Em sua produção lírica, Camões utiliza-se tanto da chamada “medida velha” (redondilhas) quanto da “medida
nova” (decassílabos) com extrema habilidade. Sua temática apresenta certo desconcerto com o mundo e uma duali-
dade que se dá entre o amor material e aquele idealizado. Entretanto, todas as antíteses e paradoxos são construídos
de forma racional e passadas com uma mistura de lirismo e uma análise intelectual do sentimento amoroso.
SONETO
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões
9. LITERATURA BRASILEIRA
9.1 QUINHENTISMO BRASILEIRO
Assim como cada autor tem suas preferências temáticas ou expressionais, as épocas também as têm. Um
escritor de uma época passada não trata dos mesmos assuntos de um autor contemporâneo, nem mesmo utiliza a sua
linguagem. As mudanças culturais são responsáveis por variações estéticas no tempo e no espaço. Assim, cada estilo
literário é caracterizado por valores artísticos, morais, religiosos, políticos e sociais predominantes em determinada
época.
No entanto, por maior que seja a influência do estilo predominante em sua época, cada escritor é um indivíduo
que sempre deixa impressa sua marca no texto que produz. Por isso, um texto é o cruzamento entre um estilo de época
e estilo individual.
Esses estilos individuais e estilos de época não ficam restritos à literatura. Eles também se manifestam em
outras formas de arte. Veja, a seguir, como foi representado o primeiro contato entre índios e europeus.
(Oscar Pereira da Silva, Desembarque de Cabral em Porto Seguro – Século XX)
Contexto histórico
Desde o século XIV, a Igreja perde espaço no monopólio da cultura. A burguesia começa a frequentar a uni-
versidade e toma contato com uma cultura desligada dos conceitos da Idade Média. A decadência do feudalismo e o
fortalecimento da burguesia resultam em uma visão mais liberal, antropocêntrica, identificada com o mercantilismo.
150
Recuperam-se os ideais da Antiguidade greco-romana, com a valorização da arte, da filosofia e da mitologia.
Em Portugal, as grandes navegações impelem o espírito português à sua vocação desbravadora e navegante.
A chegada da imprensa possibilita a divulgação das obras de autores humanistas europeus. A Revolução de Avis alia
a monarquia aos ideais mercantilistas proporcionando a expansão marítima portuguesa.
A cultura e as artes florescem, desmantelando os quadros da antiga cultura medieval. O êxodo rural provoca um surto
de urbanização, que gera as condições para o desenvolvimento de uma nova cultura, sendo essas cidades polos de
irradiação do Renascimento. A Igreja sofre os reflexos dessa crise: as forças burguesas rompem com o medievalismo
católico no movimento da Reforma Protestante, ao passo que as forças tradicionais reafirmam seus dogmas católicos
através das resoluções do Concílio de Trento, nos tribunais da Inquisição, lançando as bases para o movimento da
Contrarreforma.
De um lado, a conquista material – representada em Portugal pelas conquistas marítimas; de outro, as mu-
danças espirituais – representadas aqui pela Contrarreforma. São essas as premissas para as primeiras manifestações
da Nova Terra: as cartas informativas – dando conta das riquezas materiais; e a literatura jesuítica, voltada ao trabalho
de catequese.
No Brasil, a ocupação efetiva do território pelos portugueses só começou por volta de 1530. A atividade literária
não passava de alguns textos de informação sobre a nova terra – riquezas, paisagens e indígenas. Para garantir o
domínio das novas terras, a metrópole portuguesa organizou capitanias hereditárias e enviou jesuítas para catequizar
os índios.
O conjunto de manifestações dos anos de 1500, retratando a condição colonial do Brasil, sua terra e população, bem
como as atividades realizadas na nova terra, é chamado de Quinhentismo. Essa literatura, apesar de produzida em
solo brasileiro, reflete o pensamento, a visão de mundo, as ambições e as intenções do conquistador português.
Literatura informativa
A literatura desta primeira fase faz um levantamento da nova terra, sua flora, sua fauna, sua gente. A finalidade
desses textos é descrever as viagens e os primeiros contatos com a terra e os nativos, por isso essa literatura também
é chamada de literatura dos viajantes, literatura de expansão ou literatura dos cronistas.
O objetivo principal é descrever e informar tudo o que pudesse interessar aos governantes portugueses. Não havia nes-
sas comunicações quaisquer sentimentos de apego em relação à terra conquistada, percebida como mera extensão da
metrópole. O que havia era a exaltação da terra, resultante do assombro europeu diante da exuberância natural desta
terra tropical.
Por serem descritivas, tais cartas são carregadas de adjetivos, com uso exagerado de superlativos como forma
de louvar a terra conquistada pelos portugueses. Essa exaltação da terra exótica, dos nativos – vistos com certa simpa-
tia e malícia, é chamada de ufanismo e dá origem ao movimento nativista, que valoriza tudo aquilo que é pertencente
à terra nova.
O primeiro e mais importante desses registros foi a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro
Álvares Cabral, endereçada a el-rei Rei D. Manuel. É considerada como a “certidão de nascimento” do Brasil; nela,
Caminha mostra claramente as preocupações que atormentavam o povo português da época: a conquista de bens
materiais e o aumento do número de fiéis adeptos ao Catolicismo. Veja um trecho da carta:
“Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte
vem, de que nós deste porto houvemos vista¹, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte cinco léguas por costa.
Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas² brancas; e a terra por cima toda
chã³ e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma4, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com
arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho
vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre-Douro e Minho5, porque
neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que
Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute6, isso bastaria. Quanto mais dis-
posição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento7, da nossa santa fé.”
1. houvemos vista: pudemos ver
2. delas… delas: umas… outras
3. chã: plana
4. praia-palma: segundo J. Cortesão, pode significar “toda praia, como a palma, muito chã e muito formosa”
5. Minho: nome de uma região de Portugal
6. Calecute: cidade da Índia para onde se dirigiam os portugueses
7. acrescentamento: difusão, expansão
151
Além de Pero Vaz de Caminha, certamente a figura mais conhecida entre os cronistas da nova terra, também
outros viajantes relataram suas impressões sobre a nova terra e os nativos. Entre eles podem-se destacar:
• Pero Lopes e Sousa: Diário de Navegação (1530);
• Pero Magalhães de Gândavo: Tratato da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente
Chamamos de Brasil (1576);
• Gabriel Soares de Souza: Tratado Descritivo do Brasil (1587);
• Ambrósio Fernandes Brandão: Os Diálogos das Grandezas do Brasil (1618).
Literatura de catequese ou jesuítica
A outra manifestação literária que se dá em terras brasileiras ocorre graças aos jesuítas, religiosos que chega-
ram ao Brasil junto dos primeiros colonizadores com a missão de catequizar os índios. Esses jesuítas deixaram várias
cartas, tratados descritivos, crônicas históricas e poemas.
Destacam-se na produção literária de catequese os padres Manuel da Nóbrega, Fernão Cardim e, principal-
mente José de Anchieta. Os jesuítas produziram poesias de devoção, peças teatrais de caráter pedagógico, inspirado
em passagens bíblicas e documentos que informavam o andamento de seus trabalhos a seus superiores na metrópole.
Coube a Anchieta também a produção de uma gramática da língua tupi.
As composições dos jesuítas representavam o pensamento da Contrarreforma, contrários às ciências e tudo
aquilo que representasse a liberdade de expressão ou de ideias. A intenção é puramente “salvacionista” e a forma ig-
nora por completo as influências da arte renascentista.
O trabalho de catequese jesuítica, ao mesmo tempo em que impediu a destruição completa dos índios –
através da luta incansável contra a escravidão indígena (o que rendeu o ódio dos colonos) –, destruiu os valores
culturais indígenas, impondo um modo de vida e uma religiosidade completamente distintos do que estavam acostuma-
dos, transformando-os em presas fáceis de bandeirantes e capitães do mato. Vejamos um poema de José de Anchieta:
À Santa Inês
Na vinda de sua Imagem
Cordeirinha linda,
Como folga o povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.
Cordeirinha santa,
De Jesus querida,
ossa santa vida
O Diabo espanta.
Por isso vos canta
Com prazer o povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
Fugirá depressa,
Pois vossa cabeça
Vem com luz tão pura.
Vossa formosura
Honra é do povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.
Virginal cabeça,
Pela fé cortada,
Com vossa chegada
Já ninguém pereça;
152
HORA DE PRATICAR
01. (UPE-03) Otrechoacima,deumlivrode1516,narrapartedeumaviagem
imaginária à Lua. Lá, o personagem encontra o que não
O quadro de Sandro Botticelli, O Nascimento de Vênus, é há na Terra e não encontra o que aqui há em excesso.
uma expressão singular das mudanças artísticas trazidas Pode-se identificar o caráter humanista do texto na:
pelo Renascimento e inspiradas na Antiguidade Clássica.
