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Apostila com conteúdo de Linguagens e Redação - módulo extensivo Enem

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Published by cursoclaudiafernandes, 2021-08-19 07:27:30

Apostila Extensivo

Apostila com conteúdo de Linguagens e Redação - módulo extensivo Enem

Keywords: Extensivo;Enem

e) silepse: consiste na concordância não com o que vem expresso, mas com o que se subentende, com o que está
implícito. A silepse pode ser:

- silepse de gênero
Vossa Excelência está preocupado.
- silepse de número
Os Lusíadas glorificou nossa literatura.
- silepse de pessoa
“O que me parece inexplicável é que os brasileiros persistamos em comer essa coisinha verde e mole que se derrete
na boca.”

f) anacoluto: consiste em deixar um termo solto na frase. Normalmente, isso ocorre porque se inicia uma determi-
nada construção sintática e depois se opta por outra.

“O homem, chamar-lhe mito não passa de anacoluto” (Carlos Drummond de Andrade) .
g) pleonasmo: consiste numa redundância cuja finalidade é reforçar a mensagem.

“E rir meu riso e derramar, meu pranto”
(Vinícius de Moraes)

h) anáfora: consiste na repetição de uma mesma palavra no início de versos ou frases.

“ Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer” (Camões)

• Figuras de pensamento

a) antítese: consiste na aproximação de termos contrários, de palavras que se opõem pelo sentido.

“Eu vi a cara da morte, e ela estava viva”. (Cazuza)
b) ironia: é a figura que apresenta um termo em sentido oposto ao usual, obtendo-se, com isso, efeito crítico ou
humorístico.

“A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças.”
c) eufemismo: consiste em substituir uma expressão por outra menos brusca; em síntese, procura-se suavizar
alguma afirmação desagradável.

Seu Jurandir partiu desta para uma melhor. (em vez de ele morreu)
d) hipérbole: trata-se de exagerar uma ideia com finalidade enfática.

Estava morrendo de fome. (em vez de estava com muita fome)
e) prosopopeia ou personificação: consiste em atribuir a seres inanimados predicativos que são próprios de seres
animados.

“Devagar as janelas olham…” (Carlos Drummond de Andrade)
f) gradação ou clímax: é a apresentação de ideias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax)

“O primeiro milhão possuído excita, acirra, assanha a gula do milionário.” (Olavo Bilac)
g) apóstrofe: consiste na interpelação enfática a alguém (ou alguma coisa personificada).

“Ó Leonor, não caias!”

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• Figuras de palavras

a) metáfora: consiste em empregar um termo com significado diferente do habitual, com base numa relação de
similaridade entre o sentido próprio e o sentido figurado. A metáfora implica, pois, uma comparação em que o
conectivo comparativo fica subentendido.

“Meu coração é um balde despejado” (Fernando Pessoa)

b) metonímia: como a metáfora, consiste numa transposição de significado, ou seja, uma palavra que usualmente
significa uma coisa passa a ser usada com outro significado. Todavia, a transposição de significados não é mais
feita com base em traços de semelhança, como na metáfora. A metonímia explora sempre alguma relação lógica
entre os termos.

Observe:
Sócrates tomou as mortes. (efeito pela causa).
Leio Machado de Assis porque gosto de clássicos. (autor pela obra)
Comemorou a boa notícia tomando uma taça de vinho. (continente pelo conteúdo)

c) catacrese: ocorre quando, por falta de um termo específico para designar um conceito, torna-se outro por em-
préstimo. Entretanto, devido ao uso contínuo, não mais se percebe que ele está sendo empregado em sentido
figurado.

O pé da mesa estava quebrado.

d) antonomásia ou perífrase: consiste em substituir um nome por uma expressão que o identifique com facilidade:

O Rei do Futebol. (em vez de Pelé)

e) sinestesia: trata-se de mesclar, numa expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido.

“Como era áspero o aroma daquela fruta exótica” (Giuliano Fratin)

HORA DE PRATICAR

01. (ADVISE-2009) No enunciado: “Virgílio, traga-me d) antonomásia
uma coca cola bem gelada!”, registra-se uma figura e) catacrese
de linguagem denominada:
04. (FAU-Santos) Nos versos:
a) anáfora
b) personificação “Bomba atômica que aterra
c) antítese Pomba atônita da paz
d) catacrese Pomba tonta, bomba atômica...”
e) metonímia
A repetição de determinados elemento fônicos é um recur-
02. (FMU) Quando você afirma que enterrou “no dedo um so estilístico denominado:
alfinete”, que embarcou “no trem” e que serrou “os pés
da mesa”, recorre a um tipo de figura de linguagem a) hiperbibasmo
denominada: b) sinédoque
c) metonímia
a) metonímia d) aliteração
b) antítese e) metáfora
c) paródia
d) alegoria 05. (Maringá) Leia os versos e depois assinale a alterna-
e) catacrese tiva correta:

03. (U. Taubaté) No sintagma: “Uma palavra branca e “Amo do nauta o doloroso grito
fria”, encontramos a figura denominada: Em frágil prancha sobre o mar de horrores,
Porque meu seio se tornou pedra,
a) sinestesia Porque minh’alma descorou de dores.” (Fagundes Varela)
b) eufemismo
c) onomatopeia

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No primeiro verso, há uma figura que se traduz por: co conflito de duas visões antagônicas:

a) pleonasmo “Saio do hotel com quatro olhos,
b) hipérbato - Dois do presente,
c) gradação - Dois do passado.”
d) anacoluto
e) anáfora Esta figura de linguagem recebe o nome de:

06. (Cesesp – PE) Leia atentamente os períodos: a) metonímia
b) catacrese
Vários de nós ficamos surpresos. c) hipérbole
Essa gente está furiosa e com medo; por consequência, d) antítese
capazes de tudo. e) hipérbato
Tua mãe, não há idade nem desgraça que lhe transforme
o sorriso. 10. (FUVEST) Identifique a figura de linguagem empre-
Entre elas, alguém estava envergonhada. gada nos versos destacados:

Os períodos acima contêm, respectiva e sucessivamente, “No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
as seguintes figuras de sintaxe: Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
a) Silepse de pessoa, silepse de gênero, anacoluto, De inexorabilíssimos trabalhos!”
silepse de número.
a) antítese
b) Anacoluto, anacoluto, anacoluto, silepse de número. b) anacoluto
c) Silepse de número, silepse de pessoa, anacoluto, c) hipérbole
d) litotes
anacoluto. e) paragoge
d) Silepse de pessoa, silepse de número, anacoluto,
11. (FUVEST) A figura de linguagem empregada nos
silepse de gênero. versos em destaque é:
e) Silepse de pessoa, anacoluto, silepse de gênero,
“Quando a Indesejada das gentes chegar
anacoluto. (Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo.
07. (Inatel) Reconheça e classifique as figuras de pala- Talvez sorria, ou diga:
vras, de construção e de pensamento: - Alô, iniludível!”

( ) “Quando uma lousa cai sobre um cadáver mudo”. a) clímax
( ) “Terrível hemorragia de sangue”. b) eufemismo
( ) “Das idades através”. c) sínquise
( ) “Oxalá tenham razão”. d) catacrese
( ) “Trejeita, e canta, e ri nervosamente”. e) pleonasmo

(1) Polissíndeto 12. Em cada um dos períodos abaixo ocorre uma silepse.
(2) Hipérbato Marque a alternativa que classifica corretamente cada
(3) Epíteto uma delas.
(4) Pleonasmo
(5) Elipse “Está uma pessoa ouvindo missa, meia-hora o cansa e
atormenta e faz romper em murmurações”.
A sequência que corresponde à resposta correta é: “E todos assim nos distraímos nesses preparativos”.
(Aníbal Machado)
a) 4,3,5,2,1 “A multidão vai subindo, subiram, subiram mais”. (Murilo
b) 3,4,2,1,5 Mendes)
c) 3,4,2,5,1
d) 3,4,5,2,1 a) silepse de gênero, silepse de número, silepse de
e) 1,3,2,5,4 número.

08. (Cescea) Identifique os recursos estilísticos empre- b) silepse de pessoa, silepse de número, silepse de
gados no texto: pessoa.

“Nem tudo tinham os antigos, nem tudo temos, os c) silepse de gênero, silepse de pessoa, silepse de
modernos”. (Machado de Assis) pessoa.

a) anáfora – antítese - silepse d) silepse de gênero, silepse de pessoa, silepse de
b) metáfora – antítese – elipse número.
c) anástrofe – antítese – zeugma
d) pleonasmo – antítese – silepse e) silepse de número, silepse de pessoa, silepse de
e) anástrofe – comparação – parábola gênero.
09. (Mack) Nos versos abaixo, uma figura se ergue graças

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13. (UFPR 2015 - C. Gerais) Na lata do poeta tudo-nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Marcha a ré Com que na lata venha caber
O incabível
Um grupo de ativistas promoverá neste sábado, em Deixe a meta do poeta, não discuta
São Paulo e em outras 200 cidades, a “Marcha da Família Deixe a sua meta fora da disputa
com Deus”, para fazer frente a um “golpe comunista mar- Meta dentro e fora, lata absoluta
cado para este ano” – a ser dado, segundo eles, pelo PT Deixe-a simplesmente metáfora.
e seus aliados. A passeata será uma reedição da “Marcha
da Família com Deus pela Liberdade”, que, no dia 19 de Disponível em: http://www.letras.terra.com.br. Acesso em: 5 fev. 2009.
março de 1964, protestou contra a “ameaça comunista” e
contribuiu para a queda do presidente João Goulart. A metáfora é a figura de linguagem identificada pela com-
paração subjetiva, pela semelhança ou analogia entre el-
É difícil imaginar um «golpe comunista» em que os ementos. O texto de Gilberto Gil brinca com a linguagem
aliados são Sarney, Collor, Maluf, Renan Calheiros e remetendo-nos a essa conhecida figura. O trecho em que
outros. Mas, quando se trata dessa turma, tudo é possível. se identifica a metáfora é:
A exemplo de 1964, os ativistas vão conclamar os militares
a tomar o poder, fechar os partidos, varrer a subversão e a a) “Uma lata existe para conter algo”.
corrupção e, com tudo saneado, nos devolver o país – ou b) “Mas quando o poeta diz: ’Lata’”.
o que sobrar dele. c) “Uma meta existe para ser um alvo”.
d) “Por isso não se meta a exigir do poeta”.
Pessoalmente, acho a pauta até modesta. Eu pediria e) “Que determine o conteúdo em sua lata”.
também a volta de Cláudia Cardinale, Stefania Sandrelli e
Vera Vianna. Dos cigarros Luiz XV e Mistura Fina e dos 15. (ENEM)
fósforos marca Olho. Da cuba-libre, do hi-fi e da vaca pre-
ta. Dos LPs do Tamba Trio, do Henry Mancini e do Modern TEXTO I
Jazz Quartet. Das cuecas samba-canção, ideais para um
bate-coxa, e dos penteados femininos armados com Bom Onde está a honestidade?
Bril. Do sexo à milanesa (de noite, na praia) e das corridas Você tem palacete reluzente
de submarino. Tudo isso era 1964. Tem joias e criados à vontade
Sem ter nenhuma herança ou parente
Do “Correio da Manhã”, do pente Flamengo e do con- Só anda de automóvel na cidade…
cretismo. Da Gillette Mono Tech, da pasta d’água e da Co- E o povo pergunta com maldade:
ca-Cola como bronzeador. Do Toddy em lata, dos tróleibus Onde está a honestidade?
e das bicicletas Monark com pneu balão. Da Parker 21, Onde está a honestidade?
do papel almaço e da goma arábica. Dos currículos com O seu dinheiro nasce de repente
latim, francês e canto orfeônico. Tudo isso também era E embora não se saiba se é verdade
1964. Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade…
Já os militares que a «Marcha» quer chamar de volta, Vassoura dos salões da sociedade
não recomendo. Sob eles, a família se esgarçou, a Que varre o que encontrar em sua frente
liberdade acabou e, em pouco tempo, o próprio Deus saiu Promove festivais de caridade
de fininho para não se comprometer. Em nome de qualquer defunto ausente…

Ruy Castro, www.folha.uol.com.br, 19 de março de 2014. ROSA, N. Disponível em: http://www.mpbnet.com.br. Acesso em: abr.
2010.
É correto afirmar que o tom geral que impera no texto
pode ser resumido pela palavra TEXTO II

a) indiferença. Um vulto da história da música popular brasileira, reconhe-
b) metáfora. cido nacionalmente, é Noel Rosa. Ele nasceu em 1910, no
c) ironia. Rio de Janeiro; portanto, se estivesse vivo, estaria com-
d) paródia. pletando 100 anos. Mas faleceu aos 26 anos de idade,
e) informação. vítima de tuberculose, deixando um acervo de grande
valor para o patrimônio cultural brasileiro. Muitas de suas
14. (ENEM) letras representam a sociedade contemporânea, como se
tivessem sido escritas no século XXI.
Metáfora
Gilberto Gil Disponível em: http://www.mpbnet.com.br. Acesso em: abr. 2010.

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz:
“Lata” Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: “Meta”
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata

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Um texto pertencente ao patrimônio literário-cultural bra- Sobre figuras de linguagem no poema, considere as afirm-
sileiro é atualizável, na medida em que ele se refere a ativas a seguir.
valores e situações de um povo. A atualidade da canção
Onde está a honestidade?, de Noel Rosa, evidencia-se I. A descrição do eu lírico e da Bahia configura uma
por meio antítese entre o estado antigo e o atual de ambos.

a) da ironia, ao se referir ao enriquecimento de origem II. A antítese é verificada na oposição entre as expres-
duvidosa de alguns. sões “máquina mercante” e “drogas inúteis”, embora
ambas se refiram à Bahia.
b) da crítica aos ricos que possuem joias, mas não têm
herança. III. Os versos 3 e 4 são exemplos do papel relevante
da gradação no conjunto do poema, pois enumeram
c) da maldade do povo a perguntar sobre a honestida- estados de espírito do eu lírico.
de.
IV. Os versos “Um dia amanheceras tão sisuda / Que
d) do privilégio de alguns em clamar pela honestidade. fora de algodão o teu capote!” configuram exemplos
e) da insistência em promover eventos beneficentes. de personificação e metáfora, respectivamente.

16. Assinale a alternativa correta.

I - DENTRO DA NOITE a) Somente as afirmativas I e IV são corretas.
(Manuel Bandeira) b) Somente as afirmativas II e III são corretas.
Dentro da noite a vida canta c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
E esgarça névoas ao luar... d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
Fosco minguante o vale encanta. e) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas
Morreu pecando alguma santa...
A água não para de chorar. [...] 18. (ENEM)

II - SONHO BRANCO Aquarela
(Cruz e Sousa) O corpo no cavalete
De linho e rosas brancas vais vestido, é um pássaro que agoniza
Sonho virgem que cantas no meu peito!... exausto do próprio grito.
És do Luar o claro deus eleito, As vísceras vasculhadas
Das estrelas puríssimas nascido. [...] principiam a contagem
regressiva.
Após atenciosa leitura dos textos acima (textos de séculos No assoalho o sangue
diferentes: o primeiro, do início do século XX; o segundo, se decompõe em matizes
do final do século XIX), considerando a falta de semel- que a brisa beija e balança:
hança entre eles, identifique uma figura de linguagem co- o verde - de nossas matas
mum. o amarelo - de nosso ouro
o azul - de nosso céu
a) Paradoxo o branco o negro o negro
b) Catacrese
c) Sinestesia CACASO. In: HOLLANDA, H. B (Org.). 26 poetas hoje. Rio
d) Hipérbole de Janeiro: Aeroplano, 2007.
e) prosopopeia
Situado na vigência do Regime Militar que governou o
17. Brasil, na década de 1970, o poema de Cacaso edifica
uma forma de resistência e protesto a esse período, meta-
1 Triste Bahia! Oh quão dessemelhante forizando
2 Estás, e estou do nosso antigo estado!
3 Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, a) as artes plásticas, deturpadas pela repressão e
4 Rica te vejo eu já, tu a mi abundante. censura.
5 A ti trocou-te a máquina mercante,
6 Que em tua larga barra tem entrado, b) a natureza brasileira, agonizante como um pássaro
7 A mim foi-me trocando, e tem trocado enjaulado.
8 Tanto negócio, e tanto negociante.
9 Deste em dar tanto açúcar excelente c) o nacionalismo romântico, silenciado pela perplexi-
10 Pelas drogas inúteis, que abelhuda dade com a Ditadura.
11 Simples aceitas do sagaz Brichote.
12 Oh se quisera Deus, que de repente d) o emblema nacional, transfigurado pelas marcas do
13 Um dia amanheceras tão sisuda medo e da violência.
14 Que fora de algodão o teu capote!
e) as riquezas da terra, espoliadas durante o aparelha-
mento do poder armado.

(MATOS, Gregório de. Poesias selecionadas. 3. ed. São Paulo: FTD, 1998.
p. 141.)

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19. (ENEM)

Disponível em: www.portaldapropaganda.com.br. Acesso em: 29. out. 2013 (adaptado).

Os meios de comunicação podem contribuir para a resolução de problemas sociais, entre os quais o da violência sexual
infantil. Nesse sentido, a propaganda usa a metáfora do pesadelo para

a) informar crianças vítimas de abuso sexual sobre os perigos essa prática, contribuindo para erradicá-la.
b) denunciar ocorrências de abuso sexual contra meninas, com o objetivo de colocar criminosos na cadeia.
c) dar a devida dimensão do que é o abuso sexual para uma criança, enfatizando a importância da denúncia.
d) destacar que a violência sexual infantil predomina durante a noite, o que requer maior cuidado dos responsáveis

nesse período.
e) chamar a atenção para o fato de o abuso infantil ocorrer durante o sono, sendo confundido por algumas crianças

com um pesadelo.
20. (ENEM)

Aquele bêbado
— Juro nunca mais beber — e fez o sinal da cruz com os indicadores. Acrescentou: — Álcool.
O mais ele achou que podia beber. Bebia paisagens, músicas de Tom Jobim, versos de Mário Quintana. Tomou um
pileque de Segall. Nos fins de semana, embebedava-se de Índia Reclinada, de Celso Antônio.
— Curou-se 100% do vício — comentavam os amigos. Só ele sabia que andava mais bêbado que um gambá. Morreu
de etilismo abstrato, no meio de uma carraspana de pôr do sol no Leblon, e seu féretro ostentava inúmeras coroas de
ex-alcoólatras anônimos.

