuntos ligados ao governo nem ao
filosofia e um pouco de retórica. Forma- Império. Sua vida era uma eterna festa,
do, ocupou o cargo de cônsul por três com um harém de 300 mulheres e 300
vezes. Após a morte de Antonino, vira homens. Por conta de sua falta de com-
imperador junto com Lúcio Vero. Quan- prometimento, teve ao menos o bom
do este morre, em 169, torna-se o úni- senso de escolher indivíduos capazes
co dono do trono. para a administração das províncias.

O governo de Marco Aurélio foi
marcado por guerras prolongadas e por
uma série de dificuldades internas. Ele
foi excelente guerreiro e administrador
e, ao mesmo tempo, humanizou ao ex-
tremo o exercício do poder.

Quando possível, entregava-se à
reflexão filosófica e escrevia seus pen-
samentos em língua grega. Tornou-se

MEDITAÇÃO DE MARCO AURÉLIO Viacheslav Lopatin/ Shutterstock

EM SEU TRABALHO MEDITAÇÕES, MARCO AURÉLIO TRAZ REFLEXÕES QUE Cômodo levava
INSPIRARAM INÚMEROS PERSONAGENS NA HISTÓRIA. ABAIXO, UM DOS uma vida
PENSAMENTOS DO IMPERADOR E FILÓSOFO ROMANO. totalmente
desregrada
“Lembra-te sempre de todos os médicos, já mortos, que franziam as
sobrancelhas perante os males dos seus doentes; de todos os astrólogos que
tão solenemente prediziam o fim dos seus clientes; dos filósofos que discorriam
incessantemente sobre a morte e a imortalidade; dos grandes chefes que
chacinavam aos milhares; dos déspotas que brandiam poderes sobre a vida e a
morte com uma terrível arrogância, como se eles próprios fossem deuses que
nunca pudessem morrer; de cidades inteiras que morreram completamente,
Hélice, Pompeia, Herculano e inúmeras outras. Depois, recorda um a um todos
os teus conhecidos; como um enterrou o outro, para depois ser deposto e
enterrado por um terceiro, e tudo num tão curto espaço de tempo. Repara, em
resumo, como toda a vida mortal é transitória e trivial; ontem, uma gota de
sémen, amanhã uma mão cheia de sal e cinzas. Passa, pois, estes momentos
fugazes na terra como a natureza te manda que passes e depois vai descansar
de bom grado, como uma azeitona que cai na estação certa, com uma bênção
para a terra que a criou e uma ação de graças para a árvore que lhe deu a vida”.

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Shutterstock

Era um sujeito bastante singular. Ao contrário de seu pai, apreciava muito as TETRARQUIA E DINASTIA
lutas e chegou a participar, inclusive, dos embates dos gladiadores. Contudo, dife- CONSTANTINIANA
rentemente do que acontecia nas disputas comuns, o imperador não corria perigo:
os adversários sempre o deixavam vencer e depois tinham a vida poupada. Como Diocleciano (284-305)
maluquice pouca é bobagem, Cômodo acreditava ser o semideus Hércules e exigia Maximiano (286-305)
que todos o adorassem. Constâncio Cloro (305-306)
Galério (305-311)
Mandou assassinar sua irmã Lucila e senadores que conspiravam contra ele. Severo II (306-307)
Porém, seus desmandos tiveram um fim. Ele foi estrangulado por um de seus alia- Maxêncio (306-312)
dos durante o banho. No governo de Septímio Severo, Cômodo acabou divinizado. Constantino I, o Grande
(307-337)
ALEXANDRE, CARACALA: Licínio (308-324)
O GRANDE MAIS UM INSANO Maximino Daia (310-313)
NO PODER Valério Valente (316-317)
O IMPERADOR CARACALA Martiniano (324)
ERA CONSIDERADO UM IMPERADOR ENTRE Constantino II (337-340)
ADMIRADOR FANÁTICO DE 211 E 217 D.C. Constâncio II (337-361)
ALEXANDRE, O GRANDE. Constante (337-350)
Assim, sem qualquer Nasceu em 4 de abril de 188 na atual Lyon, Juliano (361-363)
cerimônia, começou a usar França. Era filho do imperador Septímio Se- Joviano (363-364)
as mesmas roupas e a se vero e Júlia Domma. Governou Roma por
comportar como ele. seis anos. Seus feitos administrativos fica- DINASTIA VALENTINIANA
ram bem menos conhecidos do que suas
Alexandre o atitudes insanas. Valentiniano I (364-375)
Grande em seu Valente (364-378)
cavalo, Bucéfalo Logo depois que deixou a adolescên- Graciano (367-383)
cia, a instabilidade psicológica dele gerava Valentiniano II (375-392)
muita preocupação de todos que o rodea- Magno Máximo (383-388)
vam. Conta-se que, certo dia, tentou esfa-
quear o próprio pai pelas costas diante de CASA DE TEODÓSIO
todo o exército romano. Também detestava
a esposa e condenou-a ao exílio antes de Teodósio I (379-395)
mandar matá-la. Arcádio (383-395)
Honório (393-395)
HELIOGÁBALO Shutterstock
Shutterstock Santo
IMPERADOR ENTRE Ambrósio e
218 E 222 D.C. Everett-Art/ Shutterstocko Imperador

Heliogábalo era outro que tinha Teodósio
um comportamento muito excên-
trico. Para se ter uma ideia, ele se IMPÉRIO DO OCIDENTE
castrou publicamente em nome de
um culto religioso. Em outro episó- Honório (395-423)
dio, tentou impor aos romanos a Prisco Átalo (409-410)
adoração de um deus estrangeiro. Constâncio III (421)
Valentiniano III (425-455)
Imperador Heliogábalo Petrónio Máximo (455)
castrou-se por causa de Avito (455-456)
Majoriano (457-461)
um culto religioso Líbio Severo (461-465)
Antêmio (467-472)
Olíbrio (472)
Glicério (473-474)
Júlio Nepos (474-480)
Rômulo Augusto (475-476)

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CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

PÃO E CIRCO: Shutterstock
SOLUÇÃO PARA
UM IMPÉRIO ONDE SURGIRAM
DESIGUAL OS PROBLEMAS

NEM MESMO A IMPONÊNCIA DE SUAS A expansão territorial do Império, ain-
CONSTRUÇÕES E AS VITÓRIAS MILITARES da na época republicana, foi primor-
CONSEGUIRAM ESCONDER AS DIFERENÇAS dial para as profundas transformações
SOCIAIS PRESENTES NA ROMA ANTIGA; sociais em Roma. Logo de cara, a eco-
IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICA POPULISTA FOI nomia, que tinha um aspecto agropas-
UMA FORMA DE ABAFAR OS PROBLEMAS toril, passou a disputar espaço com um
sistema de comércio muito bem articu-
A capital do Império Romano, fundada no século VIII a.C., é lado entre as diversas regiões localiza-
considerada uma das cidades pioneiras no Ocidente quando o das nas proximidades do Mediterrâneo.
assunto é organização. Essa sociedade teve como base a civilização
da Grécia Antiga. Assim, Roma conseguiu fortalecer os costumes, O aumento no número de escra-
aperfeiçoar os seus sistemas político e também religioso, além de vos disponíveis para o trabalho gerou
estruturar o comércio e a área habitacional como um todo. Tratava- também uma elevação da oferta de ali-
-se de um bom exemplo de gestão eficiente, uma vez que era o
centro desse imenso Império – o domínio ia desde a Península Ibé-
rica até o Egito e a Síria.

Contudo, além de trazerem enriquecimento, as conquistas também fize-
ram com que os problemas sociais aflorassem intensamente a partir do século
II a.C. Durante o seu auge, a cidade de Roma ficou próxima da marca de dois
milhões de habitantes. Esse enorme grupo de moradores era formado por
homens e mulheres de classes sociais bem distintas. Havia uma parcela de
camponeses que perderam os seus trabalhos nas lavouras por conta da escra-
vidão, além de artistas de rua, artesãos, membros da plebe, integrantes da
nobreza e ainda políticos.

Dessa maneira, as diferenças poderiam ser verificadas com facilidade
mesmo pelo mais alienado forasteiro. Aqueles que compunham a elite eram
donos de vistosas residências e palácios requintados. Já o restante da popula-
ção – a imensa maioria – se apertava em prédios de vários andares com apar-
tamentos pequenos sem cozinha e banheiro. Parecia somente uma questão
de tempo para problemas urbanos maiores começarem a aparecer.

58

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Ilustração de Roma
Antiga, cidade que
se tornou exemplo

de organização

mentos. Enquanto isso, os magistrados igualdade com os preços dos alimentos construção de pontes e estradas. O ple-
e generais se beneficiavam por meio oferecidos pelos astutos patrícios. Além no controle sobre essas atividades foi
da administração e arrecadação de tri- disso, os plebeus perderam oportunida- reforçado quando os senadores e seus
butos nas províncias da nova potência. de de trabalho por conta da utilização descendentes acabaram sendo proibi-
Paralelamente, o controle dos patrícios dos escravos nas lavouras e pastos. dos de exercer qualquer atividade que
sobre o Senado fez com que essa classe não fosse agrícola.
enriquecesse ainda mais com o alarga- Já os outros plebeus que faziam
mento das propriedades e o grande uso parte das longas fileiras do exército de Por sua vez, aqueles plebeus que
da mão de obra escrava. Roma passaram a se beneficiar com a não conseguiam enriquecer foram obri-
conquista de terra e servos. Esses inte- gados a se desfazer de suas terras ven-
Se, por um lado, havia uma incrí- grantes da classe plebeia, conhecidos dendo para algum grande proprietário.
vel e crescente produção de riquezas, como cavaleiros, ganharam conside- Sem alternativa, iam para a cidade. Lá
por outro, esse novo cenário trouxe ráveis quantias de dinheiro através da chegando, enfrentavam outro grande
imensos prejuízos aos pequenos pro- cobrança de tributos, distribuição de problema: a falta de vagas de empre-
prietários de terras, pois esses não alimentos aos exércitos, arrendamen- go. O fácil acesso à força de trabalho
conseguiam mais competir em pé de to de áreas florestais e minas, além da
escravo estreitava as oportunidades. »»

59

CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

Aqueduto em Roma Shutterstock
mostra um pouco
da infraestrutura to dos dejetos das casas – elaboradas mente o risco de propagação de sérias
do Império Romano exclusivamente nas localidades mais doenças por contaminação.
nobres da capital.
ESGOTO E SAÚDE Os funcionários públicos tentavam
Essa situação impunha uma dificul- garantir que esses resíduos fossem des-
Inúmeras obras de infraestrutura na dade extra: sem um sistema adequa- cartados fora das áreas residenciais da
Roma Antiga eram invejáveis naquela do, o restante da população romana cidade, mas eram em um número mui-
época. A arquitetura e a engenharia era simplesmente obrigado a lançar os to limitado para impor essa regra com
foram vastamente utilizadas na região excrementos pelas janelas dos aparta- eficiência. Durante o governo de Au-
para levar serviços públicos de qualida- mentos. Algumas outras pessoas des- gusto (27 a.C. – 14 d.C.), os residentes
de à capital. Aquedutos que impressio- ciam com os baldes até a rua para que em Roma geravam, aproximadamente,
navam pela engenhosidade, estádios fossem esvaziados por pessoas que sessenta toneladas de resíduo humano
– caso do famoso Coliseu – e jardins ganhavam a vida coletando os deje- por dia. Escavações arqueológicas mos-
especiais eram algumas das especiali- tos para vender a agricultores, que os traram a existência, no Monte Esquilino,
dades do povo romano. usavam como fertilizantes. Não era só de centenas de poços profundos reple-
o cheiro horrível pelas ruas que trazia tos de uma mistura em decomposição
O grande problema, porém, é que extremo incômodo, uma vez que a de cadáveres, carcaças de animais e es-
a maioria absoluta dessas intervenções prática também elevava consideravel- goto de todo tipo não muito longe do
trazia benefícios somente aos mais centro da cidade. Essa área estava de-
abastados. Um exemplo claro disso marcada com avisos como: “Caio Séntio,
eram as redes de esgoto – que foram filho de Caio, como pretor e por ordem
construídas para garantir o destino cer- do Senado, estabeleceu essa linha de
pedras de delimitação para marcar a
área que deve ser mantida livre de su-
jeira, carcaças de animais e cadáveres.
Também é estritamente proibido quei-
mar cadáveres aqui”.

Com o problema sanitário, cada vez
mais gente ficava enferma. A impossi-
bilidade de manter a cidade limpa sig-
nificava que moscas estavam presentes
em quase todos os lugares e que as
pessoas tinham problemas intestinais
frequentes causados por comida e água
contaminadas. Para piorar, não havia
tratamento médico adequado. Como

Antiga latrina coletiva em BANHEIROS PÚBLICOS
Éfeso, na Turquia: Roma
expandiu o costume EM ROMA, NO INÍCIO DO PERÍODO CRISTÃO, ERA BASTANTE
COMUM O CIDADÃO FAZER SUAS NECESSIDADES FISIOLÓGICAS
Shutterstock EM CONSTRUÇÕES COMUNITÁRIAS ANEXAS A TERMAS. COM A
EXPANSÃO DO IMPÉRIO, O CONCEITO DE BANHEIRO PÚBLICO
CHEGOU A OUTRAS LOCALIDADES DO MUNDO.
O curioso é que, com o tempo, essas latrinas coletivas tornaram-se
locais de debates, encontros cívicos e até banquetes. Embaixo das
grandes bancadas de pedra geralmente corria um canal de água corrente,
aproveitado para levar os dejetos lançados até rios mais afastados.
Uma informação importante: nessa época não existia papel higiênico.
Assim, os usuários dos banheiros públicos se limpavam com aquilo que
havia por perto, como grama, água ou areia. A partir do século V, com
a diminuição da influência romana, essas construções deixaram de ser
utilizadas com a mesma frequência de antes.

60

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Paisagem atual de Roma: construções Gravura mostra
onde os pobres viviam eram precárias artistas de rua
se apresentando
nas ruas de
Roma Antiga

Shutterstock Shutterstock

só os mais ricos tinham algum ampa- AGLOMERADOS engenharia. Essa situação fez o impera-
ro medicinal, muitas pessoas simples-
mente padeciam sem qualquer pers- A infraestrutura na cidade de Roma dor César Augusto limitar em 21 metros
pectiva de serem curadas. não crescia na mesma velocidade que
a população urbana. Uma quantidade a altura dos prédios de apartamento.
Vale ressaltar que mesmo os nobres cada vez maior de edifícios era cons-
corriam riscos, pois a medicina ainda truída para dar conta de tanta gente Os edifícios dos mais pobres tam-
engatinhava. Em geral, os tratamentos que chegava para se instalar na capital.
romanos empregavam ervas medici- Porém, essa medida estava longe de bém estavam suscetíveis a inundações,
nais, cuja forma curativa os pais revela- ser suficiente para sanar as principais
vam aos filhos como tradição, passando dificuldades. As ruas começaram a ficar uma vez que ficavam em áreas baixas.
a herança de geração em geração. Aos superlotadas. As vias eram o local de
remédios feitos em casa ajuntavam um trabalho de diferentes profissionais: co- Já as colinas ensolaradas abrigavam as
pouco de feitiçaria. Sobre o doente eram merciantes e trabalhadores se aglome-
impostas fórmulas místicas e, muitas ravam em espaços sufocantes. Diversos suntuosas residências dos ricos.
vezes, extravagantes. Acreditava-se, por vendedores ambulantes faziam das vias
exemplo, na possibilidade de expulsão públicas o único balcão de exposição de A situação caótica gerou um descon-
da enfermidade. Para se ter uma ideia, suas mercadorias. Outros que disputa-
os mais ricos da época utilizavam uma vam os espaços públicos eram os sal- forto muito grande entre os populares.
joia popular que, de acordo com a cren- timbancos (atores que se apresentavam
ça, evitava dores de estômago. nas ruas) e os adestradores de animais. Diante do assustador cenário urbano, os
As carruagens e liteiras – cadeiras uti-
CADÁVERES lizadas para transportar os ricos – divi- plebeus passaram a pensar que pode-
PELA RUA diam espaço com toda essa gente e o
trânsito era intenso demais. riam fazer reivindicações contundentes
SEGUNDO O HISTORIADOR
THOMAS R. MARTIN, NA Além disso, os prédios da cidade para obterem melhorias e condições de
ROMA ANTIGA, AS PESSOAS corriam sérios riscos de cair. Apesar do
DEIXAVAM CADÁVERES conhecimento no uso de pedra, concre- vida mais dignas. Assim, deram início
HUMANOS NO MEIO DA RUA to e tijolo, os engenheiros romanos não
PARA QUE FOSSEM COMIDOS possuíam tecnologia suficiente para a algumas revoltas. As manifestações,
POR ABUTRES E CÃES. calcular precisamente quanta tensão
A tradição conta que, certa vez, as edificações conseguiam aguentar. entretanto, eram enfrentadas com vio-
um cão vira-lata trouxe a mão Outro problema era que os construtores
de um homem à mesa onde buscavam, de todas as maneiras possí- lência pelo exército romano e foram ra-
o então imperador Vespasiano veis, diminuir os gastos sem levar em
estava almoçando. consideração os meios de proteção de pidamente abafadas.

Por volta do século I a.C., o grande

número de escravos também transfor-

mou essa classe subalterna em um vi-

goroso e ameaçador agente político do

mundo romano. Em 71 a. C., o gladiador

Espártaco organizou uma revolta que

reuniu dezenas de milhares de escravos

contra as tropas do exército romano.