Alguns o consideram a primeira pintura renascentista com a) certeza, de origem cristã, de que a reza (suplicar ao
tema exclusivamente mitológico e leigo. Nesse sentido, céu) é a única forma de se obter o que se busca;
podemos afirmar que:
b) constatação da pouca razão (siso) e da grande lou-
a) há pouca originalidade na arte renascentista, preva- cura existente entre os homens;
lecendo os modelos clássicos em contraste com a
pintura medieval; c) aceitação da limitada capacidade humana de fazer
poesia (o verso meu não dura);
b) a pintura renascentista trouxe padrões estéticos
renovadores, apesar da importância da influência d) percepção do desleixo e da indiferença humanos (o
clássica; tempo e as muitas obras que perdia);
c) a arte renascentista trouxe a profissionalização do e) ambição dos homens em sua busca de bens (Mil
artista com o afastamento dos temas religiosos e a coisas de que andamos à procura).
ausência da Igreja no financiamento das suas obras;
03. (UNESP/SP) 5 Foram características do Renascimen-
d) apenas o quadro de Botticelli expressa a influência to, entre outras:
da mitologia, sendo uma bela e marcante exceção;
a) a retomada dos valores da cultura greco-romana; o
e) O mundo renascentista expressou concepções es- antropocentrismo; a convicção de que tudo pode ser
téticas renovadoras que não tiveram permanência explicado pela ciência;
na arte ocidental.
b) a reafirmação dos valores da cultura medieval; o
deísmo; o caráter civil da produção artística;
c) o repúdio aos valores da cultura greco-romana; o
deísmo; o racionalismo;
d) o repúdio aos valores da cultura medieval; o antropo-
centrismo; a negação de que tudo pode ser explicado
pela razão e pela ciência;
e) avalorizaçãodaculturaoriental;ohumanismo;ocaráter
eclesiástico da produção artística
04. (FATEC) 6 A obra O Homem Vitruviano, de Leonardo
da Vinci (c. 1490), pode ser classificada como típica
do ___________ , pois é uma imagem___________.
02. (PUC-SP) 4 Observe o texto a seguir
Outras coisas que viu, mui numerosas, Analisando as características da imagem, assinale a alter-
Pedem tempo que o verso meu não dura, nativa que preenche, correta e respectivamente, o texto
Pois lá encontrou, guardadas e copiosas, a seguir.
Mil coisas de que andamos à procura.
Só de loucura não viu muito ou pouco a) Feudalismo... teocêntrica
Que ela não sai de nosso mundo louco. b) Feudalismo... aristocrática
Mostrou-se-lhe também o que era seu, c) Renascimento... antropocêntrica
O tempo e as muitas obras que perdia, d) Renascimento... teocrática
(...) e) Realismo... majestática
Viu mais o que ninguém suplica ao céu,
Pois todos cremos tê-lo em demasia:
Digo o siso, montanha ali mais alta
Que as erguidas do mais que aqui nos falta.
ARIOSTO, Ludovico. Orlando Furioso. São Paulo: Atelier, 2002. p. 261:
153
05. (UPF-2017) 12 Considere as afirmações a seguir em 07. (UNISA) A “literatura jesuíta”, nos primórdios de nossa
relação ao período de formação da literatura brasileira. história:
I. AolongodoséculoXVI,aliteraturabrasileiraéformada, a) tem grande valor informativo;
predominantemente, por textos informativos sobre a b) marca nossa maturação clássica;
natureza e o homem brasileiro, escritos por viajantes c) visa à catequese do índio, à instrução do colono e sua
e missionários europeus.
assistência religiosa e moral;
II. Nos séculos XVII e XVIII, verificam-se influências do d) está a serviço do poder real;
Barroco europeu na incipiente literatura brasileira e, e) tem fortes doses nacionalistas.
também, nas artes plásticas e na música nacionais,
sendo que as produções relativamente originais 08. (UFSM-RS) Sobre a literatura produzida no primeiro
dessas últimas artes permitem que se fale de um século da vida colonial brasileira, é correto afirmar que:
“Barroco brasileiro”.
a) Éformadaprincipalmentedepoemasnarrativosetextos
III. De meados do século XVIII até a eclosão do Ro- dramáticos que visavam à catequese.
mantismo, na primeira metade do século XIX, o
estilo literário dominante nas letras nacionais é o b) Inicia com Prosopopeia, de Bento Teixeira.
Arcadismo, caracterizado por uma oposição siste- c) É constituída por documentos que informam acerca
mática ao avanço do racionalismo iluminista, cuja
influência busca neutralizar através da celebração da terra brasileira e pela literatura jesuítica.
da natureza e da vida no campo. d) Os textos que a constituem apresentam evidente
Está correto apenas o que se afirma em: preocupação artística e pedagógica.
e) Descreve com fidelidade e sem idealizações a terra
a) I e III.
b) II. e o homem, ao relatar as condições encontradas no
c) III. Novo Mundo.
d) I e II.
e) II e III. 09. São características da poesia do Padre José de An-
chieta:
06. (ENEM) Dali avistamos homens que andavam pela
praia, obra de sete ou oito. Eram pardos, todos nus. a) a temática, visando a ensinar os jovens jesuítas
Nas mãos traziam arcos com suas setas. Não fa- chegados ao Brasil;
zem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas
vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mos- b) linguagem cômica, visando a divertir os índios; ex-
trar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados pressão em versos decassílabos, como a dos poetas
e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros. clássicos do século XVI;
Os cabelos seus são corredios.
c) temas vários, desenvolvidos sem qualquer preocu-
CAMINHA, P. V. Carta. RIBEIRO, D. et al. Viagem pela história do Brasil: documentos. São pação pedagógica ou catequética;
Paulo: Companhia das Letras, 1997 (adaptado).
d) função pedagógica; temática religiosa; expressão em
O texto é parte da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, redondilhas, o que permitia que fossem cantadas ou
documento fundamental para a formação da identidade recitadas facilmente.
brasileira. Tratando da relação que, desde esse primeiro
contato, se estabeleceu entre portugueses e indígenas, 10. (IFSP-2016) 14 A respeito do Quinhentismo no Brasil,
esse trecho da carta revela a marque (V) para verdadeiro ou (F) para falso e assinale
a alternativa correta.
a) preocupação em garantir a integridade do coloniza-
dor diante da resistência dos índios à ocupação da ( ) A principal obra do período foi A moreninha, de Jo-
terra. aquim Manuel de Macedo, cuja temática era o índio
brasileiro.
b) postura etnocêntrica do europeu diante das carac-
terísticas físicas e práticas culturais do indígena. ( ) Consta que o primeiro texto escrito no território do Brasil
foiaCartadePeroVazdeCaminha,emqueregistrasuas
c) orientação da política da Coroa Portuguesa quanto impressões sobre a terra recém-descoberta.
à utilização dos nativos como mão de obra para
colonizar a nova terra. ( ) Entre as publicações daquela época, encontram-se
cânticos religiosos, poemas dos jesuítas, textos
d) oposição de interesses entre portugueses e índios, que descritivos, cartas, relatos de viagem e mapas.
dificultava o trabalho catequético e exigia amplos
recursos para a defesa recursos para a defesa da ( ) A produção das obras escritas naquele período
posse da nova terra. apresenta um caráter informativo, documentos que
descreviam as características do Brasil e eram en-
e) abundânciadaterradescoberta,oquepossibilitouasua viados para a Europa.
incorporação aos interesses mercantis portugueses,
por meio da exploração econômica dos índios. a) V, V, V, F.
b) F, V, F, V.
c) F, V, V, F.
d) V, F, V, V.
e) F, V, V, V
154
9.2 O BARROCO
O Barroco, também chamado de Seiscentismo, foi o movimento artístico que predominou no século XVII. No
Brasil, teve início em 1601 com a publicação do épico Prosopopeia , de Bento Teixeira.
Contexto histórico
A cultura ocidental no O século XVII caracterizou-se por uma espécie de crise espiritual. De um lado, o sensu-
alismo e o paganismo do Renascimento, em declínio; do outro, um forte apelo religioso que remetia ao teocentrismo
medieval. Além disso, foi uma época marcada pela tensão, por conflitos e turbulências entre o Estado e a Igreja.
Características principais:
• Dualidades e antíteses
Conflito entre o corpo e a alma, a vida terrena e a vida eterna, a vida virtuosa e a vida do pecado, a vida e a
morte, a razão e a fé. É o conflito entre os princípios cristãos da Igreja Católica e os princípios do Renascimento e do
Classicismo (paganismo, racionalismo, antropocentrismo). O Barroco é uma época de conflitos de princípios opostos,
das antíteses, é o período em que se tenta conciliar o inconciliável. A Igreja Católica reage à Reforma Protestante com
a Contrarreforma e com a Inquisição, procurando reprimir as manifestações culturais que vão contra as suas doutrinas.
Portanto, esse é um período de contradições e de dualidades, no qual o homem se vê perdido entre a doutrina cristã e
as ideias do Renascimento (Classicismo).
• Cultismo e Conceptismo
O homem barroco valoriza o cultismo, ou seja: a linguagem difícil e rebuscada, cheia de inversões e de jogo
de palavras, empregando demais as figuras de linguagem. Ele também valoriza o conceptismo, que está associado ao
pensamento complexo, ao raciocínio lógico, ao jogo de ideias. Ou seja: as palavras são rebuscadas e difíceis (cultismo)
e as ideias e o raciocínio são complexos (conceptismo).
• O Tempo (Carpe Diem)
O tempo passa rápido, a vida é efêmera (é rápida), o tempo é veloz e destrói tudo. Tudo é instável e passage-
iro. O homem barroco vive esse conflito de modo angustiado.
Autores
• Pe. Antônio Vieira.