ANDRADE, C. D. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 1991.

A causa mortis do personagem, expressa no último parágrafo, adquire um efeito irônico no texto porque, ao longo da
narrativa, ocorre uma

a) metaforização do sentido literal do verbo “beber”.
b) aproximação exagerada da estética abstracionista.
c) apresentação gradativa da coloquialidade da linguagem.
d) exploração hiperbólica da expressão “inúmeras coroas”.
e) citação aleatória de nomes de diferentes artistas.

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4. VARIAÇÃO LINGUÍSTICA
• O que é variação linguística?


Assim como outras, a língua portuguesa brasileira apresenta diferenças de interpretação e de construção de
sentidos das palavras, isso acontece devido a fatores de natureza histórica, regional, sociocultural ou situacional que
constituem o que chamamos de variações linguísticas. Essas variações podem ocorrer nas camadas fonológica, mor-
fológica, sintática, léxica e semântica.
Podemos entender da seguinte forma: A língua é a forma que o homem tem de entender o seu universo interno
e externo, ou seja, a idade, o sexo, o meio social, o espaço geográfico, tudo isso tornará a língua peculiar, diferente e
única.

• Tipos de variações linguísticas
As variações linguísticas podem ser definidas como:

1 – Variações Diacrônicas, ou Históricas;
2 – Variações Diatópicas, de natureza Geográfica, Regional, ou Dialetal;
3 – Variações Distráticas, de natureza Social ou Cultural;
4 – Variações Diafásicas, de natureza Situacional ou Expressiva;
1) Variação diacrônica (histórica): quando a língua apresenta mudanças dentro da linha do tempo; normalmente isso
acontece ao longo de um determinado período de tempo e pode ser identificado quando se comparam dois estágios
de uma língua. No ambiente rural, ainda se conserva uma linguagem com traços antigos, com mudanças mais visíveis
no léxico e na semântica.

Exemplo:
“(…) Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois,
ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico.
Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam cer-
oulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas
retratistas (…)”
(Trecho da crônica Antigamente, de Carlos Drummond de Andrade)

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2) Variação diatópica (geográfica, regional, dialetal): é aquela que apresenta mudanças de região para região, o
que simplesmente conhecemos como sotaque (pronúncia típica de uma região). O sotaque é o principal identificador do
lugar onde determinado indivíduo vive, e se estende também ao vocabulário, sentido das palavras, estrutura sintática
etc.;

Exemplo:
A Feira de Caruaru, de Luiz Gonzaga:
“A Feira de Caruaru, / Faz gosto a gente vê. / De tudo que há no mundo, / Nela tem pra vendê, / Na feira de Caruaru.
(…) Tem loiça, tem ferro véio, / Sorvete de raspa que faz jaú, / Gelada, cardo de cana, / Fruta de paima e mandacaru. /
Bunecos de Vitalino, / Que são cunhecidos inté no Sul, / De tudo que há no mundo, / Tem na Feira de Caruaru”

3) Variação diastrática (social, sociocultural):
São as variações ocorridas em razão da convivência entre os grupos sociais. A língua apresenta mudanças em cama-
das sociais diferentes (nível socioeconômico) e grupos sociais diversos (profissionais da mesma área, surfistas, funkei-
ros, políticos, comediantes etc.).
Exemplo:
Diálogo de um porteiro com um “doutor” e de um médico com uma paciente.
O porteiro e o doutor
– Bom dia, dotô.
– Bom dia.
– Seu Jorge, os portero aqui da área tão fazendo uma caxinha pá comemorá o fim do ano com um churraquinho; ó só,
os moradores vão poder estar participando, viu?
– Bem, Osvaldo, eu até gostaria de participar da comemoração de vocês, mas infelizmente só vou poder ajudar com
a caixinha; ajuda?
– Claro, dotô! Brigadão!
– Disponha.
O Médico e uma paciente
– Boa tarde.
– Pois não, em que posso ajudar a senhora?
– Bem, eu estive aqui semana passada com uma dor nas articulações muito grande.
– Dona Kátia, sua prostração me incomoda muito e queremos evitar que sua condição avance para uma anquilose,
certo?
– Prosta… o quê? Anqui… o quê?
– Fica calma, vou explicar e depois receito um remédio, ok?

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4) Variação diafásica (situacional, expressiva): são as variações que se dão em função do contexto comunicativo, ou
seja, a ocasião determina o modo como vamos falar com o interlocutor, podendo ser formal ou informal. Vai depender
do contexto, das circunstâncias, da situação comunicativa, quando um falante varia o uso da língua se está em um
ambiente familiar, profissional, formal, informal, etc., considerando o grau de intimidade, o tipo de assunto tratado e
quem são os receptores.

Veja esses três diálogos:

Pais e filha
– Papai, o que é sexo?
– Que isso, menina?! Que história é essa?
– Ah, papai, uma coleguinha minha me falou que a mamãe dela faz isso com…
– Quem é essa menina, filha?!
– É a Julinha.
– Michele, vem aqui.
– Que foi, Pedro?
– Mamãe, por que o papai ficou nervoso com o sexo? É ruim?
– Que isso, menina?! Que história é essa?
– Michele, ela quer saber o que é sexo, é isso.
– Ah, amorzinho, vem aqui pra eu te explicar. Não é nada, não. Sai daqui, Pedro! Bem, filha, é o seguinte: não tem
quando o papai e a mamãe se beijam e se abraçam?
– Ãrrã.
– Então, isso é sexo. É beijo e abraço entre o papai e a mamãe.
– Ah… entendi. Posso te dar um beijo e um abraço então, né?
– Não!… Quer dizer… Claro, filhota! Vem cá.

Amigos jovens em um bar
– Fala aí, parceiro!
– E aí, muleque! Beleza?
– Pô, tranquilão.
– E aí, vamo jogá aquela sinuquinha?
– Junto com aquela gelada.
– Já é.

Empregador e candidato a emprego
– Bem, senhor Mário, por que devemos contratar o senhor para a vaga de inspetor dessa escola?
– Senhor Roberto, com o devido respeito ao senhor e a sua instituição, seria uma honra trabalhar aqui, uma vez que
as referências que tenho dessa escola são ótimas. Agora, quanto a por que me contratar, só posso lhe dizer a verdade:
eu sou uma pessoa comprometida com o que faço, sou perfeccionista e responsável com meu horário, além de gostar
muito de me relacionar com o público infanto-juvenil. Enfim, acho que o trabalho pode ser meu porque eu creio que
tenho um bom perfil.
– Ok, senhor Mário, iremos entrar em contato depois, mas desde já, agradeço sua apresentação.

Como acabamos de verificar, a língua está sujeita a modificações em seu uso, já que sofre inúmeras influên-
cias. Pessoas de diferentes idades usam a Língua Portuguesa todos os dias, em várias regiões do Brasil e do mundo;
algumas são de classes sociais mais altas, possuem mais dinheiro, mais estudo, mais vivência, outras usam a língua
para serem reconhecidas por um grupo ou, até mesmo, para diferenciarem-se de outras associações. De forma geral,
a língua está sujeita a modificações regionais, etárias, culturais e socioeconômicas.
O uso de cada uma das modalidades de língua que dominamos dependerá da situação em que nos encon-
tremos. É importante saber usar a norma culta, mas usar outras modalidades pode ser mais adequado em algumas
ocasiões. Devemos, portanto, ser uma espécie de “poliglotas” em nosso próprio idioma: falar várias “línguas”, adequan-
do-as ao interlocutor e à situação em que estivermos.

• Preconceito linguístico

O preconceito linguístico acontece quando alguém não aceita a forma como o outro se comunica por ser difer-
ente, seja por causa do sotaque ou das variações linguísticas. Em geral, esse tipo de preconceito se manifesta por meio
do deboche em tom de deboche, quando alguém acredita que a sua maneira de falar é superior à do outro.No entanto,
tratando-se de variações linguísticas, não existe uma forma de falar melhor ou mais correta do que outra.
Um exemplo claro é observar um sulista que considera a sua maneira de se comunicar mais elegante aos que
vivem no Norte e Nordeste do país. Vale ressaltar que o Brasil possui dimensões continentais e, embora todos falemos
a língua portuguesa, ela apresenta diversas variações e particularidades regionais, como visto.
Os sotaques que se distinguem não somente nas cinco regiões do Brasil, mas também dentro de um próprio
estado, são os principais alvos de discriminação. Por exemplo, uma pessoa que nasceu e vive na capital do Estado e

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outra que vem do interior. Nesse caso, muitas palavras são usadas para identificar algumas dessas pessoas, usando
um tom pejorativo e depreciativo associado às variedades linguísticas, por exemplo: o caipira, o baiano, o nordestino,
o roceiro etc.

HORA DE PRATICAR

01. (ENEM) comprar um carro, pegarão um defluxo em vez de um res-
friado, vão andar no passeio em vez de passear na calça-
Óia eu aqui de novo da. Viajarão de trem de ferro e apresentarão sua esposa
ou sua senhora em vez de apresentar sua mulher.
Óia eu aqui de novo xaxando
Óia eu aqui de novo para xaxar SABINO, Fernando. Folha de S. Paulo, 13 abr. 1984 (adaptado).
Vou mostrar pr’esses cabras
Que eu ainda dou no couro A língua varia no tempo, no espaço e em diferentes class-
Isso é um desaforo es socioculturais. O texto exemplifica essa característica
Que eu não posso levar da língua, evidenciando que:
Que eu aqui de novo cantando
Que eu aqui de novo xaxando a) o uso de palavras novas deve ser incentivado em
Óia eu aqui de novo mostrando detrimento das antigas.
Como se deve xaxar
Vem cá morena linda b) a utilização de inovações no léxico é percebida na
Vestida de chita comparação de gerações.
Você é a mais bonita
Desse meu lugar c) o emprego de palavras com sentidos diferentes.
Vai, chama Maria, chama Luzia d) a pronúncia e o vocabulário são aspectos identifica-
Vai, chama Zabé, chama Raquel
Diz que eu tou aqui com alegria dores da classe social a que pertence o falante.
e) o modo de falar específico de pessoas de diferentes
BARROS, A. Óia eu aqui de novo. Disponível em: www. luizluagonza-
ga.mus.br. Acesso em: 5 maio 2013 (fragmento). faixas etárias é frequente em todas as regiões.

03. (ENEM)

Assum preto
(Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

A letra da canção de Antônio de Barros manifesta aspec- Tudo em vorta é só beleza
tos do repertório linguístico e cultural do Brasil.  O verso Sol de abril e a mata em frô
que singulariza uma forma característica do falar popular Mas assum preto, cego dos óio
regional é Num vendo a luz, ai, canta de dor
Tarvez  por ignorança
a) “Isso é um desaforo” Ou mardade das pió
b) “Diz que eu tou aqui com alegria” Furaro os óio do assum preto
c) “Vou mostrar pr’esses cabras” Pra ele assim, ai, cantá mió
d) “Vai, chama Maria, chama Luzia” Assum  preto veve sorto
e) “Vem cá morena linda, vestida de chita” Mas num pode avuá
Mil veiz a sina de uma gaiola
02. (ENEM ) Desde que o céu, ai, pudesse oiá.

Em bom português As marcas da variedade regional registradas pelos com-
positores de Assum preto resultam da aplicação de um
No Brasil, as palavras envelhecem e caem como conjunto de princípios ou regras gerais que alteram a
folhas secas. Não é somente pela gíria que a gente é pronúncia, a morfologia, a sintaxe ou o léxico. No texto, é
apanhada (aliás, já não se usa mais a primeira pessoa, resultado de uma mesma regra, a:
tanto do singular como do plural: tudo é “a gente”). A
própria linguagem corrente vai-se renovando e a cada dia a) pronúncia das palavras “vorta” e “veve”.
uma parte do léxico cai em desuso. Minha amiga Lila, que b) pronúncia das palavras “tarvez” e “sorto”.
vive descobrindo essas coisas, chamou minha atenção c) flexão verbal encontrada em “furaro” e “cantá”.
para os que falam assim: d) redundância nas expressões “cego dos óio” e “mata
– Assisti a uma fita de cinema com um artista que repre-
senta muito bem. em frô”.
Os que acharam natural essa frase, cuidado! Não saberão e) pronúncia das palavras “ignorança” e “avuá”.
dizer que viram um filme com um ator que trabalha bem.
E irão ao banho de mar em vez de ir à praia, vestido de
roupa de banho em vez de biquíni, carregando guarda-sol
em vez de barraca. Comprarão um automóvel em vez de

109

04. (ENEM)

Até quando?

Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão
Virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus
Sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer!

GABRIEL, O Pensador. Seja você mesmo (mas não seja sempre o mesmo). Rio (  ) Pela linguagem utilizadas pelos falantes eles não
de Janeiro: Sony Music, 2001 (fragmento). conseguem se comunicar.

As escolhas linguísticas feitas pelo autor conferem ao tex- (  ) Os fatores regional, escolar e social influenciam o
to modo de falar dos personagens acima.

a) caráter atual, pelo uso de linguagem própria da (  ) Esse modo de falar é totalmente inaceitável em
internet. qualquer situação, porque é linguagem matuta.

b) cunho apelativo, pela predominância de imagens (  ) Mesmo sendo linguagem matuta cumpre sua função
metafóricas. comunicativa.

c) tom de diálogo, pela recorrência de gírias. (  ) Não devemos ter preconceitos com exemplos de
d) espontaneidade, pelo uso da linguagem coloquial. língua como essa acima, pois há diversos motivos
e) originalidade, pela concisão da linguagem. que explicam esse modo de falar.

07. Assinale a opção que  identifica  a  variação  linguística
presente nos textos abaixo.

05. (Fuvest-2012) Assaltante Nordestino
  –Ei, bichin…Isso é um assalto… Arriba os braços e
“A correção da língua é um artificialismo, continuei episco- num  se bula nem faça muganga… Arrebola o dinheiro
palmente. O natural é a incorreção. Note que a gramática no mato e não faça pantim  se não  enfio  a  peixeira 
só se atreve a meter o bico quando escrevemos. Quando no  teu  bucho  e  boto  teu  fato  pra fora! Perdão,
falamos, afasta-se para longe, de orelhas murchas.” meu PadimCiço, mas é que eu to com uma fome da
moléstia…
LOBATO, Monteiro, Prefácios e entrevistas.
Assaltante Baiano
a) Tendo em vista a opinião do autor do texto, pode-se  – Ô meu rei… (longa pausa) Isso é um assalto… (longa
concluir corretamente que a língua falada é despro- pausa). Levanta os braços, mas não se avexe não…
vida de regras? Explique sucintamente. (longa pausa). Se num quiser nem precisa levantar, pra
num ficar cansado… Vai
b) Entre a palavra “episcopalmente” e as expressões passando a grana, bem devagarinho… (longa pausa).
“meter o bico” e “de orelhas murchas”, dá-se um Num repara se o berro está sem bala, mas é pra não
contraste de variedades linguísticas. Substitua as ficar muito pesado… Não esquenta, meu irmãozinho
expressões coloquiais, que aí aparecem, por outras (longa pausa).   Vou deixar teus
equivalentes, que pertençam à variedade padrão. documentos na encruzilhada…

06. Observe a imagem retirada do Facebook abaixo e Assaltante Paulista
marque V ou F nos parênteses:  –Orra, meu…  Isso  é  um  assalto, meu…  Alevanta  os 
braços, meu… Passa a grana logo, meu… Mais rápido,
meu, que eu ainda  preciso  pegar  a  bilheteria  aberta 
pra  comprar  o ingresso  do  jogo  do  Corinthians, 
meu…  Pó,  se  manda, meu…

a)   fator padrão
b)   fator pessoal
c)   fator escolar
d)   fator regional
e)   fator humorístico

110

08. Leia o texto abaixo e julgue as afirmações em VER- 11. (ENEM) A escrita é uma das formas de expressão
DADEIRAS ou FALSAS: que as pessoas utilizam para comunicar algo e tem
varias finalidades: informar, entreter, convencer, di-
E AÍ, DOIDERA, CADÊ A PARADA LÁ?! vulgar, descrever. Assim, o conhecimento acerca das
variedades linguísticas sociais, regionais e de registro
(  ) As gírias são expressões que marcam a língua co- torna-se necessário para que se use a língua nas mais
loquial, ou seja, é uma variante mais espontânea, diversas situações comunicativas.
utilizada nas relações informais entre os falantes.
Considerando as informações acima, imagine que você
(  ) O emprego intensivo de gírias entre os falantes faz esta a procura de um emprego e encontrou duas empre-
com que essa variedade linguística se propague sas que precisam de novos funcionários. Uma delas exige
rapidamente. uma carta de solicitação de emprego. Ao redigi-la, você

(  ) O autor do texto expõe sobre um processo linguístico a) fará uso da linguagem metafórica.
que sofre influência de inúmeros fatores entre eles: b) apresentar elementos não verbais.
a relação entre falantes e ouvintes. c) utilizar do registro informal.
d) evidenciar da norma padrão.
(  ) “doidera” e “parada”  são expressões resultantes e) fará uso de gírias.
de variação linguística, empregadas entre falantes,
marcadas por uma época e o grupo social de que 12.
fazem parte.

09. Assinale a alternativa que contém uma informa- Pronominais
ção  FALSA  em  relação ao fenômeno da variação
linguística. Dê-me um cigarro
Diz a gramática
a) A variação linguística consiste num uso diferente da Do professor e do aluno
língua, num outro modo de expressão aceitável em E do mulato sabido
determinados contextos. Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
b) A variedade linguística usada num texto deve estar Dizem todos os dias
adequada à situação de comunicação vivenciada, ao Deixa disso camarada
assunto abordado, aos participantes da interação. Me dá um cigarro.

c) As variedades  que  se  diferenciam  da  variedade  (ANDRADE, O. Obras completas, Volumes 6-7. Rio de Janeiro: Civiliza-
considerada  padrão devem ser vistas como imper- ção Brasileira, 1972)
feitas, incorretas e inadequadas.
A partir da leitura do poema Pronominais e o seu contexto
d) As línguas  são  heterogêneas  e  variáveis  e,  por  de criação, podemos considerar CORRETAMENTE que
isso,  os  falantes apresentam  variações  na  sua 
forma  de  expressão,  provenientes  de diferentes
fatores.