Graças à ação dos generais romanos, o

levante foi contido. Mesmo assim, ficou

o alerta para as crescentes tensões den-

tro do território que poderiam ocasionar

até mesmo uma guerra civil. Já passava

da hora de o governo agir para evitar a

total perda de controle da situação in-

terna. Bastava saber qual seria o plano

a ser executado pelos líderes. »»

61

CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

Shutterstock CRÍTICAS E
FRASES DE
O trigo era distribuído JUVENAL Shutterstock
fartamente ao povo
durante a política DÉCIMO JÚNIO JUVENAL NASCEU
do Pão e Circo POR VOLTA DO ANO 60 D.C. EM
AQUINO, APÚLIA. DE UMA FAMÍLIA
PÃO E CIRCO ABASTADA E COM FORMAÇÃO
MILITAR, ESSE POETA SATÍRICO
Para apaziguar os ânimos, o Império Romano buscou adotar uma ação ROMANO DEIXOU NOS DEZESSEIS
que assegurasse, ao menos, uma alimentação adequada à população POEMAS QUE ESCREVEU UMA
mais carente. Foi instituída por César Augusto a política do Pão e Circo IMAGEM BASTANTE CRÍTICA E
(panem et circenses, no original em latim). A frase, aliás, tem origem MORDAZ DA SOCIEDADE ROMANA
na Sátira X do poeta e humorista romano Juvenal, que viveu por volta DO PRIMEIRO SÉCULO.
do ano 100 d.C. No seu contexto original, o artista criticava a falta de Os vícios e costumes em Roma
informação do povo, que, segundo ele, não nutria qualquer interesse em foram alvo de suas palavras sempre
assuntos ligados à política e só queria mesmo alimento e diversão. afiadas, direcionadas até mesmo
a imperadores. No decorrer dos
Nessa época, o coliseu e outros grandes estádios foram construídos séculos vindouros, seu trabalho
para a realização de lutas de gladiadores – que passaram a ser grandes inspirou diversos escritores, como
espetáculos – e corrida de bigas, por exemplo. Durante tais eventos, a o italiano Giovanni Boccaccio e os
população comparecia para se distrair, mas também recebia fartamente britânicos Jonathan Swift e Samuel
alimentos e trigo. Além disso, outro costume dos imperadores era a dis- Johnson. Juvenal deixou uma série
tribuição mensal de cereais no Pórtico de Minucius. de frases famosas:
“O primeiro castigo do criminoso
De modo geral, esses “agrados” ao povo eram a garantia de que é o da própria consciência, que o
a plebe não morreria de fome e tampouco de aborrecimento. A van- julga e que nunca o absolve”.
tagem de tal prática era que, ao mesmo tempo em que a população “A intenção oculta do
ficava contente e apaziguada, a popularidade do imperador entre os crime é já o próprio crime”.
mais humildes se consolidava. Era a melhor e mais imediata maneira “Alguns tiveram a forca como preço
de manter o povo sob o controle governamental. pelo próprio crime, outros, a coroa”.
“É tão indulgente para consigo
AUGUSTO E SEU mesmo o homem que nunca julga
GOSTO DISCUTÍVEL ter-se aproveitado bastante da
liberdade de se portar mal”.
O IMPERADOR CÉSAR AUGUSTO DEU A ROMA O PRIMEIRO “Quanto mais o dinheiro aumenta,
DEPARTAMENTO DE BOMBEIROS DA HISTÓRIA EUROPEIA. mais cresce a vontade de possuí-lo”.
Ele também estabeleceu a primeira força policial da cidade. No “Uma mente sã em um corpo são”.
entanto, o imperador gostava mesmo era de ver o circo pegar fogo:
Augusto ficou conhecido por ‘apreciar de camarote’ as brigas que Capa
aconteciam com certa frequência nas ruas superlotadas da cidade. de "The
Satires of
62 Decimus

Junius
Juvenalis"

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

ALIMENTOShutterstock a sua fortuna pessoal para comprar os Itens encontrados em Pompeia:
Shutterstockgrãos importados. Estima-se que o pri- escavações sugerem que moradores
Importante destacar que a distribuição meiro imperador romano beneficiava locais tinham um cardápio nobre
de grãos a preço de custo ou até mes- cerca de 250 mil homens. Uma vez que
mo gratuitamente era uma tradição de muitos tinham famílias, estatísticas CARDÁPIO
décadas, bem antes da adoção dessa sugerem que até 700 mil pessoas de- PECULIAR
política mais populista. Por praticamen- pendiam do regime dele para obter os EM POMPEIA
te toda a época da República o supri- alimentos básicos.
mento de cereais era parte das tarefas ESCAVAÇÕES RECENTES EM
dos chamados edis. Esse suprimento Os pobres transformavam o grão – POMPEIA – ENGOLIDA PELAS
era personificado como uma deusa e a que não era o mais adequado para as- CINZAS DO VULCÃO VESÚVIO
cota de cereais acabava por ser distribu- sar pães – em um mingau aguado, que EM 79 A.C. – INDICAM IGUARIAS
ída a partir do templo de Ceres. vinha acompanhado por um vinho bara- DIFERENTES NO CARDÁPIO
to. Com mais sorte, poderiam ter ainda DOS HABITANTES DA CIDADE.
Em 440 a.C., o Senado de Roma no- feijão, alho-poró e até alguns pedaços Em poucas casas, carnes
meou um oficial para a função: o pre- de carne. Enquanto isso, os ricos se de- nobres e peixes vindos da
feito das provisões. O dono do cargo ti- liciavam com pratos mais agradáveis, Espanha indicavam nível
nha grandes poderes. O suprimento de como porco assado ou lagosta. econômico mais alto. O que os
cereais de emergência era uma impor- pesquisadores não esperavam
tante fonte de influência e poder para A maior parte do suprimento aca- encontrar eram restos do osso
o cônsul Pompeu Magno (106 a.C. – 48 bava sendo conseguida através do mer- da perna de uma girafa.
a.C.) no final de sua carreira. Nos tem- cado livre. Isso porque os valores em
pos de principado, a posição de prefeito Roma eram muito elevados, já que os DIVERSÕES
das provisões tornou-se permanente e comerciantes buscavam lucrar dema-
uma série de privilégios, incluindo con- siadamente. O interessante é que os Os passatempos romanos não eram tão
cessões de cidadania e isenção de deve- cereais também eram coletados como diversificados. Concentravam-se basi-
res, era oferecida aos capitães de navios tributo em certas províncias por solda- camente nas corridas de bigas, espe-
que assinassem contratos de transporte dos e oficiais, que depois os revendiam. táculos teatrais, lutas de gladiadores,
de cereais para a cidade. espetáculos com animais selvagens e
Com o tempo, o suprimento ganhou batalhas navais. Esses divertimentos
Augusto, no entanto, elevou o mon- um status maior. Durante o reinado de públicos eram incentivados e pagos
tante de cidadãos atendidos utilizando Séptimo Severo (193 – 211), foi acres- pelo governo ou então por patrícios.
centado o azeite à cota. Contudo, no
governo de Aureliano (270 – 275), foi Os palcos desse eram os estádios
realizada uma grande reorganização da ou anfiteatros, edifícios ovais ou circu-
provisão. Ele teria cessado a distribui- lares com arquibancadas e uma arena
ção de cereais. No lugar, passou a dar no meio, onde ocorriam apresentações,
ou vender por um preço baixo pão, sal, combates e outros tipos de jogos. Nos
carne de porco e vinho. Essas medidas dias dos espetáculos, havia o costume
continuaram com seus sucessores. de músicos tocarem. Os instrumentos
mais comuns eram liras, flautas, cím-
com a desvalorização da moeda, no
século III, o exército romano começou a balos, gaitas, cornetas e chocalhos. »»
ser pago com suprimentos e também
em espécie por uma pesada administra-
ção de coleta e redistribuição de supri-
mentos. O papel do estado na disponi-
bilização de cereais continuou sendo um
ponto central de sua unidade e poder.

Cônsul Pompeu
Magno era
responsável pelas
provisões antes
do Pão e Circo

63

CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

Shutterstock Representação de
Shutterstockuma luta entre

gladiadores romanos

GLADIADORES Desenho com imperador que o derrotado teria a sua vida poupa-
indicando sinal de misericórdia; da naquele momento.
Os combates entre os gladiadores tor-
naram-se um dos principais entreteni- na maioria das vezes, era a Por diversos séculos, os gladiado-
mentos romanos. Contudo, pouca gente própria plateia quem decidia res não só lutaram entre si, como tam-
conhece a realidade desses lutadores. O se lutador derrotado deveria bém contra animais ferozes vindos do
gladiador, em geral, era um escravo na território africano. Além de escravos,
Roma Antiga. O termo usado para se re- ser poupado prisioneiros de guerra e autores de
ferir a esses homens que eram forçados crimes considerados mais graves eram
a brigar vem de gládio, nome dado a rado um vencedor de fato quando um participantes frequentes dos sangren-
uma espada curta e de dois gumes que deles morria, ficava sem suas armas tos embates.
empunhavam. ou sem condições de combater. Havia
sempre um responsável – uma espécie Para lutar, os gladiadores passavam
De acordo com os historiadores, os de árbitro – que determinava se o ho- por rígidos treinamentos em escolas
primeiros registros sobre lutas de gla- mem derrotado deveria ser morto ou especializadas em combates de arena.
diadores em território romano datam não. Nesses casos, o povo presente nas Eles recebiam ainda um tratamento
de 286 a.C. Todavia, sabe-se que esse arquibancadas tinha uma fortíssima especial nos intervalos dos embates
foi um “esporte” inventado pelo povo influência na decisão. Usualmente, os
etrusco. Logo, as lutas agradaram os torcedores se manifestavam apontan-
habitantes de Roma. O sucesso foi qua- do a mão fechada com o dedo polegar
se imediato e atraía uma quantidade para baixo, o que significava que que-
cada vez maior de pessoas. riam o assassinato do perdedor. Contu-
do, nem sempre a morte era desejada
Originalmente, os combatentes se e o dedo polegar para cima era sinal de
digladiavam na arena e só era decla-

64

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

e não costumavam lutar mais do que COLISEU público ensandecido ir ao delírio. Além
três vezes por ano. Dessa maneira, ser das arquibancadas, que ficavam a três
um gladiador era muito mais vantajoso Certas construções são verdadeiros sím- metros do chão, havia um camarote
do que um escravo romano comum e bolos de localidades específicas e sua bastante próximo à arena destinado
ainda por cima era uma oportunidade cultura. Assim era o Coliseu, sinônimo ao imperador de Roma. Do local, os lu-
única de receber reconhecimento do das lutas entre os gladiadores. Majes- tadores faziam a saudação que ficaria
público em geral. toso, tinha mais conforto do que muitos mundialmente conhecida através dos
estádios de futebol modernos. séculos: “Salve, César! Aqueles que vão
Quando viajavam para lutar em ou- morrer te saúdam”.
tras cidades, se deslocavam em grupos A construção teve início em 72 d.C.,
conhecidos como famílias e iam acom- por ordem do imperador Flávio Vespa- Depois da proibição das lutas, no
panhados até por treinadores. E, ao siano, que tomou a decisão de erguer a século quatro, o Coliseu teve diversos
contrário do que muitos possam ima- arena no lugar de um antigo palácio de outros usos. Chegou, por exemplo, a ser
ginar, os gladiadores geralmente eram Nero, seu antecessor no trono romano. A empregado como cenário para simula-
vegetarianos. grandiosa obra levou oito anos para ser ções de batalhas navais, ocasiões em
concluída e, quando estava totalmente que a área ocupada pela arena ficava
Para equilibrar as batalhas, os lu- pronta, Roma já era governada pelo fi- completamente alagada. Na Idade Mé-
tadores eram separados por catego- lho de Vespasiano, o general Tito. Para dia, o mármore e o bronze da estrutura
rias, que eram as seguintes: trácios, prestar uma homenagem ao pai, ele ba- foram sendo saqueados paulatinamen-
murmillos, retiários, secutores e dima- tizou o local com o nome de “Anfiteatro te e utilizados para ornamentar igrejas
chaeri. Estudos feitos em esqueletos Vespasiano”. A capacidade de público e demais monumentos católicos. Peças
desses combatentes mostraram que girava em torno de 50 mil pessoas e o de mármore do anfiteatro foram em-
os derrotados que eram julgados pela espaço de luta – a arena propriamente pregadas até mesmo na construção
plateia costumavam ser mortos por dita – media 85 por 53 metros. da famosa Basílica de São Pedro, no
um golpe na jugular. Quando o lutador Vaticano. Já no século 11, o Coliseu foi
estava muito debilitado, ficavam de Segundo alguns historiadores, pro- transformado em fortaleza, abrigando
quatro e recebiam uma forte pancada vavelmente o nome Coliseu seria dado integrantes de uma família nobre, os
nas costas que chegava diretamente somente algumas centenas de anos de- Frangipane, que usaram a edificação
ao coração. pois, talvez já no século 11. Teria surgido para se proteger em seus combates
inspirado no Colosso de Nero, uma sun- contra grupos rivais.
Para a realização dos espetáculos, tuosa estátua feita de bronze com uma
eram reservados aproximadamente altura estimada de 35 metros. A peça Mesmo em ruínas nos dias de hoje,
182 dias no ano. Após muitos séculos fica justamente ao lado do anfiteatro. o Coliseu ainda inspira uma majesta-
de lutas de gladiadores, o cristianismo de que impressiona turistas de todo o
baniu esses combates com a proibição As primeiras lutas disputadas para mundo que visitam a capital italiana.
oficial do imperador Constantino I, em comemorar a finalização do Coliseu te- Localizado justamente no centro da
325. As lutas, contudo, continuaram por riam durado cerca de 100 dias. Somen- cidade, recebe, por ano, mais de três
mais um século clandestinamente. So- te nesse período, estima-se que cen- milhões de visitantes. Quem circula
mente o papa Inocêncio I e o imperador tenas de gladiadores e mais de cinco dentro dele pode sentir ao menos um
Honório conseguiram decretar o fim de- mil animais selvagens e ferozes teriam
finitivo da prática. caído mortos no local. Os jogos faziam o pouco do clima do grandioso anfiteatro. »»

Foto atual mostra área interna do Coliseu, que abrigava
mais de 50 mil pessoas em seus tempos áureos

CURIOSIDADE Shutterstock

Como uma forma de
satisfazer os estranhos
fetiches de alguns
imperadores, mulheres e
anões também lutavam
nos combates gladiatórios
realizados, sobretudo,
no Coliseu.

65

CAPÍTULO 7 • PROBLEMAS E ENTRETENIMENTO

Oitenta Shutterstock CORRIDAS DE BIGA
arcos
ShutterstockA biga foi um carro de combate bastante utilizado na Anti-
enfeitam guidade. É muito comum vermos em manifestações artís-
a fachada ticas e filmes que representam o período. A biga era um
do Coliseu, importante recurso para combates. Basicamente, tratava-
em Roma -se de um modelo de carro de guerra movido por dois
cavalos puxando uma carroceria suportada por duas rodas
SAIBA MAIS na qual os combatentes se deslocavam.
SOBRE O COLISEU
Mas o meio de transporte e luta não era uma exclusi-
O FORMIDÁVEL COLISEU APRESENTA NÚMEROS vidade romana. A biga foi utilizada em diversas partes do
QUE IMPRESSIONAM TANTO QUANTO A SUA mundo antigo e obteve sucesso e repercussão por causa
BELEZA. FORAM USADOS NA CONSTRUÇÃO DELE da invenção dos aros na roda. O alívio e a distribuição do
MAIS DE 100 MIL METROS CÚBICOS DE MÁRMORE peso cansavam menos os cavalos, que, em geral, eram
TRAVERTINO (COR CLARA), SOBRETUDO PARA pequenos demais para suportar o peso dos combatentes
REVESTIR A FACHADA EXTERIOR. CONTUDO, BOA por muito tempo nos campos de batalha.
PARTE DESSE MATERIAL ACABOU SENDO FURTADA
AO LONGO DOS SÉCULOS. HOJE, RESTA POUCO Logo, o veículo também passou a ser usado para in-
DELE. TIJOLOS E PEDRAS VULCÂNICAS TAMBÉM crementar o entretenimento da política do Pão e circo.
AUXILIARAM NO ERGUIMENTO DA EDIFICAÇÃO. Com os romanos, a modalidade chegou a ter conotações
No tempo em que ocorriam jogos no Coliseu, o de Fórmula 1 da Antiguidade, com equipes estruturadas,
imperador Tito mandou instalar grandes toldos patrocinadores e pilotos bastante requisitados.
para que os espectadores se protegessem do sol
forte. Já uma entrada exclusiva garantia o acesso As equipes se dividiam por cores. Existiam corridas
ao camarote destinado ao imperador romano de dois cavalos (bigas) e com quatro cavalos (quadrigas).
e também aos seus convidados de honra. Essa Os corredores podiam ser escravos ou homens livres, mas
tribuna especial ficava num local privilegiado do ganhavam muito dinheiro e poderiam tornar-se ricos e
anfiteatro, bastante próximo à arena. O prefeito famosos. O problema é que os veículos tinham pouca es-
da cidade de Roma era outra figura importante que tabilidade e a uma tendência bem grande de virarem nas
tinha direito a um espaço particular no estádio. curvas. As equipes pertenciam a particulares e os prêmios
A fachada do Coliseu apresentava, naquela época, eram altos. O insano imperador Nero participava das corri-
uma impressionante riqueza no acabamento. das – e ganhava sempre por ser o governador. As corridas
Colunas jônicas e coríntias ornamentavam a de carros só deixaram de existir em Roma com o colapso
construção. Cada um dos pisos tinha oitenta arcos, do Estado.
com sete metros de altura cada um. Centenas de
peças feitas de bronze decoravam a área externa. Era um dos passatempos favoritos da população. Uma
Não há consenso entre os historiadores se o Coliseu distração que ajudava a perpetuar as diferenças sociais
foi realmente utilizado para sacrifício de cristãos entre os cidadãos, que ficavam entorpecidos com a diver-
quando esses eram perseguidos pelos romanos, são proporcionada pelo Império.
sobretudo por Nero. Essa versão foi sustentada
pela igreja católica, mas não há provas conclusivas Corrida de
de que os martírios ocorreram no local. bigas era
66 uma das
principais
atrações
em Roma

General Lew Shutterstock CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA
Wallace foi
FIM DAS
quem escreveu a MEDIDAS
lendária história POPULISTAS

de Ben Hur Mesmo com o sucesso obtido, a políti-
ca populista do Pão e Circo não conse-
BEN HUR E guiu sobreviver para sempre. A capital,
AS CORRIDAS Roma, sofreu um processo de esvazia-
DE CARRO mento por conta da insatisfação popu-
lar, das invasões de outros povos e da
AS CORRIDAS DE BIGA ESTÃO proliferação de doenças e pestes. Junto
RETRATADAS EM “BEN HUR – UMA com o próprio Império foi-se também
HISTÓRIA DOS TEMPOS DE CRISTO”, a prática, que funcionou de maneira
UM ROMANCE ÉPICO QUE FICOU bastante eficiente enquanto a base da
GUARDADO NA MEMÓRIA DE política romana mantinha-se forte.
MILHÕES DE PESSOAS AO REDOR
DO MUNDO POR CAUSA DE SUA Há quem acredite que, até os dias
REPRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA. de hoje, muitos governos se utilizam de
FOI ESCRITO PELO GENERAL NORTE- medidas semelhantes para consegui-
AMERICANO LEW WALLACE (1827- rem manipular as massas. Para esses, a
1905), QUE TAMBÉM ERA UM RENOMADO PINTOR E TINHA GRANDE tática adotada em Roma há quase dois
CONHECIMENTO DA BÍBLIA. TODAS AS VEZES EM QUE FOI LEVADA ÀS mil anos ainda tem funcionalidade por
TELAS DE CINEMA, A OBRA OBTEVE SUCESSO ESTRONDOSO. meio de eventos esportivos e progra-
Na história, o personagem principal, Judá Ben Hur, é um contemporâneo mas televisivos de maior apelo.
de Jesus Cristo. Ele fora injustiçado e traído pelo então melhor amigo, o
romano Messala, mas consegue sair de uma situação difícil e volta para
procurar vingança e sua família perdida. O enredo pode parecer simples,
mas a ambientação e o tempo no qual ele se passa envolvem o leitor, que
consegue viver um pouco de cada angústia da vida do hebreu Ben Hur de
forma plena, pois é um personagem íntegro em questões morais, além
de ser devotado à família e à religião judaica.
Num mundo dominado por Roma, Judá Ben Hur é acusado de atentar
contra a vida do cônsul romano e, por isso, condenado a servir como
um escravo para o resto de sua vida, além de não saber o que foi feito
com sua mãe e sua irmã. A casa de Hur ficou desmoralizada e todos os
bens da família foram confiscados, sendo um dos beneficiários o jovem
ambicioso Messala, antigo amigo de Ben Hur.
Ajudado por pessoas que conquista por meio de sua personalidade
cativante, entre elas o próprio Jesus Cristo, Judá Ben Hur consegue a
confiança e a adoção de um rico cidadão romano, que faz com que ele
seja livre e vá até Roma aprender as técnicas de luta deles.
Ao conhecer o Mago Baltazar, um dos três que acompanhou a estrela-
guia e adorou o Cristo Menino, Judá Ben Hur começa a se interessar
pelo tão desejado Messias e, então, promete colocar tudo que tem em
favor dele quando o encontrá-lo. Desta forma, Ben Hur não entendia
algumas características do reino que o tão falado Rei dos Judeus iria
implantar. Mas, depois de segui-lo por três anos e presenciar milagres
importantes, Ben Hur finalmente entende a visão espiritual que o Cristo
tinha do reino de Deus.