Antônio Vieira é a principal expressão do Barroco em Portugal, mas sua obra pertence tanto à literatura portu-
guesa quanto à brasileira. Seus sermões estavam a serviço das causas políticas que abraçava e defendia. Defendia os
índios contra a escravidão (mas não tinha a mesma postura com a escravização dos negros, limitando a apontar-lhes
uma perspectiva de vida após a morte que compensasse os sofrimentos da vida). Seus sermões eram dotados de raci-
ocínios complexos e lógicos, com metáforas, comparações e alegorias (um discurso que faz entender outro; exemplo:
“semeadura” ou “semente do trigo” são alegorias que representam uma coisa só: a disseminação da doutrina cristã).
155
• Gregório de Matos
No Barroco brasileiro, o grande destaque foi Gregório de Matos. É considerado o maior poeta barroco brasileiro
e um dos fundadores da poesia lírica e satírica em nosso país. Por ser irreverente e satírico ele recebeu o apelido
de “Boca do Inferno”. Não publicou nenhuma obra em vida, seus poemas eram transmitidos oralmente, na Bahia, até
meados do século XIX, quando foram reunidos em um livro.
- Poesia Lírica
Amorosa: dualismo amoroso (carne X espírito), que leva a um sentimento de culpa cristão. A mulher é a personificação
do pecado e da perdição espiritual (morte). O apelo sensorial do corpo se contrapõe ao ideal religioso. O poeta fica
dividido entre o pecado (representado na mulher) e o espírito (cristianismo).
Religiosa: obedece aos fundamentos do Barroco europeu. Temas: amor a Deus, culpa, arrependimento, pecado, per-
dão. Linguagem culta, com inversões e muitas figuras de linguagem.
Filosófica: desconcerto do mundo, consciência da transitoriedade da vida e do tempo (carpe diem).
- Poesia Satírica: criticou todas as classes da sociedade baiana de seu tempo. Linguagem diversificada, com termos
indígenas, africanos, palavrões, gírias e expressões locais.
9.3 O ARCADISMO
O Arcadismo, também chamado de Neoclassicismo, surgiu na Europa em uma época de ascendência da bur-
guesia e dos valores políticos, sociais e religiosos. No Brasil foi o movimento literário que começou na segunda metade
do século XVIII, marcado inicialmente pela publicação de “Obras Poéticas” de Cláudio Manuel da Costa.
A palavra vem de “arcádia”, região do sul da Grécia Antiga em que viviam muitos pastores. Um lugar que os
poetas antigos transformaram como um lugar perfeito para viver, tranquilo, como um paraíso.
Contexto histórico
Era a época do Iluminismo na Europa, da Revolução Francesa, da Independência das Treze Colônias na
América do Norte e essas ideias de “liberdade”, “igualdade” e “fraternidade” que nasceram na Filosofia Francesa
chegaram ao Brasil, inspirando a Inconfidência Mineira. O Brasil era colônia de Portugal e o desejo de liberdade e de
independência ficava cada vez mais intenso por aqui. Porém, escrever sobre isso era perigoso e, por conta disso, os
escritores do período costumavam usar pseudônimos.
156
É importante observar que o Arcadismo brasileiro passa a ter características mais próprias, diferenciando-se
da Literatura europeia. Sendo assim, a Literatura Brasileira passa a ter mais identidade, passa a «andar mais com as
próprias pernas», a ter mais autonomia.
Características principais:
Crítica da vida nas cidades (“fugere urbem” ou “fuga da cidade”), valorização da vida no campo (vida bucólica),
vida mais simples e natural, uso de apelidos, linguagem mais simples, pastoralismo (vida pastoril no campo), sentimen-
tos mais espontâneos, pureza dos nativos (mito do “bom selvagem”, de Rousseau).
Principais autores do período
• Cláudio Manuel da Costa (apelido: Glauceste Satúrnio)
Poesia Lírica: “Obras Poéticas”, a obra que marcou o início do Arcadismo no Brasil. O autor se declara para sua musa
(Nise), mas vive se lamentando por não ser correspondido por ela. Nise é uma figura distante, não se manifesta e nem
é descrita com detalhes. A lírica se limita a lamentação do autor em não ser correspondido. Possui traços do barroco
(como inversões) apesar de ser árcade e tem afinidade com a tradição clássica (à lírica de Camões).
Poesia Épica: “Vila Rica”. Diz a respeito a descoberta das minas, fundação de Vila Rica, entradas e bandeiras, revoltas
locais, etc... Destaca-se a descrição da paisagem local. Tem afinidade às tradições clássicas.
• Tomás Antônio Gonzaga (apelido: Dirceu)
Poesia Lírica: “Marília de Dirceu”. Poesia de transição entre o Arcadismo e o Romantismo. A mulher (Marília) é descrita
de uma forma mais emotiva, espontânea, humana e real, comparando com Nise, de Cláudio Manuel. O tema do distan-
ciamento da mulher amada e do sofrimento em virtude disso é encarado de uma forma mais real.
Poesia Satírica: “Cartas Chilenas”. Foi um meio que Gonzaga usou para criticar o governador da capitania de Minas
Gerais (Luís da Cunha Meneses) e seus assessores. Essas cartas circulavam pela cidade e não se sabia a autoria,
pois essas cartas eram escritas baseadas em pseudônimos (Luís da Cunha Meneses X Fanfarrão Minésio, mineiras X
chilenas, Vila Rica X Santiago, Doroteu – destinatário – e Critilo – quem assinava).
• Basílio da Gama (apelido: Termindo Sipílio)
Poesia Épica: Uraguai
Estrutura: não copia o modelo clássico de Camões (sem estrofação, versos brancos, início do poema com a
ação em pleno desenvolvimento). A história trata da guerra entre jesuítas e índios contra os portugueses e espanhóis
com a aprovação do Tratado de Madri, que trocava a posse da Colônia do Sacramento pelos Sete Povos das Missões.
157
Características temáticas: O índio é visto como um herói moral, pois ele é manipulado pelo jesuíta (anti-jesuitismo).
Crítica à guerra (a necessidade da guerra é questionada). A história não é mudada (os portugueses e os espanhóis
vencem). A descrição é fiel à paisagem (natureza bruta, figura do índio – nativismo).
• Frei José de Santa Rita Durão
Poesia Épica: Caramuru
Estrutura: copia o modelo clássico camoniano
História: narra a história de um náufrago português, Diogo, que vai acabar parando numa tribo indígena.
Características temáticas: vai escrever o poema épico baseado no que ele ouviu ou leu. Ele teve pouca vivência no
Brasil, por isso é inferior ao Uraguai, que traz uma maior riqueza da descrição brasileira.
HORA DE PRATICAR
01. (UFV) Leia o texto: Quais estão corretas:
(…) a) Apenas I.
Goza, goza da flor da mocidade, b) Apenas II.
Que o tempo trota a toda ligeireza, c) Apenas III.
E imprime em toda flor sua pisada. d) Apenas I e III.
Oh, não aguardes, que a madura idade e) I, II e III.
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada. 03. (FATEC) “Quando jovem, Antônio Vieira acreditava
(…) nas palavras, especialmente nas que eram ditas com
fé. No entanto, todas as palavras que ele dissera,
(Gregório de Matos) nos púlpitos, na salas de aula, nas reuniões, nas
catequeses, nos corredores, nos ouvidos dos
Os tercetos acima ilustram: reis, clérigos, inquisidores, duques, marqueses,
ouvidores, governadores, ministros, presidentes,
a) caráter de jogo verbal próprio da poesia lírica do séc. rainhas, príncipes, indígenas, desses milhões de
XVI, sustentando uma crítica à preocupação feminina palavras ditas com esforço de pensamento, pou-
com a beleza. cas – ou nenhuma delas – havia surtido efeito. O
mundo continuava exatamente o de sempre. O
b) jogo metafórico do Barroco, a respeito da fugacidade homem, igual a si mesmo.”
da vida, exaltando gozo do momento.
(Ana Miranda, Boca do Inferno)
c) estilo pedagógico da poesia neoclássica, ratificando
as reflexões do poeta sobre as mulheres maduras. Essa passagem do texto faz referência a um traço da lin-
guagem barroca presente na obra de Vieira; trata-se do:
d) as características de um romântico, porque fala de
flores, terra, sombras. a) gongorismo, caracterizado pelo jogo de ideias.
b) cultismo, caracterizado pela exploração da sonori-
e) uma poesia que fala de uma existência mais mate-
rialista do que espiritual, própria da visão de mundo dade das palavras.
nostálgico-cultista. c) cultismo, caracterizado pelo conflito entre fé e razão.
d) conceptismo, caracterizado pelo vocabulário precio-
02. (UFRS) Considere as seguintes afirmações sobre o
Barroco brasileiro: sista e pela exploração de aliterações.
e) conceptismo, caracterizado pela exploração das
I. A arte barroca caracteriza-se por apresentar dualida-
des, conflitos, paradoxos e contrastes, que convivem relações lógicas, da argumentação.
tensamente na unidade da obra.
II. O conceptismo e o cultismo, expressões da poesia
barroca, apresentam um imaginário bucólico, sem-
pre povoado de pastoras e ninfas.
III. A oposição entre Reforma e Contrarreforma expres-
sa, no plano religioso, os mesmos dilemas de que
o Barroco se ocupa.