10. São várias as diferenças linguísticas das diversas a) Oswald de Andrade tinha intenção de criar uma nova
regiões e das diferentes camadas sociais do Brasil. forma de falar no Brasil.
Todas, porém, fazem parte de nossa realidade e são
compreensíveis por seus falantes. Como exemplo b) o primeiro verso de Pronominais segue a forma
disso, podem-se verificar as variantes linguísticas para  falada no cotidiano das pessoas cultas, que frequen-
as  palavras  “tangerina” e  “mandioca”. Considerando taram a escola e que são da classe alta.
essas informações acerca das variações linguísticas
da língua portuguesa, assinale a ÚNICA opção COR- c) no poema percebemos claramente vemos a impor-
RETA. tância da gramática normativa para o poeta.

a) As palavras tangerina, mexerica e laranja-cravo são d) a comparação entre o primeiro e o último verso exem-
sinônimas, assim como mandioca e macaxeira. plifica de forma clara uma das muitas diferenças
existentes entre a língua que a gramática normativa
b) São corretas apenas as formas “mandioca” e “tan- considera correta e a língua efetivamente falada pela
gerina”, uma vez que são palavras mais bem aceitas maioria das pessoas.
na língua culta e laranja-cravo é errado falar.
e) o poema demostra que não há diferenças entre
c) O uso da palavra macaxeira não é correto, pois  faz  as classes sociais e que todos falamos da mesma
parte da língua indígena do nordeste do País. maneira, seja negro, branco ou mulato, mas o im-
portante é seguir a gramática brasileira.
d) quando um  falante usa o termo macaxeira, em vez
de  mandioca,  demonstra  pertencer  a  uma  classe
social baixa.

e) Os brasileiros falam o Português mais corretamente
na região Sul do que na região Nordeste. 

111

13. Observe o quadro abaixo: 14. (ENEM)

VOSSA MERCÊ Óia eu aqui de novo xaxando
VOSMICÊ Óia eu aqui de novo para xaxar
MERCÊ
VOCÊ Vou mostrar pr’esses cabras
ÔCÊ Que eu ainda dou no couro
CÊ Isso é um desaforo
VC Que eu não posso levar
Que eu aqui de novo cantando
Que eu aqui de novo xaxando
Óia eu aqui de novo mostrando
Como se deve xaxar

C Vem cá morena linda
Vestida de chita
(J. R) Você é a mais bonita
Desse meu lugar
Você é um pronome pessoal de tratamento. Refere-se à Vai, chama Maria, chama Luzia
segunda pessoa do discurso, mas, por ser pronome de Vai, chama Zabé, chama Raque
tratamento, é empregado na terceira pessoa (como “ele” Diz que eu tou aqui com alegria
ou “ela”). Sua origem etimológica encontra-se na ex-
pressão de tratamento de deferência vossa mercê, que se BARROS, A. Óia eu aqui de novo. Disponível em: www.luizluagonzaga.mus.
transformou sucessivamente em tantas outras variações. br. Acesso em: 5 maio 2013 (fragmento).
Sobre a variação desse pronome de tratamento analise as
afirmações a seguir: A letra da canção de Antônio de Barros manifesta aspec-
tos do repertório linguístico e cultural do Brasil. O verso
I. Esse pronome sofreu uma variação através do que singulariza uma forma característica do falar popular
tempo, a qual os linguistas a chamam de variação regional é:
diacrônica.
a) “Isso é um desaforo”.
II. Esse tipo de fenômeno é raro na língua portuguesa. b) “Diz que eu tou aqui com alegria”.
Dificilmente uma palavra ou expressão sofre influên- c) “Vou mostrar pr’esses cabras”.
cia do tempo como aconteceu com esse pronome. d) “Vai, chama Maria, chama Luzia”.
e) “Vem cá morena linda, vestida de chita”.
III. A forma “você” é a representante da língua culta
atual. Já as variações “vc” e “c”, típicas das redes 15. (ENEM)
sociais, não deveriam ser aceitas pelos brasileiros,
tendo em vista empobrecer nossa língua. Só há  uma  saída para a escola se ela quiser ser  mais
bem-sucedida: aceitar a  mudança da  língua como um
IV. Fenômenos como esse provam que as línguas não fato. Isso deve significar que a  escola deve aceitar
são estáticas, mas sim sofrem variações provocadas qualquer forma de  língua em  suas  atividades escri-
por diversos fatores externos (tempo, geografia, tas? Não deve mais  corrigir?  Não!
escolar, social, etc).   Há  outra dimensão a ser  considerada:  de fato, no 
mundo real da escrita,  não existe  apenas  um portu-
Marque a alternativa que apresenta, apenas, a(s) corre- guês correto,  que  valeria para todas  as  ocasiões: o
ta(s). estilo dos  contratos não  é  o  mesmo dos  manuais de 
instrução; o dos  juízes do  Supremo não  é  o  mesmo
a) I e IV dos cordelistas; o dos editoriais dos  jornais  não  é  o
b) I, III e IV mesmo dos dos cadernos de  cultura dos  mesmos  jor-
c) I e II nais. Ou  do de  seus  colunistas.
d) I, II e IV
e) IV apenas 

(POSSENTI,  S.  Gramática  na cabeça. Língua  Portuguesa,  ano 5,
n. 67,  maio 2011 – adaptado).

112

Sírio Possenti defende a tese de que não existe um úni- 17. (ENEM)
co “português correto”. Assim sendo, o domínio da língua
portuguesa implica, entre outras coisas, saber No romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o
vaqueiro Fabiano encontra-se com o patrão para re-
a) descartar  as  marcas de informalidade do texto. ceber o salário. Eis parte da cena: Não se conformou:
b) reservar o  emprego da  norma  padrão aos textos devia haver engano. (…) Com certeza havia um erro
no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabi-
de  circulação ampla. ano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim
c) moldar  a  norma  padrão do português pela   lingua- no toco, entregando o que era dele de mão beijada!
Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca
gem do discurso jornalístico. arranjar carta de alforria? O patrão zangou-se, repeliu
d) adequar as  formas  da língua a diferentes tipos de  a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar
serviço noutra fazenda. Aí Fabiano baixou a pancada e
texto e contexto. amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não.
e) desprezar as formas  da língua  previstas pelas 

gramáticas e  manuais divulgados  pela escola.

16. (ENEM)

Aula de português (Graciliano Ramos. Vidas Secas. 91.ª ed. Rio de Janeiro: Record,
2003.)

A linguagem No fragmento transcrito, o padrão formal da linguagem
na ponta da língua convive com marcas de regionalismo e de coloquialismo
tão fácil de falar no vocabulário. Pertence a variedade do padrão formal da
e de entender. linguagem o seguinte trecho:
A linguagem
na superfície estrelada de letras, a) “Não se conformou: devia haver engano” (ℓ.1).
sabe lá o que quer dizer? b) “e Fabiano perdeu os estribos” (ℓ.3).
Professor Carlos Gois, ele é quem sabe, c) “Passar a vida inteira assim no toco” (ℓ.4).
e vai desmatando d) “entregando o que era dele de mão beijada!” (ℓ.4-5).
o amazonas de minha ignorância. e) “Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou” (ℓ.11).
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me. 18. (ENEM)
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora, Leia com atenção o texto:
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada [Em Portugal], você poderá ter alguns probleminhas
do namoro com a priminha. se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas
O português são dois; o outro, mistério. sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir
para ver os ternos — peça para ver os fatos. Paletó é
(Carlos Drummond de Andrade. Esquecer para lembrar. Rio de casaco. Meias são peúgas. Suéter é camisola — mas
Janeiro: José Olympio, 1979.) não se assuste, porque calcinhas femininas são cue-
cas. (Não é uma delícia?). (Ruy Castro. Viaje Bem. Ano
Explorando a função emotiva da linguagem, o poeta ex- VIII, no 3, 78.)
pressa o contraste entre marcas de variação de usos da
linguagem em O texto destaca a diferença entre o português do Brasil e
o de Portugal quanto
a) situações formais e informais.
b) diferentes regiões do país. a) ao vocabulário.
c) escolas literárias distintas. b) à derivação.
d) textos técnicos e poéticos. c) à pronúncia.
e) diferentes épocas. d) gênero
e) à sintaxe.

113

19. (ENEM) pela escola

As dimensões continentais do Brasil são objeto de reflexões expressas em diferentes linguagens. Esse tema aparece
no seguinte poema:

“(….)
Que importa que uns falem mole descansado
Que os cariocas arranhem os erres na garganta
Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais?
Que tem se os quinhentos réis meridional
Vira cinco tostões do Rio pro Norte?
Junto formamos este assombro de misérias e grande-
zas,
Brasil, nome de vegetal! (….)”

(Mário de Andrade. Poesias completas. 6. ed. São
Paulo: Martins Editora, 1980.)

O texto poético ora reproduzido trata das diferenças brasileiras no âmbito

a) étnico e religioso.
b) linguístico e econômico.
c) racial e folclórico.
d) histórico e geográfico.
e) literário e popular.

20.

Considerando-se a variedade linguística reproduzida no texto acima, é correto afirmar:

a) O termo “estribado”, por exemplo, reflete formalidade, portanto pode ser usado em requerimentos, cartas oficiais,
redações escolares.

b) Todas as variantes nordestinas mostradas no quadro cumprem sua função comunicativa quando utilizadas nos
contextos adequados.

c) Todas as variantes nordestinas mostradas no quadro são consideradas erradas do ponto de vista gramatical.
d) Esse quadro exemplifica o quanto a língua de uma nação é homogênea.
e) As variantes nordestinas desfavorecem as formas da língua previstas pelas gramáticas e manuais divulgados

114

5. ARTES, SUAS MANIFESTAÇÕES E LINGUAGENS

A relação natural entre as artes é um envolvimento que remonta à gênese da cultura universal. Entender esse processo
nos ajuda a pensar a substância estética e social das artes, de uma maneira geral.
A arte é um bem cultural atemporal, fruto da comunicação humana, intimamente ligado às sensações estéticas e às
emoções. Ela faz parte das primeiras expressões que o ser humano desenvolve na vida.
Na história da civilização não é diferente, como bem mostram as pinturas rupestres. Na Grécia Antiga, berço da civi-
lização ocidental, as artes estavam todas interligadas.
O termo mousiké, “as artes das musas”, representava cada uma das artes através de uma musa (espécie de divin-
dade). Mousiké englobava poesia épica (Calíope), dança e canto (Terpíscore), comédia (Talía), tragédia (Melopômene),
história (Clíos), astronomia e astrologia (Urânia), poesia erótica (Erato), poesia lírica (Euterpe) e Polímnia (poesia sacra
e geometria).

As nove musas gregas https://conversamos.wordpress.com/2017/12/10/as-9-musas-gregas/

Os diferentes tipos de arte

A arte possui hoje possui as mais diversas expressões, que estão relacionadas ao intelecto e às sensações físicas,
como: a música (som); pintura (cor); escultura (volume); arquitetura (espaço); literatura (palavra); fotografia (imagem);
história em quadrinhos (cor, palavra, imagem).

Temos também as formas artísticas que integram umas às outras como as Artes Cênicas: teatro/dança/coreografia
(movimento); cinema (integra elementos das artes posteriores e a animação); outras formas também consideradas
artes podem ser citadas como o artesanato (volume); a arte digital, etc.

A presença e as consequências da arte

A presença da arte é flagrante em praticamente todos os momentos da vida e está relacionada igualmente à quase
tudo. Os móveis de uma casa, os aparelhos eletrônicos, a sua arquitetura, decoração, a engenharia de um automóvel,
os movimentos de um atleta, em suma, tudo é passível de ser visto como “arte”.

A maioria das pessoas, por exemplo, não terá um olhar criativo que possa elevar um determinado saber para um outro
patamar. Muitos podem observar a pintura de uma casa sem sobressalto. Mas um pintor experiente, sabedor do assun-
to – ou mesmo qualquer pessoa – pode notar ali um trabalho acurado, singular, e porque não, artístico.

Essa capacidade de observar e criar algo novo – mesmo que seja um olhar distinto sobre algo antigo – é um dos prin-
cípios da arte. E, é isto que a torna tão importante em todas as épocas. Contudo, como é também de sua natureza, a
arte está sempre em movimento, e a forma como é vista e compreendida – parte dela também – muda constantemente.

A complicada arte de ver
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que
ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas,
os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já
fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive
um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo ne-
les: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser
comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates,
os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto.»
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes
Elementares”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é
comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de
água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver”.

Rubem Alves, Folha de S.Paulo, 26/10/2004. Adaptado.

115

Peças das artes

O artista: na qualidade de produtor de uma obra de arte, seja ela qual for, o artista é aquele que atinge e demonstra
determinado conhecimento. Ou seja, é aquele que comunica este saber a um público que conhece ou não.

O espectador: o público, por sua vez, usufrui da produção artística e dá sentido a ela, certificando a qualidade da obra
como forma artística. O público também irá perpetuar os seus efeitos da arte sobre a sociedade: por meio da aceitação
e do interesse que ela é capaz de gerar, pela emoção e pelo valor que lhe atribuem.

A crítica: a crítica difere do público no sentido de se especializar em avaliar uma determinada produção e, por esse
motivo, detém sobre ela a autoridade e um mediador instruído no tema. A crítica, bem como a teoria, nos serve de guia
e de suporte para entender a arte por outras perspectivas. Nesse caso, conhecendo a História da Arte, e as diferentes
técnicas, é possível ter uma apreciação estética mais ampla. Contudo, é sempre um equívoco – tanto da parte da crítica
quanto de quem travou contato com ela – tentar entender uma crítica como definitiva, ou como palavra final a respeito
de uma determinada obra de arte.

Para que serve a arte?

As funções da arte em geral

Como já foi dito, a arte possui uma função na sociedade que varia de acordo com o período histórico, a região geográfi-
ca e os aspectos culturais de cada povo. Pensando em algumas dessas funções, que podem estar combinadas num
mesmo produto, é possível destacar a:

Função utilitária:  a arte possui muitas vezes um fim utilitário, como servir a fins práticos, religiosos, políticos ou
publicitários, o que não necessariamente diminui a sua qualidade estética.

Função naturalista: é a busca de representar a arte da forma mais fiel possível à realidade. Dessa maneira, é possível
aproximar o observador da vida objetiva e de um determinado contexto, algumas vezes agregando a isso um tom
grandiloquente, como na arte sacra e na pintura clássica.

Função formalista: essa função refere-se à abordagem dos elementos básicos e estruturais da obra de arte, tais como
cor, textura e forma. Algumas obras de arte abstratas são baseadas majoritariamente nesses elementos em detrimento
do tema.

Função pragmática:  essa função que pretende ver a arte sem um motivo utilitário, e sim como “arte pela arte” –
expressão criada na modernidade – que possui o fim em si mesma. Arte que é para ser apreciada em galerias, museus
e salas de concerto, de modo a ser apreciada apenas do ponto de vista estética e conceitual.
A arte, como fica evidente, é capaz de causar sensações profundas e também é capaz de nos revelar uma visão crítica
sobre o mundo. A arte possui, portanto, um poder relevante na sociedade.
Tal potencialidade, muitas vezes, faz com que os artistas expressem a sua visão política sobre o meio em que vivem, o
que é bastante natural, afinal, todas as pessoas possuem opiniões e dialogam sobre temas diversos. Essa abordagem
pode ser utilitária – como um serviço em prol de um grupo político específico – ou meramente espontânea. Pois, claro,
há artistas com posições apartidárias que desejam tecer críticas a uma situação social injusta ou apoiar uma determi-
nada ação social.

A discussão sobre o uso da arte é atemporal. Há defensores para todos os seus aspectos e funções. O importante é
que todos possam produzir sua arte e expressar sua visão de mundo.

A Arte como um produto

A partir da modernidade (meados do século XIX) a arte passa a de fato constituir-se num produto, num bem de consu-
mo, passível de reprodução mediante as técnicas de reprodução como: fotografia, gravação, industrialização, digital-
ização, etc. Essa mudança de paradigma acaba influindo sobre a noção de qualidade artística, originalidade, autoria,
identidade, valor cultural, unidade, entre outros.

Diante dessa crise, surgem artistas engajados numa visão crítica sobre a arte e a cultura massificada, como os artistas
da Pop Art, dadaístas, cubistas e outros. Surgem assim artistas como o artista plástico Andy Warhol, que emprega
elementos da cultura massificada (cinema, televisão, rádio) e da reprodução técnica de seus ícones mais populares.

O artista plástico Marcel Duchamp, dadaísta que criou, em 1917, uma experiência artística que ficou conhecida como
“Ready made”, que é o transporte de um objeto do cotidiano, atípico na esfera artística a princípio, para o ambiente
dos museus e galerias. O gesto iconoclasta colocava também marcante ironia, o caráter comercial vinculado ao rótulo
“arte”. Veja abaixo uma de suas obras mais conhecidas:

116

Urinol, Marcel Duchamp, 1917

Como você pode notar, a arte, sua apreciação e entendimento mudam com o tempo e a mentalidade de cada socie-
dade, não é um sistema fechado, mas em constante elaboração. E, a Literatura, como um ramo da arte, também pert-
ence à essa constante construção e desconstrução da linguagem que tenta representar os seres humanos.
A Literatura, por assim dizer, é a arte da palavra, não de qualquer coisa escrita, mas aquela intencional, carregada
de significado, harmônica, expressiva e que é capaz de recriar a realidade. A intenção do escrito literário é voltada à
própria linguagem, não se preocupando unicamente com sentidos objetivos, mas carregando-os de subjetividade, de
possibilidades de significação, de inovações estruturais e vocabulares, enfim, rompendo as barreiras da linguagem e
expressão comuns, alcançando elevados níveis de expressividade.

HORA DE PRATICAR

01. (ENEM) O grafite contemporâneo, considerado em alguns mo-
mentos como uma arte marginal, tem sido comparado às
TEXTO I pinturas murais de várias épocas e às escritas pré-históri-
cas. Observando as imagens apresentadas, é possível
Toca do Salitre — Piauí Disponível em: http://www.fumdham.org.br. Acesso em: reconhecer elementos comuns entre os tipos de pinturas
27 jul. 2010. (Foto: Reprodução/Enem) murais, tais como

TEXTO II a) a preferência por tintas naturais, em razão de seu
efeito estético.

b) a inovação na técnica de pintura, rompendo com
modelos estabelecidos.

c) o registro do pensamento e das crenças das socie-
dades em várias épocas.

d) a repetição dos temas e a restrição de uso pelas
classes dominantes

e) o uso exclusivista da arte para atender aos interesses
da elite.