SÉCULO I 80 D.C. Shutterstock
César Augusto dá Tito inaugura o Coliseu, local de
início à política espetáculos onde os gladiadores lutam 325 D.C.
do “Pão e Circo” e divertem a população romana Imperador Constantino decide
SEGUNDA METADE proibir oficialmente as lutas
DO SÉCULO I 200 D.C. gladiatórias, que continuam
Poeta e humorista Séptimo Severo acrescenta acontecendo clandestinamente
Juvenal satiriza o azeite à cota de alimentos
política adotada distribuídos ao povo 270 D.C.
pelo Império Governo de Aureliano
Romano passa a fornecer
à população itens
como carne de porco,
pão e vinho
Shutterstock
Shutterstock

Shutterstock

CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA Shutterstock

Moedas da época
do Império:

economia romana
demonstrou vigor

durante séculos

UMA ECONOMIA
IMPERIAL MESMO EM MEIO A GUERRAS E

CONFLITOS INTERNOS, A ROMA ANTIGA
MANTEVE-SE PUJANTE ECONOMICAMENTE
DURANTE MUITO TEMPO

A economia romana foi a base da força do Império em
seus séculos de domínio. Como reflexo de todas as ri-
quezas adquiridas, destacavam-se as construções imponen-
tes na capital e um exército muito poderoso e temido por
todos os povos do mundo antigo. Mesmo com os problemas
sociais crescentes no decorrer dos anos, o poderio financeiro
da potência manteve-se em alta e só foi abalado com a der-
rocada de Roma a partir do século IV.

68

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Contudo, antes da vasta expansãoShutterstock as cidades à procura de melhores con- Desenho mostra mulher romana em atividade
territorial, o setor econômico era ali- Shutterstockdições de vida. Estava estabelecido um agrícola, principal prática econômica entre os
cerçado pelas diversificadas atividades período de intenso êxodo rural. primórdios dessa civilização
agrícolas. A agricultura e a pecuária fo-
ram as atividades que desempenharam As cidades constituíam o centro da marmelada para a capital Roma.
um papel fundamental, uma vez que vida política e administrativa do Im- O que se sabe com certeza é que
90% da população vivia no campo. Os pério, onde os imperadores e os mais
principais produtos eram típicos da cul- abastados escolhiam construir edifícios as exportações cresceram e os roma-
tura mediterrânea: cereais, azeitonas, públicos – balneários, teatros e anfitea- nos seguiram pelo caminho de um
frutos, vinho, além da criação de gado. tros – para conseguir atrair habitantes. desenvolvimento econômico bastante
Os mais ricos possuíam grandes proprie- No século II a.C. já existiam em todo o acentuado. Diante do cenário favorá-
dades agrícolas. Já os imensos latifún- Império cerca de 4 mil cidades. vel, os centros urbanos se alargaram,
dios eram cultivados por escravos. uma vez que a construção de novas es-
Ocorria uma tendência acentuada tradas e o trabalho escravo formavam
Nesse momento da história roma- de especialização nos setores de ma- um cenário bem propício.
na, não havia transações monetárias. O nufatura, agricultura e também minera-
comércio e o artesanato, por sua vez, ção. Certas províncias eram mais volta-
eram ainda bem pouco desenvolvidos. das para o cultivo de determinados ti-
pos de produtos, como os grãos no Egito
Com a integração de vastos terri- e na África do Norte e o vinho e azeite
tórios no Império, assistiu-se ao cres- na Itália, Hispânia e ainda Grécia.
cimento progressivo do comércio, favo-
recido pela Paz Romana. As diferentes Entretanto, o conhecimento da eco-
províncias romanas possuíam recursos nomia romana é considerado irregular
diferentes e intensificaram as trocas e inconstante. A grande maioria dos
comerciais entre si, apoiadas por uma produtos comercializados, sendo de
vasta rede de estradas, rios navegáveis origem agrícola, normalmente não dei-
e o mar Mediterrâneo, onde o transpor- xa evidência arqueológica direta. Muito
te marítimo era mais seguro e também excepcionalmente, como em Berenice,
mais barato. há evidência de comércio de longa dis-
tância em pimenta, amêndoas, avelãs,
Chegavam a Roma produtos de pinhão, nozes, coco, damascos e pêsse-
todo o Império. Esse crescimento co- gos, além dos comércios mais espera-
mercial fez aumentar a produção agrí- dos (como figos, passas e alcaparras).
cola e artesanal, assim como a circula- As vendas de vinho, azeite e garum
ção de moeda. As cidades do Império (molho de peixe fermentado) eram
ganharam dinamismo, em especial os feitas em ânforas, excepcionalmente,
pontos privilegiados de comércio, onde deixando para trás registro arqueoló-
proliferaram as pequenas oficinas ar- gico. Por outro lado, existe uma única
tesanais, atraindo os camponeses para referência na Síria de exportação de

TÉCNICAS DE AGRICULTURA

OS MÉTODOS PARA ALCANÇAR UM MELHOR RENDIMENTO NA
AGRICULTURA ROMANA – A IRRIGAÇÃO, A DRENAGEM E AINDA
A RECUPERAÇÃO DE TERRAS – GARANTIRAM UM ADEQUADO
FORNECIMENTO DE MANTIMENTOS QUE FEZ AUMENTAR COM
RAPIDEZ AS POPULAÇÕES URBANAS.
Nas secas terras do Mediterrâneo criaram-se reservas de água para
a irrigação mediante a construção de grandes e sofisticados açudes.
Em contrapartida, nas terras ao leste da Bretanha e na planície do
Pó, as terras baixas pantanosas eram recuperadas através de extensas
redes de canais de drenagem. O emprego de moinhos de água também
é conhecido desde a Roma Antiga.

Técnicas de agricultura como a irrigação ajudaram »»
a expandir agricultura em Roma

69

CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

Caminho por onde passavam CALCULADORA Shutterstock
mercadorias romanas na Antiguidade ROMANA

A COMPLICADA
CONTABILIDADE DO COMÉRCIO
DE ROMA ERA REALIZADA,
SOBRETUDO, POR MEIO DE
QUADROS E COM O ÁBACO.
O segundo, que usava
algarismos romanos, era ideal
para a contagem da moeda e
ainda registrar medidas de peso.

COMÉRCIO Imagem do Embora o Egito e algumas províncias
denário, uma das emitissem as suas próprias moedas, os
As transações comerciais em Roma moedas usadas no romanos conseguiram padronizar razo-
foram extremamente importantes du- Império Romano avelmente essa relação no câmbio mo-
rante a maior parte da época imperial. netário por volta do século II a.C., o que
Há quem negligencie atualmente esse UNIDADES contribuiu muito para facilitar o comér-
setor. No entanto, não há como negar DE MEDIDA cio na principal cidade da potência.
que o comércio ajudou não apenas a
expandir a língua franca-latina, como Os habitantes da Roma Antiga eram As moedas romanas, em circulação
também a sustentar as façanhas das le- conhecidos como engenheiros muito durante a maior parte da República e
giões. Vale dizer que os romanos eram sofisticados. Dessa forma, eles tinham do Império Romano do Ocidente, inclu-
homens de negócios e a longevidade unidades bem definidas de medição íam o áureo (feito de ouro); o denário
do Império deve-se, em grande parte, de comprimentos, pesos e distâncias. (de prata); o sestércio e o dupôndio
às relações comerciais. O sistema romano de medição foi (ambos de bronze); além do asse (feito
construído com base no sistema gre- de cobre). Essas denominações foram
A sociedade local mostrava que go e também em algumas influências utilizadas até meados do século III.
era segmentada em torno das áreas e egípcias. As unidades de peso roma- Após as reformas, as moedas em cir-
atividades comerciais. Os integrantes nas eram conhecidas pela precisão. As culação passaram a ser, basicamente,
do Senado e os seus filhos, por exem- distâncias acabavam sendo medidas e, o soldo (cunhado em ouro) e algumas
plo, ficavam restritos ao envolvimento sistematicamente, inscritas em pedras denominações menores de bronze, que
no comércio. Os membros da ordem por agentes do governo. perduraram até o fim do Império Ro-
equestre eram conhecidos por diversi- mano do Ocidente.
ficarem mais os seus negócios, ainda Para negociação comercial, a ânfora
que os de classe superior tivessem ên- era uma base conveniente de medida
fase maior em atividades militares e de líquido. Ela continha um pé cúbico
de lazer. Já os plebeus e libertos man- romano, o equivalente a cerca de sete
tinham lojas e barracas em mercados. litros. A ânfora padrão – a capitolina –
Enquanto isso, uma incontável quanti- era mantida no templo de Júpiter no
dade de escravos realizava toda espé- Capitólio, em Roma, para que outros
cie de trabalho pesado. Esses próprios pudessem comparar sua ânfora a ela.
servos, aliás, eram objeto de transa-
ções comerciais bastante lucrativas.

70

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Ábaco era presença nas proximidades de acam- rios realizavam o mesmo tipo de traba-
instrumento pamentos militares romanos durante lho dos mensários, banqueiros públicos
de cálculo na as diversas campanhas que o exército nomeados pelo Estado romano. Eles
Roma Antiga participava. Vendiam alimentos e rou- recebiam os juros sobre o empréstimo
pas aos soldados e costumavam pagar bem como um valor referente à comis-
NEGOCIATAS em dinheiro vivo por qualquer espólio são, conhecida como mercê. Alguns
proveniente das vitórias nos campos argentários, conhecidos como coado-
A sociedade romana era caracterizada de batalha. res, cobravam dívidas e faziam leilões,
também pela presença dos chamados enquanto outros argentários eram as-
negociadores – atuantes principalmen- Na Roma Antiga, outro grupo co- sistidos por coadores que coletavam as
te nos últimos anos da República. Eles nhecido era o dos argentários, que dívidas para eles.
eram cidadãos estabelecidos nas pro- trabalhavam como agentes em leilões
víncias que emprestavam dinheiro com públicos ou privados comercializan- Por fim, no século III, aproximada-
a cobrança de juros. Ainda comerciali- do moedas. Tais cidadãos mantinham mente, os mascates eram aqueles que
zavam cereais com o objetivo de espe- depósitos de dinheiro para outros in- vagavam pelo Império Romano e com-
cular e ganhar com o aumento de pre- divíduos, descontavam cheques – cha- punham a menor instituição comercial
ços do principal alimento daquele tem- mados prescrições – e serviam como ambulante que se tem conhecimento
po. Costumavam enviar os grãos para casas de câmbio. O curioso é que eles na Antiguidade. Esses comerciantes
Roma e também para fora dos limites mantinham em seu poder livros rigoro- itinerantes trabalhavam levando espe-
da fronteira. sos, que eram considerados como prova ciarias e perfumes para os habitantes
jurídica pelos tribunais em caso de falta das regiões rurais e mais afastadas dos
Todavia, o negócio principal deles de pagamento. Por vezes, os argentá- grandes centros.
era mesmo a cessão de dinheiro com
cobrança de juros. Portanto, as palavras Shutterstock
negociador, negociata e negociação fo-
ram utilizadas com esse sentido naque- Desenho faz uma reconstituição do trabalho dos chamados mercadores »»
le período. Segundo o filósofo Cícero,
eles eram simplesmente “homens de
negócios” e teriam sido fundamentais
para a organização dos mercados, in-
vestimentos em transporte e disponi-
bilização de crédito que ajudavam na
realização de novos empreendimentos.
O termo “negociador” era tido em mais
alta reputação. Muitos deles acumula-
ram fortunas significativas nas provín-
cias. No século I, seus descendentes,
em sua maioria, seguiram para Roma
como senadores provinciais.

Já os mercadores eram, habitu-
almente, plebeus ou então homens
libertos. Eles podiam ser vistos em
praticamente todas as feiras ao ar li-
vre, em lojas ou em barracas venden-
do mercadorias à beira das estradas.
Os mercadores também marcavam

71

CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

ESCRAVOS tinham um custo inferior a um adulto, INFRAESTRUTURA
enquanto outras informam que o preço COMERCIAL
A mão de obra escrava sustentava de era bem maior.
forma importante o comércio romano. Na Roma Antiga, o principal centro
Esses servos participavam dos proces- No momento da aquisição de um comercial era o Fórum Cupedino. Esse
sos de produção, transporte e ainda escravo, esses eram apresentados nus mercado vendeu inúmeras iguarias
venda de mercadorias. De acordo com ao comprador interessado. Isso porque durante muitos anos. Tempos depois,
estimativas, metade de todos os es- os romanos queriam saber exatamente o espaço passou a ser mais conhecido
cravos em Roma era de propriedade o que estavam adquirindo. O compra- como Fórum Magno. A região atraía a
da classe alta. Além disso, 50% deles dor tinha até seis meses para devolver maior parte do tráfego comercial. Ori-
trabalhavam na zona rural, onde eram um escravo se esse viesse “com algum ginalmente, foi utilizado para a disputa
apenas uma pequena porcentagem da defeito” não revelado no ato da ven- de jogos esportivos e com a finalidade
população, com exceção de algumas da. Outra alternativa era o comerciante de abrigar o comércio de todos os ti-
propriedades agrícolas. A outra metade compensar financeiramente a perda. pos imagináveis. Contudo, mais tarde,
compunha uma porcentagem signifi- Já os servos que eram comercializados tornou-se o centro político e bancário,
cativa de 25% nas cidades. Nesses lo- sem quaisquer garantias utilizavam onde negociadores, argentários e men-
cais, se tornavam empregadas domés- uma touca no momento do leilão. sários mantinham os seus escritórios.
ticas, prostitutas ou trabalhadores em
empresas comerciais, de construção e VENDA POR Já o fórum comercial ou mercantil –
manufatura. Na época das conquistas, ATACADO conhecido como Venálio – passou a exis-
diversos novos escravos foram adquiri- tir nos tempos do Império por conta da
dos por comerciantes no atacado. Eram Certa vez, o tirano Júlio acelerada expansão da cidade e do au-
homens capturados que estavam com César teria vendido como mento nos negócios nas províncias. Ao
os exércitos romanos. escrava toda a população menos outros quatro grandes mercados
de uma região conquistada abasteciam toda aquela grande região.
Segundo historiadores, muitas pes- na Gália. Os revendedores Além disso, seis fóruns comerciais de
soas que compravam escravos queriam adquiriram nada menos menor tamanho eram especializados
pessoas mais fortes, preferencialmente do que 53 mil pessoas! na venda de produtos mais específicos:
do sexo masculino. Não há consenso Fórum Boário (voltado ao comércio de
sobre os valores de crianças escraviza- Trabalho escravo gado); Fórum Holitório (produtos rela-
das. Algumas fontes indicam que elas era a base da mão cionados à horticultura); Fórum Suário
de obra em Roma (comércio de carnes suínas); Fórum Pis-
cário (peixes e frutos do mar); Fórum
Shutterstock Pistório (pães em geral); e Fórum Viná-
rio (bebidas, principalmente os vinhos).

O Fórum Romano atraía a grande
parte do tráfego de pessoas. Mesmo
assim, todos os locais precisavam de
uma infraestrutura adequada para com-
pradores e vendedores terem acesso fa-
cilitado às mercadorias disponíveis. As
novas cidades, como, por exemplo, Tim-
gad (localizada na atual Argélia), foram
estabelecidas segundo um plano orto-
gonal de estradas que facilitou o trans-
porte e também o comércio. As locali-
dades estavam ligadas por vias de boa
qualidade. Rios navegáveis foram outro
modo de condução amplamente usado,
além de alguns canais escavados. Toda
essa vasta estrutura foi descoberta em
muitos trabalhos de escavação arqueo-
lógica no decorrer dos tempos.