158
04. (UNICAMP) A arte colonial mineira seguia as pro- Vocabulário:
posições do Concílio de Trento (1545-1553), dando
visibilidade ao catolicismo reformado. O artífice deve- coche de ébano: carruagem de madeira escura
ria representar passagens sacras. Não era, portanto, jaz: está ou parece morto
plenamente livre na definição dos traços e temas das mocho: coruja
obras. Sua função era criar, segundo os padrões da lânguida: doentia
Igreja, as peças encomendadas pelas confrarias, mocho: coruja
grandes mecenas das artes em Minas Gerais. lânguida: doentia
(Adaptado de Camila F. G. Santiago, “Traços europeus, cores mineiras: três Nesse poema, a referência à cultura mitológica (Zéfiro)
pinturas coloniais inspiradas em uma gravura de Joaquim Carneiro da Silva”, em revela influência da estética:
Junia Furtado (org.), Sons, formas, cores e movimentos na modernidade atlântica.
a) romântica.
Europa, Américas e África. São Paulo: Annablume, 2008, p. 385.) b) simbolista.
c) trovadoresca.
Considerando as informações do enunciado, a arte coloni- d) árcade.
al mineira pode ser definida como: e) parnasiana.
a) renascentista, pois criava na colônia uma arte sacra 07. Está presente no texto o seguinte traço característico
própria do catolicismo reformado, resgatando os da poesia de Bocage:
ideais clássicos, segundo os padrões do Concílio
de Trento. a) temática religiosa.
b) idealização do “locus amoenus”.
b) barroca, já que seguia os preceitos da Contrarrefor- c) quebra dos padrões formais clássicos.
ma. Era financiada e encomendada pelas confrarias d) supremacia dos efeitos sonoros em detrimento da
e criada pelos artífices locais.
ideia.
c) escolástica, porque seguia as proposições do Con- e) linguagem emotivo-confessional.
cílio de Trento. Os artífices locais, financiados pela
Igreja, apenas reproduziam as obras de arte sacra 08. (UNIFESP) Leia o poema de Bocage:
europeias.
Olha, Marília, as flautas dos pastores
d) popular, por ser criada por artífices locais, que incluí- Que bem que soam, como estão cadentes!
am escravos, libertos, mulatos e brancos pobres que Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
se colocavam sob a proteção das confrarias. Os Zéfiros brincar por entre flores?
Vê como ali, beijando-se, os Amores
05. (FEI) Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
“Em tristes sombras morre a formosura, As vagas borboletas de mil cores.
em contínuas tristezas a alegria” Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha para,
Nos versos citados acima, Gregório de Matos empregou Ora nos ares, sussurrando, gira:
uma figura de linguagem que consiste em aproximar ter- Que alegre campo! Que manhã tão clara!
mos de significados opostos, como “tristezas” e “alegria”. Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
O nome desta figura de linguagem é: Mais tristeza que a morte me causara.
a) metáfora
b) aliteração
c) eufemismo
d) antítese
e) sinédoque
06. Texto para as questões 6 e 7: O soneto de Bocage é uma obra do Arcadismo português,
que apresenta, dentre suas características, o bucolismo e
Já sobre o coche de ébano estrelado a valorização da cultura greco-romana, que estão exem-
Deu meio giro a noite escura e feia; plificados, respectivamente, em:
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado! a) Tudo o que vês, se eu te não vira/Olha, Marília, as
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado, flautas dos pastores.
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia, b) Ei-las de planta em planta as inocentes/Naquele
Nem pia o mocho, às trevas costumado: arbusto o rouxinol suspira.
Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Que o fio, com que está minha alma presa c) Que bem que soam, como estão cadentes!/Os Zé-
À vil matéria lânguida me corte: firos brincar por entre flores?
Consola-me este horror, esta tristeza;
Porque a meus olhos se afigura a morte d) Mais tristeza que a morte me causara./Olha o Tejo
No silêncio total da natureza. a sorrir- se! Olha, não sentes.
e) Que alegre campo! Que manhã tão clara!/Vê como
ali, beijando-se, os Amores.
(Bocage)
159
09. (MACKENZIE)
Ornemos nossas testas com as flores,
e façamos de feno um brando leito;
prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
gozemos do prazer de sãos amores (…)
(…) aproveite-se o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças
e ao semblante a graça.
(Tomás Antônio Gonzaga)
Quanto ao estilo, os versos:
a) revelam a presença não só de formas mais exa-
geradas de inversão sintática – hipérbatos -, como
também de comparações excessivas, resíduos do
estilo cultista.
b) comprovam a predileção pelo verso branco e pela
ordem direta da frase, característicos da naturalidade
desejada pelos poetas do Arcadismo.
c) denotam – pela singeleza do vocabulário, pela
sintaxe quase prosaica – a vontade de alcançar a
simplicidade da linguagem, em oposição à artificia-
lidade do Barroco.
d) organizam-se em torno de antíteses, na busca de
caracterizar, em atitude pré-romântica, o amor ideal
e a pureza do lavor da terra.
e) constroem-se pelo desdobramento contínuo de
imagens, compondo um quadro em que a emoção
é tratada de modo abstrato, de acordo com a con-
venção árcade.
10. Sobre o Arcadismo no Brasil, podemos afirmar que:
a) produziu obras de estilo rebuscado, pleno de antíte-
ses e frases tortuosas, que refletem o conflito entre
matéria e espírito.
b) não apresentou novidades, sendo mera imitação do
que se fazia na Europa.
c) além das características europeias, desenvolveu te-
mas ligados à realidade brasileira, sendo importante
para o desenvolvimento de uma literatura nacional.
d) apresenta já completa ruptura com a literatura eu-
ropeia, podendo ser considerado a primeira fase
verdadeiramente nacionalista da literatura brasileira.
e) presente sobretudo em obras de autores mineiros
como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da
Costa, Silva Alvarenga e Basílio da Gama, carac-
teriza-se como expressão da angústia metafísica e
religiosa desses poetas, divididos entre a busca da
salvação e o gozo material da vida.
160
9.4 O ROMANTISMO (1836-1881)
É comum haver uma associação da palavra romantismo à ideia de comportamentos e valores característicos
das relações amorosas, de pessoas que estão apaixonadas, como dar ou receber flores, emocionar-se com facilidade,
escrever poemas e histórias de amor. No entanto, o Romantismo do qual falaremos agora é o da arte que, embora
também esteja relacionado a sentimentos, vai muito além deles. Trata-se do movimento literário que surgiu no século
XIX e representou os anseios da classe burguesa, recém-chegada da França, do ponto de vista artístico.
Theodore Géricault, A jangada da Medusa, óleo sobre tela colocada sobre madeira.
Conservada no Museu do Louvre, Paris, França. Imagem: artrianon.com
De modo geral, o Romantismo é caracterizado pela subjetividade, pela emoção, pelo sentimentalismo e pelo lirismo,
por meio de uma linguagem nova que buscava se adequar ao novo público, a burguesia, cujo padrão de vida era mais
simples.
No Brasil, o Romantismo teve uma significação diferente da que teve na Europa pelo próprio contexto histórico. En-
quanto a Europa atravessava a Revolução Industrial e a Revolução Francesa que levaram à decadência dos regimes
vigentes e à ascensão da burguesia, o Brasil vivia o processo de independência de Portugal. Nesse contexto, enquanto
o mundo urbano-burguês era rejeitado, os elementos relacionados à natureza e aos indígenas eram transformados
em símbolos da nacionalidade. Desse modo, os primeiros autores românticos, empenharam-se em definir um perfil da
cultura brasileira, no qual o nacionalismo era a principal caraterística.
Selva Brasileira. Manuel de Araújo Porto-Alegre.
Imagem: https://prefaciocultural.wordpress.com/tag/selva-brasileira
A primeira fase dá destaque ao nacionalismo e ao índio (símbolo brasileiro), já a segunda fase explora o drama huma-
no, investigando o próprio “eu” (é uma fase mais dramática e depressiva), e a terceira explora a temática social.
Primeira Geração (Indianismo)
No século XIX, o Brasil finalmente deixou de ser colônia de Portugal e conquistou a sua independência. Sendo assim,
surgiu o desejo de fazer com que a nossa produção literária ficasse, de fato, mais “brasileira”, afastando-se da literatura
europeia e ganhando características mais próprias, ou seja: ficando mais nacional. Afinal, o Brasil agora é independen-
te e precisa de uma literatura própria, precisa construir a sua cultura.
161
Surgiu, então, a primeira fase do Romantismo, o Indianismo ou Primeira Geração, que tinha como característica val-
orizar e exaltar tudo o que o Brasil tinha de bom: exaltação do índio (daí vem o nome “indianismo”), da natureza, da
liberdade, além da presença do forte espírito patriótico (nacionalismo ufanista).
Destacam-se na poesia desse período: Gonçalves Dias (Canção do Exílio, I-Juca-Pirama e Os Timbiras) e Gonçalves
de Magalhães (Suspiros Poéticos e Saudades, obra considerada como o marco do Romantismo no Brasil).
Canção do Exílio
(Gonçalves Dias)
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá
Nosso céu tem mais estrelas
Nossas várzeas tem mais flores
Nossos bosques têm mais vida
Nossa vida mais amores
Escrito quando o poeta estava em Portugal, esse poema retrata a saudade do Brasil, exaltando suas características
(palmeiras, sabiá, várzeas, flores, bosques, etc...).