Arte Urbana. Foto: Diego Singh Disponível em: http://www.diaadia.pr.gov.br. Aces-
so em: 27 jul. 2010. (Foto: Reprodução/Enem)

117

02. Figura 2

A origem da obra de arte (2002) é uma instalação seminal Disponível em <Iproweb.procempa.com.br>.
na obra de Marilá Dardot. Apresentada originalmente em sua
primeira exposição individual, no Museu de Arte da Pam- Figura 3
pulha, em Belo Horizonte, a obra constitui um convite para
a interação do espectador, instigado a compor palavras e
sentenças e a distribuí-las pelo campo. Cada letra tem o fei-
tio de um vaso de cerâmica (ou será o contrário?) e, à dis-
posição do espectador, encontram-se utensílios de plantio,
terra e sementes. Para abrigar a obra e servir de ponto de
partida para a criação dos textos, foi construído um peque-
no galpão, evocando uma estufa ou um ateliê de jardinagem.
As 1500 letras-vaso foram produzidas pela cerâmica que fun-
cionan o Instituto Inhotim, em Minas Gerais, num processo que
durou vários meses e contou com a participação de dezenas
de mulheres das comunidades do entorno. Plantar palavras,
semear ideias é o que nos propõe o trabalho. No contexto de
Inhotim, onde natureza e arte dialogam de maneira privilegiada,
esta proposição se torna, de certa maneira, mais perto da pos-
sibilidade.

Disponível em: www.inhotim.org.br. Acesso em: 22 maio 2013 (adaptado).

A função da obra de arte como possibilidade de experimentação Disponível em <www.estadao.com.br/fotos/jamelao10.JPG>.
e de construção pode ser constatada no trabalho de Marilá Dar-
dot porque Figura 4

a) o projeto artístico acontece ao ar livre. Disponível em <www.geocities.com/cosavip/>.
b) o observador da obra atua como seu criador.
c) a obra integra-se ao espaço artístico e botânico. Figura 5
d) as letras-vaso são utilizadas para o plantio de mudas.
e) as mulheres da comunidade participam na confecção

das peças.

03.
Figura 1

Disponível em: www.amigosdavilamariana.com.br/?q=node/9.

Disponível em <www.jaggedglobe.co.uk/images/i/1295.jpg>.

118

A música desempenha diversas funções na sociedade: educar, c) apropriação de materiais e objetos do cotidiano, que con-
entreter, louvar, dominar, seduzir, entre outras. Considerando o ferem à obra um resultado inacabado.
trabalho do artista em seu meio cultural, é correto afirmar que a
figura d) aplicação de materiais populares, o que a caracteriza como
obra de arte utilitária.
a) 4 mostra uma atividade profana, ou secular, que
envolve a música. e) ruptura com meios e suportes tradicionais por utilizar ob-
jetos do cotidiano, dando-lhes novo sentido condizente.
b) 3 mostra uma situação em que a música é usada
com finalidade terapêutica. 06. (ENEM)Ao se apossarem do novo território, os europeus
ignoraram um universo de antiga sabedoria, povoado
c) 1 mostra uma situação que ilustra o poder do som por homens e bens unidos por um sistema integrado.
produzido por um ser dominando outro ser. A recusa em se inteirar dos valores culturais dos
primeiros habitantes levou-os a uma descrição sim-
d) 2 mostra a música em um contexto de louvor religio- plista desses grupos e à sua sucessiva destruição.
so. Na verdade, não existe uma distinção entre a nossa
arte e aquela produzida por povos tecnicamente me-
e) 5 mostra um grupo desempenhando uma atividade nos desenvolvidos. As duas manifestações devem ser
profissional. encaradas como expressões diferentes dos modos
de sentir e pensar das várias sociedades, mas tam-
04. A dança moderna propõe em primeiro lugar o co- bém como equivalentes, por resultarem de impulsos
nhecimento de si e o autodomínio. Minha proposta humanos comuns.
é esta: através do conhecimento e do autodomínio
chego à forma, à minha forma — e não o contrário. É SCATAMACHIA, M. C. M. In: AGUILAR, N. (Org.). Mostra do redescobrimento:
uma inversão que muda toda a estética, toda a razão arqueologia. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo – Associação Brasil 500
do movimento. A técnica da dança tem apenas uma
finalidade: preparar o corpo para responder à exigên- anos artes visuais, 2000
cia do espírito artístico.
De acordo com o texto, inexiste distinção entre as artes produz-
VIANNA, K.; CARVALHO, M. A. A dança. São Paulo: Siciliano, 1990. idas pelos colonizadores e pelos colonizados, pois ambas com-
partilham o(a)
Na abordagem dos autores, a técnica, o autodomínio e o
conhecimento do bailarino estão a serviço da a) suporte artístico.
b) nível tecnológico.
a) padronização do movimento da dança. c) base antropológica.
b) subordinação do corpo a um padrão. d) concepção estética.
c) concretização da criação pessoal. e) referencial temático.
d) ideia preconcebida de forma.
e) busca pela igualdade entre os bailarinos. 07. (ENEM) Em 1866, tendo encerrado seus estudos na
Escola de Belas Artes, em Paris, Pedro Américo ofe-
05. receu a tela A Carioca ao imperador Pedro II, em reco-
nhecimento ao seu mecenas. O nu feminino obedecia
PAULINO, R. Bastidores (detalhe), 1997. Xerox transferida e costurada sobre aos cânones da grande arte e pretendia ser uma ale-
tecido montado em bastidor. Disponível em: www.galeriavirgilio.com.br. Acesso goria feminina da nacionalidade. A tela, entretanto, foi
recusada por imoral e licenciosa: mesmo não fugindo
em: 29 out.2010. à regra oitocentista relativa à nudez na obra de arte, A
Carioca não pôde, portanto, ser absorvida de imediato.
Nas últimas décadas, a ruptura, o efêmero, o descartável incor- A sensualidade tangível da figura feminina, próxima do
poram-se cada vez mais ao fazer artístico, em consonância com orientalismo tão em voga na Europa, confrontou-se não
a pósmodernidade. somente com os limites morais, mas também com
No detalhe da obra Bastidores, percebe-se a a orientação estética e cultural do Império. O que
chocara mais: a nudez frontal ou um nu tão des-
a) apropriação de objetos de uso cotidiano das mulheres, o colado do que se desejava como nudez nacional
que confere à obra um caráter feminista. aceitável, por exemplo, aquela das românticas figu-
ras indígenas? A Carioca oferecia um corpo simul-
b) utilização de objetos do cotidiano como tecido, bastidores, taneamente ideal e obsceno: o alto — uma beleza
agulha, linha e fotocópia, que tornam a obra de abrangên- imaterial — e o baixo — uma carnalidade excessiva.
cia regional. Sugeria uma mistura de estilos que, sem romper com a
regra do decoro artístico, insinuava na tela algo inade-
quado ao repertório simbólico oficial. A exótica morena,
que não é índia — nem mulata ou negra — poderia
representar uma visualidade feminina brasileira e des-
frutar de um lugar de destaque no imaginário da nossa
“monarquia tropical”?

119

09. (ENEM)

STUCKERT, R. Palácio da Alvorada. Disponível em: www.g1.globo.com. Acesso
em: 28 abr.2010.

OLIVEIRA, C. Disponível em: http://anpuh.org.br. Rompendo com as paredes retas e com a geometrização clás-
AMÉRICO, Pedro. A carioca. Disponível em: http://oinsFtuto.org.br/?p=24. sica acadêmica, os arquitetos modernistas desenvolveram seus
projetos graças também a um momento de industrialização e
O texto revela que a aceitação da representação do belo na obra modernização do Brasil. Observando a imagem apresentada,
de arte está condicionada à analisa–se que

a) incorporação de grandes correntes teóricas de uma a) Niemeyer projetou os edifícios de Brasília com a
época, conferindo legitimidade ao trabalho do artista. intenção de impor a arquitetura sobre a natureza,
seguindo os princípios da arquitetura moderna.
b) atemporalidade do tema abordado pelo artista,
garantindo perenidade ao objeto de arte então ela- b) oPaláciodaAlvorada,emBrasília,naposiçãohorizontal
borado. permitefazerumaintegraçãodoedifíciocomapaisagem
do cerrado e o horizonte, um conceito de vanguarda
c) inserção da produção artística em um projeto estético e para a arquitetura da época.
ideológico determinado por fatores externos.
c) Niemeyer projetou o Palácio da Alvorada com colu-
d) apropriação que o pintor faz dos grandes temas nas de linhas quebradas e rígidas, com o propósito
universais já recorrentes em uma vertente artística. de unir as tendências recentes da arquitetura mo-
derna, criando um novo estilo.
e) assimilação de técnicas e recursos já utilizados por
movimentos anteriores que trataram da temática. d) os prédios de Brasília são elevados e sustentados
por colunas, deixando um espaço livre sob o edifício,
08. (ENEM) Na exposição “A Artista Está Presente “, no com o objetivo de separar o ambiente externo do
MoMA, em Nova Iorque, a performer Marina Abramovic interno, trazendo mais harmonia à obra.
fez uma retrospectiva de sua carreira. No meio desta,
protagonizou uma performance marcante. Em 2010, e) Niemeyer projetou os edifícios de Brasília com espa-
de 14 de março a 31 de maio, seis dias por semana, ços amplos, colunas curvas, janelas largas e grades
num total de 736 horas, ela repetia a mesma postura. de proteção, separando os jardins e praças da área
Sentada numa sala, recebia os visitantes, um a um, útil do prédio.
e trocava com cada um deles um longo olhar sem
palavras. Ao redor, o público assistia a essas cenas 10. (ENEM) Onde ficam os “artistas”? Onde ficam os “ar-
recorrentes. tesãos”? Submergidos no interior da sociedade, sem
reconhecimento formal, esses grupos passam a ser
ZANIN, L. Marina Abramovic, ou a força do olhar. Disponível em: http://blogs. vistos de diferentes perspectivas pelos seus intérpre-
estadao.com.br. Acesso em: 4 nov. 2013 tes, a maioria das vezes, engajados em discussões
que se polarizam entre artesanato, cultura erudita e
O texto apresenta uma obra da artista Marina Abramovic, cuja cultura popular.
performance se alinha a tendências contemporâneas e se
caracteriza pela PORTO ALEGRE, M. S. Arte e ofício de artesão. São Paulo, 1985 (adaptado).

a) inovação de uma proposta de arte relacional que O texto aponta para uma discussão antiga e recorrente sobre o
adentra um museu. que é arte. Artesanato é arte ou não? De acordo com uma tendência
inclusiva sobre a relação entre arte e educação,
b) abordagem educacional estabelecida na relação da
artista com o público. a) o artesanato é algo do passado e tem sua sobrevi-
vência fadada à extinção por se tratar de trabalho
c) redistribuiçãodoespaçodomuseu,queintegradiversas estático produzido por poucos.
linguagens artísticas.
b) os artistas populares não têm capacidade de pensar
d) negociação colaborativa de sentidos entre a artista e conceber a arte intelectual, visto que muitos deles
e a pessoa com quem interage. sequer dominam a leitura.

e) aproximação entre artista e público, o que rompe com a c) o artista popular e o artesão, portadores de saber
elitização dessa forma de arte. cultural, têm a capacidade de exprimir, em seus
trabalhos, determinada formação cultural.

d) os artistas populares produzem suas obras pautados
em normas técnicas e educacionais rígidas, apren-
didas em escolas preparatórias.

e) o artesanato tem seu sent do limitado à região em
que está inserido como uma produção particular,
sem expansão de seu caráter cultural.

120

6. HISTÓRIA DA ARTE
6.1 GÊNESE DA ARTE: DO PRIMITIVO AO CLÁSSICO
Arte é essencialmente representação. Os povos primitivos da pré-história deixaram as marcas de suas repre-
sentações da realidade nas diversas paredes das cavernas em que habitavam e em, mais raros, objetos encontrados
nos lugares em que viviam.

A arte rupestre
Em lugar de qualquer busca incessante pela beleza ou por padrões estéticos bem definidos, a arte primitiva
surge diretamente da relação entre homem e natureza. Não se conhecem, evidentemente, todas as razões que levar-
am àquelas pessoas a registrarem sua realidade, mas os estudiosos reúnem diversas evidências de que as pinturas
sejam retratos do cotidiano das comunidades. São imagens de animais como cavalos, bisões e rinocerontes, provav-
elmente ligados às atividades de caça do homem do período paleolítico.
Imagina-se que a arte rupestre tenha se iniciado há aproximadamente trinta mil anos antes de nosso tempo,
segundo pesquisas advindas das descobertas de imagens na França e na Espanha, e representam basicamente os
costumes daquelas pessoas. Entretanto, pode-se avaliar as características e as técnicas utilizadas para os registros
pictóricos. As imagens nas cavernas são comumente organizadas de maneira sobreposta, com a utilização de pig-
mentos vermelhos, pretos, amarelos e mesmo brancos. É interessante notar que esses artistas primitivos utilizavam o
pigmento preto para contornos e sombras, em busca de contornos e volume.

Entre a diversidade de técnicas desenvolvidas na época, percebe-se uma busca pela expressividade. Os
animais maiores e mais fortes eram representados de maneira a valorizar a força e o movimento, enquanto os cervos
e similares eram representados com leveza, revelando certa fragilidade. Um procedimento rudimentar comum era a
trituração de diferentes rochas do qual se obtinha um pó colorido. Essa era a base, por exemplo, para a aplicação deste
pigmento com a boca, por meio de “canudos” diretamente sobre a mão na parede, desenhando sua silhueta, como em
uma imagem em negativo.

As formas eram simplificadas, com certa tendência a estilização das imagens, valorizando características além
daquelas visíveis, como força, coragem ou mesmo em representações ritualísticas. Algumas pinturas foram encontra-
das em cavernas em lugares invisíveis para eles, por conta da completa escuridão dos locais ou mesmo em cavernas
não habitadas.

121

Esses achados levaram estudiosos à hipótese da existência de cavernas santuários, nas quais havia pinturas
de animais que não era caçados e estatuetas femininas. Tais estatuetas representavam mulheres idealizadas, de seios,
barriga e ventre exagerados, de forma a ligar o elemento feminino à fertilidade e à vida, revelando a existência religião
primitiva baseada no culto à deusa-mãe.

A arte na Antiguidade
Após a invenção da escrita, diversas civilizações da Antiguidade desenvolveram expressões artísticas, seja no
campo ritual e religioso, seja para efeitos decorativos. A arte esteve presente na Antiguidade da mesma forma como se
faz presente na atualidade: uma necessidade humana.
A construção de palácios e templos desenvolveu técnicas de esculturas e baixo-relevos, bem como elementos
decorativos de interior e de fachada. Sumérios, assírios, persas e outros tantos usaram representações figurativas para
construir narrativas de mitos religiosos e “nacionais”. Entretanto, é no Egito que esta arte começa a tomar forma de
maneira regrada, com a definição de padrões e modelos.
A arte egípcia
Desenvolveu-se em arquitetura – desde as monumentais pirâmides às colossais e enigmáticas estátuas –,
pintura, mobiliário, vestimentas e outras tantas vertentes. Uma arte de cunho principalmente religioso e político, mas
também voltada à expressão agradável aos sentidos, como se prova com as inúmeras peças decorativas, como cerâmi-
cas, em locais habitados por pessoas comuns.
Como característica, tem-se uma arte figurativa, que buscava retratar homens, animais e deuses em diversas
atividades e situações diferentes. Figuras de linhas simples e padronizadas, apresentavam bidimensionalidade na pin-
tura, com representações estáticas em posições fixas. Normalmente, o rosto e os membros apresentam-se de perfil e
o troco representado frontalmente. A pouca variação estilística ao longo do tempo, demostra que havia regras de com-
posição que eram ensinados aos “artistas” e que esses padrões eram mais importantes que a criatividade individual.

122

A arte grega
A arte produzida na antiga Grécia é, sem dúvida, o ponto de partida mais importante para entender a linha
“evolutiva” da arte. Os gregos deram grande importância à arte ao longo do tempo, desenvolvendo obras de caráter
impressionante e fundamentais até os dias de hoje.

Nos anos de 900 antes de nosso tempo, os gregos pareciam mais próximos à arte primitiva, apresentando esculturas
estilizadas, figuras humanas e fantásticas ligadas a rituais e crenças e mosaicos de ornamentação abstrata, sobretudo
usando formas geométricas. Foi o que se chamou “período geométrico”.

Influenciados pelos modelos egípcios de representação, não tardou para que os gregos adotassem técnicas
semelhantes e passassem a uma representação mais naturalista das figuras humanas. O período arcaico, como ficou
conhecido, foi marcado pela representação de jovens homens (kouros) e mulheres (koré) de corpo inteiro, com clara
preocupação com detalhes corporais, incluindo representações musculares e vestimentas. Era o início de uma arte
voltada à imitação, cujos valores estavam ligados ao estudo das formas da natureza e sua fiel reprodução como arte.

Em sequência, a arte grega entra em seu período clássico ou Era Helênica, um estilo absolutamente marcante
na arquitetura, na pintura e na escultura. Pela primeira vez, registra-se conscientemente, uma arte que aspirava à be-
leza de forma definida e racional. Uma arte pensada e estudada, antropocêntrica e voltada ao prazer da representação.
Surge aí o conceito de mímese, o processo de imitação da natureza, pelo qual se percebe a verdadeira beleza. A arte,
diferentemente de uma impressão individual, devia seguir padrões de beleza, definidos pela observação da natureza,
pelo equilíbrio entre as formas e sua simetria. Uma arte regrada e procedimental, mas que, diferentemente do modelo
de produção contínua e impessoal dos egípcios, valorizava o criador e a criação.


123

Assim, ao mesmo tempo em que buscava definir padrões de beleza e moldes para o desenvolvimento das ar-
tes, a sociedade grega valorizava o talento individual do artista, sua imaginação para a escolha da cena representada,
da pose retratada, da mensagem que havia na arte.
Entre as diversas técnicas artísticas gregas destacam-se as pinturas em vasos, figuras negras ou vermelhas
pintadas sobre fundos brancos, negros e vermelhos, buscando o melhor contrates. Estilizadas representavam cenas
de guerra, de jogos e da mitologia, sempre com a imagem de alguma divindade.