72

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Ruínas do Fórum Magno,
que abrigava, entre outras
coisas, um grande mercado

Shutterstock

POR TERRA em um comboio. Mesmo assim, não ha- tar os navegadores. No seu auge, Roma
E MAR via, naquele tempo, um modo melhor
e mais eficaz de transportar cargas do colocou faróis em quarenta locais dife-
Segundo o historiador romano Lívio, no que por meio de embarcações.
ano de 752 a.C. foram estabelecidas as rentes para ajudar a navegação.
primeiras colônias romanas. Todos os O tipo de navio comumente usa-
assentamentos, sobretudo aqueles me- do pelos romanos era conhecido como Mesmo antes do estabelecimento
nores, estavam localizados em posições Córbita. Tais embarcações podiam
estrategicamente importantes. Tanto transportar até seiscentos passageiros da República, o reino romano estava
antes quanto depois do Império Roma- ou seis mil ânforas de barro de vinho,
no, localizações consideradas mais se- óleo e outros líquidos semelhantes. Es- envolvido em comércio regular usando
guras foram as favoritas para pequenos ses navios transportavam em um curto
assentamentos. Isso porque a pirataria período de tempo mais mercadorias o Tibre. Essa proximidade com o rio de-
fazia das atividades comerciais realiza- do que poderiam ser transferidas por
das no povoado costeiro uma prática terra. Uma embarcação desse tipo le- sempenhou um papel fundamental no
extremamente perigosa. vava, por exemplo, entre duas e três
semanas – dependendo das condições desenvolvimento econômico da cidade
Em 67 a.C., depois de uma batalha climáticas – para ir do Egito até Roma.
contra piratas e a consolidação da ma- A fim de elevar a eficácia do transporte porque as mercadorias que provinham
rinha de Roma, já sob o comando de marítimo, os romanos desenvolveram
Augusto, essa ameaça foi praticamente portos profundos em locais chave. Um do mar tinham que subir pelo curso das
dilacerada. Por outro lado, o mau tem- dos maiores portos estava em Óstia,
po, os mapas de baixa precisão e os rús- quase 25 quilômetros de Roma, na cos- águas para serem dirigidas para a Etrú-
ticos equipamentos de navegação eram ta do Mediterrâneo. No ano de 50 d.C.,
capazes de causar enormes estragos um farol foi criado no local para orien- ria e também para a Campânia grega.

Dessa maneira, Roma era capaz de

monopolizar o tráfego terrestre, uma

vez que estava situada na interseção

das principais estradas do interior ita-

liano. Além desse fator, pela incidência

de importantes salinas nas proximi-

dades da cidade, Roma conseguiu se

transformar em um ponto de mercado

praticamente perfeito da “via do sal”,

que anos mais tarde seria conhecida

como via Salária. »»

73

CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

Trecho da Rota da Seda que
passa pelo atual Cazaquistão

Shutterstock e Anatólia. Chegando a esse ponto, se
dividia em rotas que levavam à Síria ou
UMA ROTA ROTA DA SEDA ao Egito e ao norte da África.
CULTURAL
Esse importante caminho mercantil A Rota da Seda marítima foi aberta
NÃO ERAM APENAS possibilitava o transporte de mercado- entre Jiaozhi (Vietnã moderno) – con-
MERCADORIAS QUE rias diversas entre o Oriente e a Europa. trolada pelos chineses – e os territórios
CIRCULAVAM PELA FAMOSA Suas inúmeras rotas interconectadas nabateus na costa noroeste do Mar Ver-
ROTA DA SEDA. através do Sul da Ásia eram utilizadas melho. Muito provavelmente inaugu-
Nas viagens, que duravam – como o nome sugere – sobretudo rada no século I d.C., estendia-se pelo
meses e, por vezes, anos, um para o comércio de seda. Essa impor- litoral da Índia e Sri Lanka e pelos por-
número incontável de pessoas tante passagem era dividida em rotas tos controlados por Roma, entre eles os
se movia. Essas relações do norte e do sul por conta da presen- principais portos do Egito. Os mercado-
criaram um caldeirão cultural ça de centros comerciais nas duas ex- res transportavam pela Rota da Seda
composto por gente de várias tremidades da China. A Rota da Seda produtos diversificados.
nacionalidades e colocações, norte atravessava o Leste Europeu, a
como soldados, sacerdotes, Península da Crimeia, Mar Negro, Mar Além da seda, ouro, prata, cobre,
exploradores, embaixadores, de Mármara, passando pelos Balcãs e ferro, chumbo, bronze, escravos, tar-
emissários, peregrinos chegava, por fim, à Itália. A rota sul tarugas, cavalos, ursos, conchas, mar-
religiosos e até artistas. Assim, percorria Turcomenistão, Mesopotâmia fim, âmbar, vidro, jade, cravo, canela,
crenças, estilos de arte e escolas coentro, noz-moscada, cardamomo,
de pensamento circulavam linho, tapetes, ervas medicinais, chás,
intensamente pela Rota da Seda. joias, artefatos de metal, madeira, ce-
râmicas, porcelanas e obras de arte.
Em direção à China seguiam produtos
de beleza e maquilagem, diamantes,
pérolas, corais e vidros de manufatura
ocidental.

A expressão Rota da Seda foi
cunhada somente no século XIX pelo
estudioso alemão Ferdinand von Ri-
chthofen. Ela se tornou o maior eixo
comercial de todos os tempos. Os se-
gredos de fabricação da seda – objeto
do desejo dos ricos da Europa e mundo
árabe – eram dominados pelos chine-
ses. Por isso, o material foi escolhido
como símbolo dessa gigantesca rede
de comunicação terrestre.

Shutterstock

74

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock

MARCO POLO Com auxílio ROTA DO ÂMBAR
NA ROTA de camelos,
DA SEDA deserto do Saara Antes do nascimento de Jesus Cristo,
foi importante esse caminho já ligava o Mar do Norte
NO ANO DE 1271, OS rota comercial e o Mar Báltico à Itália, Grécia, Mar Ne-
COMERCIANTES NICOLAU gro e o Egito. A rota permaneceu ativa
E MATEUS POLO SEGUIRAM SAARA por muitos anos e era importante para
PARA A CHINA, ATRAVÉS DA escoar produtos como o próprio âmbar,
ROTA DA SEDA, PARA UMA Os camelos tinham importância funda- uma resina fóssil muito utilizada na
VIAGEM COM DURAÇÃO DE mental nos transportes de mercadorias confecção de objetos ornamentais. Os
CERCA DE VINTE ANOS. feitos pelo conhecido e desafiante de- principais trechos fluviais eram feitos
Com eles estava o jovem serto do Saara. Com o auxílio do resis- pelo Vístula e Dniepre.
Marco Polo, que passaria para tente animal, o comércio transaariano
a história como um dos mais chegou ao auge inicialmente no sécu- Com a expansão do território ro-
importantes viajantes de todos lo I a.C. diante da ascensão do Impé- mano até o Danúbio, já no começo do
os tempos. As aventuras vividas rio Romano. Por aquela região fluíam século I sob os governos de César Au-
por ele são descritas no livro mercadorias como ouro, escravos, mar- gusto e Tibério, a Rota do Âmbar tor-
A descrição do mundo. fim e animais exóticos em intercâmbio nou-se uma estrada romana dentro da
com itens de luxo provenientes da ca- área pertencente ao Império. O trecho
pital Roma. romano da Rota do Âmbar pode ser en-
contrado nos registros da Tabula Peu-
tingeriana (mapa que mostra a rede de
estradas do Império Romano). Segundo
relatos, a estrada oferecia maior segu-
rança no período de inverno ligando
Carnuntum, no Danúbio, a Aquileia, na
Itália.

ROTA DO CURIOSIDADE
INCENSO
O âmbar sempre esteve
Esse outro importante caminho ligava o envolvido com crenças. Muitos
reino oriental a Gaza. As rotas de cara- povos antigos criam em seu
vanas de camelos através dos desertos dom medicinal, utilizando a
da Arábia e os portos ao longo da costa resina em pó misturada com
do sul da Arábia faziam parte de uma mel para combater a asma,
vasta rede de comércio. a gota e ainda a peste negra.
Ele atuava também na esfera
O incenso e a mirra, extremamente mística, na luta contra espíritos
valorizados na Antiguidade como per- maus. Não à toa, nota-se a
fumes, só poderiam ser conseguidos a sua presença em talismãs,
partir de árvores plantadas no sul da terços e incensos para espantar
Arábia, Etiópia e Somália. Os mercado- energias ruins.
res árabes transportavam para Roma
não só incenso e mirra, mas também Âmbar
especiarias, ouro, marfim, pérolas, pe- era usado
dras preciosas e tecidos. também
para
A partir do século I d.C., as boas espantar
relações entre o Reino de Meroe, na espíritos
Núbia, e os governantes romanos do maus
Egito contribuíram para a expansão do
comércio através do Mar Vermelho e do »»
Oceano Índico.
Shutterstock
Shutterstock

75

CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

PROVÍNCIAS PRÓSPERAS Shutterstock HISPÂNICA

As regiões dominadas por Roma também cresceram muito economicamen- A presença de Roma auxiliou no rápido
te no período imperial. Na parte final do século II d.C., quase todas as pro- avanço econômico local. Se antes as ati-
víncias era praticamente autossuficientes em artigos de produção em série. vidades eram mais rudimentares, com
o avanço do Império a região passou
ÁSIA a ostentar uma atividade agrícola com
bom aproveitamento do solo e de vá-
Essa província era uma das mais prósperas e de maior desenvolvimento rias culturas, como trigo, oliveiras, fru-
cultural. O estabelecimento do domínio romano trouxe uma época de certa tas e vinhas. Os romanos implantaram
paz que permitiu o crescimento econômico de cidades como Éfeso, Pérga- as trocas comerciais, incentivaram a cir-
mo, Esmirna, Sardes e Mileto. culação da moeda, trouxeram o arado
de madeira, as forjas, lagares, aquedu-
Belíssimas localidades apareceram não apenas no sul e no oeste da pe- tos, estradas e as pontes.
nínsula, mas também na região central. Em todas estas cidades havia obras
monumentais, tais como ágoras, ginásios, estádios, teatros, banhos e outras Além disso, as populações, que
edificações, sendo muitas delas em mármore. Havia ainda estradas pavimen- anteriormente ficavam predominan-
tadas com mármore e água canalizada via aquedutos a partir de fontes. temente nas montanhas, passaram a
ocupar os vales e as planícies. As mora-
Ruínas de dias de tijolo cobertas com telha eram
Éfeso (Turquia), um bom exemplo de avanço nos tipos
de construção também. Com isso, surgi-
importante ram cidades importantes como Braga,
cidade na Beja e Cacém (todas no atual território
de Portugal).
província romana
da Ásia na época A indústria se desenvolveu, princi-
palmente a olaria, minas, tecelagem
do Império e as pedreiras, o que ajudou a ampliar
substancialmente também o comércio,
que passou a contar com feiras e mer-
cados. Toda essa estrutura era apoiada
por uma extensa rede viária.

Cidade de Braga, em Portugal,
fazia parte da província Hispânica

76 Shutterstock

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

BRETANHA EGITO

A riqueza natural foi um dos principais motivos para a conquista de Roma. A região Com muito prestígio, a província
contava com quantidades enormes de estanho e ferro. Prata e ouro também esta- egípcia era importantíssima para
vam bem presentes na região, o que se tornou importante para abastecer Roma, Roma. E não era para menos: forne-
pois as minas da Hispânia encontravam-se quase esgotadas. cia o trigo necessário para a capital
e era uma localidade fácil de ser de-
Nas planícies, tanto as cidades como as fazendas eram bem integradas à eco- fendida de ataques externos. Além
nomia mercantil. Londres e outras antigas cidades da Bretanha desenvolveram-se do trigo, havia plantações fartas de
e prosperaram durante os dois primeiros séculos de administração romana. Eram uva para a produção de vinho em
exportados ouro, prata, ferro, estanho, grãos, carne e lã. grande quantidade. Além disso, os
imperadores romanos ainda tinham
A partir da época em que os limites de fronteira foram fortificados na Bretanha, o monopólio sobre as minas, as sali-
sob os imperadores Adriano (117 – 138 d.C.) e Pio (138 – 161 d. C.), surgiu ao sul nas e a produção de papiros.
da muralha fronteiriça um espaço de próspera atividade econômica. Investidores
extraíam de lá chumbo, prata, ferro e sal. Diante da descoberta dos ventos
de monções do Oceano Índico – uma
MACEDÔNIA ocorrência climática periódica que
beneficia as atividades agrícolas –,
Nessa província, a economia foi muito estimulada pela edificação da via Egnácia Alexandria passou ser o centro do
– estrada feita pelos romanos no século II a.C. –, pela chegada de mercadores nas comércio entre Oriente e Ocidente e
cidades e ainda pela fundação de colônias romanas. Com ricas pastagens aráveis, a segunda cidade mais importante
as famílias dominantes adquiriram grandes fortunas com o trabalho escravo. do Império Romano (atrás apenas, é
claro, de Roma). Alexandria era um
A melhoria nas condições de vida das classes produtivas acarretou em um au- grande armazém, recebia e exporta-
mento no número de artesãos na província. Pedreiros, mineiros e ferreiros eram va os produtos do Egito e os materiais
usados em todo tipo de atividades comerciais e artesanais. exóticos da Índia e do Oriente, trazi-
dos nas épocas das monções aos por-
A economia de exportação foi baseada essencialmente na agricultura e pecuá- tos do Mar Vermelho e transportados
ria. O ferro, o cobre e o ouro, junto com produtos como madeira, resina, breu, linho, para o Nilo por todo o deserto.
cânhamo e peixes, também foram bastante exportados. Portos como Dion, Pela e
Tessalônica apresentaram um grande crescimento no período romano. Ruínas da cidade de Alexandria, centro
do comércio entre o Oriente e o Ocidente

Shutterstock

»»

77

CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

SÍRIA ÁFRICA PROCONSULAR

A região foi outra que prosperou demasia- O cultivo da terra se tornou uma tarefa bastante lucrativa nessa
damente com o advento do domínio ro- região. Ainda no primeiro século, a terra fértil ao sul de Cartago
mano. A Síria exportava abundantemente produziu quantidades significativas de trigo. Já no século seguinte,
resina, madeira, cerâmica, linho, lã, pano, as culturas acabaram sendo diversificadas e os olivais foram uma
grãos, frutas e, especialmente, os corantes. boa fonte de lucro. Além disso, pomares e vinhas movimentaram a
O de cor roxa, retirado de moluscos na costa economia da África Proconsular. A pecuária também teve um papel
síria, tinham um particular valor. Os portos econômico muito importante, com gado ovino e bovino, cabras e
e as rotas com o Oriente Extremo tiveram cavalos. Essas criações garantiam excelentes lucros.
grande importância na economia local.
As estradas foram imprescindíveis para o avanço agrícola, pois
Cidades como Alepo, Antioquia, Palmi- permitiam que os produtos fossem levados com facilidade para os
ra e Damasco ficaram extremamente ricas mercados das cidades. Com relação ao Império, as vias possibilitavam
com o comércio de sedas, madeira de ce- que uma importante indústria de exportação funcionasse. Em portos
dro, perfumes, joias, vinhos e especiarias. famosos, como o de Cartago, os navios partiam para Roma lotados de
Cresceram tanto que se tornarem os princi- trigo, cerâmica, mármore, entre outras valiosas mercadorias.
pais centros comercias da Síria romana.
Cidade de Arezzo, na Itália,
Ruínas da antiga cidade era importante centro
de Palmira, Síria de produção de cerâmica

Shutterstock

GERMÂNIA Shutterstock

Localizada às margens do rio Reno, de forma bastante
rápida virou um importante centro de comércio roma-
no ao norte dos Alpes. Mesmo nos dias de hoje, ainda
há alguns traços daquele período, como partes da mu-
ralha romana, alguns dos portões e o aqueduto. Até
hoje o mapa da cidade de Colônia espelha a rede de
ruas e avenidas da época romana.

Naqueles campos eram cultivadas qualidades de
cereais mais rentáveis e criadas raças de gado e cava-
lo maiores. As plantações de uva se estendiam pelas
regiões do Reno, Mosel e Neckar. Praticamente todos
os tipos de frutas que conhecemos hoje, como cerejas
e peras, eram colhidos por lá. Da mesma forma, as-
pargo, salsão e acelga tinham espaço nas terras culti-
váveis. Até o final do domínio dos romanos, o número
de plantas comestíveis no sul da Germânia dobrou.

78

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

ITÁLIA JUDEIA

A localidade teve sucesso maior no cul- Por causa de sua posição estratégica, a Judéia era uma região de trânsito. Por lá
tivo de milho, trigo, cevada, azeitona passavam soldados, comerciantes, mensageiros e ainda diplomatas. A região ti-
e uva. Na região central da Itália eram nha importantes centros urbanos, como Cesareia Marítima, Gaza e Jerusalém, que
manufaturados utensílios domésticos concentravam pessoas e atividades econômicas. Assim como em outras áreas do
que serviam para equipar o exército Império, nessa região existiam vias e portos, que facilitavam o transporte de mer-
romano na Gália e Germânia. Tais itens cadorias e também a comunicação.
eram negociados fora dos limites do
império, na Bretanha e norte europeu. O comércio era largamente praticado. Internamente, ocorriam trocas locais que
visavam simplesmente o abastecimento das grandes cidades. A Judeia, por sua
No início da era cristã, o comércio vez, importava produtos de luxo – consumidos pelas classes mais elevadas e pelo
de cerâmica, cujo principal centro de Templo – e exportava alimentos (frutas, vinhos, óleo e peixes) e manufaturas (per-
produção era Arezzo, na Itália, abaste- fumes e betume).
cia o mercado romano, bem como as
províncias ocidentais, do norte e sudes- Caesarea Maritima,
te do Império. Israel

Shutterstock

ACAIA
A região pertencente à Grécia possuía

um sistema de indústria e comércio

bastante complexo para a época. Boa

parte de matérias-primas, como chum-

bo, cobre e ferro, estava disponível na

Acaia. Dos itens agrícolas, as impor-

tações mais relevantes eram de mel,

azeitonas, azeite e vinho.

Praticamente qualquer item de

luxo doméstico era elaborado na Acaia.