Na prosa, quem se destacou foi José de Alencar, que era um romancista “completo”: escreveu romances históricos,
indianistas, urbanos e regionalistas. É o autor de Iracema, grande obra do período.
Também podemos destacar Joaquim Manoel de Macedo (autor de “A Moreninha”) e Manuel Antônio de Almeida (autor
de “Memórias de um Sargento de Milícias”).
Segunda Geração (Ultrarromantismo)
O Ultrarromantismo é a segunda fase do Romantismo e é caracterizado pela influência do poeta britânico George By-
ron, que aborda temas depressivos e pessimistas, como a morte, a dor, o amor não correspondido, o tédio, a tristeza
profunda, o individualismo, o saudosismo, o excesso de sentimentalismo, entre outros. Por isso, essa fase é conhecida
como «Mal do Século». No Brasil, os principais autores foram: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes
Varella.
Os poetas dessa geração desvincularam-se do compromisso com a nacionalidade, não estavam interessados no que
acontecia na política e na vida social. Estavam voltados para si mesmos, de uma maneira profundamente pessimista
e, como forma de protesto, viviam entediados, à espera da morte.
Cântico do Calvário
(Fagundes Varela)
Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela,
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh’alma.
Obs.: poesia escrita por Fagundes Varela em memória de seu filho (morto em 1863).
162
Terceira Geração (Condoreirismo)
O Condoreirismo foi a terceira fase do Romantismo e tinha como marca o engajamento nas questões sociais, como
abolicionismo, liberdade, republicanismo. O abolicionismo foi um tema de destaque nesse período, sendo bem explo-
rado por Castro Alves (conhecido como o “poeta dos escravos”), que escreveu Navio Negreiro e Espumas Flutuantes.
“Condoreirismo” vem de “condor”, uma ave que tem uma visão ampla. Portanto, os escritores do período também
agiam como condores, pois tinham uma visão ampla e conseguiam enxergar a realidade social e seus problemas, além
de fazer uso de uma linguagem grandiloquente, carregada de hipérboles.
Outra característica dessa fase é a concretização do amor, o homem não fica mais idealizando sua musa inatingível,
não ocorre mais o “amor platônico”. Dessa vez, a mulher é algo muito mais real, e a poesia, mais erótica.
É importante destacar que essa fase já começa a apresentar alguns elementos de transição para os próximos períodos
da Literatura Brasileira: o Realismo e o Naturalismo.
HORA DE PRATICAR
01. (UNIP) Assinale a característica não-aplicável à poesia 03. (CESGRANRIO) O próprio Romantismo produziu uma
romântica: literatura em desacordo com certas tônicas do movi-
mento. Através da ironia, autores românticos revelam
a) artista goza de liberdade na metrificação e na distri- irreverência muitas vezes feroz.
buição rítmica.
Assinale a opção em que o autor se mantém dentro dos
b) importante é o culto da forma, a arte pela arte. preceitos mais conhecidos da escola romântica, tais como
c) a poesia é primordialmente pessoal, intimista e a glorificação do ideal e do sublime e o desapego ao mun-
do material:
amorosa.
d) enfatiza-se a autoexpressão, o subjetivismo, o indi- a) “Dos prazeres do amor as primícias,/ De meu pai
entre os braços gozei;/ E de amor as extremas de-
vidualismo. lícias/ Deu-me um filho, que dele gerei.” (Bernardo
e) a linguagem do poeta é a mesma do povo: simples, Guimarães)
espontânea. b) “Como dormia! Que profundo sono!…/ tinha na mão
o ferro do engomado…/ Como roncava maviosa e
02. (UFV) Assinale a alternativa falsa: pura!…/ Quase caí na rua desmaiado!” (Álvares de
Azevedo)
a) Romantismo, como estilo, não é modelado pela in-
dividualidade do autor; a forma predomina sempre c) “(Damas da nobreza) – Não precisa aprendê/ Quem
sobre o conteúdo. tem pretos p’herdá/ e escravidão p’escrevê;/ Basta
tê/ Burra d’ouro e casá.” (Sousândrade)
b) Romantismo é um movimento de expressão univer-
sal, inspirado nos modelos medievais e unificado d) “Porque Deus pôs em meu peito/ Um tesouro de
pela prevalência de características comuns a todos harmonia:/ Deu-me a sina de seus anjos,/ Deu-me
os escritores da época. o dom da poesia.’ (Junqueira Freire)
c) Romantismo, como estilo de época, consistiu basica- e) “Nem há de negá-lo – não há doce lira/ Nem sangue
mente num fenômeno estético-literário desenvolvido de poeta ou alma virgem/ Que valha o talismã que
em oposição ao intelectualismo e à tradição racio- no oiro vibra!” (Álvares de Azevedo)
nalista e clássica do século XVIII.
d) Romantismo, ou melhor, o espírito romântico, pode
ser sintetizado numa única qualidade: a imagina-
ção. Pode-se creditar à imaginação a capacidade
extraordinária dos românticos de criarem mundos
imaginários.
e) Romantismo caracterizou-se por um complexo de
características, como o subjetivismo, o ilogismo, o
senso de mistério, o exagero, o culto da natureza e
o escapismo.
163
04. (U.FORTALEZA) Esse poema, como o próprio título sugere, aborda o in-
conformismo do poeta com a antevisão da morte premat-
“Eu deixo a vida como deixa o tédio ura, ainda na juventude. A imagem da morte aparece na
Do deserto, o poento caminheiro palavra
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro.” a) embalsama.
b) infinito.
Os versos acima exemplificam: c) amplidão.
d) dormir.
a) a utilização de metáforas grandiosas para expressar e) sono.
a indignação com as injustiças sociais que caracte-
riza a obra de Castro Alves. 07. (FUVEST) Tomadas em conjunto, as obras de Gon-
çalves Dias, Álvares de Azevedo e Castro Alves de-
b) a temática a procura da morte como solução para monstram que, no Brasil, a poesia romântica:
os problemas da existência em que se encontra em
Álvares de Azevedo. a) pouco deveu às literaturas estrangeiras, consolidan-
do de forma homogênea a inclinação sentimental e
c) tratamento ao mesmo tempo irônico e lírico a que o anseio nacionalista dos escritores da época.
Carlos Drummond de Andrade submete o cotidiano.
b) repercutiu, com efeitos locais, diferentes valores e
d) a presença da natureza como cenário para o en- tonalidades da literatura européia: a dignidade do
contro do pastor com sua amada, como ocorre em homem natural, a exacerbação das paixões e a
Tomás Antônio Gonzaga. crença em lutas libertárias.
e) a exploração de ecos, assonâncias, aliterações em c) constituiu um painel de estilos diversificados, cada
busca de uma sonoridade válida por si mesma, como um dos poetas criando livremente sua linguagem,
se vê na obra de Cruz e Sousa. mas preocupados todos com a afirmação dos ideais
abolicionistas e republicanos.
05. (PUC-SP) Sombras do vale, noites da montanha
d) refletiu as tendências ao intimismo e à morbidez de
Que minh’alma cantou e amava tanto, alguns poetas europeus, evitando ocupar-se com
Protegei o meu corpo abandonado, temas sociais e históricos, tidos como prosaicos.
E no silêncio derramai-lhe canto!
e) cultuou sobretudo o satanismo, inspirado no poeta
Mas quando preludia ave d’aurora inglês Byron, e a memória nostálgica das civilizações
E quando à meia-noite o céu repousa, da Antiguidade clássica, representadas por suas
Arvoredos do bosque, abri os ramos… ruínas.
Deixai a lua prantear-me a lousa!
08. (UEL-PR) Considere as seguintes afirmações sobre
O que dominantemente aflora nos versos acima e carac- poetas do nosso Romantismo:
teriza o poeta Álvares de Azevedo como ultrarromântico é:
I. O caráter intimista da poesia de Álvares de Azevedo
a) a devoção pela noite e por ambientes lúgubres e não impediu que ele se manifestasse também na
sombrios. forma da sátira.
b) o sentimento de autodestruição e a valorização da II. O tom declamatório da poesia abolicionista de
natureza tropical. Castro Alves está intimamente ligado à sua função:
conclamar o público a assumir uma posição com-
c) o acentuado pessimismo e a valorização da religio- bativa.
sidade mística.
III. Há, na poesia de Gonçalves Dias, interesse em
d) o sentimento byroniano de tom elegíaco e humorís- exaltar a natureza tropical e o nobre caráter dos
tico-satânico. nossos índios.
e) o sonho adolescente e a supervalorização da vida.
06. (ENEM) O trecho a seguir é parte do poema “Mocidade É correto o que está afirmado:
e morte”, do poeta romântico Castro Alves:
a) somente em II.
Oh! eu quero viver, beber perfumes b) somente em I e II.
Na flor silvestre, que embalsama os ares; c) somente em I e III.
Ver minh’alma adejar pelo infinito, d) somente em II e III.
Qual branca vela n’amplidão dos mares. e) em I, II e III.
No seio da mulher há tanto aroma…
Nos seus beijos de fogo há tanta vida…
– Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
(ALVES, Castro. Os melhores poemas de Castro Alves. Seleção
de Lêdo Ivo. São Paulo: Global, 1983.)