Contudo, foi na escultura que os gregos trouxeram as maiores inovações. Suas representações de homens
e de deuses antropomórficos, feitas de maneira impressionantemente realista, eram repletas de detalhes e imitavam
perfeitamente a natureza. A busca da mímese tornava-se o verdadeiro padrão de beleza; diversos artistas realizaram
estudos e criavam padrões, os chamados cânones, que deveriam ser seguidos para uma perfeita imitação da natureza.
Contudo, não há como negar que aquela era uma beleza idealizada, um modelo “médio” do homem grego e de suas
formas. Era, em realidade, um padrão a ser seguido, moldado basicamente sobre os atletas e soldados da época.

A busca pelas formas belas traduz-se em uma busca pela simetria, pelo equilíbrio e pela proporcionalidade dos
elementos da arte. Isso se faz notar especialmente na arquitetura, área em que os gregos deixaram legados maravil-
hosos e ainda hoje estudados.
Os padrões de construção, seus elementos básicos e tipos de coluna, por exemplo, ainda são hoje referência
para a arquitetura contemporânea. Os edifícios gregos prezavam por uma beleza simples e equilibrada, cujos elemen-
tos apresentavam-se harmônicos entre si, criando um conjunto leve e característico.

124

As ordens arquitetônicas gregas, representadas principalmente por suas colunas, criava uma “linguagem” e um
estilo facilmente identificáveis e eram características típicas dos templos gregos, edifícios que buscavam o “divino”. O
tamanho das colunas e sua disposição eram calculados para atingir o equilíbrio e a perfeição encontrados na natureza.

A arte romana

Os romanos, fundadores de um dos maiores impérios da história, tomaram emprestados os modelos e padrões
gregos para desenvolver sua arte. De tal forma obtiveram sucesso nesta apropriação que até hoje chamamos as mani-
festações do período de cultura greco-romana. Entretanto, destacam-se nas obras romanas, um desenvolvimento mais
apurado das técnicas de pintura, com o desenvolvimento de afrescos e na elaboração de mosaicos.

A arte clássica inaugura um modelo intelectual de expressão, caracterizado pela busca da perfeição. A herança
deixada por essa visão artística é riquíssima e são constantes os diálogos com os valores greco-romanos, seja para
afirmá-los, seja para contestá-los.

HORA DE PRATICAR

01.  A arte rupestre possui a característica de expressar 02. (Fatec-2015) A forma como as sociedades organizam
elementos da cultura do homem pré-histórico. as suas atividades produtivas se transforma ao longo

Dentre esses elementos, destacam-se, nas pinturas do tempo e vem marcando mudanças históricas

rupestres: importantes.

a) o retrato das famílias, feito de forma realista, com o Na transição do período Paleolítico para o período Neolíti-
uso de carvão.
co, observam-se importantes mudanças na organização
b) a descrição de cenas relacionadas com a vida política produtiva como, por exemplo
da pólis.

c) a descrição das trocas comerciais intercontinentais. a) o término do sistema de plantation.

d) a descrição de cenas de caça, rituais e símbolos b) a formação das corporações de ofício.

cosmológicos. c) a construção de núcleos urbanos feudais.

e) o retrato das personalidades da tribo. d) o início das grandes organizações sindicais.

e) o surgimento da agricultura de subsistência.

125

03. (UFG- 2010) As pinturas rupestres são evidências religião e pela supremacia política do faraó. Esses
materiais do desenvolvimento intelectual dos seres dois elementos exerceram grande influência nas
humanos. Embora tradicionalmente estudadas pela artes (arquitetura, escultura, pintura, literatura) e na
Arqueologia, elas ajudaram a redefinir a concepção atividade científica.
de que a História se inicia com a escrita, pois e) A gradação, a mistura de tonalidades e o claro-escuro
não eram utilizados.
a) funcionam como códices velados de uma comuni-
dade à espera de decifração. 07. (ENEM)

b) expressam uma concepção de tempo marcada pela
cronologia.

c) indicam o predomínio da técnica sobre as forças da
natureza.

d) atestam as relações entre registros gráficos e mitos
de origem.

e) registram a supremacia do indivíduo sobre os mem-
bros de seu grupo.

04. (UFSC – adaptado) Sobre o Antigo Egito, é correto
afirmar que:

a) o rio Ganges foi de suma importância em vários Utilizadas desde a Antiguidade, as colunas, elementos
aspectos da vida dos antigos egípcios. verticais de sustentação, foram sofrendo modificações e
incorporando novos materiais com ampliação de possibili-
b) a construção de pirâmides atendia às necessida- dades. Ainda que as clássicas colunas gregas sejam reto-
des da vida após a morte dos faraós. Esse tipo de madas, notáveis inovações são percebidas, por exemplo,
construção foi característica da arquitetura funerária nas obras de Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro nascido
durante todo o período do Antigo Egito e só foi possí- no Rio de Janeiro em 1907. No desenho de Niemeyer, das
vel graças à enorme mão de obra escrava existente colunas do Palácio da Alvorada, observa-se
desde o Antigo Reino.
a) a presença de um capitel muito simples, reforçando
c) Os egípcios antigos acreditavam em vários deuses a sustentação.
que se relacionavam entre si e formavam seu siste-
ma mitológico. b) o traçado simples de amplas linhas curvas opostas,
resultando em formas marcantes.
d) A despeito da influência islâmica, o Egito atual man-
tém as mesmas crenças religiosas do Antigo Egito. c) a disposição simétrica das curvas, conferindo sali-
ência e distorção à base.
e) N.D.A.
d) a oposição de curvas em concreto, configurando
05. “Essa lei determinava que o tronco da pessoa fosse certo peso e rebuscamento.
representado sempre de frente, enquanto sua cabeça,
suas pernas e seus pés eram vistos de perfil”. e) o excesso de linhas curvas, levando a um exagero
na ornamentação.
Assinale a alternativa CORRETA que contém o nome des-
sa lei:

a) Lei da modernidade 08. A partir dos períodos culturais Arcaico, Clássico e He-
b) Lei da frontalidade lênico, a arquitetura na Antiguidade Grega se expres-
c) Lei da mortalidade sou em três ordens de criação que são classificadas
d) Lei da lateralidade como estilo:
e) Lei da superioridade
a) Jônico, Dórico, Coríntio
06. (UFMS) Sobre a arte egípcia, é incorreto afirmar: b) Jônico, Cariátide, Lotiforme
c) Dórico, Geométrico, Coríntio
a) As grandes manifestações da arquitetura egípcia fo- d) Coríntio, Geométrico, Clássico
ram os magníficos templos religiosos, as pirâmides, e) Geométrico, Clássico e Coríntio
os hipogeus e as mastabas.
09. (UEM-2018) Sobre as esculturas em diferentes perí-
b) Na pintura, as figuras eram representadas com os odos, assinale o que for correto.
olhos e os ombros em perfil, embora com o restante
do corpo de frente. a) As primeiras estátuas gregas de grandes proporções,
que representavam jovens nus, eram idênticas às
c) A escultura egípcia obedecia a uma orientação egípcias e evitavam qualquer simetria em relação
predominantemente religiosa. Eram numerosas as ao corpo humano.
estátuas esculpidas com a finalidade de ficar dentro
de túmulos. A escultura egípcia atingiu seu desen- b) Os gregos do período clássico perseguiram os ideais
volvimento máximo com os sarcófagos, esculpidos de equilíbrio e de perfeição a partir de regras mate-
em pedra ou madeira. máticas rigorosas.

d) A cultura egípcia foi profundamente marcada pela

126

c) O bronze, por sua resistência e maleabilidade, foi um material que permitiu menos rigidez às poses das esculturas
gregas, dando-lhes menos movimento e naturalismo.

d) A escultura renascentista, assim como a gótica, surgiu associada à arquitetura. Em ambos os períodos, as es-
culturas foram produzidas em pedra e enriqueceram as construções.

e) As esculturas de Fernando Botero, artista colombiano do século XX, persegue o ideal de beleza clássica dos
gregos em representações que usam materiais inovadores, como o plástico.

10. (UEM-2017) Sobre a arquitetura na Grécia e na Roma antigas, é correto afirmar que
a) os templos gregos são edificações cuja simetria é uma das características mais evidentes.
b) o entablamento horizontal de um templo grego era formado por três partes: arquitrave, friso e cornija.
c) o templo romano não possui a sua entrada bem marcada por uma fachada principal.
d) o uso de abóbadas e de arcos na arquitetura romana favoreceu a construção de edifícios amplos.
e) as colunas foram criadas pelos romanos e são de três ordens: dórica, jônica e coríntia.

6.2 DA IDADE MÉDIA À CONTEMPORANEIDADE
Arte Gótica (Século 13)

Catedral de Milão

A pintura durante esse movimento era praticada em quatro principais ofícios: iluminura de manuscritos, afres-
cos, painéis e vitrais, ganhando destaque nos últimos três séculos da Idade Média. Na verdade, a arte era vista como
um recurso didático para difundir o Cristianismo, exposta como ícone, para intensificar a contemplação e a prece. A
Arte Gótica pode ser esmiuçada no estudo dos vitrais góticos e na especificidade do gótico alemão, além das catedrais
medievais e as técnicas de pinturas que estabeleceram as bases para os artistas do Renascimento.
Renascimento (Século 14)

A criação de Adão de Michelangelo Buonarotti

Período que marcou o final da Idade Média e começo da Idade Moderna, no qual as telas conquistaram um es-
paço cênico, suportado por princípios matemáticos e pelas perspectivas linear, rigorosa e científica que permitiram um
tratamento real do espaço e da luz. Entre os artistas do Renascimento, destacam-se os italianos, como Michelangelo.
Barroco (Século 16)

Os doze profetas (MG) - Aleijadinho

Este estilo remete a uma pintura realista, concentrada nos retratos no interior das casas, nas paisagens e na
natureza morta. Composição assimétrica, em diagonal e emprego das técnicas de luz e sombra com maestria, com
acentuado contraste de claro-escuro e escolha de cenas no seu momento de maior intensidade dramática são as prin-
cipais características. Reflete uma valorização de sentimentos e emoções e a forte influência da Reforma Protestante
e da contrarreforma.

127

Rococó (Século 17)

The Musical Contest - Jean-Honoré Fragonard

Embora tenha sido considerado uma variante do estilo barroco, apresenta diferenças marcantes em relação
a ele. Em geral, a substituição das cores vibrantes do barroco por tons rosa, verde-claro, estabelecem uma primeira
diferenciação entre os dois estilos. Além disso, a originalidade do rococó é conferida no abandono das linhas retorcidas
e pela utilização de linhas e formas mais leves e delicadas. Do ponto de vista histórico, essa transformação indicava o
interesse burguês em alcançar o prazer e a graciosidade nas várias obras que eram encomendadas à classe artística
da época.
Neoclassicismo (Século 18)

A morte de Sócrates -Jacques-Louis David

Período caracterizado por pinturas de forte realismo, em que o traço linear assume maior importância que a
aplicação da cor. As figuras assumiriam uma postura rígida, na qual a luz artificial direcionada ajudou na criação de
imagens sólidas e monumentais.
Romantismo (Século 18)

A liberdade guiando o povo – Eugène Delacroix

Este não foi um estilo unificado em termos de técnica ou temática, pois o principal objetivo deste movimento
foram as ideias individuais de cada pintor, que favoreceram o nascimento de liberdade de escolha, de um senso de
integridade e independência, e de um espírito avesso às convenções estilísticas de sistemas de valores genéricos e
impessoais

128

Realismo (Século 19)

O homem desesperado – Gustave Coubert

Datado em 1850, foi utilizado para designar formas de representação objetiva da realidade. Como doutrina
estética, o realismo surgiu na França. O enfrentamento direto e imediato da realidade, com o auxílio das técnicas
pictóricas, descartou o ilusionismo por parte dos artistas.
Impressionismo (Século 19)

A noite estrelada – Vincent Van Gogh

Corrente pictórica inaugural da arte moderna iniciada em 1860, caracterizada pelo registro da experiência
contemporânea: observação da natureza com base em impressões pessoais e sensações visuais, suspensão dos con-
tornos dos claro–escuros, pinceladas fragmentadas; aproveitamento da luminosidade e uso de cores complementares,
favorecidos pela pintura ao ar livre.
Fauvismo (Século 20)

Restaurant de la Machine at Bougival - Maurice de Vlaminck

Corrente artística famosa em 1905 pela liberdade com que os artistas usavam tons puros, nunca mesclados,
manipulando – os arbitrariamente, e que deram origem a superfícies planas. As pinceladas nítidas construíram bases
lisas, iluminadas por vermelhos, azuis e alaranjados.
Expressionismo (Século 20)

129

O Grito, de Edvard Munch

Movimento cultural de vanguarda surgido na Alemanha, focado na interiorização da criação artística, projetando
na obra uma reflexão individual e subjetiva. Esse movimento artístico ia contra o impressionismo positivista, surgindo
com um estilo de arte em que se tenta trazer uma percepção da realidade não como ela aparenta, mas como o artista
a enxerga, principalmente através das suas dores e sentimentos negativos, prezando pelo individualismo artístico.
Para entender um pouco sobre a angústia tão presente na arte expressionista, é importante entender o contexto
histórico da época. O Expressionismo surgiu em tempos bastante agitados. No período pré-Primeira Guerra Mundial,
o capitalismo e a industrialização intensa tomavam conta da sociedade europeia, além de novas tecnologias cada vez
mais revolucionárias.
Cubismo (Século 20)

 Guernica - Pablo Picasso

Período que remonta ao ano de 1912, conhecido por tratar as formas da natureza por meio de figuras ge-
ométricas, representando todas as partes de um objeto no mesmo plano. Para complementar, elementos heterogêneos
– como recortes de jornais, pedaços de madeira e cartas de baralho - foram agregados a superfície de telas, dando
origem às famosas colagens.
Futurismo (Século 20)

Arranha-céus e túneis - Fortunato Depero

O Futurismo, em 1909, com a publicação do Manifesto, assinado pelo italiano Fellipo Marinetti, propõe a
abominação do passado, a exaltação da guerra e do militarismo. São elementos característicos das obras futuristas
como: cores vivas, exaltação da vida moderna e das novas tecnologias, glorificação ao militarismo e à guerra, além do
principal deles, muitas pinturas que retratam movimento e velocidade, como um meio de mostrar o dinamismo viven-
ciado na época. Na poesia, existe a incorporação de termos ligados às visões do mundo modernas, como locomotivas,
automóveis, aviões, navios a vapor, fábricas, multidões de trabalhadores. Vale destacar que esse estilo de arte também
se vinculou a ideais políticos à época, servindo como meio de divulgação de ideologias extremistas. Desse modo, infe-
lizmente, pautas como, por exemplo, o desprezo pela democracia e o antifeminismo, se fizeram presentes.

130

Dadaísmo (Século 20)

A Fonte – Marcel Duchamp 

O movimento foi caracterizado por produzir uma arte irracional, irreverente e irônica que não se preocupa em
expressar a realidade, mas sim em mostrar um novo modelo que se pautava no absurdo. Era uma forma de refletir o
caos vivenciado na época.
Sua proposta era de que a arte ficasse solta das amarras racionalistas e fosse apenas o resultado do automa-
tismo psíquico, selecionado e combinado elementos por acaso. Sendo a negação total da cultura, o movimento defen-
deu o absurdo, incoerência, e desordem e o caos.
A arte dadaísta também é bastante política, porém, diferentemente do Futurismo, onde a guerra e a violência
eram celebradas, o Dadaísmo assumia uma posição totalmente contraria à guerra, falando também contra o consum-
ismo, o capitalismo e os valores burgueses.
Abstracionismo (Século 20)

Composição VIII - Wassily Kandinsky

Esta arte suprimiu a relação entre a realidade e o quadro, entre as linhas e os planos, as cores e a significação
que esses elementos podem sugerir ao espírito. As formas e cores são organizadas da tal maneira que a composição
expressa uma concepção geométrica.
Surrealismo (Século 20)

A persistência da memória – Salvador Dalí

Corrente artística moderna de representação do irracional e do subconsciente, que surge todas as vezes que
a imaginação se manifesta livremente. Por meio de qualquer forma de expressão em que a mente não exercesse
qualquer controle, pintores tentavam recriar as imagens do subconsciente.
A corrente surrealista tinha como intenção ir contra o racionalismo, a lógica e os valores morais da sociedade
burguesa. Buscavam uma arte que abraçasse a espontaneidade e a liberdade total do pensamento, priorizando a per-
spectiva do inconsciente, dos sonhos e dos mistérios da mente humana.

131

Op–art (Século 20)

Quadrado em movimento -  Bridget Riley

A expressão vem do inglês opticalarte e significa “arte óptica”, que defendia menos expressão e mais visual-
ização. Apesar do rigor com qual é construída, surgiu em 1950 e simboliza um mundo precário e instável, que se modifi-
ca a cada instante, porém excessivamente cerebral e sistemático mais próximo das ciências do que das humanidades.
Pop-art (Século 20)

Marilyn Monroe - Andy Warhol 

Movimento criado em 1954, representa os produtos da cultura popular da civilização ocidental, sobretudo dos
Estados Unidos, que têm poderosa influência na vida cotidiana na segunda metade século 20. Uma arte figurativa, em
oposição ao expressionismo abstrato. Sua iconografia era a da televisão, da fotografia, dos quadrinhos, do cinema e
da publicidade.
6.3 HISTÓRIA DA ARTE NO BRASIL
A história da arte no Brasil surgiu da mistura de outros estilos e tem início no período da Pré-História, com
vários sítios arqueológicos espalhados pelo território. Também se destaca a arte indígena, notada desde a época do
descobrimento do Brasil, com expressões artísticas muito características das tribos, como danças, rituais e objetos.
A chegada dos portugueses e dos europeus também trouxe grandes transformações, como o estilo barroco, ligado ao
catolicismo.

A pintura acadêmica, também no século XIX, na arte brasileira, retrata a riqueza clássica, refletindo um padrão
de beleza ideal, proposto pela Academia de Belas Artes.
O Expressionismo começa a chegar ao Brasil e fazer história com Lasar Segall (1891-1957), que contribui para
o Modernismo e, já no início do século XX, presenciamos o Modernismo Brasileiro, marcado inicialmente pela Semana
de Arte Moderna.