Preciosos óleos, pós, perfumes, cosmé-

ticos, roupas, cerâmicas, tintas, móveis

e muitos outros produtos eram manu-

faturados em fábricas e oficinas gre-

gas. Esculturas e outras obras de arte

também foram largamente exportadas

para o mundo romano. »»

79

CAPÍTULO 8 • POTÊNCIA

GÁLIA ARÁBIA PÉTREA

Sob o Império Romano, a região desfru- Essa foi outra região que prosperou durante o domínio do Império Romano. Petra,
tou de uma prosperidade muito efetiva. uma das cidades mais importantes da localidade, tinha como principais produtos
Nos séculos I e II d.C., a Gália avançou o incenso, especiarias e tecidos.
economicamente por meio da exporta-
ção de carne, cereais, vinho, prata, vi- A conquista romana da Arábia foi uma vitória importante tanto comercial como
dro e cerâmica. Algumas cidades, como militar. Os romanos tinham o controle completo de todas as rotas de comércio aces-
Arles, Narbonne e Trèves, enriqueceram síveis e importantes do Mediterrâneo. Outro benefício da adição da Arábia foi que
de maneira significativa. os romanos garantiram o flanco sul das províncias da Síria e da Judeia.

Os cereais eram cultivados nas pla- BITÍNIA MOESIA
nícies da bacia parisiense e da atual
Bélgica. Também eram cultivados linho Localizada em uma planície fértil, a pro- Essa região, além e servir como uma
e cânhamo para a confecção dos famo- víncia colhia grãos em abundância. Um espécie de tampão entre as províncias
sos panos gauleses. A esses recursos constante fluxo de mercadorias passava gregas e vários potenciais invasores,
tradicionais os romanos acrescentaram pelos seus portos. Suas principais cida- também possuía ricas minas e campos
a cultura da vinha, que foi implantada des foram Niceia, Prusa e Nicomédia. muito férteis.
nas regiões setentrionais.

Shutterstock ILÍRIA

As exportações de peles de
animais, ferro, ouro e prata
eram facilitadas nessa re-
gião por sua posição no Mar
Adriático e a proximidade
com a Itália. A localização
estratégica fez dela um im-
portante elo comercial entre
Europa Ocidental e Oriental.

Região dos Balcãs,
onde ficava a

província da Ilíria

DÁCIA PANÔNIA

As principais atividades na província eram agricultura, vinicultura, Tratava-se de uma localidade muito produtiva.
criação de gado e trabalhos em metal. Os habitantes da Dácia possu- Aveia e cevada eram os seus principais produ-
íam grandes rebanhos – não somente de gado, mas também de ovi- tos agrícolas. As videiras e as oliveiras, por ou-
nos. Fora da região, eram bem conhecidos pela apicultura. Os cavalos tro lado, foram cultivadas em pouca quantidade.
dácios foram muito reverenciados e procurados para uso militar. Os Já a madeira era uma de suas mais importantes
romanos tinham o controle sobre as minas de ouro e prata da Transil- exportações. As minerações de ferro e prata tam-
vânia. A província mantinha ainda um considerável mercado externo, bém predominaram. Além disso, a província da
como é visto pelas várias moedas estrangeiras encontradas no país. Panônia era famosa por sua raça de cães de caça.

80

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

DECLÍNIO A reforma monetária feita pelo impera- a 200 mil pessoas pobres em determi-
ECONÔMICO dor Diocleciano, entre os séculos III e IV, nado momento. Essa entrega gratuita
tentou reverter essa situação, mas não no Egito, Sicília e África Proconsular ti-
Não há uma razão simples que possa durou muito tempo, pois afetava a pro- nha como contrapartida o dinheiro que
explicar com toda a exatidão necessá- dução sensivelmente. Roma sacava às províncias. O comércio
ria o retrocesso financeiro do Império romano se baseava na espoliação indi-
no decorrer dos anos. Talvez, um dos Dentro desse complicado contexto, reta – reembolsava as importações com
motivos tenha sido a diminuição acen- as sucessivas crises políticas que ocor- os impostos com que taxava as provín-
tuada no número de escravos. No sécu- reram a partir do fim do reinado de cias. A triste realidade é que Roma vi-
lo III, sem grandes campanhas militares Marco Aurélio até Diocleciano, com o rou uma cidade de mendigos.
que garantissem novas terras e mão seu cortejo de guerras civis, invasões
de obra gratuita, a situação chegava a bárbaras, epidemias e confiscos, leva- Garantir o sustento mínimo da po-
uma escassez quase que definitiva. As- ram a uma trágica decadência econô- pulação virou, após o governo de César,
sim, o efeito da crise do escravismo ge- mica, com o desaparecimento da mo- uma necessidade política. Além das
rou também um declínio na economia, eda em espécie, o desmoronamento distribuições gratuitas de cereais, os jo-
com a alta nos preços de diversos itens das principais atividades de comércio gos constituíam um dos serviços públi-
e desabastecimentos de produtos em e o regresso à chamada economia na- cos mais importantes do Estado. Dessa
praticamente todas as cidades. tural. Roma havia atingido uma condi- forma, os dias feriados passaram de 65,
ção econômica que tornava qualquer nos tempos de César, para 135 na épo-
Junto com a crise econômica veio regra ou lei impotente e ineficaz, O ca de Marco Aurélio. Depois, para 175
também o abalo nas estruturas de Império Romano nos séculos III e IV dias. A partir dessa época, a população
produção devido ao aumento contínuo não conseguia sustentar os seus habi- de Roma passava a vida nos teatros,
das taxas de impostos administrativos, tantes, manter a sua administração e anfiteatros e no circo.
enormes despesas burguesas em habi- pagar as tropas.
tação nos centros urbanos, desvaloriza- Diante de um cenário nada anima-
ção da moeda, deterioração das con- Por fim, Roma se tornou uma capi- dor, restou pouco a se fazer, a não ser
dições de vida das classes inferiores, tal ociosa. A distribuição livre de cere- lembrar os tempos áureos de uma ver-
encarecimento dos produtos e substi- ais pelos proletários romanos chegou dadeira potência econômica.
tuição do pagamento em dinheiro pelo
pagamento com produtos, o que oca- Shutterstock Shutterstock
sionou a decadência do comércio.
SÉCULO VII A.C. 67 A.C.
Houve ainda um aumento sistemá- Os primórdios da civilização Vitória sobre piratas no
tico das importações de produtos agrí- romana viviam basicamente Mediterrâneo abre espaço
colas. Isso significava uma elevação da para o comércio marítimo
saída de moedas do Império, agravada de atividades agrícolas
pelo fato de as minas de metais precio-
sos já estarem esgotadas àquela altura. Shutterstock SÉCULO I D.C.
Inauguração
A soma de todos esses elementos, da importante
como também a crescente insegurança Rota da Seda
das rotas, gerou uma grave crise finan-
ceira que, por sua vez, provocou o declí- SÉCULOS I E II D.C. SÉCULO IV Shutterstock
nio do comércio e de toda a atividade Prosperidade econômica Derrocada da
urbana. Para piorar, segundo o historia- nas províncias romanas economia romana com
dor Plínio, as constantes importações de o aumento da dívida
mercadorias do Oriente e a quase ine- externa e a escassez da
xistência das exportações para aquela mão de obra escrava
mesma região como forma de contra-
partida criaram um enorme déficit nas
contas do governo romano. Assim, se
tornou impossível, durante dois séculos,
manter a sangria de gastos.

A dívida com o exterior levou ao
esgotamento do dinheiro em espécie.

81

CAPÍTULO 9 • CULTURA

Ilustração da
zona rural romana:
no princípio, a agricultura
de subsistência e uma
vida simples

O JEITO ROMANO DE SER

VALORES ETERNOS E INTERESSES POLÍTICOS EXPLICAM PARTE DO
COMPORTAMENTO DESSA SOCIEDADE QUE MARCOU ÉPOCA

82

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock

N o início da civilização roma- Já a família era tida como uma insti- ção a uma quantidade enorme de deu-
na, seus membros tinham tuição sagrada e o seu chefe – pater fa-
uma vida cotidiana considerada milias – possuía todo poder, autoridade ses. A prática religiosa marcava presen-
bastante simples. Eram traba- e direitos sem limites sobre a esposa,
lhadores no campo e realizavam os seus filhos, escravos e demais bens ça nos diferentes aspectos do dia a dia e
uma agricultura de subsistência, materiais. Além disso, todos nutriam
ou seja, plantavam e colhiam imenso respeito pelos mais idosos, que carregava um caráter cívico, pois estava
apenas o que era básico para so- serviam de exemplo a ser seguido pela
breviver. Disciplina e modéstia, comunidade em geral. ligada diretamente ao Estado romano.
aliás, eram avaliadas como virtu-
des essenciais ao homem. A religião, por sua vez, tinha como O tempo encarregou-se de interli-
base o culto aos antepassados e adora-
gar a tradição dos deuses gregos com a

dos romanos por conta da grande influ-

ência da Grécia – uma das províncias do

Império – na cultura dos povos daquele

período histórico. »»

83

CAPÍTULO 9 • CULTURA

Ruínas do templo de Apolo,Shutterstock pois sempre havia exceções em deter-
um dos deuses adorados minados grupos. Essa linha de raciocínio
também variou bastante com o passar cenário destruidor parece ter sido cau-
O cidadão romano também coloca- dos anos. sado “por alguma tensão com origem
va o Estado acima de todas as demais na importância avassaladora que os
coisas. Dessa maneira, aquele que es- No entanto, algumas coisas não romanos davam à conquista de status
tivesse a serviço da res publica (coisa mudavam. Além de dar as cartas na individual como recompensa pelo ser-
pública) precisa respeitar os deuses, política, a classe mais alta também viço à comunidade”.
demonstrar lealdade e coragem, além era a responsável por definir o sistema
de ter a glória como ambição. Tais qua- de valores morais que orientava a vida Os habitantes de Roma entendiam
lidades deixavam claro o caráter guer- pública e privada dos romanos, por que seus ancestrais, no decorrer do
reiro manifestado através dos tempos volta do ano 500 a.C., no ambiente da tempo, tinham transmitido os valores
entre os romanos. República. Quando membros da elite que deviam orientar a sua vida inteira.
social criaram o regime republicano, Assim sendo, costumavam se referir ao
PRINCÍPIO o objetivo era inviabilizar o gover- sistema de valores como “o costume
DE TUDO no de um único homem por meio da dos ancestrais”.
criação de um princípio de comparti-
Em geral, os habitantes de Roma acre- lhamento de poder para eles próprios,
ditavam que podiam e deveriam viver mas não para todas as pessoas. Dessa
debaixo das obrigações com as divin- forma, pretendiam afastar o controle
dades e com as outras pessoas. Enten- do domínio das mãos da maioria. Isso
diam ainda que o respeito na sociedade porque criam piamente que o cidadão
era conquistado ou perdido de acordo mais pobre poderia preferir viver sob
com o comportamento que o sujeito o governo de um rei que ganharia seu
apresentava. É claro que esse era um apoio através dos benefícios financei-
pensamento da maioria e não do todo, ros, recursos esses que os ricos seriam
forçados a dar de suas próprias fortu-
nas pessoais.

Por outro lado, como a classe alta
era muito reduzida para administrar e
fazer a defesa de Roma sozinha, ela
precisou entrar em acordo por meio de
concessões, como dar algum papel de
governo a outros cidadãos de menor
status social e também financeiro. Sem
esse tipo de pacto, os romanos não
teriam condições de organizar, entre
outras coisas, um bom exército. A era
republicana de Roma foi marcada por
lutas muito tensas pela obtenção do
poder. A mais sangrenta batalha acon-
teceu na República tardia, ocasião em
que a classe alta travava lendários com-
bates entre si para definir quem alcan-
çaria determinados níveis nos postos
governamentais.

Muitos historiadores questionam
se essa busca desenfreada pelo domí-
nio, que jogava cidadão contra cida-
dão, teve raízes no fracasso dos roma-
nos em seguirem valores tradicionais.
Segundo o professor da Universidade
de Harvard, Thomas R. Martin, esse

84

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

SE É ANTIGO, Membros da elite precisaram abrir concessõesShutterstock tuoso: alguém que conseguia diferen-
LOGO É BOM para conseguirem financiar o exército ciar o bem do mal; que sabia reconhe-
cer o que era inútil; que era inimigo
EM GERAL, OS ROMANOS VALORES de homens ruins; protetor das pesso-
CARREGAVAM GRANDE as boas; e que punha o bem-estar da
ESTIMA PELA ANTIGUIDADE Probidade, fidelidade e status. Esses nação em primeiro lugar, seguido dos
DE SEUS VALORES PORQUE, eram os três valores principais que os interesses familiares e, por último, dos
PARA ELES, “ANTIGO” romanos criam terem sido instituídos interesses próprios.
TINHA O SIGNIFICADO DE por seus ancestrais. O primeiro, basi-
“BOM”, POIS “ERA TESTADO camente, definia como uma pessoa se Além disso, era dever de um ho-
PELA EXPERIÊNCIA”. relacionava com os seus semelhantes. mem com probidade cuidar bem de
No início, probidade tinha um sentido seu corpo e se exercitar para manter-se
Por outro lado, “novo” masculino e vinha do latim virtus – que saudável e forte para poder sustentar
queria dizer “potencialmente significa virtude. O poeta Lucílio listou a família e lutar pelo país na guerra. A
perigoso”, já que “não havia aquilo que ele considerava serem as realização suprema para o homem jus-
sido testado antes”. Já a qualidades morais de um homem vir- to era o heroísmo na batalha, mas ape-
expressão “coisas novas” era nas se servisse à comunidade ao invés
utilizada como um sinônimo de propiciar somente glória pessoal. Da
de “revolução”, algo temido mulher com probidade esperavam-se
como uma fonte de violência ações valorosas dela para com a sua
e desordem na sociedade. família. Acima de tudo, ela deveria se
casar, ter filhos e educá-los desde pe-
quenos segundo os preceitos éticos da
referida comunidade onde vivia.

Já o valor da fidelidade apresenta-
va distintas formas. Acima de qualquer
coisa, tal lealdade significava o cumpri-
mento de obrigações, sem avaliar o pre-
ço a ser pago e nem mesmo se o com-
promisso era informal ou formal. Para
o natural de Roma, não cumprir uma
obrigação ou desrespeitar por completo
um contrato era uma grande ofensa à
comunidade e também aos seus deuses.
A mulher, por exemplo, demonstrava fi-
delidade mantendo-se virgem até a re-
alização do matrimônio e sendo, depois
de casada, uma esposa monógama – re-
lação apenas com seu marido. Porém, o
mesmo não era aplicado aos homens,
uma vez que os atos sexuais com pros-
titutas não eram tidos como motivo de
reprovação pública. Para os romanos do
sexo masculino, o que importava mes-
mo era cumprir a sua palavra, pagar as
dívidas corretamente e tratar todas as
pessoas com senso de justiça.

Em último lugar, o status – tercei-
ro valor central romano – nada mais
era do que a recompensa que alguém
alcançava por viver segundo esses va-
lores todos. Isso vinha do respeito que

uma pessoa conquistava e também »»

85

CAPÍTULO 9 • CULTURA

Shutterstock A PIEDADE

PARA O ROMANO, SER PIEDOSO
SIGNIFICAVA DEVOÇÃO À ADORAÇÃO
DOS DEUSES E AO SUSTENTO DE
SUA PRÓPRIA CASA. ALÉM DO
CUNHO RELIGIOSO, ESSE VALOR
TAMBÉM ERA SOCIAL. HOMENS E
MULHERES QUE ATENDIAM A ESSE
PRECEITO COSTUMAVAM RESPEITAR A
AUTORIDADE DOS MAIS VELHOS, DOS
ANCESTRAIS FAMILIARES E TAMBÉM
DAS DIVINDADES. ALIÁS, DEMONSTRAR
RESPEITO AOS DEUSES – FAZENDO
CULTOS RELIGIOSOS DE MANEIRA
ADEQUADA E REGULARMENTE – ERA
IMPRESCINDÍVEL. VALE RESSALTAR QUE
O FAVOR DIVINO, DE ACORDO COM OS
ROMANOS, GARANTIA A PROTEÇÃO DE
SUA COMUNIDADE.

Nem por isso o respeito a si mesmo era
ausente nos valores de alguém piedoso.
Isso porque respeito próprio significava
muitas outras coisas. Queria dizer, acima
de tudo, que o homem não devia desistir
nunca, independentemente da dificuldade
que pudesse ter pela frente. Perseverar e
cumprir os deveres sob todas as condições
– por mais adversas que fossem – eram
comportamentos básicos. O respeito
próprio, por fim, também significava
limitar manifestações de emoção e manter
sempre o autocontrole. A expectativa
sobre esse aspecto era tão grande quem
nem mesmo maridos e esposas podiam
se beijar em público para que não fosse
transmitida a sensação de terem perdido o
controle emocional.