164
09. (UM-SP) 11. (FUVEST) _“O indianismo dos românticos […] denota
tendência para particularizar os grandes temas, as
Senhor Deus dos desgraçados! grandes atitudes de que se nutria a literatura ociden-
tal, inserindo-as na realidade local, tratando-as como
Dizei-me vós, Senhor Deus! próprias de uma tradição brasileira.”
Se é loucura… se é verdade _(Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira)
Tanto horror perante os céus… Considerando-se o texto acima, pode-se dizer que o indi-
anismo, na literatura romântica brasileira:
Ó mar! por que não apagas
a) procurou ser uma cópia dos modelos europeus.
Co’a esponja de tuas vagas b) adaptou a realidade brasileira aos modelos euro-
De teu manto este borrão?… peus.
c) ignorou a literatura ocidental para valorizar a tradição
Astros! noite! tempestades!
brasileira.
Rolai das imensidades! d) deformou a tradição brasileira para adaptá-la à lite-
Varrei os mares, tufão!… ratura ocidental.
e) procurou adaptar os modelos europeus à realidade
(Castro Alves)
local.
Aponte a alternativa incorreta sobre o texto.
12. (FUVEST)
a) Os versos 3 e 4 constituem o objeto direto do verbo
dizer e, pela antítese, expressam o desespero do _“Teu romantismo bebo, ó minha lua,
poeta. A teus raios divinos me abandono,
Torno-me vaporoso… e só de ver-te
b) O vocativo do verso 1 é retomado em toda a estrofe, Eu sinto os lábios meus se abrir de sono.”
por meio de outros vocativos, no mesmo tom de
protesto grandiloquente. _(Álvares de Azevedo, “Luar de verão”, Lira dos vinte anos)
c) Ao lado de Deus, na sequência dos vocativos, estão Neste excerto, o eu-lírico parece aderir com intensidade
as forças grandiosas da natureza, como o mar, os aos temas de que fala, mas revela, de imediato, desinter-
astros, a noite, as tempestades e, num desespero esse e tédio. Essa atitude do eu-lírico manifesta a:
crescente do poeta, o tufão.
d) Este borrão, objeto direto do verbo apagar, constitui
uma metáfora de algo vergonhoso que recupera e
aprofunda o horror do verso 4.
e) No apelo desesperado do poeta, as grandiosas for-
ças da natureza não são personificadas, mas, sim,
coisificadas nos vocativos que as representam.
10. Oh! eu quero viver, beber perfumes a) ironia romântica.
b) tendência romântica ao misticismo.
Na flor silvestre, que embalsama os ares; c) melancolia romântica.
Ver minh’alma adejar pelo infinito, d) aversão dos românticos à natureza.
Qual branca vela n’amplidão dos mares. e) fuga romântica para o sonho.
No seio da mulher há tanto aroma…
Nos seus beijos de fogo há tanta vida… 13. Leia o poema abaixo e a seguir, responda o que é
– Árabe errante, vou dormir à tarde pedido:
À sombra fresca da palmeira erguida.
Nesta estrofe de “Mocidade e Morte”, de Castro Alves, Mocidade e Morte
reúnem-se, como numa espécie de súmula, vários dos te- Oh! eu quero viver, beber perfumes
mas e aspectos mais característicos de sua poesia. São Na flor silvestre, que embalsama os ares;
eles: Ver minh’alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n’amplidão dos mares.
a) identificação com a natureza, condoreirismo, erotis- No seio da mulher há tanto aroma…
mo franco, exotismo. Nos seus beijos de fogo há tanta vida…
– Árabe errante, vou dormir à tarde
b) aspiração de amor e morte, titanismo, sensualismo, À sombra fresca da palmeira erguida.
exotismo.
No trecho acima, de Castro Alves, reúnem-se vários dos
c) sensualismo, aspiração de absoluto, nacionalismo, temas e aspectos mais característicos de sua poesia. São
orientalismo. eles:
d) personificação da natureza, hipérboles, sensualismo a) identificação com a natureza, condoreirismo, erotis-
velado, exotismo. mo.
e) aspiração de amor e morte, condoreirismo, hipérbo- b) aspiração de amor e morte, sensualismo, exotismo.
les, orientalismo. c) sensualismo, aspiração de absoluto, nacionalismo,
orientalismo.
d) personificação da natureza, hipérboles, sensualismo
velado, exotismo.
e) aspiração de amor e morte, condoreirismo, hipérbo-
les.
165
14. (VUNESP) Leia atentamente os versos seguintes: 18. (MACKENZIE) A natureza, nessa estrofe:
“Eu deixo a vida com deixa o tédio_ _“Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Do deserto o poeta caminheiro
– Como as horas de um longo pesadelo Já solta o bogari mais doce aroma!
Que se desfaz ao dobre de um mineiro.”_
Como prece de amor, como estas preces,
Esses versos de Álvares de Azevedo significam a:
No silêncio da noite o bosque exala.”
a) revolta diante da morte.
b) aceitação da vida como um longo pesadelo. _(Gonçalves Dias)
c) aceitação da morte como a solução.
d) tristeza pelas condições de vida. Obs.: tamarindo = árvore frutífera; o fruto dessa mesma
e) alegria pela vida longa que teve. planta
bogari = arbusto de flores brancas
15. (UEL) O romance é um gênero literário que veio a se
desenvolver no século ….., retratando sobretudo …..; a) é concebida como uma força indomável que submete
era muito comum publicar-se em partes, nos jornais, o eu lírico a uma experiência erótica instintiva.
na forma de ….. .
b) expressa sentimentos amorosos.
Preenchem corretamente as lacunas do texto acima, pela c) é representada por divindade mítica da tradição
ordem:
clássica.
a) XVII – a alta aristocracia – conto. d) funciona apenas como quadro cenográfico para o
b) XVIII – o mundo burguês – folhetim.
c) XVIII – o mundo burguês – crônica. idílio amoroso.
d) XIX – o mundo burguês – folhetim. e) é recriada objetivamente, com base em elementos
e) XIX – a alta aristocracia – crônica
da fauna e da flora nacionais.
16. (UEL) Assinale a alternativa cujos termos preenchem
corretamente as lacunas do texto inicial. 19. (UNIFESP) Nos versos, evidenciam-se as seguintes
características românticas:
Foi característica das preocupações ……….. do poeta
………. tomar como protagonista de seus poemas a figura Meus oito anos
do …………, afirmando em seu caráter heroico, em sua
bravura, em sua honra – qualidades que a rigor o identifi- Oh! que saudades que tenho
cavam com o mais digno dos cavaleiros medievais.
Da aurora da minha vida,
a) nacionalistas – Gonçalves Dias – índio brasileiro.
b) mistificadoras – Álvares de Azevedo – sertanejo Da minha infância querida
solitário. Que os anos não trazem mais!
c) cosmopolitas – Castro Alves – operário nordestino.
d) ufanistas – Monteiro Lobato – caipira paulista. Que amor, que sonhos, que flores,
e) regionalistas – João Cabral de Melo Neto – traba-
Naquelas tardes fagueiras
lhador rural.
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
(Casimiro de Abreu)
a) nacionalismo e religiosidade.
b) sentimentalismo e saudosismo.
c) subjetivismo e condoreirismo.
d) egocentrismo e medievalismo.
e) byronismo e idealização do amor.
20. (PUC) Assinale a alternativa que identifica as qualida-
des do Romantismo presentes no poema “O poeta”,
de Álvares de Azevedo:
17. (UFC) Analise as declarações sobre o Romantismo “No meu leito adormecida,
no Brasil. Palpitante e abatida,
A amante do meu amor!
I. O público leitor romântico se constituiu basicamente Os cabelos recendendo
de mulheres e estudantes. Nas minhas faces correndo
Como o luar numa flor!”
II. Com a popularização do romance romântico, obras
passaram a ser escritas para o consumo. a) É do Romantismo, pela imagem da mulher amada
idealizada.
III. O romance romântico veio atender uma necessidade
de um público predominantemente rural. b) O poema pertence ao Romantismo porque tem rimas
emparelhadas.
a) Apenas I é verdadeira.
b) Apenas II é verdadeira. c) Porque tem metáforas.
c) Apenas III é verdadeira. d) Porque apresenta um poeta enamorado.
d) Apenas I e II são verdadeiras. e) Porque trata a natureza de forma humanizada.
e) I, II e III são verdadeiras.
166
9.5 REALISMO, NATURALISMO E PARNASIANISMO
Na segunda metade do século XIX, o contexto sociopolítico europeu mudou profundamente. Lutas sociais, tentativas
de revolução, novas ideias políticas e científicas davam o tom da época. O mundo agitava-se e a literatura não podia
mais viver de idealizações, do culto de eu e da fuga da realidade, como no tempo do Romantismo. Era necessário
seguir o ritmo das mudanças e é nesse contexto que surge uma arte mais objetiva, atendendo aos interesses do
momento: analisar, compreender, criticar e transformar a realidade. Foi como uma resposta a essa necessidade que
surgiu, quase ao mesmo tempo, três tendências antirromânticas na literatura, que se entrelaçavam e se influenciavam
mutuamente: o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo.
A LINGUAGEM
Embora, apresentem diferenças formais e ideológicas, essas três tendências possuem alguns aspectos em comum,
entre eles, o combate ao Romantismo, o regaste da objetividade na literatura e o gosto pelas descrições.
De forma simplificada, é possível dizer que o Naturalismo é um tipo de Realismo científico, e o Parnasianismo é um
retorno ao estilo clássico na poesia, que havia sido abandonado no Romantismo.