132

HORA DE PRATICAR

01. (UFMG) Sobre o Barroco, pode-se afirmar que A Leiteira (c.1658-1660), de Johannes Veermer, é uma
das obras-primas da pintura holandesa do século XVII,
a) foi uma forma de manifestação artística inspirada nos que gradativamente define um estilo próprio, representan-
conceitos pagãos da Idade Média e da Antiguidade. do com austero realismo cenas familiares, paisagens ur-
banas, situações da vida cotidiana e retratos de pessoas
b) fez uso da grandeza excessiva, do extravagante, do comuns. A vida urbana e comercial é o cenário dessa
artificial, para expressar as concepções de mundo nova forma de representação do mundo, que caracteriza
moderno. a cristalização de uma cultura burguesa. Das característi-
cas abaixo, assinale aquela que NÃO se aplica à cultura
c) surgiu nos países anglo-saxões, no final do século burguesa urbana da era moderna.
XVII, e se espalhou por toda a Europa no século
XVIII. a) A estética barroca, caracterizada por uma represen-
tação do mundo saturada de excessos e movimento.
d) impôs uma nítida diferenciação entre as formas ar-
tísticas, como a pintura, a escultura e a arquitetura. b) A atribuição de valor moral ao trabalho honesto e
disciplinado, com raízes na religião reformada.
02. (UPE)
c) O profundo desprezo pelas classes populares, con-
As dificuldades para que a sociedade humana se estabe- sideradas como dissolutas e avessas ao trabalho.
lecesse e conseguisse construir uma cultura sofisticada
foram imensas. No mundo da modernização, parece que d) A vida doméstica centrada na definição de uma
o historiador perdeu seu ofício e o passado, seu signifi- esfera privada restrita à família nuclear.
cado. Tudo muda muito rápido, e as invenções modernas
agitam a sociedade. Busca-se o novo, não se valoriza, e) A aversão ao complexo jogo de etiqueta e honra da
como antes, mais a experiência. sociedade de corte e dos aristocratas em geral.

O texto acima: 04. (FUVEST-SP)

a) é muito pessimista, pois a sociedade humana fez Tarzan, foto de 1931
conquistas fabulosas e resolveu problemas aparen-
temente insuperáveis com a chegada da globaliza- Os personagens acima, difundidos pelo cinema em todo o
ção. mundo, representam:

b) sintetiza bem as angústias e os desejos dos tempos a) o modelo de “bom selvagem” segundo a teoria do
modernos, onde o progresso encanta e há a possi- filósofo J. Jacques Rousseau.
bilidade, sempre crescente, de se atingir a harmonia
social. b) o protótipo da mestiçagem defendido pelas teorias
do nazi-fascismo.
c) exalta o valor da experiência, cometendo um equí-
voco histórico. c) o ideal de beleza e de preservação ambiental difun-
didos pela ideologia do “american way of life”.
d) faz uma síntese de questões importantes para o
historiador, num mundo de mudanças rápidas e d) a superioridade do “homem branco” segundo os
surpreendentes que, muitas vezes, não se preocupa defensores da expansão “civilizatória ocidental”.
em valorizar o passado.
e) um valor estético permanente no mundo ocidental,
e) é bastante equivocado, pois nunca se teve tanta criado pela cultura grega, a partir do mito de Ulisses
certeza sobre o valor do passado como nos tempos e Penélope.
atuais.

03. (EFOA-MG)

Observe a figura abaixo:

133

05. (UECE) II. Os artistas viajantes produziram imagens precisas
e detalhadas que apresentam com exatidão a rea-
Considere as afirmativas abaixo a respeito das Artes na lidade geográfica do Brasil.
cultura ocidental:
III. Nas representações feitas por artistas estrangeiros
I. A regra da arte europeia, a partir das primeiras coexistem elementos simbólicos e mitológicos oriun-
décadas do século XX, era a liberdade absoluta de dos do imaginário europeu e elementos advindos da
criação. observação da natureza e das coisas que o artista
tinha diante de seus olhos.
II. Na segunda metade do século XIX o Realismo/
Naturalismo se contrapôs ao Romantismo, exigindo IV. A imagem de Debret registra uma cena cotidiana e
que a obra de arte expressasse fielmente a natureza revela a capacidade do artista em documentar os
e a realidade. costumes e a realidade do indígena brasileiro.

III. A torre Eiffel, em Paris, é um dos testemunhos das Assinale a alternativa que contém todas as afirmativas
concepções arquitetônicas, contrárias ao modernis- corretas.
mo.
a) I e II.
Marque a opção verdadeira: b) I e III.
c) II e IV.
a) I e II são corretas; d) I, III e IV.
b) II e III são corretas; e) II, III e IV.
c) II e III são incorretas;
d) I e III são incorretas. 07. (UNIFESP-SP)

06. (UEL-PR) Houve, nos últimos séculos da Idade Média ocidental,
um grande florescimento no campo da literatura e da ar-
A exuberância da natureza brasileira impressionou artis- quitetura. Contudo, se no âmbito da primeira predominou
tas e viajantes europeus nos séculos XVI e XVII. Leia o a diversidade (literária), no da segunda predominou a un-
texto e observe a imagem a seguir: idade (arquitetônica). O estilo que marcou essa unidade
arquitetônica corresponde ao

a) renascentista.
b) românico.
c) clássico.
d) barroco.
e) gótico.

08. (UESPI)

(DEBRET, J. B. Tribo Guaicuru em busca de novas pasta- O barroco espanhol teve destaque nas obras do pintor
gens.1834-1839) Diogo Velazquez. Seus quadros, entre eles As Meninas,
revelavam:
“[...] A América foi para os viajantes, evangelizadores e
filósofos uma construção imaginária e simbólica. a) um apego à estética greco-romana com o uso de
Diante da absoluta novidade, como explicá-la? Como figuras mitológicas.
compreendê-la? Como ter acesso ao seu sentido? Co-
lombo, Vespúcio, Pero Vaz de Caminha, Las Casas, dis- b) uma excessiva religiosidade e exaltação dos santos
punham de um único instrumento para aproximar-se do católicos famosos.
Mundo Novo: os livros. [...] O Novo Mundo já existia, não
como realidade geográfica e cultural, mas como texto, e c) um grande jogo de luzes e sombras na composição
os que para aqui vieram ou os que sobre aqui escreveram de suas figuras.
não cessam de conferir a exatidão dos antigos textos e o
que aqui se encontra.” d) um desprezo pelas figuras da corte, registrando
apenas o cotidiano.

e) um domínio das técnicas renascentistas, ressaltando
o nu artístico.

(CHAUÍ, M. apud FRANZ, T. S. Educação para uma compreensão
crítica da arte. Florianópolis: Letras Contemporâneas Oficina Editorial,

2003. p. 95.)

Com base no texto e na imagem, é correto afirmar:

I. O olhar do viajante europeu é contaminado pelo
imaginário construído a partir de textos da Antigui-
dade e por relatos produzidos no contexto cultural
europeu.

134

09. (UEG-GO)
A colonização portuguesa do Brasil foi feita à contramão dos movimentos de ideias que predominavam nos países da
Europa Ocidental no século XVI: enquanto lá se vivia a efervescência do Classicismo Renascentista e da Reforma
Protestante, no Brasil predominava esteticamente o Barroco, com sua literatura marcada pelo uso de antíteses, e
religiosamente a Contra-Reforma, com sua proposta de converter os nativos por meio de ordens religiosas católicas.
Respectivamente, foram dois nomes da literatura Barroca e da Contra-Reforma no Brasil colonial:

a) Botelho de Oliveira e Pedro Álvares Cabral
b) Tomás Antônio Gonzaga e Duarte Coelho
c) Padre Antônio Vieira e Tomé de Souza
d) Gregório de Matos e José de Anchieta
10. (UEL PR – adaptada)

CLAUDE MONET. Le train dans la neige. 1875. (fonte: Wikipedia. Acesso em 20.05.2020)

Com base na figura acima e nos conhecimentos sobre o Impressionismo, considere as afirmativas a seguir:
I. Monet foi um artista que, embora utilizando a fotografia, pouco proveito tirou da representação naturalista.
II. Na pintura impressionista o tema deve ser coerente e completo sob o ponto de vista da unidade compositiva.
III. Para Monet, pintar as ferrovias significava representar a atmosfera luminosa que as caracterizava.
IV. Enquanto a arte acadêmica valorizava os grandes temas históricos e mitológicos, os pintores impressionistas
adotavam fatos da vida cotidiana.

Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas I e II são corretas.
b) Somente as afirmativas I e IV são corretas.
c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.
d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.

135

7. OS GÊNEROS LITERÁRIOS

Assim como grande parte das questões relacionadas à literatura, a reflexão sobre os gêneros literários asse-
melha-se a uma tentativa de teorizar sobre assuntos em constante mutabilidade. A visão que temos sobre literatura ou
artes de forma geral deve estar sempre vinculada às condições históricas e sociais de cada lugar e de cada tempo. E
sabemos que o tempo muda e que essa mudança implica novas visões de mundo, novas formas de tratar a realidade
que nos circunda. Como consequência, novos olhares sobre a literatura e seus gêneros.

Os gêneros não são leis nem regras fixas, mas categorias relativas dentro das quais cada escritor se move à vontade:
elas é que estão a serviço dele, não ele a serviço delas.

Massaud Moisés

Para nós, da civilização ocidental, a arte tem como referência a Grécia antiga e seus pensadores. E a partir
de suas ideias, os gêneros da literatura têm sido estudados. Discípulo de Platão, que distinguia apenas poesia e pro-
sa – “falarei em prosa, pois não sou poeta” – e estimulado por ele, Aristóteles, em sua Poética, debruçou-se sobre o
assunto e ofereceu encaminhamentos inovadores, propondo a divisão dos gêneros em três modalidades: Lírico, Épico
e Dramático.

Observe que o vocábulo “gênero” (genus-eris), em sua acepção latina, significa geração – tempo de origem
ou de nascimento. Dessa forma, já é possível perceber esse caráter de transformação próprio dos gêneros literários, à
medida que cumpririam um ciclo de nascimento, desenvolvimento e morte. O gênero épico, por exemplo, tão valorizado
na antiguidade, abandonou a estrutura em versos e passou a priorizar o contar histórias em prosa, o que permitiu o
surgimento dos textos narrativos em forma de romance, conto, crônica, dentre outros.

Falar em gêneros, hoje, e em classificações estanques é objeto de discussão. A classificação dos textos em
gêneros é por demais limitada ou segmentada para entendermos a riqueza que a literatura oferece. Sua pluralidade
e complexidade, especialmente na literatura contemporânea, nos permite, inclusive, perceber que modernamente os
gêneros se interpenetram em um texto, como uma prosa poética, por exemplo. Haverá sempre a predominância de
características de um dos gêneros, todavia será possível encontrar traços de outro(s) gênero(s) em um mesmo texto.
Hoje, com as novas mídias, antigos gêneros são modificados e novos estão surgindo com a interação entre a literatura
e outras manifestações artísticas.

7.1 Gênero lírico

A palavra lírico vem do nome de um pequeno instrumento musical da antiguidade, a lira. A melodia acompanha-
va os versos recitados, combinando música e literatura, duas artes em única manifestação. O gênero é a manifestação
de um eu lírico, a expressão de seus sentimentos pessoais, seu mundo interior, suas emoções e impressões.
Normalmente o poeta lírico é um ser isolado, que se interessa pelos estados da alma, com suas sensações. Daí essa
expressão artística ser estritamente subjetiva, interiorizando o mundo exterior, criando identificações; no plano formal,
há predominância de pronomes e verbos em 1ª pessoa.

A ode, a elegia e o soneto são formas clássicas de manifestação lírica. São textos preocupados com a forma,
nos quais predominam as funções emotiva e poética. A métrica, a rima e a musicalidade também ganham destaque nas
obras líricas. Observe o lirismo nos versos a seguir, de Vinícius de Moraes:

A partida Que mãe já não terei mais Sentirei a voz molhada
Quero ir-me embora pra estrela E a mulher que outrora tinha Da noite que vem do mar
Que vi luzindo no céu Mais que ser minha mulher Chegar-me-ão falas tristes
Na várzea do setestrelo. É a mãe de uma filha minha. Como a querer me entristar
Sairei de casa à tarde Irei embora sozinho Mas não serei mais lembrança
Na hora crepuscular Sem angústia nem pesar Nada me surpreenderá:
Em minha rua deserta Antes contente da vida Passarei lúcido e frio
Nem uma janela aberta Que não pedi, tão sofrida Compreensivo e singular
Ninguém para me espiar Mas não perdi por ganhar. Como um cadáver num rio
De vivo verei apenas Verei a cidade morta E quando, de algum lugar
Duas mulheres serenas Ir ficando para trás Chegar-me o apelo vazio
Me acenando devagar. E em frente se abrirem campos De uma mulher a chorar
Será meu corpo sozinho Em flores e pirilampos Só então me voltarei
Que há de me acompanhar Como a miragem de tantos Mas nem adeus lhe darei
Que a alma estará vagando Que tremeluzem no alto. No oco raio estelar
Entre os amigos, num bar. Num ponto qualquer da treva Libertado subirei.
Ninguém ficará chorando Um vento me envolverá

136

7.2 Gênero dramático

A palavra drama vem do grego e significa ação. E é o “agir” que torna diferente este gênero dos demais, já que
apresenta sua história contada diretamente pelos personagens. Os textos não visam ser recitados, mas encenados. O
palco é o espaço deste gênero, onde atores representam os papéis das personagens, desenrolando-se por meio de
diálogos, seguindo uma sequência que confira às cenas a lógica de causa e consequência.

A ausência do narrador é compensada com indicações diversas, como, por exemplo, o cenário. É comum que
o gênero trate dos conflitos humanos, as relações dos homens com o mundo e a própria miséria – moral, social ou
econômica – por que passam. A crítica é universal, servindo o homem como exemplar de qualquer outro, exemplifican-
do comportamentos e sentimentos diversos como avareza, ganância, prudência entre outros.

Em sua estrutura notam-se as marcações cênicas, comuns no início de atos e cenas, em que são descritos os
elementos do ambiente, a entrada de personagens e seus figurinos. Também são comuns as rubricas de interpretação,
textos que surgem entre parênteses dentro das falas das personagens, para indicar ao ator as emoções ou maneiras
de interpretar as falas segundo a visão do dramaturgo. Por meio desse recurso, o autor pode indicar possíveis manei-
ras de atuar para cada ator, entretanto, essa é apenas uma possibilidade, pois, o diretor ou o ator podem fazer alter-
ações na maneira de contar a história.

O gênero dramático compreende várias modalidades como a tragédia – que visava representar ações de
consequências graves, inspirando pena e terror; a comédia – que representava o cotidiano e a crítica aos costumes,
provocando o riso; e a farsa – pequena peça de caráter caricatural de crítica à sociedade, aos poderosos e aos cos-
tumes em geral.

O texto a seguir, fragmento da peça Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, mostra os conflitos vividos
por Otávio, líder de movimento sindical e seu filho Tião, operário que fura a greve para não perder o emprego:

TIÃO – Papai…

OTÁVIO – Me desculpe, mas seu pai ainda não chegou. Ele deixou um recado comigo, mandou dizê pra você que ficou
muito admirado, que se enganou. E pediu pra você tomá outro rumo, porque essa não é a casa de fura-greve!

TIÃO – Eu vinha me despedir e dizer só uma coisa: não foi por covardia!

OTÁVIO – Seu pai me falou sobre isso. Ele também procura acreditá que num foi por covardia. Ele acha que você até
que teve peito. Furou a greve e disse pra todo mundo, não fez segredo. Não fez como o Jesuíno que furou a greve
sabendo que tava errado. Ele acha, o seu pai, que você é ainda mais filho da mãe! Que você é um traidô dos seus com-
panheiro e da sua classe, mas um traidô que pensa que tá certo! Não um traidô por covardia, um traidô por convicção!

TIÃO – Eu queria que o senhor desse um recado a meu pai…

OTÁVIO – Vá dizendo.

TIÃO – Que o filho dele não é um “filho da mãe”. Que o filho dele gosta de sua gente, mas que o filho dele tinha um
problema e quis revolvê esse problema de maneira mais segura. Que o filho é um homem que quer bem!

OTÁVIO – Seu pai vai ficá irritado com esse recado, mas eu digo. Seu pai tem outro recado pra você. Seu pai acha que
a culpa de pensá desse jeito não é sua só. Seu pai acha que tem culpa…

TIÃO – Diga a meu pai que ele não tem culpa nenhuma.

OTÁVIO (perdendo o controle) – Se eu te tivesse educado mais firme, se te tivesse mostrado melhor o que é a vida, tu
não pensaria em não ter confiança na tua gente…

TIÃO – Meu pai não tem culpa. Ele fez o que devia. O problema é que não podia arriscá nada. Preferi tê o desprezo de
meu pessoal pra poder querer bem, como eu quero querer, a tá arriscando a vê minha mulhé sofrê como minha mãe
sofre, como todo mundo nesse morro sofre!

OTÁVIO – Seu pai acha que ele tem culpa!

TIÃO – Tem culpa de nada, pai!

OTÁVIO – (num rompante) E deixa ele acreditá nisso, se não, ele vai sofrê muito mais. Vai achar que o filho dele caiu
na merda sozinho. Vai achar que o filho dele é safado de nascença. (Acalma-se repentinamente.) Seu pai manda mais
um recado. Diz que você não precisa aparecê mais. E deseja boa sorte pra você.

TIÃO – Diga a ele que vai ser assim. Não foi por covardia e não me arrependo de nada. Até um dia. (encaminha-se
para a porta).

137

7.3 Gênero épico

Provavelmente a mais antiga forma de manifestação literária, surgindo da necessidade de relatar as experiên-
cias dos primitivos, das batalhas e das vitórias. É possível supor que, em meio aos fatos que narravam, outros fossem
sendo acrescentados, em referência a deuses ou elementos da natureza que garantiam aos guerreiros sua força e
tenacidade: estava criada a ficção.

O gênero épico caracteriza-se pela presença de um narrador que, via de regra, distancia-se do assunto narra-
do, contando histórias de outras personagens. Esses textos eram produzidos para serem lidos diante de uma plateia e
narram feitos de heróis, histórias de um povo ou de uma nação. A exaltação das personagens e de seus comportamen-
tos nas batalhas ou aventuras é marca registrada do gênero.

Os poemas épicos são chamados de epopeias e seguem o roteiro de exaltação de heróis em batalha, forjando
a história das nações. O famoso livro Os Lusíadas, de Luís de Camões é um exemplo deste gênero. No Brasil, Cara-
muru, de Santa Rita Durão, e O Uraguai, de Basílio da Gama, ilustram o gênero de maneira emblemática.