Antiga família romana reunida: fidelidade
era um dos valores centrais da época

esperava dos outros por se comportar atos de coragem. Segundo os historia- RIQUEZA
corretamente com relação aos compro- dores, o efeito do status social era tão
missos tradicionais. A mulher ganhava influente que um homem com conceito Os habitantes da Roma Antiga criam
respeito – além de recompensas rela- elevadíssimo por ações e autocontrole que o status da família afetava dire-
cionadas à sua reputação e aceitação podia receber tanto respeito ao ponto tamente os valores. Para eles, quanto
social – quando gerava filhos legítimos de todos os outros lhe obedecerem, mais elevada fosse a classe familiar
e os educava em termos morais. A mãe mesmo sem ter o domínio jurídico ou de uma pessoa, mais rígidos eram os
romana, aliás, merecia e esperava um formal. Costumava-se dizer que aque- valores pessoais que se devia seguir.
grande respeito. le que atingia esse ápice de prestígio Dentro dessa linha de pensamento
tinha o poder moral de autoridade. romana, nascer em um núcleo proe-
As recompensas para os homens Isso significava que as pessoas fariam minente tinha prós, mas também con-
envolviam honrarias públicas, ou seja, o que recomendava não por imposição tras. Diretamente, garantia o direito a
eleições para posições oficiais no Esta- da lei, mas sim pelo enorme respeito um status superior na sociedade. Por
do – no caso dos homens ricos o bas- que tinham pelo exemplo sumo de vi- outro lado, impunha um padrão mais
tante para o governo, pois eles não ver dentro dos valores estabelecidos severo de avaliação de comportamen-
recebiam salário. Já os soldados na mi- transmitidos anteriormente por seus to. Em geral, os integrantes da elite
lícia de cidadãos de Roma esperavam ancestrais. acreditavam que uma pessoa nascida
um reconhecimento público por seus em uma família desprestigiada pos-

86

Shutterstock CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Foto em preto e branco mostra Fórum Romano, importante
ponto de encontro da população romana na antiguidade

suía também menor capacidade de se POBRE HERÓI ção fornecer “bondades” aos de status
comportar adequadamente. Essa visão menor. Essas pessoas beneficiadas, por
gerava, costumeiramente, certa tensão O MAIS FAMOSO HERÓI sua vez, tornavam-se clientes e passa-
entre as classes sociais. Teoricamente, ROMANO VINDO DA CLASSE vam a dever “tarefas” ao patrono. Im-
a riqueza não tinha qualquer relação POBRE FOI LÚCIO QUÍNCIO portante dizer que mesmo os patronos,
com a virtude moral. Os próprios roma- CINCINATO, NO SÉCULO por exemplo, podiam ser clientes de
nos mantinham o costume de contar V A.C., QUANDO SALVOU pessoas com status maior do que o seu.
aos seus filhos diversas histórias sobre ROMA DA ANIQUILAÇÃO Trocando em miúdos: um mesmo indi-
heróis compatriotas que eram pobres, CONDUZINDO O EXÉRCITO EM víduo poderia ser tanto patrono quanto
mas extremamente valorosos. UM GRANDE TRIUNFO DIANTE cliente.
DE ESTRANGEIROS INVASORES.
No entanto, à medida que, no de- Ele chegou a um status tão O romano costumava definir essa
correr dos séculos, Roma foi conquistan- elevado que poderia ter relação de interesses como um tipo de
do novas terras e dominando um espa- governado Roma. Contudo, amizade em que cada parte tinha o seu
ço cada vez maior, o dinheiro passou a sempre fiel aos valores locais, papel precisamente definido. Assim,
ter uma importância maior para a elite, ele decidiu retornar à família um patrono sensível demonstraria todo
pois possuía o poder de elevar o sta- muito pobre e à fazenda sem o seu respeito para com o cliente cum-
tus com gastos excessivos em prédios empregados. Segundo conta primentando-o como “meu amigo” ao
públicos e em entretenimentos para a Tito, Cincinato voltou “feliz por invés de “meu cliente”.
comunidade ao redor. Dessa maneira, ter cumprido com seu dever e
ter dinheiro tornou-se uma necessidade por ter sido fiel ao país”. Contudo, apesar desse ar aparen-
para quem desejava ascender em pres- temente amistoso e de respeito, essa
tígio social. No século II a.C., romanos PATRONO relação patrono-cliente era amparada
mais ambiciosos necessitavam de recur- E CLIENTE legalmente e garantia direitos e de-
sos financeiros para comprar respeito e, veres das partes nela envolvidas. A Lei
assim, cresceu e muito a disposição em O ambiente republicano trouxe consi- das Doze Tábuas, de 449 a.C., que foi o
passar por cima de outros valores para go uma nova relação: a de patrono e primeiro conjunto de regras escritas em
conseguir esse objetivo. A busca por de- cliente. Os dois formavam, na realida- Roma, declarava criminoso um patrono
terminados “valores” acabaria por levar de, uma rede de obrigações recíprocas. que enganasse o seu cliente.
Roma a um ambiente de inquietação e, Patrono era aquele homem de status
na época da República tardia (146 a.C. social superior que tinha como atribui- Os deveres de um cliente incluíam
até 27 a.C.), de ditadura. o suporte financeiro e político do pa-
trono. De acordo com a tradição, um

cliente devia ajudar, por exemplo, a dar »»

87

CAPÍTULO 9 • CULTURA

dotes – presentes de casamento mui- do patrono era garantir o sustento do REJEIÇÃO
to valiosos – para as filhas do patrono. cliente e de sua família em eventuais DO PAI
Já na vida política, era esperado que dificuldades jurídicas, como no caso de
um cliente ajudasse seu patrono nas ações judiciais relativas à posse e pro- A LEI ROMANA ERA, DE FATO,
campanhas a cargos públicos ou ainda priedade, o que era bastante comum. AMPLAMENTE PATRIARCAL.
quando um amigo do patrono concor- Em momentos assim, pessoas de status PARA SE TER UMA IDEIA, ATÉ
ria em uma eleição. O cliente era muito social menor ficavam em desvantagem QUE UM PAI TOMASSE UM
útil para convencer pessoas a trocarem no sistema judicial romano se não ti- RECÉM-NASCIDO EM SUAS
seu voto. Ele também poderia ser inti- vessem amigos mais influentes para MÃOS – DEMONSTRANDO,
mado a emprestar dinheiro ao patrono auxiliá-los na apresentação de suas DESSA MANEIRA, QUE
quando esse tivesse vencido uma elei- causas. A ajuda de um patrono com ACEITAVA A CRIANÇA COMO
ção e precisasse de recursos financeiros dom de oratória era uma necessidade SUA E SE COMPROMETIA EM
para custear as obras esperadas dele na bem específica no tribunal, pois acusa- CRIÁ-LA –, O BEBÊ PODIA SER
posição de funcionário público. dores e acusados tinham que falar por LITERALMENTE ABANDONADO.
si mesmos ou então ter pessoas próxi- Acredita-se que as meninas
Nos tempos da República tardia, mas que discursassem por eles. tenham sofrido com essa
era comum e muito prestigioso o patro- situação mais frequentemente,
no ter um grande número de clientes Nesse período histórico, Roma não já que as famílias alcançavam
o tempo todo. O curioso é que esses possuía – como ocorre hoje – promoto- maior ascensão na sociedade
diversos clientes costumavam se reunir res públicos ou advogados de defesa gastando seus recursos com
em sua residência logo pela manhã e disponibilizados pelo Estado, tampou- os filhos homens.
o acompanhavam até o Fórum Roma- co defensores para serem contratados Em textos do médico Sorano
no – o centro comercial, político e ju- particularmente. Assim, os cidadãos de Éfeso (por volta do século
rídico de Roma. Por conta disso, um proeminentes com mais conhecimen- I), há ainda informações
integrante da elite romana necessitava to de história e procedimentos legais que confirmam a prática do
ter uma casa bem grande e requintada eram os especialistas jurídicos naquela aborto, que era usada naquela
para receber uma verdadeira multidão região. No século III a.C., tais especia- época (sempre em casos de
para esse encontro matinal. Além dis- listas autodidatas, conhecidos como perigo para a criança ou a
so, o patrono também tinha como bom juristas, exerciam função primordial no mãe) com o uso de abortivos.
hábito convidar esse seu parceiro social sistema judicial. As mulheres provocavam
para jantares em sua própria residên- o aborto de diversas
cia. Muita gente ao redor era sinal de Todas as obrigações jurídicas re- maneiras: apertando os seios
sucesso social. Diante desse cenário, o cíprocas da relação patrono-cliente exageradamente, tomando
dinheiro tornou-se fundamental para deviam ser estáveis e duradouras. bebidas extremamente geladas,
os romanos das classes mais elevadas. Em certas situações, esses vínculos se consumindo mel em grandes
Eles tinham que desprender enormes prolongavam por gerações, passando quantidades, ingerindo óleo de
quantias para serem vistos como exce- à família. Um exemplo disso era o ex- quinino, inserindo um feixe de
lentes patronos. -escravo que automaticamente se tor- palha na vagina para perfurar
nava cliente, por toda a vida, do mestre o útero ou tomando misturas
Mas não é só. Geralmente, o patro- que o libertou e, muitas vezes, passava preparadas com o uso de
no tinha que gastar dinheiro para con- aos filhos essa relação com a família do vinhosmisturas preparadas
seguir oferecer uma variedade de bon- patrono. Já o romano com contatos fora com o uso de vinhos.
dades onerosas para os clientes nessa das fronteiras poderia angariar clientes
via de mão dupla. No regime republi- estrangeiros. Principalmente os mais PUNIÇÃO AOS
cano, era de bom tom um patrono aju- ricos tinham, em alguns casos, comuni- SOLTEIRÕES
dar um cliente a iniciar carreira política dades inteiras de clientes.
dando apoio à sua candidatura ao ga- Na época do Império, o
binete ou ainda garantindo um aporte As características de dever e per- casamento passou a ser
financeiro ocasionalmente. Durante o manência do sistema patrono-cliente bastante impopular. Assim,
Império, o patrono deveria ofertar uma deixavam evidente a ideia romana de foram tomadas medidas
cesta de piquenique cheia de comida que estabilidade e bem-estar social para encorajá-lo mediante
para o café da manhã dos clientes que eram alcançados por meio da manu- a imposição de penalidades
estavam em sua casa logo cedo. tenção fiel de uma rede de ligações aos não-casados.
que juntava pessoas umas às outras na
Mas a obrigação mais importante vida pública e também privada.

88

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

FAMÍLIA Já no caso da esposa, o pátrio po- APARÊNCIA
der tinha um efeito bem mais limitado
A legislação romana tornava o pátrio sobre a sua vida. Nos primórdios da Na Roma Antiga, as
poder a maior força dentro das relações República, uma mulher podia estar mulheres da classe nobre
familiares, com exceção do vínculo en- sob o poder do marido. Contudo, era desfrutavam de certo
tre marido e mulher. A concessão de possível que no contrato de casamen- prestígio e precisavam
domínio a homens mais velhos fazia de to tivesse um impedimento específico tomar um cuidado especial
Roma uma sociedade patriarcal. Um pai dessa subordinação, deixando-a livre com a sua aparência,
tinha poder legal sobre os seus filhos de quaisquer controles legais pelo sendo o mais importante
– independentemente da idade – e so- homem. Nesses casos, a esposa con- o estilo de cabelo. Eles
bre seus escravos, que contavam como tinuava, na teoria, sob o poder do pai costumavam ser muito bem
membros de seu domicílio. enquanto ele estivesse vivo. Todavia, elaborados, com diversos
existiam poucos casos de pais idosos tipos de enfeites. Como
Esse pátrio poder ainda fazia do que mantinham o controle da vida de complemento, brincos e
chefe da família o único proprietário filhas já maduras e casadas, pois a pulseiras de pedras preciosas,
de toda terra adquirida por qualquer maioria das pessoas morria jovem no colares ou gargantilhas. Os
um dos filhos. Enquanto o pai estives- mundo antigo. No momento em que vestidos eram sempre longos
se vivo, nenhum filho ou filha poderia, a grande parte das mulheres romanas combinando com um manto
juridicamente, ter algo em seu nome. se casava, no fim da fase da adoles- bordado com cores variadas.
Entretanto, na prática, os filhos adultos cência, praticamente metade já havia
costumavam manter propriedade pes- perdido seu pai. Essa realidade demo- MULHERES
soal e contrair recursos financeiros. Da gráfica mostra que o pátrio poder pos- Comumente, a sociedade romana es-
mesma forma, escravos protegidos po- suía um efeito bem limitado sobre os
diam ter economias próprias. filhos maiores. perava que a mulher se desenvolvesse

O pai ainda tinha poder legal de Além disso, a mulher adulta sem o de um modo rápido e assumisse suas
vida e morte sobre aqueles que esta- pai em vida também possuía autonomia
vam debaixo de seu teto. Mesmo assim, plena. Com relação aos homens, já que responsabilidades na família. Túlia (79
era bastante raro ele exercer esse direi- eles não se casavam antes dos trinta
to sobre qualquer um deles. Já o aban- anos de idade, na época do casamento e a.C. a 45 a.C.), filha do famoso político
dono de recém-nascidos era algo muito na formação de sua própria família, ape-
comum. Tratava-se de uma prática acei- nas 20% deles ainda tinham o pai vivo. e orador Cícero, noivou aos doze anos,
ta para controlar o tamanho das famí- Assim, os outros 80% eram juridicamen-
lias e descartar crianças que nasciam te independentes de controle. casou-se aos dezesseis e ficou viúva
com problemas físicos variados.
Representação com apenas vinte e dois anos de idade.
de antiga
As mulheres ricas tinham o dever de
família romana
administrar a propriedade da família, o

que incluía os escravos domésticos.

A esposa possuía ainda a função de

supervisionar a criação de seus filhos

por amas de leite, além de estar jun-

to com o marido em jantares festivos,

muito importantes na formação de re-

lacionamentos entre as famílias.

A influência da mãe na formação

moral dos filhos tinha um valor especial

na sociedade romana. Um exemplo dis-

so foi Cornélia, integrante abastada da

classe alta do século II a.C., que conquis-

tou fama e respeito na administração da

propriedade da família e pela educação

dos filhos. Quando o marido morreu, ela

decidiu recusar uma oferta de matrimô-

nio do rei do Egito para que pudesse su-

pervisionar o patrimônio familiar, além

de educar uma filha e dois filhos – Tibé-

Shutterstock rio e Caio Graco, que cresceram entre os

líderes políticos mais influentes e polê-

micos do período republicano. »»

89

CAPÍTULO 9 • CULTURA

Já a mulher pobre precisava criar os MANIFESTAÇÃO FEMININA
filhos e trabalhar duro para se susten-
tar. O número de profissões voltadas ao ERA BASTANTE RARO AS MULHERES REALIZAREM QUAISQUER ATOS DE
sexo feminino também era menor. Ge- CUNHO POLÍTICO. NO ENTANTO, EM 215 A.C., NO AUGE DE UMA CRISE
ralmente, tinha que aceitar empregos FINANCEIRA EM TEMPOS DE GUERRA, FOI APROVADA LEI QUE LIMITAVA
relacionados à venda de produtos ou A QUANTIDADE DE OURO QUE AS MULHERES PODERIAM TER, PROIBIA
de comida em lojas pequenas. Mesmo QUE ELAS USASSEM ROUPAS COLORIDAS EM PÚBLICO E ANDASSEM
quando pertencia a uma família produ- DE CARRUAGEM A UMA DISTÂNCIA DE 1,5 QUILÔMETRO DE ROMA OU
tora de artesanato – que predominava DE OUTROS MUNICÍPIOS ROMANOS, EXCETO PARA PARTICIPAR DE
na economia romana –, era mais fácil a EVENTOS RELIGIOSOS.
mulher vender do que fabricar aquilo Essa lei pretendia atender ao descontentamento dos homens em relação
que era produzido. aos recursos controlados por mulheres ricas em uma época que o Estado
enfrentava uma grande necessidade de fundos. Em 195 a.C., depois da guerra,
As mulheres de famílias mais po- as mulheres afetadas pela regra organizaram uma grande manifestação contra
bres viravam, muitas vezes, prosti- as restrições impostas. Elas tomaram as ruas para expressar o que desejavam
tutas. Aliás, a prostituição era legal, e cercaram as portas das casas de dois líderes políticos que vinham tentando
mas quem ganhava a vida vendendo bloquear a revogação da regra. Diante da pressão, a lei foi anulada.
o próprio corpo era considerado sem
status social. As garotas de programa Pintura descoberta em um antigo bordel
utilizavam uma peça de roupa mascu- de Pompeia retrata uma relação sexual
lina – a toga – para sinalizar a falta de
castidade tradicional associada a hero-Shutterstock
ínas romanas. Shutterstock

A mulher não tinha permissão de SEXO era mostrado. Os romanos eram puri-
votar nas eleições romanas. Também tanos nesse aspecto, mas adornavam
A conduta dos romanos quando o as- as suas casas com pinturas e mosaicos
não poderia exercer a função sunto era relação sexual pode parecer com nus e motivos eróticos, sobretudo
de funcionária pública. Po- muito imoral para os dias de hoje. Por nos quartos.
dia somente ter influência exemplo: os cidadãos da Roma Antiga
política indireta ao mani- podiam se aproveitar da intimidade No Império Romano, assim como
festar opinião a parentes das suas escravas e dos seus jovens es- na Grécia Antiga, a prostituição não
em cargos públicos. Marco cravos. As crianças adotadas – tratadas era proibida, sendo normalmente feita
Pórcio Catão, ilustre senador como filhos – eram muitas vezes sujei- por escravas trazidas de outros lugares,
tas a práticas homossexuais. As rela- mulheres gregas e orientais. Mesmo
e autor (234 a.C. a 149 a.C.), ções entre um adulto e um adolescente sabendo-se que nas tabernas havia
descreveu, certa vez, em eram permitidas, mas nunca entre dois locais destinados às relações sexuais,
tom cômico, a influ- homens adultos. escavações nas ruínas de Pompeia en-
ência que as mu- contraram um único bordel composto
lheres poderiam No entanto, o ato sexual com a sua por dez quartos. Na época, esses locais
exercer sobre seus esposa era às escuras e o seio dela, co-
maridos governan- berto com uma espécie de sutiã, nunca
tes: “A humanidade
inteira governa suas
esposas, nós governa-
mos a humanidade e
nossas esposas nos
governam”.

Mulher romana
era cobrada a
assumir as suas
responsabilidades
rapidamente

90

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Desenho mostra aluno e seu tutor na Roma Antiga

eram designados como Lupanare – pa-
lavra derivada de lupaes, que eram as
prostitutas que frequentavam os par-
ques públicos e atraíam a atenção de
seus clientes com uivos de lobo.

O lesbianismo também era per-
mitido na Roma Antiga. Nos banhos
públicos eram frequentes os encontros
de mulheres que, embora sendo casa-
das, recorriam às escravas para satis-
fazerem os seus desejos lésbicos mais
profundos.