CONTEXTO HISTÓRICO NO BRASIL
Para entendermos melhor esses movimentos, é importante compreender o que estava acontecendo no Brasil naque-
la época. De modo geral, o nosso país estava sendo “sacudido” por uma série de mudanças sociais, econômicas e
políticas. Afinal, nesse período, ocorreu a Abolição da Escravatura (1888), a decadência da economia açucareira, o
crescimento da cafeicultura, a influência do pensamento positivista (vindo da França) e a Proclamação da República
(1889). Ou seja, era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
CARACTERÍSTICAS GERAIS
É nesse contexto de importantes acontecimentos sociais e políticos que, em vez de se afundarem nos sentimentos e
nas emoções interiores, como os românticos faziam, os escritores realistas, influenciados pela filosofia positivista, esta-
vam mais interessados em observar o mundo de um modo mais real e coerente. O Naturalismo, por sua vez, analisa a
força de fatores como hereditariedade e o meio sobre o comportamento humano, ou seja, suas análises são científicas,
é bem menos psicológico que o Realismo. Já o Parnasianismo representa na poesia um retorno ao clássico, com todos
os seus elementos: o princípio do belo na arte e a busca do equilíbrio e da perfeição formal e na obra de Olavo Bilac,
ainda ganhou trações de sensualidade e patriotismo.
PRINCIPAIS AUTORES:
Eça de Queiroz
Machado de Assis
O grande destaque do período foi Machado de Assis que, cuja obra Memórias póstumas de Brás Cubas é considerada
como o marco do Realismo no Brasil. É, sem dúvida, um dos maiores escritores de toda a história da Literatura Brasilei-
ra. Sua escrita era caracterizada pela intertextualidade, pela metalinguagem e pela análise realista do espírito humano
e de seus valores. Outro aspecto característico de sua obra é o uso da ironia, uma ironia refinada, cuja sutileza só a faz
perceptível a leitores de sensibilidade treinada.
Algumas de suas obras mais famosas
• Memórias Póstumas de Brás Cubas;
• Quincas Borba e Dom Casmurro;
• Contos: O Espelho, A Cartomante, Sereníssima República, entre outros.
Aluísio de Azevedo é considerado a maior expressão da prosa naturalista no Brasil. Foi a partir da publicação de O
mulato que ele alcançou certa popularidade, mas seu ponto alto foi alcançado com suas obras O cortiço e Casa de
pensão, ambas apresentando uma forma muito peculiar de retratar ambiente, paisagens e cenas coletivas.
Raul Pompeia, embora tenha escrito outras obras, destacou-se na literatura brasileira por apenas uma delas, o Ate-
neu, publicada em 1888. Essa obra assimilou e integrou todas as tendências literárias de seu tempo e surpreendeu
pelo uso de uma linguagem peculiar e nova. Algumas das classificações que lhe foram atribuídas, tais como realista,
naturalista, psicologista e parnasiana evidenciam a sua complexidade e singularidade.
167
Olavo Bilac, conhecido como o ourives da linguagem, destacou-se pela busca da perfeição formal na poesia. Desse
ponto de vista, é considerado um poeta perfeito e faz juz ao atribuo de parnasiano, pois, nesse sentido, foi um dos mais
radicais. Tal radicalismo, pode ser observado no poema Profissão de fé, em que são empregados o trabalho formal e o
rigor do estilo. No entanto, vez ou outra, Bilac depreende-se desse estilo e apresenta traços quase românticos, como
em Poesias, sua obra inaugural. Além disso, o amor à pátria e um ufanismo exagerado também emergem em vários
de seus poemas.
Outros autores relevantes desses movimentos são: Inglês de Souza, Domingos Olímpio, Adolfo Caminha, Alberto
de Oliveira e Raimundo Correia.
9.6 SIMBOLISMO
O fato de uma estética vigorar em determinado momento histórico não significa que todas as pessoas e grupos sociais
daquele período tenham vivido e pensado da mesma forma. Em geral, há uma ideologia predominante, mas não a
única.
Nas últimas décadas do século XIX, por exemplo, em meio à onda de cientificismo e materialismo que deu origem ao
Realismo e ao Naturalismo, surgiu um grupo de artistas e intelectuais que colocavam em dúvida a capacidade absoluta
da ciência, não acreditavam no conhecimento “positivo” e no progresso social prometidos por ela.
O Simbolismo foi um movimento literário que reagiu contra essa forma científica de ver o mundo, resgatando um pouco
a segunda fase do Romantismo (o Ultrarromantismo, o “mal do século”). Porém, os simbolistas foram mais profundos
no aspecto metafísico: eles eram muito mais filosóficos.
CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS
Mergulho no “eu” (introspecção), emoção, universo metafísico e filosófico, misticismo, desejo de transcender o mundo
e alcançar o “cosmos”, pessimismo (interesse pela morte, pelo oculto, pelo mistério e pela noite), subjetivismo e dec-
adência humana (retoma as características do Ultrarromantismo). Desse modo, eles viam a realidade do mundo de
uma maneira mais metafísica, usando uma linguagem cheia de metáforas, de imagens, de símbolos (daí vem o nome
“Simbolismo”), de elementos sinestésicos (mistura de sensações; exemplo: visão com olfato).
O SIMBOLISMO NO BRASIL
Ao contrário do que aconteceu na Europa, onde o Simbolismo se sobrepôs ao Parnasianismo, no Brasil o movimento
simbolista foi ofuscado pelo parnasiano, que alcançou forte prestígio entre as camadas cultas da sociedade até as
primeiras décadas do século XX. Apesar disso, a produção simbolista deixou contribuições significativas na esfera da
poesia.
Principais Autores: Cruz e Souza, Alphonsus de Guimaraens e Eugênio de Castro.
Cavador do Infinito
Com a lâmpada do Sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
Vai abafando as queixas implacáveis,
Da alma o profundo e soluçado grito.
Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
O cavador do trágico Infinito.
E quanto mais pelo Infinito cava,
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias...
Alto levanta a lâmpada do Sonho.
E com o seu vulto pálido e tristonho
Cava os abismos das eternas ânsias!
Cruz e Souza
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Observe as metáforas (“lâmpada do Sonho”, “cavador do trágico Infinito”), o “mergulho no Eu” (o poeta “mergulha em
si mesmo”, ou seja: ele mergulha no Infinito), o misticismo e o desejo de transcender a matéria (“e sobe aos mundos
mais imponderáveis”, “nos astros inefáveis”) e o pessimismo (“e com o seu vulto pálido e tristinho”, “cava os abismos
das eternas ânsias”). O poeta se afunda em si próprio (“cava o Infinito”) em busca do fundamento da existência humana
(metafísica, filosofia) e se perde (“e o cavador se perde nas distâncias”).
9.7 PRÉ-MODERNISMO
O Pré-Modernismo não é considerado exatamente uma escola literária, ou seja, um período literário com característi-
cas próprias, mas sim uma fase de transição entre os movimentos literários do século XIX e XX, já que ele mistura, de
modo diversificado, as características do Modernismo, do Parnasianismo, do Simbolismo e do Realismo.
De modo geral, são características do Pré-Modernismo: transição entre os movimentos literários conservadores do
século XIX (Realismo, Naturalismo e Parnasianismo) e modernos do século XX (Modernismo), oscilação entre a lin-
guagem culta e coloquial, exposição da realidade social brasileira, regionalismo, nacionalismo, temáticas históricas,
econômicas, políticas e sociais.
Autores importantes:
Euclides da Cunha: escreveu Os Sertões.
Lima Barreto: escreveu Triste Fim de Policarpo Quaresma.
Monteiro Lobato: autor do Sítio do Pica Pau Amarelo e do personagem Jeca Tatu.
Augusto dos Anjos:
9.8 MODERNISMO
No século XX, surgiu um movimento que queria renovar o estilo da Literatura, rompendo com a Literatura tradicional do
século XIX (Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo), buscando, assim, inovações modernas para o novo
século: é o Modernismo. Os modernistas queriam uma Literatura livre, sem “fórmulas” e sem regras, sem palavras
cultas e formais demais, sem o rebuscamento do vocabulário, sem a cultura tradicional e acadêmica.
O Modernismo no Brasil começou com a Semana de Arte Moderna de 1922, que foi a reunião de vários artistas (pintura,
literatura, música, arquitetura, escultura, etc.) de várias tendências artísticas que buscavam renovar as artes, difundin-
do suas ideias e rompendo, assim, com a cultura tradicional e conservadora do século XIX.
O Modernismo teve três fases (gerações).
1ª Geração Modernista (1922 - 1930)
Os principais nomes dessa geração foram: Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Mário de Andrade,
As principais características dessa geração foram: linguagem livre (poesia sem regras de rima e de métrica), linguagem
coloquial (livre de formalismos e de palavras cultas), gírias e até erros gramaticais (porque os erros de gramática e
a linguagem coloquial é a linguagem usada pelos brasileiros). Temas tratados com irreverência e ironia (bom-humor,
piada, paródia), temas inspirados no cotidiano das pessoas e poemas “relâmpagos” (curtíssimos e breves).
Claro que tudo isso irritava os mais conservadores e tradicionais.