Originalmente, o ponto chave do gênero é a mimese, retratando a realidade de maneira verossímil e objetiva.
O foco nos acontecimentos e o abandono de uma visão pessoal do narrador dão diversidade à história, seja na criação
das personagens, seja na percepção dos conflitos apresentados. Leia o fragmento a seguir, trecho de Os Lusíadas de
Luís de Camões.

Canto I

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

7.4 Gênero narrativo

Atualmente, são poucas as produções que mantêm as características do gênero épico. Muitos autores aban-
donaram sua denominação e características substituindo sua denominação por gênero narrativo, usado de maneira a
nomear as produções que apresentem, genericamente, um enredo, além de narrador, personagens, tempo e espaço.

O conto e o romance são descendentes desse gênero, mantendo apenas algumas características formais, afa-
stando-se da temática e da visão de exaltação a heróis, deuses e semideuses da antiguidade. A métrica foi substituída
gradualmente pela prosa, que hoje parece o padrão para este tipo de produção.

O gênero narrativo apresenta como elementos:

1. Personagens: podem ser planas (comportamento previsível) ou esféricas (apresentadas sob vários aspectos,
comportamento imprevisível).

2. Tempo: histórico ou cronológico (fatos apresentados de acordo com a ordem dos acontecimentos) e psicológico
(lembranças do passado desencadeiam a narrativa).

3. Enredo: conjunto dos fatos de uma história.
4. Espaço: lugar onde transcorre a ação (físico, social, psicológico).
5. Ponto de vista / Foco narrativo: para contar uma história, o narrador pode se posicionar de maneiras diversas.

Assim, dependendo da perspectiva do narrador, uma obra literária pode ter:
5.1. Foco narrativo em terceira pessoa: quando o narrador é apenas uma voz que não se identifica; em outras pala-

vras, quando o narrador não é uma personagem
5.2. Foco narrativo em primeira pessoa ou narrador-personagem: quando o narrador é uma das personagens que

vivem a história.

138

7.5 Gêneros não literários

Assim como existem tipos de textos que são próprios da Literatura, ocorrem outros que não o são, como o
ensaio acadêmico, o texto analítico, argumentativo ou dissertativo (redação), o didático, o laudo médico, a notícia, a
biografia, e outros, que possuem uma finalidade informativa e descritiva.

HORA DE PRATICAR

01. Leia os textos a seguir e responda o que se pede: Os gêneros literários reúnem um conjunto de obras
que apresentam características análogas de forma e
TEXTO I conteúdo. Essa classificação pode ser feita de acor-
do com critérios semânticos, sintáticos, fonológicos,
“Eu, que desde os dez anos de idade faço versos; eu, que formais, contextuais, entre outros. Eles se dividem em três
tantas vezes categorias básicas: gêneros épico, lírico e dramático. Os
sentira a poesia passar em mim como uma corrente elétr textos II e III podem ser considerados:
ca e afluir
aos meus olhos sob a forma de misteriosas lágrimas de a) Épicos.
alegria: não b) Líricos.
soube no momento forjar já não digo uma definição r c) Dramáticos.
cional dessas d) Narrativo.
que, segundo regra a lógica, devem convir a todo o defin e) Argumentativo.
do e só ao
definido, mas uma definição puramente empírica, artíst 02.
ca, literária”.
“Os Lusíadas” – Luís Vaz de Camões.
Manuel Bandeira Canto II
Já neste tempo o lúcido Planeta
TEXTO II Que as horas vai do dia distinguindo,
Chegava à desejada e lenta meta,
Memória Carlos Drummond de Andrade A luz celeste às gentes encobrindo;
Amar o perdido E da casa marítima secreta he estava o Deus
deixa confundido Nocturno a porta abrindo,
este coração. Quando as infdas gentes se chegaram
Nada pode o olvido Às naus, que pouco havia que ancoraram.
contra o sem sentido
apelo do Não. Os Lusiadas é um longo poema dividido em dez partes,
As coisas tangíveis denominadas “Cantos”. São 8.816 versos, distribuídos em
tornam-se insensíveis 1.102 estrofes.
à palma da mão
Mas as coisas findas Neste poema, retratam-se os feitos heroicos do povo
muito mais que lindas, português, especialmente as conquistas marítimas. A
essas ficarão. linguagem é solene, muito diferente da empregada no
cotidiano. A objetividade dominada a cena, não havendo
TEXTO III espaço para as divagações do “eu”. Tendo estas infor-
mações acerca do livro de Camões indique a que gênero
Ouvir estrelas literário pertence Os Lusíadas.
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, a) Lírico.
Que, para ouvi-las, muita vez desperto b) Épico.
E abro as janelas, pálido de espanto... c) Dramático.
E conversamos toda a noite, enquanto d) Epistolar.
A via láctea, como um pálio aberto, e) Argumentativo
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

139

03. (CESGRANRIO-2011) Associe os gêneros literários d) despertar a preocupação da plateia com a expectativa
às suas respectivas características. de vida dos cidadãos.

1. Gênero lírico e) questionar o apoio irrestrito de agentes públicos aos
2. Gênero épico gestores governamentais.
3. Gênero dramático
05. (ENEM)

( ) Exteriorização dos valores e sentimentos coletivos Gênero dramático é aquele em que o artista usa como
( ) Representação de fatos com presença física de intermediária entre si e o público a representação. A pa-
lavra vem do grego drao (fazer) e quer dizer ação. A peça
atores teatral é, pois, uma composição literária destinada à apre-
( ) Manifestação de sentimentos pessoais predominan- sentação por atores em um palco, atuando e dialogando
entre si. O texto dramático é complementado pela atuação
do, assim, a função emotiva dos atores no espetáculo teatral e possui uma estrutura
específica, caracterizada:
A sequência correta, de cima para baixo, é
1. pela presença de personagens que devem estar
a) 3 – 2 – 1 ligados com lógica uns aos outros e à ação;
b) 2 – 3 – 1
c) 2 – 1 – 3 2. pela ação dramática (trama, enredo), que é o con-
d) 1 – 3 – 2 junto de atos dramáticos, maneiras de ser e de agir
e) 1 – 2 – 3 das personagens encadeadas à unidade do efeito
e segundo uma ordem composta de exposição,
04. (ENEM) conflito, complicação, clímax e desfecho;

Segundo quadro 3. pela situação ou ambiente, que é o conjunto de
Uma sala da prefeitura. O ambiente é modesto. Durante circunstâncias físicas, sociais, espirituais em que
a mutação, ouve-se um dobrado e vivas a Odorico, “viva se situa a ação;
o prefeito” etc. Estão em cena Dorotéa, Juju, Dirceu, Dul-
cinéa, o vigário e Odorico. Este último, à janela, discursa. 4. pelo tema, ou seja, a ideia que o autor (dramaturgo)
deseja expor, ou sua interpretação real por meio da
ODORICO — Povo sucupirano! Agoramente já investido representação.
no cargo de Prefeito, aqui estou para receber a confr-
mação, a ratifcação, a autenticação e por que não dizer a COUTINHO, A. Notas de teoria literária. Rio de Janeiro: Civilização
sagração do povo que me elegeu. Brasileira, 1973 (adaptado)

Aplausos vêm de fora. Considerando o texto e analisando os elementos que con-
stituem um espetáculo teatral, conclui-se que
ODORICO — Eu prometi que o meu primeiro ato como
prefeito seria ordenar a construção do cemitério. a) a criação do espetáculo teatral apresenta-se como
um fenômeno de ordem individual, pois não é pos-
Aplausos, aos quais se incorporam as personagens em sível sua concepção de forma coletiva.
cena.
b) o cenário onde se desenrola a ação cênica é conce-
ODORICO — (Continuando o discurso:) Botando de lado bido e construído pelo cenógrafo de modo autôno-
os entretantos e partindo pros fnalmente, é uma alegria mo e independente do tema da peça e do trabalho
poder anunciar que prafrentemente vocês já poderão interpretativo dos atores.
morrer descansados, tranquilos e desconstrangidos, na
certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta ter- c) o texto cênico pode originar-se dos mais variados
ra morna e cheirosa de Sucupira. E quem votou em mim, gêneros textuais, como contos, lendas, romances,
basta dizer isso ao padre na hora da extrema-unção, que poesias, crônicas, notícias, imagens e fragmentos
tem enterro e cova de graça, conforme o prometido. textuais, entre outros.

GOMES, D. O bem amado. Rio de Janeiro: Ediouro, 2012. d) o corpo do ator na cena tem pouca impor-
tância na comunicação teatral, visto que o
O gênero peça teatral tem o entretenimento como uma de mais importante é a expressão verbal, base
suas funções. Outra função relevante do gênero, explícita da comunicação cênica em toda a trajetória do teatro
nesse trecho de O bem amado, é até os dias atuais.

a) criticar satiricamente o comportamento de pessoas e) a iluminação e o som de um espetáculo cênico
públicas. independem do processo de produção/recepção
do espetáculo teatral, já que se trata de linguagens
b) denunciar a escassez de recursos públicos nas artísticas diferentes, agregadas posteriormente à
prefeituras do interior. cena teatral.

c) censurar a falta de domínio da língua padrão em
eventos sociais.

140

06. (ENEM) No poema de Ana Cristina Cesar, a relação entre as
definições apresentadas e o processo de construção do
FABIANA, arrepelando-se de raiva — Hum! Ora, eis aí texto indica que o(a)
está para que se casou meu flho, e trouxe a mulher para
minha casa. É isto constantemente. Não sabe o senhor a) caráter descritivo dos versos assinala uma concep-
meu flho que quem casa quer casa... Já não posso, não ção irônica de lirismo.
posso, não posso! (Batendo com o pé). Um dia arrebento,
e então veremos! b) tom explicativo e contido constitui uma forma peculiar
de expressão poética.
PENA, M. Quem casa quer casa. www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 dez.
2012. c) seleção e o recorte do tema revelam uma visão
pessimista da criação artística.
As rubricas em itálico, como as trazidas no trecho de Mar-
tins Pena, em uma atuação teatral, constituem d) enumeração de distintas manifestações líricas pro-
duz um efeito de impessoalidade.
a) necessidade, porque as encenações precisam ser
féis às diretrizes do autor e) referência a gêneros poéticos clássicos expressa a
adesão do eu lírico às tradições literárias
b) possibilidade, porque o texto pode ser mudado,
assim como outros elementos. 09. (ENEM) Teatro do Oprimido é um método teatral que
sistematiza exercícios, jogos e técnicas teatrais elabo-
c) preciosismo, porque são irrelevantes para o texto ou radas pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, recen-
para a encenação. temente falecido, que visa à desmecanização física e
intelectual de seus praticantes. Partindo do princípio
d) exigência, porque elas determinam as características de que a linguagem teatral não deve ser diferenciada
do texto teatral. da que é usada cotidianamente pelo cidadão comum
(oprimido), ele propõe condições práticas para que o
e) imposição, porque elas anulam a autonomia do oprimido se aproprie dos meios do fazer teatral e, as-
diretor. sim, amplie suas possibilidades de expressão. Nesse
sentido, todos podem desenvolver essa linguagem
07. O gênero dramático, entre outros aspectos, apresenta e, consequentemente, fazer teatro. Trata- se de um
como característica essencial: teatro em que o espectador é convidado a substituir
o protagonista e mudar a condução ou mesmo o fim
a) a presença de um narrador. da história, conforme o olhar interpretativo e contex-
b) a estrutura dialógica. tualizado do receptor.
c) o extravasamento lírico.
d) a musicalidade. Companhia Teatro do Oprimido.Disponível em: www.ctorio.org.br. Acesso em: 1
e) o descritivismo. jul. 2009 (adaptado).

08. (ENEM) Considerando-se as características do Teatro do Oprimido
apresentadas, conclui-se que
Primeira lição
Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico, a) esse modelo teatral é um método tradicional de fazer
ligeiro. teatro que usa, nas suas ações cênicas, a linguagem
O gênero lírico compreende o lirismo. rebuscada e hermética falada normalmente pelo
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero cidadão comum.
e pessoal.
É a linguagem do coração, do amor. b) a forma de recepção desse modelo teatral se destaca
pela separação entre atores e público, na qual os
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos atores representam seus personagens e a plateia
os versos sentimentais eram declamados ao som da lira. assiste passivamente ao espetáculo.
O lirismo pode ser:
c) sua linguagem teatral pode ser democratizada e
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase apropriada pelo cidadão comum, no sentido de pro-
sempre a morte. porcionar-lhe autonomia crítica para compreensão
e interpretação do mundo em que vive.
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres.
c) Erótico, quando versa sobre o amor. O lirismo ele- d) o convite ao espectador para substituir o protagonista
e mudar o fim da história evidencia que a proposta
gíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o de Boal se aproxima das regras do teatro tradicional
epitáfo e o epicédio. para a preparação de atores.

Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes. Nênia e) a metodologia teatral do Teatro do Oprimido segue a
é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta. Era concepção do teatro clássico aristotélico, que visa à
declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado. desautomação física e intelectual de seus pratican-
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração. tes.
Epitáfo é um pequeno verso gravado em pedras tumulares.
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma
pessoa morta.

CESAR, A. C. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

141

10. (ENEM)

Na antiga Grécia, o teatro tratou de questões como destino, castigo e justiça. Muitos gregos sabiam de cor inúmeros
versos das peças dos seus grandes autores. Na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, Shakespeare produziu peças nas
quais temas como o amor, o poder, o bem e o mal foram tratados. Nessas peças, os grandes personagens falavam em
verso e os demais em prosa. No Brasil colonial, os índios aprenderam com os jesuítas a representar peças de caráter
religioso. Esses fatos são exemplos de que, em diferentes tempos e situações, o teatro é uma forma

a) de manipulação do povo pelo poder, que controla o teatro.
b) de diversão e de expressão dos valores e problemas da sociedade.
c) de entretenimento popular, que se esgota na sua função de distrair.
d) de manipulação do povo pelos intelectuais que compõem as peças.
e) de entretenimento, que foi superada e hoje é substituída pela televisão.

8. LITERATURA EM LÍNGUA PORTUGUESA

A história da literatura documenta as manifestações literárias ocorridas em diversos países e em diferentes
épocas. A criação literária está diretamente relacionada ao momento em que é produzida e no qual se insere. Assim, é
importante, ao falar em literatura, considerar a história.

Os movimentos literários

A história literária compreende o estudo da literatura a partir de períodos históricos. Podemos utilizar diversas
denominações em relação às escolas literárias, tais como “períodos“, “estilos” ou ainda “movimentos” literários.

Segundo o autor Salvatore D’Onofrio, um movimento literário agrupa um conjunto de escritores e obras, de-
limitado no tempo e no espaço, que apresenta uma determinada concepção estética a partir de normas e cânones da
época, e um complexo de ideias gerador de uma cosmovisão em termos de conteúdo. Porém, além desse “complexo
de ideias” que caracteriza o estilo de época, cada autor, ao trabalhar essa cosmovisão, acaba por apresentar seu estilo
individual.

8.1 MOVIMENTOS LITERÁRIOS PORTUGUESES

A literatura brasileira formou-se com base na literatura europeia. Por isso, a periodização das escolas literárias
é elaborada por aqui tendo como berço a Europa. É importante salientar que a delimitação cronológica das escolas
literárias é um recurso meramente didático, uma vez que entre elas acaba existindo uma interdependência de estilos,
e também porque o início de uma nova tendência nem sempre coincide com o final da anterior.

Era medieval

- Trovadorismo: inicia-se em 1189 (ou 1198), data provável da publicação da “Canção da Ribeirinha”, cantiga de amor
de Paio Soares de Taveirós, considerada o mais antigo texto escrito em galego-português.
- Humanismo: inicia-se em 1434, quando Fernão Lopes é nomeado cronista-mor da Torre do Tombo.

Era clássica

- Classicismo ou Quinhentismo: inicia-se em 1527, quando Sá de Miranda (1481-1558) retorna da Itália, introduzindo
em Portugal a estética renascentista.
- Barroco ou Seiscentismo: inicia-se em 1580, quando Portugal passa a ser dominado pela Espanha.
- Arcadismo (Neoclassicismo) ou Setecentismo: inicia-se em 1756, ano da fundação da Arcádia Lusitana.

Era romântica ou moderna

- Romantismo: inicia-se em 1825, com a publicação do poema “Camões”, de Almeida Garrett (1799-1854).
- Realismo: inicia-se em 1865, com a polêmica denominada “Questão Coimbrã”.
- Simbolismo: inicia-se em 1890, com a publicação do livro Oaristos, de Eugênio de Castro (1869-1944).
- Modernismo: inicia-se em 1915, com a publicação da revista Orpheu. Alguns autores consideram um novo período
modernista a partir de 1945, denominado Neorrealismo.

142

8.2 MOVIMENTOS LITERÁRIOS BRASILEIROS
A literatura brasileira apresenta dois grandes períodos, o colonial e o nacional, divididos pela proclamação da
Independência do Brasil (1822).
Período colonial
- Literatura de informação ou Quinhentismo
- Barroco ou Seiscentismo
- Arcadismo ou Setecentismo
Período nacional
- Romantismo
- Realismo e Naturalismo
- Simbolismo
- Modernismo
- Pré-Modernismo
Vamos nos aprofundar um pouco em cada um desses movimentos, iniciando pela Idade Média, com a literatura
medieval.
8.3 A LITERATURA MEDIEVAL
Compreende o conjunto de obras escritas na Europa durante a Idade Média, ou seja, do século V até o século
XVI (início do Renascimento), embora haja dúvidas quanto ao período exato em que se deu início a literatura medieval.
Apesar de contemplar escritos de diferentes temáticas, tais como religiosas, históricas, amorosas, uma das
principais marcas da literatura medieval era a presença da temática religiosa. A escrita dos textos e livros ficavam res-
tritos aos integrantes do clero, monges e da nobreza, pois a maioria da população da época não sabia ler. Além disso,
assim como a literatura contemporânea, a literária medieval possui um complexo e rico ambiente de estudo que vai
desde o que é sagrado até o que é profano.
As principais características

• Temas religiosos em relação à vida de santos, à moral cristão, à bíblia sagrada, à existência de Deus, à alma
humana e a interpretações da vida cotidiana sob a ótica religiosa.