EDUCAÇÃO Shutterstock

Um dado importante é que a educa- mais abastadas da cultura da Grécia, alcançar o sucesso em uma carreira
ção escolar romana das crianças era elas começaram a comprar escravos
particular para ricos e pobres, pois não gregos mais instruídos para educar os pública. Para conseguir ser eleito, um
havia escolas públicas. Quando sa- seus filhos. Muitos deles acabavam por
biam ler, escrever e fazer aritmética, virar bilíngues em latim e grego. homem precisava saber discursar de
os pais de muitas famílias mais pobres
que trabalhavam como produtores de As meninas costumeiramente re- maneira persuasiva aos seus eleitores.
bens costumavam transmitir esse co- cebiam treino mais ameno que os me-
nhecimento aos filhos por educação ninos, mas ambos os sexos aprendiam Além disso, falar bem nos tribunais era
doméstica informal. Como Roma não a ler entre os cidadãos de classe alta. A
tinha leis que proibiam ou limitavam o repetição era a técnica padrão de en- outra preocupação, pois as ações judi-
trabalho infantil, essas crianças exer- sino. A punição física era usada para
ciam atividade remunerada junto com manter os alunos atentos ao trabalho ciais eram veículo de proteção da pro-
os pais. de rotina. As famílias ricas providen-
ciavam às filhas os ensinos de litera- priedade privada.
Contudo, o mais provável mesmo é tura, um pouco de música e de tópicos
que a maioria esmagadora da popula- de conversação para ocasiões e janta- Um menino ouvia técnicas de retó-
ção nem soubesse ler ou escrever. As res festivos.
crianças romanas de famílias mais ricas rica indo com o pai, tio ou irmão mais
também recebiam a educação básica Um dos principais objetivos da edu-
em sua própria residência. cação da mulher era prepará-la para o velho a reuniões públicas, assembleias
papel que as mães romanas precisa-
No começo do regime republica- vam desempenhar no ensino aos filhos e sessões no tribunal. Ao escutar as fa-
no, os pais eram os responsáveis pela sobre o respeito aos valores morais e
educação ao menos até que seus filhos sociais de Roma. Já a meta de educa- las feitas em debates sobre política e
completassem sete anos. A partir dessa ção de um menino romano de classe
idade, os pequenos já estavam aptos a alta era torná-lo um especialista em causas de direito, o garoto aprendia a
receber instruções de um tutor contra- retórica, pois isso era fundamental para
tado. As crianças também podiam ser imitar técnicas vencedoras. Além disso,
enviadas a aulas oferecidas por profes-
sores independentes mediante o paga- os pais ricos contratavam docentes ca-
mento de uma taxa.
pazes de ensinar um grande volume de
Os pais buscavam manter o cuidado
de doutrinar os filhos sobre os funda- conhecimento em história, geografia,
mentos da virtude masculina, princi-
palmente treinamento físico, combate literatura e finanças, disciplinas neces-
com armas e coragem. Quando a ex-
pansão romana aproximou as pessoas sárias para formar um orador realmen-

te eficaz.

A retórica romana, aliás, devia mui-

to às técnicas da retórica grega. Muitos

oradores de Roma estudavam com pro-

fessores da Grécia. »»

91

CAPÍTULO 9 • CULTURA

Shutterstock EXEMPLO DE DIA A DIA VIDA SOCIAL
ORADOR
Tudo indica que os romanos tinham o A MOVIMENTAÇÃO PELAS
MARCO TÚLIO CÍCERO (106 A.C. costume de se levantar ao nascer do RUAS DA CIDADE ERA MUITO
A 43 A.C.) FOI O RESPONSÁVEL sol, já que as ruas não possuíam ilu- INTENSA DURANTE TODO O
POR DAR O MAIS FAMOSO minação – como ocorre hoje – e haver DIA. AS IDAS E VINDAS DAS
EXEMPLO DA REPÚBLICA SOBRE nas casas somente candeias de azeite. PESSOAS DE TODAS AS CLASSES
A PROEMINÊNCIA À QUAL UM Lavavam o rosto e logo calçavam suas SOCIAIS SE MISTURAVAM AO
HOMEM PODE CHEGAR COM O sandálias ou sapatos de madeira. Nem CAÓTICO COMÉRCIO.
SEU TALENTO EM RETÓRICA. perdiam tempo com a vestimenta, já Contudo, à noite o cenário
O pai dele pagou para estudar que dormiam com a roupa do cotidia- mudava por completo. Não era
a disciplina em Roma e na no mesmo (ou então diversas túnicas nada aconselhável sair após
Grécia. Entre os gregos, sobrepostas, dependendo do período o entardecer, pois a cidade
Cícero desenvolveu um estilo do ano). era violenta. Assassinatos
brilhante de oratória que o e assaltos eram bastante
permitiu superar o baixo status Em seguida, já se alimentavam com frequentes em solo romano.
social de origem – ele era filho a primeira refeição do dia: pão, queijo As termas eram os locais de
de uma família local vinda de e água. Os rapazes das famílias ricas encontro favoritos e tinham
um pequeno município italiano seguiam para o estudo acompanhados divisões para separar os homens
e não de um núcleo familiar da por seus escravos de confiança. das mulheres. Era o lugar para
elite romana. relaxar, praticar esportes e
Cícero começou a carreira de Os ricos utilizavam o período da encontrar amigos para um bom
orador público defendendo manhã para tratar dos seus negócios, papo. Os bares também eram
homens acusados de crimes. Era visitar propriedades e resolver demais bastante frequentados, mas
um início seguro e tranquilo, assuntos particulares. O passeio pelo somente pelos homens.
pois os réus ficavam gratos por fórum (praça pública) para conhecer
esse suporte e os promotores as últimas novidades, discutir assuntos VESTIMENTAS
públicos não retaliavam contra públicos e socializar com os amigos era PADRONIZADAS
apoiadores de réus. uma atividade de praxe.
Mas ele abalou as estruturas As roupas dos habitantes de Roma fo-
da elite social romana em 70 Por volta do meio-dia, os romanos ram extremamente influenciadas pelos
a.C., quando decidiu processar paravam para a segunda refeição. Essa gregos e variavam de acordo com sexo
por corrupção Caio Verres, um era rápida: carnes frias, frutas e legu- e categoria social. As mulheres soltei-
funcionário do alto escalão e mes. Tudo regado a um bom vinho. ras, por exemplo, geralmente vestiam
de enorme status. Seu discurso Após se alimentarem, voltavam aos uma túnica, sem mangas, que se es-
chacoalhou a capital com a seus trabalhos, parando habitualmente tendia até o tornozelo. Depois de se
ameaça de exilar Verres. Em 63 no meio da tarde para se banharem. casar, utilizavam o mesmo tipo de tra-
a.C., atingiu o auge do sucesso je, mas com mangas. As qualidades de
ao ser eleito cônsul, o mais alto O dia terminava com a refeição tecido também mudavam. Enquanto as
posto da República. principal, a ceia. Os mais ricos gosta- mulheres da elite trajavam roupas de
Durante toda a sua carreira, vam de convidar amigos para seus ban- algodão e seda, as das classes menos
Cícero utilizou o dom para a quetes. Comiam vários pratos, servidos abastadas utilizavam linho ou lã.
retórica em uma tentativa de por escravos em travessas comuns,
reconciliar as facções contrárias de onde o convidado retirava a comi- Os homens livres, por sua vez, ves-
na classe alta de Roma nas lutas da com uma colher ou mesmo com as tiam túnica de linho ou lã até os jo-
violentas por poder político no mãos. Depois do banquete, vinham as elhos. Esse comprimento evitava que
fim da República. distrações, como músicos, bailarinas ou as vestes atrapalhassem os seus mo-
Oradores estudaram seus recitais de poesia. vimentos. Já os trabalhadores usavam
roupas de couro por causa da durabi-
discursos – muitos dos Para os mais pobres, o trabalho lidade. A toga, um manto longo, era
quais ele preparou para a continuava até mais tarde e a ceia era usada somente pelos cidadãos a par-
publicação escrita após pobre, baseada no trigo – item distri- tir dos 14 anos de idade. Os meninos
pronunciá-los – a fim de buído gratuitamente ou a baixo cus- carregavam no pescoço um pendente
aprenderem as técnicas dos to, sobretudo nos tempos de Império. em forma de concha marinha, que era
argumentos estruturados Deitavam-se cedo e levantavam-se ao abandonado no momento de vestir a
com cuidado, clareza de nascer do sol para iniciarem mais um
expressão e imagens dia de trabalho.

convincentes.

Cícero foi o principal
nome da oratória
romana

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

toga, uma representação da chegada FIM DE COSTUMES ANTIGOS
à idade adulta.
Os principais preceitos estabelecidos ao longo dos anos em Roma acabaram
A indumentária também contava se deteriorando com o tempo. A busca desenfreada por poder e recursos fi-
com os acessórios como elementos nanceiros fez com que diversos líderes e integrantes das classes mais elevadas
muito importantes para os romanos. distorcessem valores há muito praticados no território romano.
Não era raro ver as mulheres utilizarem
braceletes, tornozeleiras, pulseiras, Comportamentos insanos de imperadores como Calígula (37 a 41 d.C) e
anéis e colares. Os materiais de joa- Nero (54 a 68 d.C) – que buscaram a glória própria acima de qualquer coisa
lheria mais comuns eram ouro, prata, – são exemplos. Uma prova clara disso é que, para ambos, não havia mais a
pedras preciosas e semipreciosas, como necessidade de respeitar as opiniões dos mais velhos, algo instituído como
cobre, bronze e ferro. Nelas, estavam imprescindível.
desenhados símbolos como o Cupido,
além de aves e cenas mitológicas. Outros imperadores vieram posteriormente e retornaram, em parte, para
alguns dos valores essenciais, mas muita coisa já havia mudado. Roma não
Também havia o costume de se voltaria a ter mais os mesmos costumes e, também por isso, deu início a um
passar maquiagem e usar perucas. Para período de declínio como nação dominante que era. As ações tiranas de alguns
complementar o vestuário, os homens no passado acabariam por diluir a prosperidade romana no futuro.
preferiam sandálias, chinelos e botas
de feltro ou couro. VII A.C.
A partir de sua fundação, Roma
Com o passar do tempo, houve, é estabeleceu-se como uma sociedade
claro, algumas mudanças e inserções, patriarcal. O pai dava as ordens e
como uma túnica interior por debaixo tinha o poder sobre as vidas dos filhos
da roupa principal. Essa nova peça ti-
nha como maior diferencial um capuz. APROXIMADAMENTE ANO 500 A.C.
Elite, além de dar as cartas na política,
Túnica definia os valores morais da sociedade
masculina ia
somente até

o joelho

Shutterstock

449 A.C. Shutterstock
Instituição da Lei das
Mulheres Shutterstock Doze Tábuas regulariza SÉCULO II A.C.
solteiras Shutterstock relação entre patrono Com a expansão
utilizavam territorial por meio
túnica sem e cliente das conquistas, a
mangas SÉCULO IV A.C. busca pelo poder
Nessa época, sociedade acaba distanciando
romana já tinha estabelecido muitos cidadãos
os valores centrais de romanos de seus
sua cultura: probidade, valores originais
fidelidade e status SÉCULO II D.C.
Imperadores seguintes
40 D.C. tentam retomar valores
Comportamento do do passado
imperador Calígula
mostra um acentuado
retrocesso dos
valores romanos

Shutterstock

60 D.C.
Governo de Nero apresenta mais um
capítulo da derrocada moral de Roma

93

CAPÍTULO 10 • ARTES

Shutterstock CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Fórum Romano:
a arte pelas
ruas da capital
italiana

INFLUÊNCIAS
GREGA E ETRUSCA
EM CENA

DOMINADORES TERRITORIAIS, OS ROMANOS FORAM
TOTALMENTE CONQUISTADOS PELOS ARTISTAS
DA GRÉCIA NA ANTIGUIDADE; A ETRÚRIA TAMBÉM
INTERFERIU DIRETAMENTE NA ARTE DE ROMA

O território dominado ia da Gália ao Cartago, da Grécia ao
Egito. Mas nem todo o inigualável poderio bélico e as vito-
riosas campanhas militares foram capazes de livrar Roma de se
render a algo: a arte grega. Tanto é verdade que praticamente
tudo o que foi produzido artisticamente pelos romanos durante
seus anos de ouro teve a influência dessa província.

Para muitos historiadores, inclusive, a “Cidade Eterna” – como a ca-
pital do antigo Império ficou conhecida – pouco produziu de original.
Segundo os especialistas, os romanos “abafaram” a única manifestação
artística significativa verificada em solo italiano, que foi a etrusca. Ao
invés de exaltar seu conteúdo interno, preferiram importar escultores,
decoradores e pintores gregos. Alguns críticos ressaltam que a poderosa
Roma contribuiu menos com a arte do que pequenos estados, como a
Suméria, por exemplo.

Já outros especialistas rechaçam essa opinião. Para esses, a socieda-
de romana era muito cosmopolita e aberta, o que permitiu a incorpora-
ção de certos elementos gregos. Entretanto, acreditam que não podemos
dizer em hipótese alguma que a arte romana foi uma mera cópia. Citam
como sua principal característica a ideia de energia, força, realismo e
grandeza material.

»»

95

ShutterstockCAPÍTULO 10 • ARTES Ponte sobre o rio Tibre é um exemplo
Shutterstockdo utilitarismo da arte romana
PRINCÍPIO
ARQUITETURA
No começo do século I a.C., Caio Mece-
nas, conselheiro do imperador Augusto, Um dos pontos altos da arte romana foi
foi o primeiro dos principais patronos a grandiosidade de suas construções.
da arte local. Na época dele, os artistas Com o poder exercido em seu tempo,
alcançaram, pela primeira vez na socie- passou essa ideia também para as im-
dade de Roma, o mesmo prestígio de ponentes edificações, sobretudo na
soldados e políticos. capital do Império. Mesmo sobre alicer-
ces gregos, não há como negar a com-
No entanto, a origem da arte ro- petência desenvolvida por Roma na
mana – propriamente dita – remonta execução de sua arquitetura. Por esse
ao início do século VIII a.C., aproxima- motivo, há quem diga que foi na enge-
damente. No século IV d.C., esse mo- nharia civil que os romanos realmente
vimento artístico na península itálica se encontraram.
chegaria ao fim para dar espaço à arte
cristã primitiva. Importante ressaltar que as cons-
truções eram executadas dentro de um
As criações artísticas em Roma, so- contexto de expansão. As edificações
bretudo a arquitetura e as artes plás- foram feitas conforme o desenvolvi-
ticas, atingiram uma notável unidade mento das cidades. Por conta disso, a
em consequência do poder político que praticidade sobressaía ao efeito arqui-
se estendia pelo vasto Império. A civi-
lização romana criou grandes cidades. Detalhe do domo do Panteão, em Roma
A estrutura militar favoreceu as cons-
truções defensivas – como fortalezas e O IMPRESSIONANTE PANTEÃO
muralhas – e as obras públicas (estra-
das, aquedutos e pontes). O grau eleva- APESAR DA FAMA DO COLISEU, ATÉ OS DIAS DE HOJE, UM EDIFÍCIO
do de organização daquela sociedade e IMPRESSIONA PELA BELEZA, GRANDIOSIDADE E CONQUISTA DO ESPAÇO
o utilitarismo do modo de vida foram EM ROMA: O PANTEÃO, UM TEMPLO DEDICADO A TODOS OS DEUSES. ELE
os principais fatores que caracterizaram NUNCA FOI DESTRUÍDO JUSTAMENTE POR ESSA RAZÃO, POIS, NO INÍCIO
toda a sua produção artística especifi- DA ERA CRISTÃ, FOI TRANSFORMADO EM IGREJA, PERMANECENDO COMO
camente nesse período. UM LOCAL DE CULTO.
De acordo com especialistas, “o Panteão é o prédio romano mais bem
conservado e um dos maiores marcos da arquitetura universal”. Sua cúpula, de
43 metros de diâmetro, continua a ser a maior construída sem a utilização de
concreto armado. A imensa cúpula, alegoria da abóbada celeste, é iluminada
graças a um óculo central de nove metros de diâmetro que simboliza o sol.
A espessura mínima dessa estrutura é de apenas um metro e meio.

96

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock

tetônico. A beleza de suas obras Fontana di Trevi, edificada FONTANA DI TREVI
provinha desse caráter funcional. no ano de 19 d.C.
UM DOS PONTOS TURÍSTICOS MAIS
Em geral, os arquitetos roma- Abaixo: Coliseu, um símbolo VISITADOS DE ROMA, A FONTANA DI
nos utilizaram as formas gregas, da arquitetura romana, TREVI FOI EDIFICADA NO ANO DE 19 D.C.
mas desenvolveram novas técni- e coluna ornamentada E ASSINALAVA O FINAL DO AQUEDUTO
cas de construção, como o arco que BATIZADO DE “ÁGUA VIRGEM”. A GRANDE
abrange uma distância maior que Shutterstock E FAMOSA OBRA ERA UMA HOMENAGEM
o sistema grego de pilar e dintel A UMA LENDA BASTANTE DIFUNDIDA. A
– dois postes verticais suportando HISTÓRIA CONTA QUE UMA JOVEM TERIA
uma trave horizontal. O concreto CONSEGUIDO SALVAR UM GRUPO DE
permitiu projetos mais flexíveis, SOLDADOS ROMANOS, QUE MORRIAM
como o teto abobadado e imensas DE SEDE, LEVANDO-OS ATÉ A FONTE,
áreas circulares com teto elevado SITUADA NO ATUAL CENTRO HISTÓRICO
por domo. DA CAPITAL ITALIANA.
No decorrer dos tempos, o projeto
Foi justamente esse caráter original foi modificado por várias e várias
funcional que levou os romanos a vezes. A partir do século XVII, arquitetos
desenvolverem o arco, a abóbada como Bernini, Salvi e Panini foram os
e o domo, itens que não foram principais responsáveis por deixá-la
utilizados pelos gregos, embora como conhecemos nos dias de hoje. A
eles os conhecessem. Entretan- localização, aliás, também mudou e
to, os romanos, como precisavam atualmente o monumento se encontra a
conquistar espaços, utilizaram-se alguns metros do originalmente proposto.
dos arcos, tendo em vista que eles A última reforma na fonte ocorreu no final
possibilitavam a proeza de gran- de 2015 depois de quase um ano e meio de
diosas construções. intervenções de restauro.
A Fontana di Trevi tem mais de 26
Quando o assunto é arquitetu- metros de altura e 49 metros de
ra romana, não há como deixar de largura. Diariamente, ela jorra cerca
lado o mais famoso desses edifí- de 80 mil metros cúbicos de água. O
cios, o Coliseu – a enorme arena projeto é baseado em três elementos
para 50 mil espectadores onde a arquitetônicos: uma fachada de
população era distraída pelos im- travertino, estátuas de mármore carrara
peradores com diversões em larga e um recife de travertino. No centro dela
escala. Segundo o historiador da está Netuno em sua carruagem. Há ainda
arte do século XX, Ernst Gombrich, um relevo mostrando a moça virgem
o Coliseu apresenta claramente indicando aos soldados a fonte de água.
características da construção ro- A lenda urbana indica que quem joga uma
mana, que suscitou muita admira- moeda na fonte – de costas, com a mão
ção em épocas subsequentes. direita e por cima do ombro esquerdo
– acaba voltando para Roma em outra
oportunidade. Os mais místicos afirmam »»
que, se você jogar duas moedas ao invés
de uma, encontrará o amor na cidade. Se
você arremessar três moedas, se casará
por lá mesmo. Vale dizer que a quantia
retirada todos os dias de lá é destinada
posteriormente à caridade.