Exemplo de texto modernista da primeira geração:
Pronominais (Oswald de Andrade)
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
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Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Observe que não existe rima, nem métrica, nem formalismos. A linguagem é coloquial e também é impregnada de
irreverência e ironia. Não há preocupação com erros de português. Enquanto que a gramática diz que o correto é «dê-
me», o poeta zomba da gramática e escreve «me dá». Ele está mais interessado na gramática coloquial que é usada
no cotidiano das pessoas, ou seja: o poeta prefere a modalidade linguística mais adequada à realidade brasileira.
Em outras palavras: “que se dane a gramática e os velhos conservadores do século passado, isso aqui é Modernismo,
pô!”.
2ª Geração Modernista (1930 - 1945)
Essa geração também é conhecida como Geração de 30. É nessa fase que o Modernismo ganha mais força no Brasil.
Os principais autores dessa geração foram: na poesia, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles; na prosa,
Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego.
Na parte da prosa, os modernistas se interessaram por temas nacionais e usaram uma linguagem mais brasileira (uma
linguagem mais regionalista). Destaque para o regionalismo nordestino, que retratou os problemas da região (seca
e migração). Também podemos destacar o romance urbano (histórias das cidades grandes), que retratou a vida das
famílias urbanas.
Na poesia, continuamos com o verso livre, mas também encontramos uma poesia mais amadurecida e sensível à re-
alidade, que questiona a existência humana e a inquietação social.
3ª Geração Modernista (1945 - 1960)
Essa geração também é conhecida como Geração de 45. Os principais autores do período foram: Clarice Lispector,
João Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues, além de Ariano Suassuna e Lygia Fagundes Telles.
A poesia volta a ficar um pouco mais formal (efeito “poesia é a arte da palavra”) e há uma preocupação maior com o
estilo e com a estética da poesia. Na prosa, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles trabalharam o aprofundamento
psicológico dos personagens e inovaram as técnicas narrativas, quebrando o tradicional “início, meio e fim”. Guimarães
Rosa se dedicou ao regionalismo (ele é o autor de Grande Sertão: Veredas) e inovou a narrativa ao empregar o discur-
so indireto livre. O teatro ganhou força com Nelson Rodrigues.
9.9LITERATURA MARGINAL
Na literatura, o termo marginal designa obras e autores que de alguma maneira se afastam do cânone, podendo se
referir à produção literária que circula fora do circuito comercial das grandes editoras, a textos que procuram se opor às
principais tendências literárias e a trabalhos relacionados a grupos cuja identidade se define negativamente em relação
à cultura dominante.
No Brasil, o termo é inicialmente usado na década de 1970, em relação a poetas de ampla diversidade que, sem es-
tarem reunidos por um programa coletivo, apresentam certas características comuns. Eles rejeitam as linhagens então
predominantes, como o concretismo, a poesia-práxis e a poesia processo, e propõem uma criação não intelectualizada
nem politicamente participante que, centrada no cotidiano, caracteriza-se pelo coloquialismo e pela ironia e versa sobre
aspectos do dia a dia de jovens de classe média, com temas como sexo e drogas.
Procurando alternativas às formas de circulação literária controladas por empresas privadas e pelo regime civil militar
então em vigor, esses poetas buscam aproximar poesia e vida. Em geral jovens, imprimem seus livros de forma arte-
sanal, sobretudo em folhas mimeografadas, e os vendem diretamente em espaços como bares, cinemas e praias. O
Rio de Janeiro é o principal centro da poesia marginal, lançando nomes que se consagram, como Ana Cristina Cesar
(1952-1983), Cacaso (1944-1987), Chacal (1951), Francisco Alvim (1938) e Paulo Leminski (1944-1989).
Sua atuação se dá num contexto em que outras artes também buscam se afirmar à margem do circuito comercial,
como as pequenas produções no cinema e os grupos não empresariais no teatro. Na música, tem estreita relação com
o tropicalismo, que busca no cotidiano inspiração e fontes para a composição musical.
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Para a crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda (1939), cuja antologia 26 Poetas Hoje é considerada um marco no
reconhecimento desses poetas, a importância do coloquial e a ruptura com o discurso acadêmico assinalam a relação
de continuidade que a poesia marginal estabelece com o modernismo de 1922.
Mais recentemente, o termo vem sendo empregado para designar a literatura produzida por grupos marginalizados
– sobretudo romances em torno da vida nas periferias urbanas brasileiras, que passam a receber grande atenção de
mídia e público com o interesse despertado pelo livro Cidade de Deus (1997), do escritor Paulo Lins (1958).
O principal marco da literatura marginal é a publicação de Capão Pecado (2000), de Ferréz (1975), que retrata o dia a
dia na periferia paulistana, em especial no bairro do Capão Redondo, onde vive o autor. O romance, inicialmente publi-
cado por uma editora independente, faz parte de seu declarado desejo de transformar a relação dos sujeitos periféricos
com a literatura e a produção cultural, das quais permanecem historicamente afastados.
É com esse propósito que Ferréz organiza três edições da já extinta revista Caros Amigos: Literatura Marginal – a
Cultura da Periferia, em 2001, 2002 e 2004, trazendo contos, poemas e letras de rap de 48 autores no total, a maioria
inéditos, e todos em alguma situação de marginalidade. As publicações resultam na coletânea em livro Literatura
Marginal: Talentos da Escrita Periférica (2005) e lançam autores como Sacolinha, pseudônimo de Ademiro Alves de
Sousa (1983), que estreia em 2005 com o romance Graduado em Marginalidade; Allan Santos da Rosa (1976), que
lança o livro de poemas Vão (2005); e Cláudia Canto (s.d.), autora de Morte às Vassouras (2002).
A revista ajuda a dar visibilidade e caráter coletivo a iniciativas em favor de uma periferia que nos une pelo amor, pela
dor e pela cor”1, como resume em uma de suas composições o poeta Sérgio Vaz (1964), organizador da cooperativa
de artistas da periferia (Cooperifa), fundada em 2001, que promove, saraus semanais no bar do Zé Batidão, na zona
sul da cidade de São Paulo – importante centro da literatura periférica paulista.
Definida por Ferréz como “cultura da periferia feita por gente da periferia e ponto final”2, a literatura marginal em geral
retrata a vida na periferia e problemas sociais como a desigualdade, a violência, a precariedade da infraestrutura urba-
na e das relações de trabalho, em linguagem coloquial que rompe com a norma culta, reproduzindo a fala das periferias
e as gírias do hip hop.
A literatura marginal identifica entre seus precursores os escritores Plínio Marcos (1935-1999) e João Antônio (1937-
1996), pelos temas e personagens que retratam, e se insere numa tradição encabeçada por Carolina Maria de Jesus
(1914-1977) e Solano Trindade (1908-1974), autores negros que assumem a própria marginalidade. É valorizada pela
crítica por enfrentar a exclusão por meio da autorrepresentação e como um “esforço sério de interpretação dos mecan-
ismos de exclusão social, pela primeira vez realizado pelos próprios excluídos”3.
Enquanto a poesia marginal dos anos 1970 refere-se à produção de autores de classe média que buscam alternativas
literárias e comerciais para aproximar sua produção do leitor e da vida, a literatura marginal contemporânea se carac-
teriza principalmente pela condição social do escritor, que, historicamente excluído, aspira ao reconhecimento literário
por meio de uma produção que ao mesmo tempo retrata e procura enfrentar a situação de marginalidade.
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DE OLHO NA GRAMÁTICA
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PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO DE TEXTO
FRASE TEMÁTICA: _____________________________________________________________________________
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1ª ETAPA: LEIA A FRASE TEMÁTICA E OS TEXTOS DE APOIO COM BASTANTE ATENÇÃO E REGISTRE OS EL-
EMENTOS A SEGUIR.
a) Palavras-chave da frase temática e sinônimos possíveis:
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______________________________________________________________________________________________
b) Ideia central de cada um dos textos da coletânea:
Texto1:________________________________________________________________________________________
Texto 2: _______________________________________________________________________________________
Texto 3:_______________________________________________________________________________________
Texto 4: _______________________________________________________________________________________
2ª ETAPA: DEFINIR A TESE, OS ARGUMENTOS, UM REPERTÓRIO SOCIOCULTURAL PERTINENTE E UMA
SOLUÇAO COMPLETA.
a) Qual o problema a ser discutido?
______________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________________
b) Qual o meu posicionamento, o que penso sobre isso? (tese)
______________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________________
c) Por que esse é o meu posicionamento? (argumentos)
ARGUMENTO 1:______________________________________________________________________________
ARGUMENTO 2:______________________________________________________________________________
d) Quais será a estratégia de argumentação? (causa/consequência; causa1/causa2; desafio1/desafio2; benefícios/
prejuízo;...)
______________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________________
e) Que repertórios socioculturais são pertinentes ao tema? (pense em elementos que possam embasar cada um
de seus argumentos: filme, livro, música, série, fato histórico, citação, legislação...)
______________________________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________________________
f) Quais as conclusões/soluções possíveis?
• O que será feito?____________________________________________________________________________
• Quem fará?________________________________________________________________________________
• Como será feito?____________________________________________________________________________
• Qual o resultado? ___________________________________________________________________________
• Que detalhe posso acrescentar (a um dos itens anteriores)?__________________________________________
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ANEXOS
ENEM 2020 - PROVA AMARELA
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183
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185
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188
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ENEM DIGITAL 2020 - PROVA AMARELA
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