• Teocentrismo: Deus no centro do mundo, e a grande influência da Igreja sobre a vida das pessoas.
• Textos escrito em pergaminhos e em latim.
• Produção de livros feitos à mão e posteriormente reproduzidos pelos monges copistas.
• Influência de filósofos gregos como Aristóteles e Platão.
• Heroísmo, com os escritos sobre as guerras e batalhas, a partir do século XII. Época em que ocorreram conflitos,

como “As Cruzadas” e o “Ciclo Arturiano”, com o famoso Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda.
• Ilustrações com iluminuras, desenhos feitos nas margens das folhas.
• Uso para fins educativos, por causa do analfabetismo extremo da população.

143

Contexto histórico
O período da Idade Média se inicia com a queda do Império Romano, em 476, e segue até o ano de 1453 e
com o Renascimento florentino, no final do século XV, marcada também pela tomada de Constantinopla pelos turcos.

Fonte: https://www.stoodi.com.br/resumos/historia/linha-do-tempo/

Esse período foi profundamente marcado pela religiosidade e pelo conceito do teocentrismo. Além disso, a dinâmica da
sociedade era rural e autossuficiente, com o formato do sistema feudal (feudalismo), em que a Igreja possuía grande
poder sobre a vida dos senhores e dos vassalos. Por ser uma época longa, foi dividida em dois períodos: Alta Idade
Média e Baixa Idade Média.

• Alta Idade Média
Compreende o período do século V ao século IX e foi marcado pelo feudalismo, cuja estrutura social era com-
posta por senhorio e vassalaria, pela Igreja Medieval, pela expansão germânica, franca e islâmica, além do Império
Bizantino e do Sacro Império.

• Baixa Idade Média
Trata-se do período que vai do século X ao século XV. As principais marcas foram: a crise na estrutura social de
senhorio e vassalaria (sistema feudal), a expansão do cristianismo, o renascimento urbano e comercial, as cruzadas,
a formação das monarquias nacionais, a peste, a fome e as guerras.
8.3.1 TROVADORISMO (1189-1418)
Foi o primeiro movimento literário da Língua Portuguesa e vigorou na Idade Média. Surgiu no século XII, na
região da Provença Francesa e depois se espalhou pela Europa.
Por ser um período em que a escrita era pouco difundida, as composições dos trovadores eram transmitidas
oralmente e muitas vezes cantadas. Os jograis e as cantigas eram acompanhados por músicas, com instrumentos
como alaúdes, violas e flautas. Entre as produções, havia a poesia e a prosa.
- A poesia trovadoresca: satírica e lírica.

Poesia satírica: cantigas de escárnio e maldizer, com temática profanas e críticas sociais. tinham como características
o humor satírico. Por meio da ironia, a acusação de alguém diretamente, a exploração do ridículo, a adoção ao es-
cândalo, e a briga e a linguagem obscena. Muitas dessas cantigas tratavam de aspectos específicos da vida na corte,
satirizando o comportamento social de algumas pessoas.

144

A Cantiga de escárnio
É a sátira indireta, sutil, irônica, sarcástica, evitando-se citar o nome da pessoa-alvo da zombaria.

Exemplo:
De um certo cavaleiro sei eu, por caridade,
que nos ajudaria a matar tal saudade.
Deixai-me que vos diga em nome da verdade:
Não é rei nem é conde mas outra potestade,
que não direi, que direi, que não direi…”

Pero da Ponte

A cantiga de maldizer
É a sátira direta, desbocada, vulgar, grosseira, chula, por vezes obscena ou pornográfica, chegando a citar o nome
da pessoa-alvo da sátira. No exemplo abaixo, o autor faz uma depreciação à imagem de um trovador, considerando-o
literariamente fraco.

Exemplo:

Trovas não fazeis como provençal
mas como Bernaldo o de Bonaval.
O vosso trovar não é natural.
Ai de vós, como ele e o demo aprendestes.
Em trovardes mal vejo eu o sinal
das loucas ideias em que empreendestes.

Dom Afonso X, o Sábio

Fazendo uma comparação, teremos o seguinte quadro:

Cantiga de escárnio Cantiga de maldizer

• sátira indireta • sátira direta
• procura não revelar o nome da pes- • revela o nome da pessoa satirizada
• crítica grosseira
soa satirizada
• crítica irônica

- Poesia lírica: cantigas de amor e cantigas de amigo

- Cantiga de amor

Nas chamadas cantigas de amor, influenciadas pela arte praticada na região de Provença, na França, impera
o tema do amor cortês, isto é, o modo de amar do cortesão, daquele que vivia na corte. Entre a dama e o cavaleiro,
estabelece-se uma relação equivalente à que existia na vida política. A mulher é vista como suserano e o poeta, como
vassalo. O cavaleiro se dedica de corpo e alma ao culto da amada, que mantém sempre um comportamento altivo,
distante do pretendente.

O amor é chamado de cortês ou cavalheiresco, porque coube aos cavaleiros, que formavam a nobreza militar,
criar uma nova visão de mundo, que vem a ser a cortesia. Os cavaleiros deveriam se comportar como um cavalheiro,
segundo regras rígidas de comportamento, diferenciando-se, desse modo, da plebe.

Entre os trovadores galego-portugueses destacam-se D. Dinis (1261–1325), também conhecido como “rei tro-
vador”. A ele são atribuídas as autorias de 138 cantigas.

145

Exemplo:

Estes meus olhos nunca perderan,
senhor, gran coyta, mentr’ eu vivo fôr;
e direy-vos, fremosa mia senhor,
d’estes meus olhos a coyta que an:
choran e cegan, quand’alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen.

Guisado teen de nunca perder
meus olhos coyta e meu coraçon,
e estas coytas, senhor, mias son:
mays los meus olhos, por alguen veer,
choran e cegan, quand’alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen.

E nunca ja poderey aver ben,
poys que amor já non quer nen quer Deus;
mays os cativos d’estes olhos meus
morrerán sempre por veer alguen:
choran e cegan, quand’alguen non veen,
e ora cegan por alguen que veen.

- Cantiga de amigo

As cantigas de amigo, originárias da Península Ibérica, abordam o universo da cultura popular rural. “Amigo” significa,
no contexto das cantigas, “amante” ou “namorado”. Quem fala é uma mulher do povo, que lamenta a ausência de seu
amado. Quanto à forma, elas apresentam uma riqueza superior às cantigas de amor.

Apesar de a voz lírica do poema ser feminina, o trovador que escreve os versos é sempre um homem, o que faz com
que apareça, nos poemas, a ideia masculina sobre a saudade e o amor, temas das cantigas de amigo.

Embora haja o sentimento de saudade, o tom das cantigas é de felicidade, porque, afinal, o amor de que se fala, apesar
de distante, é real.

O espaço do campo retratado nessas cantigas tem grande importância, já que a natureza é retratada de maneira a se
perceber uma grande intimidade com ela, como se as águas dos rios, os pássaros, as flores, a luz do dia estivessem
ligados por afinidade mágica com as pessoas.

Uma cantiga de amigo pode ser chamada de paralelística, se as estrofes pares repetirem as ideias das estrofes ím-
pares com ligeiras modificações. Se a cantiga tiver um verso repetido, diz-se que se trata de uma cantiga de refrão.
Normalmente, elas são paralelísticas e com refrão.

Exemplo:

Ai flores, ai, flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
ai, Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
ai, Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pos comigo?
ai, Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi a jurado?
ai, Deus, e u é?
Vós me perguntades polo voss’amigo?
E eu ben vos digo que é viv’ e sano
ai, Deus, e u é?
Vós me perguntades polo voss’amado?
E eu ben vos digo que é viv’e sano
ai, Deus, e u é?

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Vocabulário

pino: pinheiro
novas: notícias
e u é?: e onde ele está?
do que pôs comigo: sobre aquilo que combinou comigo (isto é, o encontro sob os pinheiros).
preguntades: perguntais
polo: pelo
que é san’e vivo: que está são (com saúde e vivo).
e seera vosc’ant’o prazo saído (passado): e estará convosco antes de terminar o prazo combinado.

É importante destacar ainda que essas cantigas eram musicadas. Os trovadores as cantavam, acompanhados
de um ou vários instrumentos musicais. E, em algumas situações, elas podiam, inclusive, ser dançadas. Infelizmente,
muitas dessas cantigas acabaram desaparecendo, já que eram transmitidas também por via oral. Alguns manuscritos,
contudo, foram compilados em obras a que damos o nome de «cancioneiros», quase sempre graças às ordens dos
reis.

Entre os principais trovadores, temos: João Soares Paiva, Paio Soares de Taveirós, dom Dinis (que deixou
cerca de 140 cantigas líricas e satíricas), João Garcia de Guilhade e Martim Codax.

- A prosa trovadoresca

A prosa na Idade Média dos séculos XII a XIV era toda anônima, feita em geral sob encomenda de nobres ou
de religiosos. Não tinha intenções artísticas, mas destinava-se à diversão ou tinha como finalidade um registro docu-
mental ou místico.

- Novelas de cavalaria: se refere aos grandes feitos dos cavaleiros medievais nas batalhas e guerras. Também pode
ser chamado de “romances de cavalaria”.

- Crônicas: se refere às crônicas dos aspectos contemporâneos da história medieval cronologicamente. São crônicas
de valor histórico.

- Nobiliários: também chamado de “livros de linhagem”, se refere aos textos que contavam as histórias genealógicas
nobres medievais.
- Hagiografias: se refere às histórias de vida de santos, eram biografias de santos.

8.3.2 O HUMANISMO (1418-1527)

O Humanismo não é exatamente um movimento literário, mas uma corrente de pensamento que marca a fase de tran-
sição entre o Trovadorismo e o Classicismo. Ou seja, o Humanismo está no período de transição em que termina a cul-
tura medieval e se inicia a cultura clássica, com a vinda do teatro popular, a prosa historiográfica e a poesia palaciana.

Fala-se em humanismo sempre que o valor fundamental de uma doutrina é a pessoa humana, o sentimento, a original-
idade e a superioridade do homem sobre as forças obscuras da natureza.

Essa palavra, entretanto, possuí uma conotação histórica, localizada no tempo e no espaço: designa um movimento
estético, filosófico e religioso que, preparado pelas correntes do pensamento medieval, surgiu na Itália no século XV e
que se difundiu através da Europa no século XVI. Caracterizava-se por um esforço em avaliar o homem em sua essên-
cia, propondo uma arte de vida em que ele se perpetuasse.

As principais características

Há diversas características do humanismo, mas entre todas há três que são fundamentais para a corrente de pensa-
mento humanista.

• Antropocentrismo
• Racionalidade
• Cientificismo

Essas características são importantíssimas para a escola literária. No movimento literário anterior, o trovadorismo,
Deus era o centro de todas as coisas (teocentrismo), e o Humanismo vai de encontro a essa ideia. Por esse pris-
ma, se o homem é o centro do universo, vai prevalecer também a racionalidade. Tudo que não tinha explicação,
que até então era atribuído à divindade, passa a ser questionado. É a busca pela explicação racional das coisas, e
consequentemente, o cientificismo.

147

Os Fundamentos do Humanismo

O humanismo fundamentou-se inicialmente na herança medieval, mesmo contrapondo-se ao sistema existente. Assim,
através dos tempos, a Sagrada Escritura forneceu aos homens uma cosmologia, uma história, uma moral e uma finali-
dade existencial, enquanto a Idade Média edificara uma filosofia de início submissa à teologia, mas tendendo progressi-
vamente a explicar sobretudo os pontos em que a Bíblia não mais satisfazia a curiosidade do espírito humano. Criou-se
então uma ciência que permitiu ao homem compreender o mundo para tentar dominá-lo, caracterizando a transição de
uma cultura teocêntrica para uma cultura antropocêntrica.

Contexto histórico

Devido à decadência do sistema feudal, começou a surgir uma nova classe social, a burguesia. Muitas coisas con-
tribuíram para o fim do feudalismo, entre elas a Guerra dos 100 anos, a Peste Negra e o Êxodo Rural.

Com a nova burguesia, muitas pessoas começaram a migrar dos campos para a cidade, e isso contribuiu para a for-
mação de cidades. Essa nova burguesia começou a competir com a nobreza pelo poder social e econômico. Além
disso, deram-se início as grandes navegações, com a expansão marítima, o desenvolvimento do mercantilismo e das
pequenas indústrias.
Devido ao movimento humanista, todas essas transformações foram sendo feitas, e de forma gradual, a Idade Média
era deixada para trás, dando espaço à Idade Moderna.

Contudo, essas mudanças trouxeram consequências para a população, pois devido a organização do feudalismo, o
povo estava acostumado com a servidão e, dessa forma, muitas pessoas não tinham qualificação nem conhecimento
profissional para atender as demandas comerciais. No feudalismo, o poder era concentrado em cada feudo por um
nobre, e com a decadência, esse poder foi centralizado. O que era descentralizado antes, passa a ser centralizado nas
mãos do rei, resultando uma nova organização política, o Absolutismo.
Nesse período também houve um período de fome e doenças. A Peste Negra (peste bubônica) foi uma epidemia que
dizimou 1/3 da população.

Outra questão importante é o surgimento da imprensa. O conhecimento não é mais um monopólio da Igreja Católica.
A partir do momento que a Igreja perde a hegemonia, todos os seus dogmas passam a ser criticados e questionados.
Isso influenciou de forma significativa o modo de expressão da sociedade europeia.

A literatura no Humanismo

Em Portugal, o pensamento do humanismo teve início com as obras de Francesco Petrarca, um poeta italiano. O mov-
imento se iniciou em 1418, com a nomeação para cronista-mor da Torre do Tombo, Fernão Lopes, sendo finalizado em
1527, com a chegada do poeta Sá de Miranda, que trouxe da Itália, pensamentos literários com aspectos que deram
início ao Classicismo, como o “Doce estilo novo” (dolce stil nuevo).

Entre as características do humanismo quanto ao movimento literário em Portugal, os gêneros mais explorados foram
o teatro popular (gênero dramático), a poesia palaciana (gênero lírico) e a crônica histórica (gênero narrativo).

Na prosa , Fernão Lopes foi o maior representante da prosa historiográfica do humanismo com as seguintes obras:
• Crônica de El-Rei D. Pedro I
• Crônica de El-Rei D. Fernando
• Crônica de El-Rei D. João I

No gênero dramático, destacou-se Gil Vicente, considerado o pai do teatro português. As obras mais importantes são:

• Auto da Visitação
• O Velho da Horta
• Auto da Barca do Inferno
• Farsa de Inês Pereira

No que se refere ao gênero lírico, desenvolveu-se a poesia palaciana que, como o próprio nome indica, está
relacionada a vida nos palácios, era um poema feito por nobres e para nobres. Diferentemente da poesia trovadoresca,
composta de cantigas líricas e satíricas, a poesia palaciana era lida ou declamada sem acompanhamento musical. Há
uma separação entre a poesia e a música.
Outra diferença é que a simplicidade temática e estrutural dos tempos medievais ganhará novas possibilidades
poéticas, visto que foi necessário encontrar formas para diferenciar o poema oral de uma fala comum.

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Desse modo, os poetas passaram a investir em uma linguagem mais figurada e em versos isométricos. É daí
que surgem as primeiras formas fixas de poesia em língua portuguesa, ou seja, modelos de poesia baseados em me-
didas previamente estabelecidas para estrofes e versos.
Entre os temas abordados, estão os benefícios do contato com a natureza e o deslumbramento com a vida na
Corte. Também são abordadas a ganância mercantil e a obsessão em ascender socialmente.

8.4 A RENASCENÇA DAS ARTES E O CLASSICISMO (QUINHENTISMO) PORTUGUÊS

O final da Idade Média assiste à decadência do feudalismo, com o fortalecimento do comércio, ascensão da
classe burguesa e a própria formação do capitalismo. O mercantilismo abre as portas para uma visão mais antropocên-
trica e liberal. A Igreja acaba por sofrer os reflexos dessa crise, levando ao rompimento das forças burguesas com o
medievalismo católico, culminando no movimento da Reforma Protestante.

Desde meados do século XIV, em especial na Itália, havia um crescente afastamento de valores góticos e uma
crescente humanização do pensamento, resultando em avanços em ideias que iam da economia à organização políti-
ca, passando por descobertas científicas e, evidentemente, as artes.

A partir do século XV, as ideias florescidas na região da Toscana italiana começaram a expandir-se para outras
regiões, em plena conjunção com o aparecimento do humanismo filosófico. Intensificam-se, portanto, estudos acerca
da realidade e da própria representação artística. Entretanto, é no século XVI em que se dá um grande salto das técni-
cas e dos conhecimentos em diversas áreas do saber humano. Era a renascença de valores clássicos acompanhada
de inovações artísticas e científicas jamais antes vistas na história da humanidade.

O desenvolvimento de novos conhecimentos tanto artísticos quanto científicos leva a inúmeras descobertas e
a criações tecnológicas, como a imprensa. É neste século que, munidos pelo saber e empurrados pelos ideais mercan-
tilistas, os europeus lançam-se ao mar e iniciam a era das navegações que culminou com o achamento das Américas,
incluindo-se aí o Brasil.

8.4.1 CLASSICISMO PORTUGUÊS

Pode-se dizer que o Classicismo corresponde à fase literária do Renascimento. Desde o período humanista,
há a tendência de estabelecer-se algumas obras dentro dos limites do Renascimento. Esse é o caso, por exemplo de
Dante Alighieri e sua Divina Comédia; Francesco Petrarca, poeta italiano inventor do soneto e Giovanni Boccacio com
seu clássico Decamerão. O período estende-se, portanto, ao longo de vários séculos e abarca inúmeros gênios da
humanidade como William Shakespeare, François Rabelais e Miguel de Cervantes.

Em Portugal, o movimento tem início em 1527 pelas mãos do poeta Francisco Sá de Miranda. Ao retornar de
uma viagem à Itália, o poeta torna-se o grande renovador da arte literária lusitana ao trazer a chamada “nova e doce
forma poética” para a língua portuguesa. Tratava-se do formato italiano de soneto, com dois quartetos e dois tercetos,
geralmente composto em decassílabos, formato que se tornou o mais popular na língua portuguesa.

Entretanto, é com Luís Vaz de Camões que a literatura do período chega ao ápice. O escritor, expoente máx-
imo da poesia lusitana, apresenta-se versátil e destaca-se tanto na produção de poesias líricas quanto na construção
da maior epopeia em língua portuguesa, Os Lusíadas, um poema épico em que se narra a história de Portugal desde
sua fundação mítica e em que se exalta o povo português, celebrando-se os grandes feitos da navegação e os heróis
guerreiros da nação lusitana.

CANTO I

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

Camões, Os Lusíadas

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