Shutterstock

97

CAPÍTULO 10 • ARTES

Shutterstock

Ao fundo, o famoso Fórum de Trajano Shutterstock Esculturas romanas eram caracterizadas ESCULTURA
pelos traços mais reais
URBANISMO A influência etrusca se mostra eviden-
revestida de mármores e possuía salas te na escultura romana até o século II
O conhecimento contemporâneo sobre de reunião, bibliotecas, um templo con- a.C., apesar dos poucos vestígios re-
a arquitetura romana antiga é prove- sagrado a Trajano, além de uma basílica. manescentes. Após esse período his-
niente de diversas escavações arqueo- tórico, o estilo helênico mostrou a sua
lógicas feitas por toda a área do Impé- Já as termas são uma criação origi- predominância. Com o domínio sobre
rio e ainda de registros escritos, como nal dos arquitetos romanos. Nas grandes o território grego, Roma trouxe para
dedicatórias, livros e ainda inscrições. cidades, ocupavam um espaço conside- si diversas peças vindas de santuários
rável, com banhos, saunas e numerosos gregos do sul da Itália e da Anatólia.
Seguindo o plano etrusco, os roma- estabelecimentos anexos. Os banhos de Mais tarde, artistas da Grécia, insta-
nos edificavam as cidades em torno de Agripa, em Roma, hoje desaparecidos, lados na capital do Império, fizeram
duas avenidas principais. Uma via no são o primeiro exemplo da concepção réplicas e imitações das obras gregas
sentido norte-sul, a outra de leste para monumental das termas romanas dos mais apreciadas.
oeste, além de uma praça (ou fórum) na séculos II e III, das quais as mais famo-
interseção. Os edifícios públicos agrupa- sas são as do imperador Caracalla – que Em geral, os nomes dos artistas
vam-se em geral em torno do fórum. possuíam bibliotecas, salas de leitura não são conhecidos e, mesmo obras
e conversação, ginásios e um teatro – e importantes, como o “Altar da paz de
A arquitetura romana – que, no as de Diocleciano, a maior de todas com Augusto”, permaneceram anônimas. A
princípio, era dominada pela influência inacreditáveis 140 mil metros quadrados. antipatia dos romanos à nudez atlética
etrusca – conquistou um estilo mais pró- da escultura grega explica um pouco da
prio através do surgimento do cimento, No ano de 50 a.C., Pompeu cons- ausência de estudos de anatomia nessa
no século II a.C., da construção com tijo- truiu o primeiro teatro de alvenaria, arte. O rosto é a parte mais importante
los e do aprimoramento dos arcos. Já as em substituição à madeira. Diferente- das peças.
construções dos dois últimos séculos do mente dos gregos, os teatros romanos
Império incluem-se entre as manifesta- possuem um espaço semicircular reser- Assim, a escultura romana come-
ções mais importantes da arte romana. vado à plateia, uma pequena orquestra çou a desenvolver o seu estilo próprio.
– local destinado às danças, aos músi- Apesar de a arquitetura ser considerada
Após o grande incêndio ocorrido cos e aos coros – e um palco maior com a maior conquista dos romanos, é im-
no reinado de Nero, o aspecto urbano fundo feito de alvenaria. portante ressaltar que eles criaram um
transformou-se com as reconstruções. estilo bastante característico de escul-
Destacam-se os grandes fóruns im- O mausoléu, espécie de túmulo, tura. Os maiores exemplos disso são os
periais e o mais suntuoso de todos, o prevaleceu a partir do reinado de Au- famosos bustos romanos, peças dignas
de Trajano, em que predominavam os gusto. Dos templos mais antigos, so- da atenção dos admiradores da arte.
“mercados” – seis andares de lojas li- braram apenas alguns vestígios, como Nesse caso, não mais os deuses são
gados por corredores e escadarias, esca- os de Júpiter Capitolino, Saturno e Ce- adorados, ainda que os representados
vados na rocha viva do monte Quirinal. res, todos em Roma. A partir do século possuam traços muito semelhantes às
Verdadeira obra-prima da engenharia e I aumentou e muito a influência Síria. divindades.
da arquitetura romana em sua técnica A principal característica era a enorme
de origem oriental, o fórum de Trajano riqueza de elementos de decoração. Mais tarde, durante o Império Ro-
era cercado por uma grande muralha mano, seus imperadores foram conser-
vados em bustos e estátuas, objetos
que eram vistos com certa adoração.
Contudo, são retratos mais realistas
e, talvez, menos satisfatórios que as
obras gregas. Os artistas de Roma pre-
tendiam representar fielmente seus
retratados, porém, não os viam como
deuses perfeitos e sublimes, pois sua
escultura era mais literal. Esse espírito
prático dos romanos levava-os para o
caminho da realidade. Assim, o ima-
ginário – tão preconizado pela Grécia –
perdia seu espaço cada vez mais.

98

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

Shutterstock

De acordo com Agnes Strickland, Resquícios rada e baseia-se em originais gregos.
“os romanos tinham em casa másca- de um mural São painéis que parecem abrir-se para
ras – feitas em cera – dos seus ances- em Pompeia paisagens e palácios povoados por per-
trais”. O historiador destaca que essas mostram um sonagens da mitologia grega. O terceiro
imagens realísticas eram moldes total- pouco dessa estilo, ornamental, aparece em Pom-
mente factuais das feições do falecido. arte romana peia no fim do século I a.C. O realismo
Essa tradição influenciou os demais dá lugar à idealização e os personagens
escultores romanos. PINTURA míticos dominam completamente as
paisagens. O quarto estilo corresponde
Além dos bustos e estátuas, os re- Em geral, as pinturas de Roma origina- ao reinado de Nero, entre os anos 54 e
levos narrativos foram muito impor- ram-se de Pompeia e Herculano. Infe- 68. Na arte mural, destacam-se também
tantes. Painéis de figuras esculpidas lizmente, elas foram soterradas pela os mosaicos, de forte influência oriental.
representando feitos militares deco- erupção no monte Vesúvio. Os pintores
ravam arcos de triunfo, sob os quais romanos utilizaram, paralelamente, o MÚSICA E DANÇA
desfilavam os exércitos vitoriosos realismo e a imaginação.
conduzindo longas filas de prisionei- Sabemos hoje que a cultura musical
ros acorrentados. As mais antigas pinturas romanas do lado leste do Mediterrâneo, princi-
conhecidas são os afrescos descobertos palmente da Grécia, trazida pelas le-
Segundo o historiador de arte Ernst em uma tumba do monte Esquilino e giões romanas, foi alterada e também
Gombrich, a Coluna de Trajano, por datam, aproximadamente, do século III bastante simplificada. Ainda assim, as
exemplo, mostra toda a crônica ilustra- a.C. Assim como a escultura, a pintura, suas teorias musicais e acústicas, prin-
da de suas guerras e vitórias na Dácia em sua primeira fase, reflete a influência cípios de construção de instrumentos,
– a moderna Romênia. Todo o enge- etrusca e, em seguida, itálica e helênica. acervo de melodias e sistema de no-
nho e as realizações de séculos de arte tação formaram a base da música do
grega foram usados nessas autênticas Assim, elas desencadearam quatro Ocidente posteriormente.
façanhas de reportagem bélica. Mas a estilos distintos. O primeiro, de incrus-
importância que os romanos atribuíam tação, imita obras da Anatólia e da ilha Já na dança, ao contrário do que
a uma reprodução exata dos detalhes e de Delos e reproduz revestimentos de aconteceu em outros tipos de arte, o
a uma clara narrativa que gravasse as mármore multicolorido. Entre 70 a.C. e Império Romano não seguiu os passos
façanhas de uma campanha – impres- o ano 20 da era cristã, o segundo estilo da cultura dos etruscos. Aparentemen-
sionando quem ficara em casa – modi- arquitetônico apresenta técnica aprimo- te, as mulheres da Etrúria tinham um
ficou o caráter da arte. importante papel nas danças em pa-
CURIOSIDADE res, realizadas sem máscaras em locais
Apesar de os painéis serem bem públicos. A cultura romana, envolta ao
feitos, o objetivo dos romanos era a Seguindo o caráter utilitarista seu conhecido racionalismo, era muito
ilustração perfeita de um fato históri- de sua arte, os romanos da avessa à dança. Até o início do século
co. Eles não se preocupavam mais com Antiguidade usaram bastante III, tais movimentos corporais ficavam
ideais de beleza ou harmonia em suas as esculturas para retratar
obras tal qual o grego fazia. Eles tinham fielmente seus mortos. restritos a formas processuais ligadas a »»
gosto apurado pela narração. Os assun- Essas peças eram carregadas
tos que eram narrados e representados durante as procissões
tornaram-se o mais importante ele- fúnebres. As celebrações
mento de todos. faziam parte de um costume
que se relaciona ao dos
A escultura floresceu nos séculos I e egípcios, na crença de que a
II, especialmente no reinado de Adriano, imagem conserva a alma.
sob forte influência grega. Um segundo
momento importante teve início no ano
de 193, com Sétimo Severo. Entretanto,
as abaladas condições políticas a partir
do século III trouxeram a decadência de
todas as artes e também da escultura.
Entre os objetos domésticos (lâmpadas,
ferramentas, armas etc.) – executados
predominantemente em bronze –, exis-
tem verdadeiras obras de arte.

99

CAPÍTULO 10 • ARTES

Shutterstock Detalhe do Arco de Tito, que ritos de guerra e também agrícolas. gências daquele contexto e se dedicou
possui 15 metros de altura Mais tarde, a influência etrusca e à tradução das tragédias gregas. Ape-
nas no final do século II a.C. surgiria a
ARCO DE TITO grega se disseminou, mas as pessoas verdadeira comédia latina.
que dançavam eram consideradas sus-
O ARCO, COMO O NOME peitas, afeminadas e até mesmo peri- As representações teatrais eram par-
SUGERE, FOI CONSTRUÍDO EM gosas pela aristocracia romana. Cícero, te do entretenimento gratuito oferecido
MEMÓRIA AO IMPERADOR TITO por exemplo, ressaltou que a dança era nos festivais públicos. Desde o início, no
FLÁVIO VESPASIANO AUGUSTO um sinal de insanidade. O culto grego a entanto, o teatro romano dependeu do
(39 D.C. A 81 D.C.). FILHO Dioniso incluía a indução ao êxtase por gosto popular, de uma forma que nun-
MAIS VELHO E DESCENDENTE meio de uma dança convulsiva. ca havia ocorrido na Grécia. Assim, caso
DE VESPASIANO, ELE uma peça não agradasse ao público, o
GOVERNOU ROMA ENTRE OS No Império Romano, as danças trans- promotor do festival era obrigado a de-
ANOS DE 79 E 81. formaram-se nas festas com orgias de volver parte do subsídio que recebera.
O imponente arco teria sido Baco, a princípio só para mulheres e re- Por isso, mesmo durante a época da
edificado, provavelmente, alizadas durante três dias no ano. Embo- República, havia certa ansiedade em
após a morte dele, por desejo ra secretos, tais cultos se disseminaram, oferecer à plateia algo que a agradasse,
de seu irmão Domiciano, para passaram a incluir também os homens e o que logo se comprovou ser o sensacio-
comemorar a vitória do então chegaram a uma frequência de cinco por nal, o espetacular e o grosseiro.
general em campanha militar mês. No ano de 186 a.C., sob a alegação
realizada no ano de 70 na cidade de obscenidade, foram proibidos e seus Os imperadores romanos fizeram
de Jerusalém. praticantes sofreram implacável perse- um uso descarado desse fato, provendo
O monumento pode ser visitado guição, somente comparável à movida “pão e circo” – segundo a célebre ex-
na zona oriental do Fórum contra os cristãos. Na verdade, seu cará- pressão cunhada pelo satirista Juvenal
Romano, ao sul do templo de ter de sociedade secreta era ameaçador – para que o povo se distraísse de suas
Vênus e Roma. Trata-se de um para o Estado. Por volta do ano 150 a.C., miseráveis condições de vida. O gran-
arco revestido de mármore foi ordenado também o fechamento de dioso Coliseu e outros anfiteatros es-
que apresenta quatro colunas. todas as escolas de dança, o que não er- palhados por todo o Império atestam o
O Arco de Tito tem 15 metros radicou a prática. Dançarinos e professo- poder e a grandeza de Roma, mas não
de altura, 13 metros de largura res eram trazidos, em número cada vez sua energia artística.
e quase cinco metros de maior, de outros países.
profundidade. Não há razões para crer que tais
Nele, estão esculpidos em TEATRO
baixo-relevo talhado, de um O filósofo
dos lados, soldados romanos Essa representação artística foi total- Sêneca foi
carregando lanças, coroados mente calcada nos costumes gregos. um dos
de louros e transportando Isso ocorria apesar de já existir na pe- entusiastas
símbolos sagrados do judaísmo, nínsula itálica uma tradição teatral bas- do teatro de
como a mesa do pão ázimo, tante incipiente, de influência etrusca. tragédia em
as trombetas de prata e o Em 240 a.C., teria sido apresentada pela pequenos
candelabro. Do outro lado, primeira vez uma peça traduzida do gre- recintos
o relevo mostra Tito vitorioso, go durante os jogos romanos. O primei-
em pé, numa carruagem ro autor romano a produzir uma obra de Shutterstock
puxada por quatro cavalos e qualidade mais refinada – estreou em
conduzida por uma mulher, 235 a.C. – foi Cneu Nevius. O teatro his-
que representa Roma. tórico foi a criação original inicial do au-
tor, que ainda incorporou às suas peças
– classificadas como mordazes e francas
– críticas à aristocracia romana. Ele teria
sido preso ou exilado por conta disso.

Muito por conta disso, o grande po-
eta Quintus Enius, sucessor de Nevius,
decidiu adaptar o seu talento às exi-

100

CONHEÇA A HISTÓRIA • ROMA

construções se destinavam a outra coisa LEGADO romanos incorporaram inovações em
que não espetáculos banais e degradan- ARTÍSTICO dois campos principais, que seriam o
tes. As arenas foram então totalmente retrato e o relevo descritivo. O retrato
ocupadas por gladiadores em combates Mesmo com a indiscutível influência em si, como processo artístico, passou
mortais, feras espicaçadas até se faze- da arte grega, é igualmente inquestio- por diversas etapas, já que não só re-
rem em pedaços, cristãos cobertos de nável o fato de o movimento artístico fletiu com bastante aproximação as
piche e usados como tochas humanas. romano ter conseguido formar a sua modas, como também se manifestou
Não é de se admirar que tanto os es- própria identidade de modo bastante de maneira sucessiva em grandes mo-
critores como o público de outra índole rápido. Por meio da representação real mentos e lugares e tendências ultrarre-
passassem a considerar o teatro como e extremamente fiel das pessoas – na alistas, ilustrando o mais real possível,
manifestação indigna e humilhante. contramão da Grécia, que buscava ide- ajudando posteriormente na execução
alizar o que era retratado –, os romanos das esculturas.
Durante o período imperial, surgi- apresentavam em suas peças figuras
ram as tragédias para pequenos recin- verdadeiras da casta social. A temática histórica desses relevos
tos privados ou para declamação sem narrativos se constituiu com a contri-
encenação. São desse tipo as obras de Além disso, Roma foi uma socieda- buição mais original de Roma para
Sêneca, filósofo estóico e principal con- de claramente visual. Com a maioria essa forma artística, sempre exaltando
selheiro de Nero, as quais exerceram absoluta de sua população analfabeta feitos militares, quase como uma his-
enorme influência durante o Renasci- e sem capacidade até mesmo de falar o tória em quadrinhos. Outra forma de
mento, sobretudo na Inglaterra. Ainda latim erudito que circulava entre a eli- expressão importante foi o mosaico,
durante a República, a mímica e a pan- te, as artes visuais funcionaram como que, mais tarde, foi muito utilizado na
tomima tornaram-se as formas teatrais uma espécie de literatura acessível às Idade Média.
mais populares. Baseadas nas impro- grandes massas, confirmando ideolo-
visações e agilidade física dos atores, gias e divulgando a imagem de perso- Diante desse quadro, é possível des-
elas ofereciam uma ampla oportuni- nalidades eminentes. Nesse contexto, tacar que a arte de Roma, dentro de seu
dade para a audaciosa apresentação a escultura desfrutou de uma posição contexto de conquistas, ao contrário do
de cenas imorais e pornográficas. No privilegiada, ocupando todos os espa- que muita gente afirma, foi muito im-
tempo da perseguição aos cristãos, sob ços – públicos e privados – e povoando portante e deixou importantes legados
Nero e Domiciano, a fé cristã era ridicu- as cidades com inumeráveis exemplos para as nações futuras. Com um caráter
larizada. Depois do triunfo do cristianis- em várias técnicas. mais utilitário, os romanos levaram o
mo, porém, as apresentações teatrais ambiente artístico para o cotidiano e a
foram sumariamente proibidas. Apesar de ter notáveis influências realidade para peças que antes repre-
de movimentos artísticos passados, os sentavam apenas um ideal inatingível.

SÉCULO VIII A.C. SÉCULO I A.C. Shutterstock SÉCULO I
Surgimento da arte romana propriamente Caio Mecenas, conselheiro do Escultura floresce,
dita; nesse período, ela ainda era totalmente imperador Augusto, é o primeiro especialmente
dominada por influências gregas e etruscas patrono da arte romana no reinado de
Adriano, sob forte
SÉCULO II A.C. ANO 50 A.C. influência grega
Arquitetura romana, É construído o primeiro
antes dominada pela teatro de alvenaria ANO 19 D.C.
influência etrusca, É edificada na capital
Shutterstock conquista estilo do Império a famosa
próprio através do Fontana di Trevi
surgimento do cimento
SÉCULO IV
ANO 240 A.C. Shutterstock A arte romana dá lugar
Teria sido apresentada pela à arte cristã primitiva
primeira vez uma peça traduzida do
grego durante os jogos romanos